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08/03/2018 Teologia Brasileira - Artigo: A Igreja em Tiatira e a disputa pela liderança profética

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composição de Apocalipse 2.18-29 (bem
como as outras seis endereçadas a igrejas
específicas: 2.1-7 [Éfeso]; 2.8-11 [Esmirna];
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2.12-17 [Pérgamo]; 3.1-6 [Sardes]; 3.7-13
Palavra:
[Filadélfia] e 3.14-22 [Laodicéia]) constitui
OK
“um misto de gêneros onde se destacam
elementos da estrutura dos editos imperiais  
Articulista:
e, em termos de conteúdo, a forma
Rômulo de Medeiros Louren OK
profética do cristianismo das origens
influenciada pela profecia do AT.”1 A forte
evidência para isto é a expressão τάδε λέγει - a forma típica das mensagens proféticas do Antigo
Testamento2 , que estudaremos mais adiante.
Mais lidos
A carta à Igreja em Tiatira se reveste de importância, primeiramente, por uma questão estrutural. A
observação que José Bortolini faz com respeito à organização das sete cartas é interessante. Segundo ele,
elas estão acomodadas observando uma estrutura quiástica, onde a 1ª combina com a 7ª, a 2ª com a 6ª, e
acompanhe
a 3ª com a 5ª - assim, a carta à Igreja em Tiatira fica no centro e seu tema principal é a profecia.3 Observe
isto no gráfico abaixo:4

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Essa centralidade da carta transparece ser um indicativo de uma maior atenção dada pelo autor do
Apocalipse à Igreja em Tiatira, mesmo porque não se pode negar o fato de que “para a Igreja em Tiatira é
dedicado o edito profético mais extenso”5. São doze versículos focalizando esta Igreja, enquanto para as
outras são dedicados não mais que seis ou sete.6 Por quais razões essa epístola profética está posta no
meio e é mais extensa? Isabel Aparecida Félix parece sugerir uma resposta ao registrar a pergunta: Uma
cidade com tradição de profetisas?7 Isso, num diálogo com a situação histórica que a referida autora faz e
que abordaremos aqui, poder-se-á elucidar.

A figura central na passagem é a mulher, que nas palavras do autor do Apocalipse, se autodenomina
profetisa e é chamada Jezabel, provavelmente de um modo pejorativo. Para Nestor Friedrich, a Igreja em
Tiatira se caracterizava pela diversidade de grupos: 1) Grupo de João - τοῖς λοιποῖς ; 2) grupo de
Jezabel - τὰ τέκνα αὐτῆς  e; 3) o grupo daqueles que toleram/permitem a atuação de Jezabel –
ἀφιημι.8 A ênfase no caso da Igreja em Tiatira está no fato de que a presença de Jezabel é maior
quando tolerada.9

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1. Discussão Literária: Análise de algumas expressões gregas
A proclamação a Igreja em Tiatira, conforme observado por Nestor Friedrich, conta com a presença de
vários “atores” :

1. O Anjo da Igreja (singular);


2. O ‘Filho de Deus’;
3. A profetisa Jezabel (quem ensina e seduz);
4. Seus filhos (discípulos masculinos e femininos de Jezabel = antes servos [de Jesus]);
5. Aqueles que toleram/permitem o ensino de Jezabel na Igreja;
6. Os outros membros da Igreja em Tiatira (Grupo de João);
7. As Igrejas (plural)10 – que são apontadas no verso 23.11

Definir o gênero literário de Apocalipse tem sido uma tarefa difícil. Embora o livro do Apocalipse seja “a
primeira obra apresentada como apocalypsis”12 , seus textos não são ‘desenhados’ de uma forma a
demonstrar com clareza se o título (tomado tradicionalmente da primeira palavra do início do livro) “denota
um tipo especial de literatura ou se é usado mais geralmente no sentido de revelação”13. Friedrich vê em
João um interesse exclusivamente profético. Segundo este autor, João usa o gênero apocalíptico como
veículo de profecia. Neste sentido, seria melhor chamar a obra de João de uma profecia-apocalíptica ou
um apocalipse-profético. A obra de João é um apocalipse profético na medida em que tem um endereço
concreto, histórico – os cristãos na província da Ásia. Mas também é apocalíptico porque usa formas da
tradição apocalíptica.14 Difícil é determinar se a distinção que fazemos hoje entre profecia e apocalíptica
estava no domínio consciente dos autores bíblicos.

