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CLASSIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA DOS CRIMES

Não há uma classificação legal de crimes. Portanto, a classificação


apresentada é elaborada pela doutrina.

Observe que cada classificação leva em conta um aspecto do crime.

Então temos:

MOMENTO CONSUMATIVO: Instantâneo (consumação ocorre em só


instante, sem continuidade temporal); ex.: 121, 213, ambos do CP; permanente (o
momento consumativo se prolonga no tempo por vontade do agente) ex.: 148 do
CP; Esta classificação terá grande importância na análise da situação flagrancial
(vide art. 303 do CPP), no tempo do crime (art. 4.º do CP) e na prescrição (art. 111,
II, do CP).

MEIO DE EXECUÇÃO: comissivo (praticado através de uma ação) ex: 121,


129 ambos do CP; omissivo (através de uma abstenção); este último pode ser
próprio (se perfaz com a simples abstenção) ex.: 135, 269 ambos do CP; ou
impróprio (o agente, por omissão inicial, dá causa a um resultado posterior, que ele
tinha o dever jurídico de evitar) ex. 121, 129 ambos do CP;
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RESULTADO DO CRIME COMO CONDICIONANTE: materiais (o tipo


descreve uma ação e um resultado, e exige a ocorrência deste para a consumação
do crime) ex.: 121, 171; formais (o tipo descreve uma ação e um resultado, não
exigindo a ocorrência deste para consumação do crime) ex.: 138/140, 147, 158, 159
todos do CP; de mera conduta (o tipo descreve apenas uma conduta) ex.: 150, 233,
269, 320 todos do CP;

EM RELAÇÃO AO SUJEITO ATIVO: comum (pode ser praticado por qualquer


pessoa) ex: 121, 129, 155, 157 todos do CP; próprio (só pode ser cometido por
determinada categoria de pessoas, pois o tipo penal exige certa qualidade ou
característica do sujeito ativo) ex.: 123, 317 ambos do CP; de mão própria ou
atuação pessoal (a conduta descrita tipo penal só pode ser executada por uma única
pessoa e, por isso, não admitem a co-autoria – mas admite participação) ex.: 342 do
CP, 309 do CTB;

REFERE-SE AO NÚMERO DE ATOS DA EXECUÇÃO DO CRIME:


unissubsistente (a ação é composta por um só ato – por isso não admite tentativa)
ex.: injúria verbal, violação de domicílio na modalidade permanecer;
plurissubsistente: (a ação é representada por vários atos, formando um processo
executivo que pode ser fracionado – admite tentativa); ex. 121, 155, 157 todos do
CP;

RELACIONA-SE COM O GRAU DE OFENSA AO BEM JURÍDICO


TUTELADO: de dano (pressupõe uma efetiva lesão ao bem jurídico tutelado) ex.:
121, 130, § 1.º, 131, 155, 157 todos do CP. de perigo (consuma-se com a mera
situação de risco a que fica exposto o objeto material do crime); ex.: 130, caput, 132,
137 todos do CP; 306 e 309 do CTB.
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REFERE-SE AO BEM JURÍDICO TUTELADO: simples (protege apenas um


bem jurídico) ex.: 121, 155 ambos do CP; complexos (tutela dois ou mais bens
jurídicos) ex.: 159, 158, 157, § 3.º todos do CP;

Crimes de ação múltipla ou conteúdo variado: a lei descreve várias condutas;


ex.: 122 do CP, 33 da Lei 11343/06, arts. 14 e 16 da Lei 10826/03.

Crime habitual: é a reiteração da mesma conduta reprovável, de forma a


constituir um estilo ou hábito de visa; ex.: 284, 229, 230 todos do CP; o ato isolado é
atípico.

Crime vago: é o que tem por sujeito passivo entidades sem personalidade
jurídica, como a família, o público ou a sociedade; ex.: 233 do CP.
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PARTE ESPECIAL DO CP

1) INTRODUÇÃO

A parte especial do CP destina-se, em regra, a descrever infrações penais e


impor penas (normas penais incriminadoras). Em regra porque também há normas
penais permisssivas – prevêem a licitude ou a impunidade de determinados
comportamentos, apesar de se enquadrarem na descrição típica - (art. 128 do CP) e
complementares ou explicativas – esclarecem outras normas ou limitam o âmbito de
sua aplicação - (art. 327 do CP).

Está dividida em títulos e capítulos levando em consideração a objetividade


jurídica (bem jurídico que a lei pretende tutelar quando incrimina determinada
conduta). Exemplo: contra a pessoa (vida, integridade física etc.); patrimônio,
propriedade imaterial etc.

2) CRIMES CONTRA A PESSOA

Tratados em 6 capítulos. De crimes contra a vida (art. 121 do CP) até os


crimes contra a liberdade individual (art. 154 do CP).

OBS.: Em determinados casos, protege também a pessoa jurídica, como é o


caso da difamação (art. 139 do CP).

3) CRIMES CONTRA A VIDA

Visam proteger a pessoa humana desde sua formação (intra e extra-uterina).


Exemplo: homicídio, participação em suicídio, infanticídio, aborto.

São quatro: homicídio (art. 121), auxílio, induzimento ou instigação ao suicídio


(art. 122) infanticídio (art. 123) e abortamento (art. 124 a 128).
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OBS.: Quando dolosos são julgados pelo Tribunal do Júri (art. 5.º, XXXVIII, d,
da CF/88).

HOMICÍDIO (ver artigo e parágrafos)

1) CONCEITO
É a eliminação da vida humana extra-uterina praticada por outra pessoa. (dif. de
abortamento).

2) OBJETIVIDADE JURÍDICA
Vida extra-uterina. A lei protege a vida desde o início do processo da
existência do ser humano, com a formação do ovo, e estende-se até seu final quando ela se
extingue. Mas o crime de homicídio limita-se à supressão da vida somente a partir do início
do parto (que ocorre com o rompimento do saco amniótico), ou seja, quando um novo ser
começa a tornar-se independente do organismo materno. A eliminação da vida, antes desse
momento, será crime de aborto.
O bem jurídico vida é público e indisponível. Portanto, é irrelevante o
consentimento do sujeito passivo (mesmo que esteja acometido de uma doença terminal, isto
porque a lei protege a vida da pessoa e não a vitalidade ou capacidade de sobreviver;
Eutanásia é crime de homicídio). A pessoa tem direito à vida e não sobre a vida.
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3) SUJEITO ATIVO E PASSIVO


Sujeito ativo é quem pratica o fato descrito na norma penal incriminadora. O sujeito
passivo é o titular do bem jurídico ofendido pela conduta criminosa.
Pode ser praticado por qualquer pessoa, por isso classifica-se como crime comum (não
exige qualquer qualidade especial do sujeito ativo);
Qualquer pessoa também pode ser sujeito passivo.

4) QUALIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA
É crime comum, simples, de dano, ação livre, instantâneo, material;

5) ELEMENTOS OBJETIVOS, SUBJETIVOS E NORMATIVOS DO TIPO


A descrição típica do homicídio é concisa e inequívoca. Verbo e objeto. Matar:
eliminar a vida de outrem. Alguém: significa ser humano vivo que não o agente. Pode ser
cometido por qualquer forma (não é de forma vinculada). Pode ser por ação ou omissão.

Observar o conflito aparente de normas entre os arts. 121 e 157, § 3.º, in fine, do CP,
solucionado pelo princípio da especialidade. A norma especial (art. 157, § 3.º, in fine), fasta o
norma geral (art. 121).

A conduta pode assumir as mais variadas formas. Como já foi observado acima, o
homicídio é crime de ação livre, podendo ser praticado através de quaisquer meios.

Os meios de execução do homicídio podem ser direito, indireto, material ou moral.


Diretos – todos os meios materiais que são diretamente idôneos para causar o
resultado morte, são os que atingem a integridade física (como acionar o gatilho, aplicar
veneno, utilizar fogo, descarga elétrica).
Indiretos – os empregados com outras causas acionadas por ato do autor, que não
o contato direto com a vítima (ex: atrair pessoa para um abismo, para uma lugar onde há a
possibilidade dela receber uma descarga elétrica).
Morais ou psíquicos – os que exercem uma ação psíquica sobre a vítima (ex:
Caio, com a intenção de matar Tício, cardíaco, comunica-lhe a morte trágica de seu filho
Mévio).

Pode ser cometido por intermédio de conduta comissiva ou omissiva.


