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MÉTODO BIOGRÁFICO E MEMÓRIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS EM PORTUGAL: UM PROJETO E UM ACERVO1

Celso Castro (FGV CPDOC)

António Firmino da Costa (CIES ISCTE)

Maria das Dores Guerreiro (CIES ISCTE)

Qual o rendimento do método biográfico no estudo de comunidades profissionais? Esta


comunicação visa a abordar essa questão, tendo por base empírica o projeto "Memória das
Ciências Sociais em Portugal". Esse projeto é uma realização conjunta entre a Escola de
Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV CPDOC) e o Centro de Investigação e Estudos
de Sociologia do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (CIES ISCTE), parte de um projeto
maior que também envolveu a realização de entrevistas no Brasil e em Moçambique.2

Entre julho de 2008 e abril de 2014 foram realizadas entrevistas com 21 sociólogos,
antropólogos e cientistas políticos portugueses, num total de 55 horas de gravação. Após um
interstício de quase seis anos, o projeto foi retomado em janeiro de 2020, quando
entrevistamos mais 8 cientistas sociais. Temos ainda a intenção de realizar mais algumas
entrevistas em 2021, provavelmente de forma remota, devido à pandemia do Covid-19.

De qualquer forma, aquilo que já foi possível realizar até agora – entrevistas com 29
cientistas sociais, num total de 73 horas e 40 minutos de gravação – consiste no maior acervo
de seu tipo já produzido e disponibilizado publicamente, através da Internet:
https://cpdoc.fgv.br/cientistassociais/csplp/lista#Portugal

A produção e o processamento das entrevistas seguiram o método de História Oral tal


como foi desenvolvido pelo CPDOC. O pioneiro Programa de História Oral da instituição, criado
em 1975, vem desde então servindo de referência para diversas pesquisas e instituições. Os

1
Trabalho apresentado no XI Congresso Português de Sociologia, 30/3/2021.
2
O projeto começou com o título de “Cientistas Sociais de Países de Língua Portuguesa: histórias de
vida”, iniciado em dezembro de 2007. Ele foi viabilizado por três financiamentos obtidos no Brasil
através do CNPq, no âmbito do Programa de Cooperação em Matéria de Ciências Sociais para os Países
da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que se estenderam até novembro de 2013. A falta de
continuidade no financiamento impediu que se continuasse a realizar entrevistas em Portugal,
interrompendo dessa forma o projeto até 2020, quando recursos próprios das duas instituições
viabilizaram a retomada do projeto. Para um histórico mais detalhado do projeto, ver:
https://cpdoc.fgv.br/cientistassociais/csplp

1
procedimentos foram adaptados a partir de 2006 para a produção de documentos
audiovisuais, já que as entrevistas passaram a ser filmadas. Contou-se, para tal, com o apoio
do Núcleo de Audiovisual e Documentário do CPDOC.

É importante ressaltar que nós, pesquisadores participantes do projeto, não somos


especialistas na história das Ciências Sociais em Portugal nem a temos como objeto relevante
em nossas produções acadêmicas. Desde o início, o objetivo era constituir um acervo
documental a ser utilizado basicamente por terceiros, isto é, pelo público potencial que se
interessasse quer pela história das Ciências Sociais em Portugal, quer por algum personagem,
tema, instituição ou evento mencionado nas entrevistas. Não se tratava, portanto, de realizar
entrevistas que servissem de suporte a alguma produção acadêmica específica – um livro,
artigos ou um documentário, por exemplo – e que não ficassem acessíveis publicamente até
que esses produtos fossem finalizados.

Nossa principal aposta, desde o plano inicial do projeto, foi que ele pudesse ser
livremente utilizado pelo público em geral interessado no tema. Professores, alunos,
pesquisadores e produtores têm, com o resultado do projeto, um rico acervo à sua disposição.
Já tivemos notícia de múltiplas apropriações desse acervo por usuários, inclusive a de sua
utilização como material didático. Para além das inescapáveis limitações de um projeto desse
tipo, resultado do cruzamento entre condições objetivas para sua realização e opções
subjetivas que tivemos que tomar, estamos certos de que valeu a pena criar esse acervo
também para tentar romper com o “isolamento social da ciência”. Em tempos difíceis para as
Ciências Sociais, como os que vivemos, essa é uma aposta mais que acadêmica. É também uma
aposta de valorização, perante outros setores da sociedade que não o nosso próprio, do ofício
do cientista social e daquilo que ele produz.

Tendo em vista o caráter eminentemente documental do projeto, buscamos abordar nas


entrevistas toda a trajetória biográfica dos entrevistados em suas dimensões pessoal,
profissional e intelectual.3 Uma outra opção metodológica poderia ter sido pela realização de
entrevistas temáticas, centradas no campo de estudos específico de cada entrevistado e em
sua produção intelectual. Acreditamos, contudo, que temas específicos estariam mais bem
tratados em artigos e livros específicos, produzidos por especialistas. Desse modo, o que

3
Uma inspiração inicial foi o livro Comment je suis devenu ethnologue, de Anne Dhoquois (2008), que
inclui trechos de entrevistas com doze antropólogos franceses.