No texto de 2.18-29, há algumas expressões que consideraremos para o enriquecimento da discussão


literária.

a. O Anjo da Igreja: τῶ ἀγγέλῳ τῆς ἐκκλησίας


O Anjo da Igreja é sempre o primeiro personagem mencionado no início de cada proclamação. Das 77
ocorrências do termo “anjo” no Apocalipse, 69 se refere a seres sobrenaturais que servem como
mediadores e mensageiros entre Deus e sua criação15. As demais 8 ocorrências referem-se ao Anjo da
Igreja (7 vezes no singular ao enunciar cada proclamação e 1 vez no plural – 1.20). Também satanás é
chamado de “anjo” em 9.11 e seus seguidores de “anjos” em 12.7,9.16

Para David Aune, estes “anjos das Igrejas” são uma criação do autor. Não há paralelos na literatura do
judaísmo das origens nem no cristianismo que ofereçam elementos para interpretar estas figuras.17 De
fato, estamos diante de uma forma de expressão única na literatura canônica. Martin Karrer, citado por
Friedrich, afirma que “o corpo da carta foi dirigido para a Igreja, contudo a comunicação para o anjo e a
Igreja aconteceu em níveis diferentes. Os “anjos das Igrejas” são seres celestes.”18 Se dirigir ao anjo e
interpelar a Igreja em questões específicas da sua vivência parece ser uma estratégica forma de se
comunicar usada por João.

As realidades a que estes textos se referem dizem respeito diretamente às pessoas que integram
as Igrejas e, portanto, têm preferência frente à fala do anjo. A forma de interpelar os ouvintes se
dá tanto individual como coletivamente (2.10.22; 3.8,20), assim como de forma indireta a todas as
Igrejas (2.23). A condução da leitura da carta, por sua vez, dá-se de tal forma que passa por cima
da pergunta pela identidade do anjo. Quem é o anjo não vem ao caso. O alvo das cartas, seu
conteúdo, são os membros das Igrejas. Tanto é que o final de cada carta revela que a vitória e a
salvação não estão relacionadas à competência do anjo, mas estão intimamente ligadas à vitória
de cada cristão.19

Numa outra linha de interpretação está Kraft20 , que identifica os “anjos” com os mensageiros das Igrejas,
sendo, portanto, um personagem terrestre. Mas Karrer tem razão ao argumentar que “os anjos das Igrejas”
não estão encarregados de transmitir uma mensagem, mas são os receptores da mesma.21 As cartas são
dirigidas “ao anjo que está...” e, como já dito, o corpo das mesmas são exortações ou elogios ou até
orientações e desafios aos membros das Igrejas.

Em 1.16, 2.1 e 3.1 os “anjos das Igrejas” estão subordinados a Jesus Cristo, estão em suas mãos, ele os
segura com poder. 22

b. Fórmula Profética: τάδε λέγει


A fórmula τάδε λέγει - “assim diz”, equivale na LXX a “assim diz Yahweh” onde ocorre 250 vezes na
literatura profética do AT.23 No NT ocorre apenas uma vez, fora do Apocalipse, em At 21.11 como fórmula
introdutória ao oráculo do profeta Ágabus.24 Há, portanto, um significativo paralelo com a profecia
veterotestamentária, tornando estes textos proclamações proféticas e não meras epístolas exortativas. Ap
2-3, inspirados na tradição profética, mesclam palavras de salvação e juízo.25

Esta fórmula também é usada para introduzir decretos e cartas persas que podem ser comunicados
oralmente ou em forma escrita. Muitos Editos persas são citados no AT (LXX) com τάδε λέγει como
fórmula de introdução (2Cr 36.23; 1 Esd 2.3; Jud 2.5; Est 3.13) . Cinco editos de Augusto dos séculos 7-6 e
4 a.C. são introduzidos com a palavra λέγει.

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c. Seção οἶδά
A seção οἶδά é a parte que mais discussão gera na pesquisa.27 Esta seção é muito variada em seu
conteúdo e formas. Aqui temos a descrição da situação da Igreja.28 Esta seção reflete o conhecimento
profético do mundo vital para dentro do qual a proclamação é proferida.29 Aqui o autor demonstra
conhecimento das condições em que a Igreja vive e de todo cenário onde ela se encontra.

