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DIRETIVAS ANTECIPADAS DA VONTADE

Uma reflexão bioética à luz da moral cristã


Pela Dra. Maria Emília de Oliveira Schpallir Silva*
Campinas, SP

Síntese: Este trabalho de pesquisa tem por objetivo fazer uma refle-
xão bioética sobre as Diretivas Antecipadas da Vontade à luz da moral
cristã e da Doutrina do Magistério da Igreja, em vista da dignidade hu-
mana, nas questões relativas à terminalidade da vida. Para tanto, parte
de uma reflexão sobre dignidade humana, direito à vida e autonomia,
na perspectiva da doutrina cristã católica e conclui que apenas dentro
de um contexto de profundo respeito pelo ser humano, o que inclui o
respeito pela vida humana, desde a concepção até a morte natural, as
Diretivas Antecipadas da Vontade podem vir a constituir-se uma opção
ética, não entrando em conflito com a moral católica.
Palavras-chave: Diretivas antecipadas. Bioética. Magistério da Igreja
Católica.
Abstract: This paper aims to make a bioethical reflection on Advance
Health Care Directive under the perspective of Christian morality and
the Catholic Church’s Magisterium doctrine, in view of human dignity
in matters relating to life termination. Therefore, it starts reflecting on
human dignity, right to life and autonomy in the Catholic Christian
doctrine perspective and concludes that only within a context of deep
respect for the human being, which includes respect for human life
from conception to natural death, advance directives may constitute an
ethical option that does not conflict with Catholic moral.
Keyword: Advance directives. Bioethics. Catholic Church’s Magisterium

Introdução
O fenômeno da morte e o processo de morrer têm gerado inúme-
ras polêmicas e levantado questões bioéticas que estão longe de ser
respondidas à luz de uma ética global. Os questionamentos éticos que
envolvem a terminalidade da vida são originários, por um lado, do ace-
lerado progresso na área da saúde, tanto em tecnologia médica quanto

* Médica, especialista em Coloproctologia pela SBCP, especialista em Bioética pela Faculdade de


Medicina da USP, graduada em Teologia pela PUC-Campinas, Mestre e Doutoranda em Bioética pelo
Centro Universitário São Camilo, membro da Comissão de Bioética da CNBB.
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no advento de novos fármacos, principalmente no que se refere à te-


rapia intensiva, e da redefinição do conceito de morte, por outro lado.
O rápido avanço da tecnologia na área da saúde tem permitido o
prolongamento da vida, mantida por meios artificiais, muitas vezes de
maneira obstinada, envolvendo enorme sofrimento tanto para o pa-
ciente quanto para seus familiares. A morte, antes um acontecimento
inevitável e natural, passa a ser adiada de forma artificial, gerando uma
angústia moral sobre a liceidade tanto do prosseguimento quanto da
interrupção dos meios artificiais que mantêm a vida.
A redefinição do conceito de morte, antes tida como a cessação dos
batimentos cardíacos, também tem crucial importância nos questiona-
mentos bioéticos sobre a terminalidade da vida. A partir de 1968, com
a publicação do Relatório de Harvard, o momento do óbito passa a ser
definido por critérios neurológicos, consistindo na perda irreversível
das funções cerebrais com o comprometimento do tronco encefálico, o
que configura a perda irremediável da integração do organismo.
Estes dois acontecimentos se dão no contexto de uma sociedade
permeada pela ideologia de mercado, hedonista, utilitarista e individua-
lista, onde a dor e o sofrimento perderam seu significado simbólico.
Aqueles que não preenchem o critério mercadológico de qualidade de
vida, que implica no máximo prazer possível, devem ser descartados.
É nesta conjuntura que surgem as Diretivas Antecipadas da Von-
tade, que têm suscitado inúmeros questionamentos bioéticos. Até que
ponto se deve (dever moral) acolher a autonomia do doente na questão
relativa à sua terminalidade? O princípio da autonomia engloba o direi-
to de decidir sobre a interrupção da própria existência? Qual o limite
ético para as Diretivas da vontade? Como entender a autonomia e a
dignidade humana nesta problemática? Podemos encontrar no Magis-
tério da Igreja Católica, através de seus documentos, luzes para orientar
esta reflexão?
O trabalho tem por objetivo fazer uma reflexão bioética sobre as
Diretivas Antecipadas da Vontade à luz da moral cristã e da Doutrina
do Magistério da Igreja Católica, em vista da dignidade humana, nas
questões relativas à terminalidade da vida.
A metodologia aplicada consiste em definir o conceito de Diretivas
Antecipadas da Vontade e, através de revisão da literatura pertinente,
tecer um breve relato histórico, mostrando o contexto em que surgi-
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ram e sua significação atual. A seguir, discorre-se sobre o conceito de


dignidade humana e de autonomia, sua importância como fundamento
das Diretivas Antecipadas da Vontade, explicitando o significado de
autonomia na sociedade hodierna e sua significação original numa pers-
pectiva kantiana e à luz do Magistério da Igreja Católica. Segue-se uma
reflexão sobre a dignidade humana e o direito à vida, à luz da doutrina
cristã católica, confrontando a visão mercadológica da sociedade ho-
dierna através do levantamento dos documentos do Magistério da Igre-
ja Católica referentes a esta temática. Nesta reflexão, esclarece-se o sig-
nificado de eutanásia, distanásia e ortotanásia, e levantam-se questões
bioéticas referentes às Diretivas Antecipadas da Vontade. Conclui-se o
artigo, considerando-se que apenas dentro de um contexto de profun-
do respeito pelo ser humano, o que inclui o respeito pela vida humana
desde a concepção até a morte natural, as Diretivas Antecipadas da
Vontade podem vir a constituir-se uma opção ética, não entrando em
conflito com a moral católica.

