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Políticas Sociais -

Família, Criança e
Adolescente
Arely Soares Carvalho Telles
Suely Cabral Quixabeira
T274p Telles, Arely Soares de Carvalho
Políticas sociais: família, criança e adolescente / Arely Soares de
Carvalho Telles, Suely Cabral Quixabeira.
134 p.: il.

1. Cidadania - Brasil 2. Administração pública - Brasil I. Quixabeira,


Suely Cabral II. Título
CDD 323.60981
Sumário
Carta ao Aluno  |  5

1. História social da criança no Brasil: do


período Colonial à década de 1970  |  7

2. Década de 1980: a luta da sociedade civil em prol


dos direitos da criança e do adolescente  |  17

3. Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei específica


na área da infância e da adolescência   |  29

4. Sistema de Garantia dos Direitos da


Criança e do Adolescente   |  47

5. A política de atendimento da criança e do


adolescente e os Conselhos de Direitos   |  61

6. Interfaces da questão social na área da


criança e do adolescente  |  75

7. Política Nacional de Atendimento da


Criança e do Adolescente   |  95

Gabarito | 111

Referências | 127
Carta ao Aluno

Prezado(a) aluno(a),
Você está recebendo o material referente à disciplina Polí-
ticas Sociais - Família, Criança e Adolescente. O conteúdo está
organizado em sete capítulos.
Queremos convidá-lo à discussão sobre a política de aten-
dimento à criança e ao adolescente enquanto área de atuação do
assistente social. Faremos, inicialmente, uma contextualização
sobre a evolução histórica dos direitos da criança e do adoles-
cente desde o período Colonial à década de 1970 com a insti-
tuição do Código de Menores de 1979. Esse código tem como
fundamento jurídico e social a Doutrina da Situação Irregular,
que considera a criança e o adolescente como objetos de inter-
venção por parte do Estado nas situações de carentes, abandona-
dos, inadaptados e infratores.
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Conheceremos a luta da sociedade civil organizada no período da


promulgação da Constituição Federal de 1988 em prol da defesa dos direi-
tos da criança e do adolescente, que tem como fundamento a Doutrina
da Proteção Integral das Nações Unidas. A referida doutrina considera a
criança e o adolescente como prioridade absoluta, pessoas em condição
peculiar de desenvolvimento e como sujeitos de direitos. A Constituição
Federal de 1988 é considerada uma Constituição Cidadã para as crianças
e os adolescentes brasileiros ao adotar o paradigma da proteção integral e
romper definitivamente com o paradigma da situação irregular.
Discutiremos o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), lei
específica que regulamenta os direitos da população infanto-juvenil asse-
gurados pela Carta Magna de 1988. Discutiremos ainda a política de aten-
dimento e conheceremos os mecanismos de promoção, defesa e proteção
dos direitos da criança e do adolescente garantidos pelo ECA. Por fim,
faremos uma discussão sobre as interfaces da questão social na área da
criança e do adolescente, como a violência doméstica e o trabalho infantil.
Desejamos a você um bom estudo sobre a política da criança e do
adolescente.
Às autoras.

–  6  –
1
História social da
criança no Brasil: do
período Colonial à
década de 1970

Introdução
Caro estudante, neste capítulo, você fará uma contextuali-
zação histórica da emergência da questão da infância no Brasil
desde o período Colonial até a década de 1970. Abordaremos a
primeira política voltada para a criança, a Roda dos Expostos,
que acolhia as crianças abandonadas, as legislações primárias,
como a Constituinte de 1825, que se referia à criança negra.
Conheceremos a Doutrina da Situação Irregular, que norteava os
Códigos de Menores e que defendia a concepção de criança e
adolescente como menores em situação irregular nas condições
de carentes, abandonados, inadaptados e delinquentes. Para fina-
lizar o capítulo, você refletirá sobre a doutrina que considerava a
criança e o adolescente como objetos de intervenção por parte do
Estado e não como sujeitos de direitos.
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Para melhor compreensão desses conteúdos, você deve retomar a dis-


cussão do capítulo 2 da disciplina Introdução ao Serviço Social, que trata
sobre o mercado de trabalho para o assistente social e traz como possibili-
dade de atuação a área da criança e do adolescente, que é o objeto de dis-
cussão desta disciplina. Essa revisão é necessária visto que, nessa disciplina,
você teve o primeiro contato com a discussão sobre a área da criança. Este
capítulo possibilitará a você conhecer a história social da criança desde o
período Colonial até a criação dos Códigos de Menores para compreender o
significado social da luta em prol dos direitos dessa população. Iniciaremos
com a situação da criança e do adolescente no período Colonial.

1.1 A emergência da questão da criança no Brasil


Desde o período Colonial até a sociedade atual, a política social refe-
rente aos direitos da criança e do adolescente vem passando por constantes
transformações, as quais merecem uma retrospectiva. Essa retrospectiva
tem o objetivo de fazer você compreender os avanços conquistados na
contemporaneidade na área da infância e adolescência.
Segundo Faleiros (1995), no Brasil Colônia, os padres jesuítas se pre-
ocupavam com as crianças índias no sentido de batizá-las e incorporá-las
ao trabalho. Nessa época, os portugueses castigavam e matavam índios.
Para enfrentar essa situação, os padres jesuítas criaram a casa de recolhi-
mentos para as crianças índias que ficavam sem os seus pais. Essas crian-
ças eram separadas da sua comunidade e recebiam ensinamentos sobre os
costumes e as normas do cristianismo. O objetivo era propiciar a elas uma
visão cristã.
Ainda no período Colonial, a política social elementar adotada no
Brasil, para atender às questões envolvendo crianças, foi a roda dos
expostos, que “[...] foi uma das instituições brasileiras de mais longa vida,
sobrevivendo aos três grandes regimes de nossa história”: colonial, impe-
rial e republicano (MARCÍLIO, 2003, p. 53). Esse sistema teve sua gênese
na Europa medieval, era de cunho missionário e seu alvo era a assistência
sob a égide da caridade. Marcílio (2003, p. 54) informa que
O sistema de rodas de expostos foi inventado [...] para garantir
o anonimato do expositor e assim estimulá-lo a levar o bebê que

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História social da criança no Brasil: do período Colonial à década de 1970

não desejava para a roda em lugar de abandoná-lo pelos caminhos,


bosque, lixo, porta de igrejas ou casas de família, como era o cos-
tume na falta de outra opção.

Com base na afirmação do autor, podemos observar que a roda dos


expostos foi criada para diminuir o índice de abandono de crianças nas
ruas, uma vez que garantia o anonimato dos responsáveis. Era comum,
nessa época, mães abandonarem seus filhos devido serem mães solteiras e
não terem o apoio da família e da sociedade. Assim, ao invés de abando-
nar as crianças nas ruas, deixavam-nas na roda dos expostos.
A roda dos expostos era um cilindro oco de madeira, giratório, onde
as crianças enjeitadas eram colocadas. Essas rodas eram instaladas nos
muros das construções de famílias abastadas, conventos ou instituições
públicas. Acreditava-se que, com isso, haveria diminuição do índice de
morte por abandono.
Durante toda a história do sistema de rodas no Brasil, foram criadas
13 instituições. As três primeiras emergiram no século XVIII, a primeira
na cidade de Salvador, em 1726, a segunda no Rio de Janeiro, em 1738,
e a terceira em Recife, em 1789. Essa política social teve vida longa no
país, permaneceu em São Paulo até 1948 e só foi extinta definitivamente
em 1950.
Conforme Marcílio (2003), para extinguir a política das rodas de
expostos no Brasil, contou-se com o apoio e a adesão dos juristas. Eles
começaram uma mobilização em prol da elaboração de leis que proteges-
sem as crianças abandonadas e, também, corrigir os problemas sociais
concernentes à adolescência infratora que, naquela época, já estava inco-
modando a sociedade.
A legislação primária que tratou assuntos envolvendo crianças foi a
Constituinte de 1825, a qual enfocava a situação das crianças negras. A
referida Lei assegurava, em suas linhas, o direito da mãe (escrava) de ter
um mês de resguardo e, no decorrer de um ano após o parto, trabalhar com
o filho ao seu lado. Essa atenção com a mãe e com a criança negra tinha
uma finalidade maior do que a defesa do direito da criança, pois [...] “antes
o que se pretendia era zelar por aquela que constituiria em breve força de
trabalho gratuito: o escravo” (VERONESE 1997, p. 10).

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Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Após cinco décadas, por meio do movimento em defesa da abolição


da escravatura, foi decretado a Lei do Ventre Livre, em 1871. Essa Lei
garantia uma indenização por parte do Estado aos proprietários de escra-
vos para libertar as crianças negras, entretanto os pais continuavam sob
o regime escravocrata. Por fim, é decretada a abolição dos escravos, em
1888, mediante a Lei Áurea, que extingui um sistema que perdurou por
mais de um século no Brasil.
Em 1889, ocorreu a Proclamação da República. Nessa época, pre-
dominava a omissão do Estado, e a infância abandonada passou a ser a
preocupação de higienistas (representados pelos médicos) e filantropos
que, “preocupados com a saúde da espécie e com a preservação da raça
humana, propunham uma intervenção no meio ambiente, nas condições
higiênicas das instituições e das famílias” (FALEIROS, 1995, p. 21). Os
médicos, preocupados com a mortalidade infantil, sugerem a inspeção
escolar e a criação de creches em substituição às Rodas dos Expostos.
Os menores também eram preocupação dos juristas, dos advogados, dos
desembargadores, que propuseram a criação dos tribunais especiais e casas
correcionais para atender aos menores em situação irregular. Em 1902, o
Congresso Nacional começou a discutir a situação dos menores abandonados
e delinquentes. Em 1923, foi autorizada a criação do Juizado de Menores.
Somente no início do século XX os juristas passaram a ser os principais pro-
tagonistas desse movimento com a criação dos Códigos de Menores.
Vamos agora conhecer o sistema sociojurídico da Doutrina Situação
Irregular que norteava os Códigos de Menores.

1.2 Códigos de Menores e a Doutrina


da Situação Irregular
Em 1927, foi promulgado o primeiro Código de Menores do Uruguai
(Lei n. 17.943) chamado de Código de Menores Melo Matos, homena-
gem ao primeiro Juiz de Menores da América Latina. Ele criou um conjunto
de instituições apoiadas e administradas pelo Poder Judiciário como, por
exemplo, alguns abrigos para menores. O Código de Menores se expandiu
por toda a América Latina e permaneceu no Brasil durante 60 anos.

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História social da criança no Brasil: do período Colonial à década de 1970

Em 1979, o Código de Menores Melo Matos (Lei n. 17.943) sofreu


uma reformulação e foi substituído pela Lei n. 6.698 que é norteada pela
Doutrina da Situação Irregular. Essa Lei não se dirigia ao conjunto da
população infanto-juvenil, era somente para os menores considerados em
situação irregular. Ela defendia um paradigma de concepção da criança
e do adolescente como menores carentes, abandonados, inadaptados
e delinquentes. Costa (2006, p. 14) especifica o significado dos tipos de
menores defendidos pelo Código. Vejamos.
1. carentes – menores em perigo moral em razão da manifesta
incapacidade dos pais para mantê-los;
2. abandonados – menores privados de representação legal pela
falta ou ausência dos pais ou responsáveis;
3. inadaptados – menores em grave desajuste familiar ou
comunitário;
4. infratores – menores autores de infração penal (grifo do autor).

Essas quatro situações listadas pelo Código de Menores, na concep-


ção do autor, tiveram como resolução a intervenção do Juizado de Meno-
res. Com a Doutrina da Situação Irregular, crianças e adolescentes pas-
saram a ser considerados como objetos de intervenção jurídico-social do
Estado. Assim o Estado passou a intervir por meio de ações paternalistas,
nos casos de carência e abandono, e de ações repressivas, nos casos de
inadaptação e infração.

Saiba mais

O sítio <http://diviliv.blogspot.com/2007/10/lei-n-66971979-cdigo-de-
-menores.html> trata de pesquisas sobre direito da família. Nele, você
encontrará o Código de Menores de 1979 na íntegra. Acesse o sítio e
leia-o para melhor compreender a Doutrina da Situação Irregular - dou-
trina sociojurídica que norteou a lei.

O Código de Menores “[...] não considerava que crianças e adoles-


centes que, por algum motivo ficavam sob a proteção do Estado, fossem
sujeitos de direitos [...]” (UNICEF, 1998, p. 152). O código de 1979 preo-
cupou-se apenas com o binômio proteção (para carentes e abandonados)

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Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

e vigilância (para os inadaptados e infratores), contribuindo para a ela-


boração de uma Política Nacional do Bem-Estar do Menor (PNBEM).
Veronese (1997) destaca que o Código de 1979 contribuiu incisiva-
mente para a consolidação de uma Lei que considerava a criança e o ado-
lescente como menor em situação irregular, por se tratar de pessoas mate-
rialmente em perigo moral, desassistidos juridicamente e com desvio de
condutas. Assim toda criança e adolescente enquadrados nessas caracterís-
ticas eram recolhidos e levados para o juiz de menor, o qual os mandava
para a Fundação Nacional de Bem-Estar do Menor (FUNABEM). Essa ins-
tituição propiciou a criação da Fundação Estadual de Bem-Estar do Menor
(FEBEM) em vários Estados da Federação. Costa (2006, p. 15) expõe que
O lado mais perverso de tudo isso reside no fato de que os meca-
nismos normalmente utilizados para o controle do delito (polícia,
justiça, redes de internação) passaram a ser utilizados em estraté-
gias voltadas para o controle social da pobreza e das dificuldades
pessoais e sociais de crianças e adolescentes problemáticos, mas
que não chegaram a cometer nenhum delito.

Podemos concluir, a partir da afirmação do autor, que todas as crian-


ças e os adolescentes considerados em situação de risco pessoal, social e
econômico estavam sujeitos à intervenção judicial. O juiz tinha o poder
de decidir o destino dos menores, pois era o responsável pelos interesses
e, quando necessário, aplicava medidas de internação, colocação em famí-
lia substituta, adoção, punição aos pais ou aos responsáveis. Para Costa
(2006, p. 15), essa realidade representa “o ciclo perverso da instituciona-
lização compulsória - apreensão, triagem, rotulação, deportação e confi-
namento”. Vejamos como o autor conceitua cada uma dessas situações.
1. APREENSÃO: qualquer criança ou adolescente encontrado nas
ruas em situação considerada de risco pessoal e social [...] poderia
e deveria ser apreendido e conduzido à presença da autoridade res-
ponsável, ou seja, do juiz de menores;
2. TRIAGEM: [...] Encaminhar o menor a um centro de triagem (obser-
vação), a fim de que ali se procedesse ao competente estudo social do
caso, ao exame médico e à elaboração do laudo psicopedagógico;
3. ROTULAÇÃO: [...] Enquadramento da criança e do adoles-
cente em uma das subcategorias da situação irregular (carente,
abandonado, inadaptado ou infrator) [...];

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História social da criança no Brasil: do período Colonial à década de 1970

4. DEPORTAÇÃO: [...] Como a família, na maioria dos estudos de


caso, aparece como frágil e vulnerável em termos socioeconômi-
cos e morais, a decisão mais comum era o afastamento do menor
para longe do continente afetivo de seu núcleo familiar e das vin-
culações socioculturais como seu meio de origem;
5. CONFINAMENTO: a medida de internação era aplicada
indistintamente a menores carentes, abandonados, inadaptados
e infratores. A única diferença é que estes últimos cumpriam
sua “medida” em estabelecimento especializado, ou seja, dota-
dos de maiores índices de contenção e segurança (COSTA,
2006, p. 15-16).

As situações expostas pelo autor demonstram o que representava


o ciclo perverso da institucionalização compulsória para as crianças e
os adolescentes enquadrados como menores em situação irregular. Esse
ciclo violava o direito à liberdade das crianças e dos adolescentes consi-
derados em situação irregular. Violava também o direito do devido pro-
cesso, isto é, o direito de as crianças e os adolescentes terem um advo-
gado que os defendesse.
A Doutrina da Situação Irregular se dirigia apenas para o conjunto
das crianças e dos adolescentes considerados menores em situação irregu-
lar e não para o conjunto da população infanto-juvenil. A legislação para
os menores visava, sobretudo, a exercer o controle social do delito e, com
isso, controlar as mazelas sociais geradas pela imensa desigualdade social
advinda da concentração de renda no Brasil. Ao invés de se garantirem
políticas sociais básicas, como educação, saúde, esporte, cultura para a
população infanto-juvenil pobre do país, o que se garantia era um trata-
mento de segregação e repressão. A solução do problema era sempre o
afastamento dessa população do convívio familiar e social.
A realidade provocada pelos Códigos de Menores culminou em luta
ético-política mundial em prol dos direitos das crianças e dos adolescentes na
década de 1980 e contribuiu para a criação de grupos e organizações da socie-
dade civil que passaram a defender os interesses da infância e da adolescência
em vulnerabilidade social, que sofriam de todas as formas de maus-tratos.
Portanto analisamos, neste capítulo, a história social da criança e do
adolescente desde 1500 até a criação dos Códigos de Menores, que tra-
tavam a criança e o adolescente como objetos e não sujeitos de direito.

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Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

O tratamento constrangedor, violento e vexatório dispensado à criança e


ao adolescente com as políticas públicas implementadas para atender às
exigências legais impostas pelos Códigos de Menores provocou a indig-
nação da sociedade civil organizada, que encampou um luta nacional para
romper com a Doutrina da Situação Irregular dos Códigos de Menores.
No próximo capítulo, conheceremos a contextualização histórica da
luta da sociedade civil em prol dos direitos da população infanto-juvenil e
a conquista do Artigo 227 da Constituição Federal de 1988.

Atividades
1. A política social elementar adotada no Brasil, para atender às
questões envolvendo crianças, foi a roda dos expostos, criada
ainda no período Colonial. Aponte a gênese, o cunho, o público-
-alvo e a finalidade dessa política.
2. A legislação primária, ao tratar de assuntos envolvendo crianças,
foi a Constituinte de 1825. Os direitos conquistados nessa Cons-
tituinte são
a) direito da mãe (escrava) de ter um mês de resguardo e, no
decorrer de um ano após o parto, trabalhar com o filho ao
seu lado.
b) direito da mãe (escrava) de ter quatro meses de resguardo
e, no decorrer de um ano após o parto, trabalhar com o filho
ao seu lado.
c) garantia de uma indenização por parte do Estado aos pro-
prietários de escravos para libertar as crianças negras,
entretanto os pais continuavam sob o regime escravocrata.
d) abolição dos escravos, em 1888, extinguindo um sistema
que perdurou por mais de um século no Brasil.
3. Os Códigos de Menores não se dirigiam ao conjunto da popula-
ção infanto-juvenil, somente aos menores considerados em situ-
ação irregular. Para os Códigos de Menores, são considerados
em situação irregular os menores

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História social da criança no Brasil: do período Colonial à década de 1970

a) carentes, meninos de rua, com desvio de conduta e delin-


quentes.
b) carentes, meninos de rua, inadaptados e delinquentes.
c) carentes, abandonados, inadaptados e delinquentes.
d) carentes, abandonados, com desvio de conduta e delinquentes.
4. Sobre o ciclo perverso da institucionalização compulsória tradu-
zida nas situações de apreensão, triagem, rotulação, deportação
e confinamento, podemos afirmar que:
I. referente à apreensão, qualquer criança ou adolescente
encontrado nas ruas em situação considerada de risco
pessoal e social deveria ser apreendida(o) e conduzida(o)
à presença da autoridade responsável: o juiz de menores;
II. a triagem se referia ao enquadramento da criança e do
adolescente em uma das subcategorias da situação irre-
gular (carente, abandonado, inadaptado ou infrator);
III. a rotulação consistia no encaminhamento do menor a
um centro de triagem (observação) para a realização de
estudo social do caso, exame médico e elaboração do
laudo psicopedagógico;
IV. a deportação se refere ao afastamento do menor para
longe do continente afetivo de seu núcleo familiar e das
vinculações socioculturais como seu meio de origem;
V. o confinamento consistia na medida de internação, que
era aplicada indistintamente aos menores carentes,
abandonados, inadaptados e infratores.
Estão corretas, apenas, as afirmativas
a) I, IV e V.
b) I, II e V.
c) II, III e IV.
d) II e IV e V.

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2
Década de 1980: a
luta da sociedade
civil em prol dos
direitos da criança
e do adolescente
Introdução
Caro aluno, neste capítulo, você conhecerá a luta da socie-
dade civil para assegurar, na Constituição Federal de 1988, os
direitos da criança e do adolescente e romper definitivamente
com os Códigos de Menores. Verá quais os movimentos sociais
que tiveram destaque nessa luta, como: Movimento de Meninos
e Meninas de Rua (MMMR), Movimento de Defesa dos Direi-
tos da Criança e do Adolescente (MDDCA) e o Fórum Nacional
Permanente dos Direitos da Criança e do Adolescente (Fórum
DCA). Todos esses movimentos encamparam uma luta em prol
da população infanto-juvenil, no período de construção da Carta
Magna de 1988, os quais defendiam que a criança e o adoles-
cente eram prioridade absoluta e sujeitos de direitos.
Conheceremos, ainda, os tratados internacionais que garan-
tem os direitos humanos da criança e do adolescente: a Declara-
ção de Genebra, a Declaração Universal dos Direitos da Criança
e a Convenção sobre os Direitos da Criança. A Constituição
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Federal de 1988 segue os princípios da proteção integral estabelecidos


nos tratados internacionais.
Para entender o processo de organização e o papel da sociedade civil
na luta pela defesa dos direitos da criança e do adolescente marcados pela
Constituição Federal de 1988 e conhecer os tratados internacionais de
garantia dos direitos da criança e do adolescente, você precisa considerar
a história social da criança desde o período Colonial até a década de 1970,
a instituição dos Códigos de Menores, assunto trabalhado no capítulo 1.
Iniciaremos com a análise da luta da sociedade civil em prol dos direitos
da criança e do adolescente na década de 1980.

2.1 A luta dos movimentos sociais


A década de 1980 foi o divisor de águas na história de lutas em prol
dos direitos das crianças e dos adolescentes brasileiros. Três movimentos
sociais, liderados pela sociedade civil, tiveram uma participação impres-
cindível na disseminação do processo de ruptura da visão de criança e
adolescente como menor carente e abandonado em situação irregular
(doutrina defendida pelos Códigos de Menores). Nessa perspectiva, o
UNICEF (1998, p. 152) salienta que
No Brasil a década de 80 foi profundamente marcada por intensas
mobilizações populares em defesa de causas e direitos de cunho
social para crianças e adolescentes, na medida em que era ampla-
mente difundida a existência de milhões de crianças carentes,
desassistidas ou abandonadas.

As mobilizações populares realizadas na década de 1980, mencionadas


na citação, foram incisivas para as conquistas de direitos da criança e do ado-
lescente ao passo que denunciavam o tratamento dispensado à criança e ao
adolescente pela Doutrina da Situação Irregular, doutrina sociojurídica que
fundamentava os Códigos de Menores. Essas mobilizações tinham como
finalidade romper definitivamente com os Códigos de Menores a partir da
inserção dos direitos da criança e do adolescente na Carta Magna de 1988.
Os movimentos que tiveram fundamental importância, nas mobili-
zações em prol da defesa dos direitos da população infanto-juvenil, foram
o Movimento de Meninos e Meninas de Rua (MMMR), o Movimento de

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Década de 1980: a luta da sociedade civil em prol dos direitos da criança e do adolescente

Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (MDDCA) e o Fórum


Nacional Permanente dos Direitos da Criança e do Adolescente (Fórum
DCA). Esses movimentos defendiam que a criança e o adolescente deve-
riam ser reconhecidos e valorizados como pessoas em condição peculiar
de desenvolvimento e necessitavam de atenção e cuidados especiais.
Todos esses movimentos foram constituídos por organizações não-
-governamentais (ONGs), que tinham como finalidade lutar contra as for-
mas de violência e as péssimas condições de tratamento de crianças e
adolescentes (considerados como “menores”).
As formas de violência e as péssimas condições de tratamento de
crianças e adolescentes ocorriam principalmente nas unidades da FEBEM,
pois “entidades e profissionais que lidavam com este menor apontavam o
Código de Menores e a PNBEM como os responsáveis pelo abandono e
pela violência com que eram tratados no Brasil” (UNICEF, 1998, p. 152).
O MMMR emergiu no Brasil em 1985 e foi a primeira organização a
trabalhar em nível nacional com a questão dos meninos e das meninas de
rua. Durante o processo constituinte, “[...] teve intensa participação, sem-
pre denunciando o tratamento brutal que era dado a crianças e adolescen-
tes em várias regiões do país” (GONH, 2003, p. 119). Sua principal meta
de trabalho, na década de 1980, foi o combate às práticas de extermínio da
população infanto-juvenil que vivia na rua.

Saiba mais

Para você conhecer um pouco mais sobre o papel dos movimentos sociais
na defesa dos direitos da criança e do adolescente, a partir do trabalho
realizado pelo Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua,
assista ao documentário Ônibus 174, de José Padilha. O documentário
retrata a trajetória de Sandro do Nascimento, que sequestrou o ônibus
174, em 12 de junho de 2000, no Rio de Janeiro. Esse documentário
retrata a realidade de vida de Sandro que o levou para a vida do crime na
sua infância. Sandro é um dos sobreviventes da chacina dos meninos da
Igreja da Candelária, também no Rio, em 1993. O documentário também
traz um depoimento da assistente social do Movimento MNMMR que
acompanhava o grupo de meninos da chacina. Boas reflexões!

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Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

A bandeira de luta do MMMR alcançou uma amplitude internacio-


nal por meio da sensibilização de ONGs internacionais, que lutavam pela
defesa dos Direitos Humanos e, assim,
Com o propósito muito claro de lutar por direitos e cidadania para
crianças e adolescentes, o MMMR começa a denunciar a violência
institucionalizada, provocada pela estrutura social caracterizada
na omissão completa por parte do Estado em relação às políticas
sociais básicas, enfatizando, porém, a violência exercida pelos
aparatos de repressão e controle do Estado: policiais e delegacias
de polícia (MMMR citado por GONH, 2003, p. 119).

