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em Filosofia
Ricardo Melani

primeiros estudos
Diálogo:

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Ensino Médio
1 o, 2o e 3o anos

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PROFESSOR
MANUAL DO

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Componente curricular: FILOSOFIA

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Ricardo Melani
Bacharel e mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Bacharel em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Tem mais de 25 anos de experiência como educador. Durante 18 anos foi professor
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), instituição
na qual ministrou aulas de filosofia para diversos cursos de graduação.
Foi editor de inúmeras revistas científicas e informativas.
É autor do livro paradidático O corpo na filosofia (Moderna, 2012).

Diálogo:
primeiros estudos
em Filosofia
1o, 2o e 3o anos
Ensino Médio

Componente curricular: filosofia

MANUAL DO PROFESSOR

2a edição
São Paulo, 2016
Coordenação editorial: Ana Claudia Fernandes
Edição de texto: Ana Patricia Nicolette, Leonardo Canuto de Barros, Pamela Shizue
Goya, Edmar Ricardo Franco, Bruno Cardoso Silva, José Maurício Ismael Madi Filho,
Cynthia Liz Yosimoto, Audrey Ribas Camargo
Assistência editorial: Rosa Chadu Dalbem
Preparação de texto: Denise Ceron
Gerência de design e produção gráfica: Sandra Botelho de Carvalho Homma
Coordenação de produção: Everson de Paula
Suporte administrativo editorial: Maria de Lourdes Rodrigues (coord.)
Coordenação de design e projetos visuais: Marta Cerqueira Leite
Projeto gráfico: Mariza de Souza Porto, Otávio dos Santos
Capa: Douglas Rodrigues José
Foto: Em órbita, instalação de Tomás Saraceno, em Düsseldorf, Alemanha.
Foto de 2013. © Tomás Saraceno
Coordenação de arte: Rodrigo Carraro Moutinho
Edição de arte: Márcia Cunha do Nascimento
Editoração eletrônica: Setup Bureau Editoração Eletrônica
Coordenação de revisão: Elaine C. del Nero
Revisão: Barbara Arruda, Nancy H. Dias, Renato da Rocha Carlos, Salete Brentan,
Simone Garcia, Viviane T. Mendes
Coordenação de pesquisa iconográfica: Luciano Baneza Gabarron
Pesquisa iconográfica: Vanessa Manna, Aline Chiarelli
Coordenação de bureau: Américo Jesus
Tratamento de imagens: Denise Feitoza Maciel, Marina M. Buzzinaro, Rubens M.
Rodrigues
Pré-impressão: Alexandre Petreca, Everton L. de Oliveira, Fabio N. Precendo, Hélio P.
de Souza Filho, Marcio H. Kamoto, Vitória Sousa
Coordenação de produção industrial: Viviane Pavani
Impressão e acabamento:

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Melani, Ricardo
Diálogo : primeiros estudos em filosofia,
volume único / Ricardo Melani. -- 2. ed. --
São Paulo : Moderna, 2016.

“Componente curricular: Filosofia”


Bibliografia.

1. Filosofia (Ensino médio) I. Título.

16-01033 CDD-107.12

Índices para catálogo sistemático:


1. Filosofia : Ensino médio 107.12

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Todos os direitos reservados
EDITORA MODERNA LTDA.
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2016
Impresso no Brasil

1 3 5 7 9 10 8 6 4 2
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Apresentação

Filosofia não é um conjunto de conhecimentos fixos e imutáveis que temos de decorar


para passar de ano. Filosofia é, acima de tudo, admiração pelo que está à nossa volta, espanto
e curiosidade pela natureza, pela sociedade e por nós mesmos. É vontade de conhecer e
prazer pelo conhecimento. A palavra “filosofia” é composta de dois termos: “filo”, que sig-
nifica amizade; e “sofia”, que significa sabedoria. Então, a filosofia é o amor ou a amizade
pela sabedoria; e o filósofo não é aquele que tem sabedoria, mas aquele que procura por
ela, que investiga as coisas em busca de conhecimento.
Assim, filosofar não é declarar verdades ou certezas, mas utilizar a razão para investigar
as coisas e o que pensamos sobre elas. Que tipo de coisas? Praticamente tudo. Por exemplo,
as angústias e os desejos que sentimos, a busca de felicidade, a vontade de liberdade e o
prazer; mas também os problemas sociais e éticos que interferem na nossa vida, como a
degradação da natureza, o consumismo, os direitos humanos, os preconceitos, as relações
de Estado e de poder, a intervenção da tecnologia no cotidiano; assim como a forma de
pensarmos e conhecermos as coisas, a ciência, a lógica e a argumentação. Tudo é passível
de reflexão, até mesmo nossa identidade, o tempo e a crença em uma fé.
Filosofar é pensar racionalmente de maneira radical sobre tudo o que nos encanta
e aflige. Se fizermos isso, se filosofarmos habitualmente, não só teremos mais clareza
sobre esse ou aquele aspecto investigado, mas também desenvolveremos habilidades e
competências que favorecerão o conjunto de nosso entendimento ou da nossa capacidade
de compreensão.
Além disso, filosofar não é algo que fazemos sozinhos. Mesmo que estejamos solitários,
isolados do mundo, quando pensamos sobre um problema filosófico, partimos de certas
noções, ideias, conceitos ou concepções que foram pensados ou criados por outros. Parti-
mos de certo entendimento que, por sua vez, foi fruto de outras reflexões. Dessa maneira,
a filosofia sempre é uma conversa ou um diálogo; por isso, o filosofar e a filosofia andam
juntos. A tradição do pensamento filosófico, isto é, a contribuição de centenas de filósofos
e pensadores que refletiram sobre os mais diversos temas, pode nos ajudar a entender
nossa realidade ou inspirar novas reflexões e novos olhares sobre o mundo e a sociedade.
Este livro foi elaborado com base nessas ideias. O leitor encontrará nele o rigor conceitual
necessário para a compreensão dos problemas filosóficos da tradição e, ao mesmo tempo,
a possibilidade de desenvolver reflexões filosóficas sobre problemas mais diretamente
ligados à vida contemporânea.
Então, vamos filosofar juntos?
Ótimo estudo!
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Organização do livro
Esta obra é composta por uma introdução e 18 capítulos, distribuídos
em 3 unidades. Ela foi concebida e estruturada para facilitar a conversa
com a filosofia e aproximar os alunos dos principais temas filosóficos
sem perder de vista sua perspectiva histórica. Veja, a seguir,
a organização interna da obra:

A abertura de unidade apresenta ideias e conceitos que


serão abordados ao longo da unidade, relacionando-os às
questões relevantes a respeito da existência humana ou da
atualidade. Há ainda um sumário com o título e o resumo
das argumentações filosóficas (temas-problema) tratadas
nos seis capítulos da unidade.

O texto principal é dividido em duas partes. Na primeira,


Descobrindo a tradição, o tema do capítulo é estudado em uma
Nas aberturas dos capítulos, textos, perspectiva histórica, apresentando citações de textos originais
imagens e questões introduzem o estudo de para o contato com a tradição filosófica. Na segunda parte,
noções e conceitos que serão aprofundados Outras perspectivas, explora-se a polifonia da filosofia, isto é,
no capítulo. são apresentadas outras opiniões sobre alguns conceitos e ideias
abordados na primeira parte. Tais ideias podem opor-se às teses
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estudadas ou apenas afastar-se delas, estabelecendo um novo
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enfoque a respeito do tema.
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O que é sociedade capitalista?


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O Estado como fonte de desenvolvimento e opressão

O Estado capitalista e nossa vida


ARIS MESSINIS/AFP

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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1976. p. 232.
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BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Ícone, 2003. p. 212. Platã taria em int im ulo , tam bem de ncia. Po científic No ete a
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Como vimos, o conceito de necessidade lógica implica a ideia de que algo seja de
A influência das investigações científicas do século XVII

O boxe Para pensar


determinada forma e não possa ser diferente. Há uma obrigatoriedade de algo ser de uma
maneira e não de outra, como ocorre com o teorema de Pitágoras. Em qualquer triân‑ Os filósofos empiristas estudados neste capítulo foram influenciados pelo desenvolvimento das ciências
gulo retângulo, o quadrado do comprimento da hipotenusa é igual à soma dos naturais do século XVII e início do século XVIII, responsável por fundar a ciência moderna. O modelo de in‑
quadrados dos comprimentos dos catetos (a2 = b2 + c2). Em qualquer vestigação instituído por diversos cientistas, em especial por Galileu Galilei e por Isaac Newton, baseava‑se,

propõe questões
lugar do mundo e em qualquer tempo, um triângulo retângulo entre outros princípios, na observação e na experimentação. Hume buscou utilizar, nas ciências humanas, essa
apresentará essas relações de comprimento, assim como um metodologia até então bem‑sucedida nas ciências naturais.
triângulo sempre terá três lados, e a negação dessas afirmações Uma passagem da obra Óptica, na qual Newton trata do método científico, pode
implicará contradição. explicar as características dessa metodologia:

relacionadas ao assunto Hume não encontra essa necessidade de tipo matemáti‑

Os Boxes complementares

Dorling KinDersley/Uig/BriDgeman images/


Keystone Brasil ‑ Coleção partiCUlar
co nos acontecimentos da natureza ou da sociedade. Como “Como na matemática, assim também na filosofia natural, a investigação
todo dia o Sol nasce, nossa experiência indica que isso tornará de coisas difíceis pelo método de análise deve sempre preceder o método de
a acontecer. Com toda probabilidade, o Sol nascerá amanhã, composição. Esta análise consiste em fazer experimentos e observações, e em

estudado ampliando a apresentam informações


mas esse não é um evento logicamente necessário. Podemos traçar conclusões gerais deles por indução, não se admitindo nenhuma obje‑
pensar que um dia o Universo terá fim e o Sol não nascerá, ção às conclusões, senão aquelas que são tomadas dos experimentos [...]. Pois
e esse fato não implicará uma contradição. E, mesmo que o as hipóteses não devem ser levadas em conta em filosofia experimental.”
Universo acabe, continuará sendo verdadeiro para um ser NEWTON, Isaac. Óptica. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 297‑298. (Coleção Os Pensadores)

reflexão sobre ele.

cArlos cAminhA
adicionais ao texto,
inteligente que qualquer triângulo tem três lados.
Dito de outra forma, não é possível demonstrar, por meio

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
da razão, a necessidade da conexão causal entre dois eventos. Limite do entendimento humano

ampliando os
Apenas pela experiência unimos dois eventos distintos e estabelecemos uma Réplica de disco de
relação entre eles. Isso é feito não por alguma razão necessária, mas pela força Se comparada ao pensamento de Locke e de Berkeley, a teoria de Hume apresenta Newton do século XVII.
do hábito. Habituamo‑nos a estabelecer uma relação causal entre dois eventos um empirismo mais rigoroso. O filósofo se opunha a qualquer concepção metafísica ou Esse dispositivo é utilizado
em demonstrações de
que sempre aparecem conjuntamente. ideia que buscasse explicações da realidade além da experiência sensível. Lembremo‑nos composição de cores. Ao ser

conhecimentos sobre
A crítica de Hume abalou princípios centrais de todas as teorias do conheci‑ de que Locke supôs a existência de substâncias materiais que seriam a causa das ideias movimentado rapidamente,
simples, ou seja, admitia em sua argumentação algo que estaria além da experiência ou o disco aparenta ter a cor
mento, o que acabou por gerar certo ceticismo. Afinal, de que se pode ter certeza branca. Em suas pesquisas
sobre o mundo? das ideias. Berkeley negava a existência de qualquer substância material, mas introduziu de ótica, Newton verificou
a existência de substâncias espirituais – que perceberiam as ideias – e de Deus, causa de que a luz branca era formada

cArlos cAminhA
De muito pouco, segundo Hume. O que existe são eventos dos quais se pode

assuntos tratados no
todas as sensações. Esses elementos também ultrapassavam a experiência. Hume não por uma série de cores.
vislumbrar esta ou aquela frequência, uma ou outra relação de constância. A
frequência e a constância, no entanto, não são necessárias, o que significa que os aceitava nenhuma dessas explicações.
acontecimentos ou as conexões entre eventos podem ser diferentes, pois estão Contudo, se na teoria de Hume a causa das impressões sensíveis não eram as coisas
sujeitos ao acaso. Isso está muito distante da regularidade, da imutabilidade e materiais e concretas, como dizia Locke, nem Deus, como afirmava Berkeley, de onde elas
da certeza que se esperava do conhecimento científico.

Para pensar
viriam ou como se manifestariam na mente humana?

“Quanto às impressões provenientes dos sentidos, sua causa última é,


capítulo.
em minha opinião, inteiramente inexplicável pela razão humana, e será para
sempre impossível decidir com certeza se elas surgem imediatamente do ob‑
Por que o princípio ou a ideia de causalidade é importante para a ciência?
jeto, se são produzidas pelo poder criativo da mente, ou ainda se derivam
do autor de nosso ser. Tal questão, diga‑se de passagem, não tem nenhuma
importância para nosso propósito presente. Podemos fazer inferências par‑
David Hume (1711-1776) tindo da coerência de nossas percepções, sejam estas verdadeiras ou falsas,
representem elas a natureza de maneira correta ou sejam meras ilusões dos
Nasceu em Edimburgo, na Escócia. Considerado um dos pais da filosofia moderna e sentidos.”
um dos principais artífices do pensamento iluminista, esse filósofo e historiador foi
HUME, David. Tratado da natureza humana: uma tentativa de introduzir o método
responsável por aplicar o método experimental ao estudo da mente humana. Acusado experimental de raciocínio nos assuntos morais. São Paulo: Editora Unesp/Imprensa
por muitos de ateísmo, não conseguiu ingressar no quadro de docentes das universi‑ Oficial do Estado, 2001. p. 113.
dades escocesas. Foi bibliotecário na Faculdade de Direito e, mais tarde, obteve cargos

gugA bAcAn
públicos como secretário nos governos da Inglaterra e da França. Conhecido como um
Sua explicação é simples: não é possível saber. As impressões das sensações surgiriam
dos principais empiristas da história, Hume orientou seus estudos na leitura das obras
de Locke e Berkeley. na mente, mas sua causa seria desconhecida. A origem das impressões da sensação estaria,
Suas principais obras foram o Tratado da natureza humana, os Ensaios morais, portanto, além da experiência e além do entendimento humano. Locke e Berkeley teriam se
políticos e literários e a primeira moderna História da Grã‑Bretanha. equivocado ao tentar explicar algo que não poderia ser explicado, pois a causa da sensação
não poderia ser conhecida pelo entendimento humano.
187 185

No boxe Biografia apresenta-se


um breve resumo da trajetória
intelectual dos filósofos
estudados com o objetivo de
auxiliar a compreensão dos
rumos reflexivos seguidos por
eles.

...........................................................................................................................
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Atividades
Palavra de filósofo

TrusTees of The Paolozzi foundaTion/auTVis, Brasil, 2016.


Bridgeman images/KeysTone Brasil - Coleção ParTiCular
Sistematizando o conhecimento
Liberdade e responsabilidade 1. Identifique as especificidades das narrativas
Neste trecho, retirado da obra O ser e o nada, o filósofo Jean-Paul Sartre discorre sobre a liberdade e a da pós-modernidade, de acordo com Jean-
responsabilidade que ela acarreta, já que o sujeito não pode simplesmente atribuir suas ações a algo externo a ele. -François Lyotard.

2. Descreva o processo de desconstrução defen-


“A consequência essencial de nossas observações a honra de minha família etc.). De qualquer modo,
dido por Jacques Derrida.
anteriores é a que o homem, estando condenado a ser trata-se de uma escolha. Essa escolha será reiterada
livre, carrega nos ombros o peso do mundo inteiro: depois, continuamente, até o fim da guerra; portan- 3. Defina o conceito de hiper-realidade.
é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto to, devemos subscrever as palavras de J. Romains:

A seção Palavra de A seção Atividades


maneira de ser. Tomamos a palavra ‘responsabilida- ‘Na guerra, não há vítimas inocentes’. Portanto,
de’ em seu sentido corriqueiro de ‘consciência [de] se preferi a guerra [...] tudo se passa como se eu Aprofundando
ser o autor incontestável de um acontecimento ou carreasse inteira responsabilidade por essa guerra. Pilha experimental
de um objeto’. Nesse sentido, a responsabilidade Sem dúvida, outros declararam a guerra, e eu ficaria zero energia volume
4. Leia a citação e responda às questões.
1 (1970), obra de

filósofo é dedicada apresenta questões que


do para-si é opressiva, já que o para-si é aquele pelo tentado, talvez, a me considerar simples cúmplice.
qual se faz com que haja um mundo, e uma vez que Mas esta noção de cumplicidade não tem mais do que “Mas a moda não foi somente um palco de Eduardo Luigi Paolozzi.

também é aquele que se faz ser, qualquer que seja um sentido jurídico; só que, neste caso, tal sentido apreciação do espetáculo dos outros; desenca-
deou, ao mesmo tempo, um investimento de 6. Leia o trecho da entrevista de Zygmunt Bau-
a situação em que se encontre, com seu coeficiente não se sustenta, pois de mim dependeu o fato de que man e responda às questões.
si, uma auto-observação estética sem nenhum

a um escrito da ajudam a sistematizar o


de adversidade próprio, ainda que insuportável; o esta guerra não viesse a existir para mim e por mim, e
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
para-si deve assumi-la com a consciência orgulho- eu decidi que ela existisse. Não houve coerção alguma, precedente. A moda tem ligação com o prazer de “A diferença entre a comunidade e a rede é
sa de ser o seu autor, pois os piores inconvenientes pois a coerção não poderia ter qualquer domínio so- ver, mas também com o prazer de ser visto [...] que você pertence à comunidade, mas a rede per-
ou as piores ameaças que prometem atingir minha bre a liberdade; não tenho desculpa alguma, porque, faz dele uma estrutura constitutiva e permanen- tence a você. [...] nas redes, é tão fácil adicionar e
como dissemos e repetimos nesse livro, o próprio da te dos mundanos, encorajando-os a ocupar-se deletar amigos que as habilidades sociais não são

tradição filosófica com conhecimento adquirido


pessoa só adquirem sentido pelo meu próprio pro-
jeto; e elas aparecem sobre o fundo de comprometi- realidade-humana é ser sem desculpa. Só me resta, mais de sua representação-apresentação [...]. necessárias. [...] As redes sociais não ensinam a
mento que eu sou. Portanto, é insensato pensar em portanto, reivindicar esta guerra como sendo minha. Primeiro grande dispositivo a produzir social e dialogar porque é muito fácil evitar a controvér-
queixar-se, pois nada alheio determinou aquilo que [...] Assim, sou esta guerra que demarca e torna regularmente a personalidade aparente, a moda sia… Muita gente as usa não para unir, não para
compreensível o período que a antecedeu. Nesse ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para

questões que auxiliam ao longo do capítulo e a


sentimos, vivemos ou somos. [...] Além disso, tudo estetizou e individualizou a vaidade humana,
aquilo que me acontece é meu; deve-se entender por sentido, de forma a definir com maior nitidez a res- conseguiu fazer do superficial um instrumento se fechar no que eu chamo de zonas de conforto,
isso, em primeiro lugar, que estou sempre à altura ponsabilidade do para-si, é necessário [...] acrescen- de salvação, uma finalidade da existência.” onde o único som que escutam é o eco de suas
do que me acontece, enquanto homem, pois aquilo tar esta outra [fórmula]: ‘Cada qual tem a guerra que próprias vozes, onde o único que veem são os
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu
que acontece a um homem por outros homens e por merece’. Assim, totalmente livre, indiscernível do reflexos de suas próprias caras.”

a compreensão dele. desenvolver habilidades


destino nas sociedades modernas. São Paulo:
ele mesmo não poderia ser senão humano. [...] As- período cujo sentido escolhi ser, tão profundamente Companhia das Letras, 2009. p. 43. QUEROL, Ricardo de. Zygmunt Bauman: “As redes
responsável pela guerra como se eu mesmo a houves- sociais são uma armadilha”. El País, 9 jan. 2016.
sim, não há acidentes em uma vida; uma ocorrência a) Defina a relação entre a moda e o efêmero. Cultura. Disponível em <http://brasil.elpais.com/
comum que irrompe subitamente e me carrega não se declarado, incapaz de viver sem integrá-la à minha brasil/2015/12/30/cultura/1451504427_675885.html>.
situação, sem comprometer-me integralmente nes- b) Relacione a influência da moda à fluidez
provém de fora; se sou mobilizado em uma guerra, Acesso em 26 maio 2016.

e competências inerentes
sa situação e sem imprimir nela a minha marca, devo do indivíduo na sociedade contemporânea,
esta guerra é minha guerra, é feita à minha imagem a) Identifique as diferenças entre a comunida-
ser sem remorsos nem pesares, assim como sou sem apontada por Lipovetsky.
e eu a mereço. Mereço-a, primeiro, porque sempre de e as redes sociais.
poderia livrar-me dela [...] pela deserção [...]. Por ter desculpa, pois, desde o instante de meu surgimento 5. Leia o trecho citado, escrito por Lyotard, e ana-
ao ser, carrego o peso do mundo totalmente só, sem b) Por que as redes sociais podem atuar como
deixado de livrar-me dela eu a escolhi; pode ser por

ao filosofar.
lise a reprodução da obra de Eduardo Paolozzi. empecilho ao diálogo?
fraqueza, por covardia frente à opinião pública, por- que nada nem ninguém possa aliviá-lo.” Depois, explique por que, segundo os critérios
que prefiro certos valores ao valor da própria recu- SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia de Lyotard, a obra de Paolozzi pode ser consi- 7. Valendo-se da leitura do trecho a seguir e com
sa de entrar na guerra (a estima de meus parentes, fenomenológica. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 678-680. derada kitsch? base em seus conhecimentos, elabore um tex-
to dissertativo-argumentativo utilizando a es-
Pensando o texto
“O ecletismo é o grau zero da cultura geral crita formal da língua portuguesa sobre o tema
contemporânea: ouve-se reggae, vê-se western
Para-si: o ser da consciência,
“A condição dos refugiados: a perda dos direi-
[...] usa-se perfume parisiense em Tóquio, e rou- tos e da identidade”.
1. Explique a afirmação de Sartre de que o sujeito “carrega nos o sujeito que busca
pa retrô em Hong Kong [...]. Tornando-se kitsch ,
ombros o peso do mundo inteiro”. constituir-se projetando-se
no futuro ou no nada (o que a arte lisonjeia a desordem que reina no ‘gosto’ “A calamidade dos que não têm direitos não
2. Por que um indivíduo poderia ser responsabilizado por uma do amador. [...] faltando critérios estéticos, decorre do fato de terem sido privados da vida,
ainda não é). Difere do em-si:
guerra da qual o Estado o obrigasse a participar?
o que é, as coisas do mundo continua a ser possível e útil medir o valor das da liberdade ou da procura da felicidade, nem
3. Partindo do existencialismo sartriano, em que medida alguém da igualdade perante a lei ou da liberdade de
que aparecem para nós. obras em função do lucro [...].”
é responsável por sua vida? Você concorda com isso? Justifique. opinião [...], mas do fato de já não pertencerem
Carrear: guiar, conduzir. LYOTARD, Jean-François. Resposta à pergunta:
o que é o pós-moderno? In: O pós-moderno explicado
a qualquer comunidade.”
às crianças: correspondência 1982-1985. Lisboa: Dom ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo:
Quixote, 1993. p. 19-20. Companhia das Letras, 1989. p. 327.
271
375

Ao final de cada unidade:


................................................................................................................................................................................................................................
................................................................................................................................................................................................................................
...............................................................................................................................................................................................................................
..............................................................................................................................................................................................................................
Enem, vestibulares e concursos
Ampliando
1. (Enem-MEC/2015) seminada na esfera pública. A participação nas
redes sociais, a obsessão dos selfies, tanto falar e
Pietro de CresCenzi - Museu Conde, Chantilly

Cinema
ser falado quanto ser visto são índices do desejo
As horas (Estados Unidos, Inglaterra, 2002) de ‘espelhamento’.”
Direção: Stephen Daldry – Duração: 114 min SODRÉ, Muniz. Liberdade de viver no espelho. O Estado

Na seção Ampliando,
de S. Paulo, 20 dez. 2014. Disponível em <http://alias.
A história de três mulheres que viveram em períodos distintos é entrelaçada estadao.com.br/noticias/geral,liberdade-de-viver-no-
RepRodução

pelo livro Mrs. Dalloway. Na década de 1920, Virginia Woolf, a autora do livro, espelho,1610001>. Acesso em 25 maio 2016. (Adaptado)
atravessa uma crise pessoal. Nos anos 1950, Laura Brown, uma dona de casa
grávida, não consegue parar de ler o livro de Woolf enquanto planeja uma festa A crítica contida no texto sobre a sociedade

propostas de
de aniversário para seu marido. Finalmente, no início do século XXI, vive Clarissa contemporânea enfatiza
Vaughn, uma editora de livros. As três enfrentam diferentes questões e espelham a) a prática identitária autorreferente.
a transformação de alguns costumes e a manutenção de outros no que se refere Calendário
medieval do b) a dinâmica política democratizante.
à condição da mulher.

Na seção Enem,
século XV. c) a produção instantânea de notícias.

trabalho com filmes


Vamos ficar atentos
d) os processos difusores de informações.
• À montagem do filme, em que são intercaladas as três histórias. Os calendários são fontes históricas importan-
tes, na medida em que expressam a concepção e) os mecanismos de convergência tecnológi-
• Às metáforas visuais e ao modo como elas ajudam a expressar o humor das
de tempo das sociedades. Essas imagens com- ca.

vestibulares e concursos
personagens.

e textos de diferentes
• Aos diferentes hábitos das personagens, que variam de acordo com o período põem um calendário medieval (1460-1475) e
5. (Enem-MEC/2014)
em que elas vivem. cada uma delas representa um mês, de janeiro
“Parecer CNE/CP n. 3/2004, que instituiu as
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

a dezembro. Com base na análise do calendá-


Vamos refletir sobre o filme e buscar responder rio, apreende-se uma concepção de tempo Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educa-

são apresentadas
1. O que se pode depreender do filme a respeito da condição da mulher? ção das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino

gêneros ampliam
Cartaz do filme As horas (2002), a) cíclica, marcada pelo mito arcaico do eterno
dirigido por Stephen Daldry. retorno. de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
2. Qual é o papel da memória na construção da identidade das personagens?
b) humanista, identificada pelo controle das Procura-se oferecer uma resposta, entre
outras, na área da educação, à demanda da

questões do Enem e dos


horas de atividade por parte do trabalhador.

a reflexão sobre os
população afrodescendente, no sentido de polí-
c) escatológica, associada a uma visão religio-
ticas de ações afirmativas. Propõe a divulgação
sa sobre o trabalho.
Livro e a produção de conhecimentos, a formação
d) natural, expressa pelo trabalho realizado de
de atitudes, posturas que eduquem cidadãos

principais vestibulares e
A visita cruel do tempo (Estados Unidos, 2012) acordo com as estações do ano.

temas estudados,
orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial
Autora: Jennifer Egan e romântica, definida por uma visão bucólica – descendentes de africanos, povos indígenas,
RepRodução

da sociedade. descendentes de europeus, de asiáticos – para


O mundo do rock une os mais de dez personagens que compõem a obra. Os per-
sonagens contam a história em primeira pessoa ou são apresentados por um nar- interagirem na construção de uma nação demo-

concursos do país para


2. (Enem-MEC/2015)
rador onisciente, em capítulos que alternam o ponto de vista de um personagem crática, em que todos igualmente tenham seus

desenvolvem a para o outro. São membros de bandas, executivos do mundo musical, auxiliares
de gravadoras e artistas que não tiveram a carreira de sucesso que esperavam. O
livro trata da passagem do tempo e de seu poder avassalador de transformação.
“ Na sociedade contemporânea, onde as
relações sociais tendem a reger-se por imagens
midiáticas, a imagem de um indivíduo, principal-
direitos garantidos.”
BRASIL.Conselho Nacional de Educação. Disponível
em <www.semesp.org.br>. Acesso em 25 maio 2016.

testar conhecimento e
Vamos ficar atentos mente na indústria do espetáculo, pode agregar (Adaptado)

compreensão leitora • Ao procedimento narrativo, que traz pessoas distintas (primeira e terceira pes- valor econômico na medida de seu incremento A orientação adotada por esse parecer funda-
soas) e cujo foco está em diferentes personagens. técnico: amplitude do espelhamento e da aten- menta uma política pública e associa o princí-
• Aos diferentes estilos de escrita, em decorrência das diversas vozes que com- ção pública. Aparecer é então mais do que ser; o pio da inclusão social a

se familiarizar com o
põem o relato. sujeito é famoso porque é falado. Nesse âmbito,

de diversas linguagens
a) práticas de valorização identitária.
• Ao papel do tempo na construção da narrativa. a lógica circulatória do mercado, ao mesmo
b) medidas de compensação econômica.
tempo que acena democraticamente para as
Vamos refletir sobre o livro e buscar responder c) lembrança da antiguidade da cultura local.
massas com supostos ‘ganhos distributivos’ (a

formato das provas.


