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SIMBÓLICO, IMAGINÁRIO E REAL COMO EIXO EPISTEMOLÓGICO DO

ENSINO DE JACQUES LACAN

Michele Roman Faria

RESUMO

O texto propõe considerar real, simbólico e imaginário como um eixo epistemológico a


partir do qual a clínica psicanalítica e a teoria que a fundamenta são abordados por Lacan
ao longo de todo o seu ensino. Tomando como ponto de partida a conferência intitulada
“O simbólico, o imaginário e o real”, de 1953, mesmo ano em que tem início seu primeiro
seminário, e seguindo a cronologia dos vinte e sete seminários proferidos entre 1953 e
1980, pretende-se mostrar que real, simbólico e imaginário estão presentes do início ao
fim, e que o esforço constante de Lacan foi pensá-los em sua articulação, jamais tomando-
os isoladamente, evolutivamente, ou supondo uma hierarquia entre eles.

Palavras-chave: real, simbólico e imaginário; Jacques Lacan; eixo epistemológico.

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Simbólico, imaginário e real: eixo epistemológico do ensino de Lacan
Michele Roman Faria

Os meus três são o simbólico, o real e o imaginário. Vi-me


levado a colocá-los em uma topologia, a do nó, chamado
borromeano. O nó borromeano põe em evidência o ao menos
três. É o que une os outros dois, desenodados. Eu dei isso aos
meus. Dei-os para que se orientem na prática (Lacan,
Conferência de Caracas, 1980).

Simbólico, imaginário e real aparecem muito precocemente no ensino de


Lacan. Em 1953, darão título à conferência de inauguração da Sociedade Francesa de
Psicanálise (SFP), sendo definidos como “os registros essenciais da realidade humana”
(Lacan, 1953/2005, p.12). Para Lacan, a realidade não se reduz nem deve ser confundida
com o real; a realidade é real, simbólica e imaginariamente constituída.
No mesmo ano, em seu primeiro seminário, Lacan afirmará: “sem esses
três sistemas de referências, não é possível compreender a técnica e a experiência
freudianas” (1953-54/1986, p.89).
Preocupado com os rumos de uma psicanálise que considerava ter se
desviado da descoberta freudiana do inconsciente, Lacan contará com seus três enquanto
sistema de referências a partir do qual tais desvios poderiam ser esclarecidos.
Seus três lhe servirão de apoio no início e seguirão com ele, em cada um
de seus vinte e sete seminários, até o final.
Sem jamais considerá-los isoladamente ou evolutivamente, e descartando
qualquer hierarquia entre eles, simbólico, imaginário e real darão suporte a uma
investigação teórica e clínica na qual cada um dos três estará sempre referido e articulado
aos outros dois, e o desafio constante será encontrar uma forma de abordá-los, os três, ao
mesmo tempo.
O primeiro esforço para reuni-los está na própria conferência de 1953,
onde R, S e I, grafados em letras maiúsculas e minúsculas, são apresentados dois a dois,
compondo um esquema da análise (Lacan, 1953/2005):

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rS – rI – iR – iS – sS – SI – SR – rR – rS

Em 1958, no artigo Questão preliminar a todo tratamento possível das


psicoses (1958/1995, p.559) os três aparecem no esquema R, talvez o mais conhecido dos
esquemas que articulam real, simbólico e imaginário:

Outros esquemas, menos conhecidos, também reúnem os três, como no


seminário sobre O ato psicanalítico (1967-68/inédito, lição de 06/12/67) e no seminário
Encore (1972-73/1985, lição de 20/03/73):

Serão necessários vinte anos até que Lacan encontre, finalmente, um


suporte teórico para “dar a esses três termos, real, simbólico e imaginário, uma medida
comum” (Lacan, 1974-75/inédito, lição de 10/12/74): o nó borromeano.

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Com o nó borromeano, Lacan mostrará, de maneira ainda mais clara que
nos esquemas elaborados até então, que é do enodamento dos três que se trata e que, em
tal enodamento, real, simbólico e imaginário devem ser considerados como equivalentes.
A propriedade borromeana, que define que ao soltar-se qualquer um, os três estarão
soltos, será constantemente lembrada para relacionar os nós à teoria e à clínica
psicanalítica.
Os sete últimos anos do ensino de Lacan – do vigésimo-primeiro
seminário, Les non-dupes errent (1973-74/inédito) ao vigésimo-sétimo, Dissolução
(1979-80/inédito) – serão dedicados a uma vigorosa exploração da teoria topológica dos
nós. Sete anos de intenso trabalho que não parecem ter sido suficientes para esgotar o
alcance deste recurso, cujo valor para a clínica psicanalítica ainda está para ser explorado.
Não foi o acaso, portanto, que reuniu simbólico, imaginário e real no
início, em 1953, e no fim, em 1980. Ainda que o caminho percorrido de 1953 a 1980 se
esclareça apenas pela retroação, a teoria dos nós não é senão o ponto de convergência de
um extenso, rigoroso e consistente percurso teórico, traçado ao longo de quase três
décadas de seminários, na conceituação do imaginário, do simbólico e do real.
Lembrando as palavras do próprio Lacan:
É concebível, com efeito, que não seja na entrada, à guisa de
prefácio ou de programa, que se possa elucidar alguma coisa
daquilo que é um fim. É preciso já ter percorrido ao menos um
pedaço do caminho para que a partida se esclareça pela retroação
(Lacan, 1968-69/2006, p.183).

Situemos, então, na cronologia do ensino de Lacan, as bases deste caminho


no qual a partida se esclarece, ao final, retroativamente [1].

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1. Imaginário

No Seminário 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-54/1986, p.25),


Lacan afirmará:
Àqueles que se encontram em posição de seguir Freud, coloca-
se a questão de como as vias que herdamos foram adotadas,
recompreendidas, repensadas. Além disso, não podemos fazer
de uma outra forma senão juntar o que traremos sob o título de
uma crítica, uma crítica da técnica analítica.

Interessado em esclarecer os problemas de uma prática clínica que


considerava ter se distanciado da experiência freudiana, Lacan tomará como ponto de
partida de seu ensino um projeto de retorno a Freud, a fim de mostrar os equívocos de
uma condução da análise pautada no eu e em seu fortalecimento:
O que nos propõem como meta da análise é arredondar este eu,
dar-lhe a forma esférica na qual ele terá definitivamente
integrado todos os seus estados disjuntos, fragmentários, seus
membros esparsos, suas etapas pré-genitais, suas pulsões
parciais, o pandemônio de seus inúmeros e despedaçados egos.
Corrida para o ego triunfante (...) (Lacan, 1954-55/1985, p.304).

Em seus dois primeiros seminários, retomará a teoria freudiana do


narcisismo para mostrar a função ilusória, totalizante e imaginária do eu, afirmando que
“não há meio de compreender o que quer que seja da dialética analítica se não assentarmos
que o eu é uma construção imaginária” (Lacan, 1954-55/1985, p.306).
Lembrará, nestes seminários, sua teoria do estádio do espelho –
apresentada pela primeira vez no congresso de 1936 e depois novamente em 1949 sob o
título “O estádio do espelho como formador da função do eu” – para mostrar o papel
essencial do imaginário na formação do eu, marcando a importância da função de
antecipação da imagem do corpo próprio numa unidade organizada, efeito da alienação
que dá ao eu sua estrutura.
Destacará a expressão de júbilo da criança que reconhece sua própria
imagem no espelho como uma importante evidência da gestalt ilusória e totalizante do
eu, lembrando sua precocidade e seu efeito sobre o domínio motor: “a mera visão da
forma total do corpo humano dá ao sujeito um domínio imaginário do seu corpo,
prematuro em relação ao domínio real” (1953-54/1986, p.96).
Buscando recursos teóricos em outros campos da ciência [2] encontrará,
na física, um esquema – o do buquê invertido, de Bouasse – que tomará como base para

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construir seu próprio esquema, no qual situa a função do imaginário na formação do eu
trabalhada na teoria do estádio do espelho (Lacan, 1953-54/1986) – o esquema óptico:

Em seus primeiros escritos e seminários estão concentradas, portanto, as


mais importantes reflexões sobre o imaginário, ponto de apoio para sua contundente
crítica dos desvios da psicanálise para um modelo adaptativo de remodelagem do eu.
Ao mesmo tempo, neste mesmo período, sua investigação sobre o
imaginário também abrirá caminho para uma valiosa reflexão sobre as psicoses e seu
tratamento pela psicanálise, tanto na perspectiva da função imaginária do delírio, como
no papel do eu e do imaginário na construção da realidade [3]. São desta época algumas
das mais importantes lições de Lacan sobre as psicoses, presentes principalmente na
discussão sobre o caso Dick, de Melanie Klein, no início do Seminário 1 (1953-54/1986),
e nos comentários sobre o trabalho de Freud com o texto de Schreber, ao longo de todo o
Seminário 3: As psicoses (1955-56/1988), retomados no artigo “De uma questão
preliminar a todo tratamento possível da psicose” (1958) [4].
Este período inicial do ensino de Lacan será marcado, portanto, de um
lado, pela crítica ao manejo imaginário e alienante das análises que tomam o eu como
fundamento; e, de outro, pelo destaque à função organizadora do eu e do imaginário
enquanto perspectiva fundamental para situar o tratamento possível das psicoses pela
psicanálise.
Assim, longe de considerá-lo menor ou sem importância, o imaginário será
constantemente lembrado por Lacan como uma chave valiosa para esclarecer e advertir
os psicanalistas não apenas dos riscos de um efeito desviante da clínica, como também
dos problemas que norteiam a clínica das psicoses.
Além disso, também os desvios e equívocos na transmissão dos conceitos
serão atribuídos ao imaginário e seus efeitos ilusórios, “perigo de ilusão de toda
compreensão” (Lacan, 1958-59/2002, p.36), outra advertência constante de Lacan aos
psicanalistas. É, aliás, para reduzir este perigo que ele dará cada vez mais importância à
transmissão sustentada em matemas, esquemas e grafos.

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Passado este período inicial de intenso trabalho com o imaginário, Lacan
se dedicará então ao simbólico, para mostrar que é a partir de sua função que se pode
situar e definir a descoberta freudiana do inconsciente e a clínica que dela decorre.

