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REVISTA BRASILEIRA DE PESQUISA

ISSN
2525-426X (AUTO) BIOGRÁFICA

MAIO/AGO. 2020
V.05 / N.14
RBPAB, v. 05, n. 14, 460 p., maio/ago. 2020
ISSN 2525-426X

Associação Brasileira de
Pesquisa (Auto)Biográfica

Apoio:
Presidente Sudeste
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Ecleide Cunico Furlanetto – UNICID
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Secretário Carmo Thum - FURG
Paula Perin Vicentini – USP
Sandra Novais Sousa - UFMS Conselho Fiscal
Titulares
Tesoureiro Maria Rosa R. Martins Camargo – UNESP
Elizeu Clementino de Souza – UNEB Wolney Onório Filho – UFG-Catalão
Jussara Fraga Portugal – UNEB Carmem Lúcia Brancaglion Passos - UFSCar
Suplentes
Diretoria Regional Rosvita Kolb Bernardes – UFMG
Norte Cristhianny Bento Barreiro – IFSUL-Rio-Grandense
Silvia Nogueira Chaves – UFPA Adair Mendes Nacarato – USF-SP
Selma Costa Pena - UFPA Conselho de Publicação
Dislane Zerbinatti Moraes – USP
Nordeste Maria Helena Menna Barreto Abrahão – UFPel
Cristóvão Pereira Souza – UNP Maria Teresa Santos Cunha – UDESC
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UFRN/UNICID
Centro-oeste Inês Ferreira de Souza Bragança – UNICAMP
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Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)biográfica Rio de Janeiro | Brasil


É uma publicação quadrimestral da BIOgraph – Caterina Bonelli | Universitá degli Studi di Milano-
Associação Brasileira de Pesquisa (Auto)biográfica. Bicocca | Itália
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César Augusto Castro | Universidade Federal do
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Portugal
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de São Paulo | Brasil
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Espanha Hervé Breton |Université de Tours | França
Carmen Teresa Gabriel | Universidade Federal do Inês Assunção de Castro Teixeira | Universidade

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020 473
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Jorge Luiz da Cunha | Universidade Federal de | Brasil
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Espanha Pedagógica Nacional | México
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Argentina do Rio de Janeiro | Brasil
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Universidade Federal de Pelotas | Brasil
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Maria Rosa Rodrigues Martins de Camargo |
Federal do Pará | Brasil
Universidade Estadual Paulista | Brasil
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Grande do Sul | Brasil Estado de Santa Catarina | Brasil
Maria Teresa Santos Cunha | Universidade do Verbena Maria Rocha Cordeiro | Universidade do
Estado de Santa Catarina | Brasil Estado da Bahia | Brasil
Nilton Paulo Ponciano | Instituto Federal de Zeila de Brito Fabri Demartini | Universidade de
Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas | São Paulo | Brasil
Brasil
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Versão para o espanhol / Spanish version: Daniel Hugo Suárez
Projeto gráfico e ilustrações / Graphic desing and ilustrations: Linivaldo Cardoso Greenhalgh
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RBPAB, v. 05, n. 14, 460 p., maio/ago. 2020

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica. Salvador, BIOgraph, V.1, n.1, 2016.

Quadrimestral
Publicação da Associação Brasileira de Pesquisa (Auto)biográfica (BIOgraph)

ISSN 2525-426X

1. Educação. 2. Pesquisa autobiográfica

RBPAB publica artigos acadêmico-científicos inéditos, que aprofundem e sistematizem a pesquisa empírica com fontes biográficas e
autobiográficas, assim como de caráter epistemológico e teórico-metodológico vinculados à pesquisa (auto)biográfica em Educação.

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474 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020
SUMÁRIO
481 Editorial
DOSSIê
486
Memórias, Narrativas e Patrimônios
Joseania Miranda Freitas; Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha
490 Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria
Ana Clara de Rebouças Carvalho
508 Gramáticas de poder: performance como ferramenta para a divulgação do
patrimônio cultural da comunidade surda
Sebastián Carrasco
524 Por que plangem os sinos? Ressonâncias biográficas e patrimoniais na
paisagem sonora da cidade de Goiás
Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa
541 Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de
museu
Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira
565 Quero os meus brincos: memória da infância, patrimônio e identidade na saga
do povo Xetá
Maria Angelita Silva; Nerli Nonato Ribeiro Mori
578 Identidade e relações de força no candombe argentino
Jean-Arsène Yao
593 Palavra patrimônio: narrativas orais no Assentamento Rose
Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira
612 Narrativas implicadas sobre memória, cultura e negritude no Recôncavo da
Bahia
Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus
627 Narrativas e memórias sobre a condição negra em Paris
Ari Lima
648 Narrativas: ferramentas do campo patrimonial e potências de vidas
Raquel Alvarenga Sena Venera; Roberta Fernandes Buriti
667 Culturas do passado-presente: um estudo sobre o discurso da novidade e as
políticas patrimoniais em um Recife de três tempos
Francisco Sá Barreto; Izabella Medeiros
692 Pistas biográficas de Henriqueta Martins Catharino e a coleção de arte popular
do Instituto Feminino da Bahia
Suely Moraes Cerávolo
709 Narrativas expositivas na constituição de memórias identitárias: um estudo de
caso
Camilo de Mello Vasconcellos; Otávio Pereira Balaguer
723 Uma biografia musealizada: a coleção de Hugo Simões Lagranha no Museu
Municipal de Canoas (RS)
Julia Maciel Jaeger; Zita Rosane Possamai 

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020 475
740 A Casa do Museu (1972-1980): uma comunidade de prática em chave feminina
Leticia Pérez Castellanos
758 Minimuseu Firmeza: arte/vida em defesa de uma história da arte no Ceará
Carolina Ruoso

artigos
777 Tese autobiográfica: os procedimentos para o constructo do “eu” fonte
Edilson Fernandes de Souza
796 A narrativa biográfica no debate acadêmico contemporâneo: uma contribuição
bibliográfica
Mauro Henrique Miranda de Alcântara
815 O método (auto)biográfico como dispositivo de formação na iniciação científica
Fernanda Nogueira; Élica Luiza Paiva
829 De mim ao teatro terapêutico: percurso de vida, percurso criativo e narrativas
de si
Geraldo Alves Lacerda
841 Narrativas, rua e construção de laços: histórias que se encontram na EJA
Kleyne Cristina Dornelas de Souza
859 Educação política das sensibilidades e arquitetura escolar
Cyntia Simioni Franca; Nara Rubia de Carvalho Cunha; Fabio Luiz da Silva
874 Reflexões sobre uma experiência pedagógica a partir das narrativas (auto)
biográficas
Marcelo Silva da Silva
889 Qual o lugar da pedagogia? Notas para desidentificar seu disciplinamento
Francisco Ramallo
900 Trajetória de vida de Miguel de Oliveira Couto (1865 – 1934), médico, educador e
político
José Mario d´Almeida; Claudia Alves d´Almeida 

entrevista
917 O museu como lugar de resistência: memória e representação de comunidades
africanas e afrodiaspóricas
Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha
927 Instruções aos colaboradores

476 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020
CONTENTS
481 Editorial
DOSSIer
486
Memories, narratives and heritage
Joseania Miranda Freitas; Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha
490 Immaterial heritage: reflections on the rebelliousness of matter
Ana Clara de Rebouças Carvalho
508 Grammars of power: performance art as a tool to make visible of the cultural
heritage of the deaf community
Sebastián Carrasco
524 Why do the bells ring? Biographical and heritage resonances in the soundscape
of the city of Goiás
Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa
541 Memories of a baiana stool: the many voices in a museum object
Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira
565 I want my earrings: memory of childhood, heritage and identity in the saga of
the Xetá people
Maria Angelita Silva; Nerli Nonato Ribeiro Mori
578 Identity and force relations in the argentine candombe
Jean-Arsène Yao
593 Word heritage: oral narratives in the Assentamento Rose
Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira
612 Implicated narratives about memory, culture and blackness in Bahian
Reconcavo
Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus
627 Narratives and memories about the black condition in Paris
Ari Lima
648 Narratives: heritage tools and life powers
Raquel Alvarenga Sena Venera; Roberta Fernandes Buriti
667 Past-present culture: a study on discuss about modernity and the heritage
policies at recife in three different times
Francisco Sá Barreto; Izabella Medeiros
692 Clues from the biography of Henriqueta Martins Catharino and the popular art
collection of The Bahia Women’s Institute
Suely Moraes Cerávolo
709 Exhibitionary narratives in the identity memories constitution: a case study
Camilo de Mello Vasconcellos; Otávio Pereira Balaguer
723 A biography in the museum: the collection of Hugo Simões Lagranha in the
Museu Municipal de Canoas/RS
Julia Maciel Jaeger; Zita Rosane Possamai
740 La Casa del Museo (1972-1980) a community practice in a feminine key
Leticia Pérez Castellanos

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020 477
758 Minimuseum Firmeza: art/life in defense of an art history in Ceará
Carolina Ruoso

articles
777 Autobiographic thesis: procedures for building the “ i” source
Edilson Fernandes de Souza
796 The biographical narrative in contemporary academic debate: a bibliographical
contribution
Mauro Henrique Miranda de Alcântara
815 The (auto)biographical method as a training device in scientific initiation
Fernanda Nogueira; Élica Luiza Paiva
829 From me to therapeutic theatre: life travel, creative travel and self-narratives
Geraldo Alves Lacerda
841 Narratives, street and tie construction: stories in the eja
Kleyne Cristina Dornelas de Souza
859 Political education of sensitivity and school architecture
Cyntia Simioni Franca; Nara Rubia de Carvalho Cunha; Fabio Luiz da Silva
874 Reflections on the pedagogical experience from (auto)biographic narratives
Marcelo Silva da Silva
889 What is the place of pedagogy? Some notes to de-identify its disciplining
Francisco Ramallo
900 Life trajectory of Miguel de Oliveira Couto (1865 - 1934), doctor, educator and
politician
José Mario d´Almeida; Claudia Alves d´Almeida

interview
917 The museum as a place of resistance: memory and representation of african
and afrodiasporic communities
Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha

478 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020
SUMARIO
481 Editorial
DOSSIer
486
Memorias, narrativas y patrimonio
Joseania Miranda Freitas; Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha
490 Patrimonio inmaterial: reflexiones sobre la rebelión de la materia
Ana Clara de Rebouças Carvalho
508 Gramáticas de poder: el performance como una herramienta para la
divulgación del patrimonio cultural de la comunidad sorda
Sebastián Carrasco
524 ¿Por qué suenan las campanas? Resonancias biográficas y patrimoniales en el
paisaje sonoro de la ciudad de Goiás
Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa
541 Memorias de un taburete baiana: las muchas voces en un objeto de museo
Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira
565 Quiero mis pendientes: memoria de infancia, patrimonio e identidad en la saga
del pueblo Xetá
Maria Angelita Silva; Nerli Nonato Ribeiro Mori
578 Identidad y relaciones de poder en el candombe argentino
Jean-Arsène Yao
593 Palabra patrimonio: narrativas orales en el Assentamento Rose
Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira
612 Narrativas implicadas sobre memória, cultura y negritud em el Recóncavo de
Bahia
Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus
627 Narrativas y recuerdos sobre la condición negra en París
Ari Lima
648 Narrativas: herramientas del campo patrimonial y poderes de la vida
Raquel Alvarenga Sena Venera; Roberta Fernandes Buriti
667 Culturas del pasado-presente: un estudio sobre el discurso de la novedad y las
políticas patrimoniales en una Recife de tres tiempos
Francisco Sá Barreto; Izabella Medeiros
692 Pistas biográficas de Henriqueta Martins Catharino y la colección de arte
popular del Instituto Femenino de Bahia
Suely Moraes Cerávolo
709 Narrativas expositivas en la constitución de memorias identitárias: un estudio
de caso
Camilo de Mello Vasconcellos; Otávio Pereira Balaguer
723 Una biografía musealizada: la coleçción de Hugo Simões Lagranha en el Museo
Municipal de Canoas/RS
Julia Maciel Jaeger; Zita Rosane Possamai 
740 La Casa del Museo (1972-1980): una comunidad de práctica en clave femenina
Leticia Pérez Castellanos

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020 479
758 Minimuseo Firmeza: arte/vida en defensa de una historia del arte en ceará
Carolina Ruoso

artículos
777 Tesis autobiográfica: procedimientos para construir la fuente “yo”
Edilson Fernandes de Souza
796 La narrativa biográfica en el debate académico contemporáneo: una
contribución bibliográfica
Mauro Henrique Miranda de Alcântara
815 El método (auto)biográfico como dispositivo de formación em la iniciación
científica
Fernanda Nogueira; Élica Luiza Paiva
829 De mí al teatro terapéutico: viaje vital, viaje creativo y auto-narrativas
Geraldo Alves Lacerda
841 Narrativas, calle y construcción de lazos: historias en la eja
Kleyne Cristina Dornelas de Souza
859 Educación políticas de sensibilidades y arquitectura escolar
Cyntia Simioni Franca; Nara Rubia de Carvalho Cunha; Fabio Luiz da Silva
874 Reflexiones sobre una experiencia pedagógica desarrollada con narrativas
(auto)biográficas
Marcelo Silva da Silva
889 ¿Cuál es el lugar de la pedagogía? Notas para desidentificar su disciplinamiento
Francisco Ramallo
900 Trayectoria de la vida de Miguel de Oliveira Couto (1865-1934), médico,
educador y político
José Mario d´Almeida; Claudia Alves d´Almeida

entrevista
917 El museo como un lugar de resistencia: memoria y representación de las
comunidades africanas y afrodiaspóricas
Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha

480 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020
Editorial

A multiplicidade das formas que integram o es- mórias, narrativas e patrimônios, organizado
paço biográfico oferece um traço comum: elas por Joseania Miranda Freitas e Marcelo Nasci-
contam, de diferentes modos, uma história ou
mento Bernardo da Cunha. Consideram a ex-
experiência de vida. Inscrevem-se assim, para
periência humana e seus campos referenciais,
além do gênero em questão, numa das grandes
divisões do discurso, a narrativa, e estão sujei- intercambiando memórias, culturas, materiali-
tas, portanto, a certos procedimentos composi- dades e imaterialidades das narrativas e patri-
tivos, entre eles, e posteriormente, o que mais mônios, através das relações de poder-saber
a atribuição autobiográfica supõe além da an- que mobilizam a vida, as lembranças e/ou o
coragem imaginária num tempo ido, fantasiado,
esquecimento, a preservação ou o descarte e,
atual prefigurado? (ARFUCH, 2010, p. 111 – Grifos
da autora)1 também, formas diversas como cada um vive,
conta e narra suas experiências simbólicas,
Os diferentes modos de contar a vida e imaginárias e com patrimônios culturais locais,
suas relações com o cotidiano são marcados nacionais e universais, como eixos temáticos
por experiências, temporalidades, símbolos, que articulam os textos e ideias desenvolvidas
significados e refigurações identitárias. Ao teo-
pelos autores.
rizar sobre o espaço biográfico, Arfuch (2010)
A construção de narrativas patrimoniais
demarca dilemas contemporâneos inscritos no
guarda estreita relação com memórias e iden-
ato de narrar, suas relações com a subjetivida-
tidades, seja através de implicações com mu-
de e razão dialógica, o que implica deslocar o
seus, suas distintas formas de guarda, de se-
sujeito e suas histórias para tempos distintos
leção de acervos, de exposições e de diversos
e ancorados no mundo da vida.
artefatos culturais que se configuram como
A temporalidade, a experiência e a reflexi-
domínios ou bens patrimoniais, a partir da
vidade biográficas2 são marcadores da narra-
ampliação da noção e de práticas de museo-
tiva como atividade eminentemente humana3
logia enquanto discursos da vida e suas repre-
e da identidade narrativa como trama da exis-
sentações sobre a vida, a memória, a cultura e
tência e das diversas formas como os sujeitos,
a própria sociedade.
individual ou coletivamente, narram aconteci-
O dossiê problematiza questões no campo
mentos cotidianos.
da Museologia, suas configurações políticas,
Tais ideias são potentes e contribuíram
formativas e contra-hegemônicas, na medida
na organização e socialização do Dossiê Me-
em que articula diálogos sobre memórias e
1 ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: dilemas da sub-
jetividade contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, patrimônio, narrativas e representações sobre
2010. a vida, instigando-nos a pensar sobre o museu
2 DELORY-MOMBERGER, Christine. Abordagens metodo-
lógicas na pesquisa biográfica.  Revista Brasileira de como um espaço de vida e de histórias outras
Educação, Rio de Janeiro, ANPED, v. 17, n. 51, p. 523-536, dos cotidianos, das narrativas contidas nos
dez. 2012 teoriza sobre tais conceitos e, também, são
discutidos por Arfuch (2010). objetos e suas identidades transitórias, em es-
3 PASSEGGI¸ Maria da Conceição. “Narrar é humano! Au- pecial de variados grupos étnicos, segmentos
tobiografar é um processo civilizatório”. In PASSEGGI¸
Maria da Conceição e SILVA, Vivian Batista da. Inven- sociais e econômicos que constroem cultura e
ções de vidas, compreensão de itinerários e alternati-
lutam por políticas de salvaguarda, de preser-
vas de formação. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010,
p. 103-130. vação e, mais ainda, de visibilidade.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020 481
O mundo da vida é o espaço biográfico Inicia a seção o texto Tese autobiográfica:
demarcado por temporalidades e experiên- os procedimentos para o constructo do “eu”
cias, as quais fazem emergir sentidos e signi- fonte, de Edilson Fernandes de Souza, confi-
ficados do que vivemos, mais ainda, da forma gurando-se como trabalho apresentado para
como contamos o que vivemos. Na medida em promoção na carreira de professor titular, ao
que, “escrever a vida é um horizonte inacessí- tempo em que sistematiza procedimentos me-
vel, que no entanto sempre estimula o desejo todológicos, dispositivos e fontes utilizadas
de narrar e compreender. Todas as gerações para análise da trajetória formativa do pesqui-
aceitaram a aposta biográfica. Cada qual mo- sador no campo das artes, da ciência e políti-
bilizou o conjunto de instrumentos que tinha ca-institucional emergindo nas escritas de si e
à disposição” (DOSSE, 2009, p. 11).4 Pensar os do “eu” fonte.
bens patrimoniais como um “conjunto de ins- Mauro Henrique Miranda de Alcântara, no
trumentos” que lançamos mão para demarcar texto A narrativa biográfica no debate acadê-
identidades e histórias é também um movi- mico contemporâneo: uma contribuição biblio-
mento de resistência e de inserção de múlti- gráfica, apresenta um estudo bibliográfico,
plas memórias, histórias e narrativas insur- tipo estado da arte do gênero biográfico no
gentes que emergem na contemporaneidade, campo historiográfico e avanços epistemológi-
como materialidade do espaço biográfico em cos construído através de redes de pesquisas,
defesa da vida. para além dos estudos históricos.
A despeito da política de desmonte e des- O artigo O método (auto)biográfico como
construção de histórias de grupos étnicos e dispositivo de formação na iniciação científi-
suas identidades, como temos vivido atual- ca, de autoria de Fernanda Nogueira Macena
mente na sociedade brasileira, a qual implica e Élica Luiza Paiva, centra-se na discussão de
no apagamento da memória e da identidade questões voltadas para o processo formati-
nacional, coletiva, étnica e individual, enten- vo de ex-estudantes do curso de Comunica-
dendo-as como bens inalienáveis, faz emergir ção Social com habilitação em Jornalismo da
movimentos de resistências e de defesa da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
cultura e de leituras sobre patrimônio e mu- (UESB). Problematiza aspectos relacionados à
seologia como disposições férteis para a defe- participação de estudantes na Iniciação Cien-
sa da vida e suas manifestações. tífica (IC), através da utilização do método
A publicação deste número da Revista Bra- (auto)biográfico e da realização de entrevis-
sileira de Pesquisa (Auto)Biográfica (RBPAB), ta narrativa demarcando a importância do IC
além do dossiê voltado para discussões sobre para a formação e práticas de escritas na vida
memória, narrativa e patrimônio integra, na Se- acadêmica universitária.
ção Artigos, nove textos que ampliam discus- O texto de Geraldo Alves Lacerda, De mim ao
sões sobre a abordagem (auto)biográfica, estu- teatro terapêutico: percurso de vida, percurso
dos de estado da arte, de práticas de formação criativo e narrativas de si, teoriza sobre narra-
e narrativas autorreferenciais de professores, tivas de si, percursos profissional e criativo do
pesquisadores e estudantes no contexto da ini- autor, ancorando-se no psicodrama e no atuar
ciação científica, assim como de intelectuais e do playback theatre. A escrita de si e suas rela-
suas trajetórias formativas e profissionais. ções com terapias psicológicas com base teatral
mobilizam reflexões e disposições da narrativa
4 DOSSE, François. O desafio biográfico: escrever a vida.
São Paulo: EdUSP, 2009. de si como metodologia de pesquisa-formação.

482 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020
Ao situar potenciais da pesquisa narrativa malizadoras e põe em evidência desconstru-
no âmbito da Educação de Jovens e Adultos ção hegemônicas da pedagogia, reconhecendo
(EJA) em situação de rua, Kleyne Cristina Dor- valores subversivos, criativos, fluídos, face aos
nelas de Souza apresenta no artigo Narrati- modos diversos de ser-conhecer a partir das
vas, rua e construção de laços: histórias que se experiências e da vida humana.
encontram na EJA, resultado de pesquisa com Encerra a seção o texto Trajetória de vida de
estudantes da EJA do Distrito Federal (DF), uti- Miguel de Oliveira Couto (1865 – 1934), médico,
lizando entrevista narrativa e fotografias, com educador e político, de José Mario d´Almeida e
o objetivo de socializar histórias cruzadas dos Claudia Alves d´Almeida, que tematizam sobre
colaboradores e suas relações com vulnera- processos formativos, inserção profissional,
bilidades, estigmas e modos como os sujei- política e atividades médicas de Miguel Couto,
tos reelaboram suas histórias quando narram além de ideias do biografado e suas articula-
acontecimentos e experiências da vida e de ções com o contexto da época.
processos de exclusão. Compõe também o presente número a Se-
As discussões apresentadas por Cyntia Si- ção Entrevista que se articula com a temática
mioni Franca, Nara Rubia de Carvalho Cunha do dossiê e dialoga com memórias afrodias-
e Fabio Luiz da Silva, no texto Educação polí- póricas e suas relações com o museu como lu-
tica das sensibilidades e arquitetura escolar, gar de resistência. A entrevista, O museu como
voltam-se para o Colégio Marcelino Champag- lugar de resistência: memória e representação
nat, em Londrina (PR), ao problematizarem de comunidades africanas e afrodiaspóricas,
questões sobre arquitetura escolar, cultura da realizada com Marcelo Nascimento Bernardo
construção e modernidade dos espaços como da Cunha, revela implicações do pesquisador
forma de dar visibilidade aos valores, atitudes com o campo da Museologia, ao problemati-
e constituição de sensibilidades no contextos zar o museu como território contestado e de
de padrões modernos dos edifícios escolares. resistência, muito em função do alijamento,
O artigo intitulado Reflexões sobre uma ex- silenciamento e/ou exclusão de comunidades
periência pedagógica a partir das narrativas africanas e afrodiaspóricas, bem como ques-
(auto)biográficas, de Marcelo Silva da Silva, tões de representações expográficas, acervos
analisa trajetórias formativas de estudantes e táticas de apresentação, que buscam visibi-
da licenciatura em Educação Física da Univer- lizar o corpo negro, fortemente marcado pela
sidade Federal do Paraná (UFPR), na vertente estigmatização e exclusão, inscritos também
da pesquisa-formação, através da utilização em discursos museológicos ainda presentifi-
de narrativas (auto)biográficas e da socializa- cados na contemporaneidade. Memórias, nar-
ção de aspectos concernentes às trajetórias rativas, biografias, artefatos culturais e corpos
dos estudantes, mobilizações para a escolha negros se imbricam como forma de (re)existir
do curso e aspectos da prática pedagógica no em processos patrimoniais e museológicos.
contexto da formação docente. O número que apresentamos vem mar-
Francisco Ramallo, ao teorizar sobre a pes- cado de discursos e reflexões insubordina-
quisa narrativa em educação, propõe, no texto dos e, quase sempre, de análises implicadas,
Qual o lugar da pedagogia? Notas para desi- críticas sobre a vida e a sua precarização em
dentificar seu disciplinamento [¿Cuál es el lu- face da pandemia da Covid-19, mas também
gar de la pedagogía? Notas para desidentificar de apagamento de memórias e de defesa de
su disciplinamiento], problematizar ações nor- totalitarismos, de desmonte da jovem demo-

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020 483
cracia brasileira e de políticas de diversidade, fundamentes para os processos identitários e
de ciência e tecnologia, de saúde pública e da patrimoniais do povo brasileiro.
sáude como bem comum. Esperamos que o dossiê publicado e os
São com essas marcas e com parte signifi- diferentes textos desta edição possam contri-
cativa da sociedade confinada que se forjam buir com outros estudos que têm se dedicado
ações de aceleramento das crises políticas, às discussões e às inquietações no campo da
econômicas, sanitária e de governabilidade, narrativa e do património em interface com
movidas por escândalos e desvio de recursos a memória e a identidade. Narrar é resistir, é
públicos, reforço da visibilização de etnias, uma das formas de dizer de outro lugar que os
genocídio de povos originários e de negação espaços biográficos são múltiplos, diversos e
da arte e da cultura como capitais simbólicos contra-hegemônicos.

Salvador, inverno de 2020

Elizeu Clementino de Souza


Comissão Editorial

484 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, maio/ago. 2020
Dossiê
Memórias, Narrativas e Patrimônios

Memórias, Narrativas e Patrimônios

Apresentação
A vida humana e suas trajetórias, desde algum artigos articulam-se e buscam responder à an-
tempo, passaram a ter, nas práticas museoló- tiga e atual luta de povos e grupos que passa-
gicas e de cunho patrimonial, uma centralida- ram, e ainda passam, por violentos processos
de e importância significativas, pois somente de subalternização, baseados na “desumani-
ao se considerar as experiências individuais e zação”, ao tratarem de questões que dão “[...]
coletivas é que os atos de preservação se jus- continuidade ao projeto humano, que é per-
tificam. Tal perspectiva impõe-se, pois, se por manecer humano e impedir a desumanização e
um lado, a trajetória é marcada por conexões a exclusão de outros.” (MORRISON, (2019, p. 62).
com territorialidades e materialidades, por Nessa mesma perspectiva, Lorde (2019, p. 147)
outro, toda a produção de cultura material, chama atenção para a permanência das lutas
matéria-prima das ações de preservação, não para impedir a desumanização: “[...] a guerra
pode ser entendida afastada da vida humana contra a desumanização é interminável”.
e suas aventuras. A valorização da vida humana, plural e
O dossiê Memórias, Narrativas e Patrimô- pulsante tornou-se a tônica do dossiê, desta-
nios reúne 16 artigos que provocam e cruzam cando-a como principal patrimônio a ser pre-
discussões sobre práticas patrimoniais, expe- servado. Essa ênfase resultou na pluralidade
riências e memórias de modos diversos como de temas e formas de abordagens, nas quais
os sujeitos vivem e constroem patrimônios e são postos em evidência os campos de nego-
potencializam ações dos agentes envolvidos ciações e negações, dos diálogos, silêncios e
nesses processos. apagamentos presentes nos processos patri-
Esses artigos evocam antigas e novas abor- moniais, construídos e vivenciados de forma
dagens-ancoragens-identitárias, transportan- hegemônica e suas resistências contra-hege-
do-nos ao universo das narrativas literárias, mônicas. Dessa pluralidade dialógica, quatro
memorialistas e patrimoniais encontradas nas eixos se formaram. O primeiro aborda discus-
obras de duas importantes escritoras afro-es- sões patrimoniais, sonoridades e comunica-
tadunidenses: Audre Lorde (1934-1992) e Toni ção, ainda que a perspectiva de abordagem
Morrison (1931-2019). Nas obras Irmã outsider dessa questão possa surgir do seu oposto, o
(LORDE, 2019)1 e A origem dos outros: seis en- silêncio. O segundo eixo reflete sobre narrati-
saios sobre o racismo e literatura (MORRISON, vas e memórias, a partir de identidades cons-
2019),2 as autoras compreendem as narrativas truídas em diálogos com o pertencimento ter-
pessoais como narrativas políticas, conside- ritorial e étnico. As narrativas agrupadas no
rando as dimensões (auto)biográficas como terceiro eixo ancoram-se em reflexões sobre
necessárias para a compreensão político-exis- experiências pessoais, a partir de narrativas
tencial. Mesmo sem o apelo específico para a (auto)biográficas. Por fim, no quarto e último
temática da valorização da vida humana, os eixo, os artigos abordam sobre a instituciona-
lização de memórias (auto)biográficas e suas
1 LORDE, Audre. Irmã outsider. Trad. Stephanie Borges.
Belo Horizonte: Autêntica, 2019. políticas.
2 MORRISON, Toni. A origem dos outros: seis ensaios so-
bre o racismo e literatura. Trad. Fernanda Abreu. São
Abrindo o primeiro eixo Discussões patri-
Paulo: Companhia das Letras, 2019. moniais: sonoridades e comunicação, o arti-

486 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 486-489, maio/ago. 2020
Joseania Miranda Freitas; Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha

go Patrimônio imaterial: reflexões sobre a re- No segundo eixo, Narrativas e memória a


beldia da matéria, de Ana Clara de Rebouças partir de identidades construídas em diálogos
Carvalho, destaca nesse embate conceitual com religiosidades, pertencimento territorial
a “rebeldia da matéria” ao abordar sobre “a e étnico, Maria Angelita Silva e Nerli Nonato
natureza contraditória da dualidade mate- Ribeiro Mori, no texto Quero os meus brincos:
rial/imaterial”, agregando à discussão “pers- memória da infância, patrimônio e identida-
pectivas pouco usuais ao debate patrimonial, de na saga do povo Xetá, discutem e denun-
sobretudo, em seus desdobramentos éticos, ciam a problemática questão da apropriação
pragmáticos e políticos”. O segundo artigo, de patrimônio cultural de povos originários,
Gramáticas de poder: performance como fer- através do processo violento de colonização
ramenta para a divulgação do patrimônio do território nacional e a necessidade atual de
cultural da comunidade surda [Gramáticas de reflexão crítica sobre esses processos e seus
poder: el performance como una herramien- impactos sobre esses grupos tradicionais.
ta para la divulgación del patrimonio cultural Também na perspectiva do processo colonial,
de la comunidad sorda], de Sebastián Carras- no texto Identidade e relações de força no can-
co, apresenta argumentos reflexivos sobre a dombe argentino [Identite et rapports de force
experiência performática da língua de sinais dans le candombe argentin], Jean-Arsène Yao
como patrimônio da comunidade surda, atra- discute a presença do Candomblé, herança da
vés de “três exercícios de criação plástica com presença negra na Argentina, como elemento
pessoas surdas da cidade de Bogotá”. Nessa patrimonial relacionado a estratégias de so-
mesma perspectiva, que aborda a codificação brevivência, no passado e no presente. Em seu
de memórias a partir de signos não verbais, texto Palavra patrimônio: narrativas orais no
é desenvolvida a reflexão de Clovis Carvalho assentamento Rose, Edil Costa aborda a narra-
Britto e Rafael Lino Rosa, no texto Por que tiva memorialística e de costumes como ferra-
plangem os sinos? Ressonâncias biográficas menta importante para a estruturação social e
e patrimoniais na paisagem sonora da cida- fortalecimento de vínculos territoriais de uma
de de Goiás, que apresenta a perspectiva do comunidade diaspórica em situação de assen-
som como patrimônio e elemento identitário. tamento. Por fim, Rita Dias, no texto Narrativas
Nesse mesmo exercício da percepção de vo- implicadas sobre memória, cultura e negritude
zes e identidades a partir de elementos não no Recôncavo da Bahia, aborda experiências
verbais, o texto Memórias de um tamborete de empreendidas como atividade de extensão
baiana: as muitas vozes em um objeto de mu- universitária da Universidade Federal do Re-
seu, de Joseania Miranda Freitas e Lysie dos côncavo da Bahia (UFRB), nas cidades de Santo
Reis Oliveira, provoca percepções e poten- Amaro e Saubara, destacando a importância
cialidades dos discursos presentes em ele- das narrativas de memórias negras e sua im-
mentos da cultura material, exilados dos seus plicação com a questão étnico-racial.
contextos originais de uso. Por fim, no artigo O terceiro eixo consta de textos que dia-
intitulado As memórias e narrativas benjami- logam sobre Experiências pessoais – narrati-
nianas como bens patrimoniais, Simioni Fran- vas (auto)biográficas, através de entrevistas e
ca, em diálogo com Walter Benjamin, reflete depoimentos em blog. Ari Lima, em seu texto
sobre a memória como meio de produção de Narrativas e memórias sobre a condição negra
conhecimentos históricos e educacionais e em Paris, apresenta depoimentos de negros e
ainda como um bem patrimonial. negras radicados em Paris e suas perspectivas

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 486-489, maio/ago. 2020 487
Memórias, Narrativas e Patrimônios

sobre a condição negra, a partir de suas ex- Hugo Simões Lagranha no Museu Municipal de
periências. Encerrando esse eixo, o texto Nar- Canoas (RS), de Julia Maciel Jaeger e Zita Rosane
rativas: ferramentas do  campo patrimonial e Possamai, a partir da reflexão relativa à escrita
potências de vidas, de Raquel Alvarenga Sena biográfica e coleções museológicas, entendidas
Venera e Roberta Fernandes Buriti, evidencia a como elementos de consagração de memórias,
importância da construção de blogs para dis- analisam a biografia oficial de uma liderança
cutir sobre a vida humana, em situação de vul- política da cidade de Canoas (RS) e a exposição
nerabilidade e necessária “reconfiguração” de de sua coleção no Museu Municipal. No artigo
identidades, através de duas histórias de vidas A Casa do Museu (1972-1980): uma comunidade
de jovens “diagnosticados com Esclerose Múl- de prática em chave feminina [La Casa del Mu-
tipla”. O artigo destaca a potencialidade “das seo (1972-1980): una comunidad de práctica en
riquezas humanas vivas, capazes de produzir clave feminina], de  Leticia Pérez Castellanos,
identidades e experiências existenciais de es- destaca-se a importância da participação femi-
cuta e alteridade, além de pô-las, elas mes- nina durante a realização do projeto A Casa do
mas, como Patrimônios da Humanidade.” Museu, uma experiência museológica do Museu
Concluindo este dossiê são apresentados Nacional de Antropologia do México, nos anos
os artigos do eixo Institucionalização de memó- 1970, em que foram deslocadas exposições e
rias biográficas e suas políticas. Em Culturas do atividades do museu para bairros periféricos.
passado-presente: um estudo sobre o discur- Encerrando o dossiê, o artigo de Carolina Ruo-
so da novidade e as políticas patrimoniais em so, Minimuseu Firmeza: arte/vida em defesa de
uma Recife de três tempos, Francisco Sá Barre- uma história da arte no Ceará, que aborda o
to e Izabella Medeiros investigam a articulação tema relativo a museus de artista, a partir de
entre cultura, discursos e identidade, a partir pesquisa realizada sobre o trabalho Minimuseu
da história recente de Recife e suas interfaces Firmeza, trabalho desenvolvido pelos artistas
com programas de intervenção político-urba- Nice e Estrigas, em Fortaleza, no Ceará.
nístico-patrimonial. No artigo Pistas biográficas A organização do dossiê inscreve-se no mo-
de Henriqueta Martins Catharino e a coleção de mento em que o planeta foi tomado pela crise
arte popular do Instituto Feminino da Bahia, da Covid-19, provocada pela disseminação do
Suely Moraes Ceravolo busca compreender a corona vírus, que colocou em evidência velhas
imbricação biográfica de Henriqueta Catharino e novas situações de desigualdade e vulne-
e a formação de um Museu de Arte Popular no rabilidade, bem como a necessidade de revi-
início do século XX, na cidade de Salvador (BA). são de nossas práticas sociais, com urgência
No artigo Narrativas expositivas na constituição de que sejam assumidas novas perspectivas e
de memórias identitárias: um estudo de caso, estratégias relacionadas ao estar no mundo.
Camilo de Mello Vasconcellos e Otávio Pereira Essa situação se agrava em razão do avanço,
Balaguer abordam sobre a construção de iden- no Brasil e no mundo, de posturas retrógradas
tidades por meio de exposições, entendidas marcadas pelo desrespeito às diferenças, res-
como narrativas, e tomam como estudo de caso saltadas pelo acirramento da violência racial e
o Memorial da Imigração Judaica e do Holo- pelo recrudescimento de ideias e posturas ins-
causto, discutindo a (auto)biografia criada na- piradas em regimes totalitários, autoritários
quele contexto museal. Ainda na perspectiva de e genocidas. Em momentos como esse, mais
abordagens relativas a discursos expositivos, o do que nunca, é de extrema importância que
artigo Uma biografia musealizada: a coleção de memórias e experiências pessoais e coletivas

488 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 486-489, maio/ago. 2020
Joseania Miranda Freitas; Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha

sejam registradas em publicações que podem xões e dos diálogos que articulam os textos,
configurar-se como documentos futuros sobre abrindo, assim, potências para estudos outros
passados, possíveis e vividos. no domínio da pesquisa (auto)biográfica e dos
Desejamos que o dossiê possa contribuir campo do patrimônio.
com pesquisas que têm, cada vez mais, anco-
ragens entre memórias e patrimônios, configu-
rando-as como narrativas da vida, de suas di- Salvador, 15 de junho 2020
ferentes materialidades e dos objetos que nos
constituem individual e coletivamente. Narrar Joseania Miranda Freitas
acontecimentos da vida e as formas como a Universidade Federal da Bahia
memória e a narrativa vão tecendo sentidos e
significados sobre suas múltiplas existências Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha
ganham outras expressões, a partir das refle- Universidade Federal da Bahia

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 486-489, maio/ago. 2020 489
Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria

DOI:http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2020.v5.n14.p490-507

PATRIMÔNIO IMATERIAL: REFLEXÕES SOBRE A


REBELDIA DA MATÉRIA

Ana Clara de Rebouças Carvalho


http://orcid.org/0000-0002-3976-1857
Universidade Federal da Bahia

resumo O debate contemporâneo sobre patrimônio, em suas múltiplas


nuances, tem enfatizado a chamada dimensão imaterial das mais di-
versas culturas desde o nascer do novo século. Este artigo objetiva
contribuir com estas trocas a partir de problematizações em torno
da emblemática dicotomia: de um lado o mundo da cultura mate-
rial, do outro, tudo aquilo que vem se compreendendo em termos
de imaterialidade. Em abordagem ensaísta, o texto estrutura-se em
dois momentos confluentes: um que contempla reflexões em torno
da dimensão (i)material de duas experiências artísticas, e em diálo-
go com proposições de Ingold (2015) e Tarde (2007), outro, que busca
aprofundar os desdobramentos das abordagens ali em relevo, agre-
gando aí a dimensão ética proposta por Jonas (2006). Os principais
eixos reflexivos aqui propostos enfocam a natureza contraditória da
dualidade material/imaterial, bem como o que é posto em termos
dos “pontos cegos” decorrentes ou vinculados em alguma medida a
tal polarização, a exemplo dos riscos de aprofundamento dos desa-
fios geralmente encontrados pelas políticas patrimoniais. Ademais,
este artigo visa estimular a inclusão de perspectivas pouco usuais
ao debate patrimonial, sobretudo, em seus desdobramentos éticos,
pragmáticos e políticos.
Palavras-Chave: Patrimônio imaterial. Cultura material. Imateriali-
dade.

abstract IMMATERIAL HERITAGE: REFLECTIONS ON THE


REBELLIOUSNESS OF MATTER
The contemporary debate about heritage, in its many nuances, has
emphasized the immaterial dimension of the most diverse cultures
since the dawn of the new century. This article aims to contribute to
these exchanges from problematization around the emblematic di-
chotomy: on the one hand the world of material culture, on the other,
everything that has been understood in terms of immateriality. In an

490 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 490-507, maio/ago. 2020
Ana Clara de Rebouças Carvalho

essayistic approach, the text is structured in two confluent moments:


one that contemplates reflections around the (im)material dimen-
sion of two artistic experiences, and in dialogue with propositions
of Ingold (2015) and Tarde (2007), another, which seeks to deepen
the unfolding of the approaches there, adding the ethical dimen-
sion proposed by Jonas (2006). The main reflective lines proposed
focus on the contradictory nature of material / immaterial duality,
and the “blind spots” related to such polarization, such as the risks
of deepening the challenges often encountered by heritage policies.
In addition, this article aims to encourage the inclusion of unusual
perspectives on the heritage debate, especially in its ethical, prag-
matic and political developments.
Keywords: Immaterial heritage. Material culture. Immateriality.

resumen PATRIMONIO INMATERIAL: REFLEXIONES SOBRE LA


REBELIÓN DE LA MATERIA
El debate contemporáneo sobre el patrimonio, en sus múltiples ma-
tices, ha enfatizado la dimensión inmaterial de las culturas más di-
versas desde los albores del nuevo siglo. Este artículo tiene como
objetivo contribuir a estos intercambios desde la problematización
en torno a la dicotomía emblemática: por un lado, el mundo de la
cultura material, por otro, todo lo que se ha entendido en términos
de inmaterialidad. En un enfoque ensayístico, el texto se estructura
en dos momentos confluentes: uno que contempla reflexiones en
torno a la dimensión (in)material de dos experiencias artísticas, y en
diálogo con las proposiciones de Ingold (2015) y Tarde (2007), otro,
que busca profundizar estos enfoques, agregando la dimensión éti-
ca propuesta por Jonas (2006). Las principales líneas reflexivas pro-
puestas se centran en la naturaleza contradictoria de la dualidad
material / inmaterial, así como en lo que se expresa en términos de
“puntos ciegos” que surgen o están relacionados en cierta medida
con esta polarización, como en el caso de los riesgos de profundizar
los desafíos a menudo vistos entre políticas culturales. Además, este
artículo tiene como objetivo fomentar la inclusión de perspectivas
inusuales en el debate del patrimonio, especialmente en sus desa-
rrollos éticos, pragmáticos y políticos.
Palabras clave: Patrimonio inmaterial. Cultura material. Inmateriali-
dad.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 490-507, maio/ago. 2020 491
Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria

Notas introdutórias exemplo do que se pode conceber como “pa-


trimônio arquitetônico”, ou “patrimônio urba-
O debate acerca de “patrimônio” tem sido in-
nístico”, ou “etnográfico”, ou “paleontológico”,
tenso no vasto campo das ciências e para além
ou “científico”, entre outros (LIMA, 2012, p. 35).
dele, sobretudo, desde o século XIX, em suas
Em face disso, este artigo visa contribuir
radicais transformações em múltiplos campos.
com tais reflexões, mais precisamente, a partir
Para Choay (2001), trata-se de uma “bela pala-
do que se convencionou chamar de “patrimô-
vra, antiga e enraizada no espaço e no tempo”,
nio imaterial”. Nessa perspectiva, e de acor-
mas também um conceito “nômade”, dadas as
do com Lima (2012, p. 36), justo em meio aos
suas diversas e complexas inserções (patrimô-
processos de ampliação e aprofundamento do
nio histórico, patrimônio natural, patrimônio
conceito de patrimônio, “ocorreu consolidar-
genético, cultural, material, entre outras), e
se a tipologia Patrimônio Intangível” através
que segue “trajetória diferente e retumbante”
da emblemática “Convenção para Salvaguarda
que outrora, conforme aquela autora discorre
do Patrimônio Cultural e Imaterial”, da Orga-
em termos de uma “alegoria do patrimônio”,
nização das Nações Unidas para a Educação,
em sua renomada obra.
a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 2003. Ain-
Século XXI, e um breve sobrevoo em um im-
da para aquela autora, e em que pese o “lento
portante portal de periódicos científicos reve-
processo cultural” para a incorporação desta
la mais de 30 mil ocorrências a partir do único
categoria enquanto “ integrante da questão
termo “patrimônio”.1 Ao agregar outras com-
patrimonial”, o seu reconhecimento “firmou-se
plexas dimensões, a exemplo da ética ou da
no foco internacional” (LIMA, 2012, p. 36). Em
cultura, é notória uma queda vertiginosa na-
termos de definição, a UNESCO (2003) assim o
quele número, o que não significa necessaria-
concebe:
mente um silenciamento ou uma despreocu-
pação com tais aspectos, no entanto, confirma Entende-se por patrimônio cultural imaterial as
práticas, representações, expressões, conheci-
a intensa dinâmica e diversidade que incidem
mentos e saber-fazer – assim como os instru-
sobre tal debate.
mentos, objetos, artefatos e espaços culturais
É, portanto, bastante disponível uma lite- que lhes são associados – que as comunidades,
ratura acerca dos processos de mudanças em os grupos e, em alguns casos, os indivíduos re-
torno da noção de “patrimônio”, bem como a conhecem como fazendo parte de seu patrimô-
difusão desta entre os mais diversos contex- nio cultural. (UNESCO, 2003)

tos, inclusive, de modo não exclusivo e inter- Já nessas linhas, fica patente a impureza do
disciplinar, tal como pontuaram Souza e Crip- conceito, isto é, a imaterialidade parece não se
pa (2011, p. 238). Neste bojo, Lima (2012, p. 35), depurar dos vestígios materiais; e as contro-
ao revisar importantes referenciais acerca da vérsias acerca disso não são de agora. Assim,
temática, detalha as “modulações que lhe fo- tal como há uma literatura relativamente farta
ram sendo agregadas” ao longo do tempo e acerca de “patrimônio” amplo senso, o mesmo
a partir das múltiplas reflexões multidiscipli- pode ser dito em relação às noções de “ imate-
nares, a ponto de chegar à contemporaneida- rial” e de “ imaterialidade”, as quais, a propó-
de enquanto uma expressiva diversidade de sito, subjazem à definição acima. Ou seja, bem
“territórios de ação indicados pelos títulos”, a anterior àquela Convenção, as construções em
1 Trata-se aqui do Portal Capes de Periódicos, com
torno do que se compreende, ou de que se ad-
acesso e pesquisa em 10 de novembro de 2019. mite enquanto “ imaterial” ganham fôlego, ao

492 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 490-507, maio/ago. 2020
Ana Clara de Rebouças Carvalho

menos, na arena das ciências sociais e huma- e sigam convivendo, ainda que em suposta
nas, desde as últimas décadas do século XX. harmonia, ou cobertos de toda sorte de escu-
Não sendo em si mesma uma novidade sas ou da boa-fé de um senso crítico sobre a
inaugurada por uma organização internacio- mesma.
nal, a questão da imaterialidade vem suscitan- É, portanto, sobre esta insistente polari-
do novas e velhas inquietações no cenário dos dade que este artigo busca refletir. Para tanto,
complexos desafios patrimoniais na contem- a argumentação que se segue inspira-se nas
poraneidade, sendo, inclusive, uma espécie de contribuições de dois autores separados por
“lugar comum” a constatação da indissociabi- um século de distância, consideradas as suas
lidade das dimensões material e imaterial, so- datas de nascimento: um, do efervescente XIX,
bretudo, no âmbito das práticas. Esta é, talvez, o outro, do conturbado século XX. Estamos fa-
a mais proeminente, ou, de certo, a mais per- lando de Gabriel Tarde (1843-1904), “o mais fi-
sistente das inquietações: a já esgarçada pola- lósofo dos sociólogos, ou o mais sociólogo dos
ridade entre “materialidade” e “imaterialida- filósofos”, como definiu Vargas (2007, p. 11), e do
de”, que então se institucionaliza a partir da antropólogo contemporâneo Tim Ingold (2015),
criação de uma categoria técnico-conceitual com quem iniciaremos as primeiras trocas em
como a de “patrimônio cultural imaterial”, em diálogo com duas experiências materialmente
suas pretensões universalizantes ou de algu- vividas, uma por uma artista guatemalteca, ou-
ma validade global. tra por mim.
Em face disso, os mais recentes debates Os fios argumentativos seguem seus ali-
parecem buscar novos posicionamentos em nhavos, de modo a agregar as reflexões de
relação às demandas que emergem daquela Tarde (2007) e, também, a discutir alguns pon-
famigerada e pouco convincente dualidade. tos cegos vinculados ou mesmo decorrentes
Tanto assim que, Souza e Crippa (2011, p. 237), da dualidade em foco: de um lado, o mundo
ao revisarem os discursos e as condições que material, do outro, o que se costuma conceber
produziram historicamente a referida dicoto- enquanto imaterial e imaterialidade. O objeti-
mia, buscam demonstrar de que se trata mais vo deste artigo é, pois, contribuir com possi-
de uma “oposição apenas circunstancial” e bilidades analíticas pouco convencionais e de
menos uma sustentável dicotomia na “relação natureza ética acerca do debate patrimonial
da sociedade com os seus produtos culturais”. contemporâneo.
Esses autores, em diálogo com seus pares,
confirmam a falta de sentido em “uma sepa- A matéria e dois casos de
ração entre patrimônio tangível e intangível
rebeldia
ou objeto e processo”, uma vez que “ele só
se explica nesta relação”; e ainda defendem No ano de 2010, a poetisa e artista visual gua-
a perspectiva de “patrimônio como processo” temalteca Regina José Galindo doava ao mun-
enquanto “uma ideia que supera a oposição do mais uma das suas incisivas expressões:
material-imaterial” (SOUZA e CRIPPA, 2011, p. a obra intitulada Looting.2 Nela, Galindo sub-
247). Todavia, a insistente dualidade em ques- mete-se à perda voluntária de parte dos seus
tão parece não desaparecer em definitivo, nem tecidos dentários – através de um desgaste
na ideia de “processo”, nem em outra ideia 2 O termo pode ser traduzido do inglês para o portu-
qualquer em que, e por contradição, os termos guês como “pilhagem”, e a descrição detalhada desta
encontra-se disponível na página eletrônica da artista
“material” e “imaterial” se mantenham ilesos, em: http://www.reginajosegalindo.com/.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 490-507, maio/ago. 2020 493
Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria

prospectado por um dentista da Guatemala Tais processos interpretativos, em que pe-


– e, em substituição, recebe incrustações em sem a densidade crítica que podem lograr, não
“ouro nacional de mais alta pureza”3 naquelas são exatamente o foco desta reflexão, mas sim
cavidades abertas. Tempo depois, em Berlim, a sua dimensão material, mais precisamente,
tais incrustações são removidas, e substituí- o que o título desta seção sugere enquanto
das por outro material restaurador, uma vez rebeldia da matéria. Além de Looting, e como
que aquelas pequenas peças em ouro teriam uma segunda experiência em relevo, miremos
outro destino. as experimentações cerâmicas que emergiram
O destino: as oito pequeninas formas em a partir do projeto que concebi e intitulei de
metal nobre seguiram à exposição museológi- Amostra: ensaio sobre (in)significâncias, então
ca. A poética de base dessa obra é assim des- inspirado, em parte, por aquele trabalho de
crita na página eletrônica da artista: “por um Galindo.
lado, a conquista, a guerra, a política que de- Em linhas bem sintéticas, busquei produzir
vastou a terra, a exploração do solo, os humi- em diferentes expressões escultóricas cerâ-
lhados; por outro lado, o conquistador, aquele micas a mutilação dentária em seus múltiplos
que comanda, o homem do mundo frio, aquele desdobramentos individuais e coletivos. Antes
que levanta a mão e guarda o ouro”.4 As fotos de prosseguir, cabem aqui algumas linhas de
disponíveis neste mesmo domínio virtual tes- natureza autobiográfica, considerando dois
temunham todo o processo: desde a progra- aspectos relevantes desta abordagem ao es-
mada mutilação tecidual dos molares da ar- copo deste texto, a saber: um, da potência da
tista ao acondicionamento das peças em uma narrativa autorreferente para fins da constru-
espécie de relicário acrílico, onde estas repou- ção intersubjetiva de saberes; outra, de uma
sam, tal como “objetos de arte”, assentadas breve demarcação do território existencial de
sob uma pequena almofada de veludo rubro. quem vos fala, e uma vez que uma porção do
Cerca de uma década depois, em um ponto que chamo aqui de rebeldia da matéria emer-
mais abaixo do centro do continente america- ge de experiências pessoais.
no, mais precisamente, na cidade de Salvador Ainda sobre o primeiro aspecto, e de acor-
da Bahia, licencie-me a prestar uma singela do com Santos e Torga (2020, p. 140), é impor-
homenagem a essa artista, ao tomar conheci- tante ressaltar o espaço e a legitimidade que
mento dessa sua ação. No bojo de uma expe- o relato autobiográfico logram na contempora-
riência de aprendizado cerâmico em um movi- neidade por razões diversas e, dentre elas, por
mentado ateliê universitário, busquei expres- pautar “uma subjetividade a revelar sua inti-
sar materialmente o espanto diante da obra midade, a compartilhar com sua coletividade
daquela artista. Mais especificamente, tratou- aquilo que a preocupa, que acredita, a vivência
se de uma reprodução em cerâmica das oito que resulta das marcas da ação do tempo, da
unidades dentárias, as quais Galindo doou às história e das interações sociais sob o coti-
reações das mais diversas, tantas quanto as diano de indivíduos em sua singularidade”. E
interpretações humanas possam tocar. é justo nesta perspectiva que, ao desnudar a
profunda e inquietante relação que tenho com
3 Fragmento da descrição contida na página eletrônica o fenômeno da perda dentária, recrio, e recria-
da artista: http://www.reginajosegalindo.com/; mi-
nha tradução; acesso em: 5 nov. 2019. mos juntos, a partir do olhar do outro, novos
4 Fragmento de descrição contida na página eletrônica processos de produção de sentidos e significa-
da artista: http://www.reginajosegalindo.com/, minha
tradução; acesso em: 5 de nov. 2019. dos em torno dos processos aqui em foco.

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Ana Clara de Rebouças Carvalho

Assim sendo, o espanto com a perda, ou que são quase que absolutamente evitáveis?
mesmo, a possibilidade de perder dentes, O transitar pela área da saúde pública, mais
chegou-me ainda quando dentes de leite eu precisamente, pelo campo da saúde coletiva,
possuía. Diferente do encantamento de Már- trouxe-me algumas respostas mais alentado-
quez (2003, p. 76) quem, em sua autobiografia, ras. Contudo, e logo conclui, uma história se-
considerava ser um “privilégio mágico” este de cular de exclusão de cuidados e uma tradição
poder “tirar” os dentes para “lavá-los, e deixá assistencial essencialmente mutiladora não se
-los num copo d’água”, referindo-se ali à sua resolveriam com um punhado de boas iniciati-
cuidadora quando seguia ao leito para dormir, vas políticas: a boca quase ou totalmente ban-
sofrimentos dentários e todos demais males guela ainda é uma realidade para muitos aqui,
bucais sempre me constrangeram em alguma inclusive, mundo afora; e a escova e o creme
medida. Recordo-me muito vivamente das do- dentais também não revolucionaram a saúde
res de dente lancinantes que uma das minhas do sorriso tanto quanto podem alcançar.
cuidadoras recorrentemente sofria: seu sorriso De volta ao projeto em relevo neste texto,
era quase sempre triste, quase completamen- tratou-se, portanto, de uma releitura do fe-
te lacunar, e absolutamente contrastante com nômeno da perda massiva de dentes no país
a pessoa de alma leve e alegre que era. Foi a através de uma reelaboração crítico-poética
partir dela que comecei a notar difusamen- dos indicadores nacionais que atestam tal fe-
te o quanto de identidade porta um sorriso. nômeno. Em termos práticos, passei a ler as
E, a partir disso, uma profusão de perguntas estatísticas oficiais em termos de volumes de
atravessavam-me com certa insistência: afinal, tecidos dentários perdidos: em um dado re-
como “ser” inteiramente sem dentes? Ou ain- corte temporal, algo em torno de 1 bilhão e 24
da: como seria possível perder o que fora feito milhões de quilos relativos aos 16 milhões de
para durar? desdentados totais no Brasil, segundo as es-
Assim, sorrisos parcial ou completamente timativas do Instituto Brasileiro de Geografia
arruinados, dentes postiços, bocas desdenta- e Estatística (IBGE) e do Ministério da Saúde,
das, em geral, quase sempre acompanhadas relativas à segunda década do século XXI.5
de injustas histórias de vida, não raro provo- 5 Números disponíveis na matéria do jornal O Globo,
cavam-me inquietantes interrogações. As per- publicado em 06 de fevereiro de 2015, na reportagem
da autoria de Carol Knoploch, na qual são referidos
guntas de criança de certo me conduziram, dados relativos à Pesquisa Nacional de Saúde do
IBGE, em convênio com o Ministério da Saúde, reali-
junto a outros motivos de ordem prática, às
zada no ano de 2013. Este estudo contou com 80 mil
minhas escolhas profissionais. Anos mais tar- visitas, em 1.600 municípios do Brasil, sendo, portan-
to, resultados representativos da perda dentária no
de, a graduação em Odontologia, todavia, só país (KNOPLOCH, 2015). Isto é, trata-se de um recorte
fez acirrar aquelas velhas inquietações, além amostral da realidade do edentulismo em território
nacional. Além desses números, artigos científicos
de provocar novos constrangimentos. Recor- tendem a evidenciar taxas de perda e de adoecimen-
do-me bem, ainda graduanda, de recusar-me to dentários acima dos parâmetros e metas recomen-
dados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a
a extrair um molar permanente de um jovem exemplo dos estudos de Cardoso et al. (2016) que
de 12 anos: a meu ver, a mutilação precoce não apontam um decréscimo do edentulismo entre jovens
e adultos no país, porém uma tendência de aumento
poderia ser uma regra. expressivo entre idosos até o ano de 2040. Especifica-
Negando-me a este perverso modelo, se- mente sobre aquela cifra, a de 1 bilhão e 24 milhões
de quilos de tecido dentário perdido, cabe frisar que
gui questionando: mas como pode haver tan- se trata de uma estimativa feita por mim, tratando-
tas tecnologias preventivas para o alcance de se, portanto, de um cálculo aproximado e baseado
em peso médio da unidade dentária perdida (algo em
tão poucos? Ou como admitir tantas perdas torno de 2,3 gramas é o peso médio de uma unidade

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Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria

Tentei, então, traduzir a dramaticidade des- ideia imbuída da sua poética, forçaram-me a
ses números naquele fazer cerâmico, isto é, re- repensar o comportamento da matéria para
presentar em barro a perda massiva de dentes além dos possíveis sentidos e significados
no país, muitas vezes, de modo precoce, evitá- que o projeto pretendia lograr mais adiante,
vel e socialmente injusto. Trata-se de um pro- enquanto produto acabado e disponível ao
jeto em aberto, em franca construção: há ainda olhar do outro. A partir disso, passei a perce-
muitos encaminhamentos possíveis e muitas ber que as simbolizações ou representações
peças a serem produzidas em torno daquela a priori pretendidas podem ser facilmente
provocação. No entanto, as peças concluídas traídas pela matéria em suas rebeldias. No
até aqui falam sobre isto, e o próprio processo caso, o fazer cerâmico tem exatamente disso:
de feitura tem mais a dizer a este texto. já partindo da complexa constituição da sua
Assim, a primeira porção de argila que che- matéria-prima, perpassando os processos do
gou a minhas mãos pediu-me para ser um pe- manejo humano em suas intenções, até o seu
queno cubo, em realidade, mais próximo de mais ou menos imprevisível comportamento
uma forma retangular. De imediato, tornou-se forno adentro e vida afora.
um pequeno bloco maciço próximo a este for- Foram, então, exatamente essas inquieta-
mato. Naquela ocasião, mais atenta à dimen- ções que me levaram a buscar uma literatura
são técnica, a orientadora logo me advertiu: que as acolhessem de forma menos fragmen-
“cerâmica pede leveza, a argila precisa respirar tada, isto é, uma abordagem talvez mais sensí-
leve”. Dito isso, e em face daquele pequeno e vel à velha trama matéria-intenções (as minhas
adensado objeto, disse-me prontamente: “es- e as do material em seus processos físico-quí-
cave”. E assim o fiz. micos ou de outra natureza). Assim, ao invés
Desde este simples ato, e que logo se tor- de me debruçar sobre a produção bibliográfica
nou tão corriqueiro, não demorou muito para mais habitualmente referenciada quando se
eu perceber que, de fato, o barro tem as suas trata das grandes temáticas da “materialida-
regras, mas também suas rebeldias. Os mais de” e de “cultura material”, decidi iniciar pelas
diversos manuais técnicos dizem isso ao seu “ inflexões” propostas por Ingold (2015).
modo, assim como a ciência é farta das expli- Este autor parte então do seguinte enigma:
cações sobre o comportamento das ínfimas o desaparecimento dos próprios materiais na
partes que fazem do barro, o barro. Todavia, literatura que trata propriamente daquelas te-
entre teoria e prática, há um saber tácito, ou máticas. Citando um dos autores que, no seu
algo mesmo de inefável, que mais conhece entender, vão além das “reflexões abstratas
quem faz: a mão na massa revela coisas que os de filósofos e teoristas”, assim delimita: “por
escritos não alcançam. E o fazer cerâmico é as- materiais, refiro-me às coisas de que as coisas
sim: prenhe das tensões entre teoria e prática. são feitas, e um inventário aproximado pode
Tais tensões me inquietaram – me inquietam –, começar com algo como o seguinte, tirado da
e é também sobre isso este texto. lista de conteúdo do excelente livro de Henry
As provocações que o barro então me Hodges, Artefacts (Artefatos)”, e são eles, “ce-
causou, sobretudo, para dar cabo de uma râmica; esmaltados; vidro e laqueados; cobre e
ligas de cobre; ferro e aço; ouro, prata, cobre,
dentária). Usualmente, a literatura técnica e científica
da área odontológica emprega como unidade de refe- chumbo e mercúrio; pedra; madeira; fibras e
rência o indivíduo, em termos de número de unidades
perdidas por pessoa, e não o peso de tecidos dentá-
fios; têxteis e cestas; peles e couro”, entre tan-
rios perdidos tal como aqui proposto. tos outros. Isso posto, afirma Ingold que:

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Ana Clara de Rebouças Carvalho

Este volume pé no chão está repleto de infor- de materiais e das maneiras como tenham sido
mações sobre todos os tipos de materiais que utilizados em processos de produção; mesmo
os povos pré-históricos têm usado para fazer
na antropologia, existe algum trabalho etno-
coisas. No entanto, nunca o vi referido na lite-
gráfico sobre o assunto”. E acresce este autor:
ratura sobre materialidade. Procurando pelas
minhas prateleiras encontrei títulos como: The O meu ponto é simplesmente que este traba-
Mental and the Material (O mental e o material), lho não parece interferir de forma significativa
de Maurice Godelier (1986); Mind, Materiality na literatura sobre materialidade e cultura ma-
and History (Mente, materialidade e história), terial. Para estudiosos que dedicaram grande
de Christina Toren (1999); Matter, Materiality parte de suas energias ao estudo dos materiais,
and Modern Culture (Matéria, materialidade e essa literatura se lê mais como uma rota de fuga
cultura moderna), editado por Paul Graves-Bro- para a teoria – uma que, confesso, eu mesmo já
wn (2000); Thinking through Material Culture usei. Portanto, meu argumento é dirigido tanto
(Pensando através da cultura material), de Karl para mim quanto a qualquer outra pessoa, e é
Knappett (2005); Materiality (Materialidade), parte de uma tentativa de superar a divisão en-
editado por Daniel Miller (2005); Material Cultu- tre trabalho teórico e prático. (INGOLD, 2015, p.
res, Material Minds (Culturas materiais, mentes 50, grifos nossos).
materiais), de Nicole Boivin (2008) e Material
Agency (Agência material), editado por Lambros E é justo esta tentativa, a “de superar a divi-
Malafouris e Karl Knappett (2008). Em estilo e são entre trabalho teórico e prático”, que mais
abordagem, esses livros estão a um milhão de se aproxima das motivações daquele projeto
milhas da obra de Hodges. Seus compromissos, que, por sua vez, inspira as reflexões neste ar-
na sua maior parte, não são com as coisas tan-
tigo. Os questionamentos daquele autor diri-
gíveis de profissionais e manufatureiros, mas
gem-se mais diretamente à antropologia em
com as reflexões abstratas de filósofos e teoris-
tas. Eles discorrem, muitas vezes, em uma lin- seus modos de lidar com a “cultura material”
guagem de impenetrabilidade grotesca, acerca e da “materialidade”, e cujo exemplo por ele
das relações entre materialidade e uma série oferecido é suficientemente claro: “um carpin-
de outras qualidades igualmente insondáveis, teiro é alguém que trabalha com madeira, mas
que incluem agência, intencionalidade, fun-
como Stephanie Bunn observou, a maioria dos
cionalidade, espacialidade, semiose, espiri-
antropólogos se contentaria em considerar o
tualidade, encarnação. Procura-se em vão, no
entanto, qualquer explicação compreensível trabalho em termos da identidade social do
do que ‘materialidade’ realmente significa, ou trabalhador” ou, ainda, “das ferramentas que
qualquer explicação dos materiais e suas pro- ele ou ela usa, da disposição da oficina, das
priedades. Para entender a materialidade, ao técnicas empregadas, dos objetos produzidos
que parece, precisamos ficar longe quanto pos-
e seus significados – tudo menos a madeira
sível de materiais. (INGOLD, 2015, p. 50)
mesma” (INGOLD, 2015, p. 51).
Antes que o leitor mais apressado se esqui- Tais argumentos talvez não bastem a quem
ve, ou pior, abandone de vez esta perspectiva siga desconfiando que a cisão acima referida
de argumentação, e mesmo antes de tocar no estaria muito bem resolvida uma vez que to-
que tais ponderações teriam a ver com as in- das aquelas coisas materiais, ao menos em
crustações de ouro de Galindo ou bilhões de sua constituição física, caberiam às chamadas
tecidos dentários perdidos no Brasil, é pruden- ciências exatas ou da natureza e, à filosofia e
te uma ressalva que o próprio Ingold (2015, p. às humanidades, restaria todo aquilo intangí-
50) propõe no seu texto: “apresso-me a acres- vel e que, ao que tudo indica, parece apenas
centar que, obviamente, a maior parte da ar- apreciável se distanciado da sua existência
queologia é dedicada precisamente ao estudo palpável. No entanto, o desconforto com esta

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Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria

emblemática dualidade data, pelo menos, de zando matéria-espírito, isto é, processos mes-
mais de um século, no próprio bojo das ciên- mos da vida.
cias sociais e humanas, aqui em particular, nas No caso da produção dos primeiros dentes
reflexões de Gabriel Tarde, as quais recorrere- cerâmicos, recordo-me bem uma das primeiras
mos mais à frente. inquietações que me ocorreu: no afã de conci-
Por ora, voltemos ao instigante desapareci- liar o comportamento da argila, em seus im-
mento dos materiais apontado por aquele últi- plicados aspectos técnicos, com os possíveis
mo autor que, ao fazê-lo, passa a dialogar com repertórios semânticos a partir dos produtos
outros atores para além da produção cientí- dali emergentes, passei a cogitar o quanto de
fica mais referenciada. Foi o caso de Stepha- afinidade aqueles minérios que a constituem
nie Bunn, quem buscando uma “antropologia teriam com os milhões de toneladas de mi-
de sua experiência como artista e artesã, foi nérios dos tecidos dentários perdidos Brasil
direcionada para a literatura sobre a cultura adentro. É evidente que não estamos falando
material” (INGOLD, 2015, p. 51). Entretanto, ad- de uma relação direta entre aquelas poucas
verte este, “em nenhum lugar nessa literatura porções de argila e a dissipação destes mine-
ela poderia encontrar qualquer coisa corres- rais de origem dentária, onde quer que eles
pondente ao ‘pouco que fez’”: isto é, “o traba- tenham ido parar (possivelmente no mesmo
lho com materiais que repousa no coração da solo onde o barro se forma). Mas, em algum
sua própria prática como fabricadora” (BUNN, momento, estive sim pensando se haveria um
1999, p. 15 apud INGOLD, 2015, p. 51). outro destino para essa perda – diria até etica-
Este relativo silenciamento com o qual mente mais digno – a exemplo da sua incorpo-
Bunn se deparou pareceu-me bastante fami- ração a outras estruturas cerâmicas propria-
liar naquilo que encontrei ao longo dos pro- mente.
cessos de produção das dezenas de dentes Em perspectiva afim, tomemos o caso da
cerâmicos que fiz no interior do projeto aqui adição de cinzas de ossos bovinos na produ-
em foco. Possivelmente, Galindo poderia tam- ção de corpos cerâmicos, o que já é uma prá-
bém tê-lo encontrado caso pretendesse expli- tica estabelecida em alguns países, a exemplo
car que, para além das representações e dos de China, Inglaterra e Estados Unidos, em seus
significados daquelas oito pequeninas peças diversos fins, sobretudo, em função da bio-
em ouro, tratou-se, antes de tudo, de um cor- compatibilidade que tais compostos logram
po à serviço, isto é, foram tecidos dentários alcançar. De certo, não parece ser apenas os
próprios, sadios e irregeneráveis, que se dis- fins simbólicos que, por si só, motivariam a fa-
siparam naquela ação. Ou seja, em tese, pode- bricação em larga escala deste tipo cerâmico,
ríamos participar da mesma sensação de que mas sim questões mercadológicas e, talvez,
“este fabricar é para Bunn, como o é para mui- ambientais o fariam. Tanto assim que a lite-
tos artistas, um procedimento de descoberta: ratura acerca do tema, relativamente escas-
nas palavras do escultor Andy Goldsworthy, sa, não enfatiza propriamente isso, mas tende
‘uma abertura para os processos da vida, den- mais a descrever processos físico-químicos da
tro e em volta’ (FRIEDMAN & GOLDSWORTHY, produção, e a apontar para as vantagens téc-
1990, p. 160)”, conforme reflete Ingold (2015, p. nicas deste tipo cerâmico, incluindo, aspectos
51). E é justo este “procedimento de descober- estéticos e de durabilidade.
ta” que encontra importantes limites em uma No caso da adição de minerais de origem
literatura que segue confortavelmente polari- dentária a corpos cerâmicos, essa tecnologia,

