Você está na página 1de 4

VERÃO NO LAGO

PERSONAGENS:
DONALD FENWAY
SRA. FENWAY
ANTONIO

SALA DE ESTAR DE UM CHALÉ DE VERÃO.

VOZ EM OFF – Há um tempo para partir, mesmo quando não há um lugar certo para ir.

FENWAY – (IRRITADA.) O que é que está te deixando tão inquieto, Donald?


DONALD – Nada!
FENWAY – Então fique quieto! Eu não suporto ver você vagando de modo tão displicente. Pegue um
livro e leia.
DONALD – Eu estou cansado de livros.
FENWAY – Você está sendo arrogante. Eu diria que não é muito delicado de sua parte agir assim vendo o
estado em que estou. Estou completamente acabada. Não sei para que deixar a cidade para morrer de calor
no lago.
DONALD – Logo você volta pra lá.
FENWAY – Meu Deus! O que foi que seu pai disse na carta?
DONALD – Que esperava que você estivesse boa dos nervos.
FENWAY – Não estou falando sobre isso, você sabe do que eu estou falando. Foi alguma coisa sobre
dinheiro.
DONALD – Ele disse que a nossa temporada encurtou e que temos que voltar pra casa no dia dezesseis.
Ele quer vender o chalé. E também disse alguma coisa sobre um emprego para mim numa loja.
FENWAY – É um absurdo! Mas acho que vamos ter mesmo que ir para casa. Isso é terrível.
DONALD – Sim.
FENWAY – (ARROGANTEMENTE.) Eu não quero ir para casa. Aqui é quente, mas Deus sabe que é
melhor do que aquele apartamento sufocante. E ele querendo que eu me mude para um lugar mais barato. Eu
mereço mesmo viu. Eu aposto com você que ele deve estar sustentando alguma mocinha. Onde eu coloquei
a aspirina? Eu não consigo mais suportar essa dor de cabeça e ainda tenho que jogar bridge com os Vincents
às quatro e meia. Aonde eu coloquei? Donald!
DONALD – Que?
FENWAY – Por que você fica aí parado, olhando assim?
DONALD – Assim como?
FENWAY – Como se estivesse perdido o tempo todo.
DONALD – Porque é assim que estou me sentindo.
FENWAY – Está apaixonado?
DONALD – Não.
FENWAY – Preferia que estivesse. Porque pelo menos haveria uma desculpa para estar tão estranho. Não
é de se estranhar que não tenha amigos. As pessoas pensam que você é fútil quando te veem agindo desse
jeito. Você devia ser mais cativante. Donald! Aonde vai?
DONALD – Lá fora no lago. Vou ficar um pouco por lá.
FENWAY – Não vai.
DONALD – E por quê?
FENWAY – Você fica muito tempo lá. Você me deixa sozinha o tempo todo e eu nunca sei onde você
está.
DONALD – No lago!
FENWAY – Sim, mas você fica muito tempo por lá e minha cabeça não para de girar. Você não precisa
sair correndo toda vez que abro minha boca para te dizer alguma coisa.
DONALD – (SENTANDO-SE NOVAMENTE.) Eu sinto muito.
FENWAY – Não, você não está nem aí. Você não liga para nada. Você é indiferente. A sua única
preocupação é a de ficar divagando lá fora no lago. E você já é um homem. Você vai ter que acordar rápido
e levar as coisas mais a sério. Você não pode passar a vida toda sonhando. Agora que eu e seu pai nos
separamos você sabe que não vai ser fácil. Eu provavelmente vou ter que voltar a dar aulas ou só Deus sabe
o que eu vou ter que fazer para administrar isso, mas nem sei como. Diga a Antonio para pegar minha bolsa
