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O USO DA FORÇA E DOS MEIOS COERCIVOS

PELAS FORÇAS DE SEGURANÇA

(ALGUMAS REFLEXÕES)

Maria José R. Leitão Nogueira

É com muito gosto que aqui venho partilhar algumas reflexões sobre o
uso da força e dos meios coercivos pelas forças de segurança.

Gosto, que vem do facto de esta iniciativa se inscrever no âmbito da


formação inicial, ocasião em que as pessoas estão mais abertas a reflectir sem
as limitações decorrentes do exercício da profissão, que têm tendência a
instalar-se em todos nós ao fim de anos de actividade e que, por vezes, nos
retiram a abertura de espírito necessária para reflectir sobre as coisas de forma
diferente daquela a que nos habituámos.

Gosto, ainda, porque não deixa de constituir para mim um reencontro


com o passado, trazendo-me à lembrança boas e gratas recordações de
momentos em que numa escola também contribui para a formação de
profissionais de Polícia.

Finalmente, porque estando aqui hoje em representação da Inspecção -


Geral da Administração Interna, tenho a expectativa de vos poder transmitir um
dos seus importantes objectivos, o qual se concretiza na promoção da
qualidade da actividade policial.
I - O cumprimento dos princípios e normas que regem a actividade
de Polícia

Começo por referir que o bom profissional de Polícia é aquele que


consegue apresentar resultados com observância das normas que regulam a
sua actividade.
Digo que não corresponde à verdade alguma ideia remotamente ouvida,
de que o cumprimento das regras possa constituir um obstáculo à eficácia.
E digo que, bem pelo contrário, a respectiva observância irá reflectir-se,
as mais das vezes de forma decisiva na resolução do caso.
Pretendo com isto salientar que de pouco ou nada serve apresentar
resultados, tais como deter pessoas, realizar buscas ou proceder a revistas, à
custa da violação de princípios e normas cuja inobservância é susceptível de
comprometer à partida o resultado final. Se esta ideia não estiver presente, se
não houver consciência de que grande parte da actividade de Polícia não se
esgota na concreta actuação material, projectando-se antes no futuro, corre-se
o risco de ver o "brilho" inicial da operação sucumbir no momento decisivo.
A estrita observância dos princípios e normas que regem a actividade
policial é, pois, fundamental para uma actuação que se pretende eficaz e para
a salvaguarda do agente de eventuais responsabilidades.

II - Os princípios e as normas que regem a actividade policial

No que respeita ao uso da força e dos meios coercivos, como sabem,


existem, quer no plano internacional quer no plano nacional, princípios e
normas que enformam esta específica, melindrosa e necessária vertente de
actuação da Polícia.

No plano internacional destaco:

- O Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela


Aplicação da Lei, adoptado pela Assembleia Geral das Nações Unidas
(Resolução 34/169, de 17 de Dezembro de 1979), cujo artigo 3° dispõe "Os
funcionários responsáveis pela aplicação da lei só podem empregar a força
quando tal se afigure estritamente necessário e na medida exigida para o
cumprimento do seu dever";
- Os Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de
Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei, adoptados
pelo Oitavo Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e o
Tratamento dos Delinquentes (realizado em Havana de 27.8 a 7.9 de 1990) nos
quais se diz que "os funcionários responsáveis pela aplicação da lei, no
exercício das suas funções, devem, na medida do possível, recorrer a meios
não violentos antes de utilizarem a força ou armas de fogo. Só poderão
recorrer à força ou a armas de fogo se outros meios se mostrarem ineficazes
ou não permitirem alcançar o resultado desejado", e que "Sempre que o uso
legítimo da força ou de armas de fogo seja indispensável, os funcionários (...)
devem: Utilizá-las com moderação e a sua acção deve ser proporcional à
gravidade da infracção e ao objectivo legitimo a alcançar";

- O Código Europeu de Ética da Polícia (Recomendação 10/2001 do


Comité de Ministros do Conselho da Europa), no sentido de limitar o recurso à
força aos casos de absoluta necessidade e para alcançar um fim legitimo.

