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A mobilidade como identidade: dos camaradas aos peões boiadeiros do

Pantanal de Corumbá1
Sabrina Sales Araújo2

A busca pelos termos “modo de vida pantaneiro” em revistas acadêmicas nos


leva frequentemente a pesquisas em campos como a Geografia, a Antropologia, e a
áreas preocupadas com questões ambientais. Nelas, é comum encontrarmos a
representação do modo de vida pantaneiro atrelada ao movimento e ao deslocamento
que encontram na natureza um funcionamento correlato: o movimento e o ciclo das
águas influenciam no dia a dia e na cultura dos indivíduos que estão ligados, inseridos e
contribuem com o funcionamento deste bioma3.
Por homem pantaneiro, entenda-se aqui, pessoas que residem e/ou trabalham nas
fazendas do Pantanal, em caráter permanente ou transitório, e que se autodenominam
pantaneiros4, ou ainda o elemento nativo do Pantanal ou aquele que vive há mais de
vinte anos, compartilhando hábitos e costumes típicos da região 5. Entre esses costumes,
está a condução da boiada em determinadas períodos de cheia, prática ligada à atividade
pecuária predominante nos pantanais e que necessita de uma série de conhecimentos
sobre o comportamento da natureza local, conhecimentos estes, que são comuns aos
nativos do pantanal, principalmente aos trabalhadores chamados “peões”. Existem
várias atividades que podem por eles ser exercida:
Situado no topo da hierarquia dos trabalhadores das fazendas de gado
está o capataz. É ele quem controla todas as atividades desenvolvidas
na propriedade”. Homem de confiança do patrão tem melhores
condições de vida do que os peões comuns. É sabido que existe o peão
praieiro, peão campeiro e o peão boiadeiro. Peão praieiro consiste
naquele que já possui certa idade e provavelmente algum problema de
saúde e que ainda insiste em viver no pantanal [...] desempenhando o
papel de auxílio nas sedes ou na cantina ([...] onde, normalmente a
cozinheira é a esposa do capataz ou gerente da fazenda, [na qual ela]
também é funcionária [...], fazendo limpeza de pátio, tratando animais
domésticos, entre outros serviços “leves”). O peão campeiro consiste

1Trabalho requisitado na disciplina de “Mobilidade e Antropologia: fluxos, trânsitos e territórios” do


Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
2Graduada em História pela Universidade Federal e Mato Grosso do Sul.
3a população pantaneira é importante como parte do próprio ecossistema deste bioma, uma vez que ela se
tornou responsável pela manutenção do equilíbrio ecológico. SILVA; ARAÚJO; GARCIA. Tem peoa no
Pantanal? Sim! No espaço laboral masculino há espaço para a mulher. In PEREIRA, Denise;
CARNEIRO, Maristela (Org). O Brasil dimensionado pela História. Atena, 2019, p. 356 – 367.
4BANDUCCI JUNIOR, Álvaro. A natureza do pantaneiro: relações sociais e representação de mundo no
“Pantanal da Nhecolândia”. Campo Grande -MS, Editora UFMS, 2007, p. 19.
5NOGUEIRA, Albana Xavier. O que é Pantanal. Editora Brasiliense, 1990., p. 13.
naquele que exerce a atividade de lida com o gado nas fazendas. E o
peão boiadeiro é aquele que realiza viagens conduzindo gados,
normalmente comprados em leilões ou em fazendas e sendo entregues
na fazenda do comprador.6
Atualmente, esses profissionais em sua maioria são pagos em dinheiro. De
acordo com Leite (2010), [...] os boiadeiros transportam boiadas que valem milhões [e],
recebem cerca de um salário mínimo por mês [...] e normalmente, não há contrato ou
registro de trabalho, ou seja, trata-se de um trabalho com fortes marcas de
informalidade7. De acordo com Banducci Junior (2007),
Ali [no Pantanal], não apenas práticas trabalhistas modernas,
estabelecidas em função de legislações recentes, convivem com
antigas relações de trabalho, como também regras de sociabilidade e
concepções de mundo, muito próximas daquelas existentes nas
comunidades de agricultores, podem ser visualizadas emprestando
sentido à vida daqueles indivíduos. Assim, o vaqueiro, que é um
trabalhador rural e que não possui uma ligação imediata com a terra,
cuja posse desconhece e, em muitos casos, nem mesmo reivindica,
desenvolve no Pantanal fortes relações de proximidade e identidade
com seu espaço como um todo. Inserido nos limites naturais da
planície, estabelece vínculos com a região baseados em fatores tais
como origem e valores comuns, redes de parentesco e formas próprias
de representação de mundo8.
Muitas dessas características encontradas no peão ou no vaqueiro pantaneiro têm
relação com a constituição de um traço de sua identidade desde o período de
povoamento e ocupação da região, quando houve a formação dos latifúndios e a
atividade agropecuária gradativamente ocupou o posto de principal atividade econômica
local que foi quando também, assentou-se o lugar do trabalhador livre. No caso do
pantanal sul mato-grossense, especificamente na região da cidade de Corumbá, esses
trabalhadores surgem junto ao processo de povoamento do então Sul de Mato Grosso,
ocorrido ao longo do século XVIII e XIX. Neste período eles eram chamados de
“camaradas”.
De acordo com Sena (2013) “camarada” é um termo advindo do contexto militar
que quer dizer proximidade e companheirismo e que foi trazido para as relações de
trabalho firmadas entre duas partes. No período oitocentista, passou a designar a
ocupação de um homem que vivia de “ajustes”, isto é, que trabalhava temporariamente
ou permanentemente para outra pessoa em troca de soldo diário, semanal, mensal, anual
ou por jornada ou ainda pagamentos parciais em moradia, alimentação e instrumentos

6SILVA; ARAÚJO; GARCIA. Op cit., p. 358.


7LEITE, Maria Olivia Ferreira; FURLAN, Sueli Ângelo. Comitiva de boiadeiros no Pantanal Sul-Mato-
Grossense: modo de vida e leitura da paisagem. In VI Seminário Latino-Americano de Geografia Física e
II Seminário Ibero-Americano de Geografia Física, Universidade de Coimbra, mai/2010, p. 5.
8BANDUCCI JUNIOR, Álvaro. Op cit., p. 12.
de trabalho9. Essa categoria social pertenceu a classe de pobres e trabalhadores livres e,
na sociedade mato-grossense escravocrata do século XVIII, caracterizada pela
miscigenação, esses trabalhadores podiam ser brancos, mestiços, negros alforriados,
crioulos, pardos, mulatos, indígenas e estrangeiros10 - que na região estudada eram
principalmente paraguaios e bolivianos.
Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997), integrante da chamada Escola de
Sociologia Paulista em seu clássico Homens livres na ordem escravocrata que se
tornou referência no estudo desta categoria social, analisou a constituição dos homens
livres e pobres no Oeste paulista a partir da instalação da exploração econômica da terra
com a produção do café. Para ela, antes disso ocorrer, havia uma condição de
indistinção social que foi sendo aos poucos modificada e os homens livres, “indivíduos
dispensáveis” numa sociedade escravocrata foram se definindo através das atividades
que, naquela sociedade podiam exercer. Para a autora, eles estabeleciam relações de
trabalho diversas, mas aqueles conhecidos como agregados e camaradas, sobretudo os
que entravam em um ciclo de endividamento mediante o adiantamento de salários,
passavam a demonstrar “simples incapacidade de tomar decisões autônomas”, tendo a
partir de então como marca a anomia social.
Contrariamente a essa noção de que tal como os escravos, a categoria dos pobres
livres - entre eles, os camaradas - caíam frequentemente nas amarras do domínio dos
senhores, Sena (2013) argumenta que, apesar de isso ocorrer, era justamente a liberdade
e a recusa aos trabalhos desfavoráveis e do controle das elites, que essa classe causava
receio aos proprietários que buscavam, por sua vez, manipular a opinião e as leis de
forma a fixa-los, limitando sua circulação e impondo a disciplina por meio do trabalho.
Por isso, os camaradas exerciam atividades diversas, especializadas ou não como
condutores de carga, vaqueiro, remador, trabalhador de lavoura, capataz, guia, ferreiro e
carpinteiro11, atividades essas que eram frequentemente exercidas a partir do
estabelecimento de contratos formais curtos e bem determinados ou preferencialmente
através de contratos informais, pois receava-se a proximidade à escravidão que a
prestação de serviços mais duradoura poderia ter12.

