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ANJOS DE METAL

GRIMORIO I
APOLLO SOUZA

OS GUARDIÕES
O conteúdo desta obra, inclusive revisão ortográfica, é de
responsabilidade exclusiva do autor.
“Lucca e Alice podem não ter
Nascido de minha carne, mais são
igualmente meus filhos, pois
nasceram de minhas ideias...”.
OS GUARDIÕES

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A ORIGEM DOS ANJOS

A ideia original para escrever esta estória veio


algum tempo quando eu estava no ensino médio
quando eu conheci a pessoa mais estranha da face da
terra, Eu o conheci no primeiro dia de aula do
segundo ano do ensino médio, sua única
preocupação, creio eu, era unicamente o desenho.
Durante todas as aulas em todos os momentos lá
estava ele bem do meu lado rabiscando alguma coisa
no caderno.
Sem nada para fazer, comecei a rabiscar algo
também nas folhas finais do caderno, partindo deste
momento começamos a conversar e a discutir sobre
nossa única coisa em comum, a paixão pelo desenho.
Cheio de ideias, Flavio começou a devanear
sobre o universo dos anjos e seu projeto de HQ, que

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segundo ele era um projeto de dominação mundial.


(Vou dominar o mundo através de minha arte,
superando Alex Ross). Não sei como, nem porque
mais eu embarquei na onda do Pink e o Cérebro, e
assim a ideia de dominar o mundo deixou de ser
brincadeira e passou a ser um objetivo, assim
nasceram Adan Drew Tony e Jimmy (alter-ego meio
chapeleiro do Flavio) – os anjos de metal.
Na mesma época o Orkut surgiu e com ele
veio o maior presente da minha vida, a comunidade
eu sei desenhar, a expansão da internet nos fez focar
em outros objetivos, derrotar todo mundo na
comunidade. Com isso os anjos foram esquecidos e
engavetados.
Alguns anos depois, em uma exposição, o
Jimmy voltou a assombrar nossas vidas, do nada
Flavio tocava no nome dele, O Jimmy isso, O Jimmy
aquilo, não é Jimmy. O cara estava ficando
paranoico, só pode, ele não parava de falar Jimmy,
Jimmy.

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Depois de alguns contos escritos, meio sem


nexo (Pânico 4, CDZ – A batalha do mundo inferior,
Digimon Exos e Freison) – Contos esses que se
perderam no tempo ele me convidou para escrever
os roteiros que se tornariam a HQ dos anjos de
metal.
Nada que eu fazia nada que eu escrevia
agradava aquela criatura, mais uma vez o projeto foi
engavetado. Agora era eu quem queria fazer
acontecer, eu escreveria e desenharia uma historia
minha. Assim veio o Ode e Flávio se esqueceu dos
anjos. Quando eu levei para ele o que seria a minha
HQ, ele me deu a proposta.
Por que você não escreve do seu jeito.
“eles agora são mais seus personagens do que
meus”.
Assim eu acabei ganhando os meus anjos de
metal.

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A historia dos anjos de Metal é um enigma ate


mesmo para mim.

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PROLOGO

A historia que vou contar vai muito alem de


anéis mágicos, fadas e bruxas; essa é uma historia
onde o real se mistura ao sobrenatural, magia e
tecnologia de tal forma, que não podemos distinguir
o mito da realidade. A magia esta entranhada na
humanidade mesmo que uns não acreditem ou não
queiram acreditar ela existe e esta a nossa volta.
Alguns podem canalizar e usar essa energia
para fins próprios enganando aqueles que não são
capazes de vivenciar o poder. Em diversas culturas,
crenças e religiões esse poder se manifesta de forma
diferente, com personagens diferentes e também
recebe nomes diferentes. O fato é que pessoas
capazes de usar essa energia tornam-se
extraordinárias, fazem coisas duvidosas aos olhos de
quem não percebe sua presença. Ao longo de toda a

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historia o homem relatou fatos reais em que esse


poder foi usado, no inicio isso servia para propagar a
magia entre aqueles que a desejassem aprende-la,
passá-la adiante. Porem com o passar dos séculos a
magia foi vista como errada impura e aqueles que a
praticavam eram punidos com a morte, mostrando
ao mundo a intolerância ao que é desconhecido,
sendo assim alguns grupos racistas tramaram contra
o conhecimento da magia exterminando seus
conhecedores.
Isso forçou essas pessoas a se esconderem de
tudo e de todos, a praticarem e buscarem sozinho o
conhecimento, fazendo com que muito do que se
sabia sobre o assunto se perdesse nas linhas do
tempo. Os feitos dos grandes magos, bruxas, fadas e
elfos se restringiram as rodas de amigos que ainda
tinham a coragem de falar e praticar a magia, que era
passada em forma de historias para crianças sem o
uso total ou real desse poder. Os grandes heróis, as
grandes civilizações, os grandes reinos guardavam a

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essência da magia em seus corações dividindo entre


elas o poder.
Essa divisão de poder se refletiu diretamente
no planeta tornando-o fraco e incapaz de se manter
de pé. Onde a magia um dia foi vista como um todo
e partilhada por todos agora estava se esvaindo em
caus e destruição, aqueles que deviam protegê-la
agora estavam usando-a em uso próprio, para
realizar os desejos escusos do coração humano.
O uso certo ou errado dessa magia tem um
preço a ser pago e esse preço muitas vezes é caro de
mais e pago por aqueles que mal sabem da existência
dela, isso é o que chamamos de troca equivalente,
termo este usado pelos alquimistas para ensinar
sobre o uso de magia, um jeito de fazer mal uso
desse poder uma forma de enganação, a procura
infindável do elixir da vida através da pedra
filosofal. A busca por tal pedra e um exemplo do que
o mau uso do poder significa, para tal propósito a
raça humana se perdeu tirando o poder da terra bem
mais rápido do que ela poderia repor, e isso se

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refletiu no curso natural de toda uma cadeia


sequencial de vida.
Maremotos, terremotos, secos e inundações,
morte, sofrimento e desespero tornaram o homem
mais distante da energia regente do planeta
afastando ainda mais a magia do mundo.
Vendo o mundo sofrer com o egoísmo e a
estupidez humana Gaia e Cronus, a terra e o tempo
tornaram a magia algo novo separando-a em formas
primaria e limitando seu uso a natureza. Assim essa
energia continuava presente regendo o mundo
porem escondida daqueles que não a entendiam.
Essa energia primaria se se restringia aos seres
que estavam em contato constante com a mãe terra e
para cada um foi confiado um pouco dessa vasta
energia vital. Aos elfos foi confiado o poder da terra,
as ninfas o poder do fogo, aos gnomos o poder do ar,
as sereias o poder da água e aos seres humanos o
poder da criação, sendo este ultimo o mais
poderoso de todos. Cada grupo era responsável por
proteger toda a riqueza natural de sua área

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preservando a terra e o poder presente nela, e para


isso era selecionada uma dentre todos de cada clã
para receber os ensinamentos de seu grupo e dos
demais. Esses cinco escolhidos dominariam toda a
magia e protegeriam seus territórios com todo o
conhecimento sobre o mundo mágico e não mágico
ao seu alcance.
Mesmo assim a magia continua a desaparecer
do mundo, raças começaram a serem exterminados e
assim misturados, elfos e humanos, sereias e
gnomos, ninfas e humanos, nisso, grupos
desapareceram, novas raças foram criadas e o
potencial da magia alterado. Hoje a raça humana é a
única existente no planeta, pelo menos a única
visível, pois as imperfeições das raças tornaram-se
fonte de preconceito e discriminação e o Don da
criação, tido como tecnologia e desenvolvimento se
sobre saiu dos demais dons, não que os outros
deixassem de existir, mais o Don da criação dado aos
humanos saiu do controle, e sem o equilíbrio a terra
volta a sofrer.

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Poucos dos que partilham o poder como um


todo ainda existem e cumprem o propósito para o
qual Gaia e Chronus dividiram a magia. Suas
historias de vida e superação está presente ate hoje,
contadas e recontadas, modificadas em vários modos
ate que perderam seu propósito inicial e passaram a
fazer parte de um mundo fantasioso e distante.
Quem nunca ouviu sobre grandes magos
dotado de inteligência, que fizeram grandes coisas
em seu tempo, Merlin o mago de Camilo, que
mesmo conhecendo todos os segredos da magia se
deixou levar por uma fraqueza humana e enganado
por Morgana leva a ruína todo um império. Merlin
sabia dos perigos que a magia exigia e mesmo assim
assumiu toda a responsabilidade por seus atos.
Pergunto-me se toda a humanidade ainda que
inconscientemente acredite na existência de Merlin e
no poder que ele possuía. Atlântida a cidade
submersa onde a magia é o centro de tudo existiu
assim como Merlin e também ruiu como muitos
outros impérios que usavam o poder. A historia de

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Atlântida se confunde com a do surgimento dos


continentes, revelando como a arrogância de um rei
fez com que toda a arte, historia, filosofia e a própria
magia se perdesse e tudo isso com o intuito de salvar
o império. Como as historias do mago Merlin,
Atlântida foi reduzida a um mero conto infantil,
assim como muitas outras historias, fadas, gnomos
druidas e outros seres mágicos estavam fadados a se
tornarem personagens de historias enganosas onde a
magia não passava de enganação fazendo assim com
que a magia se tornasse algo fantástico.
No inicio todas essas historias serviam para
que a magia fosse transmitida de geração para
geração pelos mais antigos usuários, e entre eles
eram escolhidos os cinco indivíduos que conheciam
o poder e não eram corrompidos por ela.
Para que vocês possam entender os perigos e
as dádivas da magia eu preciso voltar no tempo
antes de minha existência e contar como uma das
guardiãs dessa magia escolheu cinco jovens para
defender o planeta, jovens esses que não conheciam a

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magia, mais estavam ligados a ela de algum modo.


Gaia, o espírito da Terra segundo a mitologia grega,
é a protetora do planeta. Foi ela quem levou os cinco
Protetores para sua casa na Ilha da Esperança, único
lugar que ela se consegue materializar na sua forma
humana, para que.
Pudessem ajudá-la em sua luta para salvar a
Terra. Enquanto cada um dos Protetores representa
uma cultura específica, Gaia é uma mistura de todas:
sua pele morena, cabelos lisos pretos e olhos azuis
evidenciam que ela é uma miscigenação das três
grandes etnias (negra da África, branca da Europa e
amarela da Ásia) que compõem a humanidade.
Estes protetores, também conhecidos como
anjos tinham a missão de defender o ecossistema em
que estava concentrado todo o poder elementar, para
tanto cada um deles recebeu o poder de um elemento
que foi definido pela sua personalidade. Gaia
conferiu a eles anéis específicos com o poder de cada
elemento e os treinou como guardiões do planeta e
através das eras outros tiveram o mesmo propósito.

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Não peço que nenhum de vocês acredite em


magia, apenas vejam a mistura de cada elemento
dando origem a uma nova e por vezes inexplicável
fonte de vida; a água ao tocar o solo o torna fértil
capaz de produzir o alimento, o fogo servindo como
fonte de energia para a vida que brota de onde
menos se espera. Separados estes elementos parecem
não surtir efeito mais juntos tem uma força capaz de
mudar o rumo de todo um planeta.
Essa é a historia por detrás da verdadeira
historia, meu papel aqui é o de contar a vocês o que
vivenciei durante os vários anos de minha busca, o
descaso da humanidade com a magia, os inúmeros
desastres naturais que assolam a terra, o
desequilíbrio planetário que a humanidade tola e
inconsequente finge não enxergar.
A historia deles se confunde com a minha, eu
viverei novamente a historia através deles e eles
conhecerão a historia através de mim. Estes anjos
irão abdicar de uma vida normal pelo bem do
planeta eles escolheram uma vida cheia de magias e

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segredos, segredos milenares guardados em livros ao


alcance de todos mais procurado por poucos e
repassados aqueles que realmente o desejam. Mas
para isso eu devo primeiro encontra-los.

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PARTE
I

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OS GUARDIÕES

I
RITO DE PASSAGEM

- Apartamento nº 3.
A velha senhora conferiu o dinheiro, entregou
as chaves do quarto e conferiu a assinatura do recibo.
Saindo detrás do balcão para acompanha-lo
num tour pela velha pousada. O lugar era simples
porem muito aconchegante, mostrando a
hospitalidade interiorana. A mulher parecia estuda-
lo com os olhos esperando uma brecha para puxar
assunto.
- As refeições são servidas às 12h e as 18:
horas, não servimos o café da manha. Ela disse
mostrando um portão de ferro fundido.
- Tudo bem. – ele respondeu indiferente.

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- Seu chaveiro abre três portas. – ela disse


mostrando-lhe uma escada. – a primeira abre este
portão, a segunda aquela porta. – ela disse
apontando para o topo da escada. – a terceira abrira a
porta do seu apartamento.
Como se memorizasse mentalmente o que a
mulher dizia Sam a acompanhou ate o andar de cima
onde ficavam os apartamentos, carregando consigo
apenas uma velha mochila.
- O acesso ao restaurante só é permitido aos
hospedes a partir das 10h da manha.
O grande vão servia de recepção e restaurante,
o que fazia com que os clientes atravessassem uma
fila de mesas e cadeiras ate chegar ao balcão da
recepção. Uma plaquinha de papelão pregado uma
porta ao lado da recepção indicava o banheiro.
De onde eles estavam ele pode perceber o
movimento que vinha da parte de traz do balcão,
algumas vozes distintas cochichavam e ouviam-se
risinhos baixos, foi então que de longe o homem

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OS GUARDIÕES

notou estar sendo observado, presumindo ser ele


mesmo a causa de tal histeria.
A mulher remexeu em seu chaveiro
rapidamente ate encontrar a chave que cabia na
porta de entrada, apressando-se em mostrar ao
homem o acesso à parte superior do lugar.
Eles subiram as escadas sem dizer uma
palavra, a mulher não conseguia esconder a
vergonha que estava sentido.
- A porta é antiga – ela disse fazendo força
para levanta-la. – você tem que fazer uma forcinha
para abri-la.
A porta dava acesso a uma espécie de
antessala onde uma rede balançava sozinha de frente
para uma janela aberta, do lado oposto a essa janela
ficava a porta de numero três, que correspondia ao
seu apartamento.
Aquele espaço comportava cinco quartos de
igual tamanho dispostos em um corredor estraito
sendo todos numerados com emborrachado verde na

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porta, ficando do um ao três de um lado e o quatro e


cinco do outro.
Ela abriu a porta do apartamento. (se é que
aquilo poderia ser chamado de apartamento), ali
continha apenas uma cama de casal e um colchão de
espuma velho com dois lençóis dobrados.
- o quarto é simples. Disse a mulher em tom
de desculpa.
- Não se preocupe com isso. Ele respondeu. –
Esta ótimo para mim.
- O banheiro fica ali. – disse ela apontando
para uma porta dentro do quarto. – Qualquer coisa
estou às ordens.
- Obrigado. Ele disse automaticamente
colocando a bolsa na cama.
A senhora se retirou fechando a porta,
deixando o hospede recém-instalado sozinho em
seus aposentos.

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OS GUARDIÕES

Sozinho em seu quarto, Samuel abriu a


mochila e retirou quatro pequenas pedras de dentro
dela, e as colocou sobre a cama.
Procurou nos bolsos um ate encontrar um
pedaço de papel amassado e uma caneta quase sem
tinta, ele verificou o papel e então rabiscou no
colchão da cama um pentagrama. Em cada uma das
pontas ele colocou uma das quatro pedras.
Por uma fração de segundos aquele homem
de meia idade pareceu se perder, vagando em
antigas lembranças.
- Minha querida logo me unirei a você. – Disse
Sammy retirando um cordão de seu pescoço.
A pequena pedra presa ao cordão de prata
irradiava uma fraca luz branca, que fez as outras
pedras na cama flutuarem.
- Terra, fogo, água e ar, unam se para a criação
concretizar. Mostrem-me o caminho, revelando meu
verdadeiro destino.
No centro do circulo formado pelas pedras
flutuantes o cordão irradiava cada vez mais energia,

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fazendo o quarto se iluminar com as varias cores


irradiando uma pequena aurora boreal.
Em meio às luzes seis rostos surgiram, rostos
que ele certamente não conhecia mais de algum
modo teria de encontra-los.
- Minha centelha de poder esta se esvaindo.
Chegou à hora de passa-la a diante.
As pedras voltaram a sua formação dentro do
pentagrama, ao colocar o colar com a pedra branca
de volta em seu pescoço, Sam sentiu a pedra queimar
seu peito. Um calor aconchegante que ele não sentia
há muito tempo. Um novo ciclo se iniciaria em breve.
Sua busca estava próxima do fim.

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OS GUARDIÕES

II
ALICE

Pousando o lápis sobre a cama Alice respirou


fundo e fitou a janela com vidros especiais contra
claridade de seu quarto, que sempre teve o mesmo
aspecto sombrio.
Em seu pequeno quarto no andar superior da
casa havia uma cama de solteiro forrada com
edredom roxo e mais para o canto uma mesinha de
estudos com vários livros e cadernos ainda abertos e
um computador ligado surrado e cheio de adesivos
de caveiras e outras coisas esquisitas que só ela
entendia, nas paredes pôsteres de algumas bandas
conhecidas do inicio dos anos 70, 80 e 90, o antigo

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vinil em um canto tocava uma de suas musicas


prediletas, o que mostrava que apesar de velho o
aparelho funcionava perfeitamente.
Olhando fixamente para o papel Alice procurou
minuciosamente por algum possível erro que
pudesse ter cometido em seu desenho, mediu
milimetricamente cada canto com um olhar clínico e
mais uma vez seu desenho estava perfeito. Ela
levantou-se, desligou o computador e caminhou ate
a janela espiando pela brecha da cortina percebeu
que já passava das 18h logo ela teria de ir para mais
uma noite entediante de aulas no instituto para
jovens especiais.
A menina morava nessa casa só com a mãe há
mais ou menos um ano, a rotina da casa era noturna
nunca se via nem mãe nem filha durante o dia, a casa
era sempre trancada e nunca se via em momento
algum visitas naquela residência. Os vizinhos
estavam sempre de olho para descobrir quais os
mistérios da família Pacheco. Estavam sempre
comentando a palidez e as olheiras da menina,

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OS GUARDIÕES

diziam que ela estava com uma doença incurável e


tinha vindo para a cidade para respirar ar o ar puro
do campo.
As constantes mudanças fizeram Alice se
acostumar a viver sozinha na noite sem amigos e
também aos comentários dos vizinhos maldosos. As
crianças do bairro uma vez ou outra jogavam um
punhado de sal na frente da casa escura, pois diziam
que ali morava uma bruxa, e que o sal tinha o poder
de afasta-las. Alice curtia esse tipo de coisa, e seu
visual Lolita gótica ajudava bastante a dar asas na
imaginação dos pequenos, isso servia como uma
espécie de diversão para ela, ver os moleques da rua
correr com medo, ou mudar de calçada quando ela e
a mãe vinham na direção oposta, ou ainda fazer o
sinal da cruz ao passar na frente de sua casa, ela
costumava não deixar barato as provocações, sempre
que podia mostrava para as crianças seus olhos
vermelho escarlate e os dentes pontiagudos demais
para uma pessoa normal, ela também dizia alguma

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APOLLO SOUZA

palavra esquisita em simulando algum tipo de


feitiço.
Alice levantou-se da cama deu uma batida na
saia preta para tirar um fiapo da colcha de cama que
estava ali, passou a mão no cabelo para pôr no lugar
uns fios rebeldes, colocou sua jaqueta preta
preferida, deu uma olhada no quarto e saiu tomando
o cuidado de fechar a porta com a chave. Ela desceu
as escadas pelo corrimão como sempre fez, e saiu
pela porta da frente em direção ao parque florestal
próximo para poder caçar algum animal para aplacar
a sua sede de sangue.
Ela caminhou por algum tempo observando os
passantes na rua, até que a luz da lua refletida em
uma fonte da reserva chamou sua atenção.
As estrelas cintilavam um brilho incomum e a
lua cheia tinha uma mistura alaranjada e vermelha
dando um tom diferente que Alice não tinha visto
ainda, como os olhos de uma águia Alice pode
observar bem de perto a beleza daquele momento.
Guardando essa imagem em sua mente ela adentrou