Diretivas Antecipadas da Vontade: definição e histórico


As Diretivas Antecipadas da Vontade, conforme definição do Con-
selho Federal de Medicina do Brasil (CFM), na resolução n. 1995/2012,
de 9 de agosto de 2012, em seu artigo 1º, compreendem o “conjunto
de desejos, prévia e expressamente manifestados pelo paciente, sobre
cuidados e tratamentos que quer, ou não, receber no momento em que
estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade”.
Essas diretivas deverão ser levadas em conta pelo médico, no caso de
incapacidade do paciente em se comunicar e expressar autonomamente
sua vontade (art.2º) e prevalecerão sobre o desejo dos familiares (art.
1º, §3), devendo ser registradas em prontuário (art. 1º. §4), em comuni-
cação feita pelo próprio paciente ou através de representante por este
designado (art. 1º. §1), desde que não estejam em desacordo com os
preceitos do Código de Ética Médica (art. 1º. §2).
As Diretivas Antecipadas da Vontade recebem várias denomina-
ções, algumas delas questionáveis como “testamento vital” e “testa-
mento biológico”, uma vez que o termo testamento se refere a desejo
póstumo, enquanto as Diretivas dizem respeito a determinações pré-ó-
bito, quando ainda há vida. (Alves, 2014, p. 150). “Testamento vital”
foi uma tradução da expressão living will, vontade da vida, em tradução
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literal, empregada pela primeira vez em 1967 pela Sociedade Americana


para a Eutanásia, posteriormente legalizada no Estado da Califórnia
pela aprovação do Natural Death Act, elaborado pela Faculdade de Di-
reito da Universidade de Yale, em 1976, seguida por leis semelhantes
em vários Estados norte-americanos. Em 1991, o Congresso dos EUA
aprova a lei The Patient Self-Determination, que prevê em seu texto as Ad-
vances Directives, reconhecendo o direito do paciente em recusar trata-
mento médico que tem por base sua autonomia, sendo que sua vontade
poderia ser manifestada pelo living will, comunicação direta da vontade,
ou através de representante legal, além de uma terceira maneira que
consistia na união das duas formas anteriores, denominada Advanced
Care Medical Directive (Dadalto, 2013).
As Diretivas Antecipadas da Vontade fundamentam-se na autono-
mia do paciente e surgem no contexto do acelerado progresso tecno-
lógico da medicina, particularmente no que se refere à terapia intensiva
e à possibilidade de prolongar a vida através de meios artificiais. Um
fato de crucial importância para o surgimento das Diretivas Antecipa-
das da Vontade foi a redefinição do conceito de morte pelo Relatório
de Harvard, publicado em 1968. A parada dos batimentos cardíacos,
sinal clínico que determinava o momento do óbito até então, é substi-
tuída pela perda irreversível das funções cerebrais com o comprome-
timento do tronco encefálico, o que configura a perda irremediável da
integração do organismo. Deste modo, o momento da morte passa a
ter bases neurológicas e não mais a cessação dos batimentos cardíacos
(Becchi, 2014, p. 26).
Embora a autonomia do paciente seja o fundamento relevante das
Diretivas Antecipadas da Vontade, sua repercussão prática vai depen-
der do ordenamento jurídico de cada país. Assim, em países cuja legis-
lação permite a eutanásia, seja por descriminalização, como no Uru-
guai, ou por legalização da prática, como na Holanda e na Bélgica, o
testamento vital pode requerer a eutanásia passiva, ativa ou o suicídio
assistido. Em países como o Brasil, em que o direito à vida é constitu-
cional e a eutanásia é considerada crime, as Diretivas Antecipadas da
Vontade dizem respeito à recusa à obstinação terapêutica ou distanásia,
não podendo ferir a Constituição Federal nem as determinações do
Código de Ética Médica, conforme deixa claro a Resolução 1995/2012
do CFM. O Código de Ética Medica afirma, no art. 41 do capítulo V,
referente à relação do médico com pacientes e familiares, ser vedado ao
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médico “abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de seu


representante legal”. Em parágrafo único do referido artigo, declara-se
que “nos casos de doença incurável e terminal, deve o médico oferecer
todos os cuidados paliativos disponíveis, sem empreender ações diag-
nósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, levando sempre em con-
sideração a vontade expressa do paciente ou, na sua impossibilidade, a
de seu representante legal”, o que configura prática da ortotanásia.