No plano interno, saliento:

- O artigo 266° da CRP respeitante aos princípios fundamentais que


regem a Administração Pública, o qual dispõe que a mesma "visa a
prossecução do interesse público, no respeito pelos direitos e interesses
legalmente protegidos dos cidadãos"; e que "Os órgãos e agentes
administrativos estão subordinados à Constituição e à lei e devem actuar, no
exercício das suas funções, com respeito pelos princípios da igualdade, da
proporcionalidade, da justiça, da imparcialidade e da boa fé".

- O artigo 272° do mesmo texto fundamental, respeitante à "Polícia"


prescreve:
- "A Polícia tem por funções defender a legalidade democrática e
garantir a segurança interna e os direitos dos cidadãos" (nº 1); "As medidas de
Polícia são as previstas na lei, não devendo ser utilizadas para além do
estritamente necessário" (nº 2); "A prevenção dos crimes, incluindo a dos
crimes contra a segurança do Estado, só pode fazer-se com observância das
regras gerais sobre Polícia e com respeito pelos direitos, liberdades e garantias
dos cidadãos" (nº 3);

- A Lei de Segurança Interna (Lei n° 20/87, de 12 de Junho) que depois


de definir a actividade e fins de segurança interna (artigo 1°) estabelece ao
nível dos princípios fundamentais que: "A actividade de segurança interna
pautar-se-à pela observância das regras gerais de Polícia e com respeito pelos
direitos, liberdades e garantias e pelos demais princípios do Estado de direito
democrático”; e que “As medidas de Polícia são as previstas nas leis, não
devendo ser utilizadas para além do estritamente necessário”; e ainda que “A
prevenção dos crimes, incluindo a dos crimes contra a segurança do Estado,
só pode fazer-se com observância das regras gerais sobre Polícia e com
respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos” (artigo 2º);

- A Lei Orgânica da Polícia de Segurança Pública (Lei º 5/99, de 27.1)


ao dispor que “No âmbito das suas atribuições, a PSP utiliza as medidas de
Polícia legalmente previstas e aplicáveis nas condições e termos da
Constituição e da lei, não podendo impor restrições ou fazer uso dos meios de
coerção para além do estritamente necessário (…)”, e que “Os meios coercivos
só poderão ser utilizados nos seguintes casos: Para repelir uma agressão
actual e ilícita de interesses juridicamente protegidos, em defesa própria ou de
terceiros; Para vencer resistência à execução de um serviço no exercício das
suas funções, depois de ter feito aos resistentes intimação formal de
obediência e esgotados que tenham sido quaisquer outros meios para o
conseguir”;

O Código Deontológico do Serviço Policial, aplicável aos militares da


GNR e ao pessoal da PSP no âmbito do exercício das funções policiais
(Resolução do Conselho de Ministros n° 37/2002, DR. IS, B, de 28.2) que,
depois de enunciar como princípios fundamentais, além de outros, o respeito
dos direitos humanos (artigo 2°) e de prescrever que "No cumprimento do seu
dever, os membros das forças de segurança promovem, respeitam e protegem
a dignidade humana, o direito à vida, à liberdade, à segurança e demais
direitos fundamentais (...)", sobre o uso da força dispõe ainda que "Os
membros das forças de segurança usam os meios coercivos adequados à
reposição da legalidade e da ordem, segurança e tranquilidade públicas só
quando estes se mostrem indispensáveis, necessários e suficientes ao bom
cumprimento das suas funções e estejam esgotados os meios de persuasão e
de diálogo"; e que "Os membros das forças de segurança evitam recorrer ao
uso da força, salvo nos casos expressamente previstos na lei, quando este se
revele legitimo, estritamente necessário, adequado e proporcional ao objectivo
visado";

- O Regime Jurídico do Recurso a Arma de Fogo em Acção Policial


(D.L. n° 457/99, de 5.11 ).