9SENA, Divino Marcos de. Livres e pobres no centro da América do Sul um estudo sobre os camaradas
(1808-1850). Dourados - MS: Ed. UFGD, 2013., p. 70.
10Ibid, p. 50.
11Ibid., p. 74.
12O trabalho regular, sistemático era identificado por parcela da população livre como trabalho cativo.
Sendo assim, alguns dos indivíduos livres se recusavam a se submeter a ele. Ibid., p. 75.
Assim, Sena (2013) coloca em prática uma análise que não vincula
necessariamente essa categoria social no interior da grande propriedade, como indica a
inúmeras críticas a essa noção13 e nos apresenta um trabalhador livre e pobre vivendo e
interagindo com uma sociedade escravista, na qual o seu principal traço é a liberdade,
que indica o seu não pertencimento à condição de cativo. Nessa perspectiva, o camarada
adota a mobilidade espacial como estratégia de manutenção dessa condição.
Essa abordagem interpretativa de Sena (2013) traz a marca de uma mudança que
afetou os estudos sociais de maneira decisiva desde meados de 1970 e contribuiu para a
abertura de novas temáticas e novos focos analíticos. Na História essa mudança se
intensificou justamente pela aproximação à disciplina de Antropologia 14 em proveito à
chamada “história vista de baixo”, ou a história das pessoas comuns, quando a história
social foi transformada em uma espécie de antropologia cultural retrospectiva 15. Desde
então, produziu-se exames refinados sobre a resistência, a acomodação 16 e agencia e a
mobilidade passou a ser uma chave interpretativa importante para analisar esses
processos dentro das relações sociais.
Sobre as diferentes formas de concepção da mobilidade e do movimento
Carneiro e Dainese (2015) concluem que há [...] modos de vida baseados em práticas e
formas diferenciadas de deslocamento, e que o tem como um princípio organizador
fundamental [...]17. No caso dos camaradas, a preservação de sua liberdade através da
mobilidade foi peça fundamental para a manutenção de sua autonomia em um contexto
em que as relações de trabalho, poderiam o conduzir para as amarras dos senhores.
Entre os diferentes tipos de peões pantaneiros os boiadeiros ou vaqueiros, que
fazem o transporte das rezes talvez sejam os que mais se aproximam dos camaradas na
maneira com a qual se utilizam da mobilidade e da liberdade em seu cotidiano. Sua
autonomia é traduzida no domínio que possuem do trabalho, e principalmente, em sua
tradição de mobilidade, traço inerente [...] que aparece como um mecanismo eficiente
de negociação ou “barganha” frente aos proprietários de terras para os quais prestam

