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TEMAS CONTEMPORÂNEOS: Direitos Humanos: A questão das

mulheres: Apenas no papel ou na vida real?


Autoras: Ana Lucia Silva Lopes, Gabriela de Alarcão Machado e
Jaqueline Rodrigues de Sousa

Resumo:
A questão da violência contra a mulher hoje em dia já é um ato ilegal na maior parte do
planeta, entretanto, nem sempre foi assim, essa pequena e significativa parte onde ainda se é
amparado por lei tal ato um dia já foi a parte dominante no mundo; É bastante incomodo
pensar que nisso em uma época onde legalmente as mulheres estão a salvo , porém, quando se
põe lado a lado a realidade x constituição percebe-se a diferença brutal entre elas. O objetivo
desse estudo é demonstrar o trajeto desde o século XVI aos dias atuais no quesito direitos,
realidades e conquistas, incluindo a maneira como mudou a representação da mulher na visão
da mídia. De meras donas de casa e progenitoras para médicas, juízas, professoras – ainda que
com bastante desigualdade – e até mesmo presidente. Contudo, a pergunta continua: por
quanto tempo ainda a segurança e equidade para com as mulheres serão mantidas apenas no
papel? Quando de fatos será possível reconhecer isso na prática?
Palavras – Chaves: Direitos Humanos. Violência. Saúde Mental. Mulheres

1. Introdução

Durante séculos, milênios e civilizações o fato de ser mulher foi limitada a uma imagem
inferior e doméstica de forma que passam por situações de desigualdade e extrema pressão.
Com a chegada do Iluminismo, o filosofo Jacques Rousseau afirma que: “A mulher, foi
criada para agradar ao homem. O homem agradar a mulher não é uma necessidade direta.
Seu agrado é natural e vem de sua potência, de sua força: Essa é a lei da natureza.” e por
muito tempo essa foi a visão da mulher para boa parte do todo o mundo.
Ser considerada uma mulher apta ao casamento era a maior tarefa e desejo da grande maioria
das mulheres, afinal possuíam em toda sua vida uma educação voltada para esse propósito.
Ao decorrer dos anos, o mundo sofreu mudanças importantes em todas as esferas da
sociedade e chegou o tempo onde se limitar apenas a ser uma boa esposa e mãe não era mais
satisfatório as mulheres,
Obviamente tal mudança de pensamento não foi bem vista pela sociedade – maridos, políticos
e mesmo mulheres foram grandes opositores a essas mudanças, porém, não foram o suficiente
para impedir o avanço social. Essas mudanças e suas reações extremas serão tratadas no
decorrer do artigo, partiremos do século XVI indo até o século XXI, analisando como as
mulheres foram tratadas pela mídia e pela sociedade durante a “revolução do pensamento”.
2. O que é violência, afinal?

Quando se é falado de violência contra a mulher logo é associado a violência domestica e em


casos extremos o feminicídio, porém, a agressão física não é a única forma de violência
doméstica. É válido lembrar que esse tipo de violência pode ocorrer com ambos os sexos,
entretanto, focaremos nos casos contra as mulheres.
Segundo a APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima – Crime de Violência
Doméstica deve abranger todos os atos que sejam crime e sejam praticados nesse âmbito. Para
uma devida análise existem dois eixos possíveis para cada tipo de violência:
Violência doméstica em sentido estrito são as agressões recorrentes– maus tratos físicos;
maus tratos psíquicos; ameaça; coação; injúrias; difamação e crimes sexuais. O outro eixo da
violência doméstica é a violência em sentido lato na qual se encaixa outros crimes em
contato doméstico – violação de domicilio ou perturbação da vida privada; inquérito da vida
privada ( imagens; conversas telefônicas; e-mails; revelar segredos e fatos íntimos; violação
de correspondência ou de telecomunicações), violação da alimentação adequada; homicídio:
tentativa ou realização; danos e etc.
É necessário relembrar que uma vitima de violência doméstica não possui culpa alguma nos
atos violentos que sofre e que mesmo com uma garantia na Constituição, não é tão simples,
fácil ou seguro o “pós fim de violência doméstica”. Essa falta de uma segurança completa faz
com que inúmeros casos não cheguem aos menos a serem investigados, o temor por suas
vidas gera um silêncio e é nesse silêncio, no ápice do ciclo da violência – aumento da tensão;
ataque violento; lua de mel (fase onde o agressor envolve a vítima em uma onda de amor
prometendo não haver mais agressão) – onde insere-se a máxima da violência contra a
mulher: o feminicídio.
3. A violência contra a mulher no século XIX e XX

