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di Arius

Mauro Losch

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Mauro Losch

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Dedicatória

Dedico esse romance a todos que sentem que


existe algo além do que nos ensinaram e que tem a
coragem de buscar a verdade.

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Sumário

Prefacio, 7

Força-Luz, 9
Arius, 11
Pai, 16
Trabalho, 20
Amizades, 23
Praia, 28
Avós, 31
Relacionamentos, 35
Surpresas, 39
Chegada e Partida, 44
Escolha, 50
Analissy, 54
Visão, 61
União, 63
Balela?, 66
Involução, 74
Desandando, 79
Fundo do poço, 83
Recomeço, 86
No Norte, 95
Gota d’água, 106
O retorno, 109
Amor ao trabalho, 112
Família, 115
O universo conspira, 118
Essência, 124
Reforma, 127

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Patriarca, 132
Busca, 134
Navegando, 141
Pontos de Vista, 149
Vigília, 158
Atitudes, 166
Evolução, 169
Frutos, 174
Conclusão, 177

Agradecimentos, 179

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Prefácio

Poderia começar falando sobre mim, meus títulos,


posição social e profissão, mas acredito que rótulos não
descrevam quem somos de verdade.
O conteúdo desse livro fala sobre quem EU SOU.
Nele relato algumas aventuras e desventuras que vivi em
busca de mim mesmo.
Através do personagem Arius, consegui rever minha
trajetória e me re-encontrar.
Foi a forma que inventei de fazer uma viagem interior,
enfrentar minhas sombras e lembrar de coisas que estavam
perdidas no passado.
Nessa jornada consegui ir além do que a mente vê e
compreendi que vivemos dramas por escolha própria.
Talvez você consiga se identificar com algumas das
histórias de Arius e quem sabe seja encorajado a também
embarcar numa jornada para dentro de si mesmo.

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Força-Luz

Existe uma Força-Luz que é infinita e atemporal.


Ela tem o poder de criar universos e experiências em
todas as dimensões.
Essa história acontece em uma das dimensões criadas
por essa força.
Ela criou um universo repleto de lindas galáxias,
nebulosas, estrelas, quasares, buracos negros, planetas, cometas,
asteróides, etc.
Nesse universo de infinitas possibilidades um sistema
planetário se formou e em um de seus planetas a Força-Luz
deixou uma semente de vida.
Não era o único planeta desse universo onde a semente
de vida foi plantada, mas no planeta Shaw, ela foi munida de
inteligência própria e capacidade de criação. Essa semente é um
pedaço da própria Força-Luz e, como a ela pertence, a ela está
integrada, assim como toda sua criação.
Em Shaw, um conceito de tempo linear se formou e a
vida surgiu e evolui dentro desse tempo.
Centenas, milhares, milhões, bilhões de anos se
passaram e de sopa de proteínas, a vida evoluiu a amebas,
plantas e animais, até chegar à raça dos Hons.
Os Hons tinham como meta atingir a consciência de
unidade com a Força-Luz e automaticamente com tudo que
existe.
Em sua caminhada criaram uma ferramenta nova, uma
mente que tinha a capacidade de traduzir de forma diferenciada
e individualizada as experiências vividas pela Divindade de
cada um.

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Uma ferramenta maravilhosa que engrandeceu a


experiência de vida dos Hons, chamada Ekus.
Porém, durante essa evolução, algo aconteceu e Ekus,
que era apenas uma ferramenta, dominou os Hons. Deste ponto
em diante viveram sob o controle de emoções ilusórias.
A experiência que viviam quando eram guiados por sua
Divindade era extremamente engrandecedora, mas agora eles
vivem presos a uma ilusão criada por Ekus, que torna sua visão
turva e limitada.
Dentro dessa limitação, criaram uma sociedade que a
princípio funcionou bem, porém com o tempo as coisas
mudaram.
Inventaram a posse, começaram a dominar uns aos
outros e impor regras para garantir o poder.
E assim é até hoje.
Os Hons foram longe demais e começaram a desafiar a
Força-Luz.
Sufocaram tanto a Divindade de cada ser, até que o caos
começou a imperar em Shaw.
Destruição, corrupção, violência, intolerância,
indiferença e egoísmo estão dominando e destruindo o planeta.
A situação chegou a um ponto crítico e então a Força-
Luz despertou alguns seres que começaram uma caminhada de
volta à Divindade.
Aqui começa a minha história.
Eu sou Arius, um ser que despertou, travou uma batalha
com Ekus e agora busco despertar outros seres ao meu redor.
Não sou o único nessa jornada e nem o primeiro...

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Arius

Nasci no ano 66 da era 19 de Jacolai .


Uma época onde as energias de Shaw estavam em
ebulição e novas tecnologias despontavam.
Em contra partida, havia seres que buscavam se ligar
mais ao divino.
As noticias se misturavam entre o lançamento das naves
Horus e eventos de jovens buscando contato com a natureza,
ficando nus e se drogando, em atos de desafio às autoridades.
Ninguém tinha consciência das energias e do momento
pelo qual o planeta Shaw estava passando, mas agora fica claro
para mim o que estava acontecendo naquela época.
A Força-Luz agia a todo vapor e ela simplesmente é.
Assim se fez. Cresceu a tecnologia assim como a
espiritualidade.
Muita confusão, conflitos e guerras fizeram as energias
se espalharem em diversos sentidos, porém não em conjunto.
A tecnologia foi para um lado e a espiritualidade para
outro.
Que grande oportunidade perdemos de juntar as duas.
É fácil ver isso hoje, pois consigo ter um certo domínio
sobre Ekus. Estamos na era 20 de Jacolai e os Hons ainda não
vêem isso, imagine na época.
Nos anos 60 da era 19, a mídia eletrônica começou a
crescer a passos largos e na mesma velocidade, a destruição de
Shaw.
Quanto mais a mídia crescia, mais os Ekus gritavam e se
debatiam, mais os Hons eram influenciados e convencidos a
consumir, mais se perdiam das suas Divindades e destruíam
Shaw. Assim é até hoje, mas algo está mudando e todos estão

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sentindo isso no ar, porém poucos estão entendendo o que


acontece.
Tive uma infância muito boa e a felicidade de ter
bastante contato com a natureza e o mar.
Nada de diferente se manifestava em mim quando
criança, diferente de hoje, que muitas crianças já demonstram a
Divindade desperta nelas.
Enquanto eu via todos pensando no futuro e escolhendo
as carreiras que queriam seguir, me sentia meio deslocado do
mundo.
Meus pais me criaram dentro dos padrões de Shaw, mas
tive a sorte de não ter sido obrigado a seguir nenhuma religião, o
que acredito ter facilitado o re-encontro com minha Divindade.
Digo isso porque vejo a dificuldade que as pessoas religiosas
tem em se encontrar com o Divino que são.
Parece algo contraditório e você pode estar perguntando:
- Como alguém religioso pode estar distante do divino?
As religiões em Shaw não são ferramentas para o
despertar e sim formas de controle criadas pelos Ekus para
manter o poder sobre os Hons. Até os ensinamentos de Jacolai
foram distorcidos para fazer com que os seres de Shaw não
consigam ver os seres Divinos que são.
Todos são programados para buscar a Divindade fora de
si, em um Deus que julga e pune ou premia conforme suas
regras são obedecidas. Acontece que as regras que são ensinadas
não são todas de Deus. Muitas delas são dos Ekus de sacerdotes
que querem manter seu poder e controle. Mesmo assim, para
quem desperta, os verdadeiros ensinamentos de Jacolai estão
disponíveis nos livros sagrados.
Percebo que os que sofreram a lavagem cerebral das
Igrejas Jacolianas tem mais dificuldade de encontrar o Deus
verdadeiro do que os ateus ou os sem religião.
Hoje está mais fácil de expressar as idéias sobre a Força-
Luz e a Divindade de cada um, mas houve tempos em que quem

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o fizesse era sacrificado como exemplo do poder da Igreja


Jacoliana.
Como eu não sofri esta influência, acho que tive menos
dificuldade em meu caminhar, mas Ekus é esperto e quando
percebe que estamos despertando usa artifícios para nos
confundir.
Quando comecei a perceber como estava o mundo que
me rodeava, a ver a infelicidade e submissão dos Hons com
quem convivia, Ekus logo tomou a frente para impedir que eu
despertasse e plantou em mim o sentimento de revolta. Decidi
então que não aceitaria o sistema que via e que lutaria contra
ele.
Ah! Que grande erro!
Ir contra! Que besteira.
Hoje descobri que não adianta ir contra nada.
Quem vai contra alguma coisa está no jogo de Ekus.
Quem quer voltar para a Força-Luz deve ir ao encontro
de si mesmo e não contra o outro.
Nessa época achei que os Ronks eram o caminho.
Era uma tribo que através de músicas e atividades
agressivas atacava a sociedade e mostrava a sua insatisfação.
Acabei trabalhando a favor dos Ronks e contra a
sociedade, mas descobri que também não tinham uma proposta
construtiva ou objetivo divino. No fundo eram piores, pois além
de tudo, usavam de violência.
Graças a Força-Luz esse período durou pouco, pois caiu
em minhas mãos um livro que me despertou.
Contava a história de um pássaro que queria ser diferente
dos demais. Acabou encontrando sua Divindade e se colocou no
papel de ensinar outros pássaros a fazer isso também.
Como me identifiquei com aquele pássaro!
Logo li mais livros do mesmo autor.

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Livros que falavam sobre as indecisões e dúvidas de um


aprendiz, mostravam que SOMOS TODOS UM e quantas
bifurcações existem em nossas existências.
A Força-Luz começou a trabalhar em mim!
Em meus contatos com a natureza, sempre gostei de ficar
admirando o nascer e pôr de nosso lindo Sol vermelho.
Era maravilhoso ver seu brilho refletido na transparência
do mar, que transportava a luz para a espuma das ondas,
deixando-as alaranjadas.
Aos poucos, o avermelhado de nosso céu dava espaço
para o roxo do anoitecer, até que ele se tornava totalmente negro
e pontilhado de estrelas coloridas.
O azul das plantas ia lentamente se desfazendo na
escuridão e Shaw parecia integrar-se com o céu.
Nesses momentos eu silenciava minha mente e me sentia
totalmente parte daquele evento.
Hoje sei que isso era a Força-Luz aproveitando um
instante em que até Ekus se rendia à sua grandeza e nesse
espaço que se abria, ela se mostrava e se fazia sentir.
Isso acontecia também quando estava hipnotizado por
uma fogueira ou tocando meu kordsom. Embora eu nunca tenha
dominado bem esse instrumento, sempre gostei do som que saia
da caixa ao dedilhar as cordas. Talvez pelo fato da caixa ficar
próxima do peito e ao manuseá-lo, a vibração do som fazia meu
ser entrar em outra frequência.
Sempre tarde da noite, quando o mundo aquietava-se,
uma estranha conexão comigo mesmo se formava e eu passava
horas escrevendo.
Não havia aparelho de tele-imagem em meu quarto e
acho que sem essa interferência eu conseguia me conectar com a
minha Divindade com mais facilidade, embora eu não tivesse
nem idéia de que era isso o que acontecia.
Nessas madrugadas, entre ler, escrever e tocar o
kordsom, outro livro me atraiu. Ensinava técnicas de como se

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desligar do corpo e viajar para qualquer lugar. Não lembro quem


me emprestou, mas hoje sei que este livro, assim como tantos
outros, além de mensagens, músicas e fatos, são parte do
trabalho silencioso e sábio da Força-Luz, que nos ajuda a
caminhar ao nosso encontro.
Nessa mesma época, uma míni série que passou em uma
frequência de tele-imagem falava sobre isso. Nela, uma
conhecida atriz relatava suas experiências espirituais e de vida.
Em um determinado capítulo, ela relaxava na água
morna de uma banheira, fazia seu desprendimento e saia em
uma viagem pelo espaço.
Aquilo me encantou e o livro mostrava como fazê-lo.
Então em minhas madrugadas comecei a praticar a técnica. Não
era nada muito complicado, porém não foi tão fácil. Deitava
confortavelmente, relaxava meu corpo e o desligava parte por
parte, dos pés até a cabeça, até que sentia apenas minha
respiração. Era como se eu não tivesse mais corpo. Então me
concentrava na respiração e limpava qualquer pensamento da
mente. Só essa sensação já era maravilhosa, mas eu queria o
próximo passo: sair do meu corpo.
Era tão relaxante e agradável que sempre acabava
adormecendo. Comecei então a tentar me programar para não
dormir, até que um dia aconteceu! Sai de meu corpo!
Adormeci por um instante breve e despertei pensando:
“Hei! Não é para dormir !” Só que quando dei por mim, flutuava
no quarto, próximo ao teto e meu corpo estava abaixo, deitado
na cama.
Uma mistura de euforia e medo tomou conta de mim e
mais rápido que um piscar de olhos, despenquei de volta ao meu
corpo.
Acordei assustado e feliz, mas senti que um lado ficou
dormente.
Resolvi ir até a cozinha e beber um copo d’água e lá
estava meu pai.

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Pai

Meu pai acordava todas as noites para fumar. Eu


estranhava e não entendia isso, mas quantas vezes não acabei
fazendo o mesmo mais tarde.
Na época, com dezoito anos de idade, estava começando
a fumar também e embora em minha infância e adolescência
sempre o recriminara, me via por vezes surrupiando um
bastonete dele para fumar a noite.
De qualquer forma, foi providencial ele estar acordado,
pois pude contar o que havia acontecido. Ele me acalmou e
também me avisou para que tomasse cuidado com o que estava
mexendo.
Senti-me melhor, mas ignorei o aviso e continuei
fazendo minhas tentativas de desprendimentos.
Meu pai trabalhava em uma fábrica de rodmobils e
nunca faltava ou se atrasava. Era responsável pela compra de
sistemas transportadores para a montagem dos veículos.
Fechava negócios milionários para a empresa e os fornecedores
faziam de tudo para agradá-lo. Ofereciam almoços, jantares,
viagens e presentes para tentar ganhar vantagem nas
concorrências.
Na época das Festas Jacolianas, quando era comum a
troca de presentes para comemorar o nascimento de Jacolai, os
fornecedores queriam presenteá-lo. Essa prática era praxe e
todos os outros aceitavam, mas ele não.
Então, ligavam para nossa casa e minha irmã, minha mãe
e eu, nem pestanejávamos e íamos logo dizendo o que
queríamos.
Certa vez, quando eu ainda era criança, o questionei:

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- Pai, porque o senhor não aceita os presentes dos


fornecedores?
Ele respondeu:
- Sei que vocês gostam de ganhar esses presentes, mas eu
não me sinto bem em aceitá-los.
Retruquei:
- Não entendo porquê. Lembro de uma vez que fomos na
casa de praia de um empregado que trabalhava com o senhor e
ele tinha uma casa linda, cheia de tecnologia e conforto, mais
até do que temos aqui. Ele ganha mais presentes que o senhor ou
o salário dele é melhor que o seu lá na fábrica ?
- Não, Arius. Ele ganha a mesma coisa, ou até menos.
- Então como ele tem tudo aquilo e nós não?
- Um dia você vai entender Arius, um dia vai entender...
E um dia eu entendi. Mesmo assim ainda me questionava
se não era melhor aceitar os agrados dos fornecedores e facilitar
as coisas para os dois lados do que ser tão honesto e correto
como ele era e voltamos a falar do assunto. Ele disse:
- Quando vou deitar a noite, recosto minha cabeça no
travesseiro e durmo tranquilamente, pois sei que nada carrego
em minha consciência, nada me cobro.
Após uma pausa, continuou:
- Uma vez, um fornecedor que estava começando sua
empresa queria muito vender seu sistema para nossa fábrica.
Naquela época, ele me ofereceu uma quantia que dava quase pra
comprar uma casa, mas me recusei e disse a ele que quando o
sistema dele fosse bom o suficiente, eu o compraria sem que me
desse nada. Tempos depois, ele participou de outra concorrência
e ganhou por méritos próprios. Ele me disse que o fato de eu
não ter aceitado aquela quantia, fez com que tivesse que
melhorar sua empresa e me agradeceu por isso.
Carreguei essa lição comigo para sempre. Apesar de
parecer apenas uma lição de honestidade, para mim foi uma
lição de espiritualidade e de visão.

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Aquela história me ensinou que devemos seguir nossa


essência, que nem sempre o caminho mais fácil é o melhor, que
pequenas atitudes podem gerar grandes resultados.
Morávamos em uma boa casa, minha irmã e eu
frequentávamos boas escolas, sempre viajávamos para a casa de
praia da família e meu pai gostava de ter sempre um rodmobil
do último modelo. Porém nunca senti que o status que isto trazia
era o mais importante para ele.
Via meu pai de verdade quando ele saia para andar na
praia vestindo uma camisa xadrez azul, velha e surrada, a
mesma que ele usava para pescar. Aquele era o meu pai.
Um ser que abria mão facilmente das coisas materiais
para não criar conflitos com os outros. Foi assim que acabamos
perdendo nossa casa de praia.
A casa havia sido comprada e construída em sociedade
com meu avô e um tio. Meu pai investiu sozinho em reformas,
tecnologia e melhorias. Ao vendê-la por decisão da família,
recebeu menos do que merecia. Acho que a venda dessa casa e a
diminuição das oportunidades de ir a praia foi um dos fatores
que fizeram com que ele começasse o caminho para seu fim.
Além disso, era alcoólatra e embora não ficasse violento,
dava pequenos vexames, que depois foram se tornando maiores.
Deixava que seu lado mais triste e sombrio despertasse
quando bebia, expressando suas mágoas mais profundas através
de ofensas.
Mesmo sem entender, eu sentia que o fato dele beber não
era devido apenas à doença do alcoolismo, mas também porque
carregava mágoas, tristezas e motivos íntimos que o torturavam
e que não queria ou não conseguia expressar. O álcool era sua
válvula de escape.
Como grande homem que era, um dia venceu esse vicio,
mas não conseguiu se libertar de suas sombras íntimas e elas
acabariam o sufocando.

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Embora eu assistisse e vivesse juntamente com minha


mãe e minha irmã o problema do alcoolismo e às vezes
discutisse ou deixasse que isso me magoasse, não carreguei isso
comigo. Nunca consegui culpá-lo, mas acabei culpando o que o
rodeava, como se quisesse intuitivamente visualizar quais as
sombras que o atacavam.
Talvez isso tenha me afetado profissionalmente.
Decidi que não aceitaria entrar no sistema como uma
ovelha mansa. Sentia-me como que enjaulado e por vezes me
prostituindo quando comecei a trabalhar.
Me formei como técnico e não foi difícil arranjar um
emprego em uma das empresas dos fornecedores com quem
meu pai trabalhava.

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Trabalho

A principio sentia que todos me olhavam como o rapaz


que conseguiu o emprego por ter influência de meu pai, o que
não deixava de ser verdade, mas acabei desempenhando tão bem
minha função que em pouco tempo já desenvolvia projetos e era
admirado por meus companheiros.
Tudo indicava que teria uma carreira promissora na área,
mas dentro de mim, algo apertava meu peito. Não gostava de
estar preso aos horários da empresa e de ficar sentado naquela
mesa fazendo meu trabalho.
Por vezes eu me pegava olhando para a janela, de onde
eu via árvores e uma autorod. Queria estar em um daqueles
rodmobils, andando livre pelo mundo e não preso atrás daquela
mesa, daquela rotina. Sentia-me como uma panela de pressão
sem válvula e me perguntava se meu pai também não se sentia
assim.
Certo dia, quando terminava um projeto, um gerente
esbravejou e me xingou em voz alta, alegando que os
componentes usados eram inviáveis e que aquele projeto era um
absurdo. Isso aconteceu na frente de todos os funcionários da
seção. Ficou muito irritado e não aceitou que eu me expressasse
e foi para sua sala.
Todos me olharam e em alguns até senti um ar de
satisfação sobre o ocorrido.
Meu chefe então foi até o gerente e explicou que os
componentes do projeto eram exigência do cliente e fui
chamado até sua sala:
- Sente-se, por favor, Arius. Gostaria de dizer que me
enganei. Seu chefe me explicou sobre os componentes serem
exigência de nosso cliente, portanto pode continuar o projeto.

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Senti como se algo quisesse pular para fora de mim e


questionei:
- Porque o senhor ao invés de me chamar a sua sala para
dizer isso, não foi diante de todos assumir seu engano, como fez
para me recriminar?
Meu chefe ficou branco e interviu:
- Deixa pra lá Arius, o que importa é que está tudo
resolvido.
O gerente ficou vermelho e completou:
- Isso mesmo, mãos a obra que temos muito a fazer.
Minha mente fervilhou, meu coração parecia que ia pular
do peito e retruquei:
- Sinto muito, mas se o senhor não pode dizer que eu
estava certo na frente de todos da mesma forma como me
repreendeu, então esse emprego não é para mim e prefiro pedir
minha demissão.
Meu chefe interviu novamente:
- Deixa disso, você está nervoso.
O gerente:
- Acho que minhas desculpas já foram o suficiente!
Ele me olhava com um ar de superioridade e em seu
rosto estava estampado que sua mente questionava quem era
aquele moleque que o desafiava.
Entendi que aquilo era uma batalha inútil, que não
levaria a nada. Um lado meu dizia para deixar pra lá, mas o
outro dizia para mandar tudo a merda. Bem, foi assim que sai do
meu primeiro emprego e de quase todos os outros.
Foi assim que me envolvi com os Ronks.
Foi assim que vivi minha vida, me vendendo e negando
me vender, dando cabeçadas, mas não querendo abaixar a
cabeça, tentando me ajustar ao sistema, mas não conseguindo
aceitá-lo.
Hoje me pergunto se parte das sombras que amargavam
o meu pai não eram porque ele, em sua essência, queria ser o

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Mauro Losch

cara da camisa azul, velha e surrada, mas assumiu o papel de


provedor e funcionário que o sistema impunha e que todos
diziam ser o correto.
Será que ele sufocou sua essência por obrigações que
achava que tinha com a esposa, filhos, família, sociedade, etc...
A saída do meu emprego acabou em um acordo que me
gerou uma pequena compensação financeira, a qual investi na
sociedade em um jornal alternativo, numa emissora de tele-som
(irregular, diga-se de passagem) e em uma banda Ronk.
A princípio, tudo era excitante. Demonstrava minhas
idéias contra o sistema e participava da luta contra tudo que
achava errado.
Escolhia meus horários, organizava, fotografava e
publicava matérias sobre shows, eventos e críticas, fazia uma
parte da programação da emissora tele-som, onde tocava
músicas e atendia pedidos dos ouvintes, mas percebi que tudo
aquilo não construía nada, não mudava nada.
Não passávamos de um bando de rebeldes que às vezes
sofriam pressão mais forte das forças governamentais e que
geravam conflitos e violência.

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di Arius

Amizades

Em pouco tempo me desfiz de minha parte da sociedade


e com o que recebi fui com uma turma de amigos que conhecia
da praia fazer uma viagem pelo litoral.
O diferencial dessa viagem é que foram várias léguas de
caminhada a pé. A maioria em praias desertas e passando por
pequenas e isoladas comunidades.
Dormíamos em barracas que montávamos à beira do mar
e descobrimos como eram felizes os moradores daqueles locais
ermos e maravilhosos. Pessoas humildes que não tinham
aparelhos tecnológicos, nem eletricidade. As moradias eram
simples e não víamos estresse ou preocupação em seus olhos.
Não estou aqui defendendo a pobreza, mas questiono se
precisamos mesmo ter tudo que temos. Será que toda tecnologia
é necessária ou nos tornamos escravos dela?
De qualquer forma, foi um mês muito feliz e de paz. Foi
um dos períodos da minha vida em que fui mais eu, onde minha
essência pode respirar.
Numa determinada noite, debaixo de um deslumbrante
céu estrelado, que não era apagado pelas luzes das cidades e
nem afetado pela poluição das fábricas, nos tornamos uma só
energia e vibramos na mesma frequência
Não existia diferença entre nós, éramos almas sendo
iluminadas pela mesma Força-Luz e juntos fizemos uma
música:

“Estou aqui
Sentado aqui
Curtindo o mar e as estrelas

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Mauro Losch

Não vou pensar em nada


Não vou querer lembrar

Porque aqui
Somente aqui
Eu vejo a vida como eu gosto

Pena que são momentos


Pena que vai passar

Esse lugar
Posso jurar
É uma coisa indescritível

Onde a natureza
Nada deixou faltar

Quando eu voltar
Pro meu lugar
Tenho certeza que irei lembrar

Desse refúgio lindo


Perdido a beira do mar”

Depois da viagem, cantarolávamos às vezes a música


que fizemos. Hoje vejo que nela já estavam embutidos trechos
que mostravam a verdadeira essência dos Hons e instruções de
como entrar em contato com ela.
Alguns trechos dizem porque conseguimos nos unir
naquela noite:

“Não vou pensar em nada”

“Somente aqui

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di Arius

Eu vejo a vida como eu gosto ”

Paramos de pensar, nos ligamos à nossa essência e vimos


que a vida que nos agradava era simples.
A simplicidade é um dos segredos para a felicidade.
Aquele momento regou a semente que está plantada em
nós. Entramos em contato com nossa essência e mesmo que
tenha demorado mais de vinte anos para que florescesse, ela
sobreviveu.
Carreguei aquele pequeno ensinamento comigo e hoje
sei que é preciso não pensar em nada para ouvirmos nossa
Divindade e procurar levar a vida com simplicidade.
Tive o privilégio de viver a aventura dessa viagem e
muitas outras histórias e experiências com estes amigos da
praia.
Conheci-os quando tinha quinze anos de idade e nos
víamos em dois períodos do ano e eventualmente nos descansos
semanais.
Pouco sabíamos e pouco nos importávamos sobre a vida
cotidiana um do outro.
Quando estávamos na praia éramos livres, simplesmente
nós. Acho que por isso, sempre que nos falamos ou nos
encontramos hoje, temos a sensação de que nos conhecemos
profundamente, mesmo que fiquemos anos sem nos vermos.
Alguns estão mais amargos, outros muito envolvidos
com a vida das conquistas materiais, outros conseguiram manter
contato com sua essência, mas quando nos juntamos, não há
como se esconder atrás de máscaras.
Isso me faz questionar porque perdemos esse contato
com essa essência divina? Porque deixamos que as atividades
sócio econômicas nos afastem de nós mesmos? Até quando
deixaremos Ekus nos dominar?

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Mauro Losch

Quando lembro destes tempos na praia, consigo chegar


mais perto de mim, porém com a experiência de vida que tenho
hoje. Como seria bom se todos conseguissem fazer isso!
Seria mais fácil de dominar Ekus.
Fim da viagem, de volta para casa e novamente no
domínio de Ekus.

O que você vai fazer da sua vida Arius?


Você já se meteu com os Ronks, viajou e agora?
Vai ficar aí, vagabundeando?
Porque não tenta retomar sua carreira?
Arrume um emprego.

E lá fui eu novamente tentar me enquadrar no sistema.


Desta vez fui trabalhar em uma escola como auxiliar de
som e imagem. Era uma função bem inferior se comparada com
as que tive antes, mas eu me sentia bem lá. Além disso, havia a
possibilidade de retomar meus estudos e cursar o nível elevado
de ensino. Uma coisa eu sabia, área de projetos eu não queria.
Pensava em biologia ou algo ligado ao mar, mas não estava bem
certo ainda do que faria.
Estava curtindo a vida, tinha uma pequena renda e
namoradinhas que iam e vinham. Estava bem comigo mesmo,
mas minha irmã Naty não parecia estar tão bem.
Minha mãe sempre procurou ser moderna e entender o
que se passava em meu mundo, mas não sei se com minha irmã
também foi assim. Acho que Naty foi mais bombardeada com as
obrigações sociais ou se deixou afetar pelos problemas
conjugais de nossos pais. Não sei bem.
Sou quatro anos mais velho e essa diferença de idade
hoje não importa, mas aos meus dezoito anos de idade não
éramos muito companheiros. Para falar a verdade, mais
discutíamos que conversávamos. Tínhamos nossos bons
momentos juntos, mas não eram muitos.

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di Arius

Tenho para mim que de alguma forma Naty se deixou


envolver ou foi envolvida em questões que ela não tinha
maturidade ou estrutura para superar, mas isso até hoje não é
claro.
Porque deixamos que os outros joguem seu lixo em nós?
Porque jogamos nosso lixo nos outros?
Ficamos carregando culpas ou culpando os outros disso
ou daquilo e aí pergunto:
O que isso acrescenta em nossa vida?
A maioria das pessoas carrega isso consigo, mas eu era
um pouco diferente.
Uma coisa eu tinha, preferia me arrepender do que fazia
e não do que deixava de fazer.
Hoje minha visão mudou um pouco.
Abraço as oportunidades que a vida me dá e nunca me
culpo por nada que fiz e muito menos culpo os outros, pois
todos fazemos o que acreditamos ser o melhor no momento e se
as coisas não saem como queríamos é apenas porque
precisávamos viver a experiência para aprender o que tínhamos
que aprender.
Como a vida fica muito mais leve e livre assim!

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Praia

A casa da praia era para mim meu verdadeiro lar.


Lá me sentia mais eu do que na cidade.
Quando criança andava com um amigo, morador da
região que conhecia tudo. Juntos explorávamos as matas,
montávamos armadilhas, construíamos cabanas de folhagens,
pescávamos e nadávamos nos rios.
Não havia eletricidade e o clima de cabana a noite era
maravilhoso. As ruas eram iluminadas apenas pelas Luas.
No período das Luas escuras o céu explodia de tantas
estrelas.
Dormir ouvindo os sons dos animais noturnos
misturados com o som mais distante do mar era restaurador.
O vizinho mais próximo ficava a umas três quadras de
distância e a praia a umas dez quadras. A casa ficava no meio da
mata e as ruas eram largas e gramadas.
É verdade que os rodmobils às vezes sofriam para se
locomover quando chovia muito, mas até isso acabava virando
diversão e aventura.
Várias vezes ao amanhecer víamos animais silvestres
passeando tranquilamente pelas ruas.
Hoje esta mata e vida silvestre não existem mais lá. Tudo
foi tomado por casas e pelo progresso. Tive o privilégio de
experimentar a grandeza da natureza, o que não existe nas
cidades.
Na adolescência, quando conheci a turma de amigos,
comecei a viver outras experiências.
Praticávamos esportes de dia e admirávamos em silêncio
o pôr da nossa estrela vermelha. À noite, fazíamos fogueiras e
nos reuníamos para cantar e tocar kordsom.

28
di Arius

As festas noturnas eram cada vez na casa de um dos


amigos. Fiz várias festas e reuniões em nossa casa e às vezes
alguns abusavam da bebida e faziam bagunça além do que
deviam.
Eventualmente eu levava comigo alguns amigos da
cidade para a praia.
Sandres era um deles. Éramos vizinhos desde que nasci e
acabamos convivendo tanto que viramos mais que amigos,
parecíamos irmãos.
Ele não entendia porque eu ia tanto para a praia e
gostava tanto da turma de lá.
Resolvi então levar Sandres e alguns amigos da cidade
para praia e apresentá-los para a turma. Não deu muito certo e a
principio não se deram muito bem, mas com o tempo acabaram
se enturmando e Sandres criou um laço com eles que perdura até
hoje.
Os outros amigos da cidade acabaram sumindo de nosso
convívio e perdemos contato com todos, acho que porque
nossos laços não eram tão fortes como com a turma da praia.
Meu pai havia investido uma boa quantia financeira para
fazer com que o abastecimento elétrico chegasse até a casa da
praia, também em materiais para reforma e aprimoramentos
tecnológicos básicos, pois meus avós Ôta e Ôminha iriam morar
lá. Mas isso não se concretizou. Todos pararam de frequentar a
casa da praia e decidiram que preferiam vendê-la.
Quando essa decisão foi tomada, senti como se um
pedaço meu estivesse sendo arrancado, mas que direito tinha eu
de opinar ou ir contra essa decisão?
E assim foi feito.
Passei então a me hospedar na casa de amigos quando ia
à praia.
Meu pai com a parte que recebeu da venda, comprou um
lote. Embora tivesse planos e plantas para a construção de uma
nova casa, nunca os concretizou.

