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O legado de Fabio Herrmann:

Teoria dos Campos,


um pensamento original

Luciana Estefno Saddi

Revista Brasileira de Psicanálise Luciana Estefno Saddi é membro


número especial, p. 204-220 · 2017 efetivo e docente da Sociedade
Brasileira de Psicanálise de São Paulo
SBPSP. Mestre em psicologia clínica
pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo PUC-SP. Autora dos
Resumo livros O amor leva a um liquidificador
(Casa do Psicólogo), Perpétuo Socorro
Alguns pontos relevantes da Teoria dos Campos (método,
(Jaboticaba) e Alcoolismo (Blucher).
ruptura de campo, inconsciente, técnicas, psicanálise do
quotidiano, literacura e crença) são comentados com o
intuito de realizar um breve estudo crítico, a fim de situá-la
junto às mais importantes teorizações da psicanálise.
Conclui-se que há mais do que originalidade nessa forma de
pensar: há esforço de depuração epistêmica com o sentido
de levar a psicanálise a cumprir seu horizonte de vocação –
tornar-se ciência geral dos sentidos humanos.
Palavras-chave
epistemologia; Teoria dos Campos; método; ruptura de
campo; psicanálise do quotidiano; literacura; crença.

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1. Introdução textos dele têm como desafio dois aspectos


principais: o primeiro está na linguagem,
complexa, inerente a quem possui amplo

O presente artigo não se limita a apre-


sentar os fundamentos da Teoria dos Cam-
conhecimento filosófico, grande domínio
linguístico, estilo próprio e pensamento
literário; o segundo reside na recriação da
pos para o psicanalista que os desconhece, psicanálise (daí sua originalidade) baseada
embora, em muitos momentos, essa apre- no método, e não em teorias relativas ao
sentação seja útil. Serão comentados alguns funcionamento do aparelho psíquico,
pontos relevantes das ideias e proposições de desenvolvimento da libido, desenvolvi-
Fabio Herrmann com o objetivo de realizar mento do sentido de realidade ou do bebê
um breve estudo crítico desse pensamento. humano, a título de exemplo, pois são tan-
Em razão da importância de situar essa tas as teorias existentes que não haveria
obra junto às mais significativas teorizações espaço, neste breve artigo, para elencá-las.
da psicanálise, procura-se criar a oportuni- Imagine que um sujeito liga a TV e na
dade para a compreensão da originalidade tela aparece uma partida de tênis. Há dois
bem como da sua relevância na expansão tenistas, um de cada lado da rede, que
do movimento psicanalítico. Também serão batem e rebatem uma pequena bola; cada
expostas algumas ideias da autora que nasce- jogador empunha uma raquete. O que é
ram durante os mais de 16 anos de diálogo e esse jogo? Qual o objetivo? Nada se sabe
embate com a Teoria dos Campos. Essa é a sobre as regras do jogo, mas por curiosi-
intenção do artigo, que não está, portanto, dade procura-se entender, com o perdão
isento de lembranças, afetos e admiração. pelo trocadilho, o que está em jogo. Há
Ao final deste texto, o leitor encontrará características de fácil entendimento: cada
um roteiro de leitura para a obra de Herr- jogador tem uma raquete, bolas, uma rede
mann – elaborado por Leda Herrmann, psi- divide a quadra, limites para o toque da
canalista, estudiosa da Teoria dos Campos bola e árbitro. A vestimenta dos tenistas é
e esposa de Fabio Herrmann. Em função parte essencial do jogo ou algo aleatório?
da extensão e relevância dessa obra, é indis- Imagine, agora, que um homem se deita
pensável tal roteiro como complemento do no divã – nada se sabe sobre o ofício da psi-
artigo, a fim de orientar iniciantes e aque- canálise; outro homem está sentado numa
les já familiarizados com esse pensamento. poltrona; eles falam, falam, calam e falam
novamente; não se entendem, se enten-
dem; pode parecer uma conversa de lou-
2. O método cos. O que você extrai disso? Quais regras
presidem tão estranho encontro? O  que
O pensamento psicanalítico de Fabio acontece entre esses personagens?
Herrmann está reunido em obra extensa O pensamento metodológico opera dessa
e árdua. A leitura e o entendimento dos maneira ao dispensar teorias consagradas;

