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REVISTA TOXICODEPENDÊNCIAS | EDIÇÃO IDT | VOLUME 17 | NÚMERO 1 | 2011 | pp.

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Do estereótipo à visão fenomenológica:
análises sobre o “agarrado”
LUÍS FERNANDES

Artigo recebido em 19/01/11; versão final aceite em 21/02/11.

RESUMO ABSTRACT
Este artigo propõe o confronto entre duas visões acerca do This article proposes a confrontation between two visions about the
toxicodependente: a que é veiculada pelo estereótipo do “agarrado” addict: the one that is conveyed by the stereotypical “hooked” user,
e a fenomenológica, proposta aqui a partir do acesso da etnografia and the phenomenological one, proposed here from the ethnographic
à sua experiência. Começamos por caracterizar dois tipos de access to his experience. We begin by characterizing two types of
pensamento, o coisista e o construtivista, como formas de olhar e thinking: the objectified and the constructivist, as ways to look at
dizer o real, discutindo assim distâncias e aproximações entre senso- reality and explaining it, discussing the differences and similarities
‑comum e ciência; fazemos em seguida uma breve caracterização between common sense and science. Then we make a brief
do conceito de estereótipo, de modo a enquadrar teoricamente o characterization of the concept of stereotype, in order to establish
exercício que nos ocupará o resto do artigo. Este exercício analisa a theoretical framework for the exercise that will occupy the rest
dimensões como a relação da figura do “agarrado” com a exclusão of the article. This exercise examines certain dimensions like the
social, com a temporalidade ou com a (in)capacidade da abstinência. relationship between the figure of the “hooked” and the context of
Concluímos, não pela necessidade de correcção do estereótipo do social exclusion, the notion of temporality or the ability/inability to
“agarrado” a partir do que seria uma visão mais rigorosa da ciência, achieve abstinence. Our conclusion is that we must not correct the
mas pela evidenciação de como, entre ambas, há realimentações stereotype of the “hooked” in the context of a more rigorous science,
mútuas. A linguagem com que falamos da droga é portanto produto but, instead, to demonstrate how, between the two, there is a mutual
duma construção social de que evidenciamos os papéis do senso- feedback. The language we speak when adressing drug issues is the
‑comum, da comunicação social e da ciência, em particular da que product fo a social constructrion in which we highlight the roles of
inscreve a sua produção no dispositivo medicopsicológico. common sense, the media and science, particularly the one that fits
Palavras-chave: Estereótipo; Droga; Meios de Comunicação Social; its production in the medico-psychological realm.
Etnografia. Key Words: Stereotype; Drugs; Media; Ethnography.

RÉSUMÉ RESUMEN
Cet article propose une confrontation entre deux visions sur le toxi- Este artículo propone el confronto entre dos visiones sobre el drogo-
comane: celle qui est transmise à l’image stéréotypée de l’«accro» et dependiente: la que es vehiculada por el estereotipo del “agarrado” y
celle qui sort d’une approche phénoménologique, proposé ici à partir la fenomenológica, propuesta aquí a partir del acceso de la etnografía
de de l’accès de l’ethnographie à son expérience. Nous commençons a su experiencia. Empezamos por caracterizar a dos tipos de pen-
par caractériser deux types de pensée: l’objectiviste e le constructi- samiento, el “cosista” y el constructivista, como formas de mirar y
viste, façons de regarder et dire le réel, ce qui permet une discus- decir el real, discutiendo así distancias y aproximaciones entre sentido
sion sur les distances et les similitudes entre le sens commun et la común y ciencia; hacemos en seguida una breve caracterización del
science. Aprés, on fait une brève caractérisation de la notion de sté- concepto de estereotipo, de modo a que se encuadre teóricamente el
réotype, pour établir le cadre théorique de l’exercice qui va occuper ejercicio que nos ocupará hasta al final del artículo.
le reste de l’article. Cet exercice analyse des dimensions comme la Este ejercicio analiza dimensiones como la relación de la figura del
rélation de la figure de l’«accro» avec l’exclusion sociale, avec la tem- “agarrado” con la exclusión social, con la temporalidad o con la (in)
poralité ou la capacité/incapacité de l’abstinence. Notre conclusion capacidad de abstinencia. Concluimos, non debido a la necesidad de
va dans le sens, non pas de une nécessité de corriger le stéréotype corrección del estereotipo del “agarrado” partiendo de lo que sería
de l’«accro» a partir de ce qui serait une approche scientifique plus una visión más rigurosa, sino por la evidencia de cómo, entre ambas,
rigoureuse, mais par la démonstration de la façon dont, entre eux, il y hay realimentaciones mutuales. El lenguaje con el que hablamos de
a une rétroaction mutuelle. Le langage utilisé pour parler de la drogue la droga es así un producto de una construcción social de que evi-
est donc une construction sociale dont on évidencie les rôles de bon denciamos los papeles del sentido común, dela comunicación social
sens, des médias et de la science, en particulier celle qui inscrit sa y dela ciencia, en particular de la que inscribe su producción en el
production dans le dispositif médico-psychologique. dispositivo medico-psicológico.
Mots-clé: Stéréotypes; Drogue; Média; Ethnographie. Palabras Clave: Estereotipo; Droga; Medios de Comunicación Social;
Etnografía.
18 Do estereótipo à visão fenomenológica: análises sobre o “agarrado”

1 – INTRODUÇÃO lidade legitimadora do trabalho científico. A transforma-


De entre os fenómenos da vida real que se tornam ção paradigmática que as ciências sociais e humanas
objectos para as ciências sociais e humanas, o fenó- conheceram impôs uma nova forma de conceber os
meno droga é provavelmente um dos que melhor con- seus objectos, muitas vezes sintetizada na expressão
densam as dificuldades de diálogo entre dois tipos de “construção social da realidade”. Remontamos aos anos
pensamento: o pensamento coisista do senso-comum e 60 a evidência já clara desta revolução, e remetemos
o pensamento construtivista que actualmente atravessa para as obras de Berger e Luckman (1963), Blumer
as ciências. Expliquemo-nos brevemente, de modo a (1969) ou Watzlawick (ano de A realidade é real, 1991).
evidenciar em que é que o exercício de desconstrução É também nos anos 60 que esta revolução se faz sentir
de alguns estereótipos a que nos propomos neste artigo nas concepções do desvio, do crime e do fenóme-
pode servir de ponte a estas duas modalidades do pen- no droga. Autores como Becker (1963), Matza (1969),
samento tantas vezes pouco comunicantes entre si. Goffman (1963) Preble e Casey (1969) ou Jock Young
Chamámos coisista ao pensamento do senso-comum. (1971) introduzem uma leitura fenomenológica do desvio,
Para ele o mundo social é constituído por coisas, tendo salientam o papel das instâncias de controle social na
uma natureza realista naturalmente captada pelos sua co-produção, conceptualizam-no como resultado
sentidos. A droga é, evidentemente, uma coisa. O duma sequência de etapas que, ao nível do actor etique-
seu conjunto de propriedades, em interacção com os tado como desviante, pode ou não culminar numa nova
indivíduos, produz também uma coisa: a alteração do identidade (“ser delinquente”, “ser drogado”…). Aliás, as
comportamento. E a sua interacção continuada produz investigações no campo da desviância serão decisivas
outra coisa: a toxicodependência. A toxicodependência para a própria afirmação do pensamento construtivista
continuada pode, por sua vez, produzir outra coisa: e do paradigma da construção social da realidade.
