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Dados

ISSN 0011-5258 versão impressa


Dados v. 40 n. 2 Rio de Janeiro 1997

doi: 10.1590/S0011-52581997000200001

Um Referente Fora de Foco: Sobre a Representatividade do Sindicalismo no


Brasil*

Adalberto Moreira Cardoso

INTRODUÇÃO

É longa a polêmica em torno da representatividade dos sindicatos brasileiros. Críticos


de nosso "sindicalismo de Estado" argumentam que a estrutura sindical corporativa
inibiu a organização de base, reduzindo os estímulos para que os trabalhadores se
associassem aos seus órgãos de classe e também para que estes procurassem filiar sua
constituency. Se o sindicato representa, de forma compulsória, toda uma categoria em
uma dada base territorial e se o imposto sindical garante sua sobrevivência, então não
haveria razão para a filiação de adeptos. E se os sindicatos apresentam baixas taxas de
filiação, não poderiam ser tidos como representativos (ver, p. ex., Boito Jr., 1991;
Rodrigues, 1989; 1990).

Por outro lado, há quem argumente que, sem os mecanismos de financiamento e de


garantia legal de representatividade, o movimento sindical não se teria conseguido
reerguer de forma tão expressiva, a ponto de criar um partido político e duas centrais
sindicais em cinco anos (1979-1983), tornando-se um dos atores mais importantes na
luta contra o regime autoritário. Tampouco se teria instituído, nos anos 80, em centro
importante de construção de identidades coletivas. Logo, o sindicalismo não pode ser
destituído de representatividade1.

Tal como formulados, esses argumentos parecem irredutíveis um ao outro: ou o


sindicalismo é representativo, ou ele não o é. Entretanto, um exame mais atento revelará
que o termo "representatividade", em um argumento e no outro, refere-se a realidades
diversas, isto é, estamos falando de coisas diferentes. No primeiro caso, a
representatividade dos sindicatos remete a números, medindo-se pelo clássico" contar
cabeças", havendo uma associação estreita entre taxa de filiação e representatividade ou
capacidade de penetração dos sindicatos na organização social. Esse é o mecanismo
costumeiro de mensuração nas sociedades onde impera a liberdade de associação e os
sindicatos contratam apenas pelos que são filiados a eles (ver Spyropoulos, 1991; Ferner
e Hyman, 1992; Visser, 1993; Hyman e Ferner, 1994). No outro, a representatividade se
mede pela capacidade do sindicalismo criar nos trabalhadores a vontade de agir
coletivamente que está na base do poder sindical. Essa perspectiva encontra nas
estatísticas de greve o instrumento mais comum de mensuração da representatividade
não tanto dos sindicatos individuais, mas do movimento sindical como um todo (ver
Korpi e Shalev, 1980; Noronha, 1992; Sandoval, 1994). Nos dois casos, estamos
falando da relação entre o sindicato e uma base social específica, seus representados,
mas essa relação se estabelece de maneiras diversas (embora não incompatíveis entre si)
em um e no outro caso. Estamos falando, pois, de conceitos diferentes, e a diversidade
dos argumentos esconde também divergências quanto aos mecanismos de mensuração
da representatividade do sindicalismo.

Meu objetivo aqui é argüir essa diferença para o caso brasileiro, enfatizando a filiação
sindical como medida de representatividade. Na interrogativa: se, como mostrarei com
mais detalhes em seguida, os sindicatos em nosso país não têm de filiar adeptos para
agir como representantes dos trabalhadores, isto é, se a filiação é desnecessária, até que
ponto ela é medida adequada da representatividade dos sindicatos? O que, exatamente, a
filiação sindical mede, e o que exatamente significa "representar os trabalhadores" no
país? Responderei a estas perguntas em dois tempos. Primeiro, apresento uma discussão
conceitual sobre a relação entre filiação sindical e representatividade. Argumentarei que
a filiação não é medida suficiente desta última no Brasil. Mas se, como veremos, é alta a
taxa de filiação sindical, o que ela mede? Na segunda parte dou destino empírico à
indagação, analisando um survey realizado em 1994 junto a quatro categorias de
trabalhadores. Mostrarei que a filiação mede, antes de tudo, a qualidade da presença
sindical na vida daqueles que representa. Em suma, argumentarei que o referente da
representação sindical está fora de foco, mas está lá. Minha intenção aqui é dar-lhe
alguma nitidez conceitual e empírica.

FORA DE FOCO (I): CONTAR CABEÇAS

Nos países onde impera a democracia sindical (liberdade de criar sindicatos e liberdade
de filiação, em geral nos termos" ninguém está obrigado a se filiar"), contar cabeças
significa exatamente isso: saber para quantas pessoas um contrato coletivo negociado
entre sindicato e patrão terá vigência. Quando uma dirigente sindical atua como
representante, pois, está tomando o lugar (para falar e atuar em nome) daqueles para
quem terá vigência o acordado com o empregador, e apenas para eles (e, eventualmente,
para os que adiram ao acordo depois de celebrado, mesmo não sendo filiados). Logo,
saber o número de filiados significa ter acesso ao montante de pessoas que serão
abrangidas pelos acordos coletivos, forma mais comum, no Ocidente, de regulação
dessa relação social central no capitalismo, que é a compra e venda de força de trabalho.
Desse ponto de vista, os sindicatos são tanto mais representativos quanto maior for seu
contingente de filiados, pois maior será a abrangência do acordo negociado. Sindicatos
"fortes" são os sindicatos com muitos filiados e a filiação, sendo em geral voluntária,
indica também adesão dos trabalhadores a esta ou aquela linha de ação concorrente no
"mercado sindical". É esse o caso de Itália, França, Japão, Estados Unidos, Espanha, e é
esse, em parte, o caso de Inglaterra e Alemanha (ver Ferner e Hyman, 1992).

É fácil mostrar que tal equivalência entre filiação sindical e representatividade dos
sindicatos está, ao menos em termos formais, fora de lugar como instrumento analítico
da ação sindical no Brasil, e a razão é conhecida: os sindicatos brasileiros, para
sobreviver, não necessitam agir para filiar adeptos. O imposto sindical lhes assegura
sobrevivência financeira e a unicidade sindical impede que emerja competição de outro
sindicato pela mesma base2. Ainda que a investidura sindical (que garantia, até 1988,
monopólio legal da representação na base territorial oficialmente delimitada) tenha
desaparecido, a Justiça do Trabalho ⎯ JT continua atuando como se ela existisse: um
sindicato criado hoje e registrado segundo a lei pode reivindicar o direito de contratação
coletiva por aqueles que definiu como sua base de referência. Problemas de jurisdição
são resolvidos pela JT em nome de um único sindicato contra qualquer outro, atual ou
futuro, a quem se outorga aquele direito e também o de cobrar o imposto sindical. O
empregador, diante de dirigentes desse sindicato, sabe que eles podem, a qualquer
momento, recorrer à JT para forçar uma solução do conflito trabalhista. Uma vez que a
sentença judicial é obrigatória para as partes, o empregador não tem por que questionar
a representatividade dos sindicalistas diante de si.

Se isto é verdade, se o sindicato não tem por que filiar adeptos para sobreviver, seja
financeiramente, seja enquanto instituição representativa; e se os trabalhadores não têm
de se filiar ao sindicato para se beneficiar das sentenças normativas da Justiça do
Trabalho ou dos resultados não judiciais das negociações coletivas, então não
deveríamos esperar encontrar filiados a sindicatos no país. Aqui começam os problemas
para o analista da representatividade desse sindicalismo: a taxa de filiação sindical é
bastante alta, apesar do que suspeita o senso comum e do que assevera a maioria dos
analistas de relações industriais.