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não pretende afirmar o que é o homem metodológica, a interpretação não se liga


ou qual é a natureza humana. O pensa- a uma ou a outra fala do analista, mas ao
mento metodológico procura entender o conjunto de intervenções e acontecimen-
que a psicanálise faz. Essa operação é bas- tos (incluindo o diálogo analítico) que
tante abstrata e exige enorme capacidade levam à ruptura de campo.
de síntese. Exige também certo distancia- O paciente não é um ou o homem na
mento para colocar em outra perspectiva, a acepção mais usual da palavra. O sujeito
partir de um ângulo fora da rotina, o fazer da psicanálise é derivado da sua posição
clínico-teórico, e desse modo revelar e des- metodológica e, portanto, resultado da
construir elementos essenciais. Soma-se ao ação psicanalítica: o homem psicanalí-
distanciamento necessário a implicação tico. O homem psicanalítico é o que sofre
indispensável, por ser Herrmann analista a ação do método. Herrmann alinha-se à
entranhado no atendimento de pacientes, posição mais contemporânea em termos
em permanente diálogo clínico e teórico de produção de conhecimento a partir de
com a obra de Freud e com o movimento visão epistemológica. Cada ciência cons-
psicanalítico de maneira geral, e não ape- trói o próprio campo de ação: objeto e
nas o estudioso da psicanálise. procedimentos. Essa questão, por exem-
Fabio Herrmann explicitou o common plo, colocou Einstein de um lado e Bohr
ground. Respondeu insistente pergunta e Heisenberg de outro, como demonstrou
presente na IPA (International Psychoa- Isaacson (2007), visto que os físicos que
nalytical Association) nos anos 80.1 Não estudavam a mecânica quântica, ao con-
importa quais são as teorias do analista trário de Einstein, não sustentavam que
nem faz grande diferença a escola a que a física pudesse investigar uma realidade
pertence. A psicanálise, seja ela qual for, subjacente, única e independente. Deixa
opera por ruptura de campo. O campo pode de ser possível a afirmação de que o pro-
ser definido como o conjunto de relações pósito da física seja descrever a natureza.
que, quando explicitado por meio do tra- A  física, a partir da mecânica quântica,
balho analítico, se transmuta em outro passa a falar da própria física. De maneira
campo, e novo campo se forma; eis a rup- análoga, Herrmann fala de homem psica-
tura de campo. As relações presentes num nalítico, o sujeito da psicanálise. Daí extrai
campo são cognoscíveis; já o campo se dá algumas características e também parti-
a entrever apenas no momento da ruptura. cularidades do próprio método em ação.
A  cada ruptura, observa-se uma espécie O trabalho exaustivo e rico está presente
de desmantelamento de sentidos, o vór- na obra Andaimes do Real: o método da Psi-
tice, até que outros sentidos se organizem canálise (1979/2001a), em que recria toda a
em novo campo, e assim sucessivamente. psicanálise a partir da visão metodológica.
Eis o método da psicanálise, o método
interpretativo por ruptura de campo, que
assiste à criação de sentido. Na perspectiva

