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Instituto de Cinema

Filosofia e Comunicação
Prof. Ms. Wilson Honório da Silva
Maio de 2021

Proposta de reflexão
“O nascimento de uma nação” e a Teoria Funcionalista

Caríssimos(as),

Primeiro, frequentemente farei propostas como esta para que vocês possam
refletir sobre as coisas que estamos discutindo e, assim, possamos estabelecer
“pontes” entre uma aula e outra, e, também, nos aprofundarmos um pouco
mais no estudo, dado, inclusive, o curto tempo que temos para abordar os
temas. Neste mesmo sentido, sempre apresentarei algumas sugestões de
leitura e estudos.
A ideia é fazer um exercício de reflexão, com toda autonomia e liberdade possíveis. De qualquer forma, ao
final, apresentarei alguns parâmetros, para que vocês possam ter um fio condutor.
Neste caso, como estamos no início das discussões sobre a Teoria Funcionalista e sequer discutimos o
contexto histórico no qual ela foi gestada, a ideia é fazer uma reflexão inicial, limitada, a partir dos dois trechos
enviados, sobre coisas discutidas na aula passada. Para a próxima terça, a proposta é que vocês só façam
anotações e observações, tentando levantar questões que possam ser aprofundadas na aula, a partir das
sugestões que farei abaixo.
Depois disto, contudo, quando tivermos feito o debate completo, caso queiram produzir um texto e submeter
a mim, para que eu possa comentar, enviem pelo meu email (wilsonhsilva@gmail.com).
Como vocês já têm o Power Point, na íntegra, sintam-se à vontade para ousar e viajarem um tanto,
procurando estabelecer relações com aquilo que vocês entenderem sobre aquilo que ainda não foi discutido.

1. Por que “O nascimento de uma nação”?


O filme de D.W. Griffith, realizado em 1915, é, com certeza,
um dos mais polêmicos da História do Cinema. Por um lado, é
explícita e terrivelmente racista. Sua tese fundamental é a
defesa de que a “nação” norte-americana nasceu a partir do
surgimento da Ku Klux Klan, a organização de supremacistas
brancos, fundada no final da Guerra Civil dos Estados Unidos,
nos anos 1860.
Algo que não passou desapercebido. Na foto ao lado,
ativistas da Associação Nacional para o Desenvolvimento das
Pessoas de Cor (NAACP, na sigla original, em inglês) manifestam na estreia do filme, em 1915, em Nova York.
Por outro, é um “texto” essencial para o estudo da linguagem cinematografia, já que é, inquestionavelmente,
um dos primeiros a criar uma “gramática do cinema”. Ou seja, a romper com a “estética teatral” (câmara parada,
sem efeitos de edição, que, consequentemente, apresentava o filme de forma semelhante a que vemos uma peça
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teatral), que, até então, imperava nas produções, começando a fazer uso dos elementos característicos da
linguagem cinematográfica: diferentes planos (closes, planos médios, planos gerais etc.), distintos movimentos de
câmera, ângulos e enquadramentos, uso significativo do som, dentre outros.
Como tudo na História, e também na Arte, esse foi um processo longo, com contribuições de vários
realizadores anteriores e de outros países, no entanto, o filme é um marco exatamente por fazer isto de forma
“concentrada” e “consciente” (ou seja, na busca da construção de uma linguagem).
Fato exemplar das contradições que cercam o filme é o fato de que ele e seu diretor tenham sido abordados,
de forma bastante elogiosa, pelo cineasta russo Sergei Eisenstein, no capítulo "Dickens, Griffith e nós" do livro "A
Forma do Filme", um dos principais nomes das teorias formuladas no início do século 20 que, em grande medida,
se opuseram às teses funcionalistas.

2. O cinema “narrativo-clássico” e a manipulação da linguagem a serviço da ilusão da realidade


O que nos interessa, contudo, é pensar como “O nascimento de uma nação” é, também, uma manifestação da
Teoria Funcionalista. Ou seja, a obra de Griffith transforma em “texto/discurso cinematográfico” algumas das
principais ideias defendidas centrais por aqueles que viam a Arte, a Cultura, a Educação e os meios de
comunicação de massas (MCM) – e o cinema, em particular – como “aparelhos distribuidores e reguladores” da
sociedade.
De imediato, é preciso ressaltar que isto não significa que a articulação da linguagem cinematográfica
proposta pelo diretor não tenha sido uma importantíssima inovação (revolucionária, mesmo) na História do
Cinema, mesmo estando a serviço de um filme reacionário e refletindo uma teoria que, como estamos discutindo,
refletia uma concepção de mundo conservadora (baseada, em nas concepções sociológicas do Positivismo que,
por ora, sintetizamos no lema “ordem e progresso”).
Para que vocês possam refletir sobre as relações entre o filme a e a Teoria, comecemos com uma citação de
“O discurso cinematográfico: da opacidade à transparência” (Ismail Xavier, Editora Paz e Terra, 2005, p. 29) na
qual o autor destaca a importância desta ruptura com a “estética teatral”. Observação: desconsiderar o “tal
posição” no início do segundo parágrafo.