Voltando um pouco mais no tempo para entender como era vista a violência familiar – e
sobretudo a mulher – é necessário voltar no período dos séculos XVI e XVII onde existia um
conjunto jurídico denominado Ordenações Filipinas no qual era considerado legal a violência
do marido contra sua mulher e pai contra seu filho. Essa compilação jurídica influenciou a
antiga União Ibérica e o recém criado país Brasil.
Como consequências as famílias constituídas sob a direção das Ordenações Filipinas, se
formaram um caráter bastante agressivo e incoerente com a realidade atual. Durante 227 anos
mulheres sofreramviolência sem nenhum tipo de amparo e na maioria das vezes – ainda mais
com a educação dada pelo pais onde usar força a física era algo comum – quando se casam
apenas mudavam de agressor.
A criação mudava drasticamente quando se era um filho homem para uma filha mulher.
Mulheres, como já citado, eram criadas para o casamento; criadas para servir ao homem
sexualmente e nos deveres diários, entretanto, a única obrigação que se era ensinada aos filhos
do sexo masculino se resumia apenas a manter a casa, trazer mantimentos nem mesmo a
fidelidade era algo necessário da parte do marido, logicamente, uma mulher adúltera poderia
até mesmo ser condenada a morte.
Lordelllo, analisando a secularização do casamento no século XIX, ressalta a difícil situação
feminina: “A mulher brasileira branca do século XIX aparecia como um ser
despersonalizado, com atividade circunscrita ao lar e à Igreja, salvo pouquíssimas exceções
(...). Sua situação era de subserviência, até jurídica, passando das mãos do pai às do
marido”
É fácil entender como que para essas mulheres que cresceram cercadas por essa violência tão
constante e ensinadas a aceitar tal situação como a única forma viver era tão absurdo uma
mulher buscar pelo simples direito ao voto. Além de serem vistas como uma forma de
procriar, manter um status nas sociedades, eram vistas como incapazes de decidirem algo, a
sua voz era determinada pela voz do homem responsável por sua vida – seu pai ou seu
marido.
Durante o século XX, após anos de total invisibilidade na sociedade, as mulheres começaram
a se revoltar contra o sistema onde tudo a elas era negado e foram aos poucos – com bastante
retaliação – foram conquistando os mínimos de seus direitos.
3.1 - A Retaliação da Reação Feminina

Com o avanço da globalização o feminismo – o latim femĭna, significa “mulher” – e a luta


constante por direitos iguais foi ganhando força. No século XVII uma das maiores lutas e
conquistas das mulheres foi o direito ao voto, as sufragistas – mulheres ativistas na luta pelo
direito ao voto – que se destacaram na França, Reino Unido e mesmo com o resultado
positivo na maioria dos países – direito conquistado a partir do ano de , em pleno século XXI,
o Kuwait, por exemplo, as mulheres ainda lutam por esse direito e outros.
Os homens não viram com bons olhos esse principio de mudança, alegando que com o direito
ao voto as mulheres deixaram de cumprir com suas funções prédeterminadas, além de taxar as
mulheres sufragistas como mal amadas e mulheres desleixadas. Em grande dos casos, os
maridos de mulheres sufragistas tomavam a guarda da mãe por ela está “fora de si” e incapaz
de cuidar do filho, além do divórcio, deixando-as algumas vezes com nada além da roupa.
Um grande momento para o movimento e para demonstrar o quão entregue uma mulher pode
ser por algo que acredita, em 1913 Emily Davison se atirou em frente do cavalo do rei da
Inglaterra no célebre Derby, tornando-se a primeira mártir do movimento. Esse momento
pode ser visto no filme As Sufragistas, filme de Sarah Gavron lançando em 2015, como na
maioria das vezes só há uma real comoção quando algo muito chocante acontece.
3.2– A visão sobre a mulher: o que é real?

A imagem mostra os papeis invertidos do homem e da mulher,no


exemplo do pedido de divórcio,  vemos um claro exemplo de como as mulheres eram
tratadas por se oporem a seus maridos
Nessa imagem analisamos como mulheres eram vistas  pela
sociedade. Mulheres não tinha voz e aqueles que buscavam por espaço na sociedade eram
descriminadas. A imagem mostra uma garotinha vestida como uma sufragista lutando pelo
voto feminino e logo em sua frente um garotinho apontando para ele. O cartaz ainda leva a
frase ‘’lugar de mulher é em casa.’’ 