a necessidade de cometer delitos. Mesmo que a não No domínio que aqui nos interessa, esta revolução faz
produza, produz pelo menos uma doença – é, aliás, evoluir a concepção do actor desviante – seja aqui
uma doença. Que também é uma coisa. É propriedade o caso do toxicodependente – da sua representação
comum a todas estas coisas a sua natureza assim- objectiva para as suas imagens intersubjectivas. Se a
‑mesmo, num estado de existência que as prolongaria primeira releva da tradução (a ciência criminal clássica
no tempo. É por isso que o mundo aparece ao senso- traduziria a verdade etio-patogénica do transgressor
‑comum dotado de constância, que é uma condição ou os factores que produziam uma dada patologia
essencial à organização quotidiana da vida. Tal como através da sua linguagem conceptual), a segunda releva
as constantes da física clássica, também, por exemplo, da construção e é uma espécie de consequência da
o efeito duma droga é invariável no espaço e no tempo, introspecção que o cientista social realiza sobre os
indeformável pela latitude e pela longitude, inalterável seus métodos, os seus modos de abordagem do real e
pela vontade ou pela acção humanas. as suas técnicas de pensamento. Neste exercício crítico
O pensamento do senso-comum vive, pois, num mundo toma consciência de que o seu trabalho, pensando
de entidades que, postas em presença umas das dizer a realidade, também a cria – e sobretudo a cria.
outras, desenham a realidade. De acordo com Guba e Lincoln (1994), o construtivismo
O pensamento construtivista, por seu lado, atravessa advoga que o conhecimento consiste nas construções
actualmente os trabalhos da comunidade científica nas que têm um consenso relativo sobre a interpretação
ciências sociais e humanas. Não cabe nos objectivos da sua substância e admite a coexistência de múltiplos
deste artigo desenvolver os seus contornos – aliás conhecimentos e a possibilidade da sua revisão quando
múltiplos, heterogéneos e vindos de diferentes pontos diferentes construções são introduzidas no diálogo.
emissores do diagrama disciplinar – nem saber por que Uma das implicações construtivistas prende-se com o
se constitui actualmente como uma importante raciona- objectivo de compreender e reconstruir as construções
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iniciais dos investigados e dos investigadores, procu­ samento comum em objecto de estudo, mostrando
rando o consenso ao mesmo tempo que se mantém a sua funcionalidade na vida social. Crenças, repre-
a receptividade a novas interpretações que poderão sentações sociais, categorização social, estereótipos,
surgir (ibidem). são conceitos hoje usados dum modo corrente nas
Atentemos ainda no que nos diz Eduardo Menendez ciências sociais e humanas, a tal ponto que acabariam
(1999): “A construção é um procedimento que o inves- por passar destas para a linguagem de senso-comum
tigador aplica e, supostamente, um dos seus momentos – regressando, deste modo, ao lugar que suscitou a
metodológicos devia ser a chamada desconstrução. questão que os converteu em conceitos.
Mas há que assumir também que a aproximação cons- O termo estereótipo (palavra composta derivada do
trucionista supõe, do ponto de vista metodológico, a grego stereos, que significa duro, sólido, firme, e typos,
existência de vários saberes que estão a operar simul- que significa marca, impressão) tem as suas raízes no
taneamente e que, na constituição e desenvolvimento vocabulário tipográfico e designa uma placa metálica
destes saberes, actuam relações de força que também de caracteres fixos, destinada à impressão em série. O
devem ser reconstruídas relacionalmente.” termo cliché vem também dos artefactos tipográficos,
Os pensamentos coisista e construtivista confrontam- sendo uma frase feita que encaixava no texto à medida
‑se com regularidade nos palcos onde se tece a defi- que este era mecanicamente composto. António Diniz
nição dos objectos e da respectiva reacção social. Este procede a uma revisão dos conceitos de crença, de
confronto é muitas vezes marcado pela dificuldade representação social e de estereótipo e, sobre este,
em escutar e compreender o ponto de vista antagó- propõe a seguinte definição: “Psicossociologicamente,
nico, o que se explicaria, em boa parte, pela razão o estereótipo é, também, uma matriz de opiniões com
que Menendez (1999) tão bem identifica: “A realidade características de rigidez e homogeneidade, tratando-
social – salvo excepções – não aparece nem existe ‑se de uma generalização abusiva (isto é, aplicada de
como construção para o actor social que utiliza os seus maneira uniforme e admitindo poucas excepções),
saberes, neste caso relativamente às drogas; os con- extremada (ou seja, atribuída de forma superlativa
juntos sociais e os sujeitos não vivem os seus saberes – muito ou pouco e não, apenas, moderadamente)
como construções sociais mas como comportamentos e mais frequentemente conotada negativamente do
orientados para a prática.” que positivamente. Esta é a definição tradicional de
Liguemos então o que acabamos de dizer ao fenómeno estereótipo (ver Allport, 1954; Mucchielli, 1969; Reuchlin,
droga. Faremos a seguir um exercício que parte de 1977), sendo ele considerado como uma forma inflexível
ideias de senso-comum, a seu respeito, a respeito de crer acerca dos outros.” (Diniz, 2004).
dos actores que o protagonizam, – interroguemos Que funcionalidade tem o estereótipo, para assim estar
alguns dos elementos principais que constituem, no inscrito no modo comum de pensar e dizer? Citemos
pensamento coisista, essa realidade que é o “mundo da ainda António Diniz: “[o estereótipo] refere-se ao que
droga”. Pô-los-emos então em questão confrontando- sabe o falante não especializado sobre determinado
‑os com outros elementos, estes obtidos a partir do termo, sendo esse conhecimento suficiente para o uti-
pensamento construtivista da ciência. Mas precisamos, lizar num discurso. (…) O estereótipo é o conhecimento
antes de o encetarmos, de dois esclarecimentos, semântico não especializado do falante médio, social-
um de âmbito teórico e outro metodológico. A isso mente partilhado de forma a permitir a comunicação
dedicaremos as duas próximas secções. eficaz”.
Trata-se, afinal, de formas grosseiras de codificar
2 – BREVE NOTA SOBRE A LINGUAGEM E OS e dizer o real, ou de maneiras válidas de o fazer?
CONCEITOS Depois de “serem condenados enquanto formas de
A sociologia e a psicologia social converteram o pen- pensamento aberrantes e odiáveis, os estereótipos são
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vistos, pela psicologia social contemporânea, como uma seguir. Um dos princípios deste estilo de pesquisa é
consequência da necessidade psicológica e cognitiva o da fidelidade às formas de expressão, à linguagem,
de categorizar e simplificar o mundo social complexo” dos actores com que se vai estabelecendo relação na
(Augoustinos e Walker, cit. por Diniz, 2004). unidade de estudo. Ora, o termo “agarrado” é utilizado
À luz do que acaba de ser dito, não espanta que o exercício tanto para o indivíduo se referir à sua situação actual
de comparação de dois modos de conhecimento – o que (“estou agarrado”, “fiquei agarrado”) como a uma
é veiculado através do estereótipo, da categorização espécie de identidade, tanto própria como pela qual se
social, da crença e o que se constrói através do método reconhecem os outros (“sou um agarrado”; “ele é um
científico – não sejam necessariamente antagónicos. O agarrado”).
segundo não tem de ser a desqualificação do primeiro, Reencontramos, a partir da nossa própria pesquisa,
por vezes é apenas a sua depuração e sofisticação, aquilo que mostram os trabalhos que abriram um novo
numa continuidade que leva ao questionamento do capítulo nas concepções do comportamento desviante
clássico corte epistemológico no campo das ciências e a que já aludimos atrás: o desenvolvimento destas
sociais e humanas. identidades no jogo relacional com os actores e os
Veremos, a propósito da figura do “agarrado”, como contextos em que o respectivo desvio tem um papel
o resultado do confronto entre ambos os modos de central. A evolução, ao longo do tempo, para pata-
o dizer não é necessariamente o da oposição entre mares cada vez mais avançados na relação com tais
ambos, o segundo não é sempre a correcção dos erros actores, práticas e contextos culmina assim no “estado
e simplismos do primeiro. Há também convergência da marijuana” (Becker, 1963, na sua etnografia sobre
mostrando, mais uma vez, se necessário fosse, que o fumadores de marijuana), na “conversão” (Matza, 1964,
pensamento do senso-comum é uma forma válida de na sua investigação com jovens delinquentes) e na
conhecimento do real e as ciências efectuam sempre, “identidade de estigmatizado” (Goffman, 1963, na sua
em relação a ele, uma de duas operações: a depuração, pesquisa sobre a deterioração da identidade a partir
a precisão e a sofisticação dos seus termos; ou, pela dos processos de estigma).