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Comissiva, como desfechar tiros na vítima ou feri-la a facadas;


Omissiva (comissiva por omissão), sempre que o sujeito ativo tenha uma posição
de garantidor diante da morte do sujeito passivo em razão de um dever legal ou contratual ou
na criação de um risco, quando poderia ter evitado o resultado. (ex: deixar a mãe de alimentar
o filho para matá-lo).

O homicídio pode ser doloso ou culposo. Dolo (vontade de concretizar os elementos


objetivos do tipo) vontade de concretizar o fato de matar alguém; não exige fim específico,
que poderá qualificá-lo ou ser causa de diminuição de pena (ex.: §§ 1.º e 2.º). Admite-se o
dolo eventual.

6) CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
Consuma-se com a morte (cessação da atividade encefálica – art. 3.º da Lei 9334/97)
da vítima. É diferente da cessação da atividade cerebral, respiratória ou cardíaca.
Admite-se a tentativa, pois sua execução pode ser fracionada (crime plurissubsistente).
Iniciada a execução, não se consumando o crime por circunstâncias alheias à vontade do
agente, teremos a tentativa (art. 14, II, do CP). Percebam que é importante fixarmos o
momento em que se inicia a execução do crime, pois somente a partir daí teremos a punição
do agente. O início da execução do crime de homicídio deve ser analisado em cada caso.
Vejam alguns exemplos: ARMA DE FOGO: inicia-se a execução com o puxar do gatilho;
ARMA BRANCA: inicia-se a execução quando o agente desfere o primeiro golpe.
PEDRADA: com o arremesso; etc.

7) DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA E ARREPENDIMENTO EFICAZ


Pode haver Desistência Voluntária e Arrependimento Eficaz no homicídio. Ver art. 15
do CP. A DV consiste numa abstenção de atividade, o agente cessa seu comportamento
delituoso. Já o AE ocorre quando o agente, tendo já ultimado o processo de execução do
crime, desenvolve nova atividade impedindo produção do resultado. Exemplos: DV – agente
que tendo 10 munições no carregador da pistola dá apenas um tiro (querendo matar) e desiste
voluntariamente, sendo que podia prosseguir, mas desistiu; também tinha conhecimento que a
vítima não fora atingida de forma mortal; AE – agente que (querendo matar) coloca veneno na
comida da vítima, que a ingere; após o agente se arrependo voluntariamente ministra antídoto
para a vítima que sobrevive; Atenção: os exemplos de disparos com arma de fogo devem, no
caso concreto, sempre ser analisados com cautela.
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8) FIGURAS TÍPICAS DO HOMICÍDIO


Homicídio SIMPLES – caput;
Homicídio PRIVILEGIADO - § 1.º; especial em relação ao caput
Homicídio QUALIFICADO - § 2.º; especial em relação ao caput

9) HOMICÍDIO SIMPLES
Será homicídio simples se não houver circunstâncias que o torne privilegiado ou
qualificado. Por exclusão.

10) ATIVIDADE TÍPICA DE GRUPO DE EXTERMÍNIO


Trata-se de um homicídio simples que a Lei o qualificou como crime hediondo (art.
1.º, I, da Lei 8072/90 com redação dada pela Lei 8930/94). Grupo pode ser formado por, no
mínimo, duas pessoas, admitindo-se, ainda, que somente uma delas execute a ação.
Extermínio é matança generalizada, impessoal (pouco importa a unidade ou pluralidade de
vítimas), pelo simples fato de pertencer (em) a um grupo específico de pessoas, pouco
importando estejam ligadas por um laço racial ou social, sendo suficiente que estejam
ocasionalmente vinculadas. Ex.: Vigário Geral, Candelária.
Teoricamente, pode-se admitir homicídio simples praticado em atividade típica de
grupo de extermínio. Porém, na prática será qualificado por uma das circunstâncias dos
incisos I, II e IV, da § 2.º do art. 121 do CP.

11) HOMICÍDIO PRIVILEGIADO


Ver § 1.º do art. 121. A lei não define como homicídio privilegiado (a doutrina assim
o denomina), mas causa de redução de pena (natureza jurídica).
O termo PODE não faculta o juiz a reduzir ou não a pena. Ocorrendo a circunstância
prevista, DEVE o juiz reduzir a pena. (júri).

RELEVANTE VALOR SOCIAL – diz respeito a interesses da coletividade. Ex.:


matar o traidor da pátria.

RELEVANTE VALOR MORAL – diz respeito a interesses individuais, particulares


do agente, entre eles os sentimentos de piedade e compaixão. Exemplo é a eutanásia; que é o
homicídio compassivo, misericordioso ou piedodo. Na eutanásia, elimina-se a vida da vítima
com o intuito de poupá-la de intenso sofrimento e acentuada agonia. outro exemplo: pai que
mata o estuprador da filha.
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DOMÍNIO DE VIOLENTA EMOÇÃO, LOGO EM SEGUIDA A INJUSTA


PROVOCAÇÃO – Ex.: flagrante adultério, xingamento etc.
São requisitos desta causa de redução de pena:
a) emoção violenta – Em regra a emoção não exclui a imputabilidade (que por sua vez
excluirá a culpabilidade – elemento do crime); mas aqui, desde que presentes os
demais requisitos legais, implica em redução de pena; podemos conceituar emoção
como sendo um estado súbito e passageiro de instabilidade psíquica. É a perturbação
transitória da afetividade. Abrange a paixão, que constitui um estado emocional
intenso e permanente.
b) Injusta provocação do ofendido – é necessário que a vítima tenha somente
provocado o sujeito ativo. A provocação é qualquer conduta injusta capaz de provocar
a violenta emoção. A provocação injusta é aquela segundo o consenso geral, capaz de
justificar a cólera, a indignação e a repulsa do agente. Se a provocação for justa não
ocorrerá a circunstância que justifique o privilégio como se dá, por exemplo, no caso
do locatário que mata o locador por ter movido ação de despejo Se houver agressão
injusta, poderá configurar legítima defesa, se acompanhada dos outros requisitos da
excludente de ilicitude, previstos no art. 25 do CP
c) Reação imediata – o CP exige imediatidade entre a provocação injusta e a conduta do
sujeito. É indispensável que o fato seja cometido “logo em seguida” a injusta
provocação, significando quase imediatidade. Um homicídio cometido horas ou dias
depois da provocação injusta não é privilegiado. OBS.: a reação imediata tem como
referência o momento que o agente tomou conhecimento da provocação e não do
momento em que efetivamente ocorreu a provocação.
d) Situação de domínio pela emoção – faz-se necessário que o agente esteja em total
descontrole emocional em razão da injusta provocação.

OBS.: difere da atenuante genérica prevista no art. 65, III, c, do CP (§ 1.º - domínio;
reação imediata; art. 65 – influência, não exige que seja imediato).

OBS.: O § 1.º do art. 121 do CP trata de circunstâncias subjetivas (que são aquelas
circunstâncias que só dizem respeito com a pessoa do participante, como os motivos
determinantes, suas condições ou qualidades pessoais e relações com a vítima ou com os
outros concorrentes). Desta forma, por força do art. 30 do CP, não se comunicam ao co-autor
ou partícipe.
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12) HOMICÍDIO QUALIFICADO (ver § 2.º)


Didaticamente, podemos dividir as circunstancias qualificadoras em 4 espécies:
QUANTO AOS MOTIVOS (incisos I e II), QUANTO AOS MEIOS EMPREGADOS (inciso
III), QUANDO AO MODO DE EXECUÇÃO (inciso IV) e POR CONEXÃO (inciso V).

QUANTO AOS MOTIVOS:


1) Mediante paga ou promessa – pode ser qualquer vantagem, econômica ou não. Na
paga, há a entrega da vantagem antes da realização do homicídio. Na promessa, não há
pagamento antes do homicídio, mas apenas uma promessa para pagamento após a
execução do crime. Neste caso, não precisa ser cumprida.
2) Motivo torpe – motivo vil, repugnante, que demonstra depravação moral. Ex.: matar
por inveja, por herança, para vender caixões; (enfermeiro do Salgado Filho).
3) Motivo fútil – motivo de pequena importância, insignificante, desproporção entre a
causa e o crime. Matar a mulher que queimou o feijão. Matar o marido que deixou a
toalha molhada sobre a cama. Matar simplesmente porque a pessoa era torcedor de
determinado crime. Atenção: matar por causa de discussão pode não configurar
motivo fútil, pois a discussão normalmente é que tem início por motivo fútil; já o
homicídio teve como motivo a discussão, que poderá não caracterizar o motivo fútil.