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OS GUARDIÕES

na pequena reserva florestal sem fazer muito


barulho, sua agilidade a fazia passar despercebida
em qualquer lugar, por onde ela passasse deixava
para traz apenas uma brisa agradável, seus sentidos
eram tão aguçados que ela podia ouvir um sussurro
a quilômetros de distância.
A reserva aquela hora estava deserta, era um
tanto pequena se comparada a outros lugares, mais
tinha todos os tipos de animais que serviam de
alimento para ela e para a mãe que raramente a
acompanhava.
Durante a noite eram raras as pessoas por ali,
pelo menos no horário habitual ao qual costumava
caçar, eram sempre casais de namorados que ela
encontrava, algumas vezes viciados se drogando
escondidos embaixo de alguma árvore, ou
simplesmente o vigia noturno que raramente
aparecia.
Alice preferia o sangue quente e fresco dos
animais do que as bolsas de sangue requentadas que
Eurídice guardava no congelador de casa. A menina

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APOLLO SOUZA

gostava de sentir o sabor da caçada, ali podia ser ela


mesma, usar todos os benefícios de ser uma vampira
sem medo de ser taxada como anormal ou outros
apelidos piores, bastava apenas os que ela já tinha na
escola.
Ela deu sorte na caçada dessa noite encontrou
rapidamente dois coelhos adultos o que renderia a
ela o equivalente a duas bolsas de sangue humano. O
sangue animal não surtia o mesmo efeito do sangue
humano, pois não restituía totalmente a força de um
vampiro, mais dava a ela os meios para a
sobrevivência pelo menos por essa noite.
Com o cuidado de uma cirurgiã Alice raspou a
pelagem do pescoço dos coelhos e deu um leve tapa
com os dedos anelar e médio para sentir onde a veia
aorta poderia estar, e sem nenhuma cerimônia
mordeu de forma sutil e delicada a jugular do coelho
sugando todo o sangue ate não restar uma única
gota. Enquanto sugava ela pode sentir o calor
voltando a sua pele fria e seu coração voltava a

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OS GUARDIÕES

pulsar no breve momento em que o sangue fresco lhe


percorria todo o corpo.
Alice não demorou muito para voltar para casa,
nada anormal ocorreu durante o trajeto de volta, a
não ser alguns passantes que soltavam piadinhas do
tipo “e ai gata”, “quer ir lá em casa”. As casas
estavam iluminadas, as pessoas sentavam-se para o
jantar em família, as poucas pessoas na rua estavam
voltando do trabalho ou indo para a escola para o
período de aulas noturnas.
Desde a saída da reserva, Alice estava com um
pressentimento, sentia como se estivesse sendo
observada. Parada na porta de casa a garota
observou a rua para se certificar que não estava
ficando maluca, por um instante ela ouviu algo
batendo em uma pedra, olhou novamente para os
dois lados da rua tentando identifica a origem do
barulho, mas não havia nada de anormal. Esse era
como um tipo de sexto sentido que ela possuía,
sempre que alguma coisa estava prestes a acontecer

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APOLLO SOUZA

com ela ou pessoas próximas esse sexto sentido


disparava.
O velho casarão onde Alice morava ficava
exatamente no centro da rua, da porta de sua casa
dava para visualizar com perfeição os lados direito e
esquerdo graças à visão privilegiada dos vampiros.
Ao entrar em casa, a menina encontra sua mãe
assistindo ao noticiário local com uma taça em uma
das mãos e uma bolsa de sangue recém-tirado do
micro-ondas na outra.
Eurídice não aparentava ter mais de vinte ou
vinte e cinco anos de idade, seus olhos eram
penetrantes com uma cor que lembra muito a prata
em seu estado liquido, seus cabelos longos e
cacheados estavam soltos e lhe caiam sobre os
ombros, sua pele era branca e gélida como o
mármore. Estava elegantemente vestida, um vestido
vermelho de ceda longo cobria todo o corpo
deixando de fora os braços e as pernas definidas
cruzadas em uma poltrona do século XVIII que
segundo ela pertenceu a Napoleão Bonaparte. O

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OS GUARDIÕES

magnífico vestido valorizava ainda mais os dotes


naturais da mulher, parecia ter sido feito sobre
medida para ela, lembrando muito uma camisola
antiga o traje evidenciava os seios fartos e acentuava
suas curvas, deixando-a mais bonita se é que isso era
possível.
- Quer um pouco querida? Perguntou Eurídice
colocando o sangue na taça.
- Não mãe obrigada, vou subir e tomar um
banho. Respondeu Alice subindo a escada com um
pouco de pressa.
Alice se trancou no banheiro, abriu a torneira
da pia de mármore, deixando a água cair enquanto
via seu rosto refletido no espelho redondo da parede.
Com as mãos em forma de concha Alice pegou um
bocado de água e passou no rosto como se retirasse
todas as preocupações de sua mente.
Seus olhos vislumbravam um ser pálido, com
olheiras ao redor dos olhos, um ser desprezível que
ela tentava esconder de tudo e de todos. Apesar de
sua inestimável beleza, ela se mostrava fria mesmo

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APOLLO SOUZA

no olhar, suas olheiras vistas de perto revelavam o


alto preço que ela pagava por sua imortalidade.
Varias imagens invadiam sua mente, ela queria
esquecer, o muro intransponível que era erguido por
ela todas as noites para os habitantes daquela cidade
tosca se desfazia como areia entre aquelas quatro
paredes. O som da campainha no andar de baixo a
trouxe de volta de seus devaneios, Alice enxugou as
lagrimas, respirou fundo, lavou o rosto e refez a
maquiagem. Fez uma nota mental para que aquilo
jamais se repetisse de novo e rumou de volta para a
sala.

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OS GUARDIÕES

III
TESTE

Alice desceu as escadas compassadamente,


como se elas não tivessem fim, ao pisar na sala a
visão de um homem estranho parado a porta fez a
menina tremer.
Era o mesmo homem que ela via em suas
visões, o mesmo rosto só que um pouco mais velho
do que ela estava acostumada a desenhar.
- Ola. – Disse ele tentando parecer cordial,
mostrando um lido sorriso.
- Quem é você? – Ela perguntou
automaticamente.
- Você sabe perfeitamente quem sou eu. Ele
respondeu fechando a porta com a chave.
- O que você quer comigo?

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APOLLO SOUZA

- Tudo há seu tempo criança... Tudo há seu


tempo.
Era como se só estivessem os dois naquela sala,
como se o tempo estivesse parado para os eles.
Eurídice continuava imóvel em sua poltrona
com sua taça de sangue ainda pela metade, como
uma bela escultura feita em mármore pelo próprio
Michelangelo.
- O que você fez com a minha mãe? –
perguntou ela com os olhos marejados.
- Ela ficará bem, não se preocupe. – ele
respondeu aproximando-se dela lentamente
enquanto corta a palma de sua mão com uma
pequena adaga de prata. – Quem me preocupa agora
é você.
- Fique longe de mim. Vociferou a garota
subindo as escadas.
Seus olhos, que eram de um vermelho escarlate
intenso agora tinham mudado de cor, estavam tão
pretos quanto uma noite sem a luz da lua ou das
estrelas.

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OS GUARDIÕES

- Lute contra isso criança, você ainda pode. –


Ordenou o homem com a voz doce porem firme
- Lutar contra o que? – ela perguntou, subindo
ainda mais as escadas, para se esconder dele. – fique
longe de mim.
- Não fuja, Lute. – ele estendeu a mão para
Alice que agora estava de volta ao topo da escada
entorpecida pelo cheiro do sangue no ar.
Ainda com a mão estendida diante dela,
Samuel retirava de seu pescoço o cordão com a
pedrinha branca que fora usada há algumas semanas
no estranho ritual no quarto do hotel.
Samuel sabia que não havia muito tempo, a
garota estava se perdendo, ele não poderia ver aquilo
acontecer com ela de novo.
- Ainda há tempo. Vamos lute.
Um urro de um bicho selvagem trovejou
naquele local.
Alice estava envolta em uma espécie de fumaça
escura, seus dentes saltavam para fora, ela não tinha

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APOLLO SOUZA

mais consciência de seus atos. Como um animal


acuado a menina deu um salto para cima de Samuel.
Em uma fração de segundos ele saltou sobre as
escadas voltando ao patamar inferior onde estava
Eurídice.
Alice veio em sua direção esbravejando ódio,
querendo arrancar seu coração.
- Mate-o. – Ouviu-se uma voz distorcida
- Lute. Samuel gritou em resposta. – não se
deixe dominar pelas sombras.
- Mate-o. –Ela repetiu com uma voz demoníaca.
- Busque a luz, aplaque sua sede. Ele mostrou
mais uma vez o cristal em sua mão. – Eu preciso que
você lute.
A energia que emanava do corpo de Alice era
cada vez mais forte, estava tomando conta de todo o
local. Ela perdera totalmente a razão e agora estava
sendo controlada pela sede de sangue. Em poucos
segundos Alice já havia quebrado todos os moveis
da sala, sem nem tocar neles.

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OS GUARDIÕES

- você deve se lembrar, do amor que um dia


sentiu por mim. – Disse ele entregando - se
completamente nas mãos dela.
Como ultima cartada, Samuel expos seu mais
intimo segredo na esperança de que ela recobrasse os
sentidos. O amuleto em sua mão reluziu mais uma
vez, enchendo o local antes tomado pelo mal de uma
luz acolhedora.
Alice não resistiu à intensidade do poder do
amuleto, cobrindo os olhos com a palma das mãos a
garota pronunciou:
- Samuel, salve-me.
E então desmaiou.

Era uma linda tarde de novembro, fazia sol


naquele dia e havia poucas nuvens no céu.
Ele preparou a cesta com todas as guloseimas
que eles mais gostavam bolo de milho com coco,
pudim de leite feito em casa, cocadas, pães e suco de

46
APOLLO SOUZA

carambola com limão (apesar dele ao gostar muito


era o favorito de sua amada).
Aquela seria uma tarde agradável, Helena
prometera a ele mais um de seus retratos feitos a
mão. Segundo Helena, ele era seu modelo preferido,
por isso ela não se cansava de desenha-lo, não
importava quantos desenhos ela já tivesse dele,
sempre arranjava alguma desculpa para desenhar
mais um.
Deitado a sombra de uma arvore Samuel
vislumbrava o azul do céu com Helena ao seu lado
segurando meio torta uma prancheta de desenho um
toco de carvão quase acabado e uma espécie de
borracha.
Ela estava deslumbrante em seu vestido azul,
sua pele clara como o leite refletia os raios solares
que escapavam por entre as folhas das arvores
tornando seus contornos ainda mais belos, seus
cabelos estavam soltos dançando ao vento, ele não
podia parar de admira-la.

47
OS GUARDIÕES

- pare de olhar para mim. – ela disse com a voz


suave
- Não posso. – ela respondeu com um leve
sorriso.
- você sabe que não gosto que me olhe desse
jeito. – ela disse deixando a prancheta de lado.
- case-se comigo? Ele perguntou segurando sua
mão.
- o que? – ela perguntou surpresa, porem com
um tom desafiador em sua voz.
- seja minha esposa, e fique comigo pelo resto
da eternidade – ele disse retirando do bolso uma
caixinha de veludo vermelho.
Samuel abriu a pequena caixa e dentro dela
estava armazenado um pequeno anel de prata com
uma singela pedra branca reluzente.
- Sim. – Helena respondeu quase sem fôlego
estendendo lhe a mão.
Retirando o da caixa, Samuel pôs o anel em seu
dedo, beijando sua mão para selar o compromisso.

48
APOLLO SOUZA

Em sinal de aprovação ela juntou os lábios que foi de


encontro aos dele.
Ele não queria que aquele beijo acabasse mais
ele foi interrompido por um homem parrudo e
corpulento de rosto coberto apontando para o jovem
casal um revolver.
- Por favor, não nos faça nada. – ela suplicou
- Só quero seus pertences de valor. – respondeu
o homem de forma rude.
- Nós não temos nada de valor. – Disse Samuel
com a voz tremula.
- Um homem de tamanha elegância, deve ter
por ai alguns trocados no bolso, para um pobre
mendigo sem sorte. – o homem retrucou em
deboche.
- Não senhor, eu não tenho. – Respondeu
Samuel com raiva.
- E este anel minha jovem, deve ter algum valor,
não? – perguntou o homem mais interessado em seu
decote do que no anel de fato.

49
OS GUARDIÕES

Levantando Helena pelo braço o homem


beijou-lhe a mão do anel e puxou- a para junto de
seu corpo.
Vendo aquela cena Samuel chutou o calcanhar
do homem com toda a força que conseguiu encontrar
naquele momento.
- Corra Helena, corra! – Ele gritou enquanto
tentava agarrar a arma da mão do homem.
Helena correu o mais rápido que pode caindo
há poucos metros de distancia sendo atingida por
um tiro fatal disparado acidentalmente pela arma
durante a briga dos homens.
Vendo Helena caída no chão coberta de sangue
Samuel foi tomado por uma força descomunal,
perdendo os sentidos ele guaguentavam mais
descarregando sobre ele todo o ódio que sentia
naquele momento.
Ele correu para junto dela, debruçando-se sobre
seu corpo e gritando por ela Samuel ouviu apenas
um sussurro abafado.
- Salve-me Samuel.

50
APOLLO SOUZA

Alice sentiu um aperto profundo no peito, ela


era capaz de sentir a dor que Helena acabara de
sentir. Era como se ela tivesse vivido tudo aquilo, era
como se ela fosse Helena.
- Você compreende não é? – Ele perguntou de
pé ao seu lado.
- Ela é eu? – quis saber Alice.
- Em outra época, sim. – ele respondeu com
uma tristeza no olhar.
- por que isso aconteceu?
- aconteceu porque eu fui tomado pelo ódio. –
ele respondeu encarando-a nos olhos. – o mesmo
ódio que você esta fadada a repetir.
- como assim, eu estou fadada a repetir?
- Nosso amor não se concretizou por inteiro,
por isso você e eu estamos destinados a odiar o
mundo por conta disso. – ele respondeu segurando
sua mão.
- E como isso acaba? – Ela quis saber.

51
OS GUARDIÕES

- Você terá de aprender a amar novamente, de


uma maneira diferente, e eu terei de ensina-la.
Ate aquele momento Alice não havia se dado
conta de que não estava mais em sua sala de estar, o
lugar parecia o mesmo mais estava sem cor, sem
vida.
- onde nos estamos?
- Eu fui capaz de parar o tempo pela ultima vez.
– ele respondeu.
- estamos alem do tempo, é isso?
- Sim e não. Estamos em uma dimensão
paralela onde o tempo não é o senhor de tudo. E eu
vim para me despedir.
- Eu não verei você novamente.
- Eu sempre estarei com você, sempre amarei
você.
- Então fique comigo para sempre. Ela disse
com lagrima nos olhos.
- O para sempre, sempre acaba, e chegou a sua
hora de por um fim nisso.

52
APOLLO SOUZA

Com o mesmo sorriso de antes Samuel segurou


seu queixo com a ponta dos dedos e levou seus
lábios ao encontro dos dela. Tomada por uma
sensação incontrolável ela queria que aquele
momento não terminasse.
Seus lábios quase tocavam os dele e por fim ele
sussurrou.
- Eu estarei sempre com você, vigiando-a de
longe, mais agora você deve esquecer.

53
OS GUARDIÕES

IV
LUCCA

Alquimia é uma ciência de compreensão,


decomposição e recomposição da matéria, contudo
não é uma técnica onipotente, pois, não é possível
criar algo do nada. Se você deseja obter alguma coisa
é preciso pagar um preço equivalente. Esse é o
principio da alquimia, a chamada troca equivalente.
- “mantenha a concentração”.
Essas palavras não saiam de sua mente,
repetida como um mantra para ele desde que ele
tinha cinco anos de idade, motivo pelo qual o garoto
de 17 anos detestava a educação que recebia em casa.
O pai o forçava a três horas diárias de estudos sobre
um assunto que ele odiava Magia antiga.
Lucca respirou fundo e mais uma vez se forçou
a relembrar porque ele era torturado todos os dias de

54
APOLLO SOUZA

sua vida com todas aquelas baboseiras. Segundo o


pai sua família descendia de uma linhagem mágica
muito antiga, tão antiga quanto à própria magia,
seus ancestrais ajudaram a erguer grandes impérios e
eram responsáveis por guardar os segredos da magia
e repassá-los adiante.
Em seu devido tempo Orfeu foi um exímio
mago treinado pelos grandes mestres templários e
responsável pela captura e extermínio de vampiros e
criaturas das trevas, segundo suas historias Orfeu
trabalhava a serviço da santa inquisição matando os
seres da escuridão e trazendo paz ao mundo. Isso
muito antes da inquisição exterminar essa raça e se
voltar contra os bruxos e bruxas que um dia serviram
há um propósito perante a coroa.
Orfeu insistia no que ele chamava de educação
mágica em casa por não confiar nos métodos
educacionais do século 21, em suas andanças pelo
mundo ele vivenciou muita coisa para acreditar que
criar um local especifico para um estudo
fragmentado de magia era perda de tempo, a magia

55
OS GUARDIÕES

estava em todos os lugares por isso não era


necessária uma sala de aula para que houvesse
aprendizado. Uma ideia um tanto a frente do seu
tempo, isso para um homem que nasceu no século
XVIII e serviu ao lado de Napoleão Bonaparte no
golpe conhecido como 18 de Brumario.
Apesar da idade Orfeu não aparentava mais de
25 ou 30 anos, isso graças ao seu estoque eterno de
elixir de juventude, obtido através da pedra filosofal,
artefato cobiçado por muitas tribos e difundido em
todas as culturas do mundo porem muito difícil de
ser obtida. Ele era o dono de uma das três pedras
existentes na terra, a primeira pertenceu a Merlin
mago da távola redonda e dizem há muito tempo
estar escondida em Avalon, a terra das fadas. A
segunda foi destruída no final do século passado e
pertenceu a Nicolau Flamel seu mentor e amigo de
longa data que o ensinou a como consegui-la alguns
séculos atrás.
Lucca o admirava por tamanha sabedoria, seu
pai era capaz de feitos inimagináveis, uma delas era

56
APOLLO SOUZA

acreditar que Lucca seria o maior mago do mundo


depois de Tim Hunter, o menino porem não
acreditava que tinha todo esse potencial para a
magia, pois ate seus 17 anos nunca foi capaz de
realizar um único feitiço, poção ou transmutação
bem sucedida.
- Lucca é a sua vez de tentar. – disse Orfeu
entregando a ele um pedaço gasto de giz branco.
Lucca acordou de seu transe tentando lembrar
para que o pai o houvesse chamado naquele
momento. Era e décima vez naquela noite que ele
explicava sobre os processos químicos e a alquimia,
para ele uma troca realmente equivalente seria
aquela aula pelo vídeo game pausado desde as três
horas da tarde em seu quanto esperando por ele. Ele
levantou-se da mesa apanhou o giz com má vontade
e desenhou no chão o círculo exposto na lousa
branca a sua frente
- para que eu tenho que fazer isso mesmo pai?
Perguntou ele terminando o desenho.