2
perdemos em profundidade com a ênfase nas trajetórias biográficas, ganhamos em
abrangência. Além disso, o que muitas vezes falta à disposição de pesquisadores e estudantes
são informações disponíveis justamente sobre a biografia dos cientistas sociais – a origem
familiar, como se deu a opção pelas Ciências Sociais, a socialização profissional, os caminhos
pelos quais chegaram aos temas que pesquisaram, quais momentos consideram mais
importantes em suas carreiras, com que pares mais se relacionaram, que atuação tiveram fora
do ambiente acadêmico etc.4

Esse eixo condutor biográfico, presente em todas as entrevistas, busca registrar as


relações entre trajetória de vida e tempo histórico, e entre identidade e memória.5
Acontecimentos, personagens e lugares ou instituições são, portanto, os elementos
privilegiados nas entrevistas, embora discussões mais teóricas ou referidas a determinado
campo de estudos evidentemente também venham à tona nas mesmas.

Como ilustração, transcrevemos algumas passagens das oito entrevistas biográficas realizadas
mais recentemente, em 2020, exemplificando brevemente tópicos possíveis de interesse
analítico, entre muitos outros que se podem encontrar no acervo do projeto.

Uma escolha para o objeto de doutoramento

Ana Nunes de Almeida (ICS – Univ. Lisboa; dout. 1991)

“Em 1975, entrei na Universidade de Genebra, no curso de sociologia. […] Fiz a


licenciatura em 1979 […] voltei em 1980, fui trabalhar para o GIS como assistente e,
através do GIS, fui dar aulas para o Iscte. […] Tínhamos, nomeadamente, o diretor do
GIS, o professor Adérito Sedas Nunes, que é um dos criadores da licenciatura, um dos
pilares da sociologia no Iscte. […] E comecei-me a interessar pelas famílias operárias e
pelo Barreiro. Famílias operárias porquê? […] Muito influenciada pelos trabalhos do
João Ferreira de Almeida, que foi uma grande influência em mim, achei muito

4
Para a relação entre trajetória pessoal e tempo histórico, uma referência clássica é o texto de Everett
Hughes, “Ciclos, pontos de inflexão e carreiras” (1952). Somam-se a ela as noções de “projeto” e “campo
de possibilidades” tal como foram desenvolvidas na obra de Gilberto Velho (2013).
5
Ver, a esse respeito, Michel Pollak (1992), para quem a identidade deve ser compreendida como “a
imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria e a imagem que ela constrói e
apresenta aos outros e a si própria para acreditar na sua própria representação, mas também para ser
percebida da maneira como quer ser percebida pelos outros”. Essa imagem é (re)construída no processo
de entrevista, através do diálogo entre entrevistado e entrevistador.

3
interessante a nova abordagem que ele fazia […], que era olhar para a classe social a
partir do grupo doméstico, e eu tinha trabalhado muito sobre estas famílias que faziam
a transição do campo para a cidade, pensei: “Era muito engraçado fazer qualquer coisa
nesta área, famílias e classe social”. E então fui falar com o professor Adérito Sedas
Nunes […]. De vez em quando íamos ao gabinete dele, […] ouvir os seus conselhos. E
eu digo: “Ai, professor, eu gostava de fazer uma coisa sobre as famílias – por exemplo,
estas famílias que vêm do campo para a cidade –, sobre famílias e classe social. O que
é que o professor acha?”. […] E ele diz-me assim: “Ó Ana, mas por que não vai estudar
os operários no Barreiro?”. E eu: “No Barreiro?!”. Aquilo nunca me tinha passado pela
cabeça. “No Barreiro?!” E ele disse: “Ó Ana, já pensou, o Barreiro... [...] A Ana apanha o
barco e está lá do outro lado em meia hora. [...] Vá ver bem o caso do Barreiro no
tecido industrial português” [...]. Porque eu estava muito influenciada por aquela
história dos camponeses parciais [...]. O que estava em perspetiva naquela altura eram
os operários parciais e os camponeses parciais. E o Sedas Nunes diz assim: “Vamos
estudar operários puros e duros” [risos]”. Fiquei a pensar naquilo. [...] “Mas isto é uma
coisa absolutamente fantástica!”. Porque isto destoa completamente da ideia que nós
tínhamos do Portugal de Salazar: pequenino, rural, provinciano. Porque ali tinha uma
concentração operária das grandes concentrações operárias europeias. O Barreiro
chegou a ter 10 mil operários, e operários fabris, de fábricas. Depois, tinha ali havido
um modelo paternalista. Portanto, aquilo realmente... A dica do professor Sedas
Nunes foi uma coisa absolutamente espantosa. Ele era um homem assim. [...] Então,
candidatei-me a um financiamento da então JNICT para fazer o estudo. Como achava
que não ia ter financiamento nenhum, fiz um projeto megalómano: entrevistas –
portanto, estudar os corticeiros; estudar os operários da CUF –, depois fazer um
estudo na atualidade, etc. Mas o que acontece? Eu tive financiamento total, portanto,
eu tive que fazer tudo. E lá fiz a minha tese de doutoramento. Adorei.”