demonstração do erro que contêm, o corte com estes. O termo “agarrado” – que daqui para diante escreve-
Os resultados da investigação autorizam neste caso remos sem aspas – fluiu para o discurso de senso-
a desconstrução das formas comuns de pensamento, ‑comum. Temos observado a sua utilização frequente
mostrando como, ao estereotipar e classificar, actu- com um sentido próximo do de “drogado”, termo que se
am através de pré-conceitos que vivem na ilusão de tinha consagrado numa primeira fase da sua emergên-
conhecer aquilo de que falam. Se tivermos em conta cia no espaço público. E fluiu também para a linguagem
que os estereótipos contêm uma dimensão avaliativa, dos técnicos, em contextos de informalidade que per-
autorizando quem os sustenta a juízos de valor e a mitem a fuga à linguagem estritamente especializada.
práticas consequentes com estes, o trabalho de des-
construção a partir do conhecimento científico reveste 3 – BREVE NOTA METODOLÓGICA
nestes casos especial importância. O ponto de partida para a investigação acerca dos
Porquê optarmos pelo termo “agarrado” em vez consumidores problemáticos de drogas teve origem
de “toxicodependente”, “consumidor problemático” ou numa solicitação aos investigadores por parte duma
simplesmente “junkie”, como temos feito sempre nos autarquia. Com efeito, a Câmara Municipal de Guimarães
nossos trabalhos quando falamos do heroinodependente quis aprofundar o conhecimento sobre tal problemática,
em situação de precariedade do quadro de vida, do de modo a potenciar as acções interventivas, tanto
“toxicodependente de rua”? Os dados empíricos de que do seu departamento de acção social como das
nos serviremos neste texto foram gerados ao longo organizações que integram a rede social. Estávamos,
duma investigação etnográfica de que já falaremos a portanto, perante o desafio de empreender um trabalho
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etnográfico junto dos actores e dos territórios das quer ao das zonas urbanas problemáticas. Também
drogas no centro de Guimarães – oportunidade para a este respeito entrava Portugal, digamos, para a
juntar investigação básica e intervenção.1 comunidade europeia, pois a mesma situação havia
A pesquisa de terreno decorreria entre Outubro de começado a viver-se alguns anos antes em boa parte
2009 e Agosto de 2010, tendo como técnica nuclear dos países europeus e, mais geralmente, em todo o
a observação naturalista, evoluindo para a sua moda­ mundo ocidental.
lidade participante sempre que o contexto se revelava
favorável; recorreu-se ainda à entrevista em profundi­ 4.1 – Comunicação social e estereótipo
dade, recolhida nos settings dos actores das drogas e à Os mass media dedicariam grande espaço informativo
análise documental. Esta utilizaria documentos dispo- àquilo a que iam chamando “o mundo da droga”,
nibilizados pela In-Ruas, equipa de redução de riscos apresentando-o como uma situação nova e altamente
e minimização de danos da Sol do Ave Associação preocupante da realidade portuguesa. A modalidade
para o Desenvolvimento Integrado do Vale do Ave. predominante desta mediatização escolheria para a sua
Utilizámos principalmente o seu diário de campo e os narrativa os sujeitos de maior potencial fílmico: num
relatórios de caracterização de contextos, actores e cenário de zona urbana e/ou periurbana degradada,
actividades de intervenção elaborados para a entidade um indivíduo ou um pequeno grupo, quase sempre
financiadora. A In-Ruas seria também a âncora de do sexo masculino, nem sempre já muito jovens,
terreno inicial, a partir da qual se irradiou para outros sentados algures no Casal Ventoso com o garrote no
territórios e actores.2 braço e a seringa pronta para o “chuto”, falando para a
Circunscrevemos os consumos problemáticos às fran- reportagem com uma voz arrastada sobre o “inferno”
jas de indivíduos mais marginalizadas, que são nor- que era aquela vida. Estávamos, por meio do fenómeno
malmente aquelas em que os problemas sanitários e droga, confrontados com a revelação duma outra
sociais atingem maior gravidade, sendo também as cidade ali mesmo a nossos pés mas que insistíamos
que se tornam mais visíveis nas dinâmicas diárias em não ver. O quadro assim criado possuía uma grande
dos espaços urbanos. A unidade de estudo inicial era intensidade dramática, que colocaria o “mundo da
um território psicotrópico situado na zona histórica droga” nos primeiros lugares dos inquéritos sobre os
da cidade de Guimarães, onde a unidade móvel vinha maiores problemas com que a sociedade portuguesa
regularmente efectuar o seu trabalho interventivo. se confrontava.
Partiríamos daí para outras zonas tanto do centro his- Esta representação de tal modo se tornou dominante
tórico como do centro urbano, fosse para acompanhar que a própria cúpula do dispositivo da droga a (re)pro-
as actividades dos utilizadores de drogas nos “parques” duzia. Fernando Negrão, à época presidente do Instituto
onde arrumavam carros, fosse para os acompanhar a da Droga e da Toxicodependência, abria assim a “nota
locais onde iam consumir. prévia” a uma investigação que então publicávamos
(Fernandes e Carvalho, 2003): “Por norma, ao falar-
4 – ESTEREÓTIPO E VISÃO FENOMENOLÓGICA ‑se de drogas e respectivos consumos, ocorre-nos a
DO “AGARRADO”: DISTÂNCIAS E APROXIMAÇÕES imagem do toxicodependente degradado que se arrasta
MÚTUAS visível e solitário pelas ruas das nossas cidades ou dos
A partir dos anos 80 do século passado assistiu-se nossos bairros.”
em Portugal a uma progressiva atenção à figura do Ao longo dos anos 90 era esta a matriz que determinava
toxicodependente, atingindo no final dessa década e o discurso dominante acerca do “drogado”. Numa aná-
durante boa parte da seguinte um grande protagonismo lise da imprensa diária publicada entre Outubro de 92 e
na comunicação social. Este protagonismo vinha Março de 93, concluíamos que «o consumidor é, quase
associado quer ao tema do aumento da criminalidade, sempre, uma figura anónima, uma “vítima da droga”, um
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indivíduo referenciado pela sua ligação ao delito que lhe As instâncias policiais e judiciais representam 53% do
assegura o dinheiro para a substância. E “um gatuno”, total das fontes, o que “configura uma prevalência da
um “ratoneiro”, um “arguido”» (Fernandes, 1997). visão repressiva, do modelo policial, na imagem que os
Melo, Castanheira, Contreiras e Ponte (1997), numa meios de comunicação transmitem” (Rekalde, 2002);
análise de imprensa com amostra recolhida em Maio cerca de 50% das notícias referem-se a factos relacio-
e Junho de 1996, evidenciam a centralidade da GNR e nados com a distribuição das drogas, relatados como
do Ministério da Justiça enquanto voz activa (quem fala “luta pela lei e ordem contra o narcotráfico e também
directamente na notícia ou a quem se cita directa ou contra o consumo”. Esta “leitura delictiva da toxicode-
indirectamente), mostrando deste modo como o tema pendência“, como lhe chama o autor, aparece com mais
droga se liga, na representação mediática, à criminali- destaque do que o outro elemento representacional,
dade; as vozes passivas (de quem fala a notícia) eram, o do consumo como doença, “quase um vírus, que
em 19% das vezes, adultos com cadastro, incluindo requer um tratamento clínico, quando não uma vacina
traficantes e 18% toxicodependentes; este é, em 26% para o paciente” (Rekalde, 2002).
