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Capítulo XXII

Aspectos Clínicos e Metapsicológicos da


Regressão no Contexto Analítico
(1954)

OESTUDO do lugar da regressão no trabalho analítico é uma das tarefas que


Freud deixou a nosso cargo, e creio que a nossa Sociedade encontra-se em
condições de realizá-la. Minha impressão baseia-se no fato de que freqüen-
temente são apresentados à Sociedade trabalhos contendo materiais relevan-
tes a esse tema. Geralmente a atenção não está voltada especificamente a
esse aspecto do nosso trabalho, ou então refere-se a ele casualmente sob o
disfarce da faceta intuitiva ou 'artística' da prática psicanalítica.
A questão da regressão é uma das que se fizeram presentes em meu tra-
balho clinico ao longo dos últimos doze anos. Obviamente, trata-se de um
assunto amplo demais para que eu possa apresentá-lo integralmente aqui e
agora. Selecionarei, portanto, aqueles aspectos que a meu ver dariam início
aos debates de um modo bastante produtivo.
A análise não consiste apenas no exercicio de uma técnica. E algo que
nos tornamos capazes de fazer quando alcançamos um certo estágio na aqui-
sição da técnica básica. Aquilo que passamos a poder fazer é cooperar como
paciente no seguimento de um processo, processo este que em cada paciente
possui o seu próprio ritmo e caminha no seu próprio rumo. Todos os aspec
tos importantes desse processo originam-se no paciente, e não em nós en-
quanto analistas.
Tenhamos em mente, portanto, tão claramente quanto possível, a dife-
rença entre a técnica earealização de um tratamento. E possível realizar um

Trabalho apresentado à British Psycho-Analytical Society em 17 de março de 1954. Publicado


no Int. J. Psycho-Anal., vol. XXXVI, 1955.
PSICANÁLISE
PEDIATRIA A 375
DA

tamento possuindo apenas uma técnica limitada, e é possivel, de posse de


tratar

uma
cnica muito sofisticada, fracassar completamente.
Tenhamos em mente, também, que há métodos legitimos de seleção de
as05. permitindo que se evite o confronto com aspectos da natureza humana,
ouais nos levariam para além do alcance do nosso cquipamento técnico.
A seleção de casos implica em classificação. Costumo dividir os casos
em
tres categorias distintas. Primeiro, há os pacientes que funcionam em
termos de pessoa inteira, cujas dificuldades localizam-se no reino dos rela-
cionamentos interpessoais. A técnica para o tratamento desses pacientes faz
parte da psicanálise desenvolvida por Freud no início do século.
Segundo, os pacientes nos quais a personalidade recém-começou a inte-
erar-se e a tornar-se algo com o qual se pode contar. De fato, é possível dizer
que a análise tem a ver com esses primeiros momentos vinculados-e ime-
diata e inerentemente subseqüentesnão só à aquisiçãodostatus de unida-
de mas também à junção do amor e do ódio e ao reconhecimento incipiente
da dependencia. Aqui se trata da análise do estágio do concernimento, e do
que se tomou conhecido como a 'posição depressiva'. Estes pacientes re
querem uma análise do estado de espírito. A técnica para este tipo de traba-
lho não difere daquela adequada aos pacientes da primeira categoria. No
entanto, surgem aqui novos problemas de manejo, devidos ao espectro mais
amplo do material clínico abordado. Do ponto de vista aqui adotado, o ele-
mento importante é a sobrevivência do analista na condição de fator dinà-
mico.
No terceiro grupo incluo todos aqueles pacientes cuja análise deverá
lidar com os estágios iniciais do desenvolvimento emocional, remota e
imediatamente anteriores ao estabelecimento da personalidade como uma
entidade, e anteriores à aquisição do status de unidade em termos de espa-
ço-tempo. A estrutura pessoal não está ainda solidamente integrada. A res-
peto desse terceiro grupo, a ênfase recai mais freqüentemente sobre o
dnejo, e por vezes passam-se longos períodos em que o trabalho analítico
normal deve ser deixado de lado, o manejo ocupando a totalidade do espaço.
Recapitulando em termos do ambicnte, podemos dizer que no primeiro
Srupo estamos lidando com pacientes que passam a ter dificuldades no curso

hormal de sua vida em familia, sendo que esta existia no período anteriorà
da iniciais
i ,e havendo um desenvolvimento satisfatório nos estágios onde
l41d, Na segunda
categoria temos a análise da posição depressiva,
lidam
Com o relacionamento mãe-bebê especialmente em torno do mo-
ner situa-
que o termo desmame passa a ter sentido. A m e sustenta a
Cãn
emocional
LEmpo. Na terceira categoria estará o desenvolvimerto
376 D. W. WINNICOIT

primitivo, no qual é necessário que a mãe esteja segurando concretamente a


criança.
Nesta última categoria encontra-se uma das minhas pacientes, que tal-
vez tenha sido quem mais me ensinou sobre regressão. Em outra ocasião po-
derei fazer um relato completo desse tratamento, mas neste momento sou
obrigado a simplesmente assinalar que ao longo do mesmo tive a experiên-
cia de permitir que uma regressão fosse até o fim da linha, e de observar as
conseqiencias.
Em poucas palavras, tive uma paciente (mulher atualmente na meia-
idade) que tinha feito uma boa análise normal antes de procurar-me, mas que
obviamente ainda precisava de ajuda. Este caso deu inicialmente a impres-
são de pertencer ao primeiro grupo da minha classificação, mas apesar de o
diagnóstico de psicose nunca ter sido dado por nenhum psiquiatra, o diag-
nóstico psicanalítico precisava ser feito em termos de um desenvolvimento
muito precoce de um falso eu. Para que o tratamento fosse efetivo, era neces-
sário que houvesse uma regressão em busca do verdadeiro eu. Felizmente
neste caso foi-me possível lidar pessoalmente com todo o processo da re-
gressão, isto é, sem a ajuda de uma instituição. Eu havia decidido no início
que o movimento regressivo teria toda a liberdade, e em momento algum-
salvo uma única vez ainda nos primeiros temposfiz qualquer tentativa de
interferir na regressão, que seguia o seu próprio curso. (Essa única exceção
consistiu numa interpretação dada por mim a partir do material que havia
Surgido, ligado ao erotismo esadismo orais na transferência. A interpretação
era correta, mas chegou seis anos cedo demais, porque eu ainda não acredita-
va inteiramente na regressão. Para a minha própria segurança, eu precisava
testar o efeito de pelo menos uma interpretação comum. Quando chegou o
momento adequado para essa interpretação, ela não era mais necessária.)
Passaram-se entre três e quatro anos antes que o fundo da regressão fosse al-
cançado, após o que se iniciou um progresso no desenvolvimento emocio-
nal. Não houve nova
regressão. O caos não se fez presente, mas esteve sempre
ameaçando.
Tive, portanto, uma experiência única -mesmo para um analista. Não
tenho como deixar de sentir-me diferente de quem eu era antes de esta análi-
Se
começar. Para os não-analistas será impossível conhecer a tremenda
quantidade de ensinamentos que essa experiência com uma paciente e capaz
de proporcionar, mas entre os analistas posso esperar pela compreensao
in
tegral de que essa
experiência submeteu a psicanálise a um teste todo espe
cial, e ensinou-me muitas e muitas coisas.
DA
PEDIATRIA A
PSICANÁLISE 377