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Herrmann, ao resgatar o ato interpre- vez de promover uma reflexão filosófica e


tativo inaugural de Freud, demonstrou epistemológica profunda a respeito dos pró-
a força metodológica da psicanálise, por prios fundamentos.
meio do conceito de ruptura de campo, A busca constante pela posição cria-
base de sua obra. Também reviu as noções tiva e crítica em relação à psicanálise é o
de inconsciente, de interpretação, de trans- motivo da produção e da inquietude epis-
ferência e de setting. Os conceitos básicos temológica presentes em Herrmann. Bion
e os alicerces da jovem ciência foram retra- (1962/1991a), por exemplo, criticou a satu-
balhados, embasados na fenomenologia, ração do uso de teorias e procurou, até na
dentro da perspectiva metodológica. Há matemática, um meio de acabar com o
originalidade e abrangência suficiente em vício que se abateu sobre a psicanálise. Aca-
Andaimes do Real: o método da Psicaná- bou por se agarrar à literatura como arma
lise para afirmar haver uma releitura con- para travar tal combate (Bion, 1991b). Já
sistente e singular de toda a psicanálise. Herrmann realizou, primeiramente por
Audacioso e criativo pensamento genuina- meio da visão metodológica, uma opera-
mente brasileiro. ção de desbaste. Considerou os concei-
O olhar metodológico tem como exce- tos psicanalíticos como mais próximos da
lência a remoção do excesso de teorias interpretação do que da definição de con-
relativas ao sujeito e à clínica, que con- ceito das hard sciences, e assim salientou a
fundem e saturam, e não proporcionam condição de ciência interpretativa da psica-
descoberta. A busca de Herrmann é pro- nálise, bem como sua revolução metodoló-
mover certa limpeza e, dessa maneira, gica, para só depois incorrer na literatura/
recuperar o poder heurístico da psicaná- literacura a fim de encontrar o frescor da
lise. O argumento utilizado é: quem não descoberta.
cria crê. A visão crítica do exercício analí- Qual a importância do caminho esco-
tico está na raiz dessa proposta e requer um lhido? O desbaste realizado pelo método
psicanalista capaz de se colocar na mesma possibilitou colocar as teorias e conceitos
posição que Freud se colocou, fazer como da psicanálise em posição menos substan-
o mestre, criar e reinventar a psicanálise ciosa. Aproximar teorias e conceitos à inter-
para que se cumpra sua missão, tornar-se o pretação conferiu maior leveza ao corpo
horizonte de sua vocação, ciência geral da teórico/clínico da psicanálise e libertou
psique. A psicanálise deve seguir sua voca- o analista para o exercício de criação das
ção ou morrer, pelas mãos dos analistas, próprias teorias. Movimento verdadeiro
como tantas outras ciências passageiras, ao a favor do não aprisionamento à teoriza-
voltarem a atenção à disciplina existente e ção, permitiu o abandonar-se ao saber do
se contentarem com a prática clínica, em outro (paciente e cultura), por meio da
escuta analítica, para modelar uma teo-
ria singular – a prototeoria. Em resumo:
colocar entre parênteses o conhecimento

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analítico consagrado para tornar possível humanos. É quando o psicanalista passa a