das vezes, apresentado como doente e em 24% como Em síntese, as várias investigações sobre as repre-
criminoso/delinquente, 19% enquanto marginal/desin- sentações sociais e sobre as imagens mediáticas da
serido e só 14% das vezes como vítima. “droga”, do “drogado”, do “toxicodependente” mostram
Noutro trabalho relativo ao mesmo período temporal, o carácter simplista, redutor e ambíguo dos elementos
Ponte, Cabrera e Santos (1997) extraem três metáforas com que se compõem essas figuras. O pensamen-
a partir de textos jornalísticos de opinião, crónica e to coisista uniformiza (“A droga” em vez de drogas
artigos de especialistas, cartas de leitores, notícias várias, sejam legais ou ilegais; o “drogado”, o “toxico-
desenvolvidas, reportagens, artigos de análise (vozes dependente” em vez das várias relações com as várias
exteriores): “inimigo público”, “exclusão” e “redenção”. substâncias), toma a parte pelo todo (o ”toxicodepen-
Por sua vez, numa amostra representativa da popula- dente”, o “traficante”, como os actores das drogas, não
ção do Porto, Jorge Quintas (1997) evidencia as formas reservando espaço para outros actores e relações),
elementares às quais é reduzida a figura do drogado: não discerne diferenças, igualando todos numa espécie
“precisa de ajuda”, “tem problemas”, “viciado”, “ladrão”, de consequência universal da tirania da dependência
constituem o núcleo duro da sua representação social. química. Para agravar este quadro, os anos 90 seriam
Uma representação carregada de ambiguidade, acres- também os do crescimento epidémico do VIH-Sida, de
centamos nós: “tem problemas” mas também os causa, que o utilizador de drogas por via intra-venosa se tor-
posto que é “ladrão”; “precisa de ajuda” mas é “viciado”, nou um dos principais atingidos e difusores.3
expondo o seu comportamento à condenação moral.
Este tipo de representação social não parece uma 4.2 – O “agarrado”, figura da exclusão?
peculiaridade portuguesa. O fenómeno droga teve entre O toxicodependente, mesmo aquele que escalou para
nós uma evolução, tanto das formas de consumo e dos situações de ruptura social, que passou a habitar a
mercados ilegais como da reacção social, semelhante margem e que cristalizou num dia-a-dia de sofrimento,
à dos demais países da Europa ocidental. É natural, mesmo esse, seria assim redutível ao estereótipo que
por isso, que os estereótipos não sejam diferentes. a investigação evidenciava? Dedicámos boa parte do
Vejamos, a título de exemplo, as principais conclusões nosso trabalho desde o início dos anos 90 a tentar res-
duma investigação espanhola (Rekalde, 2002) que anali- ponder a esta questão. E o que apresentamos a seguir
sou a imprensa castelhana, catalã e basca. Em 94% das é uma nova peça neste já longo exercício, possibilitada
unidades de registo em que foram divididos 172 artigos por uma abordagem metodológica alternativa à que vê
do corpus da amostra “as informações expõem conte- de longe e filtra apenas o espectacular e o dramático.
údos de carácter negativo para os actores dos factos”. Ser agarrado é, antes de mais, um modo de existir.
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Primeira tarefa do investigador: encará-lo como tal, pro- temente dos que têm já longa trajectória, “veteranos”
cedendo à escuta fenomenológica da sua realidade con- com percursos que atingem com frequência os vinte
creta, nos palcos concretos em que vive e com as sig- anos de heroína, às vezes os trinta. E quando vemos
nificações que atribui ao seu agir. Parece fácil, mas não quem recorre aos serviços da equipa de rua da qual
é: as imagens que constantemente se propagam sobre partimos para o trabalho de campo, são na sua grande
o tema bloqueiam o olhar, e quando vemos alguém que maioria indivíduos que, dum modo ou doutro, apresen-
corresponde a essas imagens não é a pessoa aquilo que tam elementos, tanto do visual como da sua história
vemos, mas a concretização de tais imagens prévias. O pessoal, susceptíveis de reforçar o estereótipo que
exercício de redescobrir as pessoas para lá das catego- sintetizámos acima. Com efeito, são de estratos sociais
rias sociais e dos estereótipos é a vocação da etnografia desfavorecidos, com baixa escolaridade (poucas vezes
– o método é simples, a tarefa árdua. acima do 6º ano), com trajectórias laborais marcadas
O estereótipo que se vai fixando sem cessar desde que pela intermitência, pelos trabalhos pouco qualificados,
o “drogado” irrompeu na cena pública di-lo próximo do às vezes por períodos de emigração; têm também com
indivíduo em situação de grande precariedade, na vizi- frequência quadros familiares problemáticos (tanto
nhança da mendicidade e da errância. E, de facto, estes na família de origem como na que, em muitos casos,
elementos são verificáveis em muitos dos actores constituíram), agravados por entradas nos consumos
que têm na rua o seu contexto de vida principal. Di-lo durante a adolescência (nalguns casos aos 12 anos,
também uma figura da ameaça, alguém situado entre pelo menos num deles directamente na heroína), com
a exclusão e a criminalidade. A sua droga de eleição, sucessivas entradas e recaídas em tratamentos e com
a heroína, tem hoje uma imagem associada a estes passagens, em muitos dos indivíduos, pelo sistema de
atributos, e o actor juvenil que procura estados psico- justiça. A grande maioria arruma carros como estra-
activos nos contextos recreativos e/ou festivos rejeita tégia de sobrevivência económica e tem situações
por isso mesmo a heroína (cf. Calado e Lavado, 2010; precárias de alojamento (sem-abrigo, quartos alugados,
Carvalho, 2007; Silva, 2004; Gamella e Roldán, 1999). casa de familiares por temporadas…)4.
Mas não devemos generalizar este cenário, tomando Mesmo assim, frases do tipo “vi que era drogado pelo
a parte pelo todo, isto é, tomando o toxicodependente aspecto” têm uma grande probabilidade de falhar. Para
de rua como a matriz para dizer as relações com as um iniciado nos cenários das drogas de rua é mais
substâncias psicoactivas ilegais. Não é difícil encontrar fiável a identificação dum actor a partir do seu compor-
indivíduos que vêm à procura de quem venda heroína tamento, sobretudo se estiver numa atitude de procura
cujo visual se situa, digamos, na zona da convencionali- de quem tem produto. Há um habitus drug que se revela
dade, tanto na indumentária como no asseio e, mesmo, nos gestos, no andar apressado, na espera inquieta, nos
no cuidado que se aparenta. De modo que, usando o encontros em que se trocam breves palavras e logo se
aforismo popular, pela aragem não se vê quem vai segue adiante. Algo que é detectável pelos outros acto-
na carruagem. Por outro lado, a heroína não está res, mas dificilmente perceptível para o transeunte – a
completamente ausente nas condutas psicotrópicas cena drug desenrola-se nos interstícios de espaço: está
de indivíduos dos consumos “não problemáticos” (cf. diante de nós, mas só alguns a vêem.
