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Referência bibliográfica: MORRIS, Christopher W.

Um ensaio sobre o Estado


Moderno. Tradução Sylmara Beletti. Editora Landy.

O Estado, ao fornecer razões para que seu cidadãos obedeçam suas leis, traz o
que Christopher Morris denomina de justificação racional. Todavia, esta justificação
racional pode implicar em Estados autoritários, porque não irá proporcionar a todos os
membros da população razões para obedecer a todas as suas normas. Dessa forma,
não obstante discordâncias, o autor entende pela necessidade de alguma justificação
moral, uma vez que, em geral, sempre há concordância substantiva da sociedade
quanto a alguns assuntos morais.
Apesar de sermos céticos quanto à justificação moral excessiva, uma
sociedade sempre vai ter mínima concordância nos assuntos morais, sendo impossível
a convivência em sociedade uma sociedade que haja desacordo geral sobre assuntos
morais. Por exemplo, há um consenso de que escravidão é errada, mas haverá
divergências quanto à extensão e ao escopo dos direitos básicos do indivíduo.
A justiça se relaciona diretamente com o Estado, pois o justifica e o legitima.
A justiça impõe limites ao comportamento e à intenção das pessoas, que se
consubstancia em direitos e deveres morais. Portanto, o Estado justo é aquele que
respeita os limites da justiça, no sentido de observar os direitos morais, e cumprir seus
deveres. Essas limitações irão variar de acordo com a especificação do conteúdo e da
natureza dos direitos e deveres morais da sociedade, e, consequentemente, o
desenvolvimento do Estado.
Os Estados tipicamente detêm soberania e direitos exclusivos sobre o uso da
força, sob o argumento de que oferecem maior proteção à sociedade. Surge, assim, o
dever dos Estados de não apenas respeitar os limites, mas também proporcionar
justiça (como garantir o cumprimento de leis, a composição de conflitos).
A princípio pode parecer correta a afirmação de que a confiabilidade de um
Estado está condicionada ao respeito aos direitos individuais, na medida em que há
certos direitos que ninguém pode violar. Todavia, trata-se de uma condição inviável,
pois, se assim o fosse, não haveria espaço para o Estado agir perante os direitos
individuais.
A partir da confrontação Estado versus direitos individuas, surge uma questão:
O que legitima o Estado a deter certos poderes e direitos, e, a depender da resposta,
até que ponto há uma violação (ou não) dos direitos individuais? Robert Nozick
questiona onde e em que extensão está o papel do Estado em relação a tais direitos.
Hobbes entende que direitos morais pressupõem a existência de um Estado,
enquanto que para Nozick, a partir da ideia da inviolabilidade de certos direitos, é
impossível a existência de um Estado sem violar tais direitos, sendo, pois, ilegítimo.
Morris analisa se os direitos morais dos indivíduos deixam espaço para a
atuação do Estado, e qual seria o fundamento para tanto. A definição de direitos
naturais é complexa, pois mesmo os seus defensores divergem entre si. O autor
desenvolve uma teoria sobre os direitos naturais, notadamente a partir das concepções
dos libertários dos direitos naturais, e, posteriormente, confronta com os chamados
‘direitos seminaturais’, com o objetivo de determinar as características dos direitos e
deveres que ameaçam tornar os Estados injustos.
Direito natural é espécie de direito moral, e, segundo os primeiros filósofos
modernos, natural é o direito que os indivíduos possuem no estado de natureza (antes
de haver Estado e governo). O conceito de estado de natureza varia entre os teóricos.
Para Hobbes, estado de natureza é não-social, e o ‘direito’ natural é apenas uma mera
liberdade. Locke, por outro lado, defende que é um estado social em que os seres
humanos possuem direitos e deveres morais.
Considerando o estado de natureza como aquele anterior ao Estado, o Estado é
um produto de uma convenção. Assim, os direitos naturais são morais, e Morris os
caracteriza como: a) adquiridos em um estado de natureza; b) anteriores à convenção;
c) independentes de convenção; d) mantidos em virtude da posse de algum atributo
natural. Para os racionalistas morais, é possível considerar uma quinta característica,
qual seja, constatáveis pela razão humana, que, entretanto, os críticos negam por ser
uma análise de conteúdo dos direitos.
Não é possível caracterizar os direitos naturais como absolutos ou
irrevogáveis, no sentido de serem sempre obrigatórios, pois há situações em que
podem ser anulados. Por outro lado, podem ser considerados como básicos, na medida
em que os teóricos dos direitos naturais consideram que alguns princípios antecedem
a outros.
Morris determina as características dos direitos e deveres que ameaçam tornar
todos os Estados injustos, e, a partir dessa premissa, deixa de considerar alguns
pensadores como teóricos de direitos naturais, comumente assim categorizados, tais