a emergência de uma nova teoria parti- ocupar (como possibilidade) posição seme-
cular e, talvez, provisória. Versão singu- lhante à de um explorador. A  bagagem,
lar de teorias consagradas em termos não entretanto, é leve e traz poucos instrumen-
excessivamente psicanalíticos, por vezes tos. Leva o método de ruptura de campo
ficcionais, com a finalidade de preservar como uma lanterna ultrassensível – dessas
o poder criativo da psicanálise. Por meio que permanecem em estado de dormência
desse movimento teorizante, é possível e só iluminam quando um objeto se coloca
considerar todo e qualquer analista capaz ao alcance do foco. Leva também o proce-
de criar psicanálise, e não apenas de repro- dimento básico do método: deixar surgir
duzir o cabedal. E mais: o procedimento e tomar em consideração – procedimento
teórico-clínico adotado permite ao analista construído a partir da atenção flutuante
validar, sem receio, o conjunto de ideias de Freud e semelhante ao sem memória e
menos canônicas (nem por isso menos sig- sem desejo de Bion. Herrmann nomeia a
nificativas) nascidas na e a partir da clínica. libertação da forma de psicanálise extensa
Esse movimento teorizante permitiu rela- a partir, provavelmente, de Lacan (Lustosa,
tivizar a importância das escolas, dos gran- 2003). Do conteúdo, a desobrigação passa
des nomes da psicanálise, que na época não apenas pelo conceito de ruptura de
se apegavam a diferenças e controvérsias campo, mas também pela noção de incons-
de menor relevância, ao elevar, por vezes, ciente relativo, que questiona a ideia freu-
algumas teorias e a metapsicologia à cate- diana da existência de um conjunto de
goria de dogma. símbolos armazenados em um dado local
Revelar a essência interpretativa da psi- longínquo da mente. A compreensão do
canálise, ciência da criação de sentido por inconsciente como depósito de conteú-
ruptura de campo, lhe confere, no mesmo dos arcaicos guardados desde a origem do
instante, conceito abrangente e instru- sujeito não tem eco nas proposições da
mento flexível. Ao identificar a ruptura Teoria dos Campos. Baseado nos estudos
de campo como o método da psicanálise, partilhados com Isaias Melsohn e na leitura
forma e conteúdo tornam-se livres. Desse de filósofos como Susanne Langer e Ernst
modo, evita-se a padronização da clínica Cassirer, Herrmann (1979/2001a) questio-
e promovem-se expedições a áreas pouco nou essa concepção, orientada pelo posi-
visitadas pela tradicional psicanálise brasi- tivismo (já ultrapassado), ao afirmar que
leira, principalmente aquela ligada à IPA, não é possível saber o que não existia – só
que se encastelara no modelo da análise é possível saber o que existe quando passa
didática. A liberdade da forma como que a existir. A consciência, segundo esse autor,
provoca a psicanálise a se colocar em risco, é processo ativo, é consciência de alguma
a se provar capaz de percorrer territórios
perturbadores e promover clínica e pensa-
mento clínico nos mais diferentes redutos

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coisa, enquanto o inconsciente é conce- O livro Clínica psicanalítica: a arte da


bido como possibilidade de significação, interpretação (1991/2003b) é um exemplo
refere-se ao que pode surgir pela interpreta- perfeito do trabalho analítico via método.
ção e, ao surgir, deixa de ser inconsciente. Original e criativo, impressiona o leitor
Fala-se, portanto, em inconscientes relati- pelas proezas interpretativas, furor liber-
vos, apreendidos pela ruptura de campo, e tário e prototeorias; convida o analista a
com o termo inconsciente Herrmann pre- pensar a clínica com a própria cabeça,
fere designar o que não se dá a conhecer. tornar-se senhor da psicanálise e não se
É o inconsciente, entretanto, que ao sujeitar ao saber de outros. Essa é mais
denunciar que um processo multideter- uma característica central dessa obra e diz
minado (cultural, material, imagético, muito sobre a forma como o pensamento
histórico, filogenético) e constante atua na latino-americano, colonizado ao ponto de
produção de cada um dos próprios con- repetir como fórmula dogmática as teo-
teúdos dá a medida da não equivalência rias estrangeiras, procurou impedir o nas-
da consciência consigo mesma. O incons- cimento de um pensar crítico local sobre
ciente visto nessa perspectiva reúne todos a psicanálise, reforçando o que Roberto
os sentidos potenciais a serem apreendi- Schwarz (1973/2014) descreveu no clás-
dos pela consciência. É  a própria forma sico ensaio “As ideias fora do lugar”. A obra
humana. É  também aquilo que não se de Herrmann não apenas se coloca con-
sabe, nunca se sabe, porque quando se sabe tra a apropriação espúria de uma psicaná-
deixa de ser inconsciente. lise diminuída de seu potencial criativo e
É dessa maneira que a psicanálise pode curante – tão comum é em nosso meio,
se livrar da repetição estéril que aprisiona e por força do hábito, a repetição de maneira
esmaga os sentidos e os analistas. Trabalhar enviesada de ideias estrangeiras. Ela indica
sob a perspectiva de sentidos potenciais saídas. É ao mesmo tempo representante
liberta o psicanalista de encontrar sempre legítima da originalidade que nos faltava,
a mesma história – os grandes temas ana- para que se desenvolva um pensamento crí-
líticos, como complexo de Édipo, castra- tico tão potente quanto aqueles vindos do
ção, relação mãe-bebê, superego, modos estrangeiro.
de se relacionar, padrões mentais e confi-
gurações psíquicas. A psicanálise, portanto,
avança na direção de revelar novos campos 3. O método e as técnicas
representacionais, exala frescor criativo, e
talvez recupere a vitalidade e a graça dos Ao conferir abrangência, leveza e flexibi-
trabalhos pioneiros, mas evita a ingenui- lidade à psicanálise por meio do conceito
dade, pois já se identifica como ciência. estrutural de ruptura de campo, Herrmann
empreendeu um estudo minucioso das
diferenças entre técnica e método. Essa
diferenciação se fez necessária a partir do