A partir dessa luta, o MMMR organizou o I Encontro Nacional de


Meninos e Meninas de Rua, do qual resultou a elaboração de dois pro-
jetos. Um desses projetos foi de sua responsabilidade, no tocante aos
meninos e às meninas de rua em situação de violência, e o outro sob a
responsabilidade do UNICEF, com o título de Programa de Redução da
Violência. Ambos os projetos caminhavam na mesma direção e tinham
como finalidade precípua estudar a questão da violência que maltratava
crianças e adolescentes, com vistas à elaboração de políticas sociais para
o combate dessa problemática.
O MDDCA foi um movimento social que, na década de 1980, mar-
chou incansavelmente rumo à conquista de uma sociedade justa e cidadã
para a população infanto-juvenil no processo de construção da Consti-
tuição Federal de 1988. Esse movimento nasceu da união de diversos
segmentos da sociedade civil e política a partir de inúmeras denúncias
de maus-tratos envolvendo crianças e adolescentes, no que se refere às
prisões ilegais, tortura e assassinatos. O objetivo maior desse movimento
era sensibilizar a sociedade brasileira para a situação de violência contra a
população infanto-juvenil.
Segundo Gonh (2003), para encampar essa luta, o MDDCA teve
como atores básicos diferentes setores sociais, como agentes que traba-
lhavam diretamente em instituições públicas e particulares com crianças e
adolescentes, membros de ONGs, sindicatos, partidos políticos, técnicos
sociais e assessores de entidades, ONGs internacionais, entre outros. E
assim o MDDCA emergiu no cenário brasileiro nos anos de 1986 e 1987,
anos que antecederam a homologação da Carta Magna.

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Década de 1980: a luta da sociedade civil em prol dos direitos da criança e do adolescente

Considerando o exposto, podemos dizer que a década de 1980 teve


como marco (na área da infância e adolescência) a reivindicação da ado-
ção do direito da criança e do adolescente na Constituição Federal de
1988, lei maior do Brasil, que foi elaborada com intensa participação
popular (UNICEF 1995).
O Artigo 227da Constituição Federal dispõe que
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e
ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação à educação, ao esporte, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligên-
cia, discriminação, exploração, crueldade e opressão.

O princípio da prioridade absoluta e os direitos assegurados à criança


e ao adolescente no Artigo 227 da Constituição Federal de 1988 estão
fundamentados na Doutrina da Proteção Integral das Nações Unidas que
fundamenta a Convenção Internacional dos Direitos da Criança. Ressal-
tamos que a Carta Magna de 1988 foi promulgada antes da aprovação da
Convenção Internacional dos Direitos da Criança, a qual só foi aprovada
em 20 de novembro de 1989 pela a Assembleia Geral da Organização das
Nações Unidas (ONU). A Convenção vinha sendo discutida desde 1979,
e as pessoas que redigiam a emenda popular Criança Prioridade Absoluta
criaram o texto do Artigo 227 da Constituição Federal de 1988 com base
nos princípios da Convenção.
A adoção dos princípios norteadores da Convenção só foi possível
devido à luta dos movimentos sociais para incorporar à Constituição os
princípios defendidos pela Convenção, baseados na Declaração Universal
dos Direitos da Criança de 1959.
Após a promulgação da Constituição de 1988, surgiu um novo
movimento social no Brasil, o Fórum DCA, o qual é um apêndice do
MDDCA. O Fórum nasceu do I Encontro Nacional de Meninos e Meninas
de Rua, em março de 1988, articulado pelo MMMR. Nele se reuniram
diversas entidades não-governamentais que participavam da campanha
Criança Prioridade Nacional, a qual defendia a inserção dos direitos da
população infanto-juvenil na Constituição de 1988. O objetivo do Fórum
era criar uma frente permanente de luta na defesa dos direitos da criança e

– 21 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

do adolescente, envolvendo diferentes atores sociais que atuavam direta e


indiretamente com essa população.
De acordo com o UNICEF (1998), o Fórum DCA era integrado por
entidades não-governamentais com atuação em âmbito nacional na área
de promoção e defesa dos direitos da população infanto-juvenil. Firmou-
-se como uma importante organização não-governamental de luta em prol
dos direitos das crianças e dos adolescentes. Seu objetivo era assegurar
os direitos já conquistados em lei e contribuir para regulamentá-los legal-
mente no país por meio da criação de uma Lei específica em favor da
infância e da adolescência, o que resultou na criação do ECA (Estatuto
da Criança e do Adolescente, Lei n. 8.069).
As principais entidades de destaques no Fórum DCA foram:
2 Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua
2 Pastoral do Menor (CNBB)
2 Frente Nacional de Defesa da Criança e do Adolescente
2 Articulação Nacional dos Centros de Defesa de Direitos
2 Coordenação dos Núcleos de Estudos Ligados às Universidades
2 Sociedade Brasileira de Pediatria
2 Associação Brasileira de Proteção à Infância e à Adolescência
(ABRAPIA)
2 Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)
A participação brilhante e decisiva da sociedade civil na conquista
de direitos foi importante mediante a construção de uma Constituição
Cidadã para a criança e o adolescente. A partir dessa época, nasceu
“[...] um tempo em que criança é e vive como sujeitos de direitos”
(BRASIL, 2002b, p. 26), surgindo, assim, um conceito de cidadania na
área da infância e da adolescência. É importante entendermos que toda
essa luta da sociedade civil em prol dos direitos da criança e do ado-
lescente, no Brasil, teve como fundamento os tratados internacionais
de garantia de direitos para a população infanto-juvenil. Então vamos
conhecer esses tratados.

– 22 –
Década de 1980: a luta da sociedade civil em prol dos direitos da criança e do adolescente

2.2 Direitos humanos das crianças e dos


adolescentes: tratados internacionais
Toda a caminhada histórica sobre os direitos da criança teve início
com a Declaração de Genebra, que foi redigida pela União Internacional
Save the Children, em 1923. Essa declaração continha os princípios bási-
cos da proteção à infância. Após a 2ª Guerra Mundial, em abril de 1946,
foi instituída a Organização das Nações Unidas (ONU) que aprovou uma
declaração sobre os direitos da criança, que segue os princípios da Decla-
ração de Genebra.
A ONU criou um mecanismo de ajuda multilateral à infância, o UNI-
CEF (Fundo Internacional de Emergência para as Crianças – United Nations
Internacional Children’s Emergency Fund), estabelecido pela Assembleia
Geral da ONU em 1946 e, em 1953, transformado em Agência Especiali-
zada do Sistema da ONU para auxiliar a infância carente do terceiro mundo.
A Declaração sobre os Direitos da Criança permaneceu como marco refe-
rencial, inclusive para o trabalho da UNICEF, por trinta anos.
Em 10 de dezembro de 1948, a ONU instituiu a Declaração Uni-
versal dos Direitos Humanos. Costa e Duarte (2004, p. 52) afirmam que
Essa Declaração é hoje o pilar fundamental dos Direitos Humanos,
em todo o mundo, e todos os demais instrumentos da normativa
internacional, nesse campo, estão direta ou indiretamente a ela
referidos.

Conforme afirmam os autores, a Declaração Universal dos Direitos


Humanos se tornou o pilar fundamental dos direitos humanos e o motivo
foi à aprovação unânime que ela teve de 48 Estados. A Declaração consi-
derou, no seu preâmbulo, que a criança tinha falta de maturidade física
e mental. Assim, na esteira da Declaração dos Direitos Humanos, foram
sinalizados vários projetos de humanidade, e um deles foi a garantia de
direitos humanos para as crianças e os adolescentes.
Sob o ponto de vista jurídico, a Declaração Universal dos Direitos
Humanos não tinha poder para obrigar os Estados signatários a respeita-
rem e cumprirem o documento. Para viabilizar o cumprimento dos direi-
tos assegurados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, foram
instituídas duas convenções: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e

– 23 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Cul-


turais, aprovados, em 1966, pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
Sobre esses documentos, Costa e Duarte (2004, p. 53) asseveram que,
Por meio do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos,
cada um dos estados que nele tomaram parte, compromete-se a
respeitar e assegurar a todos os indivíduos – no espaço de seu ter-
ritório e sem qualquer distinção quanto à raça, cor, sexo, idioma,
religião, opinião, origem nacional ou social - todos os direitos
reconhecidos naquela convenção. [...] De forma semelhante o
Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
inclui basicamente todos os direitos proclamados pela Declaração
Universal, como o direito ao trabalho em condições justas e favo-
ráveis; o direito à organização sindical, à seguridade social, a um
padrão de vida adequado, incluindo o acesso à saúde, à educação,
à ciência e à cultura.

Podemos observar que o Pacto Internacional dos Direitos Civis e


Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais, ao contrário da Declaração, obrigam legalmente os Estados
signatários a cumprirem todos os direitos assegurados pela Declaração
que foram inseridos nesses documentos. Para garantir com maior legali-
dade os direitos da criança, em 1979, a Assembleia Geral da ONU apro-
vou a ideia de se proceder, de imediato, a elaboração de um projeto que
viesse dar efeito jurídico e força obrigatória aos direitos específicos da
criança. Para tanto, em 20 de novembro de 1989, foi aprovada a Con-
venção sobre os Direitos da Criança, o qual contava com 195 adesões
e ratificações e entrou em vigor em 2 de setembro de 1990. A Convenção
sobre os Direitos da Criança reconhece, pela primeira vez, a criança
como sujeito de direito.
Esse novo instrumento da normativa internacional responsabiliza
juridicamente os Estados-membros por suas ações no que diz respeito aos
direitos da criança. Exige um compromisso legal, por parte dos Estados,
de aceitar o que está enunciado em seu conteúdo e de assumir os deveres
e as obrigações que a Convenção determina.
Os destinatários da cobertura da Convenção são todas as pessoas
menores de 18 anos. A Convenção tem como regra básica que as crian-
ças e os adolescentes tenham todos os direitos que são facultados aos

– 24 –
Década de 1980: a luta da sociedade civil em prol dos direitos da criança e do adolescente

adultos e que sejam aplicáveis à sua idade. Assegura também à criança


os direitos especiais em decorrência da sua condição peculiar de pessoa
em desenvolvimento.
A Convenção reconhece que a criança, para o pleno e harmonioso
desenvolvimento de sua personalidade, deve crescer no seio da família,
em um ambiente de felicidade, amor e compreensão. Esse reconhecimento
é respaldado pela Declaração de Direitos da Criança de 20 de novembro
de 1959, que já considerava que a criança tem falta de maturidade física
e mental e, por isso, necessita de proteção e cuidados especiais e ainda
proteção legal, antes e após o seu nascimento.
A Convenção reconhece também que, em todos os países, existem
crianças vivendo sob condições de vulnerabilidade, excepcionalmente,
difíceis, e que essas crianças necessitam de consideração especial. Para
tanto, “[...] assegura as duas prerrogativas maiores que a sociedade e o
Estado devem conferir à criança e ao adolescente, para operacionalizar a
proteção de seus Direitos Humanos: cuidados e responsabilidades” (BRA-
SIL, 2006, p. 24). É proclamada reiteradamente a primazia do interesse
fundamental da criança como prioridade absoluta.
A Convenção reconhece o valor intrínseco da criança enquanto pes-
soa humana em condição peculiar de desenvolvimento e o seu valor pro-
jetivo, uma vez que é portadora do futuro, da continuidade da sua família
e de seu povo. A partir desse reconhecimento, a Convenção garante que a
criança é titular de direitos individuais, como a vida, a liberdade, a digni-
dade, e também de direitos coletivos, como direitos econômicos, sociais
e culturais.
Portanto a década de 1980 é reconhecida como o divisor de águas
para as crianças e os adolescentes do Brasil por meio do êxito alcançado
pelos movimentos sociais com a inserção dos direitos da criança e do ado-
lescente na Constituição Federal de 1988 com a conquista do Artigo 227.
A Doutrina da Proteção Integral, fundamento sócio-jurídico dos tratados
internacionais, é que consubstancia e referencia os instrumentos jurídicos
nacionais de promoção, defesa e garantia dos direitos da criança e do ado-
lescente no Brasil: Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e
do Adolescente – ECA.

– 25 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

No próximo capítulo, você conhecerá os princípios norteadores do


ECA, bem como a nova concepção de criança e adolescente defendida
por esse Estatuto. Conheceremos as três revoluções instituídas pelo
ECA para o rompimento com a Doutrina da Situação Irregular dos
Códigos de Menores: mudança de conteúdo, mudança de método e
mudança de gestão.

Atividades
1. A década de 1980 é considerada como o divisor de águas em
prol da luta pelos direitos da criança e do adolescente. Três
movimentos liderados pela sociedade civil organizada tiveram
fundamental importância nessa luta. Aponte quais são esses
movimentos e o trabalho desenvolvido por cada um deles.
2. Sobre os movimentos sociais que se destacaram na defesa dos
direitos da população infanto-juvenil, na década de 1980, pode-
mos afirmar que
a) todos os movimentos foram constituídos por Organizações
Governamentais e Não-Governamentais (ONGs).
b) os movimentos tiveram uma participação imprescindível no
processo de consolidação da visão da criança e do adolescente
como menor carente e abandonado em situação irregular.
c) a finalidade dos movimentos sociais era lutar para efetivar a
Política Nacional de Bem-Estar do Menor e, assim, contribuir
efetivamente para a implantação das unidades da FEBEM.
d) os movimentos sociais lutaram para incorporar à Constitui-
ção Federal de 1988 os princípios defendidos pela Conven-
ção dos Direitos da Criança de 1989, baseados na Declara-
ção Universal dos Direitos da Criança de 1959.
3. A luta da sociedade civil em prol dos direitos da criança e do
adolescente no Brasil teve como base os tratados internacionais
de garantia de direitos para a população infanto-juvenil. Quais
são esses tratados?

– 26 –
Década de 1980: a luta da sociedade civil em prol dos direitos da criança e do adolescente

a) A Declaração de Genebra, a Declaração Universal dos Direi-


tos da Criança e a Convenção sobre os Direitos da Criança
b) A Declaração de Genebra, a Declaração Universal dos Direi-
tos da Criança e o Estatuto da Criança e do Adolescente
c) A Declaração Universal dos Direitos da Criança, a Conven-
ção sobre os Direitos da Criança e o Estatuto da Criança e
do Adolescente
d) A Declaração de Genebra, o Estatuto da Criança e do Ado-
lescente e a Convenção sobre os Direitos da Criança
4. Em 20 de novembro de 1989, foi aprovada a Convenção sobre os
Direitos da Criança que reconhece, pela primeira vez, a criança
como sujeito de direito. Sobre a Convenção, podemos afirmar que:
I. sua regra básica é que as crianças e os adolescentes não
tenham todos os direitos que são facultados aos adultos,
somente os direitos especiais em decorrência da sua con-
dição peculiar de pessoa em desenvolvimento;
II. reconhece que a criança, para o pleno e harmonioso desen-
volvimento de sua personalidade, deve crescer no seio da
família, em um ambiente de felicidade, amor e compreensão;
III. reconhece o valor intrínseco da criança enquanto pessoa
humana em condição peculiar de desenvolvimento e o
seu valor projetivo, uma vez que é portadora do futuro,
da continuidade da sua família e de seu povo;
IV. garante que a criança é titular de direitos individuais, como
a vida, a liberdade, a dignidade e também de direitos cole-
tivos, como direitos econômicos, sociais e culturais.
Estão corretas, apenas, as afirmativas
a) I, II e III.
b) II, III e IV.
c) I, III e IV.
d) I, II e IV.

– 27 –
3
Estatuto da Criança
e do Adolescente:
uma lei específica
na área da infância
e da adolescência

Introdução
Caro aluno, neste capítulo, você conhecerá aspectos rele-
vantes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que
introduz na sociedade brasileira uma nova concepção de criança
e de adolescente. Conforme preconiza o ECA, a criança e o ado-
lescente são cidadãos de direitos e prioridade absoluta. O ECA é
sustentado pelos princípios da Doutrina da Proteção Integral das
Nações Unidas, que rompem definitivamente com a Doutrina da
Situação Irregular norteadora dos Códigos de Menores.
Conheceremos, também, a Doutrina da Proteção Integral,
que fundamenta o Estatuto da Criança e do Adolescente, que
se destina, sem exceção alguma, a todas as crianças e os ado-
lescentes e que substitui a Doutrina da Situação Irregular que
sustentava os Códigos de Menores. Faremos uma comparação
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

entre a doutrina que fundamenta o ECA e a que fundamentava os Códigos


de Menores para melhor distinção das doutrinas. Ao final deste capítulo,
conheceremos quem são os violadores dos direitos da criança e do adoles-
cente, conforme especifica o ECA.
Para melhor compreensão deste capítulo, você precisa retomar os
conteúdos do capítulo 2 no que se refere à trajetória histórica de luta pelos
direitos da criança e do adolescente para romper com a Doutrina da Situ-
ação Irregular dos Códigos de Menores, bem como conhecer os marcos
legais dos tratados internacionais que garantem os direitos humanos do
segmento infanto-juvenil. Esses conteúdos são fundamentais para que
você possa compreender o significado das mudanças sociais, jurídicas e
políticas introduzidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente no nosso
país e conhecer quem são os violadores dos direitos da criança e do ado-
lescente, conforme estão categorizados no ECA.
Iniciaremos o estudo com a análise de alguns aspectos nos quais o
ECA se fundamenta.

3.1 Estatuto da Criança e do


Adolescente: aspectos introdutórios
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi aprovado em 13 de
julho de 1990 mediante a sanção presidencial da Lei 8.069. Foi elaborado
a partir do Artigo 227 da Constituição Federal de 1988 com o objetivo de
regulamentá-lo e como forma de exigibilidade dos direitos da criança e do
adolescente, que já eram assegurados pela Carta Magna do país.

Saiba mais

Para saber mais sobre o ECA, recomendamos a leitura da obra Estatuto da


Criança e do Adolescente comentado: comentários jurídicos, que foi orga-
nizada por Munir Cury, Antônio Fernando do Amaral e Silva e Emílio Gar-
cia Mendez, publicada pela editora Malheiros Editores. Essa obra comenta
artigo por artigo do Estatuto e dá ao leitor uma melhor compreensão da
legislação que garante os direitos humanos de crianças e adolescentes.

– 30 –
Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei específica na área da infância e da adolescência

O ECA adota uma nova concepção de atendimento à criança e ao


adolescente, que passam a ser portadores de todos os direitos fundamen-
tais facultados aos adultos, além de serem pessoas carecedoras de uma
proteção especial, haja vista estarem em condição peculiar de desenvolvi-
mento físico, social e espiritual.
O ECA é norteado pela Doutrina da Proteção Integral e introduz na
sociedade brasileira uma
[...] concepção da criança e do adolescente como sujeito de direi-
tos, isto é, cidadãos passíveis de proteção integral, vale dizer, de
proteção quanto aos direitos de desenvolvimento físico, intelectual,
afetivo, social e cultural (ANDRADE, 2000, p. 18) (grifo nosso).

Conforme citação, o ECA concebe a criança e o adolescente como


cidadãos cujos direitos devem ser garantidos na sua integralidade. Esse
novo modelo de atendimento da população infanto-juvenil rompe defini-
tivamente com o paradigma da situação irregular. Assim as crianças e os
adolescentes brasileiros comemoram o tão sonhado direito de exercer o
título de cidadão e gozar de todos os direitos inerentes à pessoa humana
com dignidade. O Artigo 3º do ECA garante que
A criança e o adolescente gozam de todos os direitos inerentes
à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata
esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas
as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvol-
vimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de
liberdade e de dignidade.

Enquanto as leis anteriores ao ECA eram portadoras de uma concep-


ção de marginalização da criança e do adolescente, utilizavam-se do termo
menor para se referir a essa população,
[...] o ECA avança na discussão sobre a discriminação imposta
pelo uso do termo “menor”, ao substituir a noção de “menor em
situação irregular” pela de “sujeitos de direitos” (RIZZINI citado
por ANDRADE 2000, p. 20).

A citação confirma o caráter estigmatizante da terminologia adotada


pelo antigo Código de Menores ao se referir às crianças e aos adoles-
centes em situação de risco como menores em situação irregular. Essa
concepção se contrapõe aos princípios adotados pelo ECA, os quais con-
sideram a criança e o adolescente como sujeitos de direitos.

– 31 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Liberati (1997), ao enfatizar em sua obra a questão da definição de


criança e adolescente, salienta que a doutrina da situação irregular com sua
terminologia de menor contribuía para a estigmatização e, sobretudo, para
a ideia de marginalização da criança. Já o ECA proporcionou uma noção
de criança e adolescente como seres humanos em condição de desenvolvi-
mento e, por isso, merecedores do respeito de todos.
Outra prerrogativa importante, introduzida pela doutrina da proteção
integral, é a questão da responsabilidade concernente à efetivação dos
direitos assegurados pelo ECA, no qual “[...] é colocado, que a proteção
das crianças e adolescentes, bem como a garantia dos seus direitos, não
é responsabilidade apenas da família, mas [...] do Estado e da sociedade
como um todo” (NEPOMUCENO, 2002, p. 145). Essa afirmativa expli-
cita a responsabilidade compartilhada que o ECA preceitua entre a famí-
lia, a sociedade e o Estado na garantia dos direitos das crianças e dos
adolescentes e define de forma clara quem são os responsáveis legais pela
garantia dos direitos assegurados pelas leis.
É importante enfatizar que a tríade responsável pela efetivação dos
direitos preconizados no ECA foi definida ainda no ápice da elaboração do
Artigo 227 da Carta Magna do Brasil, o qual foi praticamente transcrito no
Artigo 4º do ECA. É preciso ficar explícito que
[...] a família, a sociedade e o Estado são os responsáveis pelas
crianças e adolescentes, não cabendo a qualquer dessas entida-
des assumirem com exclusividade as tarefas, nem ficando alguma
delas isenta de responsabilidade (ANDRADE, 2000, p. 17).

Veja que essa afirmativa aponta quem são os responsáveis legais pela
garantia dos direitos da criança e do adolescente, cabe a todos igualmente a
responsabilidade de zelar pelos direitos, pois só assim a população infanto-
juvenil poderá ter assegurados na íntegra o espírito da Doutrina das Nações
Unidas norteadora da Lei n. 8.06. O 1º Artigo do ECA expõe que “esta Lei
dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente” (ECA, 1990, p. 11).
Para que a Doutrina da Proteção Integral seja realmente assegurada,
o ECA compreende uma série de garantias no Artigo 4º parágrafo único.
A garantia de prioridade compreende:
a) Primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;

– 32 –
Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei específica na área da infância e da adolescência

b) Precedência de atendimento nos serviços públicos ou relevân-


cia pública;
c) Preferência na formulação e na execução das políticas sociais
públicas;
d) Destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacio-
nadas com a proteção à infância e à juventude.

ECA dispõe sobre as garantias as quais as crianças e os adolescentes


passam a ter em função da sua condição peculiar de desenvolvimento.
Essas garantias, para serem concretizadas no atendimento ao conjunto da
população infanto-juvenil, exigem que sejam desenvolvidas várias ações
nas áreas das políticas sociais básicas, da assistência social, da proteção
especial e das garantias.
As políticas sociais básicas se referem às políticas reconhecidas legal-
mente como direito de todos e dever do Estado, como a saúde e a educa-
ção. A assistência social é destinada àquelas pessoas que se encontram em
estado de necessidade, como os auxílios temporários, abrigos, entre outros.
No que tange à proteção especial, são as medidas especiais de proteção
adotadas nos casos de ameaça e/ou violação dos direitos da criança e do
adolescente que, de alguma forma, tragam prejuízos para sua integridade
física e psicológica. Na área da garantias de direitos, o ECA se refere
aos direitos individuais e coletivos da criança e do adolescente, como, por
exemplo, a garantia de defesa quando o adolescente for acusado de infração.
Ressaltamos que todas essas políticas são elaboradas e fiscalizadas
pelo Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente, o qual
é distribuído em três eixos distintos de trabalho (promoção, controle social
e defesa). Esses eixos serão abordados no capítulo 4.
Vejamos a seguir sobre as várias mudanças introduzidas pelo ECA
que passam a balizar o atendimento a ser dispensado às crianças e aos
adolescentes brasileiros.

3.1.1 ECA: uma lei de três revoluções


As três revoluções promovidas pelo ECA trouxeram mudanças signi-
ficativas para a seara da criança e do adolescente e extrapolaram o campo
jurídico. Vamos conhecê-las.

– 33 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

2 Mudança de conteúdo: o ECA concebe a criança e o adolescente


como sujeitos de direitos, os quais estão garantidos legalmente
por leis. A partir do ECA, a criança e o adolescente deixam de ser
tratados como meros objetos de direitos e intervenção por parte
da família, do Estado e da sociedade e passam a ser considerados
como cidadãos de direitos. O ECA reconhece a criança e o ado-
lescente como pessoas em condição peculiar de desenvolvimento
físico, mental, espiritual, psicológico, social e cultural. Por isso
são detentores de todos os direitos que são facultados aos adul-
tos e ainda de direitos especiais pela sua condição de desenvolvi-
mento e incapacidade de prover suas necessidades básicas.
2 Mudança de método: o ECA introduz as garantias processuais
para o adolescente autor de ato infracional. Busca ainda superar
a visão assistencialista e paternalista da Doutrina da Situação
Irregular que norteava os Códigos de Menores. Com o ECA, os
direitos da criança e do adolescente passam a ser garantidos por
lei, e quem descumpri-los está sujeito a responder judicialmente
pela ameaça ou pela violação desses direitos. Para que os direi-
tos da criança e do adolescente sejam assegurados, o ECA pro-
põe um novo modelo de atendimento por meio da articulação de
um sistema de garantias de direitos, que tem a missão de zelar
pelo cumprimento dos direitos garantidos pelo ECA.
2 Mudança de gestão: o Eca introduz um nova divisão do tra-
balho e atribui competências e responsabilidades às três esfe-
ras de governo: União, Estado e Município e conta ainda com
participação da sociedade civil organizada. O ECA estabelece a
criação dos Conselhos de Direitos nas três esferas de governo,
que têm como competência a deliberação, a formulação e a fis-
calização das políticas públicas para a criança e o adolescente.
Também cria o Conselho Tutelar no âmbito municipal, que se
constitui como porta de entrada para todas as denúncias de ame-
aça e/ou violação dos direitos assegurados pelo ECA à popula-
ção infanto-juvenil.
A compreensão dessas mudanças é indispensável para a garantia da
proteção integral e o rompimento definitivo com a Doutrina da Situação

– 34 –
Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei específica na área da infância e da adolescência

Irregular. Sabemos que a proteção integral é a doutrina que fundamenta o


Estatuto da Criança e do Adolescente. Vamos conhecer melhor os princí-
pios que amparam essa doutrina.