Podemos, pois, dizer que, constituindo a garantia dos direitos


fundamentais um dos pilares do Estado de Direito, o seu exercício tem de
suportar, por vezes, restrições em nome de um interesse público ou geral. Mas,
ao mesmo tempo que é função da Polícia defender os direitos dos cidadãos,
estes constituem um limite da actividade da Polícia.
Com efeito, quotidianamente a Polícia é chamada a intervir para prevenir
danos sociais ou para impedir a respectiva generalização, através de
actuações susceptíveis de provocar restrições aos direitos fundamentais.
Contudo, a prossecução do interesse público não pode fundamentar o sacrifício
abusivo dos direitos dos cidadãos.
Num Estado que elege como principio fundamental a dignidade da
pessoa humana, que consagra constitucionalmente como direitos fundamentais
os direitos à vida e à integridade física e que impõe o respeito pelo conteúdo
essencial dos direitos, liberdades e garantias (artigos 1 °, 24°, 25° e 18° da
CRP), impõe-se que, no exercício das suas funções, os agentes actuem com
respeito pelos mesmos, devendo a intervenção policial pautar-se pelo
estritamente necessário à reposição da legalidade violada e na ponderação dos
diversos interesses em jogo adoptem as medidas que se mostrem face às
circunstâncias, adequadas, necessárias e proporcionais. E, se os princípios
enunciados constituem um importantíssimo filtro de aferição da legalidade da
actividade da Polícia em geral, por maioria de razão assumem especial
significado quando está em causa o uso da força e de meios coercivos.

O princípio da proporcionalidade, ou da proibição de excesso, aplicado à


actividade de Polícia - limitativo das liberdades individuais - visa impedir abusos
ou excessos por parte das autoridades que a exercem, e garantir um justo
equilíbrio entre os interesses individuais e o interesse público que ao Estado
compete proteger, com a salvaguarda dos direitos fundamentais.
Donde, os agentes de autoridade, no exercício da actividade de Polícia,
perante uma situação concreta terão sempre de avaliar se ocorre uma relação
equilibrada entre a vantagem do fim que visam prosseguir e o custo da medida
a adoptar para o atingir.
A medida restritiva deve revelar-se meio adequado à prossecução do fim
visado por lei, ou seja tem de ser idónea para o alcançar. Este é o princípio da
adequação.
Por outro lado, deve demonstrar-se a sua necessidade para alcançar o
resultado pretendido. Será necessária quando o fim visado não puder ser
atingido por meio menos lesivo. Este é o princípio da necessidade ou da
exigibilidade.
Finalmente, é necessário que do confronto entre o interesse prosseguido
e o interesse sacrificado, resulte ser este aceitável em função do objectivo a
atingir. Este é o princípio da proporcionalidade em sentido estrito.

Importa, pois, reter:

- A actividade de Polícia só pode desenvolver-se quando estão em


causa tarefas de Polícia, contribuindo as respectivas atribuições - defesa da
legalidade democrática, garantia da segurança interna e defesa dos direitos
dos cidadãos - de forma decisiva para a delimitação da sua esfera jurídica,
estando-lhe vedado manifestar vontades que não tenham por objectivo a
prossecução dos fins que a lei determina;

- A Polícia tem de pautar a sua actuação pelo princípio da


proporcionalidade ou de proibição de excesso - que vincula toda a
Administração Pública -, nas suas três dimensões: adequação, necessidade e
proporcionalidade em sentido estrito;

- O uso da força reveste natureza residual e subsidiária, e surge sempre


na perspectiva de um dever que incumbe ao Estado e aos seus órgãos;

- A Lei não contém, porque não pode conter, nem uma enumeração
completa e total das situações concretas em que a Polícia pode recorrer ao uso
da força, nem dos meios coercivos de que em cada caso se pode socorrer;

É, quanto ao recurso à arma de fogo, que se assiste


compreensivelmente, por parte do legislador, a uma maior clarificação e
pormenorização dos respectivos pressupostos.

Trata-se de um meio coercivo extremo, cujo uso exige um aprofundado


conhecimento do quadro legal, formação permanente e treino. Passo por isso a
dedicar-lhe especial atenção, reproduzindo em parte uma comunicação que
num passado recente proferi sobre o tema.