Otratamento e o manejo desse caso colocaram em xeque tudo o que te-


nho enquanto ser humano, psicanalista e pediatra. Fui obrigado a crescer en-
auanto pessoa no decorrer do tratamento, de um modo doloroso que eu teria
tido prazer em evitar. Particularmente, foi-me necessário aprender a exami-
nar a minha própria técnica toda vez que surgiam dificuldades, e em todas as
cerca de doze fases de resistência ocorridas ficou claro em seguida que a
causa originava-se
de algum fenõmeno de contratransferência, tornando ne-
cessária uma auto-análise adicional do analista. Não posso, neste trabalho,
apresentar uma descrição do caso, pois é necessário escolher entre uma
abordagem teórica e uma abordagem clinica, e neste momento minha esco-
Iha é pela abordagem teórica. Ainda assim, tenho sempre este cas0 presente
em minha mente.'

Oponto central de tudo isto é o fato de que neste tratamento, assim comno
em vários outros por mim realizados, precisei rever a minha técnica, mesmo

aquela adaptada aos casos mais comuns. Mas antes de explicar o que estou
querendo dizer, preciso esclarecer de que modo utilizo o termo 'regress o'.
Para mim o termo regressão indica simplesmente o contrário de pro-
gresso. Esse progresso em si mesmo consiste na evolução do indivíduo, psi-
cossoma, personalidade e mente junto com (eventualmente) a formação do
caráter e a socialização. O progresso tem início numa data certamente ante-
rior ao nascimento. Há um impulso biológico por trás do progresso. Um dos
postulados da psicanálise é o de que a saúde implica na continuidade desse
progresso evolutivo da psique, e de que saúde significa maturidade do de-
senvolvimento emocional adequado à idade do individuo, sendo bvio que
tal maturidade refere-se a esse progresso evolutivo.
Observando mais de perto, percebemos imediatamente que não pode
existir uma simples reversão do progresso. Para que esse progresso seja re-
vertido, é preciso que haja no individuo uma organização que possibilite o
acontecimento de uma regressão.
Assim, encontramos
Uma falha na adaptação por parte do ambiente, resultando no desenvolvi

mento de um falso eu.


A crença numa possibilidade de correção da falha original, representada por
uma capacidade latente de regredir, o que implica numa organização egóica
complexa.
Oma provisão ambiental especializada, seguida por uma regressão propria-
mente dita.

Relaço com o Psicossoma".


Crerencia ao caso encontra-se no Capítulo XIX, "A Mente e
sua
378 D. W. WINNICOTT

Um novo desenvolvimento emocional, com as complicações que serão dis-


cutidas adiante.

Aliás, creio não ser apropriado utilizar o termo regressão toda vez
que
um
comportamento infantil se faz presente no relato de um caso. A palavra
regressão deu origem a um significado popular que não somos obrigados a
adotar. Quando falamos de regressão na
psicanálise,
estamos implicitamente
presumindo uma organização do ego e uma ameaça de caos. Hâ muitas coi-
sas a estudar aqui sobre o modo indivíduo armazena memórias e
como o
idéias e potencialidades. E como se houvesse uma expectativa de que surjam
condições novas, justificando a regressão e oferecendo uma nova chance
para que o desenvolvimento ocorra, esse mesmo desenvolvimento que havia
sido inviabilizado dificultado inicialmente pela falha do ambiente.
ou

Evidentemente, estou considerando que a idéia da regressão implica


num mecanismo de defesa do ego muitíssimo organizado, do
qual faz parte a
existência de um falso eu. Na paciente acima mencionada esse falso eu havia
se transformado
gradualmente num 'eu protetor, e somente de al- depois
guns anos foi possível que esse 'eu protetor" fosse entregue ao analista, e o
eu' se rendesse a0 ego.
E preciso incluir na teoria do desenvolvimento de um ser humano a idéia
de que é normal e saudável queo indivíduo
seja capaz de eu defender o con
tra falhas ambientais específicas através do congelamento da situação da
falha. Ao mesmo tempo há a concepção inconsciente (que pode transfor-
mar-se numa esperança consciente) de que em algum momento futuro have-
rá oportunidade para uma nova experiência, na qual a situação da falha
poderá ser descongelada e revivida, com o individuo num estado de regres-
são dentro de um ambiente capaz de prover a adaptação adequada. A teoria
aqui proposta é a da regressão como parte de um processo de cura, na verda-
de como um fenômeno normal que pode ser produtivamente estudado em
pessoas saudáveis. Na pessoa muito doente há muito pouca esperança de
umd nova oportunidade. Num caso extremo o terapeuta teria que ir até o
doente e
proporcionar-lhe ativamente boa
uma
maternagem, experiencia
pela qual paciente não poderia estar esperando.
o
O indivíduo saudável lida com as falhas ambientais precoces de várias
maneiras. Mas uma delas é esta por mim denominada de congelamento da
situação da falha. Deve existir alguma relação entre isto e o conceito do pon-
to de fixação.