Dignidade humana e autonomia


Três características marcantes da sociedade hodierna são: a exal-
tação da autonomia do sujeito, a ênfase na razão instrumental1 e o rá-
pido desenvolvimento biotecnológico. Neste contexto capitalista, de
globalização, marcado pela ideologia de mercado, desenvolvem-se re-
lações sociais utilitaristas e individualistas, centradas no hedonismo e
no consumismo, sendo que um dos poucos paradigmas que ainda res-
tam é a busca pela qualidade de vida, entendida como a posse de bens
materiais, a perfeição física e intelectual, a ausência da dor, doença ou
sofrimento, chegando-se a ignorar a realidade da morte. Esse conceito
de qualidade de vida se contrapõe à sacralidade da vida, entendida não
no sentido religioso, mas como direito intrínseco a todo ser da espécie
humana (Sgreccia, 2002, p. 73). No contexto mercadológico, considera-
se que algumas vidas não valem a pena serem vividas, e suprimi-las é
visto como ético. Assim, aqueles acometidos de graves enfermidades,
os que perderam a autonomia, como os comatosos ou os que a tiverem
reduzida como os idosos, não possuem qualidade de vida, e abreviar
seu sofrimento é considerado um ato de misericórdia. Como afirma
João Paulo II (EV, 24, grifos do autor),2 “a consciência moral, tanto do
indivíduo como da sociedade, está hoje – devido também à influência
invasora de muitos meios de comunicação social – exposta a um perigo
gravíssimo e mortal: o perigo da confusão entre o bem e o mal, principalmente
no que se refere ao fundamental direito à vida [...]. Quando a consciên-
cia, esse luminoso olhar da alma (cf. Mt 6, 22-23), chama ‘bem ao mal

1. Expressão criada por Max Horkheimer, filósofo da escola de Frankfurt, e designa a operacio-
nalização dos processos racionais onde conhecer significa dominar. A redução da razão à sua dimensão
instrumental leva a uma concepção utilitarista que se transforma em critério para a eficiência das ações.
À razão instrumental, eficientista, opõe-se à razão crítica (Petry, 2014).
2. JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Evangelium vitae (EV) – ver referências bibliográficas.
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e mal ao bem’ (Is 5, 20), está já no caminho da sua degeneração mais


preocupante e da mais tenebrosa cegueira moral”.
A dignidade humana é frequentemente mencionada como justifica-
tiva para diversos atos que eliminem o sofrimento, mesmo à custa da
abreviação da vida. No entanto, o entendimento de dignidade humana
varia de acordo com as diferentes epistemes usadas para fundamentar
esse conceito. Na teologia católica, a fonte da dignidade humana assen-
ta-se em três dimensões, segundo João Paulo II, citado pela Congrega-
ção para a Educação Católica (1988, n. 33): no homem enquanto tal, no
homem criado à imagem e semelhança de Deus, no homem inserido no
mistério de Cristo, à luz da Sua obra redentora. Para Kant a dignidade
humana é intrínseca ao ser humano. Segundo ele, o homem como ser
racional é um fim em si mesmo e jamais pode ser usado como meio,
seja por ele próprio, seja por outro homem ou mesmo por Deus. Kant
afirma que a humanidade deve ser para nós sagrada, porquanto o ho-
mem é o sujeito da lei moral que se fundamenta na autonomia de sua
vontade como vontade livre (Kant, 2005, p. 130). A Declaração Uni-
versal dos direitos humanos de 1948 (DDH48) apresenta uma noção
kantiana de dignidade humana e afirma em seu preâmbulo “a dignidade
inerente a todos os membros da família humana e seus direitos iguais e
inalienáveis” e, no artigo 1, que “todos os seres humanos nascem livres
e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e
devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.
No artigo 3 afirma que todo ser humano tem direito à vida física. É um
direito intrínseco, portanto independe da aceitação ou não pela socie-
dade, o que o tornaria extrínseco.
A teologia católica não está em desacordo com a concepção kantia-
na e a da DDH48, pois reconhece a dimensão intrínseca da dignidade
humana. Entretanto, no contexto mercadológico da sociedade hodier-
na, conforme citado anteriormente, a dignidade humana é associada
à qualidade de vida e torna-se atribuição, portanto extrínseca ao ser
humano enquanto tal. O próprio conceito de autonomia, que tem Kant
por expoente, expressa um entendimento diferente do apresentado por
este, como trataremos a seguir.
A autonomia foi um dos três princípios da bioética de Beauchamp
e Childress, em sua obra clássica Principles of biomedical ethics, em 1979,
sendo os outros dois a justiça e a beneficência, que, depois, sofreu des-
dobramento, englobando o conceito de não maleficência (Peccini; Bar-
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chifontaine, 2010. p. 59). O termo autonomia, no contexto concernente