1. Qual é a relação da obra com o conceito de pós-modernidade? informação ilimitada, a quebra das supostas d) triunfo da nação sobre os países africanos.

e a leitura filosófica 2. Qual é a influência do tempo na vida dos personagens? Capa do livro A visita cruel do
tempo (2012), de Jennifer Egan.
hierarquias culturais), afeta a velha cultura dis- e) declínio do regime de monarquia absolutista.

de registros não
filosóficos. 394 395
......................................................................................................
......................................................................................................
......................................................................................................
Sumário
Existe só uma verdade? ........................................................ 56
As estranhas coisas familiares 10 A retórica e a verdade, 58 / Relativismo e absolutismo
moral, 59 / É possível construir uma terceira via?, 60
Os direitos humanos universais .......................................... 62
Universalidade e diferença, 64
INTRODUçÃO O que é filosofia? 
Sociedade contemporânea: uma fábrica
O pensamento reflexivo e a nossa vida
de problemas éticos .............................................................. 66
O estranhamento diante da realidade ..................................12 Palavra de filósofo: Platão – A justiça e as aparências ..... 68
Nós e a filosofia ......................................................................14
Atividades ............................................................................. 69
Racionalidade: um bem comum, 15 / A centelha da
filosofia é comum a todos, 16 / Múltiplas possibilidades
do viver reflexivo, 17 capíTUlO 3 O que é realidade?
Amor pelo saber ....................................................................18 A descoberta do mundo suprassensível
Atitude crítica ........................................................................19 A escolha de Neo .................................................................... 71
Atitude reflexiva ................................................................... 20 O que existe?...........................................................................72
Investigação conceitual .........................................................21 A aparência e a essência, 73
Investigação rigorosa, 22
O movimento é a essência da natureza ................................74
Problemas e dinâmica da filosofia ........................................22 Logos: a razão que governa o mundo, 75
Filosofia e filosofias ...............................................................23
Há unidade entre as filosofias?, 24 / As áreas de estudo A explicação racional da realidade .......................................75
da filosofia, 24 O ser eterno e imutável de Parmênides, 76

Filosofia: origem oriental ou “milagre grego”?................... 25 A realidade suprassensível de Platão...................................79


O aparente e o essencial, 80 / O mundo inteligível, 81
Palavra de filósofo: René Descartes – Filosofia: a busca
do conhecimento racional.................. 26 Crítica à metafísica .................................................................. 82
Atividades .............................................................................27 O falso é o mundo-verdade, 84
Ampliando ............................................................................ 29 Palavra de filósofo: Platão – Alegoria da caverna ............ 86
Enem, vestibulares e concursos .......................................... 30 Atividades ............................................................................. 88

UNIDaDe capíTUlO 4 O que é essência de algo?

1 O que é? 32 O conhecimento das causas


Causa, ser e acontecer .......................................................... 90
A explicação aristotélica da realidade................................. 92
Ciência: conhecimento das causas, 93 / O necessário e o
capíTUlO 1 O que é isso?  contingente, 94 / A essência para Aristóteles, 95 / Causa
O ser e a ética material e causa formal, 96 / Causa eficiente e causa
Espanto e domínio................................................................. 34 final, 97 / O ato e a potência, 98
A unidade e a variabilidade da natureza ..............................35 A estruturação das ciências..................................................... 99
O pensamento mítico ............................................................ 36 A filosofia primeira, 100 / A prática humana: ética e política, 101
Filosofia: a busca pela explicação racional das coisas....... 38 Essencialismo e antiessencialismo ....................................103
A tentativa de solução racional do problema do uno e do A essência humana é social, 104 / A existência precede a
múltiplo, 39 / Os filósofos pluralistas, 40 / A novidade essência, 105
do pensamento filosófico, 41
A ciência como instrumento de domínio da natureza ........ 42 Palavra de filósofo: Aristóteles – A cidade faz
Dominação cega, 44
parte das coisas da natureza ............107
Atividades ............................................................................108
Pensando sobre os problemas ambientais.......................... 45
Repensando a relação entre o ser humano e a natureza, 46 /
Mais reflexões e outras ações, 48 capíTUlO 5 O que é felicidade?
Palavra de filósofo: Hannah Arendt – Terra: a base da A busca da paz interior
condição humana ............................... 49 Todos buscam a felicidade................................................... 111
Atividades ............................................................................. 50 A busca pela paz interior ..................................................... 112
A vida cínica: indiferença diante de tudo, 114 / Epicuro: os
capíTUlO 2 O que são valores? 
prazeres e a felicidade, 115 / Estoicismo: a virtude como vida
A reflexão sobre o ser humano racional, 118 / Ceticismo: investigação e dúvida, 120
Os robôs precisam de regras? ...............................................51 Os problemas da felicidade .................................................122
Investigando o ser humano e seus valores...........................52 A felicidade é uma quimera, 122 / Felicidade e satisfação dos
O que é o ser humano, 53 / O diálogo: o filosofar socrático, 54 instintos, 124 / Felicidade e consumo, 126
Palavra de filósofo: Sêneca – Como enfrentar Palavra de filósofo: René Descartes – A importância
a infelicidade ......................................128 do método ........................................... 175
Atividades ............................................................................129 Atividades ........................................................................... 176

capítulo 6 O que é Deus? capítulo 8 O que conhecemos pelos sentidos?


A filosofia cristã Os filósofos empiristas

“Se Deus não existe, tudo é permitido” ............................... 131 O corpo e a percepção .......................................................... 178 
Locke: a experiência é a base do conhecimento ................. 179
A filosofia do fim da Antiguidade à Idade Média ................132
Qualidades primárias e secundárias, 180 / Ideias
Do cristianismo à filosofia cristã, 132 / Antecedentes
e realidade, 180 / A existência das coisas exteriores, 181
místicos e religiosos da filosofia grega, 134 / O médio
platonismo e o neoplatonismo, 135 Berkeley: ser é ser percebido ..............................................182
Os seres espirituais e a causa das ideias, 183
Patrística: racionalização da fé ...........................................136
O combate à filosofia, 136 Hume: as impressões sensíveis e a natureza humana.......184
Limite do entendimento humano, 185 / Crítica ao
Agostinho: a filosofia e a procura de Deus ......................... 137
princípio de causalidade, 186
Deus, o ser verdadeiro, 138 / Deus criou o mal?, 138 /
Viver segundo a carne ou segundo o espírito?, 139 / O empirismo e a ciência .......................................................188
O logos se fez carne, 140 A observação é fiel à realidade?, 188 / Do particular das
percepções ao universal da ciência: o problema da indução,
Escolástica: a filosofia das escolas cristãs ......................... 141 190 / Raciocínio indutivo e dedutivo, 190 / O caso hipotético
As primeiras universidades, 141 / As traduções e a do Mysterium cattus, 191
redescoberta de Aristóteles, 142
Palavra de filósofo: David Hume – A ciência da natureza
Filosofia tomista: a unidade entre a razão e a fé ................143
humana como fundamento para a
As comprovações da existência de Deus, 144 / A busca do
ciência em geral .................................192
bem e o livre-arbítrio, 145
Atividades............................................................................193
Livre-arbítrio ou determinismo? ........................................146
Deus: uma criação humana ................................................. 147
Teologia é antropologia, 148 / A religião é o ópio do
capítulo 9 Como organizamos o conhecimento?
povo, 149 / Deus está morto, 149 A filosofia crítica ou transcendental

Palavra de filósofo: Agostinho – A luta das vontades....... 151 As condições de nosso conhecimento.................................194
Atividades ............................................................................152 Investigando a razão............................................................195
O despertar do sono dogmático, 196 / Conhecimento
Ampliando ...........................................................................154 a priori e a posteriori, 197 / A experiência é um
Enem, vestibulares e concursos .........................................155 composto, 198 / Possibilidades e limites do conhecimento
humano, 201
unidade Fim da metafísica clássica...................................................201
Razão, autonomia e liberdade............................................ 202
2 O que podemos conhecer? 156 A universalidade do belo .................................................... 204
Críticas à filosofia transcendental ..................................... 206
O problema da coisa em si, 206
capítulo 7 O que conhecemos pela razão? A Vontade além da razão .................................................... 208
A Vontade é irracional, 210
O racionalismo e a busca pelo
conhecimento seguro e verdadeiro Arte como criação ................................................................210
A arte e os impulsos instintivos, 211
A matemática como modelo para a ciência........................158
A razão é a origem do conhecimento ..................................159 Palavra de filósofo: Immanuel Kant – O que é
Descartes e a dúvida metódica............................................160 Esclarecimento? .............................. 213
A substância pensante e a substância extensa .................. 161 Atividades ............................................................................214
A substância infinita e o inatismo, 162 / O mundo é uma
máquina, 163 / O ser humano e o problema corpo-mente, 163 capítulo 10 O que é sociedade moderna?
Espinosa: uma única substância, deus sive natura............164 Os direitos humanos
Necessidade geométrica, 165 / Livre-arbítrio e liberdade, 166
Os direitos dos presos ..........................................................216
Leibniz: as verdades da razão e as verdades de fato .......... 167 A teoria política anterior a Maquiavel ................................ 217
Princípio da razão suficiente, 168 As exigências da política .....................................................218
Críticas às filosofias racionalistas ...................................... 170 Melhor ser temido que amado, 219 / A relação
A ilusão da razão, 170 / Oposição ao inatismo, 172 / entre virtude e destino, 220 / As controvérsias em torno
O tecnicismo cartesiano, 173 de Maquiavel, 220
Sumário

O contrato social e as bases do Estado moderno ...............221 UNIDaDe


Hobbes: o estado de natureza, 221 / Locke: a sociedade civil
organizada, 224/ Rousseau: o acordo entre iguais, 226 /
Montesquieu: os Três Poderes, 228
3 Qual é o sentido das coisas? 276

O Estado e o poder .............................................................. 229


Liberalismo e Estado, 229 / O Estado de bem-estar social, capíTUlO 13 O que podemos entender? 
230 / O Estado neoliberal, 231 O pensamento e o sentido
Palavra de filósofo: John Locke – Locke e a sociedade Os mundos das palavras .....................................................278
política ............................................ 232 O problema da linguagem ...................................................279
Atividades ............................................................................233 Frege: sentido e referência ................................................. 280
O valor objetivo do sentido e o valor subjetivo da
representação, 281 / Análise da linguagem e do
capíTUlO 11 O que é sociedade capitalista? pensamento, 282
O Estado como fonte de desenvolvimento
Russell: clareza da análise lógica.......................................282
e opressão Conhecimento por familiaridade e por descrição, 283 /
O Estado capitalista e nossa vida ....................................... 235 Teoria das descrições, 284
O positivismo ou a física social .......................................... 236 Moore: a refutação do idealismo e o apelo ao senso
Controle dos conflitos sociais e progresso, 237 / comum ..............................................................................286
Os três estágios do desenvolvimento humano, 238 / Filosofia e linguagem comum, 286
A ordem positiva, 239 / Uma nova religião, 240 Wittgenstein: dizer as coisas claramente ou calar ........... 288
Marx e Engels e o materialismo histórico ......................... 240 Relação entre linguagem e mundo, 289
Trabalho capitalista: valor e alienação ..............................242 O Círculo de Viena e o positivismo lógico .......................... 290
Mais-valia: trabalho excedente não pago, 243 / Alienação Empirismo e análise lógica da linguagem, 290
humana, 243 Os múltiplos sentidos da linguagem ..................................291
Jogos de linguagem, 292
O Estado capitalista e o comunismo .................................. 244
Sociedade sem classes e sem Estado, 245 Palavra de filósofo: Gottlob Frege – Pensamento, ideia
e coisas sensíveis............................... 294
O Estado totalitário............................................................. 246
O mito do Estado, 247 / O sistema totalitário, 249 / As armas Atividades ........................................................................... 295
contra o totalitarismo, 251
capíTUlO 14 Como podemos argumentar? 
Palavra de filósofo: Karl Marx e Friedrich Engels –
Lógica e argumentação
Rebelião contra o governo dos
pensamentos ......................................252 A redução da maioridade penal ..........................................297
O que é lógica ...................................................................... 298
Atividades ........................................................................... 253
A pérola falsa, 298 / Raciocínios, argumentos e
proposições, 299
capíTUlO 12 O que é liberdade? Tipos de raciocínio ou argumento...................................... 300
Poder e controle da expressão humana Falácias: argumentos incorretos, 302
A escravidão no Brasil e a luta pela liberdade .................. 255 A lógica aristotélica ............................................................ 304
Os filósofos iluministas e a liberdade ................................ 256 Os três princípios lógicos, 304 / Silogismo, 305 / Lógica
formal, 306 / As proposições da lógica aristotélica, 307
O poder da razão humana, 256 / Liberdade: seguir o
juízo da razão, 257 / A liberdade na Enciclopédia, 258 A lógica simbólica ............................................................... 309
Sistemas lógicos, 310 / Formalização mais rigorosa, 310
O ser humano está condenado a ser livre ..........................261
O indivíduo se faz a si, 262 Proposições e valores de verdade .......................................312
Conectivos lógicos, 313 / Cálculo proposicional e tabelas de
Liberdade encarnada ...........................................................263 verdade, 314
Política: o campo de manifestação da liberdade .............. 264 A evolução da lógica e as lógicas não clássicas.................316
Somos livres? ...................................................................... 266
Palavra de filósofo: Rudolf Carnap – O emprego do
Disciplina e biopoder, 266 / Sociedade de controle, 269
simbolismo na lógica ........................ 317
Palavra de filósofo: Jean-Paul Sartre – Liberdade e Atividades ............................................................................318
responsabilidade ............................... 271
Atividades ............................................................................272 capíTUlO 15 Qual é o sentido da vida?
Ampliando ...........................................................................274 A consciência e a existência humana
Enem, vestibulares e concursos .........................................275 A vida em julgamento ..........................................................320
A fenomenologia: a ciência das essências ..........................321 A filosofia pós-moderna ..................................................... 360
Intuição de fatos e essências, 322 / Os diversos reinos das Lyotard: as narrativas modernas e pós-modernas, 361 /
essências, 322 / A consciência é intencionalidade, 323 Derrida e a desconstrução do logocentrismo, 363 / Deleuze:
Existencialismo: o indivíduo e a existência humana..........323 a experimentação de novos modos de vida e de pensamento,
Kierkegaard: olhando a existência concreta dos indivíduos, 365 / Lipovetsky: o predomínio do efêmero, 366
324 / Heidegger e o sentido do ser, 327 O mundo pós-moderno ...................................................... 366
A vida da mulher, 331 O mundo de informações e a fragmentação da realidade,
Não se nasce mulher, 332 / A existência da mulher 368 / Fábrica de desejos e consumo obsessivo, 368 /
brasileira, 334 O afastamento da realidade: império da imagem, 369
As identidades flutuam no ar ..............................................370
Palavra de filósofo: Albert Camus – A existência e
o absurdo ........................................335 A complexa tarefa de criar uma identidade ....................... 371
A negação da identidade, 372
Atividades ............................................................................336
Palavra de filósofo: Gilles Lipovetsky – Tempo sobre
o tempo............................................. 374
capíTUlO 16 O que é ciência?
O conhecimento científico moderno Atividades ............................................................................375
e o contemporâneo
capíTUlO 18 O que é tempo?
A aventura da ciência ...........................................................338
O conceito de tempo na filosofia
A ciência moderna e seus antecedentes .............................339
O Universo hierarquizado, 339 / O Motor Imóvel, 340 / As águas inflamáveis do tempo ..........................................376
Galileu e o desenvolvimento da ciência moderna, 340 / O tempo objetivo e o tempo subjetivo .................................377
A geometrização do Universo, 343 / Newton e a O minuto da história humana, 378 / A temporalidade, 378
simplificação do Universo, 344 / A descrição matemática
Os olhares de Platão e Aristóteles sobre o eterno
das causas físicas, 346
e o temporal ........................................................................ 380
A ciência contemporânea e o estranho Santo Agostinho e a problemática do tempo .....................382
comportamento quântico ...................................................347 Onde estão o passado e o futuro?, 382
O mundo pequeno não funciona como o grande, 348
Bergson: consciência e tempo ............................................ 383
Afinal, o que é ciência?........................................................ 349 Tempo vivido, 384
Popper e o falsificacionismo, 350 / Kuhn e os paradigmas
científicos, 351 / Feyerabend: contra o método, 353
Heidegger: a temporalidade do ser-aí ............................... 385
As dimensões do tempo e a existência, 386
Palavra de filósofo: Galileu Galilei – Ciência e fé ............ 355
O tempo contemporâneo .....................................................387
Atividades ........................................................................... 356 O tempo e o processo de produção, 388 / O empobrecimento
da experiência, 389 / O fim da utopia, 390 / A hiperaceleração
capíTUlO 17 Quem é o indivíduo da sociedade do tempo não é o fim da temporalidade, 390
contemporânea? Palavra de filósofo: Henri Bergson – O passado
Fim dos grandes relatos e a busca presente ............................................392
de identidade Atividades ........................................................................... 393
Em busca de nossa identidade ........................................... 358 Ampliando .......................................................................... 394
Identidade e sociedade ....................................................... 359 Enem, vestibulares e concursos ........................................ 395
Múltiplas identidades na sociedade contemporânea, 360 Bibliografia ....................................................................... 396
ad
e
1
id
Un

As estranhas
A natureza e o ser humano
coisas familiares

Introdução
O que é filosofia?
O estranhamento diante da realidade; o viver reflexivo
humano; a filosofia e o cotidiano; a filosofia como atitude
crítica, investigação conceitual e investigação rigorosa.
AlAn Wylie/AlAmy/GloW imAGes.
© Anthony d’offAy, london - museu de
Arte modernA de são frAncisco

Máscara II (2001‑2002), obra do escultor Ron Mueck.

10
O hiper‑realismo, estilo artístico desenvolvido nos Estados Unidos durante a década de
1960, marcou a retomada do realismo na arte contemporânea. Os seus integrantes retratam
o cotidiano e as cenas que nos são familiares.
Ron Mueck (1958) é um artista australiano hiper‑realista. Suas obras causam admiração
e estranhamento. A admiração é provocada pela perfeição das representações. Cada detalhe
é fielmente reproduzido. Máscara II, por exemplo, é a escultura do rosto de uma pessoa em
grandes dimensões. Os cabelos, os olhos, as sobrancelhas, a boca, a barba por fazer, a expres‑
são, tudo parece tão real que aguardamos o despertar do personagem a qualquer momento.
Essa reprodução perfeita em grandes proporções também nos causa estranhamento,
porque evidencia aspectos de nosso corpo que geralmente passariam despercebidos. É como
se a obra nos fizesse indagar: “Somos assim mesmo?” e “Por que eu não havia percebido
isso?”. Ao contemplar a ampliação hiper‑realista, sentimos que não conhecemos bem as
coisas que nos parecem tão familiares, como nosso corpo, e que nosso entendimento sobre
elas não é tão claro quanto supúnhamos.
Essa falta de conhecimento sobre as formas do corpo humano não é um fenômeno
isolado. Se refletirmos sobre o que conhecemos, o que pensamos, o que afirmamos ou
mesmo o que consideramos óbvio ou certo, poderemos nos surpreender com elementos
fundamentais que passaram despercebidos e elaborar um novo entendimento a respeito
das coisas que investigamos. A filosofia faz precisamente isto: indaga sobre a realidade, a
natureza, as pessoas e a sociedade, investigando o mundo e o entendimento que fazemos
dele. Mas, se a filosofia pergunta sobre tudo o que lhe parece estranho ou admirável, ela
também deve ser alvo de indagação. Afinal, o que é a filosofia? Quais são as suas carac‑
terísticas principais? O que faz um filósofo? O que é filosofar? O que o filosofar tem a ver
com a nossa vida? Algumas dessas questões serão tratadas nesta introdução.

© nGc/GAleriA nAcionAl
do cAnAdá, ottAWA

Menina (2006), escultura


de Ron Mueck. Assim como
a observação de detalhes
aumentados da arte hiper‑realista
pode trazer novas percepções e
conhecimentos, a investigação
filosófica pode levar a novos
entendimentos e ressignificações.

11
..........................................................................................
..........................................................................................
..........................................................................................

Introdução
O que é filosofia?
O pensamento reflexivo e a nossa vida

O estranhamento diante da realidade


Como continuidade à pro-

edGAr mueller/Getty imAGes/AfP


posta da dupla de páginas
anteriores, o estranhamento
é o gancho para as reflexões
iniciais sobre os propósitos
do filosofar. O trecho de Aris-
tóteles aborda a admiração
diante de alguns fenômenos e
a dificuldade de compreendê-
-los. O texto de Schope-
nhauer, além de comparado
ao de Aristóteles, pode ser
relacionado às imagens das

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
esculturas de Ron Mueck uma
vez que trata sobre o espanto
diante do cotidiano, do que
é tido como conhecido. Por
fim, a imagem do grafite de
Edgar Mueller propõe uma
reflexão complementar: deve-
mos questionar até mesmo o
que é captado pelos sentidos.
Ver comentários complemen-
tares no Suplemento para o
professor, no final do livro.

Fenda (2008), grafite


em 3D criado pelo
artista Edgar Mueller.
Dun Laoghaire, Irlanda.

“[...] os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por


causa da admiração, na medida em que, inicialmente, ficaram perplexos
diante das dificuldades mais simples; em seguida, progredindo pouco a
pouco, chegaram a enfrentar problemas sempre maiores, por exemplo,
os problemas relativos aos fenômenos da Lua e aos do Sol e dos astros,
ou os problemas relativos à geração de todo o Universo. Ora, quem ex‑
perimenta uma sensação de dúvida e de admiração reconhece que não
sabe [...].”
ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002. p. 11.

12
......................................................................
......................................................................
......................................................................

“Possuir espírito filosófico é ser capaz de admirar‑se dos acontecimen‑


tos habituais e cotidianos, é ser capaz de propor‑se como objeto de re‑
flexão o que há de mais geral e de mais comum, ao passo que ter espírito
científico é admirar‑se a propósito de fenômenos selecionados e raros,
sendo problema único reduzi‑los a outros fenômenos já conhecidos.”
SCHOPENHAUER, Arthur. A necessidade metafísica. Belo Horizonte: Itatiaia, 1960. p. 85.

Um breve olhar sobre o grafite em 3D de Edgar Mueller já nos causa estranhamento.


Podemos imaginar, inicialmente, que estamos diante de uma fotografia que retrata uma
fenda em uma grande geleira. Algumas pessoas parecem até se inclinar em direção a essa
fenda, como se estivessem examinando o que se esconde no seu interior. Porém, se nos
detivermos com mais cuidado diante da imagem, perceberemos que há algumas incoe‑
rências: ao lado da suposta geleira, há um calçamento com postes de luz, e o homem à
direita parece tranquilo demais para alguém que está à beira de um precipício. Somos,
então, tomados pelo incômodo, mas admiramos o trabalho do artista, que nos leva a
refletir sobre o real e o imaginário.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

É possível estabelecer relações entre o grafite de Mueller e os textos? Os fragmentos


selecionados tratam de filosofia: os filósofos Aristóteles e Arthur Schopenhauer vinculam
o filosofar à admiração. Ora, admirar é uma manifestação que também pode ser com‑
preendida como espanto, surpresa ou estranhamento. O ser humano filosofaria diante
da perplexidade em relação aos elementos que compõem a realidade. O estranhamento
– o desconhecimento das razões que levam algo a ser como é – impulsionaria a reflexão
filosófica.
Não é só o grafite de Mueller que nos causa estranhamento. Se olharmos de maneira
atenta a própria realidade à nossa volta, veremos que está repleta de aspectos desconhe‑
cidos que despertam admiração ou revelam problemas antes não notados.
Isso fica evidente na curiosidade infantil. Uma criança, destituída de teorias que
explicam a realidade, olha para o mundo e indaga sobre quase tudo o que nele existe.
Admira‑se com uma borboleta, estranha a força de um rio, surpreende‑se com o jeito
de um adulto, com a voz de uma professora ou com a escola no primeiro dia de aula. As
coisas mais banais estão sob o seu olhar.
Com o tempo, essa admiração vai diminuindo à medida que se acostuma com as
pessoas, com os lugares e as situações, mas em algum grau mantém‑se por toda a vida.
Se prestarmos atenção ao que falamos e pensamos, perceberemos que as coisas ainda
estão aí no mundo sujeitas ao encantamento ou ao estranhamento. Falamos sobre a ação
de pensar, mas o que é o pensamento? Falamos sobre conhecer, mas o que é o conheci‑
mento? Falamos sobre o real, mas o que é a realidade?
A realidade, a admiração e os problemas, eis os pontos de partida da investigação
filosófica.

Reflita Ver comentários e orientações no Suplemento para o professor no final do livro.

1. Alguma coisa da realidade já lhe causou admiração e estranhamento? Comente sobre os


questionamentos que essa sensação despertou em você.
2. Segundo os textos de Aristóteles e Schopenhauer, qual é a relação entre a realidade ou o
cotidiano e a filosofia?
3. O que você entende por problema filosófico?

13
Nós e a filosofia
Com alguma frequência, ouvimos frases como “A filosofia não serve para nada”, “O
filósofo é um gênio ou um louco”, “As preocupações dos filósofos nada têm a ver com a
realidade”. Há até uma afirmação bem‑humorada e bastante conhecida que diz: “A filosofia
é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”.
Todas essas afirmações registram uma suposta separação entre o cotidiano das
Os objetivos das questões pessoas (os não filósofos) e a atividade dos pensadores que em geral conhecemos como
são levantar os conheci-
mentos prévios dos alunos filósofos. Dessa perspectiva, o discurso filosófico, hipoteticamente afastado dos interesses
e despertar neles o interesse
pela reflexão sobre as espe-
humanos, não teria serventia para a maioria das pessoas.
cificidades do pensamento
filosófico. Para tanto, é im- Mas será mesmo assim? Os filósofos ou as indagações filosóficas nada têm a ver com
portante partir da realidade do o nosso cotidiano? O que pensamos e o que fazemos não têm nenhuma relação com a
aluno, de seu entendimento,
e, assim, gradativamente, filosofia? A filosofia seria, então, inútil?
refletir sobre noções, ideias
e preconceitos relacionados
à compreensão do que é filo-
sofia. Vale destacar que este Para pensar
é um momento para levantar
questões para reflexão e não
buscar respostas conclusi- 1. O pensamento filosófico é diferente de outras formas de pensar? Justifique.
vas. Ver comentários comple-
mentares no Suplemento para 2. Considerando a definição de filosofia, que relação a filosofia pode ter com a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
o professor no final do livro.
nossa vida?

© Lichtenstein, Roy/AUtVis, BRAsiL, 2016 ‑ coLeção pARticULAR

Em pensamento profundo (1980), pintura de Roy Lichtenstein. A reflexão e a investigação racional mais
profunda das ideias e dos problemas humanos são características centrais da atividade filosófica.

14
Racionalidade: um bem comum
Se a filosofia não tivesse nenhuma ligação com nossa vida, o que explicaria
sua existência após séculos de seu surgimento? Por que os filósofos não foram
esquecidos com o tempo? Se, apesar das críticas e de sua suposta inutilidade,
a filosofia se mantém – mesmo com profundas transformações –, é porque
provavelmente está associada a alguma necessidade essencial do ser humano.
Que necessidade seria essa?
O filósofo grego Aristóteles (c. 384‑322 a.C.) nos dá uma pista sobre isso:

“[...] deveríamos presumir que, da mesma forma que o olho,


o pé, e em geral cada parte do corpo têm uma função, o homem
tem também uma função independente de todas estas? Qual
seria ela, então? Até as plantas participam da vida, mas esta‑
mos procurando algo peculiar ao homem. Excluamos, portan‑
to, as atividades vitais de nutrição e crescimento. Em seguida a
estas haveria a atividade vital da sensação, mas também desta
parecem participar até o cavalo, o boi e todos os animais. Resta,
então, a atividade vital do elemento racional do homem; uma
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

parte deste é dotada de razão no sentido de ser obediente a ela,


e a outra no sentido de possuir a razão e de pensar. Com a ex‑
pressão ‘atividade vital do elemento racional’ tem igualmente
duas acepções, deixemos claro que nos referimos ao exercício
ativo do elemento racional, pois parece que este é o sentido
mais próprio da expressão. [...] afirmamos que a função própria
do homem é um certo modo de vida, e este é constituído de uma
atividade ou de ações da alma que pressupõem o uso da razão.”
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
p. 126‑127. (Coleção Os Pensadores)

elsA/Getty imAGes
Assim como as plantas, o ser humano se nutre, cresce e se desenvolve.
Assim como os outros animais, ele percebe o ambiente à sua volta por meio
dos órgãos dos sentidos, olhando, tateando e ouvindo. Mas, diferentemente
das plantas e dos outros animais, só o ser humano desenvolve atividades ra‑
cionais. Em outras palavras, faz uso da razão, estabelece relações entre fatos
e coisas, julga, calcula, reflete e extrai conclusões. Só ele, com o auxílio da
razão, busca o verdadeiro conhecimento, procurando entender a realidade.
Por esse motivo, Aristóteles definia o homem como um animal racional.
A razão é um bem humano. Nós a utilizamos em boa parte de nossas ati‑
vidades. Você está fazendo isso agora. Para ler este texto, está reconhecendo
as palavras, reunindo‑as em frases e estabelecendo sentidos. Sem a razão, não
poderíamos criar linguagens complexas, como as partituras musicais e nossos
idiomas. Não poderíamos dialogar, escrever mensagens, resolver problemas e
equações, formular teorias científicas, econômicas, políticas etc. Sem o auxílio do
raciocínio, não desenvolveríamos instrumentos sofisticados, não construiríamos
A jogadora Fabiana recebe cartão
máquinas, carros, trens, barcos, espaçonaves, casas, edifícios e monumentos. amarelo durante partida contra a
Não haveria futebol ou qualquer outro esporte. Também não criaríamos leis e seleção australiana na Copa do Mundo
normas de conduta. Enfim, sem a razão, não haveria o mundo humano. de Futebol Feminino, em Moncton
(Canadá). Foto de 2015. As regras de
Entre as atividades racionais, Aristóteles destacava a filosofia como a mais arbitragem do futebol não existiriam
importante. Ele entendia a filosofia como a ciência cujo objetivo consistia em se não fosse o exercício racional
investigar os princípios mais gerais de tudo o que existe. Os homens filosofariam para determinar o que pode ou não
para se libertar da ignorância, buscando unicamente o conhecimento ou o saber. acontecer em campo.