1 O eu verdadeiro antes oculto. N.T.


PEDIATRIA A PSICANÁLISE 379
DA

Na teoria psicanalitica afirma-se com freqüência que ao longo do de-


senvolvimento instintivO nas fases pre-genitais situações desfavoráveis po-

dem criar pontos de fixação no desenvolvimento emocional do indivíduo.


Num estágio posterior. por exemplo, no estágio da dominância genital, ou
seia. quando a pessoa total está engajada em relacionamentos interpessoais
(auando é comum falamos freudianamente em complexo de Edipo e temor
à castração), a ansiedade pode levar a uma regressão, em termos da qualida-
de do instinto, àquele que estava em vigor à época do ponto de fixação, e a
conseqüencia éa reintensificação da situação original de falha. Esta teoria já
comprovou o seu valor e é utilizada em nosso trabalho cotidiano, de modo
que não hámotivos para abandoná-la enquanto a examinamos com um novo
olhar.
Um exemplo simples seria o do menino cuja primeira infncia havia sido
nomal, e ao qual foi aplicado um enema por ocasião de sua tonsilectomia,
inicialmente por sua me e depois por um grupo de enfermeiras que tinham
que segurá-lo à força. Tinha então dois anos de idade. Posteriormente teve
problemas intestinais, e aos nove anos (idade da consulta) aparece como um
caso grave de constipação. Entrementes, havia ocorrido uma séria interferên-
cia em seu desenvolvimento emocional no âmbito das fantasias genitais. Nes-
te caso aconteceu uma complicação, pois o menino reagiu ao enema como se
este fosse uma vingança de sua mãe por sua homossexualidade, acabando por
ser reprimida a homossexualidade e junto com ela o potencial de erotismo
anal. Na análise desse menino poder-se-1a esperar que ocorressem atuações
com as quais seria necessário lidar, uma compulsão à repetição associada ao
trauma original. Está claro também que as mudanças no menino não acompa-
nharão a simples reencenação do trauma, mas sim a interpretação do comple-
xo de Edipo comum dentro da neurose de transferência.

Apresentei este caso como um exemplo de sintoma representando uma


regressão a um ponto de fixação onde um trauma estava claramente presente.
Os analistas perceberam a necessidade de postular que de um modo mais
Eeral existem boas situações pré-genitais para as quais o indivíduo pode voltar
ao deparar-se com dificuldades num momento posterior. Trata-se de um fe-

Oneno saudável. Assim sendo, surgiu a idéia de que existem dois tipos de re-

ssao no que diz respeito ao desenvolvimento instintivo, um deles retroce-


Cndo para uma situação anterior de falha, e o outro para una antiga situação
de êxito.
A meu ver, dedicou-se pouca atenção às diferenças entre os dois feno-

Cos. No caso da situação de falha ambiental, o que encontranmos é a evi-


eCla de defesas pessoais organizadas pelo indivíduo, que precisam ser
380
D. W. WINNICOTT

analisadas. No caso mais normal da situação


com mais
bem-sucedida, encontramos
clareza memória de uma
a

ambiental mais do que uma dependência, e portanto uma situação


organização defensiva pessoal. A organização
pessoal nào é tão óbvia porque permaneceu fluida, menos defensiva. Neste
ponto devo mencionar que a base minha
pre bem-aceita, é a idéia de que
para a
formulação acima, nem sem-
quanto mais próximos nos colocarmos de um
inicio teórico haverámenos falhas
rerão apenas falhas ambientais de
pessoais, e de certo ponto em diante ocor-
adaptação.
Preocupa-nos aqui, portanto, no apenas a regressão a pontos bons ou
maus nas
experiências instintivas do indivíduo, mas também pontos bons ou
maus na
adaptação do ambiente às necessidades do ego e do id na história do
individuo.
Poderíamos pensar em termos de estágios
genitais e pré-genitais do de-
senvolvimento da qualidade do instinto, e
poderíamos
utilizar o termo re-
gressão simplesmente como um inverso de progresso, uma viagem de volta
do genital ao fálico, do fålico ao
excretório, da excreção à ingestão. Mas
quanto mais desenvolvermos nosso pensamento nessa direção, mais devere-
mos admitir que uma grande quantidade de material clinico não se
encaixa
nos moldes dessa teoria.
A alternativa é a de colocar a ênfase no
desenvolvimento do ego e na de-
pendência, e neste caso quando falarmos de regressão estaremos imediata-
mente falando da adaptação do ambiente com seus êxitos e suas
falhas. Um
dos pontos que estou tentando esclarecer tanto
quanto possível é o de que o
nosso pensamento sobre esta
questão vê-se confundido pela tentativa de re-
cuar aos primórdios do ego, conferirmos nesse processo uma impor-
sem
tância cada vez maior ao ambiente. Podemos construir teorias sobre o
volvimento dos instintos e concordar em que o ambiente seja deixado de
desen
lado, mas não é possível fazê-lo quando se trata de formular hipóteses sobre
o desenvolvimento do ego inicial. Devemos lembrar sempre, eis a minha su-
gestão, que a conclusäo final sobre o desenvolvimento do ego é o narcisismo
primário. No narcisismo primárioo ambiente sustenta o indivíduo, e o indi-
viduo ao mesmo tempo nada sabe sobre ambiente algum-eé uno com ele.
Tivesse eu um tempo maior, tentaria apontar o modo pelo qual uma re-
gressão organizada é por vezes complicada por um retraimento patológico e
por cisões defensivas de vários tipos. Esses estados relacionam-se
com
are
gressão na medida em que constituem organizações defensivas. A organiza
ção que torna a regressão produtiva tem essa característica que a distingue
das outras, qual seja, a de trazer dentro de si a esperança por uma nova opor
tunidade de descongelar a situação congelada, e uma oportunidade também
À
DA PEDIATRIA PSICANÁLISE
381

pa O ambiente, no caso o ambiente atual, de realizar uma adaptação ade-


quada ainda que tardia.
Disto deriva o fato, caso seja um fato, de
que é da psicose que um pa-
ciente pode recuperar-se espontaneamente, enquanto a
nermite a recuperação espontänea, tornando o psicanalistapsiconeurose
não
realmente neces-
sário. Dito de outro modo, a psicose tem um vínculo estreito com a
saúde,
pelo qual um grande número de falhas ambientais congeladas
pode ser recu-
perado e descongelado pelos muitos fenômenos curativos da vida cotidiana,
tais como as amizades, os cuidados recebidos durante uma
poesia etc. etc.
doença fisica, a
A mim parece que só muito recentemente a regressão à
passou a receber o lugar que lhe é devido nas descrições clínicasdependência
da literatura
psicanalítica. O motivo para que assim seja deve ser o de que s recentemen-
te começamos a noS sentir suficientemente sólidos
do psicossoma e do desenvolvimento mental, a
em nossa
compreensão
ponto de estarmos em condi-
ções de avaliar e admitir o papel desempenhado pelo ambiente.