Cruz, 2010). O pensamento coisista vê na exclusão um estado de
Constatámos também que, embora sem ser uma situa- marginalidade (por ex., grupos periferizados na cena
ção corrente, por vezes vinham adolescentes às zonas urbana) ou de isolamento e solidão (por ex., o sem-
de compra e de consumo onde se concentravam mais ‑abrigo, o indivíduo em errância). O estereótipo do
utilizadores. Sem ter hoje a capacidade de “recru- agarrado engloba ambas as situações: o habitat do
tamento” que teve em tempos, a heroína continua a “mundo da droga” seriam esses territórios de periferia
atrair adolescentes e jovens. Mas a rua é predominan- desqualificada, seriam também espaços degradados em
24 Do estereótipo à visão fenomenológica: análises sobre o “agarrado”

pleno centro urbano (respectivamente bairros sociais ideia comum do isolamento do heroinómano, mostrando
problemáticos e zonas como a Sé, no Porto, ou o Casal o carácter decisivo da sua dimensão relacional para a
Ventoso, em Lisboa); o “agarrado” seria também alguém trajectória de toxicodependência.
em quebra de relações, a caminho do isolamento e da Esta mesma dimensão é abundantemente evidenciada
solidão – como se a rua não pudesse senão ser o ponto através duma pesquisa de terreno conduzida por Adelino
de chegada de quem já não tem nada nem ninguém. Antunes em sete lugares de rua onde se concentravam
Ora, os dados mostram-nos que ela tem também uma grupos juvenis. “Na noite de alguns lugares da cidade
dimensão relacional: de Lisboa, cruzam-se pessoas à procura dos seus
“Enquanto caminhávamos, o Gingas, o Tatá, o pares, com quem trocam solidariedades, cumplicidades,
Brocas e o Manel iam falando de dealers, se seringas, cachimbos ou simples metades de limões
conheciam este ou aquele, e que o produto estava amarelecidos, à mistura com retalhos de vida
escasso. Até que o Manel diz que se lembra de um confidenciados ao ouvido na partilha de um charro.
tal fulano que eles reconhecem, depois pergunta- (…) Por que se procuram mutuamente na espera do
‑lhes quanto é que eles queriam e o Gingas disse consumo ou no ”trabalho” que fazem para encontrar as
que queriam 15 euros. O Manel diz que esse tal moedas com que compram o prazer de alguns e o não
fulano só vende pacotes de 10 euros e o Gingas diz sofrimento de outros?” (Antunes, 2010).
que se ele puder que compra com eles. Assim eles É posta em relevo a importância do grupo que se foi
dão 15 euros e o Manel 5 euros. Mas o Manel diz constituindo na rua como substitutivo de laços suces-
que depois tinham de dividir a cena e o Gingas diz: sivamente degradados e interrompidos na família. A
“Então, e dividimos isso na boa, ou vamos todos a um dimensão relacional aparece neste caso como ver-
sítio e fumamos todos…”. O Manel diz que podia ser, dadeiro restaurador do suporte social, permitindo ao
só que ele só tinha 4 euros. O Gingas diz que não indivíduo em perda afectiva ir suprindo a sua necessi-
havia problema e perguntou ao Tatá se ele não tinha dade de pertença. O autor mostra como emergem na
1 euro. O Tatá diz: “Eu cubro o euro do homem, não rua solidariedades fortes e, não raro, relações amoro-
há problema, eu cubro o euro do homem…”. (Diário sas, obrigando-nos a repensar uma certa diabolização
de campo). da rua como palco de socializações indesejáveis e
Dar dinheiro a outro não é comum, aqui aconteceu a interrogar o modo como aderimos a crenças que
porque o Gingas tinha ainda a generosidade dum funcionam como definições – por ex., a família é boa,
neófito, provavelmente pretendia com isso fazer-se a rua é má, uma má família é sempre preferível ao
aceitar, investindo assim nas vezes futuras em que “andar na rua”…
tem de vir à rua comprar. Mas a “vaquinha”, reunião de
dinheiro entre vários interessados para poder comprar 4.3 – A temporalidade – um constante presente?
maior quantidade pelo mesmo preço e partilhar depois o Outro elemento do estereótipo diz respeito à tempora­
produto, é uma estratégia à uma económica e convivial lidade: o toxicodependente viveria num constante pre-
– porque na heroína nem tudo é redutível ao “cada sente, com o tempo contraído entre a acalmia a seguir
um por si”. Testemunhámos consumos partilhados ao consumo e a necessidade de conseguir o próximo.
que são a base para a sociabilidade, vimos gestos de Tudo se desenrolaria no curto prazo, coarctando a
solidariedade para com quem está a ressacar, vimos capacidade de planeamento, que implica projectar-se
“emprestar” o “parque” onde se arruma para permitir no tempo. Vem daqui a ideia comum de que o adicto
que a pessoa em causa angarie o que lhe falta para a não é fiável, pois adia sistematicamente os compromis-
dose. Estamos de acordo com Luís Vasconcelos (2004) sos que assume.
quando, a propósito dos territórios psicotrópicos da Não discutiremos as razões internas deste comporta-
heroína em Lisboa, considera necessário inverter a mento, que a leitura psicopatológica da dependência
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de substâncias lê como uma das expressões da falha dá, como vimos atrás, grande relevo às instâncias de
interna. Diremos apenas que também as condições controle social, numa luta para repor a lei e a ordem
contextuais da “vida da droga” favorecem uma tem- que o “Mundo da droga” ameaçaria constantemente.
poralidade em que a possibilidade de planeamento Quando vista de perto, dá lugar afinal a um mundo
depende pouco da vontade do indivíduo. O tempo do social que se pauta por regras e que produz juízos
toxicodependente tem grandes oscilações: ora é feito negativos sobre quem não lhes obedece:
de esperas (pelo dealer, pelo carro para a vaga livre, “Passámos por um sujeito que estava ao telefone
pelo regresso do dono que só dá a moeda à vinda), ora numa cabine telefónica e o Rujo disse-me ao ouvido
de acalmias nos períodos após o pico ou o fumo de que esse era o tal Batata (numa observação anterior
pó, ora, pelo contrário, é feito de pressas: a urgência registámos já o episódio em que o Batata rouba
de conseguir os últimos cêntimos que faltam para um 90 euros ao Rujo). Só o pude ver de costas. Tinha
pacote, a pressa de trocar dinheiro antes que o dealer, o cabelo comprido e estava vestido meio à hippie,
que ainda há pouco chegou, se vá embora. De tal modo com roupa velha.
estes funcionamentos a que se vê obrigado se vão inte- Seguimos caminho e o Rujo disse que ele andava
riorizando que, ao observador experiente, são muitas ali a tramar o povo todo, disse que ele também
vezes identificáveis na rua pelo passo célere com que era consumidor, mas que não fazia pela vida para
se deslocam, pelos contactos breves que vão estabe- arranjar dinheiro. Disse: – “Eu ainda hoje acordei
lecendo com outros actores – como quem está atare- cedo cheio de frio e fui para o parque que me fodi, a
fado, como quem tem algo de inadiável. Desengane-se chover e tudo… e ele anda ali a tramar o pessoal todo!
quem pense que a vida de rua, num estar por ali mais (…) qualquer dia apanha um maluco que lhe espeta
ou menos nos mesmos sítios, é um marasmo: não será uma navalha no bucho e depois? Depois desgraça a
por acaso que dizem de si próprios que andam “na vida vida dele.” (Diário de campo).
do andamento”. Ser heroinómano e arrumador, trabalhando no seu
O “agarrado”, sobretudo quando recorre à actividade “parque”, não implica deixar de observar regras con-
de arrumação de automóveis para fazer face às vencionais, como a de fazer sair do esforço próprio o
necessidades de financiamento dos consumos, é visto financiamento do consumo ou como a de não roubar.