De fato, segundo a PNAD-1995, a taxa de filiação sindical da População Ocupada ⎯


PO era de 16%. Mas a PO inclui empregadores rurais e urbanos, agentes autônomos,
trabalhadores com e sem carteira etc. Essa taxa não nos serve, se do que se trata é
mensurar a representatividade dos sindicatos de trabalhadores, por oposição a
empregadores qualificáveis. É preciso excluir, pois, todos os agentes autônomos, exceto
os(as) empregados(as) domésticos(as) com carteira assinada, e também todos os
empregadores. É preciso excluir, ainda, os trabalhadores sem carteira assinada que, por
definição, não podem ser representados por sindicatos oficiais3, além dos militares. Com
isso, tem-se um universo de trabalhadores com empregadores qualificáveis no campo ou
na cidade e com carteira assinada, e também os funcionários públicos que, depois da
Constituição de 1988, podem se sindicalizar. Pois bem: a taxa de sindicalização desses
trabalhadores (os únicos que, pela legislação vigente, podiam se sindicalizar) era de
30,01% em 1995; esta taxa era a mesma em 1993, em 1992 e em 1988, segundo a
mesma PNAD4. Por outras palavras, malgrado a propalada crise mundial do
sindicalismo (Visser, 1993; Bibes e Mouriaux, 1990; Hyman e Ferner, 1994), a taxa de
sindicalização dos trabalhadores que podem se sindicalizar se mantém constante e alta
desde 1988 no Brasil.

Para que se tenha uma idéia da importância disso, essa taxa é equivalente àquela
encontrada na Alemanha, na Itália e no Canadá; superior à verificada nos Estados
Unidos, Japão, França, Países Baixos e Suíça; e inferior apenas à dos países com forte
tradição social-democrata, onde o movimento sindical, associado a partidos,
permaneceu por longo período de tempo no poder (por vezes desde pelo menos o
entreguerras), como é o caso de Noruega, Bélgica e dos países escandinavos. Esses
dados se referem a 1989, antes, portanto, da enorme crise sindical dos anos 90, que
reduziu ainda mais as taxas de sindicalização nesses países5.
Temos, portanto, um problema. Embora a filiação sindical seja "inconsistente" com a
forma como se dá a ação representativa dos sindicatos brasileiros, a taxa de
sindicalizados é bastante alta em termos comparativos. Voltando ao início da discussão,
cabe argüir a relação mesma de representação no sindicalismo brasileiro. A pergunta
parece capciosa, mas é inescapável: se há muitos filiados, e se os sindicatos não
necessitam deles para agir como representantes, o que a filiação sindical mede?
Formulando em outros termos: qual a relação entre representatividade dos sindicatos e
filiação sindical?

Para responder a esta pergunta, convém examinar, rapidamente, a estrutura da


interlocução de uma sindicalista e um empregador durante uma negociação coletiva,
locus privilegiado da ação representativa sindical. Indo direto ao ponto que interessa
aqui, a negociação coletiva se dá em uma situação de assimetria de poder entre
sindicalista e empregador, assimetria que decorre do fato de o empregador, por deter os
meios de produção, dispor de meios individuais de retaliação, enquanto os
trabalhadores, para retaliar, precisam fazer coalizões. Isso é quase um truísmo
sociológico, mas resulta em algo raramente atentado pela literatura: em razão da
referida assimetria de poder, a representatividade dos sindicatos é estruturalmente
"suspeita", por assim dizer.

De fato, uma sindicalista eleita pela maioria dos filiados, ou dos que diz representar,
pode esperar, formalmente, seu reconhecimento como representante por parte do
empregador (e também pelo Estado, pelos derrotados na eleição sindical etc.). Pela
regra da maioria, socialmente sancionada como mecanismo de constituição de
representação, a sindicalista é representante legítima, pelo menos, dos filiados. O que
importa, contudo, é que esta legitimidade formal, ou horizontal (porque a representante
diante de um interlocutor pode evocar as normas socialmente sancionadas de
constituição de representação política, para legitimá-la), não é suficiente para garantir
ao empregador que a sindicalista diante de si, de fato, representa quem ela diz
representar. Vejamos isto mais de perto.

Em nosso exercício, o patrão está diante da sindicalista como ele mesmo. Ele não
representa ninguém. Por ele ter autonomia de ação, firmado o acordo coletivo, dele se
espera uma ação "positiva": pagar o salário acordado, promover tais ou quais melhorias
nas condições de trabalho, demitir este ou aquele grupo para a introdução de novas
tecnologias etc. Já a sindicalista não está ali como ela mesma, mas sim como alguém
que toma o lugar de outros para falar e, eventualmente, decidir em nome deles. Por isso,
firmado o acordo coletivo, dela se espera que seja portadora de uma ação" negativa",
isto é, o patrão age na expectativa de que a sindicalista será capaz de impedir que ações
contrárias ao acordado emerjam no seio da categoria representada.

Mas enquanto negociam o acordo, a retaliação possível a cada parte, conquanto


assimétrica, não está ausente da interlocução: o empregador tem à sua disposição
mecanismos individuais de retaliação, como demissões, estratégias de investimento,
realocação da planta da empresa etc., enquanto a sindicalista tem como recurso último a
greve. Por outros termos, se a interlocução se encaminha para um impasse, é de se
esperar que cada parte lance mão de seus recursos de poder para forçar a outra a
conceder em seu pleito. Baliza a interlocução, pois, uma expectativa quanto à
capacidade de retaliação do interlocutor. O que importa aqui é o fato de esta expectativa
ser bastante distinta para trabalhadores e empregador. Os trabalhadores jogam com a
probabilidade de que o empresário retaliará segundo seus recursos de poder ou
aguardará a retaliação dos trabalhadores para testar a efetividade dos recursos de poder
que a sindicalista diz possuir. O empregador joga com a possibilidade dos trabalhadores
interromperem o fluxo de produção, mas pode retaliar imediatamente,
independentemente da ação da outra parte.

Pois bem, esse ponto é fundamental para a dinâmica da representação sindical porque
implica que as expectativas do empregador estão balizadas pela suspeita de que a
sindicalista diante de si não tem representatividade ⎯ ou porque talvez não seja capaz
de levar adiante a ameaça de retaliação, qualquer que seja ela; ou porque talvez não seja
capaz de impedir que os representados contestem o que foi negociado, retaliando contra
a vontade da representante. Nesses termos, a capacidade de coordenar ações coletivas
(iniciar, interromper ou impedir que ocorram) comparece como medida da
representatividade da sindicalista. A conseqüência disso para o argumento aqui
desenvolvido é que, antes da ação coletiva, o empregador não tem meios de saber até
que ponto aquilo que a sindicalista exige na negociação tem de fato ressonância entre os
representados enquanto seu interesse coletivo. Até a ação coletiva, a sindicalista tem sua
representatividade contestada. Em outras palavras, a característica central da
representação sindical é justamente o fato de que o poder da representante está, sempre,
em suspenso e, eventualmente, tem de ser demonstrado6. Até essa demonstração, o
empregador pode, legitimamente, suspeitar que o referente da representação não existe.

À relação entre a sindicalista e sua base, que se expressa na capacidade daquela de


mobilizar efetivamente recursos coletivos para retaliar o empregador, eu chamarei
legitimidade vertical.