29
Mauro Losch

Na época ele já havia se aposentado e recebido uma boa


quantia da empresa em que trabalhou tantos anos, mas acho que
ao parar de trabalhar perdeu sua auto-estima e
consequentemente sua coragem e confiança em realizar seus
sonhos. Tornou-se cada vez mais uma pessoa negativa e
insegura e acho que acreditou que deixar o dinheiro guardado
era mais seguro do que investir em um sonho.
O que sei é que com o passar dos anos foi-se todo o
dinheiro e o terreno, no mesmo ritmo em que se foram a saúde e
alegria de meu pai.
É fácil ver hoje que ao deixarmos entrar a vibração do
medo, nos perdemos e permitimos Ekus dominar. Ao invés de
ouvirmos o que nossa Divindade nos diz, nos prendemos a
falsas seguranças ou acabamos abrindo mão de nossos sonhos e
vontades para fazer o que os outros nos ensinaram que é melhor.
Isso vai nos matando lentamente e nos desligamos totalmente de
nós mesmos. Devíamos parar e ouvir nossa Divindade ao invés
de agirmos somente guiados pela mente.

30
di Arius

Avós

Todos meus avós ainda eram vivos.


Por parte de pai, minha avó Ôminha e meu avô Ôta e por
parte de mãe, minha avó Ôma e meu avô Ôpapa.
Todos foram super-avós e nada tinham em comum entre
si além do amor típico de avós.

Ôminha

Um pequenino poço de amor. Um amor tão doce que até


grudava. Apesar de parecer frágil, tinha uma força interior e
uma fé no divino que não podia ficar só com ela. Então dentro
de sua crença na Igreja Jacoliana, aprendeu a benzer os Hons.
Quando benzia ou orava por alguém, assumia o papel de
um imã que atraia todas as cargas negativas para si e passava
cargas positivas para a pessoa. O interessante é que a energia
negativa que ela atraia para si, não pegava nela. Ela a carregava
consigo apenas por algum tempo. Tempo suficiente para que
pudesse neutralizá-la e dissipá-la no ar. Ah! Quanta falta
Ôminha me fez quando partiu. Foi duro ter que descobrir como
recarregar sozinho minha bateria espiritual e me livrar das
cargas negativas. Além disso, quando falávamos de coisas da
alma, parecia que nada era novidade ou segredo para ela.
Tínhamos uma ligação muito especial. Ela dizia que
porque havíamos nascido no mesmo ciclo espacial, nossos seres
tinham a mesma missão e que não era fácil para os outros Hons
nos entenderem. Mas na época, nem eu me entendia direito. Eu
estava buscando esse entendimento e sabia que chegaria lá, eu
sentia isso.

31
Mauro Losch

Ôta

Um homem forte e bem humorado. Batalhador e simples.


Não era muito culto, mas passava uma força incrível.
Foi graças a muito trabalho dele que pudemos por anos
usufruir da nossa casa na praia. Ele e Ôminha sempre levavam
minha irmã, primos e eu para praia com eles e proporcionaram
que eu vivesse a melhor fase de minha vida, minha infância, de
forma a ter muito contato com a natureza e com coisas simples
da vida.
Era muito bom curtir a liberdade e o amor de sua
companhia.

Ôma

Talvez pudesse ser traduzida e abnegação, paciência,


amor e entrega. Sempre tudo que fazia era para os outros.
Toda semana ia ficar com minha irmã e comigo. Sempre
levava um pequeno disksom e um livrinho de histórias. Tinha a
paciência de ouvir a história e folhear as imagens conosco.
Mais tarde, em minha juventude, às vezes dava um
dinheiro e dizia:
- Toma. Eu guardei para você, não fala para ninguém.
Os almoços e festas Jacolianas em sua casa eram sempre
especiais. Para mim a casa dela era mágica, um sitio no meio da
cidade.
Sempre me sentia bem de estar lá com ela e com Ôpapa.
Apesar disso, eu e Ôma não conversamos muito. Com Ôpapa, já
era o contrário.

32
di Arius

Ôpapa

Era um cara muito culto e bem humorado, nunca faltava


assunto com ele. Sempre me ensinava alguma coisa ou me
mostrava uma novidade. Eu sempre admirei sua inteligência e
forma de expor as coisas. Ele também gostava muito de viajar.
Por circunstâncias da vida, acabaram por criar um primo
meu, pois minha tia havia se separado e trabalhava para manter-
se.
Meu amor por meus avós era igual, mas meu grau de
afinidade com Ôpapa era muito grande. Às vezes me achava
parecido com ele.
Ele e Ôma sempre fizeram das festas Jacolianas uma
data muito especial.
Era sempre muito bom ir à casa de todos para
comemorar o nascimento de Jacolai, mas na casa deles era onde
eu sentia a magia, o espírito de Jacolai.
Todos os meus avós e também minha mãe nasceram em
outras terras de Shaw, mas apenas Ôma, Ôpapa e minha mãe,
embora muito pequena na época, viveram no meio do grande
conflito de Shaw dos anos de 40 da era 19.
Embora Ôpapa já vivesse aqui, voltou para sua terra para
lutar pelos Nariandus. Ele era da força Aqua e comandava um
aquamobil de batalha.
Os Nariandus foram derrotados pela Aliança e Ôpapa
passou um tempo como prisioneiro, mas acabou se libertando e
re-encontrou Ôma, que conhecia desde a infância, e com ela
casou-se e voltou pra cá.
Não deve ter sido fácil, pois os Nariandus lutavam
liderados por um Hon sanguinário, que cometeu muitas
atrocidades e todos guerreiros que lutaram por ele eram
considerados más pessoas. O que os Hons não entendiam é que
nem todos os guerreiros eram cientes das atrocidades desse
líder.

33
Mauro Losch

Além de viver na carne o grande conflito, Ôpapa


enfrentou também um câncer e sobreviveu. Admirava-o por ter
passado por tudo isso e ter tanto amor e bom humor.

34
di Arius

Relacionamentos

Eu vivia uma ótima fase. Era jovem e livre.


O dinheiro era pouco, mas o suficiente para viver minhas
aventuras.
Viajava sempre que possível com meus amigos,
namorava e buscava tentar me entender. Tudo que fazia era
intenso. Algo me dizia para aproveitar ao máximo a boa vida,
pois duraria pouco.
Embora eu não fosse do tipo conquistador e nem
“bonitão” para os moldes de Shaw, tive vários pequenos casos e
algumas namoradas, mas eu não via as mulheres apenas como
objeto de prazer.
O relacionamento com elas era algo que mexia comigo,
porém não posso dizer que tive muito tato para lidar com as
meninas.
Magoei algumas e também me deixei magoar por outras.
Até então, apesar de ter me apaixonado, ter sofrido e ter
feito algumas que por mim se apaixonaram sofrerem, não havia
ainda tido relações mais íntimas com nenhuma.
Até que conheci Klaty.
Ela também não tinha se relacionado mais
profundamente com ninguém.
Nos conhecemos na praia.
A província que ela vivia ficava a umas 150 Klegs de
onde eu vivia, cerca de duas horas de viagem. Era meio
complicado de nos vermos.
Klaty era um doce de pessoa, nunca a vi irritada ou
brava, apesar de não termos convivido muito, pois a distância de
nossas províncias dificultava nossos encontros.

35
Mauro Losch

Não me preocupava e nem pensava em encontrar a que


seria minha companheira definitiva. Queria apenas ser livre e
me sentia bem em sua companhia.
Aos poucos fomos nos tornando mais íntimos, até que
vivemos o momento especial do sexo.
Um grande amigo meu namorava a irmã de Klaty, o que
facilitava nossos encontros e viagens, pois dividíamos as
despesas.
Quantas aventuras vivi com meu amigo Fridilay, a quem
chamávamos de GG, seu apelido de infância.
Tudo ia bem e o fato de Klaty morar longe, apesar de eu
sentir sua falta, me dava a sensação de liberdade, até que um dia
ela achou que devia se mudar:
- Arius, estou pensando em me mudar pra cá. O que você
acha?
- Mas Klaty, e seus estudos, onde vai morar?
- Tenho uma prima que vive aqui. Posso arrumar um
emprego.
Tive uma sensação estranha e por algum motivo aquilo
não me agradou. Apesar de gostar dela, não achava que ela
devia mudar a vida tão já pelo nosso relacionamento.
- Klaty, não seria melhor esperar mais um pouco,
terminar os estudos...
- Arius, assim ficaríamos mais juntos e tenho mais uma
coisa pra te falar. Meu ciclo está atrasado.
Um arrepio subiu dos meus pés, percorreu minha espinha
até minha nuca. Senti que fiquei branco. Minha liberdade
acabaria.
Claro que ela percebeu.
- É normal isso acontecer Arius, não fique preocupado.
Sou meio desregulada.
Preocupado? Eu não fiquei preocupado, eu fiquei em
pânico.

36
di Arius

Alguns dias se passaram, dias longos, diga-se de


passagem, até que ela me avisou que estava tudo bem e não
estava grávida. Mas aquilo me balançou. Ela querendo se mudar
e mais esse susto. Eu não podia continuar o relacionamento.
Como dizer isso para ela?
Tentei ser delicado, mas não há como não machucar o
outro numa separação. Acho também que sempre tive um tato
de rinontossauro para lidar com essas situações, mas foi feito.
Não posso dizer que fiquei feliz, mas me senti bem mais
leve e com a sensação de ter feito o que era certo.
Resolvi seguir em frente e fui falar com GG para
combinarmos a viagem que a turma da praia faria no próximo
descanso semanal prolongado para a ilha BTY.
De todos os meus amigos, acho que GG é o mais
parecido comigo. Ele não é espiritualista como eu no sentido de
buscar respostas e entender as coisas, mas parece que Ekus não
tem muito domínio sobre ele. GG é um cara transparente, livre,
aventureiro e que está naturalmente ligado com sua essência.
Vivemos aventuras muito boas em seus rodmobils
tracionados, participando de competições e também algumas
aventuras no mar, que é a sua maior paixão.
GG foi buscar sua namorada para a viagem para a ilha
BTY e Klaty, que era irmã dela, resolveu ir também.
Eu havia convidado outros amigos para irem em meu
rodmobil, dentre eles uma nova amiga chamada Klieya, a quem
ainda não conhecia. Viajamos em comboio e tudo ia muito bem.
Durante a viagem brincávamos no veículo e ríamos. Em uma
das brincadeiras, coloquei meu braço para trás e peguei a perna
de Klieya. Foi como um choque, algo estranho, como se uma
conexão tivesse sido estabelecida e o tempo parou por segundo.
Acabamos ficando juntos e namorando. Embora eu não
soubesse, formava-se naquele momento uma bifurcação em
minha vida, daquelas importantes, do tipo que pode mudar tudo
e eu entrei nela.

37
Mauro Losch

O primeiro efeito imediato foi em Klaty. Ela sofreu


percebendo que eu estava com Klieya e na sua dor acabou
abusando na bebida e foi hospitalizada. Sandres a acompanhou e
veio me contar o que aconteceu:
- Arius, você é fogo heim? Olha o que você fez com a
garota.
- O que aconteceu Sandres?
- Ela quase entrou em coma e no hospital dizia que você
foi um canalha com ela.
Fiquei sem saber o que dizer ou como agir, mas pensei
ser melhor que ela sentisse raiva de mim, assim quem sabe me
esqueceria mais fácil.
Perdi o contato com Klaty e carreguei um sentimento de
culpa durante muitos anos. Eu não sabia, mas um dia eu
enfrentaria esse sentimento.
Independente do ocorrido, uma nova história começava
com Klieya.
Morávamos na mesma província nos víamos quase que
diariamente e sempre arrumávamos um tempo para ficarmos a
sós e namorar.
Tínhamos amigos em comum e vivemos bons tempos
juntos.
Nosso relacionamento foi bastante intenso, mas não
tivemos muito tempo para nos conhecermos de verdade durante
o namoro.

38
di Arius

Surpresas

Minhas tentativas de desprendimento do corpo


continuavam sendo apenas tentativas, mas um dia algo diferente
aconteceu. Foi como se minha mente virasse um receptor e uma
clara mensagem me foi enviada:

“Klieya está esperando um filho seu. É um menino e


você deve dar o nome de seu avô Ôpapa para ele”.

Fiquei atônito...
Falara com Klieya naquele dia e estava tudo normal. O
ciclo dela deveria ser em poucos dias.
No dia seguinte resolvi conferir e liguei para ela:
- Tudo bem Klieya?
- Sim Arius, porque?
Contei a ela sobre a mensagem que recebi e ela sorriu e
disse:
- Está tudo bem, amanhã ou depois já devo estar no
ciclo.
Ela estava enganada. Dias se passaram e nada. Até que
os exames confirmaram a sua gravidez.
Estranhamente, ao contrário do que havia acontecido
com Klaty, não fiquei em pânico.
Apesar de um pouco tenso com a situação e com o que
viria, me senti feliz.
Entendi que já era hora de enfrentar uma nova realidade
e decidir o que fazer.
Casar ou não casar?
A situação financeira não era muito boa. Eu trabalhava
como auxiliar de imagem e som e ela como professora.

39
Mauro Losch

Nossa renda junta era pouca para uma família, mas


mesmo assim decidimos pela união. Iríamos enfrentar juntos a
nova realidade.
Alugamos uma casa de dois cômodos em um bairro
simples. Tínhamos um quarto e cozinha. O rodmobil que eu
usava era de meu pai, que o vendeu e me cedeu parte do
dinheiro. Suficiente para comprar um rodmobil bem mais
simples e antigo.
Nossas famílias e amigos ajudaram com as mobílias e
utensílios e oficializamos nossa união dentro dos rituais legais e
sagrados de Shaw.
O dono da escola onde eu trabalhava, resolveu em um
ato inexplicável me promover a gerente de uma das suas
unidades de ensino.
IMAGINE!
Com tantas pessoas mais experientes e preparadas para o
cargo, porque escolher um mero auxiliar e tão jovem?
Na época fiquei feliz e embora achasse estranha a
decisão do dono da escola, não parei para pensar nisso.
Hoje vejo claramente como a Força-Luz agiu e mostrou
que quando estamos ligados a ela, tudo caminha bem.
Não era um salário sensacional, mas muito melhor do
que eu ganhava e veio em ótima hora.
O fato de casar e esperar um filho não havia mudado
nada em mim ou em minha visão das coisas. Continuei sendo
como sempre fui e vivendo da mesma forma.
Meu novo trabalho era agitado. Cuidava da distribuição
de material, da estrutura e organização para os professores, dos
funcionários e das campanhas de matrícula.
Eu gostava de trabalhar lá, de conviver com todos e
também das reuniões e festas que a direção da escola
organizava. Não me preocupava em procurar um emprego
melhor.

40
di Arius

Muita coisa estava mudando rapidamente, mas a


revelação que viria a seguir foi uma grande surpresa.
Recebemos a visita de um suposto primo de outras
terras. Até então eu nunca ouvira falar dele e não entendi bem
nosso parentesco, mas nem me preocupei com isso.
Tudo que eu sabia é que éramos parentes por parte de
Ôpapa.
A visita dele fez vir à tona uma história totalmente
inesperada.
Esse primo, embora de uma idade já avançada, se
encantou pela minha irmã Naty, que era bem mais nova e o
parentesco tornava um relacionamento entre os dois
impraticável.
Ora! Era até absurdo esse interesse dele por ela, mesmo
que não fossem parentes, pois ele era bem mais velho.
E foi aí que veio a revelação.
Ele não era nosso parente, pois Ôpapa não era nosso avô
de sangue. Minha mãe era adotada por ele e filha apenas de
Ôma.
Talvez isso abalasse as estruturas de qualquer um, mas
para mim só fez crescer o amor e admiração que já sentia por
ele.
Enquanto minha mãe contava a história, a mensagem que
recebi para dar o nome dele ao meu filho que estava a caminho
fez todo sentido do universo. Tudo se encaixou perfeitamente e
ficou claro que existe uma inteligência além da nossa
compreensão regendo os acontecimentos de nossas vidas.
Percebi que “coincidência” é algo que inventamos para
tentar explicar a sincronicidade de fatos que ocorrem em nossas
vidas.
E ouvi minha mãe contando:
- Ôpapa conhecia a Ôma desde a infância. Quando ele
veio para cá, os dois se afastaram. Durante o Grande Conflito de
Shaw ela se casou com um guerreiro Nariandu. Esse guerreiro,

41
Mauro Losch

que foi seu avô de sangue, desapareceu e foi dado como morto,
assim como milhões de outros guerreiros na época. Quando o
Grande Conflito terminou, Ôpapa e Ôma se re-encontraram. Ele
me conheceu e me adotou como sua filha. Eles se casaram e
viemos para cá como uma família. O resto da história você já
conhece.
Naquele momento percebi que laço de sangue é algo
secundário e que os verdadeiros laços são os do amor.
Para mim Ôpapa passou a ser mais parente meu do que
nunca. Passou a ser a pessoa que eu mais admirava no planeta
Shaw.
No fim das contas, a atração do primo das terras
distantes por Naty, acabou dando em nada e da mesma forma
como ele apareceu, sumiu. Foi como se tivesse vindo cumprir
um papel e ao fazê-lo foi liberado para ir embora.
Na mesma época em que tudo isso aconteceu, o câncer
voltou a atacar Ôpapa.
Ôpapa era o modo carinhoso para vovô nas terras de
onde ele veio. Seu nome era Hagust. Como era um nome
estranho para nossas terras, Klieya e eu resolvemos mudar um
pouco e chamar nosso filho de Hagusty. Assim cumprimos com
o que a mensagem me pediu.
Ôpapa nunca soube, pelo menos não por mim, que eu
sabia de toda história e fiz questão de informá-lo que seu bisneto
carregaria seu nome em sua homenagem.
Enquanto a gravidez de Klieya avançava, eu tentava não
mudar a minha vida e meu jeito de ser, mas as coisas
começaram a se complicar e passei a me sentir enredado.
Gostava de viajar para praia e de estar com meus amigos,
mas ela pensava diferente.
Achava que a turma da praia era imatura e que devíamos
mudar a direção de nossas vidas e não queria mais viajar.

42
di Arius

Como eu não queria abrir mão disso, os conflitos


começaram. Não me importava de assumir um filho e
casamento, mas porque tinha que mudar por causa disso?
Quem foi o infeliz que ditou a regra de que quando nos
casamos devemos nos anular e deixar de ser quem somos para
satisfazer as expectativas do outro?
Mais uma vez eu estava nadando contra a maré e não
querendo deixar que as regras com as quais eu não concordava
regessem minha vida. Desta vez não profissionalmente, mas em
um relacionamento.

43
Mauro Losch

Chegada e Partida

Nasceu Hagusty!
Tudo mudou mais ainda e menos eu sabia como lidar
com a situação.
Nossa casa ficou pequena e os choros noturnos de
Hagusty me tiravam do eixo.
Na mesma velocidade em que Hagusty crescia, a doença
de Ôpapa piorava.
A última lembrança que tenho dos dois juntos era
quando Hagusty corria em seu andador até a porta do quarto e
olhava para Ôpapa deitado em sua cama e dava um sorriso, o
qual ele retribuía com certo esforço.
O médico avisara que Ôpapa só resistiria mais alguns
meses.
Nessa época nos mudamos para uma casa maior e as
coisas melhoraram um pouco. Acho que a última foto que tenho
de Ôpapa e Hagusty juntos foi tirada nesta casa.
Mais uma vez aconteceu uma destas coisas estranhas que
é difícil encontrar uma explicação lógica.
Fui chamado para uma entrevista de emprego e admitido
para a vaga.
Eu gostava do meu trabalho na escola, não enviava
nenhum currículo há tempos e não estava procurando outro
emprego. Como meu currículo foi parar naquela empresa?
Era uma grande empresa fabricante de eletrônicos e de
DDs (Digitalizadores de Dados).
A empresa era bem distante de onde morávamos, mas
precisavam de técnicos para plantão de manutenção em
equipamentos que estavam instalados na montadora de
rodmobils em que meu pai trabalhou até se aposentar. O salário

44
di Arius

era muito bom, o trabalho fácil e o horário noturno, o que para


mim não era problema, pois estava acostumado a ficar acordado
até altas horas da madrugada.
Hoje percebo que lá estava ela novamente, a Força-Luz.
Agindo mesmo sem que eu percebesse.
Diziam que eu era um “Hon de sorte”, pois com tantos
batalhando por uma vaga de trabalho boa como esta e ela cai no
meu colo sem que eu nem sequer saiba de onde.
Enquanto eu continuava a encontrar meus amigos da
praia, participar de competições de tracionados com GG e fazer
mudanças malucas em nossa sala, onde quebrei a parede para
embutir um aquário que parecia um quadro e mandei fazer um
barzinho que eu mesmo projetei, para tornar o lugar mais
agradável e receber os amigos, ela achava que eu devia mudar e
procurar conviver com pessoas mais maduras.
Ora, amadurecer é abrir mão da alegria e prazer de
viver? Porque devemos abrir mão da companhia das pessoas que
gostamos e com quem temos afinidade? Quem foi que ditou a
regra que temos que nos tornar pessoas sérias e nos concentrar
em ganhar dinheiro e deixar de viver?
Eu não concordava com isso, mas Klieya tinha um ponto
de vista bem diferente. Ela priorizava sua carreira como
professora e seu desenvolvimento profissional.
Havíamos namorado pouco tempo e agora estávamos nos
conhecendo de verdade. Dia a dia nos afastávamos mais.
Em uma ocasião, houve uma parada na produção da
montadora em que trabalhava. Tivemos a oportunidade de ficar
alguns dias na praia e fomos para lá com um casal de amigos no
descanso semanal. Como a parada se estendeu, poderíamos
aproveitar e ficar mais alguns dias, mas Klieya preferiu voltar e
estudar para um teste de emprego. Então fiquei e ela retornou
com nossos amigos.
Confesso que fiquei chateado e comecei a questionar se
nosso relacionamento estava valendo a pena.

45
Mauro Losch

Aproveitei a solidão para curtir a praia e o por do Sol,


deixando que a paz me mostrasse o caminho a seguir.
No dia seguinte resolvi ligar para casa de Ôpapa e saber
notícias de seu estado de saúde e mais uma vez, o que
costumamos chamar de “coincidência” aconteceu:
- Alô. Ôma? É o Arius...
- Oi Arius, onde você está?
- Estou na praia Ôma. E como está o Ôpapa?
- Ele está piorando. Sua mãe está lá no quarto com ele
e...
Nesse momento ouvi de fundo a voz de minha mãe, que
interrompeu nossa conversa, mas eu não conseguia entender o
que ela dizia. Então Ôma voltou a falar chorando:
- Arius! O Ôpapa morreu! Ele morreu enquanto eu falava
com você. Vem para cá Arius! Vem para cá!
- Fica calma Ôma, vou o mais rápido que puder.
Ela desligou. Eu não conseguia entender! Os médicos
disseram que ele viveria mais alguns meses!
Uma mistura de dor, tristeza e culpa se abateu sobre
mim. Corri para fazer as malas e cai na autorod, guiando o mais
rápido que podia.
Quando cheguei, já haviam resolvido as questões de
translado do corpo e minha mãe me contou:
- Arius, quando Ôma saiu do quarto para atender sua
ligação, Ôpapa abriu os olhos, sentou-se na cama, levantou os
braços olhando para cima e desfaleceu na cama dando seu
último suspiro. Foi como se ele tivesse esperado ela sair do
quarto para que não visse sua partida.
Percebi que o fato de eu ligar teve participação na forma
como ele escolheu partir e mesmo distante, participei disso.
Talvez se eu não estivesse viajando, as coisas não seriam
assim.
Acho que sempre estamos onde devemos estar.

46
di Arius

Não participei muito do sofrimento de Ôpapa. Não sei


bem se eu não queria aceitar que ele estava partindo ou se não
sabia como lidar com isso.
Lembro que uma vez ele ficou internado alguns dias e
fui visitá-lo no hospital. Ele mal conseguia caminhar até o
banheiro. Naquele dia me olhou como se seus olhos me
dissessem que não queria que eu o visse naquele estado.
De qualquer forma, isso teve um efeito positivo, pois
sempre que me recordo dele, vejo o cara bem humorado e feliz
com quem convivi e não alguém definhando em uma cama.
Num momento de tristeza, fui conversar com Ôminha,
que tinha o dom de fazer com que nos sentíssemos melhor e ela
me contou uma história sobre Ôpapa, da época de meu
nascimento:
- Quando você estava para nascer, seu avô Ôpapa,
descobriu que estava com câncer e as perspectivas não eram
boas, pois se hoje ainda não há cura, na época então, as
tecnologias médicas eram menos desenvolvidas, ele estava
praticamente condenado. Então eu usei toda minha fé e pedi que
ele fosse curado para poder conhecer e conviver um pouco com
você. Ninguém acredita que minha fé tenha tido alguma
influência nisso, mas veja quantos anos ele viveu e que grande
coincidência ele partir com a chegada do bisneto!
Embora alguns pudessem duvidar que essa fé tenha tido
alguma influência nessa história, acreditei que ela teve o poder
de mudar o rumo dos acontecimentos e no poder da fé dela.
Foi a primeira vez que acompanhei um enterro de
alguém tão querido, mas não foi a última vez que me encontrei
com ele. Durante anos ele me visitou em meus sonhos. Sei que
não eram sonhos, pois eram reais demais, mas de que outra
forma posso explicar esses nossos encontros para as pessoas
sem parecer maluco? Prefiro dizer que eram sonhos a explicar
que durante a noite ia me encontrar com Ôpapa na dimensão em
que ele estava.

47
Mauro Losch

A primeira vez que eu o encontrei, fiquei confuso e


perguntei:
- O que o senhor faz aqui? O senhor não morreu?
Ele sorriu e disse:
- Se eu morri como posso estar aqui?
Sorri também e lhe dei um forte abraço.
Então ele disse:
- Vim te encontrar para te mostrar uma coisa.
Fui transportado para um vale. Era noite e havia altas
montanhas com os cumes cobertos de neve. Ao pé das
montanhas, uma cabana de madeira com pequenas janelas
iluminadas, soltava um pequeno fio de fumaça branca de uma
chaminé.
Seguimos uma trilha que levava até a cabana e percebi
que havia uma placa de madeira pendurada acima da porta, com
algo escrito na língua das terras de Ôpapa.
Percebi então que a cabana era na verdade uma taberna.
Quando entramos, vi mesas de madeira rústica, ladeadas
por bancos maciços. Diversas pessoas bebiam em canecas de
metal e conversavam alegremente.
A iluminação era suave e o ambiente era quente e
acolhedor. Logo me senti à vontade.
Então Ôpapa disse:
- Arius, esses são meus amigos da força Aqua. Alguns
lutaram ao meu lado no Grande Conflito de Shaw e outros são
do tempo de treinamento. Vivi bons momentos com eles.
Cumprimentei todos e passamos horas juntos. Não me
recordo dos rostos e nos comunicávamos de uma forma
diferente do que estamos acostumados.
Eram palavras, mas transmitidas de forma diferente.
Não me lembro dos detalhes, mas lembro do significado
e sentimento de todas as histórias que me contaram. Foi um
encontro e uma noite muito especial!

48
di Arius

Estes “sonhos” aconteceram várias outras vezes e de


formas e em situações diferentes até que um dia Ôpapa veio se
despedir e os sonhos acabaram.
Esse tipo de coisa me faz questionar se a morte é o fim
ou apenas uma passagem.
Os céticos e pseudo-sábios de Shaw, dizem que é coisa
do subconsciente, peças que a nossa mente nos prega e que
fazem com que pareçam realidade. Acho que eles não tiveram a
oportunidade de vivenciar “sonhos” como estes e muito menos a
uma saída do corpo.
Mesmo casado eu continuava tentando fazer o
desprendimento do corpo, até que novamente aconteceu. Desta
vez consegui conter meu medo, mas na empolgação tentei
acordar Klieya.
Foi uma cena bizarra. Eu me via deitado ao lado dela
enquanto tentava acordá-la para lhe mostrar que eu havia
conseguido. Lógico que não consegui acordá-la e ao invés de
aproveitar para explorar a experiência, deixei novamente ser
envolvido pela euforia e voltei bruscamente para meu corpo.

49
Mauro Losch

Escolha

No dia a dia, Klieya e eu estávamos mais distantes.


A questão de continuar ou não meu relacionamento com
ela era uma constante em minha mente e frequentemente eu
debatia comigo mesmo em meus pensamentos.
Um lado meu dizia:
- Você vive em uma boa casa, tem um bom emprego, um
filho e ela é uma boa pessoa, além de batalhadora. Porque ficar
pensando em se separar? Já pensou no que isso vai causar?
Pensou na sua família, no seu filho e nela?
O outro respondia:
- Não são essas coisas que me importam e sim o que
sinto. Acho que devo seguir o que sinto e não o que penso. Sei
que não é fácil, mas sinto que não é mais o meu caminho e
prefiro enfrentar essas coisas a ficar amargando essa dor que me
incomoda.
E era assim diariamente.
Às vezes eu provocava Klieya para ver se brigávamos
logo ou se esquentávamos nossa relação, mas tudo estava tão
apagado, que nem isso acontecia.
E a vida foi ficando vazia. A tristeza e sofrimento de
todos com a partida de Ôpapa, meu casamento cada vez mais
frio e para complicar, sofri um acidente com meu velho
rodmobil. Não me feri, mas o danadinho ficou bem avariado.
Sem meu veículo em condições de andar em uma
autorod, minhas viagens à praia também cessaram.
Foi nessa época que, no trabalho, conheci Analissy.
Uma moça linda e radiante. Meus olhos brilharam
quando a vi. Ela era muito atraente e estava envolvida com um
colega da minha seção.

50
di Arius

Aos poucos fomos nos conhecendo e sempre que a via


com meu colega, ficava profundamente incomodado.
Ele era um cara legal, mas em matéria de mulheres era
um tremendo canalha. Gabava-se de suas conquistas, falando
das mulheres como se falasse de um pedaço de carne.
Não era só eu que me incomodava com essa atitude dele,
outro colega, que também conhecia Analissy, não gostava do
que via.
Aquilo chegou a um ponto que resolvemos alertá-la.
Ela acabou se afastando dele e nossa amizade tornou-se
maior.
Conversávamos nos horários de refeição e
eventualmente ela ficava além de seu horário, que era diurno,
até um pouco mais tarde.
Falávamos sobre nosso modo de ver a vida, problemas
de família, aventuras, amigos, etc.
Minha atração por ela crescia, mas na minha cabeça
vinha a frase:
“Você é casado.”
Às vezes eu tentava umas investidas, mas ela não dava
abertura.
Para mim a coisa ficou insustentável. Mesmo achando
que não teria Analissy, o simples fato de me sentir atraído por
ela pôs um ponto final em meu casamento e resolvi separar.
Acho que não foi surpresa para Klieya eu querer me
separar, mas acho também que ela não tinha certeza se queria ou
não aquilo.
De qualquer forma foi o que aconteceu e acabei voltando
a viver com meus pais, que não aprovaram a separação, diga-se
de passagem.
Eles pensavam que era uma crise e que em breve as
coisas se acertariam.
Minha mãe gostava de Klieya e achava que ela seria a
mulher que me “colocaria na linha”.

