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Fique à vontade, pode espiar

Um singelo e potente elo entre a arte e a educação

Isaque Conceição

Você já ouviu falar em lambe-lambe?

Muitas pessoas já ouviram falar e atrelam imediatamente aos antigos fotógrafos de rua ou
à intervenção artística urbana baseada na colagem de imagens e textos poéticos.

Mas você sabia que lambe-lambe também é uma modalidade de teatro?

Não sabia?

Então te ajeita na poltrona e vamos juntos conhecer essa linda forma de encantar, entreter
e formar público que, além disso tudo, ainda é uma super ferramenta pedagógica.

Vamos desde o início:

O teatro lambe-lambe, também conhecido como teatro em miniatura, é uma linguagem


dentro do teatro de animação.

Os espetáculos são de curta duração e acontecem dentro de uma caixa, geralmente para
um espectador por vez, com estéticas, técnicas e temáticas distintas, variando de artista
para artista e de acordo com as necessidades encontradas para a manipulação dos
bonecos/objetos.

O lambe-lambe surgiu no Brasil, no ano de 1989, sendo criado pelas educadoras


Ismine Lima e Denise di Santos.

Na época, Denise trabalhava em uma escola de Salvador. Em suas aulas para crianças e
adolescentes, um dos temas que constavam no cronograma tinha a ver com a reprodução
sexual. Pensando em mostrar da melhor forma possível o momento do parto, ela criou
uma boneca de espuma que carregava na barriga um bebê também feito de espuma.

Quando a amiga Ismine viu o momento da encenação do parto, teve a ideia de mostrar o
ato em segredo, dentro de uma caixa.

Tendo ainda como inspiração a técnica dos fotógrafos de rua, os chamados lambe-lambe,
as duas criaram assim, o primeiro espetáculo de Teatro lambe-lambe, chamado A dança
do parto, que era apresentado com o auxílio de um tripé de madeira.

O teatro lambe-lambe é uma técnica em franca expansão em território nacional, podendo


ser visto também em outros países como Argentina, Chile, Peru, México que, assim como
no Brasil, possuem festivais especificamente para esta modalidade. Um fenômeno, do
ponto de vista artístico e pedagógico.

Essa modalidade, que por vezes se utiliza de materiais tão simples, é capaz de atingir
emoções complexas que nos fazem viajar no tempo, percorrendo caminhos dentro de nós
mesmos e visitando questões que permeiam nosso imaginário, o senso comum e dentro
dos diferentes contextos sociais.

Pelas pequenas aberturas por onde se assistem os espetáculos, é impressionante perceber


tudo o que pode caber em uma caixa de lambe-lambe e como isso pode mexer conosco.

Trabalhar com o Teatro Lambe-Lambe, possibilita privilegiar questões voltadas a


identidade e ao pertencimento através de uma prática cheia de significado simbólico, tanto
para o meio artístico, quanto para o ambiente educacional.

Muitas vezes as mais diversas formas artísticas são justificadamente utilizadas como
ferramentas pedagógicas, porém no caso do Teatro lambe-lambe percebe-se um
movimento quase inverso.

No Teatro lambe-lambe, podemos perceber a apropriação artística de uma técnica


desenvolvida, a princípio, para a sala de aula.

Pensando nisso, resolvi trazer esse assunto para a coluna e falar um pouco mais sobre esse
compartilhamento de técnicas e objetivos.

Mesmo em tempos tão digitais e virtuais, essa ferramenta precisa continuar disponível
aos nossos professores. O Teatro lambe-lambe trabalha algumas habilidades que seguem
sendo resultantes da prática e do estímulo criativo e sensorial, passando também pelo
desenvolvimento da coordenação motora e da sensibilidade.

Os professores podem, por meio do teatro, encontrar ferramentas de trabalho


suficientemente potentes para o desenvolvimento de suas funções como educadores, bem
como auxiliar no processo de aprendizagem dos seus alunos. O Teatro lambe-lambe
possibilita que isso seja realizado em estruturas menos privilegiadas.

Através do teatro lambe-lambe podemos, inclusive, reforçar o sentimento de


pertencimento e envolvimento com a cidade, através da percepção dos temas e contextos
locais e também da interação resultante das apresentações públicas, caso haja.

Outra possibilidade inerente à essa prática é a ampliação da ação formadora social e


intelectual dos participantes (artista e espectador), o que proporciona melhora na
interação social com a vida e com o mundo ao redor, favorecendo as relações harmônicas
desses indivíduos em sociedade.

Por ser uma técnica de fácil assimilação e de baixo custo de execução, é possível que cada
pessoa que tiver contato com ela se transforme em um agente difusor ao longo da sua
trajetória de vida, promovendo assim uma continuidade no processo de transformação das
pessoas.

Precisamos explorar as diferentes vertentes, buscar embasamento e repertório técnico


para, além de fazer bom uso, valorizar o teatro como ferramenta efetiva a serviço da arte
e da educação em qualquer lugar e circunstância.