57
OS GUARDIÕES

- Essa pergunta mais uma vez, isso faz parte de


seu treinamento. Respondeu Orfeu caminhando em
direção à lousa.
- Essa já é a décima vez que eu tento transmutar
madeira em água, o Maximo que vou conseguir é
destruir o piso mais uma vez.
- Isso você só vai saber se tentar você já sabe
tudo o que há para saber sobre alquimia, agora é
uma questão de concentração.
- Teoricamente eu sei de tudo mais na prática
eu sou um completo fiasco, nem uma magia, ou
sequer alquimia que eu tente da certo. Disse ele com
ar de deboche.
- Não diga isso, você é meu filho e tem o dom
da magia antiga. Esse é apenas um bloqueio
passageiro.
- Bloqueio passageiro pai! Lucca disse nervoso.
– nós temos que encarar a verdade, Esse bloqueio já
durou tempo demais.
Orfeu notou certo pesar na voz do filho e seus
olhos marejaram com a ideia que agora invadia sua

58
APOLLO SOUZA

mente, Lucca estava decididamente largando as artes


mágicas, seus inúmeros fracassos o fizeram
desacreditar e o tornaram um humano normal.
- Mantenha a calma, respire fundo e deixe sua
mente livre. – Disse ele abraçando o garoto para
esconder suas lágrimas. – Isso vai passar.
- Não, isso não vai passar. – Lucca gritou. – Eu
não posso ser como você o grande Orfeu filho de
Oreon o senhor de Atlântida. Para Lucca seguir os
passos do pai o grande Orfeu descendente direto de
Oreon o rei de Atlântida era um peso grande demais
que ele carregava. Ele sabia muito bem que seria o
próximo na linha de sucessão responsável por
resguardar as pedras elementares que Oreon deu a
própria vida para proteger, pedras essas que
segundo a lenda regem a magia do planeta e eram os
pilares de Atlântida.
Essa era a sua historia preferida, Orfeu sempre
a contava em noites de tempestade na hora de
dormir, narrada com maestria pelo pai fazia com que
ele sonhasse com Atlântida, as pessoas, as fontes de

59
OS GUARDIÕES

água tão limpa que era possível enxergar o brilho


dos cristais refletidos nela pela luz do sol, corredores
prédios e praças á beira mar apinhados de gente
contando sobre as antigas histórias e praticando
livremente a magia.
Orfeu dizia que quando ele estivesse preparado
para tal viagem Lucca seria capaz de restituir a
Atlântida o poder perdido e seu lugar de direito
entre os continentes.
Com o passar dos anos, desde o início de seus
estudos mágicos Lucca percebeu que ele jamais
poderia igualar seus feitos aos feitos de seu pai, pois
ele não estava tão conectado a magia quanto o pai
queria que ele estivesse. Sem mais uma palavra
Lucca subiu as escadas do porão deixando o pai
sozinho mais uma vez, passou pela cozinha pegou
uma das maçãs que estavam na mesa e saiu em
direção à rua perdido em seus pensamentos.
Mesmo que ele pensasse e repensasse em uma
saída nenhuma ideia lhe vinha à mente, ele era o
único de toda uma linhagem histórica que não tinha

60
APOLLO SOUZA

talento natural para a magia. Não havia mais dúvida


Lucca estava fadado ao fracasso ele jamais poderia se
igualar aos grandes magos da história que sabiam
como usar o conhecimento antigo, e ele sabia que
isso era uma decepção para Orfeu.
Sentado no banco do parque Lucca retirou o
telefone do bolso, o relógio marcava exatamente 18:
20 da noite, o garoto passou o dedo indicador sobre a
tela e a mesma apareceu de forma tridimensional
bem diante de seus olhos, como uma enorme tela
LCD. Com aquele apetrecho o menino era capaz de
invadir qualquer aparelho eletrônico que possuísse
acesso à internet e para isso o aparelho não precisaria
estar conectado, bastava apenas à tecnologia.
Essa era a real habilidade de Lucca, habilidade
essa desvalorizada pelo pai, desde os dois anos de
idade o garoto descobriu seu apresso pela tecnologia,
quando começou a desmontar e remontar objetos
quebrados.
Aos cinco ele já era capaz de concertar os
utensílios domésticos de casa, aos dez ele se

61
OS GUARDIÕES

apaixonou pela internet e não parou mais, com


sobrepeças e sucatas encontradas no lixão da cidade
o garoto criou o melhor computador já visto na face
da terra e assim ele passou a burlar sistemas sites e
programas em proveito próprio.
Sua principal atividade criminosa era invadir o
sistema da NASA e a chamada área 51 para produzir
os projetos engavetados por eles. Tanto o quarto
quanto a garagem da casa era repleta de projetos
abandonados pelo governo norte americano em que
ele foi capaz de terminar e executar perfeitamente.
Para a sua surpresa a área 51 não se tratava de
um deposito hospedeiro de óvnis e coisas estranhas
mais sim um centro mundial sob o comando dos
estados unidos para produzir a tecnologia.
Em seus infinitos projetos falhos estava esse
pequeno aparelho que se tornou o xodó do garoto,
aquele aparelho que tinha a aparência de um celular
dos mais modernos, tinha a capacidade de conectar
uma pessoa diretamente à internet através de uma
interface neural, o corpo físico permaneceria imóvel

62
APOLLO SOUZA

em um lugar, mas a mete viajaria através daquela


tela por milhares e milhares de lugares cibernéticos
em um milésimo de segundo. Infelizmente, aquela
habilidade não era vista com bons olhos pelo pai que
abominava a tecnologia, pois segundo ele foi graças
à tecnologia que os seres humanos abandonaram o
interesse pela magia.
A reserva estava deserta não, Lucca não estava
surpreso, afinal aquela não era uma hora propicia
para as pessoas estarem ali. Todo o movimento
estava durante a manha e tarde, pessoas com trajes
esportivos e senhores de meia idade sempre vinham
pela nesses horários praticar algum tipo de atividade
física.
O pessoal mais jovem também gostava daquele
lugar para encontros entre amigos sempre regados a
drogas e álcool, a saída noturna da escola era sempre
um motivo para festejar, pois estavam livres das
aulas e professores chatos.
Ao toque de um botão a tela virtual
desapareceu ele desligou o aparelho e colocando no

63
OS GUARDIÕES

bolso começou a caminhar admirando a as diferentes


cores que a paisagem noturna proporcionava, Lucca
tentou imaginar o que o pai estava fazendo naquele
momento, no mínimo estaria lendo algum livro
antigo de alquimia como era de seu costume. Essa
não era a primeira vez que eles discutiam sobre o
assunto e com certeza não seria a ultima
Eles precisavam colocar a cabeça no lugar ou as
coisas sairiam ainda mais do controle, as discuções
geradas pelos dois não eram tão fáceis de resolver
quando estavam em seu nível critico. Orfeu
detestava ser contrariado, ele agia como se estivesse
em uma guerra e usava tudo o que podia para
destruir seu inimigo, não importando quem fosse.
Lucca já sofrera o suficiente, nas poucas vezes
que fez o pai explodir de raiva Foi forçado a gerar
energia manualmente para aquela casa, e sem saber
magia corretamente era quase impossível realiza-las
sozinho.
Foi graças a essas “tarefas extras” que Lucca
desenvolveu o que podemos chamar de tic

64
APOLLO SOUZA

tecnológico, sempre que ele brigava com Orfeu o


menino construía alguma coisa para o pai como um
presente de desculpas, e como elas eram frequentes
ele sempre tinha algo novo em mente, algum
aparelho tecnológico mirabolante que com certeza
Orfeu desaprovaria e jogaria fora daqui a duas
semanas mais lhe daria todas as ferramentas
necessárias para a sua execução.
- A alquimia não é uma ciência exata. – pensou
ele. – o principio da troca equivalente.
Uma ideia finalmente veio a sua mente, Orfeu
já havia lhe dado à resposta há muito tempo. Como
ele poderia ter sido tão idiota para não perceber isso,
a resposta para o seu bloqueio estava embaixo do seu
nariz o tempo todo, a pedra filosofal.
Também conhecida como a pedra da cura, a
pedra filosofal era dotada de grande poder, pois usa
a força dos elementos em sua composição, este
artefato mágico criado há milênios era capaz de dar a
vida eterna para aqueles que a possuíssem, alem de
mudar os estados subatômicos da matéria fazendo

65
OS GUARDIÕES

sua decomposição e reestruturação ao desejo de


quem a possuísse. E se ele fosse capaz de recriar essa
energia e canaliza-la através de um objeto?

Naquela noite Lucca chegou atrasado, ele


sentou-se em um canto e permaneceu com os olhos
no laptop enquanto Adan, Jimmy, Tonny e Drew
davam os toques finais no equipamento para o
ensaio que havia sido marcado há uma semana. Ele
era uma espécie e agente da banda, cuidava da parte
visual e sonora alem de agendar os shows para os
anjos de metal.
Há mais ou menos dois anos os cinco garotos se
conheceram e não se largaram mais, nenhum deles
entendia porque mais todos naquele grupo se
sentiam tão seguros uns com os outros que acabaram
se tratando como verdadeiros irmãos, a banda era
mais um pretexto para o grupo se reunir e conversar
brincar e se divertir do que ensaiar. Na verdade
aqueles ensaios serviam unicamente para uma coisa,

66
APOLLO SOUZA

matar aula. Lucca e seus amigos ficavam ali Por


horas, assistiam à primeira aula de cada noite, para
os professores saberem que eles estavam na sala
davam um jeito de escapulir e iam para o porão do
colégio para suas reuniõezinhas secretas.
O porão era o deposito do instituto, era ali que
o zelador guardava tudo o que a escola não queria
então haviam vários tipos de coisas esquecidas ali,
desde livros tão antigos quanto à própria escola,
carteiras quebradas, ferramentas a ate computadores
velhos e quebrados, aquele lugar era um paraíso
ninguém os incomodava, eles podiam fazer qualquer
barulho, poderiam ate mesmo explodir uma bomba
ali que ninguém apareceria para pedir explicações a
eles. Assim aquele lugar ficou sendo a sede oficial
dos anjos não importava se era sábado domingo ou
feriado aquele lugar sempre estaria aberto para eles,
bastava apenas molhar a mão do zelador para que
ele abrisse uma pequena exceção para eles.

67
OS GUARDIÕES

- Eu acho que nos poderíamos tocar na reserva,


semana que vem é aniversario da cidade. – Disse
Drew tirando um mi da guitarra recém-afinada.
- Eu não sei se estamos preparados para um
evento desse porte. Respondeu Adan pegando a
baqueta na mochila próxima a bateria.
- como assim cara? Perguntou Jimmy já com o
olho torto. - Nos tocamos naquela reserva todo o fim
de semana, se eu bem me lembro estávamos lá
ontem.
- É verdade Adan, nos tocamos lá quase todo
fim de semana. Porque seria diferente nessa semana?
- Nos nunca tocamos para um publico, pelo
menos não oficialmente. – respondeu Adan dando
um tapinha nas costas do amigo. – Essa festa atrai
gente de todos os lugares.
- O que você acha Lucca? Quis saber Jimmy. –
Tocamos ou não no aniversario da cidade na semana
que vem?
Lucca estava concentrado demais para ouvir
qualquer coisa que os amigos falassem. Ele apenas

68
APOLLO SOUZA

balançou a cabeça em sinal de afirmação. O que


claramente era um sinal de que ele não estava dando
a mínima para a conversa.
- O que ele ta fazendo de tão interessante? –
Perguntou Jimmy. – Ele entrou no modo zumbi bem
rápido hoje.
O modo zumbi era a maneira que os amigos
chamavam o garoto quando ele se desligava do
mundo a sua volta e respondia de forma aleatória
com um aceno afirmativo com a cabeça mais seus
olhos estavam vidrados em outra coisa. Quando
Lucca entrava nessa espécie de transe todas as
perguntas tinham o mesmo aceno vazio como
resposta, assim os amigos aproveitavam para fazer
as brincadeiras mais bizarras com ele e dizer coisas
do tipo “você é o maior idiota de todos os tempos”,
ou “Lucca é a maior bichona que eu já conheci na
vida” ou “esse cara me deve muita grana pessoal” a
resposta para essas e outras perguntas bizarras era o
mesmo aceno vazio com a cabeça.

69
OS GUARDIÕES

Enquanto eles não mexessem no corpo inerte de


Lucca ele não pararia de agir daquela maneira, e isso
era a maior diversão para os quatro garotos, pois
Lucca sempre levou na esportiva o que os quatro
faziam e sempre tirava uma casquinha de vez em
quando, quando um deles cometia um erro.
- Volta pra terra gênio. – Disse Adan dando um
empurrão em Lucca que o fez acordar.
- O que foi? – Ele quis saber retirando os olhos
do computador.
- Agora que vossa alteza esta entre nós. – Disse
Jimmy. – Nós queremos saber se você pode nos
colocar no festival em comemoração ao aniversario
da cidade.
- Lembrando que as inscrições já se encerraram
no inicio do mês. – Disse Drew para completar.
- Todo esse alvoroço por causa de um festival?
– respondeu Lucca. – Podem deixar comigo. E assim
Lucca voltou ao laptop mais uma vez.
Para aquele grupo as habilidades de Lucca com
a internet e as maquinas eram fantásticas, eles

70
APOLLO SOUZA

sempre estavam querendo que ele concertasse


alguma coisa ou invadisse o sistema de faltas e notas
da escola para não mancharem os boletins no final
do semestre, pois isso garantiria a eles uma bela
expulsão. Lucca nunca usou essa habilidade para
alterar as notas dele ou dos amigos, apenas as faltas
dos boletins eram alteradas, pois, apesar das faltas
eles sempre tiravam as melhores notas.
- Invasão concluída. – Respondeu Lucca
apertando a tecla enter uma ultima vez. – Anjos de
Metal toca no sábado às nove horas da noite.
- Lucca você é... – antes que Drew pudesse
terminar a frase Tonny levou uma das mãos aos
lábios pedindo silencio e com a outra apontou em
direção à porta.
Tonny tinha ouvido passos vindos de fora,
alguém estava observando o grupo há algum tempo
com apenas um olhar Tonny mandou os amigos para
pontos estratégicos dentro do porão. Lucca
permaneceu imóvel na frente do computador, levou
menos de uma fração de segundo para invadir o

71
OS GUARDIÕES

sistema de câmeras da escola e acessar a câmera em


frente à porta do porão flagrando a espiã no ato.
Jimmy e Drew deram a volta pela parte de traz
do colégio o que levou cerca de cinco minutos para
eles chegarem onde estava a menina. Lucca
confirmou que eles já estavam em posição e isso fez
Tonny e Adan se aproximarem da porta. Tonny fez
algum tipo de contagem mental e no terceiro aceno
com a cabeça eles puxaram a porta com toda a força
que tinham, fazendo o metal enferrujado ranger
como um trovão abafado.
- Ora, ora, ora, o que nos temos aqui? –
Perguntou Tonny encarando a menina nos olhos.
A menina era linda, tinha a pele tão branca
quanto o mármore, cabelos castanhos curto com
algumas mechas rosa desgrenhadas seus lábios eram
finos delineados por um batom roxo seus olhos eram
de um vermelho intenso valorizados por uma
sombra escura, usava uma saia na altura dos joelhos
cheia de babados, varias anáguas uma blusa regata
azul que valorizava os seios em formato de pera

72
APOLLO SOUZA

firmes, e por cima uma jaqueta preta lhe dava um ar


malvado e sedutor.
- Eu sou Alice. – Disse ela com a voz firme.
Sem nenhuma cerimônia Alice fixou seus olhos
vermelho escarlate em Tonny como se quisesse
fuzila-lo mais sem perder a delicadeza nem a firmeza
de sua voz. O som de sua voz era apaixonante, tão
doce quanto o mel e tão inebriante e saboroso quanto
o vinho.
As caras amarradas deram lugar a sorrisinhos
bobos de felicidade. Os quatro antes dispostos à
briga agora pareciam marionetes nas mãos de Alice
ela os fez deitarem no chão enquanto entrava
naquele lugar.
- Quem é você? - Perguntou Lucca com um tom
desafiador em sua voz.
- Eu sou Alice. Eu quero que você saia daqui
agora! - Ordenou ela com o mesmo olhar penetrante
de antes.
- Quem é você e o que faz aqui? Perguntou ele
aumentando o tom de voz.

73
OS GUARDIÕES

- Apenas obedeça. – Disse ela encarando-o


- O que você fez com os meus amigos? - Lucca
perguntou agarrando-a pelo braço. As luzes do lugar
começaram a acender e apagar em um ritmo
frenético fazendo algumas lâmpadas explodirem.
Alguma coisa estranha estava acontecendo ali, e
ela não sabia como explicar seus poderes hipnóticos
pareciam não surtiam efeito naquele garoto, que
parecia estar possuído por algum tipo de
poltergaister.

74
APOLLO SOUZA

V
PRIMEIRO ENCONTRO

Lucca não sabia como aquilo tinha acontecido,


como as luzes do porão piscavam incontroláveis e
cada vez mais fortes.
O garoto não sabia como, mais sabia que ele era
a causa do que estava acontecendo, ele sabia que
Alice estava confusa e resolveu usar isso a seu favor.
Pela primeira vez na vida, de algum modo ele
experimentou um poder que não sabia que tinha e
aquilo o fizera feliz.
Meio atordoada Alice apenas tapou os olhos
com as mãos tentando fugir do brilho ofuscante
daquelas luzes, a garota estava cega, ele acabara
descobrindo seu ponto fraco.
- Saia daqui. – Lucca ordenou com a voz firme.

75
OS GUARDIÕES

- O que você fez comigo, seu garoto idiota. –


Alice de alguma forma sabia que aquilo era culpa
dele.
- Liberte meus amigos de sua influencia, ou
sofrera as consequências.
Lucca apenas pensou no fogo se alastrando, e
em questão de segundos um circulo ardente se
formou ao redor deles.
- Como você faz isso? – Perguntou Alice
surpresa.
- Isso você terá de pagar para descobrir.
Arrisque-se. – Ele disse encarando-a nos olhos.
Notando o medo na voz da menina Lucca fez as
chamas aumentarem e assim o barulho ensurdecedor
do alarme fez que ativassem os extintores de
incêndio no teto apagando por um momento as
chamas dando a chance perfeita para que Alice
escapasse dali em questão de segundos.
Do lado de fora do prédio pessoas se
amontoavam tentando fugir do perigo, os
professores que já tinham conseguido sair tentavam

76
APOLLO SOUZA

acalmar e organizar os alunos histérico. Grupinhos


começavam a se formar, garotas choravam e se
abraçavam, sem entender o que estava acontecendo.
As sirenes anunciavam a chegada dos
bombeiros.
As aulas haviam sido suspensas pelo resto da
noite, todos os alunos foram mandados para casa,
por sorte o fogo não havia se alastrado mantendo - se
apenas no subsolo do prédio.
Lucca foi o ultimo a sair, ele e os amigos
tiveram de tirar todos os equipamentos que estavam
guardados no subsolo para não dar na vista, ou eles
poderiam ser acusados de alguma coisa ligados ao
incidente, e aquilo não era bom para nenhum deles.
O diretor anunciou a todos a suspensão das
aulas ate que o incidente fosse esclarecido, e assim a
atmosfera de medo começou a se dissipar com os
alunos que iam embora.

77
OS GUARDIÕES

Lucca vagou sem rumo por algumas horas


pensativo.
Os fatos que ocorreram há pouco tempo
certamente foram causados por ele. Toda a raiva que
ele sentia naquele momento explodiram em magia.
Ele precisava pensar, e só havia um lugar ali no
meio de todo aquele caus que o mantinha a salvo de
seus próprios pensamentos.
O parque estava apinhado de gente, com a
liberação das aulas todos os alunos estavam lá,
conversando, namorando ou em pequenos grupos
tocando e cantando alguma coisa. Ele sentou-se
sozinho em um banco de madeira escondido de
todos, pegou o celular e começou a fuçar todas as
coisas sem sentido que podia na internet.
- ALERTA DE FIREWALL. – Gritou uma voz
robótica vinda se seu celular.
- Agora não, Droga. – Ele retirou do bolso um
cabo USB, que parecia estar ligado a um tipo de HD
externo e o conectou ao celular.

