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Crítica

O que procura? Procurar

17 de Agosto de 2004   Metafísica

A Matrix enquanto hipótese


metafísica
David J. Chalmers
Tradução de Luís Estevinha Rodrigues

1. Cérebros numa cuba


O filme Matrix apresenta-nos uma versão de uma velha fábula
filosófica: um cérebro numa cuba. Um cérebro sem corpo flutua
numa cuba que por sua vez está no laboratório de um cientista. O
cientista encontrou maneira do cérebro ser estimulado com o
mesmo tipo de inputs que um cérebro normal costuma receber
quando está num corpo. Para se conseguir isto, o cérebro na cuba
está ligado a uma gigante simulação do mundo. A simulação
determina então quais são os inputs que o cérebro recebe. Por sua
vez, quando o cérebro produz outputs estes são enviados para a
simulação. O estado de funcionamento deste cérebro é igual ao de
um cérebro normal, apesar de não estar num corpo. Da perspectiva
deste cérebro as coisas são muito semelhantes àquilo que parecem
a mim e a si.

Mas parece que este cérebro está completamente enganado. Parece


que tem crenças falsas sobre tudo. Acredita que tem um corpo,
quando afinal não tem. Acredita que está lá fora ao Sol, quando
afinal está num laboratório escuro. Acredita que está num
determinado sítio, quando, de facto, pode estar noutro
completamente diferente. Talvez pense que está em Tucson, quando
afinal está na Austrália ou mesmo no espaço sideral.

A situação do Neo no início do filme Matrix é similar a esta. Ele


pensa que vive numa determinada cidade, pensa que tem cabelo,
pensa que vive em 1999, e pensa também que está Sol lá fora. Mas,
na realidade, flutua no espaço, não tem cabelo, o ano em que está é
aproximadamente 2199, e o seu mundo foi arrasado pela guerra. Há
contudo algumas diferenças entre este cenário do Neo e o do
cérebro numa cuba exposto inicialmente: o cérebro do Neo está de
facto num corpo, e a simulação é controlada por máquinas e não por
um cientista. Mas os detalhes essenciais são bastante idênticos em
ambos os casos. Efectivamente, Neo é um cérebro numa cuba.

Vamos supor que uma matrix (com “m” minúsculo) é um certo tipo
de simulação computacional artificialmente gerada de um mundo.
Deste modo, a Matrix do filme é um possível exemplo de uma
matrix. Vamos também supor que alguém está incubado, ou que
está dentro de uma matrix, desde que esse alguém tenha um
sistema cognitivo que receba inputs de, e envie outputs para, uma
matrix. Neste caso, tanto o cérebro de que falávamos no início como
o próprio Neo estão incubados.

Podemos supor que uma matrix pode simular a [total constituição]


física de um mundo, até ao mais ínfimo pormenor, ou partícula,
numa sequência espáciotemporal. (Adiante veremos como esta
configuração do mundo pode variar.) Nesta situação, um ser
incubado é associado a um corpo particular simulado. É também
estabelecida uma ligação que permita que sempre que o seu corpo
[simulado] receba inputs sensoriais da simulação o sistema
cognitivo incubado receba inputs sensoriais do mesmo tipo.
Paralelamente, a dita ligação permite que de cada vez que o sistema
cognitivo incubado produz outputs estes sejam enviados para os
órgãos motores do corpo simulado que está na simulação.

Quando se levanta a possibilidade de uma matrix surge


imediatamente uma questão. Como posso eu saber que eu não estou
numa matrix? Afinal, posso muito bem ser um cérebro numa cuba
que tem exactamente a mesma constituição que o meu próprio
cérebro; esse cérebro pode estar ligado a uma matrix, e, por isso,
pode ter experiências indistinguíveis das que tenho neste momento.
Do interior [da matrix] não há forma segura de afirmar que não sou
de facto um cérebro numa cuba. Assim, não podemos saber de
certeza se não estamos numa matrix.