Para Ferdinand Hahn esta é a parte central de cada proclamação.30 Para Aune, a fórmula οἶδά introduz
a seção que, de forma breve, descreve a situação de cada Igreja no passado ou presente e que serve
como base para o dispositio.31 Aune, entende que esta seção não corresponde à parte central da
proclamação, como Ferdinand Hahn, mas sim, à seguinte que trata das conseqüências decorrentes desta
seção narrativa. No entender de Nestor Friedrich, uma não exclui a outra, ambas se complementam e uma
não é compreensível sem a outra. As duas se equivalem.33

A cláusula οἶδά torna claro e enfático que o Cristo exaltado é conhecedor da realidade das Igrejas em
todos os seus aspectos. A verdade acerca da vivência de cada comunidade não está oculta aos olhos
daquele que remete a mensagem.

d. Os restantes: τοῖς λοιποῖς


Na proclamação à Igreja em Tiatira, aqueles que seguem Jezabel são ameaçados até de morte diante da
possibilidade de não se arrependerem (cf. v. 21-23). No verso 24 a proclamação é direcionada aos
restantes de Tiatira. A que se refere o autor ao direcionar a mensagem aos τοῖς λοιποῖς (aos
restantes)?

Os “restantes” devem corresponder àqueles que não seguiram as doutrinas anunciadas por Jezabel.
Parece que são o grupo de João, aqueles que têm a sua simpatia . Diferente da ameaça feita aos
seguidores de Jezabel, aos “restantes” é dirigida uma palavra de admoestação positiva com o objetivo
claro de reforçar a posição assumida, de manter-se firme, na posição em que estão naquele momento . A
proposta de João para Tiatira, enquanto grupo minoritário neste contexto, torna-se um desafio enorme,
porque expõe aqueles que não compartilham de determinado ensino e prática comum ao contexto urbano
em que a Igreja está, o que pode gerar reações diversas.37 Cada um teria que tomar a decisão de não
compactuar com as doutrinas e práticas de Jezabel, ainda que não somassem um grande número, sendo,
portanto, a minoria. A decisão de pertença, principalmente em contextos de crise, conflito e perseguição ,
torna-se neste caso, a demonstração de adesão ao grupo “que não se pode transferir para a Igreja,
enquanto comunhão maior” . Para o leitor dessa proclamação, abririam horizontes na questão da
identidade com a Igreja local, ainda que estivessem num contexto de feroz perseguição. O Cristo exaltado
se identifica com a minoria dirigindo-lhe palavras de consolo.

e. O conceito de τὰ ἔργα
A palavra ἔργα ocorre 20 vezes no Apocalipse. Destas, 12 vezes em Ap 2-3 e, destas 12 ocorrências, 5
estão na proclamação em Tiatira. Trata-se de uma palavra neutra cujo sentido positivo ou negativo
dependerá do contexto de sua ocorrência.40

Na opinião de Friedrich, o fato da palavra ocorrer 5 vezes nesta proclamação, indica que aqui se trata de
uma palavra chave. Nas obras desta Igreja, revela-se uma tendência positiva, de progresso (“tuas últimas
obras, maiores do que as primeiras”). A análise semântica do termo ἔργα revela claramente uma situação
de oposição: as obras da Igreja e as obras do filho de Deus estão em oposição às obras de Jezabel.42

As obras são o testemunho vivenciado em circunstâncias concretas.43 Isto reforça a noção de que a
Igreja está inserida em um contexto concreto e que aí articula sua prática de fé. Fazer as obras corretas e
opor-se às falsas tem relevância soteriológica porque o juízo se dá pelas obras.44

As obras são algo distinto de amor, fé, diaconia e resistência. No caso específico de Tiatira, as obras não
são apenas uma lista de ações, mas são obras que evidenciam uma postura de testemunho persistente
em relação ao mundo no qual a Igreja está inserida.45