2. Simbólico

O simbólico passará ao centro das preocupações de Lacan especialmente


a partir do quarto seminário, sobre A relação de objeto (1954-55/1995), e até ao menos
seu oitavo seminário, sobre A transferência (1960-61/1992). Escritos fundamentais como
“O seminário sobre ‘A carta roubada’”(1955) [5], bem como “Função e campo da fala e
da linguagem em psicanálise” (1953), “A instância da letra no inconsciente ou a razão
desde Freud” (1955), “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” (1958), “De
uma questão preliminar a todo tratamento possível das psicoses” (1958), “A significação
do falo” (1958) e “Subversão do sujeito e dialética do desejo” (1960) são todos desta
época, extremamente rica e abundante na exploração do simbólico e seu lugar na teoria
freudiana.
Neste período, Lacan sustentará que a linguagem e sua função simbólica
estão na base da experiência psicanalítica descrita por Freud. Insistirá na importância de
definir e delimitar a “função da fala”, o “campo da linguagem”, a “instância da letra” no
inconsciente, lembrando que a psicanálise é um tratamento cuja via é a linguagem, uma
experiência que depende dos efeitos de uma intervenção que opera sobre a fala.
Enquanto a reflexão sobre o imaginário o conduzira, nos primeiros
seminários, a uma investigação sobre o eu e o narcisismo tendo como ciências de apoio
a óptica e a etologia, seu interesse pelo simbólico e pelas hipóteses sobre a linguagem que
ele extrai do texto freudiano o aproximarão da linguística, de onde recolherá os conceitos
que o levarão a formular que o inconsciente é estruturado como uma linguagem.
No final das contas, não apreendemos o inconsciente senão em
sua explicação, no que dele é articulado que passa em palavras.
É daí que temos o direito – e isso, ainda mais porque a
continuação da descoberta freudiana no-lo mostra – de nos
darmos conta de que esse inconsciente não tem, ele mesmo,
afinal, outra estrutura senão uma estrutura de linguagem (Lacan,
1959-60/1991, p.45).

Em Saussure, Lacan encontrará um conceito fundamental para abordar a


estrutura de linguagem do inconsciente – o signo linguístico, definido a partir da relação

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entre significante e significado [6]. É deste conceito que Lacan extrairá os fundamentos
para mostrar que a essência da técnica freudiana da associação livre está na subversão do
lugar do sentido: enquanto o uso da língua o coloca do lado do significado, no tratamento
psicanalítico ele passa a depender do significante e da forma como ele se encadeia a outros
significantes. Destacará, assim, a função do significante e sua primazia sobre o
significado, escrevendo-o em um matema, S/s. E utilizará a fórmula da metáfora para
esclarecer que o efeito de sentido que interessa ao psicanalista é aquele que brota da
relação entre os significantes, na cadeia.
Colocará essa estrutura em um pequeno grafo, mostrando que o sentido
está ligado a uma noção de temporalidade que somente o termo retroação [Nachträglich;
après-coup] permite situar:

Se a cadeia significante é representada pela seta que vai da esquerda para


a direita, o sentido, por sua vez, é representado pela outra seta, é o efeito retroativo que
opera na direção inversa, na qual o que vem depois é capaz de ressignificar o que estava
antes.
Lacan relacionará essa estrutura com a estrutura de linguagem do
inconsciente, tomando-a como base para a construção de um grafo nos seminários 5 e 6,
o grafo do desejo, um de seus mais engenhosos esforços para definir tanto clínica como
teoricamente o que é desejo na perspectiva da psicanálise.

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Depois de ter dado destaque, com a teoria do estádio do espelho, ao papel
do eu e do narcisismo para esclarecer o lugar do imaginário na constituição do sujeito,
Lacan destacará a importância do simbólico nessa constituição, desta vez marcando a
função do desejo inconsciente e sua relação com a estrutura de linguagem que o define.
É na teoria freudiana do complexo de Édipo que encontrará as bases para essa
investigação.
Conceitos como o significante e a metáfora serão fundamentais para
extrair, do complexo de Édipo, sua estrutura simbólica. Inspirado no trabalho de Lévi-
Strauss em Estruturas elementares do parentesco (1949/1982), Lacan mostrará que,
independentemente das configurações particulares de cada família, o que o complexo de
Édipo revela é a função estrutural da interdição. Destacará o papel da castração simbólica
como nodal para situar essa função, lembrando que é ela que define o desejo [Wunsch]
como inconsciente, recalcado, distinto do querer ou da vontade.
O problema temporal da constituição do sujeito, que já estava presente na
teoria do espelho pela noção de antecipação que marca os efeitos da imagem sobre o
domínio motor, terá destaque ainda maior na teoria sobre o complexo de Édipo. Dividirá
o Édipo em três tempos, que definirá como lógicos, distinguindo-os do tempo cronológico
para marcar, mais uma vez, o distanciamento de qualquer noção desenvolvimentista na
concepção de sujeito que interessa à psicanálise. Este será o primeiro passo para afirmar
que o sujeito se constitui como efeito de um corte, aquele que inscreve o ser no campo da
linguagem, e que esse corte define uma operação que é lógica, que só pode ser situada
temporalmente na perspectiva da retroação.
Depois de ter construído um esquema para abordar a teoria do estádio do
espelho – o esquema óptico – escreverá a teoria do complexo de Édipo em uma fórmula
– a fórmula da metáfora paterna – reduzindo a uma escrita a estrutura simbólica que
extrai da teoria freudiana [7].
Insistirá na importância da função do pai como central para compreender
o lugar da interdição no Édipo, definindo-a como uma função simbólica, significante.
Descreverá essa função significante como sendo a de representar o desejo materno, DM,
desejo este introduzido pelo corte que o instaura como enigma, x. Definirá o desejo
enigmático da mãe, como o “primeiro significante introduzido na simbolização” (1957-
58/1999), DM/x, e a função do pai como a de representar esse desejo. Para marcar que a
função simbólica do pai é uma função de nomeação do enigma do desejo materno,
chamará de Nome-do-Pai o significante que, uma vez associado a seu significado,

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NdP/DM, produz um efeito metafórico. Mostrará assim que, tal como ocorre na metáfora,
o que resulta da articulação entre esses dois significantes – o desejo materno, cujo
significado é um enigma, DM/x, e o Nome-do-Pai, que passa a nomear o significado do
desejo materno, NdP/DM – é um ganho de sentido (+), a partir do qual a significação
fálica passa a comandar o sentido no campo do Outro, A/falo (1958/1998, p.563):

NdP . DM => NdP ( A )


DM x falo

Lacan encontrará assim na fórmula da metáfora paterna a chave para


aproximar a estrutura simbólica do Édipo da estrutura de linguagem do inconsciente.
Será uma extensa investigação sobre o simbólico, desenvolvida ao longo
do quarto, quinto e sexto seminários, e estendendo-se até o oitavo, na qual a linguística e
a antropologia estruturalistas fornecerão as bases para a definição do inconsciente
estruturado como linguagem e para articular o desejo, eixo do trabalho psicanalítico, à
estrutura simbólica do complexo de Édipo.

Pouco a pouco, entretanto, certos conceitos como a angústia, o fantasma,


o gozo, a pulsão, começam a exigir maior atenção de Lacan, e vão se tornando cada vez
mais evidentes os limites da linguística estruturalista para abordá-los. Tais conceitos
trarão a necessidade de incluir, na própria concepção do inconsciente estruturado como
linguagem, o lugar do real enquanto impossível, inapreensível pela linguagem.
Na mesma medida em que o real começa a atrair um interesse maior de
Lacan, a linguística, que não pode tratar do real senão como externo a seu próprio campo,
perderá seu papel central como ciência de apoio para os próximos passos da investigação
lacaniana. Afinal, como tratar, pela linguística, daquilo que se apresenta do lado do que
a linguagem não é capaz de nomear?
Evidentemente, não se trata de um abandono da linguística por Lacan. A
linguística seguirá sendo o recurso fundamental para situar os problemas do simbólico,
até os últimos seminários [8]. Trata-se de seu limite para abordar o lugar do real na
estrutura simbólica [9], e da necessidade de uma nova ciência de apoio para tratar dos
problemas que tomarão o centro da investigação lacaniana nos anos seguintes. É assim

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que a matemática passará a ter um papel central como suporte para a reflexão de Lacan a
partir do nono seminário, sobre a identificação.
Desta forma, depois de ter abordado, nos seminários iniciais, o eu e sua
função imaginária com o auxílio da etologia e da óptica; tendo passado, em seguida, à
definição do desejo inconsciente e de sua estrutura simbólica amparado pela linguística e
pela antropologia estrutural; terá início um novo período, no qual o lugar e a função do
real no inconsciente e na direção do tratamento psicanalítico passarão ao centro da
investigação de Lacan, que contará com a matemática, em especial a lógica e a topologia,
como seu principal ponto de apoio.
Embora o impossível de ser simbolizado já tivesse lugar na teorização
lacaniana dos anos anteriores, a preocupação deste novo período será mostrar que o que
escapa à linguagem tem uma função lógica, que o que não pode ser simbolizado não deve
reduzido a um resto que ficaria simplesmente fora do alcance da linguagem, mas que esse
resto tem função de causa da própria estrutura que a linguagem empresta ao inconsciente.

3. Real

Os temas relacionados ao real passarão a ter papel de destaque, portanto,


a partir do Seminário 9: A identificação (1961-62/inédito). Serão doze anos de trabalho,
que se estenderão ao menos até o vigésimo seminário, Encore (1972-73/1985), ao longo
dos quais as referências matemáticas serão o mais valioso suporte da investigação de
Lacan. Doze anos dedicados a retomar problemas clínicos e teóricos já presentes nos
seminários anteriores, para mostrar o lugar e a função do real que ali se encontravam
apenas indicados.
Lacan retomará o tema da identificação, já trabalhado na teoria do estádio
do espelho, para esclarecer que a identificação não é com a imagem, mas com o
significante, destacando o limite da linguagem nessa operação. Destacará, no problema
da constituição do eu, a importância e a função desse limite, já marcado na teoria do
espelho pela ideia de um inacabamento da Urbild do eu, mas dando ênfase agora ao resto
que se produz como efeito da própria operação de identificação.
Utilizará o objeto a para definir o estatuto desse resto, efeito de toda
inscrição no campo da linguagem e passará a nomeá-lo como objeto causa de desejo [10].
Esse refinamento teórico será fundamental para que o objeto a adquira, finalmente, seu

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lugar como conceito central para a investigação dos problemas relativos ao real e sua
relação com a linguagem, intensamente trabalhados neste período.
No Seminário 10 (1962-63/2005), Lacan retomará o esquema óptico – no
qual a função do real já estava indicada pela necessidade do segundo espelho – para
acrescentar a ele o objeto a.
Mais que um conceito para abordar os problemas clínicos e teóricos
ligados ao real, o objeto a dará a Lacan condição para mostrar que a estrutura de
linguagem do inconsciente inclui o real como causa – ou seja, que o real enquanto limite
que se impõe à linguagem possui uma função naquilo que a própria linguagem estrutura.
Assim, depois de ter explorado o imaginário com o auxílio da óptica, e o
simbólico com o apoio da linguística estruturalista, ele encontrará na matemática os
recursos para abordar teoricamente esse limite da linguagem que define o real. Ela será
tão importante, que no seminário ...Ou pior (1971-72/2012, p.26) Lacan afirmará que
“não há ensino, senão matemático”.
Lacan observará que os mesmos impasses de formalização acerca do lugar
do impossível que se impunham à abordagem do real pela psicanálise são também objeto
de investigação matemática, e importará algumas das soluções de formalização
matemática para o campo psicanalítico, utilizando-as como recursos para a transmissão
de seu lugar na estrutura de linguagem do inconsciente [11].
Sua investigação deste período o levará a concluir que o real que interessa
à psicanálise “é absolutamente inabordável, a não ser por uma via matemática” (1971-
72/2011, p.64).
Só a matematização alcança um real e é nisso que ela é
compatível com nosso discurso, discurso analítico, um real que
precisamente se evade, que não tem nada a ver com o que o
conhecimento tradicional sustentou, ou seja, não o que ele crê, a
realidade (...) (1972-73/1985, p.258).