Um período de pesquisa para o doutoramento

Carlos Fortuna (CES e Fac. Economia – Univ. Coimbra; dout. 1989)

“Eu percebi que, de facto, toda a chave, no caso da crise da indústria têxtil portuguesa
passava por essa relação colonial com Moçambique. [...] Na verdade, com os seus
antecedentes históricos, coloniais e políticos, contar uma história de como é que a
indústria portuguesa dos têxteis foi crescendo e como é que ela, com a independência
[de Moçambique], entrou, de facto, num total desvario, perdeu a sua dinâmica [...]. Aí,
o fornecimento barato, muito mais abaixo dos preços internacionais, da matéria-
prima, que era o algodão, que estava assegurado, deixou de estar assegurado. [...] Tem
a ver com a chamada “crise do Ave” [região industrial têxtil do Norte de Portugal], que
era a crise do têxtil algodoeiro. [...] Estive seis meses em Moçambique. Entrevistei
pessoas e trabalhei no arquivo, no Arquivo Nacional de Moçambique, em Maputo,

4
onde cheguei com grande acolhimento das pessoas – da diretora e de outros
funcionários – que faziam um trabalho fantástico de dedicação, de entrega, nas mais
adversas condições de vida e de trabalho, que me deixam, de facto, sempre uma
recordação muito emocionada daquela gente. E que me recordo das dificuldades que
era na altura, [...] em 1986. Os meus contactos prévios foram sempre muito bem
recebidos: “Dá sim, senhor. Temos cá o material, com certeza, pode vir” [...]. Depois,
começaram a surgir algumas dificuldades. Disseram: “Carlos Fortuna, nós não temos
aqui papel. A máquina de fotocópias funciona, mas não temos papel”. Então eu fui e
levei na minha bagagem três resmas de papel. Cheguei lá, a máquina avariou.
Portanto, quer dizer, eu deixei lá o papel… [risos]. [...] Depois, há uma outra dificuldade
que eu também registo, que acabou por, digamos, se traduzir numa cooperação, da
minha parte, com o Arquivo Histórico de Moçambique. Porque eu, quando cheguei,
[...] levaram-me à sala onde estaria o material que eu tinha que recolher [...] com um
grande montão de caixotes de arquivo”. [...] E disseram: “olhe, Carlos Fortuna, deve
estar aqui o que você quer”. Na verdade, aquilo estava amontoado. Como resultou,
certamente, de muitos camiões com essas coisas, que vieram de algumas empresas
moçambicanas, que os mais militantes e dedicados académicos e políticos evitaram
que fossem queimados [...], conseguiram recolher aquilo e trouxeram para o arquivo,
chegaram lá e descarregaram. Eu encontrei aquilo descarregado lá, um grande monte
de coisas. De maneira que a minha tarefa foi terrível, porque, de princípio, já vinha
com esta habituação de usar a Biblioteca do Congresso [Estados Unidos da América]
com microfilmes [...]. Eu chegava lá, chegava em Moçambique e tinha um monte de
caixotes para encontrar o material da minha tese. Portanto, a sensação que fica [...] a
quem faça esse trabalho de arquivo, é a ideia de que, eventualmente, nós nunca
encontramos a chave da informação dos dados, porque estava lá no fundo de um
monte… E vimos embora com esta angústia: “será que eu tenho o material
importante? Ou será que…?”. Isso acontece em qualquer trabalho de arquivo, onde
estão sempre a chegar coisas novas, cedidas, novos fundos que vão aparecendo e que
demoram um tempo a ser tratados e preparados para consulta pública. [...] Bom, fiz o
que foi possível. O meu contributo foi ter deixado uns metros de estante organizados.”

Experiências do 25 de Abril e escolha do curso de sociologia

Carlos Manuel Gonçalves (IS e Fac. Letras – Univ. Porto; dout. 1998)

“No 25 de Abril, eu estava já no Liceu Camões. E estava a trabalhar. Eu trabalhei numa


empresa, que, na altura, era considerada uma boa empresa, pagando bem, que era a
Companhia União Fabril, e portanto eu estava no meu sétimo ano do Liceu [na altura,
era o final do ensino secundário]. [...] Era empregado de escritório. E quando eu
apanho o 25 de Abril, ou o 25 de Abril me apanha a mim, estava a trabalhar. Portanto
eu tive a felicidade de viver esse momento. Já tinha feito a inspeção para o serviço

5
militar, eu estava na calha, passados uns meses, se não tivesse entrado na faculdade,
de ser mobilizado [para fazer serviço militar] [...]. Eu, do dia [25 de Abril], posso contar
uma situação muito interessante. [...] Eu levantei-me, fui para o trabalho. Passei pela
Praça do Comércio, onde estavam as tropas, assisti a alguma coisa; mas depois, não
sabia se havia de ir para o trabalho ou não, fui até ao trabalho. Trabalhava na Avenida
Infante Santo, lá para baixo, e estive umas horas e depois vim para a Baixa, com uns
colegas. [...] Eu acho que tive de vir a pé da Infante Santo para a praça do Comércio. E
depois fomos até... um pouco até à zona, cá em cima, do Convento do Carmo. Mas a
multidão era grande. Porque, naquelas primeiras horas, não se sabia qual era a facção
que estava a fazer o golpe. [...] Portanto isso era o dia. Depois, é uma experiência
muito forte de viver numa empresa que era uma das maiores empresas industriais de
Portugal, tinha as suas grandes fábricas no Barreiro, e a luta, na empresa, entre
partidos políticos, entre facções políticas, a questão da nacionalização no 11 de março
[de 1975], e eu pertencia à comissão de trabalhadores, foi um processo, por vezes,
extremamente violento, do ponto de vista social, notoriamente. E, por conseguinte,
nesse contexto, tinha um espaço muito rico e que, de certo modo, me fez a
socialização para determinado tipo de questões políticas. [...] E eu frequentava as aulas
noturnas, portanto a população era muito diferente das aulas diurnas. Tinha a
particularidade de falar de algumas coisas e deixar no ar dúvidas sobre o regime.
Portanto as pessoas riam-se, achavam piada, [...] e isso acabou por ser também
importante. [...] Conjugou-se tudo. [...] De facto, na altura, o que me interessava era
economia. [...] Entretanto, em 1972, salvo erro, é criado o ISCTE e aparece um curso,
que se chamava ciências do trabalho, que à altura eu... pronto, aquilo era um pouco...
para o quadro existente, era um pouco uma lufada de ar fresco. E fez-me balançar um
pouco, na altura que eu escolhi. Como é que escolhi? Quando fui matricular-me, em
setembro ou outubro, vi que no elenco existia sociologia. Pronto. Disse: “Bem. Aqui
está. Vou para sociologia. Pronto”. [...] Eu ainda tive aulas no pavilhão lá em baixo, no
Campo Grande. [riso] Penso que tive o primeiro ano lá, portanto eu comecei a
frequentar em 1974/75, que foi o ano do chamado Serviço Cívico, portanto não
tínhamos aulas. Íamos lá, poucas aulas tínhamos. Participei numa marcha para a
ocupação do ISCTE, que só havia, ainda, um primeiro “L”, meio acabado, eu acho que
não estava totalmente acabado, para ocupação do espaço [...]. Depois, durante esses
cinco anos, primeiro era uma grande descoberta da sociologia.”