Dito isso, será conveniente levar a situação de interlocução ao seu ponto limite, pois isto
ajuda a explicitar os problemas em jogo. Supondo, em primeiro lugar, que a única
possibilidade de o empregador aceitar a representante diante de si como legítima
mandatária de um coletivo qualquer seja sua capacidade de coordenar ações coletivas,
então mais do que filiar adeptos, o que essa sindicalista precisa é mostrar-se capaz de
mobilizar suas bases de referência quando isto for necessário. Nesse caso, para o
empregador, o sindicato representa, independentemente do número de filiados; e se o
poder de pressão sobre o empregador na negociação depende da capacidade da
representante de coordenar ações coletivas, então o que importa ao sindicato é criar nos
trabalhadores, filiados ou não, disposição para a ação coletiva. É fácil perceber que,
mesmo sem irmos ao limite, a capacidade de arregimentar adeptos para interromper a
produção atua como medida importante, se não suficiente, da representatividade do
sindicato, ao menos para o empregador.

Mas suponhamos, em segundo lugar, que o empregador seja um democrata


"procedimental" radical, para quem basta a operação das regras formais de constituição
de representação para que aceite como legítima a representante sindical diante de si.
Ora, democrata que é, esse empregador sabe que eleições livres e democráticas o são
sob condições. O demos jamais é a totalidade dos indivíduos de uma sociedade. Podem
estar excluídos os analfabetos, os criminosos, os mentalmente incapazes, os menores.
Mesmo um sistema político inclusivo como o brasileiro exclui, no mínimo, os
estrangeiros e os menores de dezesseis anos, além dos mentalmente incapazes. Logo, o
democrata" procedimental" sabe que o demos de um sindicato compõe-se, de maneira
geral, dos trabalhadores filiados a ele. Todos os demais trabalhadores na base de
atuação do sindicato estão excluídos da possibilidade de eleger a representação sindical.
E mesmo para os membros do demos certas regras devem ser seguidas para que possam
votar; em geral, exige-se que o trabalhador esteja em dia com a contribuição associativa.

Disso resulta que um sindicato com baixo número de filiados poderá ter a legitimidade
da sua direção contestada pelo empregador, e isto tanto de um ponto de vista horizontal
quanto vertical. No limite, nosso democrata "procedimental" pode imaginar que, fosse
maior a proporção de filiados, o representante diante de si seria outro que não a
sindicalista de nosso exercício. Com esse outro, talvez o que se vocalizaria como
interesse coletivo tivesse também outros conteúdos. Portanto, pode-se questionar tanto o
representante quanto o referente da representação, e também o interesse desse referente.

Como nossa sindicalista contornaria essa suspeição? Filiando a maioria dos


representados e vencendo eleições por maioria. Isto seria suficiente para nosso
democrata" procedimental". Mas seria necessário? Nos termos em que venho
discutindo, o número de filiados é um problema (ora, redundâncias) quantitativo que
não muda em nada o fato essencial de que a representatividade da sindicalista está, de
antemão, sob suspeita, sempre, ante democratas" procedimentais" ou não. Mesmo
acreditando ser representativa a sindicalista diante de si, eleita, por exemplo, pela
maioria absoluta dos trabalhadores na base, o democrata pode discordar de suas
reivindicações e preferir pagar os custos de uma greve. Com mais ou menos filiados, a
sindicalista ainda terá de mostrar-se capaz de mobilizar sua base sindical. Disso resulta
que poucos filiados apenas aumentam a indeterminação da representatividade da
sindicalista (desde logo indeterminada do ponto de vista do empregador), enquanto
muitos filiados podem indicar que a representatividade da sindicalista é verticalmente
legítima, mas essa é uma possibilidade a ser verificada tanto pelo empregador quanto
pela sindicalista.

Isso quer dizer que a filiação sindical é insuficiente como medida da representatividade
dos sindicatos, e talvez sequer seja medida necessária. Nesta discussão, pois, associo
estreitamente representatividade dos sindicatos e capacidade de coordenar ações
coletivas. Não fosse isso bastante, a filiação sindical é desnecessária no Brasil porque os
sindicatos representam sua base territorial independentemente do número de filiados. Se
há tantos filiados no país, o que exatamente a taxa de filiação está medindo?

FORA DE FOCO (II): ASSISTENCIALISMO

Uma resposta está sempre na ponta da língua dos analistas de relações industriais: os
sindicatos brasileiros não são apenas entidades representativas; eles também oferecem
serviços assistenciais aos quais apenas os filiados têm acesso. Os raros dados
disponíveis contribuem para tal leitura. Segundo a PNAD-1988, suplemento
"Participação Política e Social", cerca de 50% dos filiados a sindicatos no país disseram
tê-lo feito para usufruir dos serviços médicos e jurídicos; 40% disseram ter-se filiado
pelas atividades esportivas; e módicos 13% o fizeram para participar das "atividades
políticas" do sindicato (IBGE, 1990:12-13). São dados desconcertantes, que merecem
ser esmiuçados.
Supondo, para exercitar, que todos os trabalhadores brasileiros que se filiaram a
sindicatos o fizeram pelos serviços, parece fora de dúvidas que dizer que há filiados"
porque os sindicatos oferecem serviços" responde à pergunta: por que os trabalhadores
se filiam a sindicatos? Mas temos de conceder que aquela proposição não responde à
pergunta: por que os sindicatos filiam adeptos? Assumindo os serviços como única
motivação do trabalhador, em que condições isso explicaria também a motivação dos
sindicatos? Se estamos falando em "compra e venda" de serviços assistenciais, podemos
desenvolver o argumento em termos puramente econômicos. Para tanto, é plausível
admitir que o interesse dos sindicalistas é manter-se no tempo, reproduzindo as
condições de financiamento de sua instituição de suporte e de si mesmos como
sindicalistas. Nesses termos, a prestação de serviços explicaria a motivação sindical
apenas numa situação em que o imposto sindical e outras formas de financiamento não
fossem suficientes para a sustentação financeira da entidade. Se o imposto basta, a
filiação sindical torna-se irracional, no mínimo, porque os filiados que se utilizam dos
serviços sindicais consomem recursos que poderiam estar servindo a investimentos ou
ao bem-estar dos dirigentes.

Com o imposto insuficiente, o sindicato ofereceria serviços em troca de mensalidade.


Para cumprir seu objetivo (sanear as finanças do sindicato) tais serviços deveriam
consumir menos recursos que a receita gerada pelos associados. O interesse do
sindicato, nesse caso, passaria a ser atrair o maior número possível de filiados,
oferecendo-lhes a menor contrapartida possível em serviços, maximizando a renda e,
com ela, garantindo sua permanência no tempo.

Aqui começam os problemas, pois o associado que usufrui os serviços somente


compartilha com seu sindicato inteiramente assistencialista o interesse pela permanência
da prestação de serviços, mas não o interesse por maximizar renda. Ao contrário, ele
quer contribuir com o mínimo possível em troca do máximo de contrapartida por parte
do sindicato. Como os trabalhadores encontram outros ofertantes de saúde e de lazer no
mercado de serviços (inclusive públicos), o interesse sindical pela maximização da
renda encontra seu limite na prestação de serviços competitivos, no mínimo, em relação
a seu equivalente mais conspícuo: os serviços públicos de saúde e/ou lazer. Se o
trabalhador achar que o que o sindicato oferece pode ser melhor adquirido de outro
ofertante a menor preço (ou mesmo de graça), a filiação sindical não faz sentido. Do
mesmo modo, se o que o trabalhador está disposto a pagar estiver aquém do que o
sindicato necessita para seu saneamento financeiro, a filiação sindical tampouco faz
sentido.