Gostaria agora de dirigir-me diretamente a Freud, a fim de


sugerir uma
diferença um tanto artificial entre dois aspectos do seu trabalho. Vimos
como Freud desenvolveu a
psicanálise a partir de situações
clínicas em que
era lógicoo uso da hipnose.
Vamos ver então o que fazia ele para escolher os seus casos. E
dizer que do grande estoque possível
psiquiátrico, que incluía todos os loucos soltos e
internados (no original, 'nos asilos e fora deles', N.T.), ele aceitava os
casos
que teriam recebido os cuidados adequados
naprimeira infância, seja,
ou os
psiconeuróticos. Talvez não seja possível confirmá-lo pelo exame detalhado
dos primeiros casos com os
quais Freud trabalhou, mas de uma coisa pode-
mos ter
certeza, e esta é a mais importante: a história inicial de Freud permi-
tiu-Ihe chegar ao Edipo ou periodo da pré-latência como uma pessoa inteira,
Pronto para encontrar seres humanos inteiros, e pronto para lidar com rela-
C1onamentos interpessoais. Suas próprias experiéncias infantis haviam sido
SuTicientemente boas, fazendo com que em sua auto-análise ele tomasse a
maternagem do bebê como algo evidente por si mesmo.
reud considera óbvia a situação da maternagem inicial, e minha alega-
e que isto transparece no contexto por ele estabelecido para poder
"4Oalhar sem saber muito bem o que estava fazendo. Freud analisou a si
enquanto pessoa total e independente, e seu interesse dirigiu-se para
siedades pertencentes aos relacionamentos interpessoais. Obviamente,
ldis tarde ele veio a estudar a primeira infäncia em termos teóricos e
postu-
382 D. W. WINNICOTT

lou as fases do desenvolvimento pré-genital dos instintos, e ele e outros fo-


ram adiante na descrição detalhada de aspectos cada vez mais primitivos da
história do indivíduo. Esse trabalho sobre as fases anteriores å genitalidade
não frutificou tanto quanto possível, pois não se baseava no estudo de pa-
cientes que precisassem regredir dentro da situação analítica.
Gostaria agora de esclarecer o modo pelo qual divido a contribuição de
Freud em duas partes. Primeiro, temos a técnica psicanalítica e sua gradual
evolução, tal como é ensinada aos estudantes. O material apresentado pelo
paciente deve ser compreendido e interpretado. Segundo, temos o contexto
no qual esse trabalho é realizado.
Observemos então o contexto clínico de Freud. Enumero a seguir al-
guns dos aspectos mais óbvios em sua descrição.

1. Diariamente, numa hora marcada, cinco ou seis vezes por semana, Freud co-
locava-se à disposição do paciente. (Esse horário era planejado de modo que
fosse conveniente para ambos.)
2. O analista estaria com certeza lá, na hora, vivo e bem.
3. Durante o tempo previamente combinado (cerca de uma hora) o analista per-
maneceria acordado e estaria preocupado com o paciente.
4. O analista expressaria o seu amor pelo interesse positivo assim demonstrado,
e seu ódio pelo estrito cumprimento dos horários de início e fim, e também
através dos honorários. O amor e o ódio eram expressos honestamente, ou
seja, não negados pelo analista.
5. Oobjetivo da análise seria o de entrar em contato com o processo do
paciente
compreender o material apresentado e comunicar essa compreensão verbal-
mente. A resistência implicaria em sofrimento, e poderia ser atenuada pela in-
terpretação.
6. O métode do analista era o da observação objetiva.
7. Essetrabalho erarealizado dentro de um quarto, no num corredor, um quarto si
ioso e não sujeito a barulhos repentinos e imprevisiveis, mas não absoluta
mente silencioso nem imune aos ruídos domésticos normais. O quarto estaria
adequadamente iluminado, mas nunca por uma luz direta no rosto e nem por uma

Voces podem perceber que não estou afirmando que o trabalho teórico de Freud sobre o instinto
pré-genital teria que fracassar devido ao seu pouco contato com bebês, pois não vejo razão para
que ele não tivesse uma vasta experiência de observador da relação mâe-bebê em sua própria fa-
milia e em seu trabalho. Além do mais, foi-me relembrado que ele trabalhou numa clínica pediá
trica e fez observações detalhadas de bebês ao estudar a doença de Little. O ponto que eu gostaria
de enfatizar aqui é o de quefeliznmente para nós Freud interessou-se inicialmente não pelo pacien-
te que precisava regredir, mas pelo que ocorre na situação analitica quando a regressão não é ne-
cessária, e quando é possível aceitar como um fato o trabalho realizado pela mãe e pela adaptação
ambiental inicial na história pregressa do paciente individual.
A PSICANÁLISE
DA PEDIATRIA
383

variável. O quarto certamente não seria escuro, e estaria


luz.
agradavelmente
aquecido. O paciente deitaria num div, ou seja, estaria confortável
possivel), e haveria provavelmente um cobertor e um jarro de(caso isto Ihe
fosse
R Oanalista (conforme sabemos) mantém o seu água.
julgamento moral fora do rela-
cionamento, não tem desejo algum de intrometer-se com detalhes de sua
vida
Dessoal e de suas idéias, e não deseja tomar
partido nos sistemas persecutóó-
rios, mesmo quando estes aparecem na forma de
situações
compartilhadas em termos locais, políticos etc. Naturalmente,verdadeiramente
se houver uma
guerra ou um terremoto, ou se o rei morre, o analista não ficará
desinformado.
9. Na situação analítica o analista é bem mais confiável
que demais pessoas
as
na vida cotidiana. De um modo
geral ele é pontual, não propenso a ataques de
fúria nem a apaixonar-se compulsivamente etc.
10. Para o analista há uma clara demarcação entre fato e
fantasia, demodo que so-
nhos agressivos não o magoam.
11. E possível contar com a ausência da retaliação.
12. O analista sobrevive.