QUANTO AOS MEIOS EMPREGADOS:


1) veneno – substância química ou biológica; deve ser inoculado sem que a vítima
perceba. Se for com violência – será considerado meio cruel.
2) Fogo -
3) Explosivo –
4) Asfixia – impedimento da função respiratória.
5) Meio insidioso – é o uso de armadilha ou de uma fraude para atingir a vítima sem
que ela perceba que está ocorrendo um crime. Ex.: sabotar o freio de veículo ou o
motor do avião.
6) Qualquer meio que possa provocar perigo comum – além de provocar a morte da
vítima, o meio usado pelo agente tem o potencial de causar situação de risco à vida
ou integridade corporal de número indeterminado de pessoas. Ex.: desabamento,
inundação, disparos no meio da multidão;
7) Tortura ou qualquer outro meio cruel – meio cruel, que pode ser física ou moral.
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OBS.: Ver Lei de tortura (Lei 9455/97). Na Lei de Tortura, o crime é preterdoloso;
dolo no antecedente – tortura – e culpa no conseqüente - resultado morte. Diferença:
aqui, no art. 121, § 2.º, do CP, o agente tem a vontade de matar, usando a tortura como
meio. Portanto, na Lei de Tortura a morte é a título de culpa. Veja que a pena
cominada, inclusive, é menor.

QUANTO AO MODO DE EXECUÇÃO


1) Traição – há uma quebra da confiança depositada pela vítima no agente, que desta
se aproveita para matá-la. Ex.: durante ato sexual;
2) Emboscada – é a tocaia; o agente aguarda escondido a passagem da vítima por
determinado local para matá-la.
3) Dissimulação – uso de recurso qualquer para enganar a vítima, visando possibilitar
uma aproximação para que o agente possa executar o crime; ex.: age com falsas
mostra de amizade; disfarce; sujeito se disfarça de carteiro, mata mosquito,
funcionário da LIGHT, CERJ, Telemar, policial etc. para conseguir entrar na casa
da vítima e mata-la; Lembrem-se do caso maníaco do parque – SP;
4) Qualquer outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima – é a
surpresa. Ex.: disparo pelas costas; vítima dormindo;
POR CONEXÃO:
1) Teleológica – para assegurar a execução de outro crime; Primeiro pratica o
homicídio, depois o outro crime; ex.: matar empregada para seqüestrar a criança;
matar o segurança para seqüestrar o empresário.
2) Conseqüencial - para assegurar a ocultação (descoberta do crime), impunidade (só
autoria é desconhecida, o crime não) ou vantagem de outro crime. É o contrário da
teleológica. Primeiro comete o outro crime, depois o homicídio. Ex.: ocultar –
matar o auditor que fazia uma fiscalização nas contas de uma empresa que estava
prestes a descobrir desvio de dinheiro/estelionato; impunidade – matar testemunha
de crime anterior que o agente cometeu; vantagem – matar o comparsa do crime de
estelionato, para ficar com todo o dinheiro obtido.
OBS.: homicídio praticado para assegurar a execução/ocultação/impunidade/vantagem
de contravenção. Não incide a qualificadora no inciso V (exige que seja para assegurar
a execução/ocultação/impunidade/vantagem de CRIME). Poderá, entretanto,
configurar as circunstâncias previstas nos incisos I ou II, conforme o caso.
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OBS.: Observar o conflito aparente de normas entre os arts. 121, § 2.º, V, e 157, § 3.º,
in fine, do CP, solucionado pelo princípio da especialidade. A norma especial (art.
157, § 3.º, in fine), fasta o norma geral (art. 121, § 2.º, V).

13) HOMICÍDIO PRIVILEGIADO – QUALIFICADO


A doutrina e a jurisprudência admitem o homicídio privilegiado – qualificado, desde
que as circunstâncias não sejam incompatíveis. As circunstâncias do privilegiado são sempre
subjetivas (tem haver com o motivo do crime) enquanto que as circunstâncias do qualificado
são subjetivas ou objetivas. Desta forma, poderá haver homicídio privilegiado qualificado por
quaisquer das circunstâncias objetivas (incisos III e IV).
O problema maior é saber se é hediondo ou não. Há divergência. Uns sustentam que
não argumentando com o art. 67 do CP. Porém, outros sustentam que sim, alegando que a
LCH não faz qualquer ressalva. Há julgados no sentido de que não é hediondo.

14) CAUSA DE AUMENTO DE PENA NO HOMICÍDIO DOLOSO


O § 4.º do art. 121 do CP prevê uma causa de aumento de pena (1/3) quando o
HOMICÍDIO DOLOSO é praticado contra pessoa menor de 14 anos ou maior de 60 anos.
OBS.: a última parte (ou maior de 60 anos) foi acrescentada pelo Estatuto do Idoso
(Lei 10741/03).

15) HOMICÍDIO CULPOSO


Previsto no art. 121, § 3.º, do CP. Ver redação do artigo. Verifique-se que o tipo é
aberto (toda classe de causação do resultado é típica).
CRIME CULPOSO (vide art. 18 do CP): por exclusão, o agente não quer o resultado,
nem assume o risco de produzi-lo;
CONCEITO: é aquele resultante da inobservância de um cuidado necessário,
manifestada na conduta produtora de um resultado objetivamente previsível, através de
imprudência, negligência ou imperícia.
ELEMENTOS: a) conduta culposa (que inobserva um dever de cuidado – que o
elemento seguinte);
b) dever de cuidado (este dever tem como parâmetro o homem prudente e de
discernimento) – por isso dizemos que o crime culposo é crime de tipo aberto – toda
classe de causação é considerada conduta típica;
c) resultado naturalístico (no mundo das coisas);
d) previsibilidade (objetiva).
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MODALIDADES CULPOSAS:
a) Imprudência – consiste na violação das regras de conduta ensinadas pela
experiência. Ex: manifesta é a imprudência de quem, não sabendo lidar com arma, provoca
disparo da mesma matando pessoa que se achava próxima.
b) Negligência – consiste na ausência de cautela ou revela indiferença em relação ao
comportamento realizado. Ex: age negligentemente a mãe que não retira da mesa, ao redor da
qual brincam crianças, o inseticida, vindo uma delas a ingeri-lo e falecer.
c) Imperícia – consiste na falta de aptidão para o exercício de arte ou profissão. Ex:
engenheiro constrói casa sem alicerces suficientes.

ESPÉCIES DE CULPA: a) inconsciente – é aquela em que o agente não prevê o


resultado que, entretanto, era objetivamente e subjetivamente previsível; Ex.: o agente não
prevê que o resultado pode ocorrer embora seja previsível para o homem prudente; b)
consciente – o agente prevê o resultado e espera sinceramente que ele não ocorra; ex.: numa
caçada, o agente observa um animal próximo ao seu amigo, prevê que se atirar pode atingir
seu amigo, mas acredita que não acertará seu amigo pois é ótimo atirador; atira e acerta seu
amigo causando-lhe a morte.
OBS.: a culpa consciente é diferente de dolo eventual (art. 18, I, do CP), em que o agente
prevê o resultado, mas não se importa que ele ocorra. Para ele é indiferente. Assume o risco
em produzi-lo, havendo um assentimento no resultado. Na culpa consciente, o agente espera
sinceramente que o resultado não ocorra.

A doutrina ainda apresenta outra classificação de culpa em: culpa própria: é aquela em que o
agente não quer nem assume o risco de produzir o resultado; culpa imprópria (também
conhecida como culpa por extensão, assimilação, equiparação): é aquela em que o resultado é
previsto e desejado pelo agente, que age em erro de tipo vencível (inescusável). OBS.: a culpa
imprópria, na verdade, é um comportamento doloso que o legislador pune a título de culpa,
porque a pessoa incidiu em erro de tipo permissivo vencível. Art. 20, § 1.º, in fine, do CP.

Neste caso, fala-se em tentativa de homicídio culposo.

