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Universidade Federal do Amazonas

Licenciatura Plena em Pedagogia

Diário de Educação Matemática

por

Regina Caroline de Mendonça Ferreira

Manaus – Amazonas

2021
Quinhentos e Quinze Dias de Quarentena

Querido diário, hoje é mais um dia de quarentena, passamos por uma


pandemia que levou milhões de pessoas, perdemos parentes, amigos, alguns seus
pais e até irmãos, não somos os mesmos de antes, já fazem mais de quinhentos dias
e tivemos que nos reinventar diversas vezes, todos que eu conheço já passaram por
crises, seja ela financeira ou psicológica, questionamos se o rumo escolhido por nós,
ainda seria o que deveríamos seguir para o resto de nossas vidas.
Hoje acordei me perguntando como estaria se eu tivesse prestado vestibular
para licenciatura em matemática, exatas sempre foi o meu ponto forte, mas acabei
parando em humanas. Não que eu não goste, mas não era a minha primeira opção,
falando nisso adorava tudo que envolvia números, sempre gostei de cálculos, era uma
criança interessada em multiplicar a mesada que recebia todo mês, pensava que os
números ao crescerem fariam com que o dinheiro seguisse ao mesmo passo, hoje
sinto falta do dinheiro e de ser criança. Gostava de ir para escola especialmente pelas
aulas de matemática, os professores sempre me pediam para ajudar os colegas,
ajudava, mas não gostava, pois tinha zero paciência, não entendia a dificuldade de
executar uma divisão ou multiplicação. Por quê conto isso? A meu caro diário, hoje eu
curso pedagogia e compreendo que nem todos possuem o mesmo ritmo de
aprendizagem, que podem ocorrer dificuldades no ensino-aprendizagem e que
principalmente a paciência e o amor, devem de ser presente no ensino, seja ele de
matemática ou não.
Só para você saber, gostei de matemática pois via que assim como eu, ela não
era compreendida por muitos, tive diversos professores durante minha jornada, sabe
diário me lembro das feiras matemáticas que a escola ano a ano nos faziam realizar,
o meu tema preferido foi de probabilidade, montamos um cassino dentro da sala, foi
o maior sucesso. Talvez aprender matemática tenha total ligação com a nossa
ludicidade, ninguém vai se sentir feliz aprendendo apenas por ir na lousa resolver uns
problemas, me lembro que no fundamental, a professora solicitou que fizéssemos um
gibi de matemática, foi a coisa que dentre muitas eu lembro como se fosse hoje,
montamos e no final foram partilhados dias após dias com cada um, todos leram a
produção do outro, aprendemos assim, a linguagem que existia entre os números,
pela matemática nutro amor, não tive experiências traumáticas como alguns colegas
que eu conheço, sempre pensei que me tornaria professora de matemática.
Sabe, pensei que seria professora de matemática e adivinha só, hoje eu posso
ser de matemática, português, ciências, geografia e história, contando e recontando
experiências como essas que pude viver durante minha vida, não sei como estaria se
tivesse prestado vestibular para a área, mas em mais de quinhentos dias de surtos
coletivos, acredito que agora possamos imaginar daqui para frente, como eu estaria?
Não sei, mas você irá imaginar comigo.
Dez para Casa

Querido diário, hoje é mais um dia dentre muitos dessa minha nova fase, fase
essa que descubro dia a dia, nunca sei o que esperar e como lidar, as pessoas estão
ansiosas para voltar a uma rotina totalmente mecânica, sentem falta das festas, das
reuniões com toda a sua família, sentem falta dos amigos, eu sinto falta até das aulas
presenciais, já prometi para mim mesma que não irei mais passear quando estiver
cansada de ficar sentada, que irei participar mais das aulas e não mais remendar
meus amigos, o que eu adorava fazer.

Eu já fiquei louca diversas vezes, passei por crises enormes de solidão, adoro
pessoas e viver rodeada por elas é o que mais gosto, sinto falta dos meus amigos,
mas com a pandemia dificilmente nos vemos, a última que fiz foi escrever para mim
mesma, sim. Eu escrevi uma carta para o meu eu, é estranho pensar que escrevemos
tantas coisas todos os dias para os outros e para nós quase nada, no final vivemos
com vagas lembranças, se escrevêssemos mais, talvez tivéssemos mais noção do
que um dia chegamos a ser e que o tempo transformou.

A carta começava assim.

Cara Caroline...