Vamos agora chamar à hipótese de que eu estou numa matrix, e


sempre estive numa matrix, a Hipótese matrix. A Hipótese matrix
afirma que eu estou, e sempre estive, incubado. Todavia, isto não é
rigorosamente equivalente à hipótese de que eu estou na matrix,
porque a matrix [do filme] é apenas uma versão específica de uma
matrix. De momento vou ignorar algumas complicações que são
específicas da matrix apresentada no filme, tal como por exemplo a
possibilidade de as pessoas poderem por vezes passar do mundo
simulado para o real e inversamente. Colocando estas questões à
parte, podemos pensar na Hipótese matrix como uma maneira de
afirmar que eu estou no mesmo tipo de situação que pessoas que
sempre estiveram numa matrix.

Devemos ponderar Hipótese matrix sériamente, bem como


considerá-la uma forte possibilidade. Tal como Nick Bostrom
sugeriu, não está fora de questão que na história do universo haja
tecnologia que permita a certos seres criar simulações
computorizadas de mundos. Pode até haver um grande número de
tais simulações, por oposição a apenas um mundo real. Se é este o
caso, pode muito bem acontecer que haja muitos mais seres que
estão numa matrix do que aqueles que não estão. Perante esta
possibilidade, podemos até inferir que é bastante mais provável
estarmos numa matrix do que não estarmos. Independentemente
deste raciocínio estar certo ou errado, parece realmente que não
podemos estar certos que não estamos de facto numa matrix.

Sérias consequências parecem seguir-se do que foi dito. Por


exemplo, a minha contraparte incubada parece estar a ser
massivamente enganada. Pensa que está em Tucson; pensa que está
sentada a escrever um artigo; pensa que tem um corpo. Mas, face
ao que se disse, todas estas crenças são falsas. Da mesma maneira,
parece que, se eu estou incubado, as minhas próprias crenças são
falsas. Eu não estou realmente sentado a escrever um artigo, e eu
posso mesmo não ter um corpo. Assim, se eu não sei que eu não
estou realmente incubado, então eu também não sei se estou em
Tucson, ou se estou sentado em frente à minha secretária a
escrever um artigo, ou sequer se tenho um corpo.

A Hipótese matrix ameaça pôr em causa quase tudo aquilo que eu


julgo saber. Parece uma Hipótese céptica: uma hipótese que eu não
posso excluir, e uma hipótese que poderia falsificar grande parte
das minhas crenças se elas fossem verdadeiras. Quando se nos
apresenta uma hipótese céptica desta natureza parece que
nenhumas das nossas crenças podem ser consideradas
conhecimento genuíno. Claro que as minhas crenças podem
eventualmente ser verdadeiras — pois posso ser alguém com sorte e
não estar realmente incubado —, mas não posso excluir
definitivamente a possibilidade de que elas sejam falsas. A admissão
de uma hipótese céptica conduz ao cepticismo no que respeita as
essas crenças: eu acredito em certas coisas, mas não as sei
realmente.

Resumindo o raciocínio: eu não sei se não estou numa matrix. Se


estou numa matrix, então provavelmente não estou em Tucson.
Assim, se eu não sei se não estou numa matrix, então também não
sei se estou em Tucson. O mesmo se aplica para quase tudo que eu
julgo saber acerca do mundo exterior.

2. Reconsiderando a possibilidade do
incubamento
Esta é a maneira normal de pensarmos o cenário da cuba. Parece
que esta visão do problema é também adoptada pelos criadores do
filme matrix. Na caixa do DVD pode ler-se o seguinte:

Percepção: A rotina de todos os dias no mundo é real.


Realidade: O mundo é uma ilusão sofisticada, um embuste
forjado por máquinas maximamente poderosas que nos
controlam. Whoa!

Eu penso que esta perspectiva não é inteiramente correcta. Julgo


que, mesmo que eu esteja numa matrix, o meu mundo é
perfeitamente real. Um cérebro que esteja numa cuba não está
completamente iludido (desde que tenha estado sempre na cuba). O
Neo não tem crenças massivamente falsas acerca do mundo
exterior. Em vez disso, os seres que estão incubados têm bastantes
crenças correctas acerca do seu mundo. Se for assim, então a
Hipótese matrix não é uma hipótese céptica, e a sua eventual
possibilidade não invalida tudo o que eu penso saber.

Houve filósofos que defenderam este tipo de teoria no passado.


