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Mongabay Series: Agronegócio na Amazônia, Conservação na Amazônia, Desflorestação ilegal na

Amazônia

Estudo prova que queimadas na


Amazônia ocorreram em áreas
desmatadas em 2019
por Karla Mendes em 13 Setembro 2019 |

Um relatório científico divulgado pelo Projeto de


Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP)
comprova uma clara sobreposição de áreas de
desmatamento e focos de incêndio. A Mongabay
teve acesso exclusivo ao relatório antes de seu
lançamento.

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Pelo menos 125 mil hectares da Amazônia – o
equivalente a 172 mil campos de futebol – foram
desmatados ao longo de 2019 e depois queimados
em agosto. O estudo divulgou um mapa inédito
que sobrepõe os desmatamentos de 2019 a
recentes focos de queimadas, além de 16 vídeos
em time-lapse de alta resolução que revelam a
conexão entre terras recém-desmatadas para a
agricultura e ocorrências de incêndio.

As descobertas do MAAP mostram que as


dramáticas imagens da Amazônia em chamas que
atraíram a atenção mundial em agosto não
correspondem à queima de trechos de floresta
tropical, mas coincidem com áreas desmatadas
intencionalmente este ano, para depois serem
incendiadas com o objetivo de finalizar o
processo de conversão para uso agrícola.

Embora o relatório não tenha detectado grandes


incêndios florestais no Brasil até o momento, o
risco ainda existe, à medida que a estação seca
se aproxima, uma vez que muitas ocorrências de
queimadas foram detectadas nos limites entre
áreas agrícolas e florestas. O estudo não revelou
quanto dos 125 mil hectares desmatados nos
primeiros 8 meses de 2019 foram desmatados
ilegalmente.

As dramáticas fotos de uma Amazônia em chamas que atraíram a atenção


mundial em agosto não correspondem à queima de florestas tropicais, e
sim a áreas que foram desmatadas ao longo de 2019 e incendiadas em
agosto para concluir sua conversão para uso agrícola. É o que revela um
relatório (https://maaproject.org/2019/amazon-fires-deforestation/)
divulgado esta semana pelo Projeto de Monitoramento da Amazônia
Andina (MAAP) ao qual a Mongabay teve acesso exclusivo antes de seu
lançamento.
Pelo menos 125 mil hectares (o equivalente a 172 mil campos de futebol)
foram desmatados desde o início de 2019 e depois queimados em agosto,
segundo o relatório. A maioria das ocorrências foi observada no
Amazonas, onde 39,1 mil hectares foram desmatadas e depois queimadas,
ou cerca de 30% do total. A mesma sobreposição também foi detectada
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em Rondônia e no Pará, onde houve numerosos focos de incêndio em
agosto. Esses foram os últimos números disponíveis pelo estudo antes da
publicação desta reportagem.
O MAAP divulgou um mapa inédito que liga o desmatamento de 2019 aos
focos de incêndio, além de 16 vídeos em time-lapse de alta resolução
como evidências complementares da sobreposição de áreas de
desmatamento e queimadas na Amazônia.

O mapa acima mostra a sobreposição de áreas de desmatamento e focos


de incêndio na Amazônia em 2019. As áreas alaranjadas mostram que
pelo menos 125 mil hectares (o equivalente a 172 mil campos de futebol)
de floresta foram derrubados ao longo de 2019 e depois queimados em
agosto. Fonte: MAAP
O mapa sobrepôs duas camadas de dados principais: alertas de
desmatamento coletados em 2019 pelo GLAD
(https://glad.geog.umd.edu/), o laboratório de Análise e Descoberta
Global de Terras da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e
alertas de incêndio da agência espacial americana NASA
(https://earthdata.nasa.gov/active-fire-data) do mesmo período, revelando
uma clara sobreposição entre o desmatamento e as queimadas. Na
sequência, pesquisadores do MAAP ampliaram imagens de satélites de
alta resolução da empresa americana Planet (https://www.planet.com/) e
da Agência Espacial Europeia (http://www.esa.int/ESA) (satélite Sentinel-
2) de áreas selecionadas e criaram vídeos impressionantes em time-lapse
no site da Planet que comprovam focos de incêndios em áreas.

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O vídeo em time-lapse acima mostra desmatamento seguido de incêndio


em Rondônia. Dados: Planet, Agência Espacial Europeia.