Talvez você não se lembre, um dia eu já fui você e em mim vivia um sonho de
mudar o mundo, de ajudar mais as pessoas, ser alguém melhor, de conseguir ser mais
mesmo se já tivesse dado tudo de si, não importava o tanto que fosse difícil, você
sempre permanecia. Você amava matemática e lembra como aprendeu? Eu ainda
possuo essa memória e vou te escrever para garantir que não se perca, quando você
tinha seis anos se mudou de bairro, era uma nova vida e novos amigos, surgiu os
Cadernos do Futuro, a sua professora amava, apenas ela, os alunos nem tanto pois
eram mandados todos os dias umas quinze páginas para serem realizadas, a tarde
nem conseguiam se reunir para brincar na rua, todos vocês estavam respondendo as
páginas de português e matemática. Socorro era o nome dela, pedíamos socorro
mesmo, você nem tanto, pois sempre gostou e pegava fácil todos os assuntos, mas
ficava agoniada. Nunca aceitou ter que anular o horário de brincar para fazer as trinta
páginas de exercícios todos os dias.
Era cansativo, parecia que estávamos sendo preparados para o ENEM,
tínhamos apenas seis anos, a escola sempre foi assim se pararmos para pensar, os
professores em sala passam a manhã toda em duas páginas e para casa passam
umas dez, qual o sentido de tudo isso? Me diga, nesse seu novo tempo continua
assim?

Sabe, sempre estudei para que pudesse colocar o meu melhor em algo,
durante todos esses anos coloquei na matemática, era bem mais fácil para mim, mas
via os outros com dificuldades, cursando Pedagogia vi que não bastava o que
tínhamos a oferecer, sempre vamos ter que ir além, sempre terá uma criança
precisando da gente e ela não precisa de duas páginas em sala e dez para casa, o
ensino da matemática se não reformular sua prática de ensino, nunca vai funcionar.
Por isso eu espero que você na minha melhor versão, não seja essa professora de
doze páginas.

Eu sei que essa vontade de mudar o mundo e as coisas a sua volta, irão fazer
você ser melhor que eu hoje. Que você irá mostrar o lado divertido dos números e
fazer os alunos se apaixonarem assim como você se apaixonou um dia, a matemática
não é difícil e você sabe, então. Use a ludicidade, faça com que os alunos entendam
o prazer dessa ciência e por mais que o sistema seja tradicional, se rebele, na sua
sala quem ensina é você, não esqueça disso.

Toda vez que se reler, imagine as vidas que você pode e poderá mudar com
um simples jeito de ensinar, ninguém é detentor de todo o conhecimento, ensine e
aprenda com os seus alunos todos os dias, eles devem ser fantásticos, cheios de
sonhos e curiosidades como um dia você e eu, já fomos. Portanto continue dando o
melhor de si.

Te desejo todo o sucesso do mundo, espero que tenha revisto todos os seus
amigos e tenha conseguido alcançar todos os seus objetivos, um enorme abraço de
alguém que um dia já foi você.
O Valor do Tempo

Querido diário, não é com tanta alegria que escrevo, talvez hoje não me
encontre muito bem, sempre falo da pandemia, talvez seja porque me marca muito, o
professor dessa vez veio com uma ideia de relembrar o que fazíamos ou que
interesses tínhamos quando criança, a verdade é que apesar de lembrar de muita
coisa o que me vem na memória são as coisas da adolescência. Na verdade, o que
te marca são as lembranças, fatos que te prendem na história, as pessoas costumam
dizer que alguém sem história não viveu como deveria ou pelo menos não tenha sido
tão feliz, felicidade para alguns talvez tenha ligação com diversos momentos vividos
e instantes proporcionados.

Há poucas horas falei com uma pessoa que me fez pensar muito, na verdade
ela é filha de uma professora que infelizmente a pandemia levou, eu a amava muito,
ela me ensinou princípios básicos de um profissional, sei que irei carregar para toda
vida, lembro que quando a conheci, pronunciava o nome por “Asgda”, o nome na
verdade se pronuncia Ágida, que tem por significado bondade, aquela que é bondosa.
Onde eu quero chegar com tudo isso? É simples, na vida você marca ou é marcado,
eu tenho certeza que fui os dois, nos marcamos, sabe. Sinto muita falta, ela era uma
mãe que a faculdade me deu, quando eu ia mal, a gente fazia os cálculos dos pontos
que eu precisava e eu logo me assustava, uma das vezes eu precisava de um oito,
tinha colocado na cabeça que não iria conseguir, ela segurou minha mão, olhou para
mim e disse que confiava no meu potencial, que eu poderia fazer a prova no outro dia
e que tinha a certeza que eu iria conseguir. Me agradeceram hoje por ter cuidado dela
quando não podiam, diversas vezes a gente brigava com ela, se deixasse eram litros
de café e pacotes de bolacha de motor, o tempo sempre corrido mal deixava brechas
para o almoço, o fato da responsabilidade e da vida adulta, fazem com que não
tenhamos tempo, que venhamos nos esquecer de nos cuidar e administrar as contas,
horários, esquecer que devemos ter tempo de aproveitar mais, viver mais, de se sentir
livre e ser mais e um pouco mais feliz.