3.2 Princípios da Doutrina da Proteção Integral


A Doutrina da Proteção Integral consiste em garantir os direitos da
criança e do adolescente referentes à sobrevivência, ao desenvolvimento
pessoal e social, à integridade física, psicológica e moral. O Estatuto da
Criança e do Adolescente é fundamentado na proteção integral e garante
à criança e ao adolescente a condição de cidadãos de direitos como os
adultos e ainda de direitos especiais. A Doutrina da Proteção Integral
trouxe três avanços fundamentais ao considerar a criança e o adoles-
cente como:
2 sujeitos de direitos
2 pessoas em condição peculiar de desenvolvimento
2 prioridade absoluta
Conheceremos a seguir, de forma detalhada, em que consiste cada
um desses princípios.

3.2.1 Criança e adolescente: sujeitos de direitos


O ECA garante à criança e ao adolescente um conjunto de direitos
que tem como finalidade precípua assegurar à população infanto-juvenil
as condições de ter todas as suas necessidades básicas atendidas. Os direi-
tos regulamentados no ECA foram instituídos pela Constituição Federal
de 1988, nos Artigos 227 e 228, e têm como fundamento os princípios da
Convenção Internacional dos Direitos da Criança. O Artigo 227 da Cons-
tituição Federal de 1988 dispõe que
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e
ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação à educação, ao esporte, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligên-
cia, discriminação, exploração, crueldade e opressão.

– 35 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Vamos compreender os direitos assegurados pelo Artigo 227, que


estão regulamentados ao longo dos 267 Artigos do ECA.
2 Direito à vida: crescer e viver com dignidade e ser protegido
daquilo que possa prejudicar o seu desenvolvimento como pes-
soa e como cidadão.
2 Direito à saúde: garantir a prevenção contra doenças.
2 Direito à alimentação: garantir alimentação sadia, nutritiva e
adequada à sua idade e às necessidades de seu organismo.
2 Direito à educação: garantir educação universal e gratuita com
oportunidades justas para que se formem como cidadãos qualifi-
cados para o ingresso no mercado de trabalho.
2 Direito à cultura: conhecer e vivenciar os valores de sua comu-
nidade e desenvolver suas potencialidades artísticas por meio do
exercício de atividades criativas.
2 Direito de lazer: garantir lazer adequado à sua idade para favo-
recer o seu pleno desenvolvimento.
2 Direito ao esporte: assegurar o desenvolvimento físico do corpo
e da mente, o relacionamento com outros e a aprendizagem das
regras para agir em conjunto.
2 Direito à profissionalização: preparar-se para ingressar posi-
tivamente no mercado de trabalho sob orientação e condições
adequadas.
2 Direito à dignidade: ficar a salvo de toda e qualquer forma de
exploração, tratamento desumano, humilhante ou constrange-
dor, negligência e abandono por ação ou omissão.
2 Direito ao respeito como pessoa: ter seu espaço preservado,
assim como seus objetos pessoais e, evidentemente, a salvo de
agressões física e psicológica.
2 Direito à liberdade: ter o direito de ir e vir, de estar, de opinar,
de falar de crença ou de culto religioso, de participar da vida
familiar, comunitária e cívica.

– 36 –
Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei específica na área da infância e da adolescência

2 Direito à convivência familiar e comunitária: ter a garantia de


atendimento às famílias com vistas a propiciar condições neces-
sárias para que as crianças e os adolescentes possam ser criados
pelos seus pais.
Os direitos à vida, à saúde e à alimentação se constituem no primeiro
elenco de direitos assegurados pelo ECA, os quais garantem a subsistência
da criança e do adolescente. Os direitos à educação, à cultura, ao lazer e à
profissionalização fazem parte do segundo elenco de direitos assegurados
pelo ECA, os quais correspondem ao desenvolvimento pessoal e social da
criança e do adolescente. Os direitos à dignidade, ao respeito, à liberdade
e à convivência familiar e comunitária fazem parte do terceiro elenco de
direitos estabelecidos pelo ECA e referem-se à integridade física e psico-
lógica da criança e do adolescente.
Os três elencos de direitos assegurados pelo ECA são apresentados
no Quadro 1.
Quadro 1 – Elencos de direitos assegurados pelo ECA

PRIMEIRO Direito à vida, à saúde e Garante a subsistência da


ELENCO à alimentação criança e do adolescente.
Corresponde ao desen-
Direito à educação, à cul-
SEGUNDO volvimento pessoal e
tura, ao lazer e à profis-
ELENCO social da criança e do
sionalização
adolescente.
Direito à dignidade, ao
Refere-se à integridade
TERCEIRO respeito, à liberdade e à
física e psicológica da
ELENCO convivência familiar e
criança e do adolescente.
comunitária

Os direitos da criança e do adolescente obedecem aos princípios


gerais dos direitos humanos representados pelos direitos políticos, civis
e sociais. Os direitos políticos dizem respeito à participação dos cidadãos
no governo, o direito de votar e de participar de órgãos de representação
popular, como os Conselhos de Políticas e de Direitos. Os direitos civis
asseguram a vida, a liberdade, a igualdade, a manifestação de pensamento
e a participação em movimentos sociais. Os direitos sociais garantem o

– 37 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

acesso às políticas públicas que propiciam condições de vida digna para os


cidadãos, como educação, saúde, assistência social, habitação.
Detalharemos, na próxima seção, o segundo princípio do ECA.

3.2.2 Pessoas em condição peculiar


de desenvolvimento
A criança e o adolescente são seres em condições peculiares de
desenvolvimento físico, pessoal, psicológico, social, espiritual e cultural.
Nesse contexto, significa dizer que estão em processo de formação
de suas personalidades e são detentoras de direitos especiais, além de
todos aqueles direitos que são facultados aos adultos, uma vez que não
dispõem de todos os meios necessários para satisfazer suas necessida-
des básicas e por estar em processo de aprendizagem. Dessa forma, a
criança e o adolescente precisam do adulto para suprir suas necessida-
des e para orientá-los.
Por estarem em pleno desenvolvimento físico, emocional e sociocul-
tural, a criança e o adolescente não podem responder pelo cumprimento
das leis igualmente aos adultos, necessitam, portanto, de um atendimento
diferenciado por parte da justiça. Nesse sentido, o ECA prevê as medidas
cabíveis e respeita a sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.
No intuito de concluir os princípios da proteção integral da criança e do
adolescente, apresentaremos, a seguir, detalhes sobre a prioridade absoluta.

3.2.3 Prioridade absoluta


A garantia de prioridade absoluta está assegurada pelo ECA no Artigo
4º, parágrafo único, que dispõe sobre
2 primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;
2 precedência do atendimento nos serviços públicos ou de rele-
vância pública;
2 preferência na formulação e na execução das políticas sociais
públicas;

– 38 –
Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei específica na área da infância e da adolescência

2 destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relaciona-


das com a proteção, a infância e a juventude.
O Artigo citado defende a prioridade absoluta e destaca algumas exi-
gências para que esse princípio seja de fato efetivado.
A partir do estudo sobre os princípios norteadores do ECA, faremos
uma comparação entre os Códigos de Menores e o Estatuto da Criança e
do Adolescente no Quadro 2.
Quadro 2 – Comparação entre os Códigos de Menores e o Estatuto da Criança e do Adolescente

ESTATUTO DA CRIANÇA
CÓDIGOS DE MENORES
E DO ADOLESCENTE
DOUTRINA DA SITUAÇÃO
DOUTRINA DA
IRREGULAR
PROTEÇÃO INTEGRAL
Destinam-se apenas aos menores em Dirige-se a todas as crianças e a
situação irregular: carentes, abando- todos os adolescentes sem exceção
nados, inadaptados e infratores alguma.
Tratam do direito tutelar do menor,
Trata da Proteção Integral, isto é,
ou seja, os menores são objetos
da sobrevivência do desenvolvi-
de medidas judiciais quando se
mento e da integridade de todas as
encontram em situação irregular,
crianças e todos os adolescentes.
assim definidos legalmente.
O menor é visto como objeto de A criança e o adolescente são vis-
intervenção jurídico-social do tos como sujeitos de direitos exigí-
Estado. veis com base na lei.
É descentralizador e aberto à par-
São centralizadores e autoritários. ticipação da cidadania por meio de
conselhos paritários.
Instrumento de controle social das Desenvolvimento social voltado
crianças e dos adolescentes vítimas para o conjunto da população infanto-
da omissão da família, da socie- -juvenil do país, garantia de proteção
dade e do Estado em relação aos especial a esse segmento considerado
seus direitos. pessoal e socialmente vulnerável.

– 39 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

ESTATUTO DA CRIANÇA
CÓDIGOS DE MENORES
E DO ADOLESCENTE
DOUTRINA DA SITUAÇÃO
DOUTRINA DA
IRREGULAR
PROTEÇÃO INTEGRAL
Políticas sociais básicas, políticas
Política nacional do bem-estar do assistenciais, serviços de proteção
menor, segurança pública, justiça e defesa das crianças e dos ado-
de menores. lescentes vitimizados e proteção
jurídico-social.
São omissos a respeito de crimes e
Pune o abuso de pátrio poder, das
infrações cometidos pela violação
autoridades e dos responsáveis
dos direitos da criança e do ado-
pela criança e pelo adolescente.
lescente.
Fonte: Socioeducação (2006, p. 20)

Podemos entender e diferenciar, por meio do quadro, os fundamentos


da Doutrina da Situação Irregular (Códigos de Menores) dos fundamentos
da Doutrina da Proteção Integral (ECA). Os Códigos de Menores tratavam a
criança e o adolescente como menor em situação irregular, sendo apenas obje-
tos de direitos e de intervenção por parte do Estado e da Família. Já o ECA
considera a criança e o adolescente como sujeitos de direitos e responsabiliza
a família, a sociedade e o Estado pela não proteção de suas crianças e seus
adolescentes e pela não garantia dos seus direitos que estão instituídos em lei.
Portanto a família, a sociedade e o Estado são agentes responsáveis
pela garantia dos direitos infanto-juvenis. Quando os direitos não são efe-
tivados, é porque algum desses agentes não cumpriu com a sua responsa-
bilidade. Vejamos, nesse caso, quem deve ser responsabilizado.

3.3 Quem são os violadores dos direitos


da criança e do adolescente?
A Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Ado-
lescente asseguram que o zelo, a defesa e a garantia dos direitos consti-

– 40 –
Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei específica na área da infância e da adolescência

tucional e estatutário cabem à família, ao Estado e à sociedade em geral.


Esses direitos devem ser assegurados para o crescimento sadio e digno da
criança e do adolescente. Assim o ECA, com base no Artigo 227 da Carta
Magna, estabelece no seu Art. 4º que
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do
poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos
direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao
esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

O Artigo do ECA citado define de quem é a competência em garantir


a prioridade absoluta, princípio que se refere à subsistência, ao desenvol-
vimento pessoal e social e à integridade física e psicológica da criança e
do adolescente.
Quando há ameaça e/ou violação desses direitos, algum ente (família,
sociedade ou Estado) é responsabilizado por ação ou omissão dos direitos
assegurados em Lei. Para que essa responsabilização ocorra, o ECA esta-
belece, no Artigo 98, quatro categorias de violadores: a família, a socie-
dade, o Estado e a própria criança ou o próprio adolescente.
O grupo da família envolve os pais e os responsáveis. Incluem-se
também nesse grupo os parentes e as pessoas que são próximas da família,
com livre acesso à convivência familiar. Acerca da família, especifica-
mente no que diz respeito aos pais, o ECA determina que
Art. 22. Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação
dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes, a obri-
gação de cumprir e fazer cumprir as determinações judiciais.
Art. 249. Descumprir, dolosamente, os deveres inerentes ao pátrio
poder ou decorrente de tutela ou guarda, bem assim determinação
da autoridade judicial ou Conselho Tutelar.
Pena: multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o
dobro em caso de reincidência (grifo nosso).

O ECA imprime responsabilidades à família no trato com a criança e o


adolescente, para que os princípios do ECA sejam efetivados na sua totalidade.
O termo pátrio poder foi retificado pelo Novo Código Civil de
2002, o qual passa a adotar o termo poder familiar, conforme assinala o

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Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Art. 1.630 do referido Código: os filhos estão sujeitos ao poder familiar,


enquanto menores.
Concernente à sociedade e ao Estado, o UNICEF (1998) certifica
que o Estado compreende todo o setor público em âmbito federal, estadual
e municipal. Assim como o Estado, a sociedade também está retratada em
qualquer instituição da esfera pública, como escola, creches, hospitais,
postos de saúde, de assistência e policial, orfanatos, entre outros. Acerca
dos direitos fundamentais, que são de responsabilidade do Poder Público,
o ECA assegura que
7º. A criança e o adolescente têm direito à proteção, à vida e à
saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que per-
mitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em
condições dignas de existência.
53. A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao
pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da
cidadania e qualificação para o trabalho [...].

Os artigos citados apontam um elenco de direitos cujo propósito é


garantir o pleno desenvolvimento da criança e do adolescente.
No que se refere à responsabilidade da sociedade, o ECA estabelece
no Artigo 245 o seguinte que
Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de
atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de
comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conheci-
mento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra
a criança ou adolescente.
Pena: multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o
dobro em caso de reincidência.

Esse artigo do ECA atribui aos profissionais que lidam com a criança
e o adolescente a responsabilidade de noticiar os casos que envolvam não
somente a confirmação, mas a suspeita de violência praticada contra a
criança e o adolescente.
A criança e o adolescente são especificados pelo ECA como
violadores de seus direitos “[...] nos casos em que os mesmos tenham se
comportado de maneira tal que acabem negando seus próprios direitos”
(UNICEF, 1998, p. 138). Os casos mais comuns estão relacionados ao uso

– 42 –
Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei específica na área da infância e da adolescência

de drogas e à infrequência na escola. Essa afirmação completa o ciclo dos


agentes violadores e aponta os casos em que a própria criança e o próprio
adolescente são violadores dos seus direitos.
Diante do exposto sobre os violadores dos direitos assegurados ao
conjunto da população infanto-juvenil, o ECA institui que
É dever de todos velarem pela dignidade da criança e do
adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano,
violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor (Art. 18).
[...]
É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos
direitos da criança e do adolescente (Art. 70).

O ECA determina que todo cidadão tem o dever de zelar pelos direi-
tos das crianças e dos adolescentes, inclusive na perspectiva de prevenção
da violência praticada contra esse segmento, pois os direitos das crianças
e dos adolescentes são direitos humanos.
Portanto o ECA é a lei específica que regulamenta e assegura os direi-
tos da criança e do adolescente já garantidos na Constituição Federal de
1988. É norteado pela Doutrina da Proteção Integral que rompe definiti-
vamente com a Doutrina da Situação Irregular dos Códigos de Menores.
Considera a criança e o adolescente como sujeitos de direitos e prioridade
absoluta na formulação de políticas públicas. A família, a sociedade e o
Estado são os responsáveis legais pela garantia dos direitos da criança e do
adolescente assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pelo ECA.
Esses direitos são soberanos e não podem ser violados ou ameaçados. No
entanto sabemos que, constantemente, esses direitos são violados. Assim
o ECA institui como abertura de defesa e proteção o dever de toda a socie-
dade em denunciar os casos de violação e ameaça desses direitos, como
forma de ressarcimento e prevenção de qualquer fato que constitua mau-
-trato contra a população infanto-juvenil.
Para que o ECA possa se traduzir em atendimento efetivo à criança
e ao adolescente, é necessário que um conjunto de atores assuma suas
responsabilidades com vistas à proteção e à defesa dos direitos da criança
e do adolescente. Por isso, no próximo capítulo, conheceremos os órgãos
que compõem o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adoles-

– 43 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

cente e qual o seu papel na defesa dos direitos garantidos pelo ECA e na
proteção da criança e do adolescente nos casos de ameaça e/ou violação
de seus direitos.

Atividades
1. O ECA regulamenta os direitos da criança e do adolescente asse-
gurados na Constituição Federal de 1988. Descreva a concepção
de criança e adolescente adotada pelo ECA.
2. O ECA provocou três revoluções que trouxeram mudanças signi-
ficativas para a seara da criança e do adolescente e extrapolou o
campo jurídico. Sobre as três revoluções, é incorreto afirmar que
a) as revoluções provocadas pelo ECA são mudança de conte-
údo, mudança de método e mudança de gestão.
b) o ECA, com a mudança de conteúdo, concebe a criança
e o adolescente como objeto de intervenção por parte do
Estado e da família.
c) o ECA, com a mudança de método, introduz as garantias
processuais para o adolescente autor de ato infracional.
d) o ECA, com a mudança de gestão, introduz um nova divi-
são do trabalho e atribui competências e responsabilidades
às três esferas de governo (União, Estado e Município) e
conta ainda com participação da sociedade civil organizada.
3. Com base no quadro comparativo entre os Códigos de Menores
e o Estatuto da Criança e do Adolescente, podemos afirmar que
a) o ECA é instrumento de controle social das crianças e dos
adolescentes vítimas da omissão da família, da sociedade e
do Estado em relação aos seus direitos.
b) os Códigos de Menores primavam pelo desenvolvimento
social voltado para a população infanto-juvenil do país e
garantiam proteção especial àqueles segmentos considera-
dos pessoal e socialmente vulneráveis.

– 44 –
Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei específica na área da infância e da adolescência

c) os Códigos de Menores eram centralizadores e autoritários.


O ECA é descentralizador e aberto à participação da cida-
dania por meio de conselhos paritários.
d) os Códigos de Menores tratavam da Proteção Integral, isto
é, da sobrevivência, do desenvolvimento e da integridade
de todas as crianças e todos os adolescentes.
4. A Constituição Federal de 1988, no Artigo 227, e o Estatuto
da Criança e do Adolescente, no Artigo 4º, estabelecem que a
família, o Estado e a sociedade são responsáveis pelo zelo, pela
defesa e pela garantia dos direitos da criança e do adolescente.
Sobre os violadores de direitos da população infanto-juvenil,
podemos afirmar que
a) são a família, a sociedade, o Estado e a própria criança e o
próprio adolescente.
b) aos pais é incumbido o dever somente pelo sustento, pela
guarda e pela educação dos filhos menores.
c) o ECA não inclui a criança e o adolescente como violadores
de seus direitos.
d) o grupo da família envolve somente os pais.

– 45 –
4
Sistema de Garantia
dos Direitos da Criança
e do Adolescente

Introdução
Caro aluno, neste capítulo, você conhecerá o Sistema de
Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente, instituído
para exigir o cumprimento dos direitos assegurados pelo ECA.
O Sistema de Garantia compreende três grandes eixos: promo-
ção, defesa e controle social. É acionado sempre que os direitos
assegurados na Constituição Federal de 1988 e no ECA para o
conjunto da população infanto-juvenil forem ameaçados e/ou
violados. A partir da homologação do Estatuto da Criança e do
Adolescente, surgiu um novo tempo na área da infância e adoles-
cência. Foi retirada do juiz de menores a exclusividade do aten-
dimento de questões concernentes à população infanto-juvenil
e suas famílias. O ECA instituiu o Conselho Tutelar para zelar
pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente nos
casos de ameaça ou violação desses direitos. Abordaremos mais
detalhadamente sobre a finalidade, a importância, as atribuições
e as competências desse conselho.
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Você terá um melhor aproveitamento deste capítulo se compreendeu


o conteúdo apresentado no capítulo 3, no qual trabalhamos o Estatuto da
Criança e do Adolescente e destacamos a Doutrina da Proteção Integral, as
revoluções que trouxeram mudanças significativas para a área da criança e
do adolescente, bem como os violadores dos direitos da criança e do ado-
lescente previstos no ECA. Compreender a dimensão da grande mudança
de paradigma que o ECA nos apresenta, em que a situação irregular do
antigo Código de Menores é substituída pelo paradigma de sujeito de direi-
tos se constitui ponto fundamental para o entendimento da importância do
Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente na concre-
tização dos direitos assegurados em lei e do papel do Conselho Tutelar
como porta de entrada do Sistema de Garantia para todas as denúncias de
ameaça e/ou violação dos direitos da criança e do adolescente.
Vamos iniciar os nossos estudos tratando sobre o papel do Sistema
de Garantia na concretização dos direitos das crianças e dos adolescentes.

4.1 O papel do Sistema de Garantia dos


Direitos da Criança e do Adolescente
O Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente foi
instituído a partir da promulgação do ECA para exercer a missão de asse-
gurar que os 267 artigos da Lei n. 8.069 sejam garantidos à população
infanto-juvenil, sem exceção alguma. Ele atua na defesa dos direitos rela-
tivos à sobrevivência, ao desenvolvimento pessoal e social e à integri-
dade física, psicológica e moral da criança e do adolescente. Dessa forma,
sempre que os direitos assegurados pela Constituição Federal e pelo ECA
forem ameaçados e/ou violados, o Sistema de Garantias é acionado, pois
sua função primordial é viabilizar a proteção, a defesa e a promoção dos
direitos já conquistados com o ECA. A partir da homologação dessa Lei,
Não se cuida mais de crianças em situação regular ou irregular, mas
apenas de crianças e de adolescentes que precisam ter seus direitos
respeitados independente de cor, religião ou da classe social a que
pertence. O atendimento a necessidades como educação, saúde ou
lazer deixam de ser favores para se transformarem em direitos a
serem exigidos e respeitados (NEPOMUCEMO, 2002, p. 145).

– 48 –
Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente

Nessa perspectiva, o Sistema de Garantia é instituído como um


mecanismo de exigibilidade dos direitos assegurados em lei e, para
isso, compreende três grandes eixos: promoção, defesa e controle social.
O eixo promoção é responsável por deliberar e controlar as políti-
cas sociais básicas sob a ótica da universalização dos direitos fundamen-
tais referentes à educação, à saúde, à segurança pública, entre outros. É
também responsável por deliberar e controlar as políticas de seguridade
social, especificamente a política de assistência social, que tem caráter
não universal, uma vez que abrange apenas os contingentes populacionais
excluídos, para os quais falharam as políticas básicas. Nessa perspectiva,
a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), no Artigo 23, parágrafo
único, preconiza que “na organização dos serviços será dado prioridade à
infância e à adolescência em risco pessoal e social, objetivando cumprir
o disposto no Artigo 227 da Constituição Federal e na Lei n. 8.069 [...]”.
Portanto a infância e a adolescência, em situação de vulnerabilidade pes-
soal e social, são público-alvo da política de assistência social.
Cabe ainda ao eixo promoção controlar as políticas de atendimento
dos direitos da criança e do adolescente no que tange às situações de
desaparecidos, abandonados, abusados e explorados sexualmente, explo-
rados no trabalho, prostituídos, crianças e adolescentes de rua e autor de
ato infracional. O referido eixo é composto pelos conselhos setoriais
de assistência social, de direitos e pelas organizações governamentais e
não-governamentais.
O eixo controle social tem como objetivo fiscalizar o cumprimento
dos preceitos legais assegurados pelo ECA, no que se refere às políticas
destinadas para a área da infância e da adolescência. Esse eixo se constitui
como espaço de participação da sociedade civil representada por fóruns
(espaço de mobilização e organização da sociedade em geral) e por enti-
dades não-governamentais (representadas pela sociedade civil organizada
pelos Conselhos de Direitos). Dessa forma, os atores que fazem parte do
controle social são as organizações da sociedade civil, fóruns de defesa da
criança e do adolescente, movimentos sociais, ONGs e redes.
O eixo defesa tem como finalidade a responsabilização do Estado, da
sociedade e da família pelo atendimento irregular ou violação dos direitos

– 49 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

individuais ou coletivos das crianças e dos adolescentes. Essa responsabi-


lização ocorre sempre que os direitos preconizados no ECA estiverem sob
suspeita de ameaça ou forem violados, conforme as hipóteses previstas no
Artigo 98, o qual diz que
As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis
sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados
ou violados:
I. por ação ou omissão da sociedade ou do Estado;
II. por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável;
III. em razão da sua própria conduta.

Estão compreendidos no eixo defesa os seguintes órgãos do Poder


Público: Secretaria de Segurança Pública, poder Judiciário, Defenso-
ria Pública, Conselho Tutelar, Ministério Público, órgãos da sociedade
civil, centro de defesa e entidades sociais. Esses órgãos são responsá-
veis para fazer cessar a ameaça ou a violação dos direitos da criança
e do adolescente. Suas atribuições são encaminhar a solução do pro-
blema e a responsabilização do autor da violação, com vistas à repara-
ção do dano.
O Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente se
caracteriza por uma interação de espaços, instrumentos e atores que, de
modo ordenado, contribuem para o mesmo fim: a garantia de direitos.
Mas, afinal, quem são os atores que compõem o Sistema de Garan-
tia para que se efetivem os direitos das crianças e dos adolescentes?
Vamos conhecê-los.

4.2 Os atores do Sistema de Garantia


O Sistema de Garantia, nos seus três eixos, atua na incumbência de
fazer com que a família, o Estado e a sociedade caminhem na esteira da
Doutrina da Proteção Integral e garante à população infanto-juvenil os
direitos assegurados na Lei 8.069. Para possibilitar ativamente a efetiva-
ção desses direitos, os quais estão minuciosamente detalhados nos 267
artigos do ECA, o Sistema de Garantia é composto por um elenco de
atores que atuam na seara da militância em defesa dos direitos da criança

– 50 –
Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente

e do adolescente. Destacamos, na sequência, quem é quem no Sistema


de Garantia.
2 Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente
(CONANDA): é um órgão paritário de âmbito nacional que
delibera e controla a política infanto-juvenil. É formado por 24
membros, são 12 representantes do governo e 12 representantes
de entidades não-governamentais. É ainda responsável pela for-
mulação de políticas públicas e pela decisão sobre a aplicação de
recursos destinados ao cumprimento do ECA.
2 Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adoles-
cente (CEDCA): é um órgão paritário, de nível estadual, que é
formado por representantes da sociedade civil e de instituições
governamentais. Cabe a seus componentes acompanhar e
avaliar programas socioeducativos de proteção às crianças e aos
adolescentes. É sua competência também interferir em casos de
desvios, abusos e omissões dos órgãos governamentais ou que
atuam na área da infância e da juventude.
2 Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adoles-
cente (CMDCA): é um órgão paritário composto por represen-
tante do Poder Público e da sociedade civil organizada que, “[...]
por determinação da Lei 8.069, deve, obrigatoriamente, fazer
parte do poder Executivo municipal” (UNICEF, 1995, p. 9).
Tem como objetivo central garantir, priorizar e controlar o cum-
primento das políticas públicas no âmbito municipal.
2 Conselho Tutelar: o Art. 131 do ECA dispõe que o Conselho
Tutelar “[...] é um órgão permanente e autônomo não jurisdicio-
nal encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos
direitos da criança e do adolescente definidos nesta Lei”. O Con-
selho Tutelar é um órgão colegiado, composto de cinco membros
escolhidos pela sociedade por meio do voto para garantir que os
direitos da população infanto-juvenil não sejam ameaçados ou
violados. Para tanto, tem o poder de requisitar serviços públicos
nas áreas de saúde, educação, serviço social, previdência, traba-
lho e segurança pública.