15
A centelha da filosofia é comum a todos
André dAhmer

Se a atividade racional é uma característica fundamental da espécie


humana – isto é, está presente em cada ser humano – e se a filosofia é uma
das atividades racionais, então, todo ser humano filosofa ou pode filosofar.
O pensador alemão Martin Heidegger (1889‑1976), neste texto transcrito,
parece pensar dessa maneira.

“A questão é que não estamos de forma alguma ‘fora’ da fi‑


losofia; e isso não porque, por exemplo, talvez tenhamos certa
bagagem de conhecimentos sobre filosofia. Mesmo que não sai‑
bamos expressamente nada de filosofia, já estamos na filosofia
porque a filosofia está em nós e nos pertence; e, em verdade, no
sentido de que já sempre filosofamos. [...] Ser homem já signifi‑
ca filosofar. [...] Como ser‑homem tem, contudo, diversas pos‑
sibilidades, múltiplos níveis e graus de lucidez, o homem pode
encontrar‑se de diversas maneiras na filosofia.”
HEIDEGGER, Martin. Introdução à filosofia.
São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 3‑4.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Se ser homem já significa filosofar, o pensar ou o investigar filosófico ne‑
cessariamente se manifesta na realidade dos indivíduos e da sociedade. Se é
assim, se todo ser humano filosofa, duas questões teriam de ser respondidas
para avançarmos em nossa reflexão sobre a filosofia:
• Por que muitos indivíduos não percebem que a filosofia é algo intrínseco
a eles?
• Afinal, o que é filosofar?
A presença em nós da centelha da filosofia talvez explique em parte a
disposição humana para ir além da satisfação das atividades vitais de nutri‑
ção e crescimento, como apontou Aristóteles. Nas mais diversas situações,
buscamos refletir sobre nossa condição, sobre a família, nossa profissão, se
somos felizes ou caminhamos para a felicidade.
Quadrinhos dos anos 10 (2012), tirinha
de André Dahmer. A forma como muitas Como vivemos em sociedade, também buscamos estabelecer normas de
pessoas utilizam as novas tecnologias convivência. Por isso, refletimos sobre o que é justo ou injusto, o que é certo
de comunicação estabelecendo ou errado, sobre nossos deveres e nossas obrigações nas relações interpessoais
relacionamentos superficiais é uma das de uma comunidade. E, num sentido mais amplo, refletimos sobre critérios e
contradições da atualidade, que tem
regras universais para o conjunto da sociedade e sobre a melhor maneira de
provocado inúmeras reflexões e críticas,
como a expressa na tira. organizá-la. Às vezes, ponderamos se a justiça cumpre seu papel com impar‑
cialidade, se nosso modo de vida na sociedade contemporânea é prejudicial
ao planeta e às novas e futuras gerações, se nossa representação política é
adequada e corresponde às nossas expectativas como cidadãos.
A sociedade contemporânea é complexa e contraditória. Está repleta de
questões e impasses que demandam uma abordagem reflexivo -filosófica. Por
exemplo, a profunda intervenção tecnológica tem, por um lado, beneficiado
o ser humano ao aperfeiçoar a medicina, a educação, a comunicação e ao
proporcionar maior conforto. Por outro lado, essa intervenção, caso se subor‑
dine aos interesses da indústria e do mercado, pode reforçar o consumismo,
a massificação e o controle social.
Embora as formas de comunicação tenham sido ampliadas pelo desenvol‑
vimento de produtos tecnológicos como o celular, uns permanecem solitários
em meio à multidão de coisas e pessoas, enquanto outros se acorrentam à

16
necessidade de aprovação de seus hábitos expostos nas redes sociais. Ao mesmo tempo
que há a multiplicação das possibilidades de diversão, há um sentimento disseminado de
angústia e solidão. O que devemos fazer para sermos felizes? A filosofia pode trazer con‑
tribuições para todas essas reflexões relacionadas sobre nosso modo de vida, elucidando
situações que muitas vezes vivemos sem questionar.

Múltiplas possibilidades do viver reflexivo


Outros exemplos evidenciam a presença em nós de um refletir que ultrapassa a
satisfação das necessidades mais básicas. Estabelecemos valor em nossas ações. Julga‑
mos. Ponderamos. Afirmamos que determinado indivíduo é alto ou baixo, que tal pessoa
possui bom gosto, que fulano é um artista nato, que determinada música possui melodia
refinada, que a letra de uma canção “É demais!”, que tal ou qual filme é maçante. Para
tudo estabelecemos sentido.
Para nós, não basta a realização de atividades vitais de nutrição, crescimento e sensação.
O nosso viver é um viver reflexivo em alguma medida. Planejamos nossos dias e nossa vida.
Reestruturamos nossas perspectivas. Desfazemo‑nos de alguns sonhos. Criamos outros.
Nunca nos satisfazemos apenas com o que está dado, como se fosse fato estabelecido.
Questionamos se o que existe tem de continuar a ser da maneira que é; perguntamos pela
Quase nada (2016),
razão de algo ser especificamente assim ou se há a possibilidade de ser diferente.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tirinha de Fábio Moon


Mas, apesar de a indagação reflexiva ser comum a todos os seres humanos, o tra‑ e Gabriel Bá. Uma fala
tamento que damos a ela é diferente. Como afirmou Heidegger, o ser humano pode se resume o que seria
a vida: como numa
encontrar de diversas maneiras com o pensar reflexivo. Afinal, há “diversas possibilida‑ espécie de correnteza, os
des, múltiplos níveis e graus de lucidez”. Em outras palavras, o homem pode ou não se indivíduos se deixariam
aprofundar na reflexão filosófica. No dia a dia, entre uma e outra tarefa escolar, entre as levar, sem perceber
ocupações da nossa vida e entre as inúmeras ações e atividades cotidianas, pouco tempo propriamente o que os
sobra para uma reflexão mais detida sobre determinado conceito, noção ou problema. rodeia na maior parte
das situações. Para
É como se a possibilidade da reflexão filosófica estivesse adormecida dentro de nós ou
Heidegger, a reflexão
estivesse perdida entre as outras atividades racionais e não fosse reconhecida como algo filosófica é imanente a
essencial ao ser humano. qualquer ser humano,
mas o grau que cada
indivíduo estabelece
com ela é diferente.

fáBio moon e GABriel Bá/folhAPress

17
Amor pelo saber
O termo filosofia significa originariamente “amor ou amizade à sabedoria”. Quer di-
zer, o filósofo seria aquele que deseja a sabedoria, mas sabe que não a tem. Exatamente
porque não é sábio, ele vai ao encontro do saber. Sócrates foi um exemplo dessa busca
incessante pelo saber. Quando julgado em 399 a.C. pelos atenienses, alegou que seu exa-
me filosófico teve início quando foi revelado ao seu amigo Querefonte, em consulta ao
deus de Delfos, que não haveria homem mais sábio do que ele. Platão, discípulo socrático,
relata esse momento na obra Defesa de Sócrates:

“Sócrates – Quando soube daquele oráculo, pus‑me a refletir assim:


‘Que quererá dizer o deus? Que sentido oculto pôs na resposta? Eu cá não
tenho consciência de ser nem muito sábio nem pouco; que quererá ele,
então, significar declarando‑me o mais sábio? Naturalmente, não está
mentindo, porque isso é impossível’. Por longo tempo fiquei nessa incer‑
teza sobre o sentido; por fim, muito contra meu gosto, decidi‑me por uma
investigação, que passo a expor. Fui ter com um dos que passam por sá‑
bios... Submeti a exame essa pessoa – é escusado dizer o seu nome; era
um dos políticos. Eis, atenienses, a impressão que me ficou do exame e

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
da conversa que tive com ele; achei que ele passava por sábio aos olhos
de muita gente, principalmente aos seus próprios, mas não era. Meti‑me,
então, a explicar‑lhe que supunha ser sábio, mas não o era. A consequência
foi tornar‑me odiado dele e de muitos dos circunstantes.
Ao retirar‑me, ia concluindo de mim para comigo: ‘Mais sábio do que
esse homem eu sou; bem provável que nenhum de nós saiba nada de bom,
A morte de Sócrates mas ele supõe saber alguma coisa, enquanto eu, se não sei, tampouco su‑
(1787), pintura de ponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio que ele exatamente
Jacques-Louis David. Em em não supor que saiba o que não sei’.”
seus diálogos filosóficos,
Sócrates questionava PLATÃO. Defesa de Sócrates. São Paulo:
as ideias, os valores Abril Cultural, 1972. p. 14‑15. (Coleção Os Pensadores)
tradicionais e muitos
atenienses que eram
tidos como sábios. Suas O estranhamento de Sócrates foi ter sido considerado pelo deus como o mais sábio
reflexões incomodaram dos homens. Justamente ele, que nada supunha saber, que tinha consciência da sua igno-
muita gente, a ponto rância. Qual seria o significado da afirmação divina? E logo o filósofo grego transformou
de o filósofo ser a estranheza em problema: “Afinal, o que é ser sábio?”. E mais importante ainda: “O que
condenado à morte por é sabedoria?”.
envenenamento.
Mas, ao investigar os que se diziam sá-
Jacques‑Louis DaviD ‑ Museu MetropoLitano De arte, nova York

bios, Sócrates percebeu que eles também


não sabiam o que supunham conhecer.
Falavam de várias coisas, mas não com-
preendiam a essência de cada uma delas.
Não conseguiam defini-las. O que é justi-
ça? O que é coragem? O que é piedade? O
que é beleza? As respostas eram confusas
e contraditórias, revelando que, bem como
Sócrates, eles de nada sabiam. Mas, assu-
mindo uma postura diferente da adotada
pelo filósofo grego, julgavam conhecer e
não tinham consciência de sua ignorân-
cia. É por esse aspecto – a consciência
da ignorância – que Sócrates podia ser
considerado mais sábio do que os outros.
18
Atitude crítica
Em certa medida, a investigação filosófica segue o caminho traçado por Sócrates.
Os filósofos não consideram saber aquilo que os outros têm por sabido. Eles nunca dão
por estabelecido qualquer conhecimento que não tenha sido examinado, como se fosse
verdade inquestionável. Nada existe que não possa ser inquirido, posto em dúvida e in‑
vestigado. Nem a tradição, nem as autoridades, nem os sábios, nem os cientistas – muito
menos os filósofos e a filosofia – estão isentos de questionamentos. Todos estão sujeitos
a passar pelo julgamento racional.
Como Sócrates, os filósofos estão sempre reconstruindo sentidos, indagando sobre
as coisas que pareciam assentadas ou conhecidas, buscando clareza ou entendimento
mais profundo sobre o assunto investigado. O que é sabido não é tido como absoluto ou
plenamente satisfatório e, por isso, é questionado, o que leva a novas formulações, que,
por sua vez, também possibilitam outras reflexões. Além de contribuir para o
desenvolvimento da compe-
O filósofo francês Maurice Merleau‑Ponty (1908‑1961) resumiu esse movimento tência leitora, as questões
têm o objetivo de propor uma
realizado pelo filósofo em busca do saber, que nunca será alcançado de maneira absoluta: reflexão acerca da atitude
crítica. Ao identificar que
o humor é provocado pelo

“O que caracteriza o filósofo é o movimento que levaria incessante‑ recurso irônico presente na
conclusão de uma das per-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

mente do saber à ignorância, da ignorância ao saber, e um certo repouso sonagens, que, ao responder
“Entendi”, toma a explicação
neste movimento [...].” da colega como racional e
inquestionável, espera-se que
MERLEAU‑PONTY, Maurice. Elogio da filosofia. 4. ed. Lisboa: Guimarães, 1993. p. 11. os alunos percebam que não
é explicitada nenhuma justifi-
cativa razoável para o motivo
de uma das personagens
Esse movimento – do saber à ignorância e da ignorância ao saber – caracteriza uma estar brava, resumido em um
postura questionadora: a busca contínua por esmiuçar a realidade. A filosofia requer, em “Porque sim!”. Nesse caso,
aceitar a resposta como uma
primeiro lugar, essa atitude crítica: por um lado, não aceitar nada (afirmações, ideias, explicação, sem questioná-
teses, teorias) sem uma investigação racional; por outro, investigar detalhadamente o -la, não corresponde a uma
atitude crítica, necessária
que as coisas são, por que são assim e se podem ser diferentes. para o início da investigação
filosófica.

Para pensar

Observe a tirinha com atenção


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e responda às questões abaixo.


1. Em que consiste o humor
da tirinha?
2. De que forma a tirinha se
relaciona ao que estamos
estudando?

Peanuts (1952), tirinha de


Charles Schulz.

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Atitude reflexiva
Para o rigor da investigação, o pensamento filosófico deve ser reflexivo, isto é, tem
de voltar‑se para si mesmo. Reflexão origina‑se da palavra flexão, que significa “curvar
ou dobrar”. Quando um atleta faz exercício abdominal, ele se curva sobre si mesmo (daí
chamarmos esse movimento de flexão abdominal); assim também acontece quando do‑
bramos uma folha de caderno ou fechamos uma carteira de dinheiro (objetos flexionáveis).
Pensamento reflexivo, então, é aquele que se dobra sobre si mesmo, isto é, pensa‑se a
si próprio. Refletir é pensar de maneira rigorosa sobre o próprio pensamento. Quer dizer,
o pensamento investiga a si mesmo, avaliando se as ideias estão claras, se as conexões
estão bem‑feitas, se as conclusões são válidas.
Imagine, por exemplo, que você chegou à conclusão de que errou a resposta de um
Concatenação:
problema matemático. Então começa a repassar os procedimentos pelos quais se equivo‑
encadeamento;
ligação. cou. Primeiro relê o problema, para verificar se o entendeu perfeitamente; depois analisa
as etapas, avaliando se o raciocínio em cada caso era adequado; em seguida, observa se as
operações e as conexões entre elas estavam corretas; por último, confere se o resultado
é coerente com todo o processo realizado. Podemos comparar esse procedimento com
a reflexão filosófica. As teses ou afirmações (os pensamentos) são submetidas a rigorosa
avaliação. Cada ideia é investigada, o sentido das frases, a concatenação lógica entre as

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teses, os argumentos utilizados e a validade das conclusões.
Se a reflexão filosófica é pensamento sobre pensamento, isto é, pensamento que
se dobra sobre si (e podemos pensar sobre vários assuntos), tudo pode ser objeto da
filosofia. Podemos refletir filosoficamente sobre os pensamentos envolvidos naquilo
que dizemos, desejamos ou fazemos. Podemos, por exemplo, refletir sobre as ações
humanas, os desejos, as teses científicas e as teorias sociais. Podemos refletir sobre
a percepção, o tempo, a música, a arte, a vida, a angústia, a felicidade, a maldade, o
trabalho, o conhecimento, a política, a ciência e o prazer, ou até mesmo sobre o que é
pensar ou sobre o próprio refletir.

dPA/AlBum/lAtinstock
A sagração da primavera
(1975), coreografia de
Pina Bausch apresentada
pelo grupo Tanztheater
Wuppertal, em Bochum
(Alemanha), em 2003.
Durante a dança, o corpo
dos bailarinos se flexiona,
fornecendo movimento
à coreografia. O termo
flexão deu origem à palavra
reflexão. O pensamento
reflexivo indica um
movimento não físico, mas
mental, de um pensamento
que se dobra, ou seja, se
volta para si mesmo. É esse
tipo de pensamento que
caracteriza a filosofia.

20
Investigação conceitual
Novamente Sócrates pode nos ajudar a entender algumas características da filosofia.
O filósofo grego investiga o que é conhecimento, como relata Platão:

“Sócrates – Mas o que te perguntei, Teeteto, não foi isso: do que é que
há conhecimento, nem quantos conhecimentos particulares pode haver;
minha pergunta não visava enumerá‑los um por um; o que desejo saber é
o que seja o conhecimento em si mesmo. Será que não me exprimo bem?
Teeteto – Ao contrário; exprimes‑te com muita precisão.
S. – Considera também o seguinte: se alguém nos perguntasse a respei‑
to de alguma coisa vulgar e corriqueira, por exemplo: o que é lama, e lhe
respondêssemos que há a lama dos oleiros, a dos construtores de fornos e
a dos tijoleiros, não nos tornaríamos ridículos?
T. – É provável.
S. – Para começar, por imaginarmos que nosso interlocutor compreen‑
de o que dizemos quando falamos em lama, muito embora acrescentemos
que se trata da lama de fabricantes de bonecas ou a de qualquer outro
artesão. Ou achas que alguém entenderá o nome de alguma coisa, se des‑
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conhece sua natureza?


T. – De forma alguma. Filosofia (c. 1508‑1511),
S. – Não compreenderá, pois, o conhecimento do sapateiro quem não detalhe de afresco de
Rafael Sanzio.
souber o que seja conhecimento.
A mulher que
T. – Sem dúvida. representa a filosofia
S. – Logo, não compreenderá a arte do sapateiro nem qualquer outra segura dois livros, um
arte, quem não souber o que seja conhecimento. sobre a moral e outro
T. – Exato. sobre a natureza.
S. – É, por conseguinte, ridícula a resposta de quem é perguntado o Os anjos carregam
tabuletas que dizem
que seja conhecimento, sempre que acrescenta o nome de determinada causarum cognitio
arte. Falou em conhecimento de alguma coisa; porém não foi isso que lhe (conhecimento pelas
perguntaram. causas), indicando que
T. – Realmente.” a filosofia se caracteriza
pela racionalidade.
PLATÃO. Diálogos: Teeteto e Crátilo. 3. ed. Belém: EDUFPA, 2001. p. 42.

Embora o próprio Sócrates não tenha definido o que é co‑


nhecimento, considerou as opiniões de Teeteto sobre esse
tema inconsistentes. Por quê? Porque elas não tratavam
do conhecimento em si. Dizer que há esse ou aquele tipo de
conhecimento não é definir o que é conhecimento. Assim
como descrever os tipos de lama não é esclarecer o que é
lama. Afirmar que tal ou qual pessoa foi corajosa ou justa
não é definir o que é coragem ou justiça. Na verdade,
Sócrates perguntava sobre a natureza ou a essência
do que era investigado. Questionava pelo conceito de
justiça, verdade, coragem, amor, conhecimento etc.
A filosofia busca atingir o fundamento, a raiz, a
essência do que é investigado, aquilo que determina o
que ele é. Assim, o filósofo tem de evitar a ambiguidade
no

conceitual e o duplo sentido das expressões e dos termos,


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situações comuns na linguagem cotidiana.


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Investigação rigorosa
A palavra rigor tem vários significados, entre eles, rigidez e inflexibilidade. Esse sen‑
tido nada tem a ver com a filosofia, que deve, como vimos, ser flexível, pois uma de suas
características centrais é o pensamento reflexivo. Mas há outros dois significados que
ajudam a esclarecer um pouco mais sobre a investigação filosófica: rigor também significa
concisão e sentido próprio. Uma pessoa concisa trata do essencial em poucas palavras.
Sentido próprio de algo é sua essência, o que faz esse algo ser como é.
A investigação filosófica é rigorosa porque busca a clareza dos conceitos (sua essência,
seu significado) utilizados em pensamentos e afirmações, como fazia Sócrates. Isto é, na
investigação filosófica, analisam‑se detalhadamente os argumentos, as conclusões e as
afirmações. Só dessa maneira pode‑se obter clareza sobre o que se pensa e afirma.
Além de crítico e reflexivo, o pensamento filosófico é conceitual, rigoroso e radical.

Espera‑se que os alunos con‑


sigam estabelecer algumas Para pensar
diferenças entre o conheci‑
mento adquirido pelo senso
comum e o conhecimento
oriundo da investigação fi‑
Segundo Luckesi e Passos, senso comum:
losófica. O senso comum é
uma forma de conhecimento “[...] é a compreensão da realidade, constituída de um conjunto

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importante que está presente de opiniões, hábitos e formas de pensamento, assistematicamente
na vida de qualquer pessoa,
inclusive dos filósofos. Mas estruturada e utilizada diariamente pelos seres humanos como for-
trata‑se de um conhecimento
baseado na experiência de
ma de entendimento e como forma de orientação de suas vidas.”
vida, nas tradições, no con‑ LUCKESI, Cipriano Carlos; PASSOS, Elizete Silva. Introdução à filosofia: aprendendo
junto de crenças, hábitos e
opiniões de uma comunidade a pensar. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2002. p. 36.
ou sociedade, cujas ideias e
pensamentos são tomados Com base nessa definição e no estudo realizado até o momento, debata com os
como verdadeiros sem que
tenham sido examinados
colegas sobre as diferenças entre senso comum e pensamento filosófico.
racionalmente.
O pensamento filosófico, ao
contrário do senso comum, é
um conhecimento adquirido
por meio da investigação
crítica, reflexiva, rigorosa,
Problemas e dinâmica da filosofia
radical e meticulosa sobre
os conceitos, as ideias, os
termos, as concepções e as
Diante do que vimos, podemos concluir que a filosofia é uma atividade racional que
teorias de qualquer área da recusa certezas. É uma ação, um movimento direcionado à sabedoria, que busca clareza
realidade ou do entendimento
humano, como a ciência, a sobre conteúdos pensados ou afirmados e, por esse motivo, é uma atividade crítica, re‑
arte, a religião e o próprio
senso comum.
flexiva e conceitual. Outra característica importante da filosofia é sua dinâmica própria,
que se inicia pelo espanto, estranhamento ou alguma dificuldade, que por sua vez origina
a formulação de um problema filosófico. As filosofias e o filosofar desenvolvem‑se na
busca de formulação dos problemas colocados pela realidade.
No entanto, não se trata de qualquer problema. O problema filosófico não é de‑
corrente de qualquer inquietação ou insatisfação que instigue perguntas, como “O
que faço para ir bem na prova?” ou “Como trocar o pneu do carro se perdi o macaco
hidráulico?”. Também não é da natureza de um problema matemático, que exige solução
exata, ou como o problema de um pintor em busca da melhor maneira de expressar
seus sentimentos na tela. Tampouco é um problema científico que pode ser estudado
empiricamente: “Quais são os componentes de um átomo?”. O problema filosófico tem
de ser construído por meio de reflexão. O estranhamento inicial a respeito de alguma
coisa instiga‑nos a pensar que há algo ali que necessita ser problematizado. Portanto,
é necessária a formulação mais precisa possível do problema para a atividade racional
esclarecedora se desenvolver bem.
Suponha que você, após ter entrado em conflito com um amigo, pensou sobre sua
relação de amizade e fez a si mesmo várias perguntas, entre elas: “Um verdadeiro amigo
faz o que ele fez?”. Entretanto, percebeu que, para responder seriamente a essa pergunta,
teria antes de refletir a respeito da ideia de amizade em geral. Em outras palavras, pensou

22
no significado da palavra ou no do conceito

Olga Maltseva/aFP
amizade e se indagou: “Afinal, o que é amiza­
de?”. Repare que essa pergunta é diferente da
anterior: não faz nenhuma referência direta ao
conflito entre vocês, mas ao conceito que se
tem de amizade. Você estaria pensando sobre
o próprio pensamento. Algo assim: quando
se pensa sobre amizade, qual é o significado
desse pensamento? Suponha ainda que, no
processo de investigação sobre a amizade,
você chegasse à conclusão de que as teses,
afirmações ou definições sobre esse conceito
são, por diversos motivos, insatisfatórias. Você
estaria diante de um problema filosófico.
A filosofia e o filosofar desenvolvem­
­se por meio de teses e teorias que buscam Manifestantes protestam contra os maus­tratos aos animais, no Dia Mundial
responder a problemas. Compreender uma do Animal, em São Petersburgo (Rússia). Foto de 2015. Em meados de 1970,
filosofia ou um filósofo pressupõe conhecer o filósofo Peter Singer deparou­se com uma questão observada na realidade
que o intrigou e a transformou em um problema: tratava­se da pergunta
suas teses e a questão que esse filósofo
sobre os direitos dos animais. Tentou responder a essa problemática,
tentou elucidar. Muitas vezes, a tentativa de investigando­a nos livros Libertação animal e Ética prática. Nas décadas
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resolver ou solucionar um problema filosófico seguintes, as mobilizações ao redor do mundo em defesa dos direitos dos
conduz a novos problemas. animais ganharam maior visibilidade.

Filosofia e filosofias
Se a dinâmica do pensamento filosófico é estabelecida pela relação entre problemas e
teses, é razoável admitir que há inúmeras filosofias, porque há inúmeros problemas que foram
objeto da atenção dos filósofos. As teses e teorias filosóficas são diferentes porque tratam
de problemas distintos ou, se tratam do mesmo problema, apontam soluções diferentes.
Isso fica evidente até quando se busca responder à pergunta central: afinal, o que é
filosofia? O filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833­1911) tratou dessa dificuldade em
seu livro A essência da filosofia:

“Pode‑se falar, então [...] de uma essência da filosofia? Isto não é de


maneira alguma autoevidente. O nome filosofia ou o adjetivo filosófico
têm tantos significados diversos de acordo com o tempo e o lugar [...] que
poderia parecer que os diversos tempos teriam enlaçado em construções
espirituais sempre diferentes a bela palavra cunhada pelos gregos, a pa‑
lavra filosofia. Pois uns compreendem por filosofia a fundamentação das
ciências particulares; ou pode acontecer de a filosofia ser restrita ao nexo
das ciências particulares [...]; por fim, compreende‑se por ela também o
entendimento sobre a condução da vida ou a ciência dos valores univer‑
salmente válidos. Onde está o laço interior, que articula concepções de
ordem tão diversa do conceito de filosofia, figuras tão múltiplas dessas
concepções umas com as outras – onde está a essência uma da filosofia?”
DILTHEY, Wilhelm. A essência da filosofia. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 8.

Não há uma resposta definitiva à pergunta “O que é filosofia?”. Cada filósofo responde
de acordo com sua filosofia, constituída pela relação entre problemas, teses e teorias.
Mas, ao constatar a pluralidade filosófica, Dilthey formula um novo problema: haveria
uma unidade essencial entre as filosofias?

23
Há unidade entre as filosofias?
A pluralidade de filosofias indica então um cenário caótico, no qual cada filósofo diz
o que pensa, reflete aleatoriamente e emite opiniões a seu bel‑prazer?
Se levarmos em conta o que estudamos até aqui, a resposta a essa pergunta certa‑
mente será negativa. A filosofia requer atitude crítica e reflexiva; e as reflexões estão
vinculadas a problemas bem definidos, que delimitam o filosofar. Por sua vez, os problemas
filosóficos não surgem a partir do zero, mas são formulados pelo filósofo ou por aqueles
que estão em contato com as reflexões de outros pensadores e por elas são influenciados,
seja para questioná‑las, seja para confirmá‑las. Assim, a tradição filosófica (as filosofias
e os filósofos) e o filosofar andam lado a lado. O filosofar não é uma atividade isolada, o
filósofo não desperta repentinamente com uma ideia brilhante fixada em seu pensamento.
Apolo de Belvedere Além disso, há problemas evidenciados por um pensador que perpassam o tempo e se
(c. 1015), cópia romana tornam objeto de investigação de vários filósofos, dando lugar a distintas filosofias. Nesses
de escultura grega casos, apesar de todas as diferenças, é possível afirmar que há uma unidade problemática
do século IV a.C. Para comum às filosofias. Por esse lado, pode‑se falar também de filosofia no singular.
Johann Winckelmann,
historiador da arte Entretanto, há filósofos e historiadores que defendem não existir relação entre as
alemão do século XVIII, grandes concepções filosóficas. Para eles, a continuidade histórica da filosofia é apenas
a escultura de Apolo é aparente. Os sistemas filosóficos responderiam a indagações próprias e subjetivas de cada
um exemplo da perfeição filósofo, que não teriam relações entre si.

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alcançada pela arte
Como se vê, a filosofia é uma atividade racional, crítica, reflexiva, cujo olhar investi‑
grega. O historiador
recomendava aos gativo pode incidir sobre tudo, nem mesmo a própria filosofia pode dele escapar.
artistas de seu tempo
que se voltassem a essa
escultura para aprender
As áreas de estudo da filosofia
o que é o belo, pois Vimos que todas as coisas podem ser objeto de pesquisa filosófica. No entanto, na
entendia que o ideal de
beleza grego deveria
história da filosofia, pode‑se observar que os filósofos refletiram sobre assuntos que
nortear as preocupações tradicionalmente são agrupados em algumas áreas de estudo.
estéticas. Por exemplo, a preocupação principal no campo da estética são a arte e o belo. Nessa
área, investigam‑se o entendimento que se tem da arte (O que é arte?) e as manifestações
artísticas ao longo da história.
Na teoria do conhecimento ou epistemologia, são desenvolvidas
reflexões sobre o que é conhecimento, quais suas possibilidades e
limites (O que é conhecimento? É possível obter conhecimento seguro
ou verdadeiro?).
O conhecimento científico adquiriu tamanha importância na sociedade
contemporânea que foi necessário criar uma área filosófica específica sobre
as reflexões relacionadas à ciência (O que é ciência?) e sua prática (Quais
são as características dos métodos científicos?): a filosofia da ciência.
Na lógica, os filósofos estudam os métodos e os princípios para distin‑
guir o raciocínio correto do incorreto, analisando a validade ou invalidade
dos argumentos.
Na ética, as reflexões giram em torno da prática humana, isto é, os prin‑
cípios da conduta humana e os valores morais (O que é bem? O que é mal?
O que devo e por que devo fazer?).
ullstein bild/Getty imaGes ‑ museu
Pio Clementino, Cidade do VatiCano

Na política, estuda‑se tudo o que se refere à forma de organização da sociedade,


em especial o Estado, a administração dos negócios públicos, as formas de governo, a
representação e a participação dos cidadãos.
Na metafísica, investigam‑se os princípios mais gerais de tudo o que existe ou da
realidade (O que é ser? Existir implica o quê?). Esses princípios não são visíveis, não
podem ser apreendidos pelos órgãos dos sentidos. Disso decorre o nome da
área de estudo (do grego metà, “além de”, + physis, “natureza ou física”). A
metafísica trata de princípios que estão além das coisas físicas.

