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REFLUXO GASTROESOFÁGICO E DEGLUTIÇÃO


EM RECÉM NASCIDOS E LACTENTES:
REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

Gastroesophageal reflux and swallowing in newborns and infants:


integrative review of literature
Flávia Rebelo Silva Puccini (1), Giédre Berretin-Felix (2)

RESUMO

O refluxo gastroesofágico é encontrado em 25% dos bebês e pode acarretar vários prejuízos para o
desenvolvimento. O objetivo deste trabalho foi realizar uma revisão integrativa da literatura buscando
verificar se há publicações relacionando alterações da deglutição com o quadro de refluxo gastroe-
sofágico em recém-nascidos e lactentes. A pesquisa foi realizada consultando os sites da Bireme e
da PubMed. Os unitermos utilizados foram refluxo gastroesofágico, recém-nascido e lactente, em
português e os correspondentes em inglês. Os descritores foram utilizados pareados, pois isolados
abrangia muitos textos com temáticas diferentes da de interesse. Os trabalhos selecionados foram
dos últimos dez anos. Não houve limite de tempo. De 1184 artigos da Bireme e 1600 da PubMed ana-
lisados a partir da aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, restaram 23 artigos, sendo a maioria
voltada aos sinais, sintomas e diagnóstico do RGE. Dois artigos abordaram o RGE e a deglutição,
demonstrando que pode haver ou não relação entre RGE e disfagia orofaríngea em recém nascidos
e lactentes, sendo que a escassez de pesquisas com essa temática demonstrou a necessidade de
novos estudos abordando os aspectos patofisiológicos envolvidos.

DESCRITORES: Refluxo Gastroesofágico; Transtornos da Deglutição; Lactente

„„ INTRODUÇÃO frequência do que o fisiológico, porém, sem causar


doença para a criança. Ele é denominado funcional
O refluxo gastroesofágico (RGE) é definido por não haver qualquer disfunção básica (mecânica,
como o retorno involuntário do conteúdo gástrico inflamatória, infecciosa ou bioquímica) que possa
para o esôfago 1 e acontece em aproximadamente levar ao refluxo, e é um processo de maturidade
25% dos bebês, sendo o segundo maior problema gastrointestinal. O refluxo ainda pode ser oculto ou
de afecções mais prevalentes das doenças do trato silencioso, podendo se transformar em patológico4.
digestivo2. Na medida em que o RGE abrange áreas extra
O RGE em crianças é classificado em fisio- esofágicas, ele vai deixando de ser um problema
lógico, funcional e patológico primário e secun- restrito ao trato digestório. Dentre as complicações
dário3. O RGE fisiológico é caracterizado por refluxo do RGE cita-se a asma brônquica e os problemas
episódico, no período pós prandial, e pode ocorrer otorrinolaringológicos, problemas de alimentação5,
até três episódios curtos, nas duas primeiras horas cólica do lactente6 e erosão dentária7. O RGE
pós-prandiais4. O RGE funcional ocorre em maior também pode ser considerado o fator responsável
pela dificuldade alimentar, tanto em neonatos como
em crianças maiores8.
(1)
Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de
São Paulo, FOB/USP, Bauru, São Paulo, Brasil. Apesar de a alimentação, assim como a respi-
(2)
Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odon-
ração, ser uma função de sobrevivência, para
tologia de Bauru da Universidade de São Paulo, FOB/USP, que ela ocorra, é necessário um processo muito
Bauru, São Paulo, Brasil. complexo que envolve várias fases, como a deglu-
Conflito de interesses: inexistente tição e digestão4. Interrupções ou alterações em