III - O regime jurídico do recurso a arma de fogo em acção policial

Da análise do regime jurídico instituído pelo D.L. n° 457/99, resulta claro


o acolhimento das recomendações constantes dos textos internacionais, alguns
já atrás mencionados, com particular atenção para os Princípios Básicos
sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários
Responsáveis pela Aplicação da Lei.
O diploma, ao clarificar os pressupostos do recurso a arma de fogo e ao
definir as situações em que tal pode ocorrer, concretizando o uso possível,
representou um avanço importante, ou se se quiser uma garantia acrescida,
para os cidadãos numa área especialmente sensível.
Com efeito, comparando os regimes anteriormente em vigor com o
sistema instituído pelo D.L. 457/99, conclui-se que este:

a) trouxe maior concretização dos pressupostos que possibilitam o


recurso a arma de fogo;
b) estabeleceu com clareza duas categorias de utilização da arma,
sendo uma muito mais exigente do que a outra;
c) restringiu de forma acentuada a possibilidade de se recorrer à arma
contra pessoas, fixando de forma taxativa as condições capazes de legitimar
esse uso e deixando expressa a necessidade de respeitar e preservar a vida
humana até ao extremo possível.

Este regime restritivo veio a ser posteriormente reforçado no Código


Deontológico do Serviço Policial, no qual se vinca a natureza extrema de
que reveste a medida de recurso a arma de fogo.

IV - Algumas situações exemplificativas

Com recurso a situações conhecidas em virtude do cargo exercido,


passamos a referir exemplos-tipo em que, com maior frequência, se tem
verificado uso indevido de arma de fogo.

A - Disparos acidentais ou involuntários

Deparamo-nos nesta caso com ocorrências que se traduzem na


perseguição apeada de suspeitos da prática de crimes de natureza diversa
que, ao serem surpreendidos pelos agentes de autoridade em situação
indiciadora de actividade delituosa, encetaram fuga. No decurso da
perseguição os agentes empunharam arma de fogo destravada e em
condições de disparar e, quando alcançaram o suspeito, por vezes porque este
resistiu, originando em consequência reacções mais bruscas, desequilíbrios ou
mesmo quedas, dispararam involuntariamente a arma, atingindo-o em alguns
casos mortalmente. Situações houve em que, face à resistência oferecida pelo
suspeito no momento da detenção, a arma empunhada nas condições acima
descritas (destravada e preparada para fazer fogo) serviu para desferir
pancadas na nuca, sendo concomitantemente de forma inadvertida premido o
gatilho, provocando disparo quase sempre fatal.
Em algumas destas situações não tem sido questionado o acto inicial de
empunhamento da arma de fogo, considerado adequado pelo risco, pela
natureza da operação e pelas concretas circunstâncias da acção. Mas, já se
tem posto em causa a correcção da conduta do agente, na medida em que, por
exemplo, sendo conhecedor das características do terreno (acidentado e com
visibilidade diminuta), sem que existisse qualquer indicio de reacção por parte
do perseguido, ao encetar a perseguição empunhando arma com bala na
câmara e com patilha de segurança destravada, veio a dar causa por adopção
de procedimento incorrecto (transporte da arma empunhada da forma descrita
durante a perseguição) a disparo involuntário que por vezes se revelou fatal.
Nestas ocorrências os agentes de autoridade, por omitirem deveres de
cuidado a que estavam obrigados, traduzidos nos procedimentos a adoptar no
transporte e utilização de armas de fogo oportunamente ministrados, acabaram
por fazer uso indevido das mesmas.
Por estar relacionada com o núcleo de situações acabado de descrever,
refiro uma questão levantada pelas forças de segurança relativa à sua concreta
possibilidade de actuação, no sentido de se esclarecer quais as acções
materiais susceptíveis de integrar a expressão "recurso a arma de fogo"
utilizada de forma repetida no D.L. n° 457/99.
Da leitura dos trabalhos preparatórios do diploma resulta que a
expressão "recurso a arma de fogo" foi escolhida em alternativa a "uso de arma
de fogo" por o legislador a ter considerado mais impressiva, no sentido de
acentuar a ideia de excepcional idade subjacente a todo o articulado.
Se, conjuntamente com este aspecto, atentarmos no conteúdo do
diploma, designadamente nos artigos 3°, n° 3 e 4, 4° e 7° podemos afirmar
que, para o efeito da concreta acção, a expressão "recurso" equivale à de
"uso", o que não elimina a questão da identificação do tipo de conduta
susceptível de integrar o "uso".
Deixando de lado as situações bem mais restritivas de uso de arma de
fogo directamente contra pessoas, diremos que verificados os pressupostos do
n° 1 do artigo 3° (vulgarmente designado como uso de arma de fogo contra
coisas) resulta legitimada, quer a advertência do uso com tiro para o ar (artigo
4°, n° 2), quer o disparo contra coisas e, por maioria de razão, o mero
empunhamento da arma.
A questão que se pode colocar é a de saber se, não ocorrendo qualquer
dos pressupostos que legitima o uso de arma de fogo, é permitido o respectivo
empunhamento, designadamente com o objectivo de intimidar.
Com efeito, a redacção do n° 3 do artigo 3°, ao dizer que "Sempre que não seja
permitido o recurso a arma de fogo, ninguém pode ser objecto de intimidação
através de tiro de arma de fogo", aumenta a dúvida.
Contudo, parece resultar dos trabalhos preparatórios a intenção de
vedar a intimidação também através do mero empunhamento da arma de fogo,
nos casos em que não se mostrem reunidos os pressupostos do uso efectivo
da mesma.
Pese, embora, a letra da lei não reflectir tal motivação, parece-nos que,
constituindo o empunhamento da arma só por si uma forma de coacção, fora
dos casos em que se verificam os pressupostos referidos no artigo 3°
viabilizadores do recurso a arma de fogo, o acto de empunhamento há-de estar
sempre condicionado pelos princípios gerais da necessidade, adequação e
proporcionalidade inerentes às medidas de Polícia.

