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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º.

Seminário Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop,
2009. ISBN: 978-85-288-0061-6

Os ensinamentos do historiador Ciro Flamarion sobre as relações entre a narrativa


histórica e mundo real

Alexandre Pacheco 1

Resumo: Pretendemos discutir, neste texto, como o status epistemológico da narrativa


histórica seria capaz de interferir, nos ensinamentos que a História teria a nos oferecer, diante
da possibilidade ou não da ação narrativa dos indivíduos poderem estabelecer uma relação de
continuidade ou descontinuidade com o mundo real. Para isso, nos utilizaremos das
discussões de Ciro Flamarion através de seu artigo: “Crítica de duas questões relativas ao
anti-realismo epistemológico contemporâneo”, onde este autor procurou - a partir das teses
do historiador David Carr - criticar as posições anti-realistas dos autores ligados à chamada
“virada lingüística” tanto na França, como nos Estados Unidos, e suas constantes afirmações
sobre a impossibilidade da narrativa histórica poder estabelecer uma relação de continuidade
com o mundo real.

Palavras chave: narrativa histórica, mundo real, continuidade, descontinuidade.

Ciro Flamarion para rebater a idéia de que todo processo de codificação da realidade
sempre teria como resultado não só uma simplificação, como também uma “deformação da
coisa codificada”, propôs duas teses fundamentais como forma de sustentar a idéia de que
seria possível para o homem - a partir das interações do cérebro com o meio ambiente social
- ter condições de adquirir um conhecimento adequado da realidade:
Em primeiro lugar, o desenvolvimento da linguagem não se colocari como resultado
imediato das necessidades sociais de subsistência;
Em segundo, o desenvolvimento da linguagem seria produto do desenvolvimento do
cérebro diante das necessidades de participação dos homens nos variados ambientes sociais
em que estariam inseridos (“xadrez social”).
Vejamos.
Flamarion em seu artigo “Crítica de duas questões relativas ao anti-realismo
epistemológico contemporâneo” afirma que este mesmo anti-realismo não seria uma
invenção dos posicionamentos pós-modernos.
Para ilustrar a afirmação, o autor cita Cassirer e sua explicação acerca da natureza
artificial da linguagem e do símbolo como formas para explicação da realidade física:

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* Professor Adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Rondônia/UNIR.

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(...) O homem já não pode enfrentar a realidade de modo imediato; não pode vê-la,
digamos, frente a frente. A realidade física parece retroceder na mesma proporção em
que avança sua atividade simbólica. Em lugar de tratar com as próprias coisas, em
certo sentido conversa constantemente consigo mesmo. Envolveu-se em formas
lingüísticas, em imagens artísticas, em símbolos míticos ou em ritos religiosos de tal
forma que não pode ver ou conhecer coisa alguma senão através da interposição deste
meio artificial. (CARDOSO, 2005: 56)

Assim, em verdade, o realismo epistemológico apesar de se colocar como um


pressuposto da ciência não pode ser provado pela mesma.
Para Flamarion, afirmar que o sistema nervoso central não pode reverter à consciência
informações que não estejam codificadas, enquadradas em normatizações pré-estabelecidas,
ou de acordo com Jacques Monod “assimiladas e não simplesmente restituídas”, constitui
uma interpretação falaciosa enquanto postulado assumido pela neurofisiologia e pela
psicologia experimental, que de acordo com Flamarion assume a seguinte afirmativa:

(...) a de que qualquer codificação signifique, necessariamente, não só uma seleção ou


simplificação como, também, uma deformação ou deturpação da coisa codificada.
Será verdade que o sistema nervoso humano deturpe a realidade ao pô-la ao alcance da mente
pela coordenação, no cérebro, das informações sensoriais?
(...) O que torna nossa espécie – o Homo sapiens sapiens ou, segundo outro sistema
de classificação, simplesmente Homo sapiens – algo à parte no mundo animal não é,
acredita-se hoje, a capacidade de fabricar instrumentos, e sim a linguagem sofisticada
que a caracteriza, única no quadro da zoologia terrestre. (CARDOSO, 2005: 57 - 58)