4. Mutilação Genital Feminina: O número fantasma crescente

Mutilação genital feminina, “corte dos genitais femininos” ou “circuncisão feminina”, é uma
forma de violência baseada no género que inclui todos os procedimentos que implicam a
remoção parcial ou total da genitália feminina externa, ou outras lesões aos órgãos genitais
femininos por razões não médicas (OMS, 2008).
Sua prática baseia-se principalmente na desigualdade de gêneros– principalmente em 30
países na África e no Oriente Médio, ela ocorre também em alguns lugares da Ásia e da
América Latina. E entre populações imigrantes que vivem na Europa Ocidental, América do
Norte, Austrália e Nova Zelândia, dizem as Nações Unidas – a MFG é umas parte de várias
práticas patriarcaisdo intuito religioso, a intenção dessa violência é o controle sobre o corpo e
os impulsos sexuais femininos, um modo de “preservar” a virgindade tornando-a casável e
como prioridade máxima aumentando o prazer masculino.
Há também culturas que consideram a mutilação como um rito de passagem da infância para a
fase adulta.
A mutilação feminina não é um procedimento simples, existem quatro tipos de procedimentos
 Tipo I – Clitoridectomia: retirada total ou parcial do clitóris e/ou prepúcio.
 Tipo II – Excisão: retirada total ou parcial do clitóris e/ou pequenos lábios
 Tipo III – Infibulação: estreitamento do orifício vaginal. A redução é feita através de
um corte e do reposicionamento dos pequenos e/ou grandes lábios. Ainda existe a
possibilidade de terem os orifícios vaginais cortados na noite de núpcias e/ou antes do
parto.
 Tipo IV- É qualquer outro procedimento prejudicial para a genitália feminina sem
qualquer razão médica como perfuração, incisão, raspagem ou cauterização.
“E a cada ano, quase 4 milhões de meninas estão em risco (de ser sujeitas a mutilação)",
disse o secretário-geral da ONU, António Gueterres em mensagem para o Dia Internacional
de Tolerância Zero a Mutilação Genital Feminina no dia 06/02/2019. Devido ao tabu sobre o
assunto nas comunidades onde se há essa terrível prática, não é possível encontrar um número
exato sobre mulheres e crianças que já passaram por esse procedimento.
Estima-se que, no mundo todo, 200 milhões de mulheres tenham sido mutiladas. Bilhões
são gastados nos países onde há essa violência tratando complicações consequentes da MFG,
por mais que em muitos países o procedimento seja realizado por algum profissional de saúde
não há nenhuma segurança para a mulher e em muitas ocasiões é realizado em condições
improprias para saúde da vitima.
“A verdade é que mais de 200 milhões já foram afetadas por esta prática nefasta e se não
fizermos nada, até 2030, 15 milhões de meninas, raparigas e mulheres, serão sujeitas à
mutilação genital feminina.”, diz Catarina Furtado que atua como embaixadora da Boa
Vontade da Unfpa desse 2000.
Importante ressaltar que tal ato é uma violação dos Direitos Humanos, “Ela viola o direito
das mulheres á saúde sexual e reprodutiva, á integridade física, á não discriminação e a
viver livre de tratamento cruel ou degradante”, dizem as dirigentes Phumzile Mlambo-
Ngcuka da ONU Mulheres, Natalia Kanem, UNFPA, e Henrietta Fore da Fundo das Nações
Unidas para Infância (UNICEF) no comunicado também reproduzido para o dia 06/02/2019
Por ser uma violência baseada no gênero não pode ser analisada isolada, a MFG deverá ser
levada em consideração junto com outras práticas prejudiciais como casamento forçado e o
trabalho infantil.
4.1 - A Reação da Retaliação