Eu lembro disso pois meus pais sempre estavam ocupados, cresci desde os
seis anos tendo alguém para cuidar de mim e não eram eles, pois não tinham tempo
e pouco que tinham não queriam ser importunados e eu entendo, mas eu sentia muita
falta. Nos dias normais eu acordava, me arrumava e ia para escola, nunca gostei de
comer pela manhã, esperava chegar em casa novamente e almoçava, na escola eu
me focava nos estudos e me apegava aos professores, era a figura mais próxima de
alguém poderia ser meu pai ou minha mãe, era o mais perto que eu poderia ter de
uma presença materna ou paterna. Eles me davam atenção, muitas vezes mais do
que deveriam, pois eu sempre fui uma criança inteligente e me esforçava para ser
mais e mais, achava que assim eu teria atenção de alguém, na hora do almoço eu
comia no meu canto e depois banho, ao sair eram as trinta páginas de exercício de
todo santo dia, quando me restava tempo eu brincava, se já tivesse passado do
horário eu tinha que ficar dentro de casa, restava apenas a TV e o Vídeogame, minha
tia passava boa parte do tempo comigo, o nosso ódio era recíproco, mas ela namorava
e ódio dela surgia por isso, o Gabriel que era namorado dela percebia a minha solidão
e quando aparecia, fazia questão de brincar comigo, passar um tempo e saber como
eu estava.

Nos finais de semana, feriados ou férias eu sempre pedia para ir para casa dos
meus avós, me levavam e eu ficava muito feliz, meus avós tinham tempo para me dar
atenção, a casa deles era uma colônia de netos, eram jogos no pátio, corridas dentro
de casa, era o tempo de todos comerem juntos, assistir filmes, rir juntos, são
momentos que nos deixam felizes e nos marcam.

O que eu quero dizer é que eu cresci sem o tempo dos meus pais e no meu eu
apenas queria ter atenção, ser melhor em tudo para que alguém pudesse notar, a
minha mãe sempre reclamou de ter que ir na escola para receber elogio no dia da
entrega de boletim, talvez ela esperasse algo ruim, então. O que fazemos no nosso
tempo e com o nosso tempo? Literalmente são parte de escolhas e prioridades
nossas.

Muitos observam na matemática a soma, crescer, mais e mais, multiplicar,


dividir para uns não parece ser bom, diminuir pior ainda, mas a gente sempre diminui
algo e para mim era diminuído o tempo disso ou daquilo. Hoje isso me marca, mas
não faz mais diferença e foi assim que cresceu um amor pela educação, com a falta
de tempo dos meus pais, passei a ficar o dia e a tarde na escola, preferia mil vezes a
escola, os professores e o ensino, acrescentar e retirar sempre fizeram parte de mim
na infância, na adolescência e agora a caminho da vida adulta.
Lembra que eu mencionei a Ágida? Então, ela sempre teve tempo e tinha tempo
para mim e para os outros, adorava passar o tempo com ela, ir nas palestras, almoçar
na rua, ir ao mercado fazer as compras dela, que muitas vezes eram besteiras. Ela
tinha tempo para todos, falava de tudo com amor, com um carisma incrível e
acompanhado sempre de um sorriso e uma voz que escutávamos de longe, o tempo
me fez perceber a importância da matemática que carregamos para a nossa vida, as
vezes não nos adequam ou não nos adequamos em certos lugares, mas o tempo nos
tira ou nos coloca em algo, sempre foi assim para mim e com o tempo, acabou tudo
bem.
Ao Mestre dos Magos

Querido diário, hoje é primeiro de setembro e estamos em uma tarde chuvosa,


sempre gostei do barulho da chuva pois acalma-nos como nada mais consegue. A
chuva me lembra as tardes na escola, geralmente começo de cada mês a gestora
mandava cortar a grama e com a chuva, subia um aroma de mato molhado, eu adoro
esse cheiro até hoje. É cheiro de boas memórias, a escola nos rodeia de nossas
melhores lembranças, nossas primeiras relações são construídas nesse espaço, nos
identificamos com grupos e nele permanecemos boa parte ou toda a parte de nossa
jornada escolar.

Me recordo nesse instante de todos os laços que formei, éramos um grupo de


seis, mantenho contato com todos até hoje, apesar do tempo e da distância continuam
sendo os meus melhores amigos, sou madrinha da filha de um deles e sempre
brincamos que não queremos que ela seja que nem fomos um dia, não que tenhamos
sido ruins, é mais por conta das graças que vaziamos e dos lupos eternos que
passávamos e não conseguíamos levar nada a sério.