51
Mauro Losch

Porquê os outros tem que querer nos mudar?


Porquê temos que seguir as regras que alguém inventou e
aceitá-las?
Não seria melhor se aceitássemos as pessoas como elas
são?
De qualquer forma, essa pressão não funcionou.
O caminho que escolhi, pode não ter sido o mais fácil,
mas me trouxe onde estou hoje e colocou novos e maravilhosos
personagens em minha vida.
Resolvi viajar para praia e esfriar a cabeça.
Como meu veículo não estava em boas condições, pedi
emprestado a bimobil de um amigo, mas teria que trabalhar
ainda alguns dias antes do próximo descanso semanal.
Em um desses dias encontrei com Analissy.
Conversamos e contei a ela sobre minha separação.
Ela lamentou que o casamento houvesse acabado, mas
percebi um brilho em seu olhar e arrisquei convidá-la a ir para a
praia comigo. Para minha surpresa, ela aceitou.
Combinamos então sair direto do trabalho, no fim da
tarde do último dia de trabalho. Viajaríamos a noite para
aproveitar bem o descanso semanal.
Os pais de Analissy também estavam se separando e para
evitar problemas com sua mãe, ela disse que iria ficar na casa de
uma amiga.
Chegou o dia da viagem.
Montamos na bimobil e pegamos a autorod animados.
Já começava a escurecer e quando estávamos a caminho,
nada elétrico funcionou na bimobil. Ficamos sem faróis e era
impossível viajar assim.
Paramos em uma oficina, mas o técnico não conseguiu
identificar o problema e não tinha peças de reposição.
Ficamos em uma situação complicada.
O que Analissy diria à sua mãe se voltasse para casa para
viajar no dia seguinte?

52
di Arius

Resolvemos então procurar um lugar para nos


hospedarmos e seguiríamos viagem no dia seguinte.
Alugamos um quarto de hotel para passar a noite e foi
uma situação estranha.
Éramos amigos e passaríamos a noite juntos.
Conversamos, jantamos, assistimos um pouco de tele-
imagem e fomos dormir.
Dormir? Quem disse que conseguíamos.
Eu não queria precipitar as coisas.
Estava saindo de um casamento e já ia me envolver com
Analissy?
Mas foi inevitável e começamos ali, naquele quarto a
namorar. Mal sabia eu que hoje, vinte anos depois, ainda estaria
com ela.
Amanheceu.
Montamos na bimobil e para nossa surpresa toda parte
elétrica funcionou perfeitamente.
Mais uma vez o “acaso” passou pela minha vida, pois a
bimobil nunca mais apresentou o problema elétrico daquele dia.
A viagem foi tranquila e agradável e quando chegamos
na praia, toda turma já estava lá.
Apresentei Analissy que foi muito bem recebida e aceita
por todos com festa.
Assim começou nosso namoro e nossa história juntos.
Após este fim de semana viramos um “grude”, sempre
juntos e sempre nos falando. Estar longe dela era como estar
incompleto.

53
Mauro Losch

Analissy

Analissy era uma moça–moleca, mas de personalidade


forte.
Tinha uma postura de modelo e chamava a atenção por
sua beleza, mas o que realmente mexia comigo era algo que eu
via em seu olhar e que ninguém mais via, acho que nem ela
mesma. Era como se a conhecesse há muito tempo. Como se
houvesse uma ligação inexplicável entre nós.
Eu estava de volta ao meu quarto das madrugadas, onde
escrevia e tinha a companhia do meu kordsom.
Às vezes escrevia coisas para Analissy e lhe entregava
quando nos encontrávamos.
Além de nos divertirmos e namorarmos, sempre
falávamos sobre espiritualidade e do nosso modo diferente de
ver o mundo, mas às vezes eu “viajava” demais e ela não
compreendia o que eu dizia.
Eu achava que tinha que mostrar a ela as coisas que via e
então dava umas forçadas de barra.
Queria ser transparente com ela e que ela me
acompanhasse, então escrevi um texto que chamei de Anúncio:

“Sou uma espaçonave subindo.


Não preciso e não quero nenhuma carga.
Aceito naves de apoio que tenham a mesma força ou
pelo menos que tenham a mesma rota traçada.
Tenho combustível suficiente para ir até o mundo que eu
quiser.
Tenho alguns objetivos e rotas traçadas dos quais não
abro mão.

54
di Arius

Não vou mudar meus caminhos por nada e nem por


ninguém.
Se você puder ser minha nave de apoio, se conhece
caminhos para mundos diferentes de todos, se você quiser
conhecer os meus e principalmente, se você adora se aventurar
em viagens por mundos novos e desconhecidos, só precisarei de
você e mais ninguém.
Para seguirmos nossa viagem, nada poderá interferir,
nada será mais importante e você terá que me amar tanto
quanto eu te amarei, pois o amor será o fator principal da nossa
viagem.
Deixaremos esse mundo para os seres que o criaram e
para os que não querem sair dele.
Aprenderemos todos os caminhos para todos os lugares
a ajudaremos a todos que se interessarem a segui-los.
Nossa vida será uma eterna viagem e se você fraquejar,
te apoiarei e vice-versa, mas se você desistir ou esquecer nosso
ideal, te deixarei para seguir viagem sozinho ou com outra
pessoa que se interessar.
Tudo o que você fizer terá que ser de boa vontade, te
darei toques, mas nunca te cobrarei nada e nunca te darei o
direito de me cobrar nada.
Se você se interessa, favor me procurar.
Serão dados maiores detalhes sobre os mundos
desejados e as rotas a serem seguidas.
Favor só entrar em contato quem estiver realmente
interessado.
Descarto pessoas carentes, materialistas, problemáticas
ou sem consciência real do solicitado e da importância do
assunto.
Entrar em contato por qualquer tipo de comunicação.”

No rodapé do texto, escrevi:

55
Mauro Losch

“Analissy,

Um balão nunca deve ficar amarrado em um peso.


Deve voar solto ou amarrado a outro balão.
Eu prefiro a segunda opção.
E você? Prefere qual?

Arius “

Mas que papo maluco é esse?


Para onde vai essa nave e esse balão?
O que isso tem de diferente?
Na época eu já sabia lá no fundo que a viagem é em
direção a Força-Luz e que a única forma de fazê-la era não
deixando que as regras e crenças que cegaram todos os Hons de
Shaw nos enredassem, mais não tinha uma consciência tão plena
disso como hoje.
Era mais como uma intuição ou uma sabedoria interior
ainda não totalmente revelada.
Eu já sentia que tinha que aprender mais sobre essa nova
consciência e que um dia me tornaria um trabalhador da Força-
Luz, mas ainda havia um caminho muito mais longo a percorrer
do que eu imaginava.
A reação de Analissy foi bem diferente do que eu
esperava. Ao invés de se colocar no lugar da nave de apoio, ela
se viu como sendo uma carga. Ela não sabia ainda que também
era uma espaçonave subindo. Talvez por suas desilusões ou
pelas dificuldades que passava. O resultado foi que ficou
chateada e isso deu uma balançada em nossa relação.
Relendo o que e escrevi, tive que concordar que o
“Anúncio” estava mais para “Ultimato” e escrevi outro texto:

“Meu sentimento não mudou.

56
di Arius

Sinto o mesmo em relação a você. Gostaria de sentir


cada vez mais.
Desculpe se te magoei. Não foi minha intenção.
Só o que eu queria era te puxar para o meu mundo.
Se isso é pesado para você, também é pesado para mim.
Talvez um dia você veja as coisas como eu e ache que
nada do que escrevi é pesado e sim simples e lindo.
Esperava outra reação sua.
Sinceramente achei que você fosse tentar se aproximar
mais e entender o que quis dizer.
Tudo bem. Demorei anos para ver o que vejo agora,
talvez por não ter encontrado ninguém que me ensinasse ou
então porque eu tinha que ver tudo da forma que vi, por mim
mesmo.
Não sei se é possível cortar caminho. Para dizer a
verdade, não sei nem qual o caminho que você quer seguir ou
para onde quer ir.
Eu quero que nós dois sejamos felizes.
Estou me sentindo péssimo e egoísta.
Sinto que estou tentando te manobrar e guiar por
caminhos que você aprecia, mas não está afim ou pronta para
seguir.
Por favor, me desculpe.
Eu não sei se você tem os mesmos ideais que eu ou se só
os acha bonitos e acredita neles.
A única forma que eu conheço de saber o que se passa
em sua cabeça é te chacoalhando e esperando você por tudo
para fora.
Foi desta forma que eu te senti com toda intensidade e
consegui ficar mais perto de você outras vezes.
Só que eu não tenho a intenção de arrancar mais nada
de você, essa foi a última vez.
Daqui para frente eu quero as coisas saindo de você
naturalmente.

57
Mauro Losch

Gostaria de ouvir tanto quanto falo, mesmo que sejam


perguntas, pelo menos vou sentir mais interesse.
Quero sinceramente que você seja sempre você mesma,
só que quero saber quem você é de verdade e se realmente é
como eu acho que é.
Já me iludi outras vezes e estou super envolvido com
você.
Quero um relacionamento com grandes chances de
futuro e não apenas mais um envolvimento com final.
Se eu estou te fazendo mal, te enchendo ou pedindo
demais para você, não pense duas vezes em me dispensar, só
que realmente faça isso, não me deixe no ar.
Para finalizar, um balão amarrado a outro voa bem
mais e isso não tem nada de pesado.
O resto tem que ser conversado.
Quem sabe em uma viagem gostosa no fim de semana...”

Nesse momento o que me importava era que Analissy e


eu acertássemos os ponteiros.
Já era época das festas Jacolianas e resolvemos passar as
festas cada um com sua família.
Minha mãe tinha esperanças de que eu voltasse com
Klieya e na tentativa de nos aproximar, convidou-a para passar a
noite de comemoração de Jacolai conosco.
Embora eu não tivesse nenhuma raiva ou mágoa em
relação a ela, aquilo não me agradou muito, mas como de certa
forma eu carregava um sentimento de culpa pela nossa
separação, resolvi relevar.
A noite foi boa e era bom estar perto dela. Comecei a
questionar se eu havia tomado a decisão correta.
É fácil esquecermos tudo que se passou quando estamos
envolvidos em um ambiente de festa e amor.
Após a comemoração, levei Klieya para casa e ela pediu
para que eu entrasse e conversássemos um pouco.

58
di Arius

Falamos sobre nós, sobre o que deu errado, sobre a


possibilidade de arrumar as coisas e balancei.
Será que eu estava sendo inconsequente, egoísta e que o
que sentia por Analissy não era só uma paixão que acabaria
passando?
Acabei ficando aquela noite com Klieya e as dúvidas
martelavam minha cabeça.
Será que eu não deveria dar mais uma chance para nosso
casamento?
Fiquei muito confuso.
Após alguns dias encontrei com Analissy e não me sentia
bem com a situação. Resolvi não esconder nada e contei a ela
tudo que aconteceu e como estava confuso. Esperava uma
reação agressiva da parte dela, o que seria normal, mas ela me
surpreendeu e não brigou, não me repreendeu e nem chorou.
Simplesmente ela disse:
- Não quero isso para minha vida. Embora eu goste de
você não quero uma relação confusa assim e não vou forçar a
barra. É melhor nos separarmos e você fazer o que é melhor
para sua vida.
Ela se despediu e saiu andando pela rua até sua casa.
Fiquei ali parado e vendo aquela pessoa incrível indo
embora e já naquele momento me arrependi, mas queria ter
certeza.
Analissy viajou para as Terras do Sul, onde viviam seus
parentes e eu fiquei para resolver minha vida, mas não passava
um segundo sem que eu não pensasse nela e sentisse sua falta.
Tentei conversar novamente com Klieya para entender se
o meu sentimento e ligação com ela era maior do que com
Analissy e se eu não estava sendo passional demais, mas não
restou um pingo de dúvida em meu coração. O que eu sentia por
Klieya era carinho e respeito, acompanhados de um sentimento
de culpa por nossa relação não ter dado certo, mas o que eu
sentia por Analissy era AMOR verdadeiro.

59
Mauro Losch

Foram dias angustiantes tentando entrar em contato com


Analissy e pensando nela. Eu a queria de volta em minha vida.
Será que ela me perdoaria?
A única coisa que tinha certeza era que eu não queria
mais ficar com Klieya e que independente de Analissy voltar ou
não para mim, essa relação tinha terminado definitivamente.
Assim que ela voltou de viagem, nos encontramos e
tivemos uma longa conversa e naquele momento percebi porque
eu a amava tanto.
Ela foi firme e doce, direta e compreensiva.
Ouviu, entendeu e não me julgou ou culpou pela minha
fraqueza, mas deixou bem clara sua posição em relação a nós,
mesmo sem ter que dizer isso.
Ela me mostrou tudo com atitudes e não com palavras.
Nesse momento percebi que nossa história iria longe.
Aprendi uma nova forma de amar e expressei
escrevendo:

“O amor verdadeiro não sofre.


No amor a posse inexiste, os seres são ligados por
natureza e presos por vontade própria.
É a prisão mais livre do universo.
No amor os seres trabalham o que eles tem de melhor e
se doam sem esperar nada em troca além do prazer de ver o
bem que se fez ao outro.
Quando o sentimento é recíproco, crescemos com uma
rapidez e força inexplicável, mas real e comprovada.”

60
di Arius

Visão

Comecei a me re-encontrar e tentar entender os fatos de


minha vida.
Em minhas madrugadas, continuavam minhas tentativas
de desprendimento do corpo, até que um dia aconteceu de forma
contundente.
Me libertei! Consegui!
Desta vez mantive a calma e aproveitei a experiência.
Saí flutuando para fora do planeta Shaw. Foi uma visão
magnífica!
Parei bem distante, de forma que podia ver todo o
planeta e comecei a admirar sua beleza.
Repentinamente começaram a surgir pequenos pontos
luminosos. Pipocaram com tanta rapidez que cobriram toda
superfície e Shaw inteiro se tornou luz.
De cada ponto que surgia, saia um fino fio de luz que ia
para o espaço. Todos para mesma direção.
Fiquei estupefato com o que vi!
Segui com os olhos aqueles fios, que já eram incontáveis
e formavam um facho gigante de luz sobre Shaw.
O planeta brilhava mais que uma estrela.
O facho de luz ligava-se a uma mancha iluminada tão
grande que era impossível ver seu final.
Essa mancha de luz infinita parecia viva, se
movimentava e vibrava.
Instintivamente comecei a flutuar até ela.
Eu queria entrar naquela luz e ver do que ela era feita.
Queria senti-la de perto.
Fui me aproximando rapidamente.

61
Mauro Losch

Senti uma vibração imensa e sons que não tenho palavras


para descrever.
Insisti na tentativa de entrar naquela luz, mas a vibração
e o som ficaram tão intensos que não suportei.
Fui arremessado instantaneamente de volta ao meu
corpo, numa velocidade incrível. O retorno foi mais rápido que
um piscar de olhos.
Ao voltar para meu corpo, sentei e fiquei atônito.
O QUE FOI ISSO?
SERÁ QUE VÍ DEUS?
Hoje sei que de certa forma foi isso mesmo que
aconteceu.
Entendi que aquela mancha foi um contato direto com a
Força-Luz e uma visão de que tudo que existe está ligado a ela.
A conclusão que conseguia chegar na época era que aquela luz
era a fonte de tudo que existe no universo e que se eu
descobrisse como me comunicar com ela, teria uma sabedoria
infinita.
Não tinha descoberto até então que nós somos parte
daquela luz. Viemos dela e para ela voltaremos um dia.
Fiquei meio que “viajandão” por um tempo, sem
entender para que eu havia tido aquela visão e o que mais eu
tinha que mudar na minha vida.
Na época não existia ainda DDP (Digitalizador de Dados
Pessoal) e muito menos a RIDD (Rede Interligada de
Digitalizadores de Dados).
Se queríamos buscar informação tínhamos que procurar
em livros ou palestras. As redes de tele-imagem e tele-som não
falavam sobre espiritualidade, como não falam até hoje, pois são
do domínio de Ekus.
Acho também que o contato que tínhamos com a Força-
Luz na época não estava tão aberto para os Hons como está hoje
em dia e além do mais, a vida física continuava e eu tinha muito
que fazer além das minhas viagens espirituais.

62
di Arius

União

Meu namoro com Analissy ia muito bem, mas minha


família não aceitava isso. Na cabeça deles, isso diminuía as
esperanças de eu me acertar com Klieya, coisa que para mim já
estava definida.
Sentia que a casa de meus pais não era mais meu lugar.
Acho que uma vez que saímos da casa de nossos pais
para seguir nossa vida, fica complicado voltar. É como se fosse
um retrocesso.
Para Analissy, as coisas também não iam bem, pois com
a separação de seus pais ela discutiu com sua mãe e teve que
sair de casa. Acabou indo morar com uma amiga.
O pai dela estava vivendo temporariamente nas Terras
do Sul e alugaria uma casa onde morariam juntos, portanto
aquela situação deveria ser provisória.
Analissy e eu estávamos procurando casas e
apartamentos para alugar e sempre que encontrávamos algum o
pai dela dispensava e encontrava alguma desculpa.
A situação foi se complicando e Analissy teve que sair
da casa da amiga e ir morar com uma prima.
Ela não aguentava mais essa situação e estava cada vez
mais infeliz, até que um dia seu pai resolveu que iria morar
definitivamente nas Terras do Sul e Analissy ficou sem
perspectivas.
Eu não gostava de vê-la naquela situação e ao mesmo
tempo o clima em minha casa não era dos melhores.
Resolvemos então juntar o útil ao agradável e alugamos
um apartamento para nós dois.
Foi como se tudo tivesse se desenhado.

63
Mauro Losch

Desde o problema elétrico da bimobil, que acelerou o


início da nossa relação, até os problemas de moradia, isso tudo
foi nos aproximando cada vez mais, até que nos juntou de vez.
Como tudo em nossa vida era fora dos padrões de Shaw,
nossa mudança para o apartamento não poderia ter sido
diferente.
Nossos bens eram nossas roupas, um colchão, algumas
almofadas, uma pequena tele-imagem antiga e um velho
bugmobil que adquiri com a venda de meu rodmobil avariado.
Almoçávamos e jantávamos no refeitório da fábrica ou
comíamos bombons e tomávamos refrigerantes.
Não nos faltava nada.
Tudo que precisávamos estava ali:
Um teto, um colchão e nós.
Mas as pessoas não entendem que na simplicidade é que
mora a felicidade. Que o amor vale mais do qualquer bem
material e que nele estamos confortáveis.
Lógico que mobílias e alguma tecnologia ajudam, mas
são conquistas secundárias e não eram nosso foco principal.
Sabíamos inconscientemente que tudo viria no seu
devido tempo e tínhamos uma palavra mágica: DANE-SE.
Se alguém nos criticava. DANE-SE
Se estávamos sem dinheiro. DANE-SE
DANE-SE para nós significava que não ligávamos, que
sabíamos que o que era para ser, seria e ponto final.
Aceitávamos a vida e as coisas como eram e deixávamos
rolar.
Aos olhos dos outros, a coisa não era bem assim.
Meus pais achavam que era uma aventura irresponsável
e o pai de Analissy veio querer dizer que eu tinha que dar mais
conforto para sua filha.
Ora! Justo quem a deixou a deriva veio me dar lição de
moral?

64
di Arius

Klieya não digeriu nossa separação e minha relação com


Analissy, começando a mostrar seu lado mais amargo.
O que sei é que Analissy e eu fomos muito felizes
ignorando as regras e opiniões dos outros, deixando-os lá no
mundo deles.
Comíamos bombons em nosso colchão, viajávamos
sempre que dava, namorávamos muito e tudo dava certo, só que
parece que quando as coisas ficam bem, sempre vem algo
tentado estragar tudo.
Embora um terço de meus ganhos fossem para o sustento
de Hagusty, Klieya sempre achava uma forma de mostrar sua
amargura e descontentamento.
Meus pais não escondiam a desaprovação por minhas
decisões e atitudes.
No trabalho um novo e metódico chefe começou a me
chatear. Percebi que meu jeito livre de ser o incomodava.
No trabalho de Analissy a coisa também desandou e ela
começou a querer algo que fosse melhor para sua vida e não ter
mais que se subordinar às cobranças e rotinas burocráticas que
suportava diariamente.
Por outro lado havia seres que estavam despertando para
a Força-Luz e que escreviam livros, faziam palestras sobre a
existência de seres extraplanetários e recebiam mensagens
telepáticas com ensinamentos sobre nossa verdadeira essência.
Um amigo meu chegou até a largar tudo para ir
experimentar um retiro espiritual e se descobrir.
Isso tudo me fascinava, mas o mundo de Ekus
continuava existindo e cobrando a sua parte.
Foi uma época em que estive muito divido. Era com se
eu vivesse hora com um pé lá, hora com um pé aqui.
De um lado as cobranças do dia a dia e do outro, o
mundo invisível e impalpável. Não conseguia encontrar um
meio termo, não sabia juntar esses dois mundos e a existência
era algo complicado de entender.

65
Mauro Losch

Balela?

Minha experiência como pai não era das melhores.


Quando morava com Klieya, não tinha paciência com
Hagusty que desde pequeno era um tanto quanto agitado e eu
discordava da visão de criação dela.
Agora que estávamos separados a coisa piorou.
Na minha opinião, ela não aplicava o dinheiro da pensão
de Hagusty de maneira adequada e eu não concordava com a
forma como o educava.
Não estou afirmando que eu estava certo, mas era como
eu via as coisas.
De qualquer forma, passei a achar que ser pai era algo
que eu não sabia ser. Era algo que me prendia, incomodava e
pesava.
Mas o meu ser queria me mostrar que eu estava errado e
que conviver com um filho pode ser algo muito bom.
Mesmo que eu não visse isso, a vida iria me mostrar da
sua forma. E realmente mostrou.
Analissy engravidou.
Fiquei perdido.
Filho para mim era sinônimo de problema.
Desde que me lembro, sempre afirmei que não queria ter
filhos e agora seria pai novamente!
Isso não podia estar acontecendo. Sempre tomamos
cuidado para não engravidar!
Meu tato de rinontossauro ressurgiu das cinzas e joguei
todo peso da minha angustia sobre Analissy.
Disse a ela que não queria ser pai e que preferia que não
tivéssemos esse filho.
Ah! Como a magoei.

66
di Arius

Pobre menina-mulher que confiava em mim e no


momento que ela precisava de meu apoio, tomei uma atitude
dessas!
Para piorar a situação, a demissão de Analissy estava em
andamento e não teríamos suporte médico. O sonho dela de
trabalhar com o que gostava se desmantelava. A gravidez
complicou todas as coisas.
Achei que meu mundo estava desabando, que tudo o que
eu buscava era sem sentido e que o certo mesmo era eu ser um
robozinho, como todos.
Comecei a questionar se esse lado espiritual não era
balela ou fuga da realidade.
Hoje percebo que os fatos que nossa mente vê como
problemas e dificuldades, não são nada mais do que
oportunidades de crescimento e evolução que nossa Divindade
nos proporciona. Para que eu me conscientizasse
definitivamente disso, ainda teria uma longa caminhada e teria
que dar muitas cabeçadas.
Quando a poeira baixou, Analissy e eu conversamos com
calma e resolvemos ter o bebê.
Tentamos reverter a demissão dela, mas a empresa não
quis nos ouvir e a dispensou assim mesmo. Começou aí uma
briga judicial que perdurou anos.
Como fui tolo! Como hoje vejo o grande presente que foi
esse filho e a lição que ele me trouxe. Assim como também vejo
o presente que foi Hagusty e como é bom quando vejo seu
amadurecimento e crescimento.
Se naquela época eu tivesse a consciência que tenho
hoje, teria agido diferente, mas fiz o que sabia e sei que tudo que
aconteceu foi planejado por uma inteligência diferente, para me
ensinar como viver minha Divindade em um mundo dominado
por Ekus.
Mesmo eu começando a abandonar minha fé, a Força-
Luz continuou me apoiando.

67
Mauro Losch

Mobiliamos nosso apartamento com alguns dos móveis


que sobraram de mudanças que minha Tia e Ôma fizeram e
vendemos nosso bugmobil para comprar um gelador de
alimentos e um cozedor.
Adquirimos uma bimobil nova, financiada, que mais
tarde foi vendida para comprarmos outro rodmobil.
Começamos a planejar a nossa nova fase e a curtir a
gravidez, mas minhas buscas espirituais foram minguando e
comecei a entrar no mundo de Ekus. Comecei a perder minha
coragem e a entrar na vibração do medo, como a grande maioria
faz.
Medo de perder o emprego, medo do futuro , medo do
que a vida podia me trazer...
Minha tia decidiu mudar-se para as terras distantes.
Vendeu sua casa e adquiriu uma mais próxima da casa de minha
mãe, onde Ôma foi morar.
Após a morte de Ôpapa, Ôma entrou em depressão e
acharam melhor que ela morasse próxima aos meus pais, pois
assim seria mais fácil de cuidar dela.
Durante um tempo a casa de Ôma e Ôpapa ficou vazia.
Resolvi conversar com minha família e pedir para que
morássemos lá. Assim nos livraríamos do aluguel e além do
mais, me agradava muito a idéia de morar na casa que eu tanto
gostava e onde vivi tantos bons momentos de minha vida.
Embora tudo se desenhasse bem, Analissy ainda não era
bem aceita por minha mãe, que não a tratava mal, mas
claramente apoiava Klieya em suas lamentações e crises de
amargura. Acho que em sua cabeça Klieya continuava sendo a
mulher ideal para mim e tinha medo de perder o contato com
Hagusty.
O meu relacionamento com Klieya só piorava.
Eu sempre tive a esperança de que um dia poderíamos
conviver todos bem, como amigos, mas a cada dia que se
passava, o cabo de guerra aumentava.

68
di Arius

Eu torcia para que Klieya encontrasse alguém, um


namorado ou parceiro que fizesse com que ela se livrasse de sua
raiva e amargura, mas isso estava difícil de acontecer.
Meu pai foi quem melhor aceitou Analissy, mas estava
no auge de seu alcoolismo e não tinha muita força dentro da
família. O relacionamento dele com minha mãe estava em
pedaços e ela no limite de sua paciência.
Mesmo no meio do caos, a Força-Luz trabalha
silenciosamente e age tentando amenizar as dores e iluminando
a escuridão. Ela vai lentamente nos guiando pela nossa
existência e escrevendo nossa história da forma mais adequada
para nossa evolução. Mesmo que não estejamos cientes disso,
assim é.
Surgiu uma oportunidade de trabalhar durante um mês
em outra província e o dinheiro extra desse trabalho seria o
suficiente para cobrir todas as despesas para o nascimento do
bebê.
Combinei com Analissy que só aceitaria viajar se ela
ficasse na casa de meus pais durante esse período, pois eu não a
queria sozinha com a gravidez tão avançada.
Ela concordou e viveu o drama de meus pais por esse
tempo. Pôde então ver de perto o alcoolismo de meu pai, a
desilusão de minha mãe, a situação de minha irmã Naty que
ainda morava com eles e que nessa época já tinha um filho.
Analissy que tinha um gênio forte, vendo a situação de
meu pai, não se aguentou e disse a ele:
- Gosto muito do senhor, mas se não parar de beber,
nunca deixarei que toque em meu filho.
Imagine como deve ter sido pesado para ele ouvir isso de
alguém que mal acabara de entrar para a família?
Minha irmã também já havia dito algo semelhante para
ele em relação a seu filho e minha mãe lhe deu um ultimato:Ou
ele parava de beber ou a perderia

69
Mauro Losch

Aos poucos ele acabou percebendo que se não tomasse


uma atitude, perderia tudo e todos e decidiu tratar a doença do
alcoolismo.
Nunca mais colocou uma gota de álcool na boca.
Enquanto Analissy convivia com o drama deles, eu
estava distante e escrevia para ela:

“Província de Tibay, Dia 2 do período 7 do ano 91


Era 19 de Jacolai

Analissy,

Ontem quando deitei na cama, deixei que todos meus


sentidos ficassem livres, como há muito tempo eu não fazia e o
resultado foi o texto que segue no final desta carta.

O quarto aqui é pequeno, tem um beliche e duas camas.


A janela é um vitrô que dá para rua e no lugar da
cortina há um cobertor e um lençol pendurados.
A sensação que tive ao entrar é de que aquela janela
nunca havia sido aberta, por isso o cheiro de mofo misturado
com a respiração dos dois que estavam dormindo e o de roupas
usadas ou molhadas.
Quarto onde vivem quatro homens não é bem o que se
pode chamar de organizado, embora organização não seja o
meu forte.
Saí daí com tempo frio, bem agasalhado e aqui a
temperatura é mais alta. A viagem foi meio tensa, pois estava
preocupado com os reparos que fizemos no rodmobil e com o
caminho, que não conheço bem.
Após a noite toda trabalhando, precisei de um bom
banho antes de deitar.
O banheiro é pequeno e sem Box. Os azulejos e o piso
são antigos (a casa é antiga) e não se pode dizer que tenham

70
di Arius

sido limpos recentemente. O vaso tem até uma crosta de sujeira


e nunca vi tantas mosquinhas juntas num só lugar como nesse
banheiro. Dava para alimentar muito bem todos nossos
peixinhos com elas.
Tomei banho e enxuguei o chão com o rodo e fui para o
quarto.
Antes de deitar abri um pouco e o vitrô de cima e puxei
um pouco de lado o cobertor para entrar um pouco de ar e de
luz da rua, pois não estou acostumado com o lugar e se
precisasse levantar, dava para ver um pouco.
Deitei olhando para o teto e tentei ignorar o ronco dos
que estavam dormindo e comecei a pensar e sentir.
Pensei como seria estar deitado em nossa cama-colchão
toda rasgada, no chão, assistindo alguma bobeira na tele-
imagem e com a meação dos gatos no quintal.
Depois abraçar você, sentir o bebê mexer e seu
cheirinho. Já tinha até esquecido de como é bom seu cheiro,
mesmo estando com você.
Se desse fome eu podia comer uma bolachinha ou você
fazia uma vitamina.
Senti saudades, tristeza, solidão, angustia e agonia.
Fiquei com raiva de estar aqui e nem lembrei mais do
porque estar passando por isso.
Depois comecei a meditar sobre tudo, a entender e me
sentir melhor.
Na verdade fiquei até contente por estar me sentindo
desse jeito.
Não sou apegado a bens materiais, mas adoro o modo
como vivo aí com você e já estou com vontade de voltar.
Não precisa se preocupar nem ficar com dózinha de mim
que não estou sofrendo tanto assim.
Vê se cuida direitinho ta bom?

Te Amo,

71
Mauro Losch

Um beijo.

Arius

Segue o texto que te falei:

Toda vivência tem seu valor, basta sabermos vê-lo.


Nada que nos acontece é sem sentido.
O fato de estarmos em um determinado lugar, ou vendo
algo novo, ou até mesmo na rotina, sempre mostra algo para
que meditemos e cresçamos.
Parece frase feita, mas é muito mais que isso.
Se prestarmos atenção, veremos que frequentemente
estamos nos testando e que as situações em que nos
encontramos foram criadas por nós mesmos, ou por
necessidade de crescimento, ou por carma de vidas passadas.
As emoções não são supérfluas e não devem ser
podadas, devem ser entendidas, vividas sob um certo controle,
mas com força, soltas e sem vergonha.
Depois devem ser analisadas, não só pela lógica da
mente e sim pela lógica interior que é infinitamente maior.
Existem sentimentos que não queremos ter, mas que são
ótimos.
A saudade de alguém ou de algum lugar, nos mostra o
valor que aquilo tem para nós.
A angustia ou a agonia, mostram que é preciso alguma
mudança em nossas vidas.
A tristeza nos mostra o quanto éramos felizes e porque.
A solidão faz com que vejamos como a convivência é
importante.
Todas devem ser encaradas como ensinamentos e nos
mostram caminhos para melhorarmos nossas vidas.”