Apesar da Unicef registrar esforços á MGF desde 1920 somente em 1979 o tema entrou na
pauta internacional de discursões da agenda da OMS e da ONU noSeminário sobre Práticas
Tradicionais que afetam a saúde de Mulheres e Crianças e na Convenção sobre
eliminação de todas as formas de Discriminação da Mulherque logo considerou nas
práticas prejudiciais as mulheres a mutilação feminina como uma violação dos direitos
humanos sendo homologada em algumas nações praticantes do ato.
Em 1989 a ONU fez a Convenção sobre os Direitos das Crianças que pretendia debater
sobre a proteção contras as práticas nocivas na infância que tomava medidas para eliminar tais
práticas. Na Conferência de Pequim onde ocorreu a 4º Conferência Mundial sobre a
Mulher, foi fundada uma plataforma de ação que incluiu a eliminação da MGF enquanto
prática social, mas somente em 1997 é elaborada a declaração conjunta da ONU, Unicef E
UNFPA.
Em 2005 entra em vigor o protocolo Maputo que iria aumentar as medidas de erradicação da
MGF e de outras práticas prejudiciais as mulheres, em 2008 há uma nova declaração conjunta
com adesão de diversas agências e entidades internacionais onde surge o maior programa de
combate à mutilação feminina em parceria pela UFPA e a Unicef em países como Egito,
Quênia e Senegal ganhando repercussão internacional em instituições e organizações. No ano
de 2012 a ONU aprova a primeira resolução oficial nomeada MFG(RES67/146)
A mais recente conquista em relação ao combate à mutilação feminina ocorreu no Sudão no
dia 30/04/2020 onde o novo governo do país tornou ilegal a prática dessa violência
instaurando uma pena de 3 anos para qualquer profissional – médico ou não – que realize o
procedimento. Mesmo que a pena possa ser considerada pouco para tamanha brutalidade é um
grande passo para o combate a MFG visto que a prática está associada a cultura e não a
pessoas isoladas.
Será um longo caminho para a erradicação da mutilação genital feminina, mas cada pequena
conquista tem um valor inestimado para essas mulheres.
5. A Violência no século XXI: A realidade da ilegalidade

Os números sobre violência contra a mulher na atualidade não param de crescerdestacando-se


a violência doméstica onde seu abusador está dentro da sua própria casapodendo este ser
desde seu pai ao seu companheiro.Com o resultado de muita luta e de mulheresque se uniram
foi criada a primeira delegacia da mulher em 1985 – em São Paulo – (DDM) um espaço para
quemulheres denunciarem seus abusos.
Buscando uma solução para a violência sofrida por mulheres foram criadas algumas Leis
degrande importância para o combate a esta violência como a lei Maria da Penha esta que
setornou a mais rigorosa das lei em relação à prática de violência doméstica sancionada
em2006 ganhou seu nome em homenagem a Maria da Penha Maia que sofreu durante 6
anosagressões resultando sua paraplegia, seu marido ainda tentou mata lá por meio
deafogamento e eletrocussão só depois de 19 anos de julgamento ele foi punido ficando
apenasdois anos sobre regime fechado.
Segundo o conselho nacional de justiça a lei Maria da Penha estabelece que todo caso
deviolência doméstica ou intrafamiliar é crime e deve ser apurado através de inquérito policial
e ser remetido ao ministério público.
A lei Maria da Penha ainda:
 Estabelece violência doméstica contra mulher como física, psicológica, patrimonial e
 moral.
 Determina violência doméstica independente da sua orientação sexual.
 Proíbe as penas pecuniárias (pagamento de multas ou cestas básicas)
 Altera o código de processo penal para possibilitar ao juiz a decretação de prisão
 preventiva quando houver riscos à integridade física ou psicológica da mulher.
 Altera lei de execuções penais para permitir ao juiz que determine o comparecimento
 obrigatório do agressor a programas de recuperação e reeducação.
Mesmo com uma legislação tão potente, em 2019, no Brasil o Ministério da Saúde registrou
que a cada um minuto quatro mulheres são agredidas por ao menos um homem. O ciclo
vicioso da violência gera uma “prisão” numa violência que machuca muito mais do que o
físico, o abuso psicológico gerado por esse ciclo é tão cruel quanto a agressão.
Uma viagem no tempo acontece: mulheres nesses relacionamentos voltam a ser taxadas como
incapazes de viver sozinhas, são induzidas a acreditar que essa forma tão cruel de se
relacionar é o amor que elas merecem e o melhor que podem conseguir. Por alguns momentos
vivem novamente sob as Ordenações Filipinas dentro de suas casas: violência livre e muitas
vezes sem nenhuma segurança real proveniente do Estado.
Não é suficiente ter leis que não deem o suporte necessário e completo na realidade, manter
apenas no papel não salva vidas.
5.1– Isolamento Social: A fragilidade das leis de segurança
No ano de 2020 o mundo está vivendo sob uma nova organização: uma pandemia
internacional, um vírus que não vê etnia, gênero ou situação social, todo o mundo se viu
dentro de suas casas, atrás de mascaras, distantes e preocupados com esse novo problema
global, entretanto, proteger-se do vírus virou um risco de vida para mulheres de todas as
partes do mundo, afinal já existia outro perigo em suas vidas: a violência doméstica.
“As mulheres se viram presas no lugar onde estão menos seguras: suas casas”, diz
comunicado da ONU.
No primeiro mês da quarentena europeia a Revibra – Rede Europeia de Apoio a Vitimas
Brasileiras de Violência Doméstica – registrou quase o dobro de casos apenas no meado de
março e abril nos países atuantes: Itália, Portugal, Bélgica, Alemanha, França, Holanda,
Luxemburgo e Reino Unido
No contexto internacional, tem-se reinventado as formas de denúncias, na França salas
virtuais com policiais sem qualquer rastro das denúncias ali feitas além disso o governo
pagará quartos de hotéis para vitimas que reproduzirem uma “senha” – máscara 19 ou
máscara vermelha – nas farmácias e abrirá 20 novos centros de aconselhamento sobre a
violência doméstica1 milhão de euros serão disponibilizados para o suporte as vítimas.
Na Espanha foi definido como serviço essencial o suporte de atendimento às vítimas de
violência doméstica, instituiu-se uma ferramenta de denúncia via Whatsapp com
geolocalização. Um serviço de apoio psicológico pela internet também foi instalado.
Segundo a neuropsicóloga Roselene Espírito Santo Wagner, “Se por um lado nos afastamos
voluntariamente do convívio social, por outro nos expomos a um excesso de convívio
familiar. Que em alguns casos, despertou o sentimento de confinamento, de exclusão,
exacerbando a agressividade, que antes era liberada, de forma criativa nas relações e
programas sociais.”
A cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas no Brasil. Em 80% dos casos, o
responsável pela agressão é o próprio parceiro (marido, namorado ou ex) com quem conviv3
diariamente, segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado
(FPA/Sesc, 2010)
O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos constatou alta de quase 9% nas
denúncias realizadas no Disque 180, destinado a denúncias de violência doméstica8. A Justiça
Estadual do Rio de Janeiro divulgou que foram registrados 50% mais casos de violência
doméstica a partir do momento em que o confinamento passou a ser adotado.
A cada três vítimas do feminicídio no Brasil, duas foram mortas em casa.
5.2– Mulheres: a luta continua pela liberdade no século XXI
Publicidade do século XXI de cunho feminista em que defende a
liberdade escolher o que vestir sem ser julgada.