OBS.: Não se admite no direito penal a compensação de culpas. Se a vítima e o agente


agiram sem observar o dever de cuidado, vindo aquela morrer, responderá o agente por
homicídio culposo. Diferente ocorre quando a culpa é exclusiva da vítima, não havendo
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qualquer inobservância de dever de cuidado por parte do agente que atuou. Exemplo:
condutor que trafega normalmente pela avenida Brasil (velocidade compatível para o local,
veículo em perfeitas condições, atento às condições do trânsito) atropela e mata pessoa que
tentava atravessar a via de forma repentina.
OBS.: É possível concorrência de culpas. Duas ou mais pessoas inobservaram o dever
de cuidado, vindo, com suas condutas, a dar causa a morte de alguém. Responderão (todas)
por homicídio culposo. Ex.: Dois motoristas que agem imprudentemente (um em alta
velocidade e outro mudou de faixa sem observar o trânsito e sem sinalizar) causam a morte da
vítima. Ambos respondem pelo homicídio culposo da Lei 9503/97, pois ambos inobservaram
um dever de cuidado.

17) CAUSA DE AUMENTO DE PENA NO HOMICÍDIO CULPOSO


Aumenta-se a pena de 1/3, presentes as circunstâncias previstas no art. 121, § 4.º, 1.ª
parte, do CP. Observe que quando o agente que deixar de prestar socorro não for o causador
do resultado, responderá pelo crime do art. 135 do CP.

18) HOMICÍDIO CULPOSO DE TRÂNSITO


Previsto no art. 302 da Lei 9503/97. É um tipo penal remetido, pois remete a outro tipo
a descrição da conduta típica. É especial em relação ao homicídio culposo do CP, pois o
primeiro apresenta um elemento especializante na sua descrição típica, qual seja, na direção
de veículo automotor. Desta forma, o art. 302 da Lei 9503/97 (especial) afasta a incidência do
art. 121, § 3.º, do CP (geral).
Atenção: o crime previsto no art. 302 do CTB é culposo. Logo, se uma pessoa,
dirigindo um veículo automotor, com vontade de matar, projeta o veículo sobre uma pessoa
que vem a morrer, responderá por homicídio doloso do CP. O veículo foi o instrumento do
homicídio doloso.

19) PERDÃO JUDICIAL


Previsto no art. 121, § 5.º, do CP.
Tem aplicação quando o próprio agente causador do resultado (de forma culposa)
sofre intensamente as circunstâncias de seu ato. Ex.: causador que agiu culposamente ao dar
resultado a morte de alguém, tem também uma pessoa querida vítima fatal no acidente ou
sofre graves lesões.
Natureza jurídica: causa extintiva da punibilidade (súmula 18 do STJ). A sentença que
concede o perdão judicial tem natureza declaratória. Na doutrina há controvérsia.
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OBS.: Perdão judicial é instituto diverso do perdão do ofendido (art. 51 e segs. do


CPP). Este último é proposto pelo ofendido e para produção de efeitos depende de aceitação
do agente.
Aplica-se o perdão judicial previsto no art.121, § 5.º, do CP ao homicídio culposo de
trânsito previsto no art. 302 da Lei 9503/97. Embora o artigo 300 da Lei 9503/97 (que tratava
do perdão judicial) tenha sido vetado pelo Presidente da República, os motivos do veto
asseveram que o tratamento já dado pelo CP era suficiente para regular o instituto no caso de
homicídio culposo de trânsito.

INDUZIMENTO, INSTIGAÇÃO OU AUXÍLIO AO SUICÍDIO

Ver art. 122 do CP. Denominado pela doutrina de participação em suicídio. A lei não
pune aquele que tenta o suicídio e não obtém sucesso. A lei pune apenas aquele que participa
do suicídio alheio, seja induzindo, instigando ou auxiliando. Embora o suicídio seja conduta
contrária ao direito (ilícita) não tem relevância para o direito penal, ou seja, não é típica. Diz
que o suicídio é ilícito, pois o próprio art. 146, § 3.º, II, do CP, prevê que não configura crime
de constrangimento ilegal a coação exercida para impedir suicídio. Se neste caso a conduta de
quem impediu outrem de suicidar-se é legal, é porque a conduta daquele que suicida (ou
tenta) é ilegítima.

OBJETIVIDADE JURÍDICA: a vida.

SUJEITO ATIVO: é crime comum, pois pode ser qualquer pessoa, exceto o suicida.

SUJEITO PASSIVO: qualquer pessoa determinada com capacidade de entender e querer,


ou seja, com capacidade de resistência e discernimento. Exclui-se o louco e a criança. Não
haverá, por óbvio, a figura do crime previsto no art. 122 quando a pessoa não tiver capacidade
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de autodeterminação, configurando, assim, o homicídio. Exemplo: se Caio, inimputável,


inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de auto determinar-se, é induzido
por Tício a suicidar-se, Tício responderá por homicídio, pois Caio converte-se em mero
instrumento do indutor Tício que, ao ter o domínio do fato, atua como verdadeiro autor
mediato de homicídio. O induzimento (ou instigação) deve ser dirigido a pessoa determinada,
pois não configurara o crime, como por exemplo, músicas e livros que estimulam a prática de
suicídio ou que ensinam métodos de suicidar, dada indeterminação do destinatário.

ELEMENTOS DO TIPO: O tipo penal previsto no art. 122 é de conteúdo variado ou de


ação múltipla, pois há três formas de sua realização. Os núcleos do tipo estão expressos nos
verbos INDUZIR, INSTIGAR E PRESTAR AUXÍLIO.
Induzir: o agente faz nascer na mente da vítima a idéia suicida.
Instigar: o agente reforça na cabeça da vítima o idéia suicida preexistente.
Prestar auxílio: o agente realiza fato material no fato praticado pelo suicida, fornecendo
meios para o suicídio. Ex.: ceder a arma, o veneno, a corda, indicação de local apropriado.
A doutrina denomina as duas primeiras formas (induzimento e instigação) de participação
moral. A última (auxílio) de participação material.

OBS.: O verbos do tipo penal são incompatíveis com a forma omissiva. Não há participação
em suicídio por omissão, mesmo aquele quem tem o dever de impedir. Poderá neste último
caso, haver crime de omissão de socorro. Porém, há autores que no caso do garantidor
entendem haver participação em suicídio por omissão.

OBS.: É preciso que o ato material seja praticado pelo próprio suicida. Do contrário, se ato
material de matar for realizado pelo agente que induziu, instigou ou auxiliou, este estará
cometendo homicídio e não participação em suicídio. Segurar a faca para a vítima se projetar
sobre ela, puxar a corda para a vítima se enforcar, puxar o gatilho a pedido da vítima, são
exemplos de homicídio. Não são casos de participação em suicídio.

ELEMENTO SUBJETIVO: somente o dolo (direto ou eventual). Exige-se que a vontade do


sujeito ativo seja livre e consciente de concorrer para que a vítima se suicide. Exige-se
sinceridade ou seriedade do agente ao realizar a conduta descrita no tipo. Não se admite a
forma culposa (art. 18, parágrafo único, do CP).

QUALIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA
17

Crime material (o tipo penal descreve a conduta e resultado, exigindo este último para
consumação do crime), de dano (pressupõe uma efetiva lesão ao bem jurídico tutelado),
instantâneo (a consumação ocorre em só instante – morte ou lesão corporal grave da vítima -,
sem continuidade temporal), comissivo (praticado através de uma ação), de ação livre
(admite-se qualquer forma de execução, gestos, palavras, escritos, menos omissiva), de
conteúdo variado (a lei descreve várias condutas), comum (pode ser praticado por qualquer
pessoa), simples (protege apenas um bem jurídico) e plurissubsistente (a ação é representada
por vários atos, formando um processo executivo que pode ser fracionado).

CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
O tipo do art. 122 exige lesão corporal de natureza grave ou morte como resultado da
participação. Induzida a vítima, esta vem a tentar o suicídio, mas não sofre lesões corporais
graves ou morte, não haverá crime de participação em suicídio. Lesões corporais de natureza
grave são aquelas previstas no art. 129, §§ 1.º e 2.º, do CP. Da mesma forma, se a vítima
sofrer apenas lesão leve, o fato será atípico. É crime condicionado ao resultado morte ou lesão
corporal grave.
Tentativa: não se admite. Se não houver a ocorrência de morte ou lesão corporal grave, não é
fato típico. Ou ocorre a lesão corporal grave ou a morte e o crime se consuma, ou então não
ocorre nenhum dos resultados descritos, e o fato será atípico.
OBS.: a lesão corporal grave e a morte são elementares do tipo.