– 51 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Saiba mais

Conheça mais detalhadamente sobre as características do Conselho


Tutelar que estão disponíveis no sítio

<http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sedh/conselho/
conanda/>.

Em especial, conheça as resoluções do CONANDA, que tratam da cria-


ção e do funcionamento dos conselhos tutelares, este importante ator
do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente.

2 Fundo para Infância e Adolescência (FIA): é criado por lei em


âmbito nacional, estadual e municipal e está vinculado aos res-
pectivos Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente.
É constituído com recursos administrados pelos Conselhos de
Direitos, previsto no Art. 88, inciso IV do ECA. Trabalha com
dotações orçamentárias ou arrecadação com multas por violação
dos direitos da criança e do adolescente. Também pode receber
doação de 1% do impacto de renda de pessoas jurídicas. Sobre
o funcionamento do FIA, Pontes Jr. (1993, p. 41) ressalta que
O essencial para o bom funcionamento do fundo é que o Conselho
de Direitos possa, a partir de uma profunda análise da situação de
crianças e adolescentes de sua abrangência, estabelecer as priori-
dades, formas de obtenção de recursos [...] para [...] fixar os crité-
rios de utilização desses recursos.

Observa-se que o Conselho de Direitos deve ter o conhecimento


da realidade em que estão inseridas as crianças e os adolescen-
tes, para que possa definir tanto as alternativas de captação dos
recursos quanto as prioridades de aplicação dos recursos do
Fundo Municipal.
2 Juiz da Infância e da Juventude: é autoridade local para jul-
gar as causas decorrentes de violação das normas do Estatuto
da Criança e do Adolescente. Com a criação do ECA, o juiz
não é a única autoridade sobre questões relacionadas à infância
e à adolescência. Ele divide decisões sobre tutela, guarda, ado-

– 52 –
Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente

ção e poder familiar com profissionais, por exemplo, do Serviço


Social e da Psicologia, que são responsáveis pela realização dos
estudos social e psicológico, os quais subsidiarão a decisão final
do juiz.
2 Vara da Infância e da Juventude: é o órgão encarregado
de aplicar a lei para solução de conflitos relacionados aos
direitos das crianças e dos adolescentes. Sua função pode ser
exercida por um ou mais juízes especializados, em conjunto
com uma equipe técnica, formada por psicólogos, assisten-
tes sociais, educadores, representantes do Ministério Público,
promotor de justiça da infância e da juventude, além de advo-
gados especializados.
2 Assistência Judiciária: é um serviço público prestado pelo
defensor público ou advogado nomeado, tendo em vista que o
ECA garante que a criança e o adolescente têm direito à defesa,
em especial os adolescentes autores de atos infracionais.
2 Ministério Público: conforme o ECA, o promotor é quem zela
pelo efetivo respeito aos direitos e às garantias assegurados às
crianças e aos adolescentes. Isto é, ele propõe as ações que, se
aceitas, serão julgadas pelo juiz.
2 Segurança Pública: é composta pelas polícias militar e civil, que
têm o dever de conhecer e aplicar o ECA. Cabe à polícia militar
a atuação ostensiva e a preservação da ordem pública. É função
de a polícia civil investigar a prática de atos infracionais contra
as leis criminais, reunir provas para que a justiça possa julgar os
responsáveis e para que o Conselho Tutelar aplique as medidas de
proteção cabíveis no caso da criança e do adolescente.
Portanto ficam evidenciados todos os componentes do Sistema de Garan-
tia, a fim de que possamos compreender a especificidade de atuação de cada
um deles para dar concretude aos direitos da criança e do adolescente.
Conforme já estudamos, o Conselho Tutelar é um dos atores que
compõe o Sistema de Garantia inserido no eixo defesa. Nessa direção,
conheceremos melhor esse Conselho.

– 53 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

4.3 Conselho Tutelar: porta de entrada para


todas as denúncias de ameaça e violação
dos direitos da criança e do adolescente
A partir do ECA, outro ator entra em cena para atuar na defesa, na
proteção e na garantia dos direitos assegurados à criança e ao adolescente.
É nessa perspectiva que, “nesse novo cenário, o Conselho Tutelar é um
organismo chave, que tem em sua definição a competência formal de zelar
pelo cumprimento dos direitos previstos na Lei” (COSTA, 2002, p. 75).
O Conselho Tutelar (CT) é representado por pessoas da comunidade
que são eleitas por meio do voto da própria comunidade. “Trata-se de
apostar definitivamente na capacidade do povo para resolver os seus pró-
prios problemas” (COSTA, 2002, p. 77).
Os Arts. 131 e 132 do ECA dispõem que
O Conselho Tutelar é órgão permanente e autônomo, não jurisdi-
cional, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos
direitos da criança e do adolescente, definidos nesta Lei (Art. 131).
Em cada município haverá, no mínimo, um Conselho Tutelar com-
posto de cinco membros, escolhidos pela comunidade local para
um mandato de três anos, permitida uma recondução (Art.. 132).

Percebemos que o Conselho Tutelar tem uma relevante responsabili-


dade no sentido de representar a sociedade para que os direitos previstos
em lei, em favor da criança e do adolescente, sejam cumpridos.
Segundo Sêda (2001), o CT é um órgão permanente, uma vez que passou
a integrar definitivamente o conjunto de instituições brasileiras que atua no
cumprimento dos direitos garantidos pelo ECA. É autônomo no sentido de ter
autoridade legal para desempenhar as atribuições que lhe são confiadas pela
Lei. É não jurisdicional, haja vista não estar integrado ao poder Judiciário e
sim ao Poder Público para exercer funções públicas de caráter administrativo.
A missão do CT é proteger a população infanto-juvenil vítima de
maus-tratos, atuar a partir das situações de queixas e denúncias de ameaça
e violação dos direitos da criança (pessoas até 12 anos incompletos) e
adolescentes (pessoas de 12 a 18 anos), nas hipóteses previstas no Art. 98
e 105 do ECA.

– 54 –
Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente

Nesse sentido, O CT é considerado um mecanismo de exigibili-


dade dos direitos estabelecidos pela Constituição Federal de 1988 e,
em especial, pelo ECA. Tem caráter público, uma vez que está vincu-
lado administrativamente ao Poder Público municipal. No entanto tem
autonomia administrativa para desempenhar suas ações, pois se trata
“de um organismo representativo da comunidade que deve exercer uma
parcela do poder público com autoridade administrativa para promover
suas próprias decisões” (COSTA, 2002, p. 76).
Andrade (2000) define o Conselho Tutelar enquanto uma institui-
ção que tem como função acolher queixas e/ou denúncias que constituem
ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente e que tem
como responsabilidade tomar providências para solucionar a situação
denunciada. Nesse sentido, o CT foi instituído como porta de entrada para
todas as denúncias que envolvem maus-tratos contra a população infanto-
-juvenil, conforme está estabelecido no Artigo 13 do ECA: “os casos de
suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente
serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva
localidade, sem prejuízo de outras providências legais”.
Para proteger a criança e o adolescente, o CT aplica as medidas de
proteção previstas no Artigo 101, incisos de I a VII do ECA:
Art. 101 Verificada qualquer das hipóteses previstas no Art. 98, a
autoridade competente poderá determinar, entre outras, as seguin-
tes medidas:
I. Encaminhamento aos pais e responsáveis, mediante termo de
responsabilidade;
II. Orientação, apoio e acompanhamento temporários;
III. Matrícula e frequência obrigatória em estabelecimento oficial
de ensino fundamental;
IV. Inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à famí-
lia, à criança e ao adolescente;
V. Requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico,
em regime hospitalar ou ambulatorial;
VI. Inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orien-
tação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos;
VII. Abrigo em entidade.

– 55 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Observamos que cabe ao Conselho Tutelar aplicar as medidas de pro-


teção previstas na lei. Então é fundamental que saibamos quais são as
atribuições e as competências desse importante órgão que representa a
sociedade no cumprimento dos direitos estabelecidos no ECA.

4.3.1 Atribuições e competências do CT


As atribuições do Conselho Tutelar estão listadas no Art. 136 do ECA
traduzidas em 11 incisos. Vejamos quais são essas atribuições.
I. Atender as crianças e os adolescentes nas hipóteses previstas nos
Arts. 98 e 105, aplicando as medidas previstas no Art. 101, I a VII;
II. Atender e aconselhar os pais ou responsável, aplicando as medi-
das previstas no Art. 129, I a VII;
III. Promover a execução de suas decisões, podendo para tanto:
a) Requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação, ser-
viço social, previdência, trabalho e segurança;
b) Representar junto à autoridade judiciária nos casos de descum-
primento injustificado de suas deliberações.
IV. Encaminhar ao Ministério Público notícia de fato que consti-
tua infração administrativa ou penal contra os direitos da criança
ou adolescente;
V. Encaminhar à autoridade judiciária os casos de sua competência;
VI. Providenciar a medida estabelecida pela autoridade judiciária,
entre as previstas no Art. 101, de I a VI, para o adolescente autor
de ato infracional;
VII. Expedir notificações;
VIII. Requisitar certidões de nascimento e de óbito de criança ou
adolescente quando necessários;
IX. Assessorar o Poder Executivo na elaboração da proposta orça-
mentária para planos e programas de atendimento dos direitos da
criança e do adolescente;
X. Representar, em nome da pessoa e da família, contra a violação dos
direitos previstos no Art. 220, § 3º. Inciso II, da Constituição Federal;
XI. Representar ao Ministério Público, para efeito das ações de
perda ou suspensão do pátrio poder.

– 56 –
Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente

O ECA especifica de forma bastante minuciosa as atribuições e as


competências do Conselho Tutelar e demonstra o quanto esse órgão se
constitui em um mecanismo imprescindível para o cumprimento dos direi-
tos garantidos em lei.
De acordo com Sêda (2001), a competência do Conselho Tutelar é
definida pelo seu território de atuação. Sua jurisdição é administrativa e
tem o município como espaço do exercício de sua função. Os limites de
cobertura do serviço público do CT são definidos por lei municipal que
estabelece, no caso de existir apenas um Conselho Tutelar no município, a
cobertura dos casos de todo território municipal e, no caso de mais de um
CT, define o território de abrangência de cada um deles. Nessa segunda
situação, é competência do CT atender às denúncias em que os pais ou
os responsáveis tenham domicílio. Se o pai e a mãe residirem em locais
diferentes, o CT pode atuar em qualquer deles e, se um deles apenas tiver
a guarda da criança ou do adolescente, prevalece o domicílio deste.
Nos casos em que ocorre a falta dos pais ou dos responsáveis e não é
possível identificá-los, tem competência para receber as denúncias o CT
do local onde se encontre a criança e o adolescente, visando assim a que o
[...] próprio Conselho Tutelar não se torne mais um serviço público
lesivo aos direitos de crianças e adolescentes, sendo impossível
localizar pais ou responsável, deve assumir a proteção do caso o
Conselho Tutelar do local onde os lesados se encontrem, evitando
toda e qualquer delonga burocratizante (SÊDA, 2001, p. 43).

Percebemos que o Conselho Tutelar deve ser um órgão bastante


ágil na identificação e na aplicação da medida protetiva cabível, para
não se tornar um serviço público lesivo aos direitos assegurados à
criança e ao adolescente.
Portanto, neste capítulo, fica evidente a importância de todos os
órgãos que compõem o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do
Adolescente para a concretização dos direitos assegurados pela Consti-
tuição Federal de 1988 e pelo ECA. Esse Sistema tem a missão precípua
de exigir o cumprimento dos direitos assegurados à população infanto-
-juvenil e deve ser sempre acionado quando esses direitos forem ameaça-
dos e/ou violados. Ressaltamos a relevância pública do Conselho Tutelar,
o qual deve oferecer à comunidade um atendimento pautado na eficiência

– 57 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

do serviço prestado e sempre visar à proteção da criança e do adolescente.


Para tanto, faz-se necessário democratizar esse atendimento para, assim,
viabilizar em tempo hábil a resolução dos casos que se torna possível pela
implementação da política de atendimento à criança e ao adolescente.
Essa política, segundo o ECA, deverá ser implementada por meio de um
conjunto articulado de ações governamentais e não-governamentais, da União,
dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios. No próximo capítulo tere-
mos a oportunidade de conhecer o papel dos Conselhos de Direitos da Criança
e do Adolescente nas três esferas de governo: União, Estado e município.
Refletiremos sobre a importância desses conselhos na formulação, na delibera-
ção e no controle social da política de atendimento da criança e do adolescente.

Atividades
1. O Sistema de Garantia é instituído como um mecanismo de exi-
gibilidade dos direitos assegurados pelo ECA e, para isso, está
compreendido em três grandes eixos: promoção, defesa e con-
trole social. Sobre os três eixos, marque V para as afirmativas
verdadeiras e F para as falsas.
( ) O eixo promoção é responsável por deliberar e controlar
as políticas sociais básicas sob a ótica da universalização
dos direitos fundamentais referentes à educação, à saúde, à
segurança pública, entre outros.
( ) O eixo promoção é responsável por deliberar e controlar as
políticas de seguridade social, especificamente a política de
assistência social que tem caráter não universal.
( ) O eixo promoção é composto pelos seguintes órgãos:
Secretaria de Segurança Pública, poder Judiciário, Defen-
soria Pública, Conselho Tutelar, Ministério Público, órgãos
da sociedade civil, centro de defesa, entidades sociais.
( ) O eixo controle social se constitui como espaço de partici-
pação da sociedade civil representada por fóruns (espaço
de mobilização e organização da sociedade em geral) e por

– 58 –
Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente

entidades não-governamentais (representadas pela socie-


dade civil organizada pelos Conselhos de Direitos).
( ) O eixo defesa tem como finalidade a responsabilização do
Estado, da sociedade e da família pelo atendimento irre-
gular ou violação dos direitos individuais ou coletivos da
criança e do adolescente.
A sequência correta é
a) V, V, V, V, V.
b) V, V, F, V, V.
c) V, F, V, V, F.
d) F, F, V, V, F.
2. O Sistema de Garantia atua na incumbência de fazer com que a
família, o Estado e a sociedade caminhem na esteira da Doutrina
da Proteção Integral do ECA. Descreva os atores que compõem
o Sistema de Garantia de Direitos cuja missão é possibilitar ati-
vamente a efetivação dos direitos assegurados em lei.
3. As atribuições do Conselho Tutelar estão listadas no Art. 136
do ECA traduzidas em 11 incisos. O Conselho Tutelar tem a
atribuição de
a) atender às crianças e aos adolescentes nas hipóteses previs-
tas nos Arts. 98 e 105 e aplicar as medidas previstas no Art.
101, I a VIII.
b) requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação,
serviço social, previdência, trabalho e segurança e repre-
sentar junto à autoridade judiciária nos casos de descumpri-
mento injustificado de suas deliberações.
c) requisitar o registro de nascimento e de óbito de criança ou
adolescente quando necessário.
d) assessorar o poder Executivo somente na implementação
da proposta orçamentária para planos e programas de aten-
dimento dos direitos da criança e do adolescente.

– 59 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

4. O Conselho Tutelar foi instituído pelo ECA para zelar pelo cum-
primento dos direitos da criança e do adolescente nos casos de
ameaça ou violação desses direitos. Sobre as características do
Conselho Tutelar, não podemos afirmar que é
a) um órgão permanente, uma vez que ele passou a integrar
definitivamente o conjunto das instituições brasileiras que
atuam com vistas ao cumprimento dos direitos garantidos
pelo ECA.
b) não jurisdicional, haja vista não estar integrado ao poder
Judiciário e sim ao Poder Público e exercer funções públi-
cas de caráter administrativo.
c) jurisdicional, uma vez que está ligado ao poder Judiciário
para o exercício de sua função pública.
d) autônomo, no sentido de desempenhar as atribuições que
lhe são confiadas pela lei.

– 60 –
5
A política de
atendimento
da criança e do
adolescente e os
Conselhos de Direitos

Introdução
Caro aluno, neste capítulo, você estudará as linhas de ação
e as diretrizes da política de atendimento à criança e ao adoles-
cente, conforme preconiza o ECA. As ações devem ser desenvol-
vidas nas áreas das políticas sociais básicas, política de assistên-
cia social, políticas de proteção especial e políticas de garantias
de direitos. As diretrizes correspondem à municipalização da
política e à criação dos Conselhos de Direitos da Criança e do
Adolescente em todas as esferas de governo.
Conheceremos, ainda, o papel dos Conselhos de Direitos
da Criança e do Adolescente nas três esferas de governo: União,
Estado e município, órgãos responsáveis pela formulação, pela
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

deliberação e pelo controle social da política de atendimento da criança e do


adolescente. A criação dos Conselhos de Direitos nas três esferas de governo
faz parte das diretrizes da política de atendimento preconizadas pelo ECA.
É garantida a participação da sociedade civil nas decisões dos conselhos.
Para melhor compreensão deste capítulo, você precisa conhecer o
Estatuto da Criança e do Adolescente e a Doutrina da Proteção Integral,
que foram estudados no capítulo 3. A política de atendimento voltada
para a população infanto-juvenil tem como finalidade implementar os
direitos assegurados pelo ECA, o qual é sustentado pela Doutrina da
Proteção Integral.
Você precisa conhecer, ainda, o Sistema de Garantias dos Direitos
da Criança e do Adolescente, especificamente o eixo controle social, do
qual fazem parte os Conselhos de Direitos, analisados no capítulo 4. Essa
compreensão é importante para entender os mecanismos de organização
e o funcionamento da política de atendimento à criança e ao adolescente,
conforme preconiza a ECA, e conhecer os mecanismos de controle social
dos direitos da criança e do adolescente segundo o Estatuto da Criança e
do Adolescente.
Comecemos pela política de atendimento à criança e ao adolescente
e o papel dos conselhos no controle social dessa política.

5.1 Política de atendimento à


criança e ao adolescente
A política de atendimento à criança e ao adolescente, estabelecida
pelo ECA, tem como fundamento sociojurídico a Doutrina da Proteção
Integral. Requer o conjunto articulado de ações por parte das três esferas
de governo: União, Estado e município e com a participação da sociedade
civil organizada.
O Artigo 86 do ECA dispõe que
A política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente
far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamen-
tais e não-governamentais, da União, dos estados, do Distrito
Federal e dos municípios.

– 62 –
A política de atendimento da criança e do adolescente e os Conselhos de Direitos

Cabe à União realizar a coordenação nacional da política de aten-


dimento e definir as diretrizes e as normas gerais. Aos Estados e aos
municípios, cabe a responsabilidade pela coordenação e pela execução
da política. Aos municípios, em parceria com as organizações não-gover-
namentais, cabe a execução dos programas, isto é, o atendimento direto
às crianças e aos adolescentes. As ações da política de atendimento são
divididas em quatro grandes linhas: políticas sociais básicas, política de
assistência social, políticas de proteção especial e políticas de garantias de
direitos. O Artigo 87 do ECA preconiza que
São linhas de ação da política de atendimento:
I - políticas sociais básicas;
II - políticas e programas de assistência social, em caráter suple-
tivo, para aqueles que deles necessitem;
III - serviços especiais de prevenção e atendimento médico e
psicossocial às vítimas de negligência, maus-tratos, exploração,
abuso, crueldade e opressão;
IV - serviço de identificação e localização de pais, responsável,
crianças e adolescentes desaparecidos;
V - proteção jurídico-social por entidades de defesa dos direitos da
criança e do adolescente.

As políticas sociais básicas, política de assistência social, políticas de


proteção especial e políticas de garantias de direitos estão asseguradas no
Artigo 87. A primeira linha da política de atendimento são as políticas sociais
básicas. Costa (2006) assevera que as políticas sociais básicas são políticas
de direitos de todos e de dever do Estado, como educação, saúde. A política
de assistência social destina-se às crianças e aos adolescentes que se encon-
tram em situação de vulnerabilidade social, em estado temporário ou perma-
nente de necessidades. O atendimento é de caráter supletivo, como creches,
alimentação complementar. As políticas de proteção especial se destinam
para as crianças e os adolescentes que se encontram em risco pessoal e com
seus direitos ameaçados e/ou violados, que necessitam de medidas especiais
de proteção, como abrigo, liberdade assistida, entre outras. As políticas de
garantias de direitos se destinam às crianças e aos adolescentes em situação
que se encontram envolvidos em conflitos de natureza jurídica, como assis-
tência judiciária, plantões de defesa de direitos, entre outras.

– 63 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

As linhas da política de atendimento seguem as diretrizes básicas


especificadas no Artigo 88 do ECA. Vejamos.
São diretrizes da política de atendimento:
I - municipalização do atendimento;
II - criação de conselhos municipais, estaduais e nacional dos direi-
tos da criança e do adolescente, órgãos deliberativos e controlado-
res das ações em todos os níveis, assegurada a participação popular
paritária por meio de organizações representativas, segundo leis
federal, estaduais e municipais;
III - criação e manutenção de programas específicos, observada a
descentralização político-administrativa;
IV - manutenção de fundos nacional, estaduais e municipais
vinculados aos respectivos conselhos dos direitos da criança e
do adolescente;
V - integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério
Público, Defensoria, Segurança Pública e Assistência Social, pre-
ferencialmente em um mesmo local, para efeito de agilização do
atendimento inicial a adolescente a quem se atribua autoria de
ato infracional;
VI - mobilização da opinião pública no sentido da indispensável
participação dos diversos segmentos da sociedade.

Para que as diretrizes da política de atendimento preconizadas no


Artigo 88 do ECA sejam garantidas, é preciso a criação de uma rede de
proteção dos direitos da criança e do adolescente. Essa rede de proteção
compõe o Sistema de Garantias dos Direitos da Criança e do Adolescente,
que foi trabalhado no capítulo anterior.
A política de atendimento especifica, ainda, medidas de proteção que
estão listadas no Artigo 101 do ECA, inciso I ao VII, que são aplicadas
pelo Conselho Tutelar, e as medidas socioeducativas, especificadas no
Artigo 112, que são aplicadas pelo Juiz da Infância e da Juventude aos
adolescentes em conflito com a lei.
Portanto a política de atendimento estabelecida pelo ECA deve ser
realizada por um conjunto de ações articuladas entre governo e sociedade
civil organizada. As bases para essa ação são as diretrizes e os princípios
da Doutrina da Proteção Integral. O controle social da política de atendi-

– 64 –
A política de atendimento da criança e do adolescente e os Conselhos de Direitos

mento à criança e ao adolescente é realizado pelos Conselhos de Direitos


da Criança e do Adolescente nas três esferas de governo. A seguir, conhe-
ceremos as competências dos Conselhos.

5.2 Conselhos de Direitos da


Criança e do Adolescente
Está preconizado no Estatuto da Criança e do Adolescente, no Artigo
88, inciso II, que são diretrizes da política de atendimento
[...] criação de conselhos municipais, estaduais e nacional dos
direitos da criança e do adolescente, órgãos deliberativos e con-
troladores das ações em todos os níveis, assegurada a participa-
ção popular paritária por meio de organizações representativas,
segundo leis federal, estaduais e municipais.

Os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente são compostos


paritariamente por representantes do governo e da sociedade civil orga-
nizada nas três esferas de governo: nacional, estadual e municipal. São
órgãos de natureza deliberativa e exercem o controle social das políticas
públicas destinadas à infância e à adolescência. Os Conselhos garantem a
participação da sociedade civil na formulação e na fiscalização da imple-
mentação dos direitos assegurados por lei à criança e ao adolescente e, por
isso, constituem-se como órgãos imprescindíveis para a garantia dos direi-
tos. Faleiros (1995, p. 52) expõe que os Conselhos são inovadores, pois
2 apesar de ser um órgão público, ele é autônomo, politica-
mente, em relação ao governo;
2 ele delibera, é resolutivo, decide sobre políticas, programas
e gastos;
2 é um órgão controlador das ações do Governo e da sociedade
civil no que se refere à garantia e à violação dos direitos das
crianças e dos adolescentes;
2 sua composição é paritária, ou seja, traz a sociedade organi-
zada para co-gestão da ação estatal, concretizando a demo-
cracia participativa;
2 sua ação é nacional, atingindo todo país, atua nas esferas
federal, estadual e municipal [...].

– 65 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente exercem


um papel político, uma vez que têm poder legal para definir, junta-
mente com o governo, as diretrizes das políticas públicas de promoção
e defesa dos direitos da criança e do adolescente e, assim, contribuir
para assegurar o cumprimento legal do ECA. Também contribui para
que todas as crianças e todos os adolescentes sejam reconhecidos como
sujeitos de direitos instituídos por lei, pessoas em condição peculiar
de desenvolvimento e prioridade absoluta na formulação de políticas
públicas. A missão maior é conduzir e institucionalizar a Doutrina da
Proteção Integral da Criança e do Adolescente, que norteia o ECA.
Conheceremos, a seguir, as competências dos Conselhos de Direitos
nas três esferas de governo.

5.2.1 Conselho Nacional dos Direitos da


Criança e do Adolescente – CONANDA
O CONANDA foi instituído pela Lei n. 8.242, de 12 de outubro de
1991, e atualmente está vinculado administrativamente à Secretaria Espe-
cial de Direitos Humanos, órgão da Presidência da República.

Saiba mais

Para melhor compreender as competências e ainda conhecer a estrutura


do Conselho Nacional Dos Direitos da Criança e do Adolesce, acesse
o sítio <www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sedh/conselho/
conanda/>. Nele, você terá acesso a todas as legislações pertinentes à
área da criança e do adolescente e, ainda, todas as resoluções que foram
baixadas pelo CONANDA para normatizar a política de atendimento à
criança e ao adolescente.