e preparar o carro. Já são quase quatro horas. Você está me ouvindo?
DONALD – Sim.
FENWAY – (ENCOSTANDO-SE NO SOFÁ.) Só de pensar em voltar para aquele apartamento horroroso
no meio de agosto minha cabeça já começa a rodar. Eu acho que devíamos ter ficado no antigo hotel onde
estaríamos pelo menos na face sul. E agora ele tem a capacidade de sugerir que eu encontre um lugar com
um aluguel mais barato. Ainda por cima acha que como somos só nós dois, deveríamos dispensar o
motorista. Ele quer que eu me livre de Antonio, não foi isso que ele disse?
DONALD – Sim.
FENWAY – Ele sabe que sem o Antonio eu não existo. Você até hoje não aprendeu nem a dirigir! Como
vamos sobreviver. Ele disse isso só para me provocar. Onde eu coloquei meus comprimidos? Antonio está
sempre colocando as coisas em lugares que não encontro. (ELA CHAMA.) Antonio! (PASSADO ALGUM
TEMPO ANTONIO ENTRA).
ANTONIO – Pois não.
FENWAY – Onde estão meus comprimidos?
ANTONIO – Na sua bolsa. Você quer um?
FENWAY – Sim. (ANTONIO SAI E VOLTA COM UM COMPRIMIDO.) Não sei como ainda vou a
esses encontros para jogar bridge. Se não soubesse que é necessário um pouco de diversão, eu simplesmente
cancelaria tudo. Antonio.
ANTONIO – (SAINDO.) Precisa de mais alguma coisa senhora? (FAZENDO SINAL PARA QUE ELE
SAIA).
FENWAY – (PEGANDO A CARTA.) Seu pai diz aqui que seria melhor você não planejar entrar na
faculdade este outono já que você...
DONALD – Não leia mais nada!
FENWAY – Você nunca aceita ser contrariado. Bem, vai ver logo que não pode ser assim. Você precisa
começar a assumir algumas responsabilidades agora que seu pai nos deixou e se envolveu com uma
mulherzinha barata.
DONALD – Eu não preciso fazer nada que não queira fazer! (ELE SE LEVANTA E VAI ATÉ A
JANELA NOVAMENTE.) Não preciso ser nada além daquilo que sou! (OLHANDO-A
DESESPERADAMENTE.) Por Deus mãe, eu não quero ir para casa! Eu odeio aquele lugar! É como viver
numa ratoeira! (COBRE O ROSTO E SENTA-SE NO PARAPEITO.) Os muros, o concreto e... As obscuras
escadas de emergência! Elas são o que eu mais odeio. Escadas de emergência! Será que eles pensam que as
pessoas que vivem em apartamentos não precisam fugir de outras coisas além de incêndios?
FENWAY – Donald! Eu apreciaria se parasse de falar desta maneira.
DONALD – Sonhei que estava em uma noite passada.
FENWAY – Estava onde?
DONALD – Escada de emergência. Uma obscura e interminável escada de emergência. Eu corria, subia e
descia e nunca chegava a lugar nenhum. Parei de correr porque já não aguentava mais e então o ferro negro
começou a se enrolar em mim como uma serpente! Eu não podia respirar.
FENWAY – Chega! É um crime me fazer ouvir isso no estado de nervos em que estou. O que você comeu
antes de deitar ontem?
DONALD – (RINDO CINICAMENTE.) Agora a culpa é da minha digestão! Estou saindo!
FENWAY – Pra onde?
DONALD – Já disse! Para o lago.
FENWAY – Como sempre o lago! E de preferência sozinho... Isso não é normal! Donald! Antes de ir você
podia limpar meus sapatos brancos de pelica.
DONALD – Depois resolvo isso.
FENWAY – Sempre deixa para depois. Igualzinho ao pai. Adia tudo o que pode. O tempo não espera