à área da saúde, referia-se ao paciente e à sua capacidade de decisão. A
autonomia, na sociedade mercadológica, é entendida de forma indivi-
dualista, em que importa apenas o “eu”, ignorando-se o “outro”. Essa
exaltação da autonomia nega a alteridade, na medida em que legitima
a utilização do outro, transformando-o de sujeito em objeto. Entretan-
to, a autonomia, como entendida na filosofia moderna, cujo expoente
foi Kant, era basicamente intersubjetiva. Para Kant, a autonomia era o
centro da moral. Em outras palavras, ele pensava a moralidade como
autonomia. Para ele, ser autônomo significava ser guiado por sua razão,
e não por Deus ou por qualquer outra causa externa. Portanto, o ser
humano era responsável por seu comportamento moral. A moralidade
exigia do agente moral a perspectiva do outro como centro, cujo bem
deveria ser sempre buscado. O imperativo categórico de Kant (2005,
p. 32) é: “age de tal modo que a máxima de tua vontade possa valer-te
sempre como princípio de uma legislação universal”. Afirmava ainda
que existe “uma grande diferença entre o que nos é aconselhado e aqui-
lo a que somos obrigados”; portanto, enquanto a máxima do amor de
si mesmo (prudência) só aconselha, a lei da moralidade manda (Kant,
2005, p. 39). Como pode ser visto, o conceito de autonomia varia con-
forme as diferentes epistemes que lhe servem de fundamento.

Dignidade humana e direito à vida


Como citado anteriormente, o desenvolvimento acelerado da me-
dicina a partir do final do século XX, as novas tecnologias e avanços,
notadamente em terapia intensiva e oncologia, a biotecnologia, o pro-
gresso na propedêutica armada e novos medicamentos levantaram
questionamentos bioéticos concernentes à terminalidade da vida. Po-
rém, a mudança do panorama sobre o processo de morrer também
sofre influência da secularização da sociedade aliada à ideologia de
mercado, onde não somente a morte, mas a consciência da própria fi-
nitude deve ser evitada. A dor e o sofrimento tornam-se destituídos de
qualquer valor e são entendidos como obstáculos na obtenção da tão
desejada qualidade de vida.
Há não muito tempo, a morte era assumida como fato real da exis-
tência. Morria-se em casa, junto aos familiares. O moribundo tinha pa-
pel não apenas passivo, mas usava sua autonomia para tomar providên-
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cias em relação à família, comunicar seus últimos desejos, muitas vezes


em relação ao próprio sepultamento. O velório dava-se nas residências,
e as crianças habituavam-se à realidade da condição humana finita. No
contexto hodierno, morre-se no hospital, não raramente longe dos fa-
miliares, em uma unidade de terapia intensiva, ligado a aparelhos. A
possibilidade de prolongamento da vida suscita o questionamento so-
bre a eticidade de ações que visem alterar o curso natural da morte. A
eutanásia, prática legitimada pela eugenia – esta tida como ciência que
justificou violações do direito à vida não só na Alemanha nazista, mas
em vários outros países, tanto da Europa quanto da América Latina –,
volta a ser sugerida como opção moralmente aceitável para se evitar o
sofrimento. O desenvolvimento da medicina paliativa, que será aborda-
da oportunamente neste artigo, no entanto, mostra-se uma alternativa
ética para o processo de morrer, sem que se lance mão de atos para
abreviar a vida.
Para melhor entender as questões bioéticas suscitadas pelas Dire-
tivas Antecipadas da Vontade, faz-se mister entender o significado de
eutanásia, distanásia e ortotanásia.
Etimologicamente, a palavra eutanásia deriva do grego: “eu”, que
significa bom, e “thanatos”, morte, ou seja, boa morte, em tradução lite-
ral; portanto, com um significado que difere do empregado na atualida-
de, qual seja, abreviação da vida com fins humanitários.
A eutanásia, como anteriormente mencionado, foi prática legiti-
mada por uma pseudociência denominada Eugenia ou “boa geração”,
neologismo criado em 1883 por Francis Galton e por ele definido como
“estudo dos fatores físicos e mentais socialmente controláveis, que po-
deriam alterar para pior ou para melhor as qualidades racionais, visando
o bem-estar da espécie” (Mai; Angerami, 2006).
Segundo os pressupostos eugênicos, o destino das pessoas seria de-
terminado hereditariamente, a priori, na categoria inferior ou superior,
condição esta que, por ser fixada pela própria natureza, seria imutá-
vel. Para melhoria da raça, a sociedade deveria ser sanada das pessoas
portadoras de características indesejáveis, como doenças mentais ou
“impulsos criminosos”, o que só seria viável coibindo-se a procriação
dos indesejáveis e estimulando-se a dos considerados superiores. Para
tanto, eram adotadas políticas públicas com práticas que se destinavam
a impedir a degeneração da raça, apoiadas em bases pseudocientíficas
da eugenia (Maciel, 1999).
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Os cientistas eugenistas da Alemanha nazista, antropólogos de for-