13Entre os críticos dessa concepção está o historiador Boris Fausto. Cf In FAUSTO, Boris. Um mundo
em ruínas. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/9/07/mais!/23.html
14GOMES, Ângela de Castro. Questão social e historiografia no Brasil do pós -1980: notas para um
debate. In Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 34, jul-dez/2004, p. 157-186.
15SHARPEN, Jim. A história vista de baixo. In BURKE, Peter (Org). A escrita da história: novas
perspectivas, Editora Unesp, São Paulo, 2011, p. 55.
16GEORGE E. Marcus. Ethnography in/of the world system: the emergence of multi-sited Etnography.
In Annual Review of Anthropology, v. 24, 1995, p. 96.
17CARNEIRO, Ana; DAINESE, Graziele. Notas sobre diferenças e diferenciações etnográficas do
movimento. In Ruris, v.9, n. 1, mar/2015, p. 147.
serviço, já que o peão se coloca como homem livre e nada o obriga a permanecer numa
mesma propriedade.18
Diante de mudanças nas relações de trabalho19 no campo e a interferência de
outros formas de transporte do gado no Pantanal20, o peão ainda se utiliza da sua
mobilidade para estender relações e base de apoio no espaço social em que habita. De
acordo com Banducci Junior (2007)
A mobilidade apenas adquire o sentido pleno de negociação na
medida em que, por seu intermédio, os peões podem estender as suas
redes de relações através das fazendas e assegurar uma base de apoio
social junto a seus pares. Quando se deslocam de fazenda em fazenda
[...] estendem através delas suas redes de parentesco e compadrio e
com elas as redes de solidariedade. A mobilidade apresenta, assim, um
duplo aspecto: reforça a autonomia e individualidade dos peões
perante a fazenda e possibilita a expansão dos laços coletivos. No
instante em que conduz ao movimento, permite que o peão se fixe
num lugar: o espaço social pantaneiro21.
Ao longo do século XVIII e XIX, o convívio com a escravidão desenvolveu em
parcela dos homens livres e pobres, mecanismos de manutenção da sua liberdade e
mobilidade diante da classe dominante, dos senhores. Esses mecanismos que se
reverteram em um traço singular da identidade desta categoria social do peão boiadeiro
do Pantanal atua ainda hoje com um sentido muito semelhante: a liberdade do seu
trabalho e do seu modo de vida é o que lhe garante condições de negociar e de
barganhar com os seus contratantes e também o método utilizado para a sua fixação ao
seu espaço social, que ocorre por meio do estabelecimento de relações sociais diversas
entre as fazendas.
Tais características do homem pantaneiro só puderam emergir em estudos
acadêmicos quando optou-se por criticar teorias e visões que enrijeciam em demasia as
posições e as relações sociais, estabelecendo firmemente os lugares e comportamentos
de dominadores e dominados. Foi quando escolheu-se analisar as relações sociais
partindo de realidades menores – o que propiciou a identificação de comportamentos
sutis, fincados no cotidiano que não revertia, mas ao menos flexibilizava a atuação das
diferentes categorias sociais em suas relações, permitindo identificar conflitos,
negociações, resistências e novos modos de exercer o domínio sobre o outro. A luz
18BANDUCCI JUNIOR, Álvaro. Op cit., p. 82-83.
19Para Banducci Junior (2007) a inserção do salário mínimo e o nivelamento por baixo trouxe
insatisfação para os peões. No Pantanal essas novas relações e regulamentações convivem com acordos e
relações costumeiras.
20LEITE, Maria Oliveira Ferreira; FURLAN, Sueli Ângelo. Comitiva de boiadeiros no pantanal sul mato
grossense: modo de vida e leitura da paisagem. In VI Seminário Latino Ameircano de Geografia Física e
II Seminário Ibero-Americano de Geografia Física. Universidade de Coimbra, mai, 2010, p. 4.
21BANDUCCI JUNIOR, Ávaro. Op. cit., p. 83.
dessas novas perspectivas, o movimento se converteu em uma importante chave
analítica para compreender os comportamentos e o seu sentido para os grupos e
indivíduos observados, como o peão boiadeiro pantaneiro que preza e dá novos sentidos
a sua liberdade e mobilidade – traços que fizeram e fazem parte da sua constituição
social.
Entende-se por fim que a mobilidade, muito vinculada às imposições do espaço
geográfico local - e que é de extrema importância para a atividade econômica do peão
boiadeiro - tem para além da geografia e da atividade econômica, significados sociais
que servem aos propósitos dos peões boiadeiros que os utilizam no cotidiano para
estabelecer relações diversas e negociar ou barganhar com os que contratam os seus
serviços.

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