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Respire, pegue a pipoca e aperte o play.

O Show não pode parar.

Isaque Conceição

Enquanto “aguardamos” os governos colocarem em prática medidas econômicas voltadas ao


socorro dos profissionais do setor cultural, precisamos encontrar maneiras de continuar nossa
produção e diminuir nossas perdas financeiras durante o período de isolamento social.

Neste momento caótico, a única certeza que temos é a de que precisamos, em alguma medida,
nos reinventarmos e adequarmos nossos fazeres às ferramentas ao nosso alcance.

Vale ressaltar que nem todas as Artes são conversíveis para o meio digital, nem todos os artistas
possuem habilidades e ferramentas para se aventurarem nas plataformas disponíveis e que,
além disso, nem todas as funções do setor são passíveis de exposição através de vídeos, por
exemplo. Os demais técnicos de espetáculos envolvidos na execução dos diversos eventos
acabam ficando ainda mais à margem dos olhares do público e das políticas culturais.

Essa fase de adaptação está lançando muitos de nós em direção ao desconhecido. Isso, ao
mesmo tempo que causa muita angústia, abre outras possibilidades de pesquisa e
aprimoramento. O instinto de sobrevivência, quando aliado a uma alma inquieta e a necessidade
constante de experimentação, faz com que os artistas sejam obrigados a encontrar caminhos
para a fruição artística e sustento próprio.

O resultado disso, frente ao público, é uma infinidade de produtos culturais disponibilizados nas
mais diversas formas e plataformas dentro do ambiente digital.

Um menu bastante variado que vai do popular ao erudito, da Literatura às Artes Plásticas,
passando pelas Artes Cênicas, pela própria linguagem cinematográfica e se equilibrando neste
hibridismo imposto pela necessidade atual.

Nas redes, além das populares Lives com artistas de apelo popular, podemos encontrar, por
exemplo, apresentações teatrais, ao vivo ou gravadas, com conteúdo inédito ou que compõem
o acervo de artistas e coletivos. Nesses mais variados canais, também podemos encontrar
apresentações musicais, circenses e de dança, além de diversos conteúdos relacionados à todas
as práticas artísticas.

Alguns artistas vêm investindo na experimentação de novos projetos e na oferta de produtos


cada vez mais interativos. Um exemplo disso é o coletivo teatral carioca Arame Farpado. Ao ter
sua temporada interrompida devido às orientações dos especialistas em saúde, construiu a
brilhante ideia de lançar uma espécie de reality show, onde cada artista do grupo, em seu espaço
de isolamento, disputa provas que trabalhem a criatividade e tenham algum apelo popular.
Arrisco dizer que esse produto emergencial, após o fim deste pesadelo, será preponderante para
o aumento do sucesso da temporada do espetáculo.

Outra iniciativa interessante envolve os artistas da música. Alguns deles, inclusive aqui da nossa
cidade, estão investindo em um trabalho voltado para a personalização de suas apresentações.

Trago para ilustrar esse tipo de produção os vídeos musicais oferecidos por músicos como, por
exemplo, Guto Azambuja, aqui de Guaíba. O músico, ao analisar como os colegas de profissão
estão se organizando nesse momento, ao mesmo tempo em que buscava uma forma de manter-
se produtivo, encontrou no WhatsApp uma grande ferramenta para facilitar a penetração nas
bolhas sociais provocadas pelo isolamento. Passou a oferecer conteúdo sob encomenda e
personalizado de acordo com a demanda de cada cliente.

Existem muitas opções e, modéstia à parte, a criatividade da classe artística é infinita e, a


despeito de toda falta de respeito, permanece à disposição de todos os gostos e em todos os
momentos, do tédio à euforia, do nascimento ao luto.

Somos os ritmos, as melodias e as trilhas, as palavras, as formas, o tempero da vida e o espelho


dos sentimentos que constroem a alma das pessoas. Somos um pedaço generoso do que você
reconhece como parte de si mesmo.

Portanto, nem que seja por egoísmo, exija de seus governantes ações que possam manter o
setor cultural ativo e produtivo. Nossa produção é a sua diversão. E na medida que tenhamos
mais condições de trabalho, melhores e em maior quantidade serão os produtos culturais
disponíveis para atender aos seus gostos. Sejam eles quais forem.

Apoie a classe artística, em especial aos artistas locais. Guaíba é um celeiro de craques e possui
muitos talentos em diversos segmentos artísticos que, mais do que nunca, estão precisando de
apoio e acolhimento durante a tempestade que aflige a todos. Basta olhar ao redor, você está
rodeado de talentos.

E todos nós estamos aqui para dizer:

Fique firme. Aguente. Tenha certeza de que estamos trabalhando duro para o show não parar.
Estaremos aqui, em produtos inéditos ou em reprises, prontos para te ajudar a manter a lucidez
e a mente ocupada durante esse período de isolamento.

Confie. Isso vai passar. E, enquanto não passa, abra o cardápio, pegue sua pipoca, aperte o play
e, tal qual um antropófago voraz, sirva-se de nossos talentos para alimentar a sua alma.

A Arte prevalece. Mesmo diante do caos e do desamparo.

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