78
APOLLO SOUZA

- NIVEL CRITICO 5, NIVEL CRITICO 5. –


Repetia a voz.
- Enviar para a quarentena. – Ele ordenou para
a maquina.
- IMPOSSIVEL CARREGAR OS DADOS. –
Respondeu a voz robótica.
- Rastrear a origem em modo Walking agora.
- MUDANÇA DE NIVEL INICIADA EM 10...
09... 08
- Vamos... Quem esta tentando brincar comigo.
- AMEAÇA DE INVASÃO DETECTADA,
- O que? Que merda esse cara ta fazendo. – Ele
disse colocando as mãos na cabeça.
- BARREIRA DE CONTENÇÃO 3
QUEBRADA. – Avisou a voz.
- Quanto tempo para a varredura total? – ele
perguntou aflito.
- 80% COMCLUIDO, 5 SEGUNDOS
RESTANTES.
- Vamos com isso.
- MODO WALKING CONCLUIDO.

79
OS GUARDIÕES

- Ok, de onde vem à ameaça.


- A AMEAÇA VEM DE DENTRO DO
PARQUE.

Vindo das sombras como um fantasma o


garoto de aparência esquisita e incomum apareceu
mostrando-se feliz com o que estava acontecendo.
- Belo trabalho você fez aqui. – Disse o garoto
sorrindo.
- Obrigado. Lucca respondeu encarando-o nos
olhos
- Lucca Souza, 17 anos, data de nascimento
09/12. Estudante do segundo ano no instituto para
jovens superdotados. Filho de Orfeu Oberon Souza e
mãe desconhecida. – Retrucou o garoto em resposta.
- Vejo que você levantou toda a minha ficha,
pena que eu não possa dizer o mesmo sobre você. –
Disse Lucca apertando o aparelho portátil em suas
mãos.

80
APOLLO SOUZA

- É um prazer conhecê-lo filho de Orfeu, tenho


que admitir que foi um pouco difícil encontra-lo.
- Pois é, e eu devo lhe dar os parabéns por tal
feito. – Respondeu Lucca aproximando-se do garoto.
– Não tem muita gente capaz por aqui de fazer isso.
- O que é esse modo WALKING que você usou
contra mim? – Ele perguntou checando o tablet. –
Um pouco difícil de detectar.
Ao ouvir aquela pergunta a atmosfera de raiva
havia sumido totalmente, dando lugar a uma luta
psicológica entre Lucca e o desconhecido.
- Quem é você? – Perguntou Lucca.
- Que indelicado da minha parte. – O garoto
respondeu estendendo a mão. – Eu sou Ângelo
Azuos, mais você deve me conhecer como AZ.

81
OS GUARDIÕES

VI
AZ

O famoso Az estava na cidade.


Uma pedra no sapato que Lucca queria
eliminar de vez da face cibernética estava bem diante
dele.
Az se passava facilmente por um garoto normal
de 15 anos tímido, cheio de espinhas e sardas no
rosto, seus olhos azuis se mostravam ingênuos e
puros, seu semblante escondia meses de atrocidades
cibernéticas que Lucca estava tentando combater.
- Enfim te encontrei cara a cara Lucca. –Ele
disse sem tira seus olhos da tela. – Estou ansiosos
pelo nosso próximo jogo.
- Da ultima vez você quase conseguiu derrubar
o protocolo de defesa da área 51. – Ele respondeu
com um leve sorriso.

82
APOLLO SOUZA

- Pois é, e tudo graças ao seu programa


Walking, cujo protocolo de combate é um mistério
para mim.
Lucca e Az trocaram olhares invasivos
enquanto digitavam senhas de acesso em seus
dispositivos. Suas lutas eram meramente psicológica
fazendo com que os dois usassem todas as armas
possíveis para a destruição um do outro.

Tudo começou há alguns meses atrás quando


Lucca sem querer descobriu uma brecha nos
protocolos de defesa da área 51, enquanto testava o
Walking contra os mesmos protocolos que Az
tentava destruir.
O Walking era um programa criado por ele,
que usava o próprio computador para deixa-lo mais
lento, fazendo com que o sistema parasse de enviar
informações para a rede e passasse apenas a receber
as mesmas informações, isso dava uma espécie de

83
OS GUARDIÕES

bug no sistema e o fazia repetir os mesmos processos


varias vezes seguidas.
Durante o processo de construção desse vírus
ele encontrou um arquivo malicioso que fazia com
que todos os seus arquivos remetessem um mesmo
padrão de comportamento, tornavam-se atalhos
inúteis repetindo um mesmo programa AZ.
Desde então os dois vem se enfrentando quase
que diariamente, pelo controle total da parte restrita
da área 51, ate aquele momento os protocolos de
Lucca levavam a melhor com relação às habilidades
de Az.
- Eu estive preparando isso durante meses, e
nem mesmo você percebeu. – Disse Az ainda de olho
na tela.
- Quais são seus planos para hoje à noite? –
Perguntou Lucca.
- Essa noite nem mesmo você poderá me deter.
– Ele respondeu entregando o tablet nas mãos de
Lucca. – Pelos meus cálculos você tem apenas 10
segundos.

84
APOLLO SOUZA

O contador digital do tablet mostrava os


números em ordem decrescente, e palavra ACCELA
piscava na tela cada vez que os números mudavam.
- Creio eu que este tempo seja mais que
suficiente para derrotar você. – Lucca respondeu com
os olhos em seu inimigo
- Só mais 05 segundos.
- DOWNLOAD CONCLUIDO COM SUCESSO.
– Disse a voz robótica no celular de Lucca.
- Eu venho te observando há meses, e não posso
perdoá-lo pelo que você fez com minha amada. –
Disse Az guardando o tablet na pequena mochila
que ele carregava. – Ela não merecia isso.
- Ela... Espere um pouco, do que você esta
falando? – Quis saber Lucca, que agora deixara o
celular de lado e encarava o rosto de Az emanando
tanto ódio em seus atos, que fizera lucca tremer de
medo.
- Ela não merecia o que você fez... – Disse Az
chegando cada vez mais perto. – Minha linda
menina, você a feriu gravemente esta noite.

85
OS GUARDIÕES

Lucca agora entendia, Az falava de Alice.


Falava do incidente que ocorrera há alguns minutos
atrás no colégio.
- Você é um monstro. - Az gritou. – Você tem
tudo e ainda assim não percebe.
- Perceber o que?... O que eu deveria ter
percebido? – Lucca respondeu atônito.
O celular não respondia a seus comandos, o
vírus implantado ali estava consumindo e
destruindo todos os dados do aparelho.
- Você não sabe não é? – Ele perguntou como se
já soubesse a resposta.
- Saber o que? – Um misto de medo e pânico
tomou conta de Lucca, suas pernas tremiam, seus
olhos lacrimejavam bem lá no fundo Lucca sabia o
que Az queria, mais custava a acreditar.
- Eu vou destruí-lo. – Ele respondeu. – De todas
as formas possíveis, você vai pagar pelo que fez a
ela.

86
APOLLO SOUZA

VII
MAGIA LATENTE

Ele estava prestes a cair, faltavam apenas


alguns centímetros de corrente para que a gaiola
despencasse num buraco que não parecia ter fim. Ela
podia ver nitidamente o garoto encolhido, parecia
desacordado, um corte em sua testa era um tanto
profundo e o sangue havia percorrido seu rosto e
manchado seus óculos, suas roupas estavam sujas de
sangue.
O homem que controlava a corrente parecia
estar ansioso para deixar a gaiola cair, ele era forte,
suas mãos grandes pareciam não fazer esforço.
- acalme-se, esse ladrãozinho terá o que merece
em breve. – Disse um homem mais velho que
segurava um livro de couro grosso em suas mãos.

87
OS GUARDIÕES

- Sim meu senhor. – Disse o homem baixando o


olhar em sinal de respeito.
Uma forte luz queimou os olhos de Alice por
alguns segundos, quando a iluminação voltou ao
normal à menina estava frente a frente com o velho
que segurava o livro de couro, ela podia ver seu
rosto pálido quase sem uma gota de sangue seus
olhos não tinham cor alguma eram apenas dois
orifícios brancos horríveis de se encarar.
Suas mãos agora tocavam as grades da pequena
cela, ao olhar para cima ela podia ver a luz da lua
minguante tocando um tipo de relógio lunar com
quatro silabas escritas, silabas estas que ela não
distinguia. O abismo abaixo parecia não ter um fim,
o ar gélido que saia dele fazia com que Alice tivesse
mais medo. Ela tentou gritar mais sua voz não saia.
- Não se esforce criança. – Disse o velho. –
Quando a lua atingir seu ponto mais alto você
esquecerá tudo.

88
APOLLO SOUZA

- Alice Pacheco! - A voz da professora sentada


em sua mesa a fez sair do tranze em que se
encontrava.
Aquele era o garoto dos seus sonhos, se e que
aquilo podia ser chamado de sonho, tendo em vista
que Alice era incapaz de dormir. Desde os oito anos
de idade, Alice entrava em uma espécie de transe,
que fazia com que ela tivesse essas visões desse
garoto. Ela sonhara com ele todos os dias de sua vida
desde que tinha oito anos, a mesma cena sendo
vivida e revivida por ela todas as vezes que isso
acontecia, ela estava tão obsecada por ele, que não
tirava ele da cabeça.
Depois do que aconteceu no porão a uma
semana atrás Alice vigiava Lucca e seu grupo todas
as horas do dia. Usava seus poderes para colocar
espiões para segui-los durante todos os dias naquela
semana. Não era normal um ser humano ser imune
aos poderes hipnóticos de Alice, a única hipótese
plausível para aquele fato era que aquele garoto que
ela viu no porão seria como ela um vampiro, mesmo

89
OS GUARDIÕES

essa hipótese sendo verdadeira ainda havia um


grande furo nessa teoria, como ele conseguia sair
durante o dia? Como ele fez aquelas luzes
explodirem daquele jeito.
Todas as luzes explodiram fazendo Alice perde
a visão, os eletrodomésticos no lugar pareciam ter
ganhado vida, TVs se ligavam sozinhas. Alice nunca
tinha visto uma coisa como aquela na vida, em um
acesso de raiva Lucca deixou o porão lugar em
frangalhos, todos os equipamentos eletrônicos
piraram e fizeram Alice quase perder o controle.
- Qual a resposta Alice? - Perguntou a
professora impaciente.
- ham? – Perguntou ela sem entender.
- Qual a resposta para a questão cinco do
exercício?
Voltando a tona Alice não fazia a mínima ideia
de qual seria o assunto em questão, ela não tinha
aberto o livro de química e muito menos tinha feito
aquele exercício. Ela apenas concentrou-se nos olhos
da professora encarando-a descaradamente. A

90
APOLLO SOUZA

menina era capaz de ouvir uma vozinha abafada e


parecia vir de dentro da mente da professora, que
repetia H2O2, 2 moléculas de oxigênio e 2 de
hidrogênio.
- Água oxigenada. – Disse ela sem cerimônia. –
Duas moléculas de hidrogênio e duas de oxigênio.
Essa era uma ótima habilidade para uma
vampira, a habilidade de ler mentes, isso fazia dela
uma expert em qualquer assunto, bastava que ela
fixasse seus olhos em alguém para que mergulhasse
nos confins de sua mente. A professora deu uma
olhada em seu livro mais uma vez para constatar se a
resposta dada por Alice estava correta. Ela apenas
assentiu com a cabeça passando para o próximo
quesito do exercício.
A menina não pareceu se importar com o elogio
recebido pela resposta, ela estava mais preocupada
quando Lucca iria aparecer no colégio, desde o
ocorrido no porão ela não tinha visto nenhum dos
garotos, o único lugar que ela encontrava eles era no

91
OS GUARDIÕES

parque da cidade sempre com os instrumentos


tocando ou batucando alguma coisa.
Ela estava obsecada por eles, Lucca em especial,
ele era o garoto de seus sonhos. Alice estava sempre
desenhando o rosto de Lucca, mesmo antes de
conhecê-lo ela já o desenhava. Pastas e mais pastas
repletas de desenhos com os mesmos rostos um era o
de lucca o outro era o de um homem de uns trinta
anos de idade que sempre estava na companhia de
Lucca em seus “sonhos”.
Aquela mesma cena se repetia dia após dia
desde aquele primeiro encontro, ele não saia de sua
mente em nenhum momento, “como um garoto
poderia deixar Alice daquele jeito”, ela estava
atordoada com a ideia de encontra-lo, mais era
preciso.
Ela tinha que enfrenta-lo mais uma vez, ela
tinha que encara-lo de perto para fazer as perguntas
que perturbavam seu pensamento, descobrir o
porquê de sua imunidade psíquica, será que seus

92
APOLLO SOUZA

poderes estariam falhando, ou seria apenas alguma


neurose de sua cabeça.

93
OS GUARDIÕES

VIII
ESPIONAGEM

Ela era um enigma. Nenhuma informação


sobre a garota, Lucca já tinha fuçado todos os lugares
possíveis e impossíveis que pudessem guardar
informações sobre ela. Nenhum histórico medico ou
escolar, nenhum registros de nascimento ou carteira
de motorista, nada que levasse a uma pista sobre
quem era Alice ou de onde ela vinha, Era como se ela
não existisse.
Não havia nenhum registro ate ela chegar
naquela cidade, ninguém nunca tinha ouvido falar
nela ate sua mudança, o que mais chamava a atenção
de Lucca era que Alice não usava a internet paca
nada, MSN, Orkut ou facebook, ela não existia
virtualmente e parecia que não existia fisicamente
também.

94
APOLLO SOUZA

Desde o dia do seu primeiro encontro, aquela


cena não saia da cabeça sua cabeça, a hipnose, o
modo como ela fez de seus amigos meros fantoches,
como se eles não tivessem vontade própria.
Por que Lucca não fora afetado?
Essa era a pergunta que perturbava o garoto
há algumas semanas. Aquele misto de raiva e medo
de algum modo liberou seus poderes parcialmente e
agora ele podia usar a magia para pequenas coisas,
ele ainda não sabia como controlar o fluxo de magia,
isso dependia de suas emoções, em especial quando
Alice estava entre seus pensamentos.
Apenas a menção da imagem de Alice fazia as
coisas explodirem, flutuarem e muitas vezes
mudarem de forma diante de seus olhos, ele não era
capaz de controlar, mais os acontecimentos
aconteciam com mais frequência quando ela estava
perto dele.
A partir daquele momento ele usaria aquilo a
seu favor.

95
OS GUARDIÕES

A suave brisa noturna que corria pela reserva


fazia Alice se lembrar do tempo que ela tinha
passado com a mãe nas montanhas do Himalaia uns
sete anos antes, a temperatura amena do lugar
tornava mais fácil à percepção de movimento e assim
ela poderia caçar animais maiores para aplacar sua
sede de sangue. Os sangue animais não tinham o
mesmo poder nutritivo do sangue humano, mais
dava a Alice o que era necessário para a sua
sobrevivência.
Aquela parte da reserva era relativamente
nova para ela, que nunca tinha fugido tanto da trilha
de 10 km habitual em que ela vinha seguindo. A
reserva era belíssima, cachoeiras percorriam enormes
paredões escondendo cavernas onde os animais da
noite se abrigavam durante o dia, os lagos eram tão
limpos que era possível ver o emaranhado de vida
que ele continha a noite tudo se revalava de forma
surpreendentemente bela, dos 200 mil metros

96
APOLLO SOUZA

quadrados apenas 90 km quadrados eram disponível


ao publico, e desse total apenas 10% era usado pelo
parque.
Ela já estava ali há algum tempo, pensando no
que vinha acontecendo, desde o primeiro encontro
com aquele garoto, ate então ela nunca sentirá isso
em sua vida, (se é que aquilo podia ser chamado de
vida).
Seus sentidos estavam confusos um misto de
raiva e medo faziam seu coração bate mais forte o
sangue pulsava em suas veias fazendo seu rosto
corar, levando o sangue a todas as partes do seu
corpo. Alice estava um tanto intrigada com o
ocorrido e isso fez com que ela se deixasse levar por
uma pessoa que ela nunca tinha visto na vida ate três
semanas atrás.
Sentada em um galho grosso da arvore mais
antiga do parque, Alice observava a forma e brilho
da lua sendo encoberta por uma nuvem errante.
Levantando uma das mãos na frente do rosto Alice

97
OS GUARDIÕES

se perguntava como aquela lua havia ganhado


aquele tom vermelho intenso, igual aos seus olhos.
- Essa lua é igual a mim. – Ela pensou. – Um
lado escuro e imperfeito, escondido de tudo e de
todos, e um lado belo e iluminado que faz com que
as pessoas se apaixonem.

98
APOLLO SOUZA

IX
ENCONTRO COM OS
GUARDIÕES

A praça da reserva servia como centro de


eventos da cidade, tudo acontecia ali, movimentos
culturais, festas e eventos de caridade, piqueniques e
acampamentos de verão. Aquele lugar era
praticamente o centro turístico local.
Este era o evento mais esperado do ano para a
população de Raira do Sul, pois o evento
comemorava os 205 anos de fundação da cidade, a
semana estava cheia de atrações culturais, e
artísticas.

99
OS GUARDIÕES

Exposição de artistas locais, musica, peças


teatrais, espetáculos de dança e palestras estavam
entre as atrações da semana. O show de abertura era
apenas o começo, e tinha como propósito fazer os
jovens participarem das festividades locais.
O palco era relativamente pequeno, mas os
cinco já estavam acostumados a tocar para poucas
pessoas. Os Anjos de Metal tocariam daqui a poucos
minutos, e tudo tinha que estar perfeito.
Lucca checava em seu notebook a
apresentação de imagens que apareceria no telão
enquanto a banda tocava assim como o jogo de luzes
os diversos ritmos e formas usadas para entreter o
publico durante o show.
No centro do palco Adan checava o
encordoamento de sua guitarra, Jimmy
acompanhava a melodia sem sentido entoando uma
sequencia de tons e semitons rapidamente, Drew
batucava atrás na bateria.
Um grupo de meninas próximas ao palco, com
idade entre onze e quinze anos gritavam o nome de

100
APOLLO SOUZA

Adan repetidamente, soltando beijos para o ar e


jogando cartas e pequenos presentes.
- O nosso fã clube esta com tudo hoje. – Disse
ele enquanto ajustava o microfone.
- Nosso fã clube? – disse Lucca pelo interfone.
– Nós não temos um fã clube Adan. Esse é o seu fã
clube.
Adan entendera o recado, ele sempre dera
uma de gostosão, todas as garotas do colégio viviam
a seus pés, se bem que seu porte físico ajudava muito
para isso, a voz grossa e a barba por fazer e os
músculos torneados atraiam todas, e ele sabia tirar
vantagem disso.
- Eu sei. Elas me amam. – ele respondeu
sorrindo para o grupo, que deu gritinhos histéricos
em resposta.
- Vocês estão prontos? – perguntou o
organizador do evento. – ainda tem cinco minutos.
Os quatro garotos já estavam posicionados,
Lucca ligou o projetor e o jogo de luzes anunciou o
espetáculo.

101
OS GUARDIÕES

- É hora do show pessoal.