Muitas outras coisas poderiam ser ditas, mas a história toda pode ser re-
sumida na idéia de que o/a analista comporta-se, e o faz sem muita dificulda-
de simplesmente por ser uma pessoa relativamente madura. Se Freud não se
comportasse bem, não lhe teria sido possível desenvolver a técnica da psica-
nálise, ou sua teoria, para a qual a técnica o conduziu. Isto é verdade inde-
pendente de o quão inteligente ele era então. O ponto central aqui éo de que
praticamente cada um desses detalhes pode ser de extrema importância
numa dada fase da análise que envolva alguma regressão do paciente.
Há aqui um rico material para estudo, e pode-se notar que existe uma se-
melhança marcante entre todas estas coisas e as tarefas comuns dos pais, es-
pecialmente as da mäe com seu bebë ou do pai que desempenha o papel de
mae, e em certos aspectos também com as tarefas da mãe no início propria-
mente dito.
Gostaria de acrescentar que para Freud existem três pessoas, uma delas
tora do consultório. Quando existem apenas duas pessoas, terá ocorrido uma
egressão do paciente no contexto, e o contexto então representa a me com
Sua técnica, sendo o paciente um bebê. Há um estado seguinte de regressão

ual apenas uma pessoa está presente, ou seja, o paciente, e isto e verdade
esmo que num outro sentido, do ponto de vista do observador, existam ali
duas pessoas.
Minha tese até aqui pode ser formulada da seguinte maneira
A doença psicótica está relacionada a uma falha ambiental num estágio pri-
nuvo do desenvolvimento emocional. A sensação de inutilidade e irrealida-
384 D. W. WINNICOT

de derivam do desenvolvimento de um eu falso que surge como proteção ao


eu verdadeiro.
O contexto analitico reproduz as técnicas de maternagem da primeira in-
fancia e dos estágios iniciais. O convite àregressão resulta da sua confiabi-
lidade.
A regressão de um paciente organiza-se como um retorno à dependência ini-
cial ou dupla dependência. O paciente e o contexto amalgamam-se para cri
a situação bem-sucedida original do narcisismo primário.
O progresso a partir do narcisismo primário tem novo início, com o eu verda-
deiro agora capaz de enfrentar as falhas do ambiente sem a organização de
defesas que impliquem num eu falso protegendoo verdadeiro.
Nesta medida, a doença psicótica pode ser tratada apenas pelo fornecimento
de um ambiente especializado acoplado à regressão do paciente.
O progresso a partir dessa nova posição, com o eu verdadeiro entregue ao
ego total, pode agora ser estudado em termos dos complexos processos do
crescimento individual.

Na prática, ocorre uma seqüência de eventos:

1. O tornecimento de um contexto que proporciona confiança.


2. A regressão do paciente à dependência, com a devida percepção do risc
volvido.
3. O paciente sente o eu de um novo modo, e o eu até aqui oculto é entregue ao ego
total. Novo progresso do indivíduo a partir de onde o processo havia parado.
4. Descongelamento da situação da falha original.
5. A partir da nova posição de força do ego, raiva relativa à situação da antiga fa-
Iha, sentida no presente e explicitada.
6. Retorno da regressão à dependência, num progresso organizado em direção à
independência.
7. Necessidades e desejos instintivos tornados realizáveis com vigor e vitalidade
genuínos.

E tudo isto repetindo-se inúmeras vezes.


Devo fazer aqui um comentário sobre o diagnóstico da psicose.
Considerando-se um grupo de loucos, uma grande diferença deve ser
estabelecida entre aqueles cujas defesas encontram-se em estado caótico e
aqueles que foram capazes de organizar uma doença. E praticamente certo
que a psicanálise, quando aplicada à psicose, será mais bem-sucedida nos
casos em que houver uma doença altamente organizada. Meu horror pessoal
à leucotomia e minhas suspeitas contra a E.C.T. (Electric Chock Therapy)
derivam de minha percepção da doença psicótica como uma organização de-
fensiva cujo objetivo é proteger o verdadeiro eu, e também da minha opinião
A PSICANÁLISE
DA PEDIATRIA 385

de que uma saude aparente baseada num eu falso não tem valor para o
ciente. A doença, comoeu verdadeiro muito bem escondido, por dolorosa
que seja, é a unica saida, a nao ser que, enquanto terapeutas, possamos voltar
atrás com o paciente e tirar do seu lugar a situação da falha ambiental original.
Devo fazer uma outra observação logo em seguida: num grupo de pa-
cientes psicóticos haverá alguns clinicamente regredidos, e outros não. De
modo algum caberia afirmar que os tlinicamente regredidos são os mais
doentes. Do ponto de vista psicanalítico pode ser mais fácil dar conta de um
paciente que teve um episódio psicótico do que tratar um caso semelhante
num estado de fuga para a sanidade.
E preciso muita coragem para ter um episódio psicótico, mas pode ser
que a alternativa seja essafugapara a sanidade, um fenômeno comparável à
defesa maníaca contra depressão.
a Felizmente, na maioria dos nossos casos
os episódios podem ser contidos dentro das sessões de análise, ou ficam res
tritos e localizados de modo a permitir que o meio social do paciente lide
com eles ou os absorva.
Para melhor entendimento da questão, gostaria de fazer algumas com-
paraçõesS:
O divã e as almofadas estão lá para que o paciente os use. Aparecerão
em pensamentos e em sonhos, e nesse caso representarão o corpo do analista,
seus seios, braços, mãos etc., numa infinita variedade de formas. Na medida
em que o paciente está regredido (por um momento ou por uma hora, ou por
um longo período de tempo) o divä é o analista, os travesseiros são seios, o
analista é a mãe em certa época do passado. Em.situações extremas não se
pode mais dizer que o div representa o analista.
E correto falar dos desejos do paciente, por exemplo o desejo de ficar
quieto. Com o paciente regredido, porém, o termo desejo revela-se inade-
quado. Em seu lugar usamos a palavra necessidade. Se um paciente regredi-
do precisa de silêncio, nada se poderá fazer se este não for conseguido.
Quando a necessidade não é satisfeita a conseqüência não é raiva, mas uma
reprodução da situaçäão original de falha que interrompeu o processo de cres-
cimento do eu. A capacidade do indivíduo de 'desejar' sofreu uma inter-
ferência, e testemunhamos então o ressurgimento da causa original do senti-
mento de inutilidade.
O paciente regredido está à beira de reviver situações de sonho e da me-
mória. A atuação do sonho pode ser o modo pelo qual o paciente descobre o
que é urgente. Falar sobre o que foi atuado pode seguir-se à ação, mas no
pode precedê-la.
Vejamos, por exemplo, o detalhe da pontualidade. O analista não é al-
guém que deixa os pacientes esperando. Os pacientes têm sonhos em que al-
386 D. W. WINNICOTT