pelas pessoas. (BEBE ÁGUA E DEITA-SE NO DIVÃ.) E vai continuar assim. Mas um dia vai entender
isso.
DONALD – Tempo? Eu não ligo para o tempo. O tempo não é nada.
FENWAY – O tempo é uma coisa que ninguém consegue fugir.
DONALD – Eu sim. Eu escapei.
FENWAY – Tem certeza?
DONALD – Sim. No lago o tempo não existe.
FENWAY – Donald! (DONALD VIRA-SE PARA ELA LENTAMENTE.) Não gosto de ouvir você
falando assim. Jovens não dizem coisas desse tipo. Parece que você é... Diferente... Estranho ou qualquer
coisa do tipo. Não seja assim, Donald. Não é justo comigo. As pessoas vão dizer que você não é como os
outros rapazes e... Vão te evitar. Você vai se vir deixado de lado do mundo ao seu redor. E você não vai
gostar. Quero que aprenda a ser normal e sociável e capaz...
DONALD – (DEPOIS DE UMA PAUSA.) Não se preocupe comigo.
FENWAY – Quero que você amadureça Donald. Você me entende? (NOTA QUE DONALD NÃO ESTÁ
PRESENTE.) Donald! Donald! (ABANA SEU ROSTO SUADO COM A CARTA.) Antonio! (PAUSA.
LEVANTA-SE FURIOSAMENTE.) Antonio! Venha até aqui!
ANTONIO – A senhora me chamou?
FENWAY – Quem você pensou que fosse?
ANTONIO – O que a senhora precisa?
FENWAY – (PAUSA.) Minha Nossa! Não consigo me lembrar! O carro já está pronto para sairmos para
casa dos Vincents? Que horas são?
ANTONIO – Quatro e quinze.
FENWAY – Céus, eu nunca vou chegar a tempo! Antonio, eu adoraria que você me lembrasse de meus
compromissos. E sei que não estou pedindo demais.
ANTONIO – Sim, senhora.
FENWAY – E os sapatos. Eu pedi a Donald que os limpasse, mas ele está no lago novamente. Antonio
sente-se. O que você pensa dele indo ao lago dessa forma?
ANTONIO – (SENTANDO-SE.) Ele fica lá fora a maior parte do tempo, Sra. Fenway.
FENWAY – Sim, a maior parte do tempo. Isso não é natural. Acho que ele é um sonhador.
ANTONIO – Sim senhora, é o que ele é.
FENWAY – Sim, um sonhador. Um insensato, assim como seu pai e eu pedi tanto para que ele fosse
diferente. Eu não gosto disso, Antonio. Quero que ele seja um rapaz normal.
ANTONIO – Talvez o que ele precise seja de um bom colégio, Sra. Fenway.
FENWAY – Ele não gosta de seus colegas de escola. Nunca gostou. Agora seu pai quer que ele pare de
estudar para começar a trabalhar num Atacadão. Não acredito que Donald se dê bem nisso. O que acha
Antonio?
ANTONIO – (PAUSA.) Acho que vai ficar meio perdido.
FENWAY – Sim, perdido. É isso. Completamente perdido. (PAUSA.) Acho que ele devia optar por
alguma coisa ligada à criatividade assim como o pai, mas o problema é que ele não parece ter nenhum
talento. Você acha que ele tem talento para alguma coisa, Antonio?
ANTONIO – Não, senhora. Se me permite dizer um rapaz nesta idade deveria já se interessar por garotas.
FENWAY – Também acho, mas Donald... Ele... Tem algo que eu não sei bem o que é. Abra aquela janela,
Antonio. É por isso que aqui está tão abafada, a brisa do lago não está entrando. Pode ver Donald?
ANTONIO – Ele está descendo pelo cais em trajes de banho.
FENWAY – Ele está com os remos?
ANTONIO – Não.
FENWAY – Então ele vai nadar. Melhor assim. Ele não vai nadar por muito tempo. O que acha que devo