B - Disparos dirigidos a suspeito em fuga apeada

Neste segundo grupo, ainda relativo a situações de perseguição apeada,


mas num quadro diferente, integram-se casos já não de disparos acidentais,
mas voluntários.
Deparamo-nos aqui com ocorrências em que o suspeito da prática de
um crime é interceptado pelo agente, oferece resistência e consegue pôr-se em
fuga, sendo perseguido. Durante a perseguição são efectuados disparos para o
ar que não produzem o efeito pretendido, na sequência dos quais vem a ser
realizados disparos na direcção do suspeito com o propósito de o imobilizar, os
quais o atingem originando ferimentos ou mesmo a morte.
Destacamos em termos hipotéticos uma situação já colocada por forças
de segurança, por concretizar um caso deste tipo.
Determinado indivíduo, ao ser surpreendido em acção de furto coloca-se
em fuga com o objecto subtraído, sendo perseguido por um agente de
autoridade. A este propósito, foi observado que o limite máximo abstracto de
três anos de prisão correspondente ao Crime, por ser condição da legitimação
do recurso a arma de fogo (artigo 3°, n° 1, alínea b), é impeditivo do respectivo
uso - designadamente através de tiro para as pernas do presumível infractor
em fuga - actuação que se poderia mostrar idónea à detenção e recuperação
do bem.
No que respeita a esta situação, pergunta-se: se fosse eliminado o
requisito correspondente ao limite máximo da pena, podia o agente na situação
concreta disparar para as pernas do infractor? Se os factos integrassem um
furto qualificado (cuja pena ultrapassa os três anos de prisão), podia o agente
actuar da forma descrita? E, caso se tratasse do presumível autor de um crime
de roubo acabado de cometer, se se desse o caso de estar em fuga?
O artigo 3° - o núcleo do regime jurídico instituído pelo D.L. 457/99, de
5.11 - ao estabelecer diferentes pressupostos para cada uma das intervenções
que viabiliza, consoante se trate de actuação directamente contra pessoas (nº
2) ou contra coisas, (nº 1), não deixa grande margem para dúvida.
Com efeito, à luz deste preceito parece inequívoco que nas
circunstâncias descritas se mostra arredada a possibilidade de efectuar o
disparo directamente dirigido à pessoa em fuga, qualquer que seja a pena
correspondente ao crime e ainda que direccionado a zonas não vitais, já que a
norma que legitima o disparo directo sobre pessoas contempla apenas três
situações possíveis que tem em comum a salvaguarda de vidas humanas, o
que não era manifestamente o caso.
Mas, poderia perguntar-se, não tem qualquer relevância a distinção
entre o tiro de imobilização e o tiro intencionalmente letal? Tem, perante um
caso em que se verifiquem os pressupostos que legitimam o recurso a arma de
fogo contra pessoas, na medida em que o agente "deve esforçar-se por reduzir
ao mínimo as lesões e danos e respeitar e preservar a vida humana" (artigo 2°,
n° 2).
Julgo não ser necessário justificar a ideia que esteve por detrás da
opção legislativa ao restringir ao máximo os casos em que o recurso a arma de
fogo directamente contra pessoas é admissível, o que constitui uma
manifestação do princípio fundamental da dignidade da pessoa humana e do
direito fundamental à vida, direito irrenunciável consagrado na Declaração
Universal dos Direitos do Homem.