Eu sempre fui a mais palhaça e gaiata, nessas horas eu me estressava com o


professor de português, pois inúmeras vezes ele chegava com os livros de literatura,
lembro-me dele olhando para mim e dizendo: Caroline, começar a leitura. Eu olhava
como quem queria morrer, eu nunca gostei da minha voz, mas ele todo santo dia me
fazia ler, eram poemas e poesias que eu ficava: Homem, pra quer? Não compreendo
nada, ele apenas ria e dizia que um dia eu entenderia. O nome dele era Manoel, mas
chamávamos de Mestre dos Magos, sério. Nunca vi alguém igual ao personagem
como ele era, quando era dia de segunda-feira ele sempre vestia sua camisa
vermelha, era o que queríamos para rir e achar mais parecido ainda. Era muito
engraçado, hoje ele é praticamente meu vizinho, mora umas 7 casas da minha, toda
vez que vou para a rua, sempre nos cruzamos, ele olha e solta: Você tem redação
para ler, Caroline? Eu começo a rir e digo: Professor me deixe, era o meu pavor essas
redações, eram cinco por bimestre, eram obrigatórias, nunca entendi o porquê. Ele
nunca parou para ler nenhuma, nem corrigir os erros, ele apenas escutava e no final
dialogava conosco sobre nossas opiniões. Talvez hoje eu entenda o motivo, ele não
se importava com a norma culta, para ele o exercício de desenvolver o intelecto valia
muito mais, na época eu odiava, hoje é parte das minhas lembranças e sinto muita
falta, então.

Caro professor Mestre dos Magos essa prosa é para o senhor de certa forma,
pelas redações e pelas inúmeras vezes que me fazia ler, Carlos Drummond, Vinicius
de Moraes, Manuel Bandeira, Manoel de Barros e Thiago de Mello. Lembro que uma
vez me disse que tudo estaria ligado com a forma que gostaríamos de passar o melhor
de nós, você sempre soube que eu amava matemática muitos mais que língua
portuguesa, hoje eu entendo que os dois podem caminhar juntos e esse talvez não
seja meu melhor escrito, mas é o primeiro que une o que eu gostaria de passar e o
que o senhor me passou durante três anos.

ELA ERA

Ela era cheia de sonhos,

Sonhos que se multiplicavam rapidamente, que tinham a necessidade de se sentirem


vivos e mostrarem sua importância,

Ela era uma das melhores partes que alguém poderia ter,

Ela era muito, apesar de poucos reconhecerem o seu valor.

Ela sorria ao mesmo tempo que conseguia se diminuir tanto, que chegava a ser triste
de qualquer ponto de vista, mas não do dela.

Pois ela, se entendia e se amava como nenhuma outra conseguia se amar,

Ela servia de inspiração para àqueles que eram perdidos ao tempo, aqueles que
conseguiam pensar e tinham o desejo de se aprofundar mais e mais em si,

Ela tenta mostrar o sentido de tudo, do valor e principalmente do tempo, que é tão
precioso que poucos conseguem ver.

Ela gostaria que aprendessem a partir dela uma nova construção de mundo,

Ela se acha extremamente necessária e muitos diziam que não passa de uma
prepotência gigante de sua parte,

Mas ela, não liga e ignorava e isso ela fazia muito bem com os que não compreendem
sua verdadeira essência.

Ela usa máscaras, não para se esconder, mas para que os outros percebam a quão
divertida ela pode ser.
Tinha seus planos que se cartesiavam e que muitas vezes, eram quase que repetitivos
que muitos descartavam,

Ela adorava os romanos, dizia que eles eram impotentes e que em um triângulo talvez
perdesse para hipotenusa e ficasse adjacente ao que se esperava deles, pois o seu
oposto era o seu lado mais bonito, mas que nem todos conseguiam enxergar.

Ela falava sobre as diversas probabilidades que alguém poderia alcançar e insistia em
jogar,

Ela se jogava sobre aqueles que podiam a amar, pois poucos podem entender a
liberdade e voo que ela busca alcançar

Ela sonha em que muitos um dia a vejam como ela gosta de estar,

Que falem e ensinem tudo que gostaria de ensinar,

Ela busca alguém que a goste sem antes julgar, mas poucos nascem com esse olhar,

Ela aprendeu que ao se ensinar precisava buscar,

Buscar sonhos que pudesse se trabalhar,

Mas, a final quem é ela?

Ela é a moça que Pitágoras, resolveu acordar.

É a matemática que muitos tentam ensinar.

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