Problemas de orientador

Graça Carapinheiro (CIES e Dep. Sociologia – ISCTE Instit. Univ. Lisboa; dout. 1990)

“Arranjar um orientador, [...] sempre foi a parte mais difícil de toda a questão. [...]
Porque não havia ninguém na Sociologia da Saúde em Portugal. Ou seja, as áreas de
especialização sociológica ainda eram reduzidas, não é? [...] No meio das leituras que

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andei a fazer para preparar exatamente a minha proposta de investigação para a tese,
encontrei o Jesús de Miguel, [...] que trabalhava na área da Sociologia da Saúde e da
Medicina. [...] Mando uma carta ao professor Jesús de Miguel. [...] Ele dava aulas na
Universidade Autónoma de Barcelona [...]. Respondeu-me positivamente. Disse: “sim,
pode ter comigo”. [...] Meti-me num avião e em dois dias eu falei com ele. [...] E ele
disse que sim. Mas nunca me orientou, nunca mais o vi. Acredita? [...] Formalizei a
candidatura, ele mandou a carta a dizer que sim, que sim, sim, e, depois, passaram-se
meses, meses, meses que eu ia mandando cartas [...] e, entretanto…zero, zero, nada!
[...] Entretanto, eu fui fazendo a tese. [...] Isto podia ser um grande naufrágio, mas não
foi. Felizmente. Porque fazia trabalho de campo desde o início. [...] Depois, a partir de
certa altura, eu fiz um pedido de uma bolsa, uma pequena bolsa para ter algum
dinheiro para poder ir a Londres. Fui para a London School of Economics. Tem uma
biblioteca fantástica, que continua a ser fantástica ainda hoje. Aí eu comecei a
encontrar os clássicos todos, as obras clássicas todas. Eram fotocópias, fotocópias...
[...]. Entretanto, o que é que aconteceu? [...] Eu precisava, de facto, de um
interlocutor. [...] Então, eu fui a Coimbra um dia, porque havia lá um congresso, que
deu origem ao número 23 [da Revista Crítica de Ciências Sociais], [...] que era sobre
questões de saúde: medicina, profissões, Serviço Nacional de Saúde, Sistema de Saúde
Português, tinha várias coisas. Eu achei que ali talvez fosse um lugar onde eu pudesse
encaixar, digamos, uma comunicação sobre a tese. Assim fiz, não é? Apareço lá,
pronto, pela primeira vez. O nome já estava mais ou menos [...], era “Saberes e
Poderes no Hospital”. Entretanto, quando eu apresento a comunicação, quem está no
público? Estão vários colegas, os nossos colegas de Coimbra e estava o Boaventura [de
Sousa Santos]. Por acaso estava cá e foi ouvir. [...] No fim, era intervalo para almoço, o
Boaventura vem ter comigo e disse: “Ah, que gostei tanto da tua comunicação! Onde é
que ela está escrita? Inscreve-se em quê?”, perguntou. “Ah, é o doutoramento que eu
estou a fazer no ISCTE”. Eu não o conhecia, só o conhecia de nome. “Estou a fazer no
ISCTE. De facto, esta é a minha primeira comunicação, digamos assim, sobre a tese
[...]”. Ele disse: “então vamos almoçar” [...]. Ele ficou à minha frente [...] e começou-
me a fazer perguntas: “então, é sobre o quê? O que é que fizeste? Quais são as
orientações? O teu orientador, quem é?”, perguntou-me. Eu disse: “assim, eu,
formalmente, tenho um orientador. Está lá no ISCTE o nome dele e a aceitação dele.
Mas ele nunca teve uma reunião de trabalho comigo”. “Sério? Como é que é possível
isso acontecer?”. “Pois é, mas aconteceu. Eu agora não sei o que é que vou fazer. Eu
tenho que começar a escrever”. Eu tinha um ano para começar... [...]. “Eu tenho um
ano para escrever a tese, mas não sei muito bem se estou bem, se estou num bom
caminho, se faz sentido aquilo que eu apresentei”. “Não; faz imenso sentido! É uma
perspectiva completamente inovadora! Não há nada feito em Portugal! Tu não
abandones esse projeto!” [...] Eu fiquei assim um bocadinho entusiasmada. “Ainda
bem que alguém me entende! Tenho um interlocutor assim, com esta qualidade,
melhor ainda!”. Então, ele faz um... ele foi muito gentil. [...] Ele disse-me: “eu vou fazer