PACTO DE MORTE: ocorre quando duas pessoas, em conjunto, combinam o suicídio. O


caso mais comum é o da sala ou quarto com gás aberto. Podem ocorrer várias hipóteses, as
quais vão acarretar a responsabilidade do sobrevivente, quer por ter praticado homicídio ou
participação em suicídio, onde a diferença básica está na prática de atos de execução de
homicídio, que não podem existir na figura do art. 122 do CP.

Considere o quarto de gás e veja as conseqüências:


Apenas um sobrevivente:
1. se ele não abriu a torneira, responde pelo crime previsto no art. 122 do CP;
2. se ele abriu a torneira, neste caso responde pelo crime de homicídio, pois realizou o
ato material executório de matar.

Os dois sobrevivem: havendo lesões corporais graves


1. o que abriu responde por tentativa de homicídio (art. 121, c/c art. 14, II, todos do CP);
18

2. o que não abriu, responde pelo delito do art. 122 do CP.

Os dois sobrevivem: não havendo lesão grave ou morte


1. o que abriu a torneira responde por homicídio tentado (art. 121, c/c art. 14, II, todos do
CP);
2. o que não abriu, não responde por nada, pois suicídio sem a ocorrência de lesão grave
ou morte é atípico.

Os dois sobrevivem: se ambos abriram a torneira responderão pelo homicídio tentado (art.
121, c/c art. 14,II)

ROLETA RUSSA EM GRUPO


Os sobreviventes respondem pelo crime do art. 122 do CP. Porém, se apertou o gatilho da
arma em direção à outra pessoa e provoca a morte dela haverá homicídio.

FIGURAS TÍPICAS:
Simples, é a figura descrita no art. 122, caput; e qualificada, quando estiverem
presentes as causas de aumento de pena previstas no parágrafo único.

Causas de aumento:
• motivo egoístico: visa tirar proveito, de qualquer modo, do suicídio. Ex:
recebimento da herança.
• Vítima menor: para Damásio, compreende a faixa que vai dos 14 ao 18 anos.
Na hipótese de vítima portadora de insanidade mental e menor de 14 anos, seu
consentimento é irrelevante, e o crime é o de homicídio.
• Resistência diminuída: poder haver qualquer tipo de diminuição da
resistência, como embriaguez, idade avançada, enfermidade física ou mental,
etc. É evidente que essa capacidade de resistência deve ser relativa, pois se for
absoluta, anulando por completo a capacidade de resistência, pratica-se
homicídio.
19

INFANTICÍDIO
Previsto no art. 123 do CP.

OBJETIVIDADE JURÍDICA
Visa proteger o direito à vida.

SUJEITO ATIVO
É crime próprio, pois somente a mãe da vítima pode ser sujeito ativo, conforme exigência do
próprio tipo penal. Pode haver co-autoria ou participação, pois o fato de ser mãe (...o próprio
filho...), juntamente com demais elementos previstos no art.123, são elementares,
comunicando aos demais participantes, consoante prevê o art. 30 do CP.

SUJEITO PASSIVO
É filho nascente ou neonato do sujeito ativo.

ELEMENTOS DO TIPO
A ação do núcleo do tipo penal é matar o próprio filho durante ou logo após o parto
sob a influência do estado puerperal.
20

O infanticídio poder ser praticado por qualquer meio de execução; meios diretos e
indiretos; comissão ou por omissão; Neste último caso, se a mãe deixa de alimentar o filho, de
cortar o cordão umbilical ou o abandona em lugar ermo, querendo a morte do próprio filho,
que vem a morrer.

É necessário que o filho nasça com vida, caso contrário faltaria o objeto material, o
bem jurídico tutelado, configurando crime impossível por impropriedade absoluta do objeto.
A prova da vida é ter o recém-nascido respirado, o que se comprovará através de exames
periciais, podendo citar, como exemplo, a docimásia hidrostática pulmonar de Galeno.

O tipo penal faz referência ao momento da realização da conduta, exigindo para sua
configuração que ocorra durante o parto ou logo após o parto. Se a morte for produzida antes
deste período, será a hipótese de aborto; se depois, homicídio. O parto se inicia com o
período de dilatação (dores e dilatação do colo do útero) e termina com a eliminação da
placenta. Há entendimento, entretanto, que o parto se inicia com a expulsão do nascente. O
período “logo após” tem em consideração a duração do estado puerperal, não importando o
tempo que durar. Será analisado o caso concreto.

O tipo penal ainda exige que seja a conduta cometida “sob a influência do estado puerperal”.
O que se deve entender por influência do Estado puerperal ? É o conjunto das perturbações
psicológicas e físicas sofridas pela mulher em face do fenômeno do parto (convulsão, emoção
causada pelo choque físico, etc).

QUALIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA
O infanticídio é crime próprio, pois somente a mãe pode praticá-lo, material, de dano,
comissivo ou omissivo impróprio, simples, de forma livre.

CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
Consuma-se com a morte do nascente ou neonato. Trata-se de crime plurissubsistente,
admitindo a tentativa. Nascendo a criança morta, será crime impossível, por impropriedade
absoluta do objeto (art. 17 do CP).

OBSERVAÇÕES:
21

• Se a mãe matar filho de outra mãe, acreditando seu, sob a influência do estado
puerperal, haverá infanticídio putativo, por estar a mãe incidindo em erro de tipo por
falsa noção da realidade sobre os elementos do tipo.
• Se a mãe matar um adulto, sob a influência do estado puerperal, responderá por
homicídio.
• Não incidirão as agravantes previstas no inciso II, alíneas “e” e “h”, do art. 61 (crime
cometido contra descendente e contra criança), vez que integram a descrição do delito
de infanticídio. Se incidissem, haveria bis in idem.
• Não há infanticídio culposo, por ausência de previsão (art. 18, parágrafo único, do
CP). Ante está ausência de previsão do crime de infanticídio culposo, questiona-se se
o fato não configuraria homicídio culposo (art. 121, § 3.º, do CP), pois ocorreu uma
morte. Ocorre que não haverá o homicídio culposo, pois a culpa é incompatível com
estar a mãe agindo sob influência do estado puerperal. Se não houver a influência do
estado puerperal, mas apenas existência de culpa, o sujeito ativo responderá por
homicídio culposo.

ABORTO
Previsto no art. 124 e segs. do CP.
CONCEITO
É a interrupção da gravidez com a conseqüente morte do produto da concepção.
O aborto pode ser natural, acidental, criminoso e legal. No primeiro há interrupção
espontânea da gravidez. O segundo normalmente se dá em razão de traumatismo (ex.: queda e
acidentes em geral). Não constituem crime de acordo com nossa legislação. Criminoso está
previsto nos arts. 124 a 127. Os abortos legais estão previstos no art. 128 do CP.

OBJETIVIDADE JURÍDICA
No auto-aborto só há um bem jurídico tutelado, que é o direito à vida do feto. É, desta
forma, a preservação da vida humana intra-uterina. No abortamento provocado por terceiro,
além do direito à vida do produto da concepção, também é protegido o direito à vida e à
incolumidade física e psíquica da própria gestante.

FIGURAS TÍPICAS
Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento – art. 124 do CP.
Aborto provocado por terceiro sem o consentimento da gestante – art. 125 do CP.
22

Aborto provocado por terceiro com o consentimento da gestante – art. 126 do CP.
Aborto qualificado – art. 127 do CP.
Aborto legal – art. 128 do CP.

SUJEITO ATIVO
O auto-aborto ou com consentimento (art. 124 do CP) é crime próprio, pois exige uma
condição especial do sujeito ativo (gestante). Nas demais formas, o sujeito ativo pode ser
qualquer pessoa. É crime comum.

SUJEITO PASSIVO
No auto-aborto ou com consentimento o sujeito passivo é o feto. No aborto provocado
por terceiro, os sujeitos passivos são o feto e a gestante.
A proteção penal começa desde o momento em que células germinativas se fundem, com
conseqüente constituição do óvulo, até o início do processo de parto. Há, entretanto,
entendimento de que a tutela penal se inicia desde a implantação do óvulo (nidação).

