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Cultura e racismo

(Aula inaugural FFLCH-USP 10/3/93)

Marilena Chauí

Foi o discurso anti-racista que ofereceu ao neo-racismo os elementos,


operando como espelho, para sua aparição. Pensamento eficaz deve
buscar elaborar discurso não-racista.
Começarei fazendo algumas observações preliminares exploração econômico-social; 3) Opera como uma
que me permitam delimitar o tema que me foi lógica que organiza, ordena, classifica, diferencia,
proposto para esta aula inaugural, que é vastíssimo. agrupa, explica e interpreta a realidade, lógica que
conserva a coerência sob a condição de que sejam
a)vou me ocupar, aqui, com um fenômeno que, para afastados ou silenciados todos os aspectos da
mim, é tão ou mais preocupante do que o realidade que poderiam perturbar ou desmentir a
ressurgimento de formas exacerbadas de racismo no
coerência proposta; 4) opera, portanto, por
Brasil: o fato de que foi o discurso anti-racista que construção de imagens ou representações que
ofereceu ao neo-racismo os elementos para sua ocultam e dissimulam a realidade; 5) não é uma causa
aparição. O que havia e o que há no discurso anti-
nem efeito da realidade, mas é parte dessa mesma
racista que o faz servir, como disse um estudioso, de realidade que ela ajuda a construir por meio de
espelho para o discurso racista? imagens (por isso, hoje em dia, muitos falam em
b)vou me ocupar aqui das formas mais recentes do imaginário social).
racismo no Brasil, pois há três maneiras, pelo menos, Tomarei mito, também, num sentido muito
de encarar a atitude racista: a atitude histórica, que simplificado e restrito para significar: 1) o momento
considera o racismo como um conceito e uma em que uma ideologia se cristaliza e se consolida,
ideologia que se constituíram apenas no século XIX, tornando-se a narrativa cotidiana que os sujeitos
quando a idéia de raça, em sentido biológico e sociais fazem de sua sociedade; 2) opera com signos e
genético, tornou-se critério social e político de símbolos de identificação do grupo, servindo-lhe de
diferenciação; a atitude a-histórica, que considera o referência fundamental para explicar e interpretar
racismo como uma forma milenar e difusa de
situações e fatos novos, referindo-os ao já pensado, já
estabelecer diferenças, classificações e hierarquias feito e já dito; 3) tem uma função pacificadora ou
entre os seres humanos; a atitude que opera com apaziguante diante das situações de tensão e crise; 4)
análise de ideologias e as considera temporais e oferece aos sujeitos sociais e políticos um mundo
dinâmicas, portanto, sujeitas a transformações ideal perfeito que compensa as imperfeições do
históricas, de tal modo que o racismo difuso dos mundo real onde vivem. Tratarei o racismo como
gregos e romanos, na antiguidade, ou o racismo ideologia e mito, cujas relações principais estão
explícito do século XIX, são momentos de uma história estabelecidas pelo nacionalismo.
ideológica.
d) cultura será tomado, aqui, no sentido vasto que lhe
c)vou me referir ao racismo contemporâneo, no dá a antropologia cultural (ou antropologia social e
Brasil, usando três referenciais de análise: ideologia, política), isto é, como a criação coletiva de
mitologia e nacionalismo. Evidentemente, o representações, valores, símbolos e práticas que
nacionalismo poderia ser incluído tanto na ideologia determinam para essa coletividade suas formas de
quanto na mitologia e se eu o separei, aqui, é relação com o espaço, o tempo, a Natureza e os
simplesmente porque darei a ele uma ênfase especial. outros homens, definindo o sagrado e o profano, o
Tomarei ideologia num sentido muito simplificado e necessário e o possível, o contraditório e o impossível,
restrito, significando: 1) uma forma de representação o justo e o injusto, o verdadeiro e o falso, o belo e o
da realidade que torna natural o que é cultural; 2) feio, o legítimo e o ilegítimo, o “nós” e o “eles”. Como
torna legítimos processos de dominação e de
escreveu um filósofo, a ordem humana da cultura é a renome, mas também, os ancestrais e os
da relação simbólica com o ausente, isto é, a descendentes; 3) por analogia, associações religiosas,
linguagem, o trabalho, a história e a morte. É corporações profissionais, grupos políticos: o gênero
sintomático que me tenha sido proposto como tema dos adivinhos, a espécie dos filósofos, e os génos que
para esta aula o título “cultura e racismo”, pois isto formam as fratrias na organização dos cidadãos em
indica que os proponentes já colocaram o racismo Atenas; 4) com idéia de nacionalidade: raça, povos,
como uma forma cultural de representação e tribos; 5) na classificação científica: gêneros e
simbolização da alteridade ou da diferença. Em outras espécies ou classes dos seres; 6)com a idéia de
palavras, já pressupuseram que o racismo é um geração e idade, ou de duração; uma geração de
construto cultural e, portanto, é algo historicamente homens.
determinado.
Como se observa, na língua grega, durante pelo
e) minha última observação preliminar é um convite menos 20 séculos, os sentidos de éthnos e génos se
para irmos, rapidamente, aos dicionários, pois eles espalha, se recobre, se diferencia, reúne sentidos
nos fornecem sempre duas contribuições preciosas: físicos ou biológicos e sentidos político-sociais.
em primeiro lugar, oferecem os vários modos pelos Formado um sentido geral de etnia e gênero, quando
quais uma cultura e uma sociedade usam certos referido aos helenos como povo ou raça, encontrarão
conceitos, tanto no nível do senso-comum ideológico um vocábulo ao qual se oporão: bárbaros, que
quanto no nível da pretensão filosófico-científica; em significa o estrangeiro, o não-heleno, o que não
segundo lugar, porque nos trazem a surpresa de ver pertence à raça, ao povo ou à estirpe dos helenos. O
famílias de palavras que, à primeira vista, não sentido de bárbaros se amplia: como helenos e
veríamos. As palavras que proponho que busquemos estrangeiros não se entendem, a língua dos bárbaros
nos dicionários são: no dicionário grego, éthnos e é incompreensível e, por extensão, bárbaro passa a
génos; no dicionário latino, natio, genus e ratio; no significar: confuso, incompreensível, grosseiro e rude;
luso-brasileiro, nação, raça e etnia. como helenos e bárbaros se guerreiam, nova
ampliação de sentido: os bárbaros são cruéis e não
éthnos: classe de seres de origem ou de condição cultivados; como os bárbaros não vivem sob a
comum, donde: 1) em geral, raça, povo, nação, tribo; organização política isto é, não criaram o poder
i) em particular, de pessoas: a raça dos mortais, a raça político, mas vivem sob a autoridade pessoal de um
dos homens, a raça dos povos; ii) em particular, de rei, vivem sob o despotismo e são os autores do
animais: a raça dos animais selvagens, a raça das despotismo oriental. Justamente porque não foram
abelhas, dos pássaros, dos peixes etc.; iii) por capazes de criar a política, mas vivem submetidos à
analogia: classe, corporação: a raça dos médicos, a autoridade patriarcal do chefe, os bárbaros não foram
raça dos artesãos, a raça dos rapsodos; iv). por feitos para a política; ora, somente na política o
analogia, segundo o posto ou a fortuna: a raça dos homem é livre; sendo incapazes de política, os
magistrados, a raça dos ricos; v). por analogia, o sexo: bárbaros são escravos por natureza. A raça dos
a raça das mulheres. 2) em sentido absoluto: raça, helenos — política, culta e livre — se diferencia da
povo e nação, isto é, grupos que têm a mesma origem raça dos bárbaros — despótica, grosseira e escrava.
e os mesmos costumes.
Passemos ao latim.
génos: 1) Nascimento, donde: i) o tempo do
nascimento (o mais velho, o mais jovem);ii)o lugar ou natio: vem de nascor: nascer, ser posto no mundo.
a condição do nascimento (cidadão por nascimento, Diz-se dos seres vivos (plantas, animais e homens) e
filho por nascimento, filho por adoção); iii) origem e por extensão e analogia, das coisas inanimadas.
descendência, tanto significando origem a partir de Nascença: se diz do que nasce da terra. Dependendo
alguém, quanto origem a partir de um lugar; 2) todo da declinação do substantivo, o verbo nascor significa
ser criado, reunião de todos os seres criados (deuses, idade, filho/filha, as crianças. Natales: nascimento,
homens, animais, coisas), significando raça, gênero e origem, raça, Nativus: que tem nascimento, que tem
espécie: a raça dos deuses, a raça dos metais; ou um começo; inato, natural, nativo, oposto a artificial.
significando a família, isto é, o sangue e a raça; gente Natio: 1) nascimento; 2) personificada e divinizada,
de família nobre, gente de nobre raça, família de Nação é a deusa que preside as mulheres no parto; 3)
na linguagem camponesa: as crias, a ninhada, a prole; dos grupos sanguíneos etc), representando variações
donde: conjunto de indivíduos nascidos no mesmo naturais no seio da espécie (raça branca, negra,
lugar ao mesmo tempo da mesma mãe e, vermelha, amarela); a partir do século XIX: grupo
finalmente,nascidos no mesmo lugar, em tempos natural de homens que possuem caracteres
diferentes e de mães diferentes. De nascor não vem semelhantes, físicos, psíquicos, culturais, provenientes
apenas nação, mas também Natureza: ação de fazer de um passado comum; etnia, povo, nação.
nascer, nascimento, natureza de alguma coisa, ordem
nação: 1270: nascimento, raça; 1) grupo de homens
das coisas geradas e os órgãos da geração.
para os quais se supõe uma origem comum; raça; 2)
genus: vem de geno: engendrar e, por extensão, grupo humano geralmente bastante vasto que se
produzir, causar (donde: genitor). Genus: nascimento, caracteriza pela consciência de sua unidade e pela
raça, nascimento nobre, estirpe, e por extensão: vontade de viver em comum; povo; 3) grupo humano
reunião de seres tendo uma origem comum e constituindo uma comunidade política estabelecida
características semelhantes naturais; o vocábulo num território definido ou um conjunto de territórios
genus é, por este motivo, sempre associado a natio. definidos e personificada por uma autoridade
Gênero natural e nação caminham juntos. De geno soberana; Estado; 4) conjunto de pessoas que
vem gens: o grupo de todos os que se prendem pelos constitui o grupo da comunidade étnica; 5) pessoa
machos a um ancestral comum, ancestral que é jurídica constituída pelo conjunto dos indivíduos que
macho e livre, formando a comunidade de origem compõem o Estado, mas, distintas dele e portadoras
(clã, família, tribo, raça e povo). Gentes designa o do direito subjetivo de soberania.
povo romano por diferença e oposição aos não-
romanos (afora os helenos, todos os não-romanos ou etnia: conjunto de indivíduos próximos por certos
traços comuns de civilização, notadamente a
as não-gentes, serão designados como bárbaros). É
dessa palavra, gentes, que os cristãos farão a oposição comunidade de língua e da cultura, ao contrário da
entre cristãos e pagãos, isto é, os gentios, tradução raça, que depende de caracteres anatômicos.
latina do hebraico: goi. Antes de qualquer comentário, observemos que tanto
ratio: vem de reor: contar, calcular. Ratio: conta, no dicionário grego como no de latim, a palavra raça
cálculo, faculdade de contar e calcular, por extensão, não existe e, no entanto, os tradutores não tiveram
faculdade de julgar e pensar, método, razão. Ao dúvida em traduzir ethnos, genos, natio, genus por
raça e, curiosamente, não tem como traduzir ratio por
contrário de todos os termos que vimos até aqui, não
encontramos em ratio nenhum sentido que permitisse raça. Vemos também que os dicionários não têm
falar em raça e, no entanto, é deste termo latino que dúvida em transformar os dois termos gregos e os
dois termos latinos em sinônimos de povo, país,
raça deriva.
Estado. Em suma, os dicionários traduzem para os
Vejamos, então, nossos dicionários. sentidos dos séculos XVIII, XIX e XX termos clássicos,
cuja significação não possui correspondentes em
raça: do italiano razza (século XV): espécie, tipo; vindo nossa sociedade e em nossa cultura. Esse
de ratio, contagem por semelhança de espécie e tipo. anacronismo dos dicionários, porém, não é infundado:
Donde: 1) famíla, considerada na seqüência de
as teorias sobre a nação, a raça e o Estado sempre
gerações e continuidades de caracteres — só se diz foram buscar na antiguidade greco-romana os
das grandes famílias, isto é, das dinastias que elementos com que pudessem legitimar sua própria
governam (a raça dos Capetos, a raça dos Tudor, a formulação. Em resumo: com seu anacronismo e com
raça dos Orléans e Bragança). Por extensão: família, sua a-historicidade, os dicionários nos oferecem em
sangue, comunidade de sangue ou linhagem; espécie. estado bruto os elementos conceituais com que
2) subdivisão da espécie zoológica, dividida em sub-
nação, raça e Estado foram elaborados, de modo a
raças ou variedades, constituídas por indivíduos que deixar claro, para nós, que a formulação moderna os
reúnem características comuns hereditárias; 3) grupos
associou, combinou e identificou.
humanos: século XVII: grupo étnico que se diferencia
dos outros por um conjunto de caracteres físicos Podemos evidenciar este fato, lembrando, por
hereditários (cor da pele, forma da cabeça, proporção exemplo, que, antes do surgimento do Estado-nação
no século XIX, a palavra nação designava os melhor instrumento para isto sendo a consulta
estrangeiros, isto é, os grupos que não eram da periódica aos sujeitos, na qualidade de cidadãos que
mesma origem que o grupo em cujo território o grupo escolhem representantes e emitem opiniões em
estrangeiro habitava. Falava-se na nação bantu ou público. Hobsbawn observa que as condições para
nagô para referir-se aos escravos africanos; na nação que o Estado seja Estado não parecem requerer que
tupi ou na nação tapuia para indicar os índios em ele seja uma nação. Por que, então, o Estado
território português; e os judeus, na Europa, eram moderno se apresenta como Estado-nação?
genericamente designados como “o povo da nação”.
Assim, até o século XIX, nação se refere à origem O Estado moderno, através da administração pública,
comum de um grupo estrangeiro; raça, por sua vez, se da legislação e do exército é onipresente e busca
refere, por exemplo, a corporações profissionais; país, legitimar-se através dos procedimentos de
democratização. Todavia, a democratização, ao
se refere ao território comunal de origem (país dos
bretões, país dos bascos, país dos gascões); etnia, afirmar a universalidade dos direitos numa sociedade
sequer era usada e Estado se referia aos estamentos de classes, onde os trabalhadores começam a se
ou às ordens sociais do mundo sócio-político do organizar em movimentos políticos, põe em perigo a
Antigo Regime. unidade e a legitimidade do Estado. Este precisa,
portanto, de uma espécie de legitimação cívica, uma
Encerro, assim, minhas primeiras observações religião cívica que desperte e conserve a lealdade.
enfatizando que, por um lado, os diferentes grupos Assim, ao lado do Estado político é preciso um Estado
sócio-políticos sempre encontraram instrumentos simbólico, emocional, cimento afetivo de lealdade e
lingüísticos e descritivos para designar diferenças que, obediência. O Estado simbólico-emocional é a nação,
para eles, eram tidas como naturais — helenos e a comunidade imaginária.
bárbaros, romanos e bárbaros, cristãos e gentios, fiéis
e góis. Para nós, entretanto, sendo traços de língua, Ora, diz Hobsbawn, para identificar-se com a nação, o
religião, organização política, nós os consideramos Estado precisaria contar com elementos
como culturais e, portanto, históricos não por protonacionais que fossem postos em movimento por
natureza. Por outro lado, percebemos como a ele como elementos nacionais. Quais seriam os
identificação entre Estado, nação, povo e raça é elementos protonacionais existentes na população
recentíssima e foi feita combinando termos e idéias que poderiam ser mobilizados politicamente pelo
de proveniências diferentes, mas que tinham em Estado para dar origem ao Estado nacional? A
comum três aspectos: 1) referir-se à origem do grupo; ideologia afirma que esses elementos são: a língua, a
2) referir-se a traços tidos como naturais a este grupo; religião, a consciência do pertencimento à
3) referir-se à diferenciação entre esse grupo e outros. comunidade e à etnia. Hobsbawn nos mostra que
Origem, naturalização e diferenciação permitiram unir nenhum desses elementos é protonacional:
termos e conceitos cujos sentidos, embora próximos, - antes do Estado-nação não há língua nacional, pelo
designavam realidades diferentes. Temos ideologias e, contrário, há dezenas de dialetos e de línguas, de
delas, virão mitologias. modo que a língua não é fator pré-nacional de
Eric Hobsbawn, num estudo recente sobre o unificação nacional e as línguas nacionais forma
surgimento dos estados nacionais, observa que para impostas pelo próprio Estado, a partir da linguagem
um Estado existir, precisa possuir quatro traços das elites cultas de cada país, a imposição sendo feita
definidos pela Revolução Francesa: 1) território pela educação e por formas variadas de comunicação
contínuo e demarcado por fronteiras legais social (hoje: rádio e televisão; ontem, o jornal de
reconhecidas; 2) exercer a autoridade diretamente e província);
não por meio de corporações e estamentos - a religião também não é o elemento protonacional
autônomos, isto é, possuir unidade e centralização de identificação e por dois motivos opostos: ou
jurídica, política e administrativa; 3) ser reconhecido porque a religião visa ao universal e não ao particular;
como povo soberano, isto é, uno, indiviso e autor de ou porque a religião visa ao particular extremo, a
suas leis; 4) encontrar mecanismos de legitimação tribo, por exemplo. Nos dois casos, a religiosidade não
pelos quais a população seja leal aos governantes, o serve aos fins nacionais do Estado;
- o sentimento de pertencer a uma comunidade de 2. a democratização, levando a classe trabalhadora a
origem não é popular; as elites dominantes, pré- organizar-se social e politicamente, pondo em dúvida
nacionais e pré-estatais, possuem essa consciência a legitimidade do mercado e do Estado político e,
(são regidas pelos princípios da natio, fidelitas e sobretudo, exigindo a efetivação de seus direitos;
communitas), mas as classes populares possuem
lealdades locais e dirigidas a pessoas concretas, jamais 3. a teoria darwinista da evolução das espécies e da
uma lealdade abstrata à comunidade de origem; sobrevivência dos mais aptos por seleção natural das
raças melhores e superiores;
- finalmente, a etnia ou a raça; na medida em que o
Estado político está à procura de uma unidade 4. o desenvolvimento dos estudos de genética,
nacional é porque ela não está dada para ele e a enfatizando os caracteres hereditários dos indivíduos
pluralidade étnica e racial é um fato inescapável, e grupos.
sobretudo porque a existência das pequenas Através da escola e das universidades, através da
comunidades locais, das corporações profissionais, legislação sobre imigração e migração, através dos
das ordens múltiplas, e das “nações”, multiplica as estratos cultos da pequena burguesia (professores,
etnias, em vez de unificá-las. Assim sendo, a etnia, jornalistas de província, oficiais subalternos) que se
também, não é o elemento protonacional para a sentem ameaçados pela democracia, pelos
nação. trabalhadores, pelos capitalistas e pelos
Como explicar que não sendo estes os elementos imigrantes/migrantes, uma poderosa engenharia
protonacionais da nação, quando esta se apresenta social e política fará da raça o conceito central da
como Estado nacional e estes sejam os elementos nação. Agora, a língua se torna produto da raça e a
apresentados como seus constituintes? É que o reforça; a religião se torna produto da raça e a
Estado político produz a ideologia nacional e cria o reforça; o pertencimento à comunidade de origem se
torna produto da raça e a reforça. Com a raça
Estado-nação. Ele o faz criando uma herança nacional,
uma tradição nacional, uma história nacional, uma produzindo a língua, a religião e a comunidade, está
educação nacional e os símbolos nacionais e, produzida a nação. E, com o nacionalismo virá o
sobretudo, ele o faz através da invenção da etnia racismo, que o exprime como os genitores exprimem
como raça biológica. Assim, o Estado Nacional é um a prole.
construto histórico, de natureza política e ideológica, No entanto, se compararmos o racismo do século XIX
cujo principal agente de elaboração é a classe média e aquele que preside o nazismo com o racismo
urbana estimulada pelo Estado. Esta classe não possui contemporâneo, as diferenças são grandes e delas é
os vínculos políticos e econômicos que lhe dêem preciso tratar.
estabilidade, ao contrário da classe dominante que
domina a economia e o Estado político e da classe Sem dúvida, todos os racismos possuem em comum a
trabalhadora que se relaciona com o mercado e com o idéia da nação una e indivisa no espaço e no tempo; a
Estado pela mediação da classe dominante. Assim, o idéia de raças inferiores e superiores por
Estado político mobiliza a classe média e a elite hereditariedade; o conservadorismo reacionário
intelectual para produzir o Estado nacional. antidemocrático e autoritário. São ideologias
etnocêntricas e xenófobas. São ideologias biológicas,
Por que, nesta construção ideológica, a etnia psicológicas e políticas. São nacionalistas e erguem
entendida como raça natural terá um papel central, mitos nacionais, operam com a identidade nacional
desde o final do século XIX? mítica, o caráter nacional mítico. Mas são histórica e
Pelo menos por quatro motivos principais: conceitualmente diferentes.

1. a urbanização moderna, produzindo, pela imigração Diferença histórica: o racismo nacionalista do século
e migração, uma diáspora sem precedentes e XIX e da primeira metade do século XX exprime o
causando verdadeiro terror nos estratos mais momento de construção, consolidação e plenitude
dos Estados nacionais; o racismo nacionalista do final
tradicionais da classe dominante e na classe média;
do século XX exprime a mudança que o capitalismo
neoliberal impôs aos Estados nacionais, isto é, sua
desaparição no mercado mundial transnacional e a sobre a raça em legítimos (científicos) e ilegítimos
formação de conglomerados políticos. Estamos (racistas e ideológicos). A fragilidade desse argumento
assistindo ao possível término dos Estados nacionais é evidente, na medida em que não discute a própria
e, por isso, o racismo nacionalista não pode, hoje, cientificidade da biologia e da genética quando criam
exprimir-se como se exprimia ontem. o conceito de raça;

Diferença conceitual ou ideológica: embora o racismo 2. para corrigir essa fragilidade, o discurso anti-racista
seja uma ideologia e uma paixão, embora seja introduz outro, fornecido pelos geneticistas: a raça é
essencialmente violento, não opera, hoje, com as um dado genético comprovado; o racismo, porém,
categorias que lhe permitiam operar até os anos 50 de transforma as diferenças de raças em hierarquias
nosso século. A grande mudança ideológica lhe foi entre raças e, por isso, será melhor encontrar um
dada de presente, afinal, pelo discurso anti-racista dos outro conceito para designar a raça, já que o de raça
anos 50 e 60. De fato, o antigo racismo era, foi desvirtuado pelo racismo. A fragilidade, também é
fundamentalmente, uma ideologia biológica e uma evidente, pois, mudado o conceito, bastará mudá-lo
mitologia dos caracteres hereditários. O discurso anti- também no racismo, que continuará a ter bases
racista dos anos 60 e 70 demonstrou que a raça era, científicas para se pronunciar;
na verdade, etnia e que a etnia é um fato e um
processo cultural-histórico, algo feito e construído 3. os anti-racista preferem, então, mudar de terreno:
pela ação humana e não um dado da natureza. O raça não é um conceito biológico ou genético, mas um
conceito social e político usado para justificar a
atual discurso racista se apropriou da elaboração anti-
racista e fez dela sua nova bandeira. discriminação, o assassinato e o genocídio; o conceito
a ser usado para captar as diferenças sociais e
Escrevendo sobre o novo nacionalismo racista, Pierre culturais: é a etnia. E, é este argumento que permite
André Taguieff distingue três níveis do racismo e dois que, do discurso anti-racista. Saia um novo discurso
grandes tipos de racismo contemporâneo. racista.

Níveis: Dissemos que o discurso racista além de possuir


níveis, também, se distribui em tipos. Os dois grandes
- racismo primário: fenômeno psico-social emocional tipos de discurso racistas — excluído o discurso
ou passional, sem qualquer elaboração ou apavorado e apavorante do racismo como paixão
justificação; corresponde ao que chamo de mito. Há irracional — surgem, na verdade, legitimados pelo
uma mitologia racista que é um estado de espírito discurso anti-racistas. O primeiro é o discurso
passional, irracional, que exprime medo e cólera, universalista, o segundo o contrário do primeiro, é o
terror e ódio; discurso comunitarista. O primeiro corresponde,
- racismo secundário: fenômeno psico-social mais sobretudo, aos séculos XIX e XX, até os anos 60; o
sofisticado e que consiste no etnocentrismo; segundo corresponde, sobretudo, ao final do século.
Isto não significa que o primeiro tenha desaparecido,
- racismo terciário: que usa o vocabulário da raça e mas ele permaneceu como discurso que corresponde
desenvolve justificativas científicas — nos séculos XIX ao ato do racismo mitológico passional, enquanto o
e início do XX, a justificativa vem da biologia e da segundo se tornou o discurso racista predominante.
genética; agora, vem da antropologia e da psicologia
social. O discurso racista universalista é o filho bastardo da
Revolução Francesa (ou do que os marxistas chamam
Esses três níveis de racismo encontram como de revolução burguesa); o discurso racista
adversários os argumentos anti-racistas. Que dizem os comunitarista é filho bastardo do pós-modernismo
discursos anti-racistas? (isto é, do elogio do descentramento e da diferença).
Antes de explicitarmos essas filiações, vejamos o que
1. raça e racismo não são a mesma coisa, isto é, a raça
tais discursos, de acordo com a descrição que deles
é um dado natural e o racismo é uma ideologia que
nos faz Taguieff.
usa esses dados com propósitos de discriminação e
violência; este argumento divide, portanto, discursos
Racismo universalista ou discriminatório: afirma a negros, os índios, os judeus tiverem amor à sua
existência de um modelo universal de humanidade diferença e à sua comunidade, serão os primeiros a
numa escala hierárquica de espécies ou raças que vão concordar conosco. Como a negritude, como a
da mais inferior à superior; afirma a naturalidade da indianidade, como a orientalidade, como o arabismo e
desigualdade e da hierarquia das raças. Esta racismo, o judaísmo haverão de permanecer em sua pureza e
biológico e etnocêntrico (pois a raça superior é a integridade, se deixarmos imigrações, migrações e
minha), presidiu a formação dos impérios coloniais, a miscigenações acontecerem? Para nosso bem e para o
escravatura, o nazismo e o fascismo. Seus axiomas bem dos outros, respeitemos o direito democrático à
são: a desigualdade é natural e nós somos os diferença. Sem dúvida somos desiguais e ninguém há
melhores; existe um único e verdadeiro tipo ou raça de negar que alguns são superiores a outros, mas
humana, e somo nós. Como diz um autor, os outros ninguém precisa ser exterminado, desde que não
pertencem a raças particulares e nós pertencemos e venha contaminar a minha diferença. Os movimentos
somos o universal. Os outros são não-humanos, semi- nacionalistas ganham a totalidade do
humanos ou quase-humanos. Nós somos os humanos fundamentalismo religioso porque a religião é a mais
e a humanidade. Exterminar o outro é natural e não é pura e autêntica guardiã da raça — mulçumanos (e
eticamente imoral, pois o outro não faz parte do sua divisões) católicos (e suas divisões), ortodoxos,
gênero humano. judeus, budistas, cada religião exprime a nação e a
raça, no mesmo momento em que o Estado nacional
Racismo comunitarista ou diferencialista: é o racismo está desaparecendo.
contemporâneo que se apropriou dos pontos centrais
do anti-racismo, isto é, que a raça não é natureza, mas Se o discurso racista universalista era etnocêntrico e
cultura e etnia, e que todos temos o direto à rumava a escravatura e para o genocídio: o discurso
diferença. Agora, afirma-se o caráter sagrado da racista comunitarista é xenófobo e prefere formas
comunidade, a identidade do grupo ou da nação, a legais de separação e exclusão, para não ter que
obrigação de defender a integridade, a identidade e a chegar à violência do genocídio. Entre a violência
especificidade da nação ou comunidade e, portanto, física do racismo discriminatório — colonialismo,
sua diferença. Cada comunidade-nação tem sua escravatura e genocídio — e a violência simbólica do
tradição, sua história, seus costumes, sua origem, sua racismo diferencialista — segregação e apartheid — o
língua, sua religião, sua sexualidade — essa diferença discurso anti-racista tornou-se impotente, vendo o
tanto pode ser genético-hereditária quanto racismo nacionalista apropriar-se de seus argumentos.
puramente histórico-cultural, pois o importante não é O discurso racista discriminatório funda-se nos valores
a causa ou a origem dessa diferença e sim sua mais caros à democracia nascida na Revolução
existência visível (vejo a diferença da cor da pele, da Francesa: o indivíduo e a universalidade; o discurso
textura da pele e do cabelo, dos gostos culinários, do racista diferencialista funda-se nas armas que as
modo de se vestir, do formato dos olhos, dos deuses minorias criaram para sua auto-defesa anti-racista: a
adorados, das formas de parentesco e de casamento, comunidade e a alteridade. Lembremos por exemplo,
da música, da dança, da pintura, dos modos de pensar dos trabalhos científicos e filosóficos dos negros
a diferença é um fato dado, de pensar o outro é um africanos ao elaborar a negritude para diferenciá-la do
fato dado) Ora, cada comunidade-nação (por ser helenismo europeu, ou dos trabalhos dos eruditos
tomada como mito e não criação histórica) tem sua judeus par diferenciar a cultura hebraica da grego-
verdade própria, milenar, tem sua língua materna, romana, ou dos trabalhos dos antropólogos para
seus símbolos pátrios, seus costumes. Cada Estado- garantir a diferença indígena, ou dos folcloristas e do
nação existe, desde todo sempre, como uma cinema novo brasileiro para afirmar a dimensão
realidade cultural inquestionada. É obrigação de cada revolucionária do ser nordestino. Cada um desses
um deles preservar sua diferença, sua alteridade, sua esforços anti-racistas dos anos 50, 60 e 70 produziram
autenticidade. Portanto somos contra a imigração, a como contrapartida o neo-racismo do direito à
migração, a mestiçagem, o sincretismo religioso, o diferença, do qual o movimento separatista que
sincretismo nas artes, a importação de idéias, pois começa a crescer no sul é o último exemplo.
tudo isso retira da nossa comunidade nacional sua
vida verdadeira. Se os imigrantes, os migrantes, os
Não é minha intenção concluir de modo pessimista, Ainda em 1992, participei de uma comissão contra o
dizendo que os racistas sempre serão mais fortes do racismo e o neonazismo, da qual participavam judeus,
que o anti-racismo. Mas, também, não poderei negros e nordestinos que, embora acidentalmente
concluir com otimismo ingênuo. unidos por um perigo comum, manifestavam o
racismo entre si, exprimindo o modo como a
Em 1992, quando o neonazismo, o separatismo, a organização social, as ideologias políticas e as
cruzada antinordestina e contra os negros mitologias culturais impregnavam mesmo aqueles que
recrudesceu em São Paulo, na qualidade de ocupante
têm no racismo seu grande adversário.
de um posto na administração pública responsável
pela cultura, propus que a SMC (Secretaria Municipal Se escolhi, entre vários caminhos possíveis para a aula
da Cultura) tivesse como tema 500 Anos Depois: São de hoje, aquele que aponta o modo como o discurso e
Paulo dos 1000 Povos, diga não ao preconceito, diga as idéias anti-racistas acabam operando como espelho
sim à solidariedade. Desconfio, aliás, ter sido este o para o racismo oferecendo a este último argumentos
motivo para que a Comissão de Graduação da para renovar-se e atualizar-se é porque estou
Faculdade sugerisse como tema esta aula inaugural convencida de que as categorias de que dispomos
"Cultura e Racismo". para pensar o Brasil e para pensar o racismo não são
suficientes para quebrá-lo. Sei, como muitos sabem,
Na verdade, minha preocupação com o racismo vem que o mundo não se transforma por meio de idéias,
de longa data, tanto por minha participação na pois as relações sociais são uma matéria opaca que
Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos —
determinada nosso pensar e nosso agir. Mas acredito,
cujos trabalhos, hoje, se desenvolvem na USP no também, que se não inventarmos um outro
Núcleo de Estudos da Violência quanto por meu pensamento para os problemas que enfrentamos, não
interesse em compreender a sociedade brasileira
atravessaremos a opacidade da matéria social e nossa
como sociedade autoritária e violenta, repousando ação política e intelectual será cega.
sobre o mito da não-violência, da democracia racial e
dos direitos políticos de todos os cidadãos. Sociedade A questão que, muito grosseiramente, procurei
hierárquica, marcada por relações sociais de tutela e abordar aqui, sugere que, talvez, nossa impotência
relação políticas de favor e clientela, crispada no para elaborar um discurso contra o racismo venha do
verde-amarelismo da Seleção canarinho e das Escolas fato de termos sempre elaborado discursos anti-
de Samba, a sociedade brasileira, quantos já o racistas, quando talvez fosse o caso de elaborar um
disseram e quantos já o demonstraram, é discurso não-racista. Mas isto é assunto para uma
profundamente racista (tanto como machista e outra aula, numa outra ocasião.
classista). São Paulo, talvez mais do que outras
cidades, é conservadora e reacionária, incapaz de um Muito obrigada.
cotidiano minimamente fundado na idéia dos direitos MARILENA CHAUÍ
fundamentais dos cidadãos. Livre-docente em Filosofia — USP, ex-secretária de
Cultura da Cidade de São Paulo, 1989-1992

Disponível no site http://www.vermelho.org.br/museu/principios/anteriores.asp?edicao=29&cod_not=1062 em 20/11/2008