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O vídeo em time-lapse acima mostra desmatamento seguido de incêndio


no Pará. Dados: Planet, Agência Espacial Europeia.
“A questão principal é o desmatamento
(https://news.mongabay.com/2019/09/brazils-satellite-agency-resumes-
releasing-deforestation-data/)… Agora faz sentido por que os incêndios
tinham tanta fumaça… Parece um incêndio florestal, é fumegante como
[seria] um incêndio florestal, mas na verdade são queimadas em áreas
desmatadas recentemente… O ponto chave era analisar o arquivo de
imagens de satélite coletadas ao longo de 2019. Temos muito mais
informações do que uma simples foto
(https://pt.mongabay.com/2019/08/greenpeace-divulga-fotos-
impactantes-dos-incendios-na-amazonia/)”, declarou Matt Finer,
pesquisador sênior e diretor do MAAP, uma iniciativa da Associação de
Conservação da Amazônia (ACA
(https://www.amazonconservation.org/about/index.html)). /
“Não estamos minimizando a importância dos incêndios, mas nossas
descobertas estão mostrando que o desmatamento também é uma
questão crítica”, disse Finer à Mongabay. “O mundo precisa estar tão
alerta e incomodado com o desmatamento quanto em relação aos
incêndios, porque é com a derrubada da floresta que esse processo, que
todo esse sistema, tem início… Precisamos dar ao desmatamento a
mesma atenção que estamos dando às queimadas, porque ambos estão
conectados.”

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O vídeo em time-lapse acima mostra desmatamento seguido de incêndio


no Amazonas. Dados: Planet, Agência Espacial Europeia.
Em agosto, dezenas de milhares de focos de incêndio devastaram a
região amazônica e provocaram protestos em todo o mundo
(https://pt.mongabay.com/2019/08/incendios-na-amazonia-geram-
protestos-no-mundo-todo/), com manifestantes no Brasil e em vários
países exigindo ações efetivas do presidente Jair Bolsonaro para conter
as chamas. Os incêndios na Amazônia tornaram-se destaque depois que
um corredor de fumaça repentinamente escureceu
(https://pt.mongabay.com/2019/08/incendios-na-floresta-amazonica-
deixam-sao-paulo-no-escuro/) o céu de São Paulo na tarde de 19 de
agosto, provocando uma onda de consternação nas mídias sociais em
todo o mundo sob a hashtag #PrayforAmazonas, que alcançou mais de
300 mil tweets em apenas dois dias.
Bolsonaro reagiu imediatamente, levantando a hipótese, sem qualquer
prova, de que ONGs poderiam estar por trás dos incêndios
(https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/08/bolsonaro-diz-que-
queimadas-podem-ter-sido-causadas-por-ongs.shtml) como retaliação
contra o governo por causa da suspensão de um repasse de US$ 33,2

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milhões da Noruega ao Fundo Amazônia
(https://pt.mongabay.com/2019/08/noruega-congela-repasse-ao-fundo-
amazonia-acordo-comercial-ue-brasil-em-risco/).
Especialistas destacaram rapidamente a ligação entre o desmatamento e
os incêndios (https://ipam.org.br/bibliotecas/nota-tecnica-amazonia-em-
chamas/), devido à inexistência de uma estação seca severa deste ano.
De acordo com a análise dos especialistas, a estratégia de conversão de
floresta em pastagem na Amazônia consiste em cortar árvores da floresta
tropical, esperar que a madeira seque e depois incendiá-la para limpar
completamente a terra e, com as cinzas, fertilizar o solo onde será
plantado o capim para pastagem – um processo que claramente ganhou
peso científico com as descobertas do MAAP.
As novas descobertas também parecem sustentar as acusações feitas por
críticos de Bolsonaro, de que sua retórica inflamada durante e após as
eleições de 2018 encorajou os fazendeiros a derrubaram a floresta
amazônica depois que o novo presidente assumiu o cargo em janeiro.
De fato, as autoridades brasileiras estão atualmente investigando um
grupo de cerca de 70 agricultores e grileiros no estado do Pará que
supostamente organizaram o “Dia do Fogo” em 10 de agosto, em apoio a
Bolsonaro e a suas medidas para enfraquecer a ação de fiscalização de
órgãos ambientais no país, informou a revista Globo Rural
(https://revistagloborural.globo.com/Noticias/noticia/2019/08/grupo-
usou-whatsapp-para-convocar-dia-do-fogo-no-para.html).
Procurado pela Mongabay para comentar o relatório do MAAP, o
Ministério do Meio Ambiente não se pronunciou.
Risco crescente
Embora a análise do MAAP não tenha detectado grandes incêndios
florestais no Brasil até o momento, o risco ainda existe à medida que a
estação seca se aproxima, dado que muitas ocorrências de incêndios
foram detectadas nos limites entre terras agrícolas e áreas florestais,
explicou Finer.
“Os incêndios… atingem a linha da floresta e [parecem] apagar-se, mas
[ainda] estão impactando sua borda… E esses incêndios que queimam
áreas recentemente desmatadas podem facilmente se transformar em
incêndios florestais. Ainda não vimos isso acontecer este ano na
Amazônia brasileira, mas, à medida que a estação seca continua, ou se
houver um ano de [piora] da estiagem, esse processo de queima de terras
desmatadas recentemente ficará muito, muito pior. Podemos começar a
testemunhar grandes incêndios florestais”, alertou o diretor do MAAP.
Até agora, o MAAP detectou (https://maaproject.org/2019/amazon-fires-
part2/) grandes incêndios atingindo a vegetação nativa apenas em
ecossistemas menos úmidos, incluindo a floresta seca da Bolívia