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Refluxo gastroesofágico e deglutição em bebês  1665
alguma dessas fases podem acarretar má nutrição Os unitermos utilizados para a pesquisa foram:
e déficit de crescimento. A nutrição de um bebê, refluxo gastroesofágico, recém-nascido e lactente,
especialmente no primeiro ano de vida, é essencial nos idiomas português e os correspondentes em
para o crescimento e desenvolvimento cerebral9. inglês: gastroesophageal reflux, newborn e infant. A
Os sintomas mais comuns que sugerem um pesquisa foi realizada com os descritores pareados,
problema de alimentação são dificuldades na pois isolados abrangia muitos textos com temáticas
sucção e deglutição, apneia, tosse repetitiva e/ou diferentes do foco de interesse do estudo.
engasgos, irritabilidade excessiva, alterações de Foram incluídos todos os artigos científicos que
comportamento durante a alimentação, tempo de abordassem refluxo gastroesofágico, tanto o refluxo
amamentação maior que 30 a 40 minutos, recusa fisiológico como a doença do RGE, em recém-
alimentar e déficit de crescimento9. nascidos e lactentes, no período entre 2004 e 2014.
A ocorrência de vômito, regurgitação, engasgos, Foram excluídos todos os artigos repetidos, os que
falta de ar, esofagite, disfagia, odinofagia, pirose e não abordavam o tema proposto, os que não se
dor retroesternal fazem com que a criança relacione tratava de bebês ou que não estivessem dentro do
a alimentação com desconforto, dor e desprazer10. limite de tempo.
Por outro lado, o RGE compromete a integridade da Depois de todas as informações apanhadas e
motricidade oral do bebê, ocasionando hipersensi- estudadas os dados foram analisados conside-
bilidade na cavidade oral, anteriorização do reflexo rando a revista e o ano de publicação, o objetivo da
de vômito e aversão a estímulos táteis, justificando pesquisa, os exames de diagnóstico e tratamentos
a recusa de certos alimentos e texturas11. propostos, como também a relação entre o refluxo
gastroesofágico com distúrbios da deglutição. Por
Assim, o objetivo deste trabalho foi realizar uma
fim, foi analisado o nível de evidência de cada
revisão da literatura para verificar se há publicações
estudo, de acordo com Souza, Silva e Carvalho
relacionando alterações da deglutição com o quadro
(2010)12. Posteriormente esses dados foram discu-
de refluxo gastroesofágico em recém-nascidos e
tidos e comparados com a literatura.
lactentes.

„„ REVISÃO DA LITERATURA
„„ MÉTODOS
Na busca realizada no site da bireme com os
Este trabalho é uma revisão integrativa, com unitermos pareados, foram encontrados 1.184
caráter analítico-descritivo, sendo realizado com artigos. De acordo com os critérios estabelecidos
base em análises dos artigos sobre refluxo gastroe- foram selecionados 8 estudos da base de dados
sofágico em recém-nascidos e lactentes. LILACS e MEDLINE. Já na busca realizada no
O levantamento de periódicos foi realizado no site da PubMed, foram encontrados 1600 artigos,
site da Bireme (Biblioteca Regional de Medicina), que, ao aplicar os critérios de inclusão e exclusão
sendo consultada a base de dados do LILACS e restaram 15 artigos. Os passos da seleção estão
MEDLINE, e no site da PubMed. ilustrados na Figura 1.

Figura 1 – Informações referentes ao levantamento bibliográfico e a seleção dos artigos.

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Foram selecionados artigos publicados no Foi possível observar que nos últimos anos houve
período de 2004 a 2014, sendo um artigo publicado um aumento no número de publicações com esse
ao ano, em sua maioria. Os anos de 2012 e 2013 tema, conforme apresentado na Figura 2.
apresentaram maior número de publicações (n=4).

Figura 2 – Apresentação do número de artigos publicados por ano de acordo com os resultados
encontrados por meio da busca em todas as bases de dados e sites consultadas

A Figura 3 apresenta as informações obtidas a sinais clínicos com os exames. As revistas médicas
partir da análise de cada publicação selecionada, foram as que mais publicaram artigos relacionados
sendo possível observar que a maioria dos estudos ao tema (n=18), seguidas das revistas de nutrição
tiveram como objetivo estabelecer o melhor exame (n=2), fonoaudiologia (n=1), sono (n=1) e cuidados
para diagnosticar o RGE e, também, o de relacionar neonatais (n=1).

Número
Nível de
referência Título do Artigo Autores Periódico Considerações / Temática
Evidência
bibliográfica
Influência dos decúbitos dorsal Verifica a influência postural
Mezzacappa,
e ventral na monitorização Arq. Gastroenterol. na frequência e duração dos
13 Goulart, 4
do pH esofágico em recém- 2004 Jan-Mar;41(1). episódios de RGE, constatando
Burnelli
nascidos de muito baixo peso a eficiência do decúbito ventral.
Determina pelo critério de
Prevalência de refluxo J. Pediatr. (Rio
Roma II a prevalência de
14 gastroesofágico patológico em Costa et al J.). 2004 July- 3
RGE patológico em lactentes
lactentes regurgitadores Aug;80(4).
regurgitadores.
Avalia crianças e adolescentes
quanto a demanda, indicações
e resulados de pHmetria
Predomínio de manifestações
Arq. esofágica prolongada para
respiratórias na indicação de
15 Goldani et al Gastroenterol. 2005 avaliar o RGE, concluindo 4
pHmetria esofágica prolongada
July-Sept;42(3). que os índices de refluxo em
em crianças
pHmetrias positivas foram
maior em crianças menores de
2 anos.
Verifica o efeito de uma
fórmula engrossada com
Effect of formula thickened with J Paediatr Child
Miyazawa goma de semente de alfarroba
16 locust bean gum on gastric Health. 2006 3
et al no esvaziamento gástrico,
emptying in infants. Dec;42(12):808-12.
constatanto que o efeito é
positivo.