George Berkeley, um filósofo do século XVIII, defendeu que a
aparência é a realidade. (Recordemos as palavras de Morpheus no
filme: “O que é o real? Como defines o real? Se estamos a referir-
nos àquilo que podes sentir, ou àquilo que podes cheirar, ou ainda
àquilo que podes saborear ou ver, então o real é simplesmente um
conjunto de impulsos eléctricos interpretados pelo teu cérebro”.) Se
isto está correcto, então o mundo percepcionado por seres que
estão incubados é um mundo perfeitamente real: eles têm todas as
suas percepções correctas, e, assim, o que aparece é a realidade.
Desta perspectiva, mesmo seres que estão incubados têm crenças
verdadeiras acerca do mundo.

Dei comigo recentemente a adoptar uma conclusão parecida,


embora por razões manifestamente diferentes. Não julgo que a
perspectiva segundo a qual o que aparece é a realidade seja
plausível, e portanto não apoio o raciocínio de Berkeley. E, até há
pouco tempo, parecia-me manifestamente óbvio que os cérebros em
cubas teriam de ter crenças massivamente falsas. Mas agora penso
que há uma linha de argumentação que mostra que essa teoria está
errada.

Ainda penso que não posso excluir a hipótese de que estou numa
matrix. Mas também penso que, mesmo que eu esteja neste
momento numa matrix, eu ainda estou em Tucson, na minha
secretária, e por aí adiante. Deste modo, a hipótese de que estou
numa matrix não seria mais uma hipótese céptica. O mesmo vale
para o caso do Neo. No início do filme ele pensa “eu tenho cabelo”,
e ele está correcto. E o mesmo vale, claro, para o caso original do
cérebro numa cuba. Quando o cérebro pensa “eu tenho um corpo”,
ele está correcto. Quando pensa “estou a andar”, está correcto.
Esta perspectiva parece à partida muito contra-intuitiva.
Inicialmente, pareceu-me manifestamente contra-intuitiva. Então
vou agora apresentar a linha de argumentação que me convenceu
de que está correcta.

3. A hipótese metafísica
Vou agora argumentar que a hipótese de que estou incubado não é
uma hipótese céptica, mas antes uma hipótese metafísica. Ou seja, é
uma hipótese sobre a natureza fundamental da realidade.

Enquanto a física se preocupa com os processos microscópicos que


constituem a realidade macroscópica, a metafísica preocupa-se com
a natureza fundamental da realidade. Uma hipótese metafísica pode
inclusivamente ser uma proposta sobre que realidade subjaz aos
fenómenos físicos. Alternativamente, pode até dizer alguma coisa
sobre a natureza das nossas mentes, ou até mesmo sobre a criação
do mundo.

Penso que a Hipótese matrix deve ser vista como uma hipótese
metafísica, na qual estão contidos os três elementos seguintes: uma
proposta sobre a realidade fundamental que está subjacente aos
processos físicos, uma proposta sobre a natureza das nossas
mentes, e uma proposta sobre a criação do mundo.

Em particular, penso que a Hipótese matrix é equivalente a uma


versão tripartida da seguinte Hipótese Metafísica: Primeiro, os
processos físicos são fundamentalmente processos computacionais.
Segundo, os nossos sistemas cognitivos estão separados dos
processos físicos, embora interajam com esses processos. Terceiro,
a realidade física foi criada por seres que estão fora do espaço-
tempo físico.

É importante notar que nada nesta hipótese metafísica tem um


carácter céptico. Esta hipótese metafísica sugere quais são os
processos que sustentam a nossa realidade normal, mas não
defende que essa realidade não existe. Nos ainda temos corpos, e
ainda há cadeiras e mesas: apenas a sua natureza fundamental é um
pouco diferente da forma como pensamos que é. Desta maneira, a
hipótese metafísica é análoga a uma qualquer hipótese física, como
[por exemplo] a que relativa à mecânica quântica. Ambas as
hipóteses, tanto a física como a metafísica, dizem-nos quais os
processos que constituem as cadeiras. Nenhuma delas defende que
não há cadeiras. Em vez disso, ambas dizem que as cadeiras são
como são.

Vou apresentar a argumentação introduzindo cada uma das três


partes da hipótese metafísica em separado. Vou sugerir que cada
uma delas é coerente, e que não pode ser conclusivamente excluída.
Vou também sugerir que nenhuma delas é uma hipótese céptica:
pois, mesmo que sejam verdadeiras, as nossas crenças normais
continuam a ser correctas. O mesmo é válido para a combinação das
três hipóteses. Vou então argumentar que a Hipótese matrix é
equivalente à combinação destas três hipóteses.