Neste sentido, para o autor, o desenvolvimento da garganta nos humanos


(impedimento em relação ao engolir e ao mesmo tempo respirar) teria tido implicações
decisivas no processo evolutivo da fala. Implicações que teriam trazido vantagens para o ser
humano.
Em um primeiro momento, as teses a respeito dessa evolução convergiram no sentido
de que a fala - que culmina em uma linguagem sofisticada - teria sido o resultado das
relações econômicas cooperativas entre caçadores/coletores e os problemas que envolveram
esse tipo de reprodução da vida do homem. Ou seja, a linguagem teria sido um elemento
colocado a serviço das formas de sobrevivência e para a confecção de instrumentos.
Flamarion, porém, caminha para um outro lado da questão:

Esta maneira de ver, que parecia convincente, começou a ser desafiada


pioneiramente, a partir dos anos de 1960, por Ralph Holloway, da Universidade de
Columbia. Holloway defendeu a noção de que o desenvolvimento do cérebro ligou-se
ao da linguagem, e o da linguagem, mais às demandas derivadas das interações
sociais e controles sociais do que às da tecnologia de subsistência. Em função da

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complexidade das relações sociais – perceptível também, em grau muito apreciável,


mesmo nos monos antropóides atualmente existentes – o crescimento e a sofisticação
do cérebro humano vincular-se-iam à necessidade de construir um modelo
especialmente complexo da realidade, incluindo nisto o mundo material mas talvez
sobretudo os outros membros da mesma espécie, para entendê-los melhor e jogar
eficazmente o “xadrez social”, que inclui alianças cambiantes e a tentativa de
manipular alguns desses membros, em lugar de prender-se em forma principal às
injunções nascidas da comunicação com outrem e da elaboração da tecnologia de
subsistência.
A função central do cérebro é construir um modelo de realidade que permita ao
animal existir neste mundo, nele funcionando e sendo bem-sucedido. (CARDOSO,
2005: 59)

Dessa forma, ao se tornar mais complexa a vida de um animal, bem como suas
interações com o mundo e com outros seres da mesma espécie que se implicariam nela, mais
complexas serão as estruturas dos modelos de realidades que serão mentalmente construídas.
Os sentidos oferecem avenidas de acesso ao mundo. Sendo que quanto maiores forem
os sentidos para percepção do mundo que necessitar o animal, mais complexas tornar-se-ão
as avenidas e mais complexos tornar-se-ão os circuitos mentais que permitirão inter-
relacioná-las para constituição de um modelo complexo de mundo.

O grande cérebro dos primatas não parece poder explicar-se, seja porque sua
subsistência exija uma intelectualidade tão mais desenvolvida, seja porque explorem
melhor seu meio ambiente no sentido de subsistência. Quanto ao primeiro ponto,
cada primata do passado ou do presente partilha o (s) meio (s) ambiente (s) em que
vive e atua com muitas espécies não-primatas; e não pode ser demonstrado que seu
uso da natureza para a busca de alimentos seja mais eficiente do que o de tais
espécies. (CARDOSO, 2005: 60)

Não é a relação de subsistência diante do meio natural dos primatas que então faria de
sua comunicação elemento mais complexo que a forma de comunicação dos mamíferos, mas
suas necessidades em relação ao meio ambiente social.

(...) O “xadrez social” jogado pelos primatas é mais complexo do que o xadrez
comum, já que as regras, derivadas de alianças e antagonismos mutáveis no tempo, se
transformam ou até se invertem, o mesmo se aplicando ao papel e à hierarquia das
“peças” intervenientes no jogo. A importância desse jogo nas relações sociais, ao
estabelecer-se, leva à necessidade de uma infância protraída – de que os filhotes
passem muito tempo aprendendo o modelo mental do mundo, no tocante à
subsistência mas também à interação social -, sendo isto o indicador de uma
retroalimentação entre diferentes níveis das interações sociais. (...) (CARDOSO,
2005: 60 - 61)

Ocorre, então, uma inversão do que se afirmava anteriormente sobre o


desenvolvimento da linguagem: foi a necessidade de se conseguir mais tempo para a

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socialização (coleta, uso de carniça e caça ativa) que acabou por forçar uma melhoria das
técnicas de sobrevivência entre os primatas e principalmente entre os humanos.
Sendo a psique humana formada por três componentes básicos: a cognição, a emoção
e a consciência, a

(...) consciência é aquilo que permite ao homem dar-se conta do que ele sabe, bem
como prever o futuro, o que inclui o conhecimento de sua mortalidade: com
consciência a vida percebe-se a si mesma no mundo, domesticando simbolicamente o
tempo e o espaço. (CARDOSO, 2005: 61)