Lacan se interessará especialmente pela lógica e pela topologia.


Para Lacan, “o uso da lógica não deixa de se relacionar com o conteúdo
do inconsciente” (Lacan, 1971-72/2012, p.46) – em especial, o conteúdo ligado ao real
que, desde o início de seu ensino, esteve do lado do inapreensível, do impossível de
simbolizar. Por isso, ele chamará a lógica de “ciência do real”, porque encontrará nela
uma ferramenta para escrever esse impossível que define o real para a psicanálise: “(...)
uma ciência do real por permitir o acesso à modalidade do impossível” (1975, p.317).

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Quanto à topologia, é justamente enquanto ciência que se ocupa de uma
dimensão do espaço que “escapa ao nosso pensamento e que não nos permite, de nenhuma
maneira, dar-lhe representação satisfatória” (Lacan, 1961-62, p.375), que Lacan a tomará
como um valioso recurso para abordar a própria estrutura com a qual o psicanalista opera,
o inconsciente. Para Lacan, não se trata de tomar a topologia como modelo ou metáfora,
mas como reveladora da própria estrutura do inconsciente e da operação do psicanalista:
Essa topologia, que se inscreve na geometria projetiva e as
superfícies da analysis situs, não deve se conceituar, como
ocorre com os modelos ópticos em Freud, no nível da metáfora,
mas sim para representar a própria estrutura (1965-66/inédito,
lição de 25/05/66).

Utilizando figuras topológicas como a banda de Moebius, o toro, o cross-


cap, a garrafa de Klein e o oito-interior, Lacan definirá o próprio sujeito do inconsciente
como superfície topológica, para situar a operação do psicanalista como “agindo nela”
(1965-66/inédito, lição de 04/05/66). Segundo Lacan, “em sua essência, esse método não
se distingue do objeto abordado” (Lacan, 1962-63/2005, p.267). Por isso, trabalhará com
cortes sobre essas figuras para mostrar os efeitos visados pela intervenção analítica,
incluindo o real e o objeto a nessa operação.
Dará tanto valor a essa exploração psicanalítica da topologia que em seu
seminário de 1964-65 afirmará ser um “problema crucial da psicanálise” – título do
seminário – “propor uma forma e, para ser mais preciso, uma topologia, essencial à práxis
psicanalítica” (Lacan, 1964-65/inédito, lição de 03/02/65).
Ao lado de seus matemas, esquemas e grafos a topologia e a lógica serão
mais uma valiosa estratégia para evitar os efeitos imaginários na transmissão da
psicanálise.
Este período, que começa no Seminário 9 e prossegue ao menos até o
Seminário 20, é marcado, portanto, não pela descoberta do real por Lacan, mas de
recursos matemáticos para abordá-lo. O próprio Lacan lembrará, muitas vezes, que o real
sempre esteve indicado em seu percurso, desde o primeiro passo de seu ensino, e mesmo
na teoria freudiana [12]. No Seminário 17, ele afirmará: “não hesito em falar do real, e
isto há um bom tempo, já que foi mesmo por aí que dei o primeiro passo deste ensino.
Depois, com os anos, eis que surge uma formulazinha – o impossível é o real” (Lacan,
1969-70/1992, p.157).

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O complexo e inédito trabalho de investigação de Lacan não encontraria,
entretanto, somente a recepção interessada daqueles que o acompanhavam em seus
seminários. Lacan mobilizava também grandes polêmicas, não apenas pelo caráter difícil
e quase incompreensível de sua transmissão, mas também devido à maneira pouco
ortodoxa de condução dos tratamentos psicanalíticos. Em 1963, a resistência a seu
trabalho clínico e teórico terá um trágico desfecho, dividindo os psicanalistas da época.
Um dia antes da primeira lição do seminário daquele ano, que trataria dos Nomes-do-Pai,
Lacan é notificado que a condição imposta pela IPA à aprovação do pedido de filiação da
SFP, era que seu nome fosse retirado da lista dos analistas didatas da instituição. A
resposta de Lacan será a interrupção do seminário [13], a saída da SFP, o rompimento
definitivo com a IPA e a fundação de uma nova Escola, a Escola Freudiana de Paris
(EFP).
Prosseguirá, no início do ano seguinte, com seu projeto de transmissão,
passando a oferecer seu seminário na faculdade de filosofia. Tomará, entretanto, a decisão
de não retomar o tema do seminário interrompido, transformando-o, assim, na marca
constantemente lembrada de ter sido impedido de transmitir a psicanálise – lembrança,
aliás, frequentemente acompanhada da insinuação de que esse impedimento teria alguma
relação com o tema que iria tratar, os Nomes-do-Pai.
Escolherá como tema do seminário de 1964 “os fundamentos da
psicanálise” [14] deixando claro, uma vez mais, que não é em nome do novo, mas da
retomada necessária dos conceitos fundamentais que ele seguirá sustentando seu projeto
de transmissão da psicanálise. Dando prosseguimento ao trabalho de situar o real na
estrutura de linguagem do inconsciente iniciado no Seminário 9 voltará uma vez mais ao
tema da constituição do sujeito, mas desta vez contando com a matemática para destacar
o lugar do real e do objeto a nessa constituição. Mantendo-se fiel à concepção de que o
sujeito se constitui como efeito da inscrição do ser no campo da linguagem – cujas
vertentes imaginária e simbólica ele já havia tratado pelas teorias do espelho e do
complexo de Édipo – será a vez de dar ênfase, com a teoria da alienação, à função do real
na constituição do sujeito.
Utilizará as operações lógicas de conjunção e disjunção para lembrar o que
vinha mostrando desde o seminário sobre a identificação: que a alienação ao campo da
linguagem deixa um resto e que, portanto, a operação de alienação ao sentido, condição
inaugural do sujeito, articula-se logicamente à operação de separação, localizável na

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função lógica desse resto. Tratará alienação e separação como operações lógicas,
tomando o objeto a como o conceito chave para indicar a função que as articula. A frase
“a bolsa ou a vida” servirá para mostrar a escolha forçada que define a alienação à
linguagem que constitui o sujeito, na qual uma perda é inerente à necessária escolha pela
vida. O objeto a será o conceito que marca o lugar dessa perda, delimitando a articulação
lógica entre o resto da operação de alienação e a função de causa, definida pela operação
de separação.
Assim, com a teoria da alienação do Seminário 11, Lacan não apenas
marcará a importância, o lugar e a função do real na constituição do sujeito, como
também, uma vez mais, tomará distância das concepções desenvolvimentistas sobre a
constituição do sujeito [15].
Mantendo o mesmo estilo de transmissão de suas teorias anteriores sobre
a constituição do sujeito – com sua proposta de um esquema para a transmissão da teoria
do espelho (o esquema óptico) e de uma fórmula para o complexo de Édipo (a metáfora
paterna) – dessa vez será com um diagrama que Lacan apresentará a teoria da alienação:

Lacan retomará temas fundamentais da psicanálise, tratando-os à luz da


matemática. Em O saber do psicanalista, ele lembrará: “a sexualidade está, sem nenhuma
dúvida, no centro de tudo que se passa no inconsciente” (1971-72/2011, 04/11/71). Já
tendo explorado à exaustão a estrutura simbólica dos impasses que a clínica psicanalítica
revela sobre a sexualidade – impasses indicados na teoria do complexo de Édipo pelo
lugar central da castração simbólica na partilha dos sexos e no encontro com o parceiro
amoroso – sua investigação sobre o real deste período conduzirá à pergunta sobre a função
lógica do real nestes impasses.
Lacan mostrará que o real está indicado nos impasses que o simbólico
localiza estruturalmente, e o que eles apontam é que há um limite da linguagem para
tratar, tanto da diferença sexual – o que ele resumirá na enigmática afirmação “A mulher

15
não existe” – como da relação entre os sexos – que ele indicará pelo aforisma “não há
relação sexual”, insistentemente repetido até o final de seu ensino.
O que estigmatiza essa relação, por ela ser profundamente
subvertida na linguagem é, precisamente, que não há meio –
como se fez, no entanto, porém numa dimensão que me parece
ser de miragem – de ela se escrever em termos de essência
masculina e essência feminina (1971-72/2012, p.98).

Buscará escrever logicamente esse limite, esclarecendo o lugar e a função


do real não apenas como causa dos impasses aos quais o simbólico empresta sua estrutura,
mas também das miragens a que o imaginário oferece consistência.
A lógica porta a marca do impasse sexual. Seguindo-a em seu
movimento, em seu progresso, isto é, no campo em que ela
parece ter menos a ver com o que está em jogo no que se articula
por nossa experiência, a experiência analítica, vocês encontrarão
os mesmos impasses, os mesmos obstáculos, as mesmas
hiâncias (...) (1970-71/2009, p.133).

Seu objetivo não será escrever a relação sexual, porque “é impossível


escrever o que seria a relação sexual” (1971-71/2011, p.32), mas escrever o não há
relação sexual, formalizando-o logicamente, em uma investigação que atravessará vários
seminários e resultará no seu famoso quadro [tableau] da sexuação, do Seminário 20:
Encore (1972-73/1985):

É nessa época, entre o décimo-nono e o vigésimo seminários, que a


descoberta matemática do nó borromeano abrirá um novo período da investigação
lacaniana, quando ele finalmente encontrará “uma única forma de dar a esses três termos,
real, simbólico e imaginário, uma medida comum, que é enlaçando-os neste nó, o nó
borromeano” (1974-75/inédito, 10/12/74).