(1) A Hipótese da Criação

Esta Hipótese diz: O espaço-tempo físico, e todo o seu conteúdo,


foram criados por seres que estão fora do espaço-tempo físico.

Esta hipótese é conhecida. Muitas pessoas na nossa sociedade


acreditam nela, e talvez até uma grande maioria de pessoas em todo
o mundo. Se acreditamos que Deus criou o mundo, e se acreditamos
que Deus está fora do espaço-tempo físico, então também
acreditamos na Hipótese da Criação. Apesar disso, não precisamos
de acreditar em Deus para acreditar na Hipótese da Criação. Talvez
o nosso mundo tenha sido criado por um ser relativamente normal
que está no “universo mais próximo acima do nosso”, e que esse ser
tenha usado a última palavra em tecnologia de criação de mundos
disponível nesse universo. Se for o caso, então a Hipótese da
Criação é verdadeira.

Não sei se a Hipótese da Criação é verdadeira. Mas não tenho a


certeza de que é falsa. A hipótese é claramente coerente, e, por
isso, não posso conclusivamente exclui-la.

A Hipótese da Criação não é uma hipótese céptica. Mesmo que seja


verdadeira, as minhas crenças habituais continuam verdadeiras. Eu
ainda tenho mãos, ainda estou em Tucson, e por aí adiante. Talvez
algumas das minhas crenças passem a ser falsas: por exemplo, se
eu for ateu, ou se acredito que a realidade começou com o Big
Bang. Contudo, a maioria das minhas crenças habituais sobre o
mundo exterior conservam-se intactas.

(2) A Hipótese Computacional

Esta hipótese diz: Os processos microfísicos que encontramos no


espaço-tempo são constituídos por processos computacionais que
lhes estão subjacentes.
A Hipótese Computacional diz-nos que os processos físicos que
julgamos constituírem o nível mais fundamental da realidade afinal
podem não o ser. Tal como os processos químicos estão na base de
processos biológicos, e tal como processos microfísicos estão na
base de processos químicos, também qualquer coisa está subjacente
aos processos microfísicos. Por baixo do nível dos quarks, electrões
e fotões, há ainda mais um nível: o nível dos bits. Estes bits são
geridos por um algoritmo computacional, que, a um nível mais
elevado, produz os processos que nós pensamos serem as partículas
fundamentais, as forças, etc.

A Hipótese Computacional não é tão vastamente aceite quanto a


Hipótese da Criação; mas ainda assim há algumas pessoas que a
consideram bastante plausível. Um dos casos mais conhecidos é o
de Ed Fredkin, que defendeu que o universo é no fundo um
determinado tipo de computador. Recentemente, Stephen Wolfram
adoptou a ideia no seu livro A New Kind of Science, sugerindo aí
que, ao nível mais fundamental, a realidade física pode ser um certo
tipo de automatismo celular, constituído por bits que interagem
entre si, obedecendo a regras simples de funcionamento. E vários
Físicos têm investigado a possibilidade das leis naturais poderem
ser formuladas computacionalmente, ou de poderem ser vistas
como uma consequência de certos princípios computacionais.

Podemos ficar preocupados com a ideia de que puros bits não sejam
afinal o nível mais fundamental da realidade: um bit é apenas um 0
ou um 1, e a realidade não pode ser feita de zeros e uns. Ou talvez
um bit seja apenas a “diferença pura” entre dois estados
fundamentais, e assim não possa haver uma realidade feita de
diferenças puras. Inversamente, talvez os bits até tenham que ter a
sua origem em estados ainda mais básicos, tais como as voltagens
num computador normal.

Não sei se estas objecções são correctas. Penso que não está
completamente fora de questão que possa haver um universo
constituído por “bits puros”. Mas isso não interessa para o nosso
objectivo presente. Podemos até supor que o nível computacional é
constituído por um nível ainda mais fundamental, a partir do qual os
processos computacionais são implementados. O que interessa é
que os processos microfísicos sejam constituídos por processos
computacionais, e que estes sejam constituídos por processos ainda
mais fundamentais. Daqui para a frente vou considerar que isto é o
que a Hipótese Computacional afirma.