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(https://news.mongabay.com/2019/09/disaster-strikes-in-bolivia-as-fires-
devastate-unique-forests/) e o Cerrado brasileiro.
O relatório também inclui vídeos em time-lapse de alta resolução de
incêndios ocorridos nos territórios indígenas Kayapó e Munduruku, onde
Finer supõe que as queimadas tenham como objetivo regenerar áreas de
pastagem para criação de gado. A área queimada nas duas reservas
indígenas totalizou 24 mil hectares e 700 hectares, respectivamente. O
relatório também detectou incêndios recentes nos limites do território
Kayapó, no norte de Roraima, que queimaram cerca de 930 hectares.

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O vídeo em time-lapse acima mostra incêndios em área de Cerrado no


território indígena Kayapó. Dados: Planeta, Agência Espacial Europeia.
“Quando vimos a floresta seca queimando na Bolívia, lá vimos realmente
a imagem que todos tinham na cabeça: incêndios fora de controle,
queimando ecossistemas naturais. Mas, no Brasil, toda vez que
ampliávamos a imagem de um incêndio, o que víamos era o fogo
queimando uma área já desmatada. Nunca vimos um incêndio fora de
controle varrendo a floresta tropical [em agosto]”, explicou Finer.
Na versão preliminar (https://maaproject.org/2019/fires-deforestation-
brazil-2019/) do relatório, também obtida com exclusividade pela
Mongabay, a área desmatada e depois queimada era de 52,5 mil hectares
(o equivalente a 72 mil campos de futebol).
Em março, o MAAP detectou grandes incêndios florestais no norte de
Roraima, incluindo queimadas próximas ao território indígena Yanomami.
Entre janeiro e agosto, as queimadas em terras indígenas aumentaram
88% em comparação com o mesmo período de 2018, de acordo com o
Conselho Indigenista Missionário (CIMI), citando dados
(https://cimi.org.br/2019/09/focos-incendio-terras-indigenas-aumentaram-
88-2019/) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
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Vista aérea de áreas queimadas na floresta amazônica, no município de
Porto Velho, Rondônia, em agosto de 2019. Imagem de Victor Moriyama
/ Greenpeace.
“A narrativa global [é que] a floresta amazônica está queimando; há
incêndios devastando a Amazônia”, conclui Finer. Mas, segundo ele, é
fundamental que o mundo “compreenda a importância do desmatamento
nesse processo. O cenário principal que estamos vendo é o do
desmatamento seguido de incêndio. Essa é a mensagem que o público
precisa entender: há duas questões juntas – floresta derrubada e floresta
queimada, e não apenas incêndios. E para evitar as queimadas,
precisamos evitar o desmatamento.”
Atualização (24 de setembro de 2019): A reportagem foi atualizada para
incluir dados atualizados do relatório final do MAAP.
Legenda da imagem no banner: Imagem da Planet de incêndios na
Amazônia em 16 de agosto de 2019 no Pará, processada pelo Centro de
Descobertas Globais e Ciência da Conservação da Universidade do
Estado do Arizona.

Matéria publicada por Karla Mendes

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