Lucca havia acabado de sair de um show de


rock onde a banda dele tinha se apresentado. Ele
usava uma camiseta azul desbotada e gasta pelo
tempo, sua calça estava mais puída que um trapo
velho, quase virando pó, seu tênis preto tinha
desenhado o logo da banda um A com asas e um
circulo em volta, e em letras gritantes e coloridas o
nome Anjos de metal, em suas costas o case do
contra baixo quase caindo de seu ombro. O garoto
acabava de colocar um envelope no bolso, o que
parecia ser o pagamento por mais uma noite de
trabalho.
Eu precisei segui-lo para ter certeza se o que a
joia conhecida como o coração me dizia era real,
Lucca caminhava despreocupado pela calçada ate
uma vã onde o resto do grupo estava guardando os
instrumentos da banda. Tive que ficar escondido nas

102
APOLLO SOUZA

sombras ate ter certeza de que eles eram as pessoas


certas, pois o coração reagiu com a minha
aproximação.
Por horas fiquei estudando o grupo, cada
movimento, cada passo dado por eles. Jimmy
batucava alguma coisa na lataria do carro, seguido
pelos amigos que cantarolavam algo inaudível de
onde eu estava. Ele trajava uma jaqueta de couro
com uma blusa preta por baixo com o mesmo A do
tênis de Lucca desenhado nela e causa jeans com uns
rasgões nas pernas e nos bolsos.
Ao Retirar o medalhão de meu bolso uma luz
envolveu os cinco jovens, revelando a eles a essência
de seus poderes. A luz de meu medalhão brilhou
fortemente revelando a todos o segredo por traz de
seus poderes. Para Adan o brilho laranja deu a ele a
sabedoria dos elfos, os segredos da floresta e a força
da terra, para Jimmy a luz se tornou vermelha dando
a ele a generosidade das ninfas através do indomável
fogo. Tommy recebeu o incontrolável poder da água
e junto com ele a resistência dos seres do mar.

103
OS GUARDIÕES

Drew era o mais racional dos cinco e também o


mais brincalhão, para ele a leveza e a liberdade do ar
foi concedida a ele assim como a esperteza dos
leprexaus. Enquanto Lucca, talvez o mais treinado de
todos eles em magia recebeu o poder do coração e
com sigo o dom da criação também conhecido como
tecnologia concedido aos seres humanos.
- deixem que eu lhes conte uma historia meus
amigos, uma historia tão antiga quanto o próprio
tempo, quando a magia fazia parte do mundo. Um
mundo único que acabou por causa da maldade que
habitou o coração dos homens.
- E como isso aconteceu? Quis saber Lucca.
- Aquele mundo único se dividiu entre aqueles
que acreditavam e os que não acreditavam na magia,
essa magia rege o equilíbrio do mundo e sem ela esse
mesmo mundo perecerá em pouco tempo. E vocês
não estão aqui por acaso.
- E o que nos cinco temos a ver com isso?
Perguntou Drew.

104
APOLLO SOUZA

- A maldade e a ignorância do homem, a falta


de maturidade e o descontrole estão fazendo do
mundo um lugar mais fraco. O homem perdeu a
consciência de que o mundo tem uma cadeia natural
e dela depende toda a sobrevivência do planeta...
- Os recursos naturais são renováveis, mas não
são inesgotáveis. Completou Jimmy.
- Isso mesmo. O papel de vocês é proteger essa
energia elementar reencenando aos seres humanos o
uso conjunto de todos os elementos. Assim como a
terra depende da água e do fogo para criar vida, o
ser humano depende da tecnologia e da natureza
para existir.
- Supondo que tudo o que você nos contou seja
verdade, qual e o seu papel nisso tudo? Indagou
Lucca.
- Meu papel é o de ensinar a vocês o uso
consciente de seus poderes, como um dia fizeram
comigo. Respondi. Cabe a vocês decidirem se
querem ou não essa responsabilidade.

105
OS GUARDIÕES

- o que vai acontecer com os anjos de metal se a


gente fizer o que você diz. Perguntou Adan.
- não estou pedindo que vocês abandonem suas
vidas, nenhum de nos fez isso. Mais em algum
momento vocês terão de fazer concessões e escolhas
e não poderão desistir, pois esse é um caminho sem
volta. Se aceitarem levarei vocês a uma viagem para
conhecer toda a historia da magia. Se não quiserem
essa responsabilidade estão livres para ir. Essa
decisão só cabe a vocês.
A existência da magia é algo inquestionável
como todos vocês puderam perceber, em todos os
cantos do mundo, as pessoas a usam para diversos
fins, riqueza, saúde, vingança, ela e usada tanto para
o bem quanto para o mal. Essa magia faz parte do
universo e foi através dela que tudo começou,
através da grande explosão cósmica conhecida como
o big bang, e como se cada ser vivente trouxesse
dentro de si esse pequeno universo em expansão. E
ao liberarmos essa energia interior nos a
transformamos em vontade. Terra, fogo, ar e água

106
APOLLO SOUZA

como parte desse universo estão interligadas ao todo


e se algum deles estiver em maior ou menor
proporção, o todo será prejudicado.
Tempos atrás, muito antes do surgimento da
tecnologia, a terra foi dividida entre nações, cada
nação acreditava erroneamente que poderia
controlar um único elemento e que sua magia
restringia se unicamente a ele, o que dependia em
suma a qual região do planeta essa determinada
tribo se abrigava. Sendo assim os polos sul e norte,
tinha como elemento predominante a água em seus
estados liquido e solido. As regiões vulcânicas
predominavam os grupos em que se predominava o
elemento fogo, para as planície e áreas montanhosas
predominava se o elemento ar. E para os grandes
desertos o elemento terra predominava.
Nesses grupos onde cada elemento fazia parte
separadamente acreditava se na existência de um
salvador que nasceria em uma tribo e só ele seria
capaz de dominar os quatro elementos. E para que
houvesse um equilíbrio a cada geração este ser

107
OS GUARDIÕES

nasceria em uma nação diferente respeitando um


ciclo, se de algum modo esse ciclo fosse quebrado o
mundo pereceria no caos.
Esse período da nossa historia foi conhecido
como período avatar, e tem origem entre os países de
religião budista, estes acreditam que o Buda foi o
ultimo avatar do ciclo, sendo divulgado ate hoje
como o iluminado, que veio para cumprir uma
missão de resgate da humanidade.
Conta o mito que, por século as quatro nações
viviam em paz, ate que o senhor do reino do fogo
quer ter total controle sobre as nações e para isso
decide acabar com a tribo do ar, que seria a tribo de
nascimento do avatar. Sem ele a dominação do
mundo seria mais fácil. Cem anos se passarão
depois deste fato e todos acreditam que o avatar
desapareceu da terra e com ele a ultima esperança da
humanidade.
Milagrosamente dois garotos o encontram
presos a um ice Berg, o garoto estaria em um estado
de suspensão no gelo. Esse garoto era o único capaz

108
APOLLO SOUZA

de dominar o ar e com o seu retorno, retorna também


o mito.
Com o passar do tempo novos estilos de
magia, denominadas dobras elementares surgira, o
metal para terra, sangue para água e o raio para fogo.
Com esses novos elementos um novo mundo se
formou, usufruindo de novas fontes de energia. Para
guardar a essência da magia em seu estado puro
foram forjados anéis de poder elementares que são
capazes de aumentar em inúmeras vezes o poder de
seu usuário.
Cada nação criou seu respectivo anel de poder
e confiado ao mais sábio de cada tribo, para que
pudesse repassar para as gerações futuras a magia
residual do planeta. Cada sábio tinha que aprender
com as outras tribos os segredos de seus elementos e
ensinar seu elemento as outras. Dessa forma o
conhecimento era repassado entre todas as tribos e as
mesmas seriam responsáveis pela proteção do
planeta.

109
OS GUARDIÕES

Mais uma vez o ser humano se mostra


ganancioso, não respeitando as leis impostas pelos
antigos, consumindo cada vez mais os recursos
naturais, sem dar tempo para que a própria natureza
reponha o que foi retirado. Poucos são aqueles que
ainda se importam com o planeta, e são mais poucos
ainda são os que conhecem verdadeiramente a
magia.
Com a junção dos quatro elementos foi criado
o quinto anel pertencente à raça humana dado e eles
como um voto de confiança, contendo uma fração de
cada elemento puro. Assim água, terra, fogo e ar
tornaram se novamente um, dando origem ao mais
poderoso elemento representando a mente e o
espírito humano, esse novo elemento e considerado o
coração humano e junto com ele veio à ciência,
também conhecida por todos como tecnologia.
O quinto anel e capaz de grandes feitos, mais
retira sua forca dos outros anéis, dando aos quatro
elementos o equilíbrio necessário para a manutenção
da vida. Assim como antigamente o destino de um

110
APOLLO SOUZA

será compartilhado por todos e o destino de todos


será partilhado por um. Vocês vão percorrer o
mundo em busca desses anéis, e para pode
completar essa missão um dependera do outro,
juntos vocês triunfarão sobre qualquer mal que os
aflija, separados vocês perecerão assim como todas
as nações da terra.
O fardo que carregam e pesado para ser
carregado sozinho, haverão momentos em que a
fraqueza e o desespero tomarão conta de vocês,
permaneçam juntos custe o que custar. Vocês serão
testados a todo o momento nessa jornada, mais
lembrem se que nenhum lugar e escuro de mais ou
sóbrio demais quando nos lembramos de acender a
luz.
O dom da criação será dado a você Lucca e a
você Alice por partilharem o mesmo destino. Alice
você terá a razão e a lucca pertencera o coração, a
razão por si só e dura demais e destrói o espírito, o
coração por si só e demasiado fraco, portanto
ponderem razão e emoção, mantenham mente e

111
OS GUARDIÕES

espírito em equilíbrio e assim vocês terão o maior


poder de todos, o dom da vida, usem-no com
sabedoria.
Os outros devem provar serem merecedores
da confiança dos demais guardiões, enfrentando as
provas impostas pela própria natureza, terão de
viajar pelo mundo a procura deles, esse é um
caminho que cada um de vocês deve trilhar sozinhos.
Cada guardião escondeu seu anel em algum
lugar do mundo, posso lhes dar uma base por onde
começar, mais o lugar exato eu não sei, muito menos
o que cada um vai encontrar quando chegar lá.
Lucca, o poder que pertencia a mim agora e
seu. Estive vigiando vocês durante todo esse tempo,
esperando o momento certo para poder falar com
vocês.
Seu teste se aproxima a prova que vocês terão
de passar será com toda a certeza a mais difícil de
todos aqui. Permaneça juntos e não percam a
esperança em momento algum. Se precisarem de

112
APOLLO SOUZA

mim eu sempre estarei aqui, apenas chamem e eu os


atenderei.

113
OS GUARDIÕES

X
O GRIMORIO

“Este livro contem a magia dos homens, use com


sabedoria.”

Toda aquela historia não fazia o menor


sentido, um homem que ele nunca tinha visto antes,
aparece do nada aquilo parecia loucura. Como Lucca
pode acreditar nas palavras dele?
O menino não sabia ao certo, mais lá no fundo
ele acreditava no que Sam dizia, era como se eles já
se conhecessem há muito tempo.
- Esse livro contem toda a historia do mundo.
Desde o inicio dos tempos, ate o fim das eras. – Disse
o homem entregando a Lucca o velho livro.
Lucca examinou o livro minuciosamente.
O livro era um pouco grosso, como se tivesse
mais paginas do que pudesse suportar, mais mesmo
114
APOLLO SOUZA

assim estava em perfeito estado de conservação a


não ser pelas folhas amareladas e cheirando a mofo
como se tivesse ficado muito tempo esquecido em
uma prateleira de um sebo de livros usados.
- O que eu vou fazer com isso? – ele
perguntou examinando folha por folha. – Este livro
esta em branco.
- O livro só mostra aquilo que o seu possuidor
quer ver, e infelizmente você ainda não acredita. –
Disse Sam encarando Lucca nos Olhos.
Ele sentiu um arrepio gélido percorrer todo
seu corpo subindo a espinha, Lucca podia sentir
Samuel estivesse fuzilando-o apenas com um olhar.
Era como se ele estivesse olhando para sua alma, as
palavras do pai agora ecoavam em sua mente “você
esta destinado a grandes coisas Lucca”.
- Este é o grimorio da Criação?
- Sim, este é o seu grimorio. – Respondeu Sam
como se ele já soubesse o que seria perguntado a
seguir.

115
OS GUARDIÕES

- Não. Esse grimorio não pode ser meu, ele


não me mostra nada.
- Você ainda não se deu conta do grande
poder que tem. Vocês vão guia-los a lugares
inimagináveis.
- Eu não sei fazer um simples circulo de
transmutação direito. Como posso ser guia de
alguém.
- Você já tem tudo o que precisa só não se deu
conta disso.
- Olhe para eles, eles precisam de você mais
do que nunca.
Os quatro garotos estavam imóveis, era como
se o tempo estivesse parado para eles. Apenas Lucca
e Samuel se mexiam livremente.
- O que isso significa? Quis saber Lucca
- Significa que você esta pronto para assumir
seu destino. Seu poder latente foi despertado.
- O que você quer dizer com poder latente?
- você vai descobrir no momento certo.

116
APOLLO SOUZA

Ele já tinha olhado aquele livro de todas as


formas, de traz para frente, de cima para baixo e
nada acontecia, nenhuma letra surgira nem um
simples feitiço. Como Lucca poderia ajudar os
amigos a cumprirem sua missão se ele não sabia usar
magia.
- Um grande perigo se aproxima, e vocês
serão postos a prova.
Lucca checou o projeto mais uma vez, segundo
seus cálculo ela estava perfeitamente alinhada em
seu eixo, ela media quarenta e cinco centímetros e o
peso estava proporcionalmente distribuído em toda a
sua extensão. Era uma completa loucura o que ele
estava pensando, mais depois do que aconteceu ele
se sentia mais capaz, o encontro com Sam o levou a
crer que alguma coisa ali tinha despertado seus
poderes mágicos adormecidos, em duas semanas ele
passou de um completo fiasco a um aprendiz de
mago em treinamento.
Ninguém conseguia entender direito mais agora
o menino antes taxado de idiota era capaz de realizar

117
OS GUARDIÕES

alguns truques simples de magia, como a levitação


ou a mudança física de alguns objetos, coisas que ate
pouco tempo atrás ele era incapaz de executar
sozinho ou com a ajuda de alguém. Na verdade
nenhum deles foi capaz de explicar com certeza mais
aquele encontro mudou a vida dos cinco garotos de
forma brutal. A magia era algo comum entre eles,
isso porque Lucca nunca havia escondido nada que
dizia respeito a sua vida, pelo menos para seus
amigos, componentes dos Anjos de Metal.
Os cinco descendiam de uma linhagem mágica
que estava destinada a restaurar o equilíbrio da
magia no planeta, como seu pai havia explicado a ele
tantas e tantas vezes na vida, eles nunca levaram
tanta fé assim mais segundo suas famílias essa era
uma parte importante de sua historia e deveria ser
preservada.
Ate aquele momento nenhum deles acreditava
em nada daquilo, mais depois que Lucca acabou com
o porão do colégio, todos eles adquiriram uma
habilidade estranha. Agora Adam, Jimmy, Tonny e

118
APOLLO SOUZA

Drew treinavam para controlar um elemento, eles


não sabiam como mais o incidente no porão havia
dado aos cinco algum tipo de energia elementar
adormecida.
Esses efeitos se intensificavam ainda mais
quando eles estavam juntos e isso fez com que eles
permanecessem em grupo quando queriam aprontar
das suas. Lucca era o único que não podia “usar um
elemento” mais em compensação seu talento
adormecido para a alquimia aflorou como nunca, e
na presença de um dos garotos seu poder se
intensificava assim como o deles.
Sua ideia era criar um instrumento que
facilitasse a canalização dessa energia, um
instrumento que aumentasse a capacidade física de
seu usuário.
A cabeça de Lucca estava fervilhando de ideias
para testes que deveriam ser feitos com os livros, um
deles e o que mais chamava atenção era um ritual de
invocação familiar que serviria como um tipo de
guardião protetor, esse era um ritual, apesar de

119
OS GUARDIÕES

Lucca não entender cem por cento do que realmente


estava descrito em cada um dos livros por terem
escritas diferentes.
Aquele ritual de guarda traria um guia para
poder ajudar na canalização de um tipo de energia
elementar, em alguns documentos antigos roubados
da biblioteca do pai, Lucca encontrou algo parecido
com aquilo, eram relatos de bruxas que usavam
gatos, ratos ou cachorros como familiares para poder
proteger suas almas por causa da santa inquisição
promovida pela igreja no século XV. Esse ritual seria
perfeito para que ele pusesse em pratica a sua
melhor ideia ate agora, uma varinha mágica que lhe
permitisse canalizar a magia ao seu redor usufruindo
de todos os elementos.
O único problema era que Lucca não tinha
certeza se isso daria certo, e mesmo assim ele ainda
precisaria de um núcleo mágico compatível com o
protótipo que ele estava desenvolvendo, afinal todos
os núcleos possíveis já estavam extintos da face da
terra e não havia ninguém por perto capaz de

120
APOLLO SOUZA

fabricar tal artefato. Pelo de unicórnio, curupira,


pena de fênix, escama de sereia e outros artefatos
considerados mágicos eram raríssimos de serem
encontrados e por tanto caros de mais para um
menino de 17 anos do subúrbio conseguir, sua única
opção era a fabricação da própria varinha.
Ele tinha o corpo físico da varinha, o dia
propicio e o ritual necessário para a fabricação à
única coisa que faltava era o núcleo mágico, o único
núcleo disponível para ele era a fibra do coração de
dragão, e o único dragão existente nessa época é o
dragão de komodo, e por ser um animal em extinção
esta proibido de ser caçado capturado e morto.
Se seus cálculos estivessem corretos, coisa em
que ele apostaria sua vida, seu pai teria guardado em
algum lugar o núcleo perfeito para o seu
experimento, o artefato mágico mais poderoso que
ele já conhecerá na vida, a pedra filosofal. O único
problema era que Orfeu jamais deixaria que ele
usasse aquele artefato em uma coisa como essa, ele
teria que pegá-la sem que o pai percebesse e devolve-

121
OS GUARDIÕES

la assim que possível. Um pequeno fragmento seria


mais que suficiente para gerar o poder necessário
para a varinha, assim eles apenas teriam de esperar o
dia perfeito.

122
APOLLO SOUZA

PARTE II

123
OS GUARDIÕES

124
APOLLO SOUZA

XI
LUA AZUL

Os cinco se reuniram na casa de Lucca aquela


tarde, já que o habitual quartel general dos garotos
estava interditado ate segunda ordem.
Aquela era mais uma tarde rotineira na vida
dos garotos, jogos e lanches. O legal de estarem na
casa de Lucca era que eles nunca repetiam um único
jogo sequer durante a semana. O gênio nerd era
considerado o rei dos jogos.
Ele tinha de tudo o que se pudessem
imaginar, todos os tipos de cards, livros e CDs, ate
mesmo antigos jogos de tabuleiros e caça palavras.
Em cima da mesa um livro surrado de D&D
estava aberto em uma das paginas de personagens,

125
OS GUARDIÕES

varias folhas estavam escritas com os nomes e as


atribuições dos personagens esperando apenas o
inicio de mais uma interminável partida. Mais
nenhum deles parecia interessado no jogo.
Pelo menos não naquela tarde.
- Lua azul. – Disse Tommy ao ver o pedaço de
papel sobre a mesa. - É o fenômeno que vai acontecer
hoje à noite.
- Isso mesmo. – Ele disse, - O ritual tem que
ser feito hoje à noite num lugar onde todos os
elementos se reúnem, e nos cinco temos que ir.
- Na reserva. – Disse Adan tomando o pedaço
de papel para si
- Mais porque nos cinco temos que ir?
Perguntou Drew.
- Porque isso deve ser feito com um circulo de
exatamente cinco pessoas. – ele respondeu. – tem a
ver com os cinco elementos
- essa sua conta num ta errada não. – disse
Adan contando nos dedos.