como uma nova modalidade de pedinte, vindo juntar a Na investigação em que temos estado a basear-nos, a
sua presença na rua à de outras figuras da errância grande maioria dos utilizadores de drogas arrumava
e da pobreza urbana. Óscar Lewis (1963), nos seus carros. Pudemos observar longamente o desempenho
trabalhos hoje clássicos sobre a pobreza nos grandes desta actividade e concluímos pelo seu poder organiza-
meios urbanos, mostrou como a “cultura da pobreza” dor dos quotidianos dos indivíduos. Estes comportam-
tem como uma das suas características a vida vivida ‑se de acordo com um conjunto de regras, tanto na
no presente, dando pouca importância ao planeamento observância dos territórios (os “parques”) como na dos
e à previsão do futuro. Se o conceito de cultura da horários de “trabalho”, tanto na relação com o automo-
pobreza tem sido muito polémico, mais ainda seria bilista como na responsabilidade, que verificámos com
advogar que ser pobre implica uma falha interna na grande frequência, que sentiam pelo bom desempenho
temporalidade… da tarefa (por exemplo, gerindo a senha do parcómetro
a favor do “cliente”, fazendo com que gaste o mínimo
4.4 – A “lei da selva”? sem ser multado). Arrumar carros é, pois, mais do
Outro elemento do estereótipo que é necessário que uma simples estratégia económica de angariação
discutir diz respeito à “lei da selva” que o pensamento de ”dinheiro para a droga”. Mostrámos como assume
coisista acredita ser a que governa a vida marginal de características de ocupação, muitas vezes de longo
rua. De facto, a representação veiculada pela imprensa prazo, como muitos dos seus praticantes acabam por
26 Do estereótipo à visão fenomenológica: análises sobre o “agarrado”

interiorizar uma identidade de “arrumador”, evoluindo o indivíduo na continuidade dos consumos – algo bem
da vergonha inicial para a plena assunção do “seu par- demonstrado pela longa trajectória da quase totalidade
que” – conceptualizámo-la, pois, como modalidade do dos sujeitos com quem contactámos ao longo do tra-
trabalho informal (Fernandes e Araújo, 2010).5 balho de campo, mesmo que interrompida por períodos
A marginalidade não é o estado oposto ao da nor- de abstinência e de afastamento dos contextos. É esta
matividade: os mundos desviantes, vistos de perto, continuidade que arrasta consigo uma outra circuns-
mostram regularidades e normatividades. A insistência tância típica do ser “agarrado”:
mediática na narrativa que associa droga a desordem “Quando o João chegou cumprimentou o Rujo e
e a crime é, pois, redutora. disse, quando este lhe perguntou se estava tudo
bem: “Está tudo uma merda, estou farto disto, João,
4.5 – “Não fui eu, foi a ressaca” tou farto desta merda”. O Rujo respondeu que
As crenças de senso-comum vêem na dependência também estava.” (Diário de campo).
um estado que não deixa escolha: o “agarrado” não “Estou farto, esta vida é uma merda!” – uma frase
consegue estar sem droga, e fará qualquer coisa para recorrente nos actores de longa trajectória, cuja
a conseguir. Daí a crença de que se transforma num degradação do quadro de vida (familiar, laboral, das
criminoso em potência, daí a representação que o liga redes informais de suporte) acabou por “encerrar” na
ao delito na maioria das suas aparições mediáticas. rua, como o espaço possível quando o resto da vida
Insuportabilidade e compulsividade, na linguagem dos pessoal parece estar em derrocada. É este quadro de
especialistas, assimilada pelos utilizadores, que a vida, comum à maioria dos nossos sujeitos, que conduz,
reproduzem nas suas crenças acerca de si próprios, mais tarde ou mais cedo, ao cansaço e à vontade de
incorporada como verdade do comportamento do inflectir a trajectória. “Mudar de vida” é outra frase
adicto. Curiosamente, só a capacidade de escolher recorrente, que mostra bem o carácter absorvente da
permitiria romper a ditadura daquilo que não deixa experiência da dependência, tão absorvente que seria
escolha: o agarrado teria de ser capaz de decidir parar capaz de instaurar uma vida própria.
com os consumos, exprimindo este poder decisional A dificuldade na comunicação da experiência profunda
através da “força de vontade”. Esta dimensão interna, da dependência, que torna até certo ponto incompre-
afirmada através da capacidade de sustentar no tempo ensível ao leigo a incapacidade de o indivíduo reverter
a abstinência, afastá-lo-ia do químico e dos ambientes a situação a partir da sua “força de vontade”, pode ser
onde este seria irrecusável. parcialmente contornada utilizando a comparação com
A fenomenologia do “agarrado” constata também a outra experiência que seja mais comum, e portanto
intensa ligação ao produto a que está adicto como mais partilhável. A privação do químico assemelha-se
centro da sua experiência. Mas esta ligação vai muito à fome, é a própria fome nesse momento:
para lá do biológico (bem expresso na “ressaca”), vai “Conversámos um pouco e a certa altura o Rujo
para lá do sensorial (o “efeito da droga”), que são os disse que tinha 10 euros para comer mas que tinha
elementos que conformam o estereótipo. Tem além de consumir, porque se não consumisse vomitava
disso uma dimensão relacional e molda a visão com tudo com a ressaca. Perguntei quantas doses é que
que o indivíduo olha a realidade à sua volta. Algo que ele precisava por dia e disse que consumia 20 euros,
está bem traduzido no comentário do Tatá, um jovem portanto quatro doses. Disse que consumia duas de
de cerca de 17 anos, a poucos dias do Natal: “O pai manhã e duas à noite. Com 10 euros não ficava bem,
natal devia era andar aí a distribuir pacotes ao povo!” não conseguia dormir.” (Diário de campo).
A intensidade da relação, em particular com substân- O dilema entre comer e consumir – ou de como a
cias opiáceas (heroína, metadona, químicos opióides heroína se torna o próprio pão… A dependência inverte
ou psicofármacos sentidos como próximos), envolve as prioridades fisiológicas: a ressaca toma o primeiro
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lugar, a fome só vem a seguir. O intenso desejo do dependentes actuais do que nos das décadas de 70 e
opiáceo faz esquecer o desejo do alimento – algo, mais 80, à medida que se foi instalando na cultura tanto dos
uma vez, mal compreendido pelo pensamento coisista e técnicos como dos utilizadores a crença de que é um
bem expresso na frase comum “não dou dinheiro para estado insuportável – aquilo a que Pallarés chama o
a droga, só dou se for para comer”. modelo dramático da ressaca. Romani, Pallarés e Diaz
A síndrome de abstinência é talvez o melhor modo (2001) ”(…) desde fins dos anos 70 constata-se que as
de nos aproximarmos da experiência do estar adicto. expectativas dos heroinómanos aparecem mais domi-
A ressaca, como é designada na gíria, torna-se um nadas pela influência do discurso hegemónico sobre
verdadeiro princípio de acção. De tal modo é invasiva do as drogas (muito alarmista) do que as elaborações
sujeito que lhe determina aquilo que faz, tanto enquanto subculturais dos círculos de consumidores (…) Ocorre,
a sente como quando a pressente. E o próprio do adicto às vezes, que a própria síndrome não parece ter bases
é pressenti-la durante a maior parte do tempo, porque farmacológicas, já que se manifesta em doses e fre-
sabe que daí a horas precisará de voltar a consumir e quências muito baixas; mas existe uma aprendizagem
tem de mobilizar os meios para o poder fazer6: e interiorização dos efeitos que permite vivê-lo de
“Disse que trabalhava sempre sem problemas maneira real e/ou simbólica (Comas, 1989)”.
nenhuns e que quando estava “fumado”, que traba- Por sua vez, Pilkington (2006) sublinha a necessidade de
lhava ainda melhor. Disse que quando está “fumado”, desmistificar a noção de abstinência, pois contribuiria
se for preciso até vai abrir as portas dos carros às para que os sujeitos se demitam da sua responsabilidade
pessoas. Disse que se estivesse a ressacar que não pela mudança, transformando-se, assim, em profecias
conseguia arrumar carros, nem comer, que não con- que se auto-cumprem e que promovem a manutenção
segue fazer nada.” (Diário de campo – Barbas, cerca de padrões de consumo problemático.