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Ana Clara de Rebouças Carvalho

até então, não existe. Ao menos, ainda não há abrem a partir daqui parecem mais distancia-
relato técnico ou científico de ampla divulga- das dos velhos vícios das explicações dicotô-
ção sobre produções dessa natureza. Assim micas. Ou próximas de algo como já rebatia
sendo, e de volta àquelas inquietações que Gabriel Tard:
tive ao tecer dentes cerâmicos, imaginando se
[...] se os corpos vivos [...] são máquinas, a natu-
tratar de uma ação impregnada de simbolismo reza essencial dos únicos produtos e das únicas
e de representação do fenômeno do edentulis- forças resultantes de seu funcionamento que
mo em massa no Brasil, ocorreu-me pensar o nos são conhecidos até o fundo (sensações,
quanto daquelas perdas poderiam retornar ao pensamentos, volições), nos mostra que seus
alimentos (carbono, azoto, oxigênio, hidrogê-
artefato produzido: será que assim cumpririam
nio, etc.), contêm elementos psíquicos ocultos.
com menor fragmentação seus fins mais sim- (TARDE, 2007, p. 71-72, grifos nossos)
bólicos e mais pragmáticos, incluindo, aqueles
de reabilitação dentária a partir de corpos ce- Aqui, e antes que o leitor se atenha apenas
râmicos constituídos dos próprios tecidos de à datada compreensão de corpo vivo enquanto
origem, ao menos, em parte? “máquina”, e, de fato, procederia assim admitir
Antes de qualquer risco de duvidosa inter- tal datação, a tônica do argumento em ques-
pretação disso, cabe aqui uma salutar ressalva tão estaria justo na fonte comum onde espíri-
de ordem ética: é evidente que não se cogita to-matéria se alimentam: afinal, o mesmo car-
que tecidos humanos, no caso, de origem den- bono ou o oxigênio que constitui o objeto são
tária, esteja à serviço de quaisquer interesses, aqueles que nos fazem seres sensíveis, pen-
sejam eles qual for. Mas a leitura é justamente santes, volitivos. Tarde (2007), parece arriscar
a inversa: os interesses, sejam eles quais fo- mais do que isto: ao atribuir “elementos psí-
rem, devem se voltar ao que andamos perden- quicos ocultos”, ou seja, elementos da anima
do de “processos de vida”, ainda que em mili- aos supostos inanimados, tais como ao “car-
métricos volumes, como poeiras de nós que se bono, azoto, oxigênio, hidrogênio, etc”, propõe
dissipam no ar. Ou seja, no caso aqui, tecidos romper em definitivo a última ou a principal
que se esvaem em suas variadas dinâmicas de barreira entre matéria e espírito, isto é, a pró-
perda, e que então se antecedem a qualquer pria anima. Assim, para ele, “matéria é espírito,
intenção de uso ou fim. Em termos análogos, nada mais”, sendo esta tese, inclusive, a “única
um coração só revive em alguém à sua espera que se compreende e que oferece realmente a
quando este parou de bater em outro peito. redução exigida” (TARDE, 2007, p. 65).
De volta àquela última indagação, ela mes- Mais recentemente, e para Latour (2013, p.
ma se desdobra em outra: a ideia proposta, 11), ao revistar criticamente as “promessas da
fruto daquelas inquietações do fazer, ajudaria modernidade”, conclui que a “nossa vida in-
a romper aquela velha dualidade ou a endossa, telectual é decididamente mal construída”. E
ainda que involuntariamente? Posto de outro avança esse autor: “a epistemologia, as ciên-
modo, estaria aí presente a esgarçada arma- cias sociais, as ciências do texto, todas têm
dilha polarizadora: de um lado, abstrações e uma reputação, contanto que permaneçam
simbolizações, de outro, a concretude da vida distintas”; ou seja, “caso os seres que você
como ela é, no caso aqui, dos materiais em esteja seguindo atravessem as três, ninguém
si mesmos? Sem pretensões, ou mesmo, sem mais compreende o que você diz” (LATOUR,
condições de um sim ou um não com alguma 2013, p. 11). Lá atrás, para Tarde (2007), e em li-
segurança, as perspectivas de reflexão que se nhas bem breves, trata-se tão somente de uma

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Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria

questão do olhar, isto é: “esses elementos últi- caberia mesmo ali, nesta pretensiosa dupla
mos aos quais chega toda ciência, o indivíduo macro categorial. Neste bojo, uma das ques-
social, a célula viva, o átomo químico, só são tões postas por ele seria: “onde, nesta divisão
últimos da perspectiva de sua ciência particu- entre paisagem e artefatos, poderíamos colo-
lar” (TARDE, 2007, p. 57). car todas as diversas formas de vida animal,
No compreender de Vargas (2007, p. 23), es- vegetal, fúngica e bacteriana”? (INGOLD, 2015,
taria posto neste olhar tardiano que “o anima- p. 52). E avança:
do e o inanimado se confundem in minimus”, e
Será que a chuva pertence ao mundo material,
este parece ser um dos pontos chaves da su- ou apenas as poças que ela deixa nas valas e
peração da dualidade que se pretende discutir buracos? Será que a neve que cai participa do
em termos de “rebeldia” da matéria. A rebel- mundo material somente quanto pousa sobre o
dia aqui teria, então, o senso da contrariedade chão? Como engenheiros e construtores sabem
todos muito bem, chuva e geada podem romper
com as tendências antropocêntricas de leitu-
estradas e edifícios. Como então afirmar que
ra e de concepção da complexidade da vida, estradas e edifícios sejam parte do mundo ma-
e também de uma persistente ilusão de con- terial, se a chuva e a geada não o são? E onde
trole absoluto da matéria em função das in- poríamos o fogo e a fumaça, a lava incandes-
tencionalidades humanas. Antes disso, e se “o cente e as cinzas vulcânicas, para não mencio-
animado e o inanimado se confundem in mini- nar líquidos de todos os tipos, da tinta à água
corrente. (INGOLD, 2015, p. 52)
mus” (VARGAS, 2007, p. 23), haveria sim alguma
coisa de matéria que dita certas regras antes Evidentemente, a lista é enorme, incluindo,
ou, na melhor das hipóteses, simultaneamen- o ar, a lua, o sol, as estrelas, conforme esse au-
te às vontades e intenções humanas, tal como tor segue a desdobrando, e transitando entre
sugerem as reflexões de Gabriel Tarde. críticas e possibilidades acerca de uma possí-
Adiando mais um pouco o que “sociólogo- vel reconciliação entre o “mundo material” e
filósofo” ou “filósofo-sociólogo” tem a nos di- a “materialidade”. Nesse empenho, e em meio
zer, voltemos à rebeldia da matéria, retomando a tantas incertezas, fato é que “enquanto na-
o fio da meada com uma das questões substan- dam neste oceano de materiais, os seres hu-
ciais proposta por Ingold (2015) no debate so- manos, obviamente, desempenham um papel
bre materialidade: “se o meu corpo realmente nas suas transformações”, do mesmo modo “o
participa do mundo material, então como pode fazem criaturas de todos os outros tipos”, diz
o corpo-que-eu-sou se comprometer com esse Ingold (2015, p. 57). E conclui em um ponto cha-
mundo?”. Antes, no entanto, é interessante co- ve da sua reflexão e também para este texto
nhecer o contexto da pergunta, que está jus- que “muito frequentemente os seres humanos
tamente na crítica daquele autor a uma das continuam a partir de onde não humanos pa-
várias tentativas de superação da polaridade ram, como quando extraem a cera secretada
entre teoria e prática, mais precisamente, entre pelas abelhas para fazer paredes dos alvéolos
o mundo material e a materialidade, no caso do favo de mel para posterior utilização no fa-
aqui, também a “imaterialidade”. brico de velas” (INGOLD, 2015, p. 57).
Particularmente dirigindo-se à proposição Isso posto, e do mesmo modo, a lista de
de Gosden (1999, p. 152) acerca de uma divisão transformações de mundo partilhadas entre
didática do mundo material em “dois amplos humanos e não humanos segue igualmente
componentes”, isto é, “paisagem e artefatos”, incomensurável, incluindo coisas como secre-
Ingold (2015) indaga se tudo que é “material” ções, peles, osso, chifres, penas, esterco etc. No

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Ana Clara de Rebouças Carvalho

caso aqui em relevo, as transformações parti- dos objetos para as propriedades dos materiais,
lhadas estariam entre as poeiras de tecidos proponho que levantemos o tapete para revelar
sob a sua superfície um emaranhado de meân-
dentários humanos, que tendem a se dissipar
drica complexidade, no qual – entre uma miríade
no ar ou a seguir ralo abaixo dos gabinetes de outras coisas – a secreção de vespas do buga-
odontológicos, e a argila em processo de pro- lho apanhadas com ferro-velho, seiva de acácias,
duções humanas a caminho de ser um artefa- penas de ganso e peles de bezerro, e o resíduo
to qualquer, inclusive, os próprios dentes para de calcário aquecido se mistura com as emissões
de suínos, bovinos, galinhas e abelhas. Pois ma-
fins de reabilitação das perdas, se as pesqui-
teriais como estes não se apresentam como sím-
sas tecnológicas avançarem para isso. No caso bolos de alguma essência comum – materialida-
de Galindo, por sua vez, e com o seu corpo “à de – que dota cada entidade mundana com a sua
serviço” da crítica visceral a que se propôs, é inerente ‘objetividade’, ao contrário, eles partici-
ali possível vislumbrar um corpo “realmente pam dos processos mesmos de geração e rege-
neração contínua do mundo, do qual as coisas
participando do mundo material”, portanto,
como manuscritos ou fachadas são subprodutos
um “corpo-que-ela-é” de fato e intensamente
impermanentes. Portanto, escolhendo mais um
“comprometido com este mundo”, tal como su- exemplo ao acaso, ossos de peixe ferventes pro-
gere a provocação acima de Ingold (2015). duzem um material adesivo, uma cola, e não uma
Avançando nessa perspectiva, uma outra materialidade típica de peixes nas coisas coladas.
leitura daquele mesmo autor pode nos aju- (INGOLD, 2015, p. 52, grifos nossos)

dar mais uma vez a pensar sobre a rebeldia da É justo este “levantar do tapete” de en-
matéria ante as pretensões humanas, inclusi- contro à propriedade dos materiais um movi-
ve, aquelas que creem ser viável prescindir da mento necessário às tentativas de superação
própria matéria para falar algo em termos de da dualidade matéria e materialidade e, como
uma suposta “imaterialidade” ou de uma cul- em destaque aqui, da matéria/i-matéria. Já os
tura “imaterial” qualquer. Como visto até aqui, grifos ao final daquela última citação servem
a contaminação pela matéria é inabalável: nem para nos alertar que, desde esse olhar, coisas
que seja de ar ou da atmosfera, a imateriali- produzem coisas e não “coisidades”, isto é,
dade estará sempre plenamente preenchida, matéria produz matéria, seja ela qual for, e não
ou até enquanto a vida no planeta sobreviver “materialidades” ou “ imaterialidades”. Inclusi-
à ação humana predatória, como diria Jonas ve, até as coisas que se julgam sem matéria –
(2006). Todavia, e tal como adverte aquele au- tais como pensamentos, volições, valorações,
tor, “uma vez que o nosso foco está na materia- representações, simbolizações, abstrações,
lidade dos objetos” e, acresço aqui, na suposta entre outros – e como já dito, estão, pelo me-
“imaterialidade” também, “é quase impossível nos, prenhes de ar. Ao menos, enquanto este
seguir as múltiplas trilhas do crescimento e não for rarefeito, no caso, em virtude da pró-
transformação que convergem, por exemplo, pria ação antiética humana diante das coisas,
na fachada de estuque de um edifício ou na como diz Jonas (2006), mas o deixemos para
página de um manuscrito” (INGOLD, 2015, p. 59, mais adiante.
grifos do autor). E segue esclarecendo:

Essas trilhas são simplesmente varridas para de- Outras rebeldias ou alguns
baixo do tapete de um substrato generalizado pontos cegos da “imaterialidade”
sobre o qual diz-se que as formas de todas as
coisas são impostas ou inscritas. Insistindo em Na seção anterior, o foco esteve na reflexão
que demos um passo para trás, da materialidade da rebeldia da matéria, isto é, na sua insis-

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Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria

tência em se pronunciar entre as “materiali- mento mesmo de recursos e insumos necessá-


dade” ou “ imaterialidade”, tal como pensa- rios aos processos (BENGIO et al., 2015; LEAL &
das, amplo senso, em uma literatura técnica LEAL, 2012; SOUZA FILHO & ANDRADE, 2012).
e científica afim. A partir daqui os processos Nessa mesma perspectiva, e ainda a título
reflexivos sobre a rebeldia material buscam de exemplo, o estudo desses últimos autores,
revelar alguns pontos cegos ainda passíveis acerca dos desafios da inventariação patrimo-
de serem creditados à polaridade em relevo: nial de quilombolas em Alcântara, no Mara-
as supostas dimensões material e imaterial nhão, aponta, dentre as diversas dificuldades,
do patrimônio. os “efeitos da separação arbitrária entre ma-
Antes de avançar, uma importante ressalva terial e imaterial”, de modo que “a caracteri-
deve ser feita: a de que a crítica que se bus- zação do patrimônio imaterial dos quilombo-
ca aqui, mais de natureza teórico-conceitual, las, nesse caso, depende e está relacionada à
não contradiz ou desmerece todo o empe- sua base material” (SOUZA FILHO & ANDRADE,
nho e desdobramentos práticos em torno do 2012, p. 92). Ou seja, o material e o “ imaterial”
que se alcançou em termos de fomento e/ou são mesmo indissociáveis e, no caso, fazem os
de salvaguarda de patrimônios mundo afora. processos culturais perder o sentido dentro de
Mas justo o contrário: os propósitos caminham uma lógica polarizadora. Isso posto, esses au-
muito mais no sentido de refletir o quanto da- tores ainda sublinham o que chamam de “cul-
quela dicotomia endossa, sobretudo, em seus tura do material”, a qual imprime um “tipo de
pontos cegos, os principiais desafios e limita- colonização do imaterial que a política insti-
ções que incidem sobre a efetiva implementa- tucional não conseguiu ainda resolver” (idem,
ção das políticas culturais patrimoniais. p.92). Com isso, querem dizer que a excessiva
Nessa mesma perspectiva, Bengio et al. abordagem materialista da patrimonialização
(2015, p. 19), ao refletir sobre “tensões” no acaba enfocando mais o produto do que o pro-
Programa Nacional de Patrimônio Imaterial cesso, isto é, o “saber – fazer”, para o melhor
(PNPI), então vinculado ao Plano Nacional de uso do jargão.
Cultura, de 2010, interrogam-se sobre quais A crítica daqueles autores é bastante com-
“demandas” e quais “efeitos produzidos” se preensível e, de certo, endossada pela lite-
verificam a partir dos movimentos em torno ratura afim, contudo, é possível encontrar aí
da efetivação de direitos no campo da cultu- um dos pontos cegos aos quais esta seção se
ra no Brasil com esta política, no caminhar da dedica. Trata-se daquele que decorre da pró-
segunda década do século vigente. As conclu- pria dualidade em xeque: é, portanto, mais
sões destes autores, bem como as de outros um subproduto da cisão materialidade/ima-
neste mesmo viés de problematização, têm re- terialidade, mais precisamente vinculado ao
caído no terreno comum das dificuldades em uso corrente da noção de “processo” enquan-
suas mais variadas naturezas. Assim, faltas ou to um recurso, quase que um subterfúgio, que
insuficiências de toda ordem tendem ser a tô- supostamente resolveria aquela polaridade.
nica: desde as que perpassam as ações mais Assim, no esteio deste uso mais genérico da
burocrática e/ou institucional, a exemplo de ideia de “processo”, por vezes, em detrimento
certas incompatibilidades entre metodologias de “produto”, fato é que “estudos da chamada
de inventariar possíveis candidatos à patrimo- cultura material têm se centrado esmagadora-
nialização e a complexa realidade na qual se mente nos processos de consumo em vez de
inserem, àquelas que dizem respeito ao supri- nos de produção”, assinala Ingold (2015, p. 59),

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Ana Clara de Rebouças Carvalho

apoiado em Miller (1995; 1998) e Olsen (2003). E de, mesmo que de forma bastante inconscien-
avança aquele primeiro autor: te, aprofunda o fosso entre matéria e “i-maté-
ria”, reforçando assim a falsa noção de que o
Pois tais estudos tomam como seu ponto de
partida um mundo de objetos que, por assim suposto imaterial prescinda do material (aqui
dizer, já se cristalizou a partir dos fluxos de enquanto recursos variados), uma vez que es-
materiais e suas transformações. Neste ponto taríamos tratando afinal de um “saber – fazer”
os materiais parecem desaparecer, engolidos em abstrato, e não de matérias.
pelos objetos mesmos aos quais deram à luz.
Em contraposição a tais tendências dico-
É por isso que comumente descrevemos mate-
riais como ‘brutos’, mas nunca ‘cozidos’ – pois tômicas, um breve passeio sobre etimologias
no momento em que se congelam em objetos pode ser, por vezes, esclarecedor: assim como
eles já desaparecem. Por conseguinte, são os “patrimônio” remete, em seu prefixo, à pala-
próprios objetos que captam a nossa atenção, vra “pai”, o termo “material” é uma “extensão
não mais os materiais do que são feitos. É como
do latim mater (‘mãe’)”, sinaliza Ingold (2015,
se o nosso envolvimento material só começas-
se quando o estuque já endureceu na fachada p. 61). Assim, materiais, enquanto “mater” de
ou a tinta já secou na página. Vemos o prédio e tudo que há, estão “longe de serem a coisa
não o reboco das paredes; as palavras e não a inanimada tipicamente imaginada pelo pen-
tinta com a qual foram escritas. (INGOLD, 2015, samento moderno”, mas, “materiais, neste
p. 60, grifos do autor)
sentido original, são os componentes ativos
Diante disso, a apreensão deste mundo de um mundo-em-formação” (INGOLD, 2015, p.
de objetos já cristalizados pode explicar, ao 61). Assim sendo, não parece por um acaso ser
menos em parte, aquela primazia do produ- mais fácil conceber sem titubeios a noção de
to sobre o processo e, em especial, sobre os “patrimônio material” do que aquele que su-
processos de produção; e, ao que tudo indica, põe prescindir ou renunciar, ainda que parcial-
isso parece não fazer muito bem aos recentes mente, da “mater”, isto é, dos materiais que
esforços de patrimonialização do “imaterial”, “onde quer a vida esteja acontecendo, eles es-
sobretudo, do “saber – fazer”, conforme discu- tão incansavelmente em movimento – fluindo,
tido acima. Além disso, um outro ponto, que se deteriorando, se misturando e se transfor-
também parece embaçado, estaria nos riscos mando” – acresce aquele mesmo autor (2015,
do “esquecimento” de que processo é também p. 61).
consumo, portanto, consumo de algo, ainda Um último ponto cego estaria na linha de
que “apenas” do ar que inspira e faz respirar encontro da dimensão ética que a dualidade
o sujeito que sabe fazer. Dito de outro modo, do material/imaterial pode comportar. Aqui,
a “imaterialidade” do saber fazer não é tanto são as reflexões de Hans Jonas (2006) que mais
imaterial assim, no limite, de imaterial não te- atenderiam às premências desta discussão,
ria propriamente muita coisa. mais precisamente, a partir do que ele conce-
Ademais, e ainda no bojo dos possíveis be em torno do “princípio da responsabilida-
efeitos da dicotomia em termos políticos, so- de”. Este autor, ao revisar o pensamento filo-
bretudo, em seus desdobramentos práticos, sófico ocidental acerca da ética, destaca que
é sempre interessante manter a vigília sobre “todo o trato com o mundo extra-humano, isto
certos discursos. Assim, na seara do fomento é, todo o domínio da techne (habilidade) era
ao campo da cultura e aos mais amplos e di- – à exceção da medicina – eticamente neutro,
versos interesses patrimoniais, convém se in- considerando-se tanto o objeto quanto o su-
terrogar o quanto do discurso da imaterialida- jeito de tal agir” (JONAS, 2006, p. 35). E avança:

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Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria

Do ponto de vista do objeto, porque a arte só Mas, o que esta pauta excessivamente eco-
afetava superficialmente a natureza das coi- lógica, “ indigesta” ou, quiçá, inconveniente,
sas, que se preservava como tal, de modo que
teria a ver ou mesmo a dizer ao inócuo debate
não se colocava em absoluto a questão de um
entre o que é e o que não é material ou “ ima-
dano duradouro à integridade do objeto e à or-
dem natural em seu conjunto; do ponto de vis- terial”? Uma indagação afim parece oportuna
ta do sujeito porque a techne, como atividade, para pensar tal questão: a propósito, que lugar
compreendia-se a si mesma como um tributo de conforto e de isenção as “ imaterialidades”
determinado pela necessidade e não como um todas logram em um mundo em alta vulnerabi-
progresso que se autojustifica como fim pre-
lidade e materialmente posto em xeque? Dito
cípuo da humanidade, em cuja perseguição
engajam-se o máximo esforço e a participação de outro modo: o que o mundo etéreo das re-
humanos. A verdadeira vocação do homem en- presentações, das abstrações, das simboliza-
contrava-se alhures. Em suma, atuação sobre ções, enfim, das imaterialidades todas, então
objetos não humanos não formava um domí- desvencilhadas da sua concretude, endossa
nio eticamente significativo. (JONAS, 2006, p.
ou aprofunda, ainda que involuntariamente,
35, grifos nossos)
as tantas mazelas do mero mundo mortal dos
Os grifos acima pretendem enfatizar o fato materiais?
de toda ética tradicional ser antropocêntrica, Antes disso, as tendências de leitura pare-
segundo a ótica desse autor, uma vez que “a cem inversas, e perguntas podem daí emergir:
significação ética dizia respeito ao relaciona- seria pois o mundo materialista e das mate-
mento direto de homem com homem, inclusi- rialidades o “grande vilão” de uma vida etica-
ve o de cada homem consigo mesmo” (JONAS, mente viável, então naquela perspectiva de Jo-
2006, p. 35). Todavia, e especialmente a partir nas (2006), enquanto, do outro lado, o mundo
do crescente tecnológico sem precedentes em das imaterialidades todas aprecia, em distân-
muitas das histórias da humanidade, emerge o cia segura e confortável, tais processos de de-
imperativo do deslocamento daquele antropo- gradação e iniquidades, em que pesem as suas
centrismo, uma vez que “a promessa da tecno- ferozes e contundentes capacidades críticas e
logia moderna se converteu em ameaça” para reflexivas? A propósito, a própria noção “éti-
o próprio ser humano em virtude das suas da- ca”, ao menos como tradicionalmente pensa-
nosas e potencialmente letais consequências da, não pertenceria apenas a este mundo isen-
(JONAS, 2006, p. 21). to e confortável das supostas imaterialidades?
Dito de outro modo, tal imperativo se tra- Isso posto, e considerado aquele último
duz em: “age de tal maneira que os efeitos da ponto cego, como se comprometer eticamente
tua ação sejam compatíveis com a permanên- a partir de uma perspectiva que fragmenta um
cia de uma vida humana autêntica”; ou mes- mundo em sua matéria e espírito? Ou, aqui é
mo, “não ponhas em perigo a continuidade o equivaleria a dizer que uma abordagem di-
indefinida da humanidade na Terra”, daí o ci- cotômica de mundo não seria compatível com
tado “princípio da responsabilidade” (JONAS, uma ética por inteiro, tal como aquela propos-
2006, p. 18). Isso posto, a linha de argumen- ta por Jonas (2006). A esta altura, fica evidente
tação desse autor expõe a “crítica vulnerabili- que o acúmulo de questões tão complexas que
dade da natureza provocada pela intervenção se desdobram a partir da crítica à dualidade
técnica do homem”: tanto e de tal forma a, de em relevo não se esgotaria nestas poucas li-
fato, ameaçar a própria continuidade da vida nhas, mas o retorno ao foco deste texto pode
no planeta. sugerir algumas pistas.

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Ana Clara de Rebouças Carvalho

Assim, e já à guisa de conclusão, voltemos mais uma vez do jargão. Contudo, para poder
às contribuições de Tarde quando este perse- avançar nessa perspectiva, e não naquela que
gue a inexorável marcha do infinitesimal, isto cartesianamente mutila matéria-espírito, com
é, “a redução a uma só destas duas unidades, suas drásticas e nem sempre explícitas conse-
a matéria e o espírito” (TARDE, 2007, p. 53). Para quências, ou, como adverte Vargas (2007, p. 13),
esse autor, tal redução dirige-se ao “infinita- para se aproximar de “um conteúdo minima-
mente pequeno”, que é “a fonte e a meta, a mente realista”, é mesmo necessário “realizar
substância e a razão de tudo”, e é, portanto, um movimento desconcertante e admitir que
onde não há mais como fragmentar ou discer- há infinitamente mais agentes no mundo do
nir matéria-espírito: “tudo parte do infinitesi- que correntemente imaginam nossas ciências
mal e tudo a ele retorna” (TARDE, 2007, p. 60). humanas” (VARGAS, 2007, p. 13).
Neste ponto, onde “matéria” e “imatéria” se É, portanto, sobre este mundo não frag-
fundem a tal ponto, e se afetam mutuamente, mentado e revisto em sua pluralidade de
que sentido e, sobretudo, quais múltiplas con- agentes, inclusive, para além dos nossos irre-
sequências sucedem quando insistimos em freáveis vícios antropocêntricos, que a reflexão
partir da fragmentação? e a ação sobre o patrimônio devem ser consi-
Na leitura de Vargas (2007, p. 16), “quanto deradas, conforme as provocações neste texto
mais nos aproximamos do infinitamente pe- buscaram se aproximar a partir das aborda-
queno mais encontramos seres completos e gens acionadas. Do ponto de vista ético, e no-
complexos”; e, potencialmente, a ciência es- vamente concordando com Jonas (2006), é “a
taria aí para “evidenciá-lo, enquanto progride continuidade da mente com o organismo, do
multiplicando prodigiosamente os agentes do organismo com a natureza”, que a ética “tor-
mundo” (VARGAS, 2007, p. 16). Nas próprias pa- na-se parte da filosofia da natureza”, de modo
lavras de Tarde (2007, p. 65; p. 78), e em defesa que “somente uma ética fundada na amplitu-
de uma ciência radicalmente diferente daque- de do Ser pode ter significado” (JONAS, 2006, p.
la que tornou-se hegemônica e perigosamente 17). Uma ética “fundada na amplitude do Ser”,
fragmentada, há provas suficientes, e desde o por sua vez, só pode prever um mundo menos
século XIX, de que “a ciência tende a pulveri- fragmentado, um mundo por inteiro.
zar o universo, a multiplicar indefinidamente
os seres”, e ainda ela, “após ter pulverizado o
universo, acaba necessariamente por espiri-
Considerações finais
tualizar sua poeira”. As reflexões propostas neste texto partiram do
Lido de outro modo, e mais confluente que persegui problematizar em termos de uma
com o foco desta reflexão, é mesmo a poei- rebeldia da matéria, em especial, da sua insis-
ra universal, ou isto que nos chega enquanto tência em se sobrepor sobre o que se supõe
matéria que tudo constitui, que é prenhe de sob absoluto controle das intenções e ações
espírito, e que, segundo Tarde (1895), estaria humanas. Deslocadas tais reflexões para o âm-
passível de leitura pela ciência. A propósito, a bito da discussão patrimonial, uma das ques-
mesma molécula de oxigênio que respira nos tões centrais que se pretendeu levantar foi:
tecidos de Galindo, ou naqueles milhões de mas o que há mesmo de imaterial em conce-
tecidos dentários humanos, respira também ber, valorar, processar, saber fazer, transmitir?
em qualquer ínfima parte disto que conside- Ou ainda: quais efeitos do conceber “ imate-
ramos “patrimônio da humanidade”, usando rialidades” descoladas, em alguma medida, da

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Patrimônio imaterial: reflexões sobre a rebeldia da matéria

dimensão material que as sustentam em face BUNN, Stephanie. The importance of materials.
aos complexos processos culturais? Journal of Museum Ethnography, v. 11, p. 15-28,
Diante da complexidade de tais inquieta- 1999. Disponível em: <http://www.jstor.org/sta-
ble/40793620?seq=1>. Acesso em: 28 mai. 2020.
ções, é evidente que as linhas tecidas neste
texto estão muito distantes de saturá-las ra- CARDOSO, Mayra; BALDUCCI, Ivan; TELLES, Daniel de
zoavelmente, no entanto, busquei cumprir a Moraes; LOURENÇO, Eduardo José Veras; NOGUEIRA
contento o propósito de dialogar com aborda- JÚNIOR, Lafayette. Edentulismo no Brasil: tendên-
gens pouco usuais no debate sobre patrimô- cias, projeções e expectativas até 2040. Ciênc. Saú-
nio. Ou seja, em termos de contribuição a este de Coletiva, v. 21, n. 4, p.1239-1246, 2016. Disponível
em: <http://www.scielo.br/pdf/csc/v21n4/1413-
debate, eis aqui uma aproximação a perspec-
8123-csc-21-04-1239.pdf >. Acesso em: 28 mai. 2020.
tivas que podem adensá-lo em algum grau, a
exemplo do olhar de Tarde (2007), das contri- CHOAY, Françoise. Alegoria do Patrimônio. São Pau-
buições de Ingold (2015) e da ética de Jonas lo: UNESP, Estação Liberdade, 2001.
(2006). FRIEDMAN, Terry & GOLDSWORTHY, Andy. Hand to
Esta última, a dimensão ética, bem como Earth. Leeds: W.S. Maney, 1990.
a revisão do seu conceber mais convencional,
GOSDEN, Christopher. Anthropology and Archaeo-
podem então ser tomadas como mote para
logy: a changing relationship. Londres: Routledge,
outras reflexões que se desdobram em torno
1999.
dos processos de patrimonialização. No caso
deste texto, e ao enfocar as necessidades de HODGES, Henry. Artefacts: an introduction to ear-
superação da dualidade do material e do ima- ly materials and technology. Londres: Duckworth,
terial, o imperativo ético posto esteve (e está) 1964.

no desafio da compreensão de “mundo por INGOLD, Timothy. Estar vivo: ensaios sobre movi-
inteiro” enquanto uma noção a ser incorpo- mento, conhecimento e descrição. Pretópolis-RJ:
rada no debate técnico e científico em torno Vozes, 2015.
do patrimônio, e sobre a qual todo e qualquer
JONAS, Hans. O princípio da responsabilidade: en-
ato de distinção deve partir e/ou se reportar. saio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio
Além disso, o ínfimo e o plural deste “mundo de Janeiro: Contraponto – Editora PUC Rio, 2006.
por inteiro” deveriam interessar mais a fun-
KNOPLOCH, Carol. Brasil tem 11% da população sem
do a política patrimonial em qualquer canto
nenhum dente. O Globo [on-line]. 2015. Disponível
de um planeta em franca vulnerabilidade, ou
em: https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/
disso que podemos considerar um ameaçado
brasil-tem-11-da-populacao-sem-nenhum-den-
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Ana Clara de Rebouças Carvalho

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Recebido em: 10.01.2020
SOUZA FILHO, Benedito; ANDRADE, Maristela de Pau- Revisado em: 22.05.2020
la. Patrimônio imaterial de quilombolas: limites da Aprovado em: 28.05.2020

Ana Clara de Rebouças Carvalho é doutora em Saúde Pública pelo Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade
Federal da Bahia (UFBA). Professora adjunta do Departamento de Odontologia Social e Pediátrica da UFBA. Membro
dos seguintes grupos de pesquisa cadastrados no Diretório do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tec-
nológico (CNPq): Laboratório de Estudos sobre Crime e Sociedade (LASSOS) da UFBA; e Comunidade, Família e Saúde:
sujeitos, contextos e políticas públicas (FASA) do ISC, da UFBA. E-mail: anaclarareboucas@gmail.com

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 490-507, maio/ago. 2020 507
Gramáticas de poder: el performance como una herramienta para la divulgación del patrimonio cultural de la comunidad sorda

DOI:http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2020.v5.n14.p508-523

GRAMÁTICAS DE PODER: EL PERFORMANCE COMO


UNA HERRAMIENTA PARA LA DIVULGACIÓN DEL
PATRIMONIO CULTURAL DE LA COMUNIDAD SORDA

Sebastián Carrasco
https://orcid.org/0000-0002-8201-833X
Universidad Externado de Colombia

resumen Este artículo parte de la concepción de la lengua de señas como una


parte importante del patrimonio cultural de la comunidad sorda; en-
tendiendo a la misma como una minoría lingüística y cultural. Desde
este punto de vista se enfatiza en la necesidad de generar herra-
mientas de divulgación de la lengua de señas para su protección. La
investigación establece un paralelo de similitudes prácticas y con-
ceptuales entre los lenguajes artísticos asociados al cuerpo, el per-
formance en especifico, con la lengua nativa de la comunidad, para
evidenciar las posibilidades de construcción de memoria simbólica a
partir del cruce entre las dos; generando espacios de divulgación del
patrimonio de la comunidad sorda. Desde estos encuentros se pro-
pone un trabajo de campo que conlleva tres ejercicios de creación
plástica con personas sordas de la ciudad de Bogotá. Estos ejercicios
artísticos son propuestas piloto para comprender las artes como una
herramienta eficaz para los objetivos de la investigación.
Palabras clave: Sordera. Performance. Memoria. Lengua de señas.
Patrimonio cultural.

abstract GRAMMARS OF POWER: PERFORMANCE ART AS A


TOOL TO MAKE VISIBLE OF THE CULTURAL HERITAGE
OF THE DEAF COMMUNITY
The following article starts from the concept of sign language as
an important part of the cultural heritage of the deaf community;
understanding the community as a linguistic and cultural minority.
From this point of view, the need to generate sign language dissem-
ination tools for the protection of the cultural heritage is empha-
sized. The research establishes a parallel of practical and conceptual
similarities between the artistic languages associated with the body,
specifically performance art, with the native language of the deaf

508 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 508-523, maio/ago. 2020
Sebastián Carrasco

community, to demonstrate the possibilities of building symbolic


memory from the intersections between the two, generating spaces
to share the heritage of the deaf community. From these encounters
of both practices, the research project develops field work that in-
volves three exercises of artistic creation with deaf people from the
city of Bogotá. These artistic exercises are pilot proposals to under-
stand the arts as an effective tool for protecting the heritage of the
deaf community. 
Keywords: Deafness. Performance. Memory. Sign language. Cultural
heritage.

resumo GRAMÁTICAS DE PODER: PERFORMANCE COMO


FERRAMENTA PARA A DIVULGAÇÃO DO PATRIMÔNIO
CULTURAL DA COMUNIDADE SuRDA
Este artigo parte do conceito da língua de sinais como parte impor-
tante do patrimônio cultural da comunidade surda, entendida como
uma minoria linguística e cultural. Desse ponto de vista, enfatiza-se
a necessidade de gerar ferramentas de divulgação da língua de si-
nais para sua proteção. A pesquisa estabelece um paralelo de simi-
laridades práticas e conceituais entre as linguagens artísticas asso-
ciadas ao corpo, a performance especificamente, com a língua nativa
da comunidade, para evidenciar as possibilidades de construção da
memória simbólica a partir da interseção das duas, gerando espa-
ços para a divulgação do patrimônio da comunidade surda. A partir
destes encontros, se propõe um trabalho de campo que envolve três
exercícios de criação plástica com surdos da cidade de Bogotá. Es-
tes exercícios artísticos são propostas piloto para entender as artes
como uma ferramenta eficaz para os objetivos da pesquisa.
Palavras-chave: Surdez. Performance. Memória. Língua de sinais. Pa-
trimônio cultural.

Introducción
Este artículo es producto del proyecto de in- Bogotá, que se manifiesta a través de la len-
vestigación llamado Gramáticas de poder, que gua de señas colombiana y su modalidad local.
hace parte del Centro de Investigación del Pa- Este proyecto de investigación se llevó a cabo
trimonio Cultural de la Universidad Externado entre diciembre de 2018 y enero de 2020.
de Colombia. El proyecto propone el estudio En Colombia, la comunidad sorda ha teni-
y análisis de las artes vivas, en específico el do que sortear enormes obstáculos para ser
performance, como herramienta de protección considerada (en aspectos políticos, sociales,
y activación del patrimonio cultural inmaterial económicos y culturales) dentro de las dinámi-
de la comunidad con discapacidad auditiva en cas de las comunidades oyentes. La oralidad,

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Gramáticas de poder: el performance como una herramienta para la divulgación del patrimonio cultural de la comunidad sorda

como el método principal de comunicación y se desarrolla la investigación. La primera es


adquisición de conocimientos en nuestra so- entender la lengua de señas como parte del
ciedad, ha dejado de lado a los grupos de per- patrimonio cultural de la comunidad sorda,
sonas que piensan, interactúan y crean a partir teniendo en cuenta su condición de minoría
de lenguajes corporales. lingüística y cultural. En este análisis se consi-
Dicha problemática se ha agravado debido dera la propuesta de Pérez de la Fuente (2005),
a la poca visibilidad y el extendido descono- quien propone la categoría de minoría lingüís-
cimiento que tiene la lengua de señas entre tica y cultural para la comunidad sorda a partir
la comunidad oyente. Un ejemplo de esto es de la revisión de categorías que habitualmente
la tardía declaración de la lengua de señas se le atribuyen a estos grupos.
como  lengua natural de la comunidad sorda, La segunda es que lengua de señas y los
que se da en la Ley 324 de 1996, por parte del lenguajes artísticos asociados al cuerpo, es-
Congreso de la República1. pecíficamente el performace, presentan simi-
Pese a lo anterior, la lengua de señas no es litudes conceptuales y prácticas. Para estable-
meramente una herramienta de comunicación cer estos puntos de encuentro, se acude a las
para esta comunidad, es también su patrimo- posturas sobre performance de la antropóloga
nio cultural. En lengua manual se han hecho Zandra Pedraza, la filósofa e historiadora del
obras de teatro, poemas y otras expresiones arte Consuelo Pabón, el curador Jaime Cerón y
de la cultura sorda que permiten guardar una la historiadora del arte Goldberg (1979).
memoria de las maneras en que esta comuni- En términos metodológicos, se plantearon
dad ve y vive el mundo. tres ejercicios de creación a partir del trabajo
La comunidad sorda colombiana, como colectivo entre personas pertenecientes a la
otras minorías en el país, ha tenido que luchar comunidad sorda y a la comunidad oyente. Es-
de forma permanente por mantener y dar a tos ejercicios, basados en la relación entre la
conocer su patrimonio cultural. Esta es la pro- lengua de señas y el performance, sirven como
blemática central de la presente investigación. punto de partida para la creación de videos y
Al entender la lengua de señas como parte del puestas en escena que permitan la visibiliza-
patrimonio cultural de la comunidad sorda, la ción de la lengua de señas.
pregunta orientadora es ¿qué herramientas o Los resultados de los ejercicios fueron ex-
mecanismos podrían ayudar a la conservación hibidos como ganadores de la convocatoria
y protección de esta lengua? Que no cunda el pánico del Espacio Odeón y
En este sentido, el proyecto de investiga- participante del III Salón de Arte Joven de la
ción tiene como objetivo principal encontrar Fundación Gilberto Alzate Avendaño, ambos
mecanismos y herramientas en las artes plás- espacios culturales conocidos dentro de la es-
ticas y visuales que den a conocer la lengua fera del arte y la cultura en Bogotá.
de señas a la comunidad oyente local, con la
intención de generar visibilidad y empatía por
la misma. Las concepciones de la sordera
Para conseguir este objetivo la investi- (discapacidad)
gación plantea dos hipótesis sobre los que La sordera es considerada como una discapa-
1 El artículo segundo de la Ley 324 de 1996 declara: “El cidad y, en esa medida, las personas oyentes
Estado Colombiano reconoce la Lengua Manual Co- –una mayoría, cuantitativamente hablando–
lombiana, como idioma propio de la Comunidad Sor-
da del País”.  han planteado paradigmas que obedecen a

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Sebastián Carrasco

una visón rehabilitadora de la condición sorda. (2014) revisa el modelo social de la discapaci-
Pérez de la Fuente (2014) menciona que la dad, que parte del principio de igual dignidad
consideración sobre la oralidad como principal para todos los seres humanos, el cual valora
estructura de comunicación de la humanidad, la positivamente la diferencia y tiende a la in-
se ha basado en el supuesto de que todas las clusión. En palabras de Pérez de la Fuente, “En
personas oyen. Según Agustina Palacios, este el modelo rehabilitador las personas con dis-
supuesto está centrado en una noción médica capacidad deben adaptarse a la sociedad, en
y científica de la discapacidad que ubica a la el modelo social la sociedad debe adaptarse
sordera en la dicotomía enfermedad-salud; se a las personas con discapacidad” (2005, p. 6).
percibe la sordera como una enfermedad que Este acercamiento a la discapacidad su-
incapacita a las personas que la padecen y, por pone entender las diferencias positivamente
ende, tienen que ser rehabilitadas. y tener una actitud inclusiva ante las comuni-
Esta concepción constituye un obstáculo dades e individuos que hacen parte de estos
difícil de sortear para la comunidad sorda y grupos. El modelo social de la discapacidad
devela que la mayoría de la sociedad –comu- abre las puertas para concebir a la comunidad
nidad oyente– espera que los procesos de nor- sorda como un grupo de personas que, intrín-
malización y adaptación se den por parte de secamente, son tan capaces como la comuni-
la comunidad sorda, y establece una actitud dad oyente; cerrando las brechas sociales y
paternalista que conduce a una subvaloración haciendo efectiva esa igualdad de dignidad.
de los individuos (PALACIOS, 2008).
A la luz de este paradigma, la comunidad
Comunidad sorda como una
sorda está expuesta a un mundo en el que las
reglas de juego se determinan por la condición minoría lingüística y cultural
de oralidad de las personas. En palabras de La sordera es una condición que afecta a una
Palacios y Bariffi, pequeña parte de la población mundial y se
Esto significa –entre otras cuestiones–, [que encuentra en todas las razas y países. En el
las personas sordas se ven] imposibilitadas de caso de Colombia, específicamente, según las
participar en una gran cantidad de actividades últimas cifras oficiales recogidas en el censo
que sustentan una vida en sociedad, y que las realizado por el Departamento Administrativo
eliminan de la corriente habitual de la vida co-
Nacional de Estadística (DANE) en 2005, hay
tidiana. Ello se debe a que todos los puntos de
466.179 personas con sordera, lo que represen-
acceso a las estructuras de la vida diaria –edu-
cación, trabajo, familia, interacción social, etc.– ta el 1,08% de la población del país2. En Bogotá
se establecen en gran medida en relación con la comunidad sorda está constituida por alre-
la norma dominante –en este caso el de las per- dedor de 189.177 habitantes de la ciudad, se-
sonas sin discapacidad– […] (2007, p. 82) gún los datos obtenidos por el DANE en marzo
Hay que agregar que “Frente a este princi- de 20103 (últimos datos oficiales obtenidos por
pio moral, se constata que la sociedad se basa la institución).
en un canon mítico, que acaba por suponer la Tanto en el caso de Colombia como en el
opresión de la diferencia, en este caso las per- de otros países, estas minorías, en términos
sonas con discapacidad” (PÉREZ DE LA FUENTE, cuantitativos, se han agrupado y organizado
2014, p. 5). 2 Censo poblacional (2005) DANE
Como contraparte a este modelo oralísta de 3 Censo de Población con registro para la Localización
y caracterización de las personas con discapacidad,
la concepción de la sordera, Pérez de la Fuente DANE, 2010.

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Gramáticas de poder: el performance como una herramienta para la divulgación del patrimonio cultural de la comunidad sorda

para trabajar en procesos que les permitan so- Desde este punto de vista, la comunidad
brellevar los obstáculos que impone la norma sorda colombiana presenta características de
oralista. una minoría que; identifica su diferencia y se
Este concepto de minoría que expone Lu- organiza alrededor de ella para así generar
cas (1995), propone lo siguiente: procesos y dinámicas de inclusión de su cultu-
ra en diversos ámbitos de la sociedad y entien-
a) minoría es todo grupo inferior al resto de
la población del Estado en que se encuentra, de ésta misma como un aspecto indispensable
aunque esto pueda ser relativizado. b) minoría de su identidad sin que esto sea una obliga-
es un grupo cuyos miembros se caracterizan ción para cada individuo sordo.
por dos rasgos (1) uno objetivo que permite la Dentro de la comunidad sorda existen per-
identificación de la diferencia (características
sonas que se ven a sí mismas como personas
étnicas, religiosas o lingüísticas diversas del
resto de la población) y (2) otro subjetivo, ha-
con discapacidad auditiva; también existen
bitualmente concretado en la voluntad de afir- personas que han hecho de la sordera una
mar, salvaguardar y desarrollar precisamente identidad cultural. Este grupo de personas,
esa diferencia –su cultura, tradición, religión o Sordos con mayúscula, como los llama Lane
lengua– como elemento imprescindible de su (2010), son aquellos que se han agrupado
propio desarrollo de ejercicio de su autono-
para generar dinámicas de vida que están di-
mía. En realidad, bajo ese elemento subjetivo
subyacen otros factores: en primer lugar (2.1) rectamente relacionadas con su condición no
la conciencia de grupo minoritario; además oyente. Sordos que se comunican, crean, inte-
(2.2) la solidaridad interna que surge de la co- ractúan y sueñan a través de un lenguaje vi-
mún identificación en base a la identificación sual-corporal (LANE, 2005).
en torno a la diferencia específica. (LUCAS,
Gracias a esta condición de la sordera se
1995, p. 79)
puede interpretar que esta comunidad posee
Este concepto que expone Lucas genera la algunos aspectos de las minorías culturales
posibilidad de entender la comunidad sorda o lingüísticas y no tantos de las minorías con
como una minoría. Pérez de la Fuente (2014) discapacidad.
complementa el análisis de Javier Lucas y con- En su argumento, Pérez de la Fuente (2014)
cluye que, al aplicar esta definición a la comu- contrapone ocho características que común-
nidad sorda, mente se utilizan en la categorización de una
a) La clave reside en cómo se conceptualice minoría:
el elemento objetivo que identifica a los miem- 1. La territorialidad;
bros de la minoría. Si tiende a centrarse en el 2. Institucionalización;
aspecto biológico (como un déficit) o tiende a 3. Ancestro común;
centrarse en el aspecto cultural (lengua de sig- 4. La lengua propia;
nos); b) El segundo elemento de reflexión tra- 5. La cultura propia;
ta de cuáles son los límites legítimos para la 6. La experiencia compartida: experiencia
reproducción de la cultura Sorda; c) En tercer compartida, vulnerabilidad;
lugar, sobre la conciencia de grupo minoritario 7. Voluntad de la salvaguarda de la iden-
y solidaridad interna la cuestión es si se per- tidad (medidas estables diferencia es-
mite la posibilidad de salir del grupo. De esta pecífica);
forma, cada persona sorda tendría libertad de 8. Solidaridad entre los miembros del
elección de conformar su identidad según su grupo.
auto-percepción (p. 9). Para lo que compete a este análisis, habla-

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Sebastián Carrasco

remos de dos características importantes de la individualidad e independencia, formándose


comunidad sorda que permiten que esta sea así una identidad propia; d) Pueden recons-
truir, con su lengua, el significado de las cosas
entendida como una minoría lingüística y cul-
y del medio con más seguridad, logrando un
tural.
mayor grado de socialización e interacción.
La primera de ellas es La cultura propia. Hoy (2004, p. 43)
en día es bien conocido que existe un mundo
sordo en el que el lenguaje primario es la len- La lengua de señas, más allá de ser me-
gua de señas y sus ciudadanos se identifican ramente un sistema de comunicación, es un
como una cultura minoritaria. Lane reconoce lenguaje que tiene la capacidad de aglutinar
en la cultura Sorda los siguientes aspectos: a las personas de una comunidad en torno a
“nombre colectivo, sentimiento de comuni- una cultura, sirviendo de vehículo para el en-
dad, formas de comportamiento, valores dis- tendimiento del mundo y la construcción de la
tintivos, conocimiento, costumbres, estructura realidad y la memoria.
social, lenguaje, artes, historia, parentesco”
(2005, p. 291). La lengua de señas como parte
Para Pérez de la Fuente, este hecho –suma- del patrimonio cultural inmaterial
do a la definición de cultura aportada en 1982,
de la comunidad sorda
en México, en la Conferencia Mundial de Polí-
ticas Culturales de la Unesco4– permite que la Los Sordos se asumen desde la diferencia; una
comunidad sorda se vincule con la categoría diferencia centrada en el uso de una lengua mi-
noritaria que les conduce a reclamar su dere-
de minoría cultural desde un punto de vista
cho a un intérprete sin que esto represente para
sociológico, dinámico y relacional. “Esta dis- ellos una discapacidad. Esto es como la sordera
tinción tiene su relevancia en el contexto de se percibe como una forma de vida; una mane-
las políticas de la identidad y es importante, ra de ser; una experiencia visual que comporta
especialmente, en el nivel de la justificación una cultura propia. Por tanto, desde esta óptica
socio-antropológica, se plantea la necesidad
de las medidas para proteger la cultura espe-
constante de conquistar derechos sociales en
cífica” (PÉREZ DE LA FUENTE, 2014, p. 270).
procura de mayores y mejores condiciones de
La segunda característica –y la que más vida, en las cuales se les garantice el derecho
nos atañe­– es la lengua de señas como Lengua lingüístico de hablar una lengua distinta a la de
propia de la comunidad sorda. García Fernán- la mayoría, con todas las implicaciones que ello
dez sostiene que: contiene. (MORALES GARCÍA, 2009, p. 132)

[…] las Lenguas de Signos constituyen el ele- De acuerdo con la conclusión del apartado
mento aglutinante e identificativo de las per- anterior, la lengua de señas es una estructura
sonas sordas. Son fundamentales en la vida clave para entender la comunidad sorda como
de las personas sordas, ya que: a) Las lenguas
una minoría lingüística y cultural. Así mismo,
son símbolos de la identidad grupal; b) Repre-
sentan su pertenencia a la Comunidad Sorda;
la lengua de señas es el medio de creación de
c) Les permite a las personas sordas adquirir memoria e identidad en las comunidades sor-
das a nivel mundial. No obstante, así como la
4 Según la cual, esta es un “conjunto de rasgos distin-
tivos, espirituales, materiales, intelectuales y afec- comunidad sorda ha sido segregada y excluida
tivos, que caracterizan a una sociedad o a un grupo de las dinámicas de la vida cotidiana, la lengua
social. Esto engloba, además de las artes y las letras,
formas de vida, los derechos fundamentales del ser de señas, vehículo para la existencia de cultura
humano, los sistemas de valores, las tradiciones y las
Sorda, ha encontrado también obstáculos para
creencias” (Rapport Capotorti (1979) doc N.U./CN. 4/
Sub.2/1985/31). su enseñanza, divulgación y protección.

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Gramáticas de poder: el performance como una herramienta para la divulgación del patrimonio cultural de la comunidad sorda

En diferentes países, la lengua de señas se 10. “Lengua de señas”. Es la lengua natural de


encuentra en diversas condiciones y situacio- una comunidad de sordos, la cual forma parte
de su patrimonio cultural y es tan rica y com-
nes, siendo valorada y protegida en diferente
pleja en gramática y vocabulario como cual-
medida. En Colombia la situación de la lengua
quier lengua oral. (Congreso de la República de
de señas no difiere mucho de la del resto de Colombia, 2005, p. 2)
países en Latinoamérica.
Es reciente el hecho de que el Estado co- En el numeral 3 se puede vislumbrar la ca-
lombiano contemple, legislativamente hablan- tegoría de minoría lingüística y cultural que
do, el reconocimiento de la lengua de señas propone Pérez de la Fuente y que se revisó
como una lengua propia de la comunidad sor- en los apartados anteriores. También tiene en
da; también es reciente la preocupación por cuenta que esta categoría es equiparable con
la inclusión de esta comunidad a partir de es- las minorías étnicas y por ende su cultura e
fuerzos para divulgar y, de esa manera, prote- idioma son susceptibles de recibir protección
ger su idioma. por parte del Estado. El numeral 10, de una
En 2005, el Congreso de la República de Co- manera explícita, deja claro que la Lengua de
lombia aprueba la Ley 982, que complementa Señas Colombiana hace parte del patrimonio
la Ley 324 de 1996 (primera en reconocer la cultural de la comunidad sorda y por ende de
Lengua Manual Colombiana como idioma pro- la nación.
pio de la comunidad sorda en Colombia), ha- Ahora bien, si legislativamente se ha co-
ciendo énfasis en la necesidad de protección, menzado a contemplar la necesidad de pre-
institucionalización y divulgación de la lengua servar, proteger y divulgar la lengua de señas
de señas a nivel nacional. El artículo décimo como parte del patrimonio de la comunidad
de esta Ley, que versa sobre los alcances de sorda, las acciones que se han llevado a cabo
los términos presentes en el documento, tiene están centradas en la defensa de los derechos
dos numerales de alto interés para la presente de comunicación y educación de la comunidad.
discusión, pues apuntan a la concepción de la Sin embargo, como se ha mencionado an-
Lengua de Señas Colombiana como patrimo- teriormente, la lengua de señas no es sola-
nio cultural de la comunidad sorda: mente una herramienta de comunicación. La
ARTÍCULO 10º. Para efectos de la presente ley, lengua de señas es la columna vertebral de la
los siguientes términos tendrán el alcance indi- cultura Sorda. No en vano, el apartado de Pre-
cado a continuación de cada uno de ellos. sentación del Diccionario Básico de la Lengua
[…] de Señas Colombiana resalta lo siguiente:

3. “Comunidad de sordos”. Es el grupo social Los diccionarios son algo más que textos que
de personas que se identifican a través de la explican un vocabulario; se consideran entes
vivencia de la sordera y el mantenimiento de vivos que también cumplen funciones sociales
ciertos valores e intereses comunes y se produ- y comunicativas en un grupo y, por lo tanto, dan
ce entre ellos un permanente proceso de inter- razón de rasgos ideológicos y culturales de una
cambio mutuo y de solidaridad. Forman parte comunidad. Además, contribuyen a dar identi-
del patrimonio pluricultural de la Nación y que, dad, cohesión, memoria histórica, posibilidad
en tal sentido, son equiparables a los pueblos y de entendimiento y proyección de un grupo y
comunidades indígenas y deben poseer los de- su cultura. (2016, p. XV)
rechos conducentes.
Es precisamente en este terreno donde se
[…] encuentra la problemática de la investigación.

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Sebastián Carrasco

Teniendo en cuenta que las acciones de pro- “El performance podría definirse por el uso
tección y divulgación de la lengua de señas co- del cuerpo; a diferencia de la pintura, que es
lombiana se dan meramente en las áreas de un objeto de representación, el performance
educación y comunicación, los procesos de la utiliza el cuerpo como un sujeto que actúa so-
construcción simbólica de la cultura Sorda aún cial e históricamente” (Cerón, 2006, min. 4:35).
están muy alejados de la comunidad oyente Como bien lo dice Cerón en la serie de docu-
del país. mentales llamados Plástica, arte contempo-
En este sentido cabe preguntarse: ¿qué ráneo en Colombia, que produjo el Ministerio
acciones pueden ser viables desde la esfera de Cultura de Colombia en 2006, en el perfor-
cultural? ¿Qué acciones pueden ayudar a la vi- mance el cuerpo adquiere nuevas nociones de
sibilidad de la comunidad sorda, su cultura y sentido y de significación, haciendo de este un
memoria? sujeto que devela su accionar en la sociedad y
viceversa.
En este sentido, la práctica performática
Gramáticas corporales:
tiene mucha relación con la visión anterior-
performance y lengua de señas mente expuesta de la lengua de señas, pues
Este apartado está dedicado al análisis de las esta última hace del cuerpo una herramienta
posibilidades de divulgación de la lengua de de emisión de signos que puede dar cuenta
señas colombiana a través de herramientas del mundo sordo, de las visiones y posturas de
de expresión de las artes plásticas y visuales, la comunidad sorda, así como de la influencia
para su salvaguarda y protección. de la sociedad en el cuerpo de la persona.
Como afirma Goldber (1979), en la historia Siguiendo la Ley 982 de 2005:
del arte –sobretodo en el modernismo–, los
La Lengua de Señas se caracteriza por ser vi-
artistas han buscado prácticas que puedan sual, gestual y espacial. Como cualquiera otra
expandir las limitaciones de los medios clá- lengua tiene su propio vocabulario, expresio-
sicos (como la pintura y la escultura). En esta nes idiomáticas, gramáticas, sintaxis diferentes
búsqueda, la vida en sí misma tomó la for- del español. Los elementos de esta lengua (las
señas individuales) son la configuración, la po-
ma de la materia prima y la temática a la vez.
sición y la orientación de las manos en relación
Estos procesos buscaban, también, alejarse con el cuerpo y con el individuo, la lengua tam-
de los espacios tradicionales del arte como bién utiliza el espacio, dirección y velocidad de
los museos y las galerías. Hoy en día, a estas movimientos, así como la expresión facial para
prácticas de vida y arte se les conoce como ayudar a transmitir el significado del mensaje,
esta es una lengua viso gestual. (Congreso de la
performance.
República de Colombia).
El performance tiene un campo de acción
muy amplio, que está relacionado con la mul- Desde esta descripción técnica también
tiplicidad de miradas con las que ha sido cons- se puede intuir una similitud básica entre el
truido. Dentro de estas búsquedas se han de- performance y la lengua de señas. En la len-
sarrollado una gran variedad de obras artísti- gua de señas se utiliza todo el cuerpo para
cas, desde diferentes perspectivas. La que más comunicarse, la gestualidad y los movimien-
nos atañe tiene que ver con el trabajo con el tos corporales adquieren una gramática. De
cuerpo y a partir del cuerpo, el cual representa manera similar, en el performance son los
un escape a las barreras del objeto artístico y cuerpos quienes proponen un lenguaje sen-
sus connotaciones de status de obra de arte. sorial, un lenguaje de cuerpo a cuerpo. A

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Gramáticas de poder: el performance como una herramienta para la divulgación del patrimonio cultural de la comunidad sorda

partir de estos encuentros entre lenguas y esfuerzos por divulgar la lengua de señas en
lenguajes se haya un potencial de creación el ámbito educativo y comunicacional (primor-
y apropiación del discurso. Esta experimen- dialmente en las telecomunicaciones). Esto ha
tación con el lenguaje, a su vez, posibilita la hecho que se dejen de lado el proteger y di-
apropiación sensible de los símbolos que nos vulgar la cultura Sorda en sí misma, en otras
rodean y que modelan la identidad. Ambas esferas de la sociedad.
hacen del manejo del cuerpo una colección Por lo anterior, cabe plantear la posibili-
de signos, con una gramática específica; un dad de que la creación artística a partir de la
lenguaje corporal, que es capaz de crear y lengua de señas, y su exhibición en diversos
dar cuenta de estados de animo, posiciones contextos, pueden abrir el camino para el re-
ideológicas, en general, dar cuenta de una conocimiento de la cultura Sorda por parte de
cultura y sus individuos. la comunidad oyente en general.
En el performance, según Zandra Pedraza: En este sentido, el planteamiento del per-
El cuerpo se presenta como una entidad plásti- formance desde el teatro post-dramático
ca que puede ser modificada y adecuada a in- aporta a la idea de encuentro, construcción
tereses y necesidades distintas. En ese sentido, simbólica sensible y experiencia entre el per-
se acerca a eso que puede llamarse el destape former (el artista o persona que esté realizan-
del cuerpo, la idea de que yo muestro no nece-
do la acción) y el público presente. En palabras
sariamente la piel, no necesariamente la des-
de Abderhalden:
nudez, sino que el cuerpo en sí mismo adquiere
mucho más sentido como un escenario de lo La era dramática ya se acabó y la era post-dra-
que son las personas. (2006, min. 4:56) mática lo que pone en evidencia es el fin la de
representación y el advenimiento de nuevas ex-
Esta noción de identidad del cuerpo está
periencias en el espacio por parte del actor. Ob-
estrechamente relacionada con la idea de ge- viamente lo que hizo el performer fue poner en
nerar procesos y dinámicas de identidad en la evidencia eso, que ya no estamos en un mundo
comunidad sorda por medio de la lengua de de la ilusión ni de la mímesis, de la caracteriza-
señas. También hay que destacar que la cita ción o de la construcción de un personaje, sino
de Pedraza expone las posibilidades que tie- de la construcción de una experiencia. (2006,
min. 3:53).
ne el cuerpo para adaptarse a las necesidades
de sentido y significación de cada persona, Llevando un poco más lejos este plantea-
haciendo de las prácticas performáticas una miento de Abderhalden, el performance puede
poderosa herramienta de trabajo para los pro- generar una experiencia compartida entre el
cesos de creación simbólica colectiva y perso- creador de una obra de arte y su público, acer-
nal. Este es precisamente el punto de partida cándolos de una manera física y generando un
para reconocer las prácticas artísticas como vínculo mental e incluso emocional.
una herramienta de divulgación, y por ende
protección, del patrimonio de la comunidad
sorda.
Planteamientos y descripción del
Por otro parte, como se ha planteado en trabajo de campo
el apartado anterior, las acciones que ha im-
El performance tiene una connotación de irrup-
plementado el Estado colombiano y los repre- ción y en esa medida todo empieza a dialogar
sentantes de la institucionalidad de la comu- con ese cuerpo que está pensando y que está
nidad sorda en Colombia se han centrado en siendo pensado. En ese punto tiene una conno-

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Sebastián Carrasco

tación ancestral, mágica, que es parar el mun- tista y performer) y Sebastián Carrasco (artis-
do. Introducir una nueva realidad dentro de la ta e investigador).
realidad cotidiana. (Pabón, 2006, min. 5:30)

El trabajo de campo del proyecto de inves- Comentarios hechos por el grupo


tigación se generó con base en la premisa de (que se tuvieron en cuenta a
generar piezas artísticas de manera colectiva
la hora del análisis y posterior
entre representantes de la comunidad sorda
y representantes de la comunidad oyente de
creación de las piezas)
Bogotá. Esto con la intención de proponer es- La lengua de señas hace evidentes las con-
pacios de encuentro con la lengua de señas tradicciones, paradojas e incoherencias que
para la comunidad oyente de la ciudad; es- existen en la relación entre el significante y el
pacios que no fueran necesariamente educa- significado en la construcción de las lenguas
tivos y de comunicación oficial, promoviendo habladas, las cuales codifican la idea a través
su entendimiento a través de la creación es- del uso de sonidos (palabras) que se pueden
tética. quedar cortas a la hora de describirla.
Las ideas de performance que se expusie- Dicha expresión corporal del lenguaje ge-
ron anteriormente fueron los fundamentos nera la posibilidad de entender los símbolos
teóricos para la realización de tres piezas de que configuran nuestro mundo a través del
performance y video performance, que compi- cuerpo; dota los cuerpos de cualidades gra-
tieron en convocatorias nacionales y distrita- maticales. Es así como se configura un cuerpo
les para ser exhibidas en reconocidos espacios como receptor y emisor de ideas y símbolos.
culturales de la ciudad de Bogotá. Esta disyuntiva presenta también posibi-
Los ejercicios tuvieron como eje central el lidades de creación y apropiación de estruc-
análisis y la posterior reinterpretación de los turas simbólicas de identidad de la sociedad
discursos que han aportado a la construcción colombiana. Estructuras simbólicas como el
de Colombia como una nación. En este senti- himno nacional, que plantea los ideales de la
do, cada ejercicio es una desconstrucción y/o nación y la identidad del pueblo colombiano,
reinterpretación de estructuras simbólicas de y posee un uso de la palabra escrita y habla-
identidad a través de procesos de traducción; da que codifica el lenguaje y sus significados.
del texto a la lengua de señas y de la lengua de En este caso, el significado de cada estrofa se
señas al performance. oculta tras una bruma se interpretación y or-
El trabajo de campo, que se planteó como namentación de las ideas, que entorpece la
un trabajo colectivo, contó con la participa- posibilidad de identificarnos con él.
ción de Christian Briceño (interprete oficial de El presente proyecto explora plásticamen-
Lengua de Señas Colombiana perteneciente te ese espacio de duda y especulación que
a la comunidad sorda de Bogotá), Laura He- surge del discurso hablado; la violencia de la
rrera (interprete oficial de Lengua de Señas idea y su contraparte, la suavidad y la belleza
Colombiana), Jhon Jairo Vanegas (bailarín y del lenguaje con que es expresada. Las piezas
performer perteneciente a la comunidad sor- se aprovechan de las cualidades de la lengua
da de Bogotá), Paula Herrera (persona per- de señas, una comunicación del cuerpo para
teneciente a la comunidad sorda de Bogotá), el cuerpo, cruda y gestual; para desmantelar e
Darío Mateus (interprete oficial de Lengua de inspeccionar la opacidad de los símbolos pa-
Señas Colombiana), María Daniela Rojas (ar- trios.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 508-523, maio/ago. 2020 517
Gramáticas de poder: el performance como una herramienta para la divulgación del patrimonio cultural de la comunidad sorda

Ejercicio 1: Discurso / Plegaria la lengua de señas colombiana a partir de la


exhibición.
Este ejercicio está inspirado en las recientes
interpretaciones a lengua de señas en los es- Figura 1 - Enlace al video del ejercicio.
cenarios políticos del país, que se ha visto cre-
cientemente implementada debido a la legis-
lación actual5. Esta interpretación les permite
a personas de la comunidad sorda entender el
discurso político que legisla y gobierna el país,
pero más que el acceso a esta información, esa
interpretación en lengua de señas deja entre-
ver la emocionalidad de cada idea que se de-
bate, la intencionalidad con la que se emite a
través del lenguaje hablado.
Este ejercicio propuso un proceso de aná-
lisis de la relación que existe entre la palabra
hablada, la seña y sus significados. Durante el
proceso se analizaron videos de intervencio-
nes en lengua de señas que tenían como pun-
Fuente: https://vimeo.com/306265466
to de partida intervenciones de senadores de
la República de Colombia en el ejercicio de su
posición. Ejercicio 2: Discurso / Plegaria (La
A partir de estos análisis, se escogieron al- marcha del silencio)
gunas de las intervenciones para ser interpre-
Este ejercicio de creación se basó en los mis-
tadas en lengua de señas, haciendo énfasis en
mos parámetros del ejercicio 1; el análisis,
algunas palabras clave como: masacre, viola-
adaptación, traducción, interpretación del dis-
ción, guerrillero, asesinato, paramilitar, entre
curso de Jorge Eliécer Gaitán, hecho en el mar-
otras.
co de una protesta social en la Plaza de Bolívar
El texto que se interpretó surgió de trans- en 1948, llamada “La marcha del silencio”. Este
cripciones de las intervenciones escogidas de texto fue escogido por su contenido, relacio-
diversos senadores, posteriormente mezcla- nado a la posibilidad de comunicar a través
das al azar en un sistema de mezcla random6, del silencio.
formando un nuevo discurso. Este es el discur- El resultado del ejercicio constituye una
so a interpretar. puesta en escena de tres performers (intér-
El resultado del ejercicio fue exhibido en el pretes de lengua de señas), que realizan una
III Salón de Arte Joven de la Fundación Gilberto lectura polifónica del texto a modo de canon
Álzate Avendaño, de esta manera el ejercicio musical.
fue también parte de los procesos de visibili- Esta pieza de performance hace parte
zación y mediación de la fundación, alcanzó a del cuarto ciclo de exposiciones del Espacio
un gran número de personas de la comunidad Odeón en Bogotá, Colombia. La pieza fue exhi-
oyente, que pudieron entrar en contacto con bida durante los meses de enero y febrero de
2020. En la inauguración de la muestra asistie-
5 La Ley 928 de 2005, que modifica la Ley 324 de 1996.
6 Randomizador de internet. ron alrededor de 450 personas.