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Número
Nível de
referência Título do Artigo Autores Periódico Considerações / Temática
Evidência
bibliográfica
Diurnal variation in the
Woodley, Clin Gastroenterol Avalia os efeitos da
chemical clearance of acid
17 Fernandez, Hepatol. 2007 alimentação quanto a duração, 3
gastroesophageal reflux in
Mousa Jan;5(1):37-43 volume e depurações químicas.
infants.
The effect of thickened- Avalia sistematicamente e
feed interventions on atualiza dados de estudos
Horvath, Pediatrics. 2008
gastroesophageal reflux in controlados e randomizados
18 Dziechciarz, Dec;122(6): 1
infants: systematic review and sobre a eficácia e segurança
Szajewska e1268-77
meta-analysis of randomized, dos alimentos engrossados no
controlled trials. tratamento do RGE.
Compara a sensibilidade e
receptividade da seriografia do
Refluxo gastroesofágico: estudo
esôfago, estômago e duodeno
comparativo da receptividade e Radiol Bras. 2009
19 Sakate et ak (SEED) com a ultrassonografia 3
sensibilidade entre seriografia e July-Aug;42(4).
do esôfago intra-abdominal
ultrassonografia
em pacientes com suspeita de
RGE.
J Pediatr Caracteriza a incidência de
Technical limitations in detection
Gastroenterol RGE detectados pela pHmetria
20 of gastroesophageal reflux in Di Fiori et al 4
Nutr. 2009 esofágica e não detectados
neonates.
Aug;49(2):177-82 pela impedância intraluminal.

J Perinatol. 2009 Define o RGE e os sintomas da


GERD or not GERD: the fussy Bhatia,
21 May;29 Suppl 2: DRGE associados, e as opções 4
infant. Parish
S7-11. de tratamento

Verifica se há uma relação


Disagreement between dos sintomas do RGE com o
World J
symptom-reflux association Luthold, exame de pHmetria, mostrando
Gastroenterol.
22 analysis parameters in pediatric Rochat, que apenas os sintomas 4
2010 May
gastroesophageal reflux Bahler podem gerar discordâncias
21;16(19):2401-6.
disease investigation. importantes na classificação
diagnóstica.
Small volumes of feed
Investiga a quantidade
can trigger transient lower
J Pediatr. 2010 de alimento que aciona o
esophageal sphincter relaxation Van Wijk
23 May;156(5):744-8, relaxamento do esfíncter 3
and gastroesophageal reflux et al
748.e1. esofágico inferior em decúbito
in the right lateral position in
lateral direito e esquerdo.
infants.
Descreve os achados
Achados fluoroscópicos da
Silva- J. Soc. Bras. fluoroscópicos da deglutição,
deglutição: comparação entre
24 Munhoz, Fonoaudiol. 2011 sinais e sintomas clínicos 4
recém-nascidos pré-termo e
Bühler July-Sept;23(3). relacionados à alteração na
recém-nascidos de termo
deglutição de RNPT e RNT
Determina a baixa sensibilidade
Sensibilidade da seriografia do
do SEED para diagnosticar o
esôfago, estômago e duodeno Alvares,
Radiol Bras. 2011 RGE comparado ao pHmetria
25 para o diagnóstico de doença Torres, 3
July-Aug;44(4). prolongada, mas mostrou
do refluxo gastroesofágico em Mezzacappa
ser útil no diagnóstico de
recém-nascidos
alterações anatômicas.

Assessment and treatment


Avalia se o tratamento do
of gastroesophageal reflux Clin Pediatr
RGE está relacionado com
in healthy infants with apneic Koivusalo (Phila). 2011
26 a melhora da apnéia infantil 3
episodes: a retrospective et al Dec;50(12):1096-
recorrente, verificando que não
analysis of 87 consecutive 102.
há relação.
patients.