Não sei se a hipótese computacional está correcta. Mas, mais uma


vez, também não sei se é falsa. A hipótese é coerente, na medida em
que é especulativa, e não pode conclusivamente excluída.

A Hipótese computacional não é uma hipótese céptica. Se é


verdadeira, ainda há electrões e protões. Desta perspectiva, os
electrões e os protões seriam análogos às moléculas: são
constituídas por algo mais elementar, mas ainda assim existem.
Igualmente, mesmo que a Hipótese Computacional seja verdadeira,
continuarão a existir mesas e cadeiras, e a realidade macroscópica
continua a ser um facto; apenas acontece que a sua constituição
fundamental é um pouco diferente daquela que estamos habituados
a pensar.

Esta situação é a análoga à da Mecânica Quântica ou à da Teoria da


Relatividade. Estas teorias podem levar-nos a rever algumas das
crenças metafísicas que temos a propósito do mundo exterior; por
exemplo, que o mundo é constituído por partículas clássicas ou que
o tempo é absoluto. Mas a maior parte das nossas crenças habituais
sobre o mundo mantém-se. Da mesma maneira, a nossa aceitação
da Hipótese Computacional pode levar-nos a rever algumas das
nossas crenças metafísicas; por exemplo, que os electrões e os
protões são partículas fundamentais. Mas, ainda assim, uma grande
parte das nossas crenças habituais não é afectada.

(3) A Hipótese Mente-Corpo

Esta Hipótese afirma: A minha mente é (e sempre foi) constituída


por processos que estão fora do espaço-tempo físico. A minha mente
recebe inputs de, e envia os seus outputs para, processos no
espaço-tempo físico.

A Hipótese Mente-Corpo é também bastante conhecida, e


largamente aceite. Descartes acreditava em algo do género: da sua
perspectiva, as mentes são coisas não físicas que interagem com os
nossos corpos, que são coisas físicas. A Hipótese é menos aceite
actualmente do que no tempo de Descartes, mas ainda assim há
muitas pessoas que a aceitam.

Independentemente da Hipótese Mente-Corpo ser verdadeira ou


não, ela é certamente coerente. E apesar de a ciência
contemporânea sugerir tendencialmente que a Hipótese é falsa,
ainda assim não podemos exclui-la conclusivamente.

A Hipótese Mente-Corpo não é uma hipótese céptica. Mesmo que a


minha mente esteja fora do espaço-tempo físico, eu continuo a ter
um corpo, eu ainda estou em Tucson, e por aí adiante. No máximo, a
aceitação desta hipótese iria obrigar-nos a rever algumas das
nossas crenças metafísicas sobre as nossas mentes. As nossas
crenças habituais sobre a realidade exterior permanecem em
grande medida intactas.

(4) A Hipótese Metafísica

Podemos agora juntar estas hipóteses. Primeiro podemos considerar


a Hipótese Combinatória, que combina as três hipóteses. Essa
hipótese diz-nos que o espaço-tempo físico e o seu conteúdo foram
criados por seres que estão fora desse espaço-tempo; diz-nos
também que os processos microfísicos são constituídos por
processos computacionais, e que as nossas mentes estão fora do
espaço-tempo mas que interagem com ele.

Tal como no caso das hipóteses tomadas individualmente, a


Hipótese Combinatória é coerente, e não pode ser conclusivamente
excluída. E também tal como nos casos individuais, a Hipótese
Combinatória não é uma hipótese céptica. A aceitação da hipótese
poderia levar-nos a rever algumas das nossas crenças, mas deixaria
quase todas intactas.

Por fim podemos considerar a Hipótese Metafísica (com um “M”


maiúsculo). Tal como a hipótese combinatória, esta hipótese
combina Hipótese da Criação, a Hipótese computacional e a
Hipótese Mente-Corpo. A hipótese acrescenta também a seguinte
tese específica: os processos computacionais que constituem o
espaço-tempo físico foram gerados pelos criadores com a finalidade
de estabelecer uma simulação de um mundo.
(Pode também ser útil pensar na Hipótese Metafísica enquanto
hipótese que afirma que os processos computacionais que
constituem o espaço-tempo fazem parte de um domínio mais
alargado, e que os criadores e o meu sistema cognitivo estão
situados nesse domínio. Esta condição não é estritamente
necessária para o que se segue, mas identifica-se melhor com a
forma mais comum de pensar a Hipótese matrix.)