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agora uma estadia em Londres. Se quiseres que eu leia os capítulos que fores
escrevendo, está à vontade que eu não me importo de ler. [...] Vais ter o meu
feedback. [...]. Se tu quiseres, eu terei todo o gosto em fazê-lo”. Foi assim que ele me
colocou a questão. [...] E assim foi. [...] Eu comecei a fazer a segunda parte, a parte
empírica: o tratamento da informação empírica. [...] Então, ele lê, e manda: “passa
para o segundo. Tudo bem, passa para o terceiro. Tudo bem...”. [...] O capítulo teórico
foi o último que eu fiz [...]. E é o Boaventura quem me diz: “Eu se fosse a ti ia a Londres
fazer uma atualização”. [...] Eu assim fiz [...]. Fiz uma última viagem a Londres no
sentido de recolher tudo o que era recente e fui incorporando na tese.[...] E substituí
[o orientador], no ISCTE. Quando comecei a escrever, [...] disse que queria fazer a
substituição desse orientador por este orientador. Expliquei as razões [...]. Já que tinha
a gentileza de ler, ao menos formalizá-lo como orientador. O que aconteceu foi que ele
esteve no meu júri. No júri de doutoramento estava o Boaventura.”

Uma experiência de infância

Helena Vilaça (IS e Fac. Letras – Univ. Porto; dout. 2003)

“A questão da religião era abordada, cá em Portugal, segundo a perspectiva das


ruralidades, da sociedade camponesa em extinção, a importância da religião na
sociedade camponesa. [...] Quando se coloca a questão do doutoramento é que eu
equacionei... E, na altura, não tinha internet, eram os livros. [...] Não fui propriamente
incentivada, mas equacionei estudar os novos movimentos religiosos, que estavam um
pouco... aqui na Europa [...] começava-se a falar nos novos movimentos religiosos. E
eu equacionei essa hipótese [...]. E depois foi um convite, que o meu orientador
recebeu, para fazer parte de um projeto internacional, que era o Religious and Moral
Pluralism, e eu estava a reunir com ele, e ele disse-me: “A Helena não quer ir?” Mas
disse assim a brincar. Eu disse: “Quero”. [...] E digamos que o meu percurso começa de
fora para dentro, nesse projeto, que foi financiado, na altura, pela Fundação Europeia
de Ciência. E foi aí que eu comecei a aprender. E que veio a minha paixão. [...] O
projeto era sobre pluralismo. Era um inquérito, o primeiro inquérito lançado à escala
europeia, sobre religião, portanto pluralismo moral e religioso. E eu fui responsável
pelo projeto cá. E tive que aplicar o inquérito cá. A partir daí, fiz também... foi uma das
componentes da minha tese. [...] Aí é que eu começo a repescar o meu passado,
sempre de um grupo minoritário... fazia parte de uma minoria religiosa [...]. E eu
comecei a recordar. [...] Se há um fator que me motivou muito isso foi a memória da
escola primária. E aí, já como socióloga, eu consegui fazer uma leitura, que não tinha,
que, na altura, não fazia. Eu tinha uma colega que era testemunha de Jeová [...]. Nunca
mais a vi. Desde a escola primária. É responsável, em parte, por eu ter feito este
percurso. Ela era de classe operária mas valorizando muito os pais, o trabalho, a
limpeza, portanto era uma menina impecável. E portanto, na primeira semana de

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aulas, os meus pais foram falar com a professora e disseram à professora “Ela não vai
rezar a Ave-Maria porque ela é protestante”. E a minha colega, “nem a Ave-Maria nem
o Pai-Nosso”. E, durante uma semana, a minha colega foi esbofeteada e levava
palmadas nas mãos, com a régua, a testemunha de Jeová. Eu disse à professora: “Por
que lhe bate a ela e não me bate a mim?” E aí é que eu entendi como as desigualdades
sociais pesam também nestas questões. Ela não teve pais que fossem à escola. E
digamos que o capital, não vou dizer económico, mas cultural e familiar que eu tinha,
defendeu-me dessa situação. [...] E essa criança, ao fim de uma semana, desistiu. E,
portanto, foi... E eu assisti à violência física e simbólica, que me marcou para a vida. E
para mim é sempre... é uma homenagem a ela as escolhas que eu fiz, o que é a falta da
liberdade religiosa. E estando num campo, que, depois, ao decidir fazer o
doutoramento e ir por aí, percebi que era difícil, pelo olhar que a sociologia tem sobre
a religião.”

Cooperação com o Brasil

João Arriscado Nunes (CES e Fac. Economia – Univ. Coimbra; dout. 1993)