Nesses termos, a filiação sindical só pode ser explicada inteiramente pela prestação de
serviços se as seguintes condições tiverem vigência: os trabalhadores que se filiam são
motivados apenas pelos serviços; o sindicato não pode manter-se apenas com o imposto
sindical e demais fontes compulsórias de financiamento; os serviços que oferece para
auferir mais recursos são competitivos no mercado.

Indo adiante com isso, a mesma lógica econômica que admite o argumento anterior
permite afirmar que, ainda que os filiados contribuam com um plus além do imposto
sindical, há um limite de usuários possíveis dada uma estrutura inelástica de recursos
logísticos do sindicato. A contribuição marginal de cada novo associado (em termos
monetários para a manutenção dos serviços), a partir desse limite, está aquém da
demanda potencial que ele representa. Em um sindicato que só presta serviços, a
ampliação do número de associados além desse marco significa a redução da
possibilidade (em termos de elasticidade) de acesso àqueles mesmos serviços para todos
os associados. Se isso ocorre, a conseqüência é a queda na qualidade dos serviços
prestados, o que resultará na desfiliação de descontentes7. No longo prazo, a tendência
será a volta, por defecção, ao número ótimo de filiados, compatível com a infra-
estrutura de serviços8.

Por esse ângulo, o argumento de que há filiados pelo fato de os sindicatos prestarem
serviços, mesmo se levado ao seu extremo, estará correto apenas pela metade. Isto é,
mesmo se fosse a atividade exclusiva dos sindicatos (o limite), a prestação de serviços
explicaria por que alguns se filiam e por que os sindicatos não filiam mais adeptos. Os
serviços prestados, portanto, justificam uma parte da filiação, aquela resultante do
entrecruzamento do limite estrutural (físico) do sindicato com o desejo de alguns
trabalhadores terem acesso aos serviços sindicais. Logo, mais do que explicar por que
há filiados, a prestação de serviços levada ao limite explicaria por que muitos são
excluídos da possibilidade de filiação. Os serviços "explicam" pela negativa: se fossem
a atividade exclusiva dos sindicatos, a taxa de filiação deveria ser muito pequena ou
nula9. Não é o que ocorre no Brasil. As altas taxas de sindicalização sugerem que os
sindicatos não são, prioritariamente, prestadores de serviços.

AJUSTANDO AS LENTES

Vimos que a prestação de serviços explica por que muitos trabalhadores são excluídos
do sindicato, mais do que por que há filiados. E vimos que, mesmo com muitos filiados,
os sindicatos têm de demonstrar capacidade de mobilizar recursos coletivos de
retaliação. Se o sindicalismo brasileiro apresenta altas taxas de filiação, parece lógico
supor que está em operação uma relação de representação não assentada exclusivamente
na prestação de serviços assistenciais. Até que ponto, então, a filiação serve como
medida de sua representatividade? Esta pergunta desdobra-se em duas:

(a) Até que ponto a filiação sindical indica vontade de agir por parte dos trabalhadores?
(b) Até que ponto a filiação sindical indica disposição para o estabelecimento de
relações de representação por identificação com o sindicato?

Na resposta a essas perguntas, lanço mão de dados de um survey realizado junto a


trabalhadores metalúrgicos, bancários e em indústrias alimentícias da capital paulista, e
a metalúrgicos do ABC10. Trata-se de duas categorias filiadas à Força Sindical
(alimentação e metalúrgicos de São Paulo) e de duas filiadas à CUT, junto às quais
foram traçadas amostras representativas por cotas, tendo na filiação sindical uma das
variáveis de controle na construção das cotas (a outra foi o porte da empresa). A
distribuição da filiação sindical e a composição da amostra por categorias é a seguinte:

Quadro 1
Distribuição da Filiação Sindical nas Categorias Pesquisadas

Categorias de trabalhadores É sindicalizado? N


Não Sim
Metalúrgicos de São Paulo 62,5 37,5 400
Metalúrgicos do ABC 40,2 59,8 393
Alimentação 75,0 25,0 400
Bancários 25,0 75,0 400
N 808 785 1593
Total 50,7 49,3 100,0

Vontade de Agir

Para não transcrever tabelas desnecessárias, peço ao leitor que confie nos seguintes
dados: tomando o total de respostas como base, entre os trabalhadores em alimentação e
os metalúrgicos da capital paulista (filiados à Força Sindical) a motivação principal para
a filiação ao sindicato foi a prestação de serviços (65% e 68%, respectivamente), em
especial serviços jurídicos e médico-odontológicos. Entre os bancários da capital e os
metalúrgicos do ABC (filiados à CUT), ao contrário, a principal motivação foi o desejo
de participar da vida sindical, a consciência de sua necessidade ou a identificação com a
ação do sindicato (55% e 57%, respectivamente para o agrupamento dessas respostas)11.
O que importa marcar aqui é que, nos sindicatos da Força Sindical, pouco mais de 30%
dos filiados fizeram-no por identificação ou por vontade de agir, e entre os sindicatos da
CUT, pouco mais de 40% fizeram-no para ter acesso aos serviços dos sindicatos
(também, e principalmente, serviços jurídicos e médicos). Ao que parece, mesmo nos
grandes sindicatos da CUT e a despeito da intensidade de sua ação mobilizadora, os
serviços oferecidos são importantes como motivo de filiação. O contrário é verdadeiro
para pelo menos um sindicato" assistencialista", o dos trabalhadores em alimentação.

Migremos das motivações para as ações efetivas dos indivíduos filiados ou não, isto é,
vejamos a relação entre filiação sindical e "vontade de agir". Até que ponto é possível
supor que os filiados estão mais dispostos a tomar parte na ação coletiva sindical do que
os não-filiados, isto é, até que ponto a filiação sindical pode ser apropriada como uma
medida da legitimidade vertical da representação sindical apesar e (talvez) mesmo
contra a motivação inicial que levou o trabalhador a se filiar? Analisemos a Tabela 1,
que traz dados pertinentes a esse problema.

Tabela 1
Modalidades de Participação na Vida Sindical segundo a Filiação Sindical

Categorias
Indicadores de Metal. SP Metal. ABC Alimentação Bancários
participação Sindicalizado? Sindicalizado? Sindicalizado? Sindicalizado?
Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim
Intensidade de 238 148 153 235 285 98 99 296
participação nas greves
(N)
Não participa 60,0 51,4 55,0 19,4 66,4 73,9 84,4 63,5
Apenas não trabalha 29,3 26,8 31,3 33,9 28,0 19,3 10,0 12,2
Participa de assembléias 7,0 15,2 10,7 30,4 3,6 4,5 5,6 16,0
Participa de piquete ou 3,7 6,5 3,1 16,3 2,0 2,3 - 8,3
comando
Freqüência em 248 150 157 235 297 100 96 300
assembléias (N)
Raramente ou nunca 89,1 66,0 89,8 48,1 96,6 78,0 93,8 73,0
Freqüentemente/Às vezes 10,9 34,0 10,2 51,9 3,4 22,0 6,3 27,0

Tomando as greves, em primeiro lugar, a probabilidade de um metalúrgico paulista


participar delas é de 40% para os não-filiados e de 48,6% para os filiados12. Entre os
trabalhadores em indústrias de alimentação, de 33,6% e 26,1%, respectivamente. Ou
seja, no caso dessas duas categorias, as diferenças são muito pequenas entre filiados e
não-filiados e, saber apenas se o trabalhador é ou não filiado ao sindicato não dará pistas
sobre sua participação na ação grevista. Já entre os metalúrgicos do ABC, essa
probabilidade é de 45% e 79%, uma diferença mais sólida. Sabendo se um grupo de
metalúrgicos do ABC é filiado ao sindicato, o analista pode afirmar, com razoável
margem de segurança, que oito em cada dez serão ativistas em greves, contra menos de
cinco em cada dez entre os não-filiados. Finalmente, entre os bancários, a probabilidade
é de 15,6% e 36,5%13, isto é, a filiação sindical aumenta bastante a chance de o
trabalhador participar de greves, mas ainda assim apenas pouco mais de 1/3 dos filiados
participa. Em suma, a filiação sindical é um elemento de previsão da probabilidade de
adesão às greves, mas não para todas as categorias e nem com a mesma intensidade.
Entre metalúrgicos de São Paulo e trabalhadores em alimentação a filiação sindical não
tem nada a dizer sobre aquela participação (ver nota 13).