2. Discussão Histórica: Sibilas e Profetisas em Tiatira


Na proclamação a Tiatira há algo que distingue das outras: a menção de uma liderança que parece ser
influenciadora e incitadora de práticas contrárias à conduta aceita pelos demais, centralizada numa
pessoa, chamada de Jezabel. Significativo é que apenas nesta proclamação temos a menção de alguém
que se apresenta como profetisa, que exerce liderança profética.46 Quando João caracterizou a líder que
havia em Tiatira com o nome de Jezabel, ele o fez com o claro objetivo de desacreditar o exercício desta
liderança profética.47

Isabel Aparecida Félix, em sua pesquisa, constata que Tiatira era uma cidade em que mulheres exerciam
poderes proféticos como sibilas ou como profetisas.48 Pierre Prigent diz que nesta cidade havia um
santuário reservado a uma Sibila oriental que poderia ser um sinal da existência do sincretismo judeu
pagão em Tiatira. 49 Sibila profetizava arrebatada por um Deus, manifestando sua vontade de forma
extática, a partir de um transe. 50

Parece ser comum nas 7 proclamações denunciar grupos considerados hereges, como é o caso dos
nicolaítas em Éfeso ou aos que “sustentam a doutrina de Balaão” em Pérgamo. O ensino dos nicolaítas, no
caso de Éfeso, provavelmente foi trazido de fora para dentro da Igreja51 . No caso das Igrejas em

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Pérgamo e Tiatira parece que estes grupos não vêm de fora nem são o resultado de uma ingerência
externa, ao contrário, emergem internamente, no seio das Igrejas.52 Isabel Felix, fazendo alusão à
postura de Elisabeth Fiorenza, também entende que o grupo profético de Jezabel fazia parte da
ekklesia.53 Aparentemente esse é uma conclusão razoável, pois a própria expressão “os restantes”
conduz a pensar que uma parte significativa daquela comunidade cristã aderira aos ensinos e práticas de
Jezabel, a partir de uma influência interna.

Scobie afirma que as cartas são oráculos proféticos cristãos que nos falam muito mais sobre a relação do
autor com estas Igrejas, mas pouco da relação destas com a sociedade greco-romana.54 Friedrich, acha
pertinente o questionamento de Slater55 que “se as cartas foram escritas para nos dar informações
acerca do ambiente social, acerca da realidade da sociedade greco-romana na Ásia Menor, por que há tão
poucos dados?” Contudo, acha questionável a afirmação do mesmo de que a discussão interna, como por
exemplo, comer carne sacrificada aos ídolos e prostituição em Tiatira, seja apenas uma questão interna,
sem relação com a realidade urbana e o contexto político, religioso e cultural da província da Ásia.57
Esses indícios internos, de fato, parecem ser reflexos de uma cultura externa que migrara para dentro da
Igreja.

Isabel Felix vê na análise sócio-política, econômica e religiosa da cidade de Tiatira algo importante na
ajuda da constatação de que o sistema imperial romano é composto por estruturas multiplicadoras de
opressão, marginalizando a grande maioria das pessoas; constata que em Tiatira existia um grande
número de trabalhos artesanais, onde havia a existência das “porfirópolis”, produtoras e negociantes de
púrpura, um trabalho típico de mulheres. Esta autora acredita que o conflito entre João e Jezabel não
reside apenas na divergência de ensinamentos, mas do fato de Jezabel ser mulher e profetisa, o que deve
ter contribuído para acirrar este conflito.59 No entanto, há poucos vestígios no texto para afirmarmos um
preconceito joanino, embora não se deva considerar de somenos importância a forma como João se refere
a Jezabel usando a expressão “essa mulher”. Todavia, considerar por esta expressão uma reação
machista do autor do Apocalipse não seria um tipo de “anacronismo”, isto é, lançar sobre o texto um
conceito contemporâneo de “guerra entre os sexos”?

Historicamente, Jezabel parece ter tido uma influência muito mais abrangente e duradoura do que o Autor
do Apocalipse gostaria. De acordo com escritos de Epifânio e Irineu (conforme citado pela Isabel Aparecida
Felix, fazendo menção a Fiorenza), em meados do século II, Tiatira se tornou o centro do movimento
montanista, no qual profetisas eram proeminentes. O movimento denominou-se “Montanismo” referindo-se
ao considerado primeiro profeta do grupo: Montano. Nas pesquisas recentes constata-se que não foi
Montano, mas as profetisas Priscila e, especialmente, Maximila.60 Estas constituíam figuras importantes e
muito contestadas por Tertuliano e Orígenes, porque gostavam de pintar os cabelos e os olhos bem como
ensinavam publicamente. 61

Tina Pippin62 , debatida por Friedrich, vê no Apocalipse um mundo opressivo para as mulheres. Para ela,
no futuro, na Nova Jerusalém, não há lugar para as mulheres63 . Mas contra essa perspectiva negativa da
figura feminina em Apocalipse e das suspeitas de estar o texto apocalíptico maculado pelo machismo da
época, David Barr64 afirma: “Surpreende, contudo, que uma comunidade de homens (machistas ?!?) se
apresente como a noiva do Cordeiro” 65.