fazer Antonio?
ANTONIO – Prefiro não dar palpites Sra. Fenway.
FENWAY – A única coisa com que ele se importa é ficar aqui no lago. Passa o inverno falando daqui e
quando chega à primavera, ele conta os dias para gente vir para cá. E agora o chalé será vendido e eu já não
sei... Antonio ponha esta carta de volta onde estava só de olhar a letra daquele homem me dá tontura. Eu
passei o dia todo vendo pontinhos pretos em minha vista. (HÁ UMA LONGA PAUSA. HOUVE-SE
APENAS O TIC-TAC DO RELÓGIO.) Leve aquele relógio daqui. Esse som me irrita.
ANTONIO – Mais alguma coisa, senhora?
FENWAY – Não, é melhor você ligar para os Vincents e dizer a eles que vou depois do jantar. Não posso
abandonar totalmente minhas partidas de bridge. Olhe pela janela e veja se Donald está nadando.
ANTONIO – Sim senhora.
FENWAY – (CAINDO PARA TRÁS COM OS OLHOS FECHADOS E UMA MÃO NA TESTA.) Ele é
um garoto estranho. Nunca sei o que ele está pensando. Ele me olha com aqueles olhos tristes e distantes...
Que me lembram muito os do pai. (ELA VIRA-SE INQUIETA.) Eu acho que ele precisa de amigos jovens.
Se não fosse tão caro, eu o mandava para uma dessas universidades que dão atenção especial para cada
aluno.
ANTONIO – É uma idade engraçada, Sra. Fenway.
FENWAY – Até o vento está quente está tarde. E o sol reflete tão ardente no lago. Não sei como ele
consegue ficar lá fora. Está nadando?
ANTONIO – Sim, e ele está bem longe. Consigo ver só a cabeça dele fora d’água.
FENWAY – (RECLAMANDO.) Realmente, ele não passa de um sonhador. Assim como seu pai era antes
de eu colocá-lo na linha. Para ser bem sincera, eu nunca entendi muito bem gente desse tipo, Antonio. São
muito instáveis. Não sabemos o que esperar. Inconstantes. Insensíveis. É inútil tentar mudá-los. Espero que
Donald não tenha ido muito longe.
ANTONIO – Mas ele foi.
FENWAY – Ele ainda não voltou?
ANTONIO – Não senhora, ele vai cada vez mais longe.
FENWAY – Apesar de ter demorado a aprender, é um ótimo nadador. A princípio tinha medo da água,
mas depois, do nada, perdeu o medo e o lago virou seu objetivo de vida. Eu acho isso muito esquisito, você
não acha Antonio? Ele não parece ligar muito para a companhia de pessoas da mesma idade. Eu realmente
espero que ele não acabe como o... (SUA VOZ SOME E ELA VIRA-SE PARA O OUTRO LADO.) Donald
já voltou para a costa?
ANTONIO – Não senhora, continua distante.
FENWAY – Meu Deus! Ainda? (ELA SE LEVANTA DESAJEITADA E ANDA ARRASTANDO OS
PÉS ATÉ A JANELA).
ANTONIO – Sim senhora, continua cada vez mais distante.
FENWAY – Minha nossa! Você pode vê-lo?
ANTONIO – Sim, aquele pequeno pontinho negro é sua cabeça.
FENWAY – Antonio! Ele nunca nadou tão longe desse jeito!
ANTONIO – Ainda está nadando para longe.
FENWAY – Por que não volta? Antonio! Vamos homem faça alguma coisa. Vá chamá-lo. Rápido, rápido,
antes que ele... (VOLTA A DEITAR. ANTONIO LENTAMENTE LEVA A MÃO À GARGANTA.
ANTONIO VIRA-SE DEVAGAR DA JANELA ENQUANTO FAZ O SINAL DA CRUZ. GROSSEIRA.)
Por que me olha desse jeito? (PAUSA. GRITANDO.) Responda! (LONGA PAUSA).
ANTONIO – Não. Ele não voltará mais.

Você também pode gostar