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Filosofia: origem oriental ou “milagre grego”?
Há muitas controvérsias sobre a origem da filosofia. Ela seria a continuidade de um
passado oriental ou uma invenção puramente grega? Os que defendem a origem oriental
da filosofia afirmam que as elaborações dos gregos na ciência e na filosofia seriam uma
espécie de continuação de doutrinas antigas – hebraica, egípcia, babilônica e indiana. Assim,
por exemplo, a geometria e a aritmética teriam nascido no Egito, e só posteriormente
essas disciplinas teriam sido utilizadas pelos gregos. A mesma coisa teria acontecido com
a filosofia, que, segundo essas teses, teria uma origem exterior à Grécia.
Há outra tendência entre os historiadores que afirma ser a filosofia uma espécie de
“milagre grego”, algo que surgiu única e exclusivamente pela genialidade do povo grego e
em decorrência de determinadas condições histórico‑sociais, como as condições geográficas
e econômicas – a Grécia está cercada por mares, o que teria facilitado o desenvolvimento
do comércio e da navegação – e as condições políticas – o desenvolvimento da democracia.
Existe ainda uma terceira posição, que leva em consideração as contribuições externas
à Grécia e, ao mesmo tempo, destaca os aspectos originais do pensamento grego. Assim,
na especulação grega, teriam sido utilizadas as regras de medida desenvolvidas no Egito,
criadas para demarcar as terras próximas ao Rio Nilo, todo ano inundadas pelas suas
cheias. No entanto, o pensador grego teria transformado o método ainda rudimentar
dos egípcios em uma ciência, a geometria, ao generalizar sua utilização para o cálculo de
áreas de qualquer formato.
O mesmo poderia se dizer das contribuições babilônicas em relação ao movimento
dos planetas. Segundo os babilônios, os acontecimentos humanos e da natureza eram
guiados pelos corpos celestes, o que levou ao desenvolvimento da astrologia. Os gregos
tiveram contato com essas observações sobre os planetas e, despojando‑as do caráter
prático astrológico, desenvolveram a astronomia. De certa forma, os gregos transforma‑
ram o conhecimento prático recebido de outras civilizações em conhecimento científico, Turistas visitam ruínas
ou seja, racional, sistemático e universal. do Partenon, em Atenas
Quanto à filosofia, as elaborações dos gregos não seriam mera continuidade da sa‑ (Grécia), construído
no século V a.C. Foto
bedoria oriental, cujas concepções ou ideias estariam marcadas pela religião. A filosofia
de 2014. A arquitetura
seria uma forma de pensamento que se guia pela investigação racional, e não uma ver‑ foi um dos elementos
dade já estabelecida, seja religiosa, seja mítica. Desse ponto de vista, apesar de todas as em que se evidenciou a
influências, a filosofia teria surgido na Grécia com os pensadores jônios. racionalidade grega.
Ed NortoN/GEtty ImaGEs

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Palavra de filósofo

Filosofia: a busca do conhecimento racional


O fragmento a seguir foi extraído do livro Princípios da filosofia, do francês René Descartes, publicado
em 1644. Nele, o filósofo busca explicar o papel da filosofia. O pensamento de Descartes é uma referência
central para os estudos de filosofia moderna.

e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista


“Primeiramente, desejaria explicar em que con‑ alcança não se compara à satisfação que confere o
siste a filosofia. Assim, começando pelos sentidos
mais vulgares, esta palavra ‘filosofia’ significa o es‑ conhecimento do que se encontra pela filosofia; e
tudo da sajeza e por sajeza não se deve entender enfim que este estudo é mais necessário para re‑
apenas a prudência nos negócios, mas um perfeito grar os costumes, e conduzir‑nos na vida, do que o
conhecimento de todas as coisas que ao homem é uso dos olhos para nos guiar os passos. Os brutos
dado saber, tanto em relação à conduta da sua vida, animais que apenas possuem o corpo para con‑
como no que concerne à conservação da saúde e servar, ocupam‑se, continuamente, com procurar
invenção das artes. E para que este conhecimento alimentá‑lo; mas os homens, cuja parte principal é
assim possa ser, torna‑se necessário deduzi‑lo das o espírito, deveriam primacialmente empregar o
primeiras causas, de tal modo que, para conseguir tempo na pesquisa da sabedoria, o seu verdadeiro

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adquiri‑lo, e a isto se chama exatamente filosofar, alimento. Estou convencido, também, de que mui‑
cumpre começar pela pesquisa dessas primeiras tos há que não deixariam de o fazer, se albergassem
causas, ou seja, dos princípios. [...] a esperança de o conseguir, e soubessem quanto dis‑
Seguidamente eu faria notar a utilidade dessa so são capazes. Não existe alma, por menos nobre
filosofia e mostraria, tendo em conta que se esten‑ que seja que, embora permanecendo fortemente
de a tudo o que o espírito humano consegue saber, ligada aos objetos dos sentidos, não se afaste algu‑
que se deve crer ser ela apenas que nos distingue mas vezes deles para desejar um outro bem maior,
dos selvagens e bárbaros, e que é cada nação tanto ainda que ignore, com frequência, em que consiste.
mais civilizada e polida quanto melhor aí os homens Aqueles que a fortuna mais favorece, que desfrutam
filosofam, e assim que o maior bem de um Estado plenamente de saúde, honras e riquezas, não estão
é possuir verdadeiros filósofos. E, além disso, que, mais isentos de tal desejo que os outros; pelo con‑
para cada homem em particular, não é útil tão so‑ trário, penso que são estes que suspiram com mais
mente conviver com os que se aplicam a tal estudo, ardor por outro bem, mais soberano do que todos
mas é incomparavelmente melhor aplicar‑se‑lhe o aqueles que já possuem. Ora, este soberano bem,
próprio. Assim é que, sem dúvida, vale muito mais considerado pela razão natural sem luz da fé, não é
servir‑nos dos nossos olhos para nos conduzirmos outra coisa senão o conhecimento da verdade atra‑
e gozar da beleza das cores e da luz, do que mantê‑ vés das suas primeiras causas, isto é, a sajeza, de que
‑los fechados e, desse modo, seguir a alheia conduta. a filosofia é o estudo. E, visto que todas estas coisas
Porém é isso, no entanto, melhor que os manter fe‑ são inteiramente verdadeiras, não seriam difíceis de
chados e, apesar disso, guiar‑se por si próprio. Ora, aprender se fossem bem deduzidas.”
viver sem filosofar equivale, verdadeiramente, a DESCARTES, René. Princípios da filosofia. 4. ed. Lisboa:
ter os olhos fechados, sem nunca procurar abri‑los, Guimarães, 1989. p. 29‑32.

Pensando o texto Ver comentários e orientações no Suplemento para o professor no final do livro.

Sajeza:
1. Para Descartes, o que é filosofia?
sabedoria.
2. De acordo com o autor, qual é a função da filosofia? Localize no texto ele-
mentos que justificam sua resposta. Primacialmente:
primordialmente.
3. Para você, existe alguma função na filosofia? Justifique.
Albergar:
4. Segundo Descartes, “cada nação tanto mais civilizada e polida quanto me- conter; guardar;
lhor aí os homens filosofam, e assim que o maior bem de um Estado é pos- encerrar.
suir verdadeiros filósofos”. Você concorda com essa afirmação? Justifique.

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Atividades
Sistematizando o conhecimento A dúvida e a crítica existiram certamente
antes disso. O que é novo, porém, é que a dúvida
1. Heidegger afirmou que “ser homem já signifi‑ e a crítica tornam‑se agora, por sua vez, parte
ca filosofar”. Isso quer dizer que todos os seres da tradição da escola. Uma tradição de caráter
humanos aprofundam‑se na reflexão filosófi‑ superior substitui a preservação tradicional do
ca? Explique. dogma.”
POPPER, Karl. O balde e o holofote. In: MARCONDES,
2. Identifique as afirmativas como verdadeiras Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré‑socráticos a
(V) ou falsas (F). Wittgenstein. 6. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 27.

a) ( ) O filósofo é aquele que deseja a filosofia Para o autor, a novidade da atitude filosófica
e sabe que a possui. grega consistia
b) ( ) Sócrates era sábio porque tinha cons‑ a) no ceticismo, pois defendia um pensamento
ciência de sua ignorância. em desacordo com a tradição.
c) ( ) Todos os aspectos da vida humana po‑ b) na defesa da transmissão de conhecimentos
dem ser objeto para a reflexão filosófica. aceitos pelo critério dogmático.
d) ( ) A multiplicidade de filosofias gera um c) na atitude crítica e na dúvida como elemen‑
cenário caótico, que impossibilita qualquer tos fundamentais do pensar filosófico.
definição de filosofia. d) no surgimento da dúvida e da crítica, que
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e) ( ) A atitude crítica pode ser aplicada a não existiam nas tradições anteriores.
todas as áreas do conhecimento, exceto e) no caráter absoluto da verdade na doutrina
a filosofia, por ser a crítica própria da sua defendida pelos filósofos, fundamentada
natureza. por critérios racionais.

3. Leia o trecho dos filósofos Deleuze e Guattari


para responder às questões. Aprofundando

“[...] as outras civilizações tinham sábios, 5. Analise a imagem para responder às questões:
mas os gregos apresentam esses ‘amigos’ que
não são simplesmente sábios mais modestos.

© 2008 AndreW B. sinGer


Seriam os gregos que teriam sancionado a
morte do sábio, e o teriam substituído pelos
filósofos, os amigos da sabedoria, aqueles que
procuram a sabedoria, mas não a possuem for‑
malmente. Mas não haveria somente diferença
de grau, como numa escala, entre o filósofo e
o sábio: o velho sábio vindo do Oriente pensa
talvez por figura, enquanto o filósofo inventa
e pensa por conceito.”
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia?
2. ed. São Paulo: Editora 34, 2007. p. 11‑12.

a) Os autores afirmam que os filósofos gregos


“procuram a sabedoria, mas não a possuem
formalmente”. Explique essa afirmação.
b) Segundo o texto, qual é a especificidade do
pensamento filosófico?

4. “A nova atitude que tenho em mente é a atitude


crítica. Em lugar de uma transmissão dogmática
da doutrina (na qual todo o interesse consiste O pensador moderno (2008), charge
em preservar a tradição autêntica) [na filosofia de Andrew B. Singer.
grega] encontramos uma tradição crítica da
doutrina. Algumas pessoas começam a fazer a) O que sugere o título da charge?
perguntas a respeito da doutrina, duvidam de b) Escreva um breve texto relacionando a ima‑
sua veracidade, de sua verdade. gem ao pensamento filosófico.

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Atividades

6. Leia o poema e responda às questões. nos protegemos, com nossos fones de ouvido,
celulares e vídeos, do encontro com o exterior.
“Não basta abrir a janela Agora, o ‘pau de selfie’ nos permite tirar fotos
Para ver os campos e o rio.
sem a incômoda necessidade de interagir com
Não é bastante não ser cego estranhos. [...]
Para ver as árvores e as flores. A máxima ironia do mundo globalizado é a
É preciso também não ter filosofia nenhuma. crescente insularidade do indivíduo. Como o
Com filosofia não há árvores: há ideias exterior é impessoal, nos embrenhamos no in‑
[apenas.” terior; como a comunidade nos debilita, a indivi‑
PESSOA, Fernando. Não basta. In: Poemas inconjuntos. dualidade se torna preponderante [...]. O grande
Disponível em <www.dominiopublico.gov.br/download/ balão da globalização explodiu em milhares de
texto/pe000003.pdf>. Acesso em 5 jan. 2016. bolhas comprimidas, que voam juntas, sem, no
a) Qual é a opinião do eu lírico sobre a filosofia? entanto, se roçarem.”
LEZAMA, Emilio. O que selfies revelam sobre o mundo
b) Você concorda com essa visão? Justifique.
atual. Folha de S.Paulo, 30 ago. 2015. Disponível em
<www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/08/1674877‑
7. Leia a citação do historiador Jean‑Pierre Ver‑ o‑que‑selfies‑revelam‑sobre‑o‑mundo‑atual.shtml>.
nant e responda às questões. Acesso em 5 jan. 2016.

“É no plano político que a razão, na Grécia, Considerando a importância da experiência

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
primeiramente se exprimiu, constituiu‑se e social para o nascimento da filosofia, discu‑
formou‑se. A experiência social pode tornar‑se ta em que medida o comportamento descrito
entre os gregos o objeto de uma reflexão posi‑ pelo autor pode demonstrar uma postura não
tiva, porque se prestava, na cidade, a um debate filosófica.
público de argumentos. O declínio do mito data
do dia em que os primeiros sábios puseram 9. Valendo‑se da leitura dos trechos a seguir e
em discussão a ordem humana, procuraram com base em seus conhecimentos, elabore
defini‑la em si mesma, traduzi‑la em fórmulas um texto dissertativo‑argumentativo usando
acessíveis à sua inteligência, aplicar‑lhe a norma a escrita formal da língua portuguesa sobre o
do número e da medida. Assim se destacou e se tema A filosofia ontem e hoje.
definiu um pensamento propriamente político,
exterior à religião, com seu vocabulário, seus
“Graças às doutrinas filosóficas, que se su‑
cederam ao largo dos séculos, o homem tem os
conceitos, seus princípios, suas vistas teóricas. instrumentos indispensáveis para entender e
Esse pensamento marcou profundamente a interpretar a si mesmo e ao mundo e tomar a ati‑
mentalidade do homem antigo; caracteriza uma tude do verdadeiro filosofar, isto é, do autêntico
civilização que não deixou, enquanto permane‑ existir. Mas as doutrinas são meios e não fins.
ceu viva, de considerar a vida pública como o Oferecem ao homem uma ajuda eficaz, mas não
coroamento da atividade humana. [...] Dentro
são tudo. Em última instância, é o homem que
de seus limites como em suas inovações, [a filo‑
deve decidir, o homem individualmente. A vida
sofia] é filha da cidade.”
apresenta continuamente questões às quais ele
VERNANT, Jean‑Pierre. As origens do pensamento grego.
2. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Difel, 1977. p. 94‑95.
deve responder.”
ABBAGNANO, Nicola. Introducción al existencialismo.
a) Segundo Vernant, qual foi o papel da de‑ Bogotá: Fondo de Cultura Económica, 1997. p. 13.
mocracia para o surgimento da filosofia na (Tradução nossa)
Grécia?
b) O que significa dizer que “a filosofia é filha
“[...] não é possível aprender qualquer filoso‑
fia; [...] só é possível aprender a filosofar, ou seja,
da cidade”? exercitar o talento da razão, fazendo‑a seguir os
seus princípios universais em certas tentativas
8. Ao refletir sobre o comportamento das pessoas
filosóficas já existentes [...].”
na atualidade, o escritor Emilio Lezama afirmou:
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Abril
“Em nossa época, os sistemas de defesa que Cultural, 1980. p. 407. (Coleção Os Pensadores)
criamos procuram nos isolar de um exterior
que se nega a ceder à tendência individualista
da sociedade. Por isso andamos de um lugar
a outro sem renunciar nunca a nosso mundo Insularidade: caráter de ser ilha. Neste caso, usado com
o sentido de isolamento.
[...]. Sentados entre centenas de passageiros,

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Ampliando

Cinema

Reality: a grande ilusão (Itália, 2012)

RepRodução
Direção: Matteo Garrone – Duração: 116 min.
O filme retrata o cotidiano de Luciano, dono de uma peixaria em Nápoles, na
Itália. Casado e pai de três filhos, o comerciante leva uma vida pacata até o mo‑
mento em que se inscreve para participar de um reality show de muito sucesso.
A obsessão pela fama faz com que o personagem se afaste, aos poucos, da rea‑
lidade.
Ao longo do filme, o espectador é instigado a pensar sobre a superficialidade
da sociedade contemporânea centrada no mundo midiático do espetáculo, que
não prioriza a reflexão. Ao contrário, percebe‑se que as personagens, em vez de
problematizarem a realidade circundante, buscam no sucesso uma fórmula para
a resolução dos impasses sociais e existenciais.
Vamos ficar atentos
• Ao figurino das personagens e à fotografia do filme, recursos que contribuem
para que a obra apresente um tom de espetáculo que satiriza as produções
televisivas.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Cartaz do filme Reality: a


• Às transformações sofridas por Luciano, especialmente em sua relação com a grande ilusão, dirigido por
família. Aos poucos, o afeto cede espaço a relações pouco profundas. Matteo Garrone, 2012.
• Às cenas finais, em que o delírio de Luciano reflete a ilusão do mundo midiá‑
tico.
Vamos refletir sobre o filme e buscar responder
1. Pode‑se dizer que Luciano tem uma postura filosófica? Justifique.
2. Qual é a relação que o filme estabelece entre o mundo midiático e a reflexão?

Livro

A invenção de Morel (Argentina, 1940)


RepRodução

Autor: Adolfo Bioy Casares


Narrado em primeira pessoa, o romance escrito pelo argentino Adolfo Bioy Casa‑
res se constrói na forma de diário de um fugitivo que decide esconder‑se em uma
ilha que já fora habitada, mas cujos moradores desapareceram por motivos mis‑
teriosos. Especula‑se que alguma doença mortal e desconhecida ronda a região.
Desafiando essa crença arraigada, o narrador estabelece‑se em um dos prédios
desabitados da área e cria uma rotina solitária, que registra em seu caderno. Aos
poucos, começa a perceber presença humana ao seu redor. São indivíduos que
repetem gestos, desenvolvem conversas desconexas e parecem não se aperceber
de sua presença. O narrador obceca‑se por essas pessoas e empreende uma pes‑
quisa que o leva a perceber que a realidade que o cerca não é como imaginara, e
as pessoas ao seu redor vivem em um mundo de aparências.
Vamos ficar atentos
• Ao relato em primeira pessoa que, por não ser onisciente, contribui para que a
confusão sentida pelo narrador se estenda ao leitor.
Capa do livro A invenção de
• Ao modo de agir das personagens que habitam a ilha. Morel, do escritor Adolfo Bioy
• À presença da tecnologia no texto e ao seu caráter problematizador. Casares, 1940.
Vamos refletir sobre o livro e buscar responder
1. Qual é a visão desenvolvida no texto sobre a tecnologia?
2. A atitude final do narrador poderia ser definida como uma antítese da filoso‑
fia? Justifique sua resposta.

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Enem, vestibulares e concursos
1. (Enem‑MEC/2015) 2. (Enem‑MEC/2013)
Texto I

AlexAndre Affonso e Victor MAzzei


“A melhor banda de todos os tempos da
última semana
O melhor disco brasileiro de música ameri‑
cana
O melhor disco dos últimos anos de sucesso
do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os
dez maiores fracassos
Não importa contradição
O que importa é televisão
Dizem que não há nada que você não se
acostume O blogueiro profissional (2009), charge de
Cala a boca e aumenta o volume então.” Alexandre Affonso e Victor Mazzei.

MELLO, B.; BRITTO, S. A melhor banda de todos os A charge revela uma crítica aos meios de co-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
tempos da última semana. São Paulo: Abril Music, 2001. municação, em especial à internet, porque
(Fragmento) a) questiona a integração das pessoas nas redes
virtuais de relacionamento.
b) considera as relações sociais como menos
Texto II importantes que as virtuais.
O fetichismo na música e c) enaltece a pretensão do homem em estar
em todos os lugares ao mesmo tempo.
a regressão da audição
d) descreve com precisão as sociedades huma-
“Aldous Huxley levantou em um de seus en‑ nas no mundo globalizado.
e) concebe a rede de computadores como o es-
saios a seguinte pergunta: quem ainda se diverte
paço mais eficaz para a construção de rela-
realmente hoje num lugar de diversão? Com o
ções sociais.
mesmo direito poder‑se‑ia perguntar: para quem
a música de entretenimento serve ainda como 3. (Enem‑MEC/2012)
entretenimento? Ao invés de entreter, parece Texto I
que tal música contribuiu ainda mais para o
emudecimento dos homens, para a morte da “Anaxímenes de Mileto disse que o ar é
o elemento originário de tudo o que existe,
linguagem como expressão, para a incapacidade existiu e existirá, e que outras coisas provêm
de comunicação.” de sua descendência. Quando o ar se dilata,
ADORNO, T. Textos escolhidos. São Paulo: transforma‑se em fogo, ao passo que os ventos
Nova Cultural, 1999. são ar condensado. As nuvens formam‑se a
partir do ar por filtragem e, ainda mais con‑
A aproximação entre a letra da canção e a crí- densadas, transformam‑se em água. A água,
tica de Adorno indica o(a): quando mais condensada, transforma‑se em
a) lado efêmero e restritivo da indústria cul- terra, e quando condensada ao máximo possí‑
tural.
vel, transforma‑se em pedras.”
BURNET, J. A aurora da filosofia grega. Rio de Janeiro:
b) baixa renovação da indústria de entreteni- PUC‑Rio, 2006. (Adaptado)
mento. Texto II
c) influência da música americana na cultura
“Basílio Magno, filósofo medieval, escreveu:
brasileira. ‘Deus, como criador de todas as coisas, está no
d) fusão entre elementos da indústria cultural princípio do mundo e dos tempos. Quão parcas
de conteúdo se nos apresentam, em face desta
e da cultura popular.
concepção, as especulações contraditórias dos
e) declínio da forma musical em prol de outros filósofos, para os quais o mundo se origina, ou
meios de entretenimento. de algum dos quatro elementos, como ensinam

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os Jônios, ou dos átomos, como julga Demócrito. convencer alguns de vocês. Pois se eu disser que
Na verdade, dão a impressão de quererem anco‑ tal conduta seria desobediência ao deus e que por
rar o mundo numa teia de aranha’.” isso não posso ficar quieto, vocês acharão que
GILSON, E.; BOEHNER, P. História da filosofia cristã. São estou zombando e não acreditarão. E se disser
Paulo: Vozes, 1991. (Adaptado) que falar diariamente da virtude e das outras
Filósofos dos diversos tempos históricos de‑
coisas sobre as quais me ouvem falar e questio‑
senvolveram teses para explicar a origem do nar a mim e a outros é o bem maior do homem e
universo, a partir de uma explicação racional. que a vida que não se questiona não vale a pena
As teses de Anaxímenes, filósofo grego antigo, viver, vão me acreditar menos ainda.”
e de Basílio, filósofo medieval, têm em comum PLATÃO. Apologia de Sócrates. In: MARCONDES, Danilo.
na sua fundamentação teorias que Textos básicos de filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2007. p. 20.
a) eram baseadas nas ciências da natureza.
A partir do texto citado é CORRETO afirmar que
b) refutavam as teorias de filósofos da religião.
01) Sócrates não aceita a sentença de seus inter‑
c) tinham origem nos mitos das civilizações
antigas. locutores porque a rebeldia e a não aceitação
das ordens são próprias de um filósofo.
d) postulavam um princípio originário para o
mundo. 02) Sócrates defende uma atitude permanente
de questionamento para os homens, sem a
e) defendiam que Deus é o princípio de todas
qual a vida não valeria a pena ser vivida.
as coisas.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

04) para Sócrates, o questionamento é mais do


4. (Faepesul/Biguaçu‑SC/2015) que um momento na vida humana, é uma
conduta permanente que deve ser cultivada.
“A filosofia é uma atividade profundamente 08) para Sócrates, o questionamento é algo
vinculada à dúvida e às perguntas. Portanto, para
aprender a filosofar, é fundamental adotar uma intrínseco da natureza humana e não so‑
atitude indagadora. Como afirmou o pensador ale‑ mente dele, um filósofo.
mão Karl Jaspers (1883‑1969), ‘as perguntas em 16) ao citar deus, Sócrates compreende que
filosofia são mais essenciais que as respostas e cada está zombando de seus interlocutores, pois
resposta transforma‑se numa nova pergunta’.” seus questionamentos não possuem ne‑
JASPERS, K. Introdução ao pensamento filosófico. São nhuma relação com a religião.
Paulo: Cultrix. p. 140. Soma:________________
02 + 04 + 08 = 14

Sobre a atitude filosófica é INCORRETO afirmar.


6. (UEM/2014)
a) A filosofia busca a ampliação da paisagem
e seus horizontes: cada resposta gera um “Na introdução ao Princípios, Berkeley lamen‑
novo terreno para dúvidas e perguntas. ta: como garantir a credibilidade da filosofia se,
b) A filosofia se abstém de pergunta, pois não ao invés de responder a esta demanda por fun‑
leva a nada. damentos e satisfazer nossos anseios de paz de
c) Mesmo que você não tenha intenção de se espírito, ela nos inunda com uma multiplicidade
tornar um filósofo ou uma filósofa, desen‑ de teorias que geram disputas e dúvidas sem
volver uma atitude indagadora, isto é, filosó‑ fim? Depois de fazer levantar uma espessa poeira
fica, pode ser de grande utilidade em muitos de palavras, a própria filosofia reclama por não
momentos da sua existência. conseguir mais ver com clareza aquilo que aparece
d) A atitude filosófica constitui, portanto, uma claro e sem problemas ao homem comum...”
espécie de retorno à primeira infância, a essa SKROCK, Everaldo. George Berkeley e a terra incógnita
maneira de ver, escutar e sentir as coisas. É da filosofia. In: MARÇAL, Jairo (Org.). Antologia de textos
filosóficos. Curitiba: SEED, 2009. p. 103.
certo começar de novo na compreensão do
mundo por meio da dúvida e de sucessivas A partir do exposto, é CORRETO afirmar que a
indagações. filosofia
e) Surge de uma necessidade inquietante de 01) identifica‑se com o senso comum.
explicação racional. 02) propõe questões insolúveis.
5. (UEM/2014) 04) debate teorias diferentes entre si.

“Talvez alguém diga: ‘Sócrates, será que você 08) proporciona a paz de espírito.
não pode ir embora, nos deixar em paz e ficar 16) estabelece verdades absolutas.
quieto, calado?’ Ora, eis a coisa mais difícil de Soma: _____________________
02 + 04 = 6

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ad
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Un

O que é?

Como estudamos na introdução, a filosofia pode ser compreen‑


dida como uma forma reflexiva de pensamento racional cujo centro
de atenção é o conceito e cuja dinâmica se desenvolve por meio do
estranhamento diante da realidade – ou das ideias que as pessoas
têm sobre a realidade – e da formulação de problemas filosóficos.
A busca de solução para os problemas é um exercício filosófico.
Nesta unidade, abordaremos o período da história da filosofia
que pode ser designado como Metafísico. Nesse período, pre‑
dominaram as reflexões ou teorias sobre a realidade ou as coisas
que existem. Do ponto de vista cronológico, ele se estendeu da
Antiguidade até o final da Idade Média. Foi nesse momento que
se iniciaram as reflexões sobre a prática humana, isto é, sobre as
ações, as decisões e os valores do ser humano, formando a área
de estudo que ficou conhecida como ética.
Os estudos desta unidade estão, portanto, voltados para o
mundo, para as coisas que existem e para os princípios genéricos
que possibilitam a existência das coisas (ou seres). A pergunta
central desse período é: “O que é?” – O que é a natureza? Qual é
o princípio de tudo o que existe? O que é a unidade? O que é o
múltiplo? O que é a realidade? Existe uma realidade além da que
podemos ver? Do que as coisas são formadas? O que é substân‑
cia? O que é essência? O que é ser? O que é Deus? No âmbito do
pensamento voltado para a definição das coisas, há um mundo
© Vladimir Kush. all rights reserVed. Coleção partiCular

de problemas. Vamos refletir sobre alguns deles.


A preocupação com as coisas que existem implica questio‑
namentos a respeito do ser humano, de seus valores e de sua
prática, isto é, origina reflexões éticas. No momento em que o ser
humano começou a refletir sobre as coisas, questionou também
as próprias ações, ou seja, indagou sobre como deveria agir. A
filosofia orientou‑se para assuntos como o bem, o mal, a justiça,
a verdade, a bondade etc., caracterizando um momento marcado
por reflexões metafísicas e éticas.

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Capítulo 1 Capítulo 3 Capítulo 5
O que é isso? O que é realidade? O que é felicidade?
Origem da filosofia; investigação da Concepções sobre a realidade; a A ideia de felicidade; a interiorização
natureza; o ser humano e a natureza; teoria platônica; a metafísica e as das filosofias helenísticas; a
problemas ambientais. críticas a ela. intranquilidade na sociedade atual.

Capítulo 2 Capítulo 4 Capítulo 6


O que são valores? O que é essência de algo? O que é Deus?
Reflexões sobre valores éticos; Metafísica aristotélica: causas Filosofia cristã: razão e fé; a existência
problemas éticos contemporâneos. primeiras, substância e conhecimento do mal; o determinismo e a liberdade
científico; crítica ao essencialismo. humana.

Ondulações no oceano (2014), do pintor russo


Vladimir Kush. A obra é uma apresentação
surrealista do oceano, que ganha a aparência
de um tecido, gerando estranhamento no
espectador. O surrealismo, surgido no século XX,
valoriza o inconsciente e o irracional no processo
de criação. A filosofia, em contrapartida, busca
entender e explicar racionalmente a realidade.

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lo
tu

O que é isso?
1

Ca

O ser e a ética

O objetivo desta abertura é sensibilizar o aluno para dois fatores importantes de nossa relação com a natureza: o ato de contemplação ou
admiração e a relação de domínio.
Ver comentários complementares no Suplemento para o professor, no final do livro.

Espanto e domínio
“Diga‑lhes que esta vida não cessou “A dominação universal da natureza volta‑se
de me maravilhar.” contra o próprio sujeito.”