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momento que a clínica-padrão, identifi- de crianças, psicóticos, casais, famílias, gru-


cada com a análise didática, deixou de ser pos, instituições etc. É apenas um pequeno
o único modelo de clínica psicanalítica número de exemplos de variações da técnica
para a Teoria dos Campos. Permitiu, por- que visam assegurar a boa análise. A fun-
tanto, a expansão da clínica e ofereceu ins- ção terapêutica da psicanálise é identificar
trumentos de trabalho para os praticantes conhecimento e cura; ao se desconhecer o
em territórios ermos e pouco explorados. cerne operacional, podem-se restringir os
O estabelecimento de pequenas distinções meios, diminuir certos tipos de ação e de
exige rigor do pensamento; categorias pró- ângulo de alcance. Como consequência,
prias surgem do esforço de diferenciação. temos a “democratização” da prática clínica
A Teoria dos Campos considerou o processo e o reconhecimento das práticas psicanalíti-
analítico como encarnação do método, é cas diversas do modelo da análise didática.
clínica viva, os pacientes (e a cultura) em
análise; as técnicas equivalem aos procedi-
mentos e proposições que conduzem a aná- 4. Psicanálise do quotidiano
lise em conformidade com o método. Dessa
forma, admitem-se alterações na técnica, Uma das resultantes mais importantes do
desde que sejam exigências do processo conceito metodológico de ruptura de campo
analítico, para cumprir o método. se realiza na rigorosa e criativa análise da cul-
O método da psicanálise, foi afirmado, é tura feita por Herrmann (1985/2001b, 1998,
soberano e essencial porque tem somente 1999, 2002, 2003a, 2004 e 2005). Após ter dei-
como objetivo que as regras ou relações tado no divã a clínica psicanalítica e a psica-
ocultas de determinado campo sejam des- nálise (o livro Andaimes do Real: o método da
cobertas – essa é a operação fundamental Psicanálise [1979/2001a] é fruto dessa opera-
do método psicanalítico. Como fazê-lo é a ção), agora deita os fenômenos sociais e gru-
questão colocada. Qual é a técnica? Como pais. Acreditou recuperar para a psicanálise o
proceder? Várias são as técnicas e todas território da cultura, tão explorado por Freud,
dizem respeito à forma de encaminhar mas esquecido pelos analistas posteriores ao
determinada análise; são os princípios do mestre, que se concentraram na prática de
bem-fazer em acordo com o método e ade- atendimento aos pacientes e, por algum redu-
quados ao método. Herrmann julgou que cionismo difícil de explicar, entenderam que
incluímos nesses princípios o setting, a fre- essa atividade era maior, excluindo a cultura
quência, a cobrança e toda série de reco- do horizonte de trabalho.
mendações variáveis sobre como lidar com O mundo enquanto pensamento é psi-
a transferência (e que tipo de transferên- que em ação, forma e origem. Portanto,
cia) e com a interpretação, e se esta deve para conhecer psicanaliticamente o mundo
estar focada na angústia, na transferência,
na experiência emocional ou na história.
Ajustes são feitos quando se trata de análise