16
4. Real, simbólico e imaginário

O nó borromeano aparecerá pela primeira vez em um breve comentário da


lição de 09 de fevereiro de 1972 do Seminário 19: ... Ou pior (1971-72/2012).
Nesta lição, depois de explorar a frase “eu te peço que recuses o que
ofereço” usando a lógica e a geometria para mostrar que seus três verbos podem ser
articulados ao desejo, à demanda e ao gozo, e que sua conclusão – “porque não é isso” –
é o que dá lugar ao objeto a [16], Lacan comentará que na noite anterior lhe teriam
sugerido o brasão da família Borromeu como um recurso para fazer esse trabalho, uma
vez que as três argolas do brasão têm, entre si, a mesma relação que os três verbos na
frase: “é somente por causa do terceiro que eles se mantem juntos (...). Basta cortar um,
para que os outros dois se soltem” (Lacan, 1971-72/2012, p.88).
Mas é somente no ano seguinte que ele trabalhará pela primeira vez com
o nó, desta vez dedicando-se a ele ao longo de toda uma lição, a penúltima do Seminário
20: Encore (Lacan, 1972-73, lição de 15/05/73). Nessa ocasião, dará destaque a duas
características do nó:
1. a propriedade borromeana: “basta vocês seccionarem um [dos aros de barbante], para
que os outros estejam livres” (idem, p.169);
2. a possibilidade de construir nós com essa propriedade acrescentando outros aros,
indefinidamente: “com quatro, assim como com três, basta cortar um dos aros para que
todos os outros estejam livres. Vocês podem colocar um número absolutamente infinito,
isto será sempre verdadeiro” (idem, p.169).

Também nessa ocasião, formulará uma primeira hipótese clínica, que o


acompanhará nos seminários seguintes: a relação entre a loucura e o rompimento do nó.
É da psicose de Schreber que Lacan tomará o exemplo clínico: “vocês querem um
exemplo que lhes mostre para que pode servir essa fileira de nós dobrados que se tornam
independentes apenas cortando um? Não é difícil encontrar um exemplo, e não à toa, na
psicose” (idem, 15/05/73, p.173).

17
No ano seguinte, no Seminário 21 (1973-74), seu interesse pela topologia
dos nós será ainda maior, e ele finalmente se ocupará dela ao longo de toda a extensão do
seminário. O mesmo acontecerá nos seminários seguintes e, assim, do vigésimo-primeiro
até o último seminário, a teoria dos nós passará ao centro da investigação teórica e clínica
de Lacan.
Ao longo de todo esse período, ele insistirá em afirmar que o nó não é um
modelo, lembrando a consistência imaginária dos modelos. Para ele, a consideração do
nó “é constituída por uma geometria que podemos chamar de interdita ao imaginário, pois
só é imaginada através de todos os tipos de resistências, e mesmo de dificuldades” (Lacan,
1975-76/2007, p.31).
Lacan chamará essa tendência ao imaginário de “debilidade mental de
nosso pensamento” e sustentará que a topologia dos nós pode conduzir o psicanalista a
um pensamento que não encontre apoio no imaginário e em suas armadilhas. “Pensar no
nó, coisa que acontece mais comumente com os olhos fechados, podem tentar, é muito
difícil. Não nos encontramos” (1975-76/2007, p.28). Para Lacan, os nós resistem ao
imaginário, inclusive a propriedade borromeana: “que os nós se imaginem mal, vou
imediatamente lhes dar a prova. (...) Bem, é mesmo assim, uma coisa que não vai por si,
que não se imagina imediatamente. (...) Não é evidente que seja suficiente que vocês
desamarrem uma dessas hastes para que as outras duas fiquem livres” (1973-74/inédito,
12/03/74). Sem o apoio no imaginário, o nó exige, portanto, trabalho. “O desejo de
conhecer encontra obstáculos. Para encarnar esse obstáculo, inventei o nó. Com o nó, é
preciso dar duro” (1975-76/2007, p.37).
E Lacan trabalhará realmente duro, mostrando equivalências entre nós e
tranças, fazendo nós com tetraedros, bandas de Moebius e, finalmente, toros. Cortará os
nós, proporá reviramentos, envelopamentos, enganches, enodamentos e desenodamentos,
dará nomes aos pontos de enganche e aos espaços vazios dos nós. E articulará todo este
trabalho a conceitos psicanalíticos, sugerindo que o nó é o “suporte concebível de uma
relação entre o que quer que seja e o que quer que seja” (1975-76/2007, p.37). Dentre
essas articulações, ganhou destaque a que figura no texto “A terceira” (1974/2002):

18
Serão sete anos de intensa pesquisa, cujo marco inicial é o Seminário 21,
ao qual dará o enigmático título Les non-dupes errent indicando, pela homofonia com
Les noms du père [17], a retomada, com uma “pequena mostra de seu estilo”, ao tema ao
qual havia prometido jamais retornar na ocasião da ruptura de 1963: os Nomes-do-Pai
[18]. É recolocando em pauta, sutil e indiretamente, o polêmico e mal interpretado tema
dos Nomes-do-Pai que Lacan dará o primeiro grande passo para enveredar
definitivamente na exploração da teoria dos nós.
Definirá, neste último período de seu ensino, a existência humana como
condicionada pelo enodamento entre real, simbólico e imaginário [19] e a loucura como
um efeito de desatamento do nó. A constituição do sujeito, já abordada nas vertentes
imaginária (estádio do espelho), simbólica (complexo de Édipo) e real (teoria da
alienação), será finalmente articulada aos três ao mesmo tempo, em sua definição do
sujeito como efeito do enodamento:
(...) Parto da tese de que o sujeito é o que é determinado pela
figura em questão [o nó borromeano], determinado, de forma
alguma como sendo-lhe o duplo, mas que é pelos
enganchamentos [coincements] do nó, disso que no nó
determina os pontos triplos, pelo fato do aperto [serrage] do nó,
que o sujeito se condiciona (Lacan, 1974-75/inédito, 18/03/75).

Seu interesse pelo nó será sobretudo clínico, orientado tanto pela pergunta
sobre o que faz com que um nó desate e produza a loucura, como também, inversamente,
sobre o que mantém os aros do nó juntos, impedindo o enlouquecimento.
Ainda no Seminário 21, distinguirá a loucura, na qual “uma das dimensões
se parte por uma razão qualquer” (Lacan, 1973-74/inédito, 11/12/73), do que se passa na
neurose, definindo-a como uma forma de enodamento em que o corte de um dos aros não
resultaria no desatamento do nó: “os dois outros nós se mantém juntos, e é isso que quer
dizer que vocês são neuróticos” (idem).
Antecipando um tema que explorará no Seminário 23, tomará o sintoma
de Hans como um caso de enodamento que define a neurose: “é na medida em que a

19
fobia, a fobia do pequeno Hans, está muito precisamente neste nó triplo no qual as três
argolas se sustentam juntas. É nisso que ele é neurótico. É que, cortem um, e os outros
dois se sustentam sempre” (Lacan, 1973-74/inédito, 11/12/73). O passo seguinte será
passar de uma hipótese inicial não borromeana [20] para o nó borromeano da neurose,
que exigirá, a partir do Seminário 22 (1974-75/inédito) o trabalho com o nó de quatro.
Uma nova premissa dará sustentação ao trabalho com o nó de quatro a
partir deste seminário: tomar como ponto de partida real, simbólico e imaginário como
não enodados. Sua pergunta passará a ser, então: “o que pode unir [unir]esses três,
imaginário, simbólico e real, desunidos [desunis]”? (1974-75/inédito, 11/02/75). É assim
que o quarto aro passará ao centro da investigação clínica de Lacan, a chave para explorar
clínica e teoricamente a função de enodamento.
Fiel a sua referência a Freud, Lacan afirmará que a necessidade de um
quarto aro que enodasse simbólico, imaginário e real, já estava em Freud.
O que fez Freud? Vou contar. Fez o nó com quatro a partir de
seus três, esses três que lhe suponho armadilha [“deixando essa
armadilha, enfim, já manjada do real, do simbólico e do
imaginário, tentemos ver como efetivamente ele se virou”]. Mas
então, eis como procedeu: inventou algo a que chamou realidade
psíquica. (...) É preciso uma realidade psíquica que ate essas três
consistências. (...) Foram necessários em Freud não três, o
mínimo, mas quatro consistências para que isso se sustentasse,
a supô-lo iniciado na consistência do imaginário, do simbólico e
do real (1974-75/inédito, 14/01/74).

Lacan relacionará o que Freud chamou “realidade psíquica” com o quarto


aro que enoda real, simbólico e imaginário, articulando-o ao complexo de Édipo: “o que
ele [Freud] chama de realidade psíquica tem perfeitamente um nome, é o que se chama o
complexo de Édipo” (1974-75/inédito, 14/01/74). É assim que chegará, no Seminário 22,
à relação entre o quarto aro e o Nome-do-Pai.
Colocarei, se assim posso dizer, este ano, a questão de saber se,
quanto àquilo de que se trata, a saber, o atamento do imaginário,
do simbólico e do real, é preciso essa ação suplementar, em
suma, de um toro a mais, aquele cuja consistência seria de
referir-se à função do pai. É porque essas coisas me
interessavam há bastante tempo, mesmo que eu não tivesse
ainda encontrado essa maneira de figurá-las, que comecei “Os
Nomes do Pai” (1974-75, 11/02/75).

Com o nó borromeano de quatro, terá, enfim, encontrado uma maneira de


figurá-las:

20
Assim é que, finalmente, articulará o Édipo e o Nome-do-Pai ao sintoma:
O complexo de Édipo é, como tal, um sintoma. É na medida em
que o Nome-do-Pai é também o Pai do Nome, que tudo se
sustenta, o que não torna o sintoma menos necessário (1975-
76/2007, p.23).

Essa definição da função de enodamento do quarto aro abrirá caminho para


perguntas sobre “falsos nós”, “erro do nó”, “reconstituição do nó” e “correção do nó”.
Tendo definido o Édipo, o Nome-do-Pai e o sintoma como uma maneira de enodar
simbólico, imaginário e real – retomando assim velhos problemas teóricos – chegará, com
a teoria dos nós, à questão da Verwerfung e à definição da foraclusão da função simbólica
do pai, relacionando-a ao desenodamento e à loucura.
Tomará, no Seminário 23 (1975-76/2007) o escritor James Joyce como um
caso de suplência da carência paterna, “uma compensação dessa demissão paterna, dessa
Vewerfung” (1975-76/2007, p.86), sugerindo que “foi sua arte que supriu sua firmeza
fálica” (idem, p.16), que a obra de Joyce teria funcionado como o quarto aro que enoda
os outros três, desenodados. “O que proponho aqui é considerar o caso de Joyce como
respondendo a um modo de suprir um desenodamento do nó” (1975-76/2007, p.85) [21].
“Em todo caso, é a partir de Joyce que abordarei esse quarto termo, uma vez que ele
completa o nó do imaginário, do simbólico e do real” (1975-76/2007, p.38).
Para distinguir a função do sintoma – que se articula ao Édipo, ao Nome-
do-Pai e à realidade psíquica freudiana – dessa outra forma de enodamento encontrada
em Joyce, utilizará um novo termo, o sinthoma [sinthome], que dará o título do Seminário
23, onde ele afirmará: “Joyce acaba por ter visado por sua arte, de maneira privilegiada,
o quarto termo chamado de sinthoma” (1975-76/2007, p.38). O “sinthoma” [sinthome]
será definido, assim, por sua função de suplência, como uma solução de enodamento do
nó de quatro (Lacan, 1975-76/2007, p.22):

21
O que se observa portanto nesses últimos seminários, é mais um esforço
de Lacan para encontrar formas de transmissão da descoberta freudiana do inconsciente
que, ao mesmo tempo, permitem a retomada dos conceitos que sempre estiveram na base
de seu ensino, mas também exigem a utilização de novos recursos, muitos deles quase
inexplorados pelo próprio Lacan. Em um de seus últimos seminários, Lacan afirmará:
Uma coisa é certa, foi que eu tive imediatamente a certeza [ao
se deparar com o nó borromeano, no Seminário 19, pelas
anotações do seminário de Guilbaud] de ser aquilo algo
precioso, precioso para mim, para o que tinha a explicar.
Imediatamente relacionei esse nó borromeano com o que, desde
então, se mostrava a mim como rodelas de barbante, algo
provido de uma consistência particular, que faltava ainda ser
sustentada, mas que era para mim reconhecível no que eu
enunciara, desde o início do meu ensino (Lacan, 1974-
75/inédito, 18/03/75).