É um colegiado composto por 14 representantes do poder Executivo,


que são indicados pelos Ministros de Estado, e por 14 representantes de
entidades não-governamentais de âmbito nacional de atendimento, promo-
ção, defesa e garantia dos direitos da criança e do adolescente. O funciona-
mento do CONANDA é exercido por plenária que se reúne em assembleias
ordinárias mensais e conta ainda com o auxílio de Comissões Temáticas e

– 66 –
A política de atendimento da criança e do adolescente e os Conselhos de Direitos

Grupos de Trabalho. De acordo com Lei Federal n. 8.242, de 12 de outubro


de 1991, Artigo 2º, o CONANDA tem como competência legal:
I. elaborar as normas gerais da política nacional de atendimento
dos direitos da criança e do adolescente, fiscalizando as ações de
execução, observadas as linhas de ação e as diretrizes estabeleci-
das nos Arts. 87 e 88 da Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990 - Esta-
tuto da Criança e do Adolescente;
II. Zelar pela aplicação da política nacional de atendimento dos
direitos da criança e do adolescente;
III. dar apoio aos Conselhos Estaduais e Municipais dos Direitos
da Criança e do Adolescente, aos órgãos estaduais, municipais e
entidades não-governamentais para tornar efetivos os princípios,
as diretrizes e os direitos estabelecidos na Lei nº 8.069, de 13 de
julho de 1990;
IV. avaliar a política estadual e municipal e a atuação dos Conse-
lhos Estaduais e Municipais da Criança e do Adolescente;
V. (vetado)
VI. (vetado)
VII. acompanhar o reordenamento institucional propondo, sempre
que necessário, modificações nas estruturas públicas e privadas
destinadas ao atendimento da criança e do adolescente;
VIII. apoiar a promoção de campanhas educativas sobre os direitos
da criança e do adolescente, com a indicação das medidas a serem
adotadas nos casos de atentados ou violação dos mesmos;
IX. acompanhar a elaboração e a execução da proposta orçamen-
tária da União, indicando modificações necessárias à consecução
da política formulada para a promoção dos direitos da criança e
do adolescente;
X. gerir o fundo de que trata o Art. 6º da lei e fixar os critérios para
sua utilização, nos termos do Art. 260 da Lei nº 8.069, de 13 de
julho de 1990.
XI. elaborar o seu regimento interno, aprovando-o pelo prazo de,
no mínimo, dois terços de seus membros, nele definindo a forma
de indicação do seu Presidente.

Com todas as competências anteriormente listadas, o CONANDA


se constitui como órgão responsável para designar as diretrizes gerais da
política nacional de atendimento à criança e ao adolescente com vistas

– 67 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

ao cumprimento dos direitos assegurados pelo ECA. As diretrizes gerais


designadas pelo CONANDA devem ser seguidas pelo Conselho Estadual
dos Direitos da Criança e do Adolescente - CEDCA. Vamos então conhe-
cer as competências do CEDCA.

5.2.2 Conselho Estadual de Direitos da


Criança e do Adolescente - CEDCA
O CEDCA tem de ser criado por lei estadual de acordo com o que
determina o Estatuto da Criança e do Adolescente no Artigo 88, inciso II.
O Conselho Estadual é um órgão deliberativo e controlador das ações de
âmbito estadual voltadas para promoção, defesa e garantia dos direitos da
criança e do adolescente.
O Artigo 7º da Lei n. 10.501 dispõe que
Art. 7º- Compete ao Conselho Estadual dos Direitos da Criança e
do Adolescente:
2 formular a política estadual dos direitos da criança e do ado-
lescente, fixando prioridades para a consecução das ações, a
captação e a aplicação de recursos;
2 cumprir e fazer cumprir, em âmbito estadual, o Estatuto da
Criança e do Adolescente e as normas constitucionais [...];
2 indicar as prioridades a serem incluídas no planejamento
global do Estado, em tudo que se refira ou possa afetar as
condições de vida da criança e do adolescente;
2 incentivar a articulação entre os órgãos governamentais res-
ponsáveis pela execução das políticas de atendimento da
criança e do adolescente;
2 propor, incentivar e acompanhar programas de prevenção e
atendimento biopsicossocial às crianças e adolescentes víti-
mas de negligências, maus tratos, exploração sexual [...];
2 sugerir ou opinar sobre as alterações que se fizerem necessá-
rias na estrutura orgânica dos órgãos de administração direta
responsáveis pela execução da política estadual dos direitos
da criança e do adolescente;
2 incentivar e apoiar a realização de eventos, estudos e pesqui-
sas no campo de promoção, proteção e defesa da criança e
do adolescente;

– 68 –
A política de atendimento da criança e do adolescente e os Conselhos de Direitos

2 propor a inclusão no Orçamento do Estado de recursos


destinados à execução das políticas e dos programas de
atendimento à criança e ao adolescente e de reciclagem
permanente dos profissionais de quaisquer instituições
envolvidas no atendimento dos segmentos de que trata
esta Lei.

É importante atentar para a competência legal do CEDCA de suge-


rir ou opinar sobre as alterações que se fizerem necessárias na estrutura
orgânica dos órgãos de administração direta responsáveis pela execução
da política estadual dos direitos da criança e do adolescente. Por exemplo,
o Conselho pode sugerir a criação de uma diretoria ou uma coordenação
específica na Secretaria Estadual responsável pela política de atendimento
à criança e ao adolescente, visando a que essa Secretaria atenda a todas as
demandas apresentadas no Estado.
A composição do CEDCA deve obedecer às diretrizes do ECA, que
determina o princípio da paridade entre governo e sociedade civil orga-
nizada. Para representar o Poder Público, recomenda-se a participação
dos órgãos responsáveis pelas políticas sociais básicas nas áreas de ação
social, trabalho, justiça, educação, saúde e cultura, bem como dos órgãos
estaduais de Planejamento e da Fazenda. Os representantes da sociedade
civil organizada devem ser membros de entidade não-governamental que
realiza atendimento à criança e ao adolescente em âmbito estadual. Outra
exigência legal é o registro dessas entidades no Conselho Municipal dos
Direitos da Criança e do Adolescente - CMDCA - da cidade onde está
localizada a sede da entidade. Vamos, então, conhecer as competências
do CMDCA.

5.2.3 Conselho Municipal de Direito da


Criança e do Adolescente – CMDCA
O CMDCA tem de ser criado por lei municipal de acordo com o que
determina o Estatuto da Criança e do Adolescente no Artigo 88, inciso II.
O Conselho Municipal é um órgão deliberativo e controlador das ações
executadas em âmbito local pelo Poder Público e do atendimento rea-
lizado pelas entidades não-governamentais voltadas para a promoção, a
defesa e a garantia dos direitos da criança e do adolescente.

– 69 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

A Composição do CMDCA também deve obedecer às diretrizes do


ECA. Sua composição é paritária entre representantes do governo e repre-
sentantes da sociedade civil organizada. Compete ao CMDCA:
2 Deliberar e acompanhar, monitorar e avaliar as políticas pro-
postas para o município.
2 Conhecer a realidade de seu território e elaborar um plano de
ação, definindo as prioridades de atuação.
2 Propor a elaboração de estudos e pesquisas para promover,
subsidiar e dar mais efetividade às políticas públicas.
2 Integrar-se com outros órgãos executores de políticas públi-
cas direcionadas à criança e ao adolescente e demais conse-
lhos [...].
2 Propor e acompanhar o reordenamento institucional, bus-
cando o funcionamento em rede das estruturas públicas
governamentais e das organizações da sociedade.
2 Acompanhar e participar da elaboração e execução do
Plano Plurianual (PPA) e da Lei de Diretrizes Orçamentá-
ria (LDO) e da Lei Orçamentária Anual (LOA) [...] zelando
para que o orçamento público respeite o princípio da prio-
ridade absoluta.
2 Registrar as organizações da sociedade civil em sua base ter-
ritorial que prestem atendimento a crianças, adolescente e
suas respectivas famílias os programas a que se refere o Art.
90, caput, e, no que couber, as medidas previstas nos Artigos
101, 112 e 129 do ECA [...].
2 Regulamentar, organizar e coordenar o processo de esco-
lha dos conselheiros tutelares, seguindo as determinações
do Estatuto e da Resolução nº 75/2001 do CONANDA [...]
(BRASIL, 2007, p. 22 e 23).

É importante atentar para uma competência peculiar do CMDCA:


registrar as organizações da sociedade civil em sua base territorial que pres-
tem atendimento às crianças, aos adolescentes e às suas respectivas famílias
e regulamentar, organizar e coordenar o processo de escolha dos conselhei-
ros tutelares. Uma entidade de atendimento à criança e ao adolescente deve,
obrigatoriamente, ter registro no CMDCA, o qual manterá registro das ins-
crições e de suas alterações e fará comunicação ao Conselho Tutelar e à
autoridade judiciária, conforme estabelece o Artigo 91 do ECA.

– 70 –
A política de atendimento da criança e do adolescente e os Conselhos de Direitos

No Artigo 139, o ECA estabelece que o processo para a escolha dos


membros do Conselho Tutelar será estabelecido em lei municipal e rea-
lizado sob a responsabilidade do Conselho Municipal dos Direitos da
Criança e do Adolescente e a fiscalização do Ministério Público.
Neste capítulo, vimos que a política de atendimento estabelecida
pelo ECA deve ser realizada por um conjunto de ações articuladas entre
governo e sociedade civil organizada. As bases para essas ações devem
seguir as diretrizes e os princípios da Doutrina da Proteção Integral e visar
à garantia dos direitos da criança e do adolescente legalmente instituídos
pela Constituição Federal de 1988 e pelo ECA. Além disso, apreendeu
que os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente, nas três esferas
de governo, são os órgãos responsáveis pela elaboração das diretrizes da
política de atendimento à criança e ao adolescente e também pela fisca-
lização dessa política. As decisões tomadas pelos Conselhos, no âmbito
de sua competência, têm de ser cumpridas pela administração pública,
obedecendo ao que preconiza o ECA.
A política de atendimento à criança e ao adolescente deve ser for-
mulada para atender às interfaces da questão social na área da infância
e da adolescência. No próximo capítulo, você conhecerá algumas inter-
faces dessa questão social. Trabalharemos os aspectos introdutórios da
violência doméstica e a exploração sexual praticada contra a criança e
o adolescente.

Atividades
1. Faça um texto dissertativo sobre a política de atendimento da
criança e do adolescente. Nele aborde a articulação de ações por
parte das três esferas de governo com a participação da socie-
dade civil organizada, as linhas de ação e as diretrizes básicas
dessa política, conforme especifica o Artigo 87 e 88 do ECA, e
a rede de proteção dos direitos da população infanto-juvenil que
compõe o Sistema de Garantias dos Direitos da Criança.
2. As linhas da política de atendimento seguem as diretrizes bási-
cas que estão especificadas no Artigo 88 do ECA. Essas diretri-
zes estabelecem

– 71 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

a) a criação de conselhos municipais, estaduais e nacional dos


direitos da criança e do adolescente, órgãos deliberativos e
controladores das ações em todos os níveis, assegurada a par-
ticipação popular paritária por meio de organizações repre-
sentativas, segundo leis federais, estaduais e municipais.
b) a criação e a manutenção de programas específicos sem
considerar a descentralização político-administrativa.
c) a manutenção de fundos nacionais, estaduais e municipais
vinculados somente às Secretarias responsáveis pela polí-
tica de atendimento da criança e do adolescente.
d) a mobilização da opinião pública considerando dispensável
a participação dos diversos segmentos da sociedade.
3. Os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente são com-
postos paritariamente por representantes do governo e da socie-
dade civil organizada nas três esferas de governo: nacional, esta-
dual e municipal. São órgãos de natureza deliberativa e exercem
o controle social das políticas públicas destinadas à infância e à
adolescência. Sobre os Conselhos, podemos afirmar que
a) são órgãos controladores das ações do governo no que se
refere à garantia e à violação dos direitos das crianças e
dos adolescentes e, por isso, são compostos por órgãos
do governo.
b) o CONANDA é responsável pela elaboração das normas
gerais da política estadual de atendimento dos direitos da
criança e do adolescente.
c) o CEDCA é responsável por acompanhar a elaboração da
proposta orçamentária da União, avaliá-la e indicar as modi-
ficações necessárias para a consecução da política formulada.
d) o CMDCA é responsável pelo registro das organizações da
sociedade civil em sua base territorial que prestem atendi-
mento à criança, ao adolescente e às suas respectivas famí-
lias por meio de programas.

– 72 –
A política de atendimento da criança e do adolescente e os Conselhos de Direitos

4. O Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente


é um órgão deliberativo e controlador das ações executadas em
âmbito local pelo Poder Público e do atendimento realizado
pelas entidades não-governamentais. O CMDCA
a) delibera e acompanha, monitora e avalia as políticas pro-
postas para o Estado e a União.
b) deve conhecer a realidade de seu território, elaborar um
plano de ação e definir as prioridades de atuação.
c) propõe a elaboração de estudos e pesquisas para promo-
ver, subsidiar e dar mais efetividade às políticas públicas
no âmbito estadual.
d) deve integrar-se a outros órgãos executores de políticas
públicas direcionadas à criança e ao adolescente e demais
conselhos no âmbito estadual e nacional.

– 73 –
6
Interfaces da
questão social na
área da criança e
do adolescente

Introdução
Discutiremos, neste capítulo, a violência doméstica e a
exploração sexual como uma das interfaces da questão social na
área da criança e do adolescente. Faremos uma discussão teórica
sobre o assunto e, posteriormente, apresentaremos os tipos de
violência. Discutiremos, ainda, a exploração do trabalho infantil,
um problema que ocupa cada vez mais espaço nas discussões e
nos estudos sobre a questão social brasileira.
Para você identificar as interfaces da questão social referen-
tes à violência doméstica, à exploração sexual contra a criança e
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

o adolescente e ao trabalho infantil enquanto objeto de atuação do assis-


tente social, precisa conhecer a história social da criança no Brasil, desde
o período Colonial até década de 1980, assunto estudado nos capítulos
1 e 2. Desde o descobrimento do Brasil, a criança sofre maus-tratos, e
a mão-de-obra infantil sempre foi explorada. Você precisa conhecer as
interfaces da questão social na área da criança e do adolescente, uma vez
que o objeto de atuação do assistente social é a questão social com suas
múltiplas expressões. Vamos lá!

6.1 Violência doméstica contra


a criança e o adolescente
A discussão acerca da violência doméstica praticada contra a popula-
ção infanto-juvenil é alvo de acirrados debates na sociedade moderna. No
entanto ela não é uma questão característica da nossa época, pois, em toda
a história do Brasil, podemos constatar que a violência esteve presente.
Desde o período Colonial, a criança e o adolescente sofrem com os
maus-tratos praticados pelos adultos. A criança indígena trazia no corpo
as lições de seus ancestrais e precisava ter força necessária para enfrentar
os perigos da vida. A criança negra era considerada inútil para o trabalho
e, por isso, era separada de sua família. Entre as crianças brancas, o medo
estava sempre presente e se constituía como um dos mais importantes
recursos para educá-las. Os pais utilizavam personagens monstruosos para
lembrar às crianças seus limites.
Na contemporaneidade, não é diferente, uma vez que a violência
doméstica ainda é um fenômeno da nossa época, legitimando-se como
a principal causa da morte de crianças e adolescentes. Segundo dados da
UNICEF (1998), 36,4% dos adolescentes, na faixa etária entre 15 e 17,
são vítimas de óbitos por homicídios envolvendo a violência doméstica.
Diante dessa realidade, constata-se que,
[...] agora e sempre e em toda parte, as crianças têm sido vistas
e tratadas como menores subalternos merecedores de um amor
desvalorizado, porque são contaminados pela ideia de fraqueza,
inferioridade, subalternidade do ser criança (AZEVEDO, 2000
p. 40-41).

– 76 –
Interfaces da questão social na área da criança e do adolescente

A partir do que menciona a autora, podemos afirmar que a criança e


o adolescente, desde o período Colonial, foram sempre objetos de maus-
-tratos dos adultos, tratados como seres subalternos e não como sujeitos
de direitos. Diante dessa realidade, faz-se urgente compreendermos que a
violência doméstica é um fenômeno social que traz enormes consequên-
cias para o desenvolvimento físico, mental, emocional, espiritual e social
da criança e do adolescente. Na parte orgânica, dependendo da gravidade
da violência, pode até levar à morte; e, na psicológica, a criança ou o
adolescente poderão levar as sequelas por toda a vida, podendo vir a ser
futuros agressores.
Pereira (1996, p. 3) expõe que “[...] é flagrante a probabilidade de
uma criança vítima de violência tornar-se um adulto agressor”. Assim,
dependendo da agressividade da violência doméstica, seja leve ou severa,
ela treina a criança e o adolescente para aceitarem e tolerarem a agressão,
bem como os ensina a terem uma postura de obediência e de submissão.
Para combater essa situação, Azevedo (2000, p. 38) assevera que é preciso
“[...] reconhecer que toda violência é social, histórica e, portanto, capaz de
ser controlada e erradicada, caso haja vontade política”. Só assim nossas
crianças e nossos adolescentes terão uma vida mais digna e de respeito,
como cidadãos de direitos, reconhecidos por lei.
Porquanto é necessário entender que a dignidade e o respeito para
com as crianças e os adolescentes devem estar em primeiro lugar. Mas,
para que esses direitos sejam efetivados, é preciso a sociedade fazer valer
realmente o que lhe é direito e está garantido na lei.
O Art. 5º do ECA preconiza que “nenhuma criança ou adolescente
será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração,
violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer aten-
tado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”. O Art. 13 da
referida lei estabelece que “os casos de suspeita ou confirmação de maus-
-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados
ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras pro-
vidências legais”. O Art. 18 do ECA preconiza que “é dever de todos velar
pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer
tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrange-
dor”. Portanto todos nós temos o dever de comunicar ao Conselho Tutelar

– 77 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

qualquer situação de ameaça ou violação contra os direitos da criança e do


adolescente garantidos pelo ECA, pois, mesmo a proteção da criança e do
adolescente sendo assegurada em lei, constatamos que ainda são vítimas
de violência praticada por familiares, Estado e sociedade, que se tornou
um fenômeno social, econômico e cultural.
Esse fenômeno é social uma vez que retrata os reflexos da desigual-
dade e da exclusão social do Brasil, é econômico por estar relacionado
diretamente com a questão da pobreza, é cultural por estar relacionada
diretamente com a questão de gênero, da etnia, entre outros fatores. Está
arraigado na cultura brasileira e, por isso, exige união e esforços de toda a
sociedade para combatê-lo. A comunidade acadêmica precisa incorporar-
-se nessa luta. Em relação a isso, Azevedo (2006, p. 23) afirma que,
Embora há décadas se lute para acabar com a violência doméstica
contra crianças e adolescentes, vários pontos ainda precisam ser
enfrentados com maior eficiência. O primeiro deles é o descom-
promisso da universidade, especialmente, nos cursos de Saúde,
Educação, Justiça, Ciências Sociais etc., quanto à compreensão e
à eliminação do fenômeno. O resultado disso é a sua naturalização
e a banalização no cotidiano de todos nós e a convivência pacífica
dos profissionais como uma realidade, no mínimo trágica e ultra-
jante, da infância e da adolescência.

Com base nas afirmações da autora, podemos perceber que os profis-


sionais precisam urgentemente ser capacitados para compreender esse fenô-
meno e ter a capacidade de identificá-lo e, assim, intervir com ações pro-
positivas de enfrentamento dessa questão social. Só assim contribuiremos
para a construção de uma nova sociedade, na qual nossas crianças e nossos
adolescentes sejam educados em uma cultura de paz e não de violência.
Com a finalidade de contribuir para a sua compreensão profissional
sobre o fenômeno da violência doméstica praticada contra a criança e o
adolescente, conheceremos agora as formas mais acentuadas de violência
que são: violência física, negligência, abuso sexual e violência psicológica.

6.1.1 Violência física


A violência física, no âmbito doméstico, traduz-se pelo uso da força
física pelos pais ou pelos responsáveis no relacionamento com a criança

– 78 –
Interfaces da questão social na área da criança e do adolescente

ou o adolescente. “Essa relação de força baseia-se no poder disciplinador


do adulto e na desigualdade adulto-criança [...]” (BRASIL, 1997, p. 11).
Silva (2002, p. 87) faz referência ao livro de provérbios da Bíblia
Sagrada que diz o seguinte: “Aquele que retém a vara, quer mal ao seu
filho, mas o que o ama, cedo o disciplina” (PV. 13: 24). A violência física
há séculos permeia nossa cultura, amparada incisivamente pela força da
religião, no que diz respeito à autoridade dos pais para com os filhos.
Mediante essa visão, a autora certifica que a agressão física, escudada
na justificativa religiosa, parte da prerrogativa de que tal função é uma
medida “eficaz” para controlar e modificar comportamentos.
Ao contrário de se constituir como uma medida eficaz, a violência
física implica consequências que
[...] se apresentam desde simples marcas no corpo até a presença
de lesões toracoabdominais, auditivas e oculares; [...] queimaduras
e ferimentos diversos que podem causar invalidez temporária ou
permanente, quando não, a morte (SILVA, 2002, p. 87).

Podemos perceber, nas afirmações da autora, que a violência física


pode chegar ao extremo, motivar a morte da criança ou do adolescente.
Deslandes (1994), ao enfatizar a questão da violência física, afirma
que, no Brasil, o castigo físico é aceito como um ato educativo, que
é estabelecido pelo uso da força praticada pelos pais, com o intuito
de ferir a criança e o adolescente. Nessa perspectiva, entende-se por
abuso físico
Qualquer ação, única ou repetida, não acidental (ou intencional),
cometida por um agente agressor adulto (ou mais velho que a
criança ou o adolescente), que lhes provoque dano físico. O dano
provocado pelo ato abusivo pode variar de lesão leve a consequên-
cias extremas como a morte (DESLANDES, 1997, p.13).

O autor expõe que a violência física é fácil de ser detectada devido


ao aparecimento de ferimentos, queimaduras, fraturas ósseas, hematomas.
A violência doméstica é, geralmente, praticada no seio familiar por pais
ou responsável sem que tenha uma explicação plausível para tal agressão.
Normalmente, é justificada e utilizada como uma forma de “educar” a
criança e o adolescente, inclusive tal justificativa é respaldada pelas religi-
ões e pelos meios de comunicação. Portanto vimos que a violência física

– 79 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

é fácil de ser identificada devido provocar ferimentos. Com a negligência


acontece o contrário. Esse será o assunto do próximo subtítulo.

6.1.2 Negligência
A negligência, ao contrário dos maus-tratos físicos, é considerada
como uma violência de difícil constatação. O que dificulta diagnosticar
essa violência é a questão da inexistência de intencionalidade muitas
vezes alegada por pais e/ou responsáveis. O que mais contribui para esse
tipo de violência é a condição de miséria e pobreza em que se encontram
milhares de famílias brasileiras, cujo perfil, em grande maioria, retrata os
pais desempregados, sem condições de suster as necessidades básicas dos
filhos, e as famílias chefiadas por mulheres que precisam trabalhar fora
para garantir sua sobrevivência e dos seus filhos, deixando-os sem prote-
ção, à mercê da violência.
A negligência se manifesta por meio de comportamentos concernen-
tes às
Omissões dos pais ou de outros responsáveis (inclusive institucio-
nais) pela criança e pelo adolescente, quando deixam de prover as
necessidades básicas para o seu desenvolvimento físico, emocio-
nal e social. A negligência significa a omissão de cuidados básicos
como a privação de medicamentos; a falta de atendimento aos cui-
dados necessários com a saúde; o descuido com a higiene; a ausên-
cia de proteção contra as inclemências do meio como o frio e calor;
o não provimento de estímulos e de condições para a frequência à
escola (BRASIL, 2002b, p. 12).

Percebemos que a negação e a omissão de proteção e cuidados


necessários à sobrevivência prejudicam o bom desenvolvimento da
criança e do adolescente, cujas necessidades básicas não são supridas
pelos pais ou responsáveis.
Deslandes (1997) ressalta que se entende também por negligência a
atitude dos pais ou dos responsáveis em privar a criança de algo que ela
necessite e que é imprescindível para o seu crescimento sadio. A autora
ainda nos alerta de que não podemos somente associar a negligência às
precárias condições socioeconômicas que afetam a sociedade brasileira,
pois tal visão propicia uma falta de atitude protetora com a população

– 80 –
Interfaces da questão social na área da criança e do adolescente

infanto-juvenil, vítima desse tipo de violência. Assim a negligência,


mesmo tendo como um dos principais fatores a questão socioeconômica,
precisa ser combatida, e as crianças e os adolescentes vítimas desse tipo
de violência precisam ser protegidos para que tenham uma vida saudável
e, consequentemente, um crescimento sadio.
Vimos que a negligência é de difícil constatação pela inexistência
de intencionalidade muitas vezes alegada por pais ou responsáveis. No
próximo subtítulo, trabalharemos as características do abuso sexual que se
apresenta como a violência mais velada.

6.1.3 Abuso sexual


O abuso sexual é a forma de violência doméstica contra a criança e
o adolescente mais velada, uma vez que envolve questões culturais e de
relacionamento entre os membros da família.
ABRAPIA (1997) certifica que, na maioria dos casos, os agressores são
familiares, responsáveis, amigos da família e, ainda, pessoas conhecidas em
quem as vítimas confiam. Essa confiança nos agressores favorece a prática do
crime, na medida em que facilita para que o crime seja encoberto e, ao mesmo
tempo, em que é utilizada para persuadir e/ou assustar a criança ou o adoles-
cente, com o intuito de mantê-la(lo) em silêncio acerca do abuso. Isso só reforça
a urgência de se entender a complexibilidade dessa violência. Para tanto,
[...] é preciso que médicos, psicólogos [...] assistentes sociais, pro-
fessores e a sociedade em geral trabalhem para facilitar a desco-
berta e a revelação dessa prática, para que soluções de fato possam
ser viabilizadas (ABRAPIA, 1997, p. 5).

Diante do que expressa a ABRAPIA, fica evidente a necessidade de


uma atuação integrada e comprometida de vários segmentos e profissio-
nais no âmbito da violência doméstica sexual contra a população infanto-
-juvenil como forma de enfrentamento e combate desse fenômeno social,
pois só assim contribuiremos para romper com a cultura de silêncio que
permeia os casos de abuso sexual.
Para esse enfrentamento, primeiramente, temos de conhecer as for-
mas de abuso sexual que podem ser sem contato físico ou com contato
físico. São várias as modalidades de abuso sexual, como

– 81 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

[...] estupro, atentado violento ao pudor, prostituição, corrupção de


menores, utilização em espetáculos pornográficos ou de sexo explícito
etc. os quais podem ser expressões de agressividade da família e da
sociedade, e um descaso do poder público (VERONESE, 1997, p. 22).