518 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 508-523, maio/ago. 2020
Sebastián Carrasco

Figura 2 - Enlace al video del ejercicio.

Fuente: https://vimeo.com/389785211

Ejercicio 3: Himno A partir de la interpretación de la letra del


himno a lengua de señas se realiza un juego en
El tercer ejercicio constó de una revisión de los el que cada participante le adjudica un movi-
contenidos del himno nacional de Colombia y miento corporal a una seña. En el juego se in-
su traducción a la lengua de señas. Así como terpretan las señas y sus movimientos respec-
los dos primeros ejercicios, se dio prioridad al tivos al mismo tiempo, dando como resultado
análisis de la relación que existe entre la pa- una coreografía.
labra hablada, la seña y sus significados. Tam- Esta coreografía fue registrada en un dípti-
bién se tuvo en cuenta que esta relación afecta co de video.
la manera en que las personas se identifican El resultado del ejercicio también fue exhi-
con él. bido en la Fundación Gilberto Álzate Avendaño.
Del análisis y discusión de la problemática De la misma manera que el primer ejercicio,
con las personas pertenecientes al grupo de también fue parte de los procesos de visibili-
trabajo, se determinó diseñar un juego que zación y mediación de la fundación, alcanzó a
permita la re-interpretación de los significa- un gran número de personas de la comunidad
dos de las palabras y señas en el himno na- oyente, que pudieron entrar en contacto con
cional y que, a su vez, permita desmantelar la la lengua de señas colombiana a partir de la
superficie de marcialidad y heroicidad. exhibición.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 508-523, maio/ago. 2020 519
Gramáticas de poder: el performance como una herramienta para la divulgación del patrimonio cultural de la comunidad sorda

Figura 3 - Enlace al video del ejercicio.

Fuente: https://vimeo.com/386881344

A manera de conclusión 
En primera medida, se hace evidente la perti- los ejercicios propuestos en el proyecto refleja
nencia de la creación de espacios de encuen- esto.
tro entre la comunidad sorda y la comunidad El performance es una de las herramientas
oyente para la divulgación de la lengua de se- más indicadas para la creación artística basa-
ñas colombiana; especialmente espacios que da en la lengua de señas. Posee cualidades
estén fuera de los ambientes educativos y de visuales y conceptuales que se entrecruzan
telecomunicaciones. Las artes plásticas y vi- entre ambas. La potencia del cuerpo presente
suales habitan en espacios diversos a los men- cautiva a los espectadores les permite salir de
cionado anteriormente. Estos pueden aportar la rutina y enfocarse en un echo evento estéti-
a estos encuentros y ser un punto de partida co que habita en la realidad.
para que otras esferas de la sociedad entien- Espacios culturales como la Fundación Gil-
dan la importancia del conocimiento y divul- berto Alzate Avendaño y Espacio Odeón son
gación de la lengua de señas. lugares donde se encuentran personas perte-
Paralelamente, la creación artística supone necientes a muchas esferas de la sociedad, es-
un proceso de exteriorización de los pensa- tudiantes de colegios y universidades, artistas,
mientos de los individuos involucrados en el trabajadores de la cultura, turistas o transeún-
proceso. Crea una memoria simbólica de cada tes. En la medida que los resultados de los
una de las personas que participa creativa- ejercicios del proyecto de investigación fueron
mente de la obra; generando no solo un proce- exhibidos en espacios como estos, la comuni-
so de memoria colectiva sino también perso- dad oyente de la ciudad tuvo la oportunidad
nal, que sirve de referente para la construcción de encontrarse con la lengua de señas en una
de identidad de la cultura sorda. Cada uno de experiencia estética que promovió la empatía

520 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 508-523, maio/ago. 2020
Sebastián Carrasco

y curiosidad por la lengua de señas y la cultura en las comunidades de minorías étnicas úni-
Sorda. camente. Se deriva de este hallazgo la hipó-
El Instituto Nacional para Sordos (INSOR) tesis de que, pese a los avances legislativos,
tiene un rol fundamental en la generación de en el país aún son vigentes algunos vestigios
procesos de inclusión y de divulgación de la del modelo rehabilitador de la sordera, previa-
lengua de señas colombiana. Este tiene como mente expuesto, y que la visibilización sigue
misión: siendo insuficiente.
Liderar, orientar y articular la implementación
Por lo anterior, la recomendación final es
de políticas públicas para consolidar entornos avanzar en la generación de estrategias para
sociales y educativos inclusivos, que permi- que los ciudadanos en general conozcan y
tan el goce pleno de derechos y la igualdad de adopten el modelo social de la discapacidad,
oportunidades para la población sorda en Co-
orientado a la protección y apropiación de la
lombia y la política pública de lenguas nativas
lengua de señas. Es de precisar que si bien
de Colombia. (INSOR, 1997)
el Artículo 10 de la Ley 982 de 2005 mencio-
Aunque el instituto ha hecho grandes es- na brevemente el hecho de que la comunidad
fuerzos por mejorar las condiciones de vida de sorda y su patrimonio hacen parte de la diver-
la comunidad sorda, aún le falta generar más sidad cultural de la nación, no alcanza a ligar
procesos de inclusión y participación entre la las categorías de minoría cultural y lingüística
comunidad sorda y la comunidad oyente; así para referirse a ella y para garantizar que haga
como articular de una manera más coheren- parte del listado de lengua nativas colombia-
te el discurso brindado a la comunidad con la nas, ayudando así a la protección y divulgación
realidad de la política pública que trata de la de la cultura sorda a nivel nacional.
comunidad sorda específicamente.
En el desarrollo de esta investigación se
encontró una falta de articulación entre el dis-
Bibliografía
curso presentado por el INSOR y la situación COLOMBIA. Ley 324 de 1996, CONGRESO DE COLOM-
real de la lengua de señas como lengua nativa BIA, Bogotá, p 1 a 7, 11 de Octubre de 1996. Por la cual
se crean normas a favor de la población sorda. 1996.
colombiana.
De acuerdo con el comunicado emitido el COLOMBIA. Ley 892 de 2005, CONGRESO DE COLOM-
19 de febrero de 2019: BIA, Bogotá, p 1 a 13, 2 de Agosto de 2005. Por la cual
se establecen normas tendientes a la equiparación
Gracias a sus particularidades lingüísticas y
de oportunidades para las personas sordas y sor-
estructura gramatical, el Ministerio de Cultura,
dociegas y se dictan otras disposiciones.2005.
incluyó la lengua de señas colombiana al grupo
de lenguas nativas del país, esto significa, que COLOMBIA, DEPARTAMENTO ADMINISTRATIVO NACIO-
la lengua de señas hace parte del patrimonio NAL DE ESTADISTICA (DANE). Censo de Población con
inmaterial, cultural y lingüístico de Colombia,
registro para la Localización y caracterización de
lo que garantiza su preservación y divulgación.
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se encuentra allí la lengua de señas, esto -al GARCÍA FERNÁNDEZ, María Benigna. Cultura, edu-
parecer- porque las categorías de selección cación e inserción laboral de la comunidad sorda.
para la pertenencia al listado están centradas 2004, 243 f. Tesis (Doctoral Psicología evolutiva y

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 508-523, maio/ago. 2020 521
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Recebido em: 02.04.2020
libro?codigo=2453 Accedido: 17 ene. 2020
Revisado em: 01.06.2020
Ministerio de Cultura de Colombia & El Vicio Pro- Aprovado em: 03.06.2020

522 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 508-523, maio/ago. 2020
Sebastián Carrasco

Sebastián Carrasco Docente/Investigador de la Facultad de Estudios del Patrimonio Cultural de la Universidad Exter-
nado de Colombia. Es también artista plástico y ha exhibido su trabajo en espacios nacionales e internacionales como
Hunter College Galleries y GalssHouse Art Live Lab en NYC, Espacio Odeón y la Fundación Gilberto Alzate Avendaño en
Bogotá, entre otros. E-mail: sebastian.carrasco@uexternado.edu.co

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 508-523, maio/ago. 2020 523
Por que plangem os sinos? Ressonâncias biográficas e patrimoniais na paisagem sonora da cidade de Goiás

DOI:http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2020.v5.n14.p524-540

POR QUE PLANGEM OS SINOS? RESSONÂNCIAS


BIOGRÁFICAS E PATRIMONIAIS NA PAISAGEM
SONORA DA CIDADE DE GOIÁS

Clovis Carvalho Britto


https://orcid.org/0000-0001-6267-544X
Universidade de Brasília

Rafael Lino Rosa


https://orcid.org/0000-0001-7918-7792
Secretaria de Estado da Educação de Goiás

resumo Este artigo analisa as ressonâncias biográficas e patrimoniais dos


toques de sino e do ofício de sineiro na paisagem sonora da Cidade
de Goiás. Evidencia as reelaborações da secular presença dos sinos
dos Passos e da Boa Morte no imaginário dos moradores da cidade, a
trajetória do sineiro Benedito de “Sá” Efigênia e o modo como ocorre
a transmissão do ofício. O objetivo é compreender a ressonância que
os sinos produzem no campo do patrimônio local e como mobilizam
narrativas biográficas e autobiográficas a partir dos códigos parti-
lhados socialmente. Para tanto, analisa narrativas elaboradas por
memorialistas locais, documentos que integram acervos pessoais e
depoimentos de agentes que conviveram com os detentores dos sa-
beres em torno dos toques de sino.
Palavras-chave: Toques de sino. Ofício de sineiro. Patrimônio. Cidade
de Goiás.

abstract WHY DO THE BELLS RING? BIOGRAPHICAL AND


HERITAGE RESONANCES IN THE SOUNDSCAPE OF THE
CITY OF GOIÁS
This paper analyzes the biographical and patrimonial resonances of
the ringing bells and those responsible for maintaining this knowl-
edge in the sound landscape of the city of Goiás. Highlights the rep-
resentations of the centennial presence of the Passos and the Boa
Morte bells in the imagination of the city’s residents, the Benedito de
“Sá” Efigenia trajectory and the way in which knowledge is transmit-
ted. The objective is to understand the resonance produced by bells
in the field of local heritage and how they mobilize biographical and

524 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 524-540, maio/ago. 2020
Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa

autobiographical narratives from socially shared codes. To this end,


analyzes the narratives elaborated by the local memorialists, docu-
ments that integrate personal collections and testimonies of agents
who lived with the knowledge holders around the bell.
Keywords: Ringing bells. Bell ringer. Patrimony. City of Goiás.

resumen ¿POR QUÉ SUENAN LAS CAMPANAS? RESONANCIAS


BIOGRÁFICAS Y PATRIMONIALES EN EL PAISAJE
SONORO DE LA CIUDAD DE GOIÁS
Este artículo analiza las resonancias biográficas y patrimoniales de
los tonos de llamada de las campanas y los responsables de man-
tener este conocimiento en el paisaje sonoro de la ciudad de Goiás.
Resalta las reelaboraciones de la presencia centenaria de las cam-
panas Passos y Boa Morte en la imaginación de los residentes de la
ciudad, la trayectoria Benedito de “Sá” Efigênia y la forma en que
se transmite lo saber. El objetivo es comprender la resonancia que
producen las campanas en el campo del patrimonio local y cómo
movilizan narrativas biográficas y autobiográficas a partir de códi-
gos socialmente compartidos. Con este fin, analiza las narrativas
elaboradas por los memorialistas locales, documentos que integran
colecciones personales y testimonios de agentes que vivían con los
poseedores de conocimiento alrededor del timbre.
Palabras clave: Llamada de las campanas. Campaneiro. Patrimonio;
Ciudad de Goiás.

O título deste artigo foi inspirado no título Morte”; e notas sobre a transmissão do ofício
homônimo do poema de Ferreira (2003), cujo de sineiro. O objetivo é compreender a resso-
questionamento é extremamente pertinen- nância que os sinos produzem no campo do
te para se pensar a função dos sinos. Nosso patrimônio local e como mobilizam narrativas
intuito é visualizar a importância dos toques biográficas e autobiográficas a partir dos códi-
de sinos e do ofício de sineiro no imaginário gos partilhados socialmente.
dos habitantes das cidades brasileiras, tendo Nesses termos, utilizamos a categoria res-
como estudo de caso as ressonâncias em tor- sonância de acordo com o entendimento de
no de sua presença na Cidade de Goiás, antiga Gonçalves (2007), quando reconheceu a exis-
capital do estado de Goiás. A escolha da cida- tência de bens cuja presença nas sociedades
de se justifica por ser herdeira das configura- extrapolaria o sentido utilitário, evidenciando
ções do século XVIII e, ainda hoje, manter viva significados mágico-religiosos e que, portanto,
a prática dos toques de sino. possuem respaldo ou reconhecimento entre a
O estudo será apresentado em três movi- comunidade:
mentos: a presença do “sino dos Passos” no Não são desse modo meros objetos. Se por um
imaginário local; aspectos da trajetória de lado são classificados como partes inseparáveis
Benedito de “Sá” Efigênia, o “sineiro da Boa de totalidades cósmicas e sociais, por outro

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 524-540, maio/ago. 2020 525
Por que plangem os sinos? Ressonâncias biográficas e patrimoniais na paisagem sonora da cidade de Goiás

lado afirmam-se como extensões morais e sim- Na tentativa de aproximar a Divindade e


bólicas de seus proprietários, sejam estes indi- a Igreja distante, os habitantes dos Goyazes
víduos ou coletividades, estabelecendo media-
utilizaram as irmandades como pontes esten-
ções cruciais entre eles e o universo cósmico,
natural e social. [...] Essa categoria de objetos
didas para o desenvolvimento de formas de
não apresenta assim fronteiras classificatórias religiosidade e sociabilidade. Para tanto, sole-
muito definidas, sendo ao mesmo tempo obje- nizavam de modo extremo suas devoções com
tos e sujeitos, materiais e imateriais, naturais e uma série de ritos e obrigações instituídas em
culturais, sagrados e profanos, divinos e huma-
seus compromissos, amalgamando lentamen-
nos. (GONÇALVES, 2007, p. 214)
te cultos do catolicismo popular e fazendo cir-
Na Cidade de Goiás, os sinos, o vocabulário cular o sagrado, em determinados momentos,
de motivos e o imaginário por eles acionado, pelo espaço cotidiano. Na urbe que engati-
constituem esse tipo de bem, tornando-se “ex- nhava, homens e mulheres interligaram a ad-
tensões morais e simbólicas” de grande parte ministração colonial com as irmandades e de-
de seus moradores e extrapolando as frontei- mais símbolos religiosos (santos de devoção,
ras. Portanto, investigar suas ressonâncias con- oratórios, capelas, igrejas). O Código de Direi-
siste em evidenciar o modo como constitui sub- to Canônico classificava as associações leigas
jetividades, por meio da análise de narrativas em Ordens Terceiras, irmandades, confrarias e
(auto)biográficas elaboradas por memorialistas pias uniões. Moraes (2008) informa que as Or-
locais, da consulta a acervos pessoais e do aces- dens Terceiras se inspiravam e eram orienta-
so a depoimentos de agentes que conviveram das por uma Ordem ou Congregação Religiosa,
com os detentores dos saberes em torno dos cujas regras de conduta possuíam aprovação
toques de sino. Para tanto, nosso intuito foi de- da Igreja. Quando as associações se consti-
linear o modo como os sinos de Goiás integram tuíam para exercer obras de caridade, eram
“paisagens sonoras”, nos moldes apresentados designadas de pias uniões e, se possuíssem
por Schafer (2001), entendidas como “o nosso hierarquias –implicando critérios de seleção e
ambiente sonoro, o sempre presente conjunto restrição na admissão de seus membros –, re-
de sons, agradáveis e desagradáveis, fortes e cebiam o nome de irmandades. Já as associa-
fracos, ouvidos ou ignorados, com os quais vi- ções formadas para incrementar o culto públi-
vemos” (p. 367), observando, consequentemen- co de um santo determinado, eram chamadas
te, os efeitos de sua presença na transmissão de confrarias.
das heranças culturais locais.
Tais atividades eram explicitadas em seus
estatutos ou compromissos e poderiam visar,
O “sino dos Passos” no imaginário dentre outras coisas, a criação de hospitais,
vilaboense1 auxílios funerais e enterramentos, além de
O grave sino dos Passos determinados privilégios na organização e
derrama na tarde reticências... comunhão dos ritos e nas comemorações em
Talvez expie as culpas seculares
louvor do seu orago. Dentre esses momentos,
dos que morrem devendo penitências. [...]
- Terra minha de opróbrios e martírios!
as procissões constituíam oportunidades sin-
Os sinos da Semana Santa gulares de demonstração da fé católica em
badalam os teus gemidos... atos de ação de graças, louvor, penitência ou
(RAMOS JUBÉ, 1984, p. 30) impetração de favores divinos. De acordo com
Campos (2005), as irmandades foram institui-
1 Gentílico dos nascidos no município de Goiás. Remete
à Vila Boa, segundo nome da localidade. ções pioneiras na difusão e proliferação dos

526 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 524-540, maio/ago. 2020
Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa

ritos do culto da Paixão, com destaque para do Senhor Bom Jesus dos Passos –; irmanda-
as do Santíssimo Sacramento, do Senhor dos des que aceitavam apenas negros, homens e
Passos e da Penitência. Enquanto o clero se- mulheres – de Nossa Senhora do Rosário dos
cular possuía uma atuação que se limitava à Homens Pretos –; irmandades que aceitavam
celebração dos sacramentos, os leigos foram membros de qualquer cor, homens e mulhe-
agentes por excelência de disseminação do res, desde que livres – de Nossa Senhora da
denominado “catolicismo barroco”, manifesto Boa Morte e de São Benedito –; e irmanda-
em suas confrarias. Tais confrarias, segundo des que aceitavam indistintamente brancos,
Abreu (1994), eram instituídas a partir de ir- pretos, pardos, crioulos, homens e mulheres,
mandades ou ordens terceiras que poderiam escravizados ou forros – São José dos Quatro
reunir membros de distintos grupos sociais, Ofícios – (MORAES, 2012). Em 1803, por exem-
estabelecendo solidariedades verticais, ou plo, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário
servir como associações de classe, profissão, reformulou seu Termo, facultando a participa-
nacionalidade e “cor”. ção dos brancos em suas fileiras, como po-
Era nítida uma preocupação pedagógica demos verificar no testamento do padre Luís
por parte das irmandades. Na exacerbação Antônio da Silva e Souza, datado de 8 de abril
de ritos, especialmente cortejos, demonstra- de 1820: “Nada devendo atualmente às Irman-
vam a seus membros o martírio e a redenção dades de que sou Irmão nesta Cidade que são
dos santos, conjugados a uma reflexão sobre a do Santíssimo Sacramento, dos Passos, Alma
a transitoriedade da vida mundana. As irman- e Rosário, suplico a brevidade dos sufrágios
dades conquistaram um lugar importante no que me devem fazer na forma de seus com-
campo religioso dos setecentos e oitocentos, promissos” (TELES, 1998, p. 197). O mesmo se
ao ponto de muitos padres integrarem suas valendo para a assistência na morte, já que
fileiras (por devoção ao padroeiro, obtenção as sepulturas eram dispostas nos templos e
de prestígio, assistência espiritual e/ou con- divididas de modo aos fiéis continuarem sob
trole dos excessos porventura praticados). a proteção do orago eleito, como podemos
Moraes (2012) cita, por exemplo, a organização observar na documentação da Irmandade de
hierárquica estabelecida pelo Compromisso São Miguel e Almas da Capitania de Goiás, em
da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Pas- 1732: “E queriam mais seis tumbas, para ani-
sos de Goiás: provedor, escrivão, tesoureiro, mar mais pessoas a entrarem para os Benefí-
procurador, zelador e doze irmãos de mesa. cios da Irmandade. [...] Duas do Cruzeiro para
Além dessa ordem interna, com divisões entre cima, duas do Cruzeiro para baixo, mais duas
seus membros e estabelecimento de funções na Sacristia” (BERTRAN, 2002, p. 57).
e obrigações específicas, as irmandades eram A Matriz de Sant’Ana abrigava as Irmanda-
criadas segundo critérios econômicos, sexuais des de São Miguel e Almas, do Santíssimo Sa-
e raciais, assumindo, assim, a característica de cramento, de Sant’Ana, de Santo Antônio dos
um microcosmo social que se insinuava no es- Militares e Empregados Públicos e a do Senhor
paço geográfico. dos Passos. A Irmandade dos Passos possuía
Na Vila Boa de Goiás – nome anterior da um altar lateral e um consistório na Matriz e,
Cidade de Goiás –, por exemplo, existiram ir- posteriormente, uma capela própria no lado
mandades que aceitavam apenas homens direito posterior aos altares colaterais, lado
brancos – de São Miguel e Almas, de Nossa da Epístola (MORAES, 2012; MATTOS, 1979). Na
Senhora da Lapa, do Santíssimo Sacramento e verdade, muitos documentos comprovam a

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Por que plangem os sinos? Ressonâncias biográficas e patrimoniais na paisagem sonora da cidade de Goiás

presença da Irmandade dos Passos e do culto tema simbólico que se utiliza da linguagem em
ao Senhor dos Passos em Goiás já na primeira suas diversas formas, seja por meio do signo
metade do século XVIII, certamente devido à linguístico ou por meio de imagens visuais ou
força que possuíam suas congêneres em Por- de sons, com uma lógica própria. “Imaginário”
tugal e em grande parte dos núcleos urbanos é um termo que se liga diretamente à atividade
brasileiros do período. da imaginação, uma atividade que, para Ruiz
Construídas as primeiras capelas e tem- (2004), primeiramente media o nosso contato
plos, como de costume, um objeto era essen- com o mundo. Essa imaginação é o processar
cial ao culto: o sino. Esse objeto, para exercer das imagens que primeiro adentram o nosso
a sua ação litúrgica de chamada, convocação e intelecto: “Por meio das imagens significativas
avisos deve ser abençoado dentro de um ritual do mundo, vamos tecendo nossa identidade:
próprio romano: somos a imagem do mundo, que de modo cria-
1032. É costume antigo convocar o povo cristão
tivo refletimos em nossa interioridade e proje-
e adverti-lo dos principais acontecimentos da tamos em nossas práxis” (p. 30).
comunidade local por meio de algum sinal ou Sinos de igreja, além de seu ofício sagrado,
som. O toque dos sinos exprime de algum modo eram e são usados na comunicação de fatos
os sentimentos do povo de Deus, quando exulta
comuns ou emergências: nascimentos, mortes,
ou chora, quando dá graças ou suplica, quando
incêndios, celebrações, visitas de autoridades,
se reúne e manifesta o mistério da sua unidade
em Cristo. entre outros, conforme atesta o Ritual Roma-
no. A Cidade de Goiás possui sinos na matriz
1033. Em virtude da íntima relação que os sinos
e em todas as capelas dentro dos limites ur-
têm com a vida do povo cristão, foi-se impondo o
costume, que felizmente se conserva, de os ben- banos e nos antigos arraiais. Esse instrumento
zer antes de serem colocados no campanário. litúrgico alimentou e alimenta o imaginário até
hoje, extrapolando o âmbito do religioso e faz
1034. Convém suspender ou colocar em lugar
adequado o sino que vai ser benzido, de tal parte do dia a dia do vilaboense.
modo que, se for conveniente, possa andar-se A morte também remete às fragmentações
à volta dele e pô-lo a tocar. da vida. Por seu caráter inevitável e por ter re-
1035. Conforme as circunstâncias do momento e lação direta com a religião e a cultura, a morte
do lugar, a bênção dos sinos faz-se em dia festi- se cerca de símbolos e rituais e de significados
vo, fora ou dentro da igreja, […]. Mas se parecer que emergem do imaginário. O sino da Igreja
oportuno realizar a bênção dentro da Missa, a de São Francisco de Paula, por exemplo, não
bênção faz-se depois da homilia, […]. Este rito
plange apenas para as festividades de Passos
de bênção pode ser utilizado pelo presbítero,
que, respeitando a sua estrutura e os seus ele-
ou para marcar o meio-dia, na Cidade de Goiás.
mentos principais, pode sempre adaptar alguns Anuncia a morte de um irmão ou irmã dos Pas-
elementos às circunstâncias das pessoas e do sos. Quando, em Goiás, se escuta o sino fora
lugar. Se, como é desejável, o bispo presidir à de seu horário habitual, sabe-se que um irmão
celebração, serão feitas as devidas adaptações.
ou irmã faleceu. Coralina (2003), observado-
(LEFEVBRE, 1951, p. 397)
ra dos acontecimentos do “reino da Cidade
Até as mudanças conciliares do século XX, de Goiás”, comenta em sua crônica “Sinos de
os sinos eram profundamente integrados à Goiás” a respeito dos sons diferentes de seus
comunicação da comunidade. Nesse aspecto, muitos sinos, atribuindo a cada um deles um
consistem em importante acionador do imagi- significado poético, peculiar, como era comum
nário. Entendemos “imaginário” como um sis- nas cidades da época colonial. A memória vi-

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Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa

laboense refere-se, portanto, ao sino da Igreja É importante destacar detalhes históricos:


da Irmandade dos Passos, presente no ima- o atual sino é do século passado, tendo sido
ginário, como algo fúnebre e trágico, quando adquirido e mandado instalar em 19255 pelo
bate extemporaneamente (ROSA, 2012). provedor Agenor de Castro. A atual torre si-
neira, de madeira, foi inaugurada no dia 3 de
Ninguém aqui desce à cova sem sinal de sino.
Já se sabe. Esse, então, varia de Igreja, de bron- dezembro desse ano, uma quinta-feira.6 A his-
ze e de categoria, […]. Pode ser irmão: conso- tória, no entanto, comprova que, antes desse
lo… consolo… consoolooo… chora não… chora majestoso sino feito especialmente para a Ir-
não… chora nãoãoão…2 […]. Muito tempo longe mandade, outros sinos ali estiveram:
de Goiás, passei a desentender a linguagem dos
bronzes e querendo me inteirar das ocorrências Devido ao estado da Catedral, os Termos de
badaladas, apelo para a instância superior re- Mesa indicam que em 1870 a Irmandade do Se-
presentada por Júlia, com seus 50 anos de Casa nhor Bom Jesus fez adaptações ‘na capela de
Velha e sua comprovada sabedoria do que vai São Francisco a fim de poder collocar nella a
pelo espaço. — Júlia, é anjinho3 que estão to- Imagem do mesmo Senhor’. Os documentos
cando? — Não senhora, dona Anica, é pecador. também informam que no mesmo ano, em 10 de
— Como assim, Júlia? — O camarim do Senhor novembro, foi deliberada a construção ‘de uma
dos Passos não toca anjinho, só bate defunto… ligeira torre de madeira com quatro esteios so-
— É homem ou mulher, Júlia? — É homem, dona mente travados para se suspender o sino até
Anica; a senhor não vê que é só o grossão? (CO- que se faça a torre’. Questão solucionada em 12
RALINA, 2003, p. 15-16). de abril de 1871, com a transferência dos sinos
pequenos da Matriz, já em ruínas, para a torre
O “sino dos Passos” está tão arraigado do da Igreja de São Francisco (BRITTO, 2011, p. 71).
imaginário religioso vilaboense que se sabe ao
seu toque se morreu irmão ou irmã, se vai ter O texto sugere que a Irmandade possuía
missa ou terço (missa se toca duas vezes, terço seu próprio sino ou demandava posse por um
apenas uma). O ápice do sino se dá no sábado dos sinos da Catedral, em ruínas, já transferida
dos Passos, às 15h, quando depois da cerimô- para a Igreja da Boa Morte, e acabou se be-
nia do Encerro, os irmãos mais fortes o tocam neficiando de duas peças colocadas em torre
exaustivamente e o puxam até ele dobrar dan- própria. O “sino dos Passos” sempre esteve
do uma volta de 360 graus, o que é ovaciona- presente nas ações e festividades da Irman-
do e aplaudido pelos presentes. Uma euforia dade, não importando onde ele estaria como
toma os irmãos que cumpriram o seu primeiro inquilino, pelos séculos. Isso fica marcado por
dever: avisaram a cidade que seu Cristo, o Cris- sua presença no imaginário, conforme emerge
to dos vilaboenses, se encontra já no seu an- na obra do escritor goiano Octo Marques:
dor encerrado pelo baldaquim4 e pronto para Segundo a narrativa de Octo Marques (1977),
sair da igreja à noite. ‘Minervino’ fugiu da ‘trincheira insalubre’, pelo
fato de ouvir sem parar um minuto sequer, o
2 “Consolo” e “chora não” são onomatopeias que se re- ‘toque plangente e atormentador do Sino enor-
ferem ao som plangente e melancólico do sino, que
me da nossa Igreja de São Francisco, badalando,
parece consolar os vivos pela passagem de seu morto.
3 Na cidade de Goiás, “anjinho” ou “ inocente” se refe- badalando, sempre tocando e tocando, girando
rem à criança morta e “defunto” ou “pecador” ao indi-
víduo adulto. 5 Data gravada no sino.
4 Termo de origem árabe arcaico que significaria “caba- 6 Dados colhidos in loco, em pesquisa na Igreja de São
na”. “Armação feita por varões de madeira amarrados Francisco de Paula. As inscrições com o nome do Pro-
nos cantos do andor do Senhor Bom Jesus dos Passos, vedor que trouxe esse benefício para a Irmandade
formando uma espécie de caixote coberto por tecido encontram-se no próprio sino e em uma plaqueta de
roxo, com franjas douradas” (SIQUEIRA, 2011, p. 157). Ori- metal afixada na primeira coluna direita da torre de
ginalmente, era feito de seda e bordado a fios de ouro. madeira, no final das escadas que leva ao sino.

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Por que plangem os sinos? Ressonâncias biográficas e patrimoniais na paisagem sonora da cidade de Goiás

e girando, naquela cadência tão inesquecível e era uma espécie de forma de devoção popu-
que lhe dilacerava o coração’ (p. 46). O perso- lar, realizada pela Irmandade e sem vínculos
nagem da história estava na frente de combate
com a atividade oficial diocesana, mas popu-
brasileira contra os soldados de Solano Lopes
larmente realizada, como atesta a biografia de
na Guerra do Paraguai, mas a memória sonora
do tilintar do sino da Igreja São Francisco e a Anna Joaquina Marques e Joaquim Craveiro de
lembrança da proximidade do ‘nosso chamado Sá (BRITTO; PRADO, 2011).
Sábado de Passos’ o forçou a se retirar da trin- A Igreja de São Francisco é aberta à visita-
cheira tornando-se um desertor. A enunciação ção, de terça a domingo, no período vesperti-
do conto sugere a concepção do quanto a me-
no. Como toda atividade religiosa da Irmanda-
mória impera sobre as atitudes psíquicas do ser
humano. (BRITTO; PRADO, 2011, p. 105) de, começa a reza do terço com o sinal sonoro
de chamamento: o toque do sino. Para alguns
A Guerra do Paraguai durou de 1864 a 1870. irmãos e irmãs, ouvir esse sinal já é o suficien-
A Irmandade dos Passos encontrava-se já, com te para irem à Igreja munidos de suas murças
o santo, na Igreja de São Francisco de Paula, e balandraus,7 perguntando pela missa. Um
a usar, nas suas procissões, o seu enorme e dos registros da pesquisa de campo marca um
plangente sino, anterior ao que se encontra lá, evento inusitado: uma vilaboense passante,
certamente de dimensões parecidas. Esse sino preocupada, indagou quem houvera morrido
anterior, ainda do século XIX, é que tocou na naquele dia, ao ouvir o sino, legitimando uma
imaginação do soldado desertor (ou na imagi- das muitas facetas da semântica do sino dos
nação do autor do texto?). Mas quantos sinos Passos: anunciar o óbito de um de seus irmãos
a Irmandade teve? Provavelmente vários até a ou irmãs.
data do erigir-se de sua torre própria, em 1925. A respeito disso, o sino tem a centralidade
Os sinos usados eram os da Catedral, ou da na composição dessa narrativa do imaginário
Igreja onde a Irmandade estivesse, ou eram os vilaboense: ouviu-se o sino de Passos, é festa,
requisitados ao bispo por doação. No entanto, é missa, é morte, é tragédia. A irmandade dos
isso não diminui a importância do sino e nem Passos, como agente acionador do imaginário
impede a integração de sua imagem sonora ao quaresmal nunca prescindiu do uso de sinos,
imaginário local. usando toques próprios à sua liturgia quando
Em 2015, retomou-se em Goiás o costume na Catedral e depois com a obtenção do ma-
de abrir a Igreja de São Francisco de Paula to- jestoso sino dos Passos de bronze puro, ao to-
das as sextas-feiras, para reza do terço e re- car em três ocasiões somente: atos religiosos,
tomada do costume de se ir visitar a imagem toques fúnebres e algumas festas civis como
para “beijá-la”, conforme uma antiga prática aniversário da cidade, transferência temporá-
que estava relacionada também à sociabilida- ria da capital de Goiânia para Goiás.
de e à vida comum dos vilaboenses, conforme A farta documentação consultada por Brit-
atestam Britto e Prado (2011), falando das de- to (2011) demonstra que a posse da Igreja de
voções religiosas na passagem dos séculos XIX São Francisco pela Irmandade dos Passos não
para XX: “Não sem motivos, a participação em aconteceu de modo imediato, mas representou
confrarias e irmandades garantia um enraiza- uma lenta e gradual retirada da Irmandade da
mento e promovia a sociabilidade dos habitan- circunscrição da Catedral marcada por saídas
tes dos sertões dos Guayazes, além de conferir e retornos. A caminhada do Senhor dos Passos
notabilidade e prestígio para seus membros”
7 Vestimentas roxas das irmãs e irmãos dos Passos, res-
(p. 109). Esse ato de beijar o Senhor dos Passos pectivamente.

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Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa

incluiu idas e vindas, referindo-se ao itinerá- entanto, a pesquisa realizada para as publica-
rio de suas sedes provisórias até se chegar à ções e estudos de Britto (2011) e Rosa (2012)
sede definitiva: da Matriz de Sant’Ana para a fornecem outra visão: uma visão de itinerân-
Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de lá para cia, de deslocamentos físicos, geográficos, um
a Igreja de Nossa Senhora da Lapa e, por fim, périplo da Irmandade, indo e vindo – movi-
sua retirada para a Igreja de São Francisco de mento que inclui cruzar pelo menos uma vez
Paula. Essa estada fez com que, vagarosamen- o Rio Vermelho –, instalando-se aos poucos
te, a Irmandade fosse adaptando o templo às e modificando a capela para que ficasse cada
suas necessidades: modificações internas no vez mais adequada a imagem do Senhor dos
altar, múltiplas construções e reconstruções Passos,8 algo que durou mais de nove décadas
do camarim da imagem etc. Essa apropriação e passou por dois séculos. A construção da tor-
foi lenta: da deliberação da ida solene por pro- re definitiva e a instalação de um sino com o
cissão da Lapa à São Francisco em 1833 até a nome da Irmandade dos Passos em 1925 marca
construção da torre própria com sino perso- essa posse simbólica e concreta como definiti-
nalizado, trazendo o nome da Irmandade em va, sendo tombada pelo Instituto do Patrimô-
1925, foram longos 92 anos, quase um século. nio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ao
compor os bens móveis e integrados da Igreja
Figura 1 – Detalhe do sino dos Passos. de São Francisco de Paula, em 1950.9
Na verdade, o sino dos Passos em sua cul-
tura material se torna síntese – metáfora e me-
tonímia – das ressonâncias em torno do ima-
ginário que aciona. Desse modo, a “linguagem
do sino”, por meio de seus toques, aciona uma
semântica, vocabulário de motivos comparti-
lhado entre os moradores de Goiás: “Sino dos
Passos,/ Teu badalar sonoro/ ao ressoar plan-
gente,/ Dolente/ [...] São farpas de saudade,
agudas e pungentes/ Ferindo sem maldade/ O
coração da gente!/ [...] É a saudade/ Refletin-
do-se no espelho. Das emoções;/ É o acalanto/
De todos nós” (SOUZA FILHO, 1981, p. 30).

Benedito de “Sá” Efigênia:


reverberações do “sineiro da Boa
Morte”

Fonte: Clovis Britto, 2019. 8 Segundo as narrativas tradicionais a imagem do Se-


nhor Bom Jesus dos Passos da cidade de Goiás teria
sido trazida da Bahia ainda na primeira metade do
O Estatuto datado de 2005 faz referência século XVIII. A escultura em madeira mede 1.99 cm e
carrega uma grande cruz e, o que se comprova, é a
à saída da Catedral em data bem anterior ao sua presença em 1749, conforme atestam documentos
avulsos da Capitania de Goiás (BRITTO; ROSA, 2011).
século XX, marcando para isso o ano de 1870.
9 Inscrita no Livro do Tombo de Belas Artes, volume I,
Tamaso (2007) marca essa saída para 1873. No folha 73, número de inscrição: 360.

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Por que plangem os sinos? Ressonâncias biográficas e patrimoniais na paisagem sonora da cidade de Goiás

Benedito de Efigênia, o sineiro da Boa Morte, segunda metade do século XX? Ou sua atuação
veterano nessa profissão, que era privilégio personalíssima mobilizaria, por meio da “lin-
seu, desde tempos remotos. Dão... dão... dão...
guagem” dos sinos, um imaginário que tocava a
choram os sinos da antiga igreja; choram a mor-
sensibilidade de seus contemporâneos?
te daquele que os visitava diariamente no mo-
mento exato: pela manhã, ao meio dia, à hora
Figura 2 – Sino da Boa Morte.
do Ângelus ou quando algum ofício religioso
extraordinário devia realizar-se. Por seu inter-
médio, aqueles sinos se tornavam mensageiros
de júbilo, repicando alegremente, em ocasiões
festivas ou mensageiros de amargura, dobran-
do afinados, quando a morte visitava a cidade.
(FERREIRA, 2003, p. 85-86)

O “sino dos Passos” assume protagonis-


mo no imaginário vilaboense, especialmente
por mobilizar um feixe de símbolos em torno
da dor e do sacrifício (ROSA, 2016). O sino se
torna, nesse aspecto, um mediador das men-
sagens entre os fiéis e o padroeiro, ao ponto
de, ele próprio, por meio de sua sonoridade,
ofuscar a trajetória dos sineiros responsáveis
por mobilizar e dar sentido a gramática de so-
noridades. Isso é evidente em diversos poe-
mas e crônicas que descrevem a importância
do “sino dos Passos” no imaginário vilaboen-
se. Nenhum desses registros evidencia o nome
dos sineiros responsáveis pelo ofício, ao con-
trário, utilizam a figura de linguagem proso-
popeia ou personificação para sugerir a ação
“autônoma” dos “bronzes” (RAMOS JUBÉ, 1984;
SOUZA FILHO, 1981).
Em contraposição, os textos sobre o “sino
da Boa Morte”, fundido em Goiás em 1785,10
Fonte: Rafael Lino Rosa, 2019.
evocam a presença do sineiro Benedito de “Sá”
Efigênia. O que teria contribuído para que o si-
A epígrafe consiste em um trecho da crôni-
neiro escapasse dos silêncios da história como
ca de Ferreira (2003) escrita como necrológio
ocorreu com seus colegas de ofício? Seria o fato a Benedito de Sá Efigênia. A autora constrói a
de sua morte coincidir com o período de desati- imagem do sineiro a partir de sua intrínseca
vação da Igreja para a transformação em museu relação com o “sino da Boa Morte”, destacan-
de arte sacra, tornando-o símbolo do ofício na do sua habilidade e singularidade ao conferir
medida em que não era mais possível traduzir uma espécie de “gramática” de sonoridades,
sua linguagem sonora? Sua longa presença no sendo inventor de muitos toques:
ofício, atravessando o final do século XIX até a
Conhecia muito bem a linguagem do bronze,
10 Data gravada no sino. qual famoso maestro conhece os instrumentos

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Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa

componentes de sua orquestra. Os diversos to- Morte possuía na Cidade de Goiás enquanto
ques eram como trechos de uma partitura: ‘Vira Catedral provisória desde 1871 em virtude do
Mingau’, mais difícil que requeria o uso de uma
estado de ruínas que se encontrava a Catedral
corrente presa ao ombro, destinada à manobra
de Sant’Ana, ocupando essa função até 1967
do sino grande, ficando as mãos para os meno-
res. ‘Vaga-Lume Cai, Cai’, toque cotidiano; ‘Moa- (BRITTO, ROSA, 2017).
cir’, repiques vibrantes dos dias festivos. Fina- Na transição dos séculos XIX e XX, centram-
dos: para o sexo masculino, sino maior primei- se na Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, que
ro; para o feminino, sinos menores antes; para servia de Matriz e Catedral de Goiás, as devoções
anjinhos, só repiques dos pequenos (p. 86).
marianas mais importantes da cidade, seguin-
A crônica de Di Guimarães (2000), além de do um ciclo litúrgico próprio, porém carregado
evocar a perícia de Benedito de “Sá” Efigênia, de elementos paralitúrgicos teatralizados com
acrescenta o fato dele ser negro, solteirão, “de efeito catequético. A grande preocupação dos
idade mais ou menos indefinível, falando mui- curas e monsenhores, nesses momentos, era
to pouco, pobre e prestativo” (p. 105). Também realizar um auto de fé que servisse como uma
reconhece o sineiro como responsável por catequese fixadora das doutrinas e dos dogmas,
costurar/conter o tempo, anunciador de ritos por um lado, e reativadora do imaginário reli-
de passagem, marcador simbólico do calendá- gioso, por outro. Na Igreja da Boa Morte,11 des-
rio religioso, afetivo e mítico da cidade: tacavam-se festas ao longo de todo o ano, ma-
rianas, que impactavam os habitantes da cidade
Põe ele toda inspiração, que mora em sua alma
simples, em fazer dobrar em sons, que podem
(Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora da
ser lamentos e podem ser aleluias, o velho sino Boa Morte, Nossa Senhora da Glória, Nossa Se-
da igreja que se perfila ao lado do ‘Conde dos nhora das Dores, Nossa Senhora da Conceição,
Arcos’. Se quatro velas se acendem, iluminan- Nossa Senhora das Vitórias etc.), além das mis-
do o marfim de um anjo morto, incapazes de se sas, comemorações da Semana Santa, Corpus
apagar ao peso das lágrimas de uma mãe que
Christi, Natal e da festa da padroeira Sant’Ana.
perdera o filhinho, é o Benedito que faz soar o
sino, na piedosa tradição do ‘sinal’. E o som do Isso significa que os sinos do campanário da
bronze tem uma música alegre, congratulando- Boa Morte eram os mais mobilizados ao longo
se com o Céu, por mais esse anjo que fora en- de todos os dias do ano e, portanto, exigia do
riquecer a sua legião de eleitos. Se um pai ou sineiro um vasto acervo de toques específicos
uma mãe atendem ao chamado do Senhor, dei-
para cada uma das solenidades:
xando, cá embaixo, os entes que não compreen-
dem bem os altos desígnios de Deus, é, ainda, 11 A Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte foi concluí-
ele quem movimenta o sino anunciando que um da em 1779 pela Irmandade dos Homens Pardos. Em
justo subiu ao Céu. Quando dois entes que se Goiás, o primeiro termo de compromisso da Irmanda-
de de Nossa Senhora da Boa Morte data de 1774, orga-
amam vão trocar, no altar, o beijo do ‘conjugo- nizada pelos homens pardos e que em todos os anos
vobis’, o sineiro deixa o sino e vai levar cravos ao promovia uma solene procissão. Essa procissão al-
altar. Nas tradicionais Folias do Divino, soam os cançou a primeira metade do século XX, mesmo com o
fim da irmandade. Era realizada uma solene procissão
sinos com suaves sonoridades de aleluias. Nas fúnebre, com a imagem de Nossa Senhora de mãos
procissões, quando a alma católica da gente de postas deitada num esquife. No dia 15 de agosto, em
Vila Boa se ajoelha ante o esquife de um Deus diversas cidades brasileiras fazia-se a mesma procis-
são com a mesma imagem vestindo outras roupas,
morto que desfila diante da humanidade que
para se comemorar a Assunção de Maria. A festa da
agoniza, é o Benedito quem segreda ao bronze a Assunção era um importante evento, solene, cuja prá-
gravidade da hora (DI GUIMARÃES, 2000, p. 106). tica na Cidade de Goiás está justificada pela presença
de uma capela a Nossa Senhora da Boa Morte. Após a
Na verdade, é significativo destacar a cen- procissão representando a morte, em 15 de agosto era
realizada outra procissão, em louvor a Assunção e que
tralidade que a Igreja de Nossa Senhora da Boa em Goiás era cultuada como Nossa Senhora da Glória.

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Pachorrentamente, Benedito de Figênia subiu “pode ser anjo com seu toque argentino: stá no
os degraus da escada da torre dos sinos da céu... stá no céu... sta no céu... coitadim... coi-
Igreja da Boa Morte, em Goyaz. Um sino gran-
tadim...coitadiiinho... Pode ser irmão: consolo...
de e dois pequenos. Era o momento de tocar a
consolo... consoolooo... chora não... chora não...
primeira vez para a missa matutina, num dia de
preceito. Prendendo no braço esquerdo a corda chora nãoãoão [...]” (CORALINA, 2001, p. 15).13
do badalo do sino grande e com os badalos dos Todavia, é oportuno retomar alguns ques-
sinos pequenos em cada mão, iniciava o sineiro tionamentos: se em todas as seis igrejas exis-
o repique, fazendo onomatopeia do ‘Vaga-lume tentes na cidade de Goiás ao longo da primeira
cai cai’: Blém, blém, bão... blém, blém, blém,
metade do século XX existia esse ritual de si-
blém, bão...blém, blém, blém, blém, bão... E o
som afinado dos sinos era ouvido em toda a ci- nos que, em alguns casos tocavam simultanea-
dade, ecoando nas serranias distantes. Quinze mente, por que de todos os sabedores deste
minutos após, um novo repique. Afinal, o sino ofício o nome de Benedito de “Sá” Efigênia so-
grande badala a chegada do padre ao altar: - breviveu com tamanha força nos registros dos
bão... bão, bão bão bão, bão... Era o início da
memorialistas e na memória dos mais velhos
santa missa. Às doze e às dezoito horas de to-
da cidade? O que ele mobilizou que resultou
dos os dias do ano, o sino grande, com suas ba-
daladas compassadas, alertava os fiéis a hora na sobreposição da sua imagem à do próprio
do Ângelus. (SOUZA FILHO, 1981, p. 18) “sino da Boa Morte”?

Essa “gramática de sonoridades” traduzia Figura 3 – Benedito de “Sá” Efigênia na torre sineira
para os vilaboenses um conjunto de informa- da Igreja da Boa Morte (Autor e data não identifi-
ções ao longo de todo ano. Partindo do calen- cados).
dário litúrgico, os sinos também marcavam – e
ainda marcam – o tempo cronológico, mítico e
ritual daquela comunidade. De acordo com o
toque, é possível aferir, por exemplo, se alguém
morreu e se é homem, mulher ou criança. De
acordo com a sonoridade, é possível identifi-
car em qual das igrejas ou instituições estão
ecoando as mensagens e, por exemplo, onde
será realizada a missa ou o toque de recolher.12
De acordo com Souza (2015), os sinos vila-
boenses não possuem nomes próprios, adqui-
rindo o nome de suas igrejas: “a eles foi dada
a propriedade de humanizar-se, conferindo-se
aos toques o atributo da vocalização.” (p. 195).
Informa ainda que, em seus toques básicos –
dobre simples, dobre duplo e repique –, não
se diferencia de outros toques de qualquer ci-
dade, se individualizando em decorrência das
Fonte: acervo de Clovis Britto.
especificidades e dos detalhes de cada toque:
13 Ana Guiomar Souza (2015) sublinha que “os sons cha-
12 O sino da Casa de Câmara e Cadeia, por exemplo, mados argentinos são agudos como a voz das crian-
anunciava o toque de silêncio da noite, alarmes em ças. Já as palavras atribuídas aos adultos mortos
casos de incêndios e enchentes e o julgamento de pressupõem o grave da voz masculina ou a tessitura
presos (SOUZA, 2015). média da voz feminina” (p. 195).

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Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa

Uma das hipóteses já delineadas consiste dificuldade diz respeito ao fato de que, assim
na própria centralidade que a Igreja da Boa como ocorreu em muitas cidades de Minas Ge-
Morte possuía no cenário religioso vilaboense rais, o ofício de sineiro era realizado na maio-
enquanto Catedral provisória. Mas esse argu- ria das vezes por negros escravizados:
mento isolado não justificaria a argumenta-
Aluízio Viegas reitera a existência de muitos ne-
ção, em decorrência do papel que a Igreja de gros, mulatos, pardos e alguns escravos aluga-
São Francisco e a Venerável Irmandade do Se- dos para os serviços do toque dos sinos. Ele ci-
nhor Bom Jesus dos Passos também ocupam tou o caso de Ana Romeira do Sacramento, que
no imaginário vilaboense. Na verdade, creio alugava um escravo de nome Francisco para to-
car os sinos na Matriz do Pilar em São João del
que a este fato somam-se duas outras ques-
-Rei. Segundo ele, depois da abolição, o traba-
tões: Benedito de “Sá” Efigênia ter sido o si- lho de tanger os sinos ficou a cargo das pessoas
neiro que mais tempo desenvolveu seu ofício mais simples que se subordinavam às mesas
– mais de sessenta anos ininterruptos – e sua administrativas dos sodalícios da região. Ainda
atuação personalíssima ao ponto de criar to- segundo Aluízio Viegas, o fato desse ofício ser
ques particulares: desempenhado por pessoas das camadas mais
pobres da população não significa que as torres
Igreja da Boa Morte - Há mais de meio século não fossem frequentadas por pessoas de todas
Benedito de Sá Efigênia tem a função de sinei- as camadas sociais. Há referência também que
ro oficial desta igreja. É ele quem toca as ba- capoeiras e escravos se escondiam nas torres
daladas do meio dia, o ‘angelus’, as chamadas das igrejas onde ninguém ousava subir. Tanto
para as missas, os sinais de morte e enterro, os hoje como outrora, os espaços das torres são
dobres da Paixão e da Aleluia. Benedito se diz espaços de liberdade. Liberdade de criação, in-
criador de muitos ‘toques’, além dos que apren- clusive. (BRASIL, 2009, p. 39)
de com seu antecessor e mestre [...] quando
criança. (LACERDA, 1977, p. 44)
No caso da cidade de Goiás, é provável que
este ofício ao longo dos séculos XVIII e XIX tam-
Em conversas com contemporâneos de Be- bém tenha ficado a cargo de escravizados ou
nedito de “Sá” Efigênia, são recorrentes as lem- pessoas de camadas mais pobres. Em pesqui-
branças de seus toques inconfundíveis, permi- sa nos jornais goianos Correio Official de Goyaz
tindo aos moradores não apenas identificar a e Goyaz, foi possível identificar o nome de Ma-
“linguagem dos sinos”, mas seu autor, tamanha noel Benedito de Lima que atuou como sineiro
a personalidade que imprimia no ofício. Isso da Catedral (e, na segunda metade do século
se traduzia no modo como operava o ofício e XIX, da Boa Morte). O mesmo teria realizado o
aos toques que imprimia forte assinatura sono- ofício desde a mocidade, falecendo com mais
ra. Desse modo, ele se tornou uma ponte entre de 80 anos em 1887. Manoel foi substituído por
o século XIX e o século XX, preservando o que José Claro que permaneceu apenas cinco anos
aprendeu com os mestres sineiros que o ante- como sineiro da Boa Morte, falecendo em 1891.
cederam e marcando o ofício com sua assina- Na verdade, não foi possível identificar
tura inconfundível, tornando-se um artista que o sineiro que ensinou o ofício a Benedito de
soube, como ninguém, extrair os sons dos sinos. “Sá” Efigênia. Certamente algum dos sineiros
A folclorista Regina Lacerda (1977) não con- que mobilizavam as torres das muitas igrejas
seguiu identificar o nome do sineiro que ensi- de Goiás na última década do século XIX ou na
nou Benedito de “Sá” Efigênia o ofício, subli- primeira do século XX. Apesar das poucas refe-
nhando que o mesmo aprendeu ainda na in- rências sobre sua vida pessoal, os depoimen-
fância esse saber, em fins do século XIX. Essa tos coletados informalmente reafirmam que

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Por que plangem os sinos? Ressonâncias biográficas e patrimoniais na paisagem sonora da cidade de Goiás

ele teria apreendido o ofício na infância, sen- cidiram com a velhice e doença de Benedito
do órfão de pai e filho de uma ex-escravizada de “Sá” Efigênia, cujo corpo não mais atendia
de nome Efigênia do Rosário, aliás sua alcunha ao chamado dos sinos. Talvez, por essa razão,
remete ao nome da mãe: o “Sá” não é sobreno- a memória em torno de Benedito esteja tão
me, mas um apócope do termo “sinhá”, Bene- presente ainda hoje na cidade de Goiás, tendo
dito – filho de sinhá Efigênia. Solteiro, residiu sido o mais longevo, o mais criativo e o último
na Rua da Carioca com a mãe idosa e atuou “sineiro da Boa Morte”.
como zelador e sineiro da Igreja da Boa Morte
até a década de 1960. Os informantes destaca-
Os sinos, os sineiros e os toques:
ram que ele utilizava sempre um terno branco
e que ele também atuava como fogueteiro.
notas sobre a transmissão do
Seu atestado de óbito informa que seu ofício
nome era Benedito Efigênio do Rosário (nome
Os sinos, então, conjugados por autênticos si-
que reúne três devoções comuns às irmanda-
neiros que cresceram nas torres, falam, cha-
des negras), nascido no ano de 1891, na cida- mam, soluçam, plangem. São argentinos, graves,
de de Goiás, de filiação ignorada, e falecido no fúnebres e dolentes, numa escala cromática de
Asilo São Vicente de Paulo em 19 de novembro sons harmonizados ou díspares que rolando
de 1970. O ofício de sineiro não foi mencionado pelo espaço vão se perder nas quebradas dis-
tantes da serrania imensa, levantando os cora-
no documento, sendo registrado como “ indi-
ções para o alto. A gama sonora vai do pequeno
gente” no item profissão.14 toque ao grande dobre e é a entrada, o sinal, a
A torre sineira da qual Benedito era guar- procissão. Procissão saindo, procissão entran-
dião compõe os bens móveis e integrados da do. Reza. Missa. Novena. Tríduo. Missa solene
Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, tom- com seu toque repetido e festivo. Repiquete no
Carmo. Dobre na Abadia. A cidade acorda com
bada pelo Iphan em 195015. As ações da patri-
os sinos... são as matinas. A do Rosário avisa
monialização e a inserção da cidade de Goiás
com 23 pancadas. A Boa Morte, quando o si-
no roteiro turístico alteraram o cotidiano da neiro está em dia, responde com 94 badaladas.
população vilaboense (TAMASO, 2007). Cer- Trindades ao meio-dia e vésperas pela tarde.
tamente, um dos principais impactos na vida Ninguém aqui desce à cova sem sinal de sino, já
de Benedito de “Sá” Efigênia foi a transforma- se sabe. Esse, então, varia de Igreja, de bronze e
de categoria (CORALINA, 2003, p. 14-15).
ção da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte
em Museu de Arte Sacra da Boa Morte, o que A presença dos sinos, dos sineiros e dos to-
implicou em outros usos e, consequentemen- ques consistem em importante acionador do
te, na gradativa aposentadoria do sineiro. No imaginário vilaboense, a exemplo do que des-
mesmo período, a Catedral de Goiás voltou tacamos nos casos dos sinos dos Passos e da
para a Igreja de Sant’Ana ainda inacabada. A Boa Morte. Todavia, esse imaginário é mobili-
igreja não possuía sino, fato que demonstra zado nas diversas igrejas erigidas na Cidade de
uma mudança de prioridades, sendo utilizado Goiás e que, conforme o trecho da crônica de
esporadicamente o sino da torre da Boa Morte Coralina (2003), utilizado na epígrafe, estabe-
como sino da Catedral. Essas alterações coin- lecem uma gama sonora, um vocabulário com-
partilhado e um conjunto de histórias em tor-
14 Registro nº 6.536 do livro de óbitos de 1969-1973 do
Cartório de Registro Civil e Tabelionato de Notas da no do ofício. Uma das mais famosas consiste
Cidade de Goiás-GO. na queda da torre da Igreja de Nossa Senhora
15 Inscrita no Livro do Tombo de Belas Artes, volume I,
folha 72, número de inscrição: 356. da Lapa, em decorrência da enchente de 1839.

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Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa

Visando alertar a cidade, o sineiro teria tocado representada por Júlia, com seus 50 anos de
o sino e morrido tragado pelas águas do Rio Casa Velha e comprovada sabedoria” (CORALI-
Vermelho: NA, 2003, p. 15).
A necessidade de preservação desses sa-
A igreja rodou. O sineiro estava na torre tocan-
do, tocando... dando aviso do perigo, pedindo beres de interferências outras que possam co-
rezas. O povo de longe gritava, fazia sinais que locar em risco a continuidade do código com-
descesse e ele nada de ouvir, só queria tocar. Já partilhado pode ser visualizada em diversos
tinham tirado as alfaias e as imagens. O homem exemplos. É comum turistas desavisados subi-
do sino não deu fé do perigo e lá se foi a igreja rem nas torres sineiras e desejarem badalar os
arrancada, torre e sineiro rodaram rio abaixo,
sinos. Há na cidade uma vigilância constante
o sino tocando mais. Afinal, a igreja se abriu de
todo, no lugar da Pinguelona, onde o sino ficou
para que os sinos não sejam tocados aleato-
encalhado e o sineiro se achou depois, cheio riamente, informando mensagens de modo
d’água, agarrado ao badalo. Gente que mora ali equivocado. Desse modo, o toque dos sinos
perto conta que terça à noite, ainda se ouve o exige não somente ocasiões específicas, mas
sino tocar, isso quando a cidade se aquieta e as pessoas previamente preparadas.
águas ficam dormindo. E a alma do sineiro nun-
Exemplo instigante consiste na Igreja de
ca se afastou do lugar. Aparece em grandes vi-
Nossa Senhora do Rosário. O carrilhão da tor-
sagens, muito alta e muito branca, crescendo e
minguando, aparecendo sobre as águas, se su- re do Rosário se tornou o “relógio” e seus si-
mindo de repente, repousando nas pedras, es- nos os “afilhados”16 dos vilaboenses. Em 2017,
perando que o povo tire o sino debaixo d’água um novo frei decidiu retirar a marcação dos
e o reponha no alto de sua torre. (CORALINA, sinos que badalavam na torre a cada 15 mi-
1989, p. 31-32) nutos, nos quartos de hora, e cuja sonorida-
O fato é que os sinos povoam o cotidiano de alcança grande parte da cidade. O religio-
dos vilaboenses, acionando um imaginário so extinguiu os toques a cada 15 minutos e as
que atravessa os sentimentos de dor e sacri- badaladas marcando as horas alegando falta
fício, mas também marcado por júbilos. O si- de pessoal para dar corda, falta de peças e de
neiro foi capaz de dar sua vida pelo ofício e, pessoas qualificadas para afinação. Inúmeras
mesmo morto, continuou guardião do sino e reclamações povoaram o cotidiano da cidade
da cidade. No caso do incêndio da Igreja da em virtude dos silêncios do “sino do Rosário”,
Boa Morte, em 1921, os sinos também foram os cujo silenciamento consistiu em uma violência
mensageiros da tragédia (PASSOS, 1986). simbólica (BOURDIEU, 1998) para gerações de
Nesse aspecto, os toques de sinos consis- vilaboenses. Em 2019, com a mudança do re-
tem em códigos compartilhados entre os si- ligioso, outros freis deram corda no relógio e
neiros e a comunidade, a comunidade e a Di- reintegraram os toques à paisagem sonora: “O
vindade, e os moradores são os responsáveis relógio dos frades/ martela horas./ Sinos to-
por decodificar e transmitir para os mais jo- cam a entrada” (CORALINA, 2001, p. 125).
vens essas informações. Isso pode ser visuali- 16 Fundada em 1734 pela Irmandade dos Homens Pretos,
zado no caso de Cora Coralina que, vivendo 45 a Igreja de Nossa Senhora do Rosário foi demolida e
reconstruída em 1943 pelos padres dominicanos. Em
anos fora de Goiás, teve que reaprender a “lin- sua inauguração, muitos vilaboenses foram padrinhos
guagem dos bronzes”: “Muito tempo longe de e madrinhas dos sinos, conforme relatou Iracema Ma-
lheiros em depoimento a Tamaso (2007): “Eu fui com
Goiás, passei a desentender a linguagem dos meu tio e minha tia e eles seguraram na fita, porque
bronzes e querendo me inteirar das ocorrên- todo mundo foi padrinho dos sinos, que era uma fita
que vinha lá dos sinos e como se eles tivessem puxan-
cias badaladas, apelo pela instância superior do e batendo na inauguração da igreja” (p. 615).

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Por que plangem os sinos? Ressonâncias biográficas e patrimoniais na paisagem sonora da cidade de Goiás

Na Cidade de Goiás, é urgente um traba- paralisado; dobres simples ou duplos, com o


lho de preservação e valorização do ofício de sino em movimento.
sineiro e dos toques de sinos, especialmente Na Cidade de Goiás, além de Benedito de
quando reconhecemos que a maioria dos sa- “Sá” Efigênia, que era responsável pelo “sino
bedores do ofício está envelhecendo e mor- da Boa Morte”, se destacaram sineiros ao lon-
rendo sem transmitir esse legado. Uma ten- go do século XX que desenvolveram sua arte
tativa de preservação e que poderia inspirar nas outras igrejas, em especial na Igreja de São
os vilaboenses consiste no registro dos toques Francisco de Paula: o português Alfredo Fran-
de sinos de Minas Gerais e do ofício de sinei- cisco dos Santos (Alfredão) que ensinou o ofí-
ro como patrimônio imaterial nacional (BRA- cio de sineiro para José Gomes de Souza – “Zé
SIL, 2009). O dossiê que instruiu o registro em Prego” (1920-1987) que, por sua vez, transmitiu
2009 reúne farta documentação sobre o ofício para seu filho José Antônio de Moraes e Sou-
e, guardados os diferentes contextos, em mui- za – “Zé Tachinha” (1960-2011). “Zé Tachinha”,
to se aplica ao caso goiano e vilaboense. Um como era popularmente conhecido, ensinou
dos interessantes dados consiste nas formas o ofício para Rafael Lino Rosa, atual provedor
de transmissão, preservação e decodificação da Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus
em torno da arte de “fazer falar os sinos” como dos Passos:
forma de pertencimento:
Em 1997 retornei a Goiás depois de um longo
As informações obtidas durante a pesquisa de período. Havia vindo quando criança e nunca
campo nas cidades inventariadas nos informam mais voltei. Vim para a Semana dos Passos e
que grande parte da população dessas locali- assisti pela primeira vez a Procissão do Senhor
dades identifica a sonoridade dos sinos de cada dos Passos. Estávamos na procissão e Zé Tachi-
igreja, o que nos leva a considerar não apenas nha me chamou para ajudar a carregar a cruz da
a estrutura dos toques, mas, especialmente, a irmandade. Eu fui. Como ele estava rezando alto
sonoridade de cada um dos sinos. Entretanto, o terço eu o ajudei. Ali nasceu uma amizade. [...]
sonoridade e estrutura se complementam. [...] Coincidentemente eu estava no Domingo dos
A pesquisa mostrou também que o toque dos Passos cedo na Igreja de São Francisco de Paula
sinos, expressão sonora que confere significa- e faleceu um irmão. Zé Tachinha me pediu para
do cultural ao território inventariado, resulta e dar o sinal. Ele me explicou, eu subi na sineira
é indissociável do saber do sineiro, o qual en- e executei. Na segunda na procissão da Trasla-
volve habilidade e conhecimento apurados em dação da imagem do Senhor dos Passos toquei
séculos de história e dele exige dedicação de novamente o sino, desta vez diferente: puxado
devoto ou de profissional. As diferentes expe- na corda. Era para eu embalar o sino e depois,
riências pessoais de reconhecimento e apro- de uma vez, colocar o peso do meu corpo para
priação do universo dos sinos asseguram aos que o sino batesse rápido. Muita gente achou
habitantes das localidades alcançadas por este ruim um ‘forasteiro’ tocar o sino. [...] Comecei
estudo um sentimento de pertencimento e lhes a participar do calendário de festas da Cidade
confere uma territorialidade específica (BRASIL, de Goiás com frequência. Zé Tachinha me ensi-
2009, p. 33-34). nou a tocar defunto homem, mulher e anjinho.
Anjinho eu nunca toquei e nem quero. É muito
O dossiê destaca as orientações sobre os dolorido, muito triste. O mais triste dos sinais.
toques de sinos no Brasil Colônia reguladas Aprendi a receber a procissão na igreja tocando
o sino. O toque para irmão dos Passos faleci-
pelas Constituições Primeiras do Arcebispado
do é três pancadas. No grande. Uma só isolada.
da Bahia, de 1707, e classifica os toques a partir Duas mais juntas: 1...1.1. 1...1.1. 1...1.1. A gente dá
do ritmo – festivos, fúnebres e cotidianos – e o sinal e conta 1, 2, 3 na cabeça e repete. Para
da execução – repiques e pancadas, com o sino mulher, para irmã dos Passos, a gente começa

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Clovis Carvalho Britto; Rafael Lino Rosa

no sino menor. O mesmo compasso. Aí inter- BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 2ª ed. Rio de
cala com o grande. 2...2.2. 2...2.2. 2...2.2. e 1...1.1. Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
1...1.1. 1...1.1. Onde o 1 é o sino grande e o 2 o sino
menor. Anjinho é você bimbalhar alegremente BRASIL. IPHAN. Dossiê Toque dos sinos e o ofício de
o sino pequeno, numa alegria, num frenesi. Aí sineiro em Minas Gerais. Brasília: Instituto do Patri-
para de uma vez. E dá três pancadas no grande. mônio Histórico e Artístico Nacional, 2009.
1...1.1. 1...1.1. 1...1.1. E repete sete vezes.17
BRITTO, Clovis Carvalho; ROSA, Rafael Lino. Mestra e
O depoimento do atual sineiro dos Pas- Guia: a Catedral de Sant’Ana e as devoções de Dar-
sos demonstra um processo de aprendizado, cília Amorim. Goiânia: Espaço Acadêmico, 2017.
mesclado pela observação e pela prática, a BRITTO, Clovis Carvalho; ROSA, Rafael Lino (Orgs.). Nos
partir do contato com um sineiro experiente. Passos da Paixão: A Irmandade do Senhor Bom Jesus
Dominar a “linguagem dos sinos” consistiu dos Passos em Goiás. Goiânia: PUC-GO/Kelps, 2011.
em deixar de ser um “forasteiro” e se inserir
BRITTO, Clovis Carvalho; PRADO, Paulo Brito do. PRA-
na comunidade local por meio de um vocabu-
DO, Paulo Brito do. A economia simbólica da Paixão
lário de motivos compartilhado, tornando-se
vilaboense. In: BRITTO, Clovis Carvalho; ROSA, Rafael
mediador por meio dos sons, dos gestos, do Lino (Orgs.). Nos Passos da Paixão: A Irmandade do
intervalo entre som e silêncio que demarca a Senhor Bom Jesus dos Passos em Goiás. Goiânia:
paisagem sonora vilaboense. PUC-GO/Kelps, 2011. p. 102-128.
O sineiro maneja um repertório mobilizado
BRITTO, Clovis Carvalho. Catolicismo popular e es-
pela cidade, com sotaques singulares. Aciona
paço público no culto ao Senhor Bom Jesus dos
o imaginário em torno do sino e de seus to-
Passos na Cidade de Goiás (séculos XVIII e XIX). In:
ques com um enorme poder simbólico, mar- BRITTO, Clovis Carvalho; ROSA, Rafael Lino. (Orgs.).
cador litúrgico e temporal. O tempo dos seres Nos Passos da Paixão: A Irmandade do Senhor Bom
humanos e o tempo da Divindade, da vida e da Jesus dos Passos em Goiás. Goiânia: PUC-GO/Kelps,
morte, as horas... “chora” e “geme” de triste- 2011. p. 55-84.
za e “dobra” de alegria. Há quase 300 anos os
CAMPOS, Adalgisa Arantes. Aspectos da Semana
sineiros dominam saberes responsáveis pelas
Santa através do estudo das irmandades do San-
ressonâncias (auto)biográficas e patrimoniais tíssimo Sacramento: cultura artística e solenidades
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Clovis Carvalho Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa. Pro-
fessor no curso de Museologia e no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCINF) da Universidade
de Brasília (UnB) e no Programa de Pós-Graduação em Museologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Bolsista de
Produtividade em Pesquisa (PQ-2) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
E-mail: clovisbritto@unb.br

Rafael Lino Rosa é doutor e mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-
GO). Professor da Secretaria de Estado da Educação de Goiás (SEDUC). E-mail: barao.lino@hotmail.com

540 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 524-540, maio/ago. 2020
Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira

DOI:http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2020.v5.n14.p541-564

MEMÓRIAS DE UM TAMBORETE DE BAIANA:


AS MUITAS VOZES EM UM OBJETO DE MUSEU

Joseania Miranda Freitas


https://orcid.org/0000-0002-6133-2303
Universidade Federal da Bahia

Lysie dos Reis Oliveira


https://orcid.org/0000-0002-0754-2780
Universidade do Estado da Bahia

resumo Este texto, articulando literatura aos estudos sobre biografia dos su-
jeitos nos objetos, dá voz a um tamborete, peça do mobiliário do
Museu de Arte da Bahia, localizado na cidade de Salvador, na Bahia,
Brasil. Através das narrativas memoriais do tamborete, que aqui as-
sume a ficcionalidade de um objeto animado que dialoga, as autoras
discutem sobre a necessidade de revisão conceitual das exposições
de arte decorativa, alertando para a importância de ampliar as in-
formações relativas aos processos sociais relacionados à existência
das coleções.
Palavras-chave: Biografia dos objetos. Mobiliário. Tamborete. Museu.

abstract MEMORIES OF A BAIANA STOOL: THE MANY VOICES IN


A MUSEUM OBJECT
This text, articulating literature with studies on subjects’ biography in
objects, gives voice to a stool, a piece of furniture from the Bahia Art
Museum, located in the city of Salvador, in Bahia, Brazil. Through the
stool’s memorial narratives, which here assume the fictionality of an
animated object that dialogues, the authors discuss the need for a
conceptual review of decorative art exhibitions. They alert to the im-
portance of expanding information in regard to the social processes
related to the existence of collections.
Keywords: Biography of objects. Furniture. Wooden stool. Museum.

resumen MEMORIAS DE UN TABURETE BAIANA: LAS MUCHAS


VOCES EN UN OBJETO DE MUSEO
Este texto, que articula literatura a los estudios sobre biografía de
los sujetos en los objetos, da voz a un taburete, un mueble del Museo

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 541-564, maio/ago. 2020 541
Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu

de Arte de Bahía, ubicado en la ciudad de Salvador, Bahía, Brasil. A


través de las narrativas memoriales del taburete, que aquí asume la
ficcionalidad de un objeto animado que dialoga, las autoras discuten
sobre la necesidad de una revisión conceptual de las exposiciones
de arte decorativo, alertando sobre la importancia de expandir la
información relacionada a los procesos sociales relacionados a la
existencia de las colecciones.
Palabras clave: Biografía de objetos. Mobiliario. Taburete. Museo.