Assim, o trabalho com seus três não desconsiderará o caminho traçado até
chegar aos nós. Ao contrário, Lacan seguirá, até o fim, retomando aspectos centrais do
simbólico, do real e do imaginário que estiveram em pauta em cada período anterior.
Sua definição, ao final, do real do lado da ex-sistência; do simbólico, como
buraco ou furo [trou]; e do imaginário, pela consistência não poderia ser senão o resultado
da familiaridade com o caminho longamente traçado, mais uma evidência de que não
ignorava seus próprios passos anteriores.
O caráter fundamental dessa utilização do nó é ilustrar a
triplicidade que resulta de uma consistência que só é afetada pelo
imaginário, de um furo como fundamental proveniente do
simbólico, e de uma ex-sistência que, por sua vez, pertence ao
real e é, inclusive, sua característica fundamental (1975-
76/2007, p.36).

Na perspectiva do simbólico, seguirá lembrando a importância do desejo


inconsciente e de sua estrutura: “um desejo não é concebível sem o meu nó borromeano”
(1974-75, 15/04/75). Quanto ao real, afirmará que seus nós são uma forma de abordar o
não há relação sexual. “A metáfora do nó borromeano no estado mais simples, é
imprópria, porque na realidade, não há o que suporte o imaginário, o simbólico e o real.
Que não haja relação sexual é o essencial do que enuncio” (1978-79/inédito, 09/01/79)

22
[22]. E finalmente, do lado do imaginário, retomará uma vez mais o tema da identificação,
relacionando a suposição de um “interior” ao reviramento do toro: “que relação que há
entre isto, que é preciso admitir, que nós temos um interior, que chamamos como
podemos, psiquismo, por exemplo (...) que relação há entre este interior e o que
chamamos correntemente a identificação?” (1976-77/inédito, 16/11/76). Retomará temas
como as três formas de identificação em Freud (histérica, ao pai e ao traço unário) e a
concepção de Balint sobre a identificação ao psicanalista no final da análise, opondo-a à
identificação ao sintoma (idem) e ao “saber fazer com seu sintoma” (idem).
Trabalhando com a teoria dos nós reconhecerá, muitas vezes, seus próprios
limites e dificuldades. No Seminário 23 (1975-76/2007, p.88) admitirá: “parece-me difícil
alguém se interessar pelo que se torna uma busca [recherche]. Quero dizer que começo a
fazer o que a palavra busca implica, ou seja, a girar em círculos”.
Cada vez mais incomodado com os obstáculos e dificuldades – contará
com o auxílio de matemáticos como Vapperreau e Soury, presentes em seus seminários
nesta época – não deixará, entretanto, de lado, sua exigência de rigor. No seminário sobre
Topologia e tempo (1978-79/inédito, 20/02/79), respondendo a uma pergunta sobre o
possível uso metafórico do nó pelos psicanalistas, Lacan afirmará: “o que me inquieta no
nó borromeano é uma questão matemática e é matematicamente que entendo tratá-la”
[23].
Em um de seus últimos seminários, o vigésimo-quinto, Momento de
concluir (1977-78/inédito, 14/03/78), lembrará que se trata de uma pesquisa, de uma
busca, e não de uma teoria acabada:
François Wahl emitiu a meu respeito a imputação de que eu
conseguia fazer meu auditório pesquisar. É bem aí que eu devia
chegar. Enunciei outrora que "eu não procuro, eu acho". Foram
palavras emprestadas a alguém que tinha em seu tempo
notoriedade, ou seja, o pintor Picasso. Atualmente eu não acho,
eu procuro e algumas pessoas querem voluntariamente me
acompanhar nessa pesquisa.

Ainda assim, ao final, Lacan terá encontrado a solução para um problema


presente do início ao fim de sua transmissão: o da abordagem de seus três – real, simbólico
e imaginário – todos ao mesmo tempo, de forma a mostrar que não há hierarquia entre
eles, que é dos três que depende a amarração que compõe o que chamamos realidade, e
que são necessários os três para situar os problemas da clínica psicanalítica e da teoria
que a fundamenta.

23
Conclusão

A conclusão retoma, portanto, retroativamente, o início. Com a teoria dos


nós Lacan reencontrará o começo, “O simbólico, o imaginário e o real” de seu artigo de
1953.
De uma ponta à outra, de 1953 a 1980, o que a leitura cronológica dos
seminários torna evidente é que não foi o acaso que reuniu simbólico, imaginário e real
no início, e ao final. Seus três marcam presença constante em todos os seminários.
E ainda que tenha iniciado pelo imaginário, passando então ao trabalho
com o simbólico, depois à investigação sobre o real, até chegar, finalmente, à teoria que
reuniu real, simbólico e imaginário, Lacan nunca deixou de articular cada um de seus três
aos outros dois, em todo esse percurso.
O real e o simbólico não estiveram ausentes de suas abordagens iniciais
sobre o imaginário, como também não faltaram, em seu trabalho com o simbólico,
referências constantes ao imaginário e ao real, e tampouco simbólico e imaginário foram
excluídos das reflexões de Lacan sobre o real. Não há um Lacan do imaginário sem uma
articulação ao simbólico e o real; nem um Lacan do simbólico sem um esforço de pensá-
lo a partir do imaginário e do real; e muito menos um Lacan do real que não considerasse
suas relações com o simbólico e o imaginário [24].
Para Lacan, não há hierarquia, evolução, ou ruptura, de um ao outro. O
imaginário jamais foi considerado menos importante ou de menor valor que o simbólico,
assim como o real nunca foi tratado como mais relevante que o simbólico ou o imaginário.
Muito antes de afirmar, com a teoria dos nós, que os três deveriam ser considerados
equivalentes, ele já procurava desconstruir essa leitura:
Não creio que haja dois tempos no que ensinei algum dia, um
tempo que estaria centrado no estádio do espelho e no
imaginário e, depois disso, no momento de nossa história que é
demarcado pelo “Relatório de Roma”, na descoberta que eu teria
feito, subitamente, do significante. (...) Não é de hoje que o
entrejogo dos dois registros [imaginário e simbólico] tem sido
intimamente traçado por mim (Lacan, 1962-63/2005, p.39).

Não é por ter rompido com os temas do imaginário que Lacan passa a tratar
do simbólico (o que se observa pela retomada constante da teoria do espelho em seus
seminários, inclusive na década de 1970), assim como não é por ter descartado a
importância do simbólico que ele passa a se interessar pelo real (como mostra sua
insistência na função do significante e de sua estrutura também até os últimos seminários).
Quando finalmente encontra uma teoria capaz de reunir real, simbólico e imaginário,

24
Lacan lembrará frequentemente que não há hierarquia entre eles, que os três são
equivalentes.
Eu parto de uma outra maneira de considerar o espaço; e, ao
qualificar essas três dimensões [dimensions], distinguindo-as
com os termos [termes] mesmos que eu garanti até aqui
justamente diferenciar pelos termos de simbólico, de imaginário
e de real, o que eu estou avançando é que se pode fazê-los
estritamente equivalentes (Lacan, 1973-74/inédito, 13/11/73).

Assim, o recurso de reuni-los no nó é justamente o que permitirá


esclarecer, ao final, o que esteve marcado de ponta a ponta na investigação teórica e
clínica de Lacan: que é do entrejogo do real, simbólico e imaginário que depende a
apreensão da realidade, se ela é definida pela descoberta freudiana do inconsciente.
Ou seja, o passo em direção à teoria dos nós, que reuniu real, simbólico e
imaginário, ao final de seu ensino, não teria sido dado sem os passos precedentes,
conforme ele mesmo lembrará na primeira lição de seu seminário interrompido: “Não
veem que, à medida que eu avançava, continuava a me aproximar de certo ponto de
densidade aonde vocês não poderiam chegar sem os passos precedentes?” (Lacan,
1963/2005, p.86).
O próprio Lacan não deixará de recomendar a leitura de seus Escritos
afirmando inclusive, sobre seus textos, que eles “se tornam mais claros com os anos”
(Lacan, 1964-65/inédito, 02/12/64).
Essa será também sua posição enquanto leitor de Freud, insistindo desde
muito cedo na importância de considerar o conjunto, de não ignorar o que antecede e o
que se segue a um texto, para melhor compreendê-lo: “Ouve-se fulano ou sicrano dizer
que lhes proponho aqui uma teoria que não coincide com o que se pode ler em tal ou qual
texto de Freud. Eu poderia facilmente responder que, na verdade, antes de se chegar a um
texto, é preciso entender o conjunto” (Lacan, 1954-55/1985, p.313). Para Lacan, o texto
de Freud exigia a consideração do conjunto.
Objetam-me, da maneira mais pertinente, devo dizê-lo, que
quanto mais a gente se aproxima do texto, menos se consegue
compreendê-lo. É justamente por isso que é preciso fazer viver
um texto pelo que segue e pelo que precede. É sempre pelo que
segue que é preciso compreender um texto (Lacan, 1955-
56/1988, p.173).

É o que Lacan cobrará também daqueles que o acompanhavam:


Usam como objeção o que eu disse em tal data ulterior, como se
o tivesse inventado sozinho, contra o que eu disse inicialmente
e que, claro, pode ser entendido como parcial, sobretudo se o
isolamos em seu contexto (1967-68/inédito, p.152).