126
APOLLO SOUZA

- existem quatro elementos básicos... – Lucca


começou
- terra, fogo, água e ar – completou Jimmy. –
Isso é ciência básica cabeção.
- Isso eu sei..., mais qual é a desse quinto
elemento?
- O quinto elemento é basicamente a junção
dos outros quatro. Lucca continuou. – segundo os
livros do papai eu preciso da representação dos
quatro elementos para poder transmutar energia
para a varinha e assim usar a magia da família
corretamente.
- Suponha que a gente resolva te ajudar. –
Disse Tommy com os olhos fixos no celular. – O que
nos teríamos que fazer?
- Simplesmente nada. Ele respondeu. – vocês
só me dariam o apoio moral.
- Isso parece furada para mim. – Disse Jimmy
desinteressado.
- Para mim também. – responderam os três em
uníssono.

127
OS GUARDIÕES

- Qual é pessoal, me quebrem essa. Ele disse


com um olhar de cachorro molhado. – Eu sempre uso
meus talentos a favor de vocês não é?
- Chantagem agora é? – Disse Tommy em tom
de brincadeira
- Ok, nos ajudamos. – Completou Adan -
como vai funcionar.
- É bem simples, apenas estejam lá às 18h e
deixem o resto comigo.

O sol começava a se por.


Em cima do telhado ela observava a fraca luz
solar deixar cidade, dando lugar à penumbra da
noite.
Alice sentia sua pele queimar mais não se
importava, aquele era um momento raro, de tanta
beleza que ela não se permitia perder, o sol saia de
cena e dava lugar pela segunda vez a uma lua

128
APOLLO SOUZA

majestosa, de um vermelho vivo, que aos poucos se


passaria do azul à prata em questão de segundos.
Cada segundo era precioso, ela poderia ver a
mesma lua através da redoma de seu quarto mais
não teria o mesmo sabor. O espetáculo visto a olho
nu era tão intenso e belo que valiam o sofrimento e a
agonia de ser quase queimada viva.
O sol e a lua dividiam o mesmo espaço, um se
curvando ao outro. O sol dava lugar à lua no céu
como se reconhecesse a grandiosidade do que estava
para acontecer àquela noite.
Por um segundo a imagem dele lhe veio à
cabeça, o som de sua voz invadia seus ouvidos mais
uma vez, ela fechou os olhos permitindo-se reviver
aquela lembrança mais uma vez.
Lucca estava diante dela. Seu rosto tinha a
mesma expressão severa, seus olhos pareciam saltar
de tanta raiva, mas para ela aquilo não importava.
Sem saber como ou porque a menina queria vê-lo
mais uma vez, queria estar com ele, queria que ele
estivesse ali junto dela naquele instante.

129
OS GUARDIÕES

Seus batimentos aceleraram, o rosto de Lucca


começou a se esvair em fumaça, ela tentava segurá-lo
com as mãos mais era impossível, pois a fumaça
escapava por entre seus dedos. Os sons noturnos a
trouxeram de volta a vida real. A lua subia ainda
majestosa no céu.
Ela queria que aquele momento não
terminasse porem mais uma vez a sede de sangue
tomou conta dela. E mais uma vez ela se viu forçada
a ceder.
Em um salto a garota correu rumo à reserva
deixando para traz seus devaneios de adolescente.

Os cinco garotos agora estavam em um ponto


cego da reserva, longe de olhos curiosos. Lucca
carregava consigo dois livros em couro curtido,
grossos e amarelados pelo tempo.
Ele não tinha garantias de que aquilo
realmente funcionaria, mas ele tinha que tentar. Se o
que Samuel lhe dissera fosse verdade (e ele estava

130
APOLLO SOUZA

torcendo para que fosse verdade), ele seria capaz de


despertar de uma vez por todas sua magia ate então
adormecida.
O festival da lua azul era um rito antigo de
passagem para jovens bruxas que chegavam aos
quinze anos, onde seria passado o para a mais nova
toda a sabedoria antiga escrita em um livro.
Em muitos dos casos um novo livro em
branco era entregue a mais nova para que ela
escrevesse seus próprios ensinamentos sobre a
magia, uma nova visão do que já estava sendo
repassado para ela através dos anos e para isso era
delegado a ela algo místico que a fizesse enxergar o
tecido mágico do universo.
Teoricamente seu pai havia lhe explicando
como ocorria esse ritual de magia. Ele deveria ser
feito na segunda lua cheia do mês, quando o tecido
mágico estava mais forte. Ele servia para dar energia
mágica a objetos e seres místicos que seriam os guias
nessa nova jornada.
A lua estava em seu ponto mais alto.

131
OS GUARDIÕES

Lucca depôs os amigos para que eles


formassem um circulo e fez com que cada um
segurasse um dos elementos básicos.
- Não soltem isso por nada. - Ordenou ele. –
Isso não pode dar errado
- Qual é cara. Termina logo isso, - Disse Adan
segurando um punhado de terra. – aqui faz um frio
do cacete.
Ele colocou o livro em branco aberto no meio
do circulo, em pé no meio dos quatro ele apontou a
varinha de metal com um fragmento da pedra
filosofal na base em direção à lua.
- Eu, Lucca Souza, filho de Atlântida, venho
requerer minha magia de direito. Que a lua azul me
permita enxergar o véu invisível que recobre o
mundo.
Com uma intensa rajada de vento as paginas
do livro passaram uma a uma ate se fecharam.
Ao mesmo tempo uma leve corrente de ar
envolveu Lucca e foi passando de um por um

132
APOLLO SOUZA

naquele circulo. Era como se a magia que Lucca tanto


queria agora pertencesse a todos eles.
Um emaranhado de luzes surgiu diante de
seus olhos, era como se pequenas bolhas se sabão
luminosas explodissem diante de seus olhos dando
origem a varias cores.
- O que ta acontecendo aqui? – Perguntou
Jimmy sem entender, - Era para isso acontecer?
- Isso é incrível... – Disse Adan admirado com
o que era capaz de ver agora.
- Ate parece magia. – Completou Drew
- Isso não parece isso é magia. Respondeu
Lucca com os olhos fixos na lua.
Lucca apanhou o livro no chão abriu e folheou
as primeiras paginas, as paginas antes em branco
agora estavam repletas de conhecimento. Diante de
seus olhos um monte de letras e números dançavam
desordenados, todas as coisas pareciam ser feitas a
partir de um único código binário como num circuito
eletrônico de um jogo.

133
OS GUARDIÕES

- De alguma forma, esse ritual deu a todos nos


o dom da magia, se vocês são capazes de ver o eu
vejo, significa que ela pertence a vocês também.
- cara, que louco isso. – Disse Tonny. – O que
faremos agora?
- Agora iremos terminar esse ritual
convocando um familiar para cada um, só assim
poderemos controlar a energia elementar do
universo.
- Como você sabe disso? – Perguntou Adan.
- Esta tudo escrito aqui. – disse ele mostrando
o livro agora escrito.
- Isso deve ser feito ainda hoje. – Uma voz
conhecida ecoou na escuridão.
Tomado pelo medo Lucca apanhou a varinha
e apontou na direção em que se ouvia a voz.
- Guarde a sua varinha, você não precisa desse
instrumento arcaico. Disse o homem. – Eu não vim
lhes fazer mal.
Os garotos viram surgir das sombras o
homem que os espreitava, Samuel os observava

134
APOLLO SOUZA

desde aquela tarde como se esperasse o momento


certo para aparecer.
- Isso é jeito de aparecer?... Quase me matou
de susto. – Disse Adan com o que parecia ser uma
pedra na mão.
- Isso foi imprudente de sua parte garoto. –
Esbravejou Samuel com os olhos fixos no grupo.
- ah... Desculpe-me. Respondeu Adan
automaticamente.
- você não fedelho, ele. – Disse Samuel
apontando para Lucca. Era para você despertar o
Grimorio e não a magia de todos eles. Eles ainda não
estão prontos pra isso.
- Como assim. Só o livro? Quis saber Lucca.
- Eu explico depois, antes temos que conter as
energias de todos aqui, antes que algo ruim aconteça.
- Ruim tipo? – Perguntou Jimmy tomando
coragem.
- Tipo... Ou vocês fazem o que eu digo ou
estão ferrados. Agora cala a boca e faz o que eu
disser.

135
OS GUARDIÕES

- Ok..., ok não precisa disso tudo não.


- você trouxe o sal não é? – Perguntou Sam
como se a vida dele dependesse disso.
Lucca entregou a ele um pacote de sal groso.
- Fiquem perto do circulo. – Ordenou Sam
desenhando um pentagrama no chão. - Espíritos da
terra, do fogo, do ar e da água eu os saúdo como
iguais. E juro proteger os segredos confiados a mim
através das eras, e repassa-lo para as próximas
gerações.
- O que ele ta fazendo Lucca. – Perguntou
Tommy
- Cala a boca e espera – ele respondeu.
- Eu agora passo a diante, minha centelha de
guardião e peço ajuda e proteção aos novos anjos que
agora aceitam a missão.
Samuel alinhou as cinco pedras que trazia no
bolso dentro do pentagrama. As pedras brilharam
tão intensamente ofuscando a visão de todos dando
lugar a quatro pequenos animais.

136
APOLLO SOUZA

- A partir de agora eles são responsabilidade


de vocês. – Disse Sam fazendo carinho no que
parecia ser um lagarto um pouco maior que o de
costume. – o resto é com vocês.

137
OS GUARDIÕES

XII
LAÇO FAMILIAR

- Vocês devem terminar o ritual. – Disse


Samuel. – cada um terá um servo para que o ajude a
compreender o uso correto da magia.
- Eles não vão morder, vão? – Perguntou Drew
estendendo a mão para que o pequeno animal a
cheirasse.
- Podem ficar tranquilos. – Respondeu ele.
- Eu só vejo quatro animais aqui. E nos somos
cinco. – Disse Tonny.
- Esses animais representam os quatro
elementos, eles são regentes das quatro nações
mágicas que existiram antigamente. – Disse Sam.
- Mais por que só quatro se nos somos cinco? –
Perguntou Adam.

138
APOLLO SOUZA

- O quinto familiar aparecera quando o quinto


membro desta equipe estiver pronto, pois ele é a
junção dos quatro aqui presentes.
- Como faremos isso? – Perguntou Jimmy com
uma espécie de lagarto ao redor do pescoço.
- Adan, você recebe o dom da terra e com ele o
seu protetor Lupin. Este lobo pode parecer dócil
mais carrega consigo a força esmagadora da terra.
- Ola Lupin, espero que possamos nos dar
bem.
Lupin parecia ser uma mistura de lobo guará
com cachorro, seus pelos eram marrons mesclados
com o cinza, os olhos cor de âmbar eram ferozes e
dóceis ao mesmo tempo. O animal deu uma lambida
na bochecha de Adan como se retribuísse a saudação
do novo amigo.
- Jimmy, você tem consigo um mico leão
dourado. Ele representa o fogo que é o seu elemento.
Como você ele pode aquecer os corações, proteger do
frio. Mais em proporções erradas é destruidor, tome
cuidado.

139
OS GUARDIÕES

- Ok. – ele respondeu sorrindo, com os


gracejos do animal em seu cabelo.
- Drew, a tartaruga marinha representa a
mudança das águas, paciente e profunda, aprenda
com as marés.
- E por ultimo a arara azul, animal que guarda
com sigo os mistérios do ar pertence a você Tony.
- Qual o meu familiar? – Perguntou Lucca,
sentindo uma pontada de inveja dos amigos.
- Vocês já estão juntos há muito tempo, só não
perceberam isso ainda. No momento certo ele se
revelará a você. – Disse Sam. Agora nos temos que
sair daqui e nos esconder, pois o mal se aproxima.
- O ritual não foi terminado. – Disse Lucca
lendo o grimorio.
- Nós não temos mais tempo. – Disse Sam. –
Ele já esta aqui.
- Ele quem?... – Quis saber Drew.
O garoto não obteve resposta.

140
APOLLO SOUZA

Antes que Sam pudesse dizer alguma coisa


um denso nevoeiro os alcançou, as folhas das arvores
ao redor começaram a secar.
O nevoeiro corroia tudo por onde passava, o
ar ficou rarefeito, fazendo todos respirarem com
dificuldade. Os animais antes felizes agora estavam
cabisbaixos e sem forças.
- CORRAM. – Gritou Samuel, - tirem os
animais daqui agora.
- Que porcaria é essa? – Perguntou Lucca
apertando a varinha nas mãos.
- Eu vou tentar atrasá-la. – Disse ele. – apenas
saia daqui. AGORA.
Deixando Samuel sozinho com a coisa Lucca e
os amigos correram sem olhar para trás.

141
OS GUARDIÕES

XIII
SOB A MESMA LUA

Cada um deles correu em direções opostas,


carregando consigo os animais que ali estavam. Em
alguns minutos Lucca estava sozinho no meio da
mata.
As arvores eram mais altas ali, ele nunca tinha
entrado naquela parte da reserva, Lucca ainda podia
ver as luzes ao longe todas as vezes que olhava para
trás.
Seu coração estava tão acelerado que
ameaçava sair pela boca. A adrenalina do momento o
fazia correr tão rápido que o garoto quase não sentia
o chão embaixo dos seus pés.

142
APOLLO SOUZA

- Aonde eu vim me meter. – ele pensou em


voz alta.
Apesar dos óculos de algum modo Lucca
podia enxergar muito bem a noite, seus instintos
diziam que era perigoso estar ali, alguma coisa muito
ruim estava prestes a acontecer e ele tinha muito
medo.
- Você já pode sair. – ele disse apontando sua
varinha na direção de uma arvore. – por que você
esta me seguindo?
- Ora... Ora, ela disse saindo detrás de uma
arvore. – o que você pretende com isso. – Disse Alice
fixando os olhos no objeto.
- Chegue mais perto e descobrirá. – ele
respondeu.
- A Korcovado esta muito longe para você
querer dar uma de Hugo Escarlate pra cima de mim.
– Respondeu ela irônica. – Acha que eu tenho medo
de um cosplay mal feito.
Em segundos ele sentiu as mãos frias dela
apertando seu pescoço. Alice o encarava nos olhos.

143
OS GUARDIÕES

Ele podia ver em seus olhos a euforia que ela


sentia com naquele ato, um sorriso malicioso surgiu
em seus lábios mostrando as presas prontas para
serem cravadas em seu pescoço.
Sua vida estava se esvaindo. Ele não
conseguia mais respirar, Lucca precisava fazer
alguma coisa rápido ou não viveria para ver contar a
historia.
- Alquimia básica. – ele lembrou. –
decomposição e recomposição da matéria.
Ele manteve seus olhos nos dela, pensando na
decomposição do cálcio. Com um movimento
simples de sua varinha ele fez a mão de Alice ficar
tão mole quanto uma gelatina, fazendo a garota
perder completamente o movimento de seu braço.
Finalmente ele estava livre.
Alice não conseguia entender como ou porque
seu braço não respondia a sua vontade. Agora ele
estava no controle.
- Isso é alquimia. – Disse ele por fim. – Seu
braço ira se reconstituir em breve, e...

144
APOLLO SOUZA

Ele não teve tempo de terminar a frase, um


ruído irrompeu seus ouvidos fazendo-o desmaiar.
Quando Lucca acordou estava amarrado a uma
arvore.
- Como eu desmaiei? – ele perguntou confuso.
- Antes me diga como eu recupero meus
ossos? Ela perguntou ameaçadoramente olhando em
seus olhos.
- Com alquimia. – ele respondeu
automaticamente. Lucca não queria responde, mais
ele se via forçado a isso, parecia não ser dono de si
mesmo.
Mesmo insegura com relação a ele Alice
resolveu lhe dar um voto de confiança. Com uma só
mão ela arrebentou as amarras.
- Um passo em falso e eu trucido você. – ela
disse mostrando as presas. Alice assoviou e um
morcego voou em círculos em cima de suas cabeças.
O animal soltou a varinha de Lucca em seus
pés.

145
OS GUARDIÕES

- O que há com ele? – perguntou ele


apanhando a varinha.
- Eu não sei. - Ela respondeu, - Ele esta me
segundo a alguns minutos.
- Por que ele esta seguindo você? – ele
perguntou.
- Eu não sei, ele apareceu do meu lado há
alguns minutos atas e desde então não para de me
seguir.
- Isso é estranho...
- Meus ossos, por favor. Ela pediu segurando
a mão.
-... Ah, sim... Desculpe.
Com um rápido movimento do pulso, Lucca
girou a varinha fazendo com que um jato de luz
branca envolvesse o pulso de Alice reconstituindo
seus ossos por completo.
- Como você consegue fazer isso? Ela
perguntou intrigada.
- Eu sou um alquimista. – Ele respondeu.

146
APOLLO SOUZA

- Alquimistas ainda existem? Sempre pensei


que estivessem mortos.
- Mortos...
- É..., mamãe não os vê desde 1821.
- 1821? É brincadeira não é? Lucca parecia
confuso.
- Não. – Ela respondeu simplesmente.
– Sua mãe participou da inquisição?
- Sim. O que tem isso?
- Sua mãe tem 179 anos?
- Claro que não... Ela tem uns 205 mais ou
menos.
Lucca não parecia tão surpreso. Ele agora
começava a ligar todos os pontos.
- Essa pergunta me parece muito obvia mais
quantos anos você tem? - ele perguntou.
Alice percebeu a que ponto aquela conversa
iria chegar.
- 16 anos e sim, eu sou uma vampira. – ela
respondeu antecipadamente.

147
OS GUARDIÕES

Aquela atmosfera ameaçadora de antes havia


terminado, os dois agora estavam sentados embaixo
de uma das muitas arvores admirando a luz da lua.
Eles simplesmente haviam esquecido tudo, o
brilho do luar exercia sobre eles uma espécie de
efeito magnético. Nem Alice nem Lucca conseguiam
parar de olhar para o céu.
- Você me lembra de alguém. – Ela disse
pegando uma folha seca no chão. – Seu cheiro é
familiar, como se eu já tivesse te visto antes.
- Você me viu antes, - ele respondeu, - no
porão do colégio aquele dia.
- Não... Não é sobre aquele dia que eu estou
falando. É como eu disse você me lembra de alguém.
- Entendo.
O clima ameno fez Alice voltar a observar a
lua como no inicio daquela noite, ela se entregou ao
momento como uma criança pequena.
Uma lembrança veio sua mente. O rosto de
um homem sorrindo enquanto cantarolava para um
bebe em seus braços.

148
APOLLO SOUZA

As folhas das arvores balançavam ritmadas,


era como se cantassem uma sinfonia noturna, os sons
abafados fizeram Alice assoviar uma bela melodia de
uma cação de ninar.
Tamborilando os dedos no chão no mesmo
ritmo Lucca reconhecera a canção, era a mesma que o
pai cantou para ele durante os anos de sua infância.
Com um sussurro quase inaudível Alice
começou a cantar.

- Como as cores num retrato


o tempo insiste em desbotar,
As lembranças que eu guardei
estão todas a murchar.
Ao fechar os olhos me transporto
a um dia mais feliz.
Em meus sonhos modificar
um destino tão sombrio.

Realmente aquela era a mesma musica que


seu pai cantou para ele varias noites em sua infância,

149
OS GUARDIÕES

ele apenas há observou uns instantes ate ter coragem


para continuar.

- O calor do dia
envolve nossas mãos
Um fantasma do tempo,
sentimento que não chega ao fim,
Misturando amor e dor,
seu sorriso sempre viverá
Dentro de mim

Alice havia parado de cantar quando ele


iniciou a estrofe. Como ele poderia conhecer aquela
musica a musica que sua mãe cantava para ela quase
todos dos dias. Aquela musica pertencia a ela, e
somente a ela.
Ver outra pessoa cantando a sua canção de
ninar era estranho, mais mesmo assim ela continuou
e sua voz se misturou a dele na canção.

- Quando a noite cai, a saudade traz

150
APOLLO SOUZA

A lembrança do seu rosto


E uma lágrima se torna um santuário
Uma flor que cai
no silêncio e faz
A lembrança dessa história ecoar
Trilhar a estrada das pétalas
Em nossos laços de Flor.