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Como Xavier conclui, estes mecanismos foram fundamentais para criar uma nova forma de “ver o filme” como
uma representação do mundo, já que potencializa
encializa a identificação do espectador com o que se passa,
passa na medida
em que “(...) a sequência de imagens, embora apresente descontinuidades flagrantes na passagem de um plano
para outro, pode ser aceita como abertura de um mundo fluente do que está do ladolado de lá da tela porque uma
convenção bastante eficiente tende a dissolver a descontinuidade visual numa continuidade admitida em outro
nível: a narração.” (p. 30)
Uma percepção de “continuidade” que,que, também baseada na técnica da “montagem paralela” (ou seja, s de
cenas que mostram episódios que estão acontecendo, ao mesmo tempo, de espaços distintos) é uma das
principais especificidades da linguagem cinematografia,
cinematografia, particularmente do “cinema narrativo”, porque, embora
o recurso do “enquanto isto....” tenha sido amplamente utilizada na literatura, na tela do cinema era se torna
particularmente poderosa “em função do ritmo e movimentação plástica das imagens” (p. 31).
É particularmente neste sentido que “O nascimento de uma nação” é um dos marcos inaugurais daquilo
da que
Ismail Xavier aponta como um procedimento que irá caracterizar toda a história do cinema “narrativo clássico”
(ou “hollywoodiano”): a manipulação dos códigos da linguagem cinematográfica e a adoção de vários efeitos de
montagem com o objetivo consciente
sciente de criar uma “ilusão de realidade”; de que o que se passa na tela é
semelhante ao mundo como ele é.
Uma ilusão, diga-se
se de passagem, baseada em uma contradição: ao mesmo tempo em que os efeitos de
montagem, a princípio, “quebram a continuidade”, eles acentuam esta sensação ao tornarem a montagem
“invisível”. Ou seja, a edição é realizada de tal forma que os efeitos de montagem atingem a percepção do
espectador criando umaa ilusão de continuidade lógica e natural da narrativa;
isto é, reforçam a percepção
cepção de que aquilo que se passa na tela é “similar ao
mundo real”.
Um efeito, segundo o autor, obtido exatamente pela manipulação da
“forma” do filme; ou seja, daa articulação dos códigos da linguagem
cinematográfica, como sintetizado na passagem ao lado (p. 32). Observação:
descartar o trecho “Apontei a equivalência...”.
Nesta concepção, o processo de “organização geral” dos elementos da
linguagem cinematográfica tem como objetivo criar “um espaço semelhante
ao real, produzindo a impressão de que a ação
açã desenvolveu-se por si mesma
e trabalho da câmera foi ‘captá-la’” (p. 33).

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Esta impressão é extremamente potencializada em filmes que seguem os padrões da chamada “narrativa
clássica”, pois, como também lembra Ismail Xavier, “o que é característico da decupagem clássica é utilização
destes fenômenos para a criação, no nível sensorial, de suportes para o efeito de continuidade desejado e para a
manipulação exata das emoções”, num processo complexo, através do qual acontece uma “interação entre o
ilusionismo construído e as disposições do espectador, ‘ligado’ aos acontecimentos e dominado pelo grau de
credibilidade específica que marca a chamada ‘participação afetiva’”, o que acaba resultando em um processo
que tem “tremenda eficiência no mecanismo de identificação” (p. 34).

Dois destes mecanismos destacados por Xavier, e amplamente utilizados em “O nascimento de uma nação”,
são o “shot (plano)/reaction-shot” e a câmera subjetiva. No primeiro caso, “o novo plano explicita o efeito (em
geral psicológico) dos acontecimentos mostrados anteriormente no comportamento de alguma personagem”. Já a
câmera “é dita subjetiva quando ela assume o ponto de vista de uma das personagens, observando os
acontecimentos de sua posição, e, digamos, com os seus olhos” (p. 34), o que, evidentemente, na tela do cinema
provoca uma “identificação” com o olhar dos próprios espectadores, como conclui Xavier (p. 35):

3. O filme como manifestação estética da Teoria Funcionalista


Como mencionado no início, estas inovações foram conquistas graduais, realizadas por vários cineastas e
pesquisadores. Contudo, não se pode menosprezar o papel de Griffith. Como também é destacado em “O
discurso cinematográfico” (p. 36):

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Ainda mais importante no que se refere à proposta de reflexão que estou fazendo, é a constatação de que o
filme de Griffith consolida, no cinema, o papel que os teóricos do Funcionalismo e elaborações semelhantes da
mesma época atribuíam aos demais meios de comunicação de massas desde o final dos anos 1800, como
também é destacado por Ismail Xavier, ao afirmar (p. 38) que “O..