25
Considerar o contexto, entender o conjunto, situar cada seminário a partir
do que o antecede e do que o precede, observando o fio que une uma ponta à outra sua
investigação teórica e clínica é, portanto, seguir a indicação do próprio Lacan também
quando se trata da leitura de sua obra.
De certa forma, um conjunto que revelará uma insistência no mesmo, do
início ao fim. “O que há de bom no que eu digo, é que é sempre a mesma coisa. Isso não
quer dizer, é claro, que eu me repita, não é essa a questão” (1972-73/1985, p.102). Ainda
que o novo tenha marcado presença constante na forma criativa e autêntica de sua
transmissão, Lacan nunca propôs um novo sujeito ou uma nova clínica psicanalítica – em
todo o seu percurso, a única invenção que ele admitiu como sua foi o objeto a (1968-
69/2006). Ao contrário, foi sempre em nome da retomada dos conceitos fundamentais
que Lacan sustentou seus seminários, qualificando, até o fim, como freudiana a
descoberta do inconsciente e remetendo a Freud e ao campo aberto por ele suas próprias
descobertas.
Freud não tinha ideia do simbólico, do imaginário e do real mas
tinha, todavia, uma desconfiança, fato é que pude extrair isso
para vocês, com tempo, sem dúvida, e com paciência, que eu
tenha começado pelo imaginário e, em seguida, precisado um
bocado mastigar essa história de simbólico com toda essa
referência linguística sobre a qual efetivamente não encontrei
tudo aquilo que me teria facilitado. E depois, esse famoso real,
que acabei por lhes apresentar sob a forma mesma do nó” (1974-
75/inédito, 14/01/75).

“Está em Freud”, foi sempre a indicação de Lacan, mesmo que tenhamos


dificuldades de localizar a referência freudiana na leitura particular e inédita proposta por
ele. No último ano de seu seminário, ele afirmará: “(...) jamais pretendi superar Freud,
como me acusa um de meus correspondentes, mas sim prolongá-lo” (1979-
80/inédito,18/03/80). Prolongá-lo, com uma transmissão que desde o projeto de retorno
a Freud esteve marcada pela pretensão de recuperar a psicanálise de um desvio.
Não sou daqueles que recuam diante do tema de sua certeza. Isso
é o que me permitiu romper com o que se havia congelado da
prática de Freud numa tradição que claramente obstruía toda
transmissão. Aí inventei o que tornou a abrir-lhes um acesso a
Freud, o qual não quero ver fechar-se (1979-80/inédito,
15/04/80).

Essa preocupação esteve presente a cada seminário e Lacan fez dela a


razão para cada novo recomeço. Não foram poucas as vezes em que iniciava um

26
seminário afirmando: “eu recomeço, embora tenha acreditado poder concluir” (1973-
74/inédito, 13/11/73).
Tendo tomado para si a tarefa de dissolver o mal-entendido que imperava
na compreensão da psicanálise pelos próprios psicanalistas, Lacan terá que admitir, ao
final, que sequer sua própria transmissão poderia pretender-se imune ao mal-entendido.
Seu seminário tornava-se, assim, perpetuamente necessário:
Esse seminário, eu o tenho menos do que ele me tem. É por
hábito que ele me tem? Certamente não, é pelo mal-entendido.
E não está pronto para acabar, precisamente porque não me
habituo com esse mal-entendido. Sou um traumatizado pelo
mal-entendido. Como não me acostumo a ele, eu me esforço
para dissolvê-lo. E, de súbito, eu o alimento. Isso é o que se
chama o seminário perpétuo (1979-80/inédito,10/06/80) [25].

Assim, ao mesmo tempo em que sustentava, com a teoria dos nós, sua
última aposta de transmissão, ele também se mostrava cada vez mais incrédulo quanto
aos efeitos de seu próprio ensino sobre aqueles que o acompanhavam. Em seu último
seminário, decidirá dissolver sua própria Escola.

Depois da terceira lição do vigésimo-sétimo seminário, em janeiro de


1980, Lacan surpreenderá a comunidade analítica com sua “Carta de dissolução”
(05/01/80), que ele começa explicitando sua incredulidade: “falo [je parle] sem a menor
esperança de me fazer ouvir especialmente” (1980).
Afirmará ter constatado “um problema da Escola”, que estaria
funcionando na contramão daquilo para o que ele a havia fundado. E sustentará que seu
ato, que a dissolve, visaria “pôr fim à debilidade circundante” (1980) – aquela que sempre
denunciara como característica do pensamento que encontra consistência no imaginário,
e que os mecanismos e dispositivos de funcionamento criados por ele não teriam sido
suficientes para eliminar de sua própria Escola.
Admitirá também não ter sido possível evitar, dentro de sua Escola, os
efeitos de “grupo consolidado” (1980), de aderência imaginária, base da crença religiosa
que sempre condenara no funcionamento da IPA. “Eu fiz menos Escola... que cola” [j’ai
moins fait École... que colle] (10/03/80), lamentará Lacan.
Mas agradecerá aos membros por haverem ensinado sobre esse fracasso,
considerando poder aproveitá-lo: “esse ensinamento é precioso para mim. Eu o
aproveito” (idem).

27
E aproveitará tomando, do trabalho com os nós, a solução que, em ato,
dará ao problema de sua Escola: “esse problema se demonstra como tendo uma solução:
é a di-solução” (idem) [26]. Solução borromeana, completamente afinada com sua
investigação dos últimos anos: “basta que um vá embora para que todos fiquem livres, é
no meu nó borromeano, verdade de cada um, e em minha Escola é necessário que seja
eu” (idem) [27].
Justificando seu ato – “decido-me porque se não me intrometesse ela
funcionaria na contramão daquilo para o qual a fundei” (idem) – retomará as razões da
fundação de sua Escola:
Ou seja, por um trabalho – já o disse – que, no campo aberto por
Freud, restaura a lâmina cortante de sua verdade – que traz a
práxis original que ele restituiu sob o nome de psicanálise para
o dever que retorna a ele em nosso mundo – que, por meio de
uma crítica assídua, denuncie os desvios e os compromissos que
amortecem seu progresso, degradando sua utilização (idem).

Tendo dedicado sua vida a uma transmissão constantemente preocupada


com os desvios teóricos e suas consequências clínicas, buscando recuperar o rigor dos
conceitos que ele considerava estarem sofrendo um encurtamento, como desconsiderar a
evidência de os mesmos desvios estavam presentes em sua própria Escola?
A dissolução – “je dis, solution” – foi a resposta de Lacan. Uma resposta
que pretendia enfrentar os efeitos nocivos do imaginário sobre o grupo e sobre a
compreensão dos conceitos que dão fundamento à clínica, razão de sua transmissão. Ao
mesmo tempo em que dissolve a Escola, ele afirmará: “Eu persevero”. Convidará
“aqueles que queiram prosseguir com Lacan” (idem) a lançarem-se no compromisso de
“crítica assídua daquilo que, em matéria de desvios e compromissos a EFP nutriu” (idem)
e fundará um campo – que chamará freudiano. Desta vez, sem qualquer convicção ou
garantia de imunidade aos desvios que sempre denunciou na prática dos psicanalistas.
“Agirão melhor os que admitirei comigo?” (idem), ele perguntará. “Pelo menos poderão
aproveitar a chance que lhes deixo” (idem). Afirmará não esperar mais nada das pessoas,
e sim algo do funcionamento (1979-80/inédito, 15/01/80), dando aos psicanalistas a
chance de fazer frente ao ato que é o seu. “A experiência, não a abandono. O ato, dou-
lhes a chance de fazer-lhe frente” (idem, 24/01/80).
Mesmo que seu esforço de transmissão, sua “obstinação pelos matemas”,
seu trabalho com os esquemas e grafos e finalmente, sua exploração da psicanálise pelas
vias da lógica e da topologia não tenham sido suficientes para impedir os caminhos

28
desviantes tomados pelos próprios psicanalistas, resta-lhe a posição de indicar “o que
seria preciso para colocar o analista no passo de sua função ” (1980) [28].
Só dará título ao Seminário 27 em sua oitava lição: “alguém me chamou a
atenção pelo fato de que o seminário deste ano não tinha título. É verdade. Vocês já verão
porquê. O título é: Dissolução” (1979-80/inédito, 10/06/80). Nesta lição, que se revelará
ter sido a última, se despedirá lembrando o convite que aceitara para ir à Venezuela:
“esses latino-americanos, como se diz, que jamais me viram, ao contrário dos que estão
aqui, e nem me escutaram ao vivo, bem, isso não os impede de ser lacanianos” (idem).
Afirmará que seu interesse é saber o que se transmite de seus matemas quando sua própria
pessoa não se faz de obstáculo ao que ensina. “Interessa-me ver o que acontece quando
minha pessoa não opacifica o que ensino. É bem possível que se faça proveito de meu
matema” (idem).
*

Ao final, Lacan teve ainda a ousadia de chamar de heresia seu RSI,


tomando-a como título do seminário de 1974-75 [RSI, hérésie] e comparando-a à de Joyce
– com sua pretensão de que sua obra levaria os universitários a se ocuparem dele por
trezentos anos – para indicar que, em ambos, tratava-se da escolha de uma via por onde
tomar a verdade:
Joyce faz uma escolha e, nisso, como eu é um herético. Pois
haeresis é realmente o que especifica o herético. É preciso
escolher a via por onde tomar a verdade. Ainda mais porque a
escolha, uma vez feita, não impede ninguém de submetê-la à
confirmação, ou seja, de ser herético de uma boa maneira (1975-
76/2007, p.16).

Lacan se colocará, ele mesmo, como o nome próprio que ata


borromeanamente seu nó, fazendo de seu ato de dissolver a Escola e de suas últimas
considerações sobre o nó borromeano a mais impressionante evidência da via por onde
tomou a verdade. De um lado, incluindo-se no ato que traz a solução para o problema da
Escola, borromeanamente dissolvida com sua saída. E por outro lado, ressignificando a
função de sua transmissão como tendo sido a de fazer consistir um nó, aquele que faz de
seu nome próprio, Lacan, o que enoda o real ao simbólico e ao imaginário.
Enunciei o simbólico, o imaginário e o real em 54, intitulando
uma conferência inaugural com estes três nomes, tornados por
mim o que Frege chama ‘nome próprio’. Fundar um nome
próprio é uma coisa que engrandece um pouquinho seu nome
próprio. O único nome próprio em tudo isso, é o meu. É a
extensão de Lacan ao simbólico, ao imaginário e ao real que

29
permite a esses três termos consistir (Lacan, 1976-77/inédito,
16/11/76).

A teoria dos nós foi, assim, o último legado de Lacan aos psicanalistas,
ponto de convergência de um sólido caminho percorrido nos anos anteriores, que tem
início antes mesmo de seu primeiro seminário, no texto de 1953, “O simbólico, o
imaginário e o real”, e termina na conferência de Caracas, em 1980, depois de seu
vigésimo-sétimo seminário, com a afirmação: “Os meus três são o simbólico, o real e o
imaginário (...). Eu dei isso aos meus. Dei-os para que se orientem na prática”. É o que
Laca nos deixa. A indicação de um caminho, uma via por onde tomar a verdade, aquela
que ele pôde extrair do campo aberto por Freud.