Em segundo lugar, a participação em assembléias é, em geral, baixa, com exceção dos


metalúrgicos do ABC e de São Paulo, onde 1/3 ou mais dos trabalhadores filiados disse
participar às vezes ou freqüentemente. Fica claro, também, que a proporção de filiados
que participa é muito superior à proporção de não-filiados que participa, e a diferença
entre proporções gira em torno de vinte pontos percentuais, chegando a quarenta no
ABC14. A filiação sindical, pois, tem poder discriminante sobre a participação em
assembléias, mas num sentido preciso: a imensa maioria dos não-filiados não participa
de assembléias, em todos os sindicatos. Mas entre os filiados, exceto no ABC e, em
parte, entre os metalúrgicos de São Paulo, a participação também é muito pequena.

Essa constatação permite o seguinte comentário: os trabalhadores estão, com algumas


exceções, pouco dispostos a participar de mobilizações preparatórias de movimentos
coletivos, ou de participar de discussões coletivas sobre seu destino associativo ou
empregatício. Estas são duas das razões principais pelas quais sindicatos convocam
assembléias, por sua vez medida inconteste da intensidade da participação dos
trabalhadores na vida de sua entidade. Entretanto, uma vez sinalizada a greve por parte
do sindicato, os trabalhadores estão dispostos a acompanhá-lo de forma muito intensa
entre os metalúrgicos do ABC, um pouco menos entre os metalúrgicos de São Paulo,
menos ainda entre os bancários e muito pouco entre os trabalhadores em alimentação.
Mas o que importa destacar é: (a) que essa disposição é significativamente diferente
entre sindicalizados e não-sindicalizados apenas entre os bancários e no ABC; (b) que,
no caso destes últimos, a filiação sindical é quase sinônimo de participação em greves;
(c) que nos outros casos a filiação sindical não terá impacto sobre a probabilidade do
trabalhador participar de greves.

A filiação sindical, pois, tem poder limitado de predição da participação na ação


coletiva sindical, ou melhor, esse poder não está igualmente distribuído entre categorias
profissionais. Por outras palavras, nem sempre o trabalhador filiado será também um
trabalhador participante. E tampouco pode-se dizer que um trabalhador não-filiado seja
um trabalhador alheio à ação coletiva. Supondo que o sindicato desempenhasse apenas
tarefas representativas, aumentar o número de filiados não daria garantias a todos os
sindicalistas de que suas categorias participariam de ações coletivas, e diante do
empregador evocar o percentual de sindicalizados não seria medida suficiente de sua
representatividade. Eles ainda teriam de se mostrar capazes de mobilizar suas bases, a
menos que seus representados fossem os metalúrgicos do ABC. Mesmo aqui, a
sindicalista saberia que quase metade dos não-filiados também participaria da greve
convocada. Logo, aparentemente, a filiação não pode ser tomada como medida
universal da legitimidade vertical da representação do sindicalismo, seja porque parte
dos não-filiados também participa da ação coletiva, seja porque muitos filiados não
participam.

Cabe aqui um primeiro comentário vinculando essa análise empírica à discussão feita na
primeira seção deste artigo: esses dados sugerem que a filiação sindical e a capacidade
de arregimentação por parte dos sindicatos são momentos ou dimensões diferentes de
sua representatividade, de modo algum redutíveis um ao outro. Nos termos das
legitimidades vertical e horizontal, a filiação sindical parece gravitar na órbita desta
última, porque é a medida a partir da qual o empregador, seja ou não um democrata
"procedimental" radical, pode questionar ou não o referente da representação em bases
puramente formais. A capacidade de arregimentação parece gravitar na órbita da
primeira (legitimidade vertical), porque é a medida a partir da qual o empregador pode
duvidar ou não da capacidade do representante demonstrar o poder que diz ter. Como no
Brasil a filiação sindical é desnecessária, "contar cabeças" só seria medida exaustiva da
representatividade dos sindicatos se pudéssemos demonstrar que os filiados são sempre
e substancialmente mais participativos do que os não-filiados. Os dados disponíveis não
permitem sustentar essa afirmação. Se os sindicatos filiam adeptos na esperança de que
eles serão mais ativos do que os não-filiados, estão certos apenas em parte e apenas em
algumas categorias15.

Representar por Identificação

Em outro artigo (Cardoso, 1992) afirmei que as centrais sindicais atuaram no Brasil dos
anos 80 como espécies de partidos políticos, uma vez que não podiam contratar pelo
trabalho (legalmente prerrogativa dos sindicatos) nem representar parte substancial da
força de trabalho lotada no mercado informal. Elas se instituíram em centros de
constituição de identidade política, orientando escolhas substantivas, isto é, aquelas
relativas aos fins (e não aos meios) da ação de seus adeptos ou simpatizantes16. O fato de
que os sindicatos no Brasil, para representar perante patrões ou o Estado, independem
de filiados, permite ajustar esse argumento para aplicá-lo à compreensão da forma como
representam sua base de referência em nosso país. Para dizer desde logo, os
trabalhadores, filiados ou não, participantes ou não na ação coletiva, podem se sentir
representados na ação daqueles que dizem representá-los e que de fato negociam
acordos coletivos em seu nome. Podem estabelecer com seus sindicatos uma relação de
representação por identificação de tal sorte que a não participação não necessariamente
indicaria apatia, alheamento ou desinteresse pela vida associativa sindical, mas apenas
disposição ou não para delegar a representação e reconhecer, seja a eficácia, seja a
adequação, seja ainda a justiça da ação da direção sindical. Se o trabalhador é
representado pelo simples fato de trabalhar em uma base territorial qualquer, a não-
filiação pode, inclusive, indicar atitude bem informada de quem não está disposto a
arcar com os custos da ação sindical, mas apenas usufruir de seus benefícios.

A investigação empírica desse fenômeno não é tarefa de somenos, posto que estou
falando de uma disposição subjetiva em que o que está em pauta é a possibilidade dos
trabalhadores se identificarem com a ação representativa da direção sindical. Na
pesquisa que analiso aqui há três perguntas diretamente relacionadas a esse problema.
Todas envolvem, em maior ou menor escala, uma avaliação da atuação do sindicato.
Uma pergunta procura medir se este contribui ou atrapalha na solução dos problemas da
categoria. Outra, se a estratégia de negociação com os patrões, não importa se
confrontacionista ou conciliadora, é eficiente ou não. Finalmente, os trabalhadores
foram chamados a dar uma nota para a atuação de seu sindicato.