guém os deixa esperando, com todas as variações possiveis do tema, e


podem ficar zangados quando o analista se atrasa. Tudo isto faz parte da ma-
neira como o material se apresenta. Mas pacientes regredidos são diferentes
quanto ao inicio da sessão. Há fases em que tudo depende da pontualidade do
analista. Se o analista está lá pronto e esperando, tudo vai bem. Se não, é me-
Ihor tanto o paciente quanto o analista levantarem acampamento e irem para
casa, pois nenhum trabalho poderá ser realizado. Por outro lado, a impontua-
lidade do paciente pode ter os seus motivos: Um paciente neurótico, ao atra-
sar, pode estar manifestando uma transferência negativa. Já o paciente
deprimido que se atrasa provavelmente estará proporcionando ao analista
um pouco de descanso, um intervalo um pouco maior para dedicar a outras
atividades (protegendo-o de sua agressividade ou voracidade).
O paciente psicótico (regredido) chegará atrasado possivelmente por
que ainda não acredita que o analista estará lá na hora certa. Seria inútil che-
gar na hora. Tantas coisas dependem desse detalhe, que ele não pode corer o
risco e se atrasa. E nenhum trabalho é realizado.
E novamente: os pacientes neuróticos gostam de ver a terceira pessoa
sempre excluida, eo ódio por ver os outros pacientes pode perturbar o traba-
Iho de maneiras inteiramente imprevisíveis. Pacientes depressivos podem
sentir contentamento ao ver outros pacientes, até alcançarem o amor primiti-
vo ou voraz, que suscita a sua culpa. Pacientes regredidos ou não têm obje-
ções à presença de outros pacientes, ou não conseguem conceber a sua
existência. 0 outro paciente não passa de uma nova versão do seu eu.
Um paciente enrosca-se em si mesmo sobre o div, deita a cabeça sobre
a mão e parece aquecido e contente. O cobertor vai direto para cima da cabe
ça. O paciente está só. Obviamente, estamos todos acostumados às muitas
variações do retraimento zangado, mas o analista precisa ser capaz de reco-
nhecer esse retraimento regressivo, no qual ele não está sendo insultado e
sim sendo usado de um modo extremamente primitivo e positivo.
Outro ponto é o de que a regressão à dependência é parte integrante da
análise dos fenômenos da primeira infäncia, e se o div for molhado, ou opa-
ciente se sujar ou babar, saberemos que tais coisas são inerentes, e não uma
complicação. Não é de interpretações que se necessita aqui, e na verdade
qualquer fala ou movimento pode arruinar todo o processo e causar profunda
dor ao paciente.

Um elemento importante nessa teoria é o postulado sobre o ego obser


vador. Dois pacientes muito semelhantes em seu aspecto clínico imediato
podem diferir amplamente no grau de organização do ego observador. Num
extremo, o ego observador é quase capaz de identificar-se como analista,
sendo possível ao paciente recuperar-se da regressão ao final da sessão. No
outro extremo há um ego observador muito incipiente, e o paciente não é ca
PSICANÁLISE
PEDIATRIA
A 387
DA

d e recuperar-se da regressão ao final da sessão, sendo preciso cuidar

dele.
atacão deve ser tolerada nesse tipo de trabalho, e com a atuação den-
tro escão o analista perceberå a importância de tomar parte na mesma,
da sessão

inda quegeralmente de forma apenas simbólica. Nada surpreende mais tan-


ain
to ao analist
quanto ao paciente que as revelações surgidas nesses momen-
tas de atuação. No entanto, a atuação propriamente dita é apenas o começo,
tos
ndo sempre necessári colocar em palavras o que acabou de ser compreen-
send

dido. Ha aqui
uma seqüència:

1. Uma declaração do que aconteceu durante a atuação.


. Uma declaração do que era esperado da parte do analista. Disto se pode deduzir:
. que aconteceu de errado na situação da falha ambiental original.
Isto leva a algum alivio, mas em seguida acontece:
4. Raiva pertencente à situação da falha ambiental original. Esta raiva talvez es-
teja sendo sentida pela primeira vez, e o analista pode agora participar sendo
usado com referência às suas falhas, mais que a seus êxitos. Isto seria descon-
certante-a não ser que seja compreendido. O progresso ocorreu graças à cui-
dadosa tentativa do analista de adaptar-se, mas é a falha que será apontada
como importante nesse momento, pelo fato de reproduzir a falha ou trauma ori-
ginal. Em casos favoráveis, ocorrerão finalmente:
5. Um novo sentimento de eu no paciente, e umapercepção de que o progresso ago-
ra significa um crescimento verdadeiro. Este último é que será a recompensa do
analista, através de sua identificação com o paciente. Nem sempre ocorrerá o es
tagio seguinte, em que o paciente consegue compreender o esforço realizado
pelo analista e dizer um 'muito obrigado' verdadeiramente significativo.