mação médica e psiquiátrica, perpetraram um dos maiores genocídios
de que se tem conhecimento na história da humanidade. Respaldados
por essas políticas eugênicas, eliminavam sistematicamente todos os
que eram considerados imperfeitos, como deficientes físicos ou men-
tais, doentes psiquiátricos, dependentes químicos, epilépticos ou per-
tencentes ao que denominaram grupos e raças inferiores, o que incluía
judeus, negros, homossexuais, ciganos, entre outros. Inicialmente pro-
cedeu-se, com o amparo legal, à esterilização compulsória em massa,
inclusive de crianças negras alemãs, levadas aos hospitais universitários
pela Gestapo, bem como de pessoas portadoras de doenças genéticas
(Beighelman, p. 108-111).
Pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, foi
promulgada a “Lei da Eutanásia”, que permitia o assassinato “piedo-
so” de doentes psiquiátricos. Participaram de sua elaboração eugenistas
como Fritz Lenz, Crinis, Friedrich Manz, Berthold Kihn, Kurt Pohlish,
Carl Schneider e outros. Dos 283.000 pacientes examinados, foram as-
sassinados pelo menos 75.000, por fuzilamento ou inalação de monóxi-
do de carbono. Só foram interrompidos quando a diminuição numérica
dos doentes ameaçou o exercício da psiquiatria e o fechamento de ins-
tituições por falta de doentes (ibid., p. 108). Em 1940, Lenz defende a
eutanásia para doenças genéticas, sob a alegação de ser uma importante
questão sanitária e humanitária (ibid., p. 113, grifo nosso).
A distanásia e a eutanásia consistem em ações extremas e diametral-
mente opostas. Distanásia deriva do grego “dis”, mal, e “thánatos”, mor-
te, sendo etimologicamente o contrário da eutanásia. Em tradução lite-
ral significa morrer mal. Consiste no prolongamento da vida de forma
artificial, utilizando-se meios extremos e desproporcionais, geralmente
em UTI, de um paciente que não apresenta mais possibilidade de cura.
A eutanásia implica em uma antecipação do momento da morte
e pode ser passiva ou ativa. Na eutanásia ativa, a morte do paciente
é provocada direta e intencionalmente pelo médico, em alguns casos,
sem o consentimento daquele, tratando-se, então, de eutanásia invo-
luntária. Na eutanásia passiva, negam-se ao doente recursos básicos
para a manutenção de suas funções vitais, como hidratação, alimenta-
ção e medicamentos.
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Não obstante existam definições diferentes para o termo eutanásia,3


a Declaração sobre eutanásia da Sagrada Congregação para a Doutrina
da Fé a define como “uma ação ou omissão que, por sua natureza ou nas
intenções, provoca a morte, a fim de eliminar toda dor” (1980, cap. II).
O Magistério da Igreja Católica defende a dignidade da vida huma-
na e sua inviolabilidade desde a concepção até a morte natural, defesa
manifestada em inúmeros documentos. O Concílio Vaticano II denun-
cia os crimes contra a vida, tais como: “toda a espécie de homicídio, o
genocídio, o aborto, a eutanásia e o próprio suicídio voluntário” (GS,
n. 27).4 A Instrução Dignitas Personae (DP), sobre bioética, afirma, já na
introdução, que “a todo o ser humano, desde a concepção até à morte
natural, deve reconhecer-se a dignidade de pessoa” (DP, n.1). A En-
cíclica Evangelium vitae (EV) faz 51 citações sobre a dignidade do ser
humano e afirma o direito à vida desde a concepção até a morte natural
(EV, n. 93 e 101). A Declaração sobre a Eutanásia (1980) afirma, no
capítulo I, que “a vida humana é o fundamento de todos os bens [...] e
ninguém pode atentar contra a vida de um homem inocente”. Também
é tão inaceitável como o homicídio, a morte voluntária ou o suicídio.
No capítulo II, alerta que o pedido do doente para morrer é uma súpli-
ca por ajuda e afeto, pois tem necessidade de amor, além dos cuidados
médicos. Reafirmando a iliceidade da eutanásia, assim declara:
Ora, é necessário declarar uma vez mais, com toda a firmeza, que nada
ou ninguém pode autorizar a que se dê a morte a um ser humano
inocente seja ele feto ou embrião, criança ou adulto, velho, doente in-
curável ou agonizante. E também a ninguém é permitido requerer este
gesto homicida para si ou para um outro confiado à sua responsabilida-
de, nem sequer consenti-lo explícita ou implicitamente. Não há auto-
ridade alguma que o possa legitimamente impor ou permitir. Trata-se,

3. Segundo Kress (2008, p. 285), podem ser distinguidas, sob o conceito de “eutanásia”, quatro
diferentes opções de ação: acompanhamento terminal, eutanásia indireta, eutanásia ativa ou direta e
eutanásia passiva. O acompanhamento terminal consiste no alívio de dor e cuidados básicos com o pa-
ciente terminal, como: satisfação das necessidades básicas de fome e sede, desobstrução das vias aéreas
e cuidados físicos. A eutanásia indireta consiste em atenuar a dor do paciente terminal, mesmo tendo
por efeito colateral e não desejado a abreviação de sua vida (ação de duplo efeito). A eutanásia direta
consiste na abreviação da vida “desejada e objetivada”, portanto, a morte direta do paciente terminal ou
gravemente enfermo, pelo médico. A eutanásia passiva consiste na interrupção de tratamento médico
com o fim de abreviar a vida de paciente terminal, assegurando-se assistência básica, como; higiene,
leito, atendimento humano, necessidades de fome e sede e atenuação da dor. É interessante salientar
que o acompanhamento terminal que Kress engloba sob o conceito de eutanásia corresponderia à orto-
tanásia que envolve os cuidados paliativos. Neste artigo, como será exposto oportunamente, propomos
que ortotanásia e eutanásia são axiologicamente opostas.
4. CONCILIO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et spes (GS).
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com efeito, de uma violação da lei divina, de uma ofensa à dignidade