A canção trouxe a tona sentimentos estranhos


para ela.
O corpo dela tremia, seu coração estava
acelerado e suas mãos suavam frio. Ela nunca tinha
se sentido assim na vida, Alice parecia apreciar uma
obra de arte, cada detalhe, luz e sombra como num
espetáculo teatral a procura de um defeito, porem
este não existia.
Lucca apenas observava o luar calado ao lado
dela. Ele parecia querer lembrar de alguém, alguém
de seu passado, cujo rosto era apenas um borrão
confuso em sua mente.

151
OS GUARDIÕES

- Ela é linda não é? – Disse Alice olhando para


ele, – minha mãe costumava cantar ela para mim na
hora de dormir.
- Eu nunca conheci minha mãe. – Disse ele
com os olhos marejados.
- O que aconteceu com ela? – A garota
perguntou receosa ao segurar sua mão.
- Ela morreu no dia em que eu nasci. – ele
Respondeu enxugando as lagrimas.
- Eu também não conheci meu pai, ele
desapareceu antes mesmo do meu nascimento,
mamãe diz que é o destino. Eles não estavam
destinados a ficar juntos.
- Eu sinto muito. – Disse ele ajeitando os
óculos. - O que houve com ele.
- Eu não sei. Ele simplesmente desapareceu.
Mamãe diz que foram as circunstâncias que fizeram
ele se separarem. Eu acho que foi por causa da minha
condição.
- Seu pai não é um vampiro?

152
APOLLO SOUZA

Alice de algum modo se sentia segura perto


dele, parecia que ela o conhecia há muito tempo,
mesmo antes do incidente no porão do colégio. Ela se
aproximava cada vez mais de Lucca, ele tinha um
cheiro inebriante e adocicado.
Ela não conseguia resistir. Ela simplesmente
não queria resistir a ele, queria se entregar aquelas
novas sensações, um misto de medo e insegurança.
Ele se virou para ela ao perceber que ela o
olhava, ele queria beija-la.
Ela parecia tentada a aceitar qualquer coisa
que ele lhe oferecesse.
- Aahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhr!
Um grito vindo de longe trouxe os dois
garotos de volta a realidade.
- O que foi isso? – Perguntou Alice assustada.
- Samuel. – Disse Lucca levantando-se às
pressas. – Eu preciso ajuda-lo.

153
OS GUARDIÕES

XIV
NA NOITE MAIS ESCURA

Produzindo uma barreira luminosa, Samuel


deteve o ser que ameaçava a integridade dos novos
guardiões. Eles ainda não estavam preparados para
toda a verdade.
Um ser que era capaz de manipular mentes,
aniquilar civilizações e destruir mundos, estava mais
uma vez resurgindo.
- Você não pode me deter por mais tempo
Samuel – Disse a voz espectral vinda do alem. -
Enquanto a humanidade existir o vazio também
existirá.

154
APOLLO SOUZA

- Sempre que você ameaçar a terra nós


estaremos aqui. – Ele respondeu olhando para um
amontoado de fumaça escura que se materializara
bem na sua frente.
Samuel olhava para trás constantemente,
preocupado que os garotos estivessem longe dali a
salvo daquele ser desprezível.
- Nenhum deles acredita realmente. – Disse a
voz. – Eu sei... Pois estou em toda parte, consumindo
cada um deles aos poucos.
- você não pode forçar os humanos a nada. –
Disse Samuel aproximando-se do inimigo.
- Eu não preciso de muitos, um só me basta. –
A fumaça agora parecia tomar a forma de uma
garota.
- Eu irei protegê-los. – Respondeu Samuel –
Custe o que custar.
- Os sonhos são um passe para o submundo,
meu caro. A enganação dos sonhos, o vazio é a partir
daí que eu me materializo da animosidade humana.
Eles tem seus corações conturbados do ódio, da

155
OS GUARDIÕES

inveja e da maldade. E nesse mundo você não tem


poder.
- Eles são mais fortes do que você imagina. –
O antigo guardião agora parecia perdido,
procurando por alguma coisa no fundo de sua
mente, alguma coisa que pudesse tira-lo dali em
segurança.
- Eu destruirei todos eles. – respondeu a forma
feminina. – Sua amada Helena foi apenas um mero
detalhe.
Samuel agora podia distinguir a forma que a
sombra vazia tomara. A forma feminina era Helena,
a mulher que dividiu com ele a centelha da criação
há anos atrás.
- Ela suplicou que você a salvasse. – Disse a
mulher. – você não foi capaz de salva-lá.
- Eu não deixarei que você vença.- Disse
Samuel entoando algumas palavras estranhas.
- você não pode fazer mais nada contra mim. –
Disse o ser transmutado em Helena. – Meu arauto já
foi escolhido.

156
APOLLO SOUZA

De repente tudo mudou, eles estavam


cercados por uma espécie de campo de força, uma
dimensão paralela criada apenas para eles. Aquele
seria um duelo meramente mental, onde a mente
mais forte sobreviveria.
Em segundos tudo ficou frio, as arvores
pareciam gemer de dor, o mundo estava sendo
destruído, e Samuel era um mero espectador do
acaso.
- Você também pode ver meu velho amigo. -
Disse a mulher com lagrimas de sangue em seus
olhos. – Essa terra perecerá pelas mãos dos tolos
humanos que você insiste em proteger.
- Os seres humanos erraram sim, - ele
respondeu, - mais aprenderam com seus erros.
- Que povo é esse que destroem o lugar onde
vivem, devastam florestas, poluem os rios e matam
uns ao outros em troca de falsas riquezas.

157
OS GUARDIÕES

- Eles ainda tem muito que aprender, de fato,


mais a humanidade já vê a natureza com outros
olhos, pensando nas gerações futuras eles tentam
proteger o que ainda resta.
- Não seja tolo. Eles apenas temem o futuro
previsto por seus métodos e estudos arcaicos.
Os dois trocavam olhares desafiadores.
Samuel ainda via naquele ser desprezível um
estimado amigo, que dividiu com ele um passado
cheio de gloria. Ele reuniu suas ultimas forças para
criar uma barreira de energia luminosa para proteger
aquele lugar.
Finalmente o inimigo revela sua verdadeira
forma. O amontoado se fumaça, que antes tomara a
forma de Helena agora tinha a aparência de um
corpo desfigurado esquelético exalando morte ao seu
redor.
A cada passo dado à criatura destruía a
vegetação a sua volta, o que antes era um esplendor
de beleza, apodrecia em sua presença. Ele era como o
ceifeiro, anunciando a morte por onde passava.

158
APOLLO SOUZA

- Eu ainda pareço uma pessoa normal?


Perguntou o ser zumbificado.
Aproximando- se dele com passos lentos, a
criatura estendeu a mão para ele procurando por
algo que o confortasse.
- Você não é nada alem de um grande amigo
do passado, de quem eu guardo boas lembranças.
- O seu tempo de guardião esta próximo do
fim meu amigo. – Disse com uma voz gutural
próxima ao seu ouvido.
Samuel sentiu o peito doer, um liquido
viscoso e quente escorria por seu corpo, ele sentia
seu corpo pesar, o frio tomando conta de todo o seu
ser. Um som abafado estava preso em sua garganta,
Samuel estava quase sem forças suas pernas
bambeavam, ele parecia não se segurar em pé, estava
prestes a desmaiar.
- O Zaon que você conheceu não existe mais,
essa é apenas uma casca inútil para mim agora.
- Ahhhhhhhhhhhhhr!

159
OS GUARDIÕES

XV
CONTRATO

Um clarão vindo do meio da reserva fez o


garoto acordar de seus devaneios, Ângelo correu em
direção a ela, ele queria checar a fonte daquele
fenômeno algo ali parecia estar errado.
Ele avançou mata adentro esperando
encontrar Alice segura, não sabia o que estava
acontecendo, ela nunca tinha demorado tanto tempo
lá nesse horário, meia hora no máximo era suficiente
para que ela se alimentasse.
Ele sabia de seu segredo já há muito tempo,
Alice era extremamente cautelosa em suas caçadas,
ela sempre procurava os horários em que poucas

160
APOLLO SOUZA

pessoas estariam na reserva e em questão de minutos


ela estaria de novo em casa.
Ângelo era apaixonado por Alice, era uma
paixão obsessiva, ele parecia não viver sem ela.
Passava todo o tempo observando todos os
movimentos que ela fazia seus hábitos e costumes.
Não demorou muito para ele perceber a
verdadeira natureza de Alice e de Eurídice, a vida
noturna e os carregamentos periódicos de sangue
confirmaram suas suspeitas.
Há algumas semanas Alice estava estranha,
ela havia saído um pouco de sua rotina habitual,
parecia confusa e indecisa com alguma coisa.
- Teria algo a ver com o homem que estivera
em sua casa alguns dias atrás. – Ele pensou de
repente. – O que você quer com a minha Alice.
- Ele ira rouba-la de você.
Ângelo ouviu uma voz desconhecida. Seu
coração batia mais rápido à medida que ele
avançava.

161
OS GUARDIÕES

- Ele também a ama. – A voz continuava a


sussurrar.
O garoto procurava de onde vinha aquela
estranha voz, ela parecia estar tão perto, mas ele não
via de onde ela vinha.
- Quem esta ai? – perguntou o garoto.
- Venha ate mim Ângelo, siga a minha voz.
- O que você quer de mim?
- Quero que me ajude a realizar meu desejo. –
Disse a voz. – Eu posso te dar o mundo em troca.
- Eu não quero o mundo. – Ele respondeu.
- Eu posso te dar o amor de Alice, basta que
você diga sim.
A voz havia tocado em seu ponto fraco, Alice
era a única coisa em todo o mundo que fazia Az ter
vontade de sair de casa. Ela era a única parte do seu
dia que realmente valia a pena.
- Eu tenho o poder para realizar todos os seus
desejos. – continuou a voz. – Em troca só peço que
me ajude a reconstruir esse mundo.
- Sim, este mundo esta podre.

162
APOLLO SOUZA

- Torne-se a peça crucial de minha vingança e


realize seu maior desejo, peça qualquer coisa e eu te
darei.
- Só há uma coisa nesse mundo que eu desejo
realmente. O amor de Alice.

163
OS GUARDIÕES

XVI
DECLARAÇÃO DE GUERRA

Os quatro garotos correram em direções


opostas. Adam seguiu em direção a grande praça no
inicio da reserva, ele esperava encontrar algum dos
amigos quando chegasse lá.
Ele não sabia ao certo o que estava
acontecendo com Samuel, só sabia que era perigoso
para aquele ele estar ali perto daquela coisa. Ao ver
aquela coisa destruindo tudo por onde passava o
garoto sentiu um aperto no peito, uma sensação
estranha tomou conta de todo o seu corpo.
- O que foi aquilo? – Perguntou Adam
sentando-se em um tronco de arvore.

164
APOLLO SOUZA

O rapaz olhava para o pequeno lobo roçando


o corpo em sua perna, ele esperava que o pequeno
animal tivesse a resposta que ele precisava.
- Você não pode me explicar o que esta
acontecendo não é? – Disse o garoto acariciando o
animal em retribuição.
- Eles estão iniciando uma guerra. – Disse um
garoto saindo detrás de uma arvore.
- hem? – disse Adam surpreso.
- Ou melhor, eles reiniciaram uma guerra.
- Ah, é você Ângelo. – Disse Adam levantado-
se em um salto. – Como você...
- ...sei disso? – O rapaz completou depressa.
O pequeno lobo guará eriçou o pelo, estava à
espera de uma ordem para atacar aquele convidado
inesperado.
- Eu sei de muitas coisas, coisas que você nem
imagina. – Ele disse com um olhar ameaçador para o
animal. – Esse espécime não pertence a este lugar.

165
OS GUARDIÕES

Az tentou tocar no animal mais não obteve


sucesso, o lobo recuou quando o garoto se
aproximou dele.
- Parece que ele não gosta muito de você. –
Disse Adam pegando o animal do chão.
- Ele já sabe do contrato. – Respondeu Az
olhando para eles.
- De que contrato você esta falando? –
perguntou Adam
- Seu mentor morrerá esta noite, e eu fui
enviado por ele para destruir o seu legado. –
respondeu Az apanhando um punhado de folhas
secas.
O lobo parecia furioso nos braços de Adam,
ele rosnava para o rapaz, mostrando os dentes
impaciente. Adam olhava ao redor a procura de uma
rota segura de fuga.
- Não adianta fugir anjo, seu destino esta
traçado. – Disse o garoto.
- E você vai me matar agora não é?

166
APOLLO SOUZA

Não se preocupe. – Az respondeu, - eu não


vou mata-los agora, só quero que de um recado para
mim.
- Que recado seria esse?
- Diz para o Lucca que ela é só minha.

Aos poucos ele estava sendo tomado pela


energia negra, se ele não fizesse algo rápido, logo
estaria morto. Samuel reuniu forças para conter o
mal em seu corpo.
Lucca disparou uma rajada de luzes
vermelhas contra o homem que assista aquela cena
perplexo, mais nada aconteceu.
Samuel se consocia de dor caído no chão,
Alice assistia a tudo sem entender o que estava
acontecendo.
- Rápido, você tem que fazer alguma coisa. – a
garota disse atordoada. – Ou ele vai morrer.
- Sam, o que ta acontecendo? Perguntou Lucca
sem entender.

167
OS GUARDIÕES

- Lucca você tem que me matar agora. – Disse


Samuel quase sem voz.
- Eu não posso fazer isso. – Afirmou o garoto.
- Lucca rápido... Anda logo e me mata. Ele
esta fraco agora, não esta?
Lucca não queria aceitar o fato de ter que
matar uma pessoa.
- Se você esperar ele sair do meu corpo, ele vai
destruir tudo.
- Se eu fizer isso você vai...
- É preciso. Não hesite, apenas faça.
Samuel estava quase sem forças, agonizante
ele suplicou por ajuda, seus poderes já não eram
mais suficientes contra aquela coisa, ela estava
ficando cada vez mais forte.
O rapaz estava em choque, um homem estava
prestes a morrer diante de seus olhos e ele não era
forte o bastante para ajuda-lo.
Ele não era capaz de entender o que acontecia
ali, Lucca não era capaz de lutar, aquela varinha era

168
APOLLO SOUZA

inútil contra aquela coisa, tudo estava perdido, seria


apenas questão de tempo ate tudo acabar.
- LUCCAAAAAAAAAAAAAAA! – Alice
gritou de repente.
Aquele grito fez Lucca acordar, e lá estava
Alice correndo em direção ao corpo inerte de Samuel
caído no chão.
Mais uma vez o garoto pensou com toda a
força de sua mente em separar a sombra negra do
corpo de Samuel, e assim disparou uma nova rajada
de energia contra o corpo quase sem vida do amigo.
Samuel ainda se contorcia no chão, seus olhos
reviravam e ele babava como um bebe.
Impulsionada por algo que ela não sabia como
explicar, Alice em um piscar de olhos estava pronta
para cravar seus dentes na jugular de Samuel sem
prévio aviso.
Um denso liquido negro escorreu pelos
pequenos furos feitos por ela em sua jugular, Samuel
acabara de algum modo recobrando a consciência.
- Obrigado, minha doce Helena.

169
OS GUARDIÕES

Uma forte luz branca envolveu Alice e Samuel


como um escudo protetor, deixando de fora a coisa
gosmenta e viscosa que acabara de sair do pescoço
de Samuel. Lucca se aproximava deles devagar com
a varinha em punho.
- Nós temos que dar o fora daqui, o mais
rápido possível. Antes que ele retorne. – Disse
Samuel reunindo forças para se levantar.
Lucca tentava entender como ele tinha feito
aquilo, porque seus feitiços não funcionaram de
primeira? Porque só o escudo havia funcionado? Ele
precisava de respostas e Samuel era a única pessoa
que poderia respondê-las.
- Você terá suas respostas em breve Lucca. –
Disse Samuel. – Agora nós precisamos encontrar
seus amigos.

170
APOLLO SOUZA

Alice tinha acabado de pular na jugular de um


homem e deferido contra ele uma mordida fatal. Eles
estavam andando já há alguns minutos carregando
um homem desacordado com cerca de 90 kg.
- Como você conseguiu fazer aquilo? –
perguntou Lucca inquieto com o que acabara de ver.
– Não se sente mal com isso?
- Não, eu deveria? – Ela respondeu
simplesmente olhando para o horizonte.
- O que era aquela coisa. Algum amigo seu? –
Disse o garoto em tom de brincadeira.
- Olha garoto, eu não tenho nada a ver com
isso, ok. Nós tivemos uma conversa apenas e isso
não faz de você meu irmão. - Disse Alice soltando
Samuel em cima de Lucca para que ele carregasse.
O tiro saíra pela culatra, com poucas palavras
Lucca foi capaz de deixar o clima ainda mais sombrio
entre eles.
- Eu...
- Não diz nada, ta legal. Vamos tirar esse cara
daqui antes que eu mate você.

171
OS GUARDIÕES

Lucca segurou a varinha com força no bolso


da calça, pelo que ele tinha visto, se ela tentasse algo
contra ele, o garoto estaria preparado. Isso se a
varinha funcionasse direito.
- Desculpe, – disse ele sem jeito, - meu pai
sempre disse que as criaturas noturnas não merecem
confiança.
- Ele é um homem sábio. – disse ela sorrindo. –
você deveria escuta-lo mais vezes.
Alice colocou o braço de Samuel em volta de
seu pescoço e voltou a carrega-lo ao lado de Lucca,
perto dele ela não conseguia manter a frieza, ele fazia
brotar nela um lado mais humano que ela nunca
conheceu.
- Conte-me um segredo Lucca, qual a sua
lembrança mais antiga? – perguntou ela de repente. –
ou melhor, qual o seu maior medo.
- No meu caso os dois andam de mãos dadas.
– disse ele olhando para o relógio, para desvencilhar
do olhar dela.

172
APOLLO SOUZA

- Hum. – Indagou ela voltando a olhar para


frente.
- Minha mãe! – Disse ele repirando fundo. Eu
consigo me lembrar de tudo o que eu vejo e ouço.
- Isso é bem legal, não é. – disse ela. –
vampiros tem essa capacidade também.
- Ou melhor, é quase tudo. Eu não consigo me
lembrar do rosto da minha mãe.
- você disse que ela tinha morrido no dia em
que você nasceu. Como você pode se lembra dessa
época?
- não é muito claro, mais eu tenho quase
sempre um mesmo sonho, que creio eu seja uma
lembrança.
- Que tipo de lembrança? – Ela perguntou.
- Em meus sonhos, eu vejo uma mulher
embalando um bebe recém nascido, eu sempre a vejo
como um borrão luminoso, assim não consigo
distinguir quem é essa mulher.
- Você já alou com seu pai sobre isso?
Perguntou ela.

173
OS GUARDIÕES

- Meu pai e eu temos uma relação complicada.


Ele só esta preocupado em me ensinar magia. – Disse
ele. – Para ele, sou eu quem vai restituir Atlântida ao
seu lugar.
- O que há de estranho nisso? Eu aprendi
muitas coisas (para não dizer tudo) com a minha
mãe. – Disse ela apreensiva.
- Você me pareceu uma assassina nata. – Ele
disse olhando o chão.
- Isso faz parte de mim e eu devo aprender a
lidar com isso. – Disse ela em resposta.
- Porque você torna tudo tão difícil? – Ele
perguntou cabisbaixo.
- Essa é a minha natureza. – ela respondeu. –
Eu simplesmente vejo as coisas como são, e não
como deveriam ser.