Notas:

[1] Nesse texto, traçamos um panorama geral do caminho percorrido na abordagem da


tríade de Lacan do início ao fim de seu ensino, para resumir o projeto pesquisa de pós-
Doutorado intitulado “O simbólico, o imaginário e o real no ensino de Jacques Lacan”,
desenvolvido sob a supervisão da Profa. Dra. Nina Virgínia Leite no IEL – Instituto de
Estudos da Linguagem – Unicamp. A pesquisa contou com a leitura dos seminários em
ordem cronológica e foi desenvolvida em duas etapas. Iniciada em 2007, foi concluída
em março de 2019.

[2] A busca de recursos em outros campos da ciência será uma das marcas do ensino de
Lacan. Para abordar os problemas relativos ao imaginário, recorrerá especialmente à
óptica e à etologia. Para definir o simbólico, contará com o estruturalismo francês,
particularmente a linguística de Saussure e a antropologia de Lévi-Strauss. E, finalmente,
antes mesmo que a matemática lhe trouxesse a teoria dos nós para abordar a articulação
entre real, simbólico e imaginário, a lógica e a topologia serão os recursos para
fundamentar uma complexa reflexão sobre as questões que envolvem o real.

[3] Sobre a função do imaginário na clínica psicanalítica das psicoses, ver: FARIA, M.R.
“Imaginário, eu e psicose nos primeiros seminários de Lacan”. In: Revista Estilos da
clínica, vol.16, número 01, 1o semestre de 2011, p.132-151. ISSN 1415-7128. Ver
também: FARIA, M. R. “Delírio, linguagem e psicose: contribuições dos primeiros
seminários de Lacan ao tratamento possível das psicoses”. In: Revista Acheronta, n.27,
maio 2012.

[4] Vale lembrar que esse artigo, de grande importância para situar a teoria e a clínica das
psicoses, não apenas reúne as reflexões desenvolvidas ao longo de todo o Seminário 3:
As psicoses (1955-56/1988), como também as articula à teoria da metáfora paterna,
posterior ao seminário sobre as psicoses, elaborada ao longo do quarto e quinto

30
seminários. É dessa articulação que surge a proposta de pensar a estabilização da psicose
do lado da construção de uma metáfora delirante, por exemplo.

[5] Neste texto fundamental, escolhido pelo próprio Lacan em 1966 para abrir a
publicação de seus Escritos, ele tomará como “programa” a investigação da relação entre
sujeito e linguagem: “o programa que se traça para nós, portanto, é saber como uma
linguagem formal determina o sujeito” (1955/1995, p.47).

[6] No Curso de Linguística geral, publicado pelos alunos de Saussure a partir de suas
aulas, consta o seguinte esquema do signo linguístico:

A relação entre significante e significado, que será o foco do interesse de Lacan pela
teoria saussureana, é definida da seguinte forma por Saussure: “propomo-nos a conservar
o termo signo para designar o total, e a substituir conceito e imagem acústica,
respectivamente, por significado e significante. Estes dois termos têm a vantagem de
assinalar a oposição que os separa, quer entre si, quer do total de que fazem parte”
(1916/2006, p.81).

[7] Sobre o Édipo e a fórmula da metáfora paterna na teoria lacaniana, ver: FARIA, M.R.
Constituição do sujeito e estrutura familiar: o complexo de Édipo, de Freud a Lacan.
Cabral, SP, 4a ed., 2014. Ver também: FARIA, M.R. “Constituição do sujeito e complexo
de Édipo”. In: Stylus. Revista de psicanálise. N.12, abril/2006, p.81-94. E ainda: FARIA,
M.R. “Complexo de Édipo, narcisismo e angústia: o simbólico, o imaginário e o real no
tratamento psicanalítico do pequeno Hans”. In: Revista eletrônica Fort-da. www.fort-
da.org. n.10, novembro/2008. ISSN 1668.3900. Edição especial de 100 anos do
tratamento do pequeno Hans.

[8] Lembremos que o próprio Lacan, no texto “Talvez em Vincennes”, de 1975, vai
propor, uma vez mais, que a linguística é uma das ciências que se deve estudar para ser
psicanalista – ao lado da lógica, da topologia e da anti-filosofia (1975/2003, p.316-318).

[9] Este limite da linguística para abordar os problemas do real aparecerá de forma
bastante evidente ao final do oitavo seminário, sobre a transferência (1960-61/1992), no
qual Lacan se vê às voltas com duas possibilidades distintas de leitura do matema S(Ⱥ).
Por um lado, ele lê S(Ⱥ) como o “significante da falta do Outro”, falta simbólica
articulada ao falo, F, significação que define a posição do sujeito em sua articulação ao
desejo. Trata-se da leitura que o próprio Lacan propõe para S(Ⱥ) desde o grafo do desejo,
no quinto e sexto seminários, onde este matema figura como elemento central ligado à
pergunta sobre o desejo, Che vuoi?. Entretanto, ele também lê o mesmo S(Ⱥ) como a
“falta do significante no Outro”, ou seja, como o limite que o Outro tem para significar.
As duas leituras aparecem na mesma lição de 19/04/61: S(Ⱥ) como o “significante da
falta” (leitura que o articula ao falo em sua função simbólica e à linguística), mas também
como a “falta de significante” (indicação do lugar do real como limite da significação, o
que será abordado pela matemática). Longe de sugerir a superação de uma leitura por
outra, essa “dupla leitura” do matema pode ser tomada como um indício importante da
necessidade do encaminhamento de Lacan em direção à matemática para abordar o limite

31
da linguagem, mas sem desconsiderar, entretanto, o lugar e a função do simbólico
enquanto forma de tratamento desse limite. Sobre esse duplo viés na leitura do matema
S(Ⱥ) ver: FARIA, M.R. Do significante da falta à falta de significante. A dimensão da
causa no fundamento do desejo e do objeto na passagem do Seminário 8 ao Seminário 9.
In: Revista Stylus, SP, n.31, 2015.

[10] É importante lembrar que, a rigor, o objeto a já figurava no ensino de Lacan muito
antes do Seminário 9 (1961-62/inédito). A fórmula do fantasma já era escrita $<>a desde
os anos 1950 e conceitos ligados ao imaginário como o eu, o outro e o ideal de eu já eram
notados a, a’ e i(a) desde os primeiros seminários. Entretanto, é no seminário sobre a
identificação que o objeto a passa a ser definido como objeto causa do desejo, finalmente
articulado ao real. Até este seminário, sua definição como objeto do desejo não permitia
distingui-lo do falo, distinção importante e esclarecedora, fundamental para os próximos
passos da teorização lacaniana sobre o real em sua relação com o simbólico.

[11] A longa lista de referências de Lacan à matemática, com seus inesgotáveis recursos
para a abordagem dos conceitos que se articulam ao real e sua função na clínica e na
teoria psicanalítica, incluirá autores como Frege, Russel, Cantor e Gödel, entre tantos
outros, e teorias matemáticas como o grupo de Klein, a lei de Morgan, a razão áurea, a
série de Fibonacci, entre outras.

[12] No Seminário 21 (1973-74/inédito, 20/11/73) ele lembrará que tanto a referência


freudiana aos “limites da interpretabilidade” [die Grenzen der Deutbarkeit], como sua
insistência em tratar do oculto e do irracional – a telepatia, por exemplo – são evidências
de que Freud não desconhecia a importância e a função dos limites ligados ao real. É o
que o levará a afirmar, nesse mesmo seminário, que a lógica não é um instrumento que o
separa de Freud, pois foi somente a partir do que Freud formulou sobre o inconsciente
que ele pôde fazer sua exploração pelas vias da lógica (Lacan, 1971-72/2012, p.46).

[13] A primeira lição do seminário interrompido de 1963 sobre os Nomes-do-Pai foi


publicada postumamente sob o título “Introdução aos Nomes-do-Pai”, junto com a
conferência “O simbólico, o imaginário e o real”, de 1953, no livro Nomes do pai (Zahar,
RJ, 2005).

[14] O seminário foi publicado oficialmente como Seminário 11: Os quatro conceitos
fundamentais da psicanálise (1964) mas é, evidentemente, seu décimo-segundo
seminário – conforme sugere a mudança de tema e sua insistência em lembrar, nos anos
que se seguiram, o seminário interrompido sobre os Nomes-do-Pai.

[15] Para Lacan, alienação e separação são duas operações logicamente articuladas e não
uma evolução, no sentido temporal, que teria como ponto de partida uma suposta
alienação primeira e total, em direção à libertação final do sujeito pela separação, como
alguns teóricos preconizam – evidência de que o esforço de transmissão de Lacan não
garante imunidade contra as leituras que insistem em relacionar a constituição do sujeito
à cronologia. Mesmo a insistência de Lacan em mostrar que o sujeito é efeito de uma
operação lógica, não foi suficiente para manter a cronologia em seu devido lugar, como
referência imaginária que dá suporte às teorias do desenvolvimento – o que não cabe nem
para a teoria do estádio do espelho, nem para o complexo de Édipo e muito menos a teoria
da alienação do Seminário 11.

32
[16] Lacan trabalhará com a frase “eu te peço que recuses o que ofereço” chamando-a,
ironicamente, de “carta de a-muro [d’a-mur], destacando seus três verbos, “pedir”,
“recusar” e “oferecer”, tratando-os logicamente, como funções, e colocando-os em um
esquema espacial, uma tétrade, para tentar mostrar como decorre dessa articulação um
impossível, “a impossibilidade que há no oferecer (Lacan, 1971-72/2012, p.87). E isso,
para chegar ao objeto a, que dá o complemento da frase: “porque não é isso”. Para Lacan,
o objeto a é o efeito do “nó” de sentido que articula esses três verbos: “(...) é de um nó de
sentido que surge o objeto, o objeto em si e, para dizer seu nome, já que o denominei
como pude, o objeto pequeno a” (Lacan, 1971-72/2012, p.85) O nó de sentido depende
da articulação dos três verbos: “é da natureza da oferta que, se for retirado o pedido,
recusar já não significará nada” (idem, p.88). Sua conclusão é: “é justamente por isso que
a questão que se coloca para nós não é saber o que vem a ser o não é isso que estaria em
jogo em cada um desses níveis verbais, mas nos darmos conta de que é ao desatar cada
um desses verbos de seu nó com os outros dois que podemos descobrir o que vem a ser
esse efeito de sentido como o que chamo de objeto a” (ibidem). É essa a articulação entre
o nó e o tema de sua lição no Seminário 19. No Seminário 20 lembrará o surgimento do
nó no seminário anterior: “e por que fiz intervir, no ano passado, o nó borromeano? Foi
muito precisamente para traduzir a fórmula: ‘eu te peço’ – o quê? – ‘que me recuses’ – o
quê? – ‘o que te ofereço’ – ou seja, algo em relação àquilo de que se trata, e vocês sabem
o que é, ou seja, o objeto a” (Lacan, 1971-72, p.250). Propõe que o objeto a, o “não é
isso”, funciona como causa, e vai articular aí desejo, demanda e gozo – o gozo que “seria
satisfatório”, a “satisfação suposta”, “aquela onde se inscreveria uma relação que seria
plena”, que ele havia, nesse seminário e no anterior, abordado pelo termo “Um” em sua
função de miragem que sustenta a relação amorosa: “’nós somos apenas um’, é daí que
vem essa ideia do amor, é realmente a maneira mais grosseira de dar a esse termo, a esse
termo que se esquiva, manifestamente, da relação sexual, seu significado” (idem, p.118).
“E fica bem claro que esse Um, que enche a boca de todo mundo é, de início e,
essencialmente, na natureza dessa miragem do Um que se acredita ser” (idem).