72
di Arius

Logo voltei para meu querido lar com minha amada


companheira Analissy e aprendi a curtir mais tudo o que tinha.
Esta viagem foi boa para fazer com que eu voltasse a me
conectar um pouco comigo mesmo, mas isso não perdurou.
Parei de tentar minhas viagens fora do corpo, escrever,
ler, buscar palestras esotéricas e curtir meu kordsom já fazia
algum tempo.
Passei a curtir mais a gravidez e esperávamos que uma
menina nascesse em breve, pois foi o que os exames disseram
que seria.
A intuição do médico que cuidava de Analissy dizia que
seria um menino, mas não demos muita atenção a ele.
Achávamos que era impossível um exame de alta
tecnologia, que mostrava até imagens intra-uterinas pudesse
estar errado, porém estávamos enganados e nasceu nosso
menino.
Foi uma pequena amostra de que a intuição pode ser
mais certeira do que um aparelho de alta tecnologia.
Nós mesmos devíamos ter percebido isso, pois não
conseguíamos escolher um nome de menina para nosso bebê.
Durante a gravidez, sempre que começávamos a falar os
possíveis nomes femininos o bebê ficava agitado dentro dela e
começava a se remexer e chutar e nunca conseguíamos nos
decidir, mas assim que ele nasceu, encontramos facilmente um
nome: LAKUS.
Achávamos um nome bonito e forte. Além do mais era o
nome de um dos seguidores de Jacolai. Então assim ficou,
Lakus, um bebê lindo, de cabelos e olhos claros.

73
Mauro Losch

Involução

Passei a trabalhar no período diurno para poder ficar a


noite em casa com eles. Embora neste horário de trabalho eu
fosse obrigado a ter mais contato com o chefe chato, a rotina
fosse mais estressante e os ganhos financeiros fossem um pouco
menores, quando eu chegava em casa e curtia a companhia de
Analissy e Lakus, tudo valia a pena.
Quanto mais nos firmávamos como família, pior ficava a
relação com Klieya. Frequentemente eu comparava a forma
como criávamos Lakus com a forma como Hagusty era criado e
entrava em conflito com Klieya.
Hagusty quando estava conosco era um amor de criança
e não tínhamos problema. Ele era um pouco estabanado, mas
fazia parte dele ser assim e aprendemos aceitar isso, porém
quando minha mãe estava junto, a coisa mudava de figura.
Analissy e eu tratávamos Hagusty da mesma forma que
tratávamos Lakus e minha mãe achava que ele era um
coitadinho que tinha os pais separados e que merecia atenção
especial, o que atrapalhava nosso convívio.
Hagusty, como qualquer criança, percebia até onde podia
ir. Aproveitava-se daquela brecha e tornava-se problemático e às
vezes até insuportável.
Sei que minha mãe agiu da forma que achava correto,
deu todo seu amor da forma que sabia dar e não a culpo, mas
isso desgastava nossa relação. Além disso, continuava amiga de
Klieya e contava para ela coisas que não deveria. Até meu pai
tomou nosso partido quando discutíamos e pedíamos que ela
entendesse que Klieya deveria ter menos conhecimentos sobre
coisas de nossa família, mas isso continuou por um bom tempo.

74
di Arius

Minha vida passou a ser trabalho, filhos, família,


desgastes e estresse.
Aquilo virou minha realidade e a espiritualidade tornou-
se um sonho distante, um certo devaneio que um dia tive, que
ainda me acompanhava, mas que eu não dava a devida atenção.
Comecei então a me tornar um ser padrão, como todos os
seres de Shaw são e as coisas começaram a se complicar.
O gerente que me contratou e gostava de mim e de meu
trabalho, saiu da empresa para montar uma tal central de RIDD
(Rede Interligada de Digitalizadores de Dados).
Não entendi bem do que se tratava. Era algo sobre
interligar todos os digitalizadores do planeta, pois o avanço da
tecnologia permitiria digitalizadores menores, mais potentes e
de custo mais baixo, o que possibilitaria que muitos tivessem
um digitalizador pessoal em casa.
Com a saída dele da empresa, acabei ficando totalmente
subordinado ao chefe com quem não me dava bem e o inevitável
acabou acontecendo. Fui demitido.
Eu maldizia o chefe, Klieya e a vida. Tornei-me amargo
e revoltado. Não queria voltar a trabalhar em uma empresa,
queria um negócio próprio.
Foi nessa época que fizemos um grande bota fora em
casa e começamos a nos livrar de tudo que era velho e inútil.
No meio da bagunça encontrei uma pasta cheia dos
textos que escrevia em minhas madrugadas. Havia material
suficiente para um pequeno livro. Achei que tudo aquilo era
bobagem do passado e da minha juventude.
Estava me convencendo de que a vida real era essa
batalha diária para conquistar as coisas e que o resto era balela.
Analissy guardou tudo que era dela, inclusive coisas que escrevi
para ela, mas eu joguei tudo o que era meu no lixo.
Não voltei ao ponto zero. ANDEI PARA TRÁS.
Esqueci tudo que sabia. Deixei me cegar pelo sofrimento
e armadilhas de Ekus e quando nos distanciamos de nossa

75
Mauro Losch

Divindade só atraímos mais e mais sofrimento. Ao abrir as


portas para o domínio de Ekus transformei minha vida em um
drama.
Hoje sei que esse drama não passava de ilusão, mas
quando entrei nele, parecia muito real.
Eu deixei minha vida tornar-se nesse drama.
Comecei a trabalhar como autônomo e Analissy arrumou
um emprego em uma empresa financeira.
Meu trabalho não rendia nada e ao mesmo tempo eu não
cuidava de forma devida das tarefas da casa.
O salário de Analissy era bem menor e ainda tínhamos
que pagar a pensão de Hagusty.
Cada vez mais as coisas desandavam e nós entrávamos
cada vez mais em conflito.
Comecei a me sentir um inútil. Em minha cabeça, não
me reposicionaria profissionalmente, pois estava defasado em
meus conhecimentos e também não queria voltar a trabalhar
para os outros.
Nossas viagens para praia eram cada vez mais raras e
quando íamos, encontrávamos poucos amigos da turma.
Alguns haviam se mudado para outras províncias mais
distantes, outros estavam envolvidos com a vida cotidiana e
perderam o gosto de viajar para lá. Ficávamos na casa de um
amigo de meu pai e geralmente nos estressávamos mais do que
curtíamos.
Agora havia as crianças. Tínhamos que ficar cuidando
delas além de aguentar a mudança de atitudes de Hagusty, que
se tornava uma criança extremamente chata na presença de
minha mãe.
Cada vez mais o lado menina de Analissy desaparecia e
sua personalidade forte se mostrava. Nossas discussões eram
cada vez mais intensas e constantes.

76
di Arius

Toda irritação só era compensada quando víamos as


crianças se divertindo na praia, mas nós mesmos estávamos
deixando de curtir as coisas.
Analissy e eu precisávamos encontrar uma forma de nos
equilibrarmos.
Desde que Lakus nasceu, sentíamos como se houvesse
uma presença estranha em nossa casa. Achamos que era alguma
energia ruim ou espiritual que deixava um cheiro de fumo de
chocolate no ar.
Poderia ser essa entidade que estava nos atrapalhando e
que isso estava desandando a nossa vida? Resolvemos procurar
ajuda espiritual e a frequentar reuniões de uma seita espiritista.
A diferença dessa seita para as igrejas Jacolianas era que
acreditavam que nosso espírito estava sempre renascendo em
outro ser e que já havíamos vivido muitas vidas antes desta.
Pregavam também a crença de que alguns espíritos poderiam
ficar perdidos sem encontrar o caminho para sua dimensão e que
ficavam vagando entre nós, sugando nossas forças e
atrapalhando nossas vidas.
Diziam que algumas das coisas que passamos em nossa
existência terrena eram devido ao carma que adquirimos em
outras vidas e que tínhamos que resgatar esse carma para poder
prosseguir em nossa evolução, como se fosse uma dívida a
pagar.
Participamos de encontros, cursos, oramos e nos
submetemos a seções de limpeza energética para afastar
espíritos vampiros.
Olhando para esses tempos, vejo a involução que
sofremos. Os Hons sempre tentam encontrar um fator externo
para responsabilizar por suas desventuras. Parece que é mais
fácil culpar fulano ou sicrano do que assumir que o problema
está dentro de nós.
Lógico que havia energia ruim nos cercando, pois
baixamos nossa vibração e perdemos a força que o contato com

77
Mauro Losch

nossa Divindade nos dá. Baixamos totalmente a guarda e depois


ficamos choramingando pelos cantos, culpando o mundo por
nossas desgraças. Entramos de cabeça no mundo de Ekus e
ficamos sentindo pena de nós mesmos pelo drama que criamos
em nossas vidas.
De qualquer forma, passamos pelas experiências que
temos que passar para encontrar o caminho para nossa evolução
e nada que acontece em nossas vidas é em vão. Sempre há um
aprendizado escondido atrás de cada vivência.

78
di Arius

Desandando

Perdemos Ôminha. Partiu levando consigo aquela fé e


doçura que me re-erguia e limpava minha alma.
Comentei apenas com Analissy uma impressão que tive
sobre a morte dela. Algo me dizia que ela escolheu partir para
dar mais tempo de vida a um tio meu que estava com câncer.
Coincidentemente, meu tio melhorou e viveu por mais
alguns anos após a partida dela.
Tenho para mim que ela fez um acordo para ir no lugar
dele. Não sei se isso é possível ou real, mas que ela tinha fé e
poder para isso, eu não tenho dúvidas.
Fiquei triste por mim, mas por ela me senti bem, pois
tenho a certeza que ela foi para seu lugar de paz e amor sem
escalas.
Mas a nossa vida aqui continuava e comecei a trabalhar
como vendedor técnico em uma representação de cabos de
transmissão de dados. Pelo menos dessa forma eu não ficaria
preso atrás de uma mesa e amarrado a horários fixos e rígidos.
Os donos da representação eram um casal muito
simpático. Chamavam-se Solny e Vyona.
Identifiquei-me com eles, pois Solny deixara de trabalhar
em uma grande empresa para abrir o seu negócio de
representação e ser dono de si próprio.
Comecei a fazer minhas visitas de venda e uma vez por
semana ficava no escritório deles para montar minha agenda.
Vyona além de ajudar na representação tinha uma loja de
roupas e um salão de beleza.
Analissy os conheceu e também simpatizou com eles.
Acabamos criando uma certa amizade, mas coisas estranhas
começaram a acontecer.

79
Mauro Losch

O casal nos contou que eram de uma seita que lidava


com espíritos perdidos, que ajudavam esses espíritos a encontrar
seu caminho para o além e que para isso faziam rituais e
trabalhos especiais. Contaram também que Vyona era uma
receptora de espíritos e que ela os incorporava para que
pudessem se comunicar conosco.
Nos convidaram para conhecer o lugar que chamavam de
Centro, onde faziam os rituais e trabalhos.
Fomos até lá e sentimos claramente uma energia muito
ruim fluindo naquele lugar. Resolvemos não voltar mais, porém
parece que algo se impregnou em mim depois daquele dia.
Analissy ainda trabalhava, mas para tentar uma renda
extra resolveu levar roupas consignadas da loja de Vyona e
tentar vendê-las para amigos e parentes. Algumas noites
saíamos carregados de roupas em nosso rodmobil para visitar
quem se interessasse em comprá-las.
Numa destas noites, fomos abordados por um assaltante
armado, que levou nosso rodmobil com todas as roupas
consignadas e toda minha lista de clientes.
Tudo desandou mais ainda.
Além de perder meu rodmobil que era minha ferramenta
de trabalho, ficamos com uma grande dívida para pagar das
roupas de Vyona que foram levadas.
Foram dias angustiantes.
Nosso rodmobil acabou sendo encontrado, mas lógico
que sem as roupas e sem minha lista de clientes.
Existe um ditado em Shaw que diz que nada é tão bom
que não possa melhorar ou tão ruim que não possa piorar e
infelizmente esse ditado funcionou em nossa vida, mas não para
o lado bom.
Analissy começou a ter problemas em seu trabalho.
Começaram a aparecer diferenças financeiras nos fechamentos
dos seus balanços diários e elas eram descontadas de seu
pagamento.

80
di Arius

Ela não se conformava. Tantos anos trabalhando na


função sem ter diferenças em fechamentos, como isso podia
acontecer agora?
Desconfiou de sabotagem de alguém do trabalho, mas
nunca descobriu nada. Chegou a um ponto em que as diferenças
eram tão grandes que os descontos tomavam quase todo seu
salário e tornou-se inviável continuar no emprego.
Desgraça pouca é bobagem.
Para piorar as coisas, os seres espirituais com que Vyona
lidava, resolveram que queriam acabar com seu casamento e
tentaram me usar como ferramenta.
Comecei a ter sonhos e sensações estranhas em relação a
ela e às vezes surgiam clima e oportunidade para que nos
aproximássemos e tivéssemos um caso.
Era muito estranho, pois eu não sentia atração física ou
sentimental por ela, mas algo ficava me atormentando e criando
situações que para mim ficaram insustentáveis.
Não aguentava mais ter aqueles sentimentos e não
cederia.
Eu não iria ter qualquer tipo de relação com ela além da
profissional e da amizade. Aquela energia estava abalando
minhas estruturas físicas e emocionais.
Falei com Analissy e contei o que acontecia e
resolvemos que o melhor era nos afastarmos definitivamente
deles e nunca mais os vimos.
Descobri que realmente existem forças que podem nos
atingir e atrapalhar nossas vidas, pois pude senti-las agindo em
mim. Sei que isso só acontece se nós permitirmos e eu baixei
tanto a guarda e minha vibração que abri as portas para que
qualquer coisa me atingisse. Fui bombardeado de todos os lados
e não tínhamos a menor noção do que acontecia.
Hoje, acho que se tivesse mantido a calma e a fé que
Ôminha ensinou, nada disso teria acontecido.

81
Mauro Losch

Nem Ôminha eu tinha mais para me benzer e tirar aquela


coisa ruim de mim. Mais tarde eu aprenderia que aquilo não era
um dom só dela, mas de todos os seres de Shaw.

82
di Arius

Fundo do poço

Agora estávamos os dois desempregados e o que me


restou para receber das vendas que fiz, mal deu para pagar as
roupas roubadas.
As dívidas começaram a acumular cada vez mais e
tivemos que vender nosso rodmobil para pagá-las e compramos
um bem mais velho com o dinheiro que sobrou.
Foi quando re-encontrei meu antigo sócio da tele-som e
jornal.
Tentei voltar a trabalhar com isso, pois eram outros
tempos, poderíamos aumentar o alcance da emissora, torná-la
mais comercial e quem sabe ganhar algum dinheiro, mas a visão
dele era outra e não deu certo.
No meio dessa confusão que estava minha vida conheci
músicos que tinham o ideal de montar uma emissora tele-som,
mas com um foco mais parecido com o meu.
Acabei me metendo num mundo artístico e político que
não me acrescentou nada de útil e muito menos dinheiro.
Meu velho rodmobil também foi roubado e nunca mais o
encontramos. Não tínhamos dinheiro para as contas e às vezes
nem para comprar comida.
Analissy e eu começamos a ter conflitos pessoais
pesados. Fomos envolvidos por intrigas e comecei a ter ciúmes
cada vez maiores dela. Nosso relacionamento ficou cada vez
mais desgastado. A vida perdeu todo sentido.
Eu já não sabia quem eu era e o que queria e estava
caminhando para o fundo do poço.
Klieya ameaçou me processar por atrasos no pagamento
das pensões de Hagusty e se aproveitou da situação para cobrar
até o que não era devido através de uma advogada mercenária.

83
Mauro Losch

Eu já estava com trinta anos de idade e a situação estava


insustentável.
Se eu não fizesse algo perderia Analissy, Lakus e
acabaria preso por não pagar as pensões.
Durante todo esse tempo meu pai folheava os
classificados e me dizia para voltar a trabalhar como empregado,
mas eu não queria dar o braço a torcer que teria que me
submeter ao sistema.
Só que agora não havia outra saída.
Foi quando ele apareceu com um anúncio de emprego
como técnico e dessa vez resolvi tentar. Ele pacientemente me
levou até a empresa e consegui a vaga.
Voltei a trabalhar na mesma área do começo, só que não
em projetos, mas em manutenção.
Era uma grande empresa que fornecia produtos
sequenciados e em tempo real para uma montadora de
rodmobils. Se o fornecimento de nossa empresa falhasse, a
montadora ficaria sem peças e pararia sua produção. Portanto o
tudo tinha que funcionar perfeitamente e de forma confiável.
O equipamento era antigo e precisava de constante
atenção e justamente por ser antigo eu sabia lidar muito bem
com ele, pois era do mesmo tipo utilizado na época em que
trabalhei em projetos.
Eu ficava mais de plantão do que fazia manutenção.
Havia dias em que o equipamento não falhava e eu não
tinha nada para fazer.
De qualquer forma o salário começou a pingar e as
finanças começaram a melhorar.
Embora estivesse trabalhando, ainda colaborei por um
tempo com o pessoal da emissora de tele-som, mas percebi que
o que vivi na emissora, só colaborou para que eu me perdesse
mais ainda de mim mesmo e resolvi largar aquilo tudo e me
aplicar em meu emprego.

84
di Arius

Analissy, por sua vez, insistiu em continuar na emissora


e continuamos a discutir. Para ela era injusto deixá-los na mão e
achava que fazia bem estar trabalhando com eles.
Eu achava que ela deveria sair de lá e o ciúme e
insegurança que criei dentro de mim estavam me dominando e
martelavam minha cabeça o tempo todo.
A coisa foi piorando até que em uma de nossas
discussões achei que tinha o direito de exigir que ela fizesse o
que eu queria e joguei na cara dela que eu era o provedor e que
ela tinha que fazer minha vontade.
Joguei meu ciúme na cara dela e para piorar ainda deixei
que minha família se envolvesse na briga, o que fez com que o
rumo das coisas piorasse, pois o massacre sobre ela só ficou
mais pesado.
Analissy não deixou por menos e com seu gênio forte
decidiu que queria se separar de mim.
Ao invés de eu engolir meu orgulho e olhar para meus
erros eu só via os defeitos dela.
Quanto mais discutíamos, mais nos ofendíamos e
jogávamos os erros cometidos um na cara do outro.
Foi quando ela arrumou as malas e decidiu ir embora.
Quando vi que não haveria como impedi-la, cheguei
finalmente ao fundo do poço. Tudo perdeu o sentido para mim.
O fato de voltar a trabalhar em uma empresa não era, ao
meu modo de ver, uma conquista e sim a prova de que fui
derrotado e aceitei me subjugar ao sistema.
Perder a companhia de Analissy e Lakus foi o mesmo
que receber o certificado oficial de fracassado.
Viver era insuportável e eu não conseguia ver nada que
me motivasse a continuar existindo. Tudo o que eu conseguia
ver era dor, sofrimento e dificuldades. Resolvi por um fim a
tudo aquilo e apanhei todos os remédios que encontrei e tomei-
os com um copo de bebida alcoólica na esperança de nunca mais
acordar.

85
Mauro Losch

Recomeço

Algo não deu certo, pois acordei.


Dormi por muitas horas e despertei anestesiado.
Já havia se passado um dia inteiro e eu simplesmente não
fui ao trabalho. Anoitecia novamente e eu estava totalmente só.
Analissy e Lakus haviam partido.
Não comi nada, apenas tomei água.
Sentia-me dopado.
Larguei-me no sofá e fiquei por horas passando pelas
frequências de tele-imagem
Nem condições de pensar eu tinha.
Era como se eu houvesse realmente morrido, mas ainda
estava lá.
Quando já era madrugada, vi um programa de uma igreja
Jacoliana protestante e comecei a prestar atenção.
O sacerdote falava sobre aceitar Jacolai no coração e fez
uma oração pedindo a presença do Espírito Divino para que
agisse e iluminasse a vida de todos que estavam presentes na
Igreja ou que acompanhavam o programa via tele-imagem.
Algo estranho começou a acontecer.
Senti a presença de uma Força que me envolveu e entrou
em meu peito. Aquilo abraçou e esquentou meu coração. Não
tenho palavras para descrever o que sentia, apenas posso dizer
que era algo muito bom.
Comecei a chorar dominado por uma forte emoção e não
conseguia parar. Era como se eu sentisse um amor tão grande
que fazia com que minhas emoções explodissem. Como se algo
estivesse me limpando por dentro.

86
di Arius

Após um tempo de choro compulsivo, uma grande paz


tomou conta de mim, acompanhada de uma forte sensação de
que agora estava tudo bem e então adormeci.
Apesar de ter adormecido de madrugada, acordei no
horário para trabalhar e tive um dia normal e produtivo, mas
pensava constantemente em Analissy a Lakus.
Analissy estava alojada na casa de seu irmão mais velho
Lapous, que era casado e vivia em uma província do interior
com sua esposa e filhos.
Lapous e eu nos dávamos muito bem e o tipo de vida que
levava no interior com sua família era invejável. Ele tinha um
relacionamento muito carinhoso com seus filhos e eu gostava
muito de passar alguns dias em sua casa.
Embora fosse distante, sempre arrumávamos um jeitinho
de estar com eles.
Sempre sonhei em morar em uma província sossegada e
bonita como aquela.
Estava seguro quanto ao bem estar de Analissy e Lakus,
pois estavam sob o cuidado de pessoas muito queridas.
Tentei falar várias vezes com Analissy, mas ela não me
atendia. Lapous sempre me tranquilizava e pedia que eu tivesse
calma e paciência que tudo se resolveria com o tempo. No fundo
eu também sabia que nossa história não terminaria assim.
Numa hora de folga, escrevi uma carta, que quando li,
parecia ter sido escrita por outro ser. Era como se fosse uma
oração.
Não sei se Analissy percebeu e a entendeu como eu, mas
aquela carta estava carregando uma energia que a tocou e
poucos dias depois ela veio para casa.
Ela voltou dizendo que não queria a reconciliação e
dormimos separados por um tempo, mas ambos reconhecemos
nossos erros e acabamos nos acertando.
Uma fase de reconstrução começava e tínhamos que
retomar nossa caminhada.

87
Mauro Losch

Analissy abandonou a emissora de tele-som e começou a


se dedicar mais ainda à nossa família.
Aos poucos tudo foi melhorando.
Soram, um grande amigo da época de escola, outro que
considero como um irmão de alma, ofereceu um rodmobil que
quase não usava, para facilitar a nossa vida e para que
tentássemos vendê-lo.
Soram é muito conectado com sua essência e sua
natureza é ajudar os outros. É o tipo Hon que faz tudo que está
ao seu alcance para ver todos bem e nunca pede nada em troca.
Percebe-se que isso, mais do que qualquer coisa, é o que lhe trás
satisfação.
O rodmobil veio em ótima hora, pois além de facilitar e
poupar tempo no trajeto para o trabalho possibilitou que
pudéssemos ir à praia novamente.
No trabalho, quando não havia manutenções a serem
feitas, ao invés de ficar ocioso eu ajudava os funcionários da
produção e estudava o funcionamento dos equipamentos em
detalhes.
Logo percebi que com algumas pequenas alterações,
poderia aumentar a produção sem colocar em risco a segurança.
O gerente aprovou as alterações e elas funcionaram
perfeitamente.
Sentia como se algo estivesse me guiando. Quando
minha mente não encontrava a solução para um problema, uma
intuição me mostrava como resolvê-lo.
Devido ao meu bom desempenho, em pouco tempo fui
promovido á um cargo no setor administrativo e logo passei a
ser o coordenador da unidade.
Passei a ser responsável pela administração geral,
manutenção e atendimento aos clientes.
Meu mundo se ampliou assim como meu salário.
Fiz diversos cursos administrativos e de qualidade,
aprendi muito sobre a rotina de uma empresa de grande porte,

88
di Arius

participei de reuniões e projetos, mas o peso da responsabilidade


aumentou, assim como o nível de estresse.
Consegui vender o rodmobil de Soram e pouco tempo
depois adquirimos um financiado, que demoraríamos alguns
anos para pagar.
Comecei a viajar para outras terras pela empresa para
passar meus conhecimentos técnicos e administrativos em outras
unidades e ajudei a implementar procedimentos de qualidade em
nossa unidade. Cada vez mais minha carga de trabalho e
responsabilidade aumentavam.
Chegava em casa estressado e às vezes descontava
minha irritação em Analissy e Lakus.
Minha função e conhecimentos estavam atingindo níveis
de gerente, mas meu salário e perspectivas de crescimento
estagnaram e fiquei preso na função de coordenador sem ter
como evoluir.
Buscando uma forma de crescer profissionalmente,
comecei a me inscrever em novas vagas na matriz, porém só
poderia concorrer efetivamente se meu gerente aprovasse minha
participação, o que não acontecia.
Ele era uma ótima pessoa, mas não queria abrir mão de
alguém como eu, que lhe dava a segurança e a tranquilidade de
saber que a unidade estava em boas mãos.
Trabalhar na matriz era aumentar as possibilidades de
crescimento profissional e ao mesmo tempo realizar o sonho de
mudar para uma província do interior, pois era afastada da
capital, um lugar tranquilo e pequeno.
Descobri nessa busca que na matriz, cargos equivalentes
ao meu pagavam salários até três vezes maior e que nossa
unidade tinha um tratamento salarial diferenciado.
Percebi também que para conseguir evoluir teria que
cursar o nível avançado de ensino e que embora os funcionários
da matriz recebessem ajuda de custo para estudos, isso não se
aplicava à nossa unidade.

89
Mauro Losch

Analissy e eu conversamos e resolvemos que era melhor


que eu voltasse a estudar, mesmo que tivéssemos que controlar
nossos gastos para pagar a escola.
Embora o exame de admissão para o curso que escolhi
fosse bastante concorrido e eu estivesse há anos sem estudar,
passei na primeira tentativa e em uma boa colocação.
Hora vejam só! Que virada a vida deu não?
Do fundo do poço para Coordenador e cursando nível
avançado.
Achava que tudo que estava conquistando era devido a
minha brilhante inteligência e capacidade e que aquilo tudo era
“o máximo”.
Nessa época os digitalizadores de dados já estavam
avançados e como era previsto, estavam cada vez mais
acessíveis e poderosos.
Nós já tínhamos um Digitalizador de Dados Pessoal
(DDP) e conseguíamos de casa acessar a rede interligada.
Era uma novidade fascinante!
Na empresa eu usava os DDs para tudo, desde controle
de estoque, qualidade, programação de produção, solicitações
on-line para matriz, contatos com nossos clientes, emissão de
documentos, etc.
Havia momentos em que eu tinha tantas informações
para gerenciar, que me isolava no escritório para me concentrar
e organizar tudo.
Embora o salário mal desse para pagar as contas,
orgulhava-me de meu trabalho e sem que percebesse deixei que
Ekus me dominasse.
Ficava orgulhosamente falando a amigos ou parentes
sobre minhas funções, sobre estar cursando nível avançado e
lidando com pessoas de alto nível nas empresas, mas a verdade
era que eu estava me desgastando totalmente, tanto físico e
emocionalmente, quanto espiritualmente.

90
di Arius

Quando eu finalmente me sentia enquadrado no


“esquemão” de todos, pouco via minha família e o dinheiro não
dava para nada além das despesas básicas.
A prestação do carro, o curso avançado e a pensão de
Hagusty, consumiam mais da metade do meu salário e o que
sobrava mal dava para pagar o restante das contas e para
alimentação.
Tudo começou a ficar muito pesado e o distanciamento
entre eu e Analissy começou a aumentar de novo.
Comecei a questionar se valia a pena aquilo tudo e
porque eu estava me sacrificando daquele jeito.
Trabalhava o dia todo e estava envolvido com os estudos
a noite e nos finais de semana.
Detestava o curso avançado de administração, pois já
trabalhava como administrador. Metade das matérias não servia
para nada e a outra metade eu já sabia.
Cursava apenas pelo diploma.
À noite, dormia mal, sonhava com trabalho e tarefas que
deveria fazer. O convívio com os jovens nas aulas começou a
mexer comigo e comecei a questionar se eu estava no caminho
certo.
Mesmo cursando administração, meu gerente não me
liberava para participar de vagas em outras áreas e estagnei.
Para piorar, um novo diretor assumiu o cargo e achou
que eu não deveria ter um escritório só meu e sim estar junto da
produção. O único lugar disponível próximo da produção era
um vestiário sem uso, quente, janela sem vista para fora e
barulhento. Foi para lá que ele ordenou que eu mudasse minha
sala.
Ora! Será que esse diretor tinha idéia de minhas funções?
Será que ele não sabia que várias vezes varei noites para
arrumar problemas técnicos nos equipamentos e que nunca
falhei em nenhuma de minhas tarefas?
E o meu gerente?

91
Mauro Losch

Porque permitiu que isso acontecesse sem me defender?


Percebi que eu que me julgava “o cara”, não passava de
uma peça de baixo custo na máquina da empresa, sem
perspectivas, baixo salário e socado num vestiário adaptado pra
escritório.
Cada vez mais distante da família e de mim mesmo.
Valia a pena?
Comecei a sentir o que vivi em meu primeiro emprego
novamente.
Me senti sufocado, controlado e humilhado.
Eu tinha que me livrar daquilo, mas viver do que?
Procurar outro emprego e me submeter a tudo de novo?
Minha capacidade, talento e conhecimentos não tinham
valor sem um diploma.
Que sistema é esse que valoriza mais um pedaço de
papel do que a capacidade de um funcionário?
Analissy e eu conversamos e pensamos em uma saída.
Iríamos abrir uma empresa de desenvolvimento de sistemas para
a RIDD e trabalhar por conta própria.
Montaríamos um espaço na rede e venderíamos partes
dele para lojas, indústrias e prestadores de serviços divulgarem
seus produtos.
Era uma área enorme que se abria e tinha tudo para dar
certo.
Eu já havia aprendido a fazer a programação e sairíamos
na frente, estaríamos entre os primeiros.
Foi preciso coragem para novamente abrir mão da
segurança do salário fixo e se aventurar a viver por conta
própria.
A maioria dos Hons, depois de alguns fracassos, perdem
a coragem de ir atrás de seus sonhos e se conformam com as
migalhas que o sistema lhes oferece, achando que aquilo é a
verdade e que todos devem se enquadrar.

92
di Arius

Abrimos a empresa, montamos um espaço na rede e


tentamos vender nossos serviços. Foi quando percebemos que
nossa visão era avançada demais e que os empresários ainda não
haviam percebido que aquilo traria retorno.
Tentamos através de folhetos explicativos convencê-los,
mas sem resultados.
O dinheiro que recebi ao sair do emprego foi acabando e
nossa empresa não engrenava.
O tempo passou e percebi que teria que voltar a trabalhar
como empregado. Aquele pensamento me torturava. Foi quando
a Força-Luz resolveu agir e um amigo me indicou para trabalhar
como consultor autônomo para uma empresa que possuía um
software de gestão empresarial.
Era perfeito!
Os conhecimentos de DD e de administração que eu
tinha serviam perfeitamente, além disso, haveria tempo para
continuar com nossa empresa.
Confesso que me deu um frio na barriga, pois era algo
totalmente diferente de tudo que fiz. De certa forma eu viraria
um professor, às vezes daria cursos para vários alunos e teria
que me locomover para diversas empresas em vários lugares,
mas resolvi encarar.
Consegui o cargo, passei pelo treinamento e comecei a
trabalhar.
O trabalho tinha o lado bom e o ruim.
O bom era que eu estava sempre em empresas diferentes,
conhecendo novas pessoas, lugares e tipos de negócios. Sentia-
me feliz em ensiná-las e ajudá-las a organizar suas empresas e
não tinha um horário rígido.
O ruim era que eu perdia horas no trânsito e os ganhos
não eram lá grande coisa, mas sempre conseguíamos completar
o orçamento com a venda de algum serviço de nossa empresa.
O estresse do trânsito era terrível. Diariamente eu perdia
muito tempo preso no rodmobil. Isso era desgastante.