Vamos especificar essas formas de abuso sexual.


a) Sem contato físico
Segundo Marón e outros (2008), as formas de abuso sexual pra-
ticadas sem o contato físico são:
2 assédio sexual: propostas de relações sexuais que se
baseiam, na maioria das vezes, na posição de poder do
agente agressor sobre a vítima;
2 telefones obscenos: feitos por adultos, especialmente, do
sexo masculino que geram muita ansiedade na criança ou
no adolescente e na família;
2 exibicionismo: ato de mostrar os órgãos genitais ou se mas-
turbar diante da criança ou do adolescente;
2 pornografia: forma de abuso que pode também ser enqua-
drado como exploração sexual, quando a exposição da
criança visar à obtenção de lucro;
2 voyeurismo: prazer pela observação de atos sexuais ou
órgãos sexuais de outras pessoas.
b) Com contato físico
As formas de abuso sexual praticadas com o contato físico são:
2 incesto: relações sexuais e/ou amorosa entre pessoas do mesmo
sangue que são proibidas por lei (MARÓN e outros, 2008);
2 pedofilia: atração erótica por crianças que pode ser ela-
borada na fantasia ou se materializar em atos sexuais com
meninos ou meninas (MARÓN e outros, 2008);
2 relações sexuais com penetração, ou tentativas, carícias
libidinosas, masturbação, sexo oral e anal, estupro, aten-
tado violento ao pudor.

– 82 –
Interfaces da questão social na área da criança e do adolescente

Conhecer as formas de violência sexual praticada contra a criança e


o adolescente é imprescindível para uma intervenção profissional proposi-
tiva. Você precisa identificar as formas de violência para realizar os enca-
minhamentos necessários a fim de que a criança e o adolescente vítimas
de violência sexual sejam atendidos.
Conheceremos a seguir as características da violência psicológica
praticada pelos pais contra a criança e o adolescente.

6.1.4 Violência psicológica


O abuso psicológico é o tipo de violência mais comum e mais pra-
ticada pelos pais. No entanto é difícil de ser identificada pelo seu caráter
subjetivo, por não deixar marcas patentes e pela ausência de evidências
imediatas de maus-tratos, como acontece nos casos de violência física.
A dificuldade também ocorre tendo em vista que, na maioria das vezes,
os pais ou os responsáveis acabam justificando que sua intencionalidade
é “educar e proteger” a criança ou o adolescente. Mesmo não deixando
marcas visíveis como a violência física,
[...] a violência psicológica deixa outros tipos de marcas, uma vez
que atinge o mundo psíquico da criança, na medida em que esta
é ridicularizada, [...] criada em ambientes promíscuos, vítimas de
constantes ameaças e acusações [...] (VERONESE, 1997, p. 22).

De acordo com Deslandes (1997), a violência psicológica ocorre quando


os pais ou os responsáveis aterrorizam a criança visando a instaurar um clima
de medo; quando elas são rejeitadas, não sendo reconhecido seu valor e nem
supridas suas necessidades básicas; quando são isoladas do meio social,
impedidas de terem amigos; quando os pais ignoram o seu desenvolvimento
emocional e intelectual; e quando as crianças são utilizadas como meio de
obter dinheiro por meio da prostituição e do crime. A autora nos alerta que,
“[...] por produzir sequelas não visíveis e de difícil identificação para os
leigos, os maus-tratos psicológicos permanecem ocultos” (DESLANDES,
1997, p. 16). Diante dessa observação, fica explícita a necessidade de estudos
sobre esse tipo de violência, com vistas à sua identificação.
Inúmeros são os fatores que propiciam, facilitam e legitimam o sofri-
mento de crianças e adolescentes que quotidianamente são maltratados

– 83 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

pelos pais, sociedade e inclusive pelo Poder Público. Diante dessa realidade,
é preciso fazer valer realmente o que está assegurado no Art. 15 do ECA:
“A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade
como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos
de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas Leis”.
Tratar nossas crianças e nossos adolescentes como sujeitos é respei-
tar, sobretudo, sua condição peculiar de desenvolvimento e garantir que
eles tenham direito a um desenvolvimento sadio. Vimos até o momento
as formas mais acentuadas de violência doméstica praticadas contra a
criança e o adolescente. A seguir, analisaremos as características, os cri-
mes previstos e a base jurídica sobre a exploração sexual que envolve a
população infanto-juvenil no Brasil.

6.2 Exploração sexual da criança


e do adolescente
Conhecer as características da exploração sexual é de suma importân-
cia para você, futuro assistente social, intervir no combate a esse fenômeno
que afeta nossas crianças e nossos adolescentes. Para isso, você precisa com-
preender o que é a exploração sexual, conhecer quais são as formas mais
acentuadas dessa violência, quais são crimes previstos no Código Penal que
envolve a exploração sexual e as bases jurídicas de proteção à criança e ao
adolescente e, por fim, conhecer os níveis de prevenção a essa problemática.

Saiba mais

O filme brasileiro Anjos do sol, de Rudi Lagemann, lançado em 2006, trata


sobre a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. O filme
conta a saga da menina Maria de doze anos que que foi vendida pela famí-
lia nordestina a um recrutador de prostitutas. A família pensava que a
filha teria melhores condições de vida. Mas Maria foi leiloada pelo recru-
tador e enviada para uma cidade nos arredores de um garimpo e lá ela é
explorada sexualmente. O filme possibilitará a você refletir criticamente
sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes, uma uma vez que
o filme retrata a realidade brasileira referente a essa problemática social.

– 84 –
Interfaces da questão social na área da criança e do adolescente

De acordo com Leal (1999), a exploração sexual é uma atividade


essencialmente econômica, de caráter comercial. A violência sexual
comercial é todo tipo de atividade em que redes, usuários e pessoas usam
o corpo de um menino, uma menina ou um adolescente para tirar vanta-
gem ou proveito de caráter sexual com base em uma relação de exploração
comercial e poder. Nessa perspectiva, “[...] a exploração sexual comer-
cial de crianças e adolescentes é um crime contra a humanidade” (LEAL,
1999, p. 10).
Você já sabe teoricamente o que é a exploração sexual contra a
criança e o adolescente, agora precisa conhecer quais são as formas mais
acentuadas desse tipo de violência para intervir profissionalmente. O qua-
dro 1 apresenta as formas mais acentuadas de exploração sexual praticada
contra a população infanto-juvenil.
Quadro 1 – Formas de exploração sexual praticada contra a criança e o adolescente

EXPLORAÇÃO Implica o envolvimento de crianças e adolescentes


SEXUAL em práticas sexuais por meio do comércio de seus
COMERCIAL corpos. É uma transgressão legal (LEAL, 1999).
“A prostituição infantil é uma forma de explora-
ção sexual comercial, ainda que seja uma opção
PROSTITUIÇÃO voluntária da pessoa que está nesta situação”
INFANTIL (LEAL, 1999, p. 11). As crianças ou os adoles-
centes não optam por se prostituírem, mas são
induzidos pela prática delituosa do adulto.
PORNOGRAFIA É “[...] todo material audiovisual utilizando crian-
INFANTIL ças num contexto sexual” (LEAL, 1999, p. 12).
É a promoção da saída ou da entrada de crianças
e adolescentes do território nacional para fins de
TRÁFICO
prostituição (CÓDIGO PENAL BRASILEIRO,
Artigo 231).
São organizações de “excursões” turísticas, com a fina-
TURISMO lidade de proporcionar prazer sexual a turistas e ainda
SEXUAL pelo agenciamento de crianças e adolescentes para
oferta de serviços sexuais (MARÓN e outros, 2008).

– 85 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Vimos, no quadro 1, as formas mais acentuadas de exploração sexual prati-


cadas contra crianças e adolescentes. Agora analisaremos os crimes previstos no
Código Penal correspondente à exploração sexual e a base jurídica que respalda
a proteção da criança e do adolescente vítimas desse tipo de violência.

6.2.1 Crimes de violência sexual


O atentado violento ao pudor e o estupro são crimes de violência
sexual. Vamos conhecer como se caracterizam esses crimes conforme está
especificado no Código Penal Brasileiro.
a) Estupro
O Art. 213 do Código Penal dispõe que estupro é “Constranger
mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ame-
aça. Em criança e adolescente menor de 14 anos, a violência é
presumida e é Ação Civil Pública Incondicionada”.
b) Atentado violento ao pudor
O Art. 214 do Código Penal dispõe que atentado violento ao
pudor é
Constranger alguém mediante violência, ou grave ameaça, à prática
ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso diverso da con-
junção carnal. Sendo que em crianças e adolescentes menores de 14
anos, a violência é presumida e Ação Civil Pública Incondicionada.

É importante atentar para a presunção da violência apontada nos Arti-


gos 213 e 214 do Código Penal, pois, independentemente de uma pessoa ter
relação sexual com uma adolescente menor de 14 anos, com seu consenti-
mento, o ato se configura como violência e o agressor será responsabilizado.
Você analisou os crimes previstos no Código Penal sobre a explo-
ração sexual. Agora você verá, no quadro 2, a base jurídica em relação à
violência sexual praticada contra a criança e o adolescente.
Quadro 2 – Base jurídica em relação à violência sexual praticada contra a criança e o adolescente

LEGISLAÇÕES ARTIGOS
Constituição Federal de 1988 227, caput, § 1º, 3º, IV, V e § 4º; Art. 228

– 86 –
Interfaces da questão social na área da criança e do adolescente

LEGISLAÇÕES ARTIGOS
Estatuto da Criança e do Ado- Artigos 5º, 13, 18, 82 a 85, 149, 238 a
lescente 243, 250 e 255
Código Penal Artigos 213 a 229, 233 e 234
Lei dos Crimes Hediondos Artigos 1º e 6º
Lei da Tortura Artigos 1º e 4º

Essa é a base jurídica que respalda a proteção das crianças e dos


adolescentes vítimas da violência sexual e a responsabilização dos
agressores. A seguir, conheceremos os níveis de prevenção que podem
ser implementados para o combate da violência sexual contra a popula-
ção infanto-juvenil.

6.3 Níveis de prevenção à violência


A violência sexual contra a criança e o adolescente é uma realidade
social que precisa ser enfrentada. Um das formas de enfrentamento a esse
fenômeno é a prevenção. São níveis de prevenção à violência praticada
contra a criança e o adolescente: prevenção primária, prevenção secundá-
ria e prevenção terciária. Vamos conhecer cada um desses níveis a partir
do que é exposto por Marón e outros (2008).
2 Prevenção primária: são ações que visam a eliminar ou reduzir
os fatores sociais, culturais que propiciam os maus-tratos e que
buscam atingir as causas da violência, juntamente, com a imple-
mentação de políticas sociais básicas. Destacam-se as ações de
caráter informativo geral, como campanhas educativas por meio
de panfletos, cartazes etc.
2 Prevenção secundária: são ações que visam à identificação de
crianças em “situação de risco” com a finalidade de impedir que
atos de violência aconteçam e/ou se repitam. As ações devem
incidir sobre as situações de maus-tratos já existentes.
2 Prevenção terciária: são ações que visam ao acompanhamento
integral da vítima e do agressor no sentido de intervir para que

– 87 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

o ato não se repita. As ações devem priorizar o encaminhamento


imediato da vítima ao serviço social, educacional, médico, psi-
cológico e jurídico-social.
Os profissionais que atuam na defesa e no atendimento das crianças
e dos adolescentes vítimas de violência, entre eles os assistentes sociais,
têm de realizar ações de prevenção no enfrentamento desse fenômeno
social e cultural e desenvolver ações de prevenção para intervir de forma
propositiva e proativa no enfrentamento à violência praticada contra nos-
sas crianças e nossos adolescentes, uma das expressões da questão social,
objeto de intervenção do assistente social. Outra expressão da questão
social, envolvendo a criança, é a exploração do trabalho infantil, que será
discutido a seguir.

6.4 Exploração do trabalho infantil no Brasil


Sabemos que há um alto índice de trabalho infantil que aponta para
uma realidade que necessita ser questionada com vistas a assegurar à
população infanto-juvenil um desenvolvimento sadio, dando-lhe a prote-
ção integral que lhe é devida. O trabalho infantil no Brasil não é um fenô-
meno novo. Desde o início da Colonização, as crianças eram incorporadas
ao trabalho. As crianças indígenas e as crianças negras foram as primeiras
a sofrer com o trabalho infantil. O processo de industrialização propiciou
um grande contingente de crianças nas indústrias, o que representava a
garantia de mão-de-obra barata.
De acordo com o IBGE (2004), em 2003, havia 5,1 milhões de crian-
ças e adolescentes trabalhando. Desse total, 33,3% tinha de 10 a 14 anos
de idade e 62,6% tinha de 15 a 17 anos de idade.
Percebemos, a partir dos dados fornecidos pelo IBGE que é alto o
índice de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil no Bra-
sil. Entre os adolescentes, esse índice subiu consideravelmente. Com isso,
notamos que os direitos assegurados no ECA que regulamentam a ques-
tão do trabalho envolvendo a criança e o adolescente no Brasil não estão
sendo garantidos. Veremos mais adiante o que preconiza o ECA sobre o
trabalho infantil.

– 88 –
Interfaces da questão social na área da criança e do adolescente

Podemos afirmar que o alto índice de trabalho infantil confirmado


pelos dados do IBGE está relacionado com alguns fatores sociais que esti-
mulam essa situação, como a desigualdade social, a falta de uma política
educacional integral, a precarização das relações de trabalho. Em relação
a isso, Malta e Veras (2000, p. 3) afirmam que
A complexidade das precárias condições de vida da população
infanto-juvenil, no tempo presente, remete às suas graves dimen-
sões expressas nas situações de pobreza, indigência, nas ocorrên-
cias de riscos sociais, na vitimização, na violência expressa como
questão que agride as referências da sociedade e apresenta-se fora
do controle social [...].

Percebemos, nas afirmações das autoras, que realmente os fatores


sociais contribuem incisivamente para aumentar os problemas sociais
envolvendo a criança e o adolescente. O trabalho infantil se diversifica
nas regiões do Brasil, nas quais as crianças exercem várias atividades de
trabalho. Na zona rural, elas cortam cana, colhem café, laranja etc. Na
zona urbana, elas vendem jornais, picolés, balas, doces, engraxam sapato,
são carregadores nas feiras livres, lavam carro etc.
As crianças, em situação de trabalho infantil, ficam vulneráveis aos
diversos tipos de riscos sociais e pessoais. Essas crianças têm seus direitos
violados, como o direito de frequentar regularmente a escola; direito à
profissionalização, de preparar-se para ingressar legalmente no mercado
de trabalho sob orientação e condições adequadas; direito à dignidade de
ficar a salvo de toda e qualquer forma de exploração, tratamento desu-
mano, humilhante ou constrangedor.
Analisamos as características, os dados estatísticos do trabalho infan-
til no Brasil. Para a intervenção do assistente social, é preciso conhecer
toda a base legal. É sobre ela que discutiremos a seguir.

6.4.1 A legislação e a política de


atendimento à criança e ao adolescente
em situação de trabalho infantil
Para enfrentarmos a exploração do trabalho infantil no Brasil, temos
de conhecer a legislação pertinente, bem como a política de atendimento à

– 89 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

criança e ao adolescente em situação de trabalho infantil. Antes de conhe-


cermos o que preconiza a legislação e a política de atendimento, faremos,
brevemente, uma contextualização da conquista dos direitos sociais na
área da criança e do adolescente no Brasil.
Malta e Veras (2002, p. 2) afirmam que, na perspectiva dos direitos
sociais, a proteção da criança e do adolescente contra todas as formas de
exploração só começou a ser discutida nos anos 1980, quando entrou em
decadência o modelo de proteção dos Códigos de Menores de 1927 e 1979.
A proteção, nesse período, era limitada à tutela e à dominação, voltada
para o disciplinamento e o controle, configurando, assim, a repressão e a
assistência no tratamento das situações conceituadas como “irregulares”.
Devido à relevância que essa problemática social atingiu na contempora-
neidade, tanto no nível internacional como nacional, na década de 1980,
emergiu uma nova visão acerca da temática da criança e do adolescente. A
partir da Constituição Federal de 1988, com inserção do Artigo 227, crian-
ças e adolescentes passaram a ser considerados como sujeitos de direitos.
Nessa nova configuração, o projeto de Lei do Estatuto da Criança
e do Adolescente, de 13 de outubro de 1990, foi norteado pela dou-
trina da proteção integral. O ECA proíbe qualquer trabalho a menores
de 14 anos de idade, salvo na condição de aprendiz, assegurada bolsa
de aprendizagem (Art. 60 e 64). Ao adolescente aprendiz, maior de 14
anos, o Artigo 65 do ECA assegura os direitos trabalhistas e previden-
ciários. O Artigo 69 do ECA preconiza que o adolescente tem direito
à profissionalização e à proteção no trabalho respeitando a condição
peculiar de pessoa em desenvolvimento e a capacitação profissional
adequada ao mercado de trabalho.
Conforme Malta e Veras (2002), registramos, na década de 1990,
uma política de atendimento à criança e ao adolescente que tem como
finalidade a promoção, a defesa e o controle social dos direitos garantidos
pela Constituição Federal de 1988 e pelo ECA. A política de atendimento
abrange as áreas de políticas sociais básicas, assistenciais, de proteção
jurídico-social e defesa dos direitos individuais e coletivos. As transfor-
mações ocorridas no campo da política de atendimento à criança e ao ado-
lescente foram acompanhadas de articulação entre organismos do Estado
e da sociedade civil.

– 90 –
Interfaces da questão social na área da criança e do adolescente

Com os direitos da criança e do adolescente garantidos por meio da luta


da sociedade civil para efetivá-los, os gestores das três esferas de governo
(federal, estadual e municipal) apresentaram propostas de enfrentamento con-
tra formas de exploração da criança e do adolescente, entre elas, o trabalho
infantil. Uma das propostas para erradicação do trabalho infantil foi a criação,
em 1996, do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), que
está inserido na Política de Assistência Social do governo federal.
Segundo o relatório do Tribunal de Contas da União (BRASIL, 2002a),
o PETI tem como objetivo erradicar o trabalho infantil nas atividades peri-
gosas, insalubres, penosas ou degradantes na zona urbana e rural. O pro-
grama envolve crianças e adolescentes que exercem alguma das atividades
anteriormente mencionadas e tem como referência principal o núcleo fami-
liar, subsidiariamente, a escola e a comunidade. O público-alvo é constitu-
ído, prioritariamente, por famílias em situação de extrema pobreza e exclu-
ídas socialmente, cuja renda per capita é de até meio salário mínimo, com
filhos com até 14 anos que trabalham nas atividades expostas anteriormente.
Segundo consta no Plano Nacional de Prevenção e Erradicação do
Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente (BRASIL, 2004),
a legislação brasileira acerca do trabalho infantil segue os princípios pre-
conizados pela Constituição de 1988, a qual é norteada pelos princípios da
Convenção dos Direitos da Criança, de 1989, da Organização das Nações
Unidas (ONU) e das Convenções n. 138 e 182 da Organização Internacio-
nal do Trabalho (OIT). A Convenção da ONU, no Art. 32, estabelece que
não é permitido nenhum tipo de exploração econômica da criança (até os
18 anos), considerando como exploração qualquer espécie de trabalho que
prejudique a escolaridade básica.
A Convenção n. 138, adotada pelo Brasil em 28 de junho de 2001,
preconiza que todo país que a ratifica deve especificar, em declaração,
a idade mínima para admissão ao emprego ou ao trabalho em qualquer
ocupação, não se admitindo nenhuma pessoa com idade inferior à definida
em qualquer espécie de trabalho. A Convenção n. 182, aprovada pela OIT,
em 1999, no Art. 3º, estabelece quatro categorias claras de piores formas
de trabalho infanto-juvenil que devem ser abolidas, entre elas: trabalhos
que, por sua natureza ou pelas circunstâncias em que são executados, são
suscetíveis de prejudicar a saúde, a segurança e a moral da criança.

– 91 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Para enfrentar as interfaces da questão social na área da criança e


do adolescente, temos de ter conhecimento legal dos direitos da criança
e do adolescente assegurados nas legislações brasileiras e compreender
que esses direitos estão instituídos na Carta Magna do país, que, por sua
vez, estão fundamentados na Doutrina da Proteção Integral das Nações
Unidas, que considera a criança e o adolescente como prioridade absoluta.
Esses direitos foram regulamentados por uma lei específica o Estatuto da
Criança e do Adolescente, que prevê a implementação de um sistema de
garantia de direitos que tem como missão precípua zelar pelo cumpri-
mento dos direitos instituídos por lei.
No próximo capítulo, conheceremos a política de atendimento à
criança e ao adolescente formulada para assegurar os direitos regu-
lamentados no ECA e enfrentar algumas interfaces da questão social
que afeta a população infanto- juvenil. Conheceremos os aspectos
introdutórios do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo
(SINASE), do Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do
Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e comuni-
tária e do Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Contra
a Criança e o Adolescente. Todos esses documentos têm a finalidade
de implementar a política de atendimento à criança e ao adolescente
assegurada pelo ECA.

Atividades
1. A violência física, no âmbito doméstico, traduz-se pelo uso da
força física pelos pais ou pelos responsáveis no relacionamento
com a criança ou o adolescente. Sobre a violência física, pode-
mos afirmar que
a) há séculos permeia nossa cultura, amparada incisivamente
pela força da religião, no que diz respeito à autoridade dos
pais para com os filhos.
b) é aceita como um ato educativo, que é estabelecido pelo
uso da força praticada pelos pais, com o intuito de proteger
a criança e o adolescente.

– 92 –
Interfaces da questão social na área da criança e do adolescente

c) é difícil de ser detectada, pois resulta de uma violência pra-


ticada no seio familiar por pais ou responsável sem que se
tenha uma explicação plausível para tal agressão.
d) é sempre justificada e utilizada como uma forma de “casti-
gar” a criança e o adolescente, respaldada pelas religiões.
2. A violência doméstica contra a criança e o adolescente é um
reflexo da questão social com suas múltiplas expressões: pobreza,
gênero, etnia, entre outros fatores. Faça uma síntese sobre a vio-
lência doméstica contra a criança e o adolescente enquanto um
fenômeno social que está arraigado na cultura brasileira e exige a
união e os esforços de toda a sociedade para combatê-lo e expo-
nha quais são os direitos assegurados pelo ECA. Nessa síntese,
aborde sobre a negligência e a violência psicológica.
3. O abuso sexual é a forma de violência doméstica contra a criança
e o adolescente mais velada, uma vez que envolve questões cul-
turais e de relacionamento entre os membros da família, e isso
contribui para perpetuar um pacto de silêncio dentro do seio
familiar. Sobre o abuso sexual, podemos afirmar que
a) os agressores são sempre amigos e pessoas conhecidas da
família, em quem as vítimas confiam.
b) é sempre cometido com o uso da força física, pois geral-
mente o agressor é uma pessoa com quem a criança não
convive diariamente.
c) pode ser praticado somente por meio de contato físico, além
de situações que envolvem exploração e prostituição sexual.
d) existe uma cultura de silêncio e tabus que contribui para per-
petuar a violência sexual contra a criança e o adolescente.
4. Pesquisas colocam o Brasil em destaque em toda a América
Latina quando tratam do trabalho infantil. Sobre o trabalho
infantil no Brasil, podemos afirmar que:
I. a desigualdade social, a falta de uma política educacio-
nal integral, a precarização das relações de trabalho são
fatores que estimulam o trabalho infantil;

– 93 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

II. cortar cana, colher café, laranja são trabalhos realizados


na zona urbana. Vender jornais, picolés, balas, doces,
engraxar sapato, ser carregadores nas feiras livres, lavar
carro são trabalhos realizados na zona rural;
III. as crianças em situação de trabalho infantil têm seus
direitos violados, como o direito de frequentar regular-
mente a escola, o direito de preparar-se para ingressar
legalmente no mercado de trabalho e direito à dignidade;
IV. uma das propostas para erradicação do trabalho infantil
foi a criação, em 1996, do Programa de Erradicação do
Trabalho Infantil (PETI), que está inserido na Política
de Assistência Social do governo federal.
Estão corretas apenas as afirmativas
a) I, II e III.
b) I, II e IV.
c) II, III e IV.
d) I, III e IV.

– 94 –
7
Política Nacional
de Atendimento
da Criança e do
Adolescente
Introdução
Caro aluno, neste capítulo, você conhecerá aspectos intro-
dutórios do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo
(SINASE), voltado para implementar a política de atendimento
dos adolescentes em conflito com a lei. Conheceremos a respon-
sabilidade do Estado que foi atribuída pelo Estatuto da Criança
e do Adolescente no cumprimento das ações socioeducativas e o
que preconiza a lei sobre os direitos dos adolescentes autores de
atos infracionais.
Conheceremos, também, os aspectos introdutórios do Plano
Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças
e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária, que tem
como finalidade orientar a formulação de políticas públicas vol-
tadas para o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitá-
rios. O objetivo é garantir o direito assegurado pelo ECA de que
toda criança tem o direito de ser educada no seio de sua família
de origem e, quando necessário, em família substituta em um
ambiente comunitário. Para que esse direito seja efetivado, faz-se
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

necessário compreender a família enquanto uma instituição que passa por


profundas transformações ao longo da história.
E, para finalizar este capítulo, abordaremos sobre o Plano Nacional
de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil, que consiste em
um instrumento de garantia e defesa dos direitos das crianças e dos ado-
lescentes vítimas de violência sexual e que tem como referência o Estatuto
da Criança e do Adolescente.
Para melhor compreensão desse conteúdo, é necessário você conhe-
cer as linhas de ação e as diretrizes da política de atendimento da criança
e do adolescente preconizada pelo ECA, conteúdo estudado no capítulo 5.
O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo segue as diretrizes
da política de atendimento com a finalidade de orientar a implementação
das políticas voltadas para atender aos adolescentes em conflito com a lei
e visar à construção de um sistema socioeducativo que assegure os direitos
dos adolescentes. O Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do
Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária
segue as diretrizes da política de atendimento com a finalidade de orientar
a formulação de políticas públicas voltadas para o fortalecimento dos vín-
culos familiares e comunitários. O Plano Nacional de Enfrentamento da
Violência Sexual Infanto-Juvenil segue também as diretrizes da política
de atendimento no sentido de estabelecer um conjunto de ações estratégi-
cas para subsidiar a formulação de políticas públicas de proteção integral
às crianças e aos adolescentes vítimas de violência sexual.
Iniciemos com a análise do SINASE.