KatsushiKa hoKusai ‑ BiBlioteCa do


Congresso, Washington

amanaimages/CorBis/latinstoCK

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A grande onda de Kanagawa (c. 1830), gravura de Katsushika Emissão de gases poluentes por fábrica de papel em Fuji (Japão),
Hokusai. A representação grandiosa das ondas e do Monte Fuji 2012. Para alguns ambientalistas, o degelo no Monte Fuji se
ao fundo contrasta com a pequena dimensão dos pescadores, relaciona ao aumento da emissão e da concentração de gases do
ameaçados pela fúria do oceano. efeito estufa, derivados da combustão de carvão e petróleo.

A declaração acima, à esquerda, é atribuída ao filósofo austríaco Ludwig


Wittgenstein (1889‑1951), que a teria pronunciado instantes antes de morrer.
Ver comentários e orientações no Suplemento Não há nenhum registro que garanta a veracidade dessa história, mas vale
para o professor no final do livro.
mencioná‑la para ilustrar uma característica dos seres humanos: a admiração
Reflita ou o espanto pelas coisas.
A origem da filosofia está associada ao espanto e à admiração em relação
1. Pense em fenômenos
naturais que causam
à natureza, sentimentos que impulsionaram as investigações filosóficas ini‑
espanto e admiração. ciais. Os primeiros filósofos buscavam conhecer a natureza e questionavam
O que pode motivar esses seus fundamentos.
sentimentos? A frase à direita foi extraída do livro Dialética do esclarecimento, escrito
2. Relacione as frases citadas pelos filósofos alemães Theodor Adorno (1903‑1969) e Max Horkheimer
às imagens e redija um (1895‑1973). Essa obra contém uma crítica à relação de domínio que o ser
parágrafo sobre a beleza da humano estabeleceu com a natureza.
natureza e outro sobre sua Atualmente, ambientalistas apontam, como consequências das ações
degradação. humanas, a elevação acelerada da temperatura do planeta e o processo de
3. Debata com seus colegas extinção de espécies da fauna e da flora dos ecossistemas atingidos, entre
sobre a relação do ser outras. Para muitos pesquisadores, a persistência do desequilíbrio ambiental
humano com a natureza e colocará em xeque a sobrevivência dos seres humanos, comprometendo a
sobre uma nova maneira de manutenção da vida em geral.
enxergá‑la.
Uma nova maneira de pensar sobre a natureza pode mudar essa situação?

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Descobrindo a tradição

A unidade e a variabilidade da natureza


“Abacateiro, Abacateiro,
Acataremos teu ato, Teu recolhimento é justamente
Nós também somos do mato O significado
Como o pato e o leão. Da palavra temporão.
Aguardaremos, Enquanto o tempo
Brincaremos no regato Não trouxer teu abacate
Até que nos tragam frutos Amanhecerá tomate
Teu amor, teu coração. E anoitecerá mamão [...].”
GIL, Gilberto. Refazenda. In: Refazenda. Rio de Janeiro: Universal, 1975. LP.
Disponível em <www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=11>.
Acesso em 29 jan. 2016.

O eu lírico da canção Refazenda, de Gilberto Gil, parece “conversar” em tom de


igualdade com o abacateiro. Parte da ideia de que todos – o abacateiro, o pato, o leão e
o ser humano – pertencem a uma unidade. Todos são do “mato”. Apesar das diferenças,
há algo que envolve igualmente esses seres: a natureza.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Além disso, de acordo com os versos, as coisas da natureza têm o próprio ritmo, mui‑
tas vezes cíclico. “Enquanto o tempo / Não trouxer teu abacate / Amanhecerá tomate /
E anoitecerá mamão”. Isso significa que a natureza parece ordenada e harmônica. Ao
observá‑la, você percebe essa harmonia? De um ano para o outro, as estações se sucedem
na mesma sequência; no decorrer dos dias, entre o nascer e o pôr do sol, transcorre um
período regular; as flores se tornam vistosas na primavera e os frutos amadurecem em
ciclos repetitivos. Também é possível encontrar padrão em cada espécie animal, que é
gerada e desenvolvida para se perpetuar. Parece haver uma força que guia e dá coesão
aos fenômenos naturais, que se apresentam como unidade ordenada.
Em contrapartida, na natureza há elementos e seres com características bastante dis‑
tintas, como o abacateiro, o pato, o leão, o tomate, o mamão e o ser humano. A natureza
parece ser, ao mesmo tempo, múltipla e una. Mas como isso é possível? Como algo pode
ser simultaneamente uno e múltiplo?
Ao investigar a natureza, os primeiros filósofos enfrentaram esse problema. Afinal, o que
é a natureza? Como explicar sua unidade e sua variabilidade? Por que ela é assim? Haverá
algum motivo ou alguma razão que determine a existência dos fenômenos tais como são?
Essa última pergunta fornece pistas sobre o processo de formação da filosofia. Os
primeiros pensadores, que posteriormente foram chamados de filósofos ou naturalistas,
encantaram‑se com a natureza e quiseram conhecê‑la. Para eles, conhecer era descobrir
as razões ou explicar os motivos que faziam algo ser exatamente como era. Por exemplo,
digamos que você tirou nota baixa em uma prova. Ao investigar os motivos de seu fraco
desempenho, chegou à conclusão de que a causa principal foi o fato de não ter estudado. Eis
aí o motivo ou a razão da nota baixa. Da mesma maneira, os primeiros filósofos observavam a
unidade e a diversidade presentes nos fenômenos naturais e, com base no que constatavam,
investigavam os motivos ou as razões de a natureza ser ao mesmo tempo una e múltipla. Com essa pergunta, busca‑se
Para entender a novidade do pensamento filosófico, vamos analisar a maneira como instigar o aluno a refletir sobre
a problemática enfrentada pe‑
a tradição explicava ou organizava o mundo antes do surgimento da filosofia. los pré‑socráticos e prepará‑lo
para o entendimento das res‑
postas dadas pelos primeiros
filósofos, que serão estudadas
mais à frente. Esses filósofos,
Para pensar monistas ou pluralistas, teo‑
rizaram sobre a presença de
uma ou mais substâncias em
Como você explicaria a unidade e a variabilidade da natureza? todas as coisas existentes, o
que conferiria unidade à diver‑
sidade verificada na natureza.

35
Descobrindo a tradição

O pensamento mítico
Teogonia: narrativa do
Os mitos (mýthos) eram narrativas orais apresentadas na forma de poemas musicados.
nascimento dos deuses O poeta‑cantor (aedo) contava histórias tradicionais, ligadas à origem de tudo ou à con‑
e apresentação de sua dição do ser humano no mundo. Por meio dessas narrativas, o indivíduo comum entrava
genealogia. em contato com a memória cultural de seu povo e podia conhecer seus heróis, deuses,
Cosmogonia: narrativa
valores éticos e religiosos, em um período anterior à constituição da pólis e à adoção
das origens e da do alfabeto. Além disso, com os mitos procurava‑se explicar o princípio do mundo e a
formação do mundo. formação do Universo, a origem dos deuses e também os acontecimentos que afetavam
os seres humanos. Assim, os mitos eram narrativas, teogonias ou cosmogonias , que de
alguma forma ordenavam a realidade. Leia a seguir as formulações de Hesíodo e Homero,
que contribuíram para que a tradição mítica existisse e fosse preservada.

“[...] primeiro nasceu o Caos, depois também terra de amplo seio, de


todos sede irresvalável sempre dos imortais que têm a cabeça no Olimpo
nevado, e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, e Eros: o
mais belo entre os deuses imortais... Do Caos, Érebos e Noite negra nas‑
Atlas, cópia de escultura ceram. Da Noite, aliás, Éter e Dia nasceram [...]. Terra primeiro pariu igual
grega do século II.
Segundo a mitologia
a si mesma Céu constelado [...].”

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
grega, após uma guerra HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 2011. p. 109.
malograda contra os
deuses do Olimpo,
Zeus condenou Atlas a “‘Senhor dos raios brilhantes, por que convocaste os deuses para uma
sustentar o firmamento assembleia? Consideras algo a respeito dos troianos e dos aqueus?...’
sobre os ombros por Zeus, o ajuntador de nuvens, respondeu‑lhe dizendo:
toda a eternidade. Daí ‘[...] Permanecerei... sentado aqui num vale do Olimpo, de onde possa
a expressão: “carregar o contemplar a guerra, segundo a vontade de meu próprio coração. Vós ou‑
mundo nas costas”.
tros, ide vos juntar aos troianos e aos aqueus, e dar a vossa ajuda a um ou
a outro, segundo se inclinar o espírito de cada um de vós...’
Assim falou o filho de Cronos e provocou incessante discórdia. Os deu‑
ses partiram para a guerra divergindo de opinião.”
HOMERO. Ilíada (em forma de narrativa). Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. p. 218‑219.

Na primeira citação, atribuída ao poeta grego Hesíodo (século VIII a.C.),


há uma descrição do surgimento dos deuses e da organização do mundo.
Caos, Terra, Tártaro, Noite, Dia e Céu são deuses. Por meio de seus encontros
e desencontros, de sua união e de seus confrontos, a realidade vai sendo
constituída. No segundo texto, atribuído ao poeta grego Homero (século
OrOnOz/Album/lAtinstOck ‑ museu
ArqueOlógicO nAciOnAl de nápOles

VIII a.C.), há uma narrativa sobre a interferência dos deuses gregos no mundo
humano, no caso, durante a Guerra de Troia.
As histórias míticas de Hesíodo e de Homero atravessaram gerações por
intermédio da tradição oral. Vencendo séculos, chegaram aos dias de hoje, sem
que saibamos exatamente como e quando foram compostas (no caso de Ilíada,
nem sequer estamos seguros de que seu autor realmente tenha existido). Para
os gregos da Antiguidade, os mitos e a oralidade dos aedos tinham a função de
explicar o mundo e justificar a organização da realidade social.
Na Grécia antiga, a forma mítica de explicar o mundo entrou em declínio com o
desenvolvimento econômico e cultural das cidades‑Estados. Com a gradual consoli‑
dação da democracia grega, a intensificação das viagens comerciais e o consequente
contato com outras culturas, o reaparecimento da escrita e a utilização da moeda,
o mundo grego foi se transformando profundamente e o ser humano passou a
ocupar um lugar central na ordem das coisas. Diante dessa situação, foi necessário
desenvolver outra forma de entender e de explicar os fenômenos e a sociedade.

36
Entre todas essas mudanças importantes para a constituição e o desenvolvimento do
pensamento filosófico, destaca‑se a democracia, forma de organização político‑social que
propiciou o debate, o confronto público de ideias entre indivíduos de diferentes camadas
sociais e tribos que disputavam o poder e o questionamento dos princípios que sustenta‑
vam as antigas convenções, os costumes e as tradições. A exposição de argumentos para
defender ideias sobre os rumos da cidade e a elaboração escrita das leis estimularam o
desenvolvimento do logos. Esse termo grego é associado a muitos significados, entre os
quais discurso, cálculo, pensamento, inteligência e razão. A democracia impulsionou o
discurso racional sobre o indivíduo, a cidade e a natureza, ajudando a estabelecer as bases
sobre as quais caminharia a filosofia.
Outro aspecto relevante que contribuiu para a mudança de mentalidade na Grécia an‑
tiga e a instauração do critério da racionalidade entre os cidadãos foi a produção de textos
escritos, que constituíam um novo modo de discurso. A oralidade poética dos aedos era
baseada na tradição e provocava a simpatia ou a emoção do ouvinte. Os textos escritos
estabeleciam outra forma de comunicação: não se tratava mais da narrativa emotiva dos
acontecimentos passados, mas de uma explicação racional que poderia ser questionada por
qualquer um que a analisasse. A possibilidade de voltar ao texto favoreceu a reflexão crítica.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Espaço e tempo do nascimento da filosofia


Embora seja conhecida sobretudo pelas especulações dos grandes filósofos de Atenas,
na Grécia continental, a filosofia grega iniciou‑se entre os séculos VII e VI a.C. na região
da antiga Jônia, porção central da faixa litorânea da atual Turquia. Nessa região, algumas
colônias fundadas pelos gregos se desenvolveram e deram origem a cidades‑Estados, com
destaque para a cidade portuária de Mileto.

A Grécia no século VI a.C.

anderson de andrade pimentel


MAR NEGRO

ETRUSCOS
Demócrito 40° N
Protágoras
Leucipo
Zenão Aristóteles
Abdera
Parmênides Estagira
Xenófanes
Eleia ÁSIA
JÔNIA MENOR
MAGNA Anaxágoras Heráclito Tales
GRÉCIA Pirro Clazomena Éfeso Anaximandro
Élida Anaxímenes
Empédocles
Atenas Samos Mileto
Agrigento
M ESPARTA Platão Epicuro Zenão
A Sócrates Pitágoras
Rodes
Cítio
R Panécio
M Posidônio
ED CRETA
ITE
RR
ÂNE
O
250 km

Grécia continental
Grécia peninsular
Grécia insular
Áreas de colonização grega
20° L

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 14.

37
Descobrindo a tradição

Filosofia: a busca pela explicação racional


das coisas
Se o mito depende da crença e se baseia em uma história ficcional, a filosofia baseia­
­se na investigação racional para explicar os fenômenos sem a intervenção de mistérios.
O texto a seguir sintetiza essa diferença.

“Com os milésios, pela primeira vez, a origem e a ordem do mundo to-


mam a forma de um problema explicitamente colocado a que se deve dar
uma resposta sem mistério, ao nível da inteligência humana, suscetível
de ser exposta e debatida publicamente, diante do conjunto dos cidadãos,
como as outras questões da vida corrente. Assim se afirma uma função de
conhecimento livre de toda preocupação de ordem ritual. Os ‘físicos’, de-
liberadamente, ignoram o mundo da religião. Sua pesquisa nada mais tem
a ver com esses processos do culto aos quais o mito, apesar de sua relativa
autonomia, permanecia sempre mais ou menos ligado.”
VERNANT, Jean‑Pierre. As origens do pensamento grego.
7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992. p. 76‑77.

Diferentemente dos aedos, os primeiros filósofos, caracterizados no texto do historia­


dor Jean­Pierre Vernant (1914­2007) como “físicos”, buscaram esclarecer racionalmente as
causas dos fenômenos. Tales de Mileto (c. 640­548 a.C.), por exemplo, procurou explicar
que as cheias do Rio Nilo, no Egito, tinham como causa ou motivo os ventos contrários
à direção de suas águas. Sua explicação não se baseou na vontade de um deus, mas em
considerações racionais. Ele supôs uma regra natural: as cheias do Rio Nilo seriam pro­
vocadas por ventos que sopravam em determinado período do ano.
O pensamento filosófico sempre foi marcado por essa busca de explicações racionais.
No entanto, isso não significa que houve uma ruptura abrupta e intransponível entre as
Ilha Elefantina, em Assuã narrativas míticas e as explicações filosóficas. Tratou­se de um processo em que, como
(Egito), 2015. As cheias afirmou o historiador e filólogo alemão Werner Jaeger, houve uma racionalização pro­
do Rio Nilo garantiram gressiva da concepção religiosa do mundo implícita nos mitos. Durante muito tempo, os
a fertilidade do solo mitos se entrelaçaram com as teorias filosóficas. Mesmo Platão, dois séculos depois do
em suas margens. A
início da filosofia e um de seus principais expoentes, utilizou narrativas míticas e alegóricas
explicação científica
desse fenômeno não para explicar suas ideias. De qualquer maneira, a filosofia consolidou­se como um pensa­
depende de nenhuma mento apoiado na razão humana ou em princípios racionais, afastando­se da revelação
crença para ser aceita. misteriosa do mito e da religião. Joana Kruse/alamy/
Glow ImaGes

38
A tentativa de solução racional do
problema do uno e do múltiplo
Voltemos ao problema enfrentado pelos primeiros filósofos, também chamados
de naturalistas ou pré‑socráticos : qual seria a causa de a natureza ser una e múltipla Pré‑socráticos:
filósofos anteriores a
ao mesmo tempo? Qual seria o princípio ( arkhé ) ou a origem da natureza ( physis ) que Sócrates (c. 470‑399
possibilitaria e determinaria essa característica? a.C.). Eles foram assim
Se os naturalistas não recorriam aos deuses para explicar um fenômeno natural, não denominados porque
podiam dizer: “A natureza é assim porque Zeus quis”. Eles procuravam regras e normas uma classificação
posterior da filosofia
na própria natureza. Nesse sentido, o exame filosófico dos naturalistas se assemelhava,
antiga adotou como
em alguns aspectos, ao dos cientistas de hoje, que investigam a natureza e elaboram referência a figura de
normas e leis sobre ela. Sócrates.
Parte dos naturalistas pensou desta maneira: se a natureza é una e também múltipla, Arkhé: fundamento,
é preciso encontrar algum elemento que esteja presente em tudo o que existe, para justi‑ origem ou princípio.
ficar sua unidade. Esse elemento deve estar em quantidades diferentes em cada coisa, para
Physis: natureza, origem,
explicar as diferenças. De acordo com essa ideia, a unidade seria resultado da presença do
desenvolvimento e
mesmo elemento em tudo e a multiplicidade seria resultado da diferença da quantidade regresso de todas as
desse elemento em cada coisa. coisas; movimento
Tales de Mileto formulou a hipótese de que a água ou a umidade seria o princípio de tudo: vital; realidade
estaria presente em todas as coisas e constituiria todos os seres, mas em proporções diferentes. primeira e última de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tudo o que existe.


A rocha, por exemplo, teria pouca quantidade de água, ao passo que o leite conteria muita água.
Dessa maneira, Tales elaborou uma explicação racional para tudo o que existia: todas
as coisas seriam formas diferentes da água. A água seria a matéria primordial da qual tudo
surgiria e para a qual tudo retornaria.
Por que Tales elegeu a água como princípio de tudo? Não temos certeza sobre isso; só
podemos especular. Ele pode ter sido influenciado por mitos orientais de criação do mundo
ou, ao investigar a natureza, pode ter percebido que a água é um elemento essencial para
a vida das plantas e dos animais, considerando‑a, então, constituinte básico das coisas.
Assim como Tales, outros naturalistas buscaram as razões de a natureza ou os fenômenos
naturais serem dessa ou daquela forma, postulando matérias primordiais diversas.

“Anaxímenes de Mileto... declarou que o ar é o princípio das coisas que


existem; pois é dele que provêm todas as coisas e é nele que de novo se
dissolvem. Tal como a nossa alma... que é ar, nos mantém unidos e nos
governa, assim também o vento e o ar cercam o mundo inteiro.”
KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Os filósofos pré‑socráticos.
4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994. p. 161.

Se Tales dizia que o princípio elementar era a água e Anaxímenes (c. 588‑524 a.C.), o
ar, Anaximandro (c. 610‑547 a.C.) afirmava que a matéria primordial era indeterminada
e ilimitada (apeíron). Outros elegeram como substância primordial o fogo, a terra ou a
mistura dos quatro elementos: água, fogo, terra e ar.

Tales de Mileto (c. 640‑548 a.C.)

Considerado o primeiro filósofo, nasceu na cidade grega de


Mileto, na Ásia Menor, onde hoje é a Turquia. Desenvolveu
GuGa Bacan

estudos em várias áreas do conhecimento. Supõe‑se que ele


previu um eclipse solar que teria acontecido em 585 a.C. Na
matemática, teria introduzido o estudo da geometria e feito
inúmeras descobertas.

39
Descobrindo a tradição

Os filósofos pluralistas
Além dos pensadores Tales e Anaxímenes, que explicavam a realidade elegendo uma
única matéria primordial, existiam os chamados filósofos pluralistas, que defendiam a
existência de vários princípios, e não de apenas um. Entre eles estavam Empédocles,
Anaxágoras e os filósofos atomistas Leucipo e Demócrito.
De acordo com Empédocles (c. 493‑433 a.C.), filósofo da cidade de Agrigento, na
Magna Grécia, atual Sicília, a terra, a água, o fogo e o ar seriam as raízes de todas as coisas.
Essas substâncias não teriam surgido ou nascido; elas sempre teriam existido e seriam,
portanto, fixas e imutáveis. O movimento espacial seria responsável pela mescla dessas
substâncias primárias. As raízes eternas e imutáveis teriam se misturado em proporções
diferentes. Cada coisa da natureza seria formada por uma combinação dessas substâncias
básicas. Mas o que faria essas substâncias perfeitas se moverem? Eis a originalidade de
Empédocles: duas forças cósmicas seriam as causas da mudança e do movimento: a força
de atração (amor ou amizade) e a de repulsão (ódio ou discórdia).

“Dupla é a formação das coisas mortais e dupla a sua destruição; pois


uma é gerada e destruída pela junção de todas as coisas, a outra é criada
e desaparece, quando uma vez mais as coisas se separam. E estas coisas

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
nunca param de mudar continuamente, ora convergindo num todo graças
ao amor, ora separando‑se de novo por ação do ódio da discórdia. Assim,
tal como elas aprenderam a tornar‑se numa só a partir de muitas, e de
novo, quando uma se separa, geram muitas, assim elas nascem e a sua
vida não é estável; mas, na medida em que jamais cessam o seu contínuo
intercâmbio, assim existem sempre imutáveis no ciclo.”
EMPÉDOCLES. Fragmento 348. In: KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Os filósofos
pré‑socráticos. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994. p. 301.
Alegoria da água,
obra da série Quatro
elementos (c. 1627),
Anaxágoras (c. 499‑428 a.C.) nasceu em Clazômenas, região da Jônia, e passou grande
do pintor italiano parte da vida em Atenas, onde foi um dos responsáveis por introduzir a especulação da
Francesco Albani. filosofia jônica. Ele atribuía muita importância ao papel do Espírito na formação do mundo.
Inicialmente abordada O Espírito teria conhecimento total do mundo. Dotado do maior poder, governaria tudo
pela filosofia, a teoria o que tivesse vida. No entanto, embora entendesse que o Espírito fosse uma existência à
dos quatro elementos
é constantemente
parte das coisas da natureza, Anaxágoras não o compreendia como um ser imaterial ou
retomada nas e Agostini Pi
incorpóreo. Considerava‑o a mais sutil e pura das coisas.
D ctur
e Li
obras de arte. br
Ar
y/b O Espírito – denominado por Anaxágoras como nous – teria sido o res‑
ri
D ge
m
An ponsável por iniciar o movimento de ordenação do mundo. Com esse
movimento, as coisas, que estavam em um caos original, teriam se
im
Ag

separado. Isso significa que a produção do mundo teria uma causa


e
s/
Ke
ys

mecânica. O filósofo acreditava, ainda, na existência de uma


to
ne

quantidade ilimitada de matérias ou partículas básicas, cha‑


brA

madas por ele de “sementes”, que comporiam todas as coisas.


siL ‑
gALeriA sAbAuDA, t

Leucipo (século V a.C.) e Demócrito (c. 460‑c. 370 a.C.),


ambos de Abdera, foram os formuladores de um siste‑
ma físico conhecido como atomismo. As reflexões desses
dois pensadores, assim como as dos anteriores, tiveram
uri

como ponto de partida a ideia de que não se poderia falar


m

de mudança ou de desenvolvimento sem que existisse algo


de permanente, de imutável, na coisa em transformação.
O que seria esse algo imutável? Apoiemo‑nos no testemunho do
filósofo Aristóteles.

40
“Demócrito... designa o espaço pelos seguintes nomes: ‘o vazio’, ‘o

peter paul ruBens ‑ museu do prado, madri


nada’ e ‘o infinito’, ao passo que cada substância individual ele chama ‘coi‑
sa’, ‘compacto’ e ‘ser’. Pensa ele que as substâncias são pequenas, que es‑
capam aos nossos sentidos, se bem que possuam toda espécie de formas,
de feitios e diferenças de tamanho. Deste modo, consegue ele, a partir
delas, como a partir dos elementos, criar, por agregação, massas perceptí‑
veis, à vista e aos demais sentidos.”
ARISTÓTELES. In: KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Os filósofos pré‑socráticos.
4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994. p. 438.

Assim, esses filósofos buscaram algo que permanecesse sempre igual no constante
processo de mudança da natureza. Deram o nome de átomo a esse ser imutável e eterno.
Além de indivisíveis (átomon = “indivisível”), os átomos seriam partículas compactas, com
tamanhos diferentes e constantes, sem outras características. Por serem muito pequenas,
essas partículas não poderiam ser observadas ou percebidas pelos órgãos dos sentidos.
No entanto, quando se agregavam em número muito grande, compunham as coisas ou
os seres da natureza. Quando um ser ou uma coisa deixava de existir, a composição se
desfazia, mas os átomos se mantinham. Assim, a união e a separação dos átomos expli‑
cavam todos os acontecimentos na natureza.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O sistema elaborado por esses filósofos, que influenciou a ciência durante muito Vulcano forjando os
tempo, ficou conhecido como materialista. O nome deve‑se ao fato de que, segundo raios de Júpiter (c. 1637),
esse sistema, a essência, a realidade última de tudo o que existe é o átomo, a unidade pintura de Peter Paul
mais elementar da matéria. Rubens. Com a filosofia,
a natureza deixa de ser
vista como manifestação
A novidade do pensamento filosófico do sagrado para ser
entendida como algo
que pode ser explicado
Para pensar e conhecido pelo ser
humano.
Depois de ter conhecido algumas ideias dos primeiros filósofos naturalistas, que
resposta você daria à pergunta: quando teve início e o que o pensamento filosófico
trouxe de novo?
Espera ‑se que os alunos,
mesmo que de maneira par‑
Com a filosofia, aos poucos a natureza deixou de ser compreendida como uma exten‑ cial, percebam a mudança na
concepção de natureza ad‑
são emotiva do ser humano ou como consequência da ira ou da benevolência dos deuses. vinda da filosofia – a natureza
teria regras próprias, e não
Ela passou a ser concebida como uma legalidade, isto é, regida por leis ou regras próprias. sobrenaturais – e a prevalên‑
cia das explicações racionais
Embora as regras que regem a natureza sejam independentes do homem, elas podem sobre a realidade.
ser conhecidas pelo ser humano. O instrumento para conhecê‑las é a razão (logos). O
discurso racional pode apreender essas regras e estabelecer sistemas de explicação da
realidade. Ou seja, pela razão o homem pode descortinar a natureza.
Na origem da filosofia, estas três ideias estão presentes: a natureza tem regras próprias;
o ser humano pode conhecer essas regras; o instrumento desse conhecimento é a razão.
Fernando gonsales

Níquel Náusea (1999),


tirinha de Fernando
Gonsales. A lei da
gravidade, formulada por
Isaac Newton no século
XVII, é fruto da especulação
científica, que deu seus
primeiros passos na Grécia
antiga, com os filósofos da
natureza.

41
Outras perspectivas

A ciência como instrumento de


domínio da natureza
No estudo que realizamos até agora, verificamos que os primeiros filóso‑
fos admiravam a natureza como uma totalidade e buscavam compreendê‑la.
Eles perceberam que a natureza não era dependente de forças divinas nem
dos desejos ou das emoções humanas, mas era regida ou governada por re‑
gras ou princípios que a inteligência humana podia compreender. De fato, a
investigação filosófica realizada na Grécia antiga pelos naturalistas tinha o
propósito de conhecer a natureza.
René Descartes
Naquele momento, não havia separação entre pensamento filosófico
(1596‑1650)
e pensamento científico. Os pré‑socráticos são considerados por alguns
estudiosos os precursores dos cientistas modernos, porque introduziram
princípios racionais na investigação sobre a natureza. Outros, no entanto,
não concordam com essa aproximação. É fato que os naturalistas observa‑
guga BaCan

ram a natureza e refletiram sobre os princípios ou as regras que a governa‑

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
riam, mas eles buscavam princípios ou regras gerais que pudessem explicar,
ao mesmo tempo, a harmonia (unidade) e a diversidade (multiplicidade).
Para tanto, lançavam mão de ideias e conceitos, como o de arkhé e o de
logos, que estavam além do que podia ser empiricamente investigado. suas
investigações estavam orientadas principalmente pelo desejo de conhecer.
Os cientistas modernos agem de maneira diferente. Eles buscam as leis
dos fenômenos, que podem ser estabelecidas com base na observação, isto
é, buscam as relações permanentes entre fenômenos, em determinadas
Filósofo e matemático francês, circunstâncias. Por exemplo, uma porção de água potável congela sempre
é considerado “pai” da filosofia
que atinge temperaturas abaixo de 0 °C e, sempre que um metal é aque‑
moderna. Iniciou seus estudos
em colégio jesuíta, cursou di‑ cido a determinado grau, dilata‑se. As descobertas científicas das leis da
reito e, em 1618, alistou‑se no natureza não são investigadas apenas para se adquirir conhecimento, mas
Exército holandês de Maurício também para serem utilizadas em benefício das pessoas. Nesse aspecto, há
de Nassau. Descartes desen‑ uma diferença importante entre o pensamento dos primeiros filósofos e o
volveu a base do pensamento dos cientistas modernos.
racionalista, segundo o qual
todo conhecimento provém
Os textos a seguir têm muito a nos dizer sobre a abordagem da natureza
da razão. Ao proferir a célebre pela ciência moderna e sobre a influência desse pensamento na sociedade
frase “Penso, logo exis to” atual. Neles, os filósofos Francis Bacon (1561‑1626) e René Descartes registra‑
(“Cogito, ergo sum”), o filósofo ram o modo como enxergavam a relação do ser humano com a natureza. suas
fez a distinção entre mente e reflexões influenciaram diversos pensadores, como Johannes Kepler, Galileu
matéria, que é a base do seu Galilei e Isaac Newton, entre muitos outros cientistas que colaboraram para
pensamento dualista. Buscou a constituição da ciência moderna.
consolidar a ciência funda‑
mentada na razão, valendo‑se
da metafísica e da física para
elaborar separadamente os
“Mas, se alguém se dispõe a instaurar e estender o poder e
o domínio do gênero humano sobre o Universo, a sua ambição
princípios do conhecimento (se assim pode ser chamada) seria, sem dúvida, a mais sábia e
humano e das coisas materiais.
a mais nobre de todas. Pois bem, o império do homem sobre
suas principais obras foram:
O discurso do método, As medi- as coisas se apoia unicamente nas artes e nas ciências. A natu‑
tações metafísicas, O tratado do reza não se domina, senão obedecendo‑a.”
homem, O tratado do mundo e BACON, Francis. Novum organum. São Paulo:
Os princípios de filosofia. Abril Cultural, 1973. p. 94. (Coleção Os Pensadores)

42
“[...] é possível chegar a conhecimentos muito úteis à vida, e que, ao
invés dessa filosofia especulativa ensinada nas escolas, pode‑se encontrar
uma filosofia prática, mediante a qual, conhecendo a força e as ações do
fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que
nos rodeiam, tão distintamente como conhecemos os diversos ofícios de
nossos artesãos, poderíamos empregá‑las do mesmo modo em todos os
usos a que são adequadas e assim nos tornarmos como que senhores e
possessores da natureza.”
DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 81‑82.