Friedrich mantém uma postura equilibrada concluindo que a mulher não é uma figura tão marginal como
sugere Pippin; por outro lado, também não é uma personagem central.

3. Discussão Teológica: A Proposta de João para a Igreja


João, com sua obra profético-apocalíptica, se mostra corajoso para opor-se a um ensino diferente do seu,
dando nome ao inimigo e confrontando sua prática e ensino. Demonstrou conhecer os meios de
comunicação oficiais e, à semelhança de outros editos fictícios que havia, não deixou de usar parte dessa
estrutura como roupagem para sua mensagem67 .

A mensagem de João é contextualizada. “Tanto o mundo helenista quanto aqueles que vêm da tradição
judaica são interpelados”68 . Ele dá voz ao “Filho de Deus” em meio a um contexto em que o Imperador
romano, mesmo não estando presente fisicamente, está onipresente por intermédio das elites da cidade,
pela propaganda, pelo culto e tem a última palavra.69 João falou como “minoria cognitiva”70 e, com isso,
enriquece a noção de identidade da Igreja. A proposta de João é uma profunda experiência de fé
evidenciada nas obras que “caracterizam o cristão como um sujeito histórico”71 , e é esta prática histórica
contextual o critério da justiça de Deus no seu julgamento72 .

Apocalipse tem como força impulsionadora a dimensão da esperança que se reflete nas promessas73 . Na
proclamação a Tiatira trata-se do poder sobre as nações. “João motiva a olhar para o futuro, um futuro de
Deus, novo, diferente, em que se dará uma participação efetiva dos cristãos no poder”74 .

Embora o modelo de Igreja proposto por João não seja integrador75 , como afirma Friedrich, sua
preocupação e zelo pela pureza da Igreja são intensos. João é radical, ele silencia vozes diferentes da sua
que, por vezes, reproduz a voz do Cristo. Jezabel não fala. A rainha do céu apenas geme (Ap 12). Nesse
sentido, se revela pouco democrático e extremamente intolerante.

A voz de João por vezes se confunde com a do Cristo exaltado, conclamando os restantes da Igreja – a
minoria – a se manterem firmes na luta pela não adaptação às doutrinas proferidas pelo grupo de Jezabel.

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Para João o “micro” pode se tornar “macro”, se guardar até o fim as obras de Deus (cf. Ap 2.26-28). O
texto é sui generis e de grande relevância para a teologia do Novo Testamento.

Conclusão
A proclamação a Igreja em Tiatira revela o confronto entre lideranças proféticas. Nela, existem duas
propostas teológicas, que querem responder as realidades, da ekklesia e da sociedade, a proposta de
João e a de Jezabel77 .

O edito-profético para Igreja em Tiatira com sua ênfase no senhorio do filho de Deus mostrou que
o Apocalipse resgata questões fundamentais: a esperança para o mundo, portanto, uma ética
não-entreguista (vencer); a crítica profética em relação ao exercício do poder (fidelidade,
resistência); a importância da Igreja enquanto espaço de articulação de uma proposta que
transcende a ética individualista obras, amor, diaconia) e a cegueira em relação às estruturas de
poder em nosso mundo.

Concluímos que esse texto possui um caráter mais profético do que epistolar. Os leitores, em vista da
significativa parte do Novo Testamento ser caracterizado por epístolas, estavam acostumados com esse
tipo de literatura. Por isso, João usou a introdução “escreve” – que é o único indício de epístola. Ademais,
o conteúdo é profético.

Os elementos que compõem esta proclamação revelam o conhecimento do autor com respeito à realidade
da Igreja em Tiatira. Sua proposta é motivar os poucos, considerados por ele fiéis às práticas cristãs, à
perseverança em face da futura recompensa divina.