7.1 Sistema Nacional de Atendimento


Socioeducativo – SINASE
O Estatuto da Criança e do Adolescente ampliou a responsabilidade
do Estado no cumprimento e na efetivação dos direitos da criança e do
adolescente, o que exigiu a formulação de políticas públicas para atender
ao que determina a lei referente aos adolescentes autores de atos infracio-
nais. O ECA, no Artigo 104, assegura que “são penalmente inimputáveis
os menores de dezoito anos, sujeitos às medidas previstas nesta Lei”; nos

– 96 –
Política Nacional de Atendimento da Criança e do Adolescente

Artigos 110 e 111, estabelece os direitos dos adolescentes em conflito com


a lei; e no Artigo 112, especifica as medidas socioeducativas a serem apli-
cadas aos adolescentes.
Com o objetivo de buscar soluções que viabilizem de fato o que está
preconizado no ECA e construir um sistema socioeducativo que assegure
aos adolescentes que inflacionaram oportunidade de desenvolvimento e de
reconstrução de seu projeto de vida, é que foi idealizado o Sistema Nacional
de Atendimento Socioeducativo. Assim “esses direitos estabelecidos em lei
devem repercutir diretamente na materialização de políticas públicas e sociais
que incluam o adolescente em conflito com a lei” (BRASIL, 2006b, p. 16).
A proposta do SINASE é fruto do trabalho articulado pela Secre-
taria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), por meio da Subsecre-
taria Especial de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente
(SPDCA), em conjunto com o CONANDA e com o apoio do Fundo das
Nações Unidas para a Infância (UNICEF). A proposta foi sistematizada
e organizada em fevereiro de 2004. No mês de novembro de 2004, pro-
moveu-se uma discussão nacional com os atores do Sistema de Garan-
tias de Direitos que apreciaram a proposta com o intuito de contribuir
para a elaboração do documento.

Saiba mais

O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo está disponibili-


zado na íntegra no sítio: <www.promenino.org.br/Portals/0/Legislacao/
Sinase.pdf>. Aprofunde os seus conhecimentos sobre esse tema que
é bastante polêmico na sociedade, mas que precisa ser compreendido
como uma política de direitos humanos de atendimento ao adolescente
em conflito com a lei no nosso país.

O SINASE é um guia voltado para a implementação das medidas


socioeducativas aplicadas aos adolescentes em conflito com as leis que
estão contempladas no ECA, no Artigo 112: advertência, obrigação de
reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida,
inserção em regime de semiliberdade, internação em estabelecimento edu-
cacional e qualquer uma das previstas no Art. 101, I a VI. A partir do ECA,

– 97 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

é garantido aos adolescentes infratores o direito do devido processo legal


e, por isso, o maior objetivo do SINASE é contribuir com o desenvolvi-
mento de uma ação socioeducativa fundamentada nos princípios dos direi-
tos humanos. Nessa perspectiva, o SINASE se constitui como
[...] conjunto ordenado de princípios, regras e critérios, de cará-
ter jurídico, político, pedagógico, financeiro e administrativo, que
envolve desde o processo de apuração de ato infracional até a
execução de medida socioeducativa. Este sistema nacional inclui
os sistemas estaduais, distrital e municipais, bem como todas as
políticas, os planos e os programas específicos de atenção a esse
público (BRASIL, 2006b, p. 23).

A citação reafirma a concepção do SINASE como um sistema inte-


grado, cujo propósito é padronizar procedimentos para o atendimento ao
adolescente em conflito com a lei, pautado na natureza pedagógica da
medida socioeducativa que o ECA preconiza.
O SINASE faz-se necessário uma vez que vivemos em uma socie-
dade marcada pela desigualdade e pela exclusão social. Os segmentos vul-
neráveis são os que mais sofrem com essa realidade. Entre esses segmen-
tos, está a população infanto-juvenil que, ao longo da história do Brasil,
sofre com a violação dos direitos, com destaque para os adolescentes em
conflito com a lei, pois
Estes também têm sido submetidos a situações de vulnerabilidade,
o que demanda o desenvolvimento de política de atendimento inte-
grada com as diferentes políticas e sistemas dentro de uma rede
integrada de atendimento, e, sobretudo, dar efetividade ao Sistema
de Garantia de Direitos (BRASIL, 2006b, p. 18).

A partir da citação, podemos afirmar que os adolescentes em conflito


com a lei, principalmente aqueles advindos dos segmentos mais pobres,
constituem-se nos grupos mais vulneráveis a essa problemática e, por isso,
exigem uma atenção integral do atendimento proposto.
Portanto o SINASE representa a possibilidade de implantação de
uma política de atendimento ao adolescente em conflito com a lei baseada
no respeito aos direitos humanos, sua base de sustentação.
O SINASE tem como marco legal as normativas nacionais: Consti-
tuição Federal de 1988 e Estatuto da Criança e do Adolescente; e as nor-

– 98 –
Política Nacional de Atendimento da Criança e do Adolescente

mativas internacionais: Convenção dos Direitos da Criança da ONU, Sis-


tema Global e Sistema Interamericano dos Direitos Humanos, constituído
pelas Regras Mínimas das Nações Unidas para Administração da Justiça
Juvenil (Regras de Beijing) e Regras Mínimas das Nações Unidas para a
Proteção dos Jovens Privados de Liberdade.
O SINASE deve ser implementado de forma articulada pela União,
pelos Estados, pelo Distrito Federal e pelos municípios. A União é res-
ponsável pelas diretrizes gerais que orientam a política de atendimento à
criança e ao adolescente. A União, os Estados e os municípios são respon-
sáveis pela coordenação do Sistema de Atendimento Socioeducativo na
sua esfera de governo. São responsáveis pela proteção integral dos ado-
lescentes em conflito com a lei e, para tanto, devem articular as diferen-
tes áreas da política social: educação, saúde, trabalho, previdência social,
assistência social, cultura, esporte, lazer, segurança pública, entre outras.
O governo conta com a participação da sociedade civil.
O poder de deliberação e controle social da política de atendimento
aos adolescentes em conflito com a lei compete aos Conselhos dos Direi-
tos da Criança e do Adolescente nas três esferas de governo. A gestão e
a execução da política socioeducativa são de responsabilidade do Poder
Público, nas três esferas, e os órgãos gestores devem estar vinculados à
área responsável pela Política de Direitos Humanos. Assim
A responsabilidade pela concretização dos direitos básicos e
sociais é da pasta responsável pela política setorial, conforme a
distribuição de competências e atribuições de cada um dos entes
federativos e de seus órgãos. Contudo, é indispensável a articu-
lação das várias áreas para maior efetividade das ações, inclusive
com a participação da sociedade civil (BRASIL, 2006b, p. 24).

Evidencia-se a importância da definição clara de competências e atri-


buições no âmbito das instituições responsáveis pela operacionalização
das políticas de atendimento à infância e à adolescência nas três esferas de
governo, no intuito de obter um maior êxito quanto aos objetivos.
Os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente e os órgãos
gestores do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, nas três
esferas de governo, devem-se articular com os conselhos e os órgãos
responsáveis pelo controle e pela gestão das demais políticas sociais.

– 99 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Deve-se estimular a prática da intersetorialidade com vistas ao desenvol-


vimento de ações integradas para atender de forma integral aos adolescen-
tes inseridos no SINASE.
Passemos ao estudo de outra política não menos importante, mas de
um grande significado para a área da infância e do adolescente, tendo em
vista tratar do convívio familiar e comunitário.

7.2 Plano Nacional de Promoção,


Proteção e Defesa do Direito de Crianças
e Adolescentes à Convivência Familiar e
Comunitária: aspectos introdutórios
O Plano Nacional visa a fomentar a cultura de valorização, respeito
e promoção da convivência familiar e comunitária. Tem como objetivo
propiciar discussões e reflexões acerca das práticas de atendimento à famí-
lia, à criança e ao adolescente construídas no Brasil. O Plano é resultado
de um trabalho que teve início em outubro de 2004, após a instituição,
por decreto presidencial, da Comissão Intersetorial que foi composta por
representantes dos três poderes, das três esferas de governo, da sociedade
civil e do UNICEF. Assim ele
[...] é o produto histórico da elaboração de inúmeros atores sociais
comprometidos com os direitos das crianças e adolescentes brasi-
leiros. O CONANDA e o CNAS, ao aprovar o documento, espe-
ram contribuir para a construção de um novo patamar conceitual
que orientará a formulação das políticas para que cada vez mais
crianças e adolescentes tenham seus direitos assegurados e encon-
trem na família os elementos necessários para seu pleno desenvol-
vimento (BRASIL, 2006a, p. 22-23).

Observamos, a partir da citação, que o Plano Nacional de Promo-


ção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivên-
cia Familiar e Comunitária foi construído coletivamente. Esse processo
foi desenvolvido sob a coordenação da Secretaria Especial dos Direitos
Humanos (SEDH) e do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate
à Fome (MDS). A minuta do Plano foi apresentada ao Conselho Nacional
de Assistência Social (CNAS) e ao Conselho Nacional dos Direitos da

– 100 –
Política Nacional de Atendimento da Criança e do Adolescente

Criança e do Adolescente (CONANDA), em julho de 2005, para análise


e aprimoramento.
O Plano foi disponibilizado para consulta pública nos meses de
junho e julho de 2005. Participaram, desse processo, os conselhos
estaduais e municipais dos direitos da criança e do adolescente, que
fizeram suas sugestões, as quais foram inseridas no Plano. Somente em
dezembro de 2006, o Plano foi aprovado em assembleia conjunta pelo
CONANDA e CNAS.

Saiba mais

O Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crian-


ças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária encontra-se
disponibilizado na íntegra no sítio <www.presidencia.gov.br/estru-
tura_presidencia/sedh/.arquivos/pncfc.pdf>. Acessando esse sítio, você
conhecerá melhor esse Plano e sua importância para o desenvolvimento
integral das crianças e dos adolescentes.

A promoção, a proteção e a defesa do direito à convivência familiar e


comunitária é a premissa do Plano, que tem como missão precípua favore-
cer a implementação de políticas públicas que contribuam para o fortale-
cimento e/ou resgate dos vínculos familiares e comunitários, uma vez que
A importância da convivência familiar e comunitária para a criança
e o adolescente está reconhecida na Constituição Federal e no ECA,
bem como em outras legislações e normativas nacionais e inter-
nacionais. Subjacente a este reconhecimento está a ideia de que a
convivência familiar e comunitária é fundamental para o desenvol-
vimento da criança e do adolescente, os quais não podem ser conce-
bidos de modo dissociado de sua família, do contexto sociocultural e
de todo o seu contexto de vida (BRASIL, 2006a, p. 31).

A citação destaca o direito fundamental da criança e do adolescente à


convivência familiar e comunitária e compreende-o como ambiente mais
favorável ao seu desenvolvimento integral.
A Constituição Federal de 1988 e o ECA garantem à criança e ao ado-
lescente o direito de serem criados e educados no seio da sua família de ori-

– 101 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

gem e, quando necessário, em família substituta. Para que esse direito seja
realmente efetivado, faz-se necessário compreender a família enquanto uma
instituição que passa por profundas transformações ao longo da história e
sofre com as situações de vulnerabilidade social “premidas pelas necessida-
des de sobrevivência, pelas condições precárias de habitação, saúde e esco-
larização, pela exposição constante a ambientes de alta violência urbana”
[...] (BRASIL, 2006a, p. 32). Para garantir o direito à convivência familiar e
comunitária, o Plano se fundamenta nas seguintes diretrizes:
2 Centralidade da família nas políticas públicas;
2 Primazia da responsabilidade do Estado no fomento de polí-
ticas integradas de apoio à família;
2 Reconhecimento das competências da família na sua organi-
zação interna e na superação de suas dificuldades;
2 Respeito à diversidade étnico-cultural, à identidade e orien-
tação sexuais, à equidade de gênero e às particularidades das
condições físicas, sensoriais e mentais;
2 Fortalecimento da autonomia do adolescente e do jovem
adulto na elaboração do seu projeto de vida;
2 Garantia dos princípios de excepcionalidade e provisorie-
dade dos Programas de Famílias Acolhedoras e de Acolhi-
mento Institucional de crianças e de adolescentes;
2 Reordenamento dos programas de Acolhimento Institucional;
2 Adoção centrada no interesse da criança e do adolescente;

2 Controle social das políticas públicas (BRASIL, 2006a, p. 64-69).

Essas diretrizes fundamentam todas as políticas, os programas e os


projetos que tenham como foco o atendimento à criança e ao adolescente,
e sua âncora de sustação é a Doutrina da Proteção Integral.
Com base nessas diretrizes, o Plano traçou objetivos gerais a serem
alcançados a curto prazo, em um período que foi de 2007 a 2008; de médio
prazo, que vai de 2009 a 2011; e longo prazo, de 2012 a 2015. Os objetivos
gerais do Plano são:
2 ampliar, articular e integrar as diversas políticas públicas
para a promoção, proteção e defesa do direito de crianças e
adolescentes à convivência familiar e comunitária;

– 102 –
Política Nacional de Atendimento da Criança e do Adolescente

2 difundir uma cultura de promoção, proteção e defesa do


direito à convivência familiar e comunitária, com ênfase no
fortalecimento ou resgate de vínculos de crianças/adolescen-
tes com a família de origem;
2 proporcionar apoio psicossocial às famílias, visando à manu-
tenção da criança e do adolescente em seu contexto familiar
e comunitário de origem;
2 assegurar a excepcionalidade e a provisoriedade do acolhi-
mento da criança e do adolescente em serviço de abrigo ou
Programa de Famílias Acolhedoras, fomentando o processo
de reintegração familiar e, na sua impossibilidade, o encami-
nhamento para família substituta;
2 qualificar o atendimento nas instituições de abrigo, visando à
adequação ao Estatuto da Criança e do Adolescente;
2 fomentar o processo de implementação de Programas de
Famílias Acolhedoras no país;
2 aprimorar os procedimentos de adoção nacional e interna-
cional, tendo em vista: i. a excepcionalidade da medida; ii.
a realização em conformidade com os pressupostos do Esta-
tuto da Criança e do Adolescente e a Convenção de Haia; e
iii. o investimento na colocação familiar de crianças e ado-
lescentes que, por circunstâncias diversas, tem sido preterido
pelos adotantes;
2 assegurar estratégias e ações que favoreçam o controle social e a
mobilização da opinião pública para a implementação do Plano;
2 aprimorar e integrar os mecanismos de cofinanciamento,
pelos três entes federados, das ações previstas no Plano
(BRASIL, 2006a, p. 70).

Percebemos que os objetivos centrais do Plano devem se concretizar a


partir do esforço conjunto entre governo e sociedade e do reconhecimento
de que diferentes políticas públicas devem ter centralidade na família.
As propostas operacionais do Plano Nacional de Convivência Fami-
liar e Comunitária estão organizadas em quatro eixos estratégicos: análise
da situação e sistemas de informação, atendimento, marcos normativos e
regulatórios, mobilização, articulação e participação.
O eixo análise da situação e sistemas de informação, por meio
de levantamento de dados e realização de pesquisas, aprofunda o conhe-

– 103 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

cimento em relação à situação familiar das crianças e dos adolescentes,


identifica os fatores que favorecem ou ameaçam a convivência familiar e
comunitária. Visa ainda a mapear e a analisar iniciativas de apoio socio-
familiar, programas de famílias acolhedoras, acolhimento institucional e
adoção e sua adequação aos marcos legais. Assim aprimora e valoriza a
comunicação entre os sistemas de informação sobre crianças, adolescen-
tes e família.
O eixo atendimento refere-se à articulação e à integração entre as
políticas públicas de atenção às crianças, aos adolescentes e às famílias
para a garantia do direito à convivência familiar e comunitária com vistas
ao empoderamento da família e à autonomia dos adolescentes.
O eixo marcos normativos e regulatórios propõe a parametrização
e a regulamentação dos programas de apoio sociofamiliar, de acolhimento
familiar e institucional (abrigo em entidade) e de apadrinhamento, regu-
lamentando à aplicação dos conceitos de “excepcionalidade e provisorie-
dade”. Propõe ainda o aprimoramento dos instrumentos legais de proteção
social que ofereçam alternativas e possibilidades do contraditório à sus-
pensão ou à destituição do poder familiar.
Os eixos mobilização, articulação e participação propõem estraté-
gias de comunicação social para a mobilização da sociedade no controle
social das políticas públicas e a articulação para a garantia da proviso-
riedade e da excepcionalidade do acolhimento institucional. Para tanto,
propõe a produção e a divulgação de material de orientação e capacitação.
A articulação e a integração de ações entre as três esferas de poder e a
garantia de recursos para viabilização do Plano fazem parte desse eixo.
Para acompanhamento da implementação do Plano, foi constituída,
formalmente, uma comissão nacional intersetorial (grupo de trabalho),
que tem várias atribuições, como articular todos os atores envolvidos na
implementação para a consecução dos objetivos gerais propostos pelo
Plano; proporcionar informações para contribuir com a tomada de deci-
sões por parte dos responsáveis pela execução dos objetivos e das ações
do Plano; socializar informações periodicamente aos diferentes atores do
Sistema de Garantia de Direitos e aos Conselhos de Direitos da Criança e
do Adolescente e da Assistência Social, entre outras.

– 104 –
Política Nacional de Atendimento da Criança e do Adolescente

O Plano Nacional, destinado à promoção, à proteção e à defesa do direito


das crianças e dos adolescentes à convivência familiar e comunitária, é um
marco na área da criança e do adolescente. Favorece o fortalecimento da Dou-
trina da Proteção Integral ao defender a garantia da preservação dos vínculos
familiares e comunitários preconizados pelo Estatuto da Criança e do Ado-
lescente. Os vínculos familiares e comunitários são fundamentais para que a
criança e o adolescente, enquanto cidadãos de direitos, tenham um desenvol-
vimento físico, psicológico, social e cultural de forma harmoniosa.
Passemos para o Plano Nacional de Enfrentamento da Violência
Sexual Infanto-Juvenil.

7.3 Plano Nacional de Enfrentamento


da Violência Sexual Infanto-Juvenil
A violência sexual infanto-juvenil é um tema bastante complexo e
que ainda tem pouca visibilidade na sociedade brasileira. O Plano Nacio-
nal representa uma resposta a essa problemática se constituindo em um
instrumento de garantia e defesa de direitos das crianças e dos adolescen-
tes em situação de violência sexual.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu Artigo 5º, prevê que
Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma
de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão, punido na forma da Lei qualquer atentado, por ação ou
omissão, aos seus direitos fundamentais.

Esse artigo respalda o Plano Nacional e indica que crianças e adoles-


centes não devem ser submetidos a tratamentos desumanos, uma vez que
é comprovado cientificamente eles estão em condição peculiar de desen-
volvimento físico, mental, espiritual.
No Brasil, a violência sexual contra a criança e o adolescente se
revela como uma questão pública e é enfrentada como um problema de
cunho social a partir da década de 1990, quando esse fenômeno passou a
ser debatido sob a ótica dos direitos humanos.
A sociedade civil organizada teve papel decisivo no processo de
mobilização dos poderes Legislativo e Executivo, bem como das orga-

– 105 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

nizações internacionais e da mídia para inserir a temática da violência


sexual contra crianças e adolescentes na pauta de compromissos a serem
assumidos pelo governo brasileiro.
O processo se evidenciou em 2000 quando foi realizado o Encontro
de Articulação do Plano de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-
-Juvenil, em Natal – RN. Esse encontro reuniu representantes governa-
mentais e da sociedade civil, do poder Legislativo, do poder Judiciário,
dos Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente, dos Conselhos
Tutelares, enfim, de vários atores que compõem o Sistema de Garantia dos
Direitos da Criança e do Adolescente.
Ainda em 2000, o Plano foi apresentado e deliberado pelo Conselho
Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente que passou a ser dire-
triz nacional para as políticas de enfrentamento da violência sexual contra
crianças e adolescentes.

Saiba mais

O Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juve-


nil encontra-se disponibilizado no sítio <http://www.mj.gov.br/sedh/ct/
conanda/plano_nacional.pdf>. Nesse endereço, você poderá aprofun-
dar os seus conhecimentos sobre o Plano diretriz nacional no âmbito
das políticas públicas sociais de enfrentamento da violência sexual con-
tra crianças e adolescentes.

O principal objetivo do Plano é “estabelecer um conjunto de ações


articuladas que permita a intervenção técnico-política e financeira para
o enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes”
(MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2002, p. 15).
O Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-
-Juvenil se estrutura a partir de seis eixos estratégicos: análise da situ-
ação, mobilização e da articulação, defesa e responsabilização, atendi-
mento, prevenção e protagonismo infanto-juvenil.
O eixo análise da situação se refere ao conhecimento do fenômeno da
violência sexual contra crianças e adolescentes por meio de diagnóstico da

– 106 –
Política Nacional de Atendimento da Criança e do Adolescente

situação da problemática, das condições de financiamento das ações do Plano,


do monitoramento e da avaliação do Plano e da divulgação dos resultados.
O eixo mobilização e articulação diz respeito às ações de fortaleci-
mento das articulações nacionais, regionais e locais que atuam no combate
da violência sexual contra crianças e adolescentes, visando a comprometer
a sociedade nas ações do Plano.
O eixo defesa e responsabilização compreende os mecanismos dis-
poníveis aos atores integrantes do Sistema de Garantia dos Direitos da
Criança e do Adolescente para fazer a contraposição às ameaças e às vio-
lações dos direitos da criança e do adolescente, garantindo, inclusive, às
vítimas e seus familiares o direito de acessar a justiça.
O eixo atendimento visa à garantia do atendimento especializado em
rede às crianças, aos adolescentes e aos familiares em situação de violên-
cia sexual. O atendimento deve ser realizado por profissionais especiali-
zados e capacitados.
O eixo prevenção tem o propósito de assegurar ações preventivas
que evitem ou diminuam os riscos de violência praticados contra crianças
e adolescentes, oferece orientação para o fortalecimento da autodefesa.
O eixo protagonismo infanto-juvenil trata da participação ativa de
crianças e adolescentes pela defesa dos seus direitos, inclusive compro-
metê-los nas ações de acompanhamento e monitoramento da execução
do Plano.
O Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual con-
tra Crianças e Adolescentes é a instância de mobilização e articulação
responsável pelo monitoramento e pela avaliação do Plano Nacional de
Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil. Esse comitê é com-
posto por representantes da sociedade civil, dos poderes públicos e das
organizações internacionais envolvidas com a temática.
O Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-
-Juvenil expressa a necessidade urgente de colocar em prática os direitos
fundamentais da criança e do adolescente, assegurando os princípios pre-
conizados pela Constituição Federal de 1988, pelo Estatuto da Criança e
do Adolescente e pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança.

– 107 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

Neste capítulo, tivemos a oportunidade de aprofundar os estudos rela-


tivos às políticas sociais públicas voltadas para o atendimento à criança e
ao adolescente. Conhecemos as diretrizes nacionais que orientam a política
de atendimento à população infanto-juvenil em situações de conflito com
a lei e a violência sexual. Além disso, conhecemos as diretrizes nacionais
que norteiam a promoção, a proteção e a defesa do direito da criança e do
adolescente à convivência familiar e comunitária.

Saiba mais

Acesse o sítio <www.direitoshumanos.gov.br/observatóriocriancaea-


dolescente> e conheça o portal do Observatório Nacional dos Direi-
tos da Criança e do Adolescente. O Observatório é uma iniciativa da
Agenda Social Criança e Adolescente anunciada  pelo Governo Lula
em outubro de 2007. O Observatório tem como finalidade reunir
e acompanhar informações e indicadores sobre as políticas sociais
voltadas para a infância e adolescência no Brasil. Nesse portal, você
encontrará documentos a respeito das principais legislações, produ-
ções científicas, diretrizes políticas e institucionais na área da criança
e do adolescente..

Atividades
1. O SINASE é um guia voltado para a implementação das medi-
das socioeducativas que estão contempladas no Artigo 112 do
ECA e aplicadas aos adolescentes em conflito com a lei. Quais
são essas medidas?
2. Na busca por soluções que viabilizem o que está preconizado
pelo ECA e na construção de um sistema socioeducativo que
assegure aos adolescentes que infracionaram oportunidade de
desenvolvimento e de reconstrução de seu projeto de vida, é que
foi idealizado o Sistema Nacional de Atendimento Socioeduca-
tivo. Sobre o SINASE, marque V para as afirmativas verdadeiras
e F paras as falsas.

– 108 –
Política Nacional de Atendimento da Criança e do Adolescente

( ) O maior objetivo do SINASE é contribuir com o desen-


volvimento de uma ação socioeducativa fundamentada nos
princípios dos direitos humanos.
( ) O SINASE tem como marco legal somente normativas
nacionais e segue as disposições contidas na Constituição
Federal e no ECA.
( ) Deve ser implementado de forma articulada pela União,
pelos Estados, pelo Distrito Federal e pelos municípios sem
a participação da sociedade civil.
( ) O SINASE, enquanto política de atendimento aos adoles-
centes em conflito com a lei, deve ser acompanhado pelos
Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente no
exercício do controle social.
( ) A gestão e a execução da política socioeducativa prevista
no SINASE é de responsabilidade do Poder Público.
A sequência correta é
a) V, F, V, F, V.
b) F, F, V, V, V.
c) V, F, F, V, V.
d) V, V, V, F, F.
3. As propostas operacionais do Plano Nacional de Convivência
Familiar e Comunitária estão organizadas em quatro eixos estra-
tégicos: análise da situação e sistemas de informação, atendi-
mento, marcos normativos e regulatórios, mobilização, articula-
ção e participação. Sobre esses eixos, é incorreto afirmar que
a) o eixo análise da situação e sistemas de informação visa a
aprofundar o conhecimento em relação à situação familiar
das crianças e dos adolescentes para identificar os fatores que
favorecem ou ameaçam a convivência familiar e comunitária.
b) o eixo atendimento refere-se à articulação e à integração
entre as políticas públicas de atenção às crianças, aos ado-

– 109 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

lescentes e às famílias para a garantia do direito à convi-


vência familiar e comunitária com vistas a contribuir para
proporcionar a dependência da família, dos adolescentes e
dos jovens das políticas públicas.
c) o eixo marcos normativos e regulatórios propõe a parame-
trização e a regulamentação dos programas de apoio socio-
familiar, de acolhimento familiar e institucional (abrigo em
entidade) e de apadrinhamento e regulamenta a aplicação
dos conceitos de excepcionalidade e provisoriedade.
d) o eixo mobilização, articulação e participação propõe estra-
tégias de comunicação social para a mobilização da socie-
dade no controle social das políticas públicas e mobilização
e articulação para a garantia da provisoriedade e excepcio-
nalidade do acolhimento institucional.
4. O Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-
-Juvenil consiste em um instrumento de garantia e defesa dos direi-
tos das crianças e dos adolescentes vítimas da violência sexual.
Sobre os eixos estratégicos do Plano, podemos afirmar que
a) o eixo análise da situação tem como finalidade conhecer o
fenômeno da violência sexual contra crianças e adolescen-
tes e identifica a situação e as condições de enfrentamento
dessa problemática.
b) o eixo defesa e responsabilização refere-se à atualização da
legislação sobre os crimes sexuais.
c) o eixo mobilização e articulação busca fortalecer as arti-
culações nacionais, regionais e locais de combate à vio-
lência sexual.
d) Todas as alternativas estão corretas.