como Locke e John Finnis. Isso porque suas teorias negam os direitos que são
básicos.
O argumento base dos libertários dos direitos naturais é que qualquer Estado
viola os direitos naturais dos indivíduos (vida, liberdade, propriedade), sendo, pois,
ilegítimo. Uma maneira de legitimar o Estado seria através do consentimento genuíno
dos governados, isto é, explícito, voluntário e bem informado, respeitando, assim, os
direitos naturais. Ainda, o consentimento deve ser unânime, caso contrário, os
‘dissidentes’ estariam fora da jurisdição do Estado. Fato é que é impossível tal
consentimento genuíno.
Nozick entende que é possível o surgimento de um Estado legítimo, desde que
mínimo. Em um estado de natureza lockeano, ante a violação de direitos básicos dos
indivíduos, surgem as ‘associações de proteção privada’, que prestam serviço de
proteção pago. Dentre elas, uma se torna dominante, sendo necessário o Estado para a
proteção geral.
Para Morris, essa argumento é problemático, e destaca a dificuldade em
legitimar um Estado a partir do pressuposto de que indivíduos possuem direitos
naturais.
Segundo Hobbes, os direitos surgem com o aparecimento do Estado, e existem
com o reconhecimento do governo. Os indivíduos possuem ‘liberdade’ (e não
direitos) no estado de natureza hobbesiano, em que há guerra de todos contra todos.
Na mesma linha, Bentham nega os direitos naturais, afirmando que não há lei sem
governo. É notório, e poucos teóricos concordam, que a existência de direitos fica
condicionada à existência de sanções.
Os direitos servem ao benefício geral da sociedade, conforme os utilitários,
mas Rawls os contraria ao afirmar que a justiça impede certas violações ao indivíduo,
ainda que em nome do bem-estar da sociedade.
O contratualismo busca justificar que instituições políticas ou moralidade
sejam legitimadas pela concordância racional dos indivíduos. O contratualismo pode
ser moral, que busca a justificação moral através da concordância, ou político, que é
teoria normativa. O primeiro é considerado pelo autor como principal fonte dos
direitos morais.
Pela justiça contratualista hobbesiana, certos direitos podem ser mutuamente
benéficos para os seres humanos, e são considerados convencionais, se decorrentes de
normas e convenções. Os direitos contratuais podem ser considerados como naturais,
tanto se surgirem no estado de natureza, como no sentido em oposição à artificial.
Ainda que se entenda que não há falar em direito naturais, nem todos os
direitos dependem do governo, como os direitos ‘semi-naturais’. Os direitos semi-
naturais contratualistas tem uma base racional de vantagem mútua, e podem ser
anulados por práticas mutuamente benéficas. É esse o fundamento lógico para o
Estado deter o domínio eminente, soberania, dentre outros, pois o consentimento não
é uma condição de justificação para os Estados. Portanto, direitos semi-naturais,
deixam um espaço para o Estado, ainda que anteriores a este. Ao contrário, os direitos
naturais exigem o consentimento dos governados, o que acaba por reprimir a ação
estatal.
A teoria do consentimento, ou consensualismo político, pode considerar o
consentimento como condição necessária ou suficiente para a legitimidade do Estado.
Ressalte-se que consentimento se refere ao comprometimento deliberado, e é
diferente de consenso ou concordância geral, que se relaciona à comunicação
deliberada e a vontade efetiva de realizar uma mudança nos direitos e deveres. Os
teóricos contemporâneos do consentimento concluem que praticamente nenhum
Estado é capaz de satisfazer tais condições de legitimidade. Impossível inferir que a
votação de eleições democráticas representem o consentimento exigido pela teoria.

Conclusões:
O autor desenvolve o texto buscando definir e caracterizar os direitos naturais.
Ele expressamente aponta a dificuldade dessa tarefa, diante das diversas correntes
existentes. Ainda, o fato de alguém atribuir certos direitos aos seres humanos no
estado de natureza não necessariamente implica que é um defensor da teoria dos
direitos naturais. O ponto crucial, e que distingue as diversas correntes, é a inserção
de tais direitos dentro da estrutura da teoria.
Morris demonstra que considerar os direitos (naturais) como anteriores ao
Estado praticamente inviabiliza a atuação estatal, pois invariavelmente iria violar
direitos essenciais dos indivíduos. De fato, há direitos de suma importância, inclusive,
apontados pelo autor, tais como liberdade, vida e propriedade. A questão é a relação
que será estabelecida entre eles e o Estado, para fins de legitimidade deste último.
Se, por um lado, partir do pressuposto de que os indivíduos têm direitos
naturais, como o faz Nozick, cria um claro engessamento do Estado, e
consequentemente, dificuldade em legitimá-lo, negar a existência dos direitos naturais
(como Bentham e Hobbes) não implica que todo e qualquer direito decorra do
reconhecimento estatal.

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