Sobre biografia de objetos em


museu
Quando uma pessoa morre,
ninguém cuida da tristeza dos móveis!
(DIOME, 2008, p. 9)

Inspiradas pela leitura de Kétala, da escrito- tivo sem sua referida “dona”. Ocupa, hoje, um
ra senegalesa Diome (2008), as autoras desta novo lugar, em sala representativa das ricas
reflexão encontraram um caminho para auto- casas da Bahia colonial e imperial, ao lado de
rizar a “fala” de um tamborete de baiana per- outro móvel (preguiceiro), como se vê na ima-
tencente ao Museu de Arte da Bahia (MAB), lo- gem a seguir.
calizado na cidade de Salvador. O romance de
Figura 1 – Preguiceiro. Jacarandá e Palhinha, Bahia,
Diome narra, de forma ficcional, diálogos entre
século XIX e Tamborete de baiana, Sebastião de
objetos inanimados (móveis e demais objetos
Arruda, Jacarandá e Palhinha, Bahia, século XIX - 2ª
pessoais) acerca da vida de sua recém-falecida metade. (MAB, 1997, p. 319 e 310).
proprietária enquanto aguardam a cerimônia
do Kétala, na qual serão partilhados entre os
familiares da protagonista da obra.
À inspiração de Diome foram acrescidas,
principalmente, reflexões de Ingold (2018, p.
12), que aborda as relações de seres huma-
nos e não humanos, que: “[...] estão constan-
temente nos inspirando, nos desafiando, nos
dizendo coisas.” O móvel aqui em questão, o
tamborete de baiana, nos chamou atenção
ao refletirmos sobre o centenário do MAB,
em 2018, quando elaboramos um texto para Foto: Sala de exposição do MAB. Acervo das autoras, 2019.
sua publicação comemorativa. Despertamos
para a potência informacional dos objetos e, As poucas informações oferecidas ao pú-
mais especificamente, deste tamborete, dito blico na etiqueta, encontradas nas fichas de
“de baiana”, que está em um espaço exposi- documentação do Museu, e as do catálogo

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Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira

institucional, nos intrigaram a ponto de in- Figura 2 - Tamborete de baiana.


citar uma investigação que trouxesse mais
elementos sobre esse pequeno móvel. O ma-
terial levantado condiz com a possibilidade
de torná-lo protagonista, locutor de suas pró-
prias memórias, entrelaçadas num conjun-
to especial de referências que passam pela
História, Antropologia, Museologia, Litera-
tura, Sociologia. Levantamos aqui indícios e
argumentos para um texto não ficcional, sem
abandonar, todavia, o universo sensorial e um
tanto de imaginação, na pista que nos oferece
o filósofo camaronês Mbembe (2018, p. 215),
para o qual não há memória que “[...] num
dado momento, não encontre sua expressão
no universo do sensível, da imaginação e da Foto: MAB, 1997, p. 310, fotógrafo Rômulo Fialdini.
multiplicidade”.
Outra importante fonte de inspiração nos Memórias de um tamborete por
foi oferecida pelo inglês Gell, que na obra “Arte
ele mesmo
e agência” afirma que “[...] os objetos de arte
equivalem a pessoas, ou mais precisamente, a Finalmente apareceram umas almas sensíveis
agentes sociais” (2018, p. 32). Sua teoria apoia- neste museu e me permitem falar! Hoje sou um
se no argumento de que: ser inanimado, mas já tive vida pulsante em
seivas vegetais, fui um ser vivo; é bem verdade
O ‘outro’ imediato em uma relação social não
que do reino vegetal, mas isso não me tirou a
tem de ser outro ‘ser humano’. Todo o meu ar-
gumento depende dessa negação. A agência
percepção de vida vivida como tamborete.
social pode ser exercida em relação às ‘coisas’, Na minha anterior condição de ser vivo e
assim como pelas ‘coisas’ (e também animais). na atual de inanimado habito, como diz In-
O conceito de agência social tem de ser formu- gold (2018, p. 63) sobre uma certa escada de
lado dessa maneira consideravelmente permis- madeira, na: “[...] zona fronteiriça não entre a
siva por razões empíricas, bem como teóricas. matéria e mente, mas entre substância e meio.
Acontece, claramente, que as pessoas formam
A madeira está viva, ou ‘respira’, precisamen-
relações sociais com as ‘coisas’ [...] (GELL, 2018,
te por causa do fluxo de materiais através da
p. 32)
sua superfície”. A romancista Fatou Diome e os
Esta dimensão de “agência” permitiu com- antropólogos Ingold e Gell são os principais
preendê-la como anima, oferecendo a possi- inspiradores para que eu, uma peça de museu,
bilidade de “fala” ao móvel de madeira, tendo possa “voltar” à vida, já que parte dos “[...] flu-
como ponto de partida a sua materialidade im- xos geradores do mundo de materiais no qual
plicada aos aspectos imateriais. Assim sendo, [as coisas] vieram à existência e continuam a
passemos diretamente à “fala” do tamborete subsistir.” (INGOLD, 2018, p. 63).
de baiana ou, como é mais conhecido, “ban- Sinto-me autorizado, então vou me apre-
quinho de baiana”. sentar, afinal, sou de um tempo em que os

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bons modos eram muito bem ensinados, disso tico, se assim posso chamar, junto a duas obras
tenho memória, assim como de muitas outras de arte sacra que o meu proprietário, Hercílio
coisas que vou lhes contar! Diferentemente de Souza Pimentel, vendeu ao Museu do Esta-
dos móveis e demais apetrechos narrados por do, hoje Museu de Arte da Bahia (MAB), no dia
Diome (2008), terei o privilégio aqui de falar 9 de junho de 1948, conforme consta nos pare-
sozinho e já os convido a moverem-se comi- ceres de compra exibidos abaixo, gentilmente
go pelas temporalidades, passado e presente. cedidos pelo setor de Documentação do MAB.
Convocarei personagens que me ajudarão a Como podem observar fui a peça mais cara, no
contar algumas das muitas histórias que esta valor de quinhentos cruzeiros, enquanto a ima-
minha vida de tamborete permitiu testemu- gem de Nossa Senhora das Candeias, em barro
nhar e muito aprender.... Mas, mesmo assim, cozido, do século XVII, custou cem cruzeiros e a
será uma narrativa lacunar, pois hoje não pas- imagem de S. Francisco, em cedro, jacarandá e
so de um silenciado objeto. marfim, do século XVIII, custou trezentos e cin-
Como peça de museu tive o meu rito iniciá- quenta cruzeiros, a moeda daquele período.

Figuras 3 - Documentos de compra de acervo do MAB.

Fonte: MAB - Ficha do Setor de Documentação.

Notem que no parecer nº 21 sou chamado me adjetivou como “pequeno” mocho de ven-
de mocho1 de crioula, feito em madeira gon- dedeiras - como eram chamadas as vendedo-
çalo-alves2, jacarandá e palhinha. Já na minha ras em Portugal; já no Brasil do século XIX elas
primeira ficha, que assinala, de fato, minha eram também conhecidas como ganhadeiras,
entrada no Museu, recebi o número de identi- disso falarei mais adiante. Nesta ficha, em
dade 48.25, que permanece comigo. O registro lugar do gonçalo-alves com jacarandá verifi-
caram que sou feito de sebastião-de-arruda,
1 Mocho, também conhecido como banquinho, escabe- jacarandá e palhinha. Fui assim descrito pelo
lo ou tamborete, conforme Tilde Canti: “Assento in-
dividual de tampo quadrangular com quatro pernas diretor do museu, José Valladares, no dia 15 de
travadas, sem encosto e sem braços. [...] no século junho de 1948:
XVIII mocho seria sinônimo de escabelo [...] No Brasil
encontramos o termo como sinônimo de tamborete Pequeno mocho de crioulas vendedeiras.
raso.” (CANTI, 1999, 259, grifos da autora).
2 “Árvore da família das anacardiáceas, madeira de lei Sebastião de Arruda, jacarandá e palhinha.
do Brasil, parda, com veios escuros.” (CANTI, 1999, 257). Bahia, seg. met. sec. XIX. Alt. 0,18 - comp. 0,24.

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Móvel de estilo Segundo Império, com in- cortado em ogivas, de superfície côncava e es-
fluências vitorianas do ‘Gotic revival’, Ainda é cavada e ligadas por pilastras terminadas em
usado pelas vendedeiras da cidade, mas sua bilro. A peça tira partido do contraste entre a
delicada e paciente confecção indica o século cor avermelhada do Sebastião de Arruda e o
XIX como data deste exemplar. Assenta sobre arroxeado do jacarandá – no bilro da aranha,
quatro pernas torneadas, entre si ligadas por no bordo do assento, nas pilastras e bilros do
aranha em x, também torneada, com bilro or- babado. Mocho semelhante foi publicado por
namental no centro. O assento de palhinha, Almeida Santos, com a mesma classificação,
tem bordo liso, ligando as pernas babado re- fig. 19.

Figuras 4 e 5 - Primeira ficha de documentação do tamborete, frente e verso.

Fonte: MAB - Ficha do Setor de Documentação.

Como obra de referência para minha clas- Figura 6 - Ilustração SANTOS, 1944, p. 95.
sificação, José Valladares, o autor da minha
ficha, utilizou como fonte o livro “Mobiliário
artístico brasileiro”, de José de Almeida San-
tos, edição de 1944, que traz na p. 95 a ilustra-
ção número 19, que destaca a presença de um
assemelhado tamborete, provavelmente um
parente meu, que teve destino semelhante, ou
seja, também estava numa sala compondo um
cenário com um outro móvel: uma mesa de jo-
gos, com característica de estilo do século XIX
no Brasil, o estilo Império, tal como o pregui-
ceiro que me acompanha.
Observem como esse tamborete é descrito
(copiei, mas deixei a escrita como a daquele
tempo):

[...] O pequeno mocho que vemos ao lado da


mesa é do estilo Império e eram encontrados
na Baía, servindo de assento às ‘baianas’ de
taboleiro. A roda da sáia da vendedora de qui-
tutes fórma em largo círculo e ela cruza as per-
nas na posição de Budha, permanecendo horas
seguidas na atitude que nós não resistiríamos
sinão por momentos. (SANTOS, 1944, p. 95) Foto: Lúcia Valois, bibliotecária MAB, 2019.

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Ao me deparar com essa descrição fui em A segunda foto (figura 8), pertencente à
busca de imagens para que vocês tivessem “Coleção Ubaldo Senna Filho”, foi enviada por
ideia de como eu e meus “parentes” éramos Daniel Rebouças, através de correio eletrôni-
utilizados. Encontrei as imagens que estão na co, com a informação de que esta imagem e
sequência (figuras 7 e 8) com baianas sentadas uma outra (não publicada aqui) datam: “[...] de
em tamboretes, publicadas na página do pes- 1902 e fazem parte dos registros do fotógrafo
quisador Daniel Rebouças3, na rede social “Ins- chamado de Mercier, que esteve aqui em uma
tagram”. O pesquisador destaca o mercadejar excursão da marinha francesa.” (REBOUÇAS,
nas ruas da Salvador nos anos 1920: 2019a).
Na foto, além do importante registro de
Mercadejar na rua. Salvador, cerca de 1920. [...]
Membros da Marinha dos EUA, em viagem pela uma cena de mercado no início do século XX,
América por causa da Primeira Guerra Mundial, com muitas vendedoras e vendedores e seus
não tiveram como não registrar tais personas. produtos, destaco as senhoras na parte infe-
[...]. Créditos: [...] The Vendor. Série ARA, (local rior à esquerda, que estão sentadas em tam-
não identificado). C. 1920. Library of Congress,
boretes, meus antigos “parentes”.
New York City. (REBOUÇAS, 2019b)

O que mais me impressionou foi ter en- Figura 8 - “Le Marché”, fotografia de Mercier.
contrado uma senhora exatamente na posição (Bahia [...], 1902).
descrita por Santos (1944, p. 95): “[...] A roda da
sáia da vendedora de quitutes fórma em largo
círculo e ela cruza as pernas na posição de Bu-
dha, permanecendo horas seguidas na atitude
que nós não resistiríamos sinão por momen-
tos.” - conforme a figura 7.

Figura 7 - “The vendor”, Série ARA, (local não iden-


tificado). c. 1920. Library of Congress, New York City.
(The vendor [...], c. 1920).

Foto: Coleção Ubaldo Senna Filho.

Memórias de um tamborete:
sobre a minha serventia
Diome (2008, p. 272) diz no seu romance que
“[...] a honra de um móvel é servir [...]”. Disso
posso falar, e com prazer, mas vou começar
lembrando o que o museu fala sobre a minha
Foto: Disponível em: https://www.instagram.com/ serventia: “Servia para descansar, ou mesmo,
daniel.reboucas.historia/ para pousar a cesta” - como aquele meu “pa-
rente” ilustrado no livro de Santos (1944) e nos
registros fotográficos anteriores, nós, os pe-
3 https://www.instagram.com/daniel.reboucas.historia/ quenos tamboretes ou mochos, também ser-

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vimos para sentar. Vocês, humanos, não têm Com esse dinheiro muitas compraram a sua
dimensão do que fazem com os objetos. Sobre liberdade, amealharam somas e bens que em-
essa relação dos humanos com os objetos é pregaram na educação dos rebentos ou desti-
ainda Diome que me ajuda a explicar: “[...] Eles naram a parentes e ajudantes após sua morte.
todos sabiam que quando os humanos veem A rua era um espaço muito importante,
uma cabaça quebrada ou um velho prato ra- pois, como também lembra Soares (1994, p.
chado, nem sonham as comidas suculentas 2): era onde elas podiam ter “[...] possibilida-
que puderam conter” (DIOME, 2008, p. 272). O des de vida mais autônoma.” Sobre a autono-
dito popular lembra que: “pirão comido é pirão mia dos seres humanos escravizados, Achille
esquecido”, mas isso vale não somente para os Mbembe, pontua que a humanidade “[...] é, por
pratos e talheres, mesas e cadeiras... força das coisas, uma humanidade sustada,
Voltando à minha serventia, como chama em luta para sair da fixação e da repetição, de-
atenção Ingold (2018, p. 102), “[...] as funções sejosa de entrar num movimento autônomo de
das coisas não são atributos, mas narrativas. criação” (2018, p. 94, grifos do autor). No caso
Elas são as histórias que contamos sobre elas”. das ganhadeiras e demais trabalhadoras e tra-
Histórias não me faltam aqui para contar, pre- balhadores dos chamados cantos de trabalho,
ciso somente organizar um pouco os assuntos, as vi criando diversas formas para ascender
pois, afinal, fiquei muito tempo calado, memó- às mínimas condições de sobrevivência na so-
rias se misturam e para que vocês creiam em ciedade escravista, chegando muitas vezes à
mim terei que continuar apresentando docu- aquisição da liberdade pela via da prática dos
mentos e referências que certifiquem as mi- ofícios4.
nhas narrativas, buscando significados, pois A cidade de Salvador e seus acervos, com
estes não chegam à minha memória prontos. suas memórias e histórias, possuem marcas
Como bem lembra Ingold (2018, p. 102): “[...] os indeléveis da construção das riquezas e opu-
significados das estórias não vêm prontos do lências, baseadas no trabalho escravo. Não tem
passado, incorporados em uma tradição está- como apagar as memórias do trabalho escravo.
tica, fechada”. Vejam bem em que situação me encontro! Eu,
Vamos ao exercício de lembrar das minhas um pequeno mocho ou tamborete de vende-
primeiras funções, já que no MAB estou expos- deiras, hoje faço parte de um cenário de salão
to na última função. No tempo em que, de fato, requintado, que lembra as casas senhoriais,
eu era um tamborete de baiana - ou de criou- exatamente no local que antes esteve fincado
la vendedeira -, em geral eu era carregado ao o “[...] palacete do rico negociante de escra-
lado do corpo de belas mulheres africanas ou vos José de Cerqueira Lima” (MAB, 1997, p. 12)
brasileiras (às vezes, nem sempre só mulhe- - quantas voltas a vida dá! Que ironia do des-
res), posição em que, além de escutar muitas tino, não? Depois de ter saído das ruas com as
conversas nos caminhos, becos e ruas desta vendedeiras terminei habitando esse cenário.
cidade, eu podia apreciar a paisagem. Sobre Há, no entanto, na minha trajetória de
essas belas mulheres, escreveu a professora vida de tamborete, como coisa-objeto-arte-
Cecília Moreira Soares (1994, p. 49): “As escra- fato, uma perversa identidade com os seres
vas ganhadeiras, como se chamavam, eram humanos escravizados, pois eram também
obrigadas a dar a seus senhores uma quantia 4 Mais sobre este assunto, pode ser encontrado na obra
previamente estabelecida, a depender de um de Lysie Reis (2012): “A liberdade que veio do ofício;
práticas sociais e cultura dos artífices da Bahia do sé-
contrato informal acertado entre as partes”. culo XIX”.

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considerados “coisas” para aqueles que de- dessas mulheres negras trabalhadoras, escra-
tinham o poder econômico e político. As re- vizadas, livres e alforriadas. O costume do uso
flexões de Mbembe (2019, p. 30) ajudam a me- de banquinhos, como eu, foi citado por Rocha5
lhor explicar: “[...] Dado que a vida do escravo (1977):
é como uma ‘coisa’, possuída por outra, sua
As mulheres sudanesas possuem pequenos
existência é a figura perfeita de uma sombra bancos como objetos de uso pessoal. Condu-
personificada”. zindo-os por todas as partes para onde se des-
Entre “coisa” e “sombra personificada”, das loquem, no seu trabalho, comércio e obrigações
ruas cheguei ao meu proprietário, Hercílio de de ordem social. O hábito de carregar o próprio
banco foi conservado na Bahia, como prática
Souza Pimentel, que me vendeu no ano de
dos escravos que não tinham assento nas igre-
1948. Isso é o mais longínquo que posso chegar jas e, já em nossos dias, em caráter popular,
através das fontes documentais. Resta, então, pelas baianas vendedoras de iguarias em tabu-
muito por elucidar! Há mais, muito mais, mi- leiros. (ROCHA, 1977, p. 12)
nha última funcionalidade dá pistas de como
Bom saber isto, não é mesmo? Eu não es-
nós, pequenos mochos, nos tornamos bancos
tava sozinho, nem nasci para ser banquinho
auxiliares para melhorar a ergonomia das pes-
de salão, ainda que eu tenha muitos parentes
soas ao sentar-se. O museu explica: “[...] Com
nesta função, muitos mochos e banquinhos
o passar do tempo foram integrados ao mo-
auxiliares, para ajudar as pessoas no subir
biliário da casa servindo de apoio aos pés”
e descer, ou mesmo para colocar os pés e se
(MAB, setor documentação). Desculpem, mas
sentirem mais confortáveis nas marquesas, di-
assim parece muito fácil! Desculpem o lingua-
vãs, canapés e todo tipo de sofá, que existia
jar, assim não pode ser! Assim tão simples! Di-
antigamente e ainda hoje. É uma função mui-
zer que fomos integrados e pronto. Será? Com
to importante, disso me orgulho, não reclamo!
a ajuda de Ingold (2018, p. 103) pode-se ir além
Gosto do lugar que ocupo, gosto de ajudar as
na compreensão de que “[...] funcionalidade
pessoas! Mas, como saímos das ruas para os
e narrativa são dois lados da mesma moeda”.
salões?
Minha funcionalidade inicial está atrelada ao
Queixo-me dos segredos sobre a minha
corpo das baianas. Sobre esta categoria, o cor-
história. Há ainda questões a levantar, afinal,
po, Ingold diz: “[...] é tanto biográfico quanto
é a primeira oportunidade que tenho para fa-
autobiográfico”.
lar depois de anos de sossego museal, depois
Por este viés, é difícil me ver sozinho no
de tantos anos na euforia das ruas, conviven-
ambiente, pois na maioria das vezes estive
do com os mais deliciosos cheiros dos quitutes
com outros corpos, que estão para além das
das baianas. Tampouco tive notícias do meu
medidas que apresento. A meu lado estiveram
amigo tabuleiro, éramos praticamente “unha e
vendedeiras, baianas ou ganhadeiras. Dessa
carne”. Bastou me autorizarem a falar já estou
forma, me sinto adequado, mas “fora do lu-
atropelando os assuntos. Mas, compreendam
gar”, exposto nos salões das ricas casas. Onde
a minha situação de anos de silêncio... Não
estão as lindas baianas que me usavam para
lhes parece natural que muitos assuntos sal-
suas vendas nas ruas? Será que elas pergun-
tem de uma só vez?
tam por mim? Hipoteticamente fui elaborado
Agora que sabem como me tornei peça
na segunda metade do século XIX, mas não
desse museu, continuarei minhas histórias.
carrego somente características do período,
posso ter acompanhado algumas gerações 5 Foi diretor do Museu entre 1959 e 1974. (MAB, 1997).

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Hoje, exposto na sala do século XIX do Mu- Memórias de um tamborete:


seu de Arte da Bahia, no primeiro andar desse
sobre minha feitura
imponente casarão conhecido como “Palácio
da Vitória”6, depois daquela primeira ficha de Os artífices que me fizeram, com suas mágicas
documentação, na etiqueta da exposição e no mãos, possivelmente falavam sobre o lugar de
Catálogo publicado em 1997 passei a ser cha- onde as palhinhas tinham vindo, pois vieram
mado de “Tamborete de baiana”: de um lugar muito longe, que nem sequer o
Atlântico passava por lá. Fica do outro lado da
TAMBORETE DE BAIANA - Sebastião de arruda,
África, no Oceano Índico, num lugar chamado
Jacarandá e Palhinha, Bahia, século XIX - 2ª me-
tade - 18 x 24 x24 cms. Conhecido como ‘ban- Índia, onde os portugueses aprenderam mui-
quinho de baiana’, era originalmente carregado tas técnicas e puderam observar e absorver
pelas mulheres quando iam à rua vender ali- um manancial artístico deslumbrante, que os
mentos. Servia para descansar, ou mesmo, para influenciou a elaborar o famoso barroco por-
pousar a cesta. Com o passar do tempo foram
tuguês, segundo a estudiosa do mobiliário lu-
integrados ao mobiliário da casa servindo de
so-brasileiro Canti (1999):
apoio aos pés. (MAB, 1997, p. 310, grifos do autor)
Da Índia vem o emprego de colunas internas va-
Acredito, assim como Ingold (2018, p. 67, zadas e esculpidas à moda de marfim entalhado
grifos do autor), que é importante ter informa- [...] Do intercâmbio entre Portugal e as Índias,
ções sobre os materiais que compõem o mobi- surge, no panorama do mobiliário quinhentista
liário, pois “[...] devemos, mais uma vez, levar europeu, o estilo indo-português. [...] artífices
os materiais a sério, pois é a partir deles que (sambladores e marceneiros) portugueses vão
para Goa e Málaca, alguns lá permanecendo e
tudo é feito”.
outros voltando para Portugal com inovações
Agora vocês têm as primeiras noções sobre para a decoração e a estrutura do móvel. [...]
quem sou eu, sabem que fui feito com dois ti- Entre as principais características dos móveis
pos de madeiras, sendo a mais avermelhada indo-portugueses assinalam-se a utilização do
o “sebastião-de-arruda” e a mais arroxeada encaixe e de espigões de madeira (tarugo) re-
sultando na ausência total de pregos e colas [...]
o “Jacarandá” e que também levo “palhinha”
(CANTI, 1999, p. 22, grifos da autora)
no meu assento, o que não somente me dei-
xa mais leve para o ofício a que fui destinado O uso da palhinha é resultado de um co-
como também, acreditem, me deixa mais ele- mércio triangular (Índia, Portugal e Brasil), em
gante. Ou vão discordar? Desculpem a falta de que intensas relações intercontinentais foram
modéstia, mas preciso aproveitar para exaltar travadas para a difusão de técnicas e estilos
as minhas qualidades. artísticos. Foi usada em todos os estilos do pe-
Voltando às palhinhas, são muitas as histó- ríodo em que os portugueses mandavam nes-
rias que essas tramas vegetais poderiam con- tas terras brasileiras, quero dizer, no período
tar, sobre como e onde foram entrelaçadas ao colonial e mesmo depois, no Brasil império,
meu corpo de duas madeiras, mas, infelizmen- como é o meu caso, datado da segunda meta-
te, essas memórias não as possuo, pois, geral- de do século XIX. Mesmo sem exatidão quanto
mente, este tipo de informação não é oferecida à data, as minhas características se aproxi-
quando uma peça é adquirida pelos museus. mam dos móveis “[...] de estilo Segundo Impé-
rio, com influências vitorianas do ‘Gotic revival’
6 O Museu passou a ocupar o casarão, em 5 de novem-
[...]”, como bem marcou o Valladares (1948). O
bro de 1982, na gestão do artista visual Emanoel Araú-
jo, entre os anos 1979 e 1983. (MAB, 1997). final do século XIX e o início do século XX de-

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ram novas luzes a velhos estilos, numa pers- Outra confissão, já que me autorizaram: pa-
pectiva de Ecletismo. É preciso não perder de rece que a história da minha vida ficou “estag-
vista a recomendação de Ingold de que: “Ne- nada” quando eu entrei neste museu e, como
nhum objeto considerado puramente em si e escreveu Alberti (2005), que defende que a in-
por si, em termos de seus atributos intrínsecos corporação de uma peça ao museu seja “[...]
apenas, [...] Descrever uma coisa [...] é colocá talvez, o evento mais significativo [...].” (p. 565),
-la em relação com outras coisas [...]” (2018, p. então, é sobre isso que quero falar e saber
101, grifo do autor). mais. Como deixei de ser acompanhante de
Da palhinha já falei, bem como, rapidamen- belas damas rua abaixo, rua acima e fui parar
te, das madeiras, mas não falei das técnicas em- num salão da elite baiana? Como disse lá no
pregadas no trabalho de talha e torno que me início, graças ao parecer nº 21 sei como adquiri
embelezam. Talvez alguém se incomode por eu esse status tão importante de peça de museu,
ser tão envaidecido, mas peço que compreen- fui vendido pelo meu proprietário, valendo
dam, pois, afinal, tenho muitos anos de exibição mais que peças de arte sacra (confesso que
pública, nos quais pessoas e grupos enaltece- isto também me envaidece)!8
ram as minhas aparências, fazendo com que Para que vocês saibam de fato quem sou,
me tornasse assim um tanto quanto vaidoso. será preciso saber mais do que a minha mate-
Me permitam, ao menos neste texto em que as rialidade de objeto de museu. Guardo apreço
autoras autorizaram a minha fala, que eu deixe pelos meus criadores, as mãos que me fize-
escapar as regras do uso de adjetivos! ram, me venderam, e pelas mulheres que me
Trago incorporado a junção de importan- usaram para suas vendas e de tantas outras
tes traços estilísticos, a exemplo dos arcos de maneiras. Essas pessoas, sim, tiveram suas
recorte ogival7 nas abas, formato que também subjetividades, singularidades e pluralidades,
se fazia presente nos tabuleiros, na arquitetu- que estão incorporadas a mim. Desses assun-
ra, na louça e em estampas diversas. Falando tos também os museus podiam falar, partindo
das minhas formas, pergunto, pois já não sei dessas características que estão além da ma-
mais: o que se conta sobre aquelas pessoas terialidade, que esteve impregnada naquelas
que produziram os meus torneados, as par- mãos que me elaboraram e me usaram, e tam-
tes talhadas e os trançados de palhinha? Que
bém naquelas que me levaram para o MAB. E lá
eu fui feito na Bahia está dito, mas onde teria
dentro, quantas e quantas mãos me tocaram,
sido: Salvador ou no Recôncavo? Essas e ou-
estudaram, escreveram sobre mim? Afinal,
tras questões são mesmo difíceis de explicar.
como bem salienta Ingold: “As coisas são as
É engraçado, os museus, não somente o que
suas relações” (2018, p 119, grifo do autor). Se-
habito, pouco falam sobre as pessoas que pro-
guramente, a minha história institucional está
duzem os objetos. No entanto, algumas infor-
repleta de memórias das muitas pessoas que
mações são apresentadas no capricho, como
se responsabilizaram por minha documenta-
as minhas medidas, dados que vocês, huma-
ção, conservação, exposição e ações educa-
nos, salvo esportistas e modelos, não gostam
tivas. Seria bom que vocês pudessem saber
muito de revelar.
e compreender quais foram os mecanismos
7 O verbete, “ogiva” começou a ser usado a partir do que fizeram com que eu me transformasse em
século XVIII para designar o formato, com algumas
variações que foram chamadas de arco ogival, arco acervo museal.
de ogiva e, até mesmo, arco quebrado. No século XIX,
com o ecletismo a ogiva gótica foi usada na arquitetu- 8 Mais um assunto importante a ser elucidado, quais os
ra e demais artes. critérios da precificação aquela época.

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Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira

Moles (1972, p. 77) me ajuda a explicar o que da “biografia cultural das coisas”, proposta pe-
quero dizer, ao afirmar que: “em resumo, o mu- los antropólogos Appadurai (2008) e Kopytoff
seu é distanciado, frio, racional, longínquo, ele (2008). Nessas biografias é possível explicitar
nos afasta do universo cotidiano do objeto, que e reconhecer as diversas memórias e vozes re-
é o que nos interessa [...]”. É mesmo uma pena veladoras de identidades dos sujeitos produ-
que os museus, no geral, ofereçam tão pouco tores, consumidores e preservadores, quer no
ao público visitante. Falando do meu caso, as passado, quer no presente.
informações disponíveis ao público têm priori- A minha historicidade de objeto só tem
zado uma apreciação dos aspectos hegemôni- sentido articulada à dimensão humana, isso
cos, cristalizados no período áureo das casas não pode ser esquecido, por mais que me en-
das elites, com base no modelo colonial, já no vaideça ao estar autorizado a falar. Vocês têm a
Brasil império, sem as devidas contextualiza- possibilidade de nos estudar através da pers-
ções, salvo nas visitas guiadas que, tenho que pectiva de acervo museal, construindo análi-
fazer justiça, as turmas do setor educativo ca- ses sobre as biografias de sujeitos, através de
pricham, explicam direitinho! Quanto a esse nós, objetos, que via materialidade podemos
tipo de prática expositiva, já foi muito criticada revelar práticas do saber-fazer das artes me-
pela museologia, e novas práticas estão sendo cânicas, numa dinâmica entre o passado e a
postas em diversos museus, mas, os museus contemporaneidade do mobiliário.
de arte decorativa, notadamente, são mais A cidade do Salvador, como primeira capi-
resistentes às novas abordagens, exatamente tal do país, teve um importante papel na pro-
pela natureza dos seus acervos, atrelados ao dução das artes e ofícios entre o período colo-
sistema econômico colonial escravista9. nial e o imperial, e parte dessa produção, re-
lativa ao mobiliário, encontra-se em museus,
Memórias de um tamborete: a exemplo do MAB, que tem um significativo
acervo que comprova a habilidade das produ-
a experiência de me (auto)
ções lusas e baianas. Este tipo de produção na
biografar, entrecruzando arte mobiliária, remanescente do passado, ou
anônimas histórias está musealizado ou em acervos particulares,
A produção mobiliária de anônimos sujeitos, ou mesmo à venda em antiquários. Nós, mó-
encomendada para as residências das ricas fa- veis desta categoria, não fomos produzidos
mílias da Bahia colonial e imperial, com seus em grandes séries, como faz hoje a indústria
grandes salões e quartos faustamente mobi- moveleira, somos objetos que, no passado, es-
liados, se transformou em um dos mais impor- távamos no cotidiano e hoje nos é atribuído o
tantes acervos do MAB. Eu e os demais objetos status de raridade.
artísticos utilitários nos transformamos na ca- É preciso considerar que a nossa história,
tegoria “objetos de arte decorativa”, em “pa- de móveis de museus, está para além da mera
trimônios musealizados”. No entanto, muitas vinculação aos estilos e à patrimonialização
vezes, se esquecem que carregamos, intrinse- que recebemos como cultura material vincu-
camente, potencial para muitas investigações, lada ao patrimônio imaterial. A nossa história
como apontam os estudos sobre a construção está ligada aos dons individuais de sujeitos e
suas práticas sociais. Alguns indivíduos consa-
9 Mais informações sobre esta temática podem ser en-
gravam-se por terem determinados requisitos,
contradas no artigo: “Escravidão: tema tabu para os
museus de arte decorativa” (FREITAS, 2019). tais como o conhecimento de modelos clássi-

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 541-564, maio/ago. 2020 551
Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu

cos, destreza nos desenhos, ou ainda a pró- banquinho de baiana, também se incluíam or-
pria origem, como foi o caso, por exemplo, de natos, detalhes e um repertório simbólico que
alguns estrangeiros que haviam frequentado envolve tanto a criação como a adaptação de
liceus de artes em seus países e aqui se apre- formas, vocabulários estilísticos, escala e co-
sentaram ou foram recebidos como artistas. res nessa produção artística que compunha
Mesmo diante da ausência desses profis- ambientes que denotam e identificam o que
sionais, não faltavam móveis e artefatos10 que pode ser apreendido como popular, mas não
expunham um nível elevado de conhecimento isolado do erudito, visto que com ele dialoga.
técnico e artístico. Na maior parte deles, artis- Sobre isso me parece interessante o conceito
tas, artífices e operários deram conta do tra- de circularidade cultural, presente nas obras
ço e da execução, embora, em muitos casos, de Mikhail Bakhtin (1987) e Carlo Ginzburg
sua produção não se pautasse rigidamente (2006), que julgo adequado a esta análise,
nos cânones, nas regras e nos tratados artís- uma vez que propõem a ideia de que as clas-
ticos. Para essas tipologias, recorria-se à có- ses subalternas, ao entrarem em contato com
pia de modelos estrangeiros. No entanto, foi a cultura das classes dominantes, filtram ele-
em maior dimensão que os artífices brasileiros mentos desta, reelaborando-a a partir de suas
executaram os requintados detalhes do barro- próprias tradições.
co, do rococó e do neoclássico, no mobiliário, O conhecimento dos mestres artífices das
nos pisos de madeira com desenhos rebus- artes mecânicas respondia às necessidades
cados em várias cores, tetos com entalhes e dos que os contratavam, e este público não
pinturas, portas de jacarandá delicadamente era somente composto por quem possuía mui-
esculpidas etc., conforme apresenta Lysie Reis to dinheiro. Flexor (1974, p. 55) afirma que no
em suas obras (REIS, 2012 e 2019). Rio de Janeiro, “[...] combatia-se a distinção
Os corpos de sujeitos trabalhadores(as), entre ‘mechanicos’ e os ‘liberais’ considerando
muitas vezes reduzidos à condição de “mão que ‘todas as artes uteis sam tanto mais no-
de obra”, que deram conta dessa produção, bres quanto mais necessárias para a mantença
também estiveram diretamente envolvidos da sociedade’”. Quase na virada do século, os
com a produção da arquitetura e dos artefa- dicionaristas Carvalho e Deus (1895) definiram
tos das edificações destinadas à habitação, ao arte como “[...] um conjunto de regras para fa-
comércio e a outros usos. Por ter sido adapta- zer alguma coisa”.
da aos materiais disponíveis, ao clima e à mão A investigação sobre o que produziu deter-
de obra que se formava, não teve um caráter minado grupo permite conhecer sua cultura, e
internacional. Conquanto, não segue regras vice-versa. Como postula Baxandall (1991), em
clássicas, essa produção promoveu, ao longo seu estudo sobre pintura e experiência social
do tempo, uma reelaboração dos estilos ditos na Itália da Renascença, as formas e os estilos
acadêmicos ou eruditos. refletem o ambiente social e os modos de ver
Como resultado disso, no mobiliário mais de uma época. No entanto, tradicionalmente, a
popular, como foi o meu caso de tamborete ou historiografia sobre a História da Arte no Brasil
10 Artefato pode ser definido tanto como o produto de tem se restringido, em grande parte, à análise
trabalho mecânico, objeto, dispositivo, artigo manu- de objetos decorativos na sua dimensão física
faturado quanto como aparelho, engenho, mecanis-
mo construído para um fim determinado. Artefato e/ou conceitual, e à análise dos artistas. Igual
aqui está relacionado às imagens, peças do culto sa-
situação ocorre no campo da História da Ar-
cro, telas e todas as demais formas de cultura mate-
rial ou produto deliberado da mão-de-obra humana. quitetura, dos arquitetos ou dos engenheiros

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Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira

oficiais. Deixaram-se de lado os executores: reproduzidas, utilizadas e guardadas. Por ou-


artistas, artífices e operários. Com isso, grande tro lado, a existência, permanência, ausência
parte da própria cultura artística do passado de nós objetos não se configura plenamente
é desconhecida, pois foi esse o contingente sem as imaterialidades dos humanos. Há uma
que produziu e continua produzindo a maior interdependência funcional, cognitiva e até
parte do que ainda é utilizado na história da mesmo memorial; somos utilizados para os re-
humanidade. Queria mesmo saber sobre o lu- meter ao passado.
gar onde “nasci”, sobre os sujeitos trabalha- Será preciso focar no conceito de circulari-
dores(as), com suas hábeis mãos que fizeram dade e na biografia dos objetos como pressu-
de mim um objeto tão útil, mesmo que agora postos teóricos metodológicos para elucidar,
esteja nessa posição de objeto de deleite, que se não totalmente, mas de forma a iluminar,
também gosto, não me queixo! Não sei exata- dados sobre a existência humana em nós ob-
mente onde fui criado, mas posso seguir falan- jetos. É para essas complexas e importantes
do sobre esse mágico universo do mobiliário fontes de informações que nós objetos po-
antigo de forma mais geral. demos oferecer que apontam as análises dos
O sistema de corporações de oficiais por- estudiosos Appadurai (2008), Kopytoff (2008) e
tugueses que deu origem ao brasileiro, ape- Gell (2018). São alguns dos muitos que têm in-
sar de congênere, não foi semelhante, visto vestigado o que vem sendo tratado como “bio-
que no país a abundância de sujeitos escra- grafia cultural das coisas”, que também pode
vizados(as), que durante três séculos conferiu ser definida como biografia social das coisas
outros rumos à história das corporações de -objetos. Essa é uma perspectiva teórico me-
ofícios, cuja existência e decadência estiveram todológica que se interessa pela variação, pela
intimamente ligadas à escravidão africana. Se, atribuição de significados às coisas não só a
parafraseando Tinhorão (1988), “Os negros em partir de sua forma, mas em como se deu a ex-
Portugal” foram “uma presença silenciosa”, o periência humana com tais objetos. Como foi
mesmo não pode ser dito sobre os negros no e é esse relacionamento? Especialmente, deve
Brasil, que ocuparam suas mãos com os ofícios interessar aos humanos as diversas posições
mecânicos e suas mentes com a organização sociais que objetos ocuparam em suas vidas.
de estratégias capazes de abrir interstícios e Isso implica, sob o ponto de vista do méto-
permear diversos setores sociais, inclusive do, num alargamento da atenção: em primeiro
aqueles que os excluíam. Buscaram, através da lugar, uma investigação à construção dos seus
união, obter fortalecimento, regalias, conheci- significados, suas representações sociais e
mento e, principalmente, usaram o ofício para graus de importância cotidiana para as classes
obter liberdades. sociais. Como bem lembra Appadurai (2008),
Ao considerar a “biografia cultural das coi- as coisas ou objetos têm uma vida social. Ao
sas”, tem-se como premissa que os objetos ou investigá-las, as pessoas poderiam nos per-
“coisas”, bem como os seres humanos, habita- guntar: por quais mãos passamos (execução
mos um mundo social no qual tudo que existe e circulação)? Como fomos usados? Como fo-
tem uma relação indissociável. Matérias, ou mos guardados? Muitos de nós passamos por
coisas, e pessoas são parte de um mesmo uni- tentativas de destruição (tantos sucumbiram!),
verso. Existem em relações dialéticas, coisas como tudo isso aconteceu? Se fomos arquiva-
(agora sem aspas) existem por causa dos seres dos e/ou musealizados, por quem? Por quê e
humanos, e para eles e por eles são criadas, como? Não seria um interrogatório rígido, mas

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Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu

um conjunto de perguntas poderia ser feito, ras, bancos, camas, canapés, cômodas, cofres,
afinal, a nossa materialidade oferece pistas arcas e mesas, é exibida sem contextualização
interessantes, já salientadas várias vezes por com o seu ambiente de produção: as fazendas
aqui. Esse é um trabalho necessário, pois nós de plantação da cana-de-açúcar, nas quais o
objetos oferecemos inúmeros indicativos de trabalho escravo era a força motora. Eu, meus
que temos muito a falar, muito mais do que companheiros móveis e demais objetos que lá
dizem as reduzidas descrições das etiquetas estamos, fazemos parte de cenários expositi-
museais. vos que unem peças remanescentes de espó-
Essas informações, entrelaçadas à pro- lios familiares. Muitos móveis foram parar em
dução de breves panoramas biográficos de antiquários, outros ainda habitam casas na
sujeitos que nos produziram, utilizaram, pre- capital e no interior, pois eram várias as casas
servaram e ainda preservam, seria uma tare- que os nobres da Bahia possuíam, como lem-
fa possível, acredito. Mesmo que não dê para bra Pinho (1982, p. 442)12
falar exatamente sobre quem me produziu, Não eram muito raros os casos de senhores de
possibilita compreender o ambiente da minha engenho possuírem, compostas e completas,
criação. Nós, objetos, sabemos que nem todos duas ou três residências, com todos os atavios.
temos o privilégio de biografias individuais, Vindo-lhes um novo engenho, por herança ou
compra, estava no brio do adquirente conser-
e nisso nos assemelhamos às pessoas, elas
var a ‘casa montada’, ou ainda que a não habi-
também não. A estudiosa espanhola Ángela
tasse, e escassamente a visitasse.
García Blanco (1994, p. 9), alerta que: “[...] cada
objeto tem, pois, qualidade pessoal, uma per- Foram necessários muitos móveis para
sonalidade própria, cada objeto se diferencia compor as muitas casas das elites baianas,
de outro e isto é tanto mais verdadeiro quan- mas os museus esquecem de dizer que essas
to mais nos distanciamos de nossa cultura in- elites não duraram para sempre, muitos no-
dustrializada”11. bres faliram, não permaneceram no apogeu
As hábeis mãos das pessoas que me cria- como sugerem os cenários expográficos, que
ram, assim como outros objetos que chegam nada falam dos processos de decadência das
aos museus, geralmente são invisibilizadas, elites nobiliárquicas, retratadas nas muitas
assim também são as demais pessoas com as ruínas no Recôncavo Baiano, como também
quais tivemos algum relacionamento. Aquelas salienta Pinho: “[...] Numerosos sobrados vie-
destacadas, de maneira geral, são os proprie- ram a arruinar-se abrigando apenas, por lon-
tários, e no nosso caso de móveis do MAB, a re- gos anos, um escravo velho de confiança, para
lação é sempre no masculino mesmo. A maio- guardar e vigiar o que ia dia a dia perecendo
ria de nós, mesmo tendo sido utilizado pelas [...]” (PINHO, 1982, p. 442).
esposas e filhas dos nobres, somos referencia- É mesmo uma pena que a nossa fala de
dos como pertencentes aos barões, condes e objetos não seja percebida por vocês, pes-
viscondes do Recôncavo açucareiro e da capi- soas humanas, pois poderíamos compartilhar
tal, Salvador. os testemunhos, como fizeram os objetos no
A riqueza do mobiliário, expressa em cadei- romance Kétala, bem exemplificada na fala da
Máscara, objeto que coordenou os diálogos
11 Tradução livre do original: “[…] Cada objeto tiene,
pues, una cualidad personal, una personalidad pro- 12 Nesta obra, publicada originalmente em 1946, são
pia, cada objeto se diferencia de otro y es tanto más apresentadas diversas ilustrações de objetos que
verdad cuanto más nos alejamos de nuestra cultura atualmente se encontram nos museus de arte deco-
industrializada.” rativa de Salvador.

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Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira

num determinado momento: “[...] visto não po- documentos, nos quais, correntemente, artí-
dermos impedir que os humanos nos disper- fices se intitulavam de artistas ao nomearem
sem, proponho que cada um de nós conte aos suas associações, escolas e a si próprios, de
outros tudo que sabe [...] Assim, cada um de acordo com Flexor (1974) e Leal (1996).
nós poderá partir para não importa que hori- No Brasil, o uso corrente dos dois termos
zonte, mas com a história completa da nossa fez com que permanecessem imbricados e que
defunta dona” (DIOME, 2018, p. 23). a imprecisão vigorasse ao longo do século XIX,
Assim como não sei como saí das ruas para seja pela dificuldade de especialização dos
os salões, tampouco sei detalhes sobre a mi- indivíduos ou pela constatação de que os ar-
nha manufatura, mas vou tentar fazer algumas tífices executores eram também os criadores.
aproximações, ainda que breves, com os sujei- A afirmação do renomado estudioso e artista
tos produtores do mobiliário no passado. Mes- Manoel Querino, de que “[...] a arte é a expres-
mo partindo de uma produção mobiliária anô- são de uma necessidade e não de um capricho”
nima, vou, com minha memória material e com (1913, p. 1) talvez seja a que melhor explicite a
a ajuda das referências selecionadas, falar so- visão que o sujeito das artes e ofícios tinha de
bre sujeitos marceneiros e sobre umas poucas sua atuação profissional.
marceneiras na Bahia dos séculos XVIII e XIX. Se o parâmetro para distinção entre artista
Espero que essas referências possam poten- e artífice fosse o ensino formal, no caso da ex-
cializar a força informacional que nós, acervos periência brasileira do século XIX poucos po-
museais, temos. Ou seja, espero que possam deriam receber a qualificação de artista, haja
criar mecanismos que explicitem as diversas vista a escassez de instituições de ensino des-
vozes que nos compõem, e quem sabe possam tinadas às artes. Além disso, os currículos de
oferecer novas interpretações sobre o patri- instituições educacionais voltadas para a for-
mônio mobiliário. mação do artífice evidenciam, no conjunto das
Desde que os portugueses chegaram à ci- disciplinas oferecidas, a intenção de dotá-lo
dade de Salvador - no início, oficiais lusos, e de uma capacidade tanto técnica quanto artís-
depois, no decorrer dos séculos, todo o tipo tica. Silva (1988) explica que para as camadas
de estrangeiro -, constituíram, junto com os abastadas:
brasileiros que se tornaram mestres, oficiais e
[...] o artista exercia mais uma função de lazer,
aprendizes, a mão de obra local para as “artes
enquanto o artífice o labor aplicado a uma ra-
e ofícios”. Já nessa época o termo ofício desig-
zão pragmática, não só do que produzia, mas
nava o exercício por obrigação de algum tipo também para que produzia, isto é, o sustento,
especializado de trabalho; o realizado manual- a sobrevivência. O que se pode explicar pelo
mente e/ou com auxílio de instrumentos era autodidatismo de artistas e artífices decorrente
conhecido como “ofício mecânico”. O “oficial da ausência de especialização sistemática. Em
geral, artesãos de maior ou menor talento. (SIL-
mecânico” também era chamado de “artista
VA, 1988, p. 25)
mecânico” ou artesão, derivando-se dessa de-
signação as denominações de artista e artífice, No início do século XIX, artífices bran-
verbetes que têm, entre dicionaristas dos sé- cos ainda prevaleciam como licenciados pela
culos XVIII e XIX, acepções sobrepostas. Câmara para atuar como mestres e, como ti-
Dicionaristas dessa época apontam, em li- nham escravos, os usavam como seus oficiais e
nhas gerais, que artífice e artista são termos aprendizes. Também trabalhavam com libertos
imbricados. Podemos constatar isso em seus e forros por “jornal”, o que significava um pa-

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Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu

gamento diário. Logo, ao adquirir conhecimen- Há exceções, como Freyre (apud VERGER,
to, os mais hábeis também se tornaram mes- 1981, p. 221), segundo o qual os escravizados
tres e foram em busca de liberdade. Concomi- não só carregavam as ferramentas, como tam-
tantemente a essa nova situação do século XIX, bém preparavam as tintas e “[...] os senhores
a competição gerada pela intensa presença de quase não sujavam os dedos”. Por outro lado,
homens “de cor” (expressão do período) ocu- dentre os estudos consultados, muitos garan-
pando postos de trabalho diminuía o status tem que não era por considerar socialmente
dos artífices brancos, que passaram a não ter degradante o trabalho manual que o branco
tantas posses como antes, como exemplifica não queria realizá-lo, e sim por sua predileção
Leal (1996, p. 61): “[...] os que mantinham uma pelo ócio, tendo, inclusive, essa observação
situação de destaque possuíam ainda, seus se tornado uma máxima. A esse respeito, vale
instrumentos de trabalho, para a garantia de atentar para registro de Denis (apud VERGER,
sobrevivência, e, muito raramente, eram donos 1981, p. 122), que no século XIX trabalhou três
de oficinas”. Quanto à presença dos negros es- anos como empregado do Consulado da Fran-
cravizados, Flexor (1974) afirma que desde o ça na Bahia, ao dar notícias à sua terra natal:
século XIX:
[...] nada mais difere da nossa classe operária
[...] os homens de condição escrava participa- do que os operários brasileiros, sobretudo se
vam mais das tarefas de acabamento de edi- eles pertencem à raça branca. Acostumados a
fícios, móveis, ferragens, etc., assimilando as ter negros sob suas ordens, e deixando cair so-
técnicas, tornando-se rivais de seus próprios bre eles o cuidado dos trabalhos mais grossei-
mestres de ofício, como observou Debret em ros, eles sentem tão bem a dignidade da mes-
relação ao Rio de Janeiro e Koster em Pernam- tria em seus ofícios que se manda buscar um
buco. (FLEXOR, 1974, p. 39) marceneiro para consertar um imóvel, um cha-
veiro para abrir uma porta, ele evitará vir car-
Até este momento não tenho conhecimen- regando suas ferramentas e só se apresentará
to de pesquisas documentais que comprovem vestido de fraque negro e às vezes com chapéu
tricórnio.
que os artesãos brancos do século XIX eram a
maioria, nem mesmo que era entre eles que Vilhena (1969, p. 915) compartilha des-
se recrutavam contramestres e administra- sa opinião e, nos seus relatos, a escassez de
dores de grandes obras (a minha memória de brancos exercendo ofícios mecânicos justifica-
tamborete também não tem registro). Mesmo se porque, além “[...] de serem muito poucas
quando as câmaras municipais oficialmente as artes mecânicas [...] em que possam empre-
restringiam a aprendizagem e o exercício de gar-se, nelas mesmo não o fazem, pelo ócio
certos ofícios aos homens “de cor”, os mestres que professam, e a consequência que daqui
brancos, que recebiam as licenças, os tinham pode tirar-se, é que infalivelmente hão de ser
como oficiais e aprendizes. Pela bibliografia pobríssimos”. Resta saber se, de fato, podem
consultada e pelos relatos dos viajantes, é ser considerados “pobríssimos”, como afirma o
pouco provável que, ainda no século XIX, per- autor, pois alguns, além de se destacarem pela
manecesse a dicotomia entre ofícios nobres mestria, principalmente nas “artes liberais”, ti-
(realizados por brancos) e ofícios rudes (rea- nham escravos oficiais ao seu dispor.
lizados por homens “de cor”), embora alguns Preguiça ou status são fatores que, isola-
autores insistam nessa afirmação, mesmo sem damente, não sustentam nossa opinião sobre
apresentar dados estatísticos baseados em o que fez o conhecimento passar de uma mão
análises documentais. à outra, mas, alguns fatores combinados levam

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Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira

a crer que os ofícios mecânicos foram, no sé- Foto 9 - “Ofício de negro - marceneiro”.
culo XIX, apropriados majoritariamente pelos
homens “de cor”. Primeiro, porque era o con-
tingente disponível para o trabalho manual, e
tais ofícios constituíam as atividades que lhes
restavam numa sociedade segregadora e pre-
conceituosa. Segundo, porque, além de serem
minoria, os brancos tinham, na cor da pele, a
garantia de mais oportunidades, tal como edu-
cação formal e emprego público. Portanto, no
Brasil, o último desejo de um oficial mecânico
branco seria o de ver seu filho seguindo sua
Fonte: “Autor não identificado. Ofício de negro - marce-
profissão, visto que este, certamente, teria neiro. C. 1829. Aquarela, guache e tinta ferrogálica. Cole-
oportunidades mais favoráveis de galgar qual- ção Particular” (FLEXOR, 2013, p. 55).

quer outra carreira.


Como exemplificou o artífice Manuel Que- Essa imagem remete às palavras de Mbem-
rino (1913, p. 39), que viveu o século XIX, “[...] be (2019, p. 28) sobre o trabalho escravo:
quem era medianamente afortunado não ad- Como instrumento de trabalho, o escravo tem
mitia que seus descendentes aprendessem um um preço. Como propriedade tem um valor. Seu
ofício, e, tornaram extensiva essa desconside- trabalho responde a uma necessidade e é uti-
lizado. O escravo, por conseguinte, é mantido
ração às artes liberais [...]”. Terceiro, porque a
vivo, mas em ‘estado de injúria’, em um mundo
ocupação do tempo dos homens “de cor” em espectral de horrores, crueldade e profanidade
atividades braçais era vista como uma forma intensos.
de evitar as transgressões que pudessem co-
Já pensaram o que era trabalhar, talhar a
meter e como forma de “civilizá-los”. Sobre
madeira, nessas condições, que se aproximam
isso, vejam a consideração de Spix e Martius
do “[...] mundo espectral de horrores, cruelda-
(1976, p. 65): “[...] os artesãos trabalham com
de e profanidade intensos” - destacados por
seus próprios escravos pretos, que sob severa
Mbembe. Espero que eu não tenha sido feito
disciplina dos seus senhores aprendem, além
em condições semelhantes. Sobre a presença
da habilidade e aptidão no ofício, também a
de trabalho escravo nas artes mecânicas, a do-
virtude da ordem civil”.
cumentação sobre o exercício dos ofícios fala
sobre a presença, em 1800, do escravo do Pe.
Os sujeitos marceneiros, suas Bernardo (Froes) Pereira, Luís Antônio, habilitado
oficinas e sociedades aos serviços de marcenaria. Ora, essa constituía
uma transgressão à lei vigente, de 1780, sobre a
Maria Helena Flexor ilustrou o seu texto, no
qual trataremos adiante, pois, legalmente, es-
catálogo de uma exposição temporária no Mu-
cravizados eram proibidos de ter licenças para
seu Afro-Brasil, em 2013, em São Paulo13, com
atuar. Havia outros em ofícios diversos. Há re-
a aquarela a seguir, que registra o trabalho de
gistro, em 1793, da presença de Anna Ma de Santa
um escravizado com instrumentos de castigo
Rita; em 1809, de Maria da Trindade; e em 1812,
atados ao pescoço e ao tornozelo.
de Izidora Pereira da Conceição na lista de mar-
ceneiros dos “Livros das Oficinas (1790-1813)” do
13 Exposição: “Arte, adorno, design e tecnologia no tem-
po da escravidão”. (FLEXOR, 2013, p. 55). Arquivo Público Municipal de Salvador.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 541-564, maio/ago. 2020 557
Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu

Quanto à existência delas, embora pareça artífices que deram origem a estas sociedades
espantoso, ressalte-se que a lei permitia que já se reunissem havia, pelo menos, dez anos. A
as viúvas continuassem na liderança das ofi- primeira a ser criada, em fevereiro, foi a Socie-
cinas de seus maridos. Já a presença de sete dade dos Artífices, formada originalmente por
cativos numa listagem de 318 sujeitos (ofí- carpinteiros dispensados do quadro de oficiais
cios diversos) é suficiente para atestar não só mecânicos do Arsenal da Marinha. Nesse senti-
a ineficiência da proibição legal aos cativos, do, Mattoso (1996) afirma que, até a década de
como também para demonstrar a força que o 1830, o Arsenal da Marinha empregava em torno
costume já revelava, ou seja, a própria câma- de trezentos artesãos livres. Depois, parece ter
ra que emitia a proibição aceitava a violação reduzido suas atividades, pois, em 1860, tinha
da lei em sua lista oficial. Ademais, serve para apenas onze mestres contratados. Constatou a
instigar a imaginação sobre a grande quanti- autora que a indústria da construção naval, que
dade de tantos outros que trabalhavam sem antes fora grande empregadora restrita aos ar-
serem licenciados, o que confere ao sistema tesãos livres, tinha entrado em decadência.
corporativo baiano uma fisionomia díspar do Numa lista de 71 associados, 50 homens
sistema português. Homens “de cor” não só se que exerciam as profissões de carapina, ca-
inseriram em todo o sistema produtivo como lafate, armador, carpinteiro, marceneiro, es-
amealharam capital, inclusive desenvolvendo cultor, ferreiro, ourives, funileiro, dourador,
o ofício de marceneiro14. pintor, etc. são relacionados com as seguintes
As sociedades mutuárias de artífices e ope- classificações de cor/raça/status social: preto,
rários surgem nas primeiras décadas do século crioulo, mestiço, pardo, cabra, africano liber-
XIX, no contexto de uma Bahia burocrática e to, crioulo livre, pardo livre, e livres - segundo
religiosa na qual predominavam as atividades tabela apresentada por Silva (1988). Contando
agrícolas voltadas para o comércio, com o bra- com cerca de 70% de homens “de cor” no seu
ço escravizado como sustentáculo das ativida- quadro social desde a fundação, esta era uma
des de produção e uma indústria ainda muito associação de trabalhadores livres e libertos.
incipiente. Sete meses depois da criação da Socieda-
de dos Artífices, o africano livre Manoel Vic-
Sociedades de Artífices tor Serra, que tinha a profissão de ganhador,
junto a outros negros do chamado “canto da
Em 1832, duas sociedades mutuárias foram
Preguiça”, na cidade de Salvador, também
fundadas na mesma Salvador que, em 1835,
fundou, em 16 de setembro, a Sociedade Pro-
assistiu à insurreição dos malês15, embora os
tetora dos Desvalidos - S.P.D. Essa socieda-
14 Sobre a presença de marceneiros negros, é possível en-
de era uma agremiação que não usava de
contrar registros na obra de Marieta Alves (1976) e em
documentos do Arquivo Público da Bahia: (APEBA, Se- meios-termos para tornar evidente sua dis-
ção Judiciária, inventário, Classificação 01-386-744-09);
tinção racial (as figuras 12 e 13 ilustram esta
Almanak (1845 e 1898); (APEBA, Seção Judiciária, inven-
tário e testamento, classificação 06-2694-06); (APEBA, distinção). Para admissão, segundo o Artigo
Seção Judiciária, inventário, classificação 01-102-150-
02); (APEBA, Seção Judiciária, inventário, classificação
33 do Compromisso da Sociedade, aprovado
05-2042-2513-02); (APEBA, Seção Judiciária, inventário e em 1833, o candidato deveria ser, segundo
testamento, classificação 06-2592-3092-32).
15 Rebelião ocorrida janeiro de 1835, na cidade de Salva-
Braga (1987, p. 19): “[...] necessariamente de
dor, na qual não somente negros muçulmanos partici- côr preta e que não houvesse a menor dúvida
param, mas foi por eles concebida e liderada. Estudo
completo pode ser encontrado no livro “Rebeliões es- a esse respeito”.
cravas no Brasil”, do historiador João José Reis. (REIS,
J. J. Rebelião Escrava no Brasil; a história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Cia. das Letras, 2003).

558 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 541-564, maio/ago. 2020
Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira

Somente entre os 15 sócios-fundadores com Mbembe (2018, p. 95) ratifica o argumento do


profissão declarada, seis (6) eram marcenei- poder criativo de pessoas em situação de ca-
ros, inclusive seu fundador, Manoel Serra. Ha- tiveiro: “[...] Inventaram suas próprias literatu-
via também um pedreiro, dois carroceiros, um ras, músicas, maneiras de celebrar o culto di-
carregador de água, um vinagreiro, dois ganha- vino. Foram obrigados a fundar suas próprias
dores e um pedreiro, sendo que este ocupava instituições - escolas, jornais, organizações
o cargo de “escrivão definidor”. Muitos negros políticas [...]”. Por isso, ao falar dos sujeitos
e negras que aqui desembarcavam já traziam produtores do mobiliário dos períodos colo-
conhecimentos artísticos, como foi o caso dos nial e imperial, não é possível dissociá-los da
marceneiros, que ao serem iniciados em deter- sociedade escravocrata que enriqueceu com a
minados ofícios mostravam-se habilidosos e força do trabalho escravo.
aptos a desempenhar, com suas próprias mãos,
as encomendas. A linha que separa habilidade Figura 10 – Retrato, óleo sobre tela,
e criação é muito tênue e, não raro, em uma có- do artífice Felipe Barreto da S.P.D.

pia pode haver recriação, principalmente sendo


fruto da atividade humana manual.
A Sociedade Protetora dos Desvalidos,
como sociedade civil propriamente dita, pas-
sou a existir, com a denominação que mantém
até hoje, com o fim de promover a beneficên-
cia entre trabalhadores livres negros. Era, so-
bretudo, uma associação de artífices das ar-
tes mecânicas, principalmente marceneiros,
como bem ressalta a figura 12, na sequência,
que destaca o serrote e o martelo, elementos
indispensáveis à construção arquitetônica, de
Foto: Lysie Reis, 2012.
mobiliário e de ornamentações artísticas, e
que decoram a parede da sua sede no Largo
do Cruzeiro de São Francisco, nº 82, no centro Figura 11 - Retrato, óleo sobre tela, do
antigo de Salvador, onde permanece até hoje. artífice José Maria de Freitas da S.P.D.

Os sujeitos produtores não somente aten-


diam as demandas comerciais, também se as-
sociavam e formavam novos mestres e apren-
dizes da arte da marcenaria, pois, como bem
atenta Olivella: “[…] o negro teve que fabricar
sua própria bússola, improvisando-a a partir
de sua dor, de sua memória ancestral, de seu
poder criador. Foi o que fez com sua filosofia,
seus mitos e experiências” (1999, p. 110.)16. Vin-
te e nove anos depois de Olivella, a obra de

16 Tradução nossa do original: “[...] el negro debió fabricar


su propia brújula, improvisándola a partir de su dolor,
de su memoria ancestral, de su poder creador. Fue lo
que hizo con su filosofía, sus mitos y experiencias.” Foto: Lysie Reis, 2012.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 541-564, maio/ago. 2020 559
Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu

Figura 12 - Pintura parietal, destacando o serrote e


Chegando ao final: reflexões
martelo, sede da S.P.D.
sobre como romper silêncios
[...] Estas palavras nomeiam a consistência do
vazio. No silêncio do cenário, sobre a poeira
muda que cobre os objetos, as palavras liber-
tas do espírito traçam sinuosas pistas, reúnem
e recompõem a vida esmigalhada dispersa pelo
tempo. Empírico, o cenário é uma memória viva.
E se alma se escondesse no inanimado para es-
capar aos danos do tempo?

(DIOME, 2008, p. 29).