C - Disparos efectuados perante um quadro indevidamente


caracterizado como de legitima defesa.

Um terceiro leque de situações prende-se com ocorrências em que os


agentes perante uma hipotética agressão ou perante uma agressão já
consumada, reagiram fazendo uso da arma de fogo através de disparo
efectuado na direcção do próprio agressor.
O recurso a arma de fogo contra pessoas, respeitado o principio da
proporcionalidade, reforçado no n° 2 do artigo 3° pelas palavras "desde que (...)
a respectiva finalidade não possa ser alcançada através do recurso a arma de
fogo, nos termos do n° 1 (...)" (ou seja contra as coisas), só é admissível
ocorrendo uma das circunstâncias taxativamente enunciadas, a saber: para
repelir agressão actual e ilícita dirigida contra o agente ou terceiros, se houver
perigo iminente de morte ou de ofensa grave à integridade física; para prevenir
a prática de crime particularmente grave que ameace vidas humanas; para
proceder à detenção de pessoa que represente essa ameaça e que resista à
autoridade ou impedir a sua fuga (artigo 3°, n° 2, alíneas a), b) e c).
Se compararmos o teor do ponto 9 dos Princípios Básicos Sobre a
Utilização da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis
pela Aplicação da Lei com as normas acabadas de enunciar, constata-se que
o legislador nacional adoptou, quase sem alteração, a redacção do texto
internacional.
Quanto a este núcleo de situações friso (como já lhes foi transmitido),
que a agressão ilícita susceptível de legitimar a acção de legitima defesa tem
de ser actual (em curso ou eminente).
O "emprego imediato de meios extremos contra ameaças hipotéticas ou
mal desenhadas constitui abuso de autoridade" (Marcelo Caetano, Manual de
Direito Administrativo, tomo II (9ª edição), Coimbra 1983, p. 1159).
Tem sido recorrente, em situações concretas, a alegação de actuação, a
coberto de legitima defesa, em casos de disparos efectuados na direcção de
uma viatura, em consequência dos quais sobreveio a morte e, ou, ofensas à
integridade física quer para o condutor quer para os ocupantes, na sequência
de tentativa de atropelamento dos agentes de autoridade por parte do veículo
em fuga.
Ora, tem-se constatado que a alegação nesse sentido encerra muitas
vezes um entendimento incorrecto sobre o conceito da actualidade a que atrás
aludi. Na verdade, não é possível configurar uma agressão em execução,
quando os disparos direccionados ao veículo em fuga ocorrem na sequência
da desobediência do condutor em deter a marcha, uma vez "transpostos" os
agentes de autoridade alegadamente vítimas da tentativa de atropelamento.
Donde, se exige atenção ao nível da configuração das condutas idóneas
a integrar o que já pode ser considerado como acto de execução, por um lado,
e como identificação do momento a partir do qual se há-de ter por cessada a
agressão, por outro.