ELEMENTOS DO TIPO
O núcleo dos tipos é o verbo provocar, que significa dar causa, produzir, promover.
Crime de forma livre, pois pode ser cometido por meio de qualquer conduta que cause o
resultado. Pode ser assim praticado por meio comissivo ou omissivo, material ou psíquico.
Pode ser através de meios químicos (substâncias não propriamente abortivas, mas que atuam
por via de intoxicação, como o arsênio, mercúrio, quinina, etc.); psíquicos (são o susto, terror,
etc.); físicos (são mecânicos, como por exemplo, curetagem), térmicos (ex: bolsas de água
quente e fria no ventre) e elétricos (ex: emprego de corrente galvânica ou farádica).

ELEMENTO SUBJETIVO DO TIPO


O crime de aborto só é punível a título de dolo (direto ou eventual). O agente tem a
vontade, ou assume o risco, de interromper a gravidez e de causar a morte do produto da
concepção.
Não existe aborto culposo, por ausência de previsão (art. 18, parágrafo único, do CP).
Contudo, sendo terceiro, presentes os elementos do crime culposo, poderá configurar lesão
corporal culposa, pois, nesses casos, a existência de lesão na gestante é conseqüência natural
do fato. Aqui, a vítima será a gestante. Se for a própria gestante, será o fato atípico, pois não
se pune a autolesão.
23

No aborto qualificado pelo resultado, previsto no art. 127 do CP, há dolo no


antecedente (aborto) e culpa no conseqüente (lesão grave ou morte). É o chamado crime
preterdoloso.
Se o agente agride uma mulher, sabendo estar grávida, querendo apenas lesioná-la,
porém, provocando culposamente o aborto, responderá por crime de lesão corporal
gravíssima, previsto no art. 129, § 2.º, V,. do CP. Trata-se de outro caso de crime
preterdoloso, só que o agente age com dolo na lesão corporal (antecedente) e culpa no aborto
(conseqüente).

CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
O crime de aborto atinge a consumação com morte do feto. Pouco importa que a morte
corra no ventre materno ou depois da prematura expulsão provocada.
É possível a tentativa.
Estando morto o feto por ocasião da provocação, ou não havendo gravidez, ocorrerá
crime impossível, por absoluta impropriedade do objeto (art. 17 do CP).

AUTO-ABORTO E CONSENTIMENTO PARA ABORTO


Ver a descrição típica no art. 124 do CP.
A primeira parte tipifica (como crime obviamente) a conduta da gestante que provoca
o aborto em si mesma. A segunda parte prevê como crime o consentimento da gestante para
que terceiro lhe provoque o aborto. Como vimos trata-se de crime próprio.

Nosso CP adota como regra a teoria Monista (art. 29 do CP - quem de qualquer forma
concorre para o crime, incide nas penas a este cominada – todos respondem pelo mesmo
crime). Porém, prevê exceções. Uma delas está nos arts. 124/126. A gestante que permite que
terceiro lhe provoque o aborto comete o crime previsto no art. 124 do CP; já o terceiro que
provocou o aborto consentido pela gestante responde pelo crime previsto no art. 126 do CP.
Entretanto é admissível apenas a participação, na hipótese em que o terceiro apenas induz,
instiga ou auxilia de maneira secundária (não provocando o aborto e sim pagando o serviço,
por exemplo) a gestante a provocar o aborto em si mesma, respondendo pelo art. 124 do CP.

ABORTO PROVOCADO COM O CONSENTIMENTO DA GESTANTE


Ver descrição típica no art. 126 do CP.
24

Como já vimos, é uma exceção a teoria Monista adotada pelo CP como regra. O CP
criou um delito autônomo com pena diferenciada, dada a maior gravidade da conduta do
terceiro que, com consentimento, provoca aborto na gestante. Veja que pena cominada neste
caso (art. 126 do CP) é maior que a prevista no art. 124 do CP.
É crime comum, pois o tipo não exige qualquer condição especial do sujeito ativo.
Aquele que tem conduta acessória ao terceiro que provoca o aborto será partícipe do
crime previsto no art. 126 do CP. Exemplo: recepcionistas e enfermeiras da clínica abortiva
etc.
É necessário que a vítima tenha capacidade para consentir. Não tem valor o
consentimento quando a gestante não é maior de 14 anos, é alienada mental, ou quando o
consentimento for obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência. Neste caso de
consentimento inválido, responde o agente pelo art. 125 do CP.
No caso da gestante não ser maior de 14 anos ou ser alienada mental, necessariamente
haverá crime de estupro com violência presumida (art. 213 c.c art. 224, a e b, do CP). Nestes
casos, havendo consentimento do representante legal da gestante, o aborto será lícito,
conforme autoriza o art. 128, II, do CP. Portanto, quando se tratar gestante não maior de 14
anos ou alienada mental, só será crime previsto no art. 126 do CP, se não houver o
consentimento da representante legal.

ABORTO PROVOCADO SEM O CONSENTIMENTO DA GESTANTE

Ver conduta típica descrita no art. 125 do CP.


Ocorre o crime aqui previsto quando não se deu o consentimento efetivo da gestante
(ex.: : agressão, pontapé violento no ventre de mulher grávida, colocar remédio abortivo na
bebida da gestante) ou quando o consentimento da gestante não é válido de acordo com o art.
126, parágrafo único.

ABORTO QUALIFICADO
Previsto no art. 127.
Tem natureza de causa de aumento de pena.
Ocorrerá sempre que a gestante vier a sofrer lesão corporal de natureza grave ou
morte. Como já foi registrado, trata-se de crime qualificado pelo resultado, do tipo
preterdoloso. Dolo no antecedente (aborto) e culpa no conseqüente (lesão grave ou morte).
25

Se o agente quer o aborto e a morte (ou lesão corporal grave) da gestante, responde
pelo crime de aborto e homicídio (ou lesão corporal grave) em concurso material ou formal
imperfeito conforme o caso.
O aumento de pena independerá da consumação ou não do aborto. Prevê o aumento
quando as lesões graves ou morte constituem conseqüência do aborto ou dos meios
empregados para provocá-lo.
A causa de aumento de pena prevista no art. 127 do CP só é aplicada às formas
tipificadas nos arts. 125 e 126, ficando excluídos o auto-aborto e o aborto consentido tratados
no art. 124 do CP. Desta forma, se existiu participação (indução, instigação ou auxílio) para a
realização do auto-aborto, e a gestante veio a sofrer lesão corporal de natureza grave ou
morte, o partícipe do auto-aborto (o indutor, instigador, e auxiliador) além de responder por
este delito (art. 124, na forma do art. 29, todos do CP), responderá também por lesão corporal
culposa ou homicídio culposo, conforme o caso, isto, frise-se, porque a figura qualificada
exclui os casos do art. 124 do CP.

ABORTO LEGAL
Está previsto no art. 128, comportando as seguintes espécies (normas penais permissivas):
1. Necessário ou terapêutico: (art. 128, I) somente pode ser realizado por médico, quando
a gestante correr perigo de vida e inexistir outro meio para salvar sua vida. Não exige
risco atual. Basta que o prosseguimento da gravidez possa colocar em risco a vida da
mulher, mesmo que o perigo seja no futuro. Se o aborto for realizado por outra pessoa
que não seja médico, será ilícito. Porém, se presentes os requisitos do estado de
necessidade de terceiro (art. 24 do CP) deixará de ser crime por incidência da
excludente de ilicitude. Então, podemos concluir que se presente o requisito do perigo
atual, poderá legalmente outra pessoa (enfermeira por exemplo) realizar o aborto. Não
sendo o perigo atual, mas futuro, somente médico poderá realizar o aborto permitido
pelo art. 128, I, do CP. É dispensável a concordância da gestante ou do representante
legal, se o perigo de vida for iminente (art. 146, § 3º, I, do CP).
2. Sentimental, humanitário ou ético: (art. 128, II) somente pode ser realizado por
médico com consentimento da gestante (ou seu representante legal) no caso da
gravidez resultar de estupro. Neste caso, não há risco atual para a gestante, não poderá
em hipótese alguma outra pessoa (enfermeira, a própria gestante, por exemplo)
realizar o aborto, pois do contrário responderá pelo crime de aborto. OBS.: Não é
necessário haver condenação do pelo crime de estupro. É necessário apenas que o
médico tenha provas do crime (RO, IP, testemunhas, ECD etc.); OBS.: a lei só fala
26

quando a gravidez for resultante de estupro, nada se referindo sobre gravidez


resultante de atentado violento ao pudor. Não há norma penal disciplinando tal fato.
Damásio E. de Jesus sustenta que nesta hipótese o intérprete deverá fazer uso do
método de integração chamado analogia (analogia in bonam partem), admitindo como
causa de justificação.