de 40 anos, consumidor desde os 16). Também nós, verificámos, com alguns dos nossos
Ressaca e prazer são as duas dimensões opostas sujeitos, o lado mítico da ressaca, pois só perceberam
da experiência psicotrópica, importantes ambas para que estavam perante os seus sintomas característicos
compreender o vivido profundo de tal experiência. Se quando um consumidor mais experiente lhos identificou,
bem que antagónicas, tocam-se num aspecto: na sua passando, só nesse momento, a associá-los à neces­
incomunicabilidade a terceiros. Sobretudo na forma de sidade imperiosa de consumir. Esta crença, reforçada
flash, êxtase imediatamente sentido após a injecção, mutuamente entre o modelo medicopsicológico e a
são experiências que de tal modo são arrebatadoras, experiência reportada pelo adicto, flui destes para o
de tal modo invasivas de todo o ser naquele momento, senso-comum, constituindo-se num dos elementos
que são irredutíveis ao discurso. Quando muito usa‑se mais fortes do estereótipo. O mito da insuportabilidade
a comparação, o orgasmo para tentar descrever o flash; traz vantagens, como por exemplo a justificação de
mas já a gripe forte, para descrever a ressaca, é pouco actos condenáveis socialmente, segundo a fórmula “não
aproximada das vivências físicas e psicológicas da sín- fui eu, foi a ressaca”.
drome de abstinência. A vida do “agarrado” é, em grande Vejamos este modelo a exprimir-se através do relato
parte, determinada pela fuga a este verdadeiro terror. dum dos nossos sujeitos:
É necessário relativizar este carácter tão determinan- “Ele disse que uma vez tentou não consumir, mas
te que a ressaca assume no adicto. Subscrevemos que só aguentou 2 dias, que foi a uma sexta-feira,
Pallarés (1995) quando sublinha que “(…) a ressaca está que se deitou, e que no domingo não aguentou.
altamente magnificada tanto na teoria farmacológica Pensou que 2 dias bastariam para vencer a ressaca,
como nos que estabelecem uma relação permanente mas não. Disse:
com a heroína”. Ainda segundo o autor, a síndrome – O pior é que a ressaca aumenta de dia para dia, todos
de abstinência tem causado mais alarme nos toxico- os dias fica pior e um gajo não aguenta, eu se estiver
28 Do estereótipo à visão fenomenológica: análises sobre o “agarrado”

sozinho não consigo aguentar…”. (Rujo, 44 anos). tizar em poucas palavras a dimensão radical da depen-
O Rujo dizia-nos, uns tempos mais tarde, que a polícia dência, quando afirmou num desabafo que “sem a droga
às vezes aparecia no seu “parque” e o impedia de parece que já não tenho vida”. Um jogo entre a vida e
“trabalhar”. Sem o dinheiro ali angariado, como podia a morte, magistralmente metaforizado por um junkie
manter os consumos? “Que é que eles querem? Que de rua, num trabalho conduzido por Pedro Machado
eu vá roubar?”. Se tal viesse a acontecer, podemos já (2008): “Perto de ti matas, longe de ti morro”…
antecipar o que diria depois às autoridades: “não fui eu, A cristalização deste tipo de pensamentos vai ao
foi a ressaca”… encontro do que a investigação psicológica tem descrito
sobre o toxicodependente quanto à sua baixa auto-
4.6 – “Já não ando a consumir tanto” ‑estima. As tentativas para abandonar os consumos,
Outro elemento do estereótipo é o de que o agarrado seguidas das recaídas, pouco tempo depois, são uma
passa o tempo a fazer, à família e às pessoas da sua constante nas trajectórias dos sujeitos que estudámos
rede social, promessas que não cumpre. Seria um – ao ponto de que nos parece que tratamento e recaída
manipulador, visando, com tais promessas, benefícios devem ser considerados como elementos estruturantes
de curto prazo – seria, na linguagem comum, um da carreira e da identidade do “agarrado”. A sucessão
mentiroso. Mais uma vez estamos perante crenças de tentativas que culminam na recaída mais enraíza
que vemos coexistirem tanto no interior do modelo no indivíduo a ideia de que é incapaz. Sair da adicção
medicopsicológico como no interior do meio drug: no implica também restaurar esta auto-estima, algo que
primeiro, é recorrente o tema do toxicodependente só acontece se houver rede de suporte, informal ou
como manipulador, no segundo, recorrente a ideia de formal, ambas em simultâneo, de preferência, que
que, no “mundo da droga”, não se pode confiar em devolva ao indivíduo uma imagem diferente de si e lhe
ninguém. Como podemos equacionar estes elementos permita ressignificar a sua própria trajectória.
do estereótipo a partir do acesso etnográfico à Como pode restaurar-se a auto-estima atingida?
experiência do “agarrado”? Meditemos numa frase muito repetida no meio drug:
Estar adicto, e sobretudo na situação pessoal e social em “já não ando a consumir tanto”, ou “agora só consumo
que a grande maioria dos indivíduos que conhecemos de vez em quando”:
ao longo do trabalho de campo se encontra, gera com “Depois não me lembro como começou a conversa,
frequência auto-avaliações carregadas de negativismo: mas o Manel disse que tinha ido à consulta no CAT,
“Aproveitei para explicar a natureza do meu traba- que tinha feito análises e que não tinha acusado. Eu
lho, e o Barbas depois disse que não havia muito perguntei como era isso possível e ele disse que já
para aprender, que era a cena de meter o produto não consumia há um mês, que era só mesmo de
na prata e fumar. Eu disse-lhe que para além disso vez em quando e que com a metadona, o efeito não
havia muito mais, que eles tinham uma forma de era o mesmo. Já me tinha dito a mesma conversa
vida própria, que tinham estratégias de sobrevi- uma ou duas vezes e diz sempre que praticamente
vência, e que tinham conhecimento sobre a vida não consome, e era impossível ele não consumir há
das drogas. Ele ficou meio nostálgico, como que um mês, pois eu tinha-o visto consumir há muito
a recordar, e dizia de vez em quando que era uma menos tempo que isso.” (Diário de campo).
merda aquela vida.” Se nos formos enganando a nós próprios, a vida de
“Depois falaram nos putos novos que se metiam na “agarrado” dói menos? Mais do que nos mentirem,
droga, que eles não suportavam ver isso. mentem a si mesmos, expressando nessa mentira o
Disseram que a droga era a ruína mais baixa a que desejo de que aquele exagero químico tenha um fim.
uma pessoa podia chegar“ (Diário de campo). E mostra-nos que a mentira não é uma espécie de
O Speedy, um arrumador de 40 anos, conseguiu sinte- defeito de carácter do toxicodependente, mas uma peça
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da ficção com que tem de se ir reinventando até poder ência e mesmo a linguagem dos actores, como se tor-
voltar a conceber-se sem droga. Dito doutro modo, a nou claro a partir da análise desse verdadeiro princípio
mentira não é um traço, mas uma adaptação, não é de acção que é a ressaca.