da pessoa humana, de um crime contra a vida e de um atentado contra
a humanidade.
A encíclica Evangelium vitae faz 35 citações sobre a eutanásia. Alerta
que, em uma sociedade onde a vida só tem sentido no prazer e bem-
-estar, o sofrimento se torna sem significado e a morte uma libertação
reivindicada. Num contexto em que a medicina possui meios para in-
tervir sobre a vida, prolongando-a artificialmente, a eutanásia parece
um meio lógico e humano para se livrar do sofrimento. Porém, é um
dos “sintomas mais alarmantes da cultura da morte”, de uma sociedade
“eficientista”, que tem por base a eficiência produtiva onde uma vida
incapaz carece de qualquer valor (EV, n. 64). O que se justifica como
uma atitude de compaixão, muitas vezes, tem por verdadeira razão uma
visão utilitarista, com vistas a evitar custos financeiros para a sociedade
(EV, n. 15). A eutanásia torna-se um ato mais grave quando praticado
contra a vontade da pessoa. Também são moralmente inaceitáveis o
suicídio e o suicídio assistido. Quando a vida do fraco é abandonada
na mão dos mais fortes, perde-se o sentido da justiça, ficando compro-
metida a confiança, fundamento de qualquer relação autêntica entre as
pessoas (EV, n. 66).
Embora o Mass-media propagandeie que as agressões contra a vida
são sinal de progresso e as posições a favor da vida são atendados à
liberdade (EV, n. 17), o verdadeiro atentado à liberdade é o “poder ab-
soluto sobre os outros e contra os outros”, o que a encíclica chama de
significado perverso e iníquo da liberdade humana (EV, n. 20).
A exigência de legitimação jurídica dos atentados contra a vida, ale-
gando-se uma sociedade plural em que o Estado deve reconhecer o
direito de escolha da pessoa, revela um relativismo ético. O Estado deve
tutelar os direitos inalienáveis da pessoa humana, dos quais o primeiro é
o direito à vida. Deve apoiar-se em critérios morais objetivos e não em
decisão de consenso, uma vez que estes são facilmente manipulados em
favor dos fortes contra os fracos (EV, n. 68).
A legitimação da eutanásia pelo Estado favorece a diminuição do
respeito pela vida, e “abre-se a estrada a comportamentos demolidores
da confiança nas relações sociais” (EV, n. 72). Não é lícito concordar
com uma lei moralmente injusta, e a objeção de consciência deveria ser
salvaguardada de ações penais (EV, n. 73).
820 M.E.O.S. Silva. Diretivas antecipadas da vontade

A ortotanásia difere da eutanásia. Permite que o paciente terminal


seja deixado para que o processo de morte siga seu curso naturalmente,
evitando-se tratamentos desproporcionais que não conseguirão mais
possibilitar a cura do doente, mas apenas aumentar sua agonia. Assegu-
ra-se ao paciente assistência básica que consiste em hidratação, alimen-
tação, higiene, medicamentos para atenuar a dor. Difere da eutanásia
passiva, pois não tem por objetivo a eliminação do sofrimento pela
supressão da vida do paciente, mas pela minimização daquele. Embora
os medicamentos para atenuar a dor possam antecipar a hora da morte,
a legitimação ética e jurídica de sua utilização consiste no que se cha-
ma de duplo efeito: o que se deseja é atenuar a dor, sendo que o efeito
secundário que consiste na antecipação da hora da morte não é o efei-
to desejado, mas apenas consequência indireta de um ato moralmente
bom. A Declaração sobre eutanásia cita uma declaração de Pio XII,
quando inquirido por um grupo de médicos sobre a liceidade moral da
supressão da dor e da consciência por meio de narcóticos no paciente
terminal, podendo ter por efeito colateral a abreviação da vida. O papa
responde que “se não existem outros meios e se, naquelas circunstân-
cias, isso em nada impede o cumprimento de outros deveres religiosos
e morais, sim”.
A ortotanásia envolve os cuidados paliativos, e a encíclica Evange-
lium vitae faz referência à importância destes em uma morte humaniza-
da (EV, n. 65). Os cuidados paliativos são definidos pela Organização
Mundial de Saúde (OMS) como sendo uma abordagem que melhora
a qualidade de vida dos pacientes e de suas famílias que enfrentam o
problema associado à doença com risco de vida através da prevenção e
do alívio do sofrimento por meio da identificação precoce, da avaliação
e do tratamento da dor e de outros problemas físicos, psicossociais e
espirituais. Os cuidados paliativos visam proporcionar alívio da dor e
de outros sintomas angustiantes; afirmam a vida e o morrer como um
processo normal, não tendo a intenção de acelerar ou adiar a morte; integram
os aspectos psicológicos e espirituais da assistência ao paciente; ofe-
recem um sistema de apoio para ajudar os pacientes a viver tão ativa-
mente quanto possível até o momento da morte e um sistema de apoio
para ajudar a família a lidar com o paciente durante a doença e em seu
próprio falecimento; usam uma abordagem de equipe, multidisciplinar,
para atender às necessidades dos pacientes e de suas famílias, incluindo
aconselhamento de luto, se indicado; visam melhorar a qualidade de
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vida e podem também influenciar positivamente o curso da doença;