Chamam a atenção nesses textos de Bacon e Descartes os conceitos de “dominação”


e de “posse”. segundo os autores, o conhecimento científico ou filosófico deve estar vol‑
tado para o domínio ou a posse da natureza. Isto é, o ser humano, por meio da ciência,
deve conhecer as regras e as leis da natureza, para dominá‑la e utilizá‑la de acordo com
seus interesses. Conhecendo, por exemplo, o fogo, a água e o ar, podemos empregá‑los
em nosso benefício. Nesse sentido, o conhecimento científico sobre a natureza trouxe
poder aos seres humanos, que se consideraram capazes de subjugá‑la.
A ciência moderna edificou‑se sobre a relação de poder, domínio e subjugação da
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

natureza, que estaria a nosso dispor, pronta para nos servir. Para dominá‑la, bastaria
conhecer como ela funciona, as causas e os efeitos dos fenômenos naturais, suas leis.
segundo essa ótica, utilizamos o conhecimento científico para aumentar a produtividade
da agricultura; estudamos o comportamento dos peixes para pescá‑los; investigamos as
propriedades do ferro e do aço para construir casas, edifícios, carros e estradas de ferro;
pesquisamos o espaço sideral para colocar em órbita satélites que ampliam nossa comu‑
nicação; fazemos experiências com roedores, macacos e outros animais para cuidar de
nossa saúde e evitar doenças, e assim por diante. A natureza é considerada, de acordo
com essa visão, uma espécie de reservatório infindável, cujos recursos estão à disposição
de nossos interesses, para nosso prazer e bem‑estar.
Esse tipo de relação que estabelecemos com a natureza nos trouxe muitos benefícios,
mas também nos causou vários problemas. A intervenção humana sobre o ambiente fre‑
quentemente provoca a extinção de espécies de animais e de plantas, prejudica os ecos‑
sistemas ao poluir os rios e o ar, ameaça a vida de todo o planeta e, claro, a própria vida
humana. Esses fatos refletem a necessidade de repensarmos nossa relação com a natureza.
yasuyoshi ChiBa/aFp

Feira de produtos
orgânicos na cidade
do Rio de Janeiro (RJ),
2015. O avanço do
conhecimento humano
sobre a natureza favoreceu
o desenvolvimento da
agricultura; no entanto,
o emprego de certas
técnicas agrícolas
desestabilizou os
ecossistemas. Na tentativa
de evitar esse problema,
cresce a aplicação de
métodos de plantio que
enriquecem o solo, como
a rotação de culturas, e
investe‑se na produção de
alimentos orgânicos, livres
de agrotóxicos.

43
Outras perspectivas

Dominação cega
O pensamento de domínio e de utilização da natureza para o benefício do ser humano
difundiu‑se com o desenvolvimento do capitalismo, sistema alicerçado na produção e na
venda de mercadorias cujas matérias‑primas são retiradas, na maior parte das vezes, da
natureza. Não se trata mais de admirar a natureza ou de perceber sua unidade e conhecer
seus fundamentos, como pretendiam os filósofos naturalistas.
Além disso, quando olhamos a natureza como algo a ser dominado, criamos um es‑
tranhamento em relação a ela, o que significa que não nos reconhecemos nela.

Alienação: no “O que os homens querem aprender da natureza é como empregá‑la


contexto, alheamento, para dominar completamente a ela e aos homens. Nada mais importa. [...]
afastamento, O preço que os homens pagam pelo aumento de seu poder é alienação
estranhamento, daquilo sobre o que exercem o poder. O esclarecimento comporta‑se com
separação. as coisas como o ditador se comporta com os homens. Este conhece‑os na
Hegemônico: medida em que pode manipulá‑los. O homem de ciência conhece as coisas
relativo à hegemonia na medida em que pode fazê‑las.”
(supremacia, influência ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento.
preponderante exercida Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 20‑24.
por uma cidade, um

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
povo, um país etc.).
Os filósofos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer usavam a expressão
razão instrumental para designar um significado para a razão que se teria instituído
plenamente a partir da ciência moderna. Nesse momento, a razão teria se desvinculado
da reflexão sobre os fins mais gerais, que deveriam guiar os procedimentos racionais.
Assim, conceitos e valores como humanidade, liberdade, justiça, verdade, igualdade
e felicidade, que não poderiam ser mensurados nem classificados, teriam deixado de
pertencer ao âmbito da razão.
A razão teria se tornado utilitária, atendendo às exigências dos novos padrões de vida ob‑
servados a partir da modernidade. Com os modos de viver moderno e contemporâneo, todo
pensamento que não servisse aos objetivos da produção industrial ou aos interesses políticos
de grupos hegemônicos seria considerado inútil. Ao se desvincular de um conteúdo humanista,
a razão teria se transformado em apenas um instrumento, uma forma de manipulação que
poderia ser utilizada para qualquer fim. A razão instrumental seria a capacidade de calcular
probabilidades e coordenar os meios adequados para se atingir um fim, mas não seria reflexiva.
Na sociedade ocidental contemporânea, o ser humano indagaria sobre a natureza
por meio da razão instrumental: “Que proveito posso tirar dela?”; “Como posso lucrar
na exploração do petróleo, da água, da madeira ou do metal?”; “Como posso manipular
a natureza para ganhar tempo, produtividade e lucro?”.
Por meio da razão instrumental, o ser humano não refletiria sobre a situação do
planeta, sobre a vida na Terra, nem sobre valores mais gerais. Imporia uma dominação
cega, imediata e rasteira sobre a natureza. Mas tal tipo de dominação teria consequências
adversas para o ser humano e para a própria natureza.
Calvin & Hobbes, bill Watterson © 1989
Watterson/Dist. by Universal UCliCk

Calvin e Haroldo (1989),


tirinha de Bill Watterson. O
personagem Calvin ironiza
a suposta “inteligência”
humana, que destrói
o planeta em que vive.
A inteligência que ele
critica está ligada à razão
instrumental, pouco
reflexiva e de cunho
utilitarista.

44
Pensando sobre os problemas ambientais
Na imagem ao lado, os troncos de árvores choram e

AlmApBBDO/GreenpeAce
demonstram descontentamento diante do destino que
lhes foi imposto pelos seres humanos. O desmatamento
intenso das florestas e suas consequências são, entre
outros exemplos, importantes preocupações ambientais
da atualidade.
A atitude humana de explorar a natureza de maneira
intensa sem refletir sobre as consequências disso, como se
elas não atingissem sua espécie, e a disposição de dominar a
natureza e usar de maneira desmedida seus recursos, subju-
gando os outros seres e devastando suas riquezas, são ações
que têm um preço. A intervenção humana sobre a natureza
tem provocado a poluição atmosférica, o aumento das chu-
vas ácidas, a poluição dos lagos e dos rios, o desmatamento,
a elevação da temperatura da Terra, a degradação do solo,
além de prejuízos à biodiversidade – extinção de espécies
animais e vegetais – e escassez de água potável. Campanha publicitária da organização não governamental
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Greenpeace, voltada para assuntos relacionados à preservação


Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano apre- ambiental (2010). Os troncos, resultado do desmatamento,
sentado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2013, apresentam expressões de sofrimento, raiva ou espanto,
o mundo pode viver uma “catástrofe ambiental” em 2050. respostas da natureza à ação devastadora do ser humano.

“Apesar dos investimentos de vários países em energias renováveis e


sustentabilidade, o mundo pode viver uma ‘catástrofe ambiental’ em 2050,
segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2013, apresentado [...]
pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Ao fim dos próximos 37 anos, são estimadas mais de 3 bilhões de pessoas
vivendo em situação de extrema pobreza, das quais pelo menos 155 milhões
estariam na América Latina e no Caribe. E essa condição demográfica e so-
cial seria motivada também pela degradação do meio ambiente e pela redu-
ção dos meios de subsistência, como a agricultura e o acesso à água potável.
De acordo com a previsão de desastre apresentada pelo relatório, cerca
de 2,7 bilhões de pessoas a mais viveriam em extrema pobreza em 2050
como consequência do problema ambiental. Desse total, 1,9 bilhão se-
ria composto por indivíduos que entraram na miséria, e os outros 800
milhões seriam aqueles impedidos de sair dessa situação por causa das
calamidades do meio ambiente.”
Relatório da ONU prevê “catástrofe ambiental” no mundo em 2050.
Globo Natureza, 14 mar. 2013. Disponível em <http://g1.globo.com/
natureza/noticia/2013/03/relatorio‑da‑onu‑preve‑catastrofe‑
ambiental‑no‑mundo‑em‑2050.html>. Acesso em 11 jan. 2016.

A situação ambiental é mesmo alarmante ou é exagero acreditar que a vida na Terra


corre perigo? Afinal, do ponto de vista da história humana, a exploração da natureza não
tem propiciado desenvolvimento e melhoria das condições de vida? E as populações de
países pobres, que ainda não atingiram condições de vida adequadas, não têm o direito
de usufruir do desenvolvimento econômico e lutar por uma vida digna e sem fome? É
possível combinar desenvolvimento com preservação ambiental? No sistema econômico
capitalista é possível estabelecer uma relação diferente entre o ser humano e a natureza?
Essas são algumas das perguntas que devem ser levadas em conta na formulação de novas
propostas para a intervenção humana no meio ambiente.

45
Outras perspectivas

Repensando a relação entre o ser humano e a natureza


Diante dessa difícil situação, é preciso repensar nossa relação com a natureza. A pergunta
feita na abertura deste capítulo retorna: uma nova maneira de pensar sobre a natureza
pode mudar essa situação? O que pode ser feito?
Estabelecer novo entendimento da natureza e de nossa relação com ela é o pressuposto
de uma mudança. As reflexões filosóficas podem nos ajudar a fazer isso. Temos de repen‑
sar a natureza, refletir sobre as relações que estabelecemos com ela e sobre nossas ações.
Devemos pensar sobre o que queremos, o que devemos fazer e como pretendemos viver.
No início da década de 1970, alguns pensadores começaram a refletir de maneira
mais intensa sobre as questões ecológicas. Deram tal importância à preocupação com
a relação entre o ser humano e a natureza que passaram a utilizar termos como “eco‑
sofia” e “ecofilosofia” para designar um novo campo de estudo ou de preocupação. O
pensamento filosófico voltou‑se novamente para a natureza e para a atuação do ser
humano. Preocupações relacionadas a esses temas, como vimos, estavam na origem da
A Carta Encíclica Lauda- filosofia. No entanto, grande parte das complexas questões que atingem as sociedades
to Si, do Papa Francisco,
está disponível no link: <w2.
contemporâneas não era problematizada no mundo grego pré‑socrático. Diante da
vatican.va/content/francesco/ situação atual do planeta, o papa Francisco publicou, em 2015, uma encíclica denomi‑
pt/encyclicals/documents/
papa‑francesco_20150524_ nada Laudato Si, também conhecida como “Encíclica Verde”, alertando para a terrível

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
enciclica ‑laudato ‑si.html>. degradação do ambiente natural e humano. Nela, o religioso afirmou: “A Terra, nossa
Acesso em 14 jan. 2016.
casa, parece transformar‑se cada vez mais num imenso depósito de lixo”.
De acordo com o filósofo e psicanalista francês Félix Guattari (1930‑1992), as reflexões
contemporâneas não podem se restringir à contemplação da natureza nem dissociar o
meio ambiente da realidade social – constituída de complexas relações culturais, eco‑
nômicas e políticas – sem levar em conta a mentalidade do indivíduo contemporâneo.
Para Guattari, uma mudança profunda e efetiva da nossa sociedade depende de uma
visão e de ações mais amplas – políticas e éticas –, que abarquem três tipos de ecologia:
a do meio ambiente, a das relações sociais e a da subjetividade, esferas que devem estar
articuladas para esclarecer a situação da realidade natural e humana em sua totalidade.

Tecnocrata: estadista
“É evidente que uma responsabilidade e uma gestão mais coletiva se im-
põem para orientar as ciências e as técnicas em direção a finalidades mais
ou alto funcionário
que busca soluções
humanas. Não podemos nos deixar guiar cegamente pelos tecnocratas dos
técnicas e racionais aparelhos de Estado para controlar as evoluções e conjurar os riscos nesses
para os problemas, domínios, regidos no essencial pelos princípios da economia de lucro. Certa-
sem considerar o mente seria absurdo querer voltar atrás para tentar reconstituir as antigas
aspecto humano. maneiras de viver. Jamais o trabalho humano ou o habitat voltarão a ser o
que eram há poucas décadas, depois das revoluções informáticas, robóticas,
depois do desenvolvimento do gênio genético e depois da mundialização do
conjunto dos mercados. A aceleração das velocidades de transporte e de co-
municação, a interdependência dos centros urbanos [...] constituem igual-
mente um estado de fato irreversível que conviria antes de tudo reorientar.”
GUATTARI, Félix. As três ecologias. 11. ed.
Campinas: Papirus, 2001. p. 23‑24.

A ciência e a técnica devem ser reorientadas para finalidades mais humanas, segundo
Guattari. Os seres humanos não devem ser guiados cegamente por tecnocratas orientados
por interesses da sociedade capitalista. Claro está que se trata de uma reorientação de
acordo com a qual se leva em conta a situação econômica, cultural e política contempo‑
rânea, e não a volta ao passado, no qual as conquistas humanas, como as revoluções da
informática, da robótica e da genética, entre outras transformações recentes, com seus
benefícios e malefícios, não existiam.
46
No mesmo campo de preocupação, mas com formulações distintas, o filósofo no‑
rueguês Arne Naess (1912‑2009) criou o conceito de ecologia profunda. Ele criticou a
visão sobre a natureza predominante no mundo e propôs mudanças de ordem política,
social e econômica para a existência harmoniosa entre os seres vivos, ideias expostas no
Manifesto da ecologia profunda:

“1. O bem‑estar e o florescimento da vida humana e não humana sobre


a Terra são valores em si mesmos. Esses valores são independentes da
utilidade do mundo não humano para os fins do ser humano.
2. A riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realiza‑
ção desses valores e também são, em consequência, valores em si mesmos.
3. Os humanos não têm o direito de reduzir essa riqueza e essa diversi‑
dade, salvo para satisfazer as necessidades vitais.
4. O florescimento da vida e da cultura humanas é compatível com uma
redução substancial da população humana. O florescimento da vida não
humana requer esse abaixamento.
5. A intervenção humana no mundo não humano é atualmente excessi‑
va. E a situação vai degradando rapidamente.
6. No plano das estruturas econômicas, tecnológicas e ideológicas, te‑
mos de mudar nossas orientações políticas de forma drástica. A situação
resultante será profundamente diferente da atual.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

7. A mudança ideológica consiste principalmente em valorizar a qualidade


da vida (de viver em situações de valor intrínseco ), mais que em tratar sem
cessar de conseguir um nível de vida mais elevado. Terá de se produzir uma
tomada de consciência profunda da diferença que há entre o crescimento ma‑ Intrínseco: no
terial e o crescimento pessoal, independente do acúmulo de bens tangíveis . contexto, o que tem
8. Os que assinam os pontos que acabam de ser enunciados têm a obri‑ valor e importância
por si mesmo,
gação direta ou indireta de agir para que se produzam essas mudanças, independentemente
necessárias para a sobrevivência de todas as demais espécies do planeta, de sua relação com as
incluindo a do ser humano.” outras coisas.
NAESS, Arne; SESSIONS, George. Manifesto da ecologia profunda. Tangível: material;
Disponível em <www.servicioskoinonia.org/agenda/archivo/ palpável.
portugues/obra.php?ncodigo=304>. Acesso em 11 jan. 2016.

Nesse manifesto, a vida em geral na

zoltron
Terra e sua diversidade são compreen‑
didas como bens em si, cujo valor está
desatrelado da utilidade que podem ter
para o ser humano. No entanto, para que
a vida terrestre com sua diversidade seja
preservada, o ser humano tem de mudar
drasticamente sua orientação econômica,
tecnológica e ideológica. Isso significa que
a humanidade deve rever sua organização
econômica e sua forma de consumo, reo‑
rientar a utilização da tecnologia, além
de repensar a maneira como entende a
natureza e se relaciona com ela.

Grafite do artista Zoltron. Foto de 2014. Em suas


obras, Zoltron procura desenvolver uma arte
urbana em estreita conexão com a natureza,
propondo a retomada do espaço dos elementos
naturais nos grandes centros, o que seria
condição para uma relação mais saudável entre
os moradores da cidade e o meio ambiente.

47
Outras perspectivas

Mais reflexões e outras ações


Os primeiros filósofos indagaram sobre os princípios da natureza. Nessa reflexão,
buscaram a origem ou as razões de tudo o que existe. Descobriram que a natureza apre‑
senta certa legalidade, isto é, regras que a razão humana pode compreender. Assim, o
pensamento racional levantou voo.
A ideia de buscar as causas da existência das coisas permaneceu como algo funda‑
mental para o desenvolvimento da ciência e está presente até hoje, mas de outra forma.
As ciências moderna e contemporânea procuram as causas físicas dos fenômenos a fim
de estabelecer as leis naturais.
O indivíduo contemporâneo tem de lidar com uma situação provocada em grande
parte por suas ações, amparadas pela ciência e pela tecnologia. Os problemas são mais
amplos, complexos e urgentes do que os enfrentados pelos filósofos pré‑socráticos.
O ser humano tem de refletir sobre a situação da natureza, sobre seu modo de
entendê‑la e de explorá‑la e sobre a sociedade em que vive. Dessa reflexão e do agir
consequente dependem a vida na Terra, a condição de nossa espécie e as relações
entre os seres humanos.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Bernard pras ‑ Coleção partiCular

A grande onda (2007), instalação do artista plástico francês Bernard Pras. A obra, feita de materiais
encontrados no lixo, é uma releitura da gravura de Hokusai, reproduzida na abertura deste capítulo. se a
obra do japonês simbolizava o espanto humano diante da grandiosidade da natureza, a do francês mostra
a interferência, muitas vezes devastadora, do ser humano em seu ambiente. Entretanto, ao conferir uma
nova utilização para o lixo, o artista propõe uma forma diferente de lidar com a natureza.

48
Palavra de filósofo

Terra: a base da condição humana


Neste texto, escrito no final da década de 1950, a filósofa Hannah Arendt (1906‑1975) reflete sobre
o vínculo entre o ser humano e a Terra, salientando a necessidade de pensarmos sobre os rumos que
queremos dar ao desenvolvimento do conhecimento científico.

“Em 1957, um objeto terrestre, feito pela mão respirar sem esforço e artifício. O mundo – artifício
do homem, foi lançado ao Universo, onde durante humano – separa a existência do homem de todo
algumas semanas girou em torno da Terra segundo ambiente meramente animal; mas a vida, em si,
as mesmas leis de gravitação que governam o movi‑ permanece fora desse mundo artificial, e através da
mento dos corpos celestes – o Sol, a Lua e as estrelas. vida o homem permanece ligado a todos os outros
É verdade que o satélite artificial não era nem Lua organismos vivos. Recentemente, a ciência vem‑se
nem estrela; não era um corpo celeste que pudesse esforçando por tornar ‘artificial’ a própria vida, por
prosseguir em sua órbita circular por um período de cortar o último laço que faz do próprio homem um
tempo que para nós, mortais limitados ao tempo da filho da natureza. O mesmo desejo de fugir da prisão
Terra, durasse uma eternidade. Ainda assim, pôde terrena manifesta‑se na tentativa de criar a vida de
permanecer nos céus durante algum tempo; e lá fi‑ proveta, no desejo de misturar, ‘sob o microscópio,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cou, movendo‑se no convívio dos astros como se es‑ o plasma seminal congelado de pessoas comprova‑
tes o houvessem provisoriamente admitido em sua damente capazes a fim de produzir seres humanos
sublime companhia. [...] superiores’ e ‘alterar(‑lhes) o tamanho, a forma e a
O curioso, porém, é que essa alegria não foi triun‑ função’; e talvez o desejo de fugir à condição humana
fal; o que encheu o coração dos homens que, agora, esteja presente na esperança de prolongar a duração
ao erguer os olhos para os céus, podiam contemplar da vida humana para além do limite dos cem anos.
uma de suas obras, não foi orgulho nem assombro Esse homem futuro, que segundo os cientistas
ante a enormidade da força e da proficiência huma‑ será produzido em menos de um século, parece moti‑
nas. A reação imediata, expressa espontaneamente, vado por uma rebelião contra a existência humana tal
foi alívio ante o primeiro ‘passo para libertar o ho‑ como nos foi dada – um dom gratuito vindo do nada
mem de sua prisão na Terra’. [...] (secularmente falando), que ele deseja trocar, por as‑
Há já algum tempo este tipo de sentimento vem‑ sim dizer, por algo produzido por ele mesmo. Não há
‑se tornando comum; e mostra que, em toda parte, razão para duvidar de que sejamos capazes de realizar
os homens não tardam a adaptar‑se às descobertas essa troca, tal como não há motivo para duvidar de
da ciência e aos feitos da técnica, mas, ao contrário, nossa atual capacidade de destruir toda a vida orgâ‑
estão décadas à sua frente. Neste caso, como ou‑ nica da Terra. A questão é apenas se desejamos usar
tros, a ciência apenas realizou e afirmou aquilo que nessa direção nosso novo conhecimento científico e
os homens haviam antecipado em sonhos – sonhos técnico – e esta questão não pode ser resolvida por
que não eram loucos nem ociosos. [...]. meios científicos: é uma questão política de primeira
A Terra é a própria quintessência da condição hu‑ grandeza, e portanto não deve ser decidida por cien‑
mana e, ao que sabemos, sua natureza pode ser sin‑ tistas profissionais nem por políticos profissionais.”
gular no Universo, a única capaz de oferecer aos seres ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed.
humanos um habitat no qual eles podem mover‑se e Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. p. 9‑10.

Pensando o texto Ver comentários e orientações no Suplemento para o professor no final do livro.

Quintessência:
1. Explique as seguintes afirmações com base no texto. segundo
a) Os humanos estão décadas à frente das descobertas científicas e dos Aristóteles,
feitos técnicos. substância invisível
b) O ser humano deseja fugir da condição humana. e inalterável que
constituiria os
2. A Terra é a prisão do indivíduo ou o fundamento da condição humana? planetas e as
3. Em sua opinião, o desenvolvimento da ciência pode afetar, ou está afe- estrelas.
tando, a natureza humana? Debata com os colegas.

49
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...........................................................................................
...........................................................................................
Atividades
Sistematizando o conhecimento tudo o mais. Que o gênero humano recupere os
seus direitos sobre a natureza, direitos que lhe
1. O que diferencia o pensamento filosófico do competem por dotação divina. Restitua‑se ao
pensamento mítico? homem esse poder e seja o seu exercício guiado
por uma razão reta [...].”
2. Como a unidade e a variabilidade da nature- BACON, Francis. Novum organum. São Paulo: Abril
za motivaram as investigações dos primeiros Cultural, 1973. p. 94‑95. (Coleção Os Pensadores)
filósofos?
5. Com base nos trechos a seguir e em seus co-
nhecimentos, redija uma dissertação filosófica,
Aprofundando usando a escrita formal da língua portuguesa,
sobre o tema “Desenvolvimento sustentável:
3.

Carlos ruas
uma possibilidade ou uma ilusão?”. Busque
estruturar seu texto com uma pequena intro-
dução sobre o problema ou assunto que será
tratado, um desenvolvimento, com a exposição
de suas principais ideias, e uma conclusão.

“O desenvolvimento sustentável é aquele


que atende às necessidades do presente sem

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
comprometer a possibilidade de as gerações
futuras atenderem as próprias necessidades.”
COMISSÃO Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Nosso futuro comum. 2. ed. Rio de
Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1991. p. 46, 49.

“[O desenvolvimento sustentável] é uma


contradição, pois os dois termos se rejeitam
mutuamente. A categoria ‘desenvolvimento’
provém da área da economia dominante. Ela
obedece à lógica férrea da maximalização dos
benefícios com a minimalização dos custos e
do tempo empregado. Em função deste propó‑
sito se agilizaram todas as forças produtivas
para extrair da Terra literalmente tudo o que é
consumível. Ela foi torturada pela tecnociência
e submetida a um assalto sistemático de suas
riquezas no solo, no subsolo, nos ares e nos
Sócrates (2013), tirinha de Carlos Ruas.
mares. [...]
A tirinha expressa uma ideia sobre o surgi- A categoria ‘sustentabilidade’ provém do
mento do pensamento científico ocidental por
âmbito da biologia e da ecologia, cuja lógica é
meio da figura do filósofo. Explique por que
contrária àquela deste tipo de ‘desenvolvimento’.
essa relação é possível.
Por ela se sinaliza a tendência dos ecossistemas
4. Com base no texto abaixo, do filósofo Francis ao equilíbrio dinâmico e se enfatizam as inter‑
Bacon, explique a relação que ele estabelece dependências de todos, garantindo a inclusão de
entre a ciência, o ser humano e a natureza. cada ser, até dos mais fracos. Como se depreen‑
de, unir esse conceito de sustentabilidade ao de
“Por último, se se objetar com o argumento desenvolvimento configura uma contradição nos
de que as ciências e as artes se podem degradar,
próprios termos.”
facilitando a maldade, a luxúria e paixões se‑
melhantes, que ninguém se perturbe com isso, BOFF, Leonardo. Desenvolvimento (in)sustentável?
Disponível em <www.leonardoboff.
pois o mesmo pode ser dito de todos os bens do com/site/vista/2001‑2002/51‑desenvolv.htm>.
mundo, da coragem, da força, da própria luz e de Acesso em 12 jan. 2016.

50
..........................................................................................
..........................................................................................
..........................................................................................

lo
tu O que são valores?
2

Ca

A reflexão sobre o ser humano

Com o texto e a imagem da abertura, pretende-se estimular o aluno a refletir sobre a atitude dos humanos em relação a suas criações – no caso,
os robôs. Problematizar o emprego da inteligência artificial significa também refletir sobre as ações humanas, isto é, questionar as criações
humanas, bem como os limites de sua utilização. Trata-se, então, de uma reflexão ética introdutória ao capítulo a fim de sensibilizar o aluno para
o conteúdo que será tratado: alguns aspectos do pensamento ético antigo, moderno e contemporâneo.
Ver orientações complementares no Suplemento para o professor, no final do livro.

Os robôs precisam de regras?


Ver comentários e orienta-
ções no Suplemento para o
O filme Blade Runner, inspirado no livro Do androids dream of electric sheep?, Reflita professor, no final do livro.
retrata um mundo em que robôs criados para servir aos seres humanos rebelam-
-se contra a sua condição, tentando viver em liberdade. 1. Em sua opinião, quais são
os prós e os contras da
Com a criação de robôs cada vez mais sofisticados, muitos cientistas utilização de robôs?
defendem a necessidade de estabelecer regras para a utilização da in-
teligência artificial. Além disso, preocupam-se com as consequências do 2. Nas três leis básicas da
robótica, há algum princípio
desenvolvimento de máquinas dotadas de inteligência. O que aconteceria
ou valor que é considerado
se os robôs tomassem decisões por si mesmos, como ocorre em Blade
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

superior? Qual?
Runner? Imaginando esse cenário, o escritor de ficção científica Isaac
Asimov elaborou três leis para dirigir o comportamento dessas máquinas. 3. Discuta com os colegas
sobre a necessidade ou não
de normatizar a utilização e
“1 lei: um robô não pode ferir um ser humano [...].
a
o comportamento dos robôs,
2 lei: um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam da-
a
especialmente aqueles para
das por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens fins militares.
contrariem a primeira lei.
3a lei: um robô deve proteger a sua própria existência, des-
de que tal proteção não entre em conflito com a primeira e a
segunda leis.”
ASIMOV, Isaac. Eu, robô. 2. ed. 1969. Disponível em <www.
planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/
clle000024.pdf>. Acesso em 18 jan. 2016.
Warner Brothers/
Getty ImaGes

Na Conferência de Inteligência Artificial,


realizada em Buenos Aires, em 2015, mais de
mil cientistas assinaram uma carta aberta
contra a utilização de robôs militares au-
tônomos em guerras e conflitos. Na carta,
afirmaram que: “A questão-chave para a
humanidade hoje é se devemos começar
uma corrida de armas com inteligência arti-
ficial ou se devemos preveni-la de começar”.
INSTITUTO FUTURE OF LIFE. Armas autôno-
mas: uma carta aberta dos pesquisadores de
robótica e de inteligência artificial. Disponível
em <http://gizmodo.uol.com.br/carta-aberta-
fim-robos-militares>. Acesso em 1o fev. 2016.
Cena do filme norte-
-americano Blade Runner: o
caçador de androides (1982),
dirigido por Ridley Scott. Os
personagens Roy e Pris são
robôs que, desejando uma
vida em liberdade, rebelam-
-se contra os seres humanos,
seus criadores.