“Uma parte também de toda esta história [...] foi exatamente a cooperação com o
Brasil, porque a partir de um certo momento a minha principal atividade foi com o
Brasil. Ela começa precisamente na Fiocruz, em 2005. Eu passei depois a ter uma
cooperação regular com a Fiocruz, trabalhei muito com esse grupo que trabalhava
sobre saúde e ambiente. Depois, estive na Fiocruz como pesquisador visitante, com
uma bolsa da própria Fiocruz em 2011-2012. Foi interessante que quando eu cheguei,
tinha uma vaga ideia de um projeto que queria fazer. Mas, entretanto, havia um grupo
com quem eu já tinha trabalhado, já estava a trabalhar há alguns alguns anos, sediado
no hospital... no instituto que é hoje o Instituto de Infectologia que trata pacientes
com HIV e comorbidades do HIV, que tem o hospital e que tem, portanto, uma
associação de pacientes que já estava ligada. Havia uma colega lá que era
epidemiologista e que também tinha uma série de ações, uma série de iniciativas que
ela fazia com os pacientes, com essas organizações de pacientes – quase todos vindos
da comunidade no entorno. Eu a conheci, ela veio uma vez a Portugal para falar
comigo porque queria que eu ajudasse a avaliar um projeto que ela tinha que era de
formação... uma espécie de um curso de formação sobre epidemiologia e doenças
infecciosas e parasitárias para os pacientes, as famílias de pacientes, os trabalhadores
não-médicos ou não-ligados às ciências da saúde da Fiocruz e que era muito
interessante. [...] Agarrava-se, se quisermos, à ideia de uma espécie de transmissão de
saber biomédico, mas tinha uma componente interativa muito interessante que depois
nós fomos explorando e que permitiu, depois, progressivamente, foi transformada...
Ela pediu-me para avaliar e transformamos a avaliação depois numa conversa, se
quisermos, com os participantes, que depois permitiram, por exemplo, que as

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atividades fossem alargadas e que eles começassem, por exemplo, a assumir uma série
de iniciativas que estavam muito ligadas também à saúde, àquilo que podemos chamar
“a promoção da saúde”, mas que ultrapassava em muito o domínio propriamente
biomédico. Eu trabalhei muito com esse grupo e ainda trabalho hoje. Vou lá com
frequência. [...] Depois, há uma terceira vertente que foi a Educação Popular em
Saúde, também na Fiocruz. Também muito interessante a maneira como rapidamente
consegui ter uma relação muito boa com pessoas que trabalhavam, por exemplo,
sobre temas como uma coisa que durante muito tempo não foi muito trabalhada que
era a importância da religião na maneira como as pessoas definem o seu bem-estar, a
saúde, etc. Depois, muitas das questões relacionadas, por exemplo, com a própria
questão da interlocução, das linguagens, da maneira como se afina as experiências de
sofrimento, etc. Foi muito interessante. Eu trabalhei bastante com a Rede de Educação
Popular em Saúde. Finalmente, ... a minha grande descoberta no Brasil, que foi a
reforma psiquiátrica. Sobretudo, as práticas, digamos, que vão para além daquilo que
nós podemos chamar do cuidado psiquiátrico convencional ou o cuidado psi
convencional, que era exatamente a mobilização, por exemplo, de práticas artísticas
expressivas, do trabalho, por exemplo, de economia solidária, etc., como forma,
precisamente, de reorganizar as relações de vida das pessoas que eram diagnosticadas
com problemas de saúde mental. Eu, depois, criei uma colaboração muito forte com
pessoas dessa área, tanto na Fiocruz quanto fora. Há uma pessoa que fez parte do
doutorado comigo e depois fez um pós-doutorado também, com quem eu trabalho
agora na Bahia, na Universidade Federal do Sul da Bahia, que é uma musico-terapeuta,
psicóloga musico-terapeuta com uma imensa experiência, trabalha em todo o tipo de
“zonas de guerra”, digamos, daquelas que são... que existem neste momento, tipo
zonas como cracolândias, CAPS ad, Centros de Apoio Psicossocial em zonas de
enfrentamento de milícia e traficantes, que esteve muito tempo também trabalhando
como músico-terapeuta em instituições como a Nise da Silveira – Instituto Nise da
Silveira – e outros, com quem eu aprendi muito como é que se trabalha com
populações que dificilmente nós podemos trabalhar com elas muitas vezes
mobilizando aquilo que são os nossos instrumentos habituais ou supostos habituais de
metodologias próprias das Ciências Sociais. Como é que a gente faz? Uma coisa que eu
aprendi é que através dessas práticas expressivas – do trabalho, através da música,
através do teatro, através de práticas ligadas à criação artística expressivas, que há ali
de facto todo um mundo que começa a aparecer que nós devemos aprender a
trabalhar.”

Participação em redes científicas internacionais

Karin Wall (ICS – Univ. Lisboa; dout. 1994)