Esse esforço do analista é considerável, principalmente quando a sua


aita de compreensão ea contratransferência
negativa inconsciente compli-
d n o quadro. Por outro lado, posso dizer que nesse tipo de tratamento não

e senti perplexo, e em certo sentido isto já é uma compensação. O esforço


podeser bastante
pequeno.
Numa certa sessão no início de um desses tratamentos permaneci abso-
n t e quieto, apenas respirando, e percebi que era isto que eu deveria fa-
enti muita dificuldade em fazê-lo, principalmente porque eu nao
eCla o significado especial desse silêncio para a minha paciente. Ao ti-
ddSessão, ela retornou do estado regressivo e disse-me: 'Agora eu sei
que você
pode fazer a minha análise.
Volta e mnei surge a idéia de que 'é óbvio, todo o mundo gostaria de re-
Cmeia
d
regressão é um piquenique'; "temos que impedirque nossos pa-
D. W. WINNICOT
388

'Winnicott adora que os seus pacientes regridam


cientes regridam'; ou

(convida os seus pacientes a regredir)'.


Permitam-me fazer algumas observaçðes a respeito da regressão orga-

nizada à dependência.
doloroso
para o paciente.
Trata-se dealgo que é sempre extremamente
bastante normal. Aqui a dor é
a) Num extremo encontra-se o paciente
sentida por quase todoo tempo.
caminho deparamo-nos com todos os graus de reconheci-
b) A meio
mento doloroso da precariedade da dependência e da dupla dependência.
c)No outroextremo estaráo caso psiquiátrico. Aqui o paciente aparen-
temente não sofre enquanto dura a dependência.
O sofrimento ocorre devido
à sensação de inutilidade, irrealidade etc.
da de-
Não odigo a fim de negar que em termos restritos a experiência
não é
pendéncia pode proporcionar uma extrema satisfação. Tal satisfação
de natureza sensual. Refere-se ao fato de que a regressão alcança e fornece
um ponto de partida, o que eu chamaria de um lugar de onde é possível ope-
rar. O eu é encontrado. O sujeito entra em contato com os processos básicos
do eu que fazer parte do desenvolvimento verdadeiro, e o que acontece da-
em diante é sentido como real. A satisfação obtida nesse processo
é tão
qui
mais importante que qualquer satisfação sensual proporcionada pela expe-
riência da regressão, que não é mais necessário mencioná-la sequer.
Näo há motivos para o analista querer que o paciente regrida, salvo motivos
de natureza patológica. Se o analista gosta que os pacientes regridam, isto
certamente irá interferir com o manejo da regressão. Além do mais, a análise
que envolve uma regressão clínica é muito mais dificil que aquela em que
não é necessária qualquer adaptação ambiental. Por outras palavras, seria
muito agradável se pudéssemos aceitar apenas pacientes cujas mes foram
capazes de proporcionar-Ihes condições suficientemente boas no início e nos
primeiros meses. Mas esta época da psicanálise vem rumando firmemente
para um fim.
Surge, porém, a questão: o que fazo analista quando a regressão aparece
mesmo que quantitativamente minúscula)?
Alguns dirão, rudemente: 'Ora, sente-se! Tome jeito! Pare com isso! Fale!"
Mas isto não é psicanálise.
Alguns dividem o seu trabalho em duas partes, ainda que infelizmente nem
sempre o admitam:
a) São estritamente psicanalistas (associação livre verbal; interpreta-
ções verbais, nenhuma gratificação).
b) Agem intuitivamente.
Daqui deriva a idéia de que a psicanálise é uma arte.
DA PEDIATRIA A PSICANÁLISE 389

Alguns dizem: "Inanalisável', e jogam a toalha. Algum hospital psiquiátrico


encarrega-se do caso.

A idéia da psicanálise como uma arte deveria ceder seu


lugar gradual-
mente ao estudo da adaptação ambiental referente à regressão dos pacientes.
Mas enquanto o estudo científico da adaptação
ambiental não se desenvolve,
suponho que os analistas deverão continuar a agir como artistas em seu tra-
balho. Os psicanalistas podem
realmente bons artistas, mas (conforme
ser
perguntei diversas vezes): que paciente deseja ser o poema ou o quadro de
alguém?
De acordo com a minha experiência,
sei que alguns dirão: Tudo isto leva
a uma teoria do desenvolvimento que ignora os primeiros estágios da
evolução individuale atribui o desenvolvimento inicial a fatores ambientais.
E isto está errado.
No desenvolvimento inicial do ser humano o
ambiente que age de modo
suficientemente bom permite que o crescimento pessoal tenha lugar. Os
processos do eu podem nesse caso permanecer ativos, numa linha
ininter
rupta de crescimento vivo. Se o ambiente não se comporta de modo suficien-
temente bom, o indivíduo passa a reagir à intrusão, e os processos do eu são
interrompidos. Se este estado de coisas atinge um certo limite quantitativo, o
núcleo do passaa ser protegido. Há uma paralisação, e o eu não consegue
eu
novos progressos a não ser que a situação da falha ambiental seja corrigida
do modo como descrevi anteriormente. Com o eu verdadeiro
protegido, sur-
ge um eu falso construído sobre a base de uma submissão
defensiva, a aceita-
ção da reação à intrusão. O desenvolvimento do falso eu é uma das
organiza-
ções defensivas mais bem-sucedidas, destinada a proteger o núcleo do eu
verdadeiro, e sua existência tem por conseqüência a sensaço de inutilidade.
Gostaria de repetir aqui a idéia de que enquanto o centro de operações do in-
dividuo localiza-se no falso eu haverá essa de sensação inutilidade,
e na prá-
tica podemos ver a mudança para o sentimento de que a vida vale a
nos
pena ao
aproximarmos do momento em que o centro de operações transfere-se
do eu
falso para o eu verdadeiro, mesmo antes de o núcleo deste ser passado
para ego total.
o