Por essas medidas, a avaliação negativa da atuação da entidade seria indicador de que os
trabalhadores não se sentiriam representados por sua prática sindical. Há diferenças
relevantes entre filiados e não-filiados? A filiação sindical pode ser tomada como
medida da disposição para a representação por identificação? Pelos dados da Tabela 2,
pode-se dizer que sim, mas apenas em parte. Entre os metalúrgicos de São Paulo e os
bancários da capital, categorias muito diversas e que são base de sindicatos filiados às
duas centrais concorrentes, Força Sindical e CUT, respectivamente, as diferenças
encontradas entre filiados e não-filiados são inexistentes ou muito pequenas, e apenas
no caso da nota para o sindicato são estatisticamente significativas. Os bancários e os
metalúrgicos não-filiados são mais severos do que os filiados no julgamento de seu
sindicato, embora em geral concordem com a estratégia de ação adotada e achem que o
sindicato contribui para a solução dos problemas da categoria. Mas, tomando esses
indicadores em conjunto, se considerássemos apenas essas categorias, diríamos que a
filiação sindical não indica nem maior nem menor disposição do trabalhador se sentir
representado pelo sindicato.

Entretanto, os trabalhadores em alimentação e os metalúrgicos do ABC são casos em


que a filiação tem, sim, impacto sobre a referida disposição. No setor alimentício, se o
trabalhador é filiado, a probabilidade de que tenha boa imagem e julgue eficiente seu
sindicato é de 50%. Já para os não-filiados essa probabilidade é igual ou menor do que
1/3. Os metalúrgicos do ABC, por sua vez, são consistentemente favoráveis a seu
sindicato, mas os não-filiados dão nota pior para sua atuação do que os filiados, bem
mais dispostos a avaliá-lo positivamente.

Tabela 2
Disposição para Sentir-se Representado pelo Sindicato, segundo a Filiação Sindical
É sindicalizado?
Indicadores de representatividade Metal. SP Metal. ABC Alimentação Bancários
Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim
Avaliação da Estratégia do Sindicato
Estratégia ineficiente 45,3 45,0 46,5 25,3 67,5 48,8 51,6 46,4
Estratégia eficiente 54,7 55,0 53,5 74,7 32,5 51,2 48,4 53,6
O Sindicato Contribui ou Atrapalha?

Atrapalha/Não influencia 44,6 34,5 41,6 9,4 64,1 41,1 30,2 25,5
Contribui 55,4 65,5 58,4 90,6 35,9 58,9 69,8 74,5
Nota para o Sindicato
Zero a seis 57,2 41,3 63,9 22,6 80,3 50,0 66,0 46,7
Sete ou mais 42,8 58,7 36,1 77,4 19,7 50,0 34,0 53,3
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
N 250 150 158 235 300 100 100 300

A filiação, pois, nem sempre indica capacidade de ação, e nem sempre indica disposição
para a representação por identificação; mas ela indica uma coisa e outra, em parte, para
categorias distintas. Insatisfeito com esse resultado, proponho um exercício
metodológico baseado no fato de que parece plausível imaginar que os dois momentos
da legitimidade vertical da representação dos sindicatos operam em conexão um com o
outro como aspectos da resposta dos trabalhadores às investidas do sindicato na direção
de sua base de sustentação. Segundo essa suspeita, quanto mais intensa a presença
sindical na vida cotidiana de seus representados, maior a resposta destes últimos às
demandas sindicais por participação e legitimidade. Isso tornaria metodologicamente
plausível tratar como escalonáveis essas dimensões, encaradas como medidas de um
substrato comum: a presença sindical no cotidiano das pessoas, ou a capacidade de o
sindicato nuclear as escolhas cotidianas de seus representados, inclusive a ação coletiva
e a legitimação da ação sindical.

Além das questões analisadas até aqui, no questionário de origem do survey a


intensidade da presença sindical junto à sua base foi medida por meio de outras
perguntas, que também serão incluídas no exercício. Uma bateria refere-se a vários
mecanismos de acesso à informação sobre o sindicato (jornais e boletins, visita ao
sindicato, conversa com colegas, murais na empresa, representantes ou delegados
sindicais e matérias pagas na imprensa, num total de seis mecanismos de informação).
Conexa a esta está a pergunta sobre a existência ou não de representantes sindicais no
local de trabalho. Finalmente, há dois indicadores de informação: o fato de o
trabalhador conhecer pelo menos um dirigente sindical e o de conhecer a Central a que
seu sindicato está filiado.

Juntando essas questões com as anteriores (participação em greves, em assembléias,


nota para o sindicato, opiniões em relação à ação e à estratégia do sindicato), chego a
um "índice de proximidade com o sindicato" que varia de 0 a 14. Para atingir o índice
14, o trabalhador tem de dar nota igual ou maior que 7 ao sindicato, achar que ele
contribui para a solução dos problemas da categoria, julgar eficiente sua estratégia de
ação, ter acesso a todos os seis mecanismos de informação sobre o sindicato à sua
disposição, ter representante sindical no local de trabalho, conhecer pelo menos um
dirigente sindical, saber a que Central seu sindicato está filiado, participar de greves e
de assembléias. Nesses termos, um trabalhador com índice zero deve ser considerado
como intensamente arredio à atividade representativa sindical, porque não se mostrou
disposto a qualquer relação com sua entidade. Um trabalhador com índice 14 deve ser
considerado como intensamente permeável à mesma atividade representativa, tendo na
relação com o sindicato, talvez, o momento mais importante de sua biografia17. A Tabela
3 traz os dados pertinentes18.

Tabela 3
Índice de Proximidade com o Sindicato, segundo a Filiação Sindical

É sindicalizado?
Índice de proximidade Total Metal. SP Metal. ABC Alimentação Bancários
Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim
Baixo (0 a 3) 27,4 34,4 16,0 34,2 1,7 61,0 29,0 18,0 12,7
Médio (4 ou 5) 21,4 26,0 14,0 20,9 7,7 25,7 21,0 44,0 20,7
Alto (6 a 8) 28,2 32,8 32,7 31,0 22,1 11,3 36,0 33,0 38,0
Muito alto (9 ou mais) 23,0 6,8 37,3 13,9 68,5 2,0 14,0 5,0 28,7
r de Pearson 48,9 35,3 63,1 39,0 28,0
N 1593 250 150 158 235 300 100 100 300
Média* 4,88 7,07 5,27 10,06 3,09 5,43 5,09 6,88
Desvio Padrão 2,6 3,1 2,8 3,0 2,2 3,0 1,9 2,9

* Todas as diferenças de médias são significativas pelo menos no nível 0,001.

É expressiva a relação entre proximidade com o sindicato e sindicalização apenas entre


os metalúrgicos do ABC e os trabalhadores em alimentação, mas nos dois casos apenas
em parte. No caso dos trabalhadores em alimentação, a distribuição é linear e inversa
apenas para os não-filiados, de tal sorte que a probabilidade de encontrar trabalhadores
não-sindicalizados com grau muito alto de proximidade com o sindicato é quase nula
nesse setor. Com os metalúrgicos do ABC ocorre o inverso: a distribuição é linear e
positiva apenas para os filiados, com probabilidade nula de encontrá-los com baixo grau
de proximidade. Já a probabilidade de serem muito próximos do sindicato é de mais de
2/3. De qualquer maneira, em todas as categorias, exceto alimentação, é muito pequena
a probabilidade de que um trabalhador sindicalizado apresente um baixo índice de
proximidade com seu sindicato, aspecto posto em relevo pela correlação encontrada em
todos os estratos amostrais.

Isso sugere que a sindicalização tampouco pode ser tomada como indicador inequívoco
da proximidade entre trabalhadores e sindicatos, isto é, da legitimidade vertical da
representação sindical. Aqui, como antes, essas dimensões da representação parecem de
fato diversas uma da outra, e perguntar apenas pelo número de filiados a sindicatos no
país não parece capaz de dar conta da complexidade das relações institucionais que se
estabelecem entre representantes e representados.