A linguagem que João lança mão para se referir a Jezabel chega a ser violenta e deixa claro que esta era
uma forte oponente, merecedora de um considerável discurso por parte do autor, gerador de afirmação
para o lado supostamente certo e de terror para o lado supostamente herético.

A riqueza de detalhes que configura o “desenho do texto” desde a descrição do Filho de Deus até a
recompensa futura, traz preciosas contribuições para a compreensão do contexto sócio-cultural-religioso
onde a Igreja em Tiatira estava inserida, bem como da reação da própria comunidade cristã diante disso,
demonstrando assim a teologia e prática da própria Igreja.

Referências Bibliográficas
BARR, David. “Toward and Ethical Reading of the Apocalypse: Refletions on John’s Use of Power, Violence
and Misogyny.”
BOER, Martinus de. “A Influência da Apocalíptica Judaica sobre as origens cristãs: gênero, cosmovisão e
movimento social”. In: Estudos de Religião 19 (2000).
BORTOLINI, José. “Como Ler o Apocalipse”. Paulus. São Paulo, 1994.
FELIX, Isabel Aparecida, “Aquela que se diz Profetiza: Uma Leitura Feminista Crítica da Libertação de Ap
2.18-29” (2003).
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Adapt or Resist? A Socio-Political Reading of Revelation 2.18-29” In: Journal
for the Study of The New Testament 25.2 (2002).
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Apocalipse 2-3: sete cartas? Uma análise literária”, In: Estudos de Religião 19
(2000).
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético para a Igreja em Tiatira (Ap 2.18-29) Uma análise literária,
socio-política e teológica” (2000).
MAGALHÃES, Antônio Carlos. “Nova Profecia (Montanismo): O Espírito versus a Letra. Reflexões sobre
uma página esquecida da história do cristianismo”.
PRIGENT, Pierre. “O Apocalipse”. Edições Loyola, São Paulo, 1983.

__________________

1 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Apocalipse 2-3: sete cartas? Uma análise literária”, In: Estudos de Religião
19 (2000) p. 150.

2 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Adapt or Resist? A Socio-Political Reading of Revelation 2.18-29” In: Journal
for the Study of The New Testament 25.2(2002) p. 186-187; fazendo alusão ao argumento de David Aune e
Elizabeth S. Fiorenza.

3BORTOLINI, José. “Como Ler o Apocalipse”. Paulus. São Paulo, 1994, p.30. Veja também: FELIX, Isabel
Aparecida, “Aquela que se diz Profetiza: Uma Leitura Feminista Crítica da Libertação de Ap 2.18-29”
(2003) p.47.

4 FELIX, Isabel Aparecida, “Aquela que se diz Profetisa” p.47.

5 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético para a Igreja em Tiatira (Ap 2.18-29) Uma análise literária,
socio-política e teológica” (2000) p. 322

6 FELIX, Isabel Aparecida, “Aquela que se diz Profetisa” p.48.

7 Idem.

8FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 325

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9
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Adapt or Resist?” p. 199

10
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Adapt or Resist?” p. 198

11 Acréscimo meu.

12
BOER, Martinus de. “A Influência da Apocalíptica Judaica sobre as origens cristãs: gênero, cosmovisão
e movimento social”. In: Estudos de Religião 19 (2000), p.15.

13 Idem.

14
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 26.

15
Idem, p. 224.

16
AUNE, David. “Revelation 1-5”. Dallas: Word Books, Publischer, 1997, p. 108-109. Apud: FRIEDRICH,
Nestor Paulo. “O edito profético” p. 224.

17
Idem.

18
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 228.

19
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 228-229.

20
KRAFT, H. “Die Offenbarung dês Johannes” p. 50-52. Apud: FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito
profético” p. 227.

21 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 227.

22
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 229.

23 MAZZAFERRI, Frederick D., “The Genre of the Book of Revelation from a Source-critical Perspective”,
p.120. Apud: FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 32.

24 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 32.

25
] SCOBIE. Charles H. H. “Local References in the Letters to the Seven Churches” p. 611-612. Apud:
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 32; Também FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Apocalipse 2-3:
sete cartas?” p. 155; e cf. FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Adapt or Resist?” p. 186.

26
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 33.

27FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 35. E cf. também FRIEDRICH, Nestor Paulo.
“Apocalipse 2-3: sete cartas?” p. 156.

28 Idem.

29 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Apocalipse 2-3: sete cartas?” p. 156.

30
Idem.

31 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Apocalipse 2-3: sete cartas?” p. 157.


“O termo dispositio (disposição) foi usado por Quintiliano para o arranjo efetivo e unificado das várias
partes de um discurso(...), mas foi derivado de sua posterior aplicação a partes de documentos oficiais na
diplomacia medieval(...).” Cf. The Form and Function of the Proclamations to the Seven Churches
(Revelation 2-3), p. 190-191 e FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 38.

32 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Apocalipse 2-3: sete cartas?” p. 157. e cf. também FRIEDRICH, Nestor
Paulo. “O edito profético” p. 37-38.

33 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “Apocalipse 2-3: sete cartas?” p.157. e FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito
profético” p. 38.

34
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 38.

35
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 211.

36
Idem.

37
Idem, p.212.

38
Idem

39
Idem.

40 AUNE , David. “Revelation 1-5”. p. 142. Apud: FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 243.

41
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 244.

42 Idem, p. 244-255

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43 COMBLIN, J. “Cristo em el Apocalipsis” p. 164. Apud: FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p.
245.

44
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 245.
N.A. – No contexto da literatura Apocalíptica, a salvação está ligada à perseverança. Na grande tribulação,
por exemplo, a fé é demonstrada pelas obras – haja o que houver é preciso perseverar até o fim.

45
BEALE, G.K. “The Book of Revelation: A Commentary on the Greek Text” p.260. Apud: FRIEDRICH,
Nestor Paulo. “O edito profético” p. 245.

46 FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 212.

47
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” (2000) p. 249.

48 FELIX, Isabel Aparecida, “Aquela que se diz Profetisa” p.23.

49
Prigent, Pierre. “O Apocalipse”. Edições Loyola, São Paulo, 1983, p.66. Cf. também FELIX, Isabel
Aparecida, “Aquela que se diz Profetisa” (2003) p.23.

50
FELIX, Isabel Aparecida, “Aquela que se diz Profetisa” p.23.

51
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 212.

52
Idem, p. 212-213.

53
FELIX, Isabel Aparecida, “Aquela que se diz Profetisa” p.23.

54
SCOBIE. Charles H. H. “Local References in the Letters to the Seven Churches” p.614. Apud:
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 68.

55 SLATER, Thomas. “On the Social Setting of the Revelation of John”

56
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 70.

57 Idem.

58
FELIX, Isabel Aparecida, “Aquela que se diz Profetisa” p.28.

59 Idem, p.66.

60
FELIX, Isabel Aparecida, “Aquela que se diz Profetisa” p.103.

61 MAGALHÃES, Antônio Carlos. “Nova Profecia(Montanismo): O Espírito versus a Letra. Reflexões sobre
uma página esquecida da história do cristianismo” p. 69.

62
PIPPIN, Tina. “The Heroine and the Whore: Fantasy and the Female in the Apocalypse of John”

63
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 252.

64
BARR, David. “Toward and Ethical Reading of the Apocalypse: Refletions on John’s Use of Power,
Violence and Misogyny.”

65
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 253.

66 Idem.

67
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 318.

68 Idem.

69
Idem.

70 Idem.

71
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 319.

72 Idem.

73
Idem.

74 Idem.

75
Idem, p. 320.

76 Cf. FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 321.

77
FELIX, Isabel Aparecida, “Aquela que se diz Profetisa” p.109.

78
FRIEDRICH, Nestor Paulo. “O edito profético” p. 330

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1 COMENTÁRIO(S)

Matias B | bh/mg | 23/12/2015 16:45:49


Obrigado, pelo empenho. e simplicidade que trata o tema. Vejo a sabedoria de Deus neste autor.

 
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AUTOR
 

Antonio Lazarini Neto


É Diretor Geral e professor de Grego, Exegese do Novo Testamento e
Teologia do NT na Faculdade Teológica Batista de Campinas.  Bacharel em
Teologia e Mestre em Ciências da Religião, é pastor de famílias da 
Primeira Igreja Batista de Americana.SP, sendo também autor da MK
Editora (RJ).

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