A Hipótese Metafísica é uma versão um pouco mais específica da


Hipótese Combinatória na medida em que especifica algumas
relações entre as várias partes desta. Novamente, a Hipótese
Metafísica é uma hipótese coerente, e não podemos exclui-la
conclusivamente. E novamente, não é uma hipótese céptica. Mesmo
que a aceitemos, a maioria das nossas crenças habituais sobre o
mundo exterior ficarão intactas.

4. A Hipótese matrix enquanto Hipótese


Metafísica
Recorde-se o que a Hipótese matrix diz: eu tenho (e sempre tive)
um sistema cognitivo que recebe inputs de, e envia os seus outputs
para, uma simulação de um mundo artificialmente gerada.

Vou agora argumentar que a Hipótese Metafísica é equivalente à


Hipótese Metafísica no seguinte sentido: se eu aceito a Hipótese
Metafísica, então deveria também aceitar a Hipótese matrix; e se
aceito a segunda, deveria também aceitar a primeira. Ou seja, as
duas hipóteses implicam-se mutuamente, o que significa que se
aceito uma delas tenho também que aceitar a outra.

Comecemos pela primeira direcção, que vai da Hipótese Metafísica


para a Hipótese matrix. A Hipótese Mente-Corpo implica que tenho
(e sempre tive) um sistema cognitivo isolado que recebe os seus
inputs de, e envia os seus outputs para, processos no espaço-tempo
físico. Conjuntamente com a Hipótese Computacional, isto implica
que o meu sistema cognitivo recebe os seus inputs de, e envia os
seus outputs para, processos computacionais que constituem o
espaço-tempo físico. A Hipótese da Criação (juntamente com as
restantes hipóteses metafísicas) implica que esses processos foram
artificialmente gerados para simular um mundo. Segue-se que tenho
(e sempre tive) um sistema cognitivo isolado que recebe os seus
inputs de, e envia os seus outputs para, uma simulação
computacional do mundo artificialmente gerada. Portanto a
Hipótese Metafísica implica a Hipótese matrix.

A outra direcção está associada de perto com esta. Pondo as coisas


informalmente: se aceito a hipótese matrix, então eu também aceito
que o que subjaz à realidade tal como nos aparece é somente aquilo
que a Hipótese Metafísica determina. Há um domínio que contém o
meu sistema cognitivo, que interage causalmente com uma
simulação computacional do espaço-tempo, que por sua vez foi
criada por outros seres que estão nesse domínio. É apenas isto que
é necessário para que a Hipótese Metafísica alcance os seus
propósitos. Se aceitamos isto, então também temos de everíamos
aceitar a Hipótese da Criação, a Hipótese Computacional e a
Hipótese Mente-Corpo, bem como as importantes relações que
existem entre elas.

Isto pode tornar-se mais claro usando uma imagem. Eis a


configuração do mundo segundo a Hipótese matrix:

Ao nível mais fundamental esta imagem da configuração do mundo


é exactamente a mesma que a imagem da Hipótese Metafísica
colocada acima. Assim, se aceitamos que o mundo é como a
Hipótese matrix afirma, então temos de aceitar também que o
mundo é como a Hipótese Metafísica afirma.

Poderíamos colocar algumas objecções. Por exemplo, poderíamos


objectar que a Hipótese matrix implica que exista uma simulação
computorizada dos processos físicos, mas que (ao contrário da
Hipótese Metafísica) não implica que os próprios processos físicos
existam. Irei discutir esta objecção na secção 6, e outras objecções
na secção 7. Por agora pressuponho que há boas razões para
considerar que a Hipótese matrix implica a Hipótese Metafísica, e
vice-versa.

