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EXCELENTÍSSIMO (A) SENHOR (A) DOUTOR (A) JUIZ (A) DE DIREITO DA ___

VARA CRIMINAL DA COMARCA DE _________

Processo nº…………………

Nicole, já qualificada nos autos do processo em epígrafe, que lhe move o Ministério
Público, por suas advogadas (procuração anexa), vem, respeitosamente, à presença de V.Exa,
com fundamento no artigo 403, §3° do Código de Processo Penal, apresentar MEMORIAIS,
nos seguintes termos:

I - DOS FATOS

No dia xx/xx/xx, Nicole encontrou Jayme, seu suposto pai, enquanto passava por
uma ponte. Na ocasião, ambos começaram a discutir e em razão disso, Jayme tentou desferir
uma violenta facada em Nicole. Em sua defesa, Nicole deflagrou um tiro contra o seu suposto
pai, que estava em cima dela, tentando agredi-la, o que ocasionou o óbito imediato de Jayme.

Em razão deste fato, Nicole foi denunciada pela prática de homicídio qualificado. Na
oportunidade em que se iniciou a fase instrutória do processo, foram ouvidas testemunhas por
ambas as partes.

Ao término da fase instrutória, o Ministério Público requereu a pronúncia da ré pelo


crime de homicídio culposo qualificado pelo elemento surpresa. Entretanto, V.Exa, conforme
se demonstrará a seguir, não há razão nas alegações do Parquet.

II - DAS PRELIMINARES

Conforme elucida o artigo 23, II do Código Penal, não será configurado o crime
quando o agente pratica o fato em legítima defesa, sendo esta uma das hipóteses de exclusão
da ilicitude. Por meio da legítima defesa o Código Penal disciplina a possibilidade de uma
pessoa se defender ou defender outra pessoa na hipótese de sofrer ou estar na iminência de
sofrer uma agressão, de forma que o ato não configure ilícito penal.
Vale ressaltar que a vítima da injusta agressão pode utilizar qualquer meio disponível
para livrar-se da ameaça. No caso, Nicole disparou contra Jayme, pois houve a extrema
necessidade de repelir ato de seu suposto pai, que estava indo em sua direção com uma faca,
ou seja, não há o que se falar em homicídio qualificado, uma vez que a ré, em razão do
momento desesperador, apenas precisou repelir a agressão que poderia ter causado uma
fatalidade.

II - DO MÉRITO

Conforme demonstrado anteriormente, a ré agiu por meio da legítima defesa, o que


exclui a ilicitude do ato. Sendo assim, é de rigor a absolvição sumária, nos termos do art. 415,
inciso III do Código de Processo Penal.

Além disso, o Código de Processo Penal, em seu artigo 386, prevê que o juiz
absolverá o réu quando existirem circunstâncias que excluam o crime ou isentem o réu de
pena. Esta é exatamente a situação do presente feito. A ré Nicole agiu e tomou medidas para
salvar-se, pois em todo momento se defendeu de injusta agressão causada por seu suposto pai.

Não obstante, cabe mencionar o não enquadramento da agravante descrita no artigo


61, II, “c” do Código Penal, pois em nenhum momento Nicole empregou recurso que
dificultou ou tornou impossível a defesa de Jayme. A atitude de Nicole decorreu em razão do
risco oriundo da iniciativa de seu suposto pai tentar lesioná-la com uma faca.

III - DOS PEDIDOS

Diante dos fatos acima expostos, pede-se:

(I) A absolvição da ré, nos termos do artigo 386 do CPP.

(II) A desclassificação do crime de homicídio qualificado.

(III) O afastamento da agravante prevista no artigo 61 do CP.

(IV) Se o juiz entender pela condenação, pede-se que a pena mínima seja aplicada.

Nestes termos, pede deferimento.

São Paulo, 12 de maio de 2021.