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é necessário conhecer a origem das ideias: tem na virtualidade a grande figura –, passa
inoculadas pelo Real, o grande produtor de a usar a violência como forma sintomática
sentido que se esconde atrás dos produtos. de recuperação de sentido. Não se podem
Só temos acesso ao Real por meio da rea- mais fazer afirmações, não há confiança nos
lidade, ou seja, por meio de diversas rela- fatos, não há verdade irrefutável, e o saber, o
ções – relações que, vistas na interioridade simples saber, foi desautorizado pelas ciên-
do sujeito psíquico, são denominadas iden- cias. Incertezas se dissipam pelo mundo.
tidade e, quando observadas no mundo, são Herrmann observou o agravamento da crise
nomeadas realidade. da realidade a partir dos anos 80. Propôs,
Herrmann define o que significa quoti- então, que a perda de substância do homem
diano: é o campo geral das relações, o lugar e do mundo, na qual a experiência é substi-
em que o Real se transforma em realidade. tuída pela informação e a tecnologia toma
O psicanalista, por meio da imersão sim- o lugar das relações, nos levará a funcionar
pática em seu objeto, o reino dos sentidos, sob a égide do regime do atentado. É assim
pode investigar dado fenômeno da cultura que a ação toma o lugar do pensamento.
ou da realidade social. O crescente número de atentados seria a
Na perspectiva campista, homem e expressão do sintoma da perda de substância
mundo não se antagonizam, identidade e do homem e do mundo? Essa forma passaria
realidade se cruzam e se combinam. Herr- então a impregnar desde políticas econô-
mann concentrou-se em fatos históricos micas até o comércio de produtos infantis.
recentes e em movimentos sociais, mas tam- Adolescentes em busca de um atestado de
bém analisou a tecnologia e as dietas. De existência “causam”, adultos “chocam”,
cada tema extraiu conceitos inovadores para imagens são espetaculares, e tudo se torna
o pensamento psicanalítico – fazer como excessivo e bombástico. O efeito do terror
Freud fez foi a inspiração. Ao tratar de pro- e dos inúmeros atentados que açoitam o
cesso de familiarização, sistema autoritário mundo é uma manifestação da vã tentativa
e sociedade da informação, toma o ato puro de recuperar potência e sentido, esmagados
como regime de ação do homem e da cultura pela excessiva leveza, abstração incorpórea,
pós-moderna: salto visionário, que merece do mundo atual. E, como todo sintoma,
maior exploração da parte dos psicanalistas mais agrava o mal do que o cura.
e estudiosos da cultura, pois ideias reverbe- A compreensão das novas patologias
ram, alicerçam outras ideias, e são formas de pela Teoria dos Campos pertence a essa
conhecimento. E então o homem, diante vertente que decidiu por não distinguir His-
do crescente afastamento da experiência, tória de história pessoal, problematizando,
desde a era industrial, com a consolidação por exemplo, a relação entre psicogênese
da sociedade regida pela informação – que infantil e a cultura.
Os lugares distantes e as culturas exóti-
cas (para fazer como o mestre, Freud, fez)
atraíram o pensamento e a imaginação de