93
Mauro Losch

O número de rodmobils era maior do que o suportado


pelas vias, assaltos e violência diários nos deixavam sempre
inseguros e minha agenda de trabalho flutuava muito, assim
como meus ganhos.
O tempo passava e Analissy e eu tínhamos a sensação de
estarmos patinando sem sair do lugar.
Continuávamos apenas sobrevivendo e lutando, como
todo mundo faz. Enfrentando os problemas de família, dívidas e
estresses, mas não construíamos nada.
Continuávamos morando na casa que foi de Ôpapa e
Ôma.
Meus pais volta e meia demonstravam que queriam que
saíssemos dela para que a vendessem. Todas as reservas
financeiras deles já haviam se esgotado e meu pai gastava muito
em remédios, pois não estava bem de saúde.
De meus avós, a única que ainda era viva era Ôma, que
acabou indo morar com meus pais, pois também estava com a
saúde debilitada e sofria com um câncer.
Eu sentia vontade de sumir. Ainda tinha o sonho de
morar em uma província do interior. Queria viver em um local
mais tranquilo e ter uma qualidade de vida melhor.
Como aprendi, tudo que realmente desejamos, acaba nos
sendo dado.
A Força-Luz está sempre em nós, mesmo que não nos
lembremos dela, ela age dentro da sua inteligência, que é bem
diferente da nossa.
Passei anos querendo me mudar de onde vivia, então foi
como se a Força-Luz um dia dissesse:
− É isso que você realmente quer? Então toma.

94
di Arius

Norte

O tempo passava voando e eu já tinha quase quarenta


anos, quando uma oportunidade surgiu.
Uma das empresas para qual eu prestava serviços de
consultoria ia mudar para uma província do Norte e precisava de
alguém para cuidar da finalização das obras, do projeto de
instalação das máquinas e da implementação da administração.
O dono da empresa chamava-se Trevys e o pouco que
convivi com ele me impressionou.
Era um homenzarrão forte e inteligente, que tinha um
grande espírito de liderança. Todos diziam que ele era muito
justo e que gostavam de trabalhar para ele.
Trevys acompanhou meu trabalho de implantação e
treinamento do sistema de gestão em sua empresa e percebeu
que eu poderia ser o que ele buscava para ajudá-lo na nova
fabrica.
Certo dia me chamou em sua sala:
- Arius, preciso de alguém de confiança para
acompanhar a finalização das obras, projetar as instalações
elétricas e iniciar a administração da nova planta. Soube que
você tem conhecimentos nessas áreas e gostaria de saber se teria
interesse em trabalhar para mim.
Mal pude acreditar. Era a oportunidade que eu esperava!
Respondi:
- Claro que me interesso, mas nunca acompanhei obras e
minha experiência em projetos é em sistemas e não em
instalações.
- Não tem problema Arius, eu te oriento e ajudo nos
projetos e quanto às obras, estão em fase final e só preciso de
alguém que fique de olho no trabalho, você verá que isso é fácil.

95
Mauro Losch

- Trevys, o local é distante daqui, são mais de 2.700


Klegs. De rodmobil são três dias de viagem e preciso ver
moradia e mudança.
- Isso é o de menos Arius, eu vou com você e te instalo.
Enquanto a obra termina, você encontra um lugar para morar
com sua família e fazemos sua mudança. Pense no assunto e me
dê sua resposta.
Contei a Analissy a novidade e não precisamos pensar
muito para decidir encarar mais essa aventura.
Dei a resposta positiva para Trevys e combinamos um
valor de salário, que era um pouco superior ao que eu já ganhara
em todos meus trabalhos.
Teoricamente, na cidade onde iríamos morar, o custo de
vida era bem menor e teríamos uma boa vida. Além do mais,
ficou uma promessa de aumento quando tudo estivesse
funcionando na nova planta.
Era uma proposta e tanto, mas a distância da província
era muito grande e teríamos que nos afastar de nossa família e
amigos.
Na época, isso não pareceu ser problema, pois
poderíamos manter contato e ter um quarto extra para recebê-
los.
Tudo parecia perfeito.
A única que ficou triste foi Ôma, pois achou que era
muito longe. Ela que havia deixado sua família e amigos para
viver aqui, já sabia o quanto é difícil deixar tudo e partir para
uma nova vida.
Por outro lado tínhamos o exemplo de Lapous. Ele havia
deixado mais do que nós deixaríamos, na busca de um futuro
melhor. Havia deixado de conviver diariamente com sua esposa
e filhos na província do interior, para trabalhar na nossa
província e assim aumentar suas possibilidades de ganhos. Via-
os apenas nos descansos semanais e aparentemente aquilo não
era problema.

96
di Arius

Analissy não concordava com a forma que Lapous vivia.


Para ela a família deveria ficar unida.
Mais tarde descobriríamos que Ôma é quem tinha razão.
Há coisas das quais não devemos abrir mão, mas no momento
nossa empolgação era grande demais.
Me desliguei da empresa para qual fazia consultorias e
comecei a trabalhar nos projetos de instalação da nova fábrica.
Em breve eu me mudaria.
Fizemos uma reunião de despedida com toda família.
Analissy ficaria para preparar a mudança enquanto eu
acertaria tudo no Norte.
Desde que ficamos juntos, Analissy e eu nunca ficamos
distantes um do outro mais que dez dias, mesmo durante nossa
crise e separação.
Éramos muito colados e mesmo com nossas brigas e
dificuldades, sempre nos amamos muito e não seria fácil ficar
muito tempo longe um do outro, mas seria apenas por sessenta
dias.
Fui com Trevys para o Norte. Ele me mostrou a obra,
apresentou o engenheiro responsável, me mostrou a cidade e
comecei meu trabalho.
Primeiro montamos uma casa para receber os
funcionários que fariam as instalações elétricas e então comecei
a cuidar da finalização da obra e início das instalações.
Era época de muita chuva o Norte, o que dificultava o
andar das obras, porém o calor era constante.
Embora para o povo de lá fosse inverno, para mim era
mais quente que o verão de minha província no Sul.
A cidade era pequena, típica de interior, mas aos poucos
fui percebendo que a cultura era bem diferente da que eu me
acostumará.
Embora estivesse difícil tocar a obra no meio do barro,
das chuvas e a cidade começasse a me desencantar, não
desanimei.

97
Mauro Losch

Tudo era novo e desafiador e eu gostava daquilo.


Quando o pessoal técnico de instalação chegou, fiquei
feliz por ter companhia de minha província, mas logo percebi
que nem tudo eram flores.
O técnico responsável pelas instalações era um cara
amargo e logo me avisaram para tomar cuidado com ele.
A mentalidade dele era de que todos eram inimigos a
serem derrotados. Mesmo assim tentei conquistar sua amizade,
mas ele não perdia oportunidade de me prejudicar, sempre
tentando buscar falhas em minhas ações.
O engenheiro responsável pela obra era da região e me
recebeu muito bem. Abriu as portas de sua casa e me acolheu,
mas logo percebi que o meu cargo era cobiçado na província e
que também teria que ficar atento com ele.
Os dias passavam e a falta de Analissy foi aumentando.
Ela já havia começado a encaixotar tudo para a mudança
e estava morando com meus pais.
Comecei a perceber que a província era mal
administrada, suja e barulhenta. Não consegui encontrar uma
boa casa para morarmos e comecei a questionar se valia a pena
trazer minha família.
Aplicava-me ao máximo em tudo, mas encontrava
dificuldade na compra de materiais específicos na região e
minha procura por uma boa casa para morarmos continuava
infrutífera.
Apesar das dificuldades e dos contras, ainda apostava na
nova vida que teríamos, até o dia em que cometi um erro e
deixei vazar uma informação sigilosa para o engenheiro da obra.
Eu poderia muito bem ter ficado quieto sobre o fato, mas
não achava justo fazer isso com Trevys, pois ele confiava em
mim.
Resolvi então assumir meu erro e contar a ele.
Foi quando tudo veio abaixo.

98
di Arius

Nunca em minha vida profissional ouvi tantos desaforos


e ofensas. Por bem menos que aquilo eu já havia me demitido de
outros empregos.
Daquele dia em diante, Trevys passou a me tratar como o
mais inútil dos funcionários.
A coisa desandou e resolvi avisar Analissy:
- Analissy, é melhor cancelar a mudança, as coisas não
vão bem aqui, não sei se dará certo.
- Arius, às vezes é só uma fase, mantenha a calma, tudo
deve se acertar.
- Vou tentar Analissy, vou tentar.
E tentei, fiz o meu trabalho da melhor forma possível e
arrumei uma casa para nós.
Comprei alguns móveis e uma tele-imagem para me
distrair a noite quando a solidão era imensa, mas as coisas não
melhoraram.
Trevys estava irreconhecível.
Para os habitantes da província, ele era um rei. Até o
governador o tratava assim.
Num lugar ermo e sem futuro como aquele, uma pessoa
que traz uma fábrica e gera empregos, era um deus. Foi assim
que Trevys começou a se ver, como um rei todo poderoso. Vi a
humanidade dele sumindo pouco a pouco.
Ekus o dominou tanto que ele só via dinheiro e poder.
Achava que todos que o rodeavam só tinham interesses
financeiros ou queriam roubá-lo e sua saúde começou a piorar.
Outros funcionários que o conheciam de longa data,
comentaram que ele parecia outro Hon.
Ele encontrou em mim alguém para descarregar suas
frustrações e estresse. Não percebia que se tornou um obstáculo
aos próprios interesses me tratando da forma que tratou.
A fábrica estava quase pronta e eu pronto para abandonar
tudo e voltar.
Mais uma vez falei com Analissy:

99
Mauro Losch

- A coisa aqui está feia, melhor abortarmos tudo.


- Não Arius. Logo estarei aí e juntos seremos mais
fortes.
- Analissy, você não está entendendo, não vale a pena. O
custo e qualidade de vida aqui são piores do que aí, o calor, que
pode parecer uma delicia, é um inimigo. A cultura do povo
daqui é muito diferente. Ficaremos isolados. Não vale a pena.
- Arius, vou ser franca, não temos mais onde morar aqui.
Seus pais não nos querem de volta na casa de Ôpapa. Temos que
fazer dar certo.
Não discuti mais.
Havia combinado com Trevys que voltaria à minha
província antes de trazer minha família e cobrei sua promessa.
Voltei e expus a situação, mas todos insistiram:
- É a chance de finalmente você acertar sua vida. Mais
uma vez você vai jogar tudo para o alto? Faça um esforço.
Analissy e Lakus estavam muito abatidos.
Ela havia emagrecido muito e me contou que o período
em que viveram com meus pais foi complicado. Não foram
maltratados, mas viver sob o esquema de vida e pressão deles
foi muito difícil.
Percebi que não adiantava tentar mostrar a eles o que
acontecia e que a única saída era nos mudarmos e fazer de tudo
para dar certo.
Embarcamos a mudança e voltei para o Norte. Analissy
iria depois com Lakus, quando os móveis já estivessem lá.
Tudo que dizia respeito às necessidades da fábrica era
prioridade absoluta para Trevys, mas quanto as famílias e bens
dos funcionários, ele tratava com descaso e má vontade. Não
passava de um estorvo e gastos para ele.
A casa que aluguei era espaçosa, mas mal localizada e
necessitando de reparos. Achava que junto com Analissy
daríamos um jeito em tudo ou acharíamos outro lugar.

100
di Arius

Os preparativos para chegada deles e dos móveis foram


desgastantes e a pressão para inaugurar a fábrica aumentava.
Trevys nessa época estava tão nervoso que parecia um
bicho. Tudo que eu falava o irritava e era respondido de forma
grosseira.
Antes da inauguração, alguns funcionários do Sul se
mudaram para ajudar na contratação do pessoal e finalização de
instalação dos equipamentos.
Nessa fase, eu tinha que comprar materiais que faltavam,
orientar posicionamento e instalação das máquinas que
chegavam, montar o escritório e enfrentar o mau humor e a
grosseria de Trevys.
Minha cabeça girava. Meu estômago estava sempre
embrulhado. Tivemos também que arrumar uma escola para
Lakus, acabar de ajeitar nossa casa e buscar nosso rodmobil que
estava chegando.
A cultura do povo do Norte é menos frenética que a
nossa e as coisas não andavam no ritmo que éramos
acostumados. Trevys não via isso. Apenas cobrava resultados.
Toda essa pressão debaixo de um calor escaldante
começou a me derrubar e comecei a diariamente beber algo
alcoólico para tentar aliviar o estresse.
Em seguida, veio a contratação de funcionários e tive
que enfrentar mais um problema, quando uma funcionária
resolveu queimar alguns arquivos sem minha autorização e o
fato surgiu como sendo ordem minha.
Segurei as pontas, pois achava que após a inauguração,
as coisas aliviariam.
Isso não aconteceu.
Quando a produção começou a andar, havia ainda muitos
ajustes a serem feitos e toda logística de transporte e burocracia
a ser implementada. Além do mais, não havia na cidade acesso a
RIDD, o que foi outro grande transtorno.

101
Mauro Losch

Toda parte de configuração de DDS e implementação do


sistema de gestão foi feita por mim que, por várias vezes ficava
horas além do horário para adiantar o serviço.
Nada do que fazia era reconhecido, porém qualquer
deslize e eu era massacrado por Trevys.
Um dos funcionários de confiança de Trevys, Ladney,
começou a trabalhar comigo e quando achei que as coisas
melhorariam, percebi que eu também não passava de uma
ameaça para ele.
Ladney colaborava comigo, mas omitia informações para
que eu não ganhasse poder.
Em casa, eu chegava todo dia esgotado, tomava algo
alcoólico e dormia.
Não tínhamos com quem falar ou desabafar, pois ou
eram estranhos ou estavam no mesmo barco.
Nos finais de semana, tentávamos nos distrair indo
conhecer as belas praias da região, que eram famosas em todo
planeta Shaw.
Isso ajudava um pouco, mas aos meus olhos, a mais bela
das praias não chegava aos pés da praia onde passei minha
infância e juventude.
A minha praia podia não ter águas tão cristalinas quanto
as praias do Norte, mas meu coração estava lá e para mim ela
era imbatível.
A falta dos amigos e família começou a apertar,
principalmente de Lapous, irmão mais velho de Analissy, com
quem tínhamos uma boa convivência e sempre conversávamos
muito.
Por vezes eu debatia com Analissy e dizia:
- Você não vê que não está dando certo?
- Arius, força, tem que dar certo. Vamos ficar.
Eu não entendia. Ela também sofria. Ela também via o
que a acontecia. Porque insistir no sofrimento?
Várias vezes discutimos, até que um dia ela desabafou:

102
di Arius

- Alguns dias, enquanto você está trabalhando, sua mãe


liga para cá e pressiona para que não voltemos e avisa que a
casa do Ôpapa já está à venda.
Aquilo foi muito triste de ouvir, pois meus pais estavam
tão preocupados com o dinheiro que ficaram cegos.
Doía em meu coração saber que a casa de Ôpapa, que eu
tanto gostava e onde vivi tantos bons momentos, iria virar pó,
como virou todo dinheiro e vários bens que eles conquistaram.
Porém Ôma ainda estava viva, a casa não era só deles e
metade era de minha tia.
Meu primo, vendo o que acontecia e em conversas que
tínhamos, se indignou e começou a nos apoiar para que
voltássemos.
Para ele era mais importante nosso bem estar do que
vender a casa e sugeriu que eu enfrentasse meus pais e voltasse.
Hoje, revendo toda situação, vejo como todos nós
entramos na onda de Ekus e criamos um dramalhão. Não que
Ekus seja um demônio ou coisa assim, pois se não fosse por
todo sofrimento que ele gera, muita coisa não seria aprendida,
mas depois de aprendidas, essas coisas não cabem mais na nossa
vida.
Eu saí tanto do meu eixo, perdi tanto o contato com
minha essência divina que não conseguia mais viver a vida em
todos seus detalhes. Minha cabeça girando, estômago
embrulhado e angústia foram criados porque parei de viver o
agora.
Projetei-me para um futuro incerto e passei a viver o dia
a dia pensando no que aconteceria amanhã. Me preocupei com
Trevys, com meu emprego e parei de olhar só para o momento
que vivia.
A palavra “pré-ocupei” diz tudo.
Porque geramos sentimentos baseados no que pode vir a
acontecer ao invés de vivermos o presente?

103
Mauro Losch

Outra coisa é a melancolia. O inverso da preocupação.


Voltamos para o passado e ficamos revivendo os sentimentos e
situações.
No meu caso, pensava como era melhor quando eu
morava na casa de Ôpapa ou na saudade da minha praia.
É lógico que eu sabia que não tinha mais aquilo e gerei
um sentimento de perda e frustração em mim.
Não há nada de mau em lembrar de fatos do passado ou
em sonhar com um futuro, mas quando deixamos de viver o
presente e nos transportamos para esses tempos, geramos
sentimentos que minam nossa energia e detonam nossa
caminhada.
Outra coisa é o julgamento. Julgamos e condenamos os
outros e a nós mesmos.
Eu ficava me culpando por meus erros, culpando Trevys
por suas atitudes, culpando meus pais pela falta de entendimento
da situação.
Não seria mais fácil, se ao invés de julgarmos,
buscássemos analisar?
O julgamento gera raiva, culpa, mágoa e dor. A análise
gera entendimento.
Outro erro é a expectativa. Eu esperava que Trevys fosse
como um professor, um mestre da administração de uma
empresa. Um cara que seria duro sim, mas que me apoiaria e
ensinaria muita coisa.
Provavelmente Trevys esperasse que eu também fosse
diferente. Talvez esperasse alguém mais forte e esperto e que
soubesse lidar com todo jogo que rolava ali.
Meus pais criaram a expectativa que eu fizesse minha
vida, carreira e mudasse meu modo de ser. Eu esperava que eles
me apoiassem e entendessem.
E por ai vai...
É como se eu estivesse cozinhando a receita da minha
infelicidade.

104
di Arius

Ingredientes:
Expectativa, julgamento, preocupação e melancolia.
Preparo:
Junte tudo em uma panela de pressão, misture bem e
deixe cozendo em fogo alto. Quando tudo tiver se
transformando em culpa, raiva, saudade, mágoa,
arrependimento, frustração, insegurança e angústia, está pronto
para servir.
É lógico que o gosto dessa receita é amargo.
Não adianta tentar desligar simplesmente isso tudo. Não
é questão de ser frio e calculista. Na verdade, os que aparentam
ser frios e calculistas, são grandes bombas relógio, pois
carregam todos ingredientes e são panelas de pressão também,
só que sem válvula de escape e um dia explodem.
O segredo é viver sob o domínio da nossa Divindade. É
aprender a dominar Ekus e deixar a inteligência da Força-Luz
agir.
Lógico que eu não sabia nada disso enquanto vivia todo
esse drama nas terras do Norte e me tornei uma panela de
pressão, mas hoje vejo claramente como tudo aconteceu.
Chego até a achar hilária toda essa situação quando olho
para trás e vejo o dramalhão que todos os personagens dessa
história criaram sob o comando de Ekus.
Não me arrependo de nada que aconteceu, pois não
podemos nos arrepender do que não sabemos.
Como o próprio Jacolai dizia:
“A Divindade não leva em consideração o tempo de
ignorância”
É interessante analisar as situações que vivemos no
passado, mas sob o prisma de nosso ser interior e nunca sob o
prisma de Ekus.

105
Mauro Losch

Gota d’água

Ninguém baixava o fogo, nem eu mesmo. A pressão


dentro da minha panela só aumentava.
O dia a dia era insuportável e quando achava que o auge
de nosso sofrimento havia passado, algo mais forte aconteceu.
Enquanto eu tentava organizar minha cabeça e coordenar
o trabalho na fábrica, Analissy me ligou chorando:
- Arius, vem pra casa, preciso de você.
- Que foi Analissy, aconteceu algo com Lakus?
- Não, foi com Viky, filho de Lapous... Ele morreu.
Uma sensação de gelo e fogo tomou conta de mim.
Aquilo não podia ser verdade:
- Calma Analissy, deve ser um engano, quem te falou
isso?
- A mãe dele me ligou do hospital. Lapous ainda não
sabe. Estou desesperada. Vem pra cá!
Larguei tudo e corri para casa. Quando cheguei, Analissy
e Lakus choravam muito.
Tentei acalmá-los e Analissy me contou os detalhes:
- Ela me ligou do hospital e contou que Viky estava na
sala e do nada, simplesmente desfaleceu. Quando foram
socorrê-lo, perceberam que ele não vivia mais. Correram para o
hospital, mas não havia mais nada a fazer. Os médicos não
sabem o que aconteceu e ela pediu que eu desse um jeito de
avisar Lapous. Como Arius? Como eu aqui no Norte vou dar
uma notícia dessas para meu irmão? Como pode um jovem de
quinze anos simplesmente cair duro e morrer? O que está
acontecendo Arius? Porque a gente não está lá com eles numa
hora dessas?
Desabei a chorar.

106
di Arius

Minha panela de pressão explodiu.


Quando nos acalmamos e controlamos um pouco nossa
dor, ponderamos e concluímos que Analissy não podia dar essa
notícia para Lapous.
Analissy, como sempre, buscou forças onde não tinha e
conseguiu coordenar através de ligações para a empresa de
Lapous, para a família e amigos um esquema para que ele fosse
avisado e levado até o interior.
Foram dias de muita angústia e sofrimento.
Liguei para minha mãe chorando para contar o ocorrido
e desabafar, mas a frieza dela me decepcionou:
- Alô mãe? É o Arius.
- Oi Arius. Você está estranho, está chorando?
- Sim mãe. O Viky, filho de Lapous, morreu.
- Como isso aconteceu?
Contei a ela e completei:
- Eu tinha que estar lá com eles e não aqui nesse inferno!
Como pode num momento como esse eu não estar lá para dar
meu apoio?
- Arius, fazer o quê? Isso acontece, faz parte da vida. Se
concentre nos seus problemas. Não adianta ficar assim.
Retruquei:
- Mas nós somos muito ligados e não está sendo fácil!
- Fazer o quê? Aconteceu e eles superam. Você tem mais
com que se preocupar agora.
Nem falei mais nada, me despedi e desliguei.
A morte de Viky foi a gota d’água e Analissy e eu
conversamos e resolvemos que voltaríamos para o Sul. O
problema era para onde e como.
Havíamos gastado todas nossas economias e tínhamos
que contratar uma transportadora para os móveis e bancar a
viagem de volta.
Meus pais não queriam que voltássemos para a casa de
Ôpapa.

107
Mauro Losch

Viveríamos do quê?
Mais uma vez a Força-Luz entrou em ação.
Foi como se algo emergisse e fizesse com que tudo se
encaminhasse com facilidade.
Liguei pra minha antiga empresa, onde trabalhava como
consultor e de pronto disseram que eu era bem vindo para voltar
ao trabalho.
Um amigo nos encontrou e pediu que fizéssemos um
sistema RIDD para ele e o valor seria suficiente para pagar a
transportadora e a viagem.
Esse amigo talvez não saiba, mas foi um anjo que a
Força-Luz colocou em nosso caminho.
Uma amiga da fábrica indicou uma transportadora de
baixo custo.
Faltava só ter pra onde ir.
Foi então que conversei com meu primo e expus a
situação. Metade da casa de Ôpapa estava em nome de sua mãe.
Ôma, embora bem debilitada, ainda tinha voz ativa sobre a casa.
Resolvemos então, enfrentar meus pais e simplesmente voltar.
Para mim foi muito triste ter que enfrentá-los para voltar
e isso acabou gerando uma mágoa muito grande em mim.
Informei Trevys da minha saída da empresa via tele-voz
e nunca mais o vi.
Nossa amiga da fábrica cuidava do departamento pessoal
e me dispensou com todos os direitos, o que gerou uma renda
extra. Ela foi outro anjo da Força-Luz em nossa vida.
Em poucos dias, nossos bens estavam embarcados e nós
começamos a viagem de volta em nosso rodmobil.

108
di Arius

O retorno

Foram três dias de viagem


Parávamos apenas para reabastecer, nos alimentarmos e
pernoitar.
Nosso pequeno rodmobil parecia uma máquina
iluminada. Enfrentou sem incidentes autorods em péssimo
estado, trechos sinuosos de tráfego intenso e repleto de
truckmobils enormes. Ele era como uma nave iluminada
deslizando por uma rota pré-definida.
Presenciamos vários acidentes graves e chocantes, mas
conosco nada ocorreu.
Quando finalmente chegamos, uma sensação de volta ao
lar me invadiu.
Não via mais o trânsito como algo ruim, mas sim como
sendo algo natural do meu lugar. Era quase como se aquilo fosse
a alma da minha província.
Apesar de nossas diferenças, fomos até a casa de meus
pais, onde nos alojaríamos até a chegada de nossos móveis.
Foi tudo muito estranho.
Uma mistura de sentimentos e pensamentos conflitantes
pairava no ar. Era como se tudo fosse tão contraditório para
todos, que nada fizesse muito sentido.
Dentro de mim, existia a dúvida se meus pais haviam
realmente entendido o motivo de nosso retorno, se aceitaram por
pressão da família ou se encaravam a situação como mais um
recomeço, onde voltávamos a nos unir.
Fomos recebidos por minha mãe, que começou a chorar.
A principio pensei que ela chorava de alegria por ter-nos de
volta ao seu convívio, mas logo desabou a lamentar:

109
Mauro Losch

- Não aguento mais minha vida! Está tudo uma droga!


Ôma doente, seu pai sempre reclamando, o dinheiro curto.
Parece que nunca terei paz!
O choro era de inconformismo e não de alegria. Não
importava nosso retorno, mas sim o estorvo que isso seria para
ela. Atrapalhamos seus planos de vender a casa de Ôpapa e
seríamos mais um incômodo para ela.
Nos instalamos e mesmo esgotados, fomos conversar.
Contamos um resumo do que passamos e de como foi a
viagem e ouvimos como estava a situação deles.
Soubemos que a casa de Ôpapa sofrera uma enchente e
que eles haviam tido trabalho para limpá-la e remendar partes
do piso que havia sido danificado e que as paredes estavam
mofadas. Reclamaram muito do trabalho que o gramado dava e
disseram que tentaram acabar com ele com venenos para não ter
que ficar aparando.
Alegavam que a casa era muito velha e que todos que se
interessavam por ela só pensavam em demoli-la.
Para mim, aquilo tudo não importava. Do meu ponto de
vista, aquela casa era a mais sólida que eu conhecia. Suas
paredes eram munidas da energia do amor e da alegria dos
vários momentos bons que passamos lá.
Para eles, não passava de uma casa velha que podia virar
dinheiro. Tínhamos três dias até a chegada dos móveis e
resolvemos dar uma geral nela antes disso.
Analissy e eu fomos avaliar a situação e percebemos que
uma boa pintura interna seria o suficiente. Meu pai tinha
algumas latas de tinta que se não fossem usadas, estragariam e
compraríamos mais para completar o que faltasse.
Ficamos felizes por poder aproveitar que a casa estava
vazia, pois poderíamos caprichar na pequena reforma, mas
fomos logo desestimulados por meu pai, que disse:

110
di Arius

- Não adianta ficar com muita frescura não, pois é só um


quebra galho. Queremos que vocês saiam o quanto antes para
que possamos vendê-la.
Minha vontade foi de mandar tudo a merda e procurar
qualquer barraco para morar, mas resolvi enfrentar tudo e fincar
o pé na casa.
Já havia conversado muito com meu primo sobre isso e
tínhamos uma visão parecida sobre a situação.
Meus pais moravam em uma bela casa própria e tinham
as aposentadorias do meu pai e de Ôma para viver. Não eram
valores exorbitantes, mas muito bons para padrões de nossas
terras. Tudo que meu pai havia conseguido conquistar a vida
toda simplesmente sumiu, gastaram no dia a dia.
A casa de Ôpapa não era uma conquista deles. Era uma
herança e além do mais, Ôma ainda era viva, então no mínimo a
casa era dela.
Eu a defenderia e adiaria a sua venda até o momento que
fosse consenso de toda família vendê-la e não só desejo deles.
De qualquer forma, nos reinstalamos.
A casa refletia nosso estado interno e parecia que estava
toda machucada. As paredes foram pintadas de qualquer jeito e
de qualquer cor. Foi remendada apenas para ser funcional e
habitável, mas estava feia e perdeu seu brilho, porém continuou
a ser um porto seguro e recomeçamos nossa vida mais uma vez.

111
Mauro Losch

Amor ao trabalho

Voltei a fazer atendimentos em empresas e retomamos


nossos clientes de RIDD.
Aos poucos fomos nos estabilizando, mas as coisas na
empresa para qual eu trabalhava em consultoria começaram a
mudar.
O gerente que cuidava de minha área resolveu sair, pois
fora convidado para um emprego melhor. Ele era como se fosse
um pivô que sustentava e mantinha um certo equilíbrio dentro
da empresa.
Ele defendia a qualidade no atendimento aos clientes e
lutava sempre por melhorias no software.
Seu cargo foi preenchido por um rapaz que tinha uma
visão bem diferente. Para o novo gerente, o que importava eram
apenas os lucros. Ganhou a confiança de um dos sócios e
conseguiu poder suficiente para mudar a empresa.
Os sócios, por sua vez, começaram a entrar em conflito e
se separaram.
Eu passei a ser visto como um mau consultor pelo novo
gerente, pois era eficiente demais.
Isso mesmo! Eficiente demais!
Eu conseguia resolver os problemas dos clientes em
pouco tempo e eles ficavam muito rapidamente satisfeitos e com
controle sobre suas empresas. Isso era ruim, pois quanto menos
horas eu levasse nos treinamentos, menos dinheiro entrava para
a empresa. Eu teria que “enrolar” os clientes para render mais
horas, e isso eu não concordava em fazer.
Lógico que minha agenda de trabalho começou a
minguar e mais uma vez o dinheiro começou a faltar.