Assim, a consciência se constitui enquanto um “olho interior”, que lhe possibilita uma
auto-análise do que nela se apreende, fazendo com que essa auto-análise se estenda aos
esforços da inteligência e assim à previsão das motivações de outros seres humanos. Neste
sentido, a consciência possui uma capacidade de informar antagonismos,

(...) as alianças, as defesas, as manipulações no complexo jogo social humano. (...) A


linguagem dos homens – sem paralelo em sua complexidade no mundo animal deste
planeta - é acima de tudo um instrumento de construção de um modelo complexo do
mundo físico e social, mais ainda do que um modo de comunicar e passar adiante
instruções. (CARDOSO, 2005: 62)
Richard Leakey, apud Flamarion, assim afirmou:
(…) O mundo dentro da cabeça – no caso do Homo sapiens, do cão ou da borboleta –
é pois, formado pela natureza quantitativa do fluxo de informação do mundo exterior
para o mundo interior, e pela capacidade que tiver o mundo interior de processar a
informação. Há uma diferença entre o mundo real “lá fora” e aquele percebido na
mente, “aqui dentro”.
(...) Na medida em que os cérebros aumentaram no curso do tempo da evolução, mais
canais de informação sensorial puderam ser manipulados de maneira mais completa,
sua informação integrada mais cabalmente. Os modelos mentais, por tal razão,
passaram a equacionar as realidades “lá fora” e “aqui dentro” mais de perto, embora,
como foi mencionado há pouco, com lacunas inevitáveis na informação.
(CARDOSO, 2005: 63)

Para Flamarion, dessa forma, a partir de tais tendências explicativas, seria incorreto
afirmar que não estaríamos capacitados à aquisição de um (...) “conhecimento adequado da
realidade social”. (CARDOSO, 2005: 63)
A partir de tais discussões Ciro Flamarion procurou neste mesmo artigo “Crítica de
duas questões relativas ao anti-realismo epistemológico contemporâneo”, testar as posições
dos autores ligados à chamada “virada lingüística” nos estudos históricos 2 e suas constantes
afirmações sobre a impossibilidade da narrativa histórica poder estabelecer uma relação de

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Jacques Derrida, Giles Deleuze, Hayden White e Dominick La Capra, entre outros.

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continuidade com o mundo real. Sendo que foi a partir das teses de David Carr que Flamrion
procurou rebater as posições epistemológicas destes autores.
Vejamos.
De acordo com Flamarion, os historiadores tradicionais teriam uma tendência a
acreditarem no realismo do objeto e na veracidade das narrativas históricas. 3
Já para os historiadores influenciados pelo ceticismo epistemológico, a partir da
chamada “virada lingüística” 4, narrativas e realidades encontrar-se-iam em planos distintos.
Para estes autores a assimilação dos planos seria, então, uma ilusão, desvios,
instrumentos de poder e manipulação, apenas passíveis de configurarem realidades
contingentes a partir de probabilidades estocásticas ou realidades “determinadas e casuais”,
ou seja, (...) “realidade externa ao conhecimento humano, estranhas às tentativas de
transformação em uma narrativa que de fato a representasse, reproduzisse ou imitasse.”
(CARDOSO, 2005: 65)
De outro lado, porém, Flamarion rebate esta idéia ao demonstrar através da tese de
David Carr que (...) “a história existe lá fora, isto é, no relativo aos indivíduos e grupos
humanos; e que, portanto, pode e deve ser contada.” (CARDOSO, 2005: 66). Argumento de
Carr contra a descontinuidade entre narrativa e mundo social, segundo Flamarion, organizado
a partir de dois níveis: o individual e a coletivo, de forma que, de acordo com Carr, a
estrutura da ação dos indivíduos ou da coletividade (passado, presente, futuro, começo, meio
e fim) é comum ao texto e à vida, à narrativa e à realidade.

(...) A estrutura dos acontecimentos da vida é complexa quanto às estruturas


temporais: configurações imbricam-se em durações distintas, que se entrelaçam e
recebem definição e significação a partir da própria ação. O fato de que haja
diferenças entre projetos humanos e o que deles de fato resulte traz suspense; mas
não faz da ação ordinária um caos desconexo. (CARDOSO, 2005: 66)

Para os historiadores críticos da continuidade, porém, retrospectivas e antecipações


são possíveis no relato, não na vida real, pois três pontos interfeririam na seqüência de quem