– 110 –
Gabarito
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

1. História social da criança no Brasil: do


período Colonial à década de 1970
1. Na atividade 1, você expôs que a gênese da roda dos expostos
ocorreu na Europa, tinha cunho missionário, era fundamentada
na caridade e sua finalidade era garantir o anonimato do exposi-
tor, o que contribuía para estimulá-lo a levar para a roda o bebê
que não desejava em lugar de abandoná-lo.
2. Na atividade 2, você deve ter assinalado a alternativa (a), pois,
com a Constituinte de 1825, o Estado garantiu o direito da mãe
(escrava) de ter um mês de resguardo e, no decorrer de um ano
após o parto, trabalhar com o filho ao seu lado. A alternativa (b)
está incorreta, pois a Constituinte de 1825 não garantia quatro
meses de resguardo para a mãe escrava e, sim, um mês conforme
especificado na alternativa (a). A alternativa (c) está incorreta,
porque garantia de uma indenização por parte do Estado aos
proprietários de escravos para libertar as crianças negras foi
conquistada em 1871 com a Lei do Ventre Livre. A alternativa
(d) também está incorreta, uma vez que a abolição dos escra-
vos ocorreu, em 1888, com a criação da Lei Áurea e não com a
Constituinte de 1825.
3. Na atividade 3, você identificou que a alternativa correta é a (c),
pois a Doutrina da Situação Irregular, que norteava os Códigos
de Menores, defendia um paradigma de concepção da criança e
do adolescente como menores carentes, abandonados, inadap-
tados e delinquentes. As demais alternativas estão incorretas.
A alternativa (a) está incorreta, pois os Códigos de Menores
consideravam os menores nas situações de carentes, meninos
de rua, com desvio de conduta e delinquentes. Os carentes e os
delinquentes eram situações consideradas pelos Códigos, porém
meninos de rua e com desvio de condutas não eram situações
apontadas pelos Códigos e sim os inadaptados e os delinquentes.
A alternativa (b) está incorreta, pois considera menores nas situa-
ções de carentes, os meninos de rua, inadaptados e delinquentes,
no entanto os Códigos de Menores consideravam como menores

– 112 –
Gabarito

os carentes, os abandonados, os inadaptados e os delinquentes. A


situação de meninos de rua não era contemplada pelos Códigos.
A alternativa (d) está incorreta, a situação de desvio de conduta
não era apontada nos Códigos.
4. Na atividade 4, você apontou como alternativa correta a letra
(a). Estão corretas somente as afirmativas (I), (IV) e (V). A
apreensão era sempre aplicada a qualquer criança ou adoles-
cente encontrada(o) nas ruas em situação considerada de risco
pessoal e social, como, por exemplo, estar altas horas na rua
e maltrapilha(o) eram motivos suficientes para a criança ou o
adolescente serem apreendidos e conduzidos à presença do juiz
de menores que tinha a competência legal para decidir o seu
destino. Quando a criança ou o adolescente eram apreendidos,
corriam o risco de ser deportados e afastados da família e do
seu meio de origem. Após a apreensão e a deportação, ocorria
o confinamento, a internação da criança ou do adolescente. A
internação era aplicada, indistintamente, aos menores nas situ-
ações de carentes, abandonados, inadaptados e infratores. A
afirmativa (II) está incorreta, pois a triagem corresponde ao
encaminhamento do menor a um centro de triagem (observação)
com a finalidade de realizar um estudo social do caso, exames
médicos e, também, elaborar um laudo psicopedagógico. A rotu-
lação tinha como finalidade o enquadramento da criança e do
adolescente nas situações previstas pelos Códigos de Menores:
carentes, abandonados, inadaptados e infratores. A afirmativa
(III) está incorreta, pois, como já mencionamos anteriormente, o
enquadramento da criança e do adolescente em uma das subca-
tegorias da situação irregular (carente, abandonado, inadaptado
ou infrator) refere-se à rotulação e não à triagem.

2. Década de 1980: a luta da sociedade civil em


prol dos direitos da criança e do adolescente
1. Na atividade 1, você apontou que os movimentos que tiveram
fundamental importância na defesa dos direitos da população

– 113 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

infanto-juvenil foram: Movimento de Meninos e Meninas de


Rua (MMMR), Movimento de Defesa dos Direitos da Criança
e do Adolescente (MDDCA) e Fórum Nacional Permanente dos
Direitos da Criança e do Adolescente (Fórum DCA). Apontou,
ainda, que os movimentos defendiam que a criança e o adoles-
cente deveriam ser reconhecidos e valorizados como pessoas em
condição peculiar de desenvolvimento, necessitando, assim, de
atenção e cuidados especiais. Sobre o trabalho desenvolvido por
cada movimento social, você expôs que o MMMR trabalhava em
nível nacional com a questão dos meninos e das meninas de rua
e que tinha como principal meta de trabalho, na década de 1980,
o combate às práticas de extermínio da população infanto-juvenil
que vivia na rua. O MDDCA nasceu da união de diversos segmen-
tos da sociedade civil e política a partir de inúmeras denúncias de
maus-tratos envolvendo crianças e adolescentes, no que se refere
às prisões ilegais, tortura e assassinatos. Seu objetivo era sensibi-
lizar a sociedade brasileira para a situação de violência contra a
população infanto-juvenil. O Fórum DCA nasceu do I Encontro
Nacional de Meninos e Meninas de Rua, em março de 1988, e o
seu objetivo era criar uma frente permanente de luta na defesa dos
direitos da criança e do adolescente e envolver diferentes atores
sociais que atuavam direta e indiretamente com essa população.
2. Na atividade 2, provavelmente, você assinalou a alternativa
(d). Os movimentos sociais lutaram para incorporar à Constitui-
ção Federal de 1988 os princípios defendidos pela Convenção
dos Direitos da Criança, que seguem os princípios da Decla-
ração Universal dos Direitos da Criança. A alternativa (a) está
incorreta porque os movimentos foram constituídos somente
por Organizações Não-Governamentais (ONGs). A alternativa
(b) está incorreta, pois os movimentos tiveram uma participa-
ção imprescindível no processo de ruptura da visão da criança
e do adolescente como menor carente e abandonado em situa-
ção irregular e não de consolidação. A alternativa (c) também
está incorreta, uma vez que a finalidade dos movimentos sociais
não era lutar para efetivar a Política Nacional de Bem-Estar do
Menor e, assim, contribuir efetivamente para a implantação das

– 114 –
Gabarito

unidades da FEBEM. A finalidade de todos os movimentos era


lutar contra as formas de violência e as péssimas condições de
tratamento destinados às crianças e aos adolescentes (considera-
dos como menores) que ocorriam principalmente nas unidades
da FEBEM. Entidades e profissionais que lidavam com o menor
apontavam o Código de Menores e a PNBEM como os respon-
sáveis pelo abandono e pela violência com que eram tratadas as
crianças e os adolescentes no Brasil.
3. Na atividade 3, você assinalou a alternativa (a), pois os trata-
dos internacionais que nortearam a luta da sociedade civil no
Brasil, em prol dos direitos da criança e do adolescente, foram a
Declaração de Genebra, a Declaração Universal dos Direitos da
Criança e a Convenção sobre os Direitos da Criança. As demais
alternativas estão incorretas, pois todas apontam o Estatuto da
Criança e do Adolescente como um tratado internacional, no
entanto o Estatuto é uma legislação nacional que foi criada para
regulamentar os direitos já instituídos na Constituição Federal
de 1988.
4. Na atividade 4, você deve ter apontado a alternativa (b), visto
que as afirmativas (II), (III) e (IV) estão corretas. A Convenção
sobre os Direitos da Criança reconhece, como princípio, que
a criança deve crescer no seio da família, em um ambiente de
felicidade, amor e compreensão para que possa desenvolver sua
personalidade de forma plena e harmoniosa. A Convenção reco-
nhece ainda que a criança seja uma pessoa humana em condição
peculiar de desenvolvimento e que é portadora do futuro, da
continuidade da sua família. A Convenção garante que a criança
é titular de direitos individuais, que correspondem ao direito à
vida, à liberdade, à dignidade, e também de direitos coletivos,
que correspondem aos direitos econômicos, sociais e culturais.
A afirmativa (I) está incorreta, pois a regra básica da Convenção
é que as crianças e os adolescentes tenham todos os direitos que
são facultados aos adultos, assegurando-lhes também direitos
especiais em decorrência da sua condição peculiar de pessoa
em desenvolvimento.

– 115 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

3. Estatuto da Criança e do Adolescente: uma lei


específica na área da infância e da adolescência
1. Na atividade 1, você deve ter apontado que o ECA garante à
criança e ao adolescente serem portadores de todos os direitos
fundamentais que são facultados aos adultos. São pessoas carece-
doras de uma proteção especial por estarem em condição peculiar
de desenvolvimento físico, social e espiritual e por serem sujeitos
de direitos e necessitarem proteção integral. O ECA considera a
criança e o adolescente como prioridade absoluta.
2. Na atividade 2, provavelmente, você marcou a alternativa (b).
Com a mudança de conteúdo, o ECA concebe a criança e o
adolescente como sujeitos de direitos, os quais estão garanti-
dos legalmente por leis. A criança e o adolescente deixam de
ser tratados como meros objetos de direitos de intervenção por
parte da família, do Estado e da sociedade e passam a ser con-
siderados como cidadãos de direitos. As demais alternativas
estão corretas, pois, com a mudança de método, o ECA intro-
duz as garantias processuais para o adolescente autor de ato
infracional, e, com a mudança de gestão, o ECA introduz um
nova divisão do trabalho e atribui competências e responsabili-
dades à União, ao Estado e aos Municípios, com a participação
da sociedade civil organizada.
3. Na atividade 3, você deve ter assinalado a alternativa (c). Na
época dos Códigos de Menores, o modelo de atuação era centra-
lizador e autoritário, enquanto que, a partir do ECA, a descen-
tralização e a participação da sociedade por meio dos conselhos
paritários se constituem aspectos fundamentais e indispensáveis
para implementação das políticas voltadas à infância e à adoles-
cência. As demais alternativas estão incorretas, pois o ECA não
é instrumento de controle social das crianças e dos adolescentes
vítimas da omissão da família, da sociedade e do Estado em rela-
ção aos seus direitos, esse era o papel exercido pelos Códigos
de Menores. Ao contrário, o ECA prima pelo desenvolvimento
social voltado para a população infanto-juvenil do país e garante

– 116 –
Gabarito

proteção especial àqueles segmentos considerados pessoal e


socialmente vulneráveis. Os Códigos de Menores não primavam
pelo desenvolvimento social voltado para a população infanto-
-juvenil do país, mas se destinavam apenas aos menores em situ-
ação irregular: carentes, abandonados, inadaptados e infratores.
E, por fim, os Códigos de Menores não tratavam da Proteção
Integral, da sobrevivência do desenvolvimento e da integridade
de todas as crianças e todos os adolescentes, pois a Proteção
Integral é a Doutrina que fundamenta o ECA.
4. Na atividade 4, você deve ter analisado a alternativa (a), pois o
ECA estabelece como violadores de direitos da criança e do ado-
lescente os seguintes atores: a família, a sociedade, o Estado e a
própria criança e o próprio adolescente. As demais alternativas
estão incorretas. Cabe aos pais não somente o dever pelo sus-
tento, guarda e educação dos filhos menores, mas também cum-
prir e fazer cumprir as determinações judiciais. O ECA inclui a
criança e o adolescente como violadores dos seus próprios direi-
tos. E o grupo da família não envolve somente os pais, mas os
responsáveis e inclui também os parentes e as pessoas que são
próximas da família, com livre acesso à convivência familiar.

4. Sistema de Garantia dos Direitos


da Criança e do Adolescente
1. Na atividade 1, você assinalou a alternativa (b). É correto
afirmar que o eixo promoção é responsável pela deliberação
e pelo controle das políticas sociais básicas e das políticas de
seguridade social, especificamente a política de assistência
social e que tem caráter não universal. O eixo promoção é com-
posto por conselhos setoriais, de assistência social, de direitos
e pelas organizações governamentais e não-governamentais. O
eixo controle social se constitui como espaço de participação
da sociedade civil representada por fóruns e por entidades não-
-governamentais. Por fim, o eixo defesa tem como finalidade
a responsabilização do Estado, da sociedade e da família pelo

– 117 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

atendimento irregular ou violação dos direitos individuais ou


coletivos da criança e do adolescente.
2. Na atividade 2, você descreveu os órgãos que compõem o Sis-
tema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente. Os
Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente nas três esfe-
ras de governo (União, Estados e municípios) são órgãos paritá-
rios formados por representantes da sociedade civil e de institui-
ções governamentais, cujo objetivo central é garantir, priorizar
e controlar o cumprimento das políticas públicas direcionadas à
infância e à juventude. O Conselho Tutelar é um órgão perma-
nente e autônomo não jurisdicional, encarregado pela sociedade
para zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adoles-
cente definidos no ECA. O Fundo para Infância e Adolescência
age nas três esferas de governo e deve estar vinculado aos res-
pectivos Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Sua função é captar e aplicar recursos exclusivamente para o
desenvolvimento de programas e projetos na área da infância e
da adolescência. O Juiz da Infância e da Juventude é autoridade
local para julgar as causas decorrentes de violação das normas
do ECA. A Vara da Infância e da Juventude tem a função de apli-
car a lei para solução de conflitos relacionados aos direitos da
criança e do adolescente. Tem uma equipe técnica formada por
psicólogos e assistentes sociais. O Ministério Público é repre-
sentado pelo promotor de justiça, que tem a missão de zelar pelo
efetivo respeito aos direitos e às garantias assegurados às crian-
ças e aos adolescentes. A Segurança Pública é composta pelas
polícias militar e civil.
3. Na atividade 3, você deve ter apontado a alternativa (b), pois
é atribuição do Conselho Tutelar promover a execução de suas
decisões. Para tanto, pode: requisitar serviços públicos nas áreas
de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e segu-
rança e representar junto à autoridade judiciária nos casos de
descumprimento injustificado de suas deliberações. As demais
alternativas estão incorretas, pois o Conselho Tutelar, ao atender
às crianças e aos adolescentes, nas hipóteses previstas nos Arts.

– 118 –
Gabarito

98 e 105, só pode aplicar as medidas previstas no Art. 101 do


ECA, nos incisos I a VII. O inciso VIII se refere à colocação
em família substituta, que é atribuição do Juizado da Infância e
da Juventude. Requisitar o registro de certidão de nascimento e
óbito é atribuição do Juizado da Infância e da Juventude. O Con-
selho Tutelar deve assessorar o Poder Executivo na elaboração
da proposta orçamentária para planos e programas de atendi-
mento dos direitos da criança e do adolescente e não somente na
implementação da proposta.
4. Na atividade 4, você apontou que a alternativa incorreta é a
letra (c). O Conselho Tutelar não é jurisdicional, pois não está
integrado ao poder Judiciário e sim ao Poder Público exercendo
funções públicas de caráter administrativo. As demais
alternativas estão corretas. O Estatuto da Criança e do Adoles-
cente, em seu Artigo 131, dita que o Conselho Tutelar é órgão
permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela
sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e
do adolescente. É um órgão permanente porque passa a integrar
definitivamente o conjunto de instituições brasileiras que atua
com vistas ao cumprimento dos direitos garantidos pelo ECA. O
Conselho Tutelar tem autonomia para desempenhar as atribui-
ções que lhe são confiadas pela Lei. A missão do CT é proteger
a população infanto-juvenil vítima de maus-tratos e atuar em
situações de queixas e denúncias de ameaça e violação dos direi-
tos da criança e adolescentes a partir das hipóteses previstas no
Art. 98 e 105 do ECA. Assim o Conselho Tutelar é considerado
como um mecanismo de exigibilidade dos direitos estabelecidos
pela Constituição Federal de 1988 e, em especial, pelo ECA.

5. A política de atendimento à criança e ao


adolescente e os Conselhos de Direitos
1. Na atividade 1, você apontou que a política de atendimento
da criança e do adolescente requer um conjunto articulado de
ações por parte das três esferas de governo (União, Estado e

– 119 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

município) e a participação da sociedade civil organizada, con-


forme estabelece o ECA no Artigo 86. Você especificou que as
linhas de ação da política de atendimento constam no Artigo 87
do ECA e compreendem as políticas sociais básicas, política
de assistência social, políticas de proteção especial e políticas
de garantias de direitos. As linhas da política de atendimento
seguem as diretrizes básicas especificadas no Artigo 88 do
ECA, que compreende a municipalização do atendimento, a
criação de conselhos de direitos, a criação e a manutenção de
programas específicos, entre outros. Você enfatizou que, com
vistas à implementação da política de atendimento, o ECA
determina a criação de uma rede de proteção dos direitos da
população infanto-juvenil. Essa rede compõe o Sistema de
Garantias dos Direitos da Criança e do Adolescente dividindo-
-se em três grandes eixos: promoção, defesa e controle social.
Enfatizou ainda que a política de atendimento especifica medi-
das de proteção que estão listadas no Artigo 101 do ECA,
inciso I ao VII, e as medidas socioeducativas, especificadas no
Artigo 112 do ECA.
2. Na atividade 2, você assinalou a alternativa (a), pois o ECA
prevê a criação de conselhos municipais, estaduais e nacional
dos direitos da criança e do adolescente, órgãos deliberativos
e controladores das ações em todos os níveis, assegurada a
participação popular paritária por meio de organizações repre-
sentativas, segundo leis federais, estaduais e municipais. As
demais alternativas estão incorretas, pois o ECA prevê a cria-
ção e a manutenção de fundos nacionais, estaduais e muni-
cipais vinculados aos respectivos Conselhos dos Direitos da
Criança e do Adolescente e não somente às Secretarias res-
ponsáveis pela política de atendimento da criança e do adoles-
cente. O ECA prevê a mobilização da opinião pública, consi-
derando indispensável a participação dos diversos segmentos
da sociedade.
3. Na atividade 3, provavelmente, você apontou que a alternativa
correta é a (d). O Conselho Municipal de Direito da Criança

– 120 –
Gabarito

e do Adolescente é responsável pelo registro das organizações


da sociedade civil que prestem atendimento a crianças, ado-
lescentes, e a suas respectivas famílias por meio de programas
específicos assegurados no Art. 90 para atender às medidas pre-
vistas nos Artigos 101, 112 e 129 do ECA. As demais alter-
nativas estão incorretas, pois os Conselhos, em todos os níveis,
são órgãos controladores das ações do governo e também da
sociedade civil no que se refere à garantia e à violação dos
direitos das crianças e dos adolescentes e são compostos por
representantes do governo e da sociedade civil. O CONANDA
é responsável pela elaboração das normas gerais da política
nacional e não estadual de atendimento dos direitos da criança
e do adolescente. O CEDCA é responsável por acompanhar
a elaboração da proposta orçamentária do Estado e não da
União, faz avaliação e indica as modificações necessárias para
a consecução da política formulada.
4. Na atividade 4, você apontou que a alternativa correta é a (b).
O Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adoles-
cente, para deliberar e controlar as ações executadas pelo Poder
Público e pela as entidades não-governamentais no município,
deve conhecer a realidade de seu território e elaborar um plano
de ação, no qual deve definir as prioridades de atuação da política
de atendimento à criança e ao adolescente. A alternativa (a) está
incorreta, pois aponta que ao CMDCA compete deliberar, acom-
panhar, monitorar e avaliar as políticas propostas para o Estado
e a União. A competência do CMDCA se restringe somente ao
âmbito municipal. A alternativa (c) está incorreta, pois afirma
que ao CMDCA compete propor a elaboração de estudos e pes-
quisas para promover, subsidiar e dar mais efetividade às polí-
ticas públicas no âmbito estadual. Como já expomos, a compe-
tência do CMDCA se restringe somente ao âmbito municipal. A
alternativa (d) está incorreta, pois o CMDCA deve integrar-se a
órgãos executores de políticas públicas direcionadas à criança e
ao adolescente e demais conselhos no âmbito municipal e não
estadual e nacional como está na alternativa.

– 121 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

6. Interfaces da questão social na


área da criança e do adolescente
1. Na atividade 1, você identificou que a alternativa correta é a (a),
pois a violência física há séculos permeia nossa cultura, amparada
incisivamente pela força da religião, no que diz respeito à auto-
ridade dos pais para com os filhos. As demais alternativas estão
incorretas, pois, no Brasil, o castigo físico é aceito como um ato
educativo, que é estabelecido pelo uso da força praticada pelos
pais, com o intuito de ferir e não proteger a criança e o adoles-
cente. A violência física é fácil de ser detectada pelo aparecimento
de marcas no corpo. Resulta de uma violência praticada no seio
familiar por pais ou responsável sem que se tenha uma explicação
plausível para tal agressão. A violência física é justificada e uti-
lizada como uma forma de “educar” e não castigar a criança e o
adolescente, e essa justificativa é respaldada pelas religiões.
2. Na atividade 2, você apontou que a negligência é a omissão dos
pais ou dos responsáveis quando deixam de prover as necessida-
des básicas para o desenvolvimento físico, emocional e social da
criança e do adolescente. Essa omissão se dá devido à condição
de miséria e pobreza em que se encontram milhares de famílias
brasileiras: famílias com pais desempregados, sem condições de
suster as necessidades básicas dos filhos. Em relação à violência
psicológica, você expôs que ela ocorre quando os pais ou os res-
ponsáveis aterrorizam a criança visando a instaurar um clima de
medo; quando a criança é rejeitada, isolada do meio social; quando
os pais ignoram o desenvolvimento emocional e intelectual da
criança; ou quando são utilizadas como meio de obter dinheiro
por meio da prostituição e do crime. Sobre os direitos assegurados
pelo ECA, você apontou que a criança e o adolescente têm direito
à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em
processo de desenvolvimento pessoal, social, espiritual e cultural.
3. Na atividade 3, você assinalou a alternativa (d), pois, como vimos
neste capítulo, realmente existe uma cultura de silêncio e de tabus
que contribui para perpetuar a violência sexual contra a criança e

– 122 –
Gabarito

o adolescente, uma vez que envolve pessoas da família com rela-


ção sanguínea, por isso esse tipo de violência doméstica é mais
velado. As demais alternativas estão incorretas, pois, na maioria
dos casos de abuso sexual, os agressores não são somente amigos
da família, mas também pessoas conhecidas em quem as vítimas
confiam, os familiares e os responsáveis. A violência sexual nem
sempre é cometida com o uso da força física, pois, geralmente, o
agressor é uma pessoa com quem a criança convive diariamente e
mantém relacionamento econômico e de afetividade. A violência
sexual não é praticada somente por meio de contato físico, ela está
relacionada também com a exploração e a prostituição sexual.
4. Na atividade 4, você marcou a letra (d). Vimos que fatores
sociais, como a desigualdade social, a falta de uma política educa-
cional integral, a precarização das relações de trabalho, estimulam
o trabalho infantil. As crianças ficam em um período na escola e
no outro trabalham. A precarização das relações de trabalho diz
respeito a não cumprimento da legislação e, para tanto, pessoas
utilizam o trabalho infantil para não pagar encargos sociais exi-
gidos pela lei. As crianças, em situação de trabalho infantil, têm
seus direitos violados, pois não frequentam regularmente a escola
e, ainda, têm o seu direito de preparar-se para ingressar legalmente
no mercado de trabalho e o direito à dignidade prejudicados. Para
enfrentar o trabalho infantil, o governo federal implantou, em
1996, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI),
que está inserido na Política de Assistência Social. A afirmativa
(II) está incorreta, pois cortar cana, colher café, laranja são tra-
balhos realizados na zona rural e vender jornais, picolés, balas,
doces, engraxar sapato, ser carregadores nas feiras livres, lavar
carro são trabalhos realizados na zona urbana.

7. Política Nacional de Atendimento


da Criança e do Adolescente
1. Na atividade 1, você apontou que as medidas socioeducativas
que estão garantidas pelo ECA, no Artigo 12, são: advertência,

– 123 –
Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comuni-


dade, liberdade assistida, inserção em regime de semiliberdade,
internação em estabelecimento educacional e qualquer uma das
previstas no Art. 101, I a VI.
2. Na atividade 2, você identificou como alternativa correta a letra
(c). O objetivo do SINASE é contribuir com o desenvolvimento
de uma ação socioeducativa fundamentada nos princípios dos
direitos humanos. O Sistema tem como marco legal as normati-
vas nacionais e também as normativas internacionais e segue as
disposições contidas na Constituição Federal e no ECA. Ele deve
ser implementado de forma articulada pela União, pelos Estados,
pelo Distrito Federal e pelos municípios e garantir a participação
da sociedade civil. O poder de deliberação e controle social da
política de atendimento socioeducativa compete aos Conselhos
dos Direitos da Criança e do Adolescente, e a gestão e a execução
da política são de responsabilidade do Poder Público.
3. Na atividade 3, provavelmente, você apontou a alternativa (b).
O eixo atendimento refere-se à articulação e à integração entre
as políticas públicas de atenção às crianças, aos adolescentes e
às famílias para a garantia do direito à convivência familiar e
comunitária com vistas ao empoderamento da família e à auto-
nomia dos adolescentes e jovens e não fazer com que as famí-
lias e os jovens fiquem dependentes das políticas públicas. As
demais alternativas estão corretas, pois o eixo análise da situa-
ção e dos sistemas de informação visa a diagnosticar a situação
para identificar os fatores que favorecem ou ameaçam a con-
vivência familiar e comunitária, bem como criar e/ou aprimo-
rar sistemas de informação sobre a criança e o adolescente. O
eixo atendimento se refere ao conjunto de ações que visam à
articulação e à integração entre as políticas públicas com foco
na infância e na adolescência. O eixo mobilização, articulação
e participação propõe a articulação de programas, a integração
dos planos nas três esferas de governo, e, ainda, estabelecimento
de estratégias que envolvam a sociedade no controle social das
políticas públicas.

– 124 –
Gabarito

4. Na atividade 4, você assinalou a letra (d), ou seja, todas as alter-


nativas estão corretas. O eixo análise da situação diz respeito ao
panorama da situação a ser enfrentada e identifica, inclusive, as
condições de enfrentamento da violência sexual contra a criança
e o adolescente. O eixo defesa e responsabilização combate a
impunidade e garante a proteção jurídico-social a crianças e ado-
lescentes, bem como atua na perspectiva da atualização da legis-
lação sobre os crimes sexuais. E, por fim, o eixo mobilização e
articulação promove o fortalecimento das instâncias e dos orga-
nismos em âmbito nacional, regional e local e visa ao combate e
à eliminação da violência sexual contra crianças e adolescentes.

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Políticas Sociais - Família, Criança e Adolescente

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