Os cenários expográficos são aparente-


mente silenciosos, pois os objetos são “[...]
aparentemente mudos”, como sinaliza Mbem-
be (2018, p. 223). Para romper silêncios é pre-
ciso estabelecer diálogos. Os mudos objetos
falam a partir dos documentos, interpretados
pelas pessoas que estão envolvidas com seu
estudo, como salienta Meneses: “[...] é o his-
toriador quem fala e a explicitação de seus
critérios e procedimentos é fundamental para
definir o alcance de sua fala. [...]” (1997, p. 7).
Foto: Lysie Reis, 2002. Portanto, através de processos de pesquisa é
possível “ouvir” vozes do passado distante e
Vocês, humanos, precisam entender que recente, relativo ao mobiliário.
além de nos permitir falar, mesmo que espora- Novas pesquisas são necessárias para que
dicamente, precisam também dar visibilidade seja possível explicitar as memórias do tra-
às memórias e histórias sobre as pessoas que balho de marcenaria, os seus sujeitos, asso-
compuseram o que se consagrou chamar de ciações, as oficinas e cantos de trabalho, as
“mão de obra africana e afrodescendente”; é ferramentas e equipamentos, as leis de regu-
preciso, como lembra a escritora Cruz: “[...] tra- lamentação e suas proibições, os métodos e
balhar para apagar as linhas divisórias que por materiais empregados, o comércio e as inter-
tantos séculos nos deixaram à parte do ban- dições, os transportes, as interdependências
quete principal do país. [...] (2018, p. 304)”. A da cadeia de produção, entre outros argu-
expressão pluralizada “nos deixaram”, utiliza- mentos que possam incluir a dinâmica da vida
da pela autora, refere-se à descendência das social dos objetos, de forma a enriquecer não
pessoas escravizadas que construíram este somente os dados de documentação, mas as
país, mas essa expressão também vale para diversas ações museológicas, tais como a ex-
mim, que sou objeto, e para todas as pessoas posição e as ações educativas com o patrimô-
que ainda estão à margem dos diversos “ban- nio, como sugere Blanco, “[...] Mas, acima de
quetes” deste país. tudo, porque envolve a aquisição e o domínio

560 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 541-564, maio/ago. 2020
Joseania Miranda Freitas; Lysie dos Reis Oliveira

de alguns instrumentos ou ferramentas de co- como chamam atenção as palavras de Cunha e


nhecimento, de destreza e habilidades e, até Freitas (2018, p. 559): “[...] Este é o principal de-
mesmo, e talvez essa seja o mais importante, safio da preservação, provocar sensibilidades
uma atitude crítica fundamental como baga- e empatias. Mas, ainda assim, ultrapassada
gem educacional” (1994, p. 13). essa barreira, é necessário que se reflita não
Os sujeitos marceneiros associavam-se co- apenas sobre o que é preservado, mas, sobre-
letivamente. Ainda que individualmente mui- tudo, porque e para que se preserva”.
tos permaneçam no anonimato, essas infor- Não há receitas para sair dos silêncios.
mações relativas à produção mobiliária pode- Processos de pesquisa podem ser evocados e
riam ser disponibilizadas ao público. Passado desenvolvidos como forma de provocar a “es-
e presente se interconectam na busca de tra- cuta” das diversificadas “vozes” dos objetos,
ços biográficos do mobiliário do MAB, compos- aproximando objetos da cultura material das
to por diversas vozes, que podem revelar vidas relações humanas, pois estes carregam em si
humanas implicadas na produção, no uso e potenciais de informações, que lhes dão senti-
na musealização, através de interpretações e do material e simbólico.
apreensões sobre os artífices e suas práticas As reflexões aqui apresentadas visam a
sociais, com suas identidades e continuidades valorização do mobiliário do MAB, através da
do “saber-fazer”. incorporação de elementos que os aproximem
O mobiliário do MAB, pelos seus muitos do público visitante, através de elementos
anos de homogenia expositiva, apresenta ca- expográficos que ofereçam elos com a histo-
racterísticas que o aproximam de uma estabili- ricidade dos objetos, ultrapassando os dados
dade expositiva, baseada na repetição dos es- visíveis, como propõe o historiador da arte Di-
paços domésticos das classes dominantes da di-Huberman (2017, p. 67): “A história da arte
cidade de Salvador e da região do Recôncavo, não conseguirá compreender a eficácia visual
região açucareira que propiciou o luxo e a exu- das imagens enquanto continuar entregue à
berância dos móveis, às custas do trabalho es- tirania do visível [...]”. O prazer estético provo-
cravo. No entanto, a ênfase informacional está cado pelos móveis e pelos demais objetos de
nas características intrínsecas, a exemplo da arte decorativa expostos no MAB não será eli-
tipologia funcional, tipo de madeira e outros minado com a incorporação de componentes
elementos, como metais e marfim, que fazem críticos e analíticos que podem contextualizar
parte da composição; o período de elaboração a expografia. Ao focar no visível dos objetos,
e uso, e o estilo - são informações válidas para ou seja, somente nos aspectos intrínsecos, o
quem possui conhecimentos mínimos sobre museu silencia as vozes humanas produtoras
esses assuntos. Faltam informações extrínse- e consumidoras dos objetos.
cas, que ofereçam ao público dados biográfi- Uma vez que esta narrativa memorial come-
cos dos objetos. O atual formato expográfico, çou sob a inspiração de uma escritora senega-
baseado em pequenas etiquetas, consolida a lesa, vou finalizar com o filósofo Souleymane
mudez dos objetos. Bachir Diagne, também senegalês, que ponde-
Sair da homogenia e da estabilidade expo- ra sobre a necessidade de se diminuir as dis-
sitiva não é uma tarefa fácil, pois exige pos- tâncias entre a objetividade e a subjetividade
turas críticas para a inclusão da polifonia e que os objetos carregam, em reflexão acerca
da heterogeneidade expositiva. É necessário de análise de Léopold Sédar Senghor sobre
perguntar o porquê e o para que se preserva, pensar o objeto de forma simétrica:

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 541-564, maio/ago. 2020 561
Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu

[...] uma abordagem cognitiva que, por simetria, ter.ac.uk/portal/en/publications/focus-museums


seria preciso chamar de sintética: aquela que -and-the-history-of-science--objects-and-the-mu-
nos instala imediatamente no coração do ob- seum(f054e1ce-f 7ce-4f9c-9e32-3e1e4a932d23).html
jeto (que deixa então de ser definido em uma Acesso em: 29/10/2019.
dualidade com o sujeito), no coração daquilo
que o constitui em sua ‘subjetividade’ e que ALMANAK Administrativo, Indicador e Noticioso do
é seu ritmo próprio. Compreende-se, então, o Estado da Bahia, v. 1, Bahia, 1845.
jogo de palavras que Senghor frequentemente
ALMANAK Administrativo, Indicador e Noticioso do
utiliza quando fala do pensar o objeto como
uma maneira de dançá-lo. (DIAGNE, 2018, p. 15, Estado da Bahia, v. 1, Bahia, 1898.
grifos do autor).
ALVES, Marieta. Dicionário de artistas e artífices
Eu, tamborete, em minha existência mate- na Bahia. Salvador: Centro Editorial e Didático da
UFBA, 1976.
rial na exposição do MAB, necessito dessa di-
mensão simétrica. Nós, objetos, necessitamos APPADURAI, Arjun. A vida social das coisas; as mer-
ser pensados também de forma dançante, ou cadorias sob uma perspectiva cultural. Trad. Agatha
seja, as expografias precisam ser vibrantes, Bacelar. Niterói: Editora da Universidade Federal
de forma a explicitar as subjetividades. Por Fluminense. 2008.

nossa materialidade, somos tangíveis, mas os APEBA - Arquivo Público do Estado da Bahia. Seção
elementos intangíveis que carregamos neces- de Arquivo Colonial e Provincial. Seção Judiciária.
sitam de visibilidade, através de processos ex-
Bahia, Le marché. Mercier, fototipia, [S.l.], 1902.
pográficos que explicitem os sujeitos produto-
Acervo Ubaldo Senna Filho. Fotografia recebida via:
res que dominaram matérias-primas e técnicas REBOUÇAS, Daniel. Publicação eletrônica [mensa-
construtivas; assim como explicitar os modos gem pessoal]. Mensagem recebida por joseaniafrei-
de uso e de musealização. Enfim, a visibilidade tas@yahoo.com.br, em 18 de dez. de 2019a.
da historicidade dos objetos permite ampliar a
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média
empatia entre o público e o acervo.
e no Renascimento; o contexto de François Rabe-
As reflexões aqui suscitadas passam por di- lais. Trad. Yara Frateschi. São Paulo: Hucitec, 1987.
nâmicas entre as memórias dos sujeitos produ-
tores do passado, sem esquecer a permanên- BAXANDALL, Michael. O olhar renascente; pintura e
experiência social na Itália da renascença. Trad. Ma-
cia dos sujeitos artífices que continuam, com
ria Cecília P. R. Almeida. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
muitas dificuldades, mantendo as técnicas do
1991.
saber-fazer das artes mecânicas. Mesmo com
a oportunidade de narrar os inúmeros cami- BRAGA, Júlio Santana. Sociedade Prote-
nhos de um tamborete, não se pode perder de tora dos Desvalidos: uma irmandade de
cor. Salvador: Inamá, 1987.
vista que o maior patrimônio não somos nós,
objetos, mas vocês, seres humanos, que são, CANTI, Tilde. O móvel no Brasil; origens evolução e
de fato, a razão para a produção e continuida- características. Lisboa: Agir, 1999.
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dor: Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da por VALLADARES, José. (1948).
Bahia / Fundação Cultural, EGBA, 1988.
Recebido em: 06.03.2020
SOARES, Cecília Moreira. Mulher negra na Bahia no Revisado em:06.05.2020
Século XIX. Dissertação. Programa de Pós-Gradua- Aprovado em: 28.05.2020

Joseania Miranda Freitas é Doutora em Educação (UFBA), com pós-doutorado em História (Programa de Estudos Pós-
Graduados em História da PUC-SP 2016-2017) e pós-doutorado em História (UFG/UNINORTE-Colômbia/UPVD-Perpig-
nan-França 2006-2007). Professora Titular do curso de Museologia da UFBA e do Programa de Pós-Graduação em Mu-
seologia/PPGMuseu/UFBA. E-mail: joseaniafreitas@yahoo.com.br

Lysie dos Reis Oliveira é Doutora em História Social (UFBA). Com pós-doutorado na Universidade do Porto, no Centro
de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo (CEAU), Professora titular do Departamento de Ciências Humanas I, da Uni-
versidade do Estado da Bahia (UNEB). Líder do Grupo de Pesquisa: Estudos Interdisciplinares em Desenho. Linha de
pesquisa: memória visual e desenho urbano. E-mail: lysie60@hotmail.com

564 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 541-564, maio/ago. 2020
Maria Angelita Silva; Nerli Nonato Ribeiro Mori

DOI:http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2020.v5.n14.p565-577

QUERO OS MEUS BRINCOS: MEMÓRIA DA


INFÂNCIA, PATRIMÔNIO E IDENTIDADE NA SAGA DO
POVO XETÁ

Maria Angelita Silva


https://orcid.org/0000-0001-9774-9007
Universidade Federal do Amazonas

Nerli Nonato Ribeiro Mori


http://orcid.org/0000-0002-6798-5225
Universidade Estadual de Maringá

resumo Este artigo tem por objetivo problematizar a questão do patrimônio


cultural do Povo Xetá em relação à sua apropriação por instituições
a partir do processo histórico de colonização do norte do Paraná,
Brasil, nos anos 1950-1960, em que esse povo teve suas terras es-
bulhadas e sua população remanescente dispersa por outras terras
indígenas ou centros urbanos. Apresenta o caso de Moko (Taman-
duá), também conhecida como “Ô, uma criança sobrevivente à ten-
tativa de extermínio de seu povo – hoje uma anciã. Ã reconhece seus
brincos no acervo de um museu público e os reclama para si. Os
brincos de à fazem emergir a memória da trágica interrupção dos
ritos de passagem, de violação de sua infância e da impossibilidade
de fazer-se adulta ao abrigo de sua cultura. É no espaço-tempo da
dispersão que à e seu povo amadurecem, resistem à assimilação e
à aculturação e defendem o direito de gerir seu próprio patrimô-
nio. O artigo dialoga com a Sociologia da Infância, a partir de Tomas
(2011), Sarmento (2010) e Fernandes (2009), traz da Psicologia Social
o conceito de memória coletiva Halbwachs (1990), Mori (1998) e Bosi
(1987) e da Antropologia os conceitos de etnogênese Hill (1986) e
Bartolomé (2006) e transfiguração epistemológica Silva (2017c; 2019).
O artigo propõe uma nova política de preservação do patrimônio das
sociedades tradicionais, que descoloniza a gestão desses acervos,
devolvendo-a a quem de direito.
Palavras-chave: Povo Xetá. Memória. Memória da infância. Identida-
des. Patrimônio.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 565-577, maio/ago. 2020 565
Quero os meus brincos: memória da infância, patrimônio e identidade na saga do povo Xetá

abstract I WANT MY EARRINGS: MEMORY OF CHILDHOOD,


HERITAGE AND IDENTITY IN THE SAGA OF THE XETÁ
PEOPLE
This article aims to discuss the issue of the cultural heritage of the
Xetá People in relation to its appropriation by institutions from the
historical process of colonization of northern Paraná, Brazil, in the
years 1950-1960, when this people had their lands squashed. Pres-
ents the case of Moko (Anteater), also known as Ã, a child surviving
the attempt of extermination of her people – today an old woman.
à recognizes her earrings in the collection of a public museum and
claims them for himself. Ã earrings give rise to the memory of the
tragic interruption of the rites of passage, the violation of her child-
hood and the impossibility of becoming an adult under her culture.
It is in the space-time of dispersion that à and her people mature,
resist assimilation and acculturation and defend the right to man-
age their own heritage. The article dialogues with the Sociology of
Childhood Tomas (2011), Sarmento (2010) e Fernandes (2009), brings
from Social Psychology the concept of collective memory Halbwachs
(1990), More (1998) and Bosi (1987) and from Anthropology the con-
cepts of ethnogenesis Hill (1986) and Bartolomé (2006) and episte-
mological transfiguration Silva (2017c; 2019). And it proposes a new
policy of the preservation of the heritage of traditional societies that
decolonizes the management of these collections, returning them to
the rightful ones.
Keywords: Xetá People. Memory. Childhood memory. Identities. Pat-
rimony.

resumen QUIERO MIS PENDIENTES: MEMORIA DE INFANCIA,


PATRIMONIO E IDENTIDAD EN LA SAGA DEL PUEBLO
XETÁ
Este articulo tiene como objetivo problematizar el tema del Patrimô-
nio cultural del Pueblo de Xetá respecto a su apropiación de insti-
tuciones a partir del processo histórico de colonización del norte de
Paraná, brasil, em los años 1950-1960, cuando esse Pueblo tuvo sus
tierras desperdiciadas y el resto de su gente dispersa por otras tie-
rras indígenas o centors urbanos. Presentan el caso de Moko [taman-
duá] mejor conocida como Ã, uma niña sobeviviente a la tentativa de
extermínio de su pueblo - hoy ella es uma anciana. Zarcillos em uma
colección de um museo publico y los pide para si. Los pendientes de
Ã, resaltan el recuendo de la trágica interrupción de los ritos del pas-

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Maria Angelita Silva; Nerli Nonato Ribeiro Mori

saje, de la violación de su infância y de lo imposible de tornasse adu-


lata al abrigo de su cultura. Es em el espacio-tiempo de la dispersión
que à y su pueblo maduran, resisten a la asimilación y aculturaración
y defender el derecho de administrar su próprio Patrimônio. El artí-
culo dialoga com la Sociologia de la infância Tomas (2011), Sarmento
(2010) e Fernandes (2009), atras de la psicologia social el concepto
de memoria coletiva Halbwachs (1990), Mori (1998) e Bosi (1987) y de
la Antropologia. Los conceptos de etnogénesis Hill (1996) y Batolomé
(2006) y transfiguración epistemológica Silva (2017c;2019). El artículo
propone uma nueva política de preservación del àtrimonio de las
sociedades tradicionales, que descolonizan la gestion de essas cole-
ciones, devolviendolas a quienes tienen derecho.
Palabras clave: Pueblo Xetá. Memória. Recuerdos de la infância.
Identidades. Patrimonio.

INTRODUÇÃO
“Eles me deixaram nua, embora estivesse de com racionalidade própria e, sua participação,
vestido”. (Ã - Moko (Tamanduá)
objeto de análise e reconhecimento no quadro
Na saga do povo Xetá a expressão “Quero social e cultural.
os meus brincos” nos dá indicação da comple- As crianças Xetá responsáveis por arma-
xidade da história do povo Xetá. A epígrafe é zenar memória coletiva e depois, adultas,
um fragmento da narrativa de Moko (taman- transmitirem essa memória da infância têm
duá), que ficou conhecida na etnografia como posição relevante nos estudos das infâncias,
“Ô, uma das oito pessoas contatadas pelo re- pois, a memória do povo Xetá registrada pela
gistro antropológico de Silva (1998) que sobre- etnografia brasileira, é basicamente a memó-
viveram à tentativa de extermínio no processo ria da infância Xetá (SILVA, 2013; 2017a; 2017b),
de colonização do norte pioneiro do Estado do pois as lembranças armazenadas foram de
Paraná, sobreviventes ainda crianças. O que a crianças, foi através da racionalidade infantil
Sociologia da Infância (TOMAS, 2011), (SARMEN- que as lembranças foram organizadas e fil-
TO, 2010), (FERNANDES, 2009) apresenta é a tradas, é o olhar da criança Xetá que dispõe
possibilidade de priorizar o estudo da cultura sobre a memória coletiva anos mais tarde
da infância, cujo destaque é investigar o pro- registrada. Isso, por si só já garante a con-
tagonismo, a racionalidade infantil frente às firmação de que a criança é dotada de uma
diversas realidades sociais e culturais. Nesse racionalidade e um pensamento singular
sentido, a história de resistência do povo Xetá que confere a ela identidade própria, capaz
é uma história que só pode ser contada por de interferir nas diversas realidades e não
que crianças sobreviveram à tentativa de ex- uma personalidade meramente moldável.
termínio, são elas responsáveis pelo trabalho Podemos constatar, portanto, que a raciona-
de memória (HALBWACHS, 1990) de sua cultura lidade ocidental, colonizadora contava com
e identidade (SILVA, 2019). A criança, segundo a inferioridade/negatividade infantil, para a
investigação desses estudiosos, são atores possibilidade de substituição da racionalida-

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Quero os meus brincos: memória da infância, patrimônio e identidade na saga do povo Xetá

de tradicional – inferior, não civilizada – por ras Indígenas (TIs) (LIMA; SILVA; PACHECO, 2017,
outra, a ocidental colonizada. Apenas um de- p. 781) e alguns centros urbanos (SILVA, 2017a).
les, Kuein, já havia sido iniciado com adul- “[...] A Comissão Nacional da verdade (CNV)
to (SILVA, 1998; 2003) e (SILVA, 2017a; 2019), a em 2014 relatou [...] que os Xetá [...] foram al-
memória coletiva Xetá do mato, portanto, é vos de ação de genocídio (1946-1988)” (LIMA;
basicamente a memória da infância. SILVA; PAHECO, 2017, p. 784). Em 2014, entre
O relato de Moko [Ã], sua memória da in- paradas e movimentos espaçados que con-
fância, representa a “ruptura com o seu uni- sumiram vários anos, a Fundação Nacional do
verso cultural. Despiram-se de seus símbolos Índio (Funai) finalmente publicou o relatório
Xetá” (SILVA, 1998, p. 68). Mais do que isso, de identificação e delimitação da TI Herareka
anos mais tarde, em visita ao Museu de Ar- Xetá (idem, 2017).
queologia e Etnografia (MAE) da Universidade Esse percurso representa o quadro da dis-
Federal do Paraná (UFPR), diante de uma caixa persão (SILVA, 2019) que, ao contrário do que
de vidro, Moko [Ã] avistou seus brincos e ao a história oficial determina, não representa
identificá-lo reclamou seu pertencimento, o extinção, mas uma etno-história da dispersão,
qual foi negado, com a justificativa que era um e tendo como lupa conceitos como: a etnogê-
acervo histórico da memória do Paraná e que nese2 (BARTOLOMÉ, 2006), memória coletiva3
o museu teria melhores condições de preservá (HALBWACHS, 1990) e transfiguração epistemo-
-los do que ela. E, isso, é outra faceta do drama lógica4 (SILVA, 2017c; 2019), podemos entender
dessas crianças que quando adultas reclamam
2 Etnogênese é “o processo de construção e reconstru-
seus signos identitários. ção identitária” pelos quais aqueles “grupos étnicos
considerados extintos, totalmente ‘miscigenados’ ou
O processo de colonização (SAID, 2011) que
‘definitivamente aculturados’, reaparecem lutando
ocorre no Estado do Paraná1 a partir dos anos pelo direito de existir” (BARTOLOMÉ, 2006, p.40). “[...]
A etnogênese é parte constitutiva do próprio processo
de 1940, em que governo estadual, a coloni-
histórico da humanidade e não só um dado do pre-
zadora Companhia Brasileira de Imigração e sente, como parecia depreender-se das reações de
surpresa de alguns pesquisadores sociais em face de
Colonização (Cobrinco) – braço imobiliário do sua evidência contemporânea.” (BARTOLOMÈ, 2006, p.
Grupo Bradesco e colonos particulares – que 41)
3 O autor afirma que a memória coletiva é “grupo visto
com a propaganda de terras férteis e devolu- de dentro e durante um período que não ultrapassa a
tas promoveram a ocupação do território tra- vida humana, que lhe é frequentemente bem inferior”
(1999, p. 88-89). Contudo, a qualidade desta memória
dicional Xetá (SILVA, 1998; 2003) – foi a causa está em problematizar as demais – individual e histó-
de dispersão do povo Xetá. Eles foram con- rica –, especialmente as dadas como oficiais. (SILVA,
2019, p. 42)
tatados pelo Serviço de Proteção aos Índios 4 Basicamente esse conceito parte da defesa de que a
(SPI) na região de Serra dos Dourados, noroes- episteme do indígena - a forma de relação de conhe-
cimento do indígena com o mundo não indígena - é
te paranaense, em meados da década 1950. utilizada como ferramenta para lidar com as realida-
Principalmente a partir da década de 1960, o des deste mundo em relação com o seu - resistindo
à aculturação e assimilação na manutenção, promo-
povo Xetá estava espalhado por diversas Ter- ção e formação de sua identidade. (SILVA, 2019, p. 48);
“[...] se pudermos desenvolver uma transfiguração
1 Dialogando com Edward W. Said, em Cultura e Impe- epistemológica, poderemos constatar que o mundo
rialismo (2011) podemos dizer que mudam os atores macro – VISÍVEL (Física Clássica) aponta “verdades”
e as estratégias, mas o processo de colonização das que, muitas vezes, não podem ser assumidas como
terras do Estado do Paraná – se considerarmos, por respostas únicas ou totais, pois o mundo micro – IN-
exemplo, as pendências judiciais envolvendo terras VISÍVEL, apresenta a “verdade” mais profundamente,
ancestrais indígenas não demarcadas e o avanço de o que a aparência mostra nem sempre é a verdade
barragens em rios importantes, como Ivaí e Piquiri, total daquele fenômeno observado. A Física Quânti-
que ameaçam o meio ambiente e a sobrevivência de ca nos oferece esse repertório, que, num exercício de
comunidades ribeirinhas – permanece como um pro- transfiguração epistemológica, pode-se utilizar nos
cesso ininterrupto, que alcança os nossos dias. trabalhos das Ciências Sociais”. (SILVA, 2017c, p. 96)

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Maria Angelita Silva; Nerli Nonato Ribeiro Mori

como o processo de resistência e ressignifica- teme indígena a contrariar os esquemas que


ção identitária desse povo originário se deu querem identificar a dispersão e a violência do
(SILVA, 2017a; 2019). processo de colonização como definitivos na
Os sujeitos da dispersão são aqueles, dinâmica de assimilação e aculturação. O povo
aquelas que resistiram e ainda resistem Xetá promove formas criativas de vencer a in-
atualmente promovendo uma transfiguração visibilidade e a fatalidade da extinção “oficial”
epistemológica, em que a episteme indígena (SILVA, 2017a; 2019).
indica e comprova as estratégias de resistên- O que buscamos neste artigo é o exercício
cia e abrangência dos sentidos e significados de confirmar uma “episteme da insurgência”,5
de pertença. Esses oito sujeitos – três mulhe- confirmar um trabalho de memória coletiva
res e cinco homens –, contatados pelo traba- atual que desempenha um papel fundamental
lho etnográfico de Carmen Lucia da Silva nas na formação da identidade Xetá e na preser-
décadas de 1990, são os responsáveis pelo vação de seu patrimônio intelectual, cultural
cultivo da memória coletiva do povo Xetá; e étnico (SILVA, 2019); pedaços de memória
Tikuein Mã faleceu em 2005 e Tuca em 2008, que, como mosaico, nos mostram quem nós
Tiquein recentemente faleceu em 17 de no- somos. Mostra-nos a diversidade de lingua-
vembro de 2017. gens e gramáticas necessárias à compreensão,
O caso de Tiquein pode ilustrar o que a sempre dinâmica, do que podemos nos tornar.
transfiguração epistemológica propõe enquan- É o exercício constante de nos instrumentali-
to conceito a elucidar as formas de processo zar com lentes que possam desembaçar nossa
de etnogênese. Policial militar que, apesar de visão para poder enxergar quem nós fomos,
ter passado 30 anos na cozinha do regimento, quem somos e em quem nos tornaremos. Afi-
ao ser provocado a elaborar um cardápio – (29 nal, a formação da identidade Xetá compõe a
de agosto de 2017), a menos de três meses de formação da identidade paranaense, brasilei-
seu falecimento – para uma festa de casamen- ra, latino-americana.
to, recitou-o, tendo como elemento identitário Nos próximos itens, buscaremos essa re-
o ato de narrar, processo educativo Xetá, regis- flexão sobre memória coletiva, formação de
trado na etnografia (SILVA, 2003). identidade, narrativas e preservação do pa-
Outro caso é o das crianças Xetá atual- trimônio cultural Xetá. Através da experiência
mente, híbridas, ao serem desafiadas a criar de Moko (tamanduá), mulher Xetá, conhecida
histórias numa oficina de literatura, misturam como à – foram os brancos quem deram esse
narrativas do seu cotidiano imediato – os dra- nome a ela (SILVA, 1998) – que teve seus brin-
mas e tramas das relações sociais e amorosas cos tomados, símbolo de seu pertencimento e
–, com conhecimentos da cultura ocidental –
5 Termo usado pelo Prof. Dr. Allan Rocha Damasceno da
Romeu e Julieta, as letras de músicas românti- Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ),
cas etc. – com as narrativas míticas Xetá. Isso membro da banca de defesa da tese Memória e Iden-
tidade Xetá (UEM/PPE/2019). No parecer destaca que:
comprova que, apesar de condicionadas a ou- “Ao (re)elaborar uma epistemologia para a compreen-
tros sistemas e códigos identitários, apesar de são de uma cultura secular Xetá, Angelita nos provoca
a reflexão do que é ser indígena na contemporaneida-
não poder ser exercitado com seus pares, mui- de, os limites da racionalidade de compreender uma
tas vezes, enquanto processo educativo Xetá, cultura que não é a sua, sua identidade, seus valores,
sua cosmologia, enfim, a pesquisadora nos provoca
dado o dinamismo da dispersão, ainda assim a pensar nos limites e potencialidade de qualquer
‘lente’, e ao fazer isso constrói uma ‘episteme da in-
persiste, comprovando uma racionalidade, um
surgência’, uma ‘outra’ episteme, ou seja, aquele que
modo de ser e viver autenticamente Xetá: epis- nega seu absolutismo como visão de mundo!”

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Quero os meus brincos: memória da infância, patrimônio e identidade na saga do povo Xetá

mais dramático ainda, foi privada de tirá-los, o povo Xetá foi inserido a partir da narrati-
momento em que tornar-se-ia mulher, adulta, va de quem viveu a experiência de contato e
pelo ritual de passagem que nunca viveu, foi da invasão de seu território tradicional pelas
raptada antes disso. companhias de colonização incentivadas pelo
governo do Estado do Paraná.

Memória da infância Xetá: as Naquele tempo, nós passávamos o tempo todo


fugindo dos brancos, cada dia dormíamos num
eternas crianças e sua memória lugar diferente dentro do mato. Nossa vida era
A trajetória do povo Xetá tem na memória correr. Um dia, nós estávamos posando [dor-
mindo] no mato e ouvimos um tiro. Os adultos
da infância uma âncora bem firme, que nos
nos falaram que os brancos estavam matando,
permite vislumbrar aquilo que teóricos da e nós corremos. Um dos nossos perdeu o Tem-
Sociologia da Infância insistem em afirmar e betá, acho que era o Mã, com quem eu morava6.
confirmar, a cultura da infância, suas lingua- Ele mandou que eu voltasse pra procurá-lo. Eu
gens, racionalidade, como elementos impor- voltei e fiquei pra trás. Estava campeando [pro-
curando], olhando e apalpando o chão, quando
tantes para interpretação e compreensão das
o vi. No momento que eu ia pegá-lo [o Tembetá],
realidades sociais (SILVA, 2017a) (TOMAS, 2011) os brancos, me seguraram por trás [demonstra
(SARMENTO, 2010) (FERNANDES, 2009). Para com gestos e com a tonalidade da voz]. Eu olhei
endossar essa legitimidade, teóricos da Psi- pra trás assustada, tinha um índio junto, mas
cologia Social preveem o debate em torno da ele estava vestido com roupa. Não era Tuca. Era
outro que estava junto com eles. Com medo eu
importância das narrativas orais, dos teste-
pensei: vou correr. Eu ia correr, mas daí meu pa-
munhos coletivos, da memória coletiva (HAL- rente que estava com eles, este índio vestido,
BWACHS, 1990) (MORI, 1998) (BOSI, 1987), de falou: ‘não faça isso!’ Ele me disse que era para
sua confrontação à memória oficializada, me- eu contar onde estava os outros, porque eles
mória essa que, consagra heróis quase sem- tinham ido nos encontrar. Parei, assustada sem
entender o que ocorria, sentia medo, tudo de
pre instituídos posteriormente, no contexto
uma vez só. Ele me pediu no nosso idioma, que
da história dos vencedores em detrimento a eu fosse buscar os outros, e eu fui. Estavam to-
história dos vencidos. dos escondidos. Quando eu cheguei e falei, eles
Esses estatutos de verdade são confron- ouviram e disseram que eu podia voltar lá e tra-
tados com outras verdades, outras versões zer o parente comigo. Era o Ajatkã o índio que
estava vestido. [...]. Eles [a expedição]7 só trou-
que provocam uma nova forma de contar a
xeram eu. Nós éramos bastante lá. Meu irmão e
história (SILVA, 2019). Portanto, esses con- Tuca perguntaram ao Dival8 se podiam me tra-
ceitos já seriam salutares para o exercício zer. O Dival pediu eu para Mã, que não queria
que pretendemos desenvolver. Some-se a deixar vir. Depois, ele falou de novo, Kaiuá junto
isso conceitos como etnogênese (HILL, 1986); com Tuca, insistiram com Mã, e ele acabou dei-
xando, pensando que depois eles me levariam
(BARTOLOMÉ, 2006) e transfiguração episte-
mológica (SILVA, 2017c; 2019), compondo o 6 Seu pai havia sido assassinado e sua mãe também ha-
via morrido (SILVA, 1998).
nosso esforço por confirmar, no quadro da 7 Com o anúncio e denúncia de que as terras ofere-
dispersão, a resistência de um povo que tei- cidas para colonização pelo governo do Paraná não
eram devolutas e sim habitadas, a imprensa, a UFPR
ma em existir simultaneamente aos registros avisaram o governo do Estado. Assim a UFPR e o SPI
de sua extinção. organizaram expedições para encontrar o povo Xetá
com ajuda das crianças raptadas por agrimensores e
Ao observar os relatos de Moko [Ã] sobre fazendeiros e tentar convencê-los a se render ao fato
de que seu território estava sendo vastamente invadi-
o dia em que foi capturada pelo homem bran-
do e soluções deveriam ser criadas.
co, é possível reconhecer a dinâmica em que 8 Dival José de Souza, chefe da 7ª IR/SPI.

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Maria Angelita Silva; Nerli Nonato Ribeiro Mori

de volta, pois eles viram os dois voltarem. Só Os adornos enquanto elementos


que nunca mais eu voltei. (Ã, PIN Guarapuava,
1996, apud SILVA, 1998, p.68). identitários: crenças e
representações
Era comum as crianças ao percorrerem o
carreiro (trilha no meio da mata), estarem se- O olhar ocidentalizado, com seu senso es-
guindo atrás dos adultos; também era comum tético, muitas vezes não alcança a estética,
as crianças serem capturadas no exercício co- significados e sacralidade de outras culturas.
tidiano de atividades como se banhar ou brin- Crianças no espaço escolar urbano, quando
car no rio (SILVA, 2017a): “Foi ali que meu ir- confrontadas com essas culturas misturadas
mão, o Geraldo aquele que Antônio tomou do em seu cotidiano urbano, as enxergam com
meu pai, foi pego por um outro fazendeiro, que a mesma racionalidade emprestada do adul-
atravessou o rio de barco, foi onde a gente es- to da cultura dominante. Foi o que aconteceu
tava, roubou ele, porque a gente brincava no quando crianças do terceiro ano do ensino
rio [...].” (José Luciano da Silva – Tikuein, apud fundamental – de um colégio de elite de Ma-
SILVA, 2003, p. 216) ringá-PR – ao serem desafiadas a expressar o
A cultura da infância Xetá como podemos que lhe vinham a mente quando liam, em le-
observar de relatos sobre a dinâmica infantil tras garrafais, a palavra índio na lousa, depois
– também de outros povos indígenas – é pau- de um silêncio estático, arriscam: “Pobre, pro-
tada na liberdade de transitar pelos espaços fessora!” (SILVA, 2013; 2017a; 2017b; 2017c).
sociais e físicos (SILVA, 2013; 2017) e (SILVA; No MAE da UFPR, é possível contrariar essa
MACEDO; NUNES, 2002), portanto, no exercí- percepção. Parte do acervo de cultura material
cio e dinâmica de ser criança é que elas foram Xetá em exposição: travesseiros, armas, bor-
capturadas, muitas vezes, pelo homem bran- dunas, pincel para limpar sangue de animais
co colonizador, de seu espaço de construção de caça, brincos de homens adultos, brincos
simbólica, mítica e de subsistência. Foram os de crianças, bolsa, abanador, tipóia, peneiras,
elementos de sua cultura e uma visão de mun- tangas confeccionadas através de tecelagem
do que contrariava a racionalidade ocidental [com um tipo de tear], flautas, pau ignígero
que promoveram os raptos e justificava as [para fazer fogo], perfurador [de lábio e ore-
atrocidades como forma de validar e legitimar lha], pilões horizontais [para socar folhas de
uma atuação violenta e cruel, por mais que os erva mate], machado de pedra, armadilhas,
comportamentos dos raptos eram vestidos de estojo de palmeira, cocar de calda de maca-
um discurso civilizatório e de proteção. Foram co, formão [ferramenta de osso] e, assim por
meninos Xetá – Tikuein Ueió, em 1952, captura- diante, compõe um vasto repertório do modo
do pelos agrimensores da Cia. de Colonização; de vida, visão de mundo e acessórios, instru-
Anambu Guaka [Tuca], outro menino capturado mentos, adornos, enfeites, representando a
pelos medidores de terra da mesma compa- riqueza da cultura do povo Xetá (SILVA, 2017a):
nhia – que serviram de guia, anos mais tarde, Parte expressiva da cultura Xetá, os adornos
de 1955-1961, das expedições de contato da IR/ corporais e instrumentais eram utilizados por
SPI e UFPR (SILVA, 1998). Essas tentativas de homens e mulheres durante os rituais. Criati-
vos, os Xetá preparavam com esmero, tembetás
contato são narradas por Moko [Ã] e expres-
masculinos, colares de contas e dentes de ani-
sam toda a dramaticidade do processo de dis- mais, brincos feitos com a plumagem de peque-
persão em que as crianças Xetá são protago- nos pássaros e faixas de caraguatá usadas nos
nistas e vítimas. pulsos e pernas de mulheres e crianças. Pinta-

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Quero os meus brincos: memória da infância, patrimônio e identidade na saga do povo Xetá

vam seus corpos e poliam com cuidado arcos, a ser problematizada – da violência simbólica
flechas, o machado e a maça. (FUNAI, 2001) de culpabilização de suas vítimas (SILVA, 2019).
Esses adornos compunham a dignidade de Outras crenças, outras representações, ou-
ser Xetá, sentido de pertença: Moko [Ã] obser- tras visões de mundo, diferentes, por vezes in-
va que usaria seus brincos até ficar mocinha, compreensível, dotadas de dignidade humana,
ocasião em que deixaria de usá-los pelo rito de singularidade e tantas possibilidades, ne-
de iniciação. Ela lembra que: gligenciada por uma racionalidade que exige a
anulação de tudo que perturba sua ideologia e
[...] eu tinha vários enfeites [adornos], um cor-
códigos de poder.
dão de fibra de caraguatá com várias voltas
amarrado numa altura da perna, tornozelo [...].
Tinha um brinco pequeno de penas de papa- Os ritos de passagem na
gaio numa orelha e na outra um de couro de
baitaca, que, quando estragava lá no mato, co- sociedade Xetá no mato
locavam outro. (Ã, PIN Guarapuava, 1996, apud As sociedades, as culturas, têm suas formas de
SILVA, 1998, p.68).
manifestar a identidade, a coesão e o sentido
Ela continua seu relato narrando: de pertença. No caso da iniciação do menino e
da menina Xetá, isso não é diferente. Aqueles
[...] no pescoço eu tinha colar de continhas (se-
homens Xetá – Tikuein (Mã), Kuien e Tuca – que
mentes) com dentinhos de quati bem pequeni-
ninhos. Dival cortou, tirou tudo. Eu não queria foram considerados guardiões da memória,
que ele tirasse, mais ele me agradou pra tirar, contaram que “entre o seu povo, existiam duas
e tirou tudo. Até meu brinco, e o amarrilho de ‘festas’ [...] que marcavam a inserção da me-
minha perna foi tirado. Eles me deixaram nua, nina e do menino na sociedade Xetá” (SILVA,
embora estivesse de vestido. (Ã, PIN Guarapua-
1998, p.141). Segundo os registros, o primeiro
va, 1996, apud SILVA, 1998, p.68).
ritual ocorria após nascimento, na ocasião,
As crianças, assim mergulhadas em sua cul- a criança recebia alguns dos símbolos que a
tura com seus artefatos e códigos identitários, identificariam como Xetá.
são despidas de si mesmas, deixadas nuas, Sobre os brincos, Tikuien (Mã), Kuien e
perdem “[...] os símbolos que os ligavam ao seu Tuca relataram: “A criança, ao nascer, tinha a
povo, às suas origens, um choque, uma ruptura sua orelha furada geralmente pela mãe [...]”
com o seu universo cultural [...]” (SILVA, 1998, p. (SILVA, 1998, p.141). Tikuein reitera que, “du-
68). Atualmente, o tema da diversidade, cultu- rante a realização do ritual de inserção da
ra inclusiva e identidades refutam a fórmula criança na sociedade Xetá, a mulher que era
de um padrão único estabelecido como norma, escolhida como madrinha pegava a criança
a discussão revela fatos históricos dramáticos no colo e o homem colocava-lhe o brinco pe-
– atuais e antigos – de subjugar, desprezar e queno de pena de ave [...]” (idem). Tikuein re-
oprimir aqueles que representam o diferente, corda: “Eu passei por esse batismo. Tive meu
o outro. O etnocentrismo, o racismo, o colo- brinco de pena pequeno, meu colar e o cor-
nialismo e tantas outras formas de violência e dão tecido na cintura, mas não tive o cordão
discriminação são denunciados na medida em trocado pela embira [que antecede a perfu-
que, são contextos cotidianos de crime contra ração do lábio]. Não fui batizado a segunda
a humanidade. As diversas justificativas para a vez, ocasião em que furam o lábio e colocam
colonização pautados na inferioridade e passi- o Tembetá [...]” (SILVA, 1998, p.142), pois foi
vidade desses povos, também é outra faceta – raptado antes disso.

572 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 565-577, maio/ago. 2020
Maria Angelita Silva; Nerli Nonato Ribeiro Mori

Sobre o ritual de perfuração do lábio infe- não ser adultos na sua cultura, serem eterna-
rior no menino e a escarificação feminina, Tuca mente crianças. No entanto, carregam, simul-
expressa: “[...] era o momento em que ambos taneamente, outro tipo de rito de passagem
deixavam de ser somente criança, para se tor- que também confere a essas pessoas um novo
narem homens e mulheres [...]. Era o segundo código de resistência pautado justamente na
batismo” (SILVA, 1998, p.142). No caso da meni- etno-história da dispersão, um processo et-
na, “[...] a partir da sua iniciação, a moça es- nogênico, cuja possibilidade de acontecer se
tava apta a se casar. Seus brincos, usados na realiza justamente por sua episteme indígena,
fase de menina, lhes eram retirados, e ela não observada nas narrativas da memória coletiva
mais utilizaria outros [...]” (SILVA, 1998, p.144). (SILVA, 2019).
Já no caso dos homens, segundo Tikuein “o ho-
mem que não usava brinco e tembetá não era
A apropriação do saber
considerado homem pelo grupo” (SILVA, 1998,
p. 144). disfarçada de preservação
Essas informações demonstram o drama da memória: o corolário da
dessas crianças Xetá, que por conta do proces- destruição
so de colonização, esbulho de seu território
Por conta dessas considerações a respeito do
tradicional, e, finalmente, roubo de seus có-
quadro de dispersão, dos conceitos que nos-
digos identitários pelos raptos que sofreram,
sa abordagem teórica permite, é que podemos
foram presas num espaço-tempo de sua exis-
desenvolver uma reflexão sobre o tema do pa-
tência, perturbadas, invadidas e violadas, não
trimônio cultural e intelectual dos povos tra-
tiveram chance de tornar-se adultos Xetá no
dicionais, mais especificamente do povo Xetá,
modelo tradicional. A narrativa de Tiguá em
também de políticas de acervo e memória.
setembro de 2011, por ocasião de um evento
Para problematizar, a Declaração das Na-
ocorrido na Universidade Estadual de Maringá
ções Unidas sobre os Direitos dos Povos In-
(UEM), em Maringá-PR revela isso:
dígenas (UNDRIP) da Organização das Nações
Tiguá na língua Xetá quer dizer menina, eu sou Unidas (ONU), prevê no artigo 31 que:
uma velha menina. Uma velha menina e meu
neto aqui se chama Tikuein que na língua Xetá é 1. Os povos indígenas têm o direito a manter,
menino. Indianara o nome de minha filha, mãe controlar, proteger e desenvolver seu patrimô-
de Willian é beija flor. O nome de Willian eu es- nio cultural, seus conhecimentos tradicionais,
queci o que é o Willian. [...] O pai da gente vai suas expressões culturais tradicionais e as ma-
caminhando pelo mato e vai olhando e coloca nifestações de suas ciências, tecnologias e cul-
o nome da gente com um bicho do mato, ou al- turas, compreendidos os recursos humanos e
guma coisa que ele vê no mato, um animal, era genéticos, as sementes, os medicamentos, o co-
assim [...] (SILVA, 2017a, p. 91) nhecimento das propriedades da fauna e flora,
as tradições orais, as literaturas, os desenhos,
O ritual de passagem dessas crianças foi os esportes e jogos tradicionais, e as artes vi-
atípico, foi para fora de sua cosmologia; com suais e interpretativas. Também tem direito a
outros sentidos e exigências, tornaram-se Xetá manter, controlar, proteger e desenvolver sua
de um novo espaço-tempo, o da dispersão, e propriedade intelectual sobre o mencionado
patrimônio cultural, seus conhecimentos tra-
por isso trazem em si as marcas dessa transfi-
dicionais e suas manifestações culturais tradi-
guração epistemológica. Carregam o lamento cionais. 2. Em conjunto com os povos indígenas,
de terem sido tolhidas, tolhidos de seus fes- os Estados adotarão medidas eficazes para re-
tejos de passagem, o que poderia significar conhecer e proteger o exercício destes direitos.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 565-577, maio/ago. 2020 573
Quero os meus brincos: memória da infância, patrimônio e identidade na saga do povo Xetá

(DECLARAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE OS e manutenção da cultura material; mas o que
DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS Nações Unidas o caso do incêndio do Museu do Rio de Janeiro
13 de setembro de 2007. Sexagésimo período de
nos apresenta é que essa garantia não é total-
sessões Tema 68 do Programa Informe do Con-
mente possível, verdade patente na fala de um
selho de Direitos Humanos)9
dos antropólogos responsável pelo acervo da
Portanto, o que podemos perceber é que Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
o caminho a percorrer, no sentido de possibi-
fortemente impactado pelo acontecimento,
litar os meios para que a legislação interna-
expressando que 200 anos de identidade do
cional possa ser cumprida, ainda é longo. Os
povo brasileiro haviam sido apagados da his-
fatos ocorridos há pouco na cidade do Rio de
tória do país.
Janeiro10 – o incêndio do Museu Nacional, suas
Por traz desse drama se esconde o conflito
circunstâncias e consequências – também su-
entre culturas e racionalidades, entre o proces-
gerem problematização: “quando o noticiário
so de colonização ininterrupto que insiste em
do Plantão da TV aberta anunciava o incêndio
conferir à sua racionalidade melhores condi-
no Museu Nacional, ela [Tiguá] trouxe, numa
ções em detrimento de outras consideradas
situação de reflexão-síntese, o tema da memó-
inferiores. A mulher, a criança, o negro, o indí-
ria e da identidade Xetá” (SILVA, 2019, p.144). Ti-
gena, pessoas com deficiência, ciganos, refu-
guá desabafou: “E não deixaram a à ter seus
giados, migrantes, imigrantes, Lésbicas, Gays,
brincos de volta, porque disseram que eles [o
Bissexuais, Transexuais (LGBTs), latinos, pobres,
MAE/UFPR] teriam melhores condições de pre-
operários, agricultores, idosos a lista é imensa,
servar aquele patrimônio paranaense” (idem,
nela estão também adolescentes, jovens, enfim,
2019). O que nos coloca no centro do problema
cria-se estratificações e referências, dogmati-
de acervo e preservação patrimonial e intelec-
za-se e mistifica-se para justificar um modelo
tual dos povos tradicionais:
social capitalista padronizado globalmente, no
[...] Tiguá recordou que, quando à foi visitar um qual seres humanos são meras mercadorias,
museu do Paraná (sic), visualizou seus brincos
objetos de consumo e descarte (FREIRE, 1996).
de passarinho, ornamento esse só utilizado pe-
las crianças Xetá e ficou triste de poder ver, sem A apropriação do saber e conhecimento ét-
tocar, um elemento identitário importante de nico, a tutela, a mistificação e comportamen-
sua memória, seus brincos, pela caixa de vidro to paternalista são elementos que constitui o
que a afastava deles. (SILVA, 2019, p. 145) disfarce que confunde a percepção dos envol-
A justificativa seria como Tiguá expressou vidos nessa teia de relações, o pior tipo de vio-
ao assistir o noticiário, a garantia de segurança lência é aquele que não consegue ser identifi-
cado de imediato, muitas vezes, nem mesmo
9 Disponível em: https://pib.socioambiental.org/files/
file/PIB_institucional/DECLARACAO_DAS_NACOES_ os agentes da violência tem plena consciência
UNIDAS_SOBRE_OS_DIREITOS_DOS_POVOS_INDiGE- de seu feito.
NAS.pdf. Acesso em: 20 de janeiro de 2019.
10 O incêndio no Museu Nacional do Brasil foi um in-
cêndio de grandes proporções que atingiu a sede do
Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, Rio de Janei-
Guardando a dignidade: por uma
ro, na noite de 2 de setembro de 2018, Data: 2 de se- nova política de preservação
tembro de 2018 Local: Museu Nacional - UFRJ, Rio de
Janeiro Causa: Desconhecida. Localização: Quinta da do patrimônio das sociedades
Boa Vista, São Cristóvão. Hora: em torno de 19h30min.
Mortes: nenhuma. Resultado: Aproximadamente 18,5 tradicionais
milhões (92.5 %) dos 20 milhões de itens do museu fo-
ram destruídos. Disponível: https://pt.wikipedia.org/ Numa defesa de mestrado,11 em outubro de
wiki/Inc%C3%AAndio_no_Museu_Nacional_do_Bra-
sil_em_2018. Acesso em: 20 de janeiro de 2019. 11 Os Xetá e suas histórias: memória, estética, luta desde

574 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 565-577, maio/ago. 2020
Maria Angelita Silva; Nerli Nonato Ribeiro Mori

2018, do Programa de Pós-Graduação em An- O que esse fato, em relação com o incêndio
tropologia da UFPR, o tema do acervo e ma- no Museu Nacional ocorrido no mês anterior,
nutenção da cultura material do povo Xetá foi sinaliza – e levando-se em conta a observação
destaque na fala de um dos membros da banca. de que as famílias Xetá mantém acervos pes-
Há quase 70 anos não acontecia pesquisa espe- soais com fotografias, reportagens de jornais e
cífica sobre o povo Xetá nesse programa – aliás, materiais que conseguem reaver como devo-
o departamento de Antropologia Social leva o lutiva de pesquisas (apesar dessa prática não
nome do Prof. José Loureiro Fernandes, quem, ser constante) (SILVA, 2017a; 2019) – é que uma
há mais de seis décadas, realizou investigação política de acervo e manutenção do patrimô-
sobre a denúncia de que haviam sido vistos po- nio étnico deveria ocorrer pelos próprios inte-
vos indígenas não contatados, em meio a uma ressados, a legislação prevê isso.
grande leva de população que, naquele mo- Nesse caso emblemático do incêndio no
mento [1950-1960], chegava no território tradi- Museu Nacional, aquele acervo, que compreen-
cional Xetá para “ocupar” terras devolutas. dia material cultural e arqueológico de vários
O membro da banca em questão mencio- povos tradicionais, se houvessem políticas pú-
nou que considerava importante uma das fa- blicas de formação de indígenas especialistas
las do cacique Xetá, ao ser entrevistado para a na área de Museologia e preservação de acer-
investigação, que se sentia grato pelo fato de vos uma destruição naquelas proporções não
instituições manterem seus acervos e cultura seria possível, pois os diversos acervos esta-
material. Isso foi questionado no intervalo, an- riam distribuídos de modo a aproximar seus
tes da aprovação do estudo, pois um ano antes atores à sua cultura e de quebra assegurar que
o povo Xetá, através da Associação Indígena da não houvesse uma destruição naquelas pro-
Etnia Xetá (AIEX) preenchia editais para a cria- porções.
ção de um memorial Xetá (SILVA, 2017a), para, Os museus, nesse modelo que existe, não
nesse processo, reaver sua cultura material seriam descartados, apenas resignificados
espalhada por diversos acervos particulares e por acervos fílmicos, documentários, fotogra-
institucionais. fias, tudo que as tecnologias da informação e
O pesquisador que estava submetendo sua comunicação podem oferecer. Descolonizar a
investigação àquela banca comentou que, na forma de manutenção e preservação de acer-
entrevista, o mencionado Xetá disse, como res- vos do patrimônio cultural dos povos tradicio-
salva ao direito de seu povo de manter em seu nais de nosso país pode significar uma nova
poder o seu patrimônio cultural, que conside- forma de educação para as crianças indígenas,
rava positivo o MAE da UFPR proteger e manter que terão acesso ao seu patrimônio em unida-
o acervo Xetá até que o povo tivesse condições de com os anciãos, anciãs, que podem conferir
de reavê-lo. Por isso, foi levantado ao membro um significado mais abrangente aos acervos
da banca que o povo Xetá já havia sinalizado, mantidos pelos próprios povos, aparelhados,
inclusive com preenchimento de editais que, instrumentalizados com as técnicas de manejo
infelizmente, não foram contemplados na oca- desse patrimônio.
sião, de que lutavam para recuperar seu pa- É comum que antropólogos, arqueólogos,
trimônio cultural e intelectual, importante ins- historiadores, educadores entre outros, dete-
trumento para a educação de seu povo. nham um maior controle do patrimônio his-
o exílio, defendida em outubro de 2018 pelo antropó-
tórico e cultura material dessas populações. É
logo Rafael Pacheco na UFPR. comum também que, a insurgência de povos

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 565-577, maio/ago. 2020 575
Quero os meus brincos: memória da infância, patrimônio e identidade na saga do povo Xetá

considerados extintos pela etnografia encon- Terra, 1996.


tre potência em políticas públicas (BATOLOMÉ,
FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO. Xetá: retratos de
2006), publicações e eventos que pesquisado- uma etnia. Revista Brasil indígena, Brasília-DF, Ano
res promovem, inclusive, encontros sistemá- I, n. 2, p. 4-10, jan/fev. 2001
ticos que, de outra forma, possivelmente não
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Pau-
ocorreria. Lutas políticas por visibilidade tam-
lo: Revista dos Tribunais, 1990.
bém são potencializadas por essas iniciativas
e rede. Não há dúvidas que acervos públicos HILL, Jonathan. History, Power and Identity: Ethno-
institucionalizados, até mesmo particulares genesis in the Americas 1492-1992. Iowa City: Univer-
prestam e prestaram um valioso serviço de sity of Iowa Press, 1996.

promoção e manutenção da memória e iden- LIMA, Edilene Coffaci; SILVA, Maria Angelita da; PA-
tidade desses povos. Todavia, esse movimento CHECO, Rafael. Xetá: a renitente batalha. In: RICAR-
é dinâmico, etnogênico, portanto, necessário é DO, Fany; RICARDO, Beto. (Ed.). Povos Indígenas no
que novas estratégias de proteção e garantia Brasil 2011-2016. São Paulo: Instituto Socioambien-
de direito patrimonial sejam negociadas com tal. 2017. p. 781-784.
seus sujeitos e agentes. MORI, Nerli Nonato Ribeiro. Memória e Identidade:
Ã, a protagonista neste artigo, poderia en- a travessia de velhos professores através de suas
tão se conectar com os elementos identitários narrativas orais. Maringá: EDUEM, 1998.
de sua infância, ressignificá-los, demonstrá-los
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo:
aos seus netos, netas, sobrinhos, num proces-
Companhia das Letras, 2011.
so de retorno a si mesma, de empoderamento
e trabalho de memória coletiva, de formação e SARMENTO, Manuel Jacinto; VEIGA, Fátima. Pobreza
reinvenção de sua identidade e da identidade Infantil: realidades, desafios, propostas. Famalicão:
Humus, 2010.
de seu povo, estendendo esse saber inclusive
a visitantes não indígenas e outros povos tra- SILVA, Aracy Lopes da; MACEDO, Ana Vera Lopes da
dicionais. Silva; NUNES, Ângela. Crianças Indígenas: ensaios
antropológicos. São Paulo: Global, 2002.

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latino-americano: memória, identidade e fronteira. Revisado em: 12.05.2020
In: MÜLLER, Verônica Regina Müller (Org.). Crianças Aprovado em: 28.05.2020

Maria Angelita Silva é Prof.ª Adjunta do Instituto de Natureza e Cultura (INC) da Universidade Federal do
Amazonas (UFAM). Pesquisadora no grupo de pesquisa Desenvolvimento, Aprendizagem e Educação, vincu-
lado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) da Universidade Estadual
de Maringá (UEM) e pesquisadora no grupo de pesquisa Infâncias, Criança e Educação na Fronteira Amazô-
nica, do CNPq, da UFAM. E-mail: angelita@ufam.edu.br

Nerli Nonato Ribeiro Mori é Prof.ª Titular do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade
Estadual de Maringá (UEM). Editora da revista Teoria e Prática da Educação e-ISSN 2237-8707. Psicóloga e
psicopedagoga. E-mail: nnrmori@uem.br

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 565-577, maio/ago. 2020 577
Identite et rapports de force dans le candombe argentin

DOI:http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2020.v5.n14.p578-592

IDENTITE ET RAPPORTS DE FORCE DANS LE


CANDOMBE ARGENTIN1

Jean-Arsène Yao
https://orcid.org/0000-0002-5002-5658
Université Félix Houphouët-Boigny (Côte d’Ivoire)

résumé La domination espagnole en Amérique après sa découverte et sa


conquête a conduit, comme on le sait, à l’ introduction de l’esclavage
noir sur ce continent. En Argentine, l’une des principales empreintes
laissées par les esclavagisés africains et leurs descendants, selon
l’historiographie, est le Candombe, que ceux-ci revendiquent comme
propre à eux. Maintes fois interdite par l’autorité blanche, parce que
“obscène”, mais surtout pour éviter les atroupements suceptibles
de favoriser une revolte, cette danse populaire par excellence a
été utilisée pour construire une identité différentielle par rapport
aux autres groupes. Et partant, a constitué un cadre de subversion
contre la domination blanche. C’est peu dire qu’en tant que lieu de
rencontre de la population noire, le Candombe a favorisé une mo-
bilité vers la recherche d’une identité africaine. Le présent travail
propose, d’une part, une approximation aux stratégies utilisées par
les Afro-Argentins dans le Candombe pour déjouer les tentatives de
déshumanisation menées par leurs maîtres. Et d’autre part, d’ana-
lyser les représentations actuelles de cette danse dans la société
argentine caractérisée par le mythe de la nation blanche sans pré-
sence “noire”.
Mots clés: Emprunte. Esclavage. Argentine. Musique. Candombe.

resumo IDENTIDADE E RELAÇÕES DE FORÇA NO CANDOMBE


ARGENTINO
A dominação espanhol na América após sua descoberta e conquista
levou, como sabemos, à introdução da escravidão negra neste conti-
nente. Na Argentina, um dos principais vestígios deixados pelos afri-
canos escravizados e seus descendentes, de acordo com a historio-
grafia, é o Candombe, que eles afirmam ser seus. Muitas vezes proi-
bida pela autoridade branca, porque “obscena” , mas principalmente
1 Le présent article est issue d’une recherche menée dans le cadre du projet “La afrodescendencia americana y su
contribución al Buen Vivir”, coordonnée par le Dr. Teresa Cañedo-Argüelles Fábrega, de l’Université d’Alcalá, et fait
partie d’un appel à candidatures conjoint entre cette institution et la Casa de Velázquez, en Espagne.

578 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 578-592, maio/ago. 2020
Jean-Arsène Yao

para evitar bandos propensos a uma revolta, essa dança popular por
excelência foi usada para construir uma identidade diferencial em
relação aos outros grupos. E assim, constituiu uma estrutura de sub-
versão contra a dominação branca. Não é difícil dizer que, como local
de encontro da população negra, Candombe promoveu a mobilidade
em busca da identidade africana. O presente trabalho propõe, por
um lado, uma aproximação às estratégias utilizadas pelos afro-ar-
gentinos em Candombe para frustrar as tentativas de desumaniza-
ção realizadas por seus senhores. Por outro lado, analise as repre-
sentações atuais dessa dança na sociedade argentina caracterizada
pelo mito da nação branca sem presença “negra”.
Palavras-chave: Impressão. Escravidão. Argentina. Música. Candombe.

abstract IDENTITY AND FORCE RELATIONS IN THE ARGENTINE


CANDOMBE
The Spanish domination in America after its discovery and conquest
led, as we know, to the introduction of black slavery on this conti-
nent. In Argentina, one of the main traces left by the enslaved Afri-
cans and their descendants, according to the historiography, is the
Candombe, which they claim as own to them. Many times forbidden
by the white authority, because “obscene”, but especially to avoid the
flocks likely to favour a revolt, this popular dance by excellence was
used to build a differential identity compared to the other groups.
Thus, constituted a framework of subversion against the white dom-
ination. It is hardly saying that as a meeting place for the black pop-
ulation, Candombe has promoted mobility towards the search for
an African identity. The present article proposes, on the one hand,
an approximation to the strategies used by the Afro-Argentineans
in Candombe to thwart the attempts of dehumanization led by their
masters. On the other hand, to analyse the current representations
of this dance in the Argentine society characterized by the myth of
the white nation without “black” presence.
Keywords: Heritage. Slavery. Argentina. Music. Candombe.

resumen IDENTIDAD Y RELACIONES DE PODER EN EL


CANDOMBE ARGENTINO
La dominación española en América después de su descubrimiento
y conquista llevó, como es sabido, a la introducción de la esclavitud
de los negros en este continente. En Argentina, una de las principales
huellas dejadas por los esclavos africanos y sus descendientes, según
la historiografía, es el Candombe, que estos reivindican como propio.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 578-592, maio/ago. 2020 579
Identite et rapports de force dans le candombe argentin

A menudo prohibida por las autoridades blancas por ser «obscena»,


pero sobre todo para evitar las reuniones que podrían favorecer una
revuelta, esta danza popular por excelencia ha servido para cons-
truir una identidad diferenciada con los demás grupos. Por ende,
constituyó un marco de subversión contra la dominación blanca. Es
un eufemismo decir que, como lugar de encuentro de la población
negra, el Candombe fomentaba la movilidad en la búsqueda de una
identidad africana. El presente trabajo propone, por una parte, una
aproximación a las estrategias utilizadas por los afroargentinos en
el Candombe para frustrar los intentos de deshumanización llevados
a cabo por sus amos. Y, por otro lado, analizar las representaciones
actuales de esta danza en la sociedad argentina caracterizada por el
mito de la nación blanca sin presencia «negra».
Palabras clave: Herencia. Esclavitud. Argentina. Música. Candombe.

Introduction
La contribution africaine – issue principale- [...] lo que se ha introducido en este conti-
ment de l’esclavage – à la configuration de nente –América– desde el siglo XV hasta el XIX,
l’ identité historique et culturelle de l’Argen- no fueron toneladas de ébano, sino hombres
y mujeres cargados de cultura, de una cultura
tine a un poids et un sens encore peu connus
africana milenaria, que ellos no podían haber
et valorisés dans la conscience commune de
olvidado por el simple hecho de cruzar el At-
la population. Ce fait est la conséquence de lántico en condiciones inhumanas. (2001, p. 61)
la dissimulation phénotypique et culturelle
des noirs qui a comme corollaire la négation En Argentine, l’une des principales em-
de leur passé, leur présence actuelle et leurs preintes laissées par les esclavagisés africains
droits. Cette exclusion a contribué à l’ invisi- et leurs descendants, selon l’historiographie,
bilité de leur rôle auprès des Indiens et des est le Candombe, que ceux-ci revendiquent
Européens dans l’édification de la nation. D’où comme propre à eux. Maintes fois interdite par
l’ idée d’une Argentine sans Noirs, expression l’autorité blanche, parce que “obscène”, mais
d’une construction idéologique faisant du sté- surtout pour éviter les atroupements sucep-
réotype «nation de race blanche et de culture tibles de favoriser une revolte, cette danse
européenne” un élément clé de l’identité ar- populaire par excellence a été utilisée pour
gentine» (CIRIO, 2009, p. 17). construire une identité différentielle par rap-
En dépit de cela, il faut dire que dans port aux autres groupes. Et partant, a constitué
la recherche de moyens de maintenir des un cadre de subversion contre la domination
liens avec l’Afrique, les esclavagisés dans ce blanche. C’est peu dire qu’en tant que lieu de
pays, de même que ceux des autres régions rencontre de la population noire, le Candombe
de l’Amérique, ont utilisé la culture comme a favorisé une mobilité vers la recherche d’une
mécanisme pour l’affirmation de leur propre identité africaine.
identité. C’est d’ailleurs à juste titre que Mais parler d’identité culturelle, c’est aus-
Ngou-Mve déclare que: si parler de rapports de forces, redéploiement

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idéologique et législations d’exception. En ce D’autre part, il convient de noter qu’outre la


sens, je considère d’une grande importance littérature spécifique sur le Candombe (GELER,
les espaces qui peuvent être gagnés dans cette 2011; GHIDOLI, 2010; FRIGERIO et LAMBORGHI-
lutte par les afro-descendants, car, d’une ma- NI, 2009; CIRIO, 2007; LÓPEZ, 1999; VILLANUEVA,
nière ou d’une autre, ils re-configurent les dis- 1980), la presse afro-argentine et les docu-
positions du pouvoir, faisant pencher la balance ments produits par les collectifs candomberos
d’un côté ou de l’autre. Il s’agit ici aussi de parler – déclarations imprimées ou sur Internet – ont
du processus de racialisation à l’ère multicultu- également contribué au corpus.
relle dans le contexte spécifique de l’Argentine Inscrit dans le débat anthropologique sur
actuelle. La racialisation étant prise comme la les identités, qui habituellement tourne au-
démarche de construction des rapports de do- tour de l’essentialisme et du constructivisme,
mination à travers la détermination des diffé- mon étude vise à réfléchir sur le Candombe en
rences humaines – culturelles ou phénotypiques tant qu’ instance d’expression/représentation,
– et des relations sociales. En définitve, c’est un de protestation et de résistance culturelle.
processus dialectique, politique, social, culturel La base conceptuelle de ma réflexion c’est la
et cognitif de construction des différences qui notion de culture comme recours de Yúdice
servent de base à la hiérarchisation des groupes (2002), qui permet une approche à la manière
humains (HELLEBRANDOVA, 2014). dont certaines demandes sociales utilisent
Comment et dans quelle mesure le Can- la musique pour être atteintes. Il s’agit donc
dombe a été utilisé pour remettre en cause d’une réflexion sur l’un des héritages laissés
les rapports sociaux et de pouvoir à partir de par l’esclavage dans la société argentine et les
l’expérience vécue par les Argentins d’origine vicissitudes de sa permanence, à partir d’un
africaine  ? Pour répondre à cette question, «appareil conceptuel éloigné des hypothèses
mon hypothèse est que les Afro-argentins ont universelles euro-occidentales dans l’analyse
constamment utilisé ce rythme dans la pro- culturelle» (FERREIRA, 2008, p. 92).
duction de représentations de leur culture en Pour ce faire, mon propos s’articulera en
tant qu’ensemble de symboles de leur vie. Je quatre temps. Tout d’abord, j’analyserai l’ in-
m’appuie aussi sur la perspective afro-dias- fluence de l’ imaginaire colonial sur la narrative
porique développée par Lao-Montes qui vise hegémonique de la nation argentine, puisque
à «repenser l’être, la mémoire, la culture et le la colonialité du pouvoir a soutenu la colonia-
pouvoir au-delà des frontières de la nation en lité du savoir. Puis je me pencherai sur le Can-
tant qu’unité d’analyse» (2007, p. 309). Cela dombé comme contestation de la racialisation
implique de promouvoir fondamentalement des Afro-argentins, pour ensuite analyser ses
une vision alternative à celle offerte par le dis- avatares dans la construction de l’ identité ar-
cours hégémonique. gentine. Et finalement je mettrai en relief le
La stratégie méthodologique globale s’est rôle joué par cette expression culturelle dans
basée sur l’examen des discours publics pro- la reconquête de nouveaux espaces sociaux.
noncés dans divers domaines et événements
rassemblant les candomberos. Par ailleurs,
Le Candombe face à l’imaginaire
les données analysées dans ce travail ont été
construites à partir des pratiques qui confi-
colonial
gurent le Candombe comme un élément de sub- Dans l’abondante littérature sur le Candombe,
version du point de vue de ses protagonistes. il existe une certaine unanimité sur le fait que

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Identite et rapports de force dans le candombe argentin

ce vocable désigne à la fois une musique, une selon laquelle “Un grupo grande se juntaban a
danse et une fête, dont les premières réfé- la noche en número de trescientos para danzar
rences connues datent du XVIIIème siècle. Il indecentemente” (CHAMOSA, 2003, p. 357).
s’agit de mesures d’interdiction émises par En agissant de la sorte, les noirs esclavagi-
les autorités contre sa pratique. En effet, dans sés entendaient la culture comme un mode de
un esprit qui ne favorisait pas l’exécution de vie, plutôt qu’un simple ensemble d’expressions
danses “exotiques”, le Gouverneur du Río de la esthétiques et symboliques (WILLIAMS, 1988,
Plata, Juan José de Vértiz, a promulgué un édit p. 91). Mieux, ce refus d’obtempérer était une
le 20 septembre 1770: forme de lutte pour leurs conditions matérielles
(ESCOBAR, 1992, p. 69). Et contre l’impérialisme
Que se prohíben los bayles indecentes que al
toque de su tambor acostumbran los negros, si culturel basé sur le pouvoir d’universaliser les
bien podrán públicamente bailar aquellas dan- valeurs de la classe dominante en faisant mé-
zas de que usan en las fiestas que se celebran connaitre celles des minorités (BOURDIEU et
en esta ciudad [...] todo vajo la pena de dos- WACQUANT, 1998, p. 109). En se cachant pour
cientos azotes, y de un mes de barranca a los
le danser, les Afro-Argentins revendiquaient le
que contraviniesen. (MATA LINARES, p. 192-198)
Candombe comme un des éléments avec lequel
Même si le substantif Candombe n’apparait ils devaient construire leur identité différen-
pas dans cet arrêté, la référence au tambour, tielle par rapport aux autres groupes.
instrument principal de ce rythme, montre Il ne fait aucun doute que la décision du
bien sa pratique. Généralement dans les lo- Gouverneur Francisco de Paula Bucarely, le 3
caux servant de sièges aux nations africaines2, novembre 1776, selon laquelle “Que no se per-
sortes d’associations créées par les colons es- mitan los bayles indecentes que acostumbran
pagnols dont l’objectif principal était d’empê- tener los negros” (MATA LINARES, folios 179-185)
cher la germination d’une conscience collec- était aussi une manière d’affronter la multicul-
tive de peuple opprimé chez les esclavagisés. turalité avec la vision de ceux pour qui la so-
Véritable réfuge d’africanité, «El barrio donde ciété générique passe par l’abolition de la dif-
dominaba la población africana se llamaba férence. Ce, dans la poursuite de la construc-
barrio del Tambor, porque era el instrumento tion d’une colonie dont les traits dominants
favorito de sus candombes, música monóto- seraient essentiellement ceux de la civilisation
na y bailes enteramente africanos» (QUESADA, occidentale. Contre cette démarche, les sièges
1998, p. 87). des nations, contrôlées plus directement par
Également appelés “barrios del mondogo”, les Africains eux-mêmes, ont été utilisées
ces colonies d’esclaves noirs ont toujours sus- par ceux-ci pour défendre leurs intérêts avec
cité la suspicion des autorités coloniales. En une organisation de type monarchique, avec
fait, les nations n’ont jamais marché comme “rois” et “reines”, ce que les autorités blanches
les autorités s’y attendaient. En effet, bien que voyaient comme une insubordination, voire
leur fonctionnement externe semblait totale- un affront. Puisqu’en faisant allégence à leurs
ment contrôlé par le pouvoir colonial, en re- “monarques”, les Afro-Argentins recréaient
vanche, leur dynamique interne permettait de leur société africaines où ceux-ci étaient les
renforcer l’ethnicité (SCHÁVELZON, 2003). Pour garants de la tradition.
preuve, la déposition d’un officier du Cabildo C’est justement pour ça qu’en 1788, le pro-
2 Dans d’autres pays des Amériques, ces groupes ont
cureur général demanda l’ interdiction de ces
été appelés “Cabildos”. danses pour les raisons suivantes:

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Se originan en ellos una manifesta ruina de Las diversiones de los negros bozales son las
las almas con las muchas y graves ofensas, más bárbaras y groseras que se puedan ima-
que hazen a Dios, porque otra cosa son estos ginar: su canto es un aúllo. De ver sólo los ins-
bayles, sino unos verdaderos Lupanares donde trumentos de su música se inferirá lo desagra-
la concupiscencia tiene el principal lugar haze dable de su sonido. La quijada de un asno con
todo lo agradable de ellos con los indecentes, y su dentadura floja, con las cuerdas de su prin-
obscenos movimientos que se executan sin que cipal instrumento que rascan con un hueso de
de otro modo los puedan hazer, pues para ello carnero, asta u otro palo duro [...], hacen unos
contribuye el mismo son de sus instrumentos altos y tiples tan fastidiosos y desagradables
que es el mayor alicitivo para alterar el espíri- que provocan a tapar los oídos o a correr a los
tu haciendo concupiscible, y poniendo en mo- burros, que son los animales más estólidos y
vimiento y disposición de practicar las mismas menos espantadizos. En lugar del agradable
obscenidades. (KORDÓN, 1968, p. 10) tamborcillo de los indios, usan los africanos
un tronco hueco y a los dos extremos le ciñen
Ces lieux communs sur la population noire
un pellejo tosco golpeando el cuero con sus
et le Candombe que le colonisateur blanc trans- puntas, sin orden, sólo con el de hacer ruido.
forme en marqueur mettent en relief la réali- Sus danzas se reducen a menear la barriga y
té controversée d’une société qui renvoie aux las caderas con mucha deshonestidad, a las
séquelles de l’exclusion des Noirs. Toutefois, que acompañan con gestos ridículos y que
comme il est public et notoire, ce processus traen a la imaginación la fiesta que hacen al
coercitif n’a pas atteint ses objectifs, puisque diablo los brujos en sus sábados, y finalmente
sólo se parecen las diversiones de los negros
la résistance culturelle noire configurée au
a las de los indios, en que todos brincan y fi-
cours des générations coloniales a permis la
nalizan, en borracheras. (CONCOLORCORVO,
reproduction de sociétés et de cultures dans 1942, p. 159)
des conditions où leur survie était presque im-
possible. L’espace colonial devient, comme le Ce témoignage qui démontre toute l’igno-
suggère Pratt, une zone de contact, “un espa- rance de son auteur de la culture africaine ren-
cio social en el que culturas desiguales se en- force les clichés sur le Candombe, puisque “La
cuentran, chocan y luchan entre sí, a menudo, representación tiene por función perpetuar
en relaciones altamente asimétricas de domi- y justificar la diferenciación social, puede –
nio y subordinación como el colonialismo, la como los estereotipos – pretender la discrimi-
esclavitud” (2010, p. 4). nación o mantener una distancia social entre
Contre la construction d’une culture arbi- los grupos respectivos” (ABRIC, 2001). Toute-
trairement homogénéisée, les noires ont re- fois, il permet au moins d’apprécier son dé-
cherché la reconnaissance de l’exercice de la veloppement. D’autre part, avec leur présence
différence dans une société culturellement active dans la sphère publique et dans la vie
différenciées. Plus qu’une simple “tolérance”, quotidienne, les noirs défient les autorités et
telle que souligner par Taylor (1993), ils aspi- élargissent la définition de leur communauté.
raient au plein exercice de leur culture y com- Ils montrent par ailleurs dans quelle mesure
pris le droit à un cadre spatial à sa reproduc- ils ne sont pas seulement une composante de
tion. Les témoignages de l’époque donnaient la population argentine, avec leur contribution
toujours une image adverse des rythmes et à la construction de la société national, mais
danses afro-argentins. Il suffit de lire cette également qu’ ils sont sujets à la discrimina-
chronique du voyageur Concolorcorvo qui a tion raciale.
décrit la danse des noirs de la manière sui- Cependant, malgré les interdictions et le
vante : rejet de la société coloniale, les Candombes

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Identite et rapports de force dans le candombe argentin

étaient parfois autorisés3. Ces autorisations Le Candombe comme subversion


ont coïncidé avec les moments de plus grande
carnavalesque
splendeur du Candombe qui se déroulait dans
les maisons, les voies publiques, les veillées Fondamentalement populaire, le carnaval est
et les sièges des nations africaines. Les témoi- une fête de masse et musicale qui recherche
gnages abondent au sujet de l’ intervention le plaisir et le divertissement, ainsi que la sup-
de foules africaines dans les célébrations à pression des limites qui empêchent le plein
l’époque de Juan Manuel de Rosas, alors Gou- épanouissement des individus dans la vie
verneur de Buenos Aires. Les Noirs venaient quotidienne. C’est dire que dans cette célé-
jouer leurs Candombes même sur la Plaza de bration, les valeurs et les normes sociales, les
la Victoria, l’actuelle Plaza de Mayo (CONCO- comportements établis et les modèles esthé-
LORCOVO, 1942). Mais après la seconde moitié tiques sont modifiés et recréés dans un nouvel
du XIXe siècle, les auteurs soulignent l’extinc- univers d’ordres symboliques qui permettent
tion significative de ces danses (ANDREWS, l’émergence de groupes de “rebelles” dans un
1989, p. 187-203), du moins dans leur forme système définit. Dans cet espace, les cultures
publique. Cela a amené chroniqueurs, cher- populaires sont affirmées et revitalisées pour
cheurs et historiens à annoncer la “dispari- faire face aux cultures dominantes. En Argen-
tion” du Candombe. Ortiz Oderigo a déclaré tine, les Noirs ont formé des sociétés philhar-
ce qui suit: moniques appelées comparsas avec des noms
assez évocateurs  : “Los Negros Santafesinos”
La vivencia del candombe, como música, como
danza y como ceremonia folklóricas, se man- (PISTONE, 1996, p. 10), “Progreso del Plata”, “Es-
tuvo hasta la caída de Rosas. Mermó su inten- trella del Sud”, “Los Negros Mozambique”, “La
sidad al disminuir el elemento afroargentina Lira Argentina”, “Flor de Cuba”, “Negros Unidos
y cuando el alud inmigratorio “blanqueo” la Argentinos”, “Los Negros Candomberos”, “Los
heterogenia textura etnográfica de nuestro
Parias Entrerrianos” (VILLANUEVA, 1980, p. 56).
país. [...] Afines del siglo pasado, sólo afloraba
durante las fiestas del carnaval [...] Podemos De cette façon, la culture noire connaît
fijar el decenio de 1870 como la época en que également un processus d’objectivation dans
comienza [...] su inevitable decadencia. (1980, la mesure où il apparaît comme objet d’un
p. 77) certains activisme noirs qui revendique la
Les Afro-argentins ont été victimes de la contribution de ce collectif à la vie du pays et
construction de l’état uninational sur un es- luttent contre sa marginalisation. Les Afro-ar-
pace multiethnique et multiculturel; diversité gentins ont donc eu recours à des éléments de
qui a été historiquement perçue comme un la sphère publique et définis par des formes
obstacle à la construction d’États “modernes”, hégémoniques, afin de mieux contrôler leur
avec une communauté culturellement homo- existence. En période de carnaval, ces troupes
gène. En ce sens, la différence constitue un exécutaient le Candombe qui n’était pas du
affront au modèle étatique où le rachat de goût de la société la plus distinguée qui s’en
l’altérité passe par l’assimilation à un modèle est toujours plaint, même si cette musique
référentiel plus imaginaire qu’objectif. avait fini par rythmer leur vie, comme le dit si
bien Estrada:

¿Quién no ha sentido alguna vez el ruido del


3 AGN, X - 31 - 11 – 5. En 1795, la “Nation Congo” fut au-
torisée à exécuter ses danses le dimanche et les jours rustico instrumento, a cuyo compás danzan los
fériés. En 1799, ce fut le tour de la “Nation Cambunda”. negros en el tambor? ¿Quién no ha tenido la cu-

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Jean-Arsène Yao

riosidad de ver sus diversiones u oído hablar a de la realidad” (GHIDOLI, 2010), Martín Boneo
sus mayores de un día en que la negra vieja de a capturé un candombe en présence de Rosas
la casa era engalanada con ricos atavíos para
et famille.
ser la Reina de la fiesta? (1863, p. 15)
Otage des conflits politiques entre Uni-
Le sens représentatif de cette musique, sa taires et Fédéraux4, le Candombe a été embas-
“rébellion” et ses relations avec les blancs, lui tillé dans une histoire de censure et autorisa-
était inséparable de l’expérience d’écoute et tion, de réprobation et acceptation attachée à
de danse. C’est aussi un bon exemple d’une un imaginaire marginal. Et comme le dit à juste
forme d’engagement à la fois matérielle et titre Lavou Zoungbo (2011), ce schéma de re-
symbolique, un processus dans lequel le Can- présentation du Noir pourrait s’expliquer par
dombe représente un projet social d’ordre col- l’existence d’une création discursive et, sur-
lectif. Clairement, les comparsas permettaient tout, d’une formation idéologique héritée des
de construire une identité culturelle en tant pays européens impliqués dans les aventures
que réalité vécue, une manière d’être et de coloniales (2011, p. 67).
vivre leur époque. Et comme les lignes qui précèdent l’ont dé-
Cette perception romantique du Candombe montré, dans la description du Candombe l’on
ne cache pas moins les tensions entre l’oli- mettait en relief, d’un point de vue blanc-occi-
garchie blanche et la communauté noire dont dental, les mouvements de danse sexués, en
la musique représentait pour les intellectuels désaccord avec la forte proscription corporelle
le summum de la barbarie et l’antithèse de la et idéologique imposés aux femmes et aux
“civilisation et de la modernité” recherchés hommes bourgeois blancs (BARRANCOS, 2008).
par la société argentine. Le description faite Et au son de leurs tambours – qui étaient
par Ramos Mejía est assez éloquente: considérés comme infernaux –, associant les
Candombes à la sauvagerie et à la débauche
[…] Los candombes empezaban a fermentar con
la alegría gritona y agitante de los negros en li- d’une époque également considérée comme
bertad […] Porque la fauna séptica se insinuaba barbare.
en el alma de todos, despertando aquellos ape-
[Los negros] se dieron organización según sus
titos que el voluptuoso presentimiento del ma-
hábitos y Reyes según los usos y jerarquías que
noseo de las niñas y señoras movilizaba de un
probablemente traían desde sus tierras africa-
modo brutal […] (1907, p. 334-336)
nas. Los domingos y días de fiesta, ejecutaban
L’auteur souligne la charge sexualisée qui sus bailes salvajes, hombres y mujeres a la ron-
da, cantando sus refranes en sus propias len-
érodait les limites de la moralité et le métis-
guas al compás de tamboriles y bombos grotes-
sage entre les classes sociales qu’avait, selon cos. La salvaje algazara que se levantaba al aire,
lui, les Candombes de manière prédominante. de aquella circunvalación exterior, la oíamos
Précisément, à ces danses assistaient Rosas, (hablo como testigo) como un rumor siniestro y
ce qui fut décrits et réprimés par l’ intelligent- ominoso desde las calles del centro, semejante
sia locale, comme un signe du peu de pen- al de una amenazante invasión de tribus afri-
canas, negras y desnudas. Desde que subió al
chant du gouverneur pour la civilisation et
gobierno, Rosas se hizo asistente asiduo de los
de son intention de manipuler les masses. Il Tambos. (LÓPEZ, 1896, p. 365-366)
n’est donc pas surprenant que, dans l’une des
rares images représentant ces danses, prise 4 Les Unitaires défendaient la création d’un État avec
un pouvoir centralisé à Buenos Aires, contrirement
par les chercheurs et les écrivains du XXe
aux Fédéraux qui optaient pour une fédération de
siècle comme une sorte de “reflejo naturalista provinces autonomes.

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Identite et rapports de force dans le candombe argentin

Ces images ont progressivement gagné en désir qui est révélé dans les mots de l’auteur.
complexité lorsque les caractérisations ra- Ces portraits s’ inscrivent dans le processus en
ciales étaient combinées à des variables telles cours qui a vu le jour depuis l’origine de l’es-
que le sexe et la promiscuité. Ces descriptions clavage de stéréotypes sexuels / raciaux dans
reposaient sur la pertinence donnée, dans une l’Atlantique, qui marquent encore les femmes
perspective eurocentrique, aux mouvements et les hommes noirs.
de danse sexués qui étaient en dehors du ca- Et comme dans tout stéréotype colonial,
non imposé à la population blanche (GELER, selon Bhabha (20202), “l’Autre” est construit
2011). De telles manifestations étaient preçues simultanément comme objet de désir et de
comme inesthétiques, déplaisantes et gê- dérision, possible dans l’articulation qui ins-
nantes, presque comme un vice. crit le corps colonial dans des relations de
La crainte du Noir qui se dégage de ces plaisir et de désir, et dans ceux de domination
descriptions était basée sur les préjugés à leur et de pouvoir, en établissant un “rango de dife-
égard. À la suite de ces représentations, il a été rencias y discriminaciones que conforman las
considéré – aujourd’hui encore – que la ma- prácticas discursivas y políticas de la jerarqui-
jorité de la population d’ascendance africaine zación racial y cultural” (2002, p. 92).
pourrait difficilement manifester un comporte- D’où le désir des Noirs de démonter ces
ment “civilisé”. Mais toutes ces choses étaient descriptions qui ont naturalisé leurs diffé-
permises pendant les carnavals comme l’émer- rences et qui ont entraîné l’ impulsion de l’en-
gence dans les corps de “impulso orgiástico  doracisme par laquelle beaucoup d’entre eux
reprimido” (BAJTÍN, 2005, p. 225). La descrip- ont fini par présumer que leur comportement
tion de Ramos Mejía d’un de ces Candombes était porteur de barbarie dont l’éloignement
se focalisait sur la barbarie – “pintarrajeados était nécessaire pour s’ intégrer à la nation
tambores tocaban un ruido del más desastro- moderne et civilisée.
so efecto” – et sur les corps en mouvement:

Sudorosos y fatigados por la larga peregrina- Entre être et paraître


ción marchaban sin embargo con cierto desem-
Au XIXe et au début du XXe siècle, le besoin
barazo vertiginoso, imprimiendo al cuerpo mo-
de créer un “nous” collectif a conduit les di-
vimientos de una lascivia solemne y grotesca.
Las negras, muchas de ellas jóvenes y esbeltas, rigeants argentins à diffuser des modèles
luciendo las desnudeces de sus carnes bien culturels, des mythes d’origine et un ensemble
nutridas, revelaban en sus rostros alegres, un de symboles visant à consolider l’identité ar-
ánimo satisfecho y despreocupado. Las gráciles gentine. Les héros de la nationalité argentine
Venus imponían con indolencia las mamas ro- – Bartolomé Mitre, Juan Bautista Alberdi, Es-
tundas como una expresión de su poder fecun-
teban Echeverría, Domingo Faustino Sarmien-
dante. (RAMOS, 1907, p. 329-330)
to et bien d’autres – ont reproduit des vertus
L’érotisme de la scène est évident, appro- éthiques qu’ils ont projeté sur l’ imaginaire
fondissant les idées qui exacerbent l’asso- collectif comme une sorte de miroir à partir
ciation entre noirceur et hypersexualité au duquel devaient se forger les vertus natio-
détriment de la chasteté, considérée comme nales. Ils ont promu l’ immigration européenne
une valeur idéale des sociétés civilisées (c’est- qui selon eux devait permettre de façoner des
à-dire blanches). Encore une fois, je voudrais citoyens “blanchis” en couleur et “européani-
remarquer le grand fardeau de fantaisie et de sés” dans les mentalités et les us.

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Jean-Arsène Yao

Alberdi (1852), soutenait que les Argentins térêts des secteurs hégémoniques et qui a été
étaient des Européens adaptés pour vivre en utilisé comme un discours de domination ten-
Amérique. En outre, il a déclaré: “En América dant à neutraliser les particularités ethniques.
todo lo que no es europeo, es bárbaro; no hay Je dirais même que l’identité nationale s’est
más división que ésta: primero el indígena, es forgée aux dépens des identités ethnique et
decir el salvaje; segundo, el europeo, es decir basée sur un projet d’homogénéisation cultu-
nosotros” (1852, p. 83). Pour sa part, Ingenie- relle supposé intégratif. Et cela a eu des effets
ros (1913), sans doute le sociologue argentin sur les pratiques musicales des Afro-argentins.
le plus influent s’appuyant sur le darwinisme En effet, il existe de nombreuses réfé-
social, a déclaré: rences qui indiquent l’existence de deux types

La europeización no es en nuestro concepto,


de groupes artistiques afro-argentins à cette
un deseo...; es un hecho inevitable, que se pro- époque-là: les candomberas, fondées dans le
duciría aunque todos los hispanoamericanos sud de Buenos Aires, et les musicaux, situés
quisieran impedirlo. Nace de causas determi- dans le nord, ce qui indiquait que la situation
nantes que ya existen ajenas a nuestro deseo.
sociale de leurs membres était un peu meil-
Por una ley sociológica inevitable los agrega-
leure (FRIGERIO et LAMBORGHINI, 2011, p. 21).
dos sociales más evolucionados se sobrepo-
nen a los menos evolucionados... Nos europei- Alors que les premiers privilégiaient l’héritage
zaremos oportunamente, como lo preveía Sar- culturel africain, les derniers promouvaient
miento la sociología puede afirmar esa futura une esthétique plus européanisée, privilé-
transformación de la América Latina. (1913, p. giée par les intellectuels noirs, sans doute in-
228-229)
fluencés par l’ idéologie des auteurs des fon-
Par conséquent, le passage du noir au mu- dements de la nation argentine moderne. De
lâtre était considéré comme une amélioration ce groupe, plusieurs artistes et compositeurs
introduite au sein de la population argentine noirs se sont distingués par leurs compétences
en général et chez les afro-argentins en parti- dans la musique académique européenne.
culier. Ainsi, dans les années 1860, José Manuel Parmi ceux-ci, il y avait Zenón Rolón, musicien,
Estrada déclarait qu’il n’y avait presque plus compositeur et chef d’orchestre, qui a vécu
de Noirs à Buenos Aires. En précisant qu’il ne plusieurs années à Florence; et Manuel Posa-
faisait pas référence aux mulâtres, mais aux das, un violoniste qui a étudié pendant trois
personnes d’ascendance africaine pure, Es- ans au Conservatoire de Bruxelles.
trada soutenait que le mélange de races avait Pour cette élite noire et métisse, la re-
entraîné une amélioration progressive de la cherche de l’égalité avec les Blancs était un ob-
population noire et la disparition du véritable jectif recherché depuis longtemps, qui consis-
type de race éthiopienne (RODRIGUEZ, 1961, p. tait à noyer les souvenir de l’ère candombera
110). de Rosas dans le calice de l’oubli. C’est ce que
Précisément Sarmiento avait publié que: l’on note dans cet article sur les choses que
“En la ciudad de Córdoba, ya no quedaban ne- certains Afro-argentins considéraient comme
gros. Y muchos de los antiguos mulatos habían bonnes et nécessaires pour leur bien-être en
pasado a ser caballeros, siguiendo el natural tant qu’individu et en tant que groupe social.
desenvolvimiento y progreso de los tiempos”
Muchas han sido las personas que se han fe-
(1900, p. 71). La minimisation de la diaspora
licitado y nos han felicitado al ver que hemos
africaine était l’un des mythes fondateurs de iniciado la propaganda de modificar u olvidar
la nation argentine créée en fonction des in- la costumbre de desempeñar un papel que no

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 578-592, maio/ago. 2020 587
Identite et rapports de force dans le candombe argentin

nos corresponde en los días de carnaval y parti- trabajamos activamente en el sentido de fun-
cularmente a nuestras comparsas, donde existe dar un gran centro social sobre la base sólida
tanto joven hábil para aprender un instrumento
de la unión, y cuyo objetivo principal será el
musical. [...] se encuentran personas que per-
de difundir la ilustración en el seno de nuestra
tenecen a varias de esas sociedades y que nos
han de ayudar a llevar a cabo esta indispen- comunidad”7.
sable innovación5. Une approche déconstructive permet de se
rendre compte que la stigmatisation qui a his-
Il est ici claire que sous l’influence de l’ ima-
toriquement pesé sur le Candombe en tant que
ginaire dominant, le collectif afro-argentin a
pratique marginalisée a conduit à l’élaboration
fini par intérioriser les préjugés qui le stigma-
de stratégies personnelles comment s’éloigner
tisent. De ce qui précède, on peut en déduire
des tambour (FERREIRA, 2003).
que, pour être acceptés par les “autres”, les
Afro-Argentins ont ressenti le besoin d’éviter
l’ image négative que l’on prêtait aux arts d’ori- Le Candombe reconquête de
gine africaine. L’un des effets de cette vision nouveaux espaces
est que, apprendre à jouer des instruments de
Alors que beaucoup parlaient de la “mort” du
musique d’origine européenne était devenu un
Candombe, Narciso Binayán Carmona affirmait
emblème de la modernité et du progrès, ce qui
que dans les années 1940,
a permis de démontrer “la diferencia que hay
entre una sociedad candombera que causa la Los afroargentinos bailaban en el Shimmy Club
desde la medianoche hasta el amanecer bailes
hilaridad de todos y una sociedad musical que
afroamericanos: candombe, rumba abierta y
recibe, siempre, el aplauso general”6. una mezcla de ambos. Hubo y debe seguir una
Ainsi se révèle le mépris vis-à-vis du Can- viva discusión entre los tradicionalistas y los
dombe dans la sphère intime de la communau- modernistas, y en algunos momentos hubo dos
té noire renforcé par l’idéal du blanchiment en grupos rivales de tambores y danzarines. (1980,
tant que pratiques de l’oppression qui arti- p. 72)

cules les relations sociales et de pouvoir racia- De cette manière, nous avons un concept
lisées. Mais qui sont invisibles et naturalisés à d’ identité stratégique et de position construit
travers une série de pratiques, d’expressions de différentes manières “a través de discursos,
ou d’images qui marquent la vie de tous les prácticas y posiciones diferentes, a menudo
jours. Ce rejet du Candombe montre aussi la cruzados y antagónicos […] sujetas a una histo-
formation d’une vision racialisée développée rización radical, y en un constante proceso de
sous l’idéologie du métissage, qui impose cambio y transformación” (HALL, 2003, p. 17).
l’ idéal blanc comme le seul modèle auquel D’ailleurs, ce même auteur signale que:
l’on puisse aspirer.
Dentro de la cultura, la marginalidad, si bien
L’on trouve ici un stéréotype de la culture
permanece en la periferia de la amplia tenden-
noire basé sur des représentations plus ou cia cultural, nunca ha sido un espacio tan pro-
moins générales de l’acceptation sociale. Ce ductivo como lo es ahora. Y esto no representa
stéréotype a du sens en faisant référence à sa simplemente una apertura por la cual aquel-
composante individuelle et à ses coordonnées los que están afuera pueden ocupar los espa-
cios dominantes. Es también el resultado de la
sociales. Le journal La Juventud le marque
política cultural de la diferencia, de las luchas
clairement en déclarant: “En estos momentos
sobre la diferencia, de la producción de nuevas
5 La Broma, 9 de marzo de 1882.
6 La Broma, 3 de marzo de 1882. 7 La Juventud, 10 de enero de 1879.

588 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 578-592, maio/ago. 2020
Jean-Arsène Yao

identidades, de la aparición de nuevos sujetos explícitamente, buscan redefinir el poder so-


en el escenario político y cultural. (HALL, 2010, cial” (ÁLVAREZ, 1998, p. 7). En ce sens, les can-
p. 289)
domberos mettent en œuvre des stratégies de
Eh bien, la stigmatisation et le trinôme légitimation visant à donner une continuité à
contrôle-réglementation-répression du Can- une tradition artistique de secteurs dominés
dombe et du «noir» dans l’espace public, ca- (CHAVES, 2010). Dans son analyse des actions
ractéristiques du contexte argentin du XIXe des candomberos dans l’espace public de la
siècle ont continué au XXe siècle. En effet, après ville de La Plata, dont l’appropriation est sou-
ce que je qualifirais de létargie, le Candombe vent conflictuelle, Mariana Chaves met en re-
retrouve de la voix dans les années 1980 à la lief les liens entre “protestation” et “divertis-
faveur du retour à la démocratie en Argentine. sement” (2010, p. 168).
Toutefois, dans ce contexte qui devait leur être Cette perception de la culture comme un
favorable, les pratiquants du Candombe ont champ de bataille constant est d’ailleurs cer-
tifiée par Stuart Hall lorsqu’ il propose l’ idée
rencontré de multiples difficultés et formes de
d’une «lutte culturelle» jamais terminée,
résistance sociale à leur présence. Les appels
dans laquelle les victoires ou les défaites
au rassemblement, connus comme “Llamadas
sont toujours incomplètes et non définitives.
de tambores” ont été, dès le début, fréquem-
C’est de toute évidence le cas du Mouvement
ment entravés et/ou surveillée par la Police,
afro-culturel qui en 2007 a reçu l’ordre d’aban-
tout comme se multiplièrent les plaintes des
donner “son” siège, une usine abandonnée et
populations reveraines des lieux de regroupe-
occupée de manière informelle, situé au nu-
ment pour “bruits gênants”.
méro 313 de la rue Herrera, dans le quartier de
Dans la ville de Buenos Aires, par exemple,
Barracas, quatre ans auparavant. En réaction
les conflits des candomberos avec différents
à cette décesion judiciaire, ce collectif s’est
agents et acteurs sociaux se sont exacerbés
mobilisé jusqu’à être reconnus comme groupe
par l’absence de législation en faveur de la
d’ intérêt social et culturel. Ne s’arrêtant pas en
pratique du Candombe dans sa spécificité. Ces
si bon chemin, ils ont esté en justice la Mairie
démêlés était essentiellement liés à la persis-
de Buenos Aires pour racisme institutionnel,
tance de l’image de ville blanche, européenne
obtenant en 2009, le cession d’un bâtiment qui
et moderne, où seule la culture d’élite a le droit
abritait jusque-là un centre culturel dans le
d’expression dans l’espace public. Et comme le
quartier de Montserrat.
soutiennent Frigerio et Lamborghini:
Il ne fait aucun doute que, ainsi, le Can-
Más allá de los discursos que puedan articu- dombe est devenu le réceptacle de l’ iden-
lar los candomberos proponiendo imaginarios tité des afro-argentins qui la composent et
urbanos, nuevas formas de leer el espacio, la
la jouent. Et l’agir des candomberos est vue
cultura y la historia de la ciudad –que no son
comme
igualmente explicitados por todos los grupos–,
el sólo hecho de la presencia y el sonido de va- […] ciertas formas de acción colectiva dife-
rios tambores en el espacio público ya consti- rentes de aquellas basadas en el conflicto
tuye una amenaza al orden racial-espacial que histórico que se ubicaba en el Estado y en las
sustenta dicha imagen. (2009, p. 107) divisiones entre clases sociales. En la escena
local contemporánea, se trata de organiza-
La citation précédente revèle le caractère ciones sociales que emergieron como forma
politique de la culture dont “los significados de lucha contra las políticas neoliberales. (VÁZ-
son constitutivos de procesos, que implícita o QUEZ, 2008, p. 166)

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 578-592, maio/ago. 2020 589
Identite et rapports de force dans le candombe argentin

En définitve, la notion résistance des can- lequel je mettrai en œuvre des techniques de
domberos n’est rien d’autre que la manifesta- nature non directive telles que l’observation,
tion d’un secteur social en position subalter- les conversations et les entretiens avec les
nité dans un contexte multiculturel qu’il tente protagonistes du Candombe.
de modifier. Cette résistance est produite à la
fois par ceux qui exercent l’action que par ceux
Bibliographie
qui, par leur position hégémonique, en sont
ABRIC, Jean-Claude. Prácticas sociales y represen-
les destinataires : “Supone la presencia de un
taciones. México D.F: Ediciones Coyoacán, 2001.
conflicto y de un objeto social en disputa que
convoca a los sectores juveniles en el espacio ALBERDI, Juan Bautista. Bases y puntos de partida
público. Es de carácter táctico y puede implicar para la organización política de la República Argen-
la alianza de diversos colectivos o grupos” (RE- tina. Buenos Aires: Museo Mitre, 1852.
GUILLO, 2012, p. 43). ÁLVAREZ, Sonia; DAGNINO, Evelina; ESCOBAR, Arturo.
Cultures of politics, politics of cultures: re-visioning
Conclusion Latina American Social movements. Boulder: West-
view Press, 1998.
Tout au long de ce travail, je me suis efforcé de
montrer que le Candombe a connu une évolu- ANDREWS, George Reid. Los afroargentinos de Bue-
nos Aires. Buenos Aires: Ediciones de la Flor, 1989.
tion marquée par des conflits, favorisés d’une
part par la colonialité du pouvoir, la construc- BAJTÍN, Mijail. La cultura popular en la Edad Media
tion idéologique de l’Agentine; et d’autre part y en el Renacimiento. El contexto de François Rabe-
par les opportunités offertes par le contexte lais. Madrid: Alianza Editorial, 2005.
multiculturaliste du pays. Comme telle, cette
BARRANCOS, Dora. Mujeres, entre la casa y la plaza.
manifestation culturelle de matrice africaine Buenos Aires: Sudamericana, 2008.
contient l’histoire de la socialisation et des
divertissements de la communauté des es- BHABHA, Homi. El lugar de la cultura. Buenos Aires:
Manantial, 2002.
clavagisés africains et leurs descendants, de
l’époque coloniale à l’ère actuelle. BINAYÁN CARMONA, Narciso. Pasado y permanencia
La majorité blanche a toujours considéré de la negritud. Todo es Historia. Buenos Aires, nº
cet élément identitaire et culturel des noirs 162, p. 66-72, noviembre 1980.
comme “sauvage”, mettant celui-ci est en
BOURDIEU, Pierre; WACQUANT, Loïc. Sur les ruses
conflit avec la vision de la culture en tant que de la raison impérialiste. Actes de la recherche
forme de vie. D’où le fait que, bien qu’ayant en sciences sociales. Vol. 121-122, p. 109-118, mars,
des objectifs très différents, la minorité noire a 1998. Disponible à: https://www.persee.fr/doc/
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sous l’angle hégémonique blanc. Ainsi, le Can- dec. 2019.
dombe s’est adapté au contexte socio-culturel
CHAMOSA, Oscar. To Honor the Ashes of their Fo-
du moment, en dialogue avec les structures du
rebears: The Rise and Crisis of African Nations
pouvoir et faisant l’objet de négociations, in- in the Post-Independence State of Buenos Aires,
terdictions et stigmatisations. 1820-1860. The Americas. A Quarterly Review of
Malgré ces premiers résultats obtenus, il InterAmerican Cultural History. V. 59, nº 3, p. 347-
me semble que cette étude ne peut se dispen- 378, 2003. Disponible en: https://www.jstor.org/
ser d’un travail ethnographique de terrain dans stable/1008502?seq=1 Accès au: 15 nov. 2019.

590 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 578-592, maio/ago. 2020
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au: 15 nov. 2019. Aprovado em: 12.05.2020

Jean-Arsène Yao est Maître de conférences-Cames. Coordonnateur du Grelat (www.grelat-ufhb.org). Université Félix Hou-
phouët-Boigny (Côte d’Ivoire). Ses axes de recherche son la construction intellectuelle de l’identité argentine et l’occulta-
tion de la présence-histoire des Noir-e-s; l’ethnohistoire des populations Afro-descendantes de l’Amérique Latine; l’étude
des lieux et itinéraires de mémoire africains et afro-descendants en Amérique Latine. E-mail: jean.yao@univ-fhb.edu.ci

592 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 578-592, maio/ago. 2020
Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira

DOI:http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2020.v5.n14.p593-611

PALAVRA PATRIMÔNIO: NARRATIVAS ORAIS NO


ASSENTAMENTO ROSE

Edil Silva Costa


https://orcid.org/0000-0001-5327-3502
Universidade do Estado da Bahia

Edisvânio do Nascimento Pereira


https://orcid.org/0000-0002-6680-0858
Universidade do Estado da Bahia

resumo As comunidades tradicionais possuem formas de transmissão de sa-


beres predominantemente orais, ancoradas em vínculos parentais e
afetivos fundamentais para sua existência e preservação. Com uma
organização social complexa e cadeia hierárquica baseada na an-
tiguidade do saber, demonstram força e vitalidade na atuação de
mestres reconhecidos pelo grupo social. Os mais velhos exercem
uma liderança natural no grupo e se destacam como guardiões dos
saberes que estruturam os modos de vida coletivo. Trataremos da
comunidade narrativa do Assentamento Rose, uma comunidade de
sem terras localizada no município de Santa Luz, Bahia. Trata-se de
uma comunidade diaspórica, cujos sujeitos são oriundos de várias
cidades, se reorganizando em torno de interesses comuns. Os as-
pectos culturais são de extrema importância para a reorganização
dos sujeitos em comunidade e, por isso, nosso interesse nas narrati-
vas orais e contos populares presentes no Assentamento, a partir da
atuação do narrador Zé de Souza. Será analisado o conto “O homem
preguiçoso”, discutindo as relações de trabalho e de poder encontra-
das na narrativa. Desse modo, veremos como as narrativas tradicio-
nais, no seu processo de transmissão e continuidade, carregam mui-
to da personalidade do narrador, mas, acima de tudo, documentam
as formas de organização social da comunidade, ainda que de forma
indireta, e preservam, reafirmam e fortalecem valores estruturantes
para o grupo social.
Palavras-chave: Conto popular. Assentamento. Cultura. Trabalho.
Preguiça.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 593-611, maio/ago. 2020 593
Palavra patrimônio: narrativas orais no Assentamento Rose

abstract WORD HERITAGE: ORAL NARRATIVES IN THE


ASSENTAMENTO ROSE
Traditional communities have predominantly oral forms of knowl-
edge transmission, anchored in parental and affective bonds that are
fundamental for their existence and preservation. With a complex
social organization and hierarchical chain based on the age of knowl-
edge, they demonstrate strength and vitality in the performance of
masters recognized by the social group. The elders exercise a natural
leadership in the group and stand out as guardians of the knowledge
that structures the collective ways of life. We will deal with the narra-
tive community of Assentamento Rose, a landless community locat-
ed in the municipality of Santa Luz, Bahia. It is a diasporic community
whose subjects come from various cities, reorganizing themselves
around common interests. Cultural aspects are extremely important
for the reorganization of the subjects in community. That is why our
interest in oral narratives and folktales present in the Settlement,
based on the performance of the narrator Zé de Souza. The short
story “O homem preguiçoso” (the lazy man) will be analyzed, dis-
cussing the working and power relations found in the narrative. In
this way, we will see how traditional narratives, in their process of
transmission and continuity, carry much of the narrator’s personal-
ity, but above all document the forms of social organization of the
community, albeit indirectly, and preserve, reaffirm and strengthen
values. structuring factors for the social group.
Keyword: Popular tale. Settlement. Culture. Work. Laziness.

resumen PALABRA PATRIMONIO: NARRATIVAS ORALES EN EL


ASSENTAMENTO ROSE
Las comunidades tradicionales tienen formas predominantemente
orales de transmisión del conocimiento, ancladas en vínculos pa-
rentales y afectivos que son fundamentales para su existencia y
preservación. Con una organización social compleja y una cadena
jerárquica basada en la edad del conocimiento, demuestran fortale-
za y vitalidad en el desempeño de los maestros reconocidos por el
grupo social. Los ancianos ejercen un liderazgo natural en el grupo
y se destacan como guardianes del conocimiento que estructura las
formas de vida colectivas. Nos ocuparemos de la comunidad narra-
tiva del Assentamento Rose, una comunidad sin tierra ubicada en
el municipio de Santa Luz, Bahia. Es una comunidad diaspórica cu-
yos sujetos provienen de varias ciudades, reorganizándose en torno
a intereses comunes. Los aspectos culturales son extremadamente

594 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 593-611, maio/ago. 2020
Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira

importantes para la reorganización de los temas en la comunidad.


Es por eso que nuestro interés en las narraciones orales y los cuen-
tos populares presentes en el Acuerdo, basados ​​en la actuación del
narrador Zé de Souza. El cuento “O homem preguiçoso” (el hombre
perezoso) será analizado, discutiendo las relaciones laborales y de
poder que se encuentran en la narrativa. De esta manera, veremos
cómo las narrativas tradicionales, en su proceso de transmisión y
continuidad, llevan gran parte de la personalidad del narrador, pero
sobre todo documentan las formas de organización social de la co-
munidad, aunque indirectamente, y preservan, reafirman y fortale-
cen los valores. factores estructurantes para el grupo social.
Palabras clave: Cuento popular. Asentamiento. Cultura. Trabajo. Pe-
reza.

Palavras iniciais: as narrativas


orais como patrimônio
As narrativas orais são um importante aspec- o sujeito, narrar sua história é dizer quem é,
to do patrimônio imaterial de uma comuni- é construir o passado no qual se sustenta o
dade, uma vez que narrar um acontecimento, presente e propulsiona o devir. Assim também
um conto popular ou histórias de vida pode é com um grupo social cuja narrativa é cons-
revelar, no contexto coletivo, as organizações truída para dar existência a si próprio e aos
sociais do grupo; e no contexto mais familiar demais. Em última instância, narrar é existir. O
ou restrito, a construção de uma narrativa que que não foi narrado não existe no meio social.
exteriorize o que o sujeito quer tornar público, Nas comunidades tradicionais, cujas formas
uma imagem construída de si e seu modo de de transmissão de saberes e fazeres são pre-
ver o mundo. Dessa forma, as narrativas po- dominantemente orais, os vínculos humanos,
dem documentar crenças, valores ou precon- parentais e afetivos são fundamentais para
ceitos que dão luz ao conhecimento sobre o sua existência e preservação. São comunida-
outro e sobre nós mesmos. des cuja organização social é muito complexa
São consideradas narrativas orais tradicio- e sofisticada, com cadeia hierárquica baseada
nais as que nos remetem a um passado lon- na antiguidade do saber, no respeito a uma
gínquo, embora permaneçam atuais. Desse história que poderia parecer frágil aos sujei-
modo, estão na memória da comunidade que tos de sociedades predominantemente letra-
as repetem e atualizam continuamente. Mes- das, mas que demonstra sua força e vitalidade
mo quando a narrativa não é da tradição oral, na atuação de líderes e mestres reconhecidos
em comunidades narrativas, as formas de nar- pelo grupo social onde atuam. Os mais velhos
rar são tradicionais e os modos de transmissão e aqueles que exercem uma liderança natural
do saber calcados na oralidade mantêm fortes no grupo se destacam como sustentáculos da
vínculos com o passado e a ancestralidade. vida comunitária e guardiões dos saberes que
A memória dos acontecimentos próprios estruturam os modos de vida coletivo. Guar-
do grupo fortalece seus vínculos de identida- diões no sentido de preservar, não deter, pois
des que são laços vitais para sua coesão. Para eles sabem que a melhor forma de preservar é

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 593-611, maio/ago. 2020 595
Palavra patrimônio: narrativas orais no Assentamento Rose

passar adiante o que sabem, com o cuidado de formas de organização social da comunidade,
repetir de modo fiel e adequado. A repetição ainda que de maneira indireta, preservando,
prepara a nova geração para a continuidade, reafirmando e fortalecendo valores estrutu-
embora seja inevitável e necessária a atualiza- rantes para o grupo social.
ção das informações. Estudar as comunidades
tradicionais requer atenção e cuidado às for-
O Assentamento Rose: território,
mas sofisticadas de organização social que as
estruturam, evitando o julgamento de valor e a
pessoas, culturas
análise a partir de parâmetros externos. A pes- Segundo dados do IBGE de 20192, o municí-
quisa é, portanto, um exercício de alteridade. pio de Santa Luz, distante 258 km de Salva-
Nesse artigo trataremos da comunidade dor, tem uma área territorial de 1.560 km2,
narrativa chamada de Assentamento Rose,
com população estimada de 37.348 habi-
uma comunidade de sem terras localizada no
tantes. A uma distância de 6 km da sede
município de Santa Luz, região do Semiárido
de Santa Luz está o Assentamento Rose,
da Bahia1. Um aspecto peculiar desse agrupa-
território de articulações, mobilizações e
mento humano é o fato de, como em muitos
assentamentos no Brasil, se formar a partir de resistência.
sujeitos oriundos de diversas partes, com in- O cordelista e escritor Nelci Lima da Cruz
teresses e modos de vida semelhantes. Trata- relata que existem duas versões sobre a his-
se de uma comunidade diaspórica que vai se tória da fundação do município de Santa Luz.
reorganizando em torno de alguns elementos A primeira diz que aconteceu “[...] em 1880,
que ganham coesão e se fortalecem à medi- onde é hoje a Estação Ferroviária; e teria sido
da que a estrutura do acampamento melhor fundada pelo Senhor José Lopes” (CRUZ, 1996,
se organiza. Uma liderança ou algumas lide- p. 20). De outra parte, o mesmo autor aponta
ranças consolidadas fazem muita diferença uma segunda versão, dizendo que em 1850 já
nesses grupos. Os aspectos culturais comuns existiam alguns moradores na Fazenda Morro
também. dos Lopes, também fundada pela família Lo-
Nosso olhar se volta para as narrativas pes (CRUZ, 1996, p. 25). Entretanto, apesar da
orais e o conto popular presentes no Assen- divergência, conserva-se como data de funda-
tamento Rose, a partir da atuação do narrador ção o ano de 1880 porque foi a partir dele que
José Dantas de Ataídes, conhecido por Zé de teve início a Vila de Santa Luzia, hoje cidade de
Souza. Analisaremos o conto que ele intitula Santa Luz. O marco é a inauguração da estrada
“O homem preguiçoso”, propondo discutir, do de ferro que ligava a estação de São Francisco,
ponto de vista formal, a composição do tex- em Alagoinhas, ao Rio São Francisco, em Jua-
to e sua recepção; do ponto de vista temáti- 2 Santa Luz está localizada na região Planejamento
co, as relações de trabalho e poder, situando a Nordeste do Estado da Bahia, limitando-se a leste
com os municípios de Araci e Conceição do Coité, a
narrativa em seu contexto de produção. Desse sul com Valente, São Domingos e Gavião, a oeste com
modo, veremos como as narrativas tradicio- São José do Jacuípe e Queimadas; e a norte com Nor-
destina e Cansanção. A economia do município está
nais, no seu processo de transmissão e conti- baseada na agricultura familiar, criação de caprinos
nuidade, carregam muito da personalidade do e no comércio varejista, além de ser reconhecida na
Bahia e no Brasil por sua produção de sisal e extração
narrador, mas, acima de tudo, documentam as de pedras e minerais como ouro, ferro e magnésio.
Disponível em: http://cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.
1 Para informações mais detalhadas sobre o Assenta- php?lang=&codmun=292800&search=bahia|santaluz.
mento Rose, consultar a pesquisa de Pereira (2018). Acesso em: 28 abr. 2017.

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Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira

zeiro da Bahia. A estação de São Francisco foi trabalhadores rurais de Retirolândia, Valente e
aberta entre 1880 e 1896, pelo Governo brasi- São Domingos, juntamente com a Paróquia de
leiro3, mudando consideravelmente a vida das Conceição do Coité e a Associação de Desen-
comunidades da região. volvimento Sustentável e Solidário da Região
Embora historicamente prevaleça no Brasil, Sisaleira/BA (APAEB)5 de Valente, decidiram
como organização de maior atuação nos pro- ocupar a Fazenda Lagoa do Boi, que naquela
cessos de ocupações de terras, o Movimento época pertencia à Companhia de Celulose da
dos Trabalhadores Sem Terra (MST), é impor- Bahia (CCB). Hoje, conforme dados do Institu-
tante ressaltar que o Assentamento Rose não to Nacional de Colonização e Reforma Agrária
foi articulado e ocupado por esta organização. (INCRA), o Rose conta com uma área de 1.360
Isto não significa dizer que ele não tenha rela- hectares de terra e possui 78 posseiros6.
ções de afinidade com o movimento. Pelo con- Durante o período de ocupação, os assen-
trário, uma de suas fontes de inspiração é o tados do Rose tiveram que enfrentar condi-
MST, obviamente, seguindo as orientações das ções precárias em meio a frio, sol, chuva, poei-
Organizações da Sociedade Civil do Território ra, lama, tendo que passar por muitas ocasiões
do Sisal e seus parceiros. No entanto, a for- da hora de comer, morando debaixo de um
mação do Assentamento aconteceu como re- barraco de lona e pindoba de ouricurizeiro7,
sultado da presença de diversas instituições, com dois metros quadrados, dormindo em ca-
sindicatos de trabalhadores rurais, associa- mas feitas de flecha de sisal, forradas com ca-
ções comunitárias e demais organizações da pim-açu8 (o colchão construído por eles). Por
sociedade civil. 5 A sigla APAEB se refere a princípio à Associação de
Pequenos Agricultores do Estado da Bahia, atuante
O surgimento do Projeto de Assentamento
também nos municípios de Araci, Serrinha e Ichu. Em
(PA) Lagoa do Boi, conforme descreve o filho Valente, a sigla permaneceu usada para representar a
Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidá-
de assentado Gilson Santiago4, nasceu na noi-
rio da Região Sisaleira/BA.
te de 10 de julho de 1989. Os assentados pas- 6 Há dois conceitos que definem o termo: 1) posseiro é
a pessoa que tem, na prática, a posse de uma porção
saram a chamar o PA Lagoa do Boi de Rose, ou de terra, mas não é dono na lei, não possui documen-
Comunidade Rose, logo após a ocupação, em tação, nem registro em cartório. Já o conceito 2, diz
que posseiros são lavradores que, juntamente com a
homenagem à líder camponesa Roseli Celes- família, ocupam pequenas áreas de terras devolutas
te Nunes da Silva, que morreu num conflito de ou improdutivas, isto é, terras que não estão sendo
utilizadas e que pertencem ao governo. Disponível
terras, no início do MST, na década de 80, no em: http://apacor.blogspot.com.br/p/historia-do-ro-
Rio Grande do Sul. se.html. Acesso em: 10 fev. 2017.
7 Ouricurizeiro, também conhecido como palmeira ser-
A terra do Assentamento Rose foi ocupada taneja, que pode atingir até 11 metros de altura. O
depois de várias reuniões de planejamentos licuri (nome cientifico: Syagrus coronata) é também
chamado por alicuri, aricui, adicuri, cabeçudo, coquei-
e estratégias, quando famílias dos municípios ro-aracuri, coqueiro-adicuri, iricuri, oricuri, uricuri, e
de Conceição do Coité, Retirolândia, São Do- uricuriba. Suas folhas são utilizadas na fabricação ar-
tesanal de sacolas, chapéus, vassouras, espanadores,
mingos e Valente, apoiadas por sindicatos dos entre outros. A espécie pode ser encontrada no norte
de Minas Gerais, na porção oriental e central da Bahia
3 Informações disponíveis em: http://www.estacoesfer- até o sul de Pernambuco e nos estados de Alagoas e
roviarias.com.br/ba_paulistana/santaluz.htm. Acesso Sergipe. Disponível em: www.embrapa.br. Acesso em:
em: 05 maio 2017. 03 abr. 2017.
4 Graduado em Letras Vernáculas pela Universidade 8 O capim-açu (Andropogon minarum), também conhe-
do Estado da Bahia, através do Programa Nacional cido como capim canutão e capim doido, é uma erva
de Educação na Reforma Agrária – PRONERA. Infor- que cresce até um metro de altura e pertence à fa-
mações sobre o Rose disponíveis no blog da APOCOR mília das gramíneas, nativa do Brasil e presente do
-Associação de Pequenos Agricultores da Comunida- Estado do Maranhão até o estado de São Paulo. Tal
de Rose. Disponível em: http://apacor.blogspot.com. espécie possui folhas lineares e inflorescências bem
br/p/historia-do-rose.html. Acesso em: 10 abr. 2017. densas. Além de fornecer forragem, suas sementes

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Palavra patrimônio: narrativas orais no Assentamento Rose

muitas vezes, também enfrentaram a falta de tração de terras do mundo. Como consequên-
atendimento às necessidades básicas ao ser cia dos grandes latifúndios, temos também o
humano e, além disso, viveram o drama de en- maior número de pessoas que não possuem
frentar o medo de possíveis ataques de fazen- terra para produzir. É neste mesmo Brasil que
deiros e seus capangas9. há a prevalência de terras improdutivas, com
Como é bastante sabido, o Brasil é um país marcas históricas que mergulham no tempo e
que, ao longo de sua história, tem sido marca- remontam ao começo da invasão portuguesa
do por diversos conflitos. No que diz respeito e todo o período em que prevaleceu o sistema
à concentração de riquezas, a grosso modo, escravagista. Dessa maneira, no que se refere
temos de um lado as forças das elites, do capi- à busca por igualdade e acesso à terra, os pro-
talismo, dos latifundiários e dos políticos que cessos de luta e resistência ocorrem desde a
em suas tentativas de permanecerem a todo invasão portuguesa, como nos lembra Fernan-
custo no exercício do poder, matam, excluem, des (2000, p. 25):
marginalizam e violam, de todas as formas, os
[...] começou com a chegada do colonizador
direitos humanos. É neste “cabo de guerra” europeu, há 500 anos, desde quando os po-
que, do outro lado, concentram-se as classes vos indígenas resistem ao genocídio histórico.
trabalhadoras, perseguidas e marginaliza- Começaram, então, as lutas contra o cativeiro,
das. Estas classes têm buscado, ao longo da contra a exploração, e, por conseguinte, contra
o cativeiro da terra, contra a exploração, contra
história, sair da condição de assujeitados, de
a expulsão e contra a exclusão, que marcam a
subalternos, de marginalizados, para, a partir história dos trabalhadores desde a luta dos es-
das suas lutas, darem novos sentidos e signi- cravos, da luta dos imigrantes, da formação das
ficados às suas histórias de vida. Sendo assim, lutas camponesas. Lutas e guerras, uma após a
a tentativa destes sujeitos é a de deixarem a outra, ou ao mesmo tempo, sem cessar, no en-
condição de subalternos para se tornarem frentamento constante contra o capitalismo.

protagonistas. Em certa medida, essa é a sua Se, por um lado, o Brasil é marcado his-
forma: toricamente por falta de políticas públicas
[...] de luta e seus modos de enunciação são e investimentos que possibilitem condições
singulares e respondem a uma dobra do poder, de igualdade para todas as classes sociais,
como acontecimento: confronta o chefe local, por outro, desde o início da colonização, há
expõe representantes do sistema de poder (a
as marcas de um povo que persiste, resiste e
cada instância que interpela e supera em sua
luta por direitos e para não ser mais “ invisível”
vontade de justiça), mobiliza seus parcos re-
cursos de camponeses pobres... [...] ativa sua aos olhos de uma sociedade onde prevalece
sensibilidade e inteligência, à medida em que o poderio político e econômico reacionário. É
os desafios vão se colocando durante seu pro- nesse cenário de resistência que situamos o
cesso de luta e enfrentamento. (SANTOS, 2016, Assentamento Rose.
p. 61)
É necessário esclarecermos que há uma
O Brasil detém o maior índice de concen- diferença entre os conceitos de “acampamen-
são diuréticas. Disponível em: www.embrapa.br. Aces-
to” e “assentamento”: o primeiro, é considera-
so em: 03 abr. 2017. do como um instrumento de luta fundamen-
9 O uso do termo ‘capanga’ se aplica aqui ao sujeito que
recebia dinheiro de fazendeiros, empresários e/ou
tal pela conquista da terra. Segundo Caldart
políticos para lhes servirem de guarda-costas e fiéis (2004), os acampamentos podem ser consi-
escudeiros, sendo, inclusive, capazes de armar em-
boscadas e matar para atender aos desejos dos seus derados como cidades de “barracos de lona”,
“chefes”. para se referir ao material e ao tipo de habita-

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Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira

ção utilizados para a realização do movimen- todo o território nacional que lutam por refor-
to. Ainda segundo a mesma autora, os acam- ma agrária. Dessa forma, constitui-se aí o que
pamentos são construídos na área pretendida pode ser entendido como uma tentativa de in-
para transformá-la posteriormente em assen- tervenção do Estado sobre um conflito social.
tamento; ou margeando rodovias, nas partes Nesta perspectiva, conforme Caldart (2004),
externas das fazendas. Sendo que cada acam- pode-se considerar que o assentamento, neste
pamento, entretanto, possui estratégias dife- instante, passa a ser um espaço de luta dife-
rentes de sobrevivência e resistência. Mas o rente do acampamento, visto que o assenta-
objetivo é sempre o mesmo, ou seja, tornar mento indica que a terra já é uma “conquista”
explícita a luta, pressionar o governo e mobi- e, daí por diante, passa a ser organizada uma
lizar a opinião pública a respeito da questão nova comunidade. Neste sentido, o assenta-
da terra. mento é o momento em que há a desapro-
O acampamento é organizado e constituído priação da terra de um determinado latifúndio
a partir da participação da comunidade e de pelo Estado brasileiro, dando posse aos sujei-
reflexões, por meio de instâncias coletivas que tos que lutaram por esta conquista. A partir
realizam assembleias e fazem as deliberações. deste momento, a terra está legalizada e seus
Além disso, possuem as instâncias participati- assentados não podem mais sofrer interferên-
vas que se encarregam da gestão do trabalho. cias nem serem retirados, a não ser que parem
São os chamados “coletivos” que assumem as de produzir. É importante ressaltar que é feita
funções de tratar de assuntos que visam ao a divisão da terra em partes iguais aos assen-
desenvolvimento de ações que mantenham tados (posseiros), e, após este momento, as
ativamente o funcionamento do grupo, abor- famílias adquirem o direito de trabalhar, pro-
dando vários pontos cruciais para a manu- duzir, acessar crédito do governo e construir
tenção deste, como: mobilização, educação, suas moradias.
atividades culturais, saúde, segurança, dentre O quadro brevemente apresentado nos
outros. mostra que a vida nos assentamentos não é
Neste sentido, Stedile argumenta que “[...] fácil. Além das atividades na lavoura, os traba-
todas as instâncias do Movimento, desde as co- lhadores vivem em meio às tensões, temendo
missões de base, dentro de um acampamento, possíveis represálias dos fazendeiros ou em-
até as instâncias nacionais, são exercidas cole- bates com os poderes públicos. Porém, mesmo
tivamente, na forma de colegiado, sem distin- dedicados às labutas diárias, ainda é possível
ção de poder” (1997, p. 104). Por fim, o acampa- cultivar o tempo do lazer e das reuniões festi-
mento nada mais é que o ato reivindicatório e vas. Nesses intervalos, conseguem se reunir ao
o instrumento de mobilização, enfrentamento, redor de uma fogueira e ali, desfrutando o ca-
pressão e resistência para alcançar o objetivo lor do fogo e o contato humano, fazem das noi-
destes coletivos, que é o acesso à terra. Sem o tes frias momentos aquecidos de alegria com
processo de ocupação e acampamento, indu- cantigas, poesia, contação de contos e causos,
bitavelmente, não haveria assentamento. samba de roda, reisado e cantoria.
Já o “Assentamento”, que é o pós-acam- É nesse contexto que encontramos Zé de
pamento, segundo Caume (2002) e Medeiros Souza. Como foi dito, nos limites desse artigo
(2003), pode ser considerado como a princi- trataremos do conto “O homem preguiçoso”,
pal resposta do Estado brasileiro às pressões narrado por ele. A escuta atenta dessa narra-
e mobilizações dos movimentos sociais em tiva nos permite refletir sobre as formas tra-

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Palavra patrimônio: narrativas orais no Assentamento Rose

dicionais de narrar, mas também sobre ques- Considerando essa premissa, a narrativa
tões relacionadas ao patrimônio imaterial do “O homem preguiçoso” nos esclarece a res-
Assentamento Rose, em particular, e as formas peito de muitos discursos construídos histo-
de organizações sociais de grupos populares, ricamente. Assim como reservas indígenas e
em geral. remanescentes de quilombos, as áreas de as-
sentamento de reforma agrária são marcadas
por serem constituídas por pessoas excluídas
“O homem preguiçoso”: conexões
das políticas sociais, econômicas e educacio-
da vida com a arte da palavra nais. Logo, são também pessoas marginaliza-
José Dantas de Ataídes, ou simplesmente Zé das, tidas como miseráveis ou mesmo “ladrões
de Souza, como gosta de ser chamado, já que, de terras”; e ainda carregam o estereótipo de
segundo ele, esse é seu nome artístico, hoje “vagabundos, baderneiros e preguiçosos”.
tem 76 anos. De estatura mediana, se classi- Esse discurso carregado de ódio e precon-
fica como de pele morena. Possui os cabelos ceitos chega a ser tão violento e bárbaro quan-
grisalhos, por circunstâncias de suas mais de to a ausência de tais políticas e é produzido e
sete décadas de vida. Como parte dos senho- reproduzido, diuturnamente, justamente pela
res sertanejos, seus contemporâneos, mantém elite brasileira, que tem como aliada grande
sempre o hábito de usar o bigode por fazer. É parte da mídia televisiva, radiofônica e im-
natural do município de Valente e pai de 12 fi- pressa que, historicamente, age de forma ten-
lhos. Reside em Rose desde a ocupação e sem- denciosa, reacionária e falsamente moralista.
pre se dedicou à labuta de trabalhar na roça, Por conta disso, muitas vezes essas ideias são
no ofício de agricultor. Um mestre contador de tomadas e repetidas também por parte da
causos e contos populares, intérprete, tocador classe média ou mesmo por muitos que vivem
de violão, cantador de reisado, samba e, como em estado de pobreza.
bem diz ele, “muitas outras coisas da música e Se por um lado há adversidades, por outro
da arte, pois sua vida é uma arte”. pode-se constatar a construção de estratégias
Zé de Souza é integrante dos projetos cul- de resistência que promovem movimentos e
turais do assentamento, exercendo o papel de articulações, como é exemplo as ações resul-
instruir crianças, jovens e adultos com aulas de tantes em organizações como o Assentamento
violão e contação de contos populares e cau- Rose. Por seu turno, os discursos hegemônicos
sos. Possui um modo bem peculiar de narrar, a respeito dos movimentos sociais tendem a
conduzindo a narrativa com naturalidade, des- ser depreciativos e estereotipados porque re-
contração e leveza. Dentre as peculiaridades conhecer virtudes como a capacidade de resis-
do mestre está a capacidade de surpreender, tência e organização por parte das comunida-
inserindo uma narrativa tradicional no meio des populares é também mostrar o fracasso do
de uma conversa sobre qualquer tema. Essa modelo institucional que, hierarquizando, ex-
estratégia, que permite ao narrador conduzir clui e marginaliza. Está claro que essas ações
o ouvinte, transitando do mundo real ao fic- de resistência são incômodas e podem pro-
cional e vice-versa, nos revela como o sujeito vocar reações, pois: “Os poderosos temem as
estampa as marcas de sua vivência nas narra- virtudes, porque elas têm o poder de provocar
tivas, nos levando do plano simbólico para o a resistência contra a dominação e contagiar
político e promovendo o trânsito do estético aqueles que devem derrubar suas estruturas”
para o ético. (BOGO, 2009, p. 41).

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Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira

Zé de Souza é um cidadão pouco letrado, se locais e regionais, busca-se reconhecer, atra-


considerarmos a educação formal, assim como vés de suas habilidades, assim como de outros
muitos senhores e senhoras residentes no As- tantos mestres e mestras do Rose, o quanto
sentamento, tendo em vista que não tiveram ele contribui para que as atividades culturais
acesso à escola em suas respectivas épocas da comunidade continuem sendo desenvolvi-
pela escassez de estabelecimentos escolares das e ganhem visibilidade para além do Rose.
públicos. Além disso, tiveram que se dedicar
ao trabalho da roça, desde muito jovens, para
A narrativa se apresenta
ajudar às suas famílias. Logo, não conseguiram
concluir o Ensino Médio, um curso profissiona- O homem preguiçoso10
lizante ou Superior. Todavia, é importante ob-
Aconteceu em um povoado, onde morava o jo-
servar que essa realidade não se aplica mais vem Mané, juntamente com seus familiares. O
para os jovens filhos e filhas dos assentados, rapaz era muito bonito, de altura média, gordo
visto que este cenário tem se modificado. Hoje e de pele morena clara. Mané durante toda sua
já é possível perceber que muitos conseguiram vida, não sabia o que era trabalhar. Se casou e
permaneceu nessa vidinha. Desde muito tem-
concluir o Ensino Médio, Técnico e mesmo cur-
po era só comer e deitar na rede olhando o dia
so Superior.
e o tempo passarem! Por ser um rapaz bonito,
No caso de Zé de Souza, pode-se observar sua esposa Mariinha, não se importava em fa-
que a falta de oportunidade de acesso aos es- zer tudo e trabalhava duro na lida da roça para
tudos não se tornou fator que o limitasse. Com alimentar seus filhos e suprir todas as neces-
seu talento, o mestre narrador proporciona ao sidades da família. Mané era tão preguiçoso,
que malmente se levantava da rede, fazia suas
ouvinte uma imersão no universo ficcional e
refeições ali mesmo. Até as forças que ele tinha
simbólico. Através das vozes poéticas e seus para ir até o quarto dormir, com o tempo se es-
significantes, da palavra e da escuta, ouvintes, gotaram. Havia mais de dois anos, que ele não
aprendizes e brincantes tornam-se protago- dormia com sua mulher! Moravam numa casi-
nistas que interagem com o mestre. nha que, em meio à escuridão, só se via as luzes
do candeeiro saindo pelas brechas das janelas
Os narradores são detentores de um vas-
e portas e pelos buracos do telhado... Lá estava
to conhecimento oral e o domínio sobre a lin-
Mané, bem assossegado, esparramado na rede
guagem verbal e corporal que utilizam para a ao lado do fogo de lenha, olhando as faíscas
transmissão do saber e manutenção da memó- subirem pelo telhado.
ria coletiva. Seguindo a perspectiva de Bosi,
De repente se assustou com as batidas fortes
em sua obra Memória e Sociedade: lembrança na porta e, ao ver que não havia ninguém mais
de velhos (2001), o instrumento capaz de so- para atender, por medo foi abrir a porta. Ele se
cializar a memória é a linguagem; e isso ocor- levantou lentamente, bem devagar, xingando e
re independentemente de como ela se apre- foi abrir pra ver quem era o condenado que es-
tava na porta naquele horário. Ao abrir, o susto
senta. Ainda segundo esta mesma autora, “As
foi maior ainda! Em sua frente estava um ho-
convenções verbais produzidas em sociedade
mem de cara não agradável, com um saco enor-
constituem um quadro ao mesmo tempo mais me nas costas. Trazia em si, um ar assustador,
elementar e mais estável da memória coletiva” este homem bem-disposto foi logo falando:
(BOSI, 2001, p. 56). Desse modo, ao propormos
10 Versão adaptada a partir da narrativa de Zé de Souza,
deferência e atenção ao mestre Zé de Souza, de modo a dar mais fluidez à leitura. Foram retiradas
as repetições e hesitações características da narração
que é detentor de um repertório excepcional oral, porém mantidos os traços mais peculiares da
que abarca causos, contos populares, lendas narrativa.

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Palavra patrimônio: narrativas orais no Assentamento Rose

– Boa noite, meu senhor! Você pode me deixar – E aonde ele está? Se não for naquela rede?
entrar, para assar uns pequenos pedaços de
– Pai está no quintal, capinando, mãe. – Res-
carne no seu fogão?
pondeu ele tranquilamente.
Mané ainda trêmulo disse:
A senhora deu uma risada irônica e mandou o
– Boa noite. Entre. Fique à vontade! garoto ir chamar Mané para tomar café. Já eram
aproximadamente umas sete horas e Joaquim,
A presença deste homem deixava Mané sem
como era um bom menino, obedeceu à sua mãe
ação. O ar ficava pesado, que chegava a lhe su-
e foi chamar seu pai. Ao chegar lá, falou:
focar. Atrás da porta da cozinha, estava o seu
filho Joaquim, que escutava e assistia àque- – Pai, mãe disse para o senhor ir tomar café.
la cena que lhe apavorava. O homem logo se
O pai do garoto, ainda assombrado perguntou:
aproximou do fogo, colocou o saco no chão e
desamarrou; tirou um braço bem gordo e enfiou – Ô meu filho! Aquele homem, ainda está lá em
no espeto, colocou-o para assar, virou o espeto casa?
de um lado para o outro e, antes de assar, ele
o devorou em três mordidas. Não se saciando, – Está, pai. Está lá na beira do fogo.
puxou uma coxa que estava pingando de gordu-
– Ave Maria! Misericórdia! Diga a tua mãe que
ra e passou na brasa rapidamente. A sua fome
mais logo eu vou. – Replicou ele, com ar de
era tanta, que não tinha paciência de esperar,
medo.
comia com uma vontade, que se lambuzava,
mordia a carne grosseiramente, que os dentes E assim fez o garoto. Quando deu meio-dia, Ma-
trincavam no osso. Ao terminar, chupou o osso, riinha mandou o menino ir chamar Mané nova-
lambeu as mãos e os dedos. Mané vendo aquilo mente.
se apavorava. Os seus olhos ficavam para cair
– Ô meu pai, minha mãe disse para o senhor
no chão de tão arregalados. Ele se benzia a
ir almoçar. – Disse o menino Joaquim, como se
todo o momento, resmungava baixinho:
nada estivesse acontecendo.
– Meu Deus! Que monstro é esse?
– E o homem? Ainda está lá? Está, meu filho?
O homem, depois de se limpar, olhou para Mané – Perguntou Mané, ansiosamente, imaginando
de cima a baixo, vendo aqueles braços e coxas que o homem tivesse ido embora.
roliços, ele perguntou:
– Está sim, meu pai. Por que o senhor pergunta
– Hei! Você sabe onde posso encontrar algum tanto sobre este homem assombroso?
preguiçoso para eu fazer um lanche?
– Por nada não, meu filho! Diga à sua mãe que
Mané deu um pinote da rede falando assusta- não estou com fome ainda.
do, forte e seguro:
Mariinha achava aquilo estranho, mas, no en-
– Não sei não senhor! Por aqui não há preguiço- tanto, não procuraria se interessar pela aquela
so! Falando nisso, com licença, que eu vou cui- indiferença que lhe intrigava. Já era tarde de-
dar de minha vida. mais e nada de Mané voltar pra casa. Lá pelas
três horas da tarde, Joaquim é mandado por
Mané desceu para o quintal, onde tinha vários
sua mãe ir de novo chamar seu pai. Lá se foi o
pés de gameleiras. Chegando lá, agarrou a en-
menino dar o recado.
xada e travou na labuta. De longe, se avistava a
poeira e os matos subirem. Ao amanhecer, Ma- – Pai, mãe disse que pelo amor de Deus! É para
riinha mandou o filho Joaquim ir levar o café de o senhor ir comer.
Mané na rede. O menino logo respondeu:
– Ô, meu filho!
– Pai, não está na rede não, mãe.
– Diga para seu pai, o homem já foi? Ele já saiu
A senhora, retruca perguntando ao filho: de casa?