112
di Arius

A grande maioria dos Hons faz seus trabalhos por amor


ao dinheiro e não por amor ao trabalho.
Perderam a compreensão da recompensa como
secundária e que devemos fazer nosso trabalho com amor.
Esqueceram que dessa forma as recompensas são
automáticas e mais do que financeiras.
A satisfação é a maior recompensa e não é a mesma
coisa que orgulho por ter realizado a tarefa, mas sim ver o bem
que aquilo fez aos nossos semelhantes.
É a satisfação de saber que a tarefa realizada foi
realmente útil e que nosso amor foi passado aos outros através
dela.
Há quem ache que clientes são fontes de renda e não
semelhantes a quem vamos ajudar com nosso trabalho.
Esse tipo de mentalidade é que torna os relacionamentos
profissionais cada vez mais impessoais.
Como eu discordo da visão de clientes como fonte de
renda e gosto da satisfação de poder ajudar os outros a resolver
seus problemas, não conseguia mais trabalhar dentro de uma
empresa cuja visão era apenas ter ganhos financeiros.
Acho que todos estão tão acostumados a ficar sentados
atrás de uma mesa, vendo números e estratégias e tendo contato
com os outros sempre através de aparelhos, que esqueceram que
quem está do outro lado é um semelhante.
Na minha função de consultor eu estava sempre cara a
cara com o cliente. Podia sentir suas dificuldades e necessidades
e não conseguia me aproveitar da situação para apenas ganhar
dinheiro.
A grande satisfação é resolver o problema e perceber o
quanto isso ajudou e sem esperar gratidão, elogios e
reconhecimento, embora isso acabe naturalmente acontecendo
na maioria das vezes.
Lá íamos nós de novo ter que mudar nossa vida e buscar
uma saída. Achei melhor largar a empresa e tentar atender

113
Mauro Losch

diretamente os clientes. Seria bom, pois dessa forma eu ganharia


100% das horas que trabalhasse e não 40%, que era minha
comissão. Fiquei com medo de trocar o certo pelo incerto, mas
Analissy me apoiou e dessa vez acertamos.
Agora éramos totalmente livres!
Comecei a ganhar o dobro, trabalhando a metade do
tempo!
Pela primeira vez em nossa vida, começou a sobrar um
dinheiro no fim do mês.
Quando minha agenda ficava mais vazia, os clientes de
RIDD completavam a diferença.
Cada vez mais Analissy se desenvolvia na criação de
sistemas de RIDD e eu aprendia novas linguagens de
programação, o que nos gerava mais clientes.
Analissy controlava as finanças, desenvolvia sistemas,
atendia os clientes e fazia minha agenda. Eu fazia sistemas mais
complexos e as consultorias.
Com o tempo, acabamos comprando mais um DDP, pois
um só não dava conta do volume de trabalho.
Reformamos um cômodo da casa que usávamos como
“quarto de bagunça” e transformamos em um escritório.
Finalmente viramos uma pequena empresa que
funcionava e dava lucro.

114
di Arius

Família

Por outro lado, na família, as coisas não iam bem.


Ôma estava cada vez pior. Meu pai cada vez mais
amargo e com a saúde piorando.
Minha mãe sempre reclamando do peso que tinha que
carregar.
O ambiente na casa deles era ruim e os conflitos
constantes.
Meu pai não tinha paciência com Ôma e às vezes a
tratava mal. Ele não entendia que ela era uma idosa debilitada e
deprimida.
Para ele, ela era uma intrusa em sua casa, um estorvo.
Minha mãe via o câncer consumindo Ôma e sofria com
ela.
Quando não estavam indo para hospitais com Ôma,
estavam indo com meu pai que por duas vezes teve que se
submeter a cirurgias cardíacas.
Para piorar a situação, meu primo acabou contraindo
dívidas imensas e se envolveu com falcatruas para tentar evitar a
falência. Sua vida desmoronou e chegou a ponto de ter que viver
escondido para não ser preso. O casamento dele ruiu, pois se
envolveu com uma mulher com quem teve uma filha.
Minha tia que vivia em outras terras, estava arrasada e
gastou suas economias para ajudá-lo a pagar parte de suas
dívidas.
Ele estava totalmente perdido e sem rumo, e ela
inconformada e sofrendo.
Mesmo assim, ela veio falar comigo:
- Arius, apesar das dificuldades de seu primo, quero que
saiba que não acho justo tirá-los da casa e vendê-la para saldar

115
Mauro Losch

as dívidas dele. Quero que vocês fiquem tranquilos. Se um dia


eu realmente precisar vendê-la, falarei com vocês.
Analissy e eu achamos aquela atitude admirável!
Não só por nos dar segurança, mas pelo senso que ela
teve da situação geral.
Como minha tia que corria o risco de ter o filho preso
pelos credores, achava justo que permanecêssemos na casa e
meus pais, que tinham uma vida estável, nos pressionavam para
que saíssemos de lá?
Cada vez mais sentia magoado com meus pais. Não me
conformava com o grande vazio em que a vida deles havia se
transformado, mas mesmo no meio de toda essa crise, comecei a
me aproximar de meu pai.
Embora ele enfrentasse problemas de saúde e tivesse
dificuldades de respirar, sempre estava fazendo de tudo para
ajudar. Sempre reclamava de tudo, mas sempre estava disposto a
fazer tudo pelos outros.
Aos poucos, fomos nos tornando mais próximos e
conversávamos mais.
Em nossas conversas, percebi que ele estava incomodado
com um vazio que tinha dentro de si e que começava a tentar se
entender e buscar uma resposta para tudo.
Aos poucos, ele começou a se policiar e a reprimir seu
negativismo, mas era difícil no meio de tanta confusão.
O tempo passou e Ôma acabou falecendo.
Ficamos tristes por nós, sentimos um certo alívio por ela.
Desde que Ôpapa morrera, ela deixou de viver. Entrou
em uma depressão profunda e nada mais dava alegria a ela. Só o
que fazia era sofrer.
Acho que ela não percebia a força que carregava consigo
e que mesmo parecendo fragilizada e inativa, carregava o poder
da matriarca da família. Só o fato de ela existir, fazia com que as
coisas fluíssem de forma diferente. Na época, eu também não
percebia isso, mas agora vejo que a Divindade a manteve

116
di Arius

durante tantos anos conosco, para que sua vibração e energia


sustentassem uma família que estava preste a ruir.
Ela não opinava, mas vibrava inconscientemente para
manter tudo no lugar.
A Força-Luz trabalhava sutilmente em silêncio e quando
Ôma cumpriu sua missão, ela foi libertada de seu sofrimento.
Com a partida de Ôma, a tristeza nos acompanhou por
um tempo, mas minha mãe e meu pai puderam voltar à sua vida
de costume.
A situação de meu primo não havia se resolvido, mas
estava sob controle e a poeira havia baixado.
Embora eu me sentisse cada vez mais próximo de meu
pai, mais me distanciava de minha mãe. A minha vida inteira
fora o inverso, sempre minha mãe participava de tudo e meu pai
era distante, mas agora que meu pai já estava há anos sem beber
e debilitado com sua doença, a coisa se inverteu.
Nem sempre tínhamos muito assunto para falar, mas eu
gostava de estar com ele. Já com minha mãe era o contrário, não
me sentia bem estando próximo a ela.
Acho que a mágoa dos acontecimentos recentes, da fase
em que estávamos no Norte, me afastou dela.
Para mim, era ela quem ia contra e não meu pai.
Ela é quem ligava para Analissy, pressionando para que
ficássemos lá. Foi dela que senti a frieza na morte de Viky, foi
quem vi chorando e se lamentando quando voltamos.
Dentro de mim o problema era ela e não meu pai.
Certa vez, quando minha tia estava em visita aqui,
resolvi por isso a limpo, achando que expressando minhas
mágoas resolveria minha situação, mas o efeito foi contrario, só
nos magoamos, ofendemos e nos afastamos mais.
Poupamos meu pai dessa discussão, pois temíamos
piorar seu estado de saúde.
E a vida prosseguiu com tudo sob panos quentes e nada
resolvido, mas fizemos de conta que estava tudo em ordem.

117
Mauro Losch

O universo conspira

Finalmente um período de relativa paz começou.


Eu era dono dos meus horários de trabalho e sempre que
possível usava um dia da semana para pescar com meu pai, uma
das pouquíssimas coisas que ele gostava de fazer.
Em uma dessas pescarias, conversamos mais
profundamente e a iniciativa foi dele:
- Arius, tem horas em que fico pensando na vida e me
pergunto se eu fui um bom pai para você e sua irmã.
Entendi que ele estava se referindo ao seu problema de
alcoolismo:
- Não sei dizer quanto a Naty, mas para mim o senhor
foi um bom pai. Houve o problema do alcoolismo, mas isso não
me afetou.
- É Arius, mas eu devia ter sido mais amigo seu,
poderíamos ter conversado mais.
- Que é isso pai! Talvez aos seus olhos eu não seja um
cara ajustado e não arrume um emprego em que me dê bem, por
causa da criação ou coisa assim, mas a verdade é que eu sou
assim mesmo. Sei que o senhor se preocupa e queria que eu
fosse diferente, mas finalmente estou conseguindo uma
estabilidade sem ter que trabalhar para os outros. Quero que o
senhor saiba que se tenho a capacidade de aprender e o
raciocínio que tenho hoje, foi tudo graças às ótimas escolas que
frequentei, e isso graças a você, que se sacrificou para pagá-las.
- É Arius, mas eu poderia ter sido mais amigo seu.
Ficamos um momento em silêncio olhando para a água e
fingindo estarmos concentrados na pescaria, então perguntei:
- Como era seu relacionamento com seu pai?
Ele esboçou um sorriso triste e respondeu:

118
di Arius

- Não tinha relacionamento. Ele e eu não conversávamos


sobre nada. Seu avô era um tanto quanto ignorante, um tipo
meio brucutu. Não era de papo e nem de carinho. Tem uma
coisa que aconteceu quando eu era ainda bebê e que não sei
porque lembro até hoje...
Hesitou por um momento e continuou:
- Seu avô também era alcoólatra e bebeu por um bom
tempo. Certa vez ele chegou em casa bêbado e nervoso, me
pegou e colocou pra fora da janela e ameaçou me jogar. Estava
chovendo e sua avó ficou desesperada.
Fiquei pasmo de ouvir aquela história e percebi o
tamanho da mágoa que ele carregava. Não sabia nem que tipo de
comentário tecer sobre aquela história que me contava, então
perguntei:
- Mas e recentemente? Como estava a relação de vocês?
Novamente o sorriso triste estampou seu rosto:
- Não mudou muito. Seu avô nunca valorizou nada que
eu fiz. Tudo que investi na casa da praia, os gastos médicos dele
que eu pagava, as tantas vezes que corri com ele para hospitais
quando adoeceu e as únicas coisas que ele fez foi deixar tudo
que tinha para minha irmã. E quando ele estava morrendo no
hospital, só me xingava. Eu nunca consegui entender porque ele
agia assim comigo.
Fiquei em silêncio por um tempo, tentando pensar em
algo para falar e percebi que eu não saberia o que dizer sobre o
relacionamento deles. Era algo profundo e muito pessoal entre
os dois para que eu pudesse opinar, mas poderia falar mais sobre
o nossa relação:
- Puxa pai?! Então o senhor está de parabéns!
- Porque estou de parabéns, Arius?
- O senhor tendo sido criado dessa forma e hoje está
aqui, tendo essa conversa de amigo comigo. Não é uma grande
evolução sua? Mesmo quando eu era criança, o senhor foi um
paizão. Só nos afastamos durante minha adolescência e no

119
Mauro Losch

período em que o senhor bebia muito, mas hoje está tudo bem.
Se compararmos o seu relacionamento com seu pai e o meu com
você, o senhor se saiu muito bem não acha? Uma tremenda
evolução!
Ele não respondeu nada, mas deu um pequeno sorriso,
que não era triste e percebi que se emocionou. Foi quando um
peixe mordeu a isca e nos divertimos o tirando da água.
Daquele dia em diante, a forma como via meu pai mudou
totalmente.
Se ele era amargo e negativo, se estava doente como
estava, era porque sempre carregou uma mágoa muito grande
consigo e ela o estava literalmente sufocando.
Ele tentava mudar, encontrar algo mais, um sentido
maior. Começou a policiar sua negatividade e acreditar que sua
saúde melhoraria e que tudo seria melhor.
Minha irmã Naty, também não ia bem.
Embora estivesse casada com Arym, um Hon muito bom
e trabalhador, tivesse um filho saudável e talentoso, tinha algo
muito sério dentro de si que a impedia de ser feliz e começou a
definhar a olhos vistos. Ela não tinha nenhuma doença física,
mas sim, psicológica ou espiritual.
Comecei a me preocupar ao ver a tristeza e o vazio em
seus olhos, enquanto seu corpo era pele e osso.
Não queria interferir em sua vida, mas falava com minha
mãe sobre ela. Foi quando descobri que minha irmã tinha
problemas de anorexia desde a adolescência.
Meu cunhado a amava tanto, que acho que tinha medo de
enfrentar o problema e entrar em atrito com ela. Algumas vezes
comentei sobre este problema, mas ele dizia que com calma
estava resolvendo.
O tempo foi passando e só o que vi foi ela piorando.
Apesar de resolver não me intrometer no assunto, uma
voz interior começou a falar e queria se fazer ouvir.

120
di Arius

Nessa época, Analissy re-encontrou uma antiga amiga,


que era uma pessoa com uma energia muito boa. Sempre feliz e
de bem com a vida. Ela dizia uma frase que Analissy gostava de
repetir:

“O universo conspira”

Acho que foi a partir daí que inconscientemente


começamos a perceber isso e cada vez mais o universo
conspirou a nosso favor.
Através dessa amiga que conhecemos um terapeuta
holístico chamado Dawy.
Foi em um almoço, onde ela havia reunido vários amigos
e começamos em um tom alegre a conversar com Dawy sobre
nossas vidas.
A vibração dele era muito boa e a forma como ele via os
problemas me fascinaram.
Acabei pegando um cartão dele e logo veio em meu
coração que ele seria a solução para o problema de Naty.
Aquela voz surgiu dentro de mim, começou a falar mais
alto e sem que eu percebesse, comecei a conversar com ela e
travar um debate interno sobre como agir em relação a Naty.
A voz dizia:
- Vá conversar com Naty, diga a ela o que sente, como a
vê. Alerte-a que está se destruindo e leve-a até Dawy.
Minha mente respondia:
- Não se meta nisso. É problema dela e do marido. Ele é
Jacoliano tradicional e não vai gostar de você levando ela para
um terapeuta holístico.
Esse debate interno persistiu por dias até que resolvi
ouvir a voz interior e conversar com Naty.
Aproveitei uma tarde de folga, que ela estava só em casa
e fui até lá.

121
Mauro Losch

Eu não sabia bem o que dizer e como abordá-la, então


resolvi não pensar muito e deixar a conversa fluir:
- Sabe Naty, eu não queria me meter em sua vida, mas
talvez você não perceba que está se auto-destruindo e sinto que
tenho que fazer alguma coisa.
- Arius, eu sei que tenho um problema, mas já estou em
tratamento com uma nutricionista e me recuperando.
- Naty, eu não estou falando do seu problema físico, mas
sim de você! Tem algo muito errado aí dentro e acho que você
tem medo de encarar ou não consegue ver.
- Ah, Arius! Eu já pensei nisso, mas não tem nada não.
- Desculpe, mas não concordo, Naty. Não sei o que é.
Pode ser porque que você esteja infeliz no casamento, pode ser
algum trauma que traga da adolescência, mas há algo que você
carrega aí dentro e que esta te destruindo.
Conversamos por um bom tempo e não chegamos à
conclusão nenhuma, então resolvi falar a ela sobre Dawy:
- Conheci um terapeuta e acho que ele pode ser um
caminho para você resolver seus problemas. É um terapeuta
holístico e não um psicólogo ou psiquiatra. Sua visão é
diferente, mais espiritual, digamos assim.
- Mas Arius, você sabe que Arym é Jacoliano tradicional
e que não gosta de outras tendências espirituais!
- Não importa, Naty. Estou te dando uma seção de
terapia de presente e te levo lá. Se ele não gostar, mande-o falar
comigo. Você vai ligar agora para Dawy e marcar um horário.
E assim foi feito. Ela marcou um horário e alguns dias
depois a levei até Dawy, esperei a consulta terminar e voltamos
para sua casa.
Mal sabia que aquela ação que fazia pensando nela, teria
influência positiva em minha vida.
Nem de longe eu percebia que o universo conspirou para
mudar não só a vida dela, mas a de todos nós.

122
di Arius

Após a primeira seção, Naty começou a fazer


tratamentos com Dawy e andar por conta própria. Daí em
diante, nossos contatos passaram a aumentar e percebi que Naty
começou a mudar. Ela falava pouco sobre o que estava
acontecendo, mas percebi que algo despertou nela.
Começou a ler livros sobre mestres, raios de luz, seres
cósmicos e esoterismo.
Arym não gostava, mas não se opôs e assim ela foi
caminhando. Quanto a nós, finalmente começamos a ter um
pouco de paz e essa paz deu espaço para que minha voz interna
começasse a falar.

123
Mauro Losch

Essência

Nosso amigo GG estava envolvido em um projeto de


construção em nossa província e às vezes pernoitava em nossa
casa.
Ele sempre foi um cara muito livre, que ia fazendo as
coisas no tempo em que elas se apresentavam e que não deixava
que o sistema o dominasse. Ganhava seu dinheiro, mas não se
vendia para isso.
Desta vez, a coisa estava diferente.
GG se envolveu num projeto de construção e ia todo dia
para essa obra. Acordava cedo e ficava trabalhando até o
anoitecer, como faz a grande maioria de Shaw. Enfrentava um
chefe chato e pessoas bitoladas diariamente. Isso já durava
alguns meses. Pela primeira vez o vi trabalhando como
funcionário e aquilo não era para ele. Recentemente comprou
um belo aquavela e estava trabalhando em sua reforma. Já havia
arrumado a unidade motora, os panos de captação de vento,
pintura e já estava navegando. Havia ajustes a serem feitos,
porém o trabalho tomava todo seu tempo.
As coisas começaram a desandar para GG e eu via tudo
que acontecia como expectador. Ficou claro que ele estava
saindo da sua essência.
E foi o que disse a ele:
- GG, você não é assim. Isso que está fazendo vai contra
o ser que você é. Por isso as coisas não estão dando certo, pois
você perdeu sua essência, deixou de ser quem você é.
Quando disse isso para GG, foi como se tivesse dito
aquilo para mim mesmo. Aquelas palavras entraram em mim e
não saíram mais.

124
di Arius

Logo terminou seu trabalho na construção e ele re-


encontrou sua essência.
Sua vida entrou novamente nos eixos, mas eu não
conseguia esquecer o que disse a ele:

“Você perdeu sua essência.


Deixou de ser quem você é.”

Isso ficou me cobrando todo dia e eu percebi que não


sabia mais quem eu era.
Me envolvi tanto com trabalho, família e problemas do
dia a dia que não parei mais para olhar para mim. Não sabia
mais quem eu era, me perdi no caminho.
Comecei a questionar minha vida e a tentar lembrar de
como eu era, o que queria, o que buscava.
Lembrei das madrugadas que passava escrevendo e
dedilhando o kordsom, das viagens extracorpóreas, dos livros
que lia e percebi que aquilo tudo havia sumido da minha vida.
Tudo que escrevi foi literalmente para o lixo.
Havia dado embora meu kordsom, pois estava
abandonado há muito tempo. Nunca mais tentei meditar,
escrever, ler ou fazer um desligamento do corpo.
Perdi minha essência, mas agora eu queria reencontrá-la.
Por onde começar?
O que fazer?
Naty já estava ajudando a me re-encontrar e eu nem
tinha percebido.
Em nossas conversas ela dizia que chamava a sua
essência de “Eu Sou”, falava sobre energias cósmicas e me
emprestava livros.
Confesso que alguns dos livros que me emprestou não
faziam o menor sentido para mim e que às vezes eu até
debochava de suas idéias, mas o que importava é que ela estava
melhorando.

125
Mauro Losch

Certo dia, Naty veio me falar sobre uma nova tecnologia


espiritual que ela havia aprendido que se chamava Reiki:
- Arius. Aprendi que existe uma energia cósmica vital
que podemos acessar sempre que quisermos e que podemos usar
para nós e para curar as pessoas. No caso da cura, somos como
canais para que ela flua e não temos interferência sobre ela.
- Nossa Naty, que legal! E como você faz? Como você
entra em contato e usa essa energia?
- Arius, se você quiser, posso aplicar essa energia em
você. Você quer?
- Lógico que sim!
Esta foi minha primeira seção de Reiki.
Deitei na cama e Naty colocou símbolos imaginários
sobre mim e as mãos sobre pontos de energia do meu corpo.
Ficamos mais de uma hora nessa seção de Reiki e eu
sentia a energia fluindo das mãos dela em cada ponto do meu
corpo que ela tocava. Relaxei profundamente e comecei a
visualizar formas, luzes e cores suaves e belas. Foi relaxante e
restaurador.
Quando a seção terminou, me senti muito bem, mas não
percebi nada de diferente em mim.
Eu nem imaginava que Naty havia me carregado da mais
pura energia da Força-Luz e que minha vibração mudara. Não
tinha a mínima consciência de que aquilo despertara o ser divino
que sou e que as coisas em minha vida agora, seriam regidas
pela inteligência superior e não mais pelas energias de Ekus.
Isso logo se manifestou, começando pela nossa casa.

126
di Arius

Reforma

Um dia, Analissy e eu olhamos para casa onde


morávamos e percebemos que ela estava precisando
urgentemente de atenção.
As paredes mal pintadas e machucadas e o gramado mal
cuidado, começaram a nos incomodar.
Acho que aquilo não combinava mais com os seres
iluminados que despertavam em nós.
Resolvemos fazer uma pequena reforma e comentei isso
com minha mãe, mas o que ouvi foi desanimador:
- Para que gastar dinheiro com isso se vocês vão sair daí
logo? A coisa aqui não está fácil e vamos vender a casa, então
Arius, não gaste seu tempo e dinheiro com a reforma.
Analissy e eu já estávamos cientes disso, mas mesmo
assim sentíamos vontade de dar nosso amor para a casa que nos
abrigou por tantos anos.
Fomos falar com meus pais e combinamos que
ficaríamos na casa até o fim do ano para que Lakus pudesse se
formar na escola e que após as festas Jacolianas e de passagem
de ano sairíamos da casa para que a vendessem.
Até lá, pagaríamos um aluguel para eles, que ajudaria a
bancar as despesas que meu pai tinha com medicamentos.
Meu pai estava se entupindo de remédios e sua
dificuldade de respirar aumentava cada vez mais.
Naty aplicava Reiki nele, mas ele se negava a acreditar
que aquilo funcionava. Ela comentou comigo que se preocupava
com nosso pai, pois ele estava tão fechado que não recebia a
energia que ela transmitia.
Mesmo assim eu percebia que ele tentava mudar e sentia
que buscava algo além daquela vida limitada que levava.

127
Mauro Losch

Era como se ele lutasse contra Ekus, mas por algum


motivo não tivesse forças para vencê-lo.
Mesmo sabendo que sairíamos da casa resolvemos
reformá-la.
Embora estivéssemos mais equilibrados financeiramente,
não tínhamos condições para pagar pelo serviço de terceiros,
então resolvemos fazer nós mesmos.
Compramos tintas, ferramentas, materiais e pusemos a
mão na massa.
Cada cômodo que reformávamos, dava o triplo do
trabalho que imaginávamos, mas o fizemos com tanto amor e
alegria que isso não importava. Cada camada de tinta que
raspávamos, mostrava as cores antigas e trazia à tona histórias
daquela casa. Encontramos até algumas palavras escritas nas
paredes.
Embora cansados e com tudo bagunçado e empoeirado,
nos divertimos fazendo a reforma.
Foi quando Analissy teve a idéia:
- Arius, está tudo ficando tão legal. Porque não fazemos
a Festa Jacoliana desse ano aqui?
- Ótima idéia! Podemos nos despedir da casa fazendo
uma Festa Jacoliana animada, como era na época de Ôpapa.
- Então está certo Arius, vamos convidar todo mundo.
Minha família e a de Analissy concordaram e isso nos
deu mais ânimo e motivação.
Terminamos tudo bem a tempo para a festa e compramos
uma linda árvore que ia até o teto.
Analissy a enfeitou toda colorida e espalhamos luzes por
toda casa e no gramado.
A casa para nós estava viva. Brilhava feliz com o amor
que demos a ela e tudo caminhava para uma Festa Jacoliana
perfeita.

128
di Arius

Embora soubéssemos que era uma despedida, não demos


atenção para isso. Nos focamos na alegria da festa e na boa
energia que emanava novamente da casa de Ôpapa.
Era tudo ilógico. Gastar tanta energia, dinheiro e tempo
para reformar uma casa que seria vendida e que por ser tão
velha, a reforma em nada valorizaria sua venda. Todos
potenciais compradores só queriam o terreno. Iriam demoli-la e
construir pequenas moradias de andares.
Nem percebemos que deixamos nos guiar por outra
inteligência e que essa inteligência é divina e não se preocupa.
Ela apenas é, e cria o que deve ser criado.
Tive a idéia de gravar um digivídeo, com músicas e fotos
de festas Jacolianas passadas com toda família, desde a época de
meus bisavós até a ultima. Foi emocionante editá-lo e eu
imaginava a reação de todos ao assisti-lo.
Gravamos também outro com músicas festivas e fotos de
todos bons momentos que passamos juntos de nossa família.
Organizamos tudo, preparamos a festa e ficamos
ansiosos esperando todos chegarem.
Minha família chegou primeiro.
Mostramos a reforma que fizemos com alegria enquanto
aguardávamos a família de Analissy.
Passamos o digivídeo da coletânea de festas Jacolianas e
foi gostoso ver a reação de todos, mas uma pessoa em especial
ficou mais emocionada: meu pai.
Percebi que aquilo o tocou profundamente e trouxe à
tona sentimentos antigos. Um misto de alegria e saudades.
Logo a família de Analissy chegou e a coisa ficou mais
alegre.
Todos trouxeram pratos de comida e a mesa ficou farta.
Colocamos o digivídeo com musicas festivas e nos
animamos cada vez mais.
Ligamos para minha tia, para passar um pouco de alegria
e amor de Jacolai para ela que estava distante.

129
Mauro Losch

A troca de presentes foi muito divertida e pudemos sentir


o espírito de amor e união no ar.
Foi uma verdadeira Festa Jacoliana! Foi tudo ótimo!
Uma noite marcante e inesquecível.
Quando todos se foram, Analissy e eu nos abraçamos
com uma sensação de que tudo havia transcorrido perfeitamente
e então Analissy me disse:
- Sabe Arius, não conheci Ôpapa, mas houve um
momento em que eu senti que ele estava presente atrás de mim,
colocou sua mão sobre meu ombro e me passou uma sensação
de alegria e gratidão. Foi como se ele estivesse me dizendo que
estava muito feliz em ver a festa e todos juntos novamente.
Fiquei muito emocionado e mais feliz ainda.
Na semana seguinte a comemoração da passagem de ano
seria na casa de Naty e Arym.
Eu já havia comentado com Naty que sentia que o
próximo ano seria especial. Algo dentro de mim me avisava que
seria um ano diferenciado.
Naty e Arym preparam tudo para a passagem do ano.
Seria a primeira vez na nova casa deles e estávamos todos
animados.
No dia da comemoração, Analissy e eu chegamos antes
de meus pais e estávamos em clima de festa, mas quando eles
chegaram, o clima mudou.
Meu pai estava com muita dificuldade para respirar e
mal conseguia sair do carro para entrar em casa.
Ficamos preocupados e queríamos levá-lo ao hospital,
mas ele negou, disse que era só dar um tempo para se recuperar.
Aos poucos melhorou e se juntou a nós para festejar.
Embora abatido, ficou conosco todo tempo até a hora da
virada, quando nos cumprimentamos e comemoramos a
passagem, depois disso começou a piorar. Não conseguia mais
respirar e vimos que ele estava se desesperando.

130
di Arius

Colocamos ele em meu rodmobil e corremos até o


hospital. Naty acompanhou no seu rodmobil e foram momentos
de extrema angustia.
Os médicos ficaram horas tentando estabilizá-lo
enquanto ele lutava desesperadamente para puxar o mínimo de
ar para os pulmões.
Nada fazia efeito ou dava resultado, até que não houve
outra opção senão sedá-lo e ligá-lo a equipamentos tecnológicos
de sobrevivência. O esforço que feito para recuperá-lo era
grande demais e sem os equipamentos seu coração não resistiria.

131
Mauro Losch

Patriarca

Foram onze dias de angústia.


Íamos visitá-lo sempre, mas na maioria das vezes, ele
estava desacordado.
Com o tempo, a situação foi se estabilizando e os
médicos reduziam os sedativos para tentar tirá-lo das maquinas
que respiravam por ele.
Algumas vezes percebíamos que nos ouvia e tentava se
comunicar.
A última lembrança que tenho de meu pai foi quando ele
num esforço abriu seus olhos azuis e senti no seu olhar que ele
estava se despedindo.
Dias depois uma crise fulminante fechou seus dois
pulmões e ele faleceu.
Foi um período difícil e triste.
Apesar da tristeza da despedida, por saber que não o
veríamos mais nessa vida, uma clareza estranha dos
acontecimentos me acompanhava.
Em nenhum momento achei que os fatos estivessem
errados ou fora do tempo.
Sentia que aquilo era o que meu pai precisava naquele
momento e que estava tudo alinhado com o que todos nós
precisávamos aprender.
Veio então a tortura da burocracia de Shaw.
Inventário, taxas, impostos, tramites legais e mais uma
série de complicações criadas por leis de governos vampiros e
pessoas servas de Ekus.
Comecei a ter dores nas costas que a cada dia me
incomodavam mais.

132
di Arius

Apesar de detestar esse tipo de coisa, acabei assumindo


auxiliar minha mãe em todo esse processo.
Confesso que se não fosse por Analissy com sua energia
e praticidade, eu não conseguiria desenrolar tudo sozinho. Ela
assumiu e resolveu grande parte do enrosco.
Tentei manter o bom humor e a energia em alta, mas
quanto mais as coisas demoravam a serem resolvidas, mais
aumentavam minhas dores nas costas. Fora isso, havia também
o sofrimento, queixas e inconformismo de minha mãe.
Nessa época, uma sensação estranha se abateu sobre
mim, quando percebi que passei a ser o patriarca.
Foi como se a energia que meu pai ancorava tivesse sido
passada para mim e eu tivesse que assumir um papel de pilar.
Isso tudo somado, fez com que minhas dores nas costas
ficassem mais agudas.
Tentei na medicina tradicional, através de exames,
injeções e química resolver o problema, mas nada tinha efeito.
Os médicos diziam que devido ao esforço físico, causei
lesões em minhas costas, mas para mim a palavra “somatização”
fazia mais sentido.
Naty recomendou que eu tentasse um tratamento
alternativo, que era baseado na aplicação de pequenas agulhas
em pontos de energia do corpo acompanhado de seções diárias
de Reiki.
O que os remédios e injeções tradicionais não
conseguiram resolver, as agulhas e o Reiki resolveram
rapidamente.
Acontece que mais do que curar as dores nas costas,
essas terapias alternativas abriram canais de comunicação e
ajudaram a Força-Luz a se manifestar com cada vez mais
intensidade em minha vida.

133
Mauro Losch

Busca

Comecei a sentir uma necessidade de buscar respostas e


achei melhor me consultar com Dawy. Ele havia ajudado muito
Naty e agora era minha vez.
O ambiente no consultório dele era extremamente
agradável e passava muita paz e tranquilidade.
A consulta começou com um bate papo e logo me senti
seguro para falar sobre minhas buscas espirituais e conflitos
interiores, como se eu finalmente tivesse encontrado um amigo
que me entendesse.
Após a conversa ele usou alguns instrumentos e mediu
como estava o fluxo das energias em todos os meus canais,
anotou a data e hora de meu nascimento e deu um diagnóstico
inicial:
- É Arius, você abandonou seus sentimentos e se tornou
tão racional, que um lado seu está sem energia e por isso você
teve essas dores. Perceba que até seu sapato gasta mais do lado
que está fraco. Há também muita energia fluindo para o topo de
sua cabeça, mas que não consegue entrar. Vamos fazer um
exercício para tentar melhorar isso.
O que ele disse fazia sentido. Muitas vezes eu sentia uma
leve pressão no topo de minha cabeça e ao me olhar no espelho
percebia que um de meus ombros era um pouco mais caído.
Dawy foi me orientando e eu ia visualizando as cores e
energias que trabalhavam em mim e mesmo estando de olhos
fechados, conseguia ver ele andando de um lado para o outro do
consultório, enquanto ia me re-equilibrando.
Era algo sutil e embora parecesse imaginário, era muito
real. Dava para sentir as energias fluindo e ver claramente suas

134
di Arius

cores. Eu já tinha visto algo semelhante nas aplicações de Reiki


de Naty.
Alguns dias depois fiz mais uma consulta e Dawy havia
preparado um estudo sobre minha essência, mestre, arcanjo,
carma e me aplicou mais um exercício energético.
Depois dessas consultas, as coisas mudaram bastante.
Eu que sempre fui muito analítico e crítico, com grande
tendência a julgar e rotular os Hons, percebi que com esse tipo
de atitude, fechava várias portas para ensinamentos e realidades
que poderiam me ajudar a encontrar as respostas que buscava.
Resolvi então mudar minha postura e deixar de lado o
senso crítico e absorver tudo que viesse ao meu encontro para
depois meditar sobre as novas informações.
Comecei a buscar livros, textos e a participar de
comunidades na RIDD.
Confesso que no começo minha mente ainda gritava e
tentava me convencer de que se eu fizesse isso, estaria passível
de ser influenciado por seitas ou religiões que poderiam me
transformar em um alienado.
Mesmo assim decidi absorver tudo que pudesse e deixar
que minha busca fosse guiada pela minha fé e intuição e não
pelo meu raciocínio lógico.
Comecei a ler livros que Naty me emprestava e textos
sobre fraternidades espirituais, mensagens telepáticas de seres
extraplanetários, de mestres, arcanjos e sábios das terras do
Oriente.
Desliguei a chave de meu julgamento e deixei tudo rolar.
Não que eu tenha resolvido acreditar em tudo que
aparecia, mas dessa forma, pelo menos dava abertura para
mudanças e novos conceitos.
Descobri que existem energias que estão disponíveis,
que podemos acessá-las sempre, que existem mestres e arcanjos
enviando essa energia e orientação para todos os que buscam se
encontrar e que somos criadores de realidades.