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Herrmann; suas viagens se casaram com também que se saiba algo vindo de luga-
a psicanálise, delas nasceram conceitos res distantes do nosso e de nós.
analíticos relacionados à particular visão Por isso a literatura/ficção torna-se o aná-
antiturística. No livro O divã a passeio logo da psicanálise, lugar ou campo imagi-
(Herrmann, 1992/2001c), percebe-se que a nário para o qual o analista se retira com o
psicanálise penetra em territórios exóticos propósito de construir teorias, prototeorias,
e se torna mais criativa; ela é o viajante, pequenas ou grandes narrativas. Da mesma
a viagem e o território a ser descoberto. forma, ao se entregarem ao processo ana-
Bion pretendeu a psicanálise apta a tratar lítico, os pacientes possibilitam o apareci-
dos mais difíceis pacientes e atingir a mais mento de sentidos.
recôndita loucura; Herrmann pensou a psi- É provável que Herrmann tenha partido
canálise como capaz de penetrar as entra- da noção de que a matemática é o análogo
nhas do Real, destacar suas substâncias e da física e que as demonstrações matemáti-
promover sua cura. cas conferem verdade à física. Se a ficção é
o análogo da psicanálise, a forma como se
constroem os conhecimentos em psicaná-
5. Literatura/Literacura: o análogo lise é análoga à forma como se faz ficção.
Ficção se faz por criação de linguagem e
As ideias de Herrmann funcionam como ideias, pelo nascimento de sentidos; é inter-
um jogo de encaixe. Se aceita a voca- pretação do homem e do mundo; esforço
ção interpretativa da psicanálise, que nos da pena a abrir novos universos. Mais uma
brinda com uma estranha ciência que tem vez, a imagem do explorador se associa ao
como objetivo partejar sentidos, imediata- trabalho de Herrmann.
mente encontra-se a literatura, que mesmo A psicanálise é ciência interpretativa.
não sendo ciência é saber sobre homem e O  lugar em que os conhecimentos são
mundo. Octavio Paz (1956/2013) dizia que produzidos assemelha-se ao lugar ocu-
cada tempo histórico, cultura e homem pado pela literatura de ficção. Como os
tiveram gênero literário próprio. Cada escritores, nós, os psicanalistas, não busca-
homem/tempo histórico criou sua forma mos fatos: procura-se criar a oportunidade
de narrar. Não há sociedade sem narrativa, para que os sentidos agraciem as realida-
e portanto as narrativas, ou seja, os gêne- des; para expor, contar, narrar e descre-
ros produzidos em determinado momento, ver o homem, os homens e seus mundos.
revelam sobre o que é narrado e sobre Os sentidos emergem pelo trabalho ana-
como se narra: vidas, costumes, sofrimen- lítico e são interpretações que surgem do
tos, anseios, amores, estrutura social etc. paciente ou da realidade. Por isso a seme-
A literatura oferece a oportunidade de vis- lhança com a literatura de ficção, que faz
lumbrar tempos diversos e distantes; ilu-
mina os campos de produção das obras,
relativos e subjacentes a elas; permite

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e é, simultaneamente, um inventário do freudiana de insight e na palavra esclaro,


próprio tempo. criada por Guimarães Rosa (1956/1983).
Para Herrmann, o proceder interpre- O psicanalista, em procedimento aná-
tativo, próprio à psicanálise e criado por logo aos gêneros descritos, percorre com o
Freud, é análogo ao fazer do escritor de fic- paciente histórias – histórias essas que se
ção, poeta ou ensaísta. O ensaio é gênero revelam pela ação interpretativa do método
que expõe ideias e reflexões a respeito de em sentidos múltiplos. Histórias são cons-
um tema. Consiste na apresentação de um truídas e reconstruídas a dois, pequenos
ponto de vista pessoal e subjetivo sobre poemas surgem do encontro analítico; a
um assunto: ético, humanístico, filosó- arte de narrar e de criar sentido para a expe-
fico, político, social, cultural, moral, com- riência humana é a arte do método inter-
portamental, literário, religioso etc. Não pretativo da psicanálise. É para esse reino,
é pautado em formalidades, documentos, o análogo, o reino da ficção, que o analista
nem tem estilo definido. Uma forma de se retira tanto no fazer clínico como no
conhecimento, que prescinde de provas fazer teórico. Portanto, os conceitos estão
científicas, muito embora nos brinde com mais próximos da interpretação do que do
sofisticados pensamentos. Escrito em lin- sentido de conceito para as ciências tradi-
guagem denotativa, abre novas relações, cionais. Esse é o problema epistemológico
cruza conhecimentos