devem ser aplicados no início da enfermidade, em conjunto com outras
terapias que se destinam a prolongar a vida, tais como a quimiotera-
pia ou radioterapia, incluindo as investigações necessárias para melhor
compreender e tratar as complicações clínicas angustiantes (OMS, 2002,
grifo nosso). Fica claro que a OMS não inclui a eutanásia como opção
nos cuidados paliativos. Na realidade, são opções totalmente diversas
para lidar com o sofrimento na terminalidade da vida humana.
O Magistério da Igreja também rejeita a obstinação terapêutica. A
Evangelium vitae (n. 65) afirma que “a renúncia a meios extraordinários
ou desproporcionados não equivale ao suicídio ou à eutanásia, mas ex-
prime a aceitação da condição humana defronte à morte”. A Decla-
ração (1980, cap. IV) sobre a eutanásia alerta para a necessidade de se
proteger a dignidade da pessoa humana contra o que chama de “tecni-
cismo” abusivo.
Podemos concluir este breve levantamento bibliográfico sobre a
posição do Magistério da Igreja Católica sobre a terminalidade da vida
com uma citação categórica de Joao Paulo II na encíclica Evangelium
vitae (n. 65, grifo do autor):
Feitas estas distinções, em conformidade com o Magistério dos meus
Predecessores e em comunhão com os Bispos da Igreja Católica, con-
firmo que a eutanásia é uma violação grave da Lei de Deus, enquanto morte
deliberada moralmente inaceitável de uma pessoa humana. Tal doutrina
está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus escrita, é
transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordiná-
rio e universal.
Neste momento, podemos nos perguntar se as Diretivas Antecipa-
das da Vontade estariam em conflito com a moral católica. No capitulo
IV da Declaração sobre a eutanásia da Congregação para a Doutrina da
Fé, que reflete sobre o uso proporcionado dos meios terapêuticos, apa-
rece de forma implícita a menção à liceidade da vontade do paciente,
embora a expressão Diretivas da Vontade não seja mencionada clara-
mente. A Declaração (grifo nosso) afirma que:
Em muitos casos a complexidade das situações pode ser tal que faça
surgir dúvidas sobre o modo de aplicar os princípios da moral. As deci-
sões pertencerão, em última análise, à consciência do doente ou das pessoas qualifica-
das para falar em nome dele, como também aos médicos, à luz das obrigações morais
e dos diferentes aspectos do caso.
822 M.E.O.S. Silva. Diretivas antecipadas da vontade

O Magistério reconhece o direito de decisão do paciente e seu “di-


reito à morte”, porém não entendido como o direito de se pedir ou
provocar a morte, mas “o direito de morrer com toda a serenidade,
na dignidade humana e cristã”, recusando o uso de meios terapêuticos
desproporcionados que, no Código de Ética Médica do CFM, são defi-
nidos como “ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas”.
Pode-se ponderar sobre a proporcionalidade de um meio, confrontan-
do o tipo de terapêutica a usar, seu grau de dificuldade e de risco, o cus-
to e as possibilidades de aplicação com o resultado que se pode esperar,
tendo em vista o estado do doente e suas forças físicas e morais (ibid.,
1988, cap. IV).
A Declaração afirma a liceidade em se interromper um tratamen-
to da medicina avançada, se este não apresenta resultados condizentes
com as esperanças nele depositadas, e reconhece a autonomia do pa-
ciente ao declarar:
Mas, para tal decisão, ter-se-á em conta o justo desejo do doente e da família,
como também o parecer de médicos verdadeiramente competentes;
são estes, na realidade, que estão em melhores condições do que nin-
guém, para poderem julgar se o investimento de instrumentos e de
pessoal é desproporcionado com os resultados previsíveis e se as técni-
cas postas em ação impõem ao paciente sofrimentos ou contrariedades
sem proporção com os benefícios que delas pode receber (ibid., 1988,
grifo nosso).
A Declaração sobre a eutanásia (1988, cap. IV) continua a não negar
a eticidade das Diretivas da Vontade, sempre implicitamente, sem usar
este termo, quando admite como “lícito contentar-se com os meios
normais que a medicina pode proporcionar”. Defende a autonomia do
doente quando afirma que
Não se pode, portanto, impor a ninguém a obrigação de recorrer a uma
técnica que, embora já em uso, ainda não está isenta de perigos ou é de-
masiado onerosa. Recusá-la não equivale a um suicídio; significa, antes,
aceitação da condição humana, preocupação de evitar pôr em ação um
dispositivo médico desproporcionado com os resultados que se podem
esperar, enfim, vontade de não impor obrigações demasiado pesadas à
família ou à coletividade.
– Na iminência de uma morte inevitável, apesar dos meios usados, é
lícito em consciência tomar a decisão de renunciar a tratamentos que
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dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, sem, con-