3
Autores como Sthephen Bann demonstraram como os historiadores a partir do século XIX através de figuras
como Ranke e Thierry procuraram dar importância à responsabilidade cognitiva que a história teria em relação à
sua explicação do real, de forma que a partir de seus textos se preocuparam com a construção de um segundo
nível de discurso, formado através de notas e referências para sustentação de suas narrativas históricas. Ao
recorrer tanto a Hayden White, como a Roland Barthes, Bann também mostrou como a produção historiográfica
do século XX - influenciada pela tendência cientificista do século XIX - pretendeu impor um discurso em que
suas narrativas teriam como intenção serem uma prova da realidade estudada.
4
Configurada na França pela “desconstrução” e formulada por autores pós-estruturalistas como Jacques
Derrida, Giles Deleuze e, nos Estados Unidos, por autores como Richard Rorty, Hayden White e ominick La
Capra.

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está narrando: em primeiro lugar, o narrador; em segundo o público; em terceiro as


personagens (sendo que na história as personagens não teriam acesso à organização dos
eventos que o historiador propõe). “Na vida real ninguém narra os eventos e nem os
transforma num relato. A narração supõe um conhecimento superior.” (CARDOSO, 2005: 66 -
67)
Conhecimento superior, por exemplo, que em autores como Hayden White se
traduziria no fato de que a Histórica enquanto disciplina deveria reconhecer que suas
narrativas de forma alguma escapam “à natureza do mito”.

Corretamente entendidas, as histórias nunca devem ser lidas como signos


inequívocos dos acontecimentos que relatam, mas antes como estruturas simbólicas,
metáforas de longo alcance, que “compram” os acontecimentos nelas expostos a
alguma forma com que já estamos familiarizados em nossa cultura literária. (WHITE,
1994: 108)

Neste sentido, os imperativos do “arranjo cronológico dos eventos” na narrativa


devem estar em tensão com os imperativos da estrutura de enredo, ou seja, a estratégia
sintática representada na forma como o historiador dispôs as palavras em suas frases e de
suas frases no discurso, bem como a relação lógica das frases entre e a correta construção
gramatical. Sem esquecermos que a própria estrutura de enredo assim concebida sofrerá a
desestruturação e estruturação dos eventos que contiver a partir de uma combinação dos
chamado quatro tropos clássicos da linguagem figurativa.
Autores como Stephen Bann, na continuidade desta corrente, já nos mostraram como
muitos historiadores encararam seus trabalhos como obras literárias até o século XVIII, além
de possuírem a pretensão obviamente de serem históricos, possuiriam também uma
imaginação literária.

Bann ao impor sua análise estruturalista ou retórica sobre a historiografia a partir das
influências teórico-metodológicas de Hayden White e Roland Barthes, mostra a importância
de se descobrir os poderosos talentos poéticos que estão subjacentes à realização do discurso
histórico. Justamente porque pretende tanto descortinar as estratégias lingüísticas5 de uma
5
Bann sofre a influência das análises de Barthes sobre o discurso historiográfico. Barthes procura, de um lado,
através do método semiológico estudar como os atos de declaração do discurso histórico revelariam as
condições sob os quais foi realizado a partir de certos documentos, como também a própria elocução que
surgiria desse ato de declaração no discurso. Elocução capaz de denunciar certas coleções de termos reveladores
de léxicos peculiares ao objeto referente e estudado pelo historiador e que formariam um sentido figurativo. De
outro, através da influência da linguística de Saussure indicaria as relações entre os significantes, significados e
referentes no discurso historiográfico, como forma de desmistificar o discurso histórico que reivindica
“realismo”, ou seja, que simularia conhecer apenas o significante e o referente.

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historiografia que pretendeu possuir uma relação privilegiada com o real, como também
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desmistificar aquela que se constituiu a partir da influência de formas míticas em sua
composição.

Bann, então, por conseqüência de sua análise estruturalista ou retórica buscaria


realizar também uma

(...) crítica da historiografia que tem buscado manter, até os dias de hoje, o seu
privilegiado status assumido pela nova história do século XIX. Seu papel é sugerir
(como que revertendo o antigo conto das “Roupas novas do Imperador”) que Clio é
de fato uma musa vestida com drapeados e não uma representação da Verdade Nua.
(BANN, 1994: 60)

Análise estruturalista ou retórica do discurso historiográfico revelador de que o signo


da história se pautaria mais pelo inteligível do que pelo real.