[17] Lacan usará o recurso do jogo homofônico de palavras para dar título a quase todos
os seminários deste período, desde Encore (homofônico a en corps, no corpo), que dava
título ao seminário no ano anterior, passando por Les non-dupes errent (que joga com a
homofonia entre “os não tolos erram” e “os Nomes-do-Pai”), RSI (que é seus três, R, S e
I, mas em francês é também homofônico a hérésie, heresia), Le sinthome (ao mesmo
tempo “o sintoma” e le saint homme, o santo homem) e, finalmente, o intraduzível título
do vigésimo-quarto seminário, L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre, com
homofonias que remetem ao saber, ao equívoco, ao inconsciente, [Unbewusst] ao amor e
suas asas e, finalmente, ao amor como um jogo, o jogo da morra.

[18] No Seminário 15 Lacan já lembrava as dificuldades que o tema do Nome-do-Pai


trazia aos psicanalistas, insistindo que não se trata de esquecer “nem o Édipo, nem o que
ele é, nem a que ponto ele é internamente, integralmente, ligado à estrutura de toda a
nossa experiência”, mas justificando sua promessa de “jamais retomar o tema do Nome-
do-Pai” no fato de ter ficado, por algum tempo, sem esperanças em relação a ele – até
chegar à lógica: “as coisas tomadas a esse nível são hopeless, agora que temos uma via
mais segura para traçar com relação ao efeito de sujeito, e que tem a ver com a lógica”
(Lacan, 1967-68/inédito, p.239). Seu esforço de transmissão do complexo de Édipo, que
o levou a escrevê-lo na fórmula da metáfora paterna, não havia sido suficiente para
dissipar os equívocos e mal-entendidos, e o uso da lógica será sua aposta em uma “via
mais segura” neste longo período que vai do Seminário 9 ao Seminário 20. Não se trata,

33
portanto, de um abandono do complexo de Édipo e do Nome-do-Pai como referências
clínicas e teóricas, mas de um novo esforço para dissipar os equívocos acumulados na
interpretação destes conceitos não apenas depois de Freud, mas também em seu próprio
ensino. A teoria dos nós e a função de enodamento do Nome-do-Pai será, nos últimos
seminários de Lacan, mais um recurso para tentar superar os mesmos equívocos, depois
de tentar esclarecê-los primeiro pela fórmula da metáfora paterna e, depois, pela lógica.
No Seminário 22 (1974-75/inédito, 14/01/75), Lacan afirmará: “(...) do que Freud
enunciou, não é o complexo de Édipo que se deve rejeitar”.

[19] Já no Seminário 21 Lacan usa a expressão “enodamento primitivo” (1973-74/inédito,


11/12/73), articulando o nó à existência (idem, 19/03/74), à sexuação (idem, 14/05/74 e
21/05/74). Surgem também nessa época concepções de sujeito que diferenciam aquele no
qual o nó “se faz bem” – enodado pela propriedade borromeana – de outros em que há o
“fracasso do nó” – aquele que, por não se configurar como borromeano, se desfaz (idem,
11/12/73). Para Lacan, o sujeito é o efeito do nó, o nó condiciona o sujeito, e é com esse
sujeito que o psicanalista opera na clínica: “a noção de inconsciente se suporta nisso que,
esse nó, não só o encontramos já feito, mas o encontramos feito numa outra entonação da
expressão “estamos feitos!” (1974-75, 15/04/75).

[20] É importante notar que na hipótese inicial da neurose do Seminário 21 está ausente
a propriedade borromeana, que exige que ao cortar-se um dos aros, os outros fiquem
soltos. Daí a neurose de Hans ser articulada ao nó olímpico no Seminário 21, ainda que
ali Lacan já antecipasse o lugar do sintoma como essencial para situar o nó da fobia,
situando o sintoma como “representante” dos três “circuitos” [circuits]: “Eu não sei se
alguns entre vocês se lembram, eu fiz alguma coisa, há algum tempo, sobre a fobia do
pequeno Hans. É muito curioso. Eu nunca vi ninguém ressaltar esse signo (...). Eu me
perguntava, como todo mundo: porque o cavalo, não é? (...) A explicação que eu encontrei
– porque eu a tenho e eu a dei, eu a trabalhei, eu insisti, é que o cavalo era o representante,
posso mesmo dizer, dos três circuitos” (Lacan, 1973-74/inédito, 11/12/73).

[21] Da mesma forma que Freud não foi analista de Schreber, Lacan não foi analista de
Joyce. Lacan o lembrará em seus comentários, marcando que sua leitura de Joyce parte
daquilo que se pode apreender da biografia e da sua obra, com os limites próprios a toda
leitura: “ao ler Joyce, como saber em que ele acreditava? O que há de terrível, com efeito,
é que fico reduzido a lê-lo, posto que não o analisei. Lamento por isso” (1975-76/2007,
p.77).

[22] Dessa articulação entre o não há relação sexual e a teoria dos nós, resultarão também
algumas indicações importantes sobre a psicose. Sobre Joyce, Lacan indagará: “Que é,
portanto, essa relação de Joyce com Nora [sua esposa]? Direi, coisa singular, que é uma
relação sexual, ainda que eu diga que não há relação sexual” (1975-76/2007, p.81). E
sobre Schreber, afirmará que ele é um exemplo claro daquilo “que dá a medida da própria
verdade, a saber, o que demonstra, afinal, a paranoia do presidente Schreber, é que só há
relação sexual com Deus” (1974-75, 08/04/75).

[23] Trata-se da longa pergunta feita pela Madame Mouchonnant (1978-79/inédito,


20/02/79) em alusão ao comentário de Lacan feito duas lições antes, em que afirmara que
“a metáfora do nó borromeano é imprópria” (idem, 09/11/79). Que Lacan tenha afirmado
que o nó não é nem modelo, nem metáfora, não imediu a psicanalista de sentir-se
incomodada, sugerindo que Lacan deveria admitir uma certa distância da matemática.

34
“Coloco a questão, depois do que você adiantou, não faz muito tempo, há quase dois
seminários, que talvez a metáfora do nó borromeano, quer dizer os três, não convém para
abordar RSI. Então, não sei o que ocorrerá com nossos camaradas a esse respeito, isso
me caiu mal, me pareceu extremamente importante, penso inclusive que se poderia dizer
que há quem não possa dormir mais, o que não seria tão mal, talvez”. E ela questiona: “A
pergunta que queria colocar é essa: é simplesmente um problema de matemática?”. E
conclui: “a questão que coloco a Lacan é: estamos neste momento, todos nós, enredados
com os nós que estão ali adiante, com dificuldades propriamente matemáticas?”.

[24] Só para mencionar um exemplo, as teorias sobre a constituição do sujeito anteriores


ao nó – o estádio do espelho, o complexo de Édipo e a alienação do Seminário 11 – não
podem, sem graves desvios de compreensão, ser compreendidas exclusivamente à luz de
um deles – imaginário, simbólico e real, respectivamente. Em cada uma dessas teorias, é
possível localizar tanto o simbólico, como o imaginário e o real, ainda que o enfoque
estivesse, sempre, em um deles. Foi, aliás, sempre no esforço de esclarecer seu lugar e
sua função Lacan as retomava constantemente. É por isso que não só a concepção do
sujeito como efeito da inscrição do ser no campo da linguagem está presente em todas
elas, como não se trata nunca da superação de uma pela outra.

[25] É o que ocorre em seu último seminário, ao mencionar as mulheres e sua relação
com o gozo fálico: “É preciso que eu termine com o mal-entendido, as mulheres de que
disse, no meu último seminário, não estarem privadas do gozo fálico. Imputaram-me
pensar que são homens” (1979-80/inédito, 11/03/80). A volta, sempre, do mal-entendido
– e então, sua necessidade perpétua de retomar.

[26] Em francês, trata-se do jogo de palavras entre dissolution, dissolução, e “je dis:
solution”, “eu digo: solução”. Em sua alocução de 15/03/80 ele chamará essa “dis-
solution” de “uma interpretação eficaz”, e sua carta de dissolução, de “carta de amor”.

[27] Na lição de 18/03/80, ele lembra que existem “aqueles aos quais a dissolução lhes
dá pânico”. Na lição seguinte, em 15/04/80, ele contará ter recebido uma carta de
Françoise Dolto, sobre a qual faz comentários bastante irônicos: “É uma cartinha ‘para
dissipar o mal-entendido’. Ela me ama tanto, diz-me em resumo, que não pode suportar
que a Escola seja dissolvida. E por que, não adivinham? Porque a Escola sou eu. É seu
axioma. De modo que, forçosamente, dissolver a Escola seria anular a mim mesmo. E
isso é o que ela não quer. Há um detalhe, é que sou eu quem dissolve a Escola. Isso não
a detém, não há nada que a detenha. Ela imagina que eu me auto-destruo. É por isso que,
de acordo com seu princípio filantrópico, vem em meu socorro. Estão vendo como tudo
isso se sustenta. É lógico. Vê-se que não sacrifica nada à verossimilhança”.

[28] Passo cuja ambiguidade a língua francesa acolhe tão bem, indicando o duplo sentido
do pas: ao mesmo tempo indicação do caminho a trilhar, o pas que se traduz por “passo”,
mas também a advertência do risco sempre presente do desvio, em que o pas é também o
“não”.

35
Bibliografia:

FREUD, Sigmund (1900). Interpretação dos sonhos. In: Obras completas. Imago Editora,
RJ, 1980. Vol. IV.

FREUD, Sigmund (1911). Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso


de paranóia. In: Obras completas. Imago, RJ, 1980. Vol. XII.

FREUD, Sigmund (1914). Introdução ao narcisismo. In: Obras completas. Imago, RJ,
1980.

FREUD, Sigmund (1924). A dissolução do complexo de Édipo. In: Obras completas.


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