Samuel ainda estava fraco e caminhava com


dificuldade apoiado nos ombros dos dois. Eles
carregaram o corpo quase sem vida de Samuel por

174
APOLLO SOUZA

quilômetros ate saírem da parte inabitada da reserva,


ate chegarem à rua onde Lucca morava.
- O que era aquela coisa e o que ela fazia aqui?
- Perguntou Alice confusa.
- Eu não sei. – Disse ele colocando a varinha
no bolso.
- você esta louco? – Ela perguntou brava. –
não guarda esse treco aquela coisa pode voltar.
Alice não aparentava, mas ela estava
morrendo de medo. Em seus 17 anos de vida
noturna, ela nunca tinha visto algo como aquilo
antes.
- Onde ele vai ficar? – ela perguntou quase
caindo.
- Ele esta hospedado em uma pousada. – ele
respondeu.
- Onde fica isso?
Lucca retirou o celular do bolso, mexeu nele
por alguns segundos e nada aconteceu. O aparelho
não funcionou.

175
OS GUARDIÕES

- Eu não sei. – Disse ele guardando-o de volta


no bolso.
- E então, onde ele vai dormir? – perguntou
ela encarando-o. O olhar dela era como se dissesse,
na minha casa não.
- Ele pode ficar na minha casa esta noite. –
disse ele entendendo o recado.

Lucca colocou Samuel escorado a uma pilastra


da varanda enquanto abria a porta da garagem, foi
ate a porta de entrada lateral que dava acesso à
cozinha e observou por algum tempo o movimento
da casa.
Tudo parecia calmo, como o carro não estava
na garagem o garoto deduziu o obvio, seu pai não
estava em casa.
Alice continuava de pé do lado de fora
olhando para ele.
- O que você faz parada ai? – ele perguntou.

176
APOLLO SOUZA

- Eu preciso ser convidada a entrar, se não eu


não posso. – ela respondeu olhando a sua volta.
A garagem era enorme e parecia um ferro
velho, alem de vários instrumentos num canto, e em
outro vários materiais recicláveis e ferramentas. Em
cima de uma mesa uma espécie de bateria estava
recebendo carga ligada à tomada, e do lado oposto a
ela uma cabeça, braços e pernas completavam o
conjunto.
- Eu que fiz. – disse ele vendo o interesse da
menina na mesa.
- E isso seria...?
- Isso é uma IA. – ele respondeu enquanto ela
chegava mais perto.
- Uma o que? – ela perguntou confusa.
- Uma IA, Inteligência Artificial. Ou se você
preferir, um robô.
Alice deu uma boa olhada naquele projeto,
por incrível que pareça ela conhecia todas as peças
que compunham aquele projeto. Ela analisou os

177
OS GUARDIÕES

desenhos em uma das paredes da garagem, todos os


desenhos e anotações pareciam estar corretos.
- O que faremos com ele? – Disse ela
apontando para o homem deitado na porta da
garagem.
- Vamos coloca-lo no meu quarto. – ele disse
analisando o protótipo.

- Lumus! – Disse ele abrindo a porta da


cozinha. Como num passe de mágica as luzes de
toda a casa se acenderam.
- Isso é bem legal. – Ela disse carregando
Samuel com dificuldade.
- Sensores ativados pela voz. – Disse ele. –
Meu quarto é lá em cima, segunda porta a esquerda.
A cozinha era bem ampla, o fogão ainda
estava sujo, a louça suja acumulada na pia dava a
entender que a casa não era limpa há semanas. Sob a
mesa um bilhete chamou a atenção do garoto.

178
APOLLO SOUZA

Amigos estão na cidade.


Não precisa me esperar o jantar esta
na geladeira.
Orfeu.

- Ei, vai me ajudar aqui, ou ta difícil? – ela


gritou do topo da escada. Ele subiu a escada
depressa, Alice estava a sua espera na porta do
quarto.
O quarto de Lucca era bem diferente para o
que Alice considerava nerd. Ela esperava ver uma
dúzia de pôsteres de guerra nas estrelas, jornada nas
estrelas, bonecos colecionáveis e outras coisas do
gênero.
Na verdade, o quarto dele era bem parecido
com o dela. Uma prateleira em cima da cama estava
cheia de coleções de livros esperando para serem
lidos, vários desenhos e anotações pelas paredes de
projetos para serem feitos num futuro próximo.

179
OS GUARDIÕES

Sam havia apagado, eles o colocaram na cama.


Para garantir Lucca checou seus batimentos para se
certificar de que ele ainda estava vivo.
- Ele deve acordar amanha com uma bela dor
de cabeça. – Disse ele tirando os sapatos do homem.
- Eu acho que sim. – ela disse sem dar tanta
importância.
A garota encostou-se na cama e cruzando os
braços, ela estava exausta.
- O que houve? você não me parece bem. –
Disse ele sentando-se em uma cadeira em frente ao
computador.
- Eu estou bem. – Ela respondeu. – Eu só
preciso ir pra casa.
- Não há mais nada a fazer alem de esperar ele
acordar.

Lucca passou o resto da noite acordado na


frente do computador, baixando drives e compondo
códigos binários para o funcionamento do robô. Há

180
APOLLO SOUZA

meses ele vinha revirando a sucata na garagem


procurando peças para o projeto já em andamento.
Aquela seria a ultima parte, o garoto programava
com euforia o que seria o cérebro da maquina, parte
crucial para o bom funcionamento do mesmo.
O relógio marcava duas e meia da madrugada
e Orfeu ainda não haviam chegado. Orfeu quase
nunca saia de casa, mas das poucas vezes que isso
ocorria ele não tinha hora para voltar.
O convívio entre eles era deveras interessante,
Orfeu não era um pai turrão e chato, Lucca estava
liberado para fazer o que quisesse desde que
avisasse, os amigos viviam na casa de Lucca como se
fosse a casa deles e tinham Orfeu como um pai.
Eram raras as vezes que Lucca via o pai em
casa ele sempre estava ocupado com alguma coisa, o
único momento do dia que eles tinham juntos sem
distrações como pai e filho eram reservados aos
treinos de magia.
Enquanto rodava o programa de
reconhecimento vocal, Lucca pensava em tudo o que

181
OS GUARDIÕES

acontecera naquela noite, aquilo era consequência do


que ele havia feito. Um homem quase havia morrido
aquela noite e ele quase havia matado os amigos.
- Que grandes feitos são esses pai? –
Perguntou ele para se mesmo. – Seu filho é um
grande fracasso.

182
APOLLO SOUZA

XVII
SEQUESTRO

“Eu conheço seu segredo”.

Os corredores do segundo andar estavam


vazios, ela andava despreocupada por ai a procura
da sala do clube de teatro.
Era muito estranho não ter ninguém naquela
escola uma hora daquelas, pelo menos o zelador do
prédio deveria estar ali limpando as salas para as
aulas noturnas.
A garota havia recebido uma mensagem na
noite anterior marcando o encontro no clube de
teatro as 18:00 horas da quinta feira. O numero do

183
OS GUARDIÕES

remetente era desconhecido, ela só tinha dois


números gravados em seu celular, o de casa e o
numero do celular da mãe, esses números eram
apenas precaução para se acontecesse algo com elas.
Em 17 anos, nada aconteceu então Alice não se
preocupava mais com isso, sua vida já era caótica
demais, para mais alardes sem sentido, ela apenas
deixava as coisas acontecerem.
Essa poderia ser sua maior qualidade, se
comparadas as das pessoas ao seu redor, em alguns
momentos esse era seu maior defeito. Na noite
anterior, quando ela saia da casa de Lucca, seu
celular tocou.
CHAMADA CONFIDENCIAL mostrava o
visor de luz azul do smartphone, Ela não atendeu de
primeira, pois não havia dado aquele numero a
ninguém. A garota apenas olhou o visor e ficou
ouvindo a musica tocar ate o a pessoa do outro lado
da linha desistir.

184
APOLLO SOUZA

You're forgiven, not forgotten


You're forgiven, not forgotten
You're forgiven, not forgotten
You're not forgotten

Forgiven, not forgotten, era a sua musica


preferida da The Corrs, aquele refrão era a melhor
parte e ela não se cansava de ouvi-lo. Depois de três
tentativas houve a desistência por parte da outra
pessoa, então veio o alerta de mensagens. Alice
checou o celular mais uma vez, mensagem de um
número desconhecido.

“Eu conheço seu segredo, se não quiser que


todos saibam me encontre no teatro da escola as
18:00 horas. Vá sozinha!”

Depois de tudo o que aconteceu na noite


anterior, ela estava receosa demais para deixar
passar uma ameaça como aquela.

185
OS GUARDIÕES

E lá estava ela. Esperando uma pessoa


misteriosa aparecer.

Ela estava fraca e nauseante, seus braços e


pernas queimavam como acido, Alice estava
acorrentada a uma cadeira, seus olhos mal se
adaptaram a pouca luz do lugar. Um garoto sorria,
mostrando a ela um tabuleiro de xadrez preparado
para o jogo.
- Seja bem vinda meu anjo. – Disse o garoto
sentado a sua frente. – Preparei este jogo
especialmente para você.
- O que você quer comigo? – perguntou ela
tentando se livrar das correntes.
- Não adianta tentar se soltar, - ele disse
pondo-se de pé, - isso é prata pura, minha linda
vampirinha.
- Então foi você quem me mandou aquela
mensagem?

186
APOLLO SOUZA

- você não esta aqui para ter respostas e sim


para responder as minhas perguntas. – ele disse
pegando uma seringa com sangue que estava por
trás do tabuleiro. – O jogo apenas começou.
Sem cerimônia, o garoto injetou uma pequena
quantidade do conteúdo da seringa no braço dela.
Alice sentiu suas veias queimarem, seus olhos
apresentavam manchas negras que dificultavam
ainda mais sua visão, ela estava começando a perder
a consciência.
Alice podia reconhecer onde estava os
armários de vidro guardavam em seu interior frascos
transparentes de compostos químicos usados em
experiência com os alunos, ela sentiu o cheiro
sufocante de amônia no ar, formulas complexas
estavam escritas numa lousa em uma parede
próxima, sem duvida alguma eles estavam no quinto
piso próximo à sala dos professores no laboratório de
química.
- O que é isso? – Perguntou ela com a voz
embargada.

187
OS GUARDIÕES

- Isso minha querida, é um veneno para os


seres de sua espécie. – respondeu ele retirando a
corrente de um dos braços.
- Sangue de um homem morto. – disse ela
quase sem forças, vendo ele espirrar um pequeno
jato para testar a agulha.
O corpo de Alice não obedecia mais as suas
vontades, o sangue de um homem morto era mesmo
um veneno para ela. Era como uma droga pesada
que mexia com o subconsciente fazendo-a ter fortes
alucinações, fraqueza, náuseas, tonturas e delírios
frenéticos.
- O que você quer com ele? – Perguntou o
garoto próximo ao seu ouvido.
- Ele quem? Ela perguntou confusa.
- Não tente me enganar meu amor. Eu venho
vigiando vocês em segredo. – Ele disse beijando os
lábios dela. – O que há entre você e o Lucca?
- Eu não sei do que você ta falando. Quem é
você?

188
APOLLO SOUZA

- Você não faz ideia de quem sou eu? – ele


perguntou acariciando sua mão.
- Sinceramente, não. – ela respondeu.
- Ela esta mentindo. Disse uma voz em sua
cabeça. – Pergunte sobre o guardião.
O garoto se afastou um pouco, deu alguns
passos para traz, olhando para as peças do xadrez ele
estudava uma estratégia para fazê-la falar.
- Sou eu minha querida, o Ângelo. – disse ele
finalmente.
- Ângelo... Eu não sei quem é você. – ela
respondeu
- As primeiras peças foram jogadas, logo, logo
meu vírus estará em todos os lugares da rede e
ninguém poderá me impedir de destruir o mundo.
Nem mesmo você Lucca Souza.

A mesa estava uma bagunça total.


Cadernos, dados e fichas estavam espalhados
por todos os lados, os cinco passaram uma tarde

189
OS GUARDIÕES

inteira intertidos em um jogo extenso de RPG apenas


para matar o tempo.
Eles estavam jogando numa plataforma
genérica simplificada de RPG que Lucca achara na
internet a meses, essa plataforma consistia em criar
uma partida de RPG em poucos minutos. Garantia
de sucesso para aqueles que soubessem como criar
uma historia envolvente, com personagens cativantes
e experientes.
Os garotos eram experts no assunto, passavam
boa parte do tempo tramando novas aventuras em
varias plataformas de jogo. A preferida deles, e a
mais jogada era a D&D, Lucca era o mestre do jogo e
sempre criava situações inusitadas que fazia o resto
do grupo usar o cérebro para escapar de suas
armadilhas.
Ele havia chamado os amigos para passarem
um tempo em sua casa ate o retorno do pai, que já
estava fora há três dias. Lucca nunca sabia quanto
tempo às saídas do pai duravam em geral eram de

190
APOLLO SOUZA

uma semana mais ou menos, e ele sempre voltava


banhado em sangue.
Com o passar do tempo ele aprendeu a não
perguntar sobre as escapadelas do pai, ele só sabia
de uma coisa, o pai passaria por tempos difíceis e
precisaria ficar sozinho por um tempo, pelo menos
ate se recompor da caçada.
Era assim que Orfeu definia suas saídas
demoradas, uma caçada. O que eles caçavam era um
completo mistério, Lucca nunca se atreveu a
perguntar, pois sabia que o pai jamais responderia a
essa pergunta.
Eles tinham pedido varias caixas de pizza, o
que significava que eles faltariam à escola para ter
uma noite de garotos regada a jogos e pizza.
- O cara ainda ta apagado lá em cima? –
Perguntou Jimmy mordendo um pedaço de pizza.
- Sim. – respondeu Lucca. – ele esta dormindo
há três dias.
- você tem certeza que ele não morreu? –
Perguntou Drew.

191
OS GUARDIÕES

- Tenho sim, eu chequei os batimentos dele.


Deve ser só cansaço, logo, logo ele acorda.
- Você consegui decifrar mais alguma coisa do
livro? – Perguntou Tommy deixando de lado seu
ultimo pedaço de pizza.
- Ainda não. – Ele respondeu olhando para o
livro do mestre diante dele.
De repente seus olhos ficaram embaçados, e
ele começou a suar, seu estomago estava
embrulhado. Ele estava a ponto de vomitar toda a
pizza que tinha comido.
- Lucca o que você tem? - perguntou Adam
percebendo a palidez do amigo. -você esta bem?
O garoto não conseguiu responder, suas mãos
estavam suadas e sua cabeça rodava. Ele apenas
baixou a cabeça por um segundo para recompor as
ideias e simplesmente apagou.
Definitivamente algo estava errado com ele.

192
APOLLO SOUZA

XVIII
SEDENTO POR SANGUE

Vultos de imagens apareciam diante de seus


olhos enquanto alguns de seus pensamentos vinham
à tona. Lucca tinha a sensação de que aquilo já tinha
ocorrido antes.

Ele estava acorrentado a uma cadeira, Um


garoto sorria, mostrando a ela um tabuleiro de
xadrez preparado para o jogo.
(- Onde eu estou?)
- Seja bem vinda meu anjo. – Disse o garoto
sentado a sua frente. – Preparei este jogo
especialmente para você.

193
OS GUARDIÕES

- O que você quer comigo? – perguntou ele


tentando se livrar das correntes. (- Como eu vim
parar aqui?)
- Não adianta tentar se soltar, - ele disse
pondo-se de pé, - isso é prata pura, minha linda
vampirinha.
- Então foi você quem me mandou aquela
mensagem? (– O que eu estou dizendo?)
- você não esta aqui para ter respostas e sim
para responder as minhas perguntas. – ele disse
pegando uma seringa com sangue que estava por
trás do tabuleiro. – O jogo apenas começou.
Sem cerimônia, o garoto injetou uma pequena
quantidade do conteúdo da seringa no braço dele.
Lucca sentiu suas veias queimarem, seus olhos
apresentavam manchas negras que dificultavam
ainda mais sua visão, ela estava começando a perder
a consciência.
- O que é isso? – Perguntou ele com a voz
embargada.

194
APOLLO SOUZA

- Isso minha querida, é um veneno para os


seres de sua espécie. – respondeu ele retirando a
corrente de um dos braços.
- Sangue de um homem morto. – disse ele
quase sem forças, vendo ele espirrar um pequeno
jato para testar a agulha.
Como ele poderia sabia daquilo.
Seu copo já não obedecia mais as suas
vontades.
- O que você quer com ele? – Perguntou o
garoto próximo ao seu ouvido.
- Ele quem? Ele perguntou.
- Não tente me enganar meu amor. Eu venho
vigiando vocês em segredo. – Ele disse beijando os
lábios dele. – O que há entre você e o Lucca?
- Eu não sei do que você ta falando. Quem é
você? (- O que você quer comigo? )
- Você não faz ideia de quem sou eu? – ele
perguntou acariciando sua mão.
- Sinceramente, não. – ele respondeu.

195
OS GUARDIÕES

Lucca não conseguia distinguir a figura que


estava a sua frente, seu rosto era apenas um borrão
distorcido.
- Ela esta mentindo. Disse uma voz em sua
cabeça. – Pergunte sobre o guardião.
O garoto se afastou um pouco, deu alguns
passos para traz, olhando para as peças do xadrez ele
estudava uma estratégia para fazê-la falar.
- Sou eu minha querida, o Ângelo. – disse ele
finalmente.
- Ângelo... Eu não sei quem é você. – ele
respondeu. (- A pior pessoa que eu já vi na minha
vida, para não dizer a mais burra também. )
- As primeiras peças foram jogadas, logo, logo
meu vírus estará em todos os lugares da rede e
ninguém poderá me impedir de destruir o mundo.
Nem mesmo você Lucca Souza.

O garoto viu-se cara a cara com Az, sua única


vontade era de saltar em seu pescoço e drenar dele
todo o sangue.

196
APOLLO SOUZA

Em um piscar de olhos toda aquela cena havia


mudado, toda a cena se repetia mais uma vez, agora
ele era um mero espectador dos fatos. Ele via Alice
sentada tentando se livrar das correntes. Ele viu Az
injetar nela o sangue de homem morto mais uma
vez.
Ela estava sofrendo.
Lucca foi tomado por um ódio imensurável,
ele queria tira-la de lá, mas era como se ele fosse
apenas um espírito, um ser sem corpo físico, sem
capacidade alguma para defendê-la dele.
- Eu preciso fazer alguma coisa para ajuda-la.
– pensou ele.
- Você não pode. – Az respondeu olhando fixo
nos olhos dele. – você é um mero reflexo.
- Vamos Lucca, faça alguma coisa, - Disse ele a
si mesmo.
O que um garoto magrela como você é capaz
de fazer contra mim? – Az desafiou. – Vejamos do
que você é capaz filho de Orfeu.
Lucca fechou os olhos por um instante.

197
OS GUARDIÕES

Ele nunca havia desejado na vida matar


alguém, ao ver aquela cena se repetindo inúmeras
vezes ele cedeu ao desejo. Ele queria matar, tomado
pela fúria ele sentiu uma força descomunal
invadindo seu corpo, ele queria arrancar o coração
de Az com as próprias mãos.
Seus olhos brilhavam de excitação, Lucca se
entregou ao momento. Em questão de segundos ele
estava diante do carcereiro de Alice pronto para
estrangular seu pescoço.
- Não me provoque. – ele disse mostrando os
dentes pontudos.
Sem pensar duas vezes Lucca cravou os
dentes no pescoço de Az que atordoado apenas ficou
imóvel esperando pela morte.

Ele acordou atordoado, aquilo tinha sido


apenas um sonho. Seu coração estava tão acelerado
que parecia que iria saltar pela boca, seu estomago
ainda parecia revirado.

198
APOLLO SOUZA

O bater de asas de um morcego ecoava pelo


quarto, como se quisesse acorda-lo. Lucca abriu a
janela para respirar o ar noturno.
Um homem observava a noite sentado num
banco em frente a casa. Lucca o observou por um
tempo, ate se dar conta de uma coisa.
Ele ainda podia sentir o gosto do sangue em
sua boca.

199