tudo, interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos semelhantes. Por
isso, o médico não tem motivos para se angustiar, como se não tivesse
prestado assistência a uma pessoa em perigo (ibid., 1988, grifo nosso).
Fica claro que o Magistério da Igreja Católica rejeita firmemente
o assentimento à eutanásia ou suicídio assistido como opção ética nas
Diretivas Antecipadas da Vontade. A vida não perde sua dignidade em
seus momentos finais, devendo o doente receber os cuidados paliativos
necessários a uma morte condizente com essa dignidade.
Ao afirmar a necessidade de o médico, em seu discernimento, in-
cluir a vontade do doente e da família, a Igreja evita o que, a nosso
ver, é um perigo das Diretivas Antecipadas da Vontade: ao propor-se
a autonomia do doente como fundamento para as Diretivas, deve-se
questionar se o mesmo dela dispõe plenamente, uma vez que, como
leigo, não tem condições de avaliar com clareza o prognóstico real dos
estados nosológicos em que aceita ou recusa tratamento. Isto levanta
alguns questionamentos de cunho bioético sobre as Diretivas: até que
ponto pode o médico assentir com o desejo do doente e da família, sem
incorrer na prática da eutanásia? Não são raras as ocasiões em que o
prognóstico do paciente não é tão claro mesmo para o médico. Como
se assegura a objeção de consciência em países onde a legislação permi-
te ou descriminaliza a eutanásia?
No caso do Brasil, a resolução 1995/2012 do CFM, conforme já
exposto, deixa claro que não se pode ferir nem a legislação nem o Có-
digo de Ética Médica, que não permitem a eutanásia. Neste caso, as
Diretivas Antecipadas da Vontade não apresentariam empecilho ético,
desde que a referida legislação e o referido Código sejam cumpridos
com rigor.
Outros questionamentos bioéticos são suscitados pela proposta das
Diretivas Antecipadas da Vontade. Embora as Diretivas não sejam um
documento definitivo, podendo e devendo ser revisado periodicamen-
te, como ter certeza de que a vontade do paciente não mudaria na expe-
riência da situação limite, sendo que a decisão tomada fora do contexto
comporta diferente carga emocional? Também, como denunciado pela
Evangelium vitae, a decisão sobre a terminalidade da vida começa a ser
824 M.E.O.S. Silva. Diretivas antecipadas da vontade

deslocada da autonomia, onde a justificativa seria a compaixão, para


a utilidade ou não daquela vida. Em uma sociedade utilitarista merca-
dológica, o fraco, o idoso, o não nascido, os doentes com limitações
permanentes, os comatosos e todos os que de alguma forma incomo-
dam ou geram custos são excluídos sociais. A dignidade deixa de ser
intrínseca à pessoa humana, passando a ser atribuição da sociedade, que
decide, tendo por base a qualidade de vida entendida dentro de uma
visão mercadológica, consumista e fetichizada.5 A qualidade de vida no
sentido bíblico significa o necessário e não o supérfluo. O relato bíbli-
co do maná mostra que qualidade de vida não é acumulação de bens:
“Moisés lhes disse: ‘Ninguém guarde nada para amanhã’. Alguns, po-
rém, desobedeceram a Moisés e guardaram o maná para o dia seguinte;
mas ele bichou e apodreceu” (Ex 16,19-20).
Entendemos que, para responder a esses questionamentos bioéticos
sobre as Diretivas Antecipadas da Vontade à luz da doutrina cristã cató-
lica, deve-se ter por fundamento a dignidade humana como a entende
o Magistério da Igreja Católica, resgatando-se a sacralidade da vida hu-
mana. Respeitar a autonomia do doente não deve significar desrespeitar
o direito à vida, o que levaria a ferir sua dignidade humana.

Considerações finais
O relativismo ético tem levado o ser humano a ferir sua própria
dignidade, repetindo erros de um passado não muito distante que mar-
caram profundamente a humanidade, erros estes que levaram às atro-
cidades cometidas no nazismo. É urgente que uma ética de respon-
sabilidade seja recuperada para que isto não se repita na história da
humanidade. Diante dos avanços tecnológicos é necessária não apenas
a responsabilidade com o futuro da humanidade, mas também com o
próprio ser humano em sua singularidade. Apenas dentro de um con-
texto de profundo respeito pelo ser humano, o que inclui o respeito
pela vida humana desde a concepção até a morte natural, as Diretivas

5. O “fetiche da mercadoria” na obra de Marx significa o fenômeno em que as relações sociais


não são pessoais, mas mercadológicas. A pessoa “desaparece” por trás da mercadoria. Nessa consciên-
cia fetichizada-capitalista há uma inversão de valores, e a mercadoria (produto) é mais importante que o
produtor; o valor atribuído ao ser humano não é ontológico, ou aquilo que ele é enquanto ser humano,
mas aquilo que ele faz ou produz, a quantidade de mercadoria que tem e sua utilidade. Surgem as rela-
ções de utilitarismo e individualismo. Os que não possuem mercadoria não são considerados “pessoa”
e podem ser descartados.
REB, Petrópolis, volume 75, número 300, p. 809-826, Out./Dez. 2015 825

Antecipadas da Vontade podem vir a constituir-se uma opção ética, não


entrando em conflito com a moral católica.
Endereço da Autora:
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Botafogo
13013-161 Campinas, SP/BRASIL
E-mail: emiliaschpallir@hotmail.com

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