6. A mudança nos rumos da história: o feminismo

Um dos maiores pressupostos que a violência contra a mulher possui é a desigualdade de


gênero, primeiramente é necessário definir o que é gênero e o que é sexo. O sexo está
relacionado com a diferenciação de homens e mulheres biologicamente, já o gênero são as
diferenças sociais, cultural e psicológica, dessa forma construindo os conceitos de
masculinidade em feminilidade.
RW Connell importante socióloga argumentou que a desigualdade de gênero é causado pelo
poder social dos homens, em que as relações de gênero, são definidas pelo poder patriarcal
disseminado a eles entregam os seguintes aspectos: trabalho onde a posição feminina é
voltada ao doméstico e masculino se encontra no mercado de trabalho; poder na tela ações de
autoridade/violência, e relações pessoais ou sexuais em que mulheres são consideradas mais
emocionais e homens racionais.
O movimento feminista teve sua primeira onda no final do século 19 e durou até meados do
século 20 onde reivindicavam os direitos básicos das mulheres: o voto, educação, vida pública
e privada e abolição da escravatura feminina. A segunda onda teve início na metade dos anos
50 até metade dos anos 90 e ficou conhecido como o feminismo radical por apresentar temas
polêmicos como sexualidade e direitos reprodutivos e a partir desses assuntos que a distinção
entre sexo e gênero começaram a ser conceituadas.A terceira onda marcada pelo surgimento
do feminismo interseccional, sendo reconhecida pelas mudanças ocidentais dos anos 90 e
tinha como principal tema a presença da mulher na cultura e entretenimento utilizando os
meios de comunicação para abordar temas como patriarcado e primeiramente feminino
estupro e violência em geral.