CONCLUSÃO

A análise empírica ratificou a diferença aludida na introdução: a filiação sindical e a


capacidade de arregimentação por parte dos sindicatos são expressão de coisas
diferentes. Se o sindicato é capaz de iniciar, interromper ou impedir que uma greve
ocorra contra sua vontade, esse sindicato demonstra ter controle sobre sua base e,
portanto, só posso concluir que esse sindicato é representativo, verticalmente legítimo,
independentemente da taxa de filiação. Na verdade, argumentar em favor da
equivalência entre representatividade e filiação é imaginar que apenas os filiados são
capazes de atender ao chamado do sindicato para greves, o que demonstrei ser uma
suposição destituída de fundamento empírico.

A legitimidade vertical mostrou-se, ademais, assentada sobre dois pilares: a capacidade


de o sindicato criar nos seus representados a vontade de agir característica do poder
sindical; e de criar nos representados uma disposição para estabelecer relações de
representação por identificação com sua entidade, disposição não necessariamente
colada à vontade de agir. Essa legitimidade, como vimos, não pode ser adequadamente
mensurada pela filiação sindical.

O que, então, a filiação sindical está medindo? A discussão conceitual e empírica


permite afirmar que ela mede, em parte, a busca dos trabalhadores pelos serviços dos
sindicatos; em parte sua disposição para a ação coletiva; em parte sua disposição de
sentir-se representados na ação sindical; e em parte a relação de proximidade ou não que
o trabalhador estabelece com sua entidade representativa. Mas a filiação não é capaz de
dar conta de nenhuma dessas dimensões adequadamente. Os trabalhadores não-filiados
também participam na vida associativa, também se sentem representados na ação
sindical, também estabelecem relações de proximidade com o sindicato, apesar de não
desfrutarem dos serviços prestados. Em alguns casos, como entre os metalúrgicos de
São Paulo e os trabalhadores em alimentação da mesma capital, a filiação não contribui
um milímetro para a compreensão da ação coletiva. Entre os bancários e os
metalúrgicos da capital, ela tem muito pouco a dizer sobre a disposição para a
representação por identificação. Entre os metalúrgicos do ABC e os trabalhadores em
alimentação da capital, ela discrimina pela metade a proximidade com o sindicato. Em
nenhum desses casos a filiação é capaz de cobrir o espectro das relações possíveis entre
sindicatos e representados. Por isso, caso se deseje tomá-la como medida da
representatividade dos sindicatos, a discussão precedente obriga-nos a exigir que se o
faça com extrema cautela. Os sindicatos no Brasil, porque não necessitam filiar adeptos
para representá-los, estabelecem diversos mecanismos de vinculação com aqueles que
representam, mecanismos nem sempre relacionados com a formalização de tais laços.
Esses mecanismos estão diretamente relacionados com a ação coletiva, seja ela uma
greve ou simplesmente uma relação identitária de representação por identificação.

De forma algo heterodoxa, concluirei com dados não apresentados antes para mostrar
que, se nos restringimos à filiação como indicador de representatividade, perdemos o
mais importante das relações entre sindicatos e bases de sustentação. Farei isso tomando
o índice de proximidade como medida de intensidade das referidas relações
institucionais, comparando-o com a filiação em termos da capacidade de um ou de outro
mediar e discriminar as atitudes e práticas dos trabalhadores representados. A Tabela 4,
apresentada à guisa de conclusão, revela, de forma bastante contundente, que o índice
de proximidade criado para dar conta das relações do sindicato com sua base tem poder
discriminante muito superior do que a filiação sindical em relação a atitudes e práticas
tão importantes quanto a opinião sobre a democracia, o interesse por política (expresso
na leitura de seções de política em jornais e revistas) e a atitude sobre o caronismo nas
greves. A tabela não mostra, mas esse poder discriminante ocorre também para a
preferência partidária, para a intensidade da relação com os partidos preferidos, para
várias opiniões sobre greve, democracia e direitos civis, e dá-se sempre na mesma
direção: o trabalhador mais próximo de seu sindicato apresenta atitudes mais solidárias,
mais democráticas (no sentido de reconhecer direitos e valorizar a institucionalidade
democrática), maior interesse pela ação pública, maior disposição à ação em geral, tudo
isso numa intensidade muito superior à filiação sindical19. Por outras palavras, as
atitudes e práticas dos trabalhadores tornam-se mais previsíveis com recurso à
intensidade de sua relação com o sindicato do que por meio da taxa de filiação sindical,
que se revela, pois, medida inadequada das relações entre sindicatos e representados
(veja que os valores de qui-quadrado são muito mais elevados no primeiro que no
último caso).

Tabela 4
Indicadores Selecionados de Atitudes e Práticas Sindicais e Políticas, segundo a
Proximidade com o Sindicato e a Condição de Filiação

Índice de Proximidade
Sindicalizado
Indicadores selecionados de c/Sindicato**
atitudes e práticas* Muito
Baixo Médio Alto Não Sim Total
Alto
Atitude em relação ao caronismo
X2=146,11 X2=81,76
nas greves
Discorda 53,3 58,1 71,9 89,6 56,5 78,2 67,2
Concorda 46,7 41,9 28,1 10,4 43,5 21,8 32,8
N 426 351 430 317 775 749 1524
Quantas vezes por semana lê
sobre política em jornais e X2=102,17 X2=17,05
revistas?
Nunca 33,7 22,8 15,3 10,6 24,2 18,4 21,3
Uma ou duas vezes 29,0 33,1 33,6 22,8 31,9 28,0 30,0
De 3 a 5 vezes 17,3 23,3 25,7 25,0 21,4 23,8 22,6
6 ou 7 vezes 20,0 20,8 25,5 41,6 22,5 29,8 26,1
N 451 360 444 320 799 776 1575
2
O que acha da democracia? X =90,62 X2=39,04
Preferível a qualquer outro regime 41,1 46,7 59,3 73,1 46,3 62,2 54,2
Às vezes ditadura é melhor 13,9 14,2 13,3 8,4 14,8 10,5 12,7
Para o povo tanto faz 45,0 39,0 27,4 18,4 38,8 27,3 33,1
Total 431 351 435 320 775 762 1537

* Porcentagens de coluna. Todas as diferenças entre proporções são significativas pelo menos no nível
0,01. Os totais variam em cada cruzamento devido a missing values associados a não-respostas ou
respostas dúbias, fora das alternativas oferecidas ao entrevistado.
** Baixo= 0 a 3; Médio= 4 ou 5; Alto= 6 a 8; Muito alto= 9 a 14.

(Recebido para publicação em abril de 1997)

NOTAS:

* Este trabalho é uma reelaboração do segundo capítulo de minha tese de doutorado


(Cardoso, 1995a), que preserva do original apenas a intenção de perscrutar os meandros
da representatividade sindical em sua relação com a taxa de filiação. Agradeço os
comentários de Alvaro Comin, Carlos Novaes e Francisco de Oliveira a versões
anteriores do artigo, eximindo-os, obviamente, dos equívocos que permaneçam. Parte
substancial da pesquisa que embasa este texto foi financiada pela FAPESP, e uma
pequena parte contou com recursos do CNPq e da Finep. A análise dos dados de survey
fez-se por meio do pacote de análise de dados SPSS, doado pela SPSS Inc. a quem
agradeço. Agradeço também a Tema Pechman e Beth Cobra pela cuidadosa revisão do
original.

1. Ver, p. ex., entrevista de Joaquim dos Santos Andrade, o "Joaquinzão", em O Estado


de S. Paulo, 4/8/1987, p. 21. Ver, também, Rodrigues (1992); Almeida (1992); e Comin
(1995).