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“A partir do fim dos anos 1980, início dos anos 1990, começou a haver mais recursos
para projetos de investigação; e nós começámos logo... Logo no fim dos anos 1980,
tivemos um primeiro projeto financiado pela JNICT, e depois, portanto, foi possível,
digamos, desenvolver a área, através dos recursos que estavam a ser postos à
disposição da ciência no seu conjunto. [Outro] fator, que também foi importante, foi a
nossa ligação a redes europeias e internacionais. O meu orientador, o Jean Kellerhals,
tinha uma rede de colaboração mais ligada à sociologia francesa, nesta área da
sociologia e da demografia da família, e portanto a influência da sociologia francesa no
trabalho que fazíamos nessa altura, nomeadamente na sociologia da família, foi
importante. E essa internacionalização acho que também despoletou e ajudou a
desenvolver a sociologia da família, nesses anos iniciais, nos anos 1990. Porque
foram... Foram mentores, foram grandes mentores para nós, nesta área, desde o
Daniel Bertaux, o Jean Kellerhals, o Jacques Commaille, a Claudine Attias-Donfut, o
Claude Martin… Portanto essa internacionalização, que, no nosso caso da sociologia da
família, aconteceu de uma forma espontânea mas muito cedo no percurso da
disciplina, ajudou a desenvolvê-la. [E a ligação a associações internacionais], à AISLF
[Association internationale des sociologues de langue française], inicialmente. E
depois, o Jean Kellerhals, com a Claudine Attias-Donfut, tomou conta da rede da
família na ESA, na European Sociological Association, e portanto... Eu acho que fui a
primeira socióloga a ir a um encontro do ESA, em 1995, em Budapeste, através do
Kellerhals e da Claudine. [...] Depois, quando o Kellerhals quis abandonar o grupo de
pesquisa da família passou para mim e para a Ulla Bjornberg, que também estava lá, e,
portanto, eu coordenei a rede da família, na ESA, durante vários anos. E depois
continuei sempre na comissão de coordenação da rede. [...] Por outro lado, a
integração, logo no início dos anos 1990, em redes mais ligadas à social policy, às
políticas públicas, na área da família e em geral, nas políticas sociais. Curiosamente, a
sociologia francesa desprezava um pouco essa área, mas eu não estava de acordo, se
calhar porque já tinha esta visão de que a sociologia tinha de contribuir para as
políticas públicas, e, portanto, a oportunidade que surgiu foi logo em 1994, fui
convidada para fazer parte do observatório da Comissão Europeia, na área da família.
O Observatório Europeu das Políticas de Família. E pertenci a esse observatório até
2004, quando foi extinto pela Comissão Europeia. Por essa via tive contacto com... sei
lá, muitos investigadores, sobretudo do Reino Unido. [...] E as minhas redes, de
repente, alargaram-se; saí do espaço mais francófono e liguei-me mais, digamos, ao
espaço... Europeu. E anglófono também. [...] Foi uma década em que eu fiz muita
investigação, em que me liguei a essas redes internacionais [...]. Portanto eu dizia:
bem, eu não posso fazer tudo, vou também dedicar-me à sociologia europeia, na
Europa. [...] E esses dez anos a seguir ao doutoramento foram muito dedicados não
tanto à criação das instituições mas sobretudo ao desenvolvimento da sociologia,
nomeadamente à investigação em sociologia da família, e também ao ensino nessa
área. [...] Depois, em 2010, fiz as provas de habilitação. A década seguinte foi uma

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década muito diferente, digamos, foi uma terceira fase da minha carreira, em que
passei a ter muito mais trabalho na área da gestão da ciência, nomeadamente através
da avaliação. Portanto eu fiz avaliação no Reino Unido, na Suíça, depois na Comissão
Europeia, e depois, a certa altura, aí foi um envolvimento, durante vários anos, para a
recém-criada European Research Council. Portanto, por um lado, avaliação, por outro
lado, coordenação de projetos [...]. Nessa altura, tive um grande projeto [...] que foi
sobre as trajetórias e as redes familiares. Tinha tido, em 1999, também, um projeto da
FCT, que envolveu aquele inquérito, A Família em Portugal. Portanto foi uma fase
diferente da carreira, em que, por um lado, tinha a coordenação de projetos, e tinha
uma equipa consolidada, já consolidada, e, por outro lado, comecei a entrar noutra...
de uma forma mais intensa, na gestão da ciência. [...] Porque todo esse investimento
nas redes europeias permitiu, depois, a participação e a coordenação de projetos já
internacionais, e não só nacionais. [...] Como, por exemplo, um grande projeto
financiado pela Comissão Europeia, que foi o Family Platform, em que éramos vinte e
três organizações; algumas da sociedade civil, outras académicas. Foi um projeto que
durou vários anos. Portanto, sim, isso permitiu, também, passar a investigação para
um patamar diferente, em termos internacionais.”

Envolvimento na Associação Portuguesa de Sociologia

Luís Baptista (CICS e FCSH – Univ. Nova Lisboa; dout. 1997)

“Para o bem ou para o mal, acabamos por ser a primeira geração de sociólogos que vai
constituir a construção de todo um caminho do trabalho das ciências sociais, e
particularmente da sociologia, em Portugal. É conosco que aparecem os mestrados, é
conosco que aparecem os doutoramentos, somos nós que depois vamos iniciar os
centros de investigação, é conosco que vamos iniciar, se quisermos, a sociologia
contemporânea. [...] Temos alguns mestres, que são os inspiradores, mas a nossa
geração, fomos os operários, se quiser, da construção da sociologia moderna. E digo
isto com todo o orgulho e com todo o prazer [...]. Mas obrigou alguns de nós,
nomeadamente eu no meu Departamento de Sociologia da Universidade Nova, a fazer
um esforço de, precisamente, participar nessa construção, quer dos centros de
investigação, quer da atividade dos cursos que vão surgindo, mas também na
consolidação de algo que era muito importante e que para mim era
extraordinariamente importante, que era a construção da Associação Portuguesa de
Sociologia; que tinha sido criada... aliás, basicamente com pessoas do ISCTE, a partir do
João [Ferreira de Almeida], do António [Firmino da Costa] [...], outras pessoas daqui,
mas também de outras [universidades]... e consolidação de um grande projeto
nacional. [...] E portanto há aqui um exercício muito importante, que é o exercício de
mostrar a utilidade do nosso trabalho. Eu acho que temos tido sucesso nessa
experiência. Com altos e baixos, mas que no fundo me levou a envolver-me