A doutrina ainda define outras espécies de aborto:


• eugenésico: para impedir que a criança nasça com deformidade ou enfermidade
incurável (não é permitido pela legislação brasileira, configurando crime)
• social ou econômico: cometido no caso de famílias muito numerosas, onde o
nascimento agravaria a crise financeira e social (não é permitido na legislação pátria.
Há crime).

LESÕES CORPORAIS
Ver art. 129 do CP.

1) CONCEITO
É a ofensa à integridade física ou à saúde da vítima.

2) OBJETIVIDADE JURÍDICA
Incolumidade da pessoa em sua integridade física e psíquica.

3) SUJEITO ATIVO
Qualquer pessoa (crime comum).

4) SUJEITO PASSIVO
Qualquer pessoa.
27

OBS.: A autolesão, simplesmente, não é punível. Porém, se presentes outras


elementares, pode configurar os tipos penais previstos no art. 171, § 2.º, V, do CP ou do art.
184 do CPM (criação ou simulação de incapacidade física). Nestes últimos casos, o sujeito
passivo é a seguradora ou o Estado, respectivamente.

5) QUALIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA
a. É crime de forma livre;
b. consuntivo (no conflito aparente de normas – crime progressivo);
c. subsidiário (no conflito aparente de normas) em todos os crimes que têm
violência física como meio de execução; ex.: 146, 157, 158, 213, 214 etc.;
d. material;
e. de dano;
f. plurissubsistente;
g. comum;
h. instantâneo;
i. simples;
j. comissivo ou omissivo;

6) ELEMENTOS OBJETIVOS, SUBJETIVOS E NORMATIVOS


Ver descrição típica do crime de lesões corporais.

OFENSA À INTEGRIDADE FÍSICA – é qualquer alteração anatômica prejudicial ao corpo


humano. É o dano físico em que se atinge o tecido externo ou interno do corpo humano. Ex.:
equimoses, escoriações, feridas, hematomas, fraturas, queimaduras etc.
OBS.: Há controvérsia se eritema ou rubefação configura lesão corporal ou contravenção de
vias de fato;
OBS.: A dor, simplesmente, não constitui lesão corporal;

OFENSA À SAÚDE – provoca na vítima perturbações fisiológicas ou mentais.


FISIOLÓGICA é o desajuste no funcionamento de algum órgão ou sistema componente do
corpo humano. Ex.: vômitos, paralisia, impotência sexual, doenças respiratórias ou
circulatórias etc; MENTAL – causa qualquer desarranjo no funcionamento cerebral. Ex.:
convulsões, desmaios, doenças mentais etc.

OBS.: diversas lesões, no mesmo contexto, configura crime único;


28

O crime de lesões corporais admite-se o dolo e a culpa.

Admite-se ainda o preterdolo (§§ 1.º, 2.º e 3.º).

Relembrando: preterdolo é uma espécie de crime qualificado pelo resultado, que ocorre
quando o legislador, após descrever uma figura típica fundamental, acrescenta-lhe um
resultado que tem por finalidade aumentar a pena. O crime preterdoloso ocorre quando o
agente age com dolo no antecedente e culpa no conseqüente (DOLO + CULPA).

7) CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
A consumação do crime de leões corporais ocorre com a ofensa à integridade física ou
corporal da vítima.
Admite-se a tentativa (art. 14, II, do CP).

8) LESÃO CORPORAL DOLOSA


FIGURAS TÍPICAS: LEVE (CAPUT);
GRAVE (§ 1.º)
GRAVISSÍMA (§ 2.º)
SEGUIDAS DE MORTE (3.º)
PRIVILEGIADA (§ 4.º)
OBS.: as denominações lesões corporais leves e gravíssimas são elaboradas apenas pela
doutrina, para diferenciá-las das demais, sobretudo a grave.

A) LESÕES CORPORAIS LEVES (CAPUT)


Para saber se a lesão corporal é leve, deve-se utilizar o critério da exclusão. Se a lesão
corporal não for grave ou gravíssima, será leve.

Pena: detenção de 3 meses a um ano;

B) LESÕES CORPORAIS GRAVES (em sentido estrito) (§ 1.º)


Trata-se de crime qualificado pelo resultado;
São circunstâncias de natureza objetiva. Por isso, de acordo com o art.30 do CP,
comunicam-se aos participantes, se delas tenham conhecimento.
Pena: reclusão de 1 a 5 anos.
29

INCISO I
É qualquer ocupação lícita de rotina, do dia-a-dia da vítima, como o trabalho, asseio
corporal, recreação etc.
Não configura esta qualificadora, se a vítima deixar de realizar as ocupações habituais
por vergonha (olho roxo por exemplo).
Pode ser física ou mental.
Admite-se dolo ou culpa.

INCISO II
É a possibilidade grave e imediata de morte. Deve ser um perigo efetivo, concreto e
comprovado por perícia médica, que deve especificar qual o perigo de vida sofrido pela
vítima (por exemplo, grande perda de sangue, ferimento em órgão vital, necessidade de
cirurgia de emergência etc.).

Só se admite o resultado por culpa (preterdolo), pois se agiu com dolo no tocante ao
perigo de vida, responde o agente por tentativa de homicídio.

Por ser crime preterdoloso, não se admite a tentativa.

Se a vítima morre, responde o agente por lesões corporais seguidas de morte (§ 3.º).

INCISO III
Membros superiores – braço, antebraço, e mãos.
Membros inferiores – coxa, perna e pé.

Sentido – visão, olfato, paladar, audição e tato.

Função – atividade de um órgão como a função respiratória, circulatória, secretora,


reprodutora etc.

Debilidade é a diminuição da capacidade funcional.


Permanente significa duradoura; não é o mesmo que perpétuo.
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Ex.: perda de um dos órgãos duplos; diminuição da capacidade auditiva ou visual da


vítima. OBS.: a perda de ambos configura lesão gravíssima, prevista no § 2.º, III.

OBS.: perda de um só dente: depende do caso concreto, pois pode não haver
debilidade da função mastigatória.

OBS.: a recuperação do membro por meios ortopédicos não faz desaparecer a


qualificadora.

Admite-se dolo ou culpa.

INCISO IV
É a antecipação do parto (nascimento prematuro). É necessário que o agente tenha
conhecimento do estado de gravidez da vítima. Se desconhece, será lesão corporal leve
(responsabilidade subjetiva).

Se ocorrer o aborto, responde pela lesão gravíssima.

Admite-se dolo e culpa.

C) LESÕES CORPORAIS GRAVÍSSIMAS (§ 2.º)


Trata-se de crime qualificado pelo resultado;
São circunstâncias de natureza objetiva. Por isso, de acordo com o art.30 do CP,
comunicam-se aos participantes, se delas tenham conhecimento.
Pena: reclusão de 2 a 8 anos.

INCISO I
Permanência não é perpétuo. É o duradouro. Que não se pode fixar o limite temporal
da incapacidade.

A incapacidade é para o trabalho genérico e específico (majoritário). Porém, há


entendimento no sentido de que incide a qualificadora na incapacidade para a ocupação
anteriormente exercida pela vítima.

Admite-se dolo e culpa.


31

INCISO II
Enfermidade incurável é a alteração permanente da saúde por processo patológico, a
transmissão intencional de uma doença para o qual não existe cura no estágio atual da
medicina.
A vítima não está obrigada a submeter-se a intervenção cirúrgica arriscada a fim de
curar-se da enfermidade. Neste caso, ainda que haja justa recusa, subsiste a qualificadora.

Admite-se dolo e culpa.

AIDS: A transmissão intencional caracteriza lesão corporal gravíssima. Se não


conseguiu transmitir, apenas da intenção, responde pelo tipo penal previsto no art. 130, § 1.º,
do CP (contato sexual) ou do art. 131 (outro meio), em face dos princípios norteadores do
conflito aparente de normas (subsidiariedade). Há entendimento no sentido de que seria
tentativa de homicídio, já que a doença tem a morte como conseqüência natural.

INCISO III
Perda - pode se dar por mutilação ou por amputação. A mutilação é provocada no
momento da ação criminosa diretamente pelo agente. Ex.: machadada que corta (desliga do
corpo) o braço. A amputação apresenta-se na intervenção cirúrgica imposta pela necessidade
de salvar a vida da vítima ou impedir conseqüências mais graves.