5. A vida na matrix
Se isto está correcto, segue-se que a Hipótese matrix não é uma
hipótese céptica. Se eu aceito isto, eu não devo inferir que o mundo
exterior não existe, ou que não tenho um corpo, ou que não há
mesas nem cadeiras, ou ainda que não estou em Tucson. Pelo
contrário, deveria inferir que o mundo físico é constituído por
computações que estão na base do nível microfísico. Ainda há
mesas, cadeiras e corpos: estes são fundamentalmente constituídos
por bits, e do que quer que seja que constitui estes bits. Este mundo
foi criado por outros seres, mas ainda assim é perfeitamente real. A
minha mente está separada dos processos físicos, e interage com
eles. A minha mente pode não ter sido criada por esses seres, e
pode até não ser feita de bits, mas ainda assim interage com esses
bits.
O resultado disto é um quadro complexo da natureza fundamental
da realidade. O quadro é, talvez, estranho e surpreendente; mas é
um quadro de um mundo exterior de carne e osso. Se estamos numa
matrix, esta é simplesmente a forma de ser do mundo.

Podemos pensar na Hipótese matrix como um Mito Criacionista da


Era Informática. Se isto está correcto, então o mundo físico não foi
necessariamente criado por deuses. Sustentando o mundo físico
está uma computação imensa, e os criadores criaram o mundo pela
implementação dessa computação. As nossas mentes estão situadas
no exterior desta estrutura física, e têm uma natureza independente
que interage com essa estrutura.

Muitos dos problemas que se levantaram com os mitos criacionistas


canónicos colocam-se também neste caso. Quando foi o mundo
criado? Estritamente falando, o mundo não foi de forma nenhuma
criado no interior do nosso tempo. Quando começou a história? Os
criadores podem ter iniciado a simulação em 4004 AC (ou em 1999)
com o registo fóssil completo, mas teria sido muito mais fácil para
eles terem iniciado a simulação com o Big Bang e deixarem as
coisas correr normalmente desde esse momento.

(Claro que no filme matrix os criadores são máquinas. Este facto


baralha as leituras teológicas habituais sobre o filme. É por vezes
defendido que Neo desempenha no filme a figura de Cristo, que
Morpheus é [o profeta] João Batista, e que Cypher é Judas Iscariote
etc. Mas segundo a leitura que fiz do filme, os deuses da matrix são
máquinas. Quem, então, nesta perspectiva, seria a figura de Cristo?
Claro que só poderia ser o agente Smith! De facto, no primeiro
filme, ele é o descendente dos deuses enviado para o mundo para o
salvar daqueles que querem destrui-lo. E, no segundo filme, ele até
é ressuscitado.)

Muitos dos problemas que se levantaram com a hipótese mente-


corpo canónica colocam-se também neste caso. Quando é que a
nossa mente não-física começa a existir? Isso depende de quando os
novos sistemas cognitivos incubados são inseridos na simulação
(talvez no momento da concepção da matrix, ou talvez no momento
do nascimento). Há vida após a morte? Isso depende do que
acontece aos sistemas incubados depois da morte dos seus corpos.
Como é que corpo e mente interagem? Por intermédio de ligações
causais que estão fora do espaço-tempo físico.

Mesmo que não estejamos numa matrix, podemos expandir esta


linha de raciocínio a outros seres que estejam numa matrix. Se eles
descobrirem a sua situação, e venham a aceitar que estão numa
matrix, não devem rejeitar as suas crenças habituais sobre o mundo
exterior. No máximo, deveriam rever as suas crenças acerca da
natureza fundamental do seu mundo: viriam a aceitar que os
objectos exteriores seriam constituídos por bits, e por aí adiante.
Estes seres não são massivamente enganados: a maioria das suas
crenças habituais sobre o mundo está correcta.

Temos de fazer aqui algumas especificações. Podemos ficar


preocupados com as crenças sobre as mentes de outras pessoas.
Acredito que os meus amigos têm consciência [de si]. Se estou
numa matrix, estará isto correcto? No caso da matrix exposta no
filme, essas crenças são na sua maioria boas. Esta é uma matrix
multi-cuba: por cada amigo que percepciono, há um ser incubado na
realidade externa, que provavelmente está tão consciente quanto
eu. As excepções podem ser seres como o agente Smith, que não
estão incubados, mas são inteiramente computacionais. Esses seres
só têm consciência se a computação for suficiente para lhes gerar
consciência. Vou manter-me neutro nesta questão específica.
Poderíamos rodeá-la desde que se formulasse uma Hipótese matrix
que exigisse que todos os seres estivessem incubados. Mas mesmo
que não façamos esta exigência, não ficamos muito pior do que o
que temos no nosso mundo, onde há um permanente questionar
sobre se outros seres têm ou não consciência, independentemente
de estarmos ou não numa matrix.