135
Mauro Losch

Temos o poder de mudar até a estrutura física das coisas


e de atrair tudo para nossas vidas, porém, não sabemos usar esse
poder de forma adequada.
Vivemos no piloto automático. Caímos em armadilhas
que nós mesmos criamos e depois culpamos o mundo e os
outros por isso.
Questionava porque deixei de ser eu, de fazer as coisas
que gostava e de viver as aventuras da minha juventude.
GG era um exemplo do que eu havia abandonado.
Embora tivéssemos a mesma idade e ele também
houvesse durante um período perdido o contato com sua
essência, ele superou essa fase e estava fazendo o que gostava e
tendo novas experiências e aventuras.
Nesse momento GG estava participando de regatas e
navegando por toda costa de nossas terras.
Eu ficava acompanhando suas viagens e vendo os
lugares por onde passava através de seu espaço na RIDD.
Essa aventura culminaria com uma viagem de três dias
até a ilha FNY que fica em alto mar. É a ilha mais bela de
nossas terras.
Como eu já tinha navegado algumas vezes com GG e
passado por algumas aventuras no Tuaregy, seu aquavela de
aço, conseguia de certa forma sentir o que via nas fotos e textos
que postava na RIDD. Sabia que navegar até a ilha seria uma
aventura especial.
Analissy e Lakus também já tinham passado alguns dias
a bordo do Tuaregy, mas não se sentiam muito atraídos a
navegar e passar pelo desconforto de ficar dias embarcados.
Até então, eu acreditava que aquele tipo de aventura não
era mais para mim e que deveria me contentar em ver e
acompanhar as experiências de GG, mas um desejo de participar
dessa última etapa começou a crescer em mim.
Comentei com Analissy:

136
di Arius

- Como eu gostaria de ir com o GG até a ilha FNY. Deve


ser maravilhoso ficar dias e noites navegando em mar aberto até
chegar nessa ilha paradisíaca.
- Arius, porque você não vai?
- Bem que eu gostaria, mas tenho que ir de aeromobil até
a província do Norte para encontrá-lo. Além disso, há outras
despesas de viagem e nossos clientes, que deixarei de atender
por pelo menos quinze dias.
- E daí, Arius? Qual o problema? Você não está
buscando ser você mesmo e encontrar sua essência? Você não
acredita que podemos atrair o que realmente desejamos para
nossa vida? Então aí está uma oportunidade de você viver isso.
- Sabe que você tem razão, Analissy. Vou pensar no
assunto.
No dia seguinte, enquanto eu ainda ponderava e pensava
na possibilidade de realizar esta viagem, GG me ligou:
- E aí, Arius ! VAMOS PARA ILHA FNY?
- GG!!! Não acredito, falei sobre isso com a Analissy
ontem!!!
Chamei-a:
- Analissy ! É o GG no tele-voz. Ele está perguntando se
eu quero ir para ilha FNY.
- Que coincidência, Arius, falamos ontem sobre isso!
Aproveita! Fala que vai!
Deixei todas as ponderações de lado e segui o que meu
espírito desejava. Deixei minha alma falar:
- GG! Tô dentro ! Vou com você.
- Que bom, Arius! Vai ser uma grande aventura! Entra
na RIDD e faz tua inscrição como tripulante do aquavela
Tuaregy e depois combinamos os detalhes para nos
encontrarmos. Fala com meu irmão, pois ele também vai
participar, ok? Um abraço e até mais.
- Outro GG! Até mais!

137
Mauro Losch

Senti-me feliz e eufórico como há muitos anos não me


sentia.
Nos dias que se seguiram comprei as passagens, roupas e
acessórios para a viagem e combinei com Groly, irmão de GG,
os detalhes para seguirmos viagem juntos.
Embora estivesse muito empolgado, minha ansiedade
estava sob controle.
Finalmente chegou o dia e fomos até o aeroporto.
Quando estava tudo pronto para o embarque, achei
melhor comprar um ou dois livros, pois ficaríamos muito tempo
navegando e seria bom ter algo para ler.
Como tínhamos pouco tempo para embarcar no
aeromobil, escolhi rapidamente dois livros e fomos embora.
Groly também era fora dos padrões e acreditava em algo
além do que todos viam e embora eu o conhecesse há muitos
anos, não éramos íntimos. Essa viagem proporcionou que nos
aproximássemos mais.
Com ele eu podia falar sobre as minhas buscas
espirituais e esotéricas sem me preocupar com julgamentos e
preconceitos.
Tudo indicava que seria uma viagem ótima.
Ao chegarmos no aqua-clube, GG nos aguardava com
um sorriso e nos recebeu com abraços.
Falamos sobre a viagem, levamos nossa bagagem ao
aquavela, conversamos sobre como seria nossa aventura e sobre
os lugares pelos quais GG havia passado.
Tínhamos dois dias para deixar tudo em ordem e
conhecer os outros participantes.
Assistimos a palestras de orientação, apresentação das
regras da regata e participamos da festa de abertura.
Tudo estava ótimo, mas por um tempo me senti chateado
por Analissy não estar participando daquilo tudo comigo,
porém, logo aceitei o fato de que aquilo era algo que eu gostava
e que ela provavelmente não estaria curtindo.

138
di Arius

Várias vezes me senti frustrado por Analissy, Lakus ou


Hagusty não se interessarem por alguns tipos de aventuras que
eram importantes para mim, mas entendi que não podemos viver
em função dos outros o tempo todo e me dei o direito de
vivenciar plenamente aquele momento, sem culpa ou
preocupações.
Lógico que eu pensava neles, no trabalho que deixei por
conta de Analissy e se estava tudo bem. Sempre que possível
mantínhamos contato.
Muitas vezes deixamos de viver a vida por causa do
outro e achamos que o fato de sermos casados ou termos filhos é
empecilho para sermos nós mesmos e fazermos o que gostamos.
Ficamos nos culpando, ou deixando que o outro nos
culpe por sermos nós mesmos, ou então achamos que estamos
sendo egoístas.
Acredito que o fato de amarmos alguém e decidirmos
viver nossa vida ao lado dessa pessoa, não significa termos que
abrir mão da nossa essência e muito menos podemos deixar que
o outro assuma as rédeas de nossa vida.
Parece que somos viciados em procurar razões para não
nos permitirmos sermos felizes e craques em depois jogar a
culpa nos outros.
É lógico que é muito bom fazer o que gostamos na
companhia de quem amamos, só que nem sempre todos gostam
de fazer as mesmas coisas. Não acho que ninguém deva abrir
mão de sua essência em função disso.
Não era o caso do que acontecia entre Analissy e eu, mas
percebo que a grande maioria do Hons vive um relacionamento
de aparência. São infelizes e embora não admitam, lá no fundo,
acham que a culpa dessa infelicidade é do parceiro.
A verdade é que culpa, arrependimento e frustração não
são da nossa Divindade e sim sentimentos criados por Ekus para
justificar nossa falta de coragem de encarar a vida e vivê-la
plenamente.

139
Mauro Losch

Nesse sentido os aqua-velejadores são especiais.


Embora muitos sejam bem sucedidos financeiramente e
de idade avançada, alguns simplesmente são aventureiros livres
e vivem em seus aquavelas viajando pelo mundo.
Poder conviver com eles me fez refletir sobre o que é
viver de verdade.

140
di Arius

Navegando

A tripulação do Tuaregy seria composta por cinco


membros: GG, Groly, Senhor Fredal (pai de GG e Groly), Kassy
(um amigo da turma da praia que agora morava nas terras do
Norte) e Kamy (uma nova personagem que conheci ao chegar
no aqua-clube).
Refiro-me a Kamy como uma personagem, porque ela
parecia um ser retirado de um livro ou filme.
Nunca conheci alguém tão livre, aventureira e moleca.
Nossa sociedade tende a pré-julgar mulheres como ela e
logo rotulá-las de levianas, mas isso não acontecia com Kamy.
Hoje entendo que a energia que fluía naturalmente dela
não dava abertura para comentários maldosos ou segundas
intenções e fazia com que todos se sentissem à vontade de se
divertir em sua presença.
A coragem de Kamy em viver a vida intensamente e de
ser ela mesma o tempo todo, despertava o melhor de cada um.
Acho até que muitos dos Hons tinham inveja dessa
coragem.
Não existiam problemas para ela. Se queria fazer uma
coisa, ela fazia e pronto. Não havia nada que a impedisse, como
falta de dinheiro, horário ou vergonha.
Acho que posso dizer que ela é a pessoa mais cara-de-
pau que conheci até hoje.
Era impossível não admirar seu jeito de ser e não gostar
dela.
Todo dia aprontava alguma molecagem. Enfrentava
alguém para conseguir o que queria ou fazia novas amizades
que logo se rendiam ao seu jeito e prestavam os favores que
pedia.

141
Mauro Losch

Nunca a vi usando de sedução ou se insinuando para


conseguir alguma coisa.
Quando Analissy ficou sabendo que uma mulher faria
parte da tripulação, não gostou nem um pouco, mas eu não
achava justo esconder nada dela.
Quando conheci melhor Kamy, procurei tranquilizar
Analissy.
Contei que não se tratava de uma mulher leviana e que
ela estava de namoro com GG. Acabei me empolgando demais
em falar bem de Kamy e Analissy se sentiu insegura, mas não
falou nada.
Minha relação com Analissy é muito bem definida e a
presença de uma mulher era irrelevante e sinceramente não me
arrependo de ter acompanhado algumas das aventuras e
situações divertidas vividas por Kamy.
Ver Kamy aprontando suas presepadas era como estar
assistindo uma frenética comédia ao vivo. Foi um desses seres
que passa pela nossa vida para mostrar algo que precisamos ver
e vai embora.
Depois da viagem, não tivemos mais contato e não sei
por quantas aventuras ela passou, mas cá entre nós, não devem
ter sido poucas.
Logo chegou o dia da largada.
Ver todos aqueles aquavelas no canal que dava acesso ao
mar, o povo nas margens assistindo ao evento e acenando, foi
emocionante.
Embora se tratasse de uma competição, para nós era
apenas uma forma segura de fazer a viagem. Embarcações de
resgate da Força Aqua estariam acompanhando tudo para prestar
socorro se necessário.
A emoção de levantar os panos, vê-los se enchendo de ar
e a força do vento começando a impulsionar o Tuaregy foi
indescritível.

142
di Arius

Lentamente saímos do canal e ganhamos o mar aberto.


Aquele amontoado de aquavelas foi se espalhando e se
distanciando, até que praticamente não víamos mais nenhum
próximo a nós.
A terra ia se afastando e as construções pareciam
maquetes ao longe. À nossa frente apenas um horizonte
preenchido de mar e céu.
Quanto mais nos afastávamos da terra, mais límpida e
vibrante ficava a água do mar.
Às vezes éramos acompanhados por dolfynhos que
brincavam e pulavam ao redor da embarcação.
Os dolfynhos parecem seres mágicos e a presença deles
passa uma energia contagiante. É impossível não perceber que
esses seres tem algo de especial.
E lá íamos nós. Devagar e sempre.
Logo nosso vermelho Sol começou a se pôr,
proporcionando um magnífico espetáculo de cores e luzes.
Lentamente o céu foi escurecendo e começaram a
pipocar as infinitas estrelas distantes.
Fazia muito tempo que eu não via um céu espetacular
como aquele.
Bem ao longe ainda víamos as luzes da civilização e uma
ou outra luz de mastro de aquavelas distantes que acendiam e
apagavam conforme as ondas.
Deitar no Tuaregy, sentir o balanço e som do mar e dos
panos ao vento, admirando aquele maravilhoso céu estrelado,
me libertou totalmente do mundo ao qual estava preso.
Naquele momento eu estava livre e finalmente consegui
entrar em contato com minha essência.
Adormeci sem pensar em nada e totalmente comigo
mesmo.
Dois dias navegando e estávamos no meio do oceano.
Não víamos nem sinal de terra ou de outros aquavelas.
O mundo agora era só mar e céu.

143
Mauro Losch

Conversávamos, cantávamos e nos revezávamos na


navegação.
Tentei algumas vezes ler os livros que comprei, mas o
balanço do mar tornava impossível me concentrar na leitura,
pois me embrulhava o estomago.
Ficar dias balançando para lá e para cá, sem poder tomar
um banho decente pode parecer torturante, mas isso era
irrelevante se comparado com todas as coisas boas de estar
vivendo aquela experiência.
Os equipamentos de navegação indicavam que a
qualquer momento deveríamos visualizar a ilha FNY.
Caprichosamente algumas nuvens cobriam o horizonte e
tiravam nossa visibilidade. Era como se a natureza estivesse
brincando com nossa ansiedade.
Quando finalmente conseguimos ver a ilha, já começava
a escurecer e tivemos que navegar e atracar no escuro.
Acho que isso só aumentou a magia e nossas
expectativas, pois passaríamos mais uma noite sem ver a ilha.
Estávamos tão cansados que assim que atracamos,
tomamos um banho, nos alimentamos e nos recolhemos.
Quando o dia amanheceu e finalmente e pudemos ver
FNY ficamos boquiabertos com a maravilha da natureza que a
luz do dia descortinou.
Se existisse algum Hon no planeta Shaw capaz de
projetar e construir uma ilha, jamais conseguiria criar algo tão
belo.
O desenho das pedras e praias no contorno da ilha
circundavam uma grandiosa formação rochosa. As curvas de sua
geografia eram de deixar qualquer um de queixo caído.
Eu mal podia acreditar que estava naquele lugar.
Foram dias de caminhadas, mergulhos, fotos e
exploração.

144
di Arius

Embora a ilha fosse extremamente isolada, os meios de


comunicação permitiam que eu mantivesse contato quase que
diário com Analissy.
À noite ficávamos no Tuaregy tocando kordsom e
conversando.
Eu conversava mais com Groly.
Ele aparentava ser muito desapegado e de bem com a
vida, mas aos poucos fui percebendo que carregava consigo
mágoas relacionadas a antigas namoradas, ao pai e aos irmãos.
Tentava se convencer que essas mágoas não o afetavam,
mas percebi que estavam bem enraizadas dentro dele.
Embora aparentemente fosse um cara meio “desligado”,
talvez não acreditasse em si mesmo o suficiente para tomar
atitudes em relação ao que o incomodava e assumia um papel de
vítima, que fingia não ligar para nada.
A grande maioria dos Hons não tem coragem de
enfrentar os sentimentos profundos que os incomodam e
transformá-los em algo positivo. Preferem se colocar no papel
de vitima sofredora, buscando assim a piedade dos outros ou
justificativa para seus fracassos.
Groly vivia com sua mãe e irmão na praia onde conheci
meus amigos. Ele dava aulas na escola da Vila da Praia e
sempre buscava passar para os seus alunos a importância de
acreditar em si mesmo. Será que ele mesmo acreditava em si?
Apesar de ter uma mente bastante aberta, percebi que seu
mundo era pequeno.
Não que eu ache algo de errado nisso, mas talvez ele
devesse sair mais de seu pequeno casulo, se descobrir, crescer e
desenvolver todo seu potencial ao invés de ficar lamentando
fatos que não aconteceram como ele gostaria.
Mais uma vez vi alguém se lamentando pelo que o outro
fez ou deixou de fazer.
Se durante nossos papos no Tuaregy eu tivesse a visão
que tenho hoje, diria a ele para respirar fundo, encher o peito de

145
Mauro Losch

coragem e encarar todos aqueles sentimentos empoeirados que


estavam se acumulando lá no fundo de sua alma. O ajudaria a
ver seu potencial, para que movimentasse sua vida guiado por
essa intuição que diz a ele que nada importa.
Eu mesmo havia passado recentemente por uma situação
que me ensinou a lidar com sentimentos de mágoa e culpa
quando re-encontrei Klaty na RIDD. Aquele sentimento de
culpa que se escondeu nas sombras durante anos, ressurgiu. Vi
a oportunidade de limpar aquilo de dentro de mim e de me
desculpar com ela.
Comecei retomando o contato, falando sobre coisas
corriqueiras e quando a oportunidade se apresentou, resolvi
tocar no assunto.
Abri meu coração e reconheci meu erro em uma
mensagem que enviei a ela, porém o resultado foi diferente do
que eu esperava.
Achava que podia ter seu perdão ou condenação, mas ela
entendeu mal e achou que meu pedido de desculpas era uma
tentativa de re-aproximação.
A lição que aprendi é que pedir perdão ao outro serve
para que tentemos aliviar a dor que causamos a alguém, mas
que a decisão de se libertar daquele sofrimento é do outro e não
nossa.
O outro não tem o poder de nos perdoar, somente nós
mesmos é que podemos nos perdoar.
A partir do momento que entendi meu erro, ganhei o
poder de me perdoar, mesmo que o outro não tenha aprendido a
se livrar da sua dor.
De qualquer modo, quando nossa Divindade quer nos
mostrar alguma coisa, ela se faz ouvir, seja da forma que for.
Eu era tão aprendiz quanto Groly naquela viagem e
tenho certeza que assim como eu, ele também tirou suas lições
daquela experiência.

146
di Arius

Para muitos, uma viagem é apenas ver, fotografar e


conhecer novos lugares, mas algumas viagens tem mais para nos
mostrar do que belas paisagens. Assim foi a viagem que fiz há
anos atrás com os amigos da praia e assim estava sendo essa
também.
Como o tempo passa rápido quando estamos fazendo
algo bom, não é?
Nossa estadia na ilha foi muito proveitosa e conseguimos
conhecer quase tudo, mas já estava na hora de voltar.
Uma certa tristeza se abateu sobre nós ao vermos a ilha
FNY se afastando na trilha de espuma do aquavela, mas a
alegria de estarmos navegando novamente e a vontade de voltar
para casa logo substituiu essa tristeza. Era hora de ir em frente.
A navegada de volta foi mais rápida, porém bem mais
agitada e desconfortável. O Tuaregy ficou o tempo todo tão
emborcado, que perdemos metade das camas. Era impossível
ficar deitado sobre elas sem cair e com isso nosso período de
revezamento para o descanso ficou bem reduzido.
As ondas eram altas e o aquavela saltava e dava trancos
o tempo todo. As vigias inferiores ficavam frequentemente sob a
água e ondas que estouravam no casco, constantemente nos
molhavam.
Diferente da tranquilidade e marasmo da ida, foi possível
perceber a fragilidade do nosso grande aquavela de aço perante
as forças da natureza de Shaw.
Ao chegarmos ao continente, todos contabilizavam os
prejuízos causados pelo mar batido. Contavam as aventuras e
revezes passados na viagem de volta. Sempre de forma divertida
e bem humorada.
Fiquei mais um dia com essa turma de malucos que sabe
viver intensamente a vida, mas uma forte vontade de voltar para
casa me dominava.

147
Mauro Losch

A viagem havia cumprido sua missão. A saudade e


vontade de compartilhar tudo com minha família eram mais
fortes.
Voltei com a mesma bagagem física que levei, mas
espiritualmente minha bagagem era muito maior.

148
di Arius

Pontos de vista

Não via a hora de chegar em casa e abraçar todos e


compartilhar tudo que aprendi e vi, só que logo de cara levei um
balde de água fria.
Analissy estava emburrada e começamos a discutir.
Do ponto de vista dela e fui egoísta e não levei em
consideração seus sentimentos. Disse que o fato de eu ter falado
tão bem de Kamy só aumentou sua insegurança. Lakus também
tomou suas dores.
Por mais que eu tentasse expor meu ponto de vista, não
conseguimos chegar a um consenso, mas eu não permiti que
esse jogo de cobrança implantasse em mim uma culpa que eu
não tinha e não me arrependo por ter feito tudo do jeito que fiz.
Minha consciência estava tranquila.
Essa divergência entre nós ofuscou muito do que eu
tinha para compartilhar com eles e hoje vejo que há coisas que
são tão nossas que é impossível transmitir para os outros.
Às vezes fico andando pelo gramado de nossa casa e
admirando a beleza e desenvolvimento de nossa horta, nossas
pequenas árvores e flores ou simplesmente me sento na grama e
fico acariciando nosso cachorro e olhando para o céu.
Para mim, isso é como estar no paraíso por alguns
momentos, mas para os outros aquilo não significa muita coisa.
Comecei a aprender a guardar para mim algumas de
minhas experiências, porém sempre senti uma vontade muito
grande de mostrar a grandiosidade que está escondida na
simplicidade.
Era como se algo dentro de mim sentisse a necessidade
de mudar o mundo.

149
Mauro Losch

Sempre tive a sensação de que a forma como encarava a


vida era muito mais simples e engrandecedora do que a forma
como a grande maioria dos Hons encarava. Sentia que devia
encontrar uma maneira de compartilhar isso e me fazer entender.
Achava que eu tinha o segredo para um mundo melhor e
até então não havia encontrado ninguém igual a mim.
Com o tempo aprendi que não é assim que as coisas
funcionam. Aprendi a aceitar cada um como é, mesmo sabendo
lá dentro, que a maioria das escolhas feitas por eles são guiadas
por Ekus e não por suas Divindades.
Percebi como é difícil para todos se libertarem dos vícios
e programações que sofreram durante muitas existências e
principalmente como todos tem medo de se encarar.
Quantas vezes Analissy e eu tentamos alertar amigos e
parentes que passavam por problemas ou conflitos e nos
esforçamos para que entendessem que havia outra forma de
encarar os acontecimentos de suas vidas, mas era como dar
murro em ponta de faca.
Depois ficávamos vendo tudo desencaminhar e ainda
ouvíamos suas lamentações. Porém aos poucos fomos
descobrindo que a inteligência divina trilha caminhos que para
Ekus é só sofrimento, mas é a única forma que ela consegue se
fazer ouvir. Isso já tinha acontecido tantas vezes em nossa vida.
Porque seria diferente com os outros?
Depois de passada toda a crise e sofrimento, cada um
acaba carregando sua lição, mas carrega também mágoas e
desilusões que ficam anos fermentando dentro deles, até que se
transformam em doenças ou traumas.
Outras vezes, ouvimos como gostariam de ter sido
alertados por alguém sobre o que estava acontecendo em suas
vidas. ORA! Analissy e eu cansamos de alertá-los!
Percebemos então que ficar tentando mostrar
determinadas coisas para algumas pessoas é como falar com
uma porta.

150
di Arius

Aprendemos a sentir as situações e deixar que nossas


palavras sejam inspiradas por nossa Divindade. Sempre
conectados com a Força-Luz, paramos de gastar energia com
quem estava apenas buscando um lugar para se lamentar.
Nunca mais permitiríamos que qualquer um nos
vampirizasse, roubando nosso tempo e energia para ficar
jogando sobre nós seus problemas, sendo que não querem ouvir
a verdade.
E isso se aplicava entre Analissy e eu também. Nossa
vida é regida por nossa verdade interior e sempre que
compartilhamos essa verdade um com o outro, nos ajudamos a
galgar mais um degrau de evolução.
Hoje Ekus tem pouquíssima interferência entre nós e
mais do que nunca vivemos o verdadeiro amor incondicional.
Não há nada que nos prenda um ao outro. Nem regra,
papel, carma, filho, história, gratidão ou obrigação moral.
Estamos juntos por escolha de nossas Divindades e
acredito que estamos tendo a rara oportunidade de viver dentro
do mais puro laço de amor.
Quando fui desfazer as malas, encontrei os dois livros
que havia comprado para a viagem e que nem consegui folhear.
Um deles falava sobre intuição e outro sobre o despertar
de uma nova consciência.
Resolvi começar a ler o livro da intuição. Não me
identifiquei com ele e não consegui me concentrar ao lê-lo.
Acabei me desinteressando.
Lembrei de como eu devorava livros quando era jovem e
percebi que fiquei muitos anos sem ler nenhum. Talvez
estivesse desacostumado e resolvi então arriscar ler o livro do
despertar da nova consciência.
Eu nunca havia ouvido falar de nenhum dos dois livros
ou de seus autores. Ambos foram escolhidos aleatoriamente e às
pressas, antes de embarcar no aeromobil, mas esse segundo livro
me envolveu profundamente.

151
Mauro Losch

Cada página que eu lia, descortinava uma verdade e


explicava uma série de fatos que haviam acontecido em minha
caminhada. Comecei a desvendar segredos e entender
claramente coisas que sentia e não sabia a explicação.
Finalmente descobri a existência de EKUS e de nossa
DIVINDADE.
Da leitura desse livro em diante, meu mundo finalmente
começou a tomar uma forma real e fazer sentido.
A viagem à ilha FNY e esse livro me fizeram lembrar de
como eu era ligado à minha essência quando mais jovem e a
querer reler os textos que escrevia em minhas madrugadas.
Perguntei à Analissy:
- Analissy, aquela pasta cheia de textos que eu escrevia,
sobrou alguma coisa?
- Arius, você falou que ia jogar tudo no lixo, disse que
aquilo tudo era bobagem, lembra? Mas eu tenho algumas cartas
e textos que você escreveu pra mim. Essas eu guardei. Você
quer que eu as pegue?
- Claro que quero! Que bom que você guardou alguma
coisa!
Reviramos caixas com velhas cartas e lembranças e
Analissy encontrou alguns textos e mensagens que escrevi para
ela.
Fiquei feliz, pois achei que seria um ponto de partida
para retomar minha caminhada, mas foi mais do que isso.
O único texto que eu encontrei no meio de velhas cartas
foi este:

“Acabo de descobrir que minha capacidade de


compreensão vai além da minha imaginação, só que sem
imaginação eu nunca estaria preparado para compreender
nada.

152
di Arius

Nunca sofrerei por me decepcionar com alguém, mas


sofrerei muito sempre que vir alguém decepcionando a si
mesmo, pois gostaria que todos soubessem a verdade.
Vivi várias vidas sob diversas forças cósmicas
diferentes, se hoje sou como sou e digo o que digo é porque já
vivi e sei como é ser como você e sentir o que você sente.
Além de estar aprendendo, estou sendo provado no que
já sei, assim com você está sendo.
Acho que é mais importante conseguir vencer uma
provação do que ter apenas vontade de aprender.
Um aluno não passa para outro ano se não passar com
louvor pelas provas da escola.
Há aprendizados que vem como continuidade de
ensinamentos passados e se não sabemos bem a matéria básica,
não conseguimos nos desenvolver mais nela.
Podemos repetir de ano mil vezes ou então nos
aplicarmos um pouco mais e passar na primeira.
As provas são fáceis ou difíceis, dependendo de como
nos aplicamos durante o aprendizado.
O sofrimento é o fruto do conflito do que realmente
acreditamos, com o que somos levados a acreditar.”

Quando reli os textos, foi como se minha Divindade


tivesse começado a brilhar de forma mais intensa. Uma emoção
forte tomou conta de mim. Um misto de alegria, esperança e
amor explodiu em meu peito. Foi como encontrar alguém que
amamos e não vemos há muito tempo.
Comecei a chorar.
Os textos falavam sobre amor incondicional, inteligência
interior, caminhada para evolução, entendimento além do
mundo físico e descreviam os conflitos interiores de um ser que
se conhecia e tentava se entender.
Foi como se tudo se confirmasse e percebi que tudo
estava bem ali, dentro de mim e que retomei minha caminhada,

153
Mauro Losch

retomei minha ligação com a Força-Luz e as sincronicidades


começaram a acontecer cada vez com mais frequência.
Comecei a participar de forma mais ativa do fórum
espiritualista na RIDD, a ter contato e trocar mensagens digitais
com alguns dos membros.
Aos poucos, mais verdades foram se descortinando e
comecei a descobrir o porquê dessa minha vontade de despertar
as pessoas.
O melhor disso tudo foi que encontrei muitos seres que
estavam despertando assim como eu e todos os dias, uma nova
mensagem, texto ou canalização descortinava mais alguma
verdade.
Resolvi participar mais ativamente e comecei a me
arriscar a escrever textos e mensagens como fazia antigamente e
a postá-los em meu espaço na RIDD.
Quando me punha a escrever, era como se as palavras
fluíssem de dentro de mim. Minha mente e corpo eram meras
ferramentas de tradução e grafia. Não precisava me preocupar
com o conteúdo, pois ele ia surgindo automaticamente.
Sempre escrevi para mim mesmo, como se estivesse
dessa forma me enviando uma mensagem. Raramente
compartilhava meus textos com alguém, a não ser com Analissy.
Dentre alguns textos que escrevi durante minha busca
individual, escolhi esse para publicar em meu espaço na RIDD:


ENTRE DOIS MUNDOS

Imagine que você descobriu que existem dois mundos


que co-existem, simultâneos, interligados, porém distintos...

MUNDO 1

154
di Arius

O Mundo 1 é energia e nele tudo que existe está


interligado por uma malha energética, capaz de criar qualquer
coisa. Essa malha é viva e mutável, porém ela varia conforme
as ordens dos seres que o habitam. Além disso, todos os seres
desse mundo estão conectados com uma fonte de energia que
vem de fora, vem do Universo, de DEUS.

MUNDO 2

Esse é físico, denso e nele estão as criações, as


situações, os resultados e as oportunidades. Neste mundo os
serem lutam para sobreviver, conquistar e mostrar suas
conquistas. Os seres aqui constroem, destroem, amam, sofrem,
matam, riem, choram, trabalham, adoecem, viajam, se
emocionam e seguem regras que eles criaram.

VENDO OS DOIS MUNDOS

Quando você olha de longe para esses mundos e muda a


lente da sua visão, você vê que na verdade é um mundo só!
Tudo que acontece em um mundo depende e movimenta a
energia do outro.
Ver os dois mundos ao mesmo tempo é como ligar uma
máquina de Raios-X e uma câmera normal ao mesmo tempo e
filmar alguém do mesmo ângulo.
Você pode ver a pele, as roupas, os olhos, cabelos, rosto
e ao mesmo tempo ver os ossos, músculos e órgãos internos
trabalhando.
Para mover um braço e levantar um peso, vemos a ação
acontecendo ao mesmo tempo em que vemos o coração
acelerando, os músculos se contraindo.
Assim é ver os dois mundos ao mesmo tempo.
Quando no Mundo 2, você vê dois seres se abraçando ou
sorrindo ou brigando ou meditando, no Mundo 1 vê as energias

155
Mauro Losch

mudando de cor e direção e sendo distribuídas por toda malha


energética.
Quem gera as mudanças no fluxo de energia, são os
seres que o habitam, através de seus pensamentos e
sentimentos.
A energia dessa malha é infinita, pois é alimentada pela
energia cósmica divina.