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Número
Nível de
referência Título do Artigo Autores Periódico Considerações / Temática
Evidência
bibliográfica
Investiga o impacto do RGE
ácido no sono. Conclui que o
Relationship between sleep and
J Sleep Res. 2011 RGE ocorre mais na vigília e
27 acid gastro-oesophageal reflux Ammari et al 3
Feb;21(1):80-6. correlacionam as fases do sono
in neonates.
com o impacto fisiopatológico
do RGE.
Avalia o desconforto que o
RGE pode causar através
Combined esophageal
da condutância da pele,
intraluminal impedance, pH and
PLoS One. juntamente com a Impedância
28 skin conductance monitoring Cresi et al 3
2012;7(8):e43476. multicanal intraluminal e o pH
to detect discomfort in GERD
esofágico. Conclui que o RGE
infants.
ácido e pouco ácido causam o
mesmo desconfoto.
Positioning after feedings: Adv Neonatal Care. Analisa a literatura para
29 what is the evidence to reduce Elser 2012 Jun;12(3):172- verificar as posições que 4
feeding intolerances? 5. favorecem o RGE.
Verifica a influência da
alimentação, volume, duração
Impact of feeding strategies e taxa de fluxo e densidade
on the frequency and JPEN J Parenter calórica no RGE de crianças
Jadcherla
30 clearance of acid and nonacid Enteral Nutr. 2012 disfágicas, concluindo que 3
et al
gastroesophageal reflux events Jul;36(4):449-55 a duração e o fluxo da
in dysphagic neonates. amamentação pode ser um
complemento útil para melhorar
o RGE.
Infant GERD: symptoms, reflux
Curr Gastroenterol Analisa a evolucão dos meios
episodes & reflux disease, acid
31 Orenstein Rep. 2013 diagnósticos do RGE, deteccão 4
& non-acid refllux--implications
Nov;15(11):353 dos sintomas e do tratamento.
for treatment with PPIs.
Analisa a eficácia do
tratamento do esomeprazol
Efficacy and safety of once-daily na DRGE. Constatou que não
J Pediatr. 2013
esomeprazole for the treatment Davidson interfere nos sinais e sintomas,
32 Sep;163(3):692-8. 2
of gastroesophageal reflux et al no entanto reduz a exposição
e1-2.
disease in neonatal patients. ácida do esôfago e do número
de episódios de refluxo ácido
em recém-nascidos.
Avalia a relação entre RGE e a
J Pediatr
Gastroesophageal reflux incidência de interrupções no
Machado Gastroenterol Nutr.
33 causing sleep interruptions in sono, concluindo que o refluxo 4
et al 2013 Apr;56(4):431-
infants. ácido e o não ácido causam
5.
despertares em lactentes.
Investiga se a disfagia
The incidence of oropharyngeal JPEN J Parenter orofaríngea tem uma incidência
34 dysphagia in infants with Fishbein et al Enteral Nutr. 2013 alta na doença do refluxo 1
GERD-like symptoms. Sep;37(5):667-73. gastroesofágico, concluindo
que há uma alta relação.
Investiga se a suplementação
com lactobacillus reuteri
DSM 17938 nos 3 primeiros
Prophylactic use of a probiotic meses de vida pode reduzir
in the prevention of colic, o aparecimento de cólicas,
JAMA Pediatr. 2014
35 regurgitation, and functional Indrio et al reluxo gastroesofágico e 2
Mar;168(3):228-33.
constipation: a randomized constipação em RN e reduzir
clinical trial. o impacto econômico. Mostrou
ser eficiente para os distúrbios
gastrointestinais funcionais e
redução dos custos.

Figura 3 – Informações referentes aos artigos selecionados para a pesquisa, levantados na base de
dados Bireme, os quais abordaram refluxo gastroesofágico em recém nascidos e lactentes

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Refluxo gastroesofágico e deglutição em bebês  1669
De acordo com a revisão realizada, diversos Os tipos de tratamentos que foram mais citados
exames foram utilizados para diagnosticar o RGE, foram o postural (n=4), medicamentoso (n=3) e o
no entanto, a pHmetria foi mais utilizado (n=13) e uso de fórmulas para espessamento (n=3). Os
demonstrou melhor sensibilidade e maior confiabi- tratamentos estão apresentados na Figura 6.
lidade. Os exames utilizados estão apresentados
Poucos artigos relacionaram o RGE com a
na Figura 4.
deglutição (n=2), sendo 1 publicado em revista da
Os sinais e sintomas mais relacionados com
área da fonoaudiologia e 1 na área da nutrição.
o RGE foram os problemas respiratórios (n=7),
seguido de regurgitações (n=5) e vômitos (n=4), Os achados desses estudos estão dispostos na
podendo o mesmo artigo citar mais de um sinal/ Figura 7.
sintoma, como apresenta a Figura 5.