A chama “representação naturalista de Hollywood” inseria, assim, o cinema no campo dos princípios
filosóficos e ideológicos dominantes na época e, para tal, inclusive, passava a tratar a própria produção
cinematográfica como uma “indústria” e o “objeto cinematográfico como um produto de fábrica” (p. 41).
Um “texto/produto” cujos mecanismos fundamentais eram “a decupagem clássica apta a produzir o
ilusionismo e deflagrar o mecanismo de identificação”; “a elaboração de um método de interpretação dos atores
dentro dos princípios naturalistas, emoldurado por uma preferência por filmagens em estúdios, com cenários
também construídos de acordo com os princípios naturalistas” e a opção por histórias baseadas em gêneros
narrativos “de fácil leitura e popularidade comprovada”, como melodramas, aventuras e estórias fantásticas. (p.
41).
Tudo isto colocado a serviço do “controle total da realidade criada pelas imagens”, ao mesmo tempo em que
“tudo aponta para a invisibilidade dos meios de produção desta realidade”, já que “a palavra de ordem é ‘parecer
verdadeiro’; montar um sistema de representação que procura anular sua presença como trabalho de
representação” (p. 41).
É preciso ressaltar (novamente) que há de se estabelecer uma diferença entre o significado e importância
destas inovações e a utilização que delas foi feita. Ou, como também foi sintetizado por Xavier, “(...) o problema
básico em torno da produção de Hollywood, não está no fato de existir uma fabricação; mas está no método desta
fabricação e na articulação deste método com os interesses dos donos da indústria (ou com os imperativos da
ideologia burguesa).” (p. 46).
Por fim, antes de levantar alguns elementos para a proposta de reflexão, vale dizer que, como destacado no
decorrer do próprio texto de Ismail Xavier, o debate sobre a inevitabilidade ou não da articulação entre

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“representação naturalista/decupagem clássica/mecanismo de identidicação” e a ideologia burguesa tem sido
foco de inúmeros e profundos debates desde então. E, por isso mesmo, será abordada no decorrer de nossas
aulas.
No momento, contudo, o objetivo é tentar entender como, no início do século 20, esta relação é inequívoca,
na medida em que a produção estava mergulhada nas ideais e princípios teóricos e filosóficos que predominavam
na época.
Considerando estas observações, o que proponho é que vocês reflitam basicamente como, em “O nascimento
de uma nação”, forma (elementos e códigos da linguagem cinematográfica e montagem) refletem (ou
constroem) um conteúdo (não apenas uma “história” ou “narrativa”, mas princípios filosóficos, teóricos e
ideológicos) condizente com as formulações e princípios da Teoria Funcionalista.
Atentem para o fato que não estamos falando apenas do nível mais evidente: a construção de uma
narrativa/história destinada a recontar a História dos Estados Unidos a partir da formação da Ku Klux Klan.
Gostaria que vocês se focassem em como é feito através dos mecanismos próprios da linguagem cinematográfica.
Em outras palavras, em como os códigos são manipulados de tal forma a fazer (ou, pelo menos, tentar) com que o
espectador se identifique com esta perspectiva.
Como disse no início, para a próxima aula, apenas façam anotações a partir dos trechos selecionados (que
iremos rever em aula), mas, se quiserem, explorem o Power Point, em busca de elementos que possam auxiliá-los
na reflexão ou levantar questões que possam ser levadas para a aula. Evidentemente, também podem ver o filme
na íntegra (o que, inclusive, recomendo).
Bem, por enquanto, é isto. Divirtam-se e reflitam.

Links para os trechos e filme na íntegra:


Sequência – inspiração para a criação da KKK: https://youtu.be/B-znj3TTCFM
Sequência – perseguição e suicídio: https://youtu.be/UYCaob7MDA8
Sequência – assassinato de Lincoln: https://youtu.be/JOe_s-zoMkE

Filme completo: https://youtu.be/yCWYeRsWGEI

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