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sistematicamente [...]. [Na Associação Portuguesa de Sociologia, onde esteve quatro
anos como vice-presidente e depois quatro anos como presidente] as nossas
preocupações eram, em primeiro lugar, constituir, digamos que uma associação que...
Nós seguíamos, [...] os “pais fundadores”, que tinham sido o João Ferreira de Almeida
e o José Madureira Pinto, basicamente, com muitas outras pessoas, mas [que foram]
os dois primeiros presidentes – uma experiência que tinha duas linhas, que me
pareceram ser muito importantes. A primeira é sempre ligar os académicos com os
profissionais. Ou seja, de novo a utilidade social da sociologia. Ou seja, formar pessoas
para depois não ter nada a ver com elas é muito estranho. Nós sempre achamos,
embora não seja uma opinião absolutamente generalizada, pelo menos a nível
internacional. Eu vivi depois, também, a experiência na Associação Europeia de
Sociologia, entrei na direção da Associação Europeia de Sociologia, fiz um pequenino
trabalho, na altura, coordenado pelo Roberto Cipriani, muito interessante. Está
publicado na revista mesmo da ESA [European Sociological Association], European
Societies. Portanto publicamos um pequeno texto [...], fizemos um inquérito às
associações nacionais de sociologia. E metade delas não tem profissionais, só tem
académicos. E a visão que têm é que a sociologia é uma ciência, e ponto. E a visão da
Associação Portuguesa de Sociologia é: é uma ciência e uma profissão; ou: uma ciência
que dá contexto para várias profissões. [...] A segunda [linha] era experiência
internacional. Ou seja, criar condições para que a sociologia portuguesa não só fosse
conhecida mas também reconhecida pelo campo internacional. Desenvolvemos uma
estratégia. Como em tudo, a Europa tem muitos lobbies regionais, vamos dizer assim.
Há dois lobbies poderosíssimos a nível regional. O mais visível é o dos nórdicos, que
têm associações próprias, têm revistas próprias etc.. E tivemos a ambição, numa certa
altura, que é uma ambição ainda em curso, de criar um... vamos chamar um lobby da
Europa do Sul. [...] E eu próprio, sou... neste momento, na Associação Europeia de
Sociologia, faço parte de uma rede que é precisamente uma rede que estuda as
sociedades da Europa do Sul [...]. Primeiro porque a Europa e o funcionamento da
sociologia europeia, o reconhecimento do trabalho, é também feito com base em
lobbies. Quer dizer, não vale a pena ter ilusões sobre isso. E, portanto, escrever em
inglês, escrever em certas revistas, estar ligado a certos grupos é absolutamente
central, hoje, na competição internacional. Mas há uma [outra] coisa que eu valorizo,
talvez em minoria, mas valorizo, que é uma coisa chamada língua portuguesa. Veja
bem. [...] As pessoas dizem assim: “Não vale a pena publicar em português. Vamos
esquecer isso. Isso é uma língua... que nós falamos em casa e tal... E quando vamos ao
Brasil... Mas... agora, investigação... [é em] inglês”. Bom. Eu, pessoalmente, sou
totalmente contra isso. Eu acho que a internacionalização não é só uma questão de
língua, mas é precisamente do impacto noutras sociedades e noutros contextos. E
portanto, publicar em português no Brasil, para mim, é tão internacional como
publicar em inglês noutra revista.”

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Como esses trechos selecionados ilustram, as entrevistas realizadas permitem


perceber cortes geracionais, regionais, disciplinares e temáticos. A compreensão dessas
narrativas e histórias-de-vida ilumina processos de construção de carreiras intelectuais e
relações entre os problemas de pesquisa e a sociedade mais abrangente onde se desenvolvem.
Como resultado, acreditamos que, através desse tipo de entrevistas, conseguimos não apenas
compreender trajetórias e opções individuais, mas também, como afirma Howard S. Becker
(1993), “os efeitos das estruturas de oportunidade, das subculturas e das normas sociais”
dentro de um contexto historicamente situado.

Com efeito, este tipo de entrevistas biográficas permite, como assinala Daniel Bertaux
(1997), “aceder ao conhecimento de objetos sócio-históricos, tais como mundos sociais,
categorias de situação social ou fluxos de trajetórias paralelas” e, deste modo, “entender
história e biografia, e as relações entre ambas em sociedade”, na célebre síntese de C. Wright
Mills (1959). O acervo disponibilizado em termos públicos possibilita, ainda, a multiplicação de
novas utilizações das entrevistas biográficas, por parte de outros cientistas sociais,
pesquisadores, professores, estudantes e estudiosos, ou até simples curiosos, suscitando
novos ângulos temáticos, analíticos e interpretativos.

Referências bibliográficas:

Becker, Howard S. Métodos de pesquisa em Ciências Sociais. São Paulo, Hucitec, 1993.

Bertaux, Daniel. As narrativas de vida. Lisboa, Mundos Sociais, 2020 [1997].

Dhoquois, Anne. Comment je suis devenu ethnologue. Paris, Editions Le Cavalier Bleu, 2008.

Hughes, Everett. “Ciclos, pontos de inflexão e carreiras”. Teoria e Pesquisa n. 46, jan. 2005
[1952], p. 163-173. Disponível em
http://www.teoriaepesquisa.ufscar.br/index.php/tp/article/viewFile/90/80

Mills, C. Wright. The Sociological Imagination. New York, University Press, 2000 [1959].

Pollak, Michel. “Memória e identidade social”. Estudos Históricos n. 10, 1992, p. 200-215.
Disponível em
http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/1941/1080

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Velho, Gilberto. Um antropólogo na cidade: ensaios de antropologia urbana. Rio de Janeiro,
Zahar, 2013.

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