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Heloisa Deroide, Lucas Tacara, Lucas Rodrigo, Rafael Ziccardi, Maria Gabriela

Rufino e Verônica Guilhermino

Relatório Final da Disciplina de Sociologia Clássica: Financeirização do


Capitalismo

FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS DE SÃO PAULO

Curso de Administração Pública

São Paulo – SP

Junho/2021
FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

Relatório de Sociologia Clássica

Relatório apresentado como conclusão


final de Sociologia Clássica do Curso de
Administração Pública, sob orientação
do Prof.º Francisco Fonseca

São Paulo, SP

2021
Sumário

Introdução........................................................................................................................4

Como surgiu e o que é o capital financeiro...................................................................5

Capital Improdutivo: rentismo e especulação financeira............................................7

A Dívida Pública Brasileira............................................................................................9

Fortalecimento do poder político do capital financeiro e enfraquecimento do poder


público.............................................................................................................................11

Conclusão.......................................................................................................................13

Referências.....................................................................................................................14

Anexo – Entrevistas.......................................................................................................16
Introdução

Um pouco antes da virada do milênio no século XX, o capital-dinheiro foi-se


concentrado nas mãos de grandes bancos e de fundos de pensão, estando provavelmente
em vias de estabelecer ascendência sobre o capital industrial da época. Dessa maneira, foi
uma mudança crucial no modo de funcionamento do capitalismo moderno, favorecendo
assim o rentismo em relação ao industrialismo, fora propiciada pelas políticas de
liberalização, de desregulamentação e de privatização iniciadas no governo de Margareth
Thatcher no Reino Unido.

A crise financeira no sistema capitalista recente não tem precedentes no período


do pós-guerra. Desse modo, a crise capitalista se configura em um momento crucial, o
qual desperta e ajuda a repensar os funcionamentos do capitalismo recente. O capitalismo
hodierno tem sido predominantemente apreendido por meio do termo “financeirização do
capitalismo” nas discussões mais relevantes. Um aspecto importante das abordagens
contemporâneas é a ideia da supremacia do neoliberalismo, principalmente do setor
financeiro dos bancos globalizado da economia, produz-se assim uma versão
naturalmente predatória de capitalismo que, ademais, tem uma específica tendência a
gerar crises mundiais. No setor da economia, o termo financeirização indica o fenômeno
da importância crescente dos mercados financeiros, das instituições financeiras e das
elites financeiras na operação da economia e de suas instituições ligadas ao governo, tanto
no nível nacional como internacional.

A financeirização do capitalismo incorpora um amplo conjunto de instituições,


procedimentos, reflexões e estratégias que tornam possível e viável a realização de certas
metas fundamentais no capitalismo atual. Relacionando brevemente Marx a
financeirização do capital é uma forma de interligar a tese do autor sobre a constituição
das relações sociais como mercadorias. Os mercados financeiros trabalham na sociedade
com uma dupla função, tendo por base, acessar e organizar efetivamente os atores
econômicos individuais e, por outro, provocar certas formas particulares de finança.
Desse modo, insere o procedimento de calcular e assimilar os riscos, pois dessa maneira
os tornam determinados entre si; ao fazê-lo, reduzem suas diferenças a uma
singularidade. 
Como surgiu e o que é o capital financeiro

Em síntese, o capital financeiro é derivado de uma série de transformações nas


políticas econômicas das nações centrais do capitalismo após o final da década de 60,
advindas da crise de esgotamento do sistema fordista e o declínio do chamado Estado de
bem-estar social, ou welfare state. O welfare state surge no pós-segunda guerra mundial
como expressão da recuperação socioeconômica dos países europeus afetados pelo
aumento na vulnerabilidade social, falta de infraestrutura básica e produção diminuída
pelos danos da guerra. É também derivado da ampliação da teoria dos direitos humanos
universais, que terá grande impacto nas políticas públicas desses países, já que aumenta
o número de direitos atrelados aos cidadãos, atribuindo como papel do Estado garantir
em certa medida sua efetivação. Conjuntamente à extensão do papel estatal, os países
centrais firmam, em 1944, o Acordo de Bretton-Woods, responsável pela estabilidade dos
mercados nas próximas duas décadas, pois estabelecia, entre outras coisas, câmbio fixado
e lastreado em dólar, e esse lastreado em ouro. 

No final da década de 1960, porém, os países integrantes dessas medidas


começaram a apresentar a chamada “crise de sobre acumulação do capital”. Essa crise
consistia na falta de endereçamento do capital excedente produzido pela recuperação
econômica, já que existe uma desconexão no fator capital-trabalho causado pelo cada vez
menor lucro obtido pelo reinvestimento no mesmo setor produtivo. Chesnais, estudioso
marxista, explica a mundialização do capital em 3 etapas. A primeira etapa é a de
internacionalização indireta do capital. Esse capital anteriormente ocioso acumulado
internamente acaba encontrando um destinatário: um mercado offshore (ou seja,
internacional) de “eurodólares”, onde a taxa cambial fixa não era respeitada. Devido essa
movimentação indireta, o governo dos EUA unilateralmente em 1971 decide romper com
o acordo de lastro ouro-dólar, influenciando a flexibilização do câmbio e a possibilidade
de ampliação da especulação financeira entre países, quebrando a lógica precedente de
economias nacionalizadas. Também nesse período houve o desenvolvimento do
“petrodólar”, título atrelado ao petróleo que se valorizou absurdamente durante as crises
do petróleo, sendo emprestado a países periféricos, o que futuramente culmina em
aumento da dívida pública desses países. 

A segunda etapa consiste finalmente no aparelho estatal sendo desregulamentado


e liberalizado durante os anos de 1979-1981, principalmente na Grã-Bretanha com
Margaret Thatcher e Ronald Reagan nos Estados Unidos. Essas duas economias puxam
a ideia de aumentar a circulação e interação financeira interna e externa à nível mundial,
trazendo a possibilidade de novos produtos financeiros, e principalmente com o
fortalecimento do uso dos títulos de dívida pública, através da securitização destes, como
expansor da barreira fiscal dos países (em detrimento aos impostos, que sempre foram
utilizados como expansores das divisas), auxiliando no aumento exponencial das
economias.

O problema começa no chamado “golpe de Estado” dos credores. Os EUA com


sua enorme dívida (e consequente atrelamento as taxas de juros) viram a situação
oportuna de rendimento na manipulação política das taxas de juros e câmbio, a fim de
aumentar seu retorno com os crescentes títulos públicos. A dívida pública pode gerar
pressões fiscais por tributação progressiva e aumento da austeridade fiscal nos países
periféricos, por conta do aumento da subordinação via explosão da dívida (que foi
atrelada em dólares nos anos 80, se valorizando com as taxas de juros impostas pelos
EUA para suprir dificuldades internas e a dificuldade na rolagem da mesma). Ou seja, os
países periféricos onde o Estado tem grande participação tiveram aumento nas dívidas
atreladas muito pela reciclagem dos petrodólares, causado pelo aumento do dólar e das
taxas alteradas politicamente pelos EUA. 

Por fim, na terceira etapa, houve a desregulamentação dos mercados acionários


no final da década de 1980, gerando um consequente acirramento entre economias
nacionais para a vinda de capital (agora internacionalizado, porém com maior
possibilidade de endereçamento, já que os movimentos de títulos expandiram as
operações financeiras). Esse movimento acionário ocasionou também a entrada muitas
vezes forçada das economias emergentes no cenário especulativo, por conta da pressão
dos Estados Unidos e FMI sobre as economias com grandes dívidas públicas. Em planos
individuais, esse movimento causou um fenômeno de mudança qualitativa do capital (já
anteriormente referenciado em Marx) onde pequenas somas, muitas vezes obtidas de
maneira compulsória via fundos previdenciários dos funcionários, são manipuladas por
um único agente que interfere contra a população, já que seus investimentos não retornam
para os contribuintes. 

Essa trilha histórica indica que, para Chesnais, o capital financeiro é fruto da
mundialização (chamada de financeirização por outros autores) do capitalismo, ou seja,
da internacionalização e atrelamentos de economias e finanças, em detrimento dos
anteriores investimentos internos no setor industrial. Esse capital, portanto, é definido
pela origem nesse movimento e seu caráter de surgimento fundado na especulação em si,
e não nas forças produtivas diretamente, que se retroalimenta pela necessidade constante
de aumentar a lucratividade, possibilitada pelos juros altos e grande capacidade de
movimentação de capital entre mercados. Ocorre também, como indicado em Marx na
sua discussão dominância de narrativas, um movimento ideológico burguês que, como
classe dominante, efetuou por décadas essa mudança na lógica de acumulação e
rentabilidade e agora impele essa ideologia dos juros altos, através das instituições
financeiras, também a população, não se limitando tão somente a escala governamental e
dos grandes atores após a mudança nos mercados acionários. 

Capital Improdutivo: rentismo e especulação financeira

Primeiramente, é preciso diferenciar investimento e aplicação financeira. O


primeiro pode ser muito benéfico ao desenvolvimento de uma economia, assim, as
empresas e indústria podem utilizar esses investimentos para aumentar sua produtividade
ou equilibrar seus caixas, por exemplo. No entanto, quando se trata do segundo, não há
nenhuma produção agregada ao lucro advindo das aplicações financeiras. A troca e venda
de “papéis”, ou ativos da bolsa, geram rendimento em uma dinâmica de soma zero: quem
comprou ações na baixa e as vendeu na alta lucra, porque alguém as comprou na alta e as
vendeu na baixa, como explica Ladislau Dowbor, professor de economia e autor do livro
A Era do Capital Improdutivo. Nessa lógica, por meio de especulação financeira, pode-
se lucrar milhares de reais e não se produzir um par de sapatos a mais. Isso é denominado
capital improdutivo.

De 1980 a 2006, a riqueza financeira mundial (o que inclui títulos da dívida


pública e privada, aplicações bancárias, ações etc.) cresceu mais de 14 vezes, enquanto o
Produto Interno Bruto (PIB) cresceu menos de 5 vezes. Trata-se, portanto, de um capital
fictício, isto é, desvinculado da esfera produtiva, que desde então aumenta sua influência
no poder político global. Essa questão de seu poder será tratada mais à frente neste
trabalho.    
Outra desvirtuação a ser destacada são os juros abusivos. A lógica ideal de juros
pode ser exemplificada da seguinte maneira: uma produtora de bolos caseiros, Joana,
buscando aumentar a sua produtividade, vai ao banco pedir um empréstimo para comprar
fornos novos, lá o responsável do banco oferece ótimos planos com juros justos à pequena
empresária, que aceita; após alguns meses, com a produtividade aumentada pela compra
do novo forno, a produtora de bolos consegue pagar suas prestações de juros e ainda
arrecadar mais dinheiro do que antes do empréstimo. Todavia, o que ocorre quando os
bancos aplicam juros abusivos é que, mesmo após Joana aumentar sua receita devido ao
aumento da produtividade, não consegue pagar as prestações do empréstimo sem ter
prejuízo, isso faz com que a pequena empresária fique sufocada com a dívida, o que a
longo prazo pode levar ao encerramento de sua produção. Infelizmente, a situação
hipotética de Joana é, na realidade, análoga à de milhões de brasileiros e de pequenos e
médios empresários/produtores. Essa dinâmica gera, evidentemente, muito lucro aos
bancos, entretanto, dois efeitos negativos podem ser observados.  

Primeiro, esse dinheiro arrecadado pelo banco, por meio de juros abusivos, é
captado do sistema produtivo, ou seja, retira capital da cadeia produtiva e o transforma
em capital improdutivo que o banco utilizará para rentismo por meio de mais empréstimos
abusivos ou para especulação financeira. Em segundo lugar, é evidente que essa dinâmica
não é sustentável, as famílias e os empresários/produtores endividados paralisam toda a
cadeia produtiva de uma nação, causando graves danos sociais e econômicos.

Para deixar o tema mais palpável, pode-se analisar a quantidade de endividados


no Brasil. De acordo com a Conferência Nacional do Comércio (CNC), 66,5% das
famílias brasileiras estavam endividadas em março de 2021. Junto a isso, segundo o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as taxas de desemprego e de
desalento (quando já se desistiu de procurar emprego) seguem altas, o que corresponde,
respectivamente, a 14,8% e a 5,4% no primeiro trimestre de 2021, totalizando mais de
um quinto de toda a população economicamente ativa sem emprego. Questiona-se, então,
como os desempregados endividados conseguirão pagar as suas dívidas. Infelizmente, em
meio a esse desastre, agravado pela pandemia, a fome no Brasil segue aumentando. Um
levantamento do grupo de pesquisa “Alimento pela Justiça” aponta que 27,7% (15%
grave e 12,7% moderada) da população, ou 58 milhões de brasileiros, estavam em
situação de insegurança alimentar média ou grave em dezembro de 2020. Ainda assim, o
Banco Central estimou que em março de 2021 os juros ao ano de cartões de crédito
aumentaram para uma média de 311,7%, apesar da razão do endividamento da maior
parcela dos brasileiros ser justamente o cartão de crédito.

Em uma situação na qual o mercado financeiro e os bancos são pouco regulados,


as desastrosas práticas descritas se tornam realidade geral. Hoje o capital improdutivo é
o mais atrativo do ponto de vista financeiro. Isso porque, dada a baixa taxação, as
aplicações financeiras trazem mais lucro do que os investimentos reais. Do mesmo modo,
a falta de regulação aos bancos permite-os aplicar juros abusivos contra seus clientes.
Para exemplificar essa falta de regulação, basta observar o fato de que o Art. 192 “Do
Sistema Financeiro Nacional” da Constituição Cidadã possui todas as suas disposições
revogadas. Vale deixar claro que todo esse lucro que o sistema financeiro e os bancos
retiram de especulação e altos juros é capital improdutivo e, portanto, é dinheiro retirado
da cadeia produtiva, o qual será utilizado, novamente, para gerar mais capital
improdutivo. O sistema produtivo é parasitado pelo rentismo. Esse ciclo, evidentemente,
não é sustentável: a sociedade não se mantém de dinheiro, mas de trabalho, produção e
serviços. Por fim, desenvolve-se, então, um sistema econômico muito instável por não
haver bases concretas para esse capital fictício.

A dívida pública brasileira

A dívida pública brasileira pode ser definida como, as contas que o governo
brasileiro faz para financiar as despesas que não consegue custear com a sua arrecadação
tributária e nem com outras fontes de receita. Para ilustrar, a dívida pública brasileira em
setembro de 2020, subiu 2,59%, passando de 4,412 trilhões para 4,525 trilhões de reais,
nesses gastos estão enquadrados pagamentos de juros, empréstimo, previdência, defesa
nacional, educação, saúde, trabalho, judiciário, assistência social, transferência de verba
para estados e municípios entre outros.

Anualmente, o Governo Federal faz um orçamento para prever os gastos das


contas para o próximo ano, através da Lei Orçamentária Anual, onde é estimado o valor
que deve entrar nos cofres públicos, por meio do pagamento de tributos e outros dos
cidadãos brasileiros, e assim estimar quanto pode ser repassado para cada setor do país.
Contudo, se o governo não consiga arrecadar o valor estimado para pagar todas as
despesas cotadas e ainda tenha que gastar mais do que vai receber, acaba gerando déficit
orçamentário, e é preciso obter mais recursos para financiar os gastos extras, provocando
a dívida pública.

Para capitar recursos financeiros para pagar a dívida pública o governo faz a
emissão de títulos públicos que acaba sendo a forma mais comum do governo financiar
sua dívida que engloba instrumentos financeiros de renda fixas vendidos por exemplo, a
instituições bancárias e a pessoas físicas, que recebem em troca o valor do título investido
com uma pequena quantidade de juros acrescido. A emissão de fato dos títulos públicos
do governo é feita através de “leilões” que diversas instituições financeiras participam da
compra e a emissão desses títulos comprados são chamados de dívida mobiliária.

Outra maneira feita pelo governo para captar recursos são os contratos assinados
com organizações multilaterais que são elas, Banco Mundial e o Banco Interamericano
de Desenvolvimento e com bancos privados. Essa forma de captação de recursos é
chamada de dívida contratual. O Brasil conta com dois tipos existentes de dívida, o
interno e o externo, o interno equivale a dívida feita em moeda local, o real, e a externa a
dólares americanos, que desde a conferência de Breton Woods em 1988 é a moeda usada
internacionalmente mundo a fora. Atualmente a dívida pública brasileira equivale a 92%
da dívida interna. O governo brasileiro tenta pagar suas dívidas todos os anos por meio
do Tesouro Nacional, onde é feita a venda dos títulos públicos e usa o dinheiro para pagar
os títulos que estão a vencer, fazendo a troca de pagar uma dívida mais antiga e adquirir
uma nova. De modo final, o orçamento anual do governo federal estimula como e de onde
vão sair os recursos para pagar a dívida pública do Brasil.

A grande problemática a respeito da dívida pública é a falta de transparência nos


processos e decisões e nos juros questionáveis. A associação sem fins lucrativos Auditoria
Cidadã da Dívida (ACD) denuncia esses aspectos. A ACD constantemente realiza
análises por meio dos dados disponibilizados pelo Tesouro Transparente sobre a dívida
pública e identifica irregularidades que deveriam ser averiguadas. A maior reivindicação
é que seja instaurada uma auditoria cidadã sobre a dívida pública brasileira, isto é, realizar
uma fiscalização aproximada da sociedade civil sobre o maior gasto do orçamento federal
e, assim, entender os processos de tomada de decisão para o pagamento da dívida. A ideia
é tornar mais transparente um aspecto tão crucial nas contas públicas que afeta toda a
população.

De outro lado, o economista e professor da Unicamp Pedro Rossi, o maior


problema não está no tamanho da dívida pública, mas nos altos juros pagos aos credores.
Então, ele explica o fenômeno do “Robin Hood às avessas”, em que o dinheiro arrecadado
dos impostos e que poderia ser gasto para, por exemplo, resolver o problema da fome no
Brasil, é direcionado para o pagamento de juros aos bancos e rentistas. Como aponta
Maria Lúcia Fattorelli, coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, hoje os
dados sobre os credores da dívida são sigilosos, o que fere o Art. 37 da Constituição
Federal, que determina a transparência dos atos públicos. No entanto, a partir dos dados
do Tesouro Transparente, é possível identificar os bancos nacionais possuem quase
metade da dívida pública brasileira; fato que reforça o fenômeno do “Robin Hood às
avessas”: retira-se o dinheiro da população, dá-o aos grandes bancos. Essa dinâmica fica
ainda mais problemática quando se observa que os bancos podem utilizar o dinheiro em
caixa da população para obter mais títulos da dívida pública, que, por sua vez, serão pagos
com dinheiro público arrecadado dos impostos da população. Isso é um dos fatores que
explica o porquê, mesmo em meio à crise econômica, os quatro maiores bancos brasileiros
alcançavam lucro recorde em 2019. O desemprego, a miséria e a fome avançam, bem
como o lucro dos grandes bancos também cresce. Há algo muito errado na lógica
econômica brasileira.

Fortalecimento do poder político do capital financeiro e enfraquecimento do poder


público  

O poder político apropriado pelo mecanismo da dívida constitui uma parte muito
importante do mecanismo geral. Os grandes grupos financeiros têm suficiente poder para
impor a nomeação dos responsáveis em postos chave como os bancos centrais ou os
ministérios da fazenda, ou ainda nas comissões parlamentares correspondentes, com
pessoas da sua própria esfera, transformando pressão externa em poder estrutural
internalizado. A política sugerida aos governantes é de que é menos impopular endividar
o governo do que cobrar impostos.
Essas instituições financeiras são as donas da dívida pública, o que lhes confere
poder ainda maior de alavancagem sobre as políticas e prioridades dos governos.
Exercendo este poder, elas tipicamente demandam a mesma coisa: medidas de
austeridade e ‘reformas estruturais’ destinadas a favorecer uma economia de mercado
neoliberal que, em última instância beneficia, estes mesmos bancos e corporações. É a
armadilha da dívida.

No mundo em geral, aparecem os exemplos óbvios da Grécia, de Portugal, da


Espanha e outros, mas também dos Estados Unidos e outros países desenvolvidos. O
denominador comum é o uso da dívida como alavanca de poder, e como fator de
apropriação do excedente produzido pela sociedade.

Quando pensamos no mundo da economia, ainda pensamos em interesses


econômicos e mecanismos de mercado. A política, o poder formal, os impostos e o setor
público em geral representam outra dimensão. Não é nova a ruptura destas fronteiras, pois
temos ampla tradição de penetração dos interesses de grupos econômicos privados na
esfera pública. O que é novo é a escala, a profundidade e o grau de organização do
processo. 

O poder corporativo tornou-se sistêmico, capturando uma a uma as diversas


dimensões de expressão e exercício de poder, e gerando uma nova dinâmica, ou uma nova
arquitetura do poder realmente existente.

O dinheiro e a pressão das corporações hoje penetram por toda parte. A perda da
representatividade do Congresso tende a ser vista com certa resignação ou até com
cinismo. Mas se pensarmos um pouco, trata-se de uma dramática deformação de todo o
sistema político. 

Segundo o economista Guilherme Santos Mello, em sua entrevista no filme e


documentário "Dedo na Ferida", de Silvio Tendler, ele opina e afirma em dizer que "A
liberalização dos fluxos de capital gerou um domínio financeiro no governo''. Até a
década de 70 com o acordo de Bretton Woods, a liberalização era muito limitada.

A partir da década, com a liberalização do capital financeiro ocorreu os 30 anos


posteriores que foram chamados dos 30 anos gloriosos do capitalismo com a liberalização
do capitalismo financeiro. 
Os bancos e instituições financeiras se expandem e aumentam sua lucratividade
de uma forma gigantesca e o "rombo" é do sistema financeiro global. Os bancos pegam
quase metade do que é arrecadado em um país e o governo se aprisiona em dívida com
os bancos.

Conclusão

Em suma, tendo em vista a análise e a pesquisa do tema, o estágio de


financeirização do capitalismo é composto por uma série de alterações na organização da
produção com diversos impactos da vida em sociedade. Dessa maneira, as mudanças na
relação entre a estrutura produtiva e o setor financeiro é uma das principais características
deste processo, que envolve também uma intensificação do grau de concentração e
centralização do capital. Além disso, desenvolve-se a influência dos bancos sobre as
empresas. A empresa por consequência fica emaranhada ao banco, levando em conta que
o capital financeiro da empresa está quase sempre na sua totalidade pressa a produção,
sendo assim a disponibilidade do capital monetário através dos bancos é o que pode
garantir a continuação do processo de produção.

O imenso poder dos grandes detentores do capital financeiro acaba por ampliar
suas possibilidades de investimento e consequentemente seu desenvolvimento,
provocando a fragmentação da empresa para o poder de comando dos grandes acionistas.
Dessa forma, os acionistas não precisam ter adquirido todo o capital necessário para
produzir, eles detendo parcialmente as ações já podem exercer maior controle sobre a
produção, desse modo essa situação favorece cada vez mais a renda capitalizada nas mãos
dos investidores anônimos.

A chegada do mercado de capital abriu a possibilidade para a especulação


financeira no mundo todo, deste modo o processo de financeirização do capitalismo ficou
ligado as transformações do mundo do capital na era da globalização e do liberalismo
econômico que e vem cada vez mais obtendo forças na última década do século XX, fato
esse que pode ser comprovado com crise da especulação imobiliária de 2008 no Estados
Unidos que afetou fortemente o mundo todo. O processo de financeirização está
intimamente ligado ao processo de encurtamento dos ciclos de produção, dado que ele só
se relaciona em gerar mais dinheiro para quem contém mais títulos de poder financeiro.
A riqueza gerada pela financeirização nas mãos dos investidores do mercado financeiro
tem sua produção centrada na abertura econômica para poucas pessoas, com a ideia do
livre comércio e da desregulamentação que diminui cada vez mais a rentabilidade de
títulos financeiros para pessoas que não são ricas. A financeirização no final das contas,
prega a valorização financeira do capital e o desenvolvimento do global, no entanto ela
acaba por favorecer uma parcela inferior a 5% da população.

Por fim, os resultados da acumulação nas mãos de poucas pessoas são sentidos no
mundo todo, principalmente em países subdesenvolvidos como o Brasil, que enfrenta
forte recessão econômica, devido a sua dívida interna que consome aproximadamente
40% da sua arrecadação para pagamentos de empréstimos e dívidas, segundo a Auditoria
Cidadã de 2021.

Referências

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https://www.youtube.com/watch?v=P_R-ezRHRy4. Acesso em: 26 de maio de 2021.

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Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/17156-requiem-para-o-
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junho de 2021.

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5ac8dd%2C1e876913e8740d1a59d18a423dbce450c56c4c05%3A8845ff7392294f0541
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Anexo - Entrevistas

Durante o trabalho, tivemos a oportunidade de realizar entrevistas com


especialistas. Entrevistamos 3 economistas: Rodrigo Xavier, economista pela UnB, o
Valdemir Pires, economista e professor doutor na UNESP e o Adriano Vilela Sampaio,
economista e professor doutor na UFF. Nas entrevistas foram feitas 5 perguntas, iguais,
para os entrevistados sobre o nosso tema.

Primeira pergunta: Alguns estudos científicos trabalham a ideia de que a


financeirização do capitalismo no Brasil esteve ligada com uma crescente fragilidade do
setor público e de endividamento contas públicas. Como o professor enxerga essa relação
entre mercado financeiro, especulativo e rentista e a esfera pública?

Rodrigo Xavier: “A inflação elevada e as fragilidades decorrentes dos déficits


fiscal e externo criaram a necessidade de taxas de juros elevadas e de curto prazo. Neste
sentido, a dívida pública se tornou o principal eixo de acumulação e base da
financeirização.”

Valdemir Pires: “A financeirização do capitalismo é um fenômeno antigo, como


lembra a famosa obra “O capital financeiro”, de Hilferding, de 1910, que tanta polêmica
gerou entre os marxistas, no tocante ao destino final do sistema de mercado. Ela chegou
ao seu ponto culminante com a recente globalização, de que é uma das principais
características, carregada de elevada dose de especulação, a ponto de provocar a crise
mundial de 2008. Como os governos são os principais credores de suas respectivas
economias e apresentam grau de risco inferior ao dos demais tomadores de crédito,
terminam sendo uma espécie de fiel da balança no mercado financeiro. O que acontece
no Brasil insere-se nesta dinâmica. Quanto à fragilidade específica do caso brasileiro, está
ligada às características da economia do país, cujo potencial para sustentar o pagamento
das dívidas governamentais tem dois severos limite: 1. o PIB não suporta pressões para
maior carga tributária, ao mesmo tempo em que gastos públicos são necessários para o
funcionamento dessa mesma economia; 2. a tributação é baseada em cobranças aos pobres
(é regressiva, incidindo prioritariamente sobre produção e consumo e não sobre
patrimônio e renda).”
Adriano Sampaio: “Uma primeira relação é que a fragilização e redução do
tamanho do estado tende a promover a financeirização. Isso ocorre porque ao reduzir ou
precarizar a prestação de certos serviços, como saúde, educação e previdência, o governo
abre oportunidades para planos de saúde, planos de previdência privada, crédito
estudantil, etc, que são entidades que operam no mercado financeiro, que acaba por se
tornar maior e mais desenvolvido.”

Segunda pergunta: Como a financeirização do capitalismo afetou as políticas fiscais do


Estado brasileiro? Os governos lidam, e lidaram, bem com essa nova dinâmica do capital
financeiro?

Rodrigo Xavier: “A necessidade de redução da fragilidade fiscal implicava em


redução da participação do Estado na economia, i) reduzindo gastos; ii) gerando receitas
para redução da dívida; e iii) abrir espaço para a atuação do setor produtivo, com o Estado
focando nos setores de bens e serviços tipicamente públicos. Desde a década de 90, a
atuação do governo não tem sido linear, com avanços como privatizações e reformas
estruturais e microeconômicas, mas alguns retrocessos. Mas, de maneira geral, o sentido
tem sido positivo, representado pelo acúmulo de reservas e consequente redução da
fragilidade do balanço de pagamentos, a redução das taxas de juros, alongamento de
prazos e crescente disponibilidade de crédito para o setor produtivo e famílias.”

Valdemir Pires: “Dadas as fragilidades acima mencionadas, as políticas fiscais


no Brasil tornaram-se reféns de uma lógica perversa: a busca incessante de equilíbrio
fiscal pela obtenção de superávits fiscais, que obrigam o governo a cortar despesas
públicas com políticas sociais e investimentos públicos para pagar as prestações da dívida
que, não obstante, não é sanada. Dessa forma, o financeiro (lado monetário) subordina o
econômico (lado real), colocando ao país numa difícil encruzilhada. A equação é simples,
na sua montagem, mas de difícil solução, diferentemente o que faz parecer a lógica
neoliberal predominante.”

Adriano Sampaio: “A redução do papel da política fiscal, com o Estado tendo


menor papel na economia, é um movimento autônomo, no sentido de não ser
necessariamente um fruto da financeirização e sim de buscar um modelo liberal de
governo. Por outro lado, a maior preocupação, nem sempre justificada, com indicadores
fiscais (superávit, dívida pública, etc.) pode ter relação mais direta com a financeirização,
já que os investidores podem promover movimentos de vendas de títulos públicos, fugas
de capitais ou aumento dos juros exigidos para rolar a dívida pública, o que é conhecido
na literatura como bond vigilants”, “fiscais” da política econômica. Nesse sentido, o
governo pode ficar excessivamente constrangido por esses movimentos e não ter espaço
para adotar políticas fiscais expansionistas.”

Terceira pergunta: Qual é a dimensão de influência dos grupos de capitais especulativos


e rentistas na agenda de políticas fiscais, e políticas públicas em geral, no Brasil? Esses
grupos possuem poder político?

Rodrigo Xavier: “Do ponto de vista puramente rentista, o objetivo é que sejam
adotadas políticas que garantam a solvência do governo e da dívida pública. Mas estes
não são os únicos grupos com poder político. O patrimonialismo, a defesa de interesses
individuais e/ou de classes, o favorecimento estatal a empresas ou setores específicos
também representam poder político.”

Valdemir Pires: “Os rentistas ganham muito no Brasil, desde sempre,


especulando fortemente com títulos da dívida pública. Desde o antigo overnight, com que
ganhavam sem risco algum em tempos de alta inflação, até o atual Tesouro Direto. Vem
deste segmento a maior resistência para mudanças na política econômica do país, com
reforço de organismos multilaterais, como Banco Mundial e FMI, centradas no combate
ao aumento do risco-país, calculado por agências de risco que a crise de 2008 demonstrou
serem suspeitas. Este rentismo exacerbado enfrenta hoje seu maior desafia em décadas:
conviver com taxas de juros que podem remunerar abaixo da inflação. E vai encarar este
desafio com iniciativas defensivas que aumentam as dificuldades de retomada do
crescimento econômico.”

Adriano Sampaio: “Possuem poder político por terem poder econômico e perante
a opinião pública. A influência se dá pelo mecanismo que expus na questão anterior, mas
também por certo “terrorismo fiscal”, no sentido de apontar qualquer medida que fuja da
agenda de austeridade como algo irresponsável e prejudicial ao país. Outra forma
importante de exercer poder político é participando diretamente de órgão reguladores,
ministérios e banco central, pois uma atuação favorável a certos setores pode significar
um ótimo emprego na iniciativa privada posteriormente, o que se chama de porta
“giratória”. Por esses canais de influência, esses grupos tendem a priorizar a redução da
regulação financeira e cambial, além de políticas de austeridade fiscal e redução do papel
do estado.”

Quarta pergunta: Na sua análise, o crescimento do capital especulativo, rentista e


improdutivo é benéfico ou nocivo para o desenvolvimento do Brasil?

Rodrigo Xavier: “Aquele puramente rentista que se concentra em ativos


financeiros sem correlação com ativos produtivos não é benéfico. Mas pode ser chamado
de especulativo um capital que prefere a certeza dos altos juros pagos pelo governo? Ou
especulativo seria aquele capital que toma risco para investir em setores produtivos. Este
não é nocivo.”

Valdemir Pires: “Claramente nocivo, como se depreende das respostas


anteriores. Há muito deixou de ser “uma bolha” no aquário, na acepção keynesiana,
ameaçando esgotar a água que deveria apenas oxigenar. Busca fazer com que o grosso da
arrecadação tributária destine-se à remuneração de títulos com que especula, enquanto os
gastos com políticas sociais e investimentos públicos necessários ao desenvolvimento
econômico são inviabilizados.”

Adriano Sampaio: “Não sei exatamente ao que vocês se referem por capital
especulativo, rentista e improdutivo. De qualquer forma, o capital especulativo pode ser
prejudicial ao crescimento por trazer instabilidade aos mercados, principalmente capital
estrangeiro, por ser ainda mais volátil e influenciar a taxa de câmbio. É preciso, no
entanto, entender que o mercado secundário (onde predominaria o capital mais
especulativo) é importante para dar liquidez ao primário, porque a possibilidade de
revender um ativo no mercado secundário faz com que os prazos e preços de captação de
recursos pelas empresas sejam mais favoráveis.”

Quinta pergunta: Na sua opinião, qual seria a maneira mais eficiente do Brasil sair do
ciclo vicioso da dívida interna que impede o desenvolvimento nacional?

Rodrigo Xavier: “Receitas e despesas mais eficientes, com controle de gastos e


redução de privilégio e distorções.”

Valdemir Pires: “Seria necessária uma mudança governamental mais


progressista até do que a dos recentes governos Lula e Dilma, no tocante às políticas
monetária e fiscal. Esses governos procuraram dar peso ao crescimento econômico
baseado em melhor distribuição da renda e no fortalecimento do mercado interno, sendo
bem-sucedidos somente até o ponto em que ventos favoráveis sopraram sobre a economia
brasileira, permitindo que os gastos públicos que beneficiavam os mais pobres e não
tirasse dinheiro dos gastos que favoreciam os mais ricos. Quando, freado o crescimento
do PIB, por razões diversas (crise de 2008 estando entre as principais delas) isso deixou
de acontecer, o então chamado neodesenvolvimentismo desmoronou, levando consigo a
frágil democracia baseada numa aliança de classes em que um dos lados, o dos mais ricos,
nunca apostou substancialmente. Portanto, dada essa limitação político-ideológica severa,
o destino da economia e da democracia brasileiras é incerto, estando mais próximo da
porta escancarada do inferno do que das estreitas janelas do paraíso, o demônio
bolsonarista à solta e risonho, aclamado pela imbecilidade e insensibilidade reinantes.”

Adriano Sampaio: “Não acho que a dívida interna seja um impeditivo do


desenvolvimento nacional. Há muitos anos o governo consegue refinanciá-la sem
problemas. Não ter dívida significaria nunca poder gastar além do que se arrecada, o que
teria impedido, por exemplo, a implementação do auxílio emergencial no ano passado.”

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