Figura 4 – Apresentação do número de artigos em relação ao método diagnóstico utilizado para


detectar o refluxo gastroesofágico

Figura 5 – Apresentação do número de artigos nos quais foram citados os sinais e sintomas vômito,
problemas respiratórios, engasgos e outros, relacionados ao refluxo gastroesofágico

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Figura 6 – Apresentação do número de artigos nos quais foram apresentados os tratamentos

Número referência
Título do artigo Autores Resumo
bibliográfica
24 Achados fluoroscópicos da Silva-Munhoz; Encontra ausência de relação entre a presença de
deglutição: comparação entre Bühler (2011) RGE com alterações da deglutição na fase oral e
recém-nascidos pré-termo e faríngea. A incoordenação de sucção, deglutição
recém-nascidos de termo e respiração foi relacionada com a prematuridade,
assim como a dificuldade de sucção.
34 The incidence of oropharyngeal Fishbein et al. Apresenta como principais sintomas a
dysphagia in infants with (2013) incoordenação da sucção/deglutição/respiração,
GERD-like symptoms. sucção fraca, apnéia, reflexo de vômito alterado,
tosse, irritação, refluxo nasofaríngeo, tempo
aumentado de amamentação. Encontra uma alta
relação entre a disfagia orofaríngea e a doença do
refluxo gastroesofágico,

Figura 7 – Informações referentes aos artigos que abordaram a relação entre refluxo gastroesofágico
e deglutição em bebês e os achados desses estudos

„„ DISCUSSÃO O levantamento bibliográfico demonstrou que a


grande maioria das publicações encontradas (n=18)
corresponde à área médica. Houve uma diver-
A intenção desse estudo foi de pesquisar se
sidade de temas nas pesquisas médicas encon-
na literatura científica é evidenciada a influência
tradas, desde espessamento do alimento16, postura
do RGE na deglutição, visto que o RGE fisiológico
corporal13,29, diagnóstico14,31, tratamentos26,32,35 até
é comum no período neonatal e pode acarretar
exames15,19,20,22,25, entre outros.
prejuízos à saúde e ao desenvolvimento do bebê.
O exame diagnóstico mais utilizado e considerado
O RGE é considerado uma das principais causas
eficaz nos estudos encontrados 13,15,17,20,22,26,27,29-33 foi
da ida ao gastroenterologista pediátrico2.
a pHmetria esofágica, concordando com Moraes-
Foi possível observar que, com o passar dos Filho que consideram a pHmetria padrão ouro
anos, o número de publicações vem aumentando, devido a sua sensibilidade para detectar o problema
corroborando com Mooloy, Di Fiori, Martin, (2005)36 e, ainda, capacidade de proporcionar a correlação
que verificaram aumento das pesquisas sobre RGE com os sintomas encontrados nos pacientes38.
nas últimas décadas devido aos aspectos que ainda Os sinais/sintomas mais relatados nas pesquisas
não foram esclarecidos. foram os respiratórios 14,15,20,21,31-33, incluindo a queda
A maioria dos artigos encontrados buscaram de saturação, pneumonias, síndrome do bebê
correlacionar sinais e sintomas clínicos com chiador, cianose, entre outros, seguido de regur-
a verificação do RGE 14-16,22,24,27 e identificar os gitação 16,18,31,32,35 e vômito 18,21,32,33, concordado com
exames mais sensíveis para o diagnóstico do outra pesquisa2 que citou esses como principais
RGE 19,20,24,25,31. Outro objetivo, também abordado, foi sinais e sintomas clínicos.
estudar o efeito do tratamento postural para o RGE, Na pesquisa desenvolvida por Silva-Munhoz e
o que se mostrou eficiente nas duas pesquisas 13,17, Buhler24, as autoras relacionaram o sinal/sintoma
concordando com os achados da literatura 37. comparando recém-nascidos pré-termo (RNPT)