POSSIBILIDADES

Ora... Se existem esse dois mundos paralelos e os seres


que vivem neles podem usar toda essa energia cósmica divina
infinita, então eles podem criar o que quiserem!
É como se fossem atores, roteiristas, produtores e
diretores de um grande filme. Podem brincar de ser o que
quiserem. Podem fazer romance, comédia, drama, terror,
guerra, amor, paz... HÁ INFINITAS POSSIBILIDADES !!!

Se você vivesse nesse mundo duplo, o que você faria?

EU NO MUNDO DUPLO

Nasci e brinquei de ser criança e aprender com os seres


que me rodeavam quais eram as regras que eles criaram e que
filme eles estavam produzindo.
Quando fiquei mais velho, brinquei de conhecer mais
Hons e de assistir o filme deles, entrei no filme deles, vivi
experiências e conheci lugares.
Com o tempo, descobri que criaram um "ROTEIRÃO". É
um roteiro que todos seguem e que diz que as coisas são
difíceis, que o mundo é duro, que você tem que defender seus
interesses e dos que você ama e blá, blá, blá...

156
di Arius

Será que preciso continuar descrevendo esse roteiro?


Olhe para sua vida e em volta dela. Veja tudo que acontece e
tudo que te ensinaram a acreditar.
Será que o roteiro que estou descrevendo não é o roteiro
da sua vida?

O DESPERTAR

De repente me vi totalmente envolvido por esse roteiro


coletivo, assim como acontece com todos, mas alguma coisa
sempre tentou me avisar que a vida não é só isso. Durante
muito tempo calei essa voz interior que tentava me acordar e
agora ela ressurgiu com força. Dei ouvido a ela e vi os dois
mundos que descrevi.
Resolvi sair do ROTEIRÃO, fazer meu filme e ser o que
eu quiser.
Aprendi a não me deixar envolver pelo roteiro dos
outros ou pelo ROTEIRÃO. Aceito outros em meu roteiro, se
essa for a vontade deles, mas não me perco em suas histórias.
Não quero seduzir ninguém a seguir o meu roteiro, mas
quero mostrar as possibilidades e consequências da liberdade
de criação que todos tem. Isso é só o começo. Gostaria de falar
mais sobre o meu novo roteiro, mas acho que você deve
começar a pensar em mudar o seu e a única forma de fazer isso
corretamente é ficando em silêncio e olhando para dentro de si.
Dentro de você está guardado o seu VERDADEIRO
ROTEIRO.

Livre arbítrio é o que DEUS quer. Saia do ROTEIRÃO.”

"Ando no meio dos outros como se estivesse assistindo


um filme e vejo o drama e comédia de cada um".
"Só um sentimento é verdadeiro, O AMOR. Os outros
são ilustrações para os roteiros".

157
Mauro Losch

Vigília

Uma forte conexão se formou entre meu Ser Divino e


Ekus e ao mesmo tempo comecei a travar uma batalha comigo
mesmo.
Durante um tempo achei que estava ficando louco, pois
dialogava e discutia comigo mesmo em pensamentos. Gerava e
grandes debates interiores e podia ver claramente o que vinha da
Divindade e o que vinha de Ekus.
Ekus usava de todos os artifícios para tentar provar que
tudo aquilo que vinha da Divindade era irreal e sempre armava
armadilhas para tentar me provar.
Muitas vezes eu me pegava caindo nessas armadilhas e
agindo totalmente guiado por Ekus, mas logo em seguida a voz
da minha Divindade surgia e avisava sobre o erro que cometi.
Descobri que tinha que ficar em constante vigília.
Comecei a me policiar nas grandes e nas pequenas atitudes e
com o passar do tempo, Ekus foi enfraquecendo, colocando-se
no seu papel de subordinado à Divindade e abrindo mão de seu
domínio.
Até hoje Ekus continua esperneando às vezes, pois
durante muitas existências ele foi o comandante e desfazer essas
redes energéticas e neurais criadas por ele, é um processo que
não acontece do dia para a noite.
Percebi que as energias que fluíam em Shaw estavam
atingindo não só a mim, mas também muitos seres que sentiam
e passavam pelo mesmo processo.
As sincronicidades eram impressionantes e comecei a
receber cada vez mais mensagens por diversos canais.
Muitas vezes, via programas de tele-imagem, recebia
mensagens digitais ou caia em espaços da RIDD que me traziam

158
di Arius

alguma informação fragmentada, que nem sempre faziam


sentido na hora, mas que eu absorvia.
Durante minhas meditações também via e recebia
informações que minha mente não conseguia entender, mas que
o sono catalisava e montava o quebra cabeça me dando a visão
do todo.
Não é preciso ser ninguém muito espiritualizado para
perceber que caminhamos para tempos de mudanças.
Super-populamos o planeta Shaw e criamos um mundo
confuso e complicado. Vivemos na ilusão da posse e calçados
em uma falsa segurança financeira.
O Hons acreditam que conquistar bens é conquistar
segurança e vivem suas vidas tendo essa meta como prioritária,
mesmo ao custo da destruição de nosso planeta.
Todos percebem que se continuarmos nesse caminho as
consequências serão desastrosas, mas estão todos tão enredados
por Ekus que não sabem como sair desse circulo vicioso.
Quando aparece alguém disposto a mostrar uma opção, é
logo taxado de louco ou desajustado.
Alguns até acham muito interessante o caminho que
esses “loucos” escolheram trilhar, mas preferem acreditar que
aquilo não é para eles e que só seres especiais estão preparados
para trilhá-lo.
Porque os Hons relutam tanto em aceitar que TODOS
SÃO DIVINOS e que não há diferença entre nós?
É tudo apenas uma questão de escolha.
Muitos escolheram programar o futuro e deixaram de
viver o AGORA. Quando viram os resultados, lamentaram-se
por não terem feito diferente. Depositaram seus sonhos e
expectativas na caminhada dos outros e perderam-se tanto que
não conseguem mais se encontrar.
O que chamamos de desventuras e sofrimento não é nada
mais do que nossa Divindade nos colocando de volta no nosso
caminho. Quantas vezes ela nos avisou e tentou mostrar através

159
Mauro Losch

de amigos, sonhos e fatos que estávamos fora da trilha, mas


preferimos permanecermos cegos. Então, quando algo mais
drástico acontece, ficamos chorando pelos cantos.
Quantos abrem mão de viver na companhia dos que
amam e escolhem trabalhar para ganhar dinheiro, achando que
assim garantem seu futuro.
Programam uma vida utópica em suas mentes onde
criam um castelo. Nele ficará sua linda família, onde cada
membro dela seguirá exatamente o roteiro que imaginaram e um
dia todos serão felizes juntos. Só que, quando o futuro chega,
descobrem que o castelo era de areia e tudo desmorona.
Deixam de conviver com os que amam, ver que existem
outras verdades, outros aprendizados e depois colhem um
pesadelo. Mesmo nessa hora, se acham injustiçados e tentam
entender porque Deus os castigou daquela forma. Custam a
entender que esse Deus que castiga, não existe. Ele só nos
mostra o que precisamos ver. O Drama que inventamos não é de
Deus.
Vi isso acontecendo com Lapous, que mesmo após a
morte de seu filho, continuou vivendo longe de sua família na
busca de um futuro, programado em sua mente. Um dia o
castelo dele desmoronou de vez e seu casamento acabou.
Ficamos ouvindo suas lamentações por anos e tentando mostrar
nosso ponto de vista, mas foram tentativas infrutíferas. Quantos
sinais de Deus ele ignorou.
Minha tia é outro exemplo. Escolheu viver em terras
distantes e hoje sofre por que os outros não são como ela queria
que fossem em sua imaginação e não sabe mais quais são seus
sonhos.
Ambos são pessoas que amo muito e que tem um bom
coração. Eles escolheram trilhar o caminho mais longo. Eles têm
muita dificuldade em se libertar do domínio de Ekus e do que
ele programou em suas vidas. Acho que lhes falta um pouco de

160
di Arius

coragem para reverem seus conceitos e assumirem o resultado


de suas escolhas sem se culparem por isso.
Não me preocupo com o que vai acontecer no futuro,
pois o que importa é o agora, é a caminhada. Sei que temos o
poder de criar essa caminhada individualmente e também como
raça.
É cientificamente comprovado que periodicamente nosso
planeta passa por grandes cataclismos e que a extinção da vida é
quase total, mas sabemos que sempre que isso acontece, há uma
evolução.
Embora eu pessoalmente ache questionável algumas
teorias de como essa evolução acontece, uma coisa é fato:
A evolução dos seres existe.
Acredito que nossa raça esteja no limiar de dar um
grande passo evolutivo.
Temos a oportunidade de ascender com total
consciência. Basta nos libertarmos de velhos conceitos e regras
para tornarmos esse evento agradável. Parece que mesmo os que
têm a possibilidade de enxergar as boas novas, preferem se
esconder sob o manto de ilusão a ter a coragem de encarar o que
estar por vir.
Os recursos de Shaw estão acabando, nossa economia
esta entrando em colapso e a indiferença e violência
aumentando a olhos vistos.
Será que é preciso ser muito esperto para encarar essas
verdades?
Será que não é hora de buscar novos caminhos?
Eu resolvi buscar esses novos caminhos.
Ekus sabe que seu reinado está acabando e luta
desesperado para tentar manter seu domínio.
Em um momento de meditação e total silêncio mental,
minha Divindade ditou uma carta para Ekus:

“Caro Ekus,

161
Mauro Losch

Não quero mais travar batalhas com você.


Pare de lutar contra o inevitável.
Pare de buscar e colher as migalhas que está
acostumado.
Entenda que foi criado para uma finalidade e que ela
está se cumprindo.
O fim de seu reinado é inevitável e suas armas serão
neutralizadas sempre.
O Sofrimento que você tenta criar e os sentimentos de
irritação, culpa e ansiedade que fica inventando para se
alimentar, não cabem mais no novo ser que surge.
Aceite o poder e sabedoria do que EU SOU para que se
torne uma ferramenta útil para o crescimento da nova raça que
surge.”

Outro texto surgiu de minha Divindade. Esse com uma


clara orientação para ser postado na RIDD:

“Chegou o tempo de despertar


Nossa longa caminhada está chegando ao fim e estamos
atingindo nosso objetivo.
Por mais que tudo pareça descontrolado, sem sentido ou
errado, na verdade tudo está perfeito, pois é na escuridão que a
LUZ aparece.
Chega de escuridão.
É hora de acender todas as luzes.
Chega de ilusão.
É hora da verdade assumir.
Nos foram dados novos caminhos e novas energias.
Palavras chaves sagradas, que nunca foram secretas,
mas que nunca conseguimos ouvir, tem agora seu poder
expandido.
SILÊNCIO, AMOR E FÉ.
Silencie sua mente.

162
di Arius

Ame, sinta o amor fluir, compare o amor com o resto e


veja a verdade.
Acredite, você é Deus e Deus é você, SOMOS UM.
Esqueça tudo que achava que era verdade e se conecte
com o Deus que habita em seu corpo.
Silencie sua mente e deixe que esse Deus fale.
Ao ouvi-lo, o amor te inundará e você irá querer chorar.
Chore, acredite nesse amor, tenha fé.
São só esses os três passos que temos que dar agora
para voltarmos para a Luz Divina, o resto acontece
naturalmente.
Todos os caminhos se abrem, toda informação aparece.
Aceite ver o que você é de verdade e livre-se do véu que
não deixa que a Luz chegue aos teus olhos.
Sem medo, sem culpa e sem raiva”

Assim como as mensagens começaram a fluir de dentro


de mim, também caiam em minhas mãos e logo em seguida
recebi um texto canalizado.
Carregava uma mensagem daquele que Dawy havia me
dito que era meu mestre:

“Antes de qualquer esforço pela iluminação Divina está


o reconhecimento de toda a vossa vivência até este momento.
Devem analisar todos os vossos costumes arraigados e
meditar sobre eles, para saber se ainda serão válidos para um
discípulo da Luz, e muita coisa terá de ser posta de lado, para
dar lugar a novos valores.
Alcançastes um ponto em que, também, o pouco que
pertencia a vossa vida anterior terá que ficar para trás, em
vista das novas exigências.
Vós pensais ter a casa arrumada, mas eu vos digo: ainda
não é suficiente! Analisai de novo, conjeturai, e constatareis
que muitas coisas que até agora faziam parte de vossas vidas

163
Mauro Losch

perderam sua importância.


O hábito às vezes é um mau conselheiro.
Observai tudo à Luz de um novo dia e ficará evidente o
que deve ser descartado.
Não vos deixeis envolver com os pensamentos das
pessoas não despertas, que vos fariam retroceder.
Nunca pode ser conseguido um progresso se a
personalidade externa não for constantemente dominada.
Tornai-vos humildes e amoráveis servidores do bem, e
não vos sintais superiores aos erros e fraquezas de outrem -
com quanta facilidade ainda ficais desajustados, vós mesmos!”

As sincronicidades são tão frequentes que hoje se


tornaram naturais para mim e não me impressionam mais.
Isso tudo é apenas o início da caminhada, pois receber
uma mensagem e entendê-la, não é o mesmo que tomar
consciência de seu conteúdo.
Podemos entender, por exemplo, diversas razões para
não nos alimentarmos de carne:

1- Nosso organismo é originariamente frugívero e por


isso temos um longo intestino. Carnívoros têm intestinos curtos,
portanto a carne fica apodrecendo dentro de nós.
2- Carne carrega colesterol, doenças e engorda.
3- O desmatamento de nossas reservas é causado em
grande parte para abrir campos para criações de animais.
4- Os animais sofrem.
5- Eles têm medo na hora da morte e esse pavor é
passado para carne que consumimos.
6- A refrigeração da carne consome energia e polui o
ambiente.
7- Os gases liberados pelos animais das criações têm
grande participação no aquecimento planetário.

164
di Arius

8- O alimento que é cultivado para alimentar as criações


poderia matar a fome de milhões de Hons.

Você pode até entender e concordar com tudo isso, mas


você só irá parar de se alimentar de carne o dia que sentir e
aceitar isso como sendo sua verdade, ou seja, se conscientizar.
Assim é com a espiritualidade.
Entender um ensinamento mentalmente é apenas um
passo para a verdadeira conscientização.

165
Mauro Losch

Atitudes

É muito lindo meditar, falar bonito e aparentar estar em


paz, mas nossa vida cotidiana continua existindo e quase tudo
que nos rodeia hoje está na vibração de Ekus.
O desafio é viver no mundo de Ekus, deixando que a
Força-Luz nos guie e proteja, servindo de exemplo para os
outros.
Atitudes valem mais do que palavras.
Descobri que isso é ser um Trabalhador da Força-Luz.
Trabalhador da Força-Luz, refere-se a um grupo de seres
que aceitou participar do início do processo de mudança da
velha energia para a nova energia.
Os Trabalhadores da Força-Luz são uma família
espiritual unida por um acordo cósmico de estar aprendendo e
ensinando a todos como atravessar a ponte para a nova energia.
São os que estão fazendo a jornada primeiro e abrindo o
caminho.
Não adianta querer mudar nada nem ninguém sem antes
fazer uma grande jornada interior e enfrentar todas a sombras
que se escondem em nós.
Não é preciso ser especial ou iluminado para se
aventurar nessa jornada, pois uma pequena luz tem o poder de
acabar com uma grande escuridão, basta ter a coragem de entrar
na escuridão e manter essa luz sempre acessa.
Um famoso escritor de nossas terras fala há um bom
tempo sobre os Trabalhadores da Força-Luz. Uma vez escreveu
que quem desperta e segue esse caminho, às vezes tem a
impressão de viver duas vidas ao mesmo tempo. Em uma das
vidas o Trabalhador da Força-Luz é obrigado a fazer e participar
do que não acredita e a outra ele descobre em suas meditações,

166
di Arius

leituras e com Hons como ele. Aos poucos ele vai descobrindo
como ligar essas duas vidas e com ousadia consegue transformar
as duas numa só.
Essa nova consciência não é uma fuga e sim a criação de
uma nova realidade.
Essa trilha não é constante. Parece uma montanha russa,
cheia de altos e baixos, porém os pontos altos ficam marcados e
guardados dentro de nós e se descemos um pouco, logo estamos
de volta ao topo e geralmente em um ponto mais alto que o
anterior.
Mesmo sendo seres divinos, precisamos estar sempre
conectados com a Força-Luz, pois se deixamos a vibração cair
ou nos enganamos achando que por sermos deuses podemos
caminhar por nós mesmos, perdemos nosso poder e ficamos
sujeitos a sofrer as influências de Ekus.
Orar, meditar e agradecer são uma constante dentro da
vida de um Trabalhador da Força-Luz.
Todas as respostas estão dentro de nós mesmos e embora
textos e livros possam nos ajudar, devemos ficar atentos para
não perdermos o foco da nossa verdadeira busca.
NÓS SOMOS OS ÚNICOS CAPAZES DE CRIAR
NOSSA REALIDADE.
Podemos ser ajudados ou guiados por mestres ou como
queira chamar. Comunicações ou envio de energias de outros
planos nos ajudam em nossa caminhada, mas não acredito que
nenhum mestre virá até Shaw para nos ascencionar para outro
nível de evolução.
Vejo muitos deixarem de olhar para dentro e se
apegarem ao que é escrito por outros, principalmente na RIDD.
Sei que são infinitas as possibilidades e sei também que
dentre essas infinitas possibilidades pode haver mensagens que
foram escritas por desequilibrados que perderam a noção de
tudo e buscam histórias fantásticas em sua mente criativa para
não ter que se encarar. Alguns criam previsões de um futuro

167
Mauro Losch

onde seres extraplanetários serão nossos salvadores e vão nos


resgatar do nosso moribundo planeta.
Há também os oportunistas que buscam se sentir
importantes e conhecidos através de seus textos cheios de
teorias cósmicas, mas vazios de conteúdo. Sem falar nos servos
de Ekus e membros da Nova Ordem de Shaw, que são lobos em
pele de cordeiro e durante toda nossa história mantiveram-se no
poder através do medo e do terror, com suas falcatruas, guerras,
conspirações e golpes financeiros.
Quem realmente está em contato com a Força-Luz sabe
que NÓS SOMOS NOSSOS SALVADORES. Desenvolve um
tipo de filtro automático e percebe se o que está escrito é válido.

168
di Arius

Evolução

Quanto mais me apliquei em minhas meditações, mais


verdades se revelaram e maior foi ficando minha conexão com a
Força-Luz.
Havia dias em que a pressão da energia querendo fluir
em mim, através do topo de minha cabeça, era tanta que
comecei a me sentir incomodado.
Comentei com Naty e ela sugeriu que eu me tornasse
reikiano:
- Arius, para o reikiano poder fazer seu trabalho de cura
com as outras pessoas, tem que se tornar um canal de energia.
Quem se torna reikiano, não tem esse problema de fluxo de
energia que você esta tendo.
Embora eu achasse o Reiki uma ferramenta maravilhosa,
nunca havia passado pela minha cabeça que eu também devesse
ser um, mas a sugestão de Naty me agradou muito e resolvi que
o faria.
Estava numa fase de tantas descobertas e de tanta
empolgação que Analissy começou a ficar preocupada.
Embora ela estivesse sempre aberta para conversar e
sentisse interesse por minhas buscas, entendo que ela temia que
eu abandonasse tudo e virasse um monge ou sei lá...
Às vezes eu faço viagens tão fantásticas em minhas
meditações que ao contar a ela essas experiências, soa de forma
meio assustadora, mas essa é a minha forma de caminhar e até
agora tem funcionado bem.
Fiquei mais empolgado ainda em fazer a iniciação Reiki
quando soube que Arym também participaria !
Como as coisas mudam!

169
Mauro Losch

Arym que era Jacoliano tradicional se abrira para novas


possibilidades!
Isso era muito bom !
Sempre gostei muito de Arym e de conversar com ele,
mas durante uma fase ele estava tão sob o domínio de Ekus e
nossa energia vibrava tão diferente que não havia muito em
comum entre nós e acabamos nos afastando um do outro.
A iniciação Reiki foi um marco em nossa jornada,
ficamos mais fortes e confiantes.
Quando conversamos, falamos a mesma língua e nos
entendemos de forma mais profunda.
Constantemente trocamos experiências e ajudamos um
ao outro em nossa caminhada.
Logo Analissy também foi contagiada e tornou-se
reikiana. Aí então tudo ficou mais fácil e empolgante ainda.
No curso de Reiki, aprendemos a nos tornar canais da
Energia Vital Universal e essa energia inteligente atua onde tem
que atuar, independente de nossa intenção.
Não há como fazer mau uso dela, mas devemos estar
preparados para aceitar as mudanças que possam acontecer em
nossas vidas e cientes que tudo tem um porque de ser.
Desenvolvemos o AMOR a SABEDORIA e o PODER e
aprendemos que o medo enfraquece o amor, a culpa mina a
sabedoria e a raiva tira nosso poder.
Muitas vezes até nos divertíamos vendo as pessoas nos
olhando de forma estranha, como se percebessem que havia algo
de diferente em nós.
Quantas vezes me peguei olhando à volta e embora tudo
parecesse estar igual, do meu ponto de vista tudo estava
totalmente diferente.
Ganhamos sinais que usamos em nós mesmos e nos
outros.
Com essa proteção e energia, nossa vida e a de muitos
que nos rodeiam, só fez melhorar.

170
di Arius

Em minhas meditações, aprendi a visitar outras


dimensões e me foi permitido ver um pouco além do que vemos,
como se fosse uma amostra do que nos espera em nosso
caminho evolutivo.
Chegamos num ponto onde a física e a ciência nos
limitam.
Nosso cérebro limitado e dominado por Ekus não
permite que entendamos nem um milésimo do que a inteligência
divina tem para nos mostrar.
Descobri que para ir em frente precisamos nos entender,
nos perdoar e perdoar a todos que passaram por nossas vidas e
que ninguém tem o poder de nos magoar a não ser nós mesmos.
Perdoar não é deixar para lá. É aceitar e remover a
mágoa de dentro de nós.
Consegui me resolver com todos que passaram por
minha história, mesmo que não os tenha encontrado
pessoalmente, estive com cada um deles dentro de mim, os
libertei e me libertei também.
Removi todo e qualquer implante que tenha sido
encravado em mim durante esta ou qualquer outra existência.
Só havia uma pessoa com a qual eu ainda não havia me
resolvido, minha mãe.
É muito contraditório!
Aprendi que ninguém podia me magoar e a não julgar
ninguém, porque não conseguia aplicar isso com minha mãe?
Depois da morte de meu pai ela foi passar uns meses na
casa de minha tia nas terras distantes.
Quando voltou, percebi que algo estava mudado nela e
em um dos digivídeos que me mostrou, ela caminhava e se
divertia na neve. Naquele momento vislumbrei o ser que ela era
de verdade.
Outra lição que ela aprendeu nessa viagem é que a vida
pode ser muito mais triste e vazia.

171
Mauro Losch

Tudo parecia estar melhorando até que ela resolveu


vender sua casa e morar em um apartamento.
Para mim ela queria vender a casa para tentar fugir de si
mesma, de seu passado e história, pois não tinha coragem de
encará-los.
Quantas vezes eu não tinha tentado dizer a ela a
importância de se encontrar e mudar suas atitudes, mas só o que
eu via eram ações e palavras que iam contra o que eu tentava lhe
mostrar.
Fiquei irritado e incomodado com essa história e de
repente me vi julgando-a.
OPA!!!
ESPERA AÍ!!!
JULGANDO?!
Se havia algo errado, o problema estava em mim e não
nela!
Consegui encarar essa verdade e assumir minhas mágoas
e erros e se não conseguia resolver isso sozinho, teria que
resolver com ela e foi o que fiz.
Conversamos e expus todas as minhas dúvidas, mágoas e
mal-entendidos.
Eu queria que ela encontrasse aquela mulher que
enfrentou tudo e foi tão amiga e compreensiva durante minha
infância e adolescência.
Mas que direito eu tinha de querer que ela fizesse isso ou
aquilo da vida dela?
Nossa conversa foi muito franca e aberta e consegui ver
as coisas do ponto de vista dela e entender os porquês de muitas
coisas em nossa história.
Tudo que eu queria era conseguir abraçá-la e ser
carinhoso de verdade e naquele momento consegui limpar do
meu coração todas as mágoas e lhe pedi perdão pelas que eu lhe
causei.

172
di Arius

Não sei se foi isso que teve um efeito positivo sobre ela
ou se ela já estava mudando e eu não havia percebido. O que sei
dizer é que ela me surpreendeu e voltou a ser uma mulher de
atitude. Suas lamentações diminuíram. Fiquei impressionado
com a facilidade com que ela se desapegou e doou objetos que
guardava durante anos e partiu para sua moradia realmente
envolvida de uma nova energia.
Passei a sentir mais vontade de abraçá-la e de falar com
ela.
Libertei-me dela para que eu pudesse amá-la de verdade.
Acho que nossos laços são maiores com alguns dos seres
com quem convivemos e quanto maior é esse laço, mais
queremos cobrar dessa pessoa. Mas para vivermos de verdade o
amor, ele deve ser livre de qualquer tipo de cobrança ou
expectativa.

173
Mauro Losch

Frutos

Sou grato por tudo que passei e pela oportunidade de


aprender com as histórias de seres tão maravilhosos que fizeram
ou fazem parte de minha vida.
Minha família é maravilhosa, adoro a casa em que vivo e
estou a cada dia me libertando mais do que não é meu.
Em nosso jardim, plantamos árvores, flores e temos uma
pequena horta. As plantas me ensinaram a admirar os detalhes e
a ter paciência. Com elas aprendi que há coisas que não temos
como acelerar e a melhor atitude que podemos ter é a
contemplação.
Algumas sementes levam vários dias para dar sinal de
vida, mas uma hora vemos um pequeno broto surgindo da terra.
É mágico vê-lo crescendo e se transformando em uma pequena
árvore, ver suas primeiras folhas surgindo. É um processo lento
e não há nada que possamos fazer para acelerá-lo. Só o que
podemos fazer é regar, adubar e deixar que se desenvolva no seu
tempo.
Chega uma fase que uma poda ajuda no
desenvolvimento e alguns galhos precisam ser cortados.
Quando olho em volta vejo muitos brotos nascendo em
alguns Hons, outros já estão dando frutos e outros precisando de
podas em velhos galhos.
Hoje estou colhendo os meus frutos.
Analissy e eu vivemos o amor puro e verdadeiro. Nos
conhecemos de verdade e entendemos nossa verdadeira missão
juntos.
O anúncio que escrevi para ela se cumpriu. Somos duas
espaçonaves subindo e mostrando um ao outro novos caminhos

174
di Arius

para novos mundos e também aos que quiserem seguir viagem


conosco.
Hagusty teve dificuldades nos estudos e muitos achavam
que o fato de ter crescido com pais separados atrapalharia sua
vida. O que descobrimos é que no meio da confusão, ele
encontrou o seu caminho e hoje é dos jovens de nossa família, o
mais experiente, o mais decidido e o que tem mais conquistas.
Seguiu o rumo que sua Divindade lhe mostrou e se orgulha de
quem é e do que tem.
Lakus está aprendendo a tomar suas iniciativas e com
calma está encontrando seu caminho. É um ser equilibrado,
tranquilo e responsável. Sempre se desempenha bem no que se
propõe a fazer.
Naty e Arym passaram por conflitos interiores e estão
aprendendo a se livrar de seus véus, enfrentar suas sombras e
hoje vivem conectados à Força-Luz. São nossos maiores
parceiros de caminhada.
Lapous viveu solitário por um tempo, mas conseguiu
tirar várias lições das desventuras que passou. Continua
tentando se entender. Encontrou uma nova parceira em sua
caminhada e vive um momento de alegria.
Minha mãe está em sua nova moradia e buscando se
enquadrar em sua nova vida e entender o que é essa tal de
Força-Luz que os seus filhos, nora e genro tanto falam. Ela está
despertando e a percebe-se que, devagarzinho, está aprendendo
a ser feliz.
Minha tia está desmanchando seus castelos de areia e
preparando a base para construir algo sólido. Ela ainda vive na
ilusão do medo e do sofrimento, mas o amor que ela carrega é
grande o suficiente para superar as dificuldades que Ekus criou
e tenho certeza que em breve despertará.
GG vive em seu aquavela e sempre participando ou
planejando novas aventuras.

175
Mauro Losch

Posso dizer que tenho uma vida abundante e feliz e que


não crio mais dramas e sofrimentos em minha vida.
Não pertenço mais ao mundo de Ekus, apenas caminho
por ele.

176
di Arius

Conclusão

Ao rever minha história, enfrentei minhas mais


profundas sombras. Às vezes me emocionei e chorei, mas me
purifiquei.
Deixei que minha Divindade mostrasse o que eu
realmente precisava aprender com tudo que vivi.
Hoje me entendo como nunca me entendi antes.
Somos uma raça de espírito aventureiro e sempre nos
empenhamos em descobrir novas terras, explorar o fundo dos
mares, criar tecnologias para desbravar o universo e chegar a
outros planetas, mas poucos se propuseram a embarcar na
aventura de explorar o infinito ser que são.
Nos limitamos a viver uma ilusão dramática a qual
chamamos de realidade.
Transformamos tudo que nos dizem em verdade e
poucas vezes paramos para questionar.
Caminhamos como zumbis e achamos que isso é ser
normal.
Cansei de viver a verdade dos outros e resolvi buscar a
minha.
Como seria se todos fizessem a mesma coisa?
Precisei mergulhar de cabeça dentro de mim mesmo e
encarar toda minha existência, minha história, para me encontrar
e descobrir que EU SOU O QUE SOU.
A forma que encontrei para fazer isso foi escrevendo e
revivendo todos os fatos em meu coração, deixando de lado o
julgamento, a culpa e os arrependimentos.
Como seria se todos se vissem como personagens e
escrevessem suas histórias sem culpa, sem medo e sem raiva?

177
Mauro Losch

Eu sou Arius, sou um ser que despertou, travou uma


batalha com Ekus e agora busco despertar outros seres ao meu
redor.
Não sou o único nessa jornada e nem o primeiro.
Minha forma de ser acaba ajudando alguns que vivem
próximos a mim a despertarem para novas possibilidades, mas
para poder ajudar os outros, precisei antes estar bem comigo
mesmo.
Sinto que as histórias que viverei daqui para frente serão
muito diferentes.
Talvez o mundo dos Hons não mude, mas já mudei o
meu mundo.
Tenho certeza que todos são seres magníficos e quando
tiverem a coragem de se conhecerem de verdade, algo maior do
que conseguem imaginar vai emergir e guiar suas vidas.
Então caminharemos juntos e despertaremos mais e mais
seres, até que um dia criaremos um NOVO MUNDO.

--- É só o começo ---

178
di Arius

Agradecimentos

Todos que passaram por minha vida, merecem minha


gratidão, pois me ajudaram a chegar onde estou hoje e a criar
minha história e esse livro, mas à minha companheira de jornada
Silvana fica um agradecimento especial, por seu amor,
paciência, carinho, companheirismo, cumplicidade, coragem e
determinação. Foi com quem compartilhei cada trecho que
nascia do livro. Juntos viajamos nas histórias e ela me
incentivou a continuar escrevendo. Acreditou e me fez acreditar,
que mais pessoas poderiam de gostar de ler as histórias de
Arius. Como se não bastasse, ajudou na revisão e publicação do
livro. Sem minha amada Silvana, esse livro não existiria.

179
Mauro Losch

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