O feminismo se divide em duas vertentes: o feminismo liberal relacionado a primeira onda e


que luta pela inserção das mulheres na política e na economia, incide  capacidade das
mulheres em manter a sua igualdade através de suas próprias ações e escolhas ; o feminismo
radicalpropõe um reordenamento radical da sociedade em que a supremacia masculina é
eliminada em todos os contextos sociais e econômicos.
A questão da violência e da segurança das mulheres tornou-se a cara do movimento feminista
por estarem presentes nos processos de criação de leis específica para as mulheres como lei
Maria da Penha e lei do feminicídio.O feminicídio trata-se de um crime de ódio, o conceito
surgiu em 1970, criado por pensadoras feministas que caracterizaram os assassinatos de
mulheres com motivação relacionada ao gênero, ou seja, pelo fato de serem mulheres e para
dar visibilidade a opressão e a violência sistemática.

7. A Mídia: Quem são as mulheres?

Não é difícil perceber em uma publicidade onde se há a presença feminina sendo retratada no
papel doméstico, sua presença é bastante comum em comerciais que envolvem produtos para
a casa, por exemplo. Essa representação é fruto da identidade social das mulheres que foi
sendo desenvolvida ao longo de toda a história da humanidade.

Primeiramente como é construída uma identidade social? É construída a partir da relação do


individuo com a sociedade partindo em oposição ou correspondendo a expectativa criada em
cima dele. No caso das mulheres, por muitos anos as mulheres corresponderam a visão de
“mulher criada” que se resumia basicamente a: submissão ao homem, tarefas domésticas e
maternais; quando essa identidade começou a ser questionada, uma nova visão foi criada
especialmente a essas mulheres opositoras.

O melhor exemplo dessa visão negativa desenvolvida é sobre as sufragistas:

Foto tirada da internet


Mulheres não atraentes, que nunca se casaram, se tornaram amargas e “mal amadas” e por
isso viraram sufragistas. Esse pequeno exemplo mostra como era induzido a importância de se
manter uma aparência e que o casamento era a melhor opção para as mulheres.

Essa forma distorcida que se emprega as mulheres quando algo não se encaixa nos padrões da
sociedade também é considerada uma forma de violência: violência simbólica, segundo o
conceito desenvolvido pelo filósofo Pierre Bourdie:

É um poder que se deixa ver menos ou é até mesmo invisível. Esse poder, que se exerce
pela ausência de importância dada a sua existência, que fundamenta e movimenta uma
série de outros poderes e atos. O poder que está por trás, escondida nas entrelinhas, e que
é cunhado com esse propósito. Quando reconhecido, estamos diante do poder simbólico
(...). O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com
a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem
(BOURDIEU, 1989, P.7).

Ou seja, a violência simbólica pode ser conceituada como uma violência que causa danos
morais e psicológicos sem algum tipo de imposição física, consequentemente, por falta de
rastros visíveis da violência não é tratada da mesma forma pela mídia. Pode-se considerar a
violência simbólica como a abertura para a violência física contra as mulheres, como base
para desenvolvimento essa violência tem a sociedade patriarcal na qual se desenvolveu.
Um segundo grande momento onde a mídia desenvolveu uma visão sobre as mulheres se
deram após a Segunda Guerra Mundial, quando as mulheres começaram a ser inseridas no
mercado de trabalho devido a escassez de mão – de – obra masculina, foi então criado uma
campanha principalmente desenvolvida nos Estados Unidos chamado: We Can Do It –
traduzindo: nós podemos fazer isso.

Fonte: foto retirada da internet

A imagem desenvolvida por J. Howard Miller retrata a força da mão – de – obra feminina,
contudo, mesmo com a grande conquista de poderem ser inclusas no mercado de trabalho, a
desigualdade entre os gêneros de trabalhadores era gritante – até os dias atuais essa
desigualdade no trabalho é uma pauta constante. Importante ressaltar que a visão de uma
mulher frágil para uma mulher capaz de fazer o mesmo que um homem só se deu por uma
necessidade devida as baixas ocasionadas pela guerra.
É possível que perdure por muitos mais anos, décadas ou até mesmo séculos, uma visão
dividida sobre o individuo feminino; existem muitos pressupostos que ainda se alastram pela
sociedade e mudança no pensamento como foi descrito durante todo o artigo é uma ação
muito complexa, contudo, visando o bem estar da mulher foram criadas leis onde a violência
simbólica possa ser penalizada.
Por exemplo, o CONAR - Código Brasileiro de Auto-Regulamentação Publicitária – em
seus artigos 19 e 22 diz:
Artigo 19. Toda atividade publicitária deve caracterizar-se pelo respeito à dignidade da
pessoa humana, à intimidade, ao interesse social, às instituições e símbolos nacionais, às
autoridades constituídas e ao núcleo familiar;
Artigo 22. Os anúncios não devem conter afirmações ou apresentações visuais ou auditivas
que ofendam os padrões de decência que prevaleçam entre aqueles que a publicidade
poderá atingir.
Quando um todo se constrói em cima de desigualdade é necessária uma reestruturação
social.