Podemos também preocupar-nos com as crenças sobre o passado


distante, bem como sobre o futuro longínquo. Estas não serão
ameaçadas desde que a simulação computacional cubra todo o
espaço-tempo, desde o Big Bang até ao fim do universo. Isto faz
parte da Hipótese Metafísica, e podemos estipular que faz também
parte da Hipótese matrix, exigindo que a simulação computacional
seja uma simulação de um mundo completo. Pode haver outras
simulações que começaram num passado recente (talvez a matrix
do filme seja um destes casos), e pode haver outras que só duram
por pouco tempo. Nestes casos, os seres incubados terão crenças
falsas sobre o passado e/ou sobre o futuro dos seus mundos. Mas
desde que a simulação cumpra a duração de vida destes seres, é
plausível que eles tenham quase todas as suas crenças correctas
sobre o estado actual do ambiente onde estão.

Pode haver alguns aspectos sobre os quais os seres que estão numa
matrix podem ser enganados. Pode acontecer que os criadores da
matrix controlem e interfiram com muito do que acontece nesse
mundo simulado. (A matrix do filme parece um desses casos,
embora não fique bem esclarecida qual a extensão do controlo dos
criadores.) Se é assim, então esses seres podem ter afinal muito
menos controlo sobre o que acontece do que pensam que têm. Mas
o mesmo vale para o caso de haver um deus que interfere num
mundo não-matrix. E a Hipótese matrix não implica que os
criadores interfiram no mundo, embora a hipótese em si deixe a
possibilidade em aberto. No pior cenário, a Hipótese matrix não é
mais céptica a esse respeito que a Hipótese da Criação num mundo
não-matrix.
Os habitantes de uma matrix também podem ser enganados por
serem levados a pensar que a sua realidade é muito mais vasta do
que realmente é. Podem pensar que tudo o que existe é o universo
físico, quando, de facto, há muito mais no mundo, incluindo seres e
objectos que nunca poderão ver. Mas, mais uma vez, este tipo de
preocupação pode também levantar-se no caso de um mundo não-
matrix. Por exemplo, alguns cosmólogos sustentam a ideia de que o
nosso universo pode ter a sua “origem” num buraco negro situado
no “universo mais próximo acima do nosso”, bem como que, na
realidade, pode haver uma ramificação de vários universos
interligados. Se for verdade, então o mundo é muito maior do que
pensamos, e pode haver seres e objectos que nunca poderemos ver.
Mas, em qualquer dos casos, o mundo que vemos é perfeitamente
real. De salientar que nenhuma destas fontes de cepticismo — sobre
as mentes dos outros, sobre o passado e o futuro, sobre o nosso
controlo sobre o mundo, e sobre o tamanho do mundo — lança
dúvidas sobre a nossa crença da realidade do mundo ser aquela que
percepcionamos. Nenhuma delas nos leva a duvidar da existência
de objectos exteriores como mesas ou cadeiras, no sentido em que a
hipótese do incubamento é suposto fazer. Nenhuma destas
preocupações está particularmente agregada ao cenário matrix.
Podemos levantar dúvidas sobre se outras mentes existem, sobre se
o passado e o futuro existem, e sobre se temos controlo sobre os
nossos mundos independentemente de estarmos ou não numa
matrix. Se isto está correcto, então a Hipótese matrix não levanta as
habituais questões cépticas que frequentemente se diz que levanta.

Sugeri que não está fora de questão estarmos realmente numa


matrix. Poderíamos até ter pensado que esta era uma conclusão
preocupante. Mas, se estou correcto, não é uma conclusão tão
preocupante como poderíamos pensar. Mesmo que estejamos nessa
matrix, o mundo não deixa por isso de ser tão real como pensamos
que é. É apenas um mundo com uma natureza fundamental
surpreendente.

David J. Chalmers
Excerto do original “The Matrix as Metaphysics”, de David J. Chalmers.

Bibliografia
Bostrom, N. 2003. Are you living in a computer simulation?
Philosophical Quarterly 53:243-55.
Chalmers, D.J. 1990. How Cartesian dualism might have been true.
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