51
Descobrindo a tradição

Investigando o ser humano e seus valores


“A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida.”
CARTOLA; MEDEIROS, Elton. O Sol nascerá.
In: Cartola. São Paulo: Discos Marcos Pereira, 1974. LP.

O Sol nascerá é uma canção dos compositores Cartola e Elton Medeiros. O argumento
do eu lírico pode ser assim ordenado: como chorando eu perdi a mocidade, pretendo
levar a vida sorrindo. É uma espécie de conselho de como viver melhor. A busca de uma
vida boa parece ser comum a todos os seres humanos. Todos procuram viver bem. Mas
eis o problema: o que é bem? O que é mal? O que é bom? O que é ruim? O que devemos
fazer ou não fazer para viver bem?
Na abertura deste capítulo, refletimos sobre a normatização do uso e do compor-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
tamento de robôs. Perguntamos a nós mesmos em que o emprego de robôs militares
prejudicava ou beneficiava o ser humano e se sua utilização não feria princípios ou valores
humanos importantes. Qualquer que tenha sido nosso entendimento sobre o assunto,
realizamos uma reflexão ética. Ética é o campo de reflexão sobre a prática, nossas ações
e o que as motiva, e sobre valores que orientam nosso comportamento: o que é bom ou
ruim, bem ou mal, justo ou injusto etc.
Ao pensar sobre a situação de nossa relação com a natureza e sobre o que devemos
fazer para garantir nosso bem e o das futuras gerações, como fizemos no capítulo 1, por
exemplo, desenvolvemos reflexões éticas.

CalvIn & hoBBes, BIll Watterson © 1993 Watterson/DIst. By UnIversal UClICk

Calvin e Haroldo (1993), tirinha de Bill Watterson. Nossa vida está repleta de reflexões éticas, como a
contida no dilema vivido por Calvin.

52
O que é o ser humano?
Como vimos, os primeiros filósofos perguntaram sobre a natureza: o
Sofista: palavra derivada do grego
que é a natureza (physis)? Qual é seu princípio? O que é uno? O que é
sophistés, que significa algo como
múltiplo? Qual é a matéria primordial da qual tudo surge e para a qual “professor de sabedoria”. Designa
tudo retorna? Ao investigar a natureza, esses pensadores acreditavam que o filósofo que ensinava os jovens
poderiam compreender melhor o ser humano. Afinal, nós também fazemos da Grécia antiga em troca de
parte da natureza. Mas o homem e as coisas humanas só se tornaram o foco remuneração.
principal da reflexão filosófica durante o período clássico da filosofia grega, Pejar: envergonhar-se.
entre os séculos V e IV a.C., graças aos sofistas e ao filósofo Sócrates. Em
certo sentido, a partir deles as investigações passaram a tentar responder
à pergunta: “O que é o ser humano?”.

“[...] enquanto tiver alento e puder fazê-lo, jamais deixa-


rei de filosofar, de vos dirigir exortações, de ministrar en-
sinamentos em toda ocasião àquele de vós que eu deparar,
dizendo-lhe o que costumo: ‘Meu caro, tu, um ateniense,
da cidade mais importante e mais reputada por cultura
e poderio, não te pejas de cuidares de adquirir o máxi-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

mo de riquezas, fama e honrarias, e de não te importares


nem cogitares da razão, da verdade e de melhorar quanto
mais a tua alma?’.
[...]
Outra coisa não faço senão andar por aí persuadin-
do-vos, moços e velhos, a não cuidar tão aferradamente
do corpo e das riquezas, como melhorar o mais possível
a alma, dizendo-vos que dos haveres não vem a virtude
para os homens, mas da virtude vêm os haveres e to-

RogéRio BoRges
dos os outros bens particulares e públicos.”
PLATÃO. A defesa de Sócrates.
São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 15. (Coleção Os Pensadores)

Para pensar

O texto é um trecho da obra A defesa de Sócrates. Nele, o filósofo Platão


A reflexão sobre o trecho citado, no qual
descreve o modo como seu mestre, Sócrates, defendeu-se em julgamento, Sócrates discorre a respeito do convite que
faz aos homens para voltarem a si mesmos e
no qual foi condenado à morte, aos 70 anos de idade, acusado de corromper cultivarem a própria alma, coloca em questão a
a mocidade e negar os deuses oficiais da cidade. Pelas palavras de Sócrates, preocupação com a boa vida e com os valores
que devem norteá-la. O aluno pode concordar
é possível perceber algumas de suas ideias. ou discordar, total ou parcialmente, da posição
de Sócrates. O importante é que justifique suas
Para Sócrates, o que tem mais valor do que todas as outras coisas? Você posições com argumentos coerentes.
Vale destacar para os alunos o fato de que
concorda com ele? Por quê? refletir a respeito do que é melhor para a vida
implica pensar sobre valores.

Por que os cidadãos inquiridos por Sócrates deveriam ter vergonha de


buscar “riquezas, fama e honrarias”? O problema não estava em adquirir essas
coisas, mas em considerá-las o centro da vida, sem se importar com a razão
e com a busca da verdade e sem procurar melhorar a alma ou a consciência,
entendidas por Sócrates como a essência humana. Quer dizer, ao agir apenas
em busca de bens materiais e honrarias, o ser humano se descuidava do que
era mais importante para o seu aprimoramento.

53
Descobrindo a tradição

O diálogo: o filosofar socrático


Os atenienses conheciam um hábito que Sócrates cultivou por boa parte da vida: o de
conversar com as pessoas. Ele tentava sempre fazer do diálogo uma oportunidade para
que seus interlocutores avançassem no conhecimento, refletindo sobre as coisas humanas.
Por meio de perguntas e respostas, de argumentação e contra-argumentação, buscava
depurar o pensamento – isto é, tornar as ideias claras –, livrando-o dos preconceitos, das
convicções tradicionais adquiridas sem reflexão ou sem fundamento racional, para depois
revelar o verdadeiro conhecimento, que residiria na mente de cada pessoa. O reconhecimento
da ignorância e o questionamento das certezas eram o ponto de partida da filosofia socrática.
No método socrático, o interlocutor era convidado a procurar a verdade. A partir de
então a conversação era composta de uma parte inicial negativa – na qual o filósofo usava
ironia para indagar seu interlocutor sobre determinado assunto ou conceito, levando-o a
cair em contradições e a se desfazer de suas ilusões – e de outra positiva – a maiêutica,
expressão relacionada à arte de “fazer partos”. O filósofo acreditava ser uma espécie de
“parteiro das ideias”, ou seja, alguém que ajudava a trazer à luz ideias verdadeiras. O diálogo
era, assim, o melhor instrumento para buscar a verdade ou o conhecimento verdadeiro.
Leia um exemplo de diálogo socrático. Trata-se de um diálogo entre Sócrates e o
sofista Trasímaco, presente no livro A República, de Platão, no qual é discutido o conceito

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de justiça. O sofista havia afirmado que “o justo é o vantajoso para o mais forte”. Dessa
afirmação decorreram as indagações de Sócrates.
A justiça (1961),
escultura de Alfredo “Sócrates – [...] Explica-me... Não afirmas, entretanto, que também
Ceschiatti, no Supremo obedecer aos governantes é justo?
Tribunal Federal, em Trasímaco – Afirmo.
Brasília. Para Sócrates, Sócrates – São infalíveis, em cada uma das cidades, os governantes ou
não era possível
podem cometer erro?
conhecer a justiça pelos
exemplos de homens Trasímaco – Certamente, disse ele, podem cometer erro.
ou de ações justas, mas Sócrates – Então, quando se põem a fazer leis, umas as fazem de modo
por meio da definição correto, outras, de modo não correto.
conceitual. Trasímaco – É o que penso...
Sócrates – Fazê-las de modo correto é estabelecer vantagens para si
João Prudente/Pulsar Imagens

mesmo? E de modo não correto é estabelecer desvantagens? Ou é outra


coisa que estás dizendo?
Trasímaco – É isso mesmo.
Sócrates – Mas o que foi instituído por eles os subordinados têm de
fazer, e é isso o justo?
Trasímaco – Como não?
Sócrates – Ah! De acordo com teu raciocínio, não só é justo fazer o que
é vantajoso para o mais forte, mas também o contrário, o não vantajoso.
Trasímaco – O que estás falando? Disse.
Sócrates – [...] Ao determinar que os subordinados façam algo, os go-
vernantes às vezes falham na avaliação do que é melhor para si próprios
mas que, para os subordinados, o justo é fazer o que os governantes de-
terminam? Nisso não estávamos de acordo?
Trasímaco – Creio que sim.
Sócrates – [...] É justo fazer o que é desvantajoso para os governantes
e para os mais fortes, quando os governantes, sem querer, ordenam para
si mesmos o que é mau, e para os subordinados, afirmas, é justo cumprir
as ordens que lhes foram dadas. Nesse caso, ó sábio Trasímaco, não é ine-
vitável a conclusão de que justo é fazer o contrário do que dizes? Fazer o
desvantajoso para o mais forte foi o que ordenaram aos mais fracos...”
PLATÃO. A república. Livro I. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 21-22.

54
Nesse diálogo, Sócrates levou a afirmação de Trasímaco a uma contradição – “é justo
não só fazer o que é vantajoso para o mais forte, mas também o contrário, o que não é
vantajoso” –, demonstrando que a definição de justiça do sofista não era verdadeira e
abrindo a possibilidade de seu interlocutor pensar mais claramente sobre o conceito de
“justiça” e sobre os outros valores que dizia conhecer. Ao agir dessa maneira, Sócrates
buscava instigar a consciência crítica de quem participava de seus diálogos.
Assim procedia conversando com políticos, sofistas, artistas e qualquer cidadão de
Atenas sobre “amor”, “verdade”, “bem”, “bondade”, “conhecimento” e “sabedoria”, en-
tre outros temas relacionados às virtudes humanas. Segundo o pensamento socrático,
para praticar uma virtude, é preciso conhecê-la. De acordo com esse pensamento, para
praticar a justiça, por exemplo, é preciso saber o que é justiça; para praticar a bondade,
é preciso saber o que é bondade, e assim por diante – é preciso conhecer a essência de
cada conceito. Por isso, o conhecimento é o fundamento da moralidade socrática, isto é,
para agir bem, é preciso conhecer.
Era pela importância do conhecimento dos conceitos que Sócrates buscava investigá-
-los rigorosamente, para que a alma, ao evitar o engano, evoluísse, aperfeiçoando-se. O
ser humano virtuoso seria aquele que dedicasse a vida ao aprimoramento da alma ou da
consciência, procurando conhecer a verdade por meio da atividade racional.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Sócrates (c. 470-399 a.C.)

Nasceu e viveu em Atenas, na Grécia. Ele conhecia


a doutrina dos filósofos que o antecederam, mas
elegeu o ser humano, e não a natureza, como
objeto principal de reflexão. O filósofo acreditava
que a virtude humana poderia ser alcançada pelo
autoconhecimento e pela utilização da razão como
guia para viver bem. Por ter colocado o indivíduo no
centro da reflexão filosófica, Sócrates é considerado
um marco do pensamento ético.
O filósofo não deixou registros escritos, e suas ideias
GUGa BaCan

foram transmitidas por seus discípulos, sobretudo


Platão e Xenofonte.

Arte conceitual
Na obra Uma e três cadeiras, de Joseph
Kosuth, é possível fazer analogias entre o
rigor conceitual socrático e o movimento
artístico conhecido como arte conceitual,
que teve início na década de 1960, ques-
FlorenCe - mUseU De arte moDerna, nova york
© kosUth, JosePh/aUtvIs, BrasIl, 2016. sCala,

tionando a natureza da arte. O conceito era


mais importante do que a produção artística.
Na obra de Kosuth, um exemplo de arte
conceitual, são mostradas três expressões
de uma cadeira: uma cadeira dobrável, a
fotografia de uma cadeira e a definição de
um dicionário em língua inglesa da palavra
cadeira. Ao demonstrar que uma cadeira
pode ter diversas formas e várias represen-
tações, o artista estimula o espectador a
Uma e três cadeiras (1965), obra de Joseph Kosuth. refletir sobre o conceito desse objeto.

55
Descobrindo a tradição

Existe só uma verdade?


O ser humano virtuoso seria aquele que dedicasse a vida à busca racional da verdade,
pois, conhecendo o bem, a justiça e as outras virtudes, poderia ter uma vida boa e justa.
Assim pensavam Sócrates e Platão. Mas é possível realmente conhecer o bem, a justiça
ou a verdade? Em outras palavras, existe apenas uma verdade, uma justiça ou um bem?
Esses valores não dependem da opinião ou do modo de pensar de cada um?

O objetivo é instigar a reflexão


no âmbito da problemática Para pensar
entre o relativismo e o abso-
lutismo morais, que será mais
bem desenvolvida à frente. Para você, os valores dependem da opinião de cada um ou são universais, isto é,
No momento, é importante
“despertar” o aluno para essa válidos para todos?
problemática, que muitas
vezes pode ser vivenciada
sem que haja um processo de
questionamento. A discussão
sobre o assunto pode sensi-
Anteriores e contemporâneos a Sócrates, os sofistas – Protágoras, Górgias, Antífonte,
bilizar e favorecer o aprofun- Trasímaco, Pródico e Hípias, entre outros – tiveram muita importância na trajetória da
damento reflexivo futuro, bem
como ajudar o aluno a tomar filosofia. Se os primeiros filósofos foram responsáveis pela “descoberta da natureza”, os
consciência da complexidade
do tema.
sofistas deram início à “descoberta do humano”. Isso significa que eles se voltaram para
a experiência humana, deixando de lado as especulações sobre a natureza.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Oriundos de várias cidades gregas, os sofistas convergiram para Atenas no século V a.C.,
acompanhando o desenvolvimento econômico, social, cultural e político da mais importante
cidade-Estado do mundo grego na época. Eles eram professores profissionais – os primeiros
na história do Ocidente – que ensinavam jovens interessados em especializar-se em alguma
técnica ou ofício e em participar dos negócios da pólis. Transmitiam conhecimentos úteis a
todos aqueles que estivessem dispostos a pagar pelos seus ensinamentos.
Muitos sofistas ressaltaram o contraste entre a destinação natural e a destinação
Nomos: convenção
social, acordo humano, social do ser humano. Alguns, seguindo a tradição aristocrática, defendiam o caráter
costume. necessário e imperativo das leis, costumes e valores da sociedade, pois afirmavam que
eram naturais (physis) e não dependiam da vontade humana; outros diziam que as
leis humanas não eram universalmente obrigatórias, pois eram criadas por convenção
( nomos ), não sendo, por esse motivo, absolutas, mas relativas, variando sua conve-
niência de cidade para cidade.

© Photothèque R. MagRitte, MagRitte, René/autViS, BRaSil,


2015 - KunStSaMMlung noRdRhein-WeStfalen, duSSeldoRf

Invenção coletiva (1934),


pintura de René Magritte.
Diante dessa obra, que
desestabiliza as fronteiras
entre o mundo humano e
o mundo natural, somos
levados a refletir sobre
os pontos comuns e as
oposições entre essas duas
esferas. De acordo com
muitos sofistas, o mundo
humano se regula por
nomos, que é o terreno
do incerto, enquanto
a natureza – a physis –
obedece a leis previsíveis.

56
A contraposição entre nomos e physis – o que é por natureza e o que é por convenção, Contingente: que
o que não pode mudar e o que é contingente – estendeu-se a diversos assuntos na Atenas pode ou não ocorrer;
daquele período (séculos V e IV a.C.). Por exemplo, discutia-se se os deuses existiam de casual.
fato – isto é, por physis – ou se eram criações humanas por nomos; se as cidades se cons-
tituíram por ordenação natural ou por nomos; se, entre os seres humanos, as distinções
sociais eram naturais ou decorrentes de convenção social; se a escravidão era natural ou
convencional, ou seja, se o indivíduo era escravo por natureza ou não.
As polêmicas também alcançaram os valores ou os conceitos morais, como justiça e
injustiça, verdade e mentira, bem e mal, como ficou claro no trecho de A República, de
Platão, reproduzido na página 54.

A democracia ateniense
As pólis, cidades-Estados gregas da Antiguidade, apesar da língua e de muitos elemen-
tos culturais em comum, eram independentes umas das outras: possuíam instituições
políticas, jurídicas e militares próprias e buscavam ser economicamente autossuficientes.
A pólis representava essencialmente uma comunidade cívica, ou seja, de cidadãos.
Vale lembrar, porém, que a cidadania na Grécia antiga não era estendida às mulheres, às
crianças, aos estrangeiros e aos escravos. Era um direito concedido apenas aos homens
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

adultos livres nascidos na cidade.


A maior das pólis foi Atenas, onde, no século V a.C., a democracia atingiu sua pleni-
tude. Nas assembleias, os cidadãos atenienses tinham os direitos de opinar e de votar
sobre as decisões que se referiam ao destino da pólis.
Os sofistas se ocupavam em ensinar, sobretudo, os jovens a ser virtuosos políticos ou
cidadãos aptos a ocupar cargos de destaque nos negócios da cidade.

Ilustração atual de como poderia ter sido


uma ágora — praça pública da cidade-
-Estado onde os cidadãos se reuniam para
realizar negócios e assembleias populares.

Carlos Caminha

Sugerimos esclarecer aos alunos a diferença entre democracia direta (praticada em Atenas, na Antiguidade) e democracia indireta (ou representativa). No modo
direto, os cidadãos discutem e votam diretamente sobre os assuntos de governo. No modo indireto, os cidadãos elegem seus representantes, como acontece
no Brasil hoje. Vale destacar o fato de que, na democracia indireta, cabe aos cidadãos acompanhar a atuação dos representantes eleitos. 57
Descobrindo a tradição

A retórica e a verdade
Na cidade-Estado de Atenas, o domínio da palavra tinha muita importância.
tarker/BrIDGeman ImaGes/keystone BrasIl -
mUseU arqUeolóGICo De olímPIa

A habilidade de convencer os outros era algo decisivo para o cidadão ateniense,


que vivia em uma democracia na qual os problemas relacionados à sociedade
eram discutidos em assembleias públicas e as decisões eram tomadas por meio
de votação. Nesse contexto, era evidente a importância da argumentação, da
capacidade de persuasão do cidadão. Por isso, muitos sofistas ensinavam retó-
rica aos seus alunos. Retórica é a arte de bem utilizar a palavra para persuadir
os ouvintes.
A retórica era um instrumento de poder, pois influenciava as importantes
decisões que eram tomadas na cidade e, consequentemente, o domínio dessa
arte abria muitas perspectivas para o cidadão ateniense.

Máscara teatral grega do “[...] a retórica, por assim dizer, abrange o conjunto das artes, que ela
século IV a.C. Segundo mantém sob sua autoridade. Vou apresentar uma prova eloquente disso
Quintiliano (35-95 d.C.), mesmo. Por várias vezes fui com meu irmão ou com outros médicos à casa
professor de retórica de doentes que se recusavam a ingerir remédios ou a deixar-se amputar
romano, o orador
ou cauterizar; e, não conseguindo o médico persuadi-los, eu o fazia com a
deveria, à semelhança

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de um dramaturgo, ajuda exclusivamente da arte da retórica. Digo mais: se na cidade que qui-
cumprir o papel de ator seres, um médico e um orador se apresentarem a uma assembleia do povo
e identificar-se com seus ou a qualquer outra reunião para argumentar sobre qual dos dois deverá
ouvintes, tornando-os ser escolhido como médico, não contaria o médico com nenhuma proba-
espectadores de sua arte. bilidade para ser eleito, vindo a sê-lo, se assim o desejasse, o que soubesse
falar bem. [...] Tal é a natureza e a força da arte da retórica!”
PLATÃO. Górgias. In: Protágoras, Górgias, Fedão.
2. ed. Belém: EDUFPA, 2002. p. 140-141. (Coleção Platão Diálogos)

Como se pode ver na exposição do sofista Górgias reproduzida por Platão em seu
diálogo, a retórica era considerada a arte das artes, pois, por meio da palavra bem utilizada,
podia-se persuadir qualquer pessoa. Ela era um instrumento poderoso em uma sociedade
na qual os negócios importantes da pólis eram decididos em assembleias.
Tal defesa da retórica foi severamente criticada em diversos momentos por Sócrates
e Platão. Para eles, os sofistas falavam de coisas sobre as quais não tinham conhecimento
e convenciam os ignorantes. Por exemplo, quem realmente tivesse conhecimento sobre
medicina confiaria mais em um médico do que em um hábil orador, capaz de iludir por
palavras. Só os que ignoravam essa ciência seriam convencidos por um discurso. Nesse
sentido, a retórica sofística seria a arte ou o método da ilusão, que se relacionaria à opinião
e à aparência, mas não se comprometeria com o conhecimento nem revelaria a verdade.
Observe como Sócrates, no mesmo diálogo, rebateu Górgias.

“Em outros termos: se sem conhecer as coisas em si mesmas e sem saber


o que é o bem e o mal, o belo e o feio, o justo e o injusto, dispõe de um método
especial de persuasão que aos olhos dos ignorantes o faça parecer mais sábio
do que os entendidos. Ou será necessário conhecer essas coisas, por havê-las
aprendido antes de procurar-te para estudar retórica? Se não for o caso, na
qualidade de professor de retórica, nada terás de ensinar a quem te procurar,
a respeito desse assunto, pois não faz parte de tua profissão, cumprindo-te
apenas deixá-lo em condições de parecer às multidões que conhece tudo isso,
embora o desconheça, e passe por homem de bem, ainda que não seja?”
PLATÃO. Górgias. In: Protágoras, Górgias, Fedão. 2. ed. Belém: EDUFPA, 2002. p. 145.
(Coleção Platão Diálogos)

58
Relativismo e absolutismo moral
A persuasão pode levar à crença sem conhecimento ou ao conhecimento, mas Sócrates
acusou Górgias, e os sofistas em geral, de só se importar em convencer, e não em conhecer
a verdade. Os sofistas falariam de tudo, sem conhecer nada, lidando apenas com a opinião.

“O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são o que são,
e das coisas que não são o que não são.”
PROTÁGORAS. In: GUTHRIE, William K. C. Os sofistas. São Paulo: Paulus, 1995. p. 173.

Essa declaração é atribuída a Protágoras. Ela resume uma posição relativista sobre as
coisas, pois, se o homem é a medida de todas as coisas, a verdade é algo relativo a cada
indivíduo, isto é, depende de sua interpretação ou percepção; é algo subjetivo, que se
refere a cada sujeito. Por exemplo, o mel pode parecer doce para alguns e amargo para
outros; um indivíduo sente frio ao perceber uma brisa, enquanto outro sente calor, e as-
sim por diante. Então, o que é bom para determinada pessoa pode ser ruim para outra.
Assim também acontecia com o justo e o injusto ou o bem e o mal. Diferentemente do
que defendiam Sócrates e Platão, não existia uma verdade (justiça ou bem) em si, inde-
pendentemente do que cada pessoa pensa, que todos deviam buscar. Na reflexão ética,
essas duas posições são conhecidas como absolutista e relativista. Até hoje, há divisão
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de opiniões sobre isso, com defesas e ataques de ambos os lados.

Relativismo
De acordo com os defensores do relativismo, pessoas de culturas e de sociedades
diferentes têm ideias diversas acerca dos valores morais, como o bem e o mal. Em uma
mesma sociedade, os valores também mudam com o tempo. O que antes era considerado
vergonhoso, hoje pode ser aceito como louvável ou vice-versa. Há discordância sobre o
que é o bem e o mal também entre indivíduos de uma mesma sociedade. Assim, não há
juízos morais absolutos; todos são relativos ao indivíduo ou à sociedade.
m.C. esCher’s “relatIvIty” © 2016 the m.C. esCher ComPany-
-hollanD. all rIGhts reserveD.

Relatividade (1953), gravura de M. C. Escher.


Nessa obra, o artista explora a relatividade
espacial. Em um desenho bidimensional,
por meio da perspectiva, ele trabalha com
planos e centros de gravidade diferentes,
possibilitando ao observador diversas leituras
tridimensionais. Para os relativistas, os
valores morais não são absolutos e podem
ser interpretados de diversas maneiras.

59
Descobrindo a tradição
Absolutismo
Os que se alinham nessa corrente argumentam que, se não houvesse valores morais
objetivos, isto é, independentes do que pensa cada sujeito e que aspiram à universalidade,
não seria possível criticar qualquer conduta. Um indivíduo poderia cometer as ações mais
degradantes e não poderia ser repreendido. Tais ações, por sua vez, não seriam classificadas
como “degradantes”. Isso inviabilizaria a vida em sociedade.
Além disso, de acordo com os absolutistas, a preocupação ética está presente em todas
as sociedades humanas e é possível dizer que há princípios universais, como “a sociedade
deve cuidar das crianças”, “deve-se proteger a vida humana” ou “é errado mentir”.
Umar QayyUm/XinhUa Press/Corbis/LatinstoCk

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Crianças em Peshawar, Paquistão, durante as comemorações do dia 20 de novembro, reconhecido pela
Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Mundial das Crianças. Foto de 2015. A proteção às
crianças deve ser um princípio ético universal. Apesar disso, elas ficam extremamente vulneráveis em
várias situações desencadeadas por conflitos bélicos e pela desigualdade socioeconômica, entre outras.

Espera-se que o aluno defen-


da sua posição com argumen- Para pensar
tos sobre a problemática. Isso
implica uma gama de possi-
bilidades: apoio ao absolu- Você considera mais aceitável o absolutismo ou o relativismo moral? Justifique.
tismo, apoio ao relativismo,
defesa de uma terceira via
que mescle e recuse aspectos
das posições antagônicas,
conclusão pela inviabilidade
de uma decisão, alegação da É possível construir uma terceira via?
necessidade de estudos mais
profundos etc. De qualquer A polêmica sobre o caráter relativo ou absoluto dos valores humanos percorreu boa
maneira, o aluno refletirá e
elaborará argumentos, isto é, parte da história da filosofia e ainda permanece. Então, por que precisamos nos preocupar
dará passos no caminho da
reflexão filosófica.
com os valores morais? Se não há clareza sobre como devemos proceder em relação a
eles, se não há nem mesmo consenso sobre se eles são relativos ou absolutos, por que
simplesmente não deixamos as questões morais de lado e seguimos em frente?
A resposta mais básica a essa pergunta é a seguinte: isso não é possível. A valoração
das coisas, das pessoas, das ideias e das ações é algo muito frequente para o ser humano.
Diferentemente dos outros animais, o ser humano usa a razão para guiar sua vida ou,
pelo menos, parte dela. Mesmo os indivíduos considerados profundamente emotivos e
irracionais, em algum momento, refletem racionalmente sobre o que devem fazer.

60
Para pensar O que evidencia a humaniza-
ção do dinossauro Horácio
é o fato de que, além de
compreender uma lingua-
© Mauricio de SouSa editora Ltda. gem humana expressa pelo
mamute (também humani-
zado), ele se autoindaga a
respeito de um problema
ético: quem tem mais direito
à vida? Só o ser humano re-
flete sobre problemas éticos
como esse.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Quem tem mais direito à vida? (2015), tira de Mauricio de Sousa.

O que evidencia, na tira, a humanização do dinossauro Horácio?

Se você, por exemplo, dedica mais tempo ao estudo do que ao descanso na rede, tem
a convicção de que isso é melhor para sua vida; se você se preocupa com a situação difícil
de uma amiga, dá valor a ela e à amizade; se chora a perda de um ente, valoriza a vida e o
amor entre as pessoas. Estamos sempre tendo de refletir e decidir sobre as nossas atitudes
e os valores nelas implicados – a mentira, a traição, o engano, a injustiça, a verdade, o
amor... Nesse sentido, é impossível ser amoral, isto é, viver sem entender minimamente
o que os valores significam. Se assim fosse, nós nos aproximaríamos da vida dos outros
animais, quer dizer, abdicaríamos de nossa humanidade.
Além disso, como alertou o filósofo Aristóteles, discípulo de Platão, o ser humano
não é apenas racional; ele também é um ser social ou político. E, para viver em sociedade,
é necessário cumprir regras e normas de convivência, além de observar as leis, escritas
ou não escritas, que regulam as relações entre as pessoas. Novamente somos obrigados
a pensar sobre o que é melhor para a sociedade e para todos os que dela fazem parte.
Estamos de volta às reflexões éticas.
Talvez tenhamos de nos dedicar a construir uma possibilidade intermediária entre
o relativismo e o absolutismo, levando em conta, de alguma maneira, as preocupações
legítimas dos defensores das duas posições. Acreditar de maneira veemente que os
valores humanos são absolutos é, em certa medida, ignorar as diferenças culturais que
estão presentes em todo o mundo. Em contrapartida, o relativismo extremado implica
não só a defesa de que cada sociedade deve ter suas normas e valores, mas também a
de que cada indivíduo tem valores independentemente da sociedade. Isso levaria cada
um a agir como bem entendesse, o que impossibilitaria o convívio social e, por extensão,
inviabilizaria a sociedade.
Cabe à humanidade construir acordos mínimos sobre valores humanos que não sejam
entendidos como absolutos, mas que tendam ao universal; afinal, a condição humana se
expressa também na constante reflexão que o homem faz de sua vida, de suas ações e
da sociedade. Será isso possível?
61
Outras perspectivas

Os direitos humanos universais

stF/aFP

Abertura da 3a Assembleia
Geral da ONU, em
setembro de 1948. As
discussões realizadas nesse
encontro levaram à criação
da Declaração Universal
dos Direitos Humanos,
proclamada em 10 de

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
dezembro de 1948.