Inutilização – é a inaptidão do órgão para sua função específica, embora, ainda que
parcialmente, no caso de membro, continua ligado ao corpo da vítima.

Ex.: paralisia total do braço; perda da mão ou do braço; perda do pênis (função
reprodutora).

OBS.: perda de parte do movimento do braço ou de um dedo configura lesão grave.

A vasectomia, ligadura de trompas ou outra forma de esterilização caracteriza perda da


função reprodutora. Porém, hoje, a lei 9263/96 regulamenta a matéria, consistindo a conduta
do médico em exercício regular de direito.
32

A correção por meio ortopédicos não exclui. Mas o reimplante total, com êxito,
implicará a desclassificação da natureza da lesão.

Admite-se o dolo e a culpa.

INCISO IV
É o dano estético, de certa monta, permanente, visível e capaz de provocar impressão
vexatória.

OBS.: não precisa ser no rosto.

OBS.: permanente, aqui, significa irreparável pela própria força da natureza com o
passar do tempo.

OBS.: a vítima não é obrigada a submeter-se a intervenção cirúrgica a fim de afastar o


mal da deformidade. Não fazendo, não ficará afastada a qualificadora. Se o fizer, afasta a
aplicação da qualificadora.

OBS.: correção por prótese não afasta a qualificadora.

Admite-se dolo e culpa.

INCISO V
Só admite-se a forma culposa (preterdolo), pois se deseja o aborto, responde por crime
de aborto. Aqui (lesão corporal com resultado aborto) temos dolo na lesão e culpa no aborto.

OBS.: o agente deve saber que a vítima está grávida (responsabilidade subjetiva).

DIFERENÇA ENTRE OS ARTS. 127 E 129, § 2.º, V: NO ART. 127, HÁ DOLO NO


ABORTO E CULPA DA NESÃO CORPORAL GRAVE; NO ART. 129, § 2.º, V, HÁ DOLO
NA LESÃO E CULPA NO ABORTO.
OBS.: Como só se admite a forma preterdolosa, não é possível a tentativa.

D) LESÕES CORPORAIS SEGUIDAS DE MORTE (§ 3.º)


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Só se admite a forma preterdolosa, por isso não é possível a tentativa.


Se o agente desejava o resultado ou assumiu o risco em produzi-lo, será homicídio.
(caso do índio pataxó).

É circunstância objetiva, comunicando-se aos participantes, que dela tenham tomado


conhecimento (art. 30 do CP).

C) LESÃO CORPORAL PRIVILEGIADA (§ 4.º)

Se presentes as circunstâncias previstas no § 4.º do art. 129, DEVE o juiz reduzir a


pena (OBRIGATÓRIA SE PRESENTES AS CIRCUNSTÂNCIAS).

Sobre conteúdo e conceito das circunstâncias previstas no § 4.º do art.129, ver


comentários do art. 121, § 1.º.

São circunstâncias subjetivas. Por isso, incomunicáveis aos participantes, de acordo


com o art. 30 do CP.

OBS.: Aplica-se somente nas lesões corporais dolosas, leve, grave, gravíssima ou
seguida de morte. Porém, DAMÁSIO entende que não se aplica a lesão corporal leve, pois,
neste caso, incidirá o § 5.º do art. 129 do CP.

9) SUBSTITUIÇÃO DA PENA
Ver § 5.º do art. 129.

A substituição será obrigatória se estiverem presentes as circunstâncias previstas no


art. 129, § 5.º, do CP. Sendo leve a lesão, o juiz pode aplicar o § 5.º ou o § 4.º (OBS.:
DAMÁSIO entende que sendo leve a lesão, o § 4.º não terá aplicação).

OBS.: O agente que agiu em legítima defesa será absolvido. O agente que iniciou a
agressão não será beneficiado pela substituição. A substituição prevista no § 5.º só será
aplicada quando uma pessoa agride outra e, cessada a agressão, ocorre a retorsão. DAMÁSIO
entende que mesmo o agente que iniciou a agressão poderá ser beneficiado pela substituição.
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10) CAUSA DE AUMENTO DE PENA NAS LESÕES CORPORAIS DOLOSAS


Ver art. 129, § 7.º, do CP

O § 7.º remete-se ao § 4.º do art. 121 do CP.

Ver comentários do § 4.º do art. 121 do CP.

Aumenta-se a pena de 1/3.

Lesões corporais praticadas contra vítima menor de 14 anos ou maior de 60 anos.

Incide sobre as lesões corporais leves, graves, gravíssimas e seguidas de morte.

11) LESÕES CORPORAIS – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A Lei 10886/04 acrescentou os parágrafos 9.º e 10 no art. 129 do CP, dispondo, no


primeiro, de uma forma qualificada de lesão corporal dolosa leve e, no segundo, de uma causa
de aumento de pena que incide apenas nos §§ 1.º, 2.º e 3.º do art. 129 do CP. Porém, a Lei
11340/06 (denominada Lei Maria da Penha) alterou a pena do § 9.º (detenção de 3 meses a 3
anos), além de acrescentar o § 11 no art. 129 do CP.

12) LESÕES CORPORAIS CULPOSAS


Ver comentários sobre homicídio culposo, pois a estrutura do crime culposo é a
mesma. A única diferença é o resultado que, aqui, é lesão corporal.

OBS.: Nas lesões corporais culposas, ao contrário do que ocorre com as dolosas, não
há distinção de gravidade do resultado. A gravidade, na culposa, só será levada em
consideração por ocasião da fixação da pena-base (art. 59 do CP).

13) CAUSA DE AUMENTO DE PENA NAS LESÕES CORPORAIS CULPOSAS


Ver art. 129, § 7.º, do CP

O § 7.º remete-se ao § 4.º do art. 121 do CP.


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Ver comentários do § 4.º do art. 121 do CP.

Aumenta-se a pena de 1/3.

14) PERDÃO JUDICIAL


Ver § 8.º do art. 129 do CP.

O § 8.º remete-se ao § 5.º do art. 121 do CP. Por isso, ver conceito e requisitos tratados
no art. 121, § 5.º, do CP.

Só aplica-se quando a lesão corporal for culposa.

Aplica-se também à lesão corporal culposa do CTB, pelos motivos já expostos nos
comentários sobre o perdão judicial no homicídio.

15) LESÃO CORPORAL CULPOSA DE TRÂNSITO


Ver art. 303 do CTB.

OBS.: a lesão corporal do CTB é só a culposa. Sendo dolosa, não terá aplicação o
CTB, mas o CP. Se o agente, com intenção de ferir, projeta o veículo contra a vítima que
sofre lesões corporais, não se aplica o CTB, mas o CP (poderá configurar lesões leves, graves,
gravíssimas ou seguidas de morte), pois o veículo é mero instrumento do crime.

OBS.: o art. 303 do CTB é especial em relação ao art. 129, § 6.º, do CP. Desta forma,
se a lesão corporal culposa é praticada na direção de veículo automotor, incide o art. 303 do
CTB (que é especial) e não o art. 129, § 6.º, do CP (que é geral).

16) AÇÃO PENAL


Em regra, nos crimes de lesões corporais, a ação penal é pública incondicionada.
Porém, cuidando-se de lesão corporal leve ou culposa, seja de trânsito ou não, a ação penal é
pública condicionada à representação, em razão do art. 88 da Lei 9099/95 e art. 291, parágrafo
único, do CTB. Com a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), discute-se se a natureza da ação
penal do crime de lesão corporal leve praticado contra a mulher em situação de violência
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doméstica teria sido alterada para pública incondicionada, em razão do que dispõe o art. 41 da
citada lei.

17) COMPETÊNCIA
Compete ao JECRIM (Juizado Especial Criminal – ver art. 61 da Lei 9099/95) julgar
os crimes de lesão corporal dolosa leve e lesão corporal culposa, em razão da pena máxima
cominada para tais crimes. As demais situações seriam de competência do Juízo Criminal
comum (Vara criminal).
Quando se tratar de lesão corporal leve praticada em situação de violência doméstica
(§ 9.º), em razão da pena máxima ultrapassar os dois anos, , independentemente do sexo da
vítima, cabera à Vara Criminal o julgamento. Sendo mulher a vítima, em situação de violência
doméstica, a lesão corporal de qualquer natureza (contra mulher), enquanto não criado nos
Estados o Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, será de competência da
Vara Criminal.