D - Disparos dirigidos a coisas que vem a atingir pessoas

O último grupo de casos respeita ao uso de arma de fogo em situação


de desobediência, por parte do condutor à ordem de paragem, o que já tem
acontecido no âmbito de puras acções de fiscalização de trânsito através de
disparos efectuados na direcção do veículo em fuga, os quais, visando embora
os pneus, vem a atingir o condutor ou um passageiro.
Nesta matriz incluem-se ainda situações de perseguição auto de
suspeitos da prática de crime, no decurso da qual, com vista a fazer deter a
marcha do veículo em fuga foram realizados disparos, numa primeira fase para
o ar e posteriormente dirigidos ao veículo, em alguns casos com o resultado
acima enunciado.
Não cuidando da situação de disparo de arma de fogo na sequência de
desobediência numa pura acção de fiscalização de trânsito - na medida em que
a consideramos desprovida de suporte legal - vamo-nos deter nos casos em
que o mesmo ocorre para atingir um dos objectivos enunciados nas várias
alíneas do n° 1, do artigo 3°, designadamente para impedir a fuga de um
suspeito, verificados os demais pressupostos.
Nos trabalhos preparatórios do D.L. 457/99, a título de exemplo de uso
de arma de fogo contra coisas, surge o disparo contra os rodados de um
camião e não já contra os pneus de um automóvel, o que não será por acaso.
Com efeito, o grau de perigosidade inerente a cada uma das situações não é,
por razões óbvias, comparável.
O elevado grau de risco para a vida e integridade física que os disparas
dirigidos a viaturas em fuga encerra, constituirá certamente a justificação da
formação ministrada às forças de segurança relativamente aos procedimentos
a adoptar na abordagem das viaturas em movimento, no sentido de não ser
usada arma de fogo para forçar a imobilização da viatura perseguida, salvo se
do interior desta houver reacção com recurso a tais armas, "ou se, não
havendo cessado o flagrante delito, se torne imperioso evitar danos maiores",
caso em que será admissível como último recurso, de preferência com
munições adequadas1.
E, se o risco da ofensa dos direitos fundamentais à vida e à integridade física é
grande quando o disparo é efectuado por um agente apeado, maior será
quando o mesmo ocorre no âmbito de uma perseguição auto, situação em que
factores aleatórios o aumentam exponencialmente.
Do que acabo de referir, com base na experiência que a análise de
casos concretos me tem fornecido, excluo, em princípio, a possibilidade do
disparo dirigido aos pneus de uma viatura em fuga, admitindo-o em situações
excepcionalíssimas, designadamente quando ocorra perigo de vida ou de

1
Ministério da Administração Interna (MAl), Serviço Policial. Técnicas de Intervenção Policial.
Texto de Apoio A, Lisboa, Setembro 2000, p. 25.
grave ofensa à integridade física, perigos estes a aferir com base nas
circunstâncias do caso.

Falei do uso da força em geral, destaquei alguns textos internacionais e


nacionais que enformam a actividade de Polícia em particular, referi os
princípios a que se encontra subordinada e o meio coercivo extremo que é a
arma de fogo.
Não é possível numa exposição desta natureza tratar isoladamente cada
um dos meios coercivos e seria impossível referir todas as circunstâncias em
que deles se podem socorrer.
Não irão encontrar lei que expressamente diga se neste ou naquele
caso podem fazer uso da força ou de um particular meio coercivo. Só perante
situações concretas poderão fazer a devida avaliação decidindo em
conformidade e a plena consciência disto é extremamente importante.
Mas, se de alguma forma tiver conseguido contribuir para que reflictam
sobre os princípios básicos a que deve obedecer o recurso à força e aos meios
coercivos, se tiver conseguido reforçar que estes se revestem natureza residual
e subsidiária e que se ajustam sempre a um dever do Estado e dos seus
órgãos, no exercício das respectivas atribuições, se reavivei a necessidade de
terem sempre presente o principio da proporcional idade nas suas três
vertentes - adequação, necessidade - exigibilidade e proporcionalidade em
sentido estrito -, então este encontro terá tido utilidade.

Agradeço a atenção com que me ouviram. Estarei ao vosso dispor para


qualquer esclarecimento.
Desejo-vos felicidades no futuro desempenho, ficando cientes de que eu, tal
como a maioria dos cidadãos deste país, precisamos e contamos convosco.

Torres Novas, 5 de Maio de 2004