estrutura mas função – aos olhos do próprio, revela-se A “verdade” do fenómeno droga é, pois, um conheci-
funcional para o trabalho sobre a sua auto-estima e para mento que se constrói num ir e vir entre experiências e
a imagem de si que procura transmitir aos outros. linguagens dos actores das drogas e dos especialistas
do fenómeno, de que avultam os que se inscrevem no
5 – NOTA FINAL discurso medicopsicológico, provavelmente em razão
A construção dum estereótipo implica um certo nível do contacto estreito mantido nos dispositivos de trata-
de distorção informativa, uma vez que opera através mento, que lhes conferiu um grande poder instaurador
de filtragens, exacerbações e coisificações. As imagens das leituras e das linguagens que dizem “a droga”. O
que ele projecta a partir dos seus elementos assim heroinodependente constituiu, a partir dos anos 80 do
constituídos são dotadas de poder de acção sobre a século passado, a figura sobre a qual se concentrou
vida social, têm efeitos performativos: adquirem um o alarme social, não sendo portanto de espantar que
duplo efeito imobilizador e mobilizador. Imobilizam per- tenha sido a partir dele que emanaram os principais
ceptiva e cognitivamente um dado fenómeno, fazendo-o elementos constitutivos do estereótipo, através do labor
prisioneiro da sua caricatura; mas também mobilizam, discursivo dos dispositivos de controle e dos meios de
fazendo-o circular no tecido social, polarizando opini- comunicação social. Uma consequência maior foi
ões e atitudes em sua direcção, oferecendo pretexto a quase invisibilização doutros actores e relaciona-
e matéria para proliferações discursivas e práticas mentos com drogas, que poderiam, se tivessem tido
institucionais. É justamente este seu poder mobilizador a mesma visibilidade, incorporar no estereótipo ele-
que torna importante a identificação, a análise e a des- mentos distintos, dotando-o duma maior complexidade.
construção dos seus contornos, de modo a actuar cri- Podemos, enfim, subscrever para o nosso contexto a
ticamente sobre o seu poder performativo, como seria advertência que Romani (2009) fazia acerca dos mass
fácil de ilustrar a partir das consequências de alguns media espanhóis: “Ainda que já se admita a existência
estereótipos sobre a raça, a classe social, o género ou, de distintos tipos e graus de usos (…) na prática dos
como no caso que aqui nos ocupou, a droga. discursos institucionais, estes matizes desaparecem
Não se tratou aqui de evidenciar o que há de reducionis- ao serem veiculados pelos meios de comunicação.
ta ou de errado nos estereótipos sobre a figura das dro- Pode dizer-se que estes distorcem tais discursos, que
gas a que, por fidelidade à linguagem dos actores, cha- é culpa sua, mas as instituições já deveriam saber que
mámos o “agarrado”. Não se tratou também de validar têm de contar com a sua mediação para fazê-los che-
ou de rejeitar o estereótipo submetendo-o a uma visão gar à sociedade. E enquanto o enviezamento um tanto
de ordem superior – tratou-se apenas de trazer à luz simplista e alarmista (por mais que seja em surdina)
distâncias e aproximações entre pensamentos coisista estiver presente, a tendência simplificadora e estereo-
e construtivista a propósito dessa figura das drogas em tipante dos meios de comunicação fará o resto”.
torno da qual se erigiu ao longo das últimas décadas A etnografia, aqui trazida a partir dos dados duma pes-
todo um conjunto de acções e de reacções sociais. quisa de terreno com “toxicodependentes de rua” em
O que a análise desta figura põe em relevo é o fluxo de Guimarães, vem juntar-se a este trabalho de construção
alguns dos seus elementos caracterizadores do modelo de imagens. Pondo em confronto a visão fenomenoló-
medicopsicológico para os actores das drogas e destes gica com a do estereótipo, propõe a complexificação
para o conhecimento de senso-comum do fenómeno. deste último, oferecendo-se também como um saber
E o seu recíproco também se verifica: os especialistas mediador entre a experiência da rua e as construções
incorporam na sua leitura alguns elementos da experi- discursivas dominantes acerca da “droga”.
30 Do estereótipo à visão fenomenológica: análises sobre o “agarrado”

Seria curioso, aliás, confrontar duas modalidades de 2 – O trabalho de campo seria realizado por Tiago Araújo.
acesso à experiência das drogas: a etnográfica e a São dele os excertos a que recorremos ao longo deste artigo,
estando sempre assinalados no final de cada um com a
clínica, que está na base da constituição do modelo
designação, colocada em parêntesis, “Diário de campo”.
medico-psicológico. Se elas têm focos de atenção 3 – As características da narrativa mediática dominante que
diferentes, incidindo mais no contexto e em dimensões acabámos de ver para o fenómeno droga encontram-se tam-
culturais ou mais no indivíduo e em dimensões bém nas narrativas centradas noutros objectos geradores de
psíquicas, a etnografia dá também grande atenção preocupação social, como a criminalidade ou o desvio juvenil
(cf. Penedo, 2003; Fernandes e Manita, 1998). Encontramos
aos indivíduos, vive da relação que estabelece com
em Oriol Romani (2002) uma interpretação deste facto que
eles, tal como a clínica pode incorporar nos seus constitui uma boa hipótese de trabalho sobre as funções do
esquemas interpretativos dimensões contextuais e discurso mediático: [O “problema da droga”], parte fundamen-
culturais. Etnografia e clínica são próximas enquanto tal de um marco mais amplo de “discursos securitários” –,
proposta fenomenológica: partilham uma mesma através de estereótipos simples e contundentes, oferece uma
via de escape e de actuação que, para além de deixar intacto
racionalidade, que assenta na importância dada à o sistema que está na base de todos os seus conflitos e pro-
escuta, à interpretação, ao vivido e ao ponto de vista blemas, dificulta a adopção de medidas tanto políticas como
do sujeito. Movem-se, isso sim, em cenários muito técnicas de resolução dos mesmos”.
distintos, são produzidas a partir de settings muito 4 – Para uma caracterização dos actores com que estabele­
cemos relações no trabalho de campo que permitiram uma
diferentes. E, se os indivíduos que estudam são os
caracterização sociodemográfica, que completámos com os
mesmos, as diferenças, mesmo as divergências, entre dados disponibilizados pelos registos da In-Ruas, cf. Fernandes
elas resultam da própria plasticidade do comportamento e Araújo (2010).
dos sujeitos, pois adaptam-no à realidade de cada um 5 – Para o aprofundamento do conceito de trabalho informal,
desses settings. remetemos para um número temático da revista Etnográfica
dedicado à discussão do conceito e à análise de vários dos
seus tipos de ocupações (Etnográfica, vol. 10, nº …).
6 – Isto é particularmente verdade para o heroinodependente,
Contacto: que continua a ser a figura predominante no “toxicodependente
de rua”. Mas de tal modo se instalou na compreensão
Luís Fernandes espontânea acerca do “drogado” que se tornou a matriz do
Prof. Associado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da pensamento coisista sempre que se fala em drogas. Sabemos
Educação da Universidade do Porto como é necessário relativizar esta imagem, pois a relação
Rua Dr. Manuel Pereira da Silva com outras substâncias, nomeadamente com as que têm
4200-392 Porto vindo a ganhar importância em certos contextos juvenis,
jllf@fpce.up.pt não responde necessariamente a esta matriz, tanto nas suas
razões farmacológicas como contextuais.

NotaS:

1 – Esta seria a parte qualitativa e, digamos, intensiva da Referências Bibliográficas


investigação “consumo de álcool e drogas no concelho de
Guimarães – estudos na população estudantil e consumidores Antunes, A. (2010). Fugas urbanas. Contributos para o estudo dos
lugares das sociabilidades urbanas para jovens em contextos de
problemáticos (implicações para a prevenção das toxicode­
sobrevivências da rua. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa (tese de
pendências)”, solicitada pelo Município de Guimarães ao
doutoramento).
Centro de Ciências do Comportamento Desviante da Faculdade
de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade Becker, H. (1963). Outsiders – studies insociology of deviance. Nova
do Porto em 2009. A outra componente da investigação, de Iorque: The Free Press of Glencoe.
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REVISTA TOXICODEPENDÊNCIAS | EDIÇÃO IDT | VOLUME 17 | NÚMERO 1 | 2011 | pp. 17-31 31

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