Um dos exemplos mais importantes de tentativa de universalização de valores e


direitos na sociedade contemporânea é a Declaração Universal dos Direitos Humanos,
documento elaborado e adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948.
Nessa declaração, parte-se de valores como o respeito à vida e à dignidade humanas para
estimular os países-membros da ONU a adotar políticas públicas que possibilitem sua
prática efetiva. Leia a seguir alguns de seus artigos.

“A Assembleia geral proclama a presente Declaração universal dos Di-


reitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos
e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da
sociedade, tendo sempre em mente esta declaração, se esforce, através
do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e li-
berdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e
internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância
universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-membros
quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.

Artigo 1.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.
São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos ou-
tros com espírito de fraternidade.
Artigo 2.
1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades
estabelecidos nesta declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de
raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, ori-
gem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
[...]
Artigo 3.
Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4.
Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o trá-
fico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

62
Artigo 5.
Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel,
desumano ou degradante.
[…]
Artigo 7.
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual
proteção da lei. Todos têm igual proteção contra qualquer discriminação que
viole a presente declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
[…]
Artigo 13.
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência
dentro das fronteiras de cada Estado.
[…]
Artigo 18.
Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e
religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liber-
dade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo cul-
to e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.
Artigo 19.
Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este
direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e indepen-


dentemente de fronteiras.
[…]
Artigo 26.
1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita,
pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elemen-
tar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a to-
dos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da per-
sonalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos
e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a
tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e
coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
[…].”
ORGANIZAÇÃO das Nações Unidas. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Paris,
1948. Disponível em <http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.
pdf>. Acesso em 15 jan. 2016.
André dAhmer

Vida e obra de Terêncio


Horto (2014), tirinha de
André Dahmer. A tirinha
levanta uma questão
importante: a defesa dos
direitos humanos inclui
toda a espécie humana
e deveria, portanto, ser
apoiada por todos os
indivíduos.
Os alunos podem citar ou não os direitos descritos no trecho reproduzido da Declaração Universal dos Direitos Humanos
(DUDH). Podem defender ou achar inviável a tentativa de universalizar os direitos. O importante é que eles desenvol-
vam reflexões a respeito da problemática universal dos direitos e valores e argumentem sobre a escolha que fizerem.
Para pensar Espera-se, por exemplo, que expliquem por que a liberdade é um direito importante para todos os seres humanos.

Que valores deveriam ser respeitados por toda e qualquer sociedade? E que direitos
deveriam ser garantidos a todos os seres humanos? Justifique.

63
Outras perspectivas

Universalidade e diferença
A Declaração Universal dos Direitos Humanos parte do pressuposto de que existem
valores que todos os indivíduos devem respeitar. O respeito a tais valores, por sua vez,
deve se efetivar em direitos e em leis, para que todos tenham uma vida digna. Se esses
direitos ainda não tiverem sido conquistados plenamente, o Estado e a sociedade devem
atuar para torná-los universais, isto é, comuns a todas as pessoas.
Nessa discussão também incide a problemática do caráter universal dos valores. Se,
por um lado, é louvável a ideia de que todo ser humano deve ter acesso a determinados
valores – como a vida, a liberdade de pensamento, de expressão e de locomoção, a justiça
e a igualdade –, por outro, a implementação desses valores em lei sofre resistências de
diversas ordens. A começar pela definição dos valores, que são entendidos diferentemente
em cada cultura. Para que a declaração se torne lei e esta faça parte da vida das pessoas
de todos os países-membros da ONU, é preciso enfrentar diferenças e interesses políticos,
econômicos, jurídicos, religiosos e culturais.
Nesse aspecto, é esclarecedor o texto do filósofo político italiano Norberto Bobbio
(1909-2004):

Signatário: aquele “A dificuldade em encontrar fórmulas aptas a exprimir os ideais huma-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
que assina um nitários comuns aos Estados signatários , conciliando as diferenças referen-
documento, no caso, a tes a tradições jurídicas, sistemas políticos e fé religiosa, é muito notável.
Declaração Universal Essas diferenças não existem apenas entre os Estados ocidentais e Estados
dos Direitos Humanos. de ‘democracia popular’, entre mundo cristão e mundo islâmico, entre tra-
Common law: na dições anglo-saxônicas de common law e tradições continentais de ‘direito
tradução, direito comum. civil’. Frequentemente, há diferenças de considerável importância entre
Trata-se de um direito países que têm muito em comum, entre os Estados unidos e grã-Bretanha
que se desenvolveu em e entre os países da Europa Ocidental, do mundo árabe e da América latina.
alguns países nos quais se Não são de menor relevância as diferenças de condição econômica e
adotam as decisões dos
social. A tomada de um compromisso internacional de garantia dos di-
tribunais, e não apenas
a legislação, ou seja, reitos humanos e das liberdades individuais, sobretudo dos direitos em
a decisão de um caso matéria de cultura, e dos direitos econômicos e sociais e ainda dos direitos
depende das decisões de de ordem civil e política, é certamente menos onerosa para os países de
casos anteriores. avançado nível econômico e social do que para os países menos evoluídos
de recente formação, ou limitados em seus recursos naturais ou sacudidos
por fenômenos de ineficiente valorização dos fatores de produção. uma
coisa é empenhar-se internacionalmente em garantir a cada indivíduo o
‘direito ao estudo’ para um Estado economicamente avançado, já dotado
de uma organização escolar adequada, e outra para um Estado novo eco-
nomicamente em baixa, desprovido de tal organização.”
BOBBIO, Norberto e outros. Direitos humanos. In: Dicionário de política.
Brasília: UnB, 1986. p. 356.

As diferenças entre países e culturas engendram problemas éticos. Essas diferenças de-
vem ser respeitadas de maneira absoluta? Por exemplo, organizações internacionais como
a ONU devem ou não interferir em um país em que a escravidão é disseminada? Onde a
mutilação do órgão sexual feminino faz parte de procedimentos culturais? Onde a prática
de apedrejamento por adultério é frequente, ou uma minoria religiosa é massacrada? Será
que isso não é impor um padrão relativo como se fosse universal? Em contrapartida, permitir
a manutenção de situações que ferem a dignidade humana não é algo controverso?
E os países que dirigem a ONU não têm objetivos particulares? Não manipulam essa
organização para que ela atue de acordo com seus interesses? Por trás da neutralidade e
da defesa de valores e de direitos universais não se escondem interesses particulares? A
declaração não reflete uma visão muito ocidental ou capitalista do mundo?

64
Todas essas reflexões são importantes. A reflexão ética é cada vez mais complexa, A problemática dos direitos
humanos será retomada no
porque cada vez mais complexo é o mundo em que vivemos. Não há respostas simples. capítulo 10, no qual serão
tratados alguns aspectos
Isso não deve nos inibir de defender a dignidade humana – isto é, a ideia de que todo da sociedade moderna e
o indivíduo tem um fim em si mesmo –, de lutar para que toda e qualquer pessoa possa contemporânea. Nele será
desenvolvido o estudo do
viver de maneira digna, de defender ideais humanos, de reivindicar o direito de todos jusnaturalismo, que envolve
a ideia de direitos naturais
a condições sociais, econômicas e políticas para se desenvolver e usufruir plenamente do ser humano e direitos
da vida. positivos.

Dessa maneira, os direitos e os valores humanos universais são entendidos como um


projeto em contínua construção. Essa construção diária deve envolver toda a sociedade
e, principalmente, os integrantes dos setores que ainda não conquistaram esses direitos
ou não tiveram esses valores realmente incorporados a sua vida. Direitos e valores como
liberdade, justiça e educação ainda estão longe de ser conquistados em muitas partes
do mundo. Denúncias de trabalho em condições análogas à escravidão, analfabetismo,
falta de liberdade de expressão, prisões por motivos políticos e torturas são recorrentes.
theo alloFs/CorBIs/latInstoCk
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

sean Pavone/alamy/GloW ImaGes

Na primeira foto,
indivíduos da etnia
Bushmen se reúnem em
volta de uma fogueira
no Deserto de Kalahari
(Botsuana). Foto de 2014.
Na segunda imagem,
rua da cidade de Osaka
(Japão). Foto de 2015.
Cada cultura tem sua
forma de existência, sua
organização social, suas
tradições e seus valores.
O desafio da Declaração
Universal dos Direitos
Humanos é instituir valores
que possam conviver
com a multiplicidade das
sociedades humanas.

65
Outras perspectivas

Sociedade contemporânea: uma fábrica de


problemas éticos
Leia o trecho de uma entrevista concedida pelo filósofo australiano Peter Singer (1946)
a respeito de algumas das características da sociedade contemporânea relacionadas aos
direitos e valores humanos.

“Entrevistador: Você acha que hoje em dia temos que nos preocupar
com mais questões morais do que no passado? Comer, gastar e economizar
dinheiro, o que e onde comprar, o efeito estufa, usar carro, avião ou bicicleta,
aborto, decidir sobre nossa própria morte, ter filhos (por fertilização in vitro)
se tornaram problemas morais. Estamos criando mais problemas morais?
Singer: Sim, essa é uma observação interessante, porque se nós tivésse-
mos vivido em uma pequena comunidade, não pudéssemos auxiliar pessoas
fora desta comunidade, não soubéssemos nada sobre os problemas dos ga-
ses que causam o efeito estufa ou não tivéssemos a tecnologia em medicina
necessária para salvar recém-nascidos com malformação congênita ou fa-
zer fertilização in vitro, haveria menos problemas do que temos. Podería-
mos viver uma vida mais tradicional e provavelmente uma boa vida, que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
quase pudemos ter, mas o mundo mudou tão drasticamente que surgiram
Ciclistas e pedestres durante novas tensões morais. A forma como comemos, especialmente se comemos
o Dia Mundial sem Carro em muita carne, vai contribuir para aumentar as emissões dos gases causado-
Paris (França). Foto de 2015. res do efeito estufa, assim como a energia que consumimos, se dirigimos
A campanha foi organizada ou usamos transporte público, por exemplo. Acho que todos nós devemos
com o objetivo de alertar fazer algo bastante drástico e bem rápido e, se não o fizermos, causaremos
as pessoas quanto ao uso danos irreversíveis ao planeta. Temos de tomar as medidas drásticas que
excessivo do automóvel,
promovendo formas
precisamos neste momento, acho que temos de mudar. As pessoas podem
alternativas de mobilidade. mudar seu estilo de vida, mas nós devemos ser politicamente ativos e dizer
Diante de problemas aos governos que eles têm de fazer algo a respeito disso também.”
como o efeito estufa e Entrevista a Peter Singer. Uma ética para o século 21. In: WOLF, Eduardo (Org.).
o aquecimento global, Pensar a filosofia. Porto Alegre: Arquipélago, 2013. p. 159-160.
discutir novas maneiras de
locomoção se torna uma
questão ética. Tanto a pergunta quanto a resposta da entrevista eviden-
ciam uma característica da sociedade contemporânea: a criação
de problemas éticos. Quanto mais avançam o conhecimento
humano, a ciência e a tecnologia, quanto mais o ser humano
interfere na natureza e a modifica, modificando-se também,
mais decisões morais é necessário tomar. O desenvolvimento
traz novas possibilidades. Cada nova conquista gera conse-
quências positivas e negativas, e o ser humano tem de lidar com
isso, tem de refletir, como constatamos ao discutir o exemplo
da utilização dos robôs na abertura deste capítulo.
Talvez as reflexões éticas hoje tenham um grau de impor-
tância que jamais tiveram. Diante, por exemplo, dos avanços
médicos e genéticos, quais devem ser os limites de intervenção
sobre o homem e sobre a natureza? Como o ser humano deve
usar o poder científico na agricultura e na pecuária? Como deve
Aurelien Meunier/Getty iMAGes

agir em relação à clonagem? O ser humano está passando dos


limites da própria humanidade? O que é certo ou errado para
a ciência? Todas essas indagações, em última instância, são
variações particulares da pergunta central de toda reflexão
ética: o que devo fazer? (O que é justo, bom, certo, correto
diante dessa ou daquela situação?)

66
As dúvidas e as perguntas sobre a conduta humana não param por aí. O envelhecimen-
to da população e a possibilidade de prolongamento da vida de portadores de doenças
fatais estimulam reflexões sobre a qualidade de vida do idoso e do doente. Afinal, o que
é uma vida digna? Que tipo de conduta a sociedade deve ter com a experiência do enve-
lhecimento? E com a experiência da morte?
Outro aspecto marcante da sociedade contemporânea é a violência disseminada
entre pessoas, grupos sociais e nações. A criação e a utilização da bomba atômica foram
a realização de um ideal belicista que uniu conhecimento e poder. Essa situação implica a
banalização da vida. Qual é o sentido da vida ou qual é o valor da vida humana em nossa
sociedade? Por que há tanta intolerância?
É possível ser livre em uma sociedade na qual predominam o consumismo, a massi-
ficação e o controle? Como é possível ser livre se os padrões de comportamento estão
rigidamente estabelecidos e são cotidianamente divulgados pela mídia? Muita gente pensa,
age e se comporta da mesma maneira. As escolhas são verdadeiras ou apenas aparentes?
Qual é o espaço para a individualidade e a liberdade humanas?
As perguntas são muitas. A vida humana implica a formulação de perguntas e a
tentativa de respondê-las. Implica, ainda, a detecção de problemas e a busca de solução
para eles. Tais perguntas e problemas só são percebidos pela razão humana. A reflexão
sobre nossas ações, independentemente do lugar para onde ela nos leva, é o exercício
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

humano da liberdade.

“A liberdade, segundo creio, reside precisamente na capacidade de Dialógico: relativo a


pensar duas vezes e de não fazer a primeira coisa que vem à cabeça. Nós
diálogo; em forma
manifestamos essa capacidade na nossa habilidade de responder a razões, de diálogo.
de incorporá-las ao nosso comportamento, no poder de escutar uns aos
outros, de aceitar argumentos, de ser dissuadidos de cursos de ação por
pressão dialógica e assim por diante.”
BLACKBURN, Simon. As grandes questões de filosofia. In: WOLF, Eduardo (Org.).
Pensar a filosofia. Porto Alegre: Arquipélago, 2013. p. 105.
DIana onG/sUPerstoCk/keystone BrasIl

Focus group (2000), obra de


Diana Ong. A padronização
dos comportamentos
compromete o agir moral
autônomo.

67
Palavra de filósofo

A justiça e as aparências
O escrito abaixo foi retirado de uma das principais obras de Platão: A República, diálogo extenso em que se
desenvolve a teorização platônica em torno de uma cidade justa ideal ou das maneiras para se chegar a essa
forma de organização social. O trecho reproduzido é uma exposição que Glauco faz a Sócrates a respeito do
pensamento de muitas pessoas sobre a conduta ética e a essência da justiça.

“Segundo dizem, por natureza, cometer injusti- uma grande fenda no local onde Giges pastoreava.
ça é um bem e sofrê-la, um mal, mas o sofrer in- Espantado com o espetáculo, desceu e viu, além de
justiça se destaca mais porque o mal que há nela é outras coisas espantosas que o mito menciona, um
maior que o bem que há em cometê-la. Sendo as- cavalo de bronze que era oco e tinha pequenas por-
sim, quando os homens, uns contra os outros, co- tas. Espiando através delas, viu lá dentro um cadá-
metem injustiça e dela são vítimas, ao sentirem o ver cujo tamanho, ao que parecia, era maior que o
gosto de uma e de outra coisa, se não são capazes de um ser humano e estava nu, mas tinha na mão
de evitar uma e obter a outra, parece-lhes útil esta- um anel de ouro. Ele pegou o anel e foi embora.
belecer um contrato que os proíba de mutuamente Quando houve a assembleia habitual dos pastores
cometer a injustiça e sofrê-la. E foi a partir de então para que dessem ao rei as notícias relativas ao re-
que os homens começaram a estabelecer suas leis e banho, para lá foi ele com seu anel. Então, quando

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
convenções e chamar legal e justo o prescrito pela estava sentado junto com os outros, aconteceu que
lei. Essa é a origem e a essência da justiça que fica ele fez o engaste do anel girar, passando-o do lado
entre o ótimo, cometer injustiça e não ser punido, e de fora para a palma de sua mão. Feito isso, Giges
o péssimo, ser vítima de injustiça e não poder vin- ficou invisível para os que estavam a seu lado e dele
gar-se. A justiça, estando entre esses dois extremos, falavam como se ele não estivesse mais lá. [...] Ten-
é amada não como um bem, mas como algo que é do percebido isso, imediatamente tratou de ser um
honrado por falta de ânimo para cometer injustiça dos mensageiros que iriam até o rei. Lá chegando,
[...]. Então, Sócrates, eis a natureza da justiça e sua seduziu a mulher do rei e junto com ela atacou-o e,
origem, segundo o que se diz. depois de matá-lo, assumiu o governo. Se, portanto,
Perceberíamos melhor que quem pratica a justiça houvesse dois anéis como esse e um deles o homem
só a pratica de má vontade, por incapacidade de co- justo colocasse em seu dedo, e o outro o injusto,
meter injustiça, se imaginássemos algo como isso... não haveria ninguém tão pertinaz que perseverasse
Deixaríamos que aos dois, ao justo e ao injusto, fos- na justiça e tão resistente que se mantivesse longe
se permitido fazer o que quisessem; depois iríamos dos bens alheios e neles não tocasse, estando livre
atrás deles observando para onde a paixão conduzi- para, sem nada temer, conviver com quem quises-
ria cada um. Em flagrante apanharíamos o homem se, matar e livrar dos grilhões quem quisesse e fa-
justo a buscar o mesmo alvo que o injusto [...]. A zer tudo o mais, já que, entre os homens, seria igual
permissão de que falo seria mais ou menos a que a um deus. Agindo assim, nada faria de diferente
teriam, se tivessem o poder que, segundo dizem, do outro, mas ao contrário, ambos percorreriam o
teve um dia Giges [...]. Ele era um pastor que servia mesmo caminho.”
o então governante da Lídia. Tendo havido gran- PLATÃO. A República. Livro II. São Paulo: Martins Fontes,
de chuva e terremoto, o solo rachou e formou-se 2006. p. 49-51.

Ver comentários e orientações no Suplemento para o professor, no final do livro.


Pensando o texto

1. Segundo o pensamento exposto por Glau- crates se oporia à posição descrita por
co, qual é a essência da justiça? Glauco? Por quê? Qual seria o argumento
2. Explique, de acordo com o texto, qual é o con- de Sócrates?
flito entre a natureza humana e as conven- 4. De acordo com o texto, ao usar o anel de
ções em relação ao que é justo ou injusto. Giges, tanto o homem justo quanto o injus-
3. Levando em conta o estudo desenvol- to agiriam da mesma forma. Você concorda
vido neste capítulo, você acha que Só- com essa afirmação? Justifique.

68
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Atividades
Sistematizando o conhecimento “A justiça [...] consiste em não transgredir
[...] qualquer uma das normas legais (nomos) do
1. Qual é a diferença entre as investigações dos Estado onde se vive como cidadão. É possível,
sofistas e de Sócrates e as teorias dos primei- portanto, praticar a justiça da forma mais van-
ros filósofos gregos? tajosa se se prega o respeito às leis na presença
de testemunhas; na ausência delas, porém, se
2. Para Sócrates, qual é a relação entre o conheci- obedece aos ditames da natureza. [...]
mento e a ação moral?
As leis são criadas por convenção, não pela
3. A contemporaneidade é acompanhada de no- natureza, o que é o contrário do que acontece
vos problemas éticos. Explique essa afirmação com as regras naturais. Pode-se assim transgre-
e justifique-a com exemplos. dir as leis sem vergonha e sem castigo quando
não se está sendo observado [...]. Coisa diferente
4. “Desconheço como vós, homens de Atenas, acontece com a transgressão das regras naturais.
fostes afetados por meus acusadores. Quanto a [...] A injúria que recebemos como penalidade
mim, por pouco não perdi a noção da minha própria pela transgressão não advém apenas de alguma
identidade tal a persuasão com que discursaram. E, opinião, mas de fatos reais.”
no entanto, dificilmente haja uma única palavra ANTÍFONTE. Sobre a natureza. In: BARKER, Ernest. Teoria
de verdade no que disseram. Das muitas mentiras política grega: Platão e seus predecessores. Brasília:
que disseram, uma especialmente surpreendeu-me Editora UnB, 1978. p. 89-90.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

bastante, a saber, que deveis vos acautelar para não a) Segundo o sofista, qual é a diferença entre
serdes ludibriados por mim porque eu era um ora- as leis humanas e os ditames da natureza?
dor extraordinariamente hábil. [...] Se é isso que
b) Por que o ser humano poderia transgredir
querem dizer, concordo que eu seja um orador,
ainda que não no estilo deles, pois, como digo, há as leis sem temor de punição, mas o mesmo
pouco ou nada de verdadeiro no que disseram, en- não ocorreria com as regras da natureza?
quanto de mim tudo que ouvireis será verdade.” 6. No trecho a seguir, o colunista Paulo Germano
PLATÃO. Apologia de Sócrates. In: Platão: relata que praticou bullying na adolescência.
Apologia de Sócrates, O banquete e Fedro. Leia-o e, em seguida, responda às questões.
São Paulo: Folha de S.Paulo, 2010. p. 9.
(Coleção Livros que mudaram o mundo). “Nunca cheguei a te bater. Mas ri, várias
Nesse texto, Sócrates defende-se de seus acu-
vezes, enquanto te batiam. [...] e, agora, escre-
sadores. Sobre esse trecho, é possível dizer que vendo sobre isso, lembro do teu desespero e
sinto uma bola de culpa na garganta. [...]
a) expressa o elogio socrático à oratória de seus
acusadores, capaz de fazê-lo perder a noção Fiz o mesmo contigo porque queria ser como
da própria identidade. eles, os grandes [...]. Aliás, não havia muito
b) expõe o momento em que o filósofo Sócra-
espaço para diferentes, só para iguaizinhos, no
tes assume suas habilidades oratórias, her-
colégio onde estudávamos.”
dadas da retórica dos sofistas. GERMANO, Paulo. O bullying que fiz.
Zero Hora, 17 out. 2015. Disponível em
c) indica a principal característica do diálogo <http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/
socrático, que consiste na fala enigmática colunistas/paulo-germano/noticia/2015/10/
que tenta levar seu interlocutor à aporia . o-bullying-que-fiz-4880739.html>.
Acesso em 17 jan. 2016.
d) manifesta a crítica socrática a um tipo de re-
tórica que consiste em um discurso utilizado, a) Há algum problema moral envolvido no caso
sobretudo, para persuadir os interlocutores. relatado na coluna de jornal? Explique.
e) revela a ironia socrática, pois o filósofo pro- b) Sugira medidas para combater a prática do
cura interpelar os homens de Atenas para, bullying.
por fim, assumir a própria ignorância nos
assuntos de oratória.
Aporia: dúvida; hesitação.
Aprofundando Bullying: termo da língua inglesa que designa atitudes
agressivas – verbais e físicas – manifestadas por um grupo ou
5. Leia o trecho de um texto escrito pelo sofista por um indivíduo, de maneira intencional e repetitiva, contra
Antífonte e responda às questões. uma ou mais pessoas.

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Atividades

7. Analise a charge e responda às questões.


Laerte

Charge (2015) de
Laerte sobre a Lei do
Estatuto da Família.

a) Qual é a crítica contida na charge?


b) Em que medida o comportamento criticado na charge pode ser problemáti-
co do ponto de vista moral?

8. Leia o trecho a seguir escrito pelo filósofo Friedrich Nietzsche e responda: é

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
possível dizer que as posições de Nietzsche e de Sócrates são semelhantes no
que se refere aos valores morais? Justifique.

“A apreciada fórmula de medicina moral... ‘A virtude é a saúde da alma’ deveria


ser modificada, para se tornar utilizável, ao menos assim: ‘Sua virtude é a saúde
de sua alma’. Pois não existe uma saúde em si, e todas as tentativas de definir tal
coisa fracassaram miseravelmente. Depende de seu objetivo, do seu horizonte, de
suas forças, de seus impulsos, seus erros e, sobretudo, dos ideais e fantasias de sua
alma, determinar o que deve significar saúde também para seu corpo. Assim, há
inúmeras saúdes do corpo; e quanto mais deixarmos que o indivíduo particular e
incomparável erga a cabeça, quanto mais esquecermos o dogma da ‘igualdade dos
homens’, tanto mais nossos médicos terão de abandonar o conceito de uma saúde
normal, juntamente com dieta normal e curso normal da doença. E apenas então
chegaria o tempo de refletir sobre a saúde e doença da alma, e de situar a caracte-
rística virtude de cada um na saúde desta: o que numa pessoa, é verdade, poderia
parecer o contrário da saúde de uma outra.”
NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 134.

9. Valendo-se da leitura dos trechos a seguir e com base em seus conhecimentos,


elabore um texto dissertativo-argumentativo usando a escrita formal da língua
portuguesa sobre o tema “A universalidade dos direitos humanos e o direito
à diversidade”.

“Os direitos do homem, tais como em geral têm sido enunciados a partir do
século XVIII, estipulam condições mínimas do exercício da moralidade. Por certo,
cada um não deixará de aferrar-se à sua moral; deve, entretanto, aprender a conviver
com outras, reconhecer a unilateralidade de seu ponto de vista.”
GIANNOTTI, José Arthur. Moralidade pública e moralidade privada. In: NOVAES, Adauto (Org.).
Ética. São Paulo: Companhia das Letras; Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 245.

“Uma política cosmopolita de direitos humanos deverá [...] reconhecer não só


a diversidade de concepções da dignidade humana que podem ser encontradas nas
diferentes culturas, como os diferentes modos de conceber o humano a partir das
suas conexões, vinculações e identificações com territórios, memórias, histórias,
pertenças sociais e outros seres e entidades, em suma, da variedade de cosmologias
através das quais se forja o sentido das relações entre os seres humanos e o mundo.”
NUNES, João Arriscado. Um novo cosmopolitismo? Reconfigurando os direitos humanos. In: BALDI,
César Augusto (Org.). Direitos humanos na sociedade cosmopolita. Rio de Janeiro: Renovar, 2004. p. 28.

70
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lo
tu O que é realidade?
3

Ca

A descoberta do mundo suprassensível


RepRodução/1999 WaRneR BRos.

Cena do filme Matrix (1999),


dirigido por Lilly e Lana Wachowski.
A escolha de Neo Nessa cena, o personagem Neo,
interpretado por Keanu Reeves, está
“Morpheus – Você deseja saber o que ela é? A Matrix está diante de duas opções: tomar a
em todo lugar. À nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pílula azul e continuar numa vida de
pode vê‑la quando olha pela janela ou quando liga sua televi‑ ilusões, ou tomar a pílula vermelha e
são. [...] É o mundo que foi colocado diante de seus olhos para descobrir a verdade oculta sob o que
ele julga real.
que você não visse a verdade.
Neo – Que verdade?
Morpheus – Que você é um escravo. Como todo mundo, Utiliza‑se a analogia entre o mundo de Matrix e
você nasceu em um cativeiro, nasceu em uma prisão que não nossa realidade com o objetivo de sensibilizar
o aluno para o estudo de alguns conceitos
consegue sentir ou tocar. Uma prisão para a sua mente. Infe‑ e pensamentos que serão abordados no
lizmente é impossível dizer o que é Matrix. Você tem de ver capítulo, como o problema da verdade obtida
pelo pensamento em contraposição à opinião,
por si mesmo. [...] Se tomar a pílula azul, a história acaba e presente em Parmênides, a teoria das formas
você acordará na sua cama acreditando no que quiser acredi‑ (ou ideias), de Platão, o problema da realidade
e a pergunta central da metafísica: por que
tar. Se tomar a pílula vermelha, ficará no País das Maravilhas e existe algo, e não o nada?
eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho. Lembre‑se: tudo Ver comentários complementares no Suple‑
mento para o professor, no final do livro.
o que ofereço é a verdade. Nada mais.”
Matrix. Direção de Lilly e Lana Wachowski. EUA/Austrália:
Warner Bros. Pictures, 1999. Ver comentários e orientações
no Suplemento para o profes‑
Reflita sor no final do livro.
Assim termina o primeiro diálogo entre Morpheus e Neo, personagens
do filme Matrix. Neo resolve tomar a pílula vermelha e conhecer a verdade. 1. O filme Matrix pode ser
interpretado como uma
O argumento do filme baseia‑se na ideia de que, por trás da realidade que
alegoria – modo figurado
conhecemos, vemos e tocamos, há outra, verdadeira, difícil de enxergar. Se‑
de representar ideias,
ríamos como prisioneiros de um mundo de aparências. Seríamos?
pensamentos ou situações
Afinal, o que é realidade? Podemos realmente conhecê‑la? Essas são – da nossa realidade?
algumas perguntas típicas da metafísica, uma área de estudo da filosofia. Justifique.
Nela se investigam os princípios mais gerais do ser ou dos seres – isto é, do 2. Para você, o que é
que existe – e a realidade suprassensível, ou seja, a que está para além da realidade?
realidade sensível ou física.

71
Descobrindo a tradição

O que existe?
“Há no céu e na terra [...] bem mais coisas do que sonhou
jamais nossa filosofia.”
SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Abril Cultural, 1976. p. 58.

“E a luz brota tão serenamente e perfeitamente nas coi‑


sas, doura‑as tão de realidade sorridente e triste! todo o
mistério do mundo desce até ante meus olhos se esculpir em
banalidade e rua. Ah, como as coisas cotidianas roçam mis‑
térios por nós!”
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo:
Editora Brasiliense, 1989. p. 69.

Talvez você já tenha ouvido a primeira frase em alguma situação. Ela faz
parte da obra Hamlet, do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare
(1564‑1616). Se nessa frase a filosofia fosse compreendida como ciência

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ou razão, Hamlet, personagem que a profere, afirmaria que existem coisas
que não podem ser apreendidas por nossos sentidos, pela ciência ou pelas
especulações racionais. Isto é, existem muitas coisas que estão al