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Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira

Perguntou Mané, com ar de súplica. dição oral do mundo todo (COSTA, 2015)11. Nas
– Já, pai. Ele se foi.
coletâneas de contos populares portugueses
(CASCUDO, s. d.), há registros de inúmeras ver-
– Graças a Deus! Agora já posso ir! – Respondeu
sões. Nas coletâneas brasileiras também en-
ele com enorme sensação de alívio.
contramos a narrativa comumente intitulada
Encostou a enxada em uma árvore e foi para “João Preguiçoso” (CASCUDO, 2004). É comum
casa. Ao se aproximar da porta, olhou assusta- no repertório de nossos narradores na Bahia
do de lado, percebendo que o homem já tinha
(ALCOFORADO; ALBÁN, 2001). O tema da pregui-
ido embora, se sentiu mais aliviado e pôde en-
ça, tanto no homem como na mulher, é sempre
trar em sua casa. A esposa vendo o seu marido
suado e de camisa tirada, com o corpo empoei- motivo de riso, crítica e castigo. Considerada
rado, ela acabou acreditando no que o filho ti- como um dos pecados capitais, a preguiça
nha falado anteriormente. Mané, se sentindo deve ser rechaçada e o preguiçoso redimido.
um trabalhador, pediu uma toalha para ir tomar A versão de Zé de Souza é bastante deta-
um banho. Logo após, se sentou à mesa para
lhada. Na primeira sequência narrativa, ele
almoçar. Ele passou o resto da tarde proseando
faz uma contextualização dos personagens,
com a mulher.
descreve as características físicas de Mané e
A noite caiu e chegou a hora de todos se reco- Mariinha, exaltando as qualidades da mulher
lherem para os seus leitos. Mané ficou sozinho,
trabalhadora e “chefe da família”, responsável
inquieto na sala, pensando no homem que havia
pelo sustento da casa. Note-se que não há in-
lhe assustado a noite passada. Ficava olhando
para todos os lados e cantos da casa. Pensava teresse em descrever a aparência da mulher, já
de ir até o quarto de sua esposa, mas se sen- que suas qualidades são morais e não físicas.
tia sem jeito de se aproximar. O medo que lhe Ao contrário, é importante dizer da boa apa-
tirava o sono e o sossego. Mas com vergonha, rência do homem, além de seu desvio moral.
foi para o quarto de sua esposa. Chegando lá, a
Assim, o narrador traça um perfil dos persona-
mulher perguntou:
gens de modo a contrastá-los: a mulher é cora-
– O que você quer, Mané? O que está aconte- josa, trabalhadora, capaz de sustentar a casa,
cendo? enquanto o esposo é um rapaz “muito bonito,
O homem, sem jeito, falou timidamente: de altura média, gordo e de pele morena clara”
que, apesar de muito forte e de todo o vigor
– Nada não, benzinho! Ô mulher, me deixe dor-
físico, vive “bem assossegado, esparramado na
mir hoje com você!
rede ao lado do fogo de lenha, olhando as faís-
Mariinha, que estava carente, aceitou com mui- cas subirem pelo telhado”.
to prazer.
A rede é um elemento chave convertido
– Vem, meu lindo! Pode deitar! – Disse Mariinha, em símbolo de preguiça. É importante lembrar
a senhora entusiasmada. que um dos objetos que surpreendeu os euro-
Deste dia por diante, Mané se tornou um ho- peus no processo de colonização do Brasil foi
mem trabalhador e passou a ter amor mais à o modo de dormir dos nativos, “pendurados
vida e à sua esposa, seus filhos e ao trabalho. no ar”12. Hábito logo adotado pelos coloniza-
Ficar contando as horas do dia preguiçosamen-
11 Em outras versões, a narrativa pode ser configurar
te na rede? Quem disse? Nunca mais! como um conto religiosos do Ciclo de Jesus e São
Pedro pelo mundo, havendo a interferência de Jesus
O conto “O homem preguiçoso” é um con- Cristo, que é quem aparece disfarçado de andarilho
com Pedro e finge-se de antropófago para assustar o
to de exemplo e uma variante de narrativas preguiçoso, provocando sua mudança de atitude.
com o tema da preguiça espalhadas pela tra- 12 Para um estudo detalhado sobre a preguiça na cultu-

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Palavra patrimônio: narrativas orais no Assentamento Rose

dores, foi tomado como exemplo de um modo forasteiro. É ele quem desencadeia o desequi-
de vida indolente, de pouco trabalho. Ainda líbrio da frágil e aparente harmonia do casal. O
hoje a rede é associada a descanso, lazer e fé- forasteiro revela-se um canibal e não se trata
rias, haja vista os folhetos de propaganda tu- de um canibalismo qualquer: o sujeito é seleti-
rísticas que vendem o litoral nordestino como vo na sua alimentação, escolhendo comer pre-
lugar paradisíaco. Assim como a rede é uma guiçosos, assustando Mané ao perguntar onde
imagem constante para a publicidade turísti- poderia encontrar um preguiçoso para “fazer
ca, é também presença constante nos contos um lanche”. Sua presença fratura a narrativa
populares com o tema da preguiça. Diferente iniciando a sequência decisiva para a mudan-
da cama para dormir, onde o trabalhador me- ça de atitude do preguiçoso.
recidamente descansa de sua labuta, a rede é O conto poderia acabar aí, mas o narrador
vista como um lugar de folga constante, para prolonga a história explorando o aspecto as-
contemplação, horas a fio, daqueles que não sustador do canibalismo, descrevendo o ato
conseguem sequer chegar ao quarto, como é o de devorar partes de um corpo humano com
caso do Mané do conto em questão. detalhes grotescos. O medo do preguiçoso fica
Sabemos que, embora em comunidades evidente nessa sequência:
tradicionais haja uma divisão de trabalho
Ao terminar, chupou o osso, lambeu as mãos
bastante rígida, com os papeis sociais bem
e os dedos. Mané vendo aquilo se apavorava.
definidos a partir das relações de gênero, as Os seus olhos ficavam para cair no chão de tão
mulheres costumam trabalhar nas roças, além arregalados. Ele se benzia a todo o momento,
de cuidarem da casa e dos filhos. Assim, não resmungava baixinho:
seria de se estranhar a conduta de Mariinha. – Meu Deus! Que monstro é esse?
Porém, a atitude de Mané é inadequada, tanto
que o narrador procura justificar a aceitação Ao fugir para a roça, ele pergunta três vezes
da mulher pela beleza do marido. A primeira ao filho se o “homem assombroso” já foi embo-
sequência da narrativa é, portanto, a contex- ra. A repetição é típica dos contos populares,
tualização. O narrador expõe os fatos e cons- em geral três vezes. Trata-se de uma estraté-
trói uma situação de desequilíbrio que irá se gia para prolongar a ação dos personagens e o
desenrolar ao longo do conto e se resolver deleite da narrativa, mas também para facilitar
ao final. Sendo uma narrativa exemplar – ou a memorização, assim como a assimilação dos
um conto de exemplo, como classifica Luís da ensinamentos. Mané, ao perguntar ao filho se
Câmara Cascudo (2004) – o texto carrega uma o homem já teria ido embora, demonstra rei-
moral a ser explicitada: a má conduta deverá teradas vezes o medo que o canibal despertou
ser corrigida e a boa conduta recompensada. nele. O filho, por sua vez, por três vezes, trans-
Os dois personagens representam esses dois mite à mãe a recusa de Mané em voltar para
lados da moeda. O filho Joaquim é um perso- casa e testemunha o estranhamento dela, o
nagem que intermedia os dois (note-se que que também reforça a ideia de que a atitude
até o menino trabalha, pois é ele quem leva as do marido é contrária ao esperado. A demora
refeições e os recados para o pai). em retornar da roça dá ao preguiçoso a opor-
Na primeira sequência narrativa, as coisas tunidade de remissão. O tom cômico dado à
pareciam acomodadas antes da chegada do história revela a crítica que a sociedade faz às
atitudes de Mané, mas também a condescen-
ra brasileira ver Ensaios de Malandragem e preguiça
(COSTA, 2015). dência para com ele, talvez por empatia, talvez

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por rebeldia, uma vez que as relações de traba- da narrativa, aprovando ou desaprovando as
lho no Brasil foram e ainda são, em grande par- condutas dos personagens. O que fortalece ou
te, calcadas na lógica de exploração do outro. garante a permanência de um tema ou outro
Se pensarmos no cotidiano do narrador e em uma tradição é a relação com o contexto e
dos demais moradores do Rose e de como essa as relações deste com os modos de vida de um
narrativa tem a ver com os modos de vida da grupo social (COSTA, 2015, p. 7-8). Consideran-
comunidade, facilmente poderíamos pensar do a aprovação da voz do narrador e o resulta-
que o personagem Mané não seria bem visto do apresentado no conto, pode-se dizer que a
em um grupo em que o trabalho é necessário e comunidade não só corrobora com os valores
obrigatório. Mas não buscamos uma leitura fácil ali expressos como irá colaborar para seu for-
nem desse conto nem das narrativas construí- talecimento.
das pelas diversas vozes presentes no grupo. Podemos também observar que o con-
Ao criar esse cenário narrativo traçando os to reflete a realidade social do narrador e do
perfis dos dois personagens, o mestre Zé de público ouvinte. Ainda no início da narrativa,
Souza nos convida a uma imersão no imagi- quando Zé de Souza descreve a casa onde mo-
nário, nos instigando a pensar a respeito de rava Mané com a esposa e filho, a descrição é
que tipo de relação poderíamos fazer com a claramente a de uma casa sertaneja, perfeita-
comunidade Rose e mesmo a partir de quais mente de acordo com os costumes rurais e da
aspectos seria possível estabelecermos algu- região. O fogão de lenha é um exemplo, assim
ma relação. Se a partir do conto seria possível como a rede já citada. Estas características,
pensarmos nos modos de fazer e produzir dos trazidas pelo mestre Zé de Souza, mostram o
assentados, tanto no âmbito cultural, quanto seu sentimento de pertencimento ao seu lugar,
na busca dos projetos e, assim, fazer a capta- à sua história de vida, vida de sertanejo que
ção de recursos que possibilitem o desenvol- também vivera em uma casa semelhante.
vimento social, cultural e econômico da comu- Portanto, o narrador compõe seu texto
nidade. a partir dos elementos de sua realidade so-
Nesta perspectiva, podemos observar que cial, deixando marcas individuais e coletivas.
estas inquietações nos aproximam do que Quanto a isso, pode-se fazer uma analogia a
pensa Zumthor (2005) ao se referir ao momen- partir do pensamento da pesquisadora Jerusa
to em que o texto se transforma em voz, pelo Pires Ferreira, na medida em que ela considera
narrador, em seu momento de performance. que a tradição oral opera como “[...] uma es-
Para este autor: pécie de reserva conceitual, icônica, metafóri-
ca, lexical, e sintática, que carrega a memória
[...] na hora em que, em performance, o texto
dos homens, sempre pronta a se repetir e a se
[...] se transforma em voz, uma mutação global
afeta suas capacidades significantes, modifica transformar num movimento sem fim” (2017,
o seu estatuto semiótico e gera novas regras p. 91). Seguindo esta mesma linha de racio-
de semanticidade. O tempo que continua a au- cínio, Roland Barthes argumenta, afirmando
dição e que dura a presença, o gesto e a voz que narrativa e indivíduo caminham sempre
colaboram (necessariamente) com o texto para
juntos, tendo em vista que “[...] não se pode
compor o sentido. (ZUMTHOR, 2005, p. 148)
haver narrativa sem narrador e sem ouvinte”
As colocações de Zumthor nos levam a (BARTHES, 1972, p. 47).
pensar que o narrar é coletivo. Quem narra, O narrador, ao trazer informações a res-
narra para alguém e os ouvintes compartilham peito dos comportamentos tanto do perso-

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Palavra patrimônio: narrativas orais no Assentamento Rose

nagem Mané quanto do homem que batera estabelecendo, neste momento, um “[...] con-
à porta, traz um cenário envolvente que nos texto ao mesmo tempo cultural e situacional.
leva ao imaginário da cena. Primeiro, refere- Não podem ser desligados do contexto, isto é,
se ao aborrecimento de Mané, por ninguém ter da pessoa que as interpreta e, sobretudo, da
ido abrir a porta, tendo ele que obrigar-se a situação de vida e de convivência, em função
abri-la; em seguida, o susto que ele toma ao das quais foram elaboradas e são executadas”
se deparar com um sujeito de aparência nada (ZUMTHOR, 2010, p. 36).
agradável e assustadora. Neste momento, per- Outro aspecto que merece observação é
cebe-se que o narrador traz para à cena narra- que o medo de Mané fez despertar a coragem
tiva jogos de efeitos e suspense a respeito do para o trabalho, fazendo com que ele se levan-
que poderia acontecer no decorrer da histó- te da rede imediatamente e parta para o quin-
ria, sobretudo porque ele nos faz imaginar que tal para capinar. Isso acontece no instante em
essa passagem do conto se dá à noite. Entra que o homem o indaga se por ali não haveria
em cena, portanto, a performance do narrador “algum preguiçoso para ele fazer um lanche”.
que, segundo Zumthor (2010, p. 205), cada uma Observa-se que a linguagem é muito pecu-
permite, a princípio, avaliar os poderes ex- liar e característica do dialeto local. A cultu-
pressivos em jogo e a relação que estabelece ra se estrutura a partir da língua natural dos
entre eles. sujeitos e, desse modo, os contos podem ser
Observa-se na narrativa o perfil do serta- um importante documento para estudos de
nejo, acolhedor, receptivo, que mesmo ao des- variação linguística, a quem interessar. Para os
conhecido tem o hábito de acolher em seu lar. estudos de poéticas orais, essas variações in-
No Assentamento Rose, seus moradores cele- teressam do ponto de vista estético, pois nota-
bram com música a recepção dos seus visitan- se que o emprego de uma palavra e não de ou-
tes. Assim eles cantam: tra, de uma expressão idiomática ou outra, vai
interferir nos sentidos que a narrativa carrega.
Sejam bem-vindos à nossa comunidade[...]
A literatura é a arte que se produz a partir de
Nós queremos abraçar, com muita categoria,
quando vem traz alegria, uma matéria- prima também utilizada no coti-
quando vai, deixa saudades [...]13 diano com a função de comunicar. Ao trabalhar
a arte da palavra, o poeta ou narrador lapida a
É importante ressaltar que, embora haja
linguagem de modo a retirá-la do seu uso co-
o sentimento de cordialidade de Mané, este
tidiano, criando novos sentidos e explorando
mesmo sentimento se transforma em medo
ao máximo seu significante. Ou seja, conside-
frente ao comportamento do seu “visitante”.
rando que a cultura se estrutura a partir das
Nesta passagem do conto, o narrador envolve
línguas naturais, além de trazer elementos da
a sua plateia, construindo cenários que levam
cultura local, os modos de vida de seu contex-
Mané de um homem assustado a um sujeito
to, o narrador dá uma feição regional ao texto,
que evoca a sua fé, seu credo religioso e até
antes de tudo, do ponto de vista da língua fa-
clama por Deus. Mais uma vez, aqui o narra-
lada em cada lugar.
dor nos põe à frente do seu contexto regional,
Desse modo é que notamos que o mestre
na medida em que ele direciona o sujeito as-
usa expressões do falar de sua região. Para
sustado ao encontro do Deus Cristão. Sendo
demonstrar a agilidade de Mané ao sair da
assim, cada performance se torna singular,
rede, por exemplo, diz: “Mané deu um pino-
13 Versos cantados pelos mestres da oralidade do Rose. te da rede”. “Dar um pinote” é empregado no

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sentido de levantar-se rápido, demonstrando compreendem e reproduzam. Na performan-


agilidade. Ao usar essa expressão para a ação ce, compartilha-se não só o texto, mas tam-
do “preguiçoso”, o narrador está dizendo ao bém o que ele veicula. A funcionalidade a que
ouvinte que o homem é suficientemente ágil, a autora se refere permite a permanência do
forte e saudável. Que nada o impediria de tra- conto na comunidade narrativa e tem a ver
balhar, exceto a preguiça ou a falta de vontade. com o pacto que se estabelece com os recep-
Além disso, o uso de “dar um pinote” dará ao tores. A função das narrativas, a princípio, é
ouvinte uma ideia visual mais dinâmica do que divertir e ensinar, transmitir uma mensagem
uma expressão como “levantou-se rapidamen- exemplar aos ouvintes, mas não traz nenhu-
te”, por exemplo. “Pinote” é, a princípio, uma ma novidade. O final é o que se espera: casti-
ação de animais cavalgadores, o que empresta go para os maus e recompensa para os bons.
à cena um ar cômico também. A repetição é o reforço dessas lições já sabi-
Na passagem seguinte, Mané responde ao das pelos ouvintes.
forasteiro: “− Por aqui não há preguiçoso! Fa- O narrador nos conduz ao final do conto
lando nisso, com licença, que eu vou cuidar de descrevendo a sensação de alívio de Mané
minha vida”. A expressão “cuidar na vida” tam- quando, ao final da tarde, seu filho, Joaquim,
bém merece atenção. Pode ser analisada de lhe disse que o homem “assombroso” teria
duas formas: a primeira, a respeito de ir se de- ido embora. O narrador se preocupa, ainda,
dicar ao trabalho, à lida do dia a dia. É um ter- em dar um desfecho para a história, tratan-
mo muito usado na região e no assentamento do também da mudança de comportamento
quando um sujeito se refere ao trabalho. Signi- de Mané, tanto no que se refere ao trabalho,
fica também, para estes sujeitos, que trabalhar quanto na própria relação com Mariinha, ten-
está relacionado à questão de sobrevivência. do em vista que ele retornara a dormir com
Por outro lado, o narrador ao se referir a esposa. Esta passagem narrada pelo mes-
a “cuidar na vida”, diz respeito ao que Mané tre Zé de Souza, em certa medida, pode ser
também pensou naquele momento. Manter- considerada como uma lição, no que se refere
se vivo, já que, ao se deparar com um homem às circunstâncias da vida, indo, portanto, ao
disposto a comer carne humana, sobretudo de encontro do pensamento de Hampâté Bâ, já
pessoas que não gostam de trabalhar, a cena que este afirma:
leva a crer que ele seria o próximo a ser de-
O ensinamento não é sistemático, mas ligado
vorado por aquele sujeito tão faminto. Assim,
às circunstâncias da vida. Este modo de proce-
pode-se deduzir que: der pode parecer caótico, mas, em verdade, é
Todos esses componentes, signos e sinalizado- prático e muito vivo. A lição dada na ocasião de
res do universo cultural do contador, são incor- certo acontecimento ou experiência fica pro-
porados ao texto no momento da performance, fundamente gravada na memória da criança.
imprimindo-lhe mais funcionalidade e signifi- (HAMPÂTÉ BÂ, 1982, p. 192)
cados narrativos para a comunidade receptora.
A este respeito, o conto narrado pelo mes-
(ALCOFORADO, 2008, p. 241)
tre Zé de Souza nos faz acreditar que tal en-
O que a afirmação de Alcoforado nos faz sinamento, ratificado pelo autor supracitado,
crer é que existe a cumplicidade dos ouvin- vai além do aprender das crianças, já que este
tes para com o narrador e sua identificação se ocupa de contar para todos da comunidade
com o texto narrado. Para isso se concretizar, que se dispõem a escutá-lo. Logo, no caso do
o narrador deve falar do jeito que os ouvintes Rose, as lições são passadas também para jo-

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Palavra patrimônio: narrativas orais no Assentamento Rose

vens e adultos, como é característico de uma [...] o acervo se constitui como um lugar identi-
comunidade narrativa que compartilha valo- tário, nele, por exemplo, pode se guardar a me-
mória de um determinado autor, não somente
res tradicionais.
seus livros, mas suas roupas, seus rascunhos e
tudo que possa ser usado para reforçar a me-
A palavra como patrimônio mória e facilitar as pesquisas. (BORDINI, 2005,
p. 38)
Como procurou-se mostrar a partir do narra-
dor Zé de Souza, o Assentamento Rose possui Desse modo, a importância desse acervo
um movimento de narradores que se ocupam está não só no registro, que informa a vontade
do ofício de transmitir seus conhecimentos de preservação de uma memória, mas também
aos demais moradores da comunidade. Isso na capacidade de produzir novas memórias e
nos leva a pensar que a oralidade adquire um novos significados. Locais de identidade onde,
maior significado, ao passo que reconhecemos conforme explica Zumthor (1993), a comunida-
a elaboração da palavra como uma capacidade de constrói sua narrativa ampla e coletiva. Os
do ser humano que sempre precede à escrita, narradores são, assim, “arquivos vivos” (COS-
em qualquer lugar ou sociedade. TA, 2016, p. 60) e, no compartilhamento de suas
Elizeu Clementino de Souza fala sobre a poéticas orais e experiências, vão tecendo no-
narrativa, dizendo que ela “[...] abre espaços vos sentidos, de modo que
e possibilita aos sujeitos em processos de [...] os textos da poesia de audição se reagru-
formação, partilhar experiências formadoras” pam na consciência da comunidade, em seu
(SOUZA, 2008, p. 85). Nesta perspectiva, as nar- imaginário, em sua palavra, em conjuntos dis-
rativas orais transmitem aos mais jovens não cursivos às vezes muito extensos, e em que cada
elemento semantiza (segundo a cronologia das
só conhecimento dos modos de ser e fazer
performances) [...] (ZUMTHOR, 1993, p. 47)
tradicionais, mas as experiências dos sujeitos
que podem formatar modelos a serem segui- Assim, os narradores tecem também a
dos e preservados, experiências partilhadas vida. É importante ressaltar que em Rose é
por várias gerações, sustentadas na oralidade característica marcante a presença das nar-
e em suas diversas formas de registro. rativas orais, seja em rodas de conversa, em
Neste contexto, as lideranças da comu- atividades culturais, ou em reuniões para
nidade Rose, articuladas com os moradores, discutir o desenvolvimento de projetos para
conseguiram estabelecer parcerias com orga- a comunidade. Portanto, a narrativa oral nos
nizações não governamentais, fator que foi de- aponta para uma perspectiva de que os sabe-
terminante para elaboração e implementação res orais presentes e transmitidos pelos nar-
dos projetos culturais. As articulações com as radores do Rose possibilitam novos saberes
instituições parceiras resultaram na formação e fazeres. Para compreendermos os sujeitos
de um acervo composto por desenhos, pintu- e seus valores, traçamos um movimento pen-
ras, roteiros de peças teatrais, xilogravuras, dular, transitando nas idas e vindas da narra-
folhetos de cordel, gravações de áudios e li- tiva para a vida.
vros. É importante ressaltar que o acervo não Se observarmos o conto narrado pelo
se configura apenas no armazenamento e na mestre Zé de Souza, nele o narrador traz todo
catalogação de textos ou produções culturais o enunciado narrativo da construção de um
dos narradores do assentamento, pois consi- sujeito preguiçoso, “ incapaz” de sair de sua
dera-se que: rede para ir sequer buscar um copo de água

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para tomar. Este enunciado pode levar à in- de sujeitos vindos de diversas partes e que
terpretação de que os sujeitos da zona rural, se uniram por objetivos comuns, reconstruin-
entre eles os assentados, são acomodados, do, a partir do que traziam, um teto-memória
relapsos e preguiçosos. Entretanto, é oportu- sob o qual se abrigar, como sujeitos diaspóri-
no que se diga que esta é a forma como se re- cos, se ressignificando. Desse modo, o narrar
fere a eles parte da sociedade brasileira que é coletivo. E, enquanto coletivo, patrimônio
criminaliza os movimentos de trabalhadores, essencial para o fortalecimento e a continui-
em especial os sem terra. Por outro lado, sa- dade do grupo.
bemos que, ao contrário do que pode suge-
rir a narrativa do “João Preguiçoso”, a vida Referências
de quem está nos acampamentos e, poste- ALCOFORADO, Doralice Xavier Fernandes. A recria-
riormente, assentamentos, requer empenho, ção do conto popular. Boitatá: Revista do GT de li-
dedicação, articulação, mobilização, criativi- teratura oral e popular da ANPOLL. Londrina, UEL,
dade e muito trabalho. Por isso mesmo, na n. especial Doralice Xavier Alcoforado, p.131-142,
narrativa analisada condena-se a preguiça e ago./2008. Disponível em: http://www.uel.br/revis-
reabilita-se o “homem preguiçoso”. Ao final, ta/boitata/?content=volume_especial_2008.htm.
a ordem é reestabelecida, pois a narrativa Acesso em: 03 ago. 2017.

enaltece o trabalho e ensina que o equilíbrio ALCOFORADO, Doralice F. Xavier; ALBÁN, Maria del
familiar depende de que os membros da fa- Rosário Suaréz. Contos populares brasileiros:
mília exerçam seus papeis sociais de acordo Bahia. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Massan-
com normas prévias. gana, 2001.
Do conjunto de narrativas, das quais apre- BARTHES, Roland. Introdução à análise estrutural
sentamos apenas uma, ficam muitas pergun- da narrativa. In: BARTHES, Roland et al. Análise es-
tas. O que é dito? O que é silenciado? A com- trutural da narrativa: pesquisas semiológicas. Pe-
plexidade do conto não nos permite respos- trópolis, RJ: Vozes, 1972. p. 19-62.
tas simples, mas parece certo afirmar que, ao
BOGO, Ademar. O MST e a cultura. Campos Elíseos,
narrar, o mestre Zé de Souza reflete em suas
SP: MST, 2009.
palavras a sua comunidade. O dito e o não-di-
to é pactuado com o coletivo, pois o narrador BORDINI, Maria da Glória. Acervo de escritores e o
descentramento da história da literatura. O Eixo e
seleciona o que pode/deve dizer ou não, de
a Roda: Revista de Literatura Brasileira, Belo Ho-
acordo com o pacto social. Com o seu tecer, é
rizonte: UFMG, v. 11, p. 15-23, 2005. Disponível em:
um porta-voz, de modo a fazer com que seus
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610 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 593-611, maio/ago. 2020
Edil Silva Costa; Edisvânio do Nascimento Pereira

Edil Silva Costa é Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-São Paulo), Professora Permanente do Programa de Pós-
Graduação em Crítica Cultural (Pós-Crítica), membro do Grupo de Pesquisa Núcleo de Tradições Orais e Patrimônio
Imaterial (NUTOPIA) e do Grupo de Trabalho de Literatura Oral e Popular da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-
Graduação em Letras e Linguística (ANPOLL). E-mail: escosta@uneb.br

Edisvânio do Nascimento Pereira é Mestre em Crítica Cultural pelo Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural
(UNEB), Graduado em Comunicação Social/Radialismo (UNEB) e Especialização em Inovação Social com Ênfase em
Economia Solidária e Agroecologia – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IF Baiano), membro do Grupo
de Pesquisa Núcleo de Tradições Orais e Patrimônio Imaterial (NUTOPIA). E-mail: edisvanionascimento@yahoo.com.br

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 593-611, maio/ago. 2020 611
Narrativas implicadas sobre memória, cultura e negritude no Recôncavo da Bahia

DOI:http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2020.v5.n14.p612-626

NARRATIVAS IMPLICADAS SOBRE MEMÓRIA,


CULTURA E NEGRITUDE NO RECÔNCAVO DA BAHIA

Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus


http://orcid.org/0000-0002-2223-0945
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

resumo O presente texto aborda as experiências de formação cultural vividas


no Recôncavo a partir da atuação no Centro de Cultura, Linguagens
e Tecnologias Aplicadas (Cecult) da Universidade Federal do Recôn-
cavo da Bahia (UFRB). Apresenta uma revisão teórica sobre narrati-
vas implicadas, identidade negra e memória, bem como a descrição
de manifestações culturais negras, suas expressões de saber-fazer
religioso e artístico-cultural – nas cidades de Santo Amaro e Sauba-
ra – enfocadas através das experiências no Programa de Extensão
Cultura e Negritude, das celebrações do Bembé do Mercado e das
Cheganças de Saubara, patrimônios culturais negros alicerçados nas
memórias, narrativas e histórias de vida de seus/suas participantes.
Palavras-chave: Narrativas Implicadas. Identidade negra. Cultura ne-
gra. Memória.

abstract IMPLICATED NARRATIVES ABOUT MEMORY, CULTURE


AND BLACKNESS IN BAHIAN RECONCAVO
This text discusses the experiences of cultural formation lived in
Recôncavo from the performance in Cecult / UFRB. It presents a the-
oretical review of narratives involved, black identity and memory, as
well as the description of black cultural manifestations, their expres-
sions of religious and artistic-cultural know-how - in the cities of
Santo Amaro and Saubara- focused through the experiences in the
Extension Program Culture and Blackness, the celebrations of Bem-
bé do Mercado and Cheganças de Saubara, black cultural heritage
based on the memories, narratives and life stories of its participants.
Keywords: Implied narratives. Black identity. Black culture. Memory.

resumen NARRATIVAS IMPLICADAS SOBRE MEMÓRIA, CULTURA


Y NEGRITUD EM EL RECÓNCAVO DE BAHIA
Este texto analiza las experiencias de formación cultural vividas en
Recôncavo a partir de la actuación en Cecult / UFRB. Presenta una

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Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus

revisión teórica de las narrativas involucradas, la identidad y la me-


moria negras, así como la descripción de las manifestaciones cul-
turales negras, sus expresiones de conocimiento religioso y artísti-
co-cultural, en las ciudades de Santo Amaro y Saubara, enfocadas
a través de las experiencias en el Programa de Extensión. Cultura
y negrura, las celebraciones de Bembé do Mercado y Cheganças de
Saubara, patrimonio cultural negro basado en los recuerdos, narra-
ciones e historias de vida de sus participantes.
Palabras clave: Narrativas implicadas. Identidad negra. Cultura ne-
gra. Memoria.

Introdução
Estamos no tempo, e nele se constituem as letiva que também nos compõe, isso nos per-
vivências, e delas as memórias. Nesse espa- mite definir um lugar social e nossas relações
ço-tempo de fluidez e velocidade, onde quase com os(as) outros(as), formamo-nos, ao tempo
instantaneamente, os fatos viram notícias, e em que contribuímos com a formação de ou-
os acontecimentos memórias, somos desafia- tras pessoas, é a transitividade da formação,
dos(as) a instituir nossas múltiplas identida- da qual nos fala Nóvoa (1995).
des, e com elas interagir no mundo, em pro- Memórias são, portanto, elementos de pro-
cesso contínuo de (re)criação e (re)invenção cessos de subjetivação identitária, complexos
de si e dos outros. São acima de tudo trânsitos, e coletivizados, que incluem desde sensações
fluxos e relações o que nos formam. às situações vivenciadas e compartilhadas
O ânimo contra o esquecimento, contra o de- pelos indivíduos, em sua poiésis, como uma
saparecimento histórico e a morte simbólica se memória social, que estabelece vínculos e co-
revigora, a memória vem à tona como um esfor- nectividades que configuram os coletivos hu-
ço para instituir e preservar o patrimônio cul- manos. Como nos diz, Josso, “as sociedades
tural da humanidade, seja através dos esforços
e as culturas apresentam-se como ‘sistemas’
coletivos e institucionais (museus, bibliotecas,
memoriais, monumentos etc.) ou através dos abertos, inovadores, que têm uma certa capa-
atos individuais biográficos, de preservação da cidade de adaptação graças a essa proprieda-
história pessoal, que são também a história vi- de de autopoiésis de cada indivíduo” (JOSSO,
vida em um espaço-tempo coletivo, reeditado e 2004, p. 264). Nesse sentido, à toda tradição
narrado continuamente. (JESUS, 2010, p. 17-18)
corresponde uma possibilidade de inovação,
A memória individual, construída social- invenção e reconexão. Portanto,
mente, é uma fonte de ressignificações, pois A recordação, portanto, não se separa da cons-
resulta das convivências e das interações que ciência, mantendo com ela uma via de mão du-
nos permitem a constituição das identidades pla. As memórias dizem quem somos. Integram
pessoais, aquilo que nos tornamos. Mostra- nosso presente ao passado, tanto na perspecti-
va de que inventamos um passado adequado ao
nos também os elos psicossociais e identitá-
presente, quanto o contrário. (NUNES, 1987, p. 4)
rios que estabelecemos, logo, as outras vidas
e experiências que se entrelaçam às nossas, e É neste contexto de formação coletiva que
que tiram das sombras a identidade social, co- a memória é acionada como formativa, e que

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Narrativas implicadas sobre memória, cultura e negritude no Recôncavo da Bahia

aqui nos interessa, a formação identitária, no para as ciências, e todos os outros processos
campo das relações etnicorracias, em contex- sócio-históricos nos quais interagimos e que
tos culturais, nos quais a memória é acionada nos afetam.
ora como texto, ora como contexto, ora como
São, portanto, muito privilegiados, por sua ca-
pretexto (JESUS, 2007) para o ato formativo, no pacidade generativa e também regeneradora
qual a noção de temporalidade é entendida dos saberes circulantes, uma vez que se apoiam
como um fluxo contínuo, que se processa em em práticas, fazeres, carreiras, condutas, que
múltiplas vidas – en train de se faire –, entre as valorizam e qualificam experiências e as sub-
possibilidades pensadas, os acontecimentos, jetividades em ação, em interação social (BLU-
MER), e elaboram, estratégias e informações
as novas vivências e suas atualizações. Comu-
virtuais e concretas, não ao sabor exclusivo das
nicam-se e imbrincam-se aí, elementos pura- demandas externas, mas de acordo com seus
mente memorialísticos, mas também inventi- interesses e intenções. (ALVES e NASCIMENTO,
vidade, inovação e ancestralidade. 2016, p. 28)

Neste caso, considerando-se que ainda está O(a) narrador(a) memorialista assume um
em andamento o processo de lenta elaboração
duplo ser/estar – objeto-sujeito – da cons-
civilizatória da consciência, persiste a centra-
lidade cultural da narrativa na atribuição de
trução narrativa, e vive, no empreendimento
sentido à experiência, apesar do seu alegado epistemológico, o tríptico agente-autor-ator
esvaziamento. Ademais, o narrador tradicional (ARDOINO, 1998), e o faz, de acordo com sua
continua a existir, embora de forma atenuada, intenção política de formação e performati-
em plena modernidade africana, na figura do
vidade. O sujeito autor-ator-atriz-autora do
griô, um sábio contador de histórias – análogo
conhecimento, como protagonista, define as
aos akpalô nagô, análogo aos rapsodo grego –
que também canta, interpreta e dança. E como situações que enfrenta, como as interpreta
em todo o pensamento afro, a alacridade/ale- e compreende, mediando, portanto, a ordem
gria é a forma se ipse augens desse movimento. social e a sua história pessoal, características
(SODRÉ, 2017, p. 230 – grifos do autor)
que fazem da implicação, um marco diferen-
Ao admitirmos a perspectiva memorialísti- ciador de sua abordagem.
ca como ato formativo, no campo das relações Isso permite exercitar, no ato formativo, a
etnicorraciais, estamos assumindo que esse simultaneidade que lhe é inerente, pois, ao
argumento a partir de si mesmo, é a autoriza- tempo em que implico o(a) outro(a) que viven-
ção e a autolegitimação do povo negro e afro- cia comigo a experiência revivida na narrativa,
descendente, sobre sua própria história, sobre por ele(a) sou alterada, na nova situação em
a narração e a fabricação de sentidos da sua que interagimos. Esse engajamento pessoal e
existência. Reconhecendo autoridade e legiti- coletivo, é o que Barbier (2002) nomeia de “ im-
midade na composição dos textos narrativos plicação”:
sobre as experiências e situações de vida, e [...] envolve em função de sua história familiar
nas interpretações que delas de faz. e libidinal; de suas posições passada e atual
Esse ciclo de implicação-legitimação-au- nas relações de produção e de classes, e de seu
torização, um processo (re)ge(ne)rador de projeto sociopolítico em ato, de tal sorte que
o investimento, que é necessariamente a resul-
conhecimentos e identidades, se faz em um
tante disso, é parte integrante e dinâmica de
processo complexo de descolonização do co-
toda atividade de conhecimento [...] o sistema
nhecimento, que se amplia do cotidiano, em de valores últimos (os que ligam à vida), mani-
suas ambiências socioculturais e políticas, festados em última instância, de uma maneira

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Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus

consciente ou inconsciente, por um sujeito em (o todo) ao indivíduo, e vice-versa. Numa cul-


interação na sua relação com o mundo, e sem a tura de Arkhé, nada realmente se determina,
qual não poderia haver comunicação. (BARBIER, mas tudo se narra ou se conta. (SODRÉ, 2017,
2002, p. 101-102) p. 226)

Entender a multirreferencialidade que tal Nesse sentido, as narrativas da negritude


inteligibilidade das práticas sociais exige, nos – suas memórias individuais e coletivas –, são
coloca diante dos três imaginários menciona- implicadas com a construção identitária que
dos por Barbier (2002), a saber: o pulsional, o atua como a convergência de pluralidades nas
social e o sacral, pois nos impõem uma apro- quais mitos fundacionais, sagas, lendas, ro-
ximação dos fenômenos humanos com visadas mances épicos/heroicos, os oriki, as interpre-
mais plurais, linguagens diversificadas e tec- tações, extrapolações do vivido e ressignifica-
nologias interpretativas capazes de se aproxi- ções, são formas assumidas para a transmis-
marem das realidades e dos sujeitos heterogê- são da história coletiva, seja ela um mito ou
neos, em seus paradoxos, diferenças e diversi- uma invenção autorizada de si, como “ensaios
dade, em suas práticas sociais, suas visões de de ego história” (NORA, 1989).
mundo, e seus modos de descritibilidade. Tais pluralidades negras, do que se consti-
Sugere-se assim, romper com categorias tui a cultura afro-brasileira como construção
prévias de entendimento, e articular novas antropológica que de fato é, se realiza não só
fronteiras que comportem trajetórias e expe- num nível teórico, mas também histórico e filo-
riências, que surgem das interações, da inte- sófico, são tecidas nos variados ambientes nos
gração das pessoas, de seus saberes-fazeres- quais se articula o secular e o sagrado, me-
quereres, em tempos-espaços que captem a mória, tradição, ancestralidade, inventividade,
profundidade das relações, seus etnométodos tudo vitalizado numa construção sui generis
– os procedimentos práticos utilizados pelos de espaço-tempo, lógica-ética-estética-razão.
atores sociais, para realizar satisfatoriamente Sobre esse processo heurístico, Machado
as diferentes operações de suas vidas cotidia- (2017), em sua obra Prosa de Nagô, explica:
nas – e processos de formação.
O povo de santo não esquece o que aprende
Na obra Pensar Nagô, Sodré (2017) elabora
com os seus ‘mais velhos’ porque ouve suas
um constructo filosófico entorno da “cosmovi-
histórias com atenção. Não nos afastamos da
são afro”, que nos oferece um paradigma para tradição. Não aprendemos olhando para fora
pensar a existência, em “outras constelações de nós mesmos. Aprendemos lembrando co-
culturais”, ancorado em Benjamin, argumen- nhecimentos ancestrais. Possuímos uma espi-
ta que a “experiência que passa de pessoa a ritualidade enraizada na memória e na cultura
pessoa, é a fonte a que recorreram todos os africana tradicional. Isso significa que, como
participantes da comunidade, estamos sempre
narradores” (SODRÉ, 2017, p. 226). Sobre essa
aprendendo ao longo da vida. Aprendemos com
questão, continua afirmando o autor:
nossos pares ou com os mais experientes que
[...] a experiência se define por um trabalho se valem de histórias de vidas, provérbios e mi-
demorado de incorporação à memória das re- tos vivenciais que se constroem ensinando aos
miniscências e sensações de toda uma base menos experientes, aos mais novos, responsá-
tradicional. Não se trata da surpresa, nem do veis pela continuidade da tradição. Cultivamos
extraordinário, mas daquilo que, em toda ação conhecimentos tecendo as prosas que vão se
quotidiana, revela-se como constituinte ou repetir infinitamente. Prosas de pessoas que
originário. É, portanto, algo grupal ou coletivo, são como arquivos vivos. Suas falas ajudam na
decorrente da imanência originária do grupo compreensão da história que pode ser conhe-

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Narrativas implicadas sobre memória, cultura e negritude no Recôncavo da Bahia

cida através dos mitos cotidianos, que não se Os etnométodos em cultura e


deixam aprisionar em um passado estagnante.
A vida não para e a nossa busca, portanto, é dar negritude
um passo à frente do que foi dito. (MACHADO, As memórias da formação no campo da cultu-
2017, p. 28)
ra e da negritude, e suas narrativas explicitam
Nessas narrativas implicadas, e a própria além dos contextos, e do tempo-lugar do vivi-
narração como uma das características da do, as questões e os sentidos postos como po-
consciência humana, que seleciona, metafo- sicionamento político-epistemológico de seus/
riza, correlaciona, fatos e acontecimentos, e suas narradores(as) (BHABHA, 2001). São emer-
presentifica a um só tempo o sujeito da ex- gências que, em grande medida, se contra-
periência, aquele(a) que narra, aquele(a) que põem aos paradigmas dominantes, à história
ouve, tem sido para a constituição histórica única, e ao instituído. Visto que, representam
das identidades negras – contemporâneas e a assunção de uma outra perspectiva, embasa-
passadas –, uma forma de poder, de protago- da nas vivências e interpretações daqueles(as)
nismo e emancipação, realizada na polissemia sujeitos sociais antes alijados, mas que se au-
de modos e tecnologias (artísticas, religio- torizam como vozes contextualizadas, insti-
sas, performáticas, das linguagens), que lhe tuintes de um novo ethos da formação. Esse é
é característica, demonstram-se a amplitude um cenário no Brasil e na Bahia dos governos
e abrangência das leituras e expressões de democráticos, a partir dos anos 2003. Para este
mundos, dos múltiplos significados e ensina- estudo, faremos um recorte, a partir das expe-
mentos que, por fim, criam e transmitem um riências de formação inauguradas com a im-
ethos comunitário, que põe em uso comum, plantação da UFRB, em 2005, uma universidade
com-partilhado, as experiências que integram que nasce com a adoção de políticas afirmati-
os repertórios culturais ancestrais e emanci- vas em todos os seus cursos, e em especial com
patórios dos povos negros. a instalação de um de seus campi, o Cecult, na
O presente texto aborda as experiências cidade de Santo Amaro da Purificação, em 2013.
de formação vividas no âmbito do Recônca- Esta discussão relaciona a formação uni-
vo, a partir da atuação no Centro de Cultura, versitária, com a condição de sujeito cultural, e
Linguagens e Tecnologias Aplicadas (Cecult) a formação cultural advinda das vivências com
da Universidade Federal do Recôncavo da as diversas expressões da identidade negra,
Bahia (UFRB). Apresenta a descrição narrati- no Recôncavo da Bahia.
va de contextos de formação, relacionadas às A implantação do Cecult foi precedida por
memórias implicadas de sujeitos culturais, a uma ação de formação cultural intitulada “So-
questão etnicorracial negra e às vivências de taques do Recôncavo”. Através de um processo
formação cultural contemporânea, correlacio- de diálogo itinerante, o projeto de universi-
nadas às expressões de saber-fazer religioso e dade pública, enraizada e fundada no Recôn-
artístico-cultural nas cidades de Santo Amaro cavo, foi sendo apresentado e atualizado em
e Saubara. Tais ações vinculam-se as experiên- cidades/localidades do entorno da cidade
cias no Programa de Extensão Cultura e Negri- de Santo Amaro, com a finalidade de mapear,
tude e nas celebrações do Bembé do Mercado identificar e incorporar os diferentes sotaques,
e das Cheganças de Saubara, patrimônios cul- fazeres e visões sobre a formação, os saberes
turais alicerçados nas memórias, narrativas e circulantes e as conexões que poderiam ser
histórias de vida de seus/suas participantes. estabelecidas entre eles.

616 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 612-626, maio/ago. 2020
Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus

Esse processo rico de prospecção e difu- cratizar os currículos e a formação intercultu-


são de saberes serviu de lastro para a elabo- ral na universidade.
ração do projeto político do Cecult, e para o O programa Cultura e Negritude integra
projeto pedagógico do curso de Bacharelado uma agenda institucional de pregnância das
Interdisciplinar em Cultura, Linguagens e Tec- políticas afirmativas na UFRB, e para o recôn-
nologias Aplicadas (Bicult), propostas que tem cavo (Jesus, 2007). Está ancorada na Portaria nº
como princípio o diálogo instituinte entre as 181/2006 que cria o Fórum Pró-igualdade Ra-
matrizes dos saberes culturais do Recôncavo cial e Inclusão Social no Recôncavo – O Fórum
da Bahia, e os saberes acadêmicos. 20 de novembro, que organiza uma pauta de
A sede do Cecult em Santo Amaro ficava atuação da universidade, em ações conjuntas
em uma antiga escola da educação básica, um com as comunidades e governos locais, para
prédio histórico, ao lado do Teatro Dona Canô, problematizar, refletir e produzir ações afir-
e do Solar Subaé, mansão do século XIX, que mativas que impliquem em reconhecimento
sedia a Casa do Samba, e a Associação de Sam- e valorização da história da cultura africana e
badores e Sambadeiras da Bahia (Asseba). afro-brasileira, dos saberes e experiência das
Na Casa do Samba, em 2013, aconteceu a comunidade negras, e populares do Recônca-
primeira edição do Programa Cultura e Ne- vo (NASCIMENTO & ALVES, 2016).
gritude – C&N – que teve o título anunciado O I Cultura e Negritude trouxe diversas
como um pedido de licença às nações negras abordagens sobre as duas temáticas, no cam-
africanas, que estavam representadas através po da cultura e da educação, mas enfocou,
da continuidade dos cultos aos saberes ances- especialmente, os aspectos históricos e socio-
trais, presentes nas religiões de matriz afri- culturais das comunidades negras do território
cana, respectivamente, para os povos bantu, do Recôncavo, em Santo Amaro e seu entorno,
nagô e jeje: “Agô e Bênção – Motumbá, Mucuiu, região extremamente conhecida, pela riqueza,
Kolofé”. diversidade e variedade de expressões cultu-
Durante os dias 28 e 29 de novembro de ra, ancestralidade e religiosidade negra. É or-
2013, representantes das comunidades de ter- ganizado através da metodologia das Rodas
reiro, de organizações/instituições sociocultu- de Saberes e Formação (RSF), uma tecnologia
rais/educacionais, e personalidades locais se sociocultural e educativa que tem a horizon-
juntaram à comunidade acadêmica do Cecult talidade dos saberes como princípio (ALVES e
da UFRB, para promover abordagens intercul- NASCIMENTO, 2019).
turais e interdisciplinares sobre Cultura e Ne- Pedir agô (licença) e bênção significou o
gritude, com ênfase em aspectos etnográficos, início da caminhada de iniciação para a elabo-
(auto)biográficos, artístico-culturais, estéticos ração de um “mapa cultural” de um legado his-
e ético-filosóficos que pudessem vir a con- tórico do povo negro, presente nas memórias,
tribuir com à implementação das Leis Fede- nas histórias de vida e formação e nas relações
rais nº 10.639/03 e nº 11.645/08, em especial estabelecidas entre os sujeitos culturais do/
no que diz respeito aos referenciais culturais no recôncavo, em Santo Amaro, um território
africanos e afrodescendentes presentes no que se define pela herança e pelas marcas da
território do Recôncavo, bem como, potencia- identidade negra e afro-brasileira, e também
lizar as relações e diálogos entre o Cecult e as pelas sequelas do racismo.
comunidades culturais locais, do Território de Abordar a formação identitária do povo do
Identidade do Recôncavo, com o fim de demo- Recôncavo, partir da formação intercultural do

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Narrativas implicadas sobre memória, cultura e negritude no Recôncavo da Bahia

povo negro que nele habita, povo este forma- mas relativos à preservação do patrimônio, da
do do amálgama dos povos africanos (nagô, religiosidade e da memória negra e afro-bra-
banto e jeje), nos dá a dimensão do que seja sileira. Segue realizando-se nas dependências
o entendimento de cultura, diretamente liga- do Cecult, de escolas públicas da cidade, no
do às concepções de patrimônio (imaterial) e distrito de Acupe, onde em julho se encena o
da memória coletiva como expressão da vida e Nego Fugido, e em Itapema, onde é realizada a
das cosmovisões que nela habitam. RSF sobre Ancestralidade, enquanto se espera
Como nos ensina Oliveira (2006), cultura a chegada do “Presente para as Águas”, ato de
está diretamente implicada com a história, e encerramento do Bembé do Mercado.
as formas pelas quais são produzidos os sig-
nificados, e como se relacionam com o real.
A narrativa memorial de
Implica em formas de organização da vida,
mediada pelas relações de identidade e poder.
emancipação do povo negro no
A filosofia subjacente à cultura negra, afasta-
Bembé do Mercado
se da concepção de uma verdade metafísica, Levantou-se o mastro, pôs-se a bandeira bran-
de uma lógica abstrata ou de um ‘cientificismo
ca. O Bembé é aqui!
transcendental’ [...] Tal cultura, pelo contrário,
O fim da escravidão foi celebrado em todo
funciona como um jogo que oporá ‘encadea-
mentos não causais, aleatórios, baseados em o Recôncavo da Bahia, com grande efusão e
relações de contiguidade (como na música ou profusão de modos e alegria. Não era para me-
na magia), arbitrados por uma regra’ (SODRE, nos, pois, o processo de abolição, no qual mui-
1988, p. 145). Essa regra se dará não como or- tos negros e negras estavam engajados, com
denadora extemporânea da cultura, mas como
o trabalho para a compra de alforrias, com os
uma parceria de uma dinâmica civilizatória ba-
seada no segredo e na luta, ou seja, baseado no processos de aquilombamento, e com a atua-
mistério e na resistência política, que garantem ção política, poria fim à atrocidade da escravi-
a reprodução do grupo e a transmissão de seus dão e enfrentava o racismo que dela decorria
conhecimentos, bem como a preservação e mul- e que nos alcança até os dias de hoje, com o
tiplicação de seu encanto. (OLIVEIRA, 2006, p. 84)
preconceito racial, a intolerância religiosa, que
A intenção derradeira do empreendimen- expressa o racismo religioso, e a discriminação
to de formação cultural no C&N é a partir das contra as manifestações da negritude e da an-
referências identitárias negras, promover epis- cestralidade negra.
temologias afirmativas, e assim, assegurar a Celebravam a ancestralidade negra, através
legitimidade e a valorização das pessoas que de ritos, cantos e gestos sagrados que afirmam
preservam as histórias, as memórias, as ex- no tempo, a identidade negra e a religiosidade
periências, e o ethos de herança negra e afro- do “povo de santo”. É um agradecimento e um
diaspórica. reavivamento das forças, para a continuidade
O Cultura e Negritude, realizado anualmen- das lutas diárias pelo fim das mazelas da es-
te desde 2013, em 2015, passou a ser itinerante, cravidão e do racismo.
e em concomitância com as festividades de ce- Desde o 13 de maio de 1888, negros(as) no
lebração do Bembé do Mercado. A mudança se Recôncavo celebram a liberdade:
deveu à proximidade das temáticas, e ao mú-
A notícia rapidamente se espalhou pela cidade
tuo fortalecimento da pauta negra. O evento e pelos demais centros do Recôncavo. Houve
se inicia na Praça do Mercado, integrando-se à festa em várias localidades da província. Uma
programação oficial do Bembé, abordando te- autoridade da vila de São Francisco do Conde,

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coração da lavoura açucareira do Recôncavo, de João de Obá, um negro malê, sacerdote de


informou com preocupação que, desde o 13 Xangô, levou-se para as ruas o Xirê, as práticas
de maio, os libertos se entregaram a ‘ruidosos’
de festividade dos terreiros, num candomblé
sambas durante noites seguidas. Em diversas
de rua que durou três dias, inicialmente, re-
cidades da região, recém-libertos juntaram-se
a populares nos festejos e desfiles promovi- verenciando aos ancestrais, e, em seguida ao
dos por associações abolicionistas. Um jornal “dono” da proteção, o orixá Xangô, e ao final,
da cidade de Cachoeira informou que, na noite em oferenda à Mãe D´água, e por meio dela às
de 13 de maio, ‘o povo se derramou pelas ruas’ Yabás, orixás femininas do Candomblé.
acompanhado de duas bandas de música. Das
O Bembé integra uma série de manifesta-
sacadas dos sobrados muitos discursos e vivas
ções negras pelo Brasil, que evocam a luta do
ao grande acontecimento. Naquela ocasião,
a câmara mandou celebrar te deum na matriz povo negro contra a escravidão, e que por isso,
em ação de graças pela abolição [p.65]. Em Ca- celebrações como esta, afirmam que valores
choeira, nos dias 14 e 15 de maio, o edifício da importantes da cultura afro-brasileira, tais
câmara foi iluminado com velas e queimaram- como congadas, jongos e reisados, constituem
se oitenta dúzias de foguetes. Além disso, a câ-
um patrimônio cultural a ser preservado. Se-
mara remunerou o maestro abolicionista Ma-
gundo Araújo (2003):
noel Tranquilino Bastos pela música e ‘armação’
executadas naquele dia. Na semana seguinte, Passado um ano de luta contra a repressão e
depois que a câmara recebeu a comunicação contra a discriminação, os negros de Santo
oficial da abolição, entre 6 e 7 mil pessoas des- Amaro resolveram festejar em praça pública o
filaram festivamente pelas ruas de Cachoeira e primeiro aniversário da lei da abolição. [...] Não
da vizinha povoação de São Félix. Foi no calor se viu nenhuma parada cívica, não se ouviu ne-
dessa passeata que o maestro Tranquilino Bas- nhum discurso de agradecimento à princesa.
tos compôs de improviso o ‘Hino ao 13 de Maio’. Amparados pela força dos seus Orixás, os ne-
A multidão desfilou também ao som de ‘Airosa gros ‘bateram Candomblé’ no centro da cidade
Passeata’, outra composição do maestro para e no sábado seguinte jogaram um presente no
celebrar a multidão nas ruas no dia da abolição. mar em agradecimento aos Orixás. [...] O Bem-
(FRAGA, 2011, p. 69-70) bé do Mercado, em Santo Amaro, tem grande
significado para a afirmação da cidadania ne-
Em 1889, um ano após a abolição, no centro gra no Brasil. Eliminados quaisquer traços de
da cidade de Santo Amaro, dançando, cantan- subserviência agradecida à princesa pela Abo-
do, cultuando os Orixás, as filhas e os filhos de lição, emerge a evidência histórica da luta po-
santo “batem o seu candomblé” na rua. Isso pular contra o cativeiro e da força da cultura
afro-brasileira como propulsora da resistência
porque, no dia seguinte à abolição, 14 de maio
do povo negro no Brasil. (ARAÚJO, 2003, p. 01)
de 1888, a elite santamarense dizia desconhe-
cer o alcance da Lei Áurea, e requisitava aos A primeira celebração do Bembé foi rea-
poderes instituídos que a lei fosse revogada, lizada na Ponte do Xaréu, sobre o Rio Subaé,
enquanto bradavam que nada havia mudado fontes historiográficas indicam que somen-
nos rincões do recôncavo, e em seus engenhos te no final dos anos 1930 do século XX, com a
escravistas. construção do atual mercado, o Bembé passou
O Bembé do Mercado é uma festa advinda a ser realizado no Largo do Mercado Municipal.
da celebração iniciada no ano seguinte à aboli- Anualmente, o largo do mercado é transfor-
ção da escravatura, que se originou a partir da mado em um território sagrado, de celebração
reverência e gratidão de pescadores e do povo da memória ancestral, no qual se cumprem os
de santo, à sua ancestralidade e aos Orixás. fundamentos da religiosidade de matriz afri-
Segundo as narrativas circulantes, sob a guia cana e afro-brasileira. É uma celebração de

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Narrativas implicadas sobre memória, cultura e negritude no Recôncavo da Bahia

confraternização entre as várias nações de e que por conta disso, na década de 1950, por
candomblés, e faz se comunicarem através da algumas ocasiões, o Bembé foi proibido. Há
celebração religiosa, as expressões de força hipóteses sobre a definição e escolha desse
social e política, da resistência e da alegria al- local para a realização da festa. Aquela que se
tiva na luta do povo negro do Recôncavo, uma liga à adesão, à cosmologia das religiões afro-
região indelevelmente marcada pela coloniza- brasileiras, relacionando-a à relação mitoló-
ção escravista, e pela pujança da herança da gica com Exu, orixá do mercado e das feiras,
diáspora africana. parece ser a mais relacionada ao aspecto reli-
No Bembé do Mercado, realiza-se um com- gioso e mítico da celebração, sobrepujando as
plexo entre o sagrado e a vida festiva, interpe- questões políticas da época.
netrados que são, faz-se na rua, no mercado, Ampliando essa discussão, Machado (2014)
o lugar da feira, dos encontros, das encruzas, registra que a festa tinha forte presença do
das trocas simbólicas e materiais, da comuni- samba, da capoeira e do maculelê, expressões
cação e dos contatos. É um rito político de de- culturais que se tornaram referência identitá-
marcação de território e proclamação de exis- ria brasileira. O Bembé do Mercado tem sem-
tência pública. É um espaço de mediação entre pre uma liderança eclesiástica, sucederam-
o sagrado e o secular, entre o povo de santo, a se João de Obá. Minininho, Pai Tidu (por três
cidade, e os poderes públicos. Faz-se, portan- décadas), que “como sacerdote, ele passou
to, ano a ano, como um espaço de atualização a incluir preceitos e rituais. Desta forma, os
da cidadania conquistada pelo povo negro. participantes passaram a se relacionar com o
Não há fontes sabidas que indiquem a se- Bembé de forma mais litúrgica nas danças, na
quência das celebrações nos anos seguintes, forma de se cantar, na devoção do presente,
se permaneceu sendo realizada nas ruas ou no relembrar os ancestrais e na saudação aos
nos terreiros. “O que as narrativas e os poucos Orixás” (MACHADO, 2014). No ano de 1993, Mãe
registros nos apontam é que a data ‘era con- Lídia passou a frequentar o Bembé, junto com
dignamente festejada pelos remanescentes Noca de Jacó e Mãe Iara, passam a organizar
da escravidão e principalmente pelos pretos a festa. Com eles, o barracão torna-se ainda
africanos’ (LEAL, 1950). “[...] Mas, possivelmen- mais parecido com os terreiros. Mãe Donália,
te, o Treze de maio seguiu sendo comemora- sua parceira, assume a tarefa até 1997. No ano
do todos os anos, inspirado nas celebrações seguinte, por sorteio, foi Pai Celino quem se
das religiões de matriz africana e com a en- tornou o responsável. Entre 1998 e 2004, foi
trega dos presentes à Mãe D´água, possivel- Mãe Lídia quem assumiu a festa. Em 2006, é a
mente de uma forma itinerante” (MACHADO, vez de Pai Pote assumir, “em consonância com
2014 apud Processo de Instrução de Registro: os novos tempos, ao mesmo tempo que abre
01450.004789/2014-46 TED-IPHAN-UFRB, 2019). o Bembé para a mídia e para o público exter-
Registra-se que após a liderança de João no, mantém-se atento às leis, aos direitos, às
de Obá, com um interregno, a partir 1938, com burocracias e à defesa da festa como um lugar
a construção do atual mercado público, e sob de política”. (Processo de Instrução de Regis-
a liderança do ogã Menininho, a celebração foi tro: 01450.004789/2014-46, TED IPHAN–UFRB,
levada para o atual local na praça do Merca- 2019, p.63). Pai Pote assume a tarefa de insti-
do, a partir dali com alvará de autorização e tucionalização e preservação através da lega-
supervisão da Prefeitura de Santo Amaro. Re- lização, do registro e da proteção da manifes-
gistra-se que havia insatisfações e denúncias, tação cultural.

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A partir 1966, a prefeitura passou a sub- cente e Cultural Ilê Axé Ojú Onirè, mesma ins-
sidiar e supervisionar a festa, incumbindo a tituição responsável pelo registro como Patri-
professora e memorialista Zilda Paim da tare- mônio Imaterial da Bahia, com registro no Livro
fa. Atualmente, o poder público contribui com Especial de Eventos e Celebrações do Instituto
a infraestrutura da celebração que se tornou do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC) do es-
amplamente conhecida, desenvolvendo uma tado da Bahia, em 2012. (Dec. nº 14.129/2012)
economia própria, que vai desde o incremento
da comercialização dos itens que compõem os
A narrativa memorial de
rituais, ao movimento de turismo e de ativida-
des lúdicas e culturais no entorno do Mercado,
protagonismo negro das
e por toda a cidade, significando um impacto Cheganças e Marujadas em
de desenvolvimento e circulação de bens e re- Saubara
cursos da economia criativa gerada pela festa
(JESUS, 2018). Eis o povo Negro-africano,
O qual simpatiza e se identifica,
O Candomblé de origem Ketu é, atualmen-
O qual morre para si a fim de renascer no outro.
te, o que mais caracteriza os rituais do Bembé Ele não assimila, ele se assimila.
do Mercado, além da sua ritualística durante o Ele vive com o outro em simbiose,
Xirê, outros elementos de culto – invocações, Ele co-nhece o outro...
cantigas, oferendas, música, dança, integram Sujeito e objeto são, aqui, dialeticamente con-
a cerimônia pública do Bembé. Nela, porém, frontados no ato mesmo do conhecimento,
que é ato de amor.
convivem as expressões das demais nações de
‘Eu penso, então eu existo’, escrevia Descartes.
Candomblé, uma vez que reúne mais de 40 ter- A observação já foi feita, pensa-se sempre algu-
reiros, conforme indica MACHADO (2009). ma coisa. O Negro-africano poderia dizer:
O Bembé e seus simbolismos, ao alimen- ‘Eu sinto o Outro, eu danço o Outro, então eu
tar e sacralizar o chão da praça, nutre uma ou- sou’.
Ora, dançar é criar, sobretudo quando a dança
tra dimensão da existência do povo negro em
é dança de amor.
socialização, como sujeitos de direitos. Essa
É este, em todo o caso, o melhor modo de co-
face civil da celebração, atualiza nos/nas par- nhecimento.
ticipantes e espectadores(as), pela memória
(SENGHOR, 1964, p. 259)
viva, ali vivenciada, um lugar social e um ethos
emancipatório do povo negro. Em 2019, as Cheganças, Marujadas e Em-
Desde 2015, a UFRB, através do Cecult, rea- baixadas da Bahia foram registradas como pa-
liza o Programa Cultura e Negritude, no mes- trimônio imaterial da Bahia, no Livro Especial
mo período de celebração do Bembé, fazendo de Expressões Lúdicas e Artísticas, parte da re-
dessa ação um ato mútuo de formação e cons- gulamentação sobre as normas de proteção e
cientização sobre a identidade negra. Relatos estímulo à preservação do patrimônio cultural
(auto)biográficos, registros memorialísticos e da Bahia. (Dec. nº 10.039, de 3 de julho de 2006,
novas vivências de seus participantes, consti- que regulamenta a lei nº 8.895 de 16 de de-
tuem a formação-ação desenvolvida. zembro de 2003).
Em 2019, o Bembé do Mercado foi reconhe- Na Bahia, está notificada a existência de 20
cido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo grupos ativos, em 8 territórios de identidade
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Na- da Bahia, em 15 localidades (no Recôncavo, no
cional (IPHAN), a pedido da Associação Benefi- Baixo Sul, Extremo Sul, no Piemonte da Cha-

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Narrativas implicadas sobre memória, cultura e negritude no Recôncavo da Bahia

pada Diamantina e na região metropolitana de as de Mouros que representam as lutas entre


Salvador). cristãos e mouros que aconteceram na Europa,
Cheganças, segundo Quirino (1955), é um Ásia, África e América Latina. Nelas se retrata
auto patriótico, marítimo, do ciclo das con- e performa, a partir da (re)interpretação so-
quistas portuguesas. Ela é uma manifestação bre a reconquista dos territórios na Península
cultural, praticada, inicialmente por pescado- Ibérica, ocupadas pelos mouros, muçulmanos,
res, e narra a história epopeica das batalhas considerados infiéis por não professarem o
marítimas contra os europeus, havidas duran- cristianismo.
te as lutas pela Independência da Bahia. Nas Cheganças de Mouros, os cristãos são
Há os que definam a chegança como uma marujos, vestem-se com roupas similares às
herança de origem lusitana. Se assim o foi, não da marinha de guerra, e os mouros, vestem-
mais o é. Essa é uma manifestação que se foi se de vermelho, para alguns, uma alusão à cor
modificando com o tempo, e com o trânsito da pele dos povos indígenas, considerados
atlântico, tornando-se, atualmente, uma mani- pagãos pela Igreja Católica, encontrados em
festação cultural do povo negro na Bahia. Nar- terras brasileiras, quando da invasão e da co-
ra-se através delas “as grandes navegações”, lonização portuguesa. Os grupos usam como
às quais foram submetidos os povos negros, instrumentos musicais, tambores e flautas.
expatriados no criminoso tráfico negreiro, no Certo é que nos vários grupos existentes na
Atlântico e a participação do povo negro nas Bahia, há nas manifestações de Cheganças de
lutas pela independência no Brasil. Mouros, a contação das histórias sobre as lutas
e disputas medievais entre cristãos e mouros,
As Cheganças possuem elementos caracterís-
ticos distintos, que no momento de intercone- mas, também, narram-se acontecimentos das
xão, originam especificidades. As performances lutas pela independência na Bahia, e o louvor
do grupo, baseadas em movimentos corpóreos a santos católicos.
embalados pelos cânticos, criam narrativas que As Cheganças de Mouros são também co-
contribuem para o conhecimento do processo
nhecidas como Embaixadas, e estão registra-
histórico em sua dimensão marítima. Entende-
mos dessa forma, que os grupos de Cheganças
das, exclusivamente no extremo sul da Bahia.
se constituem em um espaço de produção do Nas Embaixadas, há dois grupos, os que
saber/fazer, gerando simultaneamente, conhe- se vestem de azul, e são os cristãos católicos,
cimento histórico, expressão artística e manu- e os que se vestem de vermelho, que são os
tenção da salvaguarda da cultura local. (ROSÁ- mouros, estes sempre chegam para a batalha
RIO, 2019, p. 27)
em uma embarcação. Nas Embaixadas, a mo-
Os grupos de Chegança, Marujadas e Em- tivação da disputa entre estes dois grupos é o
baixadas caracterizam-se por uma singular roubo da imagem de São Sebastião, praticada
dramaturgia, uma musicalidade que lhes são pelos mouros. “No imaginário popular a devo-
próprias e peculiares, pela utilização de ins- ção por São Sebastião é que sustenta a exis-
trumentos percussivos, especialmente, os tência dos grupos. Sebastião serviu ao exérci-
pandeiros, pelo vasto cancioneiro poético e to romano, e tinha como uma de suas práticas
apologético, transmitido pela oralidade, e pela tentar converter soldados do exército ao cris-
memória de gerações sucessivas. tianismo, e por isso foi assassinado” (ROSÁRIO,
Na Bahia, há ainda uma diversidade de 2019, p. 31).
enfoques entre os grupos, citemos aqui duas A performance se dá entorno dos diálogos
que se distinguem, as Cheganças de Marujos, e entre os embaixadores mouros que aportam, e

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os cristãos, que são por eles desafiados. Após 1977, mas tem registros orais de sua existência
o insucesso da embaixada, iniciam-se as lutas, desde a década de 1930 do século XX. Narra
um drama das guerras de conquistas e evan- em suas apresentações o imaginário de uma
gelização no Brasil, tendo nos indígenas, que embarcação brasileira baiana que enfrenta
representam os mouros ou vice-versa, os mou- os lusitanos, defendendo a Baía de Todos os
ros que representam os indígenas, uma dispu- Santos. Suas cantigas exaltam a participação
ta por cosmovisões, religiosidade e cultura. do povo do Recôncavo nas lutas pela Indepen-
As Cheganças de Marujos retratam acon- dência da Bahia, em 1823. Ela louva o padroei-
tecimentos ocorridos no Brasil, em especial ro da cidade, São Domingos Gusmão.
nas lutas pela independência, e sua ocorrên-
Toda a história é contada através de canções
cia está ligada à religiosidade, pois costumam que são acompanhadas por uma orquestra de
ser realizados durante os festejos dos santos pandeiros tradicionais feitos com aro de ma-
católicos São Benedito, São Domingos e Santo deira de jenipapo, chocalho feito com lata de
Antônio, e às datas festivas da Igreja, o Natal, alumínio e encourados com couro de bode. São
a Festa de Reis e a Festa do Divino. Entretanto, cerca de 35 cantigas, entoadas em sete ritmos
diferentes, as cantigas desse grupo são as mes-
há uma forte presença da religiosidade de ma-
mas cantadas ao longo dos anos. Não são cria-
triz africana entre os grupos, pois a estratégia
das novas canções, o que temos é um repertorio
de estabelecer relações, foi o modo de sobre- de identidade contínua, que sofre modificações
vivência da herança cultural africana e negra, devido à forma de transmissão oral, algo muito
que agregou à religião do colonizador muitos comum em manifestações tradicionais. O corpo
elementos de tradições africanas. Inseriu es- e a dança são elementos fundamentais para a
sintonia e execução das encenações. Todo mo-
pecialmente o corpo, seu pulsar, ritmo e mo-
vimento corporal lembra o movimento sobre
vimentos, como modo de adoração, através da
as ondas do mar, o movimento que é feito pela
musicalidade e dança. embarcação. É impossível dissociar canto, dan-
Em Saubara, cidade do recôncavo baiano, ça e música. É assim que viajamos por um mar
realizou-se em agosto de 2013, o I Encontro de revolto, hora em calmaria que nos leva e traz,
Cheganças da Bahia, nele se deliberou pelo depois de uma travessia imaginária. (ROSÁRIO,
encaminhamento do pedido de registro da 2019, p. 48)

manifestação cultural ao IPAC, processo aberto Há que se destacar que este universo de
em 2015, e concluído em 2019, sob a iniciativa batalhas e conflitos é também um universo de
da Chegança Fragata Brasileira, que elaborou o ludicidade, alegria, vitalidade e liberdade. As
dossiê etno-histórico das Cheganças e Maruja- músicas, as danças, as “rezingas” apresentam
das da Bahia, sob a supervisão do IPAC. outras narrativas sobre o cotidiano do povo
Estão ativos em Saubara, os grupos de negro no Recôncavo, falam de suas formas de
Chegança Fragata Brasileira e Chegança Barca vida, dos seus fazeres, crenças e modos de
Nova, a primeira, masculina, e a segunda, femi- existir, sendo, portanto, uma atualização epis-
nina, e a Chegança Mirim. Atualizações do tem- têmica e estética na vida, a partir da cultura
po, que demonstram o caráter descolonizador popular e da memória negra.
e emancipatório deste tipo de manifestação
cultural negra.
A Fragata Brasileira, nosso objeto de aten- Considerações finais
ção doravante, vem com atividades ininterrup- Pensar como pessoas negras na luta antirra-
tas há 40 anos, foi reestruturada a partir de cista, nos exige reterritorializar e atualizar

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Narrativas implicadas sobre memória, cultura e negritude no Recôncavo da Bahia

nossos saberes, nossas histórias, nossa fé, e faz uma pauta incontornável deste contexto,
nossas identidades. As diversas formas de me- nos dias atuais, pois significa trazer o debate
mória e de narração de si, em suas múltiplas sobre a promoção da equidade e a igualdade
linguagens, e por meio de variadas tecnolo- racial, para a esfera pública da cidadania.
gias, tem sido uma das formas pelas quais os Joseph Ki-Zerbo nos alerta, quando diz que
povos negros e afrodescendentes no Brasil, na “trata-se do papel da identidade e do papel
diáspora africana, definem suas existências. A a desempenhar no mundo. Sem identidade,
cultura, as artes, a estética, a religiosidade e somos um objeto da história, um instrumen-
a ritualística negras são patrimônios de uma to utilizado pelos outros, um utensílio” (2006,
memória viva, em atos, em lembranças, remi- p.12), portanto, memórias coletivas e suas sub-
niscências, histórias de vida e formação, mas jetivações são ações afirmativas no campo da
principalmente, nos corpos negros(as) que se cultura e da formação, ações identitárias de
movem pela vida, vivida em suas pulsões, de- emancipação e liberdade.
sejos e fazeres.
O economista Sílvio Humberto dos Passos
Cunha, ao analisar as interfaces contemporâ-
Referências
neas entre o desenvolvimento social, raça e ALVES, Rita de Cássia Dias. Pereira.; NASCIMENTO,
igualdade, a partir de estudos sobre a transi- Cláudio Orlando Costa do Nascimento. (Orgs). For-
mação Cultural: sentidos epistemológicos e políti-
ção para o trabalho livre no pós-abolição, e a
cos. Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino
alegação de falta de braços no Recôncavo, des-
Traço, 2016.
taca que a dimensão racial passou a ser con-
siderada como uma esfera desconectada das ALVES, Rita de Cássia Dias. P.; NASCIMENTO, Cláudio
demais dimensões da vida social e econômica, Orlando Costa do Nascimento. Rodas de Saberes
e Formação: metodologia afirmativa, fundamen-
tanto nas ciências, quanto no senso comum, e
tos pedagógicos, currículo e formação identitária.
que isso trouxe consequências extremamente
In: ALVES, Rita de Cássia Dias Pereira; NASCIMEN-
aviltantes para a população negra. Uma delas
TO, Cláudio Orlando Costa do Nascimento; BLANDA,
é a negação da participação negra como pro- Leonardo Di; MOLINU, Martina (Orgs). Almanaque
motora direta do desenvolvimento econômico, Pedagógico: Experiência Quilombola no Vale do
e o fato de que esse alijamento se dá pela ex- Iguape – Recôncavo da Bahia. Cruz das Almas: EDU-
clusão do fator racial, como o elemento deci- FRB, 2019. p. 40-44.
sivo para a segregação do povo negro (CUNHA,
ARDOINO. Jacques. Abordagem Multirreferencial
2004, 2016).
(plural) das situações educativas e formativas. In:
Essas mazelas do racismo operam sobre a BARBOSA, Joaquim Gonçalves (org). Multirreferenci-
memória social e política brasileira, se mime- lidade nas ciências e na educação. São Carlos: EdU-
tizam, por sua capacidade mutagênica, o que FSCAR, 1998. p. 24-41.
faz dos movimentos de inserção da questão
ARAÚJO, Ubiratan Castro de. O Candomblé da liber-
racial negra, em todos dos âmbitos da cultura
dade. Secretaria Especial da Cultura. Disponível
à economia, passando pela política, uma ação
em: www. gov.br. Acesso em: 16 fev. 2020.
fundamental. A revitalização memorialística,
o reconhecimento e a patrimonialização, de BHABHA. Homi. O local da cultura. Belo Horizonte:
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Narrativas implicadas sobre memória, cultura e negritude no Recôncavo da Bahia

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Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus é doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professora
Associada da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Docente Permanente do Mestrado Estudos Interdis-
ciplinares sobre Universidade (PPGEISU) do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC)
da UFBA e do Mestrado Profissional em História da África, da Diáspora e dos Povos Indígenas (MPHADPI) do Centro de
Artes Humanidades e Letras (CAHL) da UFRB. E-mail rcdias@ufrb.edu.br

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Ari Lima

DOI:http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2020.v5.n14.p627-647

NARRATIVAS E MEMÓRIAS SOBRE A CONDIÇÃO


NEGRA EM PARIS

Ari Lima
http://orcid.org/0000-0001-5557-6160
Universidade do Estado da Bahia

resumo Este artigo é resultado do projeto de pesquisa desenvolvido em um


estágio pós-doutoral na École des Hautes Études en Sciences So-
ciales (EHESS) que propôs uma reflexão sobre a “condição negra” em
Paris. Foram registrados 21 depoimentos de negros e negras radica-
dos em Paris. Os depoimentos foram gravados em áudio e condu-
zidos por um roteiro semiestruturado de perguntas sobre origem e
experiências de trânsito espacial, social e cultural, dados pessoais,
profissão, relatos sobre experiências de conotação racista, sobre prá-
ticas sociais e culturais que determinam uma “condição negra”, sobre
estratégias de mobilidade e inserção social mais ampla, recorrentes
em contexto brasileiro, tais como a música, o esporte e os relaciona-
mentos sexoafetivos inter-raciais. Apenas as narrativas e trajetórias
de três sujeitos serão citadas e discutidas. Antes disso, será quali-
ficada a apropriação das categorias analíticas narrativa, memória e
patrimônio. Em seguida, será situado o debate sobre universalismo
republicano, “condição negra” e identidade étnico-racial em contexto
francês. As narrativas desses sujeitos revelam trajetórias que se cru-
zam no modo como elaboram memória, identidade racial e patrimô-
nio. Do mesmo modo, contrariam os princípios republicanos de igual-
dade, fraternidade e liberdade. Suas trajetórias pessoais os colocam
em um ponto de tangenciamento com trajetórias e configuração de
memória, de identidade racial e patrimônio de sujeitos negros radi-
cados em outros contextos nacionais tal qual o Brasil.
Palavras-chave: Paris. Negros. Memória. Narrativa. Identidade.

abstract NARRATIVES AND MEMORIES ABOUT THE BLACK


CONDITION IN PARIS
The article is the result of a research project developed in a post-doc-
toral internship at the École des Hautes Études en Sciences Sociales
(EHESS) that proposed a reflection on the “black condition” in Par-
is. 21 testimonies of black men and women living in Paris were re-

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 627-647, maio/ago. 2020 627
Narrativas e memórias sobre a condição negra em Paris

corded. The testimonies were recorded in audio and conducted by a


semi-structured script of questions about origin and experiences of
spatial, social and cultural traffic, personal data, profession, reports
about experiences of racist connotation, about social and cultural
practices that determine a “black condition”, on strategies of mobil-
ity and broader social insertion, recurring in the Brazilian context,
such as music, sport and inter-racial sex-affective relationships. Only
the narratives and trajectories of three subjects will be cited and
discussed. Before that, the appropriation of the analytical categories
narrative, memory and heritage will be qualified. Then, the debate
on republican universalism, “black condition” and ethnic-racial iden-
tity in the French context will be discussed. The narratives of these
subjects reveal trajectories that intersect in the way they elaborate
memory, racial identity and heritage. Likewise, they go against the
republican principles of equality, fraternity and freedom. Their per-
sonal trajectories put them in a tangent point with trajectories and
configuration of memory, racial identity and heritage of black sub-
jects living in other national contexts such as Brazil.
Keywords: Paris. Black people. Memory. Narrative. Identity.

resumen NARRATIVAS Y RECUERDOS SOBRE LA CONDICIÓN


NEGRA EN PARÍS
El artículo es el resultado de un proyecto de investigación desarro-
llado en una pasantía postdoctoral en la École des Hautes Études en
Sciences Sociales (EHESS) que propuso una reflexión sobre la “con-
dición negra” en París. Se registraron 21 testimonios de hombres y
mujeres negros que viven en París. Los testimonios fueron grabados
en audio y conducidos por un guión semiestructurado de pregun-
tas sobre el origen y las experiencias de tráfico espacial, social y
cultural, datos personales, profesión, informes sobre experiencias
de connotación racista, sobre prácticas sociales y culturales que de-
terminan una “condición negra”, sobre estrategias de movilidad e
inserción social más amplia, recurrentes en el contexto brasileño,
como la música, el deporte y las relaciones interraciales de afectivi-
dad sexual. Solo se citarán y discutirán las narrativas y trayectorias
de tres temas. Antes de eso, se calificará la apropiación de las cate-
gorías analíticas narrativa, memoria y patrimonio. Luego, se debatirá
el debate sobre el universalismo republicano, la “condición negra” y
la identidad étnico-racial en el contexto francés. Las narraciones de
estos temas revelan trayectorias que se cruzan en la forma en que
elaboran la memoria, la identidad racial y la herencia. Asimismo, van

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Ari Lima

en contra de los principios republicanos de igualdad, fraternidad y


libertad. Sus trayectorias personales los ubican en un punto tangen-
te con trayectorias y configuraciones de memoria, identidad racial y
herencia de sujetos negros que viven en otros contextos nacionales
como Brasil.
Palabras clave: Paris. Negros. Memoria. Narrativa. Identidad.