8. Conclusão: As mulheres estão de fato seguras?


A resposta é não. As mulheres não estão salvas nas ruas, em casas, nos relacionamentos, as
leis não efetivas na realidade. Essa insegurança é bem comprovada com os altos índices de
violência por todo o mundo, tomando o Brasil como exemplo em 2018 no período entre
janeiro e novembro foram relatados 68.811 casos de violência contra a mulher, conforme a
base de dados da Linear Clipping.
Ressaltar que as vítimas não possuem culpa alguma em qualquer agressão que tenha sofrido
deveria ser uma das funções do Estado. O fato de que novas leis estão sendo criadas, estudas é
uma grande notícia, mas será que essas novas leis ficaram apenas no papel? Foi exposto que a
violência contra a mulher vai além da agressão física, do estupro ou até mesmo da morte,
contudo, só se dá a maior atenção aos casos quando o extremo é efetivamente concluído. A
vida da mulher vale menos do que a do homem?
Uma das medidas que o Estado poderia fazer pensando no bem psicológico das vitimas seria
uma maior participação femininas em todo o processo da denúncia e julgamento; um sistema
de apoio as vítimas – acompanhamento médico, acompanhamento psicológico. A justiça pode
ir muito além se focar cuidados reais as vítimas. Criar uma credibilidade poderia fazer com
que mais casos fossem denunciados e consequentemente mais mulheres salvas.
As leis não podem ser apenas bem redigidas, aprovadas e irem para a Constituição, é
necessário que sejam praticadas de uma forma exemplar, é bem mais do que apenas prender o
agressor, o suporte adequado a vítima deveria ser uma prioridade.

9. Referências:
APOIO AS VITIMAS. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. Disponível em:
https://apav.pt/vd/index.php/features2. Acesso em: 5 jun. 2020.
BRASIL ESCOLA. O Iluminismo e o Lugar da Mulher. Disponível em:
https://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/o-iluminismo-lugar-mulher.htm.
Acesso em: 4 jun. 2020.

CELI, Renata - Feminismo: o que é esse movimento?, 2019 -


https://www.stoodi.com.br/blog/2019/02/06/feminismo-o-que-e/

CLÁUDIA. Em decisão histórica, Sudão torna mutilação genital feminina crime. Disponível
em: https://claudia.abril.com.br/sua-vida/em-decisao-historica-sudao-torna-mutilacao-genital-
feminina-crime/. Acesso em: 5 jun. 2020.

CONSULTOR JURÍDICO. Combate à violência doméstica em tempos de pandemia: o papel


do Direito. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-abr-24/direito-pos-graduacao-
combate-violencia-domestica-tempos-pandemia#sdfootnote9sym. Acesso em: 5 jun. 2020.

COSTA, L. R. D. HISTÓRIA E GÊNERO: A CONDIÇÃO FEMININA NO SÉCULO XIX A


PARTIR DOS ROMANCES DE MACHADO DE ASSIS. REVISTA ELETRÔNICA, Bahia,
v. 1, n. 2, p. 1-19, abr./2013. Disponível em:
<https://www3.ufrb.edu.br/ojs/index.php/historiacom/article/view/117/61>. Acesso em: 1 jun.
2020.

FEMINISMO. Origem da palavra Feminismo. Disponível em:


https://feminismo.org.br/origem-da-palavra-feminismo/3302/. Acesso em: 4 jun. 2020.

GALVÃO, Patricia - FEMINICÍDIO -


https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencias/feminicidio/#

GRANT, Carolina - MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA E DIREITOS HUMANOS:


compreendendo a extensão e os limites da tradição para retomar o debate
HOBSBAWN, E. A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
HYPENESS. Violência contra a mulher sobe 50% com confinamento por coronavírus.
Disponível em: https://www.hypeness.com.br/2020/03/violencia-contra-a-mulher-sobe-50-com-
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