De tudo isto é
udo
possíivel extrair um princípio fundamental da existência:
aquilo
que provém do verdadeiro eu é sentido como real (e
nente como posterior-
bom), seja qual for a sua natureza, no importao quão agressi-
, e tudo
aquilo que acontece ao individuo enquanto reação à intrusão
ambiental é sentido como irreal, inútil (e
Te de o
posteriormente ruim), independen-
quão gratificante seja do ponto de vista sensorial.
D. W. WINNICOT
390

conceito de regressão, contrastan-


Por fim, permitam-me examinar o

do-o como conceito de reasseguramento. Isto é necessário pelo fato de a téc-


necessidade do paciente
exigida para fazer em face da
ser
nica adaptativa
muitas vezes classificada (erradamente, tenho certeza) como reassegura-

mento.
Concordamos em que o reasseguramento não faz parte da técnica psica-
nalitica. O paciente vem para o contexto analítico e vai embora dali, e dentro
desse contexto não há mais que interpretações, corretas e penetrantes, e na

hora certa.
Ao ensinarmos psicanálise, devemos continuar a falar contra o reasse-

guramento.
No entanto, se olharmos com um pouco mais de cuidado, veremos que
se trata muito simplesmente de uma questão de linguagem. Não é meramen-
te uma questão de reasseguramento sim ou não.
Na verdade, toda a questão merece um reexame. O que é reassegura-
mento? O que poderia ser mais reassegurador do que se ver bem analisado,
encontrar-se num contexto confiável com uma pessoa madura tomando con
ta da situação, uma pessoa capaz de fazer interpretações acuradas e pene-
trantes, e perceber que o próprio processo pessoal está sendo respeitado?
Negar que o reasseguramento está presente no contexto psicanalitico clássi-
co é, portanto, pouco inteligente.
Todo o contexto do tratamento psicanalitico constitui na verdade um
grande reasseguramento, especialmenteo comportamento objetivo confiá-
vel do analista, e as interpretações transferenciais que usam construtivamen-
te as paixões do momento, em vez de explorá-las
permitindo que se desper-
dicem.
A questão do reasseguramento pode ser discutida de um modo muito
mais produtivo, se a enfocarmos do ponto de vista da
contratransferência.
Formações reativas no comportamento do analista são prejudiciais não por-
que se fazem presentes na forma de reasseguramento e
negação,
mas porque
representam elementos inconscientes reprimidos no analista que irão limitar
a sua capacidade de trabalho.
Eoque poderíamos dizer da incapacidade do analista de reassegurar? E
se o analista for suicida? Epreciso que haja no analista uma
um
crença na
natureza humana e nos processos de
desenvolvimento para que algum traba-
lho possa ser feito, e isto é
rapidamente percebido pelo paciente.
Descrever a regresso à
dependência-com sua concomitante adapta
ção ambiental-em termos de reasseguramento no nos levará a parte algu
PSICANÁLISE
PEDIATRIA A 391
DA

ma. e isto étãocertoquanto a descrição do reasseguramento prejudicial em


temos da contratransferência.

Afinal, o que estou pedindo que os analistas façam em sua prática clini-
relação a essas questðes?
ca em

1. Eu não lhes estou pedindo para aceitarem pacientes psicóticos


2. Nada do que eu disse afeta os principios da prática normal na medida em que:
a) analista esteja na primeira década de sua carreira.
b)O paciente seja realmente neurótico (não psicótico).
3. Estou sugerindo que, enquanto o analista espera chegar à condição de poder
dar conta de um caso em que a regressão deva ocorrer, há muitas coisas que
ele poderia fazer a fim de preparar-se. Ele pode:
a) Observar o funcionamento dos fatores que atuam no contexto:
b) observar os exemplos de regressão mais ligeira com remissão espon-
nea que aparecem no decorrer das sessöes de análise: e
c) observar e utilizar os episódios de regressão que ocorrem na vida do
paciente fora da análise, os quais, a meu ver, são geralmente desperdiçados,
empobrecendo a análise.

A conseqüência mais importante das idéias que estou propondo, caso


estas sejam aceitas, será um uso mais preciso, rico e produtivo dos fenome-
nos do contexto em análises comuns de não-psicóticos, levando, a meu ver, a
uma nova abordagem do estudo da psicose e de seu tratamento por psicana-
listas fazendo psicanálise.

ResumoO
Chamei a atenção para a questão da regressão da forma como esta ocor
re no contexto psicanalítico. Relatos de casos de tratamentos psicológicos
En-sucedidos de adultos e crianças mostram que as técnicas que admitem a
egressão estão sendo usadas cada vez mais. O psicanalista, acostumado

Om a técnica adequada ao tratamento da psiconeurose, é quem melhor po-


relativas a expectati-
npreender a regressão e as implicaçðes teóricas
Va do
paciente que precisa regredir.
limitada e momentànea,
Iegressão pode dar-se em qualquer grau,
ser

As
lale envolvendo toda a vida do paciente por um certo tempo. regres-
S menoS severas proporcionam um rico material para a pesquisa.

sobre o 'verdadeiro eu' eo


estudo emerge um novo entendimento
SOeu',e também sobre o 'ego observador'. Aomesmo tempo, alcança-se
392
D.W.WINNICOTT
uma compreensão renovada de que a organização egóica que permite a re-
gressão constitui um mecanismo saudável, que permanece em estado poten-
cial a não ser que seja fornecida uma nova adaptação ambiental
confiável,
que poderá ser usada pelopaciente para corrigir a falha adaptativa original.
Nesse ponto, o trabalho terapêutico na análise vincula-se
åquele realiza-
do pelos que cuidam de crianças, pelos amigos, pela poesia e
pelas ativida-
des culturais em geral. Mas a psicanálise tem a
possibilidade de aceitar e
utilizar o ódio e a raiva pertencentes à situação da falha original, fatores im-
portantes capazes de destruir o valor terapéutico dos métodos não analíticos.
Ao recuperar-se da regressão, o paciente, com o eu agora entregue aos
cuidados do ego de um modo mais completo, precisará de análise nomal
conforme a que se destina a lidar com a posição depressiva e o complexo de
Edipo nos relacionamentos interpessoais. Por esta razão, se não por nenhu-
ma outra, o futuro analista em
formação deve tornar-se competente na anali-
se de pacientes não psicóticos cuidadosamente selecionados antes de passar
a familiarizar-se comaregressão. Um trabalho preliminar
pode ser realizado
através do estudo do contexto na psicanálise clássica.

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