2. Embora não impeça que chapas concorrentes disputem eleições nem que se definam
novas bases territoriais. Tem sido comum no sindicalismo pós-1988 o desmembramento
de bases territoriais (sindicatos intermunicipais "rachados" em sindicatos municipais) ou
a criação de" sub-bases" em bases territoriais existentes (criação do sindicato de
funileiros em uma base metalúrgica, por exemplo). Essa é uma das razões para a
extrema fragmentação da estrutura sindical pós-1992 (ver Cardoso, 1997).

3. Este ponto não tem nada de controverso. Para a legalidade corporativa, o trabalhador
sem carteira não existe. A carteira de trabalho é o passaporte para a entrada no mundo
da "cidadania regulada" (Santos, 1979), o que inclui o direito de ser representado por
um sindicato qualquer.

4. Para 1992, 1993 e 1995 fiz os cálculos a partir do banco original de dados adquirido
junto ao IBGE. Esses cálculos foram realizados com o pacote estatístico SPSS para
Windows. Para 1988, foi necessário algum malabarismo com os dados oficiais
publicados, como pode ser visto em Cardoso (1995a). Repetidos esses malabarismos
para os anos em que a PNAD está disponível em microdados, a diferença entre o cálculo
aproximado e o valor real encontrado via base de dados foi de 0,7%, ou seja, quase
nenhuma. É por isso que se pode confiar no cálculo para 1988 e afirmar, sem sombra de
dúvida, que a taxa de sindicalização se mantém quase constante no país desde então até
1995.
5. Para esses dados comparativos, ver Visser (1993).

6. Não podendo me deter neste ponto, remeto o leitor interessado a Cardoso (1995a,
cap. II).

7. Suponho, obviamente, que existem alternativas aos serviços prestados pelo sindicato
(por exemplo, sistemas públicos de saúde mais eficazes do que os sindicais em crise de
superlotação).

8. Desse ponto de vista, o acesso aos serviços prestados pelo sindicato torna-se um
privilégio e, quanto maior a base representada, maiores os controles institucionais para
limitação do número de privilegiados e maiores as possibilidades de que a relação entre
sindicato e associado se estabeleça em bases clientelistas. Sindicatos sem tradição de
mobilização de suas categorias, e essencialmente assistencialistas, não têm interesse em
filiar trabalhadores para além daquele limite e, por isso, não realizam campanhas de
filiação. Essa característica fundamental do sindicalismo assistencialista e paternalista
representou, finalmente, um limite estrutural à ampliação do número de filiados a
associações sindicais no país, desde que foi instituída a estrutura sindical corporativa,
cujo desenho completo data de 1942. Neste ponto, concordo com Boito Jr. (1991) (ver
Cardoso, 1995a).

9. Além do ponto levantado na nota anterior, é bom lembrar que sindicatos como os de
Metalúrgicos de São Paulo, Têxteis do Rio de Janeiro e Têxteis de São Paulo
mantiveram elevada a taxa de aposentados entre os filiados como mecanismo para
garantir a reprodução no poder dos grupos ali instalados durante o regime militar
(Cardoso, 1995b; 1996). Como os aposentados dependiam dos serviços assistenciais do
sindicato, tendiam a votar a favor da chapa da situação. Essa é uma razão forte para a
limitação do número de filiados, como argumenta Boito Jr. (1991).

10. O survey analisado daqui por diante é resultado da pesquisa "Padrões de


Representação Sindical e Democracia no Brasil: Um Survey entre Trabalhadores",
financiada pela FAPESP, que foi longamente fermentada em uma série de reuniões no
Grupo de Estudos Políticos, núcleo que se constituiu no Cebrap, sob a coordenação de
Guillermo ODonnell e Vilmar Faria, entre 1987 e 1994. Daquelas reuniões tomaram
parte, além dos coordenadores, os professores Fábio Wanderley Reis e Antônio Augusto
Prates, da UFMG, que montaram e aplicaram questionário análogo junto a públicos
diversos dos analisados aqui. Participou também José Ramón Montero, então professor
da Universidad Complutense de Madrid, na qualidade de especialista em surveys em
transições do autoritarismo. Nas reuniões do grupo estiveram presentes ainda, com
maior ou menor intensidade, Sebastião Velasco e Cruz, da Universidade de Campinas,
Jorge Avelino Filho, e Carlos A. M. Novaes, Alvaro A. Comin, e eu próprio, do Cebrap.
Os três últimos pesquisadores fomos os responsáveis pela forma final assumida pelo
questionário, aplicado entre maio e agosto de 1994 e já sob a coordenação de Francisco
de Oliveira (Cebrap) e Reginaldo Prandi (LAB/USP). O Datafolha foi o responsável
pelo trabalho de campo, supervisionado por mim e por Alvaro Comin. A metodologia
global de pesquisa pode ser encontrada em Cardoso e Comin (1996).

11. As tabulações completas estão em Oliveira e Prandi (1995). A pergunta era aberta,
tendo sido formulada da seguinte maneira: "Por que você se filiou ao sindicato?".
12. Para chegar a esses valores, basta subtrair de 100 os percentuais da primeira linha da
variável "intensidade de participação nas greves". Com isso, obtém-se os que participam
de greves, independentemente da intensidade da participação.

13. Essas diferenças só são significativas em termos estatísticos entre os bancários e os


metalúrgicos do ABC. Uma análise de variância da diferença de médias gerou o
seguinte resultado (teste de F): Metalúrgicos SP = 2,5, sig. 0,11; Metalúrgicos ABC =
55,1, sig. 0,000; Alimentação = 1,7, sig. 0,20; Bancários = 14,3, sig. 0,001.

14. Para a obtenção desses valores, basta subtrair o percentual de "Sim" do percentual
de "Não" na linha "Freqüentemente/Às vezes" da variável que mede freqüência em
assembléias.

15. Alguém poderia argumentar que, a partir de um determinado número de filiados, a


filiação poderia estar expressando efetivamente vontade de agir, na medida em que
exprimiria ação contundente do sindicato no sentido de incluir seus representados. Isso
seria sugerido pelo sindicato dos metalúrgicos do ABC. Mas o caso do sindicato dos
bancários, com taxa igualmente alta de filiação, mas baixa taxa de participação em
greves, indica que nem essa hipótese pode ser generalizada.

16. Esse insight foi amplamente comprovado pelo survey em análise. O texto onde essa
comprovação aparece de forma sistemática é Cardoso e Comin (1996).

17. O Alpha de Crombach, que é uma medida de aditividade das variáveis em uma
escala, é de 0,80 para toda a amostra, variando de 0,76 entre os trabalhadores em
alimentação e 0,82 entre os metalúrgicos do ABC. Segundo os manuais de estatística,
para ser confiável (reliable) e válido, o Alpha deve ser igual ou maior que 0,90. Isto
permitiria, por exemplo, que médicos classificassem a probabilidade do câncer com
alguma segurança, dados alguns indicadores identificados como escalonáveis. Nas
ciências sociais essa precisão é raramente necessária ou mesmo possível. Meu objetivo
aqui é apontar a direção, mais do que a intensidade precisa da associação entre a
proximidade com o sindicato e a filiação sindical. Para meus propósitos, muito distantes
da indução probabilística, o Alpha de 0,80 é alto o bastante para permitir análise
estatística robusta.

18. Na construção da tabela, não foi possível classificar o índice em quartis, como seria
desejável. Na primeira coluna apresento a distribuição para a amostra global. Além da
distribuição percentual, apresento também a média e sua dispersão em cada estrato
amostral, além da correlação do índice com a filiação sindical.

19. Ver Cardoso e Comin (1996) para as tabelas completas.

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