Paris é uma cidade que concentra um enor- que realizei no Brasil e, desse modo, a descri-
me número de museus, bibliotecas, centros ção e problematização das possíveis equiva-
de documentação e de memória. Do mesmo lências, mas também incongruências no que
modo, é uma das mais importantes cidades diz respeito às relações étnico-raciais e cons-
do mundo no que diz respeito à referência de tituição de culturas negras em dois contextos
diferentes culturas e povos existentes no pla- nacionais de feição universalista e assimilacio-
neta Terra. Ou seja, é uma cidade monumento, nista ao mesmo tempo em que são orientados,
patrimônio da humanidade em que tudo pare- em intensidades distintas, por uma perspec-
ce ter vindo de algum outro lugar e onde qua- tiva diferencialista no que diz respeito à pre-
se todos cultivam memórias e narrativas de sença e constituição de uma “condição negra”.
antepassados nascidos fora da França, bran- A presença negra em Paris é condicionada
cos e não brancos, originários de civilizações por marcas fenotípicas, por identidade étnico
que não tinham o francês como língua nacio- -racial atribuída ou afirmada, por classe, por
nal e muito menos comungavam os valores, as gênero, por sexualidade, por origem nacional
narrativas de conquista, a memória grandilo- assim como é uma condição herdada do Esta-
quente, o patrimônio cultural monumental e do colonial francês. Durante meu estágio pós-
a etiqueta civilizatória francesa (ELIAS, 1994). doutoral, pude constatar sua materialidade e
Entre eles, destacam-se negros oriundos dos imaterialidade. Uma coisa e outra se manifesta
mais diversos países africanos, remanescen- na profusão de corpos negros concentrados em
tes das mais diversas etnias desse continente determinados arrondissements e quartiers.1
ou mesmo negros descendentes de africanos No modo como esses mesmos corpos se enfei-
de origem desconhecida ou esquecida, escra- tam e são acionados. No modo como ocupam
vizados em ex-colônias francesas, britânicas, 1 A cidade de Paris é dividida em 20 arrondissements ou
portuguesas ou espanholas nas Américas, no distritos eleitorais e administrativos. Cada um deles
possui um(a) prefeito(a) eleito(a) pelos seus respec-
Caribe ou na Ásia. tivos habitantes. O conjunto de prefeitos tem a im-
Instalado em Paris, entre julho de 2018 e portante função de eleger o(a) prefeito(a) da cidade.
A prefeitura de Paris define o orçamento de cada ar-
julho de 2019, realizei um estágio pós-doutoral rondissement que possui autonomia para gerir seus
na École des Hautes Études en Sciences So- recursos e definir as prioridades locais. Os quartiers
são subdivisões de um arrondissement. Ou seja, são
ciales (EHESS) cujo projeto de pesquisa previa territórios específicos no que diz respeito ao perfil
socioeconômico dos seus moradores, aos serviços
descrever e refletir sobre a “condição negra”
disponíveis, à história de sua formação e ocupação.
(NDIAYE, 2008) e relações étnico-raciais nessa O Quartier Latin, por exemplo, situado no Quinto Ar-
rondissement, é conhecido como o território de inte-
cidade. Em agosto de 2019, voltei à Paris para lectuais e estudantes universitários. Lá se encontra a
uma rápida estadia de dois meses de modo a célebre Universidade Sorbonne, o Collège de France,
livrarias importantes, como a Présence Africaine, res-
concluir minha investigação. Esse projeto tam- taurantes e cafés que serviram e servem como ponto
bém previa uma continuidade com pesquisas de encontro para reflexão e debate.

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Narrativas e memórias sobre a condição negra em Paris

espaços públicos na cidade. No modo como ments d´Outre-Mer (DOM) tal qual a Martinica
se distribuem nas linhas do metrô e ocupam ou Guadalupe e oito são de franceses filhos de
espaço nos trens. No modo como mencionam africanos. No total, são sete mulheres e 14 ho-
esta presença nos prédios onde habitam, são mens. Dois desses homens são assumidamen-
construídos como negros e representam Áfri- te homossexuais, os demais são homens e mu-
ca. Na profusão de línguas que falam, no silên- lheres heterossexuais. A faixa etária de todos
cio ou na fala contida sobre a exclusão racial. eles varia entre 28 e 57 anos de idade. Cada de-
No modo de representar a França e negociar a poimento foi registrado em áudio, durou cerca
herança colonial e escravocrata. No desespero, de 120 minutos e foi conduzido por um roteiro
na ironia e decepção diante da compreensão semiestruturado de perguntas sobre origem e
de que embora os sujeitos negros sejam mui- experiências de trânsito espacial, social e cul-
tos visíveis em seus corpos e modos de existir, tural, dados pessoais, profissão, relatos sobre
narrar, lembrar, transmitir memória e confi- experiências de conotação racista, sobre prá-
gurar patrimônio são quase invisíveis ou são ticas sociais e culturais que determinam uma
invisibilizados nos espaços de poder e pres- “condição negra”, sobre estratégias de mobi-
tígio da República propagadora de liberdade, lidade e inserção social mais ampla, recorren-
fraternidade e igualdade de todos perante a tes em contexto brasileiro, tais como a música,
Constituição Federal, o Estado, a sociedade e o esporte e os relacionamentos sexoafetivos
suas instituições. inter-raciais. Os encontros ocorriam nas res-
Em Paris, identifiquei, ao menos, três ca- pectivas residências dos meus interlocutores,
tegorias de sujeitos negros e três trajetórias em cafés, restaurantes, parques ou bibliotecas
sociais respectivas. A saber, o imigrante africa- públicas. Aqueles que serão citados aqui apa-
no, o francês ou francesa filho(a) de imigran- recem com nomes pessoais fictícios. De todo
tes africanos ou de um casal inter-racial e o(a) modo, caso venham a ler este trabalho, é pro-
francês(a), oriundo(a) das antigas colônias das vável que se reconheçam nas citações de tre-
Antilhas, descendente de ex-escravos africa- chos dos seus respectivos relatos.
nos. Embora tenha conhecido e frequentado Neste artigo, dialogo, particularmente, com
espaços definidos por presença eminente- narrativas e trajetórias de uma mulher negra
mente negra, investi menos na observação sis- filha de um africano e uma branca francesa,
temática desses espaços e mais na coleta de nascida e educada na França hexagonal, Na-
depoimentos de negros pertencentes às três dine, de outra mulher negra descendente de
categorias de sujeitos antes mencionadas. Eu africanos escravizados na ex-colônia e atual-
conheci meu primeiro interlocutor casualmen- mente DOM da Martinica, Joséphine, e de um
te, em um encontro promovido por uma amiga africano originário do Gabão em África, Léon.
brasileira em comum. Através dele, conheci um As narrativas desses sujeitos revelam trajetó-
segundo que me apresentou a um terceiro, até rias que se cruzam no modo como elaboram
que formei uma rede de contatos de negros e memória sobre a exclusão social, identidade
negras relacionados que não tinham, entretan- racial e patrimônio cultural. Do mesmo modo,
to, consciência da existência uns dos outros. suas narrativas contrariam os princípios repu-
Eu registrei 20 depoimentos em francês blicanos franceses de igualdade, fraternidade
e um em português de um africano vindo do e liberdade individual e suas trajetórias os co-
Cabo Verde. São sete depoimentos de africa- locam em um ponto de tangenciamento com
nos, seis de antilhanos oriundos dos Départe- outras trajetórias pessoais e configuração de

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Ari Lima

memória sobre a exclusão social, identidade racialmente, e cidadania parcial para outros
racial e patrimônio cultural de sujeitos ne- contingenciados pela identidade racial negra.
gros radicados em outros contextos nacionais Antes de tratar especificamente das narrativas
tal qual o Brasil (FERNANDES, 1978; LIMA, 2001; e trajetórias dos três sujeitos já mencionados,
LIMA, 2017). vou qualificar o modo como me aproprio aqui
Ou seja, suas narrativas e trajetórias pes- das categorias analíticas narrativa, memória e
soais são marcadas por especificidades, ex- patrimônio, sacadas ao longo deste trabalho.
periências, questionamentos e sentimentos Em seguida, vou situar o debate sobre univer-
suscitados pela irracionalidade da redução salismo republicano, condição étnico-racial e
de suas existências ao aparecimento como identidade negra em contexto francês.
pele negra, como cor, como máscara branca e
ficção racial concebidas em contexto euro-a-
Memória, narrativas e patrimônio
mericano desde a decisão pela devastadora
conquista colonial e escravidão negra (FANON,
cultural
2008; GÉLAS, 2012; GERBER, 1989; GILROY, 2001; No que diz respeito à categoria memória, Hal-
MBEMBE, 2013). Mais ainda, suas narrativas e bwachs (1990) chama atenção ao fato de que
trajetórias pessoais circulam pelo mundo oci- a mesma se constitui através da nossa capaci-
dental, transcendem-lhes como indivíduos, dade de lembrar e transformar em linguagem
porém não são suficientemente eficazes para o que sentimos, vimos, ouvimos ou tomamos
superar a quase completa invisibilidade social conhecimento em alguma circunstância passa-
à qual estão subjugados. Invisibilidade essa da. Afirma ainda que embora a memória possa
que, inevitavelmente, me remete ao “Homem ser articulada individualmente, o que a torna
invisível”, protagonista negro do romance de única e parcial, nossas lembranças pertencem
Ellison que diz: também a outros sujeitos, presentes ou au-
sentes, que a forjaram em contexto, tempo e
Sou um homem invisível. Não, não sou um es-
espaço compartilhado. Desse modo, até mes-
pectro como aqueles que assombravam Edgar
Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema mo o que se considera memória individual é
de Hollywood. Sou um homem com substância, um ponto de vista sobre a memória coletiva
de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até fugidia e mutante. Por sua vez, Ferreira (2003),
se possa dizer que possuo uma mente. Sou in- ao apresentar e comentar o pensamento se-
visível – compreende? – simplesmente porque
miótico de Iuri Lotman, observa que esse autor
as pessoas se recusam a me ver. Como as ca-
beças sem corpo que algumas vezes são vistas
afirmava que toda prática cultural é memória
em atrações de circo, é como se eu estivesse que se dirige sempre contra o esquecimento.
cercado daqueles espelhos de vidro duro que Ao mesmo tempo, Lotman alertava que toda
deformam a imagem. Quando se aproximam de afirmação de memória é também afirmação
mim, só enxergam o que me circunda, a si pró- de esquecimento. Com a memória em forma-
prios ou o que imaginam ver – na verdade, tudo,
to textual, por exemplo, teríamos muito menos
menos eu. (ELLISON, 2013, p. 25)
uma realidade inscrita no texto e muito mais
Essa invisibilidade social alimenta uma ten- os recursos utilizados para reconstruí-la. “Por
são político-ideológica particularmente fran- consequência, podem-se criar hipóteses sobre
cesa entre universalismo republicano e parti- precisas limitações no volume da memória co-
cularismo comunitarista, entre cidadania ple- letiva que determinaram a substituição de uns
na ou quase plena para aqueles não marcados textos por outros” (FERREIRA, 2003, p.79).

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 627-647, maio/ago. 2020 631
Narrativas e memórias sobre a condição negra em Paris

É, contudo, a perspectiva de Pollak (1989a; menos se distinguem das narrativas anônimas


1989b) que melhor orienta o modo como me orais. Nesse sentido, Costa (2015) afirma que,
aproprio aqui da categoria memória. Pollak embora toda narrativa seja presentificação,
corrobora o caráter flutuante e mutável tanto ela costuma transportar narradores e ouvin-
da memória individual quanto da memória co- tes para o passado de um acontecimento que
letiva, embora observe que na maioria das me- ao ser narrado aparece mesclado de realidade
mórias existem aspectos relativamente inva- e ficção. Langdon (1999, p. 15) chama atenção
riantes e imutáveis. Esse autor também defen- que a maior parte dos estudos de narrativas
de que há uma ligação fenomenológica forte compreende os textos como fixos, ou seja, ig-
entre a memória e o sentimento de identidade noram o fato de que “a narrativa é o resultado
compreendida como imagem e representação do evento de sua narração num contexto cul-
de si, para si e para os outros. Além disso, Pol- tural particular e as implicações deste evento
lak afirma que se há sempre um conflito entre para o texto”. Essa mesma autora, entretanto,
memória individual e a memória dos outros, aponta para a uma transformação dos estudos
isso quer dizer que memória e identidade são sobre a narrativa nas últimas décadas.
valores disputados em conflitos sociais, inter-
Durante os últimos trinta anos, as preocu-
grupais e particularmente em conflitos que pações sobre a narrativa e sua análise têm
opõem grupos políticos diversos. Desse modo, surgido através das linhas de investigação
do conjunto cultural-linguagem-sociedade
[...] Ao privilegiar a análise dos excluídos, dos
e seus desdobramentos. Nestas aborda-
marginalizados e das minorias, a história oral
gens a narrativa é, no primeiro momento,
ressaltou a importância de memórias subterrâ-
conceituada como uma forma de comu-
neas que, como parte integrante das culturas
nicação cujo significado é emergente, re-
minoritárias e dominadas, se opõem à ‘Memó-
sultado da interação no contexto de sua
ria oficial’, no caso a memória nacional. Num
produção. Esta perspectiva vai além do
primeiro momento, essa abordagem faz da
conteúdo e examina também os aspectos
empatia com os grupos dominados estudados
poéticos e estéticos do discurso narrativo.
uma regra metodológica e reabilita a periferia
A relação entre a cultura e o mito mantém
e a marginalidade. Ao contrário de Maurice Hal-
um lugar importante, mas os mitos são exa-
bwachs, ela acentua o caráter destruidor, uni-
minados como formas orais, sua produção
formizador e opressor da memória coletiva na-
sendo regida por normas e considerações
cional. Por outro lado, essas memórias subter-
estéticas particulares a sua performance.
râneas prosseguem seu trabalho de subversão
Assim, os processos de narratividade e de
no silêncio e de maneira quase imperceptível
produção artística nas sociedades huma-
afloram em momentos de crise em sobressal-
tos bruscos e exacerbados. A memória entra em
nas se tornam central. As narrativas não
disputa. Os objetos de pesquisa são escolhidos
são consideradas mais como textos fixos,
de preferência onde existe conflito e compe-
dentro de uma definição da tradição fol-
tição entre memórias concorrentes. (POLLAK,
clórica na qual o mais autêntico é julgado
1989a, p. 4)
ser o mais fiel à sua forma original. Mais
propriamente as narrativas são formas vi-
No que diz respeito à compreensão do que vas produzidas através da interação social
sejam “narrar” e “narrativas”, Benjamin (1994, para informar à platéia e também para di-
verti-la com força, espírito, riso e drama.
p. 198) afirmava que se trata da faculdade de
(LANGDON, 1999, p. 19)
intercambiar experiências, passadas de pes-
soa a pessoa. Quanto às narrativas escritas, O acionamento de memórias e narrativas
para Benjamin, as melhores são aquelas que pode configurar patrimônio cultural. A propó-

632 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 627-647, maio/ago. 2020
Ari Lima

sito, Santos (2001) observa que nas últimas dé- que um patrimônio não depende apenas da
cadas vem se ampliando o caráter simbólico vontade e decisão políticas de uma agência de
Estado. Nem depende exclusivamente de uma
do patrimônio em políticas oficiais de patri-
atividade consciente e deliberada de indiví-
monialização ou no debate acadêmico.
duos ou grupos. Os objetos que compõem um
Ultrapassam-se a monumentalidade, a excep- patrimônio precisam encontrar ‘ressonância’
cionalidade e mesmo a materialidade como pa- junto a seu público. (GONÇALVES, 2005, p. 19)
râmetros de proteção, para abranger o verna-
De fato, as nuances do patrimônio cultural
cular, o cotidiano, a imaterialidade, porém, sem
abrir mão de continuar contemplando a preser-
e do próprio processo de patrimonialização
vação dos objetos de arte e monumentos elei- destacados pelos autores acima citados, apon-
tos ao longo de tantos anos de trabalho como tam tanto para a imprescindibilidade de um
merecedores da especial proteção. Passa-se a consenso coletivo sobre o valor das coisas, das
valorizar não somente os vestígios de um pas- ideais e das experiências resguardadas quanto
sado distante, mas também a contemporanei-
apontam para o fato de que o consenso que
dade, os processos, a produção. Nesse contex-
to, por exemplo, não mais apenas os conjuntos legitima a patrimonialização pode evidenciar
urbanos homogêneos, representativos de um coletivos – grupos sociais, famílias – ou instân-
determinado período histórico, passaram a ser cias de poder desassociadas – Estado, comu-
merecedores de proteção ou atenção oficial. nidades. Ou seja, o que é patrimônio cultural
O patrimônio cultural, considerado em toda a não é capaz de sufocar a dissidência ou não
amplitude e complexidade, começa a se impor
é capaz de expressar, muitas vezes, heranças
como um dos principais componentes no pro-
cesso de planejamento e ordenação da dinâmi- ou memórias de conquistas, perdas ou dores
ca de crescimento das cidades e como um dos particulares. Nesse caso, o grupo social, a fa-
itens estratégicos na afirmação de identidades mília, o Estado ou a comunidade trará sempre
de grupos e comunidades, transcendendo a fraturas mais ou menos visíveis e uma unidade
idéia fundadora da nacionalidade em um con- plena alentada, porém adiada em relação ao
texto de globalização. (SANTOS, 2001, p. 44)
que se torna memória, ao que se narra como
Gonçalves (2005, p. 19) ratifica o argumen- memória, à memória que é consagrada patri-
to de que o discurso sobre patrimônio cultu- mônio cultural. Em Paris, deparei-me, por um
ral tem enfatizado seu caráter “construído” ou lado, com uma memória oficial, com uma nar-
“ inventado”, assim como o argumento de que rativa oficial e com um patrimônio cultural ofi-
o patrimônio cultural inventado por uma na- cial, tantas vezes decantados, da “cidade luz”
ção, família ou grupo social pretende articular e, por outro lado, deparei-me com uma memó-
e expressar identidade e memória. Em todo ria extraoficial, com uma narrativa extraoficial
caso, esse autor observa que e com um patrimônio cultural extraoficial, na
maioria das vezes, mais imaterial do que ma-
Um fato, no entanto, parece ficar numa área de
sombra dessa perspectiva analítica. Trata-se terial, resguardado pelos sujeitos de pesquisa.
daquelas situações em que determinados bens Não é, portanto, apenas a história oral que
culturais, classificados por uma determinada estabelece uma relação de empatia com seus
agência do Estado como patrimônio, não che- sujeitos e interlocutores de pesquisa, tal como
gam a encontrar respaldo ou reconhecimento
afirmou Pollak (1989a), mas também a teoria
junto a setores da população. O que essa ex-
da literatura, a museologia e a socioantropo-
periência de rejeição parece colocar em foco
é menos a relatividade das concepções de pa- logia. No meu caso, não foi diferente. Estabe-
trimônio nas sociedades modernas (aspecto já leci uma empatia antecipada com a metrópole
excessivamente sublinhado) e mais o fato de Paris e com o que ela representa, mas também

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Narrativas e memórias sobre a condição negra em Paris

estabeleci uma empatia e curiosidade em co- cional, a questão racial esteve onipresente na
nhecer mais detalhadamente como se consti- reflexão das elites políticas durante o império
tuíram e como estariam assentadas em Paris, colonial (1804-1848/1852-1870), mas também
a presença, as memórias, as narrativas e patri- daquelas da Terceira República (1870-1940).
mônios culturais de sujeitos negros que para
Foi somente durante os anos 1930 que a repug-
muitos não deveriam estar lá e, inclusive, do nância contra a palavra raça se generalizou no
ponto de vista oficial do Estado francês, não seio das elites republicanas. A principal razão
estão lá, uma vez que é interditada e sublima- para que isto tenha ocorrido é que, nesse pe-
da a nomeação e quantificação desta presença ríodo, as forças de esquerda construíram seu
projeto político de unificação em torno do eixo
(INSEE, 2020). Nesse sentido, sem dados quan-
federativo constituído pela denúncia do antis-
titativos oficiais e considerando que a nomea- semitismo e do nazismo. A Revue Race et Racis-
ção da palavra “raça”, que a afirmação pública me, animada por intelectuais de esquerda entre
de identidade racial negra ou da exclusão ra- 1937 e 1939, ilustra bem esse terceiro momento
cial geram constrangimento, chega a ser mes- na história da politização da questão racial. Ao
mesmo tempo, vemos que no seio das organi-
mo um tabu em território francês, decidi inves-
zações judaicas emergiu uma tendência radical
tigar as memórias dos negros e negras que co- (liderada principalmente por refugiados recém-
nheci, coletar suas narrativas, desvendar suas chegados à França) que contestatava o modelo
trajetórias e patrimônio cultural. assimilacionista preconizado pelo Consistório.
Após a Segunda Guerra Mundial, a crítica ao an-
tissemitismo gradualmente vai ceder espaço à
A condição negra em contexto crítica ao colonialismo. A luta contra o racismo
francês torna-se então uma causa universal, defendida
notavelmente pela UNESCO. Pode-se levantar a
Na França, depois da irrupção da Revolução hipótese que as ciências sociais (principalmen-
Francesa em 1789 e, em seguida, com o advento te a sociologia e a antropologia) conquistaram,
da República e a abolição definitiva da escra- naquele momento, sua legitimidade intelectual
ao participarem ativamente dessa mobilização
vidão em 1848, a raça deixou de ser um objeto
geral contra o racismo. O antirracismo se torna,
direto e específico de regulamentação consti- portanto, um tema capaz de reunir os intelec-
tucional (SAADA, 2007). Desse modo, o Estado tuais republicanos e os intelectuais revolucio-
republicano francês, concebido sob o ideal de nários. Jean-Paul Sartre explica em 1956 que ‘o
direitos humanos fundamentais, igualitários e colonialismo é um sistema’, no sentido em que
a dominação econômica só pode se perpetuar
universais, integrou e uniformizou na mesma
porque é legitimada pelo racismo.2 (NOIRIEL,
categoria de cidadão, indivíduos reconhecidos
2 “C´est seulement dans le courant des années 1930 que
como homens livres, legalmente membros da la répugnance à l´égard du mot race va se généraliser
nação francesa. Ou seja, a nação republicana au sein des élites républicaines. La raison principale
tient au fait que les forces de gauche vont construire
francesa abstrata, por direito universalista e leur projet politique du rassemblement autor de l´axe
assimilacionista deveria ser cega às marcas de fédérateur que constituait alors la dénonciation de
l´antiséministe et de nazisme. La Revue Race et Ra-
origem ou às identidades sociais que distin- cisme, animée par des intellectuels de gauche entre
guissem e hierarquizassem os cidadãos con- 1937 et 1939, ilustre bien ce troisième moment dans
l´histoire de la politisation de la question raciale. Dans
cretos. Desde então, o sentido e a negação da le même temps, on constate qu´au sein des organiza-
raça e das relações étnico-raciais foi uma de- tions juives émerge une tendance radicale (animée
surtout par des réfugiés récemment arrivés en France)
terminação eminentemente política. Em todo qui conteste le modèle assimilationiste prônée par le
caso, Gérard Noiriel (2009) observa que, em- Consistoire. Après la Seconde Guerre mondiale la cri-
tique de l´antisémitisme va ceder proguessivement la
bora estivesse fora dos termos da lei constitu- place à la critique du colonialisme. La lutte contre le

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Ari Lima

2009, p. 173, tradução nossa).3  [...]. É particularmente a banalização de um


‘pensamento racial’ que, às vezes abertamen-
Dois outros momentos históricos do sécu- te, outras vezes encoberto pela religião ou pela
lo XX evidenciam a permanência da questão cultura, diferencia os indivíduos, sem seu aval,
racial como tema de debate social, político e em função da sua origem, da sua cor de pele,
jurídico assim como evidenciam o retorno da dos signos de suas vestimentas. Neste proces-
so, o próprio Estado republicano faz um jogo
problematização da identidade étnico-racial
paradoxal passando inopinadamente de um
em contexto francês. No primeiro caso, Saada
universalismo o mais dogmático a um dife-
(2007) chama atenção que nos anos 1920, Ter- rencialismo o mais controlado. Estes outros se
ceira República, um decreto, publicado em 8 posicionam no inverso da identificação racial:
de novembro de 1928 pelo Journal officiel de se reconhecem em uma experiência coletiva
la République française, determinou o estatu- que é relacionada com uma lógica preceden-
te, uma vez que a experiência compartilhada é
to francês inferior dos “mestiços” nascidos na
frequentemente uma violência do passado e do
antiga Indochina quando um dos pais era de
presente. (FASSIN e FASSIN, 2009, p. 17, tradução
suposta “raça francesa”. Em um segundo caso, nossa).4
no final dos anos 1990, atual Quinta República,
Enfim, em grande medida, em contexto
depois de vários confrontos violentos de co-
francês, “há um paradoxo na medida em que
notação racial, em regiões distintas da França
os negros são visíveis e discriminados indi-
(FASSIN e FASSIN, 2006), o debate étnico-racial
vidualmente, porém são invisibilizados en-
ganhou novo fôlego e foi instituído em torno de
quanto grupo social e como objeto de estudo
variados dilemas. Nesse momento, como uma
acadêmico” (NDIAYE, 2008, p.17). Ou são visibi-
determinação política, pesquisadores de diver-
lizados subrepticiamente como grupo social
sas áreas decidiram descrever e refletir sobre a
(imigrantes, estrangeiros, sans-papier, jovens
evidência cotidiana da raça e das relações étni-
de banlieues5), porém invisibilizados como
co-raciais no contexto social francês (WIEVIOR-
grupo social no que diz respeito à nomeação
KA, 1992; FASSIN e FASSIN, 2006; NDIAYE, 2008).
da raça e ausência de políticas públicas es-
racisme devient alors une cause universelle, défendue
notamment par l´UNESCO. On peut faire l´hypothèse pecíficas.
que les sciences sociales (notamment la sociologie et Foi desta forma que gerações de imigrantes
l´anthropologie) ont conquis à ce moment-là leur légi-
timité intellectuelle en participant activement à cette 4 [...]. C´est notamment la banalisation d´une “pensée
mobilisation générale contre le racisme. L´antiracisme raciale” qui, parfois ouvertement, et d´autres fois sous
devient alors un thème permettant de rassembler les couvert de religion ou de culture, différencie les in-
intellectuels républicains et les intellectuels révolu- dividus sans leur aval en fonction de leur origine, de
tionnaires. Jean-Paul Sartre explique en 1956 que “le leur couleur de peau, de leurs signes vestimentaires.
colonialisme est un système”, au sens où la domi- Dans ce processus, l´État républicain joue lui-même un
nation économique ne peut se perpétuer que parce jeu paradoxal en passant inopinèment de l´universa-
qu´elle est légitimée par le racisme”. lisme le plus dogmatique au différentialisme le moins
3 Curiosamente, a Organização das Nações Unidas para contrôlé. Les autres relèvent à l´inverse de l´identifi-
a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), através do cation raciale  : on se reconnaît soi-même dans une
Projeto Unesco, executado no Brasil nos anos 1950, expérience collective qui n´est pas sans lien avec la
e do coordenador desse projeto, o antropólogo suí- logique précédente, puisque l´éxpérience partagée est
ço-francês Alfred Métraux, não referendou o argumen- souvent celle d´une violence, passée et présente. 
to de que havia desigualdade racial no Brasil assim 5 Banlieues são regiões que compreendem a grande
como não referendou o argumento de que a desigual- Paris, porém estão fora da Paris intramuros. Em dire-
dade de classe e a dominação econômica eram legiti- ção norte, costumam possuir uma qualidade de vida
madas e perpetuadas pelo racismo ao modo brasileiro mais baixa do que em Paris. Do mesmo modo, no que
(GUIMARÃES, 1999; LIMA, 2001). Ou seja, a tradição do diz respeito à composição étnico-racial da população,
pensamento sociológico e antropológico francês pare- em direção norte, se assemelham ao subúrbio ou à
ce ter sido menos sensível, menos comprometida po- periferia das grandes cidades brasileiras. Do ponto
liticamente ou menos apurada metodologicamente no de vista administrativo e geográfico, ao sul e ao norte
que diz respeito à subordinação imposta aos negros de Paris, os banlieues equivalem ao que se chama de
descendentes de ex-escravos no Brasil. grande Salvador ou grande São Paulo no Brasil.

Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 627-647, maio/ago. 2020 635
Narrativas e memórias sobre a condição negra em Paris

experimentaram humilhações, mecanismos de 153, tradução nossa)6


exclusão, tratamentos desfavoráveis e atitu- Para definir o que seja a “raça” nesse con-
des de desprezo sem que a discriminação ra- texto francês particular, recorro a Ndiaye
cial fosse nomeada. Por um lado, muitos deles (2006), ao afirmar que:
tinham consciência da sua ilegitimidade social
Se não existe uma  ‘natureza negra’, é possível
e da precariedade da situação em que viviam: constatar uma ‘condição negra’, pela qual se as-
não era pertinente, nesse caso, se lamentar. sinala que homens e mulheres, nolens volens,
Por outro lado, é menos penoso pensar que compartilham a experiência de serem consi-
as evidências de discriminação racial com as derados negros em um dado momento de uma
determinada sociedade. Isto diz respeito às
quais nos confrontamos se devam à condição
pessoas que foram historicamente construídas
de estrangeiro e não à constatação de que as como negras, por um lento processo de vali-
mesmas estavam relacionadas à cor da pele e dação religiosa, científica, intelectual da ‘raça’
aos preconceitos que esta cor suscita: a des- negra, processo este de tal modo arraigado
valorização é deste modo acionada exterior- nas sociedades modernas que ele permaneceu
praticamente imutável mesmo quando a racia-
mente, não é constitutiva do indivíduo dis-
lização foi deslegitimada. A categoria ‘negro’ é,
criminado. Seguindo uma lógica semelhante, portanto primeiro uma heteroidentificação que
os estrangeiros em situação irregular, em sua se apóia na percepção de saliências fenomêni-
maioria africanos, constroem hoje um ‘campo cas variáveis no tempo e no espaço (pigmen-
de experiência’ através da categoria sans-pa- tação da pele, aparência corporal e de vesti-
piers (sem documentação para permanência e 6 C´est ainsi que des générations d´immigrés ont pu su-
trabalho) e um ‘horizonte de expectativa’ em bir des humiliations, des formes d´exclusion, des trai-
tements de défaveur et des attitudes de mépris sans
torno da obtenção de visto de permanência e que soit nommée la discrimination raciale. D´une part,
trabalho. Quando alguns deles obtêm este vis- beaucoup d´entre eux avaient la conscience de leur
illégitimité sociale et de la précarité de leur situation:
to, eles passam por uma fase de euforia e em il ne fallait pas, en plus, se plaindre. Mais, d´autre
seguida entram em um período de decepção part, il est moins pénible de penser que les épreuves
auxquelles on est confronté tiennent à son extranéi-
ao constatarem que para obter um emprego té que de les découvrir liées à sa couleur de peau et
aux préjugés qui s´y rattachent: la dévalorisation peut
ou uma moradia ou simplesmente nas rela-
ainsi démeurer extérieur et non constitutive de soi.
ções sociais cotidianas, as dificuldades são Selon une logique semblable, les étrangers en situa-
tion irrégulière, pour la plupart africains, construisent
quase as mesmas: portanto, não é apenas a aujourd´hui leur « champ d´ expérience » à travers la
ausência de um visto que bloqueia a inserção catégorie de sans-papier et leur « horizon d´attente
» autour de l´obtention d´un titre de séjour. Lorsque
social, é o que estes sujeitos representam e, certains d´entre eux finissent par se voir délivrer ce
sobretudo o que eles são que é rejeitado pela document, ils traversent d´abord une phase d´eupho-
rie puis entrent rapidement dans une période de dé-
sociedade que acabou de regularizá-los. Mui- ception en constatant que, pour avoir un emploi ou
tos imigrantes da primeira geração preferem un logement ou tout simplement dans leur expérience
quotidienne des relations sociales, les choses sont
se poupar desta descoberta dolorosa renun- presques aussi difficiles qu´avant : ce n´était donc pas
ciando à obtenção da nacionalidade francesa, seulement l´absence de titre de séjour qui les péna-
lisait, c´est ce qu´ils représentent et tout simplement
transferindo aos seus filhos a esperança da in- ce qu´ils sont qui est rejeté par la société qui vient
tegração prometida. São seus filhos - majorita- pourtant de les régulariser. [...]. Cette douloureuse dé-
couverte, beaucoup d´immigrés de la génération pré-
riamente jovens de banlieues - franceses nas- cédente ont préféré se l´épargner en renonçant à la
nationalité française et en reportant sur leurs enfants
cidos na França e, portanto, em princípio não
l´espoir de l´intégration promise. Ce sont ces derniers
distinguíveis por seu status jurídico-adminis- qui, Français nés en France, donc en principe non dif-
férenciable par leur statut juridico-administratif, ont
trativo, que vivem a experiência, propriamente fait, à proprement parler, l´expérience des discrimina-
dita, da discriminação racial. (FASSIN, 2009, p. tions raciales.

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Ari Lima

menta, língua, acento, etc.). (NDIAYE, 2006, p. 38, limpos e caros e a concentração de negros e
tradução nossa)7 magrebinos nos arrondissements e quartiers
A meu ver, a “condição negra”, compreen- sujos e empobrecidos.
dida nos termos propostos por Ndiaye (2006), Segundo os dados oficiais do Institut Na-
pode ser identificada e descrita em diversas tional de la Statistique et des Études Écono-
situações cotidianas. Por exemplo, no ambien- miques (INSEE) publicados em 2020, o con-
te de trabalho quando os estigmas raciais de- junto da população francesa é de 66.992.699
terminam a qualidade das relações entre os pessoas. Os estrangeiros representam 6,7 %
trabalhadores, determinam as ocupações atri- desse conjunto, os imigrantes 9,3%, ou seja,
buídas a trabalhadores brancos e negros ou respectivamente 4,4 milhões de estrangeiros
bloqueiam as possibilidades de ascensão na e 6,2 milhões de imigrantes. 45% dos imigran-
carreira (BATAILLE, 1999). tes nasceram em um país africano, cerca de
Bataille (1999) chega a afirmar que no am- 2,7 milhões de pessoas. As pessoas africanas
biente de trabalho industrial reina uma “lei do nascidas na região Magreb representam 29%
silêncio” no que diz respeito ao tema racismo. do conjunto de imigrantes, cerca de 1.802.000
Ou seja, o racismo, neste caso, é um tema tabu, pessoas. A imigração de africanos subsaharia-
impossível de ser abordado, embora ele este- nos é mais recente e concerne, sobretudo, os
ja presente nas conversas informais e também países anteriormente colonizados pela França.
na organização do trabalho. Eu também obser- Nesse caso, representam 15,4% do conjunto de
vei esta mesma “condição negra” no tratamen- imigrantes, cerca de 952.000 pessoas.
to atribuído a negros e brancos nos acessos a O total da população de Paris intramuros8
estabelecimentos de consumo, uma vez que é de 2.210.875 pessoas. Infelizmente, não são
muito mais frequentemente jovens negros são divulgados dados oficiais sobre negros imi-
considerados suspeitos, mantidos sob obser- grantes, estrangeiros ou nascidos na França.
vação e revistados por seguranças, quase sem- Isso torna impossível quantificar o nível de in-
pre homens negros ou não brancos de origem tegração e exclusão dos negros em Paris. De
Magreb – ou seja, oriundos da Argélia, da Tu- qualquer sorte, na Paris intramuros, do ponto
nísia ou do Marrocos, na entrada de estabe- de vista qualitativo, observei que os negros es-
lecimentos comerciais. Também observei sua tão hiper-representados nas posições sociais
manifestação na ocupação espacial da cidade mais baixas e subrepresentados nas posições
de Paris ao constatar a concentração de bran- sociais mais altas.
cos nos arrondissements e quartiers elegantes,
7 S´il n´existe pas de “nature noire”, il est possible d´ob- De onde você vem? Porque
server une “condition noire”, par laquelle on signale
que des hommes et des femmes ont, nolens volens, lembrar e o que não se pode
en partage d´être considérés comme noirs à un mo-
ment donné et dans une société donnée. C´est faire
esquecer
référence à des personnes qui ont été historiquement
construites comme noires, par un lent processus de Como se sabe e afirmei anteriormente, Paris
validation religieuse, scientifique, intellectuelle de é uma cidade cosmopolita onde podemos en-
la “race” noire, processus si enchâssé dans les so-
ciétes modernes qu´il est resté à peu près en place, 8 Desde a Antiguidade, a cidade de Paris foi pouco a pou-
lors même que la racialisation a été délégitimée. La co sendo construída cercada por muros ou portas de
catégorie “noir” est donc d´abord une hétéro-iden- modo a melhor se proteger de inimigos e invasões. Hoje
tification s´appuyant sur la perception de saillances em dia, as referências, os destroços ou marcos dos an-
phénoménales variables dans le temps et l´espace tigos muros ou portas restringem o espaço físico ocu-
(pigmentation de la peau, apparence corporelle et pado pelos 20 arrondissements que definem os limites
vestimentaire, langue, accent, etc.). territoriais do que se chama de “Paris intramuros”.

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Narrativas e memórias sobre a condição negra em Paris

contrar residentes e turistas do mundo intei- região francesa ou em algum dos DOMs. Por
ro ou oriundos das mais variadas regiões da conta disso, ao iniciar a conversa com sujeitos
França hexagonal ou dos DOMs. Ou seja, em negros africanos, franceses descendentes de
Paris, até mesmo entre os nascidos franceses, africanos escravizados nos DOM´s ou franceses
há variação de origem, cultural e de acento filhos de africanos imigrantes também lhes
linguístico. Logo há uma tendência forte de perguntei: “De onde você/o senhor/a senho-
estranhamento generalizado de uns em rela- ra vem?” e, em seguida, “O que lhe trouxe à
ção aos outros, mas também de anonimato Paris?”. Desta forma, pretendia invocar a fala
ou apagamento das diferenças que particula- sobre um desconforto cotidiano, mas tam-
rizam nacionalidades, origens regionais e até bém distinguir e tangenciar trajetórias negras,
mesmo origem étnico-racial, o que favorece memórias, narrativas e processos identitários.
um sentimento de liberdade de expressão e Nadine foi minha primeira interlocutora.
pensamento que experimentei e que é men- Na ocasião em que nos conhecemos, ela tin-
cionado pelo escritor James Baldwin no filme ha 57 anos. Jornalista, trabalhava em um sis-
Eu não sou seu negro (PECK, 2017), ao comen- tema de rádio francês. Nasceu na França, de
tar o período que viveu em Paris. Apesar disso, pai negro, africano da Costa do Marfim e mãe
até mesmo em Paris, do ponto de vista racial, branca, francesa. Fez uma parte dos estudos
a França é definida e vivida como se fosse um em território francês e concluiu sua formação
país fundamentalmente branco. Logo, a per- em jornalismo no Camarões. Ela trabalhou na
gunta “De onde você vem?”9 costuma suscitar Costa do Marfim como jornalista. É casada com
conotações diferentes – ou seja, suscita me- um negro africano com o qual tem dois filhos
mórias, narrativas, identidades e patrimônios adolescentes. Inicialmente desconfiada, ques-
culturais inusitados, se é feita a um francês tionou meu interesse de pesquisa, duvidou
branco, a um francês negro, a um imigrante ou da propriedade do uso do termo “raça” para
estrangeiro branco, a um imigrante ou estran- descrever sua trajetória pessoal e meu pró-
geiro negro ou não branco. prio contexto de investigação. Em um segundo
Do ponto de vista dos negros e negras que momento, mais relaxada, sua narrativa evocou
conheci durante esta pesquisa, a recorrência momentos dramáticos de sua trajetória pes-
de tal pergunta em suas interações sociais co- soal. Como se ficcionasse suas lembranças, fa-
loca em dúvida sua nacionalidade assim como lou de si mesma em primeira e terceira pessoa.
pretende denunciar sua condição racial mes- Evocou a si mesma de maneira distanciada e
mo quando se tratam de negros ou negras nas- comungou com outros negros e negras aspec-
cidos e educados em Paris, em alguma outra tos da sua própria trajetória racializada. Em
resumo, a memória da sua condição racial é
9 Quando se pergunta em francês “D´où tu viens?”, os
interlocutores têm algum grau de proximidade. Quan- marcada pelo sentimento confesso de violên-
do se pergunta “D´ où venez vous?”, os interlocutores cia simbólica, pelo sentimento de incomunica-
se desconhecem, se conhecem, mas não têm relação
de intimidade ou se conhecem, porém estabelecem bilidade e de não pertencimento sócio-histó-
uma relação de distanciamento um em relação ao ou- rico ao Estado francês, pela afirmação de uma
tro, por exemplo, patrão e empregado no ambiente de
trabalho, professor e aluno em sala de aula. Eu optei vida tida como em estado de urgência. Ela me
por condensar as duas formas de expressão na versão contou:
“De onde você vem?” já que a etiqueta do tratamento
pessoal no português do Brasil é menos rígida do que
A palavra ‘raça’ me incomoda. Não sei ao cer-
aquela francesa e até mesmo em situações formais os
interlocutores tendem a promover intimidade ainda to o que esta palavra significa, o que ela im-
que não evitem o distanciamento social. plica. Pessoalmente, eu tenho uma trajetória

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Ari Lima

particular. Na França, existe o negro, mas existe França até a idade de 18 anos. No meu percurso,
também o mestiço. No meu caso, eu sou uma meu pai me reconheceu, mas ele não me criou.
mulher mestiça. Quando um mestiço nasce Foi minha mãe quem me criou, eu via de tem-
aqui, ele é considerado um negro. Quando ele po em tempo meu pai. Quando eu cheguei aos
nasce em território africano, ele é considerado 18 anos, eu disse: ‘bom, eu quero conhecer o
um branco. Logo, a ‘questão racial’, ela é dupla. continente africano’. Veja, quando você é negro,
Aqui, na França, nós temos dificuldade de nos de qualquer modo, você tem sempre a neces-
posicionar. As pessoas observam a cor da sua sidade de saber de onde você vem. Qual é sua
pele, lhe colocam dentro de um grupo, elas lhe identidade? De fato, quando eu era criança, mi-
veem como um negro e você é negro. Em se- nha mãe não me dizia que eu era uma menina
guida, quando você explica de onde você vem, negra. Eu não rejeito meu lado branco, é minha
elas mudam um pouco o modo como lhe vê. A cultura, mas eu me defino como negra e tenho
primeira reação, elas perguntam sempre: ‘de orgulho disso. Por outro lado, aqui na França,
onde você vem?’. Se você diz que vem de uma existe muita injustiça e os negros não ocupam o
cidade francesa, localizada a 150 km de Paris, espaço social que eles merecem. No meio pro-
as pessoas insistem, ‘não, de onde você vem?’. fissional um negro deve fazer duas vezes mais
Ou seja, elas não aceitam seu lado branco. Eu que um branco. E mesmo quando você ocupa
digo, ‘bom, eu sou da Costa do Marfim’. Eu sou um posto de liderança, você não pode errar. Se
sempre obrigada a me posicionar em relação você erra, as pessoas vão lhe lembrar de sua
ao continente negro. Minha cultura ocidental origem negra.
branca não lhes interessa ou então vai lhes
[...]. No meu caso, quando eu estive no conti-
interessar quando eles decidem que a mesma
nente africano, eu era considerada como uma
lhes interessa. Eles pegam de mim o que lhes
mulher branca, para mim era muito violento
interessa. Eu não posso jamais me posicionar
isso. E eu tentava todo o tempo dizer que ‘eu
por inteira, meu lado branco, meu lado negro.
não sou branca, eu sou negra’. De fato, eu es-
Elas lhe exigem sempre que faça uma escolha.
tou todo o tempo em conflito tanto de um lado
E isto é muito complicado no cotidiano. Eu saio
quanto de outro. No continente africano, eu sou
na rua para fazer compras e as pessoas me per-
vista como uma mulher branca e é justamente
guntam: ‘de onde você vem?’. As pessoas me to-
esse meu lado que atrai os africanos. E desta
mam com uma mulher das Antilhas, porque eu
forma, eles não permitem que me aproxime e
lembro uma criola das Antilhas. ‘Ah, você vem
compreenda minha cultura africana. Eu tenho
da Martinica ou de Guadalupe’. As pessoas co-
que fazer um esforço para me aproximar, com-
meçam a falar criolo comigo e eu não enten-
preender. É doloroso isso. Ao mesmo tempo,
do o que dizem. Esta é uma atitude agressiva
quando eu estou lá eu me sinto apaziguada, eu
em relação aos nativos das Antilhas, porque
encontro meu equilíbrio, eu me sinto bem em
elas pensam que eu renego meu lado criolo.
qualquer país africano. Eu tenho vontade de cir-
Elas também me tomam como uma africana do
cular por todo o continente. Existem diferenças
norte, uma marroquina, porque eu lembro uma
entre um país e outro, uma cultura e outra, mas
mulher marroquina. E em seguida, quando eu
eu não vejo a diferença, eu me sinto africana.
digo: ‘não, eu sou da Costa do Marfim’. Elas di-
Eu acho que é minha condição mestiça que pro-
zem, ‘não, é bizarro’ e depois elas completam,
voca isso. Os africanos não se sentem negros
‘ah, você é uma mestiça’. Veja o processo que eu
como nos sentimos aqui. Os africanos que es-
devo passar cotidianamente, é fatigante. Às ve-
tão no continente, em grande maioria, sonham
zes, eu não respondo, às vezes, eu sou um pou-
sempre vir para o Ocidente. Eu acredito que
co agressiva. É um processo de não reconheci-
por uma razão econômica. Eles acreditam que
mento de meu pertencimento à nação francesa.
é menos difícil viver aqui como negro. Ademais,
Elas lhe exigem todo o tempo se posicionar.
os africanos que retornam ao continente, eles
No meu caso, quando eu me posiciono, eu me nunca falam das dificuldades enfrentadas aqui.
vejo como uma mulher negra. Eu não sei por Os africanos que estão no continente, eles não
quê. Embora eu tenha nascido e crescido na conseguem compreender que aqui nós somos

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Narrativas e memórias sobre a condição negra em Paris

vítimas de racismo, de discriminação, que é di- sabia que era bailarina e coreógrafa. Logo, a
fícil obter uma estabilidade social e econômica. fim de lhe deixar mais à vontade, inicialmen-
Eles pensam que a partir do momento que você
te, falei um pouco sobre o universo da dança
vai à escola, que você tem um diploma, tudo se
torna fácil. De qualquer maneira, a trajetória negra na Bahia, sobre a influência nessa dança
dos africanos é muito particular e sempre liga- de uma linguagem corporal transmitida pelo
da à escravidão, à colonização. Os negros têm modo de vida e cultos de africanos escraviza-
sido permanentemente expropriados. Para sair dos. Ao final da nossa conversa, ela demons-
desta condição, eu diria que há um trabalho de
trou interesse em conhecer e dançar na Bahia
nível psicanalítico a ser feito. [...]. Os france-
ses aqui todo o tempo reclamam, nunca estão
tanto quanto de ler o resultado do meu traba-
satisfeitos com nada, eles são problemáticos, lho. O relato de Joséphine sugere uma sequên-
eles são deprimidos. Eles vão ao psicanalista. cia de frustrações diretamente relacionada à
Nós não somos assim. E veja, quando eu digo sua identidade racial e condição de gênero.
isso, eu me posiciono como uma africana. Nós
Ou seja, a frustração de não ser reconhecida
não vamos ao psicanalista, porque não temos
profissionalmente num mercado de trabalho
tempo para isso. Nós vivemos em uma condi-
ção permanente de urgência. Para nós, os valo- controlado por homens brancos, a frustração
res fundamentais estão longe daqui. Em África, de um primeiro casamento fracassado com um
nunca estamos sós.10 ex-marido negro que preferiu se adequar ao
sistema de dominação branco, a frustração de
Joséphine foi minha segunda interlocuto-
se sentir excluída, objetificada e infantilizada
ra. Na ocasião do nosso encontro, ela tinha 45
como mulher negra. Ela reconhece a particu-
anos. Nasceu no DOM da Martinica, nas Anti-
laridade e privilégio no que diz respeito ao
lhas, porém cresceu na Costa do Marfim. Fez
estudos em Artes visuais na Martinica e es- seu status jurídico por ter nascido e crescido
tudos de Design Gráfico em Paris. Casou-se na Martinica e ter tido desde sempre naciona-
e depois da separação de um homem negro lidade francesa, mas prefere acentuar as ex-
martinicano, permaneceu radicada em Paris. periências sociais que lhe aproximam de um
Desde então, passaram-se 22 anos. Apesar de sujeito negro africano ou filho de imigrantes
ser diplomada e profissionalmente qualifica- africanos. Ela me contou:
da, nunca se estabeleceu no mercado das ar- Eu venho da Martinica, mas eu cresci na Cos-
tes visuais ou do design na França hexagonal. ta do Marfim. Minha mãe partiu para lá a fim
Curiosamente, alguns outros interlocutores de encontrar sua irmã, casada com um francês
branco que vivia neste país. O marido de minha
diplomados com os quais conversei revelaram
tia era um francês branco enviado pelo Estado
dificuldade semelhante. Na ocasião do nosso
francês para trabalhar com cooperação, um ex-
encontro, atuava profissionalmente como bai- patriado. Era o caso de franceses brancos que
larina e coreógrafa. No dia marcado para nos- partiam para as colônias francesas e lá traba-
so encontro, ela chegou atrasada vinda de um lhavam como funcionários de empresas ou da
compromisso profissional anterior e saiu às administração colonial ganhando o mesmo sa-
lário que eles receberiam na França. No estran-
pressas para outro compromisso profissional.
geiro, eles tinham uma qualidade de vida que
Joséphine tinha um olhar triste, curioso e ter-
eles jamais teriam em território francês com
no. Seu timbre de voz era doce, mas também este mesmo salário. E os antilhanos podiam se
firme embora suscitasse certo desânimo. Eu já beneficiar disso porque eles já tinham a nacio-
nalidade francesa. E assim minha mãe partiu
10 Este foi o único depoimento concedido em meu ende-
reço pessoal no 12º Arrondissement de Paris em 30 de para a Costa do Marfim onde eu vivi dos três
abril de 2019. anos e meio até os dezessete anos. Em seguida,

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Ari Lima

eu retornei para a Martinica com meu pai. Eu é que eles são brancos e eu sou negra. Além
fui aprovada em meus estudos preliminares e disso, eu trago um aspecto muito particular
logo depois eu estudei Artes Plásticas por mais em meu trabalho. Bom, eu cresci na Costa do
dois anos na Martinica. Com 23 anos, eu vim Marfim, concluí uma parte dos meus estudos na
para França com meu marido a fim de concluir Martinica e por conta disso, eu reivindico mi-
meus estudos em Design Gráfico. Eu estudei de- nha cultura afrodescendente. As ferramentas
sign dos 23 aos 27 anos. Em Paris, meu ex-mari- de criação são muito marcadas culturalmente.
do entrou numa carreira na área comercial. Ele Eu acredito que eu não encontrei um emprego
era bastante ambicioso e aceitou um cargo na porque meu trabalho é muito marcado cultural-
Guiana Francesa. Eu o acompanhei, mas logo mente, muito afro e porque eu sou uma mulher
depois nos separamos. Ao final de um ano, eu negra. Além disso, várias vezes, pessoas racia-
voltei para a França em busca de trabalho como lizadas me disseram que não deveria propor
designer gráfica. Era o ano de 1995. Eu jamais tal tipo de trabalho, que desta forma eu esta-
encontrei trabalho como designer gráfica. Na- ria fora do mercado convencional. Atualmente,
quela época, já na minha escola em um con- existem profissionais brancos que apresentam
junto de 400 alunos, havia quatro pessoas não uma concepção de trabalho muito próxima à
brancas. Um tunisiano, um africano, um mestiço minha. Naquela época, isto não ocorria. A dife-
de Guadalupe e eu. Por outro lado, eu encontrei rença entre meu trabalho e o das pessoas bran-
vez ou outra, locais nos quais eu pude realizar cas é que elas representam a cultura negra de
meu trabalho de designer, mas nunca fui paga uma perspectiva bastante exótica. Há sempre
pelo que eu produzi. Eu decidi então voltar a palmeiras, sol, uma mulher de maiô, desenhos
dançar. Eu fiz dança na Martinica quando eu era de rostos negros. No meu trabalho, estas ima-
pequena. Quando me viam dançar, as pessoas gens podem estar presentes, mas eu crio a par-
me aconselhavam a fazer um curso de dança, tir da memória da ambiência que eu conheci e
houve mesmo colegas bailarinos que me enco- vivi desde que eu era criança. As pessoas bran-
rajaram a desenvolver uma carreira profissional cas, elas não têm esta memória e representam
na dança. O tempo passava, eu não encontrava a partir daquelas imagens que encontraram em
trabalho como designer e em um determina- livros ou que são disseminadas pela TV. É uma
do momento a dança aconteceu. Eu trabalhei perspectiva colonial.
bastante na dança, eu sou bailarina profissio- Ademais, para as mulheres negras, é difícil en-
nal desde 2003. A partir de 2012, eu comecei a contrar trabalho em Paris se ela não tem docu-
produzir minhas próprias peças coreográficas. mentação, se ela é gorda, se ela tem um acento,
se ela não é bonita. Se elas se aproximam de
Quando eu procurava trabalho como designer
um padrão ocidental e são muito bonitas, ele-
gráfica, os potenciais empregadores me diziam
gantes, elas são recrutadas para o trabalho em
sempre que meu trabalho era excelente, mui-
escritório ou como vendedoras e são usadas
to bonito, porém eles afirmavam não saber o
como marketing de inclusão. Para as mulheres
que fazer com aquilo que produzia, considera-
negras, as coisas são mais difíceis, nós estamos
do bastante artístico. Eu trabalhava sozinha. Eu
dentro de um país misógino e racista. Na Fran-
observava a distribuição de tarefas nas agên-
ça, a imagem do negro é muito animalizada,
cias de design e comunicação e, de fato, eu
erotizada.
desempenhava o trabalho de quatro pessoas,
apesar de ter, sobretudo, o perfil de diretora de No meu caso, na condição de artista, até hoje,
arte. Eu fazia o trabalho do diretor de arte, do eu tenho a impressão que sou sempre uma ini-
designer, do revisor e de preparação de mate- ciante. É necessário todo o tempo provar minha
rial antes do envio para a impressão. Eles não competência. Eu vivo na França há 22 anos. Des-
sabiam onde me encaixar e por fim diziam que de o início da minha estadia, eu convivi, sobre-
meu trabalho não era profissional, embora eu tudo com pessoas racializadas, não brancas. Eu
tivesse feito uma escola, tivesse obtido um di- conheci antes pessoas brancas, mas atualmen-
ploma com louvor e a maioria de meus ex-cole- te não tenho mais nenhum amigo branco. Eu
gas estivesse inserida no mercado. A diferença tenho dificuldade em me definir como francesa.

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Narrativas e memórias sobre a condição negra em Paris

Bom, do ponto de vista da nacionalidade eu sou Léon atendeu ao meu pedido para um se-
francesa, porém do ponto de vista da minha gundo encontro e permitiu que utilizasse em
identidade eu me sinto martinicana e da Cos-
meu trabalho a conversa que tivemos, porém
ta do Marfim. Uma realidade criada pela pró-
pria França, pela colonização francesa. Eu não exigiu que lhe enviasse um questionário o
sei como eu me definiria se tivesse crescido em qual me devolveria respondido por e-mail até
outro território não colonizado. Foi na Martinica o final de outubro de 2019. Em sua opinião, as
e na Costa do Marfim que adquiri todo o meu respostas que daria em um questionário se-
repertório de educação, em relação à condição
riam mais completas e evitaria que omitisse
humana, ao relacionamento interpessoal, de
realidade, estético. No que diz respeito ao meu
ou esquecesse de mencionar dados importan-
repertório estético, ele se modificou um pouco tes. Tentei explicar, contudo pareceu não ter
uma vez que são já 22 anos que eu vivo aqui. compreendido, que para mim as omissões, os
De qualquer forma, no meu trabalho eu tenho esquecimentos, sua variação de humor e emo-
a pretensão de me dirigir a pessoas como eu.
ção, ao longo da nossa conversa, eram muito
Quer dizer, minha identidade é múltipla, mas
importantes. Justificou sua exigência atento
ela é, sobretudo, afrodescendente, majorita-
riamente afrodescendente. Eu me defino como àquilo que do seu ponto de vista atribuiria
uma pessoa afrodescendente, híbrida, formada mais objetividade à minha investigação. Pes-
por elementos culturais, estéticos que são ori- soalmente, compreendi sua exigência como
ginários das Antilhas e do leste da África.11
uma marca de uma objetividade científica eu-
Léon foi meu terceiro interlocutor. Na oca- rocêntrica que a perspectiva metodológica do
sião em que nos encontramos, ele tinha 32 anos. meu trabalho pretendeu contornar. De qual-
Era estudante universitário de uma universida- quer modo, ele não respondeu ao meu ques-
de pública francesa. No ano de 2019, concluiu tionário, acredito que jamais o fará. Qualifica-
em Paris um mestrado em História Medieval. do e prestigiado com um diploma universitário
Atualmente, está desenvolvendo um projeto de europeu, Léon pretendia voltar e servir ao seu
doutorado sobre a História do Tráfico Negreiro país ao terminar seus estudos. Sua estadia em
no Gabão na mesma universidade. Ele é soltei- Paris pareceu ter ampliado sua autoconsciên-
ro, sem filhos. É um negro de pequena estatu- cia como negro, embora destacasse antes de
ra, corajoso, muito falante, inteligente, muito tudo sua condição de africano. Sentiu-se des-
orgulhoso em relação a si mesmo, ao seu país prezado e isolado no contexto acadêmico. Do
de origem e ao continente africano. Ele vivia no mesmo modo, indicou um desencanto em re-
centro de Paris, próximo à Gare de Lyon, em um lação à sociedade francesa e um desconforto
quarto de 9 m². Sua sobrevivência era garantida no que diz respeito à resposta dos africanos à
por uma bolsa de estudos oferecida pelo gover- herança colonial, à depredação econômica do
no do Gabão. Eu o conheci na Livraria Prèsence Ocidente e de seus líderes políticos controver-
Africaine. Léon observou que escolhia livros de sos. Embora tivesse curiosidade sobre o Bra-
Aimé Cesaire, Edouard Glissant, Du Bois, Achille sil, conhecia muito pouco sobre sua realidade
Mbembe, aproximou-se de mim e começamos social e muito menos ainda sobre nuances da
a conversar sobre esses autores. Ao sairmos da questão racial brasileira. Ele me contou:
livraria, caminhamos juntos em direção ao me-
No meu caso, eu vim para a França para conti-
trô e continuamos a conversar sobre a questão nuar meus estudos. Eu vim para cá para realizar
racial em Paris, em África e no Brasil. um estudo sobre a Europa medieval, em segui-
11 Depoimento concedido em 6 de maio de 2019 em um da eu pretendo desenvolver um estudo sobre
restaurante no 12º Arrondissement de Paris. a escravidão negra. Aqui, as pessoas não lhe

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olham dentro dos olhos, eles não se interessam na universidade, toda vez que eu tentava discu-
por você, por aquilo que você é. Até mesmo na tir um pouco com os professores e aprofundar
universidade quando você se aproxima de um uma questão, eles diziam: ‘Ah, não, não, é difícil
professor para colocar questões pertinentes, para você!’. Para os outros estudantes é fácil,
ele não se interessa por você. Eu tenho vivido para mim tudo é considerado difícil. Às vezes,
isso aqui. Na universidade, o que os alunos acontece dos colegas me ligarem e pedirem mi-
brancos fazem pela metade, você deve fazer o nhas anotações de aula, um livro emprestado,
dobro ou o triplo para ser aprovado com uma uma referência e no final, eles conseguem uma
nota mais baixa. Eu tenho potencial para atingir nota maior que a minha.
a menção excelente, mas nunca a obtenho dos
professores. Tudo é feito para lhe desencorajar Os franceses acusam os africanos de comu-
a continuar. As ciências humanas não são como nitarismo. Na verdade, o comunitarismo está
a matemática. O professor lhe dá uma nota de ligado à rejeição que os africanos sofrem. Eu,
acordo ao modo como reage ao seu texto. Ele pessoalmente, ao chegar à universidade, eu fiz
observa o que o estudante escreve, se é bem esforço para me integrar. O fato mesmo de pro-
escrito, se os verbos são bem conjugados, se por estudar a história da França Medieval era
as frases estão devidamente ajustadas, se os já um esforço de integração. Eu fiz um esforço
autores esperados são citados e qual o status de ir até o outro. Eu fiz a escolha de me afastar
do estudante. Ele vai dizer