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Refluxo gastroesofágico e deglutição em bebês  1671
com recém-nascidos a termo (RNT), onde consta- prematuros relacionando a dificuldade de deglutição
taram que os RNPT apresentaram maior dessatu- com a imaturidade. Adicionalmente, um estudo40
ração, enquanto os RNT mostraram como sintoma que encontrou associação entre tais aspectos
principal o vômito. Outro item encontrado neste evidenciou a alta incidência dessa relação nos
levantamento 21,32 é o estado nutricional do bebê, bebês que apresentaram RGE. Poucas pesquisas
que em grande parte dos casos está alterado,
da área médica levantaram a possibilidade de
comprometendo o seu crescimento, corroborando
disfagia orofaríngea nessa população, sendo
com a literatura2.
escassas as referências encontradas que abordam
Drent e Pinto (2007)39, ao relacionar o RGE aos
problemas alimentares, concluíram que a presença a fase oral da deglutição ou mesmo relacionam os
do DRGE resulta em distúrbios alimentares de problemas alimentares ao RGE, evidenciando a
ordem comportamental e miofuncional orofacial, necessidade de novas pesquisas.
ocasionando a desnutrição e o déficit do cresci- Os dados encontrados na presente pesquisa
mento. Meira (1998)11 ainda relata que o RGE pode demonstraram que o tratamento do RGE deve ser
aumentar a sensibilidade intraoral, fazendo com que multiprofissional, sendo a participação do fonoau-
a criança desenvolva aversão a certos estímulos e diólogo de fundamental importância no acompa-
texturas, justificando a recusa alimentar.
nhamento das condições de sucção e deglutição,
Os estudos mostraram que a abordagem
possibilitando a obtenção de melhores resultados,
terapêutica focada em modificações na postura
reduzindo os riscos de sequelas que podem afetar
corporal 13,29 e fórmulas para modificar a consis-
tência alimentar 16,18 geram resultados positivos. o desenvolvimento global da criança.
Outros autores abordaram, ainda, o tratamento
medicamentoso 26,31,32, sendo necessário adotar „„ CONCLUSÃO
condutas cirúrgicas apenas em casos extremos.
O comprometimento da fase oral e faríngea
A revisão de literatura realizada demonstrou que
da deglutição e dificuldades na alimentação de
crianças com RGE foi considerada em apenas dois pode haver relação entre o RGE com o distúrbio da
estudos 14,24, sendo um deles publicado em revista deglutição em recém nascidos e lactentes, sendo
da área da fonoaudiologia e uma de nutrição. No que a escassez de estudos com essa temática
entanto, em um artigo24 não foi observado essa demonstrou a necessidade de mais pesquisas
relação em bebês a termo, apenas em bebês abordando os aspectos patofisiológicos envolvidos.

ABSTRACT

The so called gastroesophageal reflux is found in 25% of babies and can give rise to a variety of child
development related prejudice. The objective of this paper was to carry out a integrative review of the
literature in order to verify whether there are publications on the relation between swallowing alteration
and the gastroesophageal reflux scenario in newborns and infants. The research was based on
websites consultations, such as Bireme and PubMed. The key words used can be sumarized as
follows: gastroesophageal reflux, newborn and infant either in portuguese or english. The descriptors
were used in pairs, since their isolate use covered a lot of papers with different contents from what we
need for this specific research of interest. Papers from the last 10 years have been taken into account.
It remained 23 articles out of 1184 articles from Bireme and 1600 from PubMed analyzed from the
application of inclusion and exclusion criteria, and the overwhelming majority of those 23 articles was
related to signs, symptoms and diagnose of GER. Two of the afore-mentioned articles approached
themes as GER and swallowing, demonstrating that there is no necessarily relation between GER and
oropharyngeal dysphagia in newborns and infants, moreover, the lack of researches on these themes
demonstrates the need of new studies on pathophysiological related aspects.

KEYWORDS: Gastroesophageal Reflux; Deglutition Disorders; Infant

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1672  Puccini FRS, Berretin-Felix G

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http://dx.doi.org/10.1590/1982-021620151753615
Recebido em: 24/03/2015
Aceito em: 26/06/2015

Endereço para correspondência:


Flávia Rebelo Silva Puccini
Rua Santo Antônio, 191, sala 04, Cambuí
Campinas – SP – Brasil
CEP: 13024-230
E-mail: flavia@flaviapuccini.com.br

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