As técnicas do teatro de animação, em especial o lambe-lambe, ajudam a desenvolver a


consciência de que existem outras formas de teatro, mostrando na prática que o fazer
teatral não está condicionado a existência de uma edificação especificamente voltada para
esta finalidade. O teatro lambe-lambe talvez seja a forma mais lúdica e singela de
demonstrar resistência.

Outra vantagem bastante interessante é a promoção do contato direto com um conjunto


de práticas teatrais que inevitavelmente estimulam o desenvolvimento das capacidades
expressivas, gestuais, corporais e vocais.

Essa prática tão rica possui potencial suficiente para articular de forma precisa a
indispensável relação entre a educação e a cultura.

Também acredito que a difusão de uma arte genuinamente brasileira, disponibilizada


tanto como ferramenta de ensino, quanto meio de fruição artística profissional
colabora para o surgimento de novos artistas, para a formação de público e crítica e, no
mesmo fluxo o desenvolvimento do mercado cultural.

Outro aspecto relevante que está muito presente no contexto do teatro lambe-lambe é a
promoção da discussão sobre a utilização de materiais recicláveis, reutilizáveis e
ressignificáveis. Ótima solução para driblar a falta de recursos, mas também uma grande
oportunidade de estimular a criatividade, testando os limites da imaginação e da técnica.

O grupo do qual faço parte, possui em seu repertório o espetáculo Livre-se (primeiro nesse
formato dentro da trajetória do grupo). Estreamos em junho de 2019 e de lá até o
momento da parada forçada pela pandemia apresentamos para mais de 1.000 pessoas,
sempre transitando, devido a sua praticidade, por praças públicas, mostras, feiras, escolas
e eventos fechados, alcançando diversas cidades daqui e de Santa Catarina.

Tivemos, enquanto o espetáculo pode rodar, a oportunidade de visualizar na prática todas


essas coisas relatadas acima.

À primeira vista o nosso projeto se justificava pela necessidade de fazer arte e levar ao
público novas experiências com potencial para ampliar o horizonte de suas referências
artísticas e estéticas. Fugindo das linguagens consolidadas na cidade e da espera por uma
edificação específica para a prática teatral. Essa era a nossa ambição quando pensamos
os primeiros detalhes. Porém, na medida em que percebíamos o alcance que nossa
pequena história poderia ter, acabamos entendendo que nosso trabalho também
caminhava ao encontro da constante necessidade que os professores têm de encontrar
ferramentas de trabalho suficientemente potentes para o desenvolvimento de suas funções
e que possam efetivamente auxiliar no processo de aprendizagem dos alunos.

O ensino de Arte na escola deve proporcionar aos alunos o conhecimento básico das mais
variadas manifestações artísticas que fizeram parte de uma determinada época, sociedade,
economia e política, proporcionando uma reflexão e crítica sobre cada movimento
histórico e, também, sobre a sociedade atual. Para isso, é de suma importância que os
professores estejam preparados com o máximo de informações sobre os aspectos do fazer
artístico.

Neste caso, o Lambe-Lambe serve como laboratório para as pesquisas estéticas


pertinentes as experimentações cênicas.
Mesmo que as obras sejam realizadas em uma escala menor (miniatura), questões como
direção, atuação, dramaturgia, construção de bonecos, iluminação, sonoplastia,
figurinos, cenotécnica, pré e pós-produção, viabilização e, obviamente, pedagogia teatral,
podem ser tratadas de forma aprofundada, visando contribuir para a criação de um
ambiente de aprendizado e expressão.

Ainda pensando nessa “devolução” do Teatro lambe-lambe para as salas de aula e


partindo da Proposta Triangular do Ensino de Artes, acredito que, através da criação de
espetáculos de Lambe-Lambe, é possível levar para a sala de aula noções relacionadas ao
Fazer Artístico, a Contextualização e a Leitura das Obras de Arte.

Acredito que só um saber consciente e informado torna possível a aprendizagem, e isso


não se aplica apenas ao ensino de Arte. Isso se aplica a todas as formas de construção de
conhecimento. E por qual razão não utilizar as ferramentas disponíveis? Através do
Teatro lambe-lambe, podemos tratar diversos temas pertinentes a diversas disciplinas, nas
mais distintas idades, com os mais variados objetivos. A versatilidade é parte fundamental
da linguagem dessa modalidade.

O fato é que essa técnica é encantadora e possui um potencial imensurável.

Gastaria muitas páginas para falar tudo o que vi e aprendi com essa experiência. Talvez,
ao longo do tempo e de forma bem diluída, eu possa contar algumas das histórias vividas
através desse espetáculo em miniatura que proporcionou grandes emoções.

Espero, um dia, ter um congestionamento de caixinhas de lambe-lambe em nossas praças.


Dezenas de pequenos universos, em suas mais variadas formas, prontos para encantar e
despertar centenas de olhos curiosos.

Quando ver uma caixinha dessas por aí não se acanhe. Se aproxime e se permita dar uma
espiadinha.

Será inesquecível.

Eu te garanto.

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