Por outro lado, David Carr, segundo Flamarion, para rebater posições semelhantes a
esta, utilizou-se do seguinte argumento: (...) “As ações humanas são teleológicas, orientadas
a um fim. (...) O presente é um ponto de vista que se abre para o passado e para o futuro.”
(CARDOSO, 2005: 67)
Por isso, de acordo com Flamarion, Carr teria a seguinte posição:

(...) Podemos, então, estender do eu para nós o que se disse anteriormente: o tempo
social humano, tal como o tempo individual, constrói-se tendo como base seqüências
configuradas ou estruturadas que integram fatos e projetos da ação e da experiência
comuns. Também, neste caso, a estrutura do tempo social real é narrativa.
Em cada presente, é a projeção prospectiva/retrospectiva que lhe dá sentido e
configuração, unificando os fatos e ações num projeto reconhecível quanto aos
objetivos. (...) Para que aconteça algo assim, é preciso um relato articulado, aceito e
interiorizado que diga das origens e destinos da comunidade de que se tratar e
interprete o presente em função do passado reconstituído e do futuro projetado. Sem
isto, não há como conservar o grupo coeso contra ameaças externas e eventual
fragmentação interna, nem como mantê-lo agindo como grupo. De novo, função
narrativa é prática antes de ser cognitiva, é parte e condição sine qua non das ações
sociais organizadas. Não se trata, também aqui, de uma reconstituição ex-post, mas
de algo imbutido na própria ação. Obviamente, as comunidades em questão, os
grupos de que se falava, podem ser efêmeros ou duráveis, mais ou menos vastos e
6
Bann procura demonstrar através da influência dos modelos conceituais de Hayden White, como certos
estágios de representação mental desempenham papel no processamento e ordenamento da matéria-prima da
narrativa histórica. Esses modelos conceituais que revelariam certas narrativas genéricas conteriam
prefigurações lingüísticas (os chamados 4 tropos clássicos da linguagem poética: metáfora, metonímia,
sinédoque e ironia), ou seja efeitos retóricos constituidores de enredos arquetípicos (por exemplo trágicos ou
cômicos) e que assim esconderiam um significado estrutural profundo ligados à visão de mundo do autor
historiador.

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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º.
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importantes: nações-estado, grupos lingüísticos ou religiosos, uma igreja, uma


faculdade, um partido ou facção, etc.
O “eu” e o “nós” de qu se falou na configuram realidades físicas: mas tem existência
real, não são meras ficções; e se baseiam sempre em relatos ou narrativas. Por isto, os
textos históricos, narrativas eles também, não são um desvio ou deturpação da
estrutura dos fatos ou processos de que falam, que narram: são uma extensão legítima
de suas características intrínsecas.
O processo narrativo prático de primeiro nível, constitutivo de uma pessoa ou de uma
comunidade, pode converter-se legitimamente em processo narrativo de segundo
nível, cognitivo. Isto acarretará mudanças no conteúdo. Um historiador pode contar a
História de uma comunidade de um modo diferente de como a comunidade narrava-
se a si mesma através de seus dirigentes, cronistas, jornalistas, clérigos, etc. Mas a
diferença não residirá na forma. As narrativas de segundo nível não refletem ou
reproduzem, simplesmente, as de primeiro nível que tomam como tema: elas as
mudam e melhoram o relato, mesmo porque sem dúvida se aproveitam da posição
ex-post do historiador. Mas não é verdade que a forma narrativa, própria do segundo
nível, inexista no primeiro, e que, por isto, narrativa e realidade vivida sejam
irreconciliáveis, existam em planos distintos que não façam intersecção.
(CARDOSO, 2005: 68 – 69)

Para finalizar, Flamarion apesar de reconhecer a antinomia que envolve tanto os


autores que afirmam poder existir continuidade entre narrativa e mundo real, como aqueles
que não acreditam em tal possibilidade, no entanto, afirma a partir de autores como Paul
Ricouer, Roger Chartier e Michel de Certeau, que a história possuiria um status prático
científico criador de regras que permitiriam o controle de operações capazes de produzirem
discursos científicos.

Referências

BANN, Stephen. As invenções da História: ensaios sobre a representação do passado. São


Paulo: Edunesp, 1994.

CARDOSO, Ciro Flamarion. Um historiador fala de teoria e metodologia: ensaios. Bauru,


SP: Edusc, 2005.

CHARTIER, Roger. A História Hoje: dúvidas e propostas. In: Revista Estudos Históricos.
Rio de Janeiro: CPDOC, v.7, nº 13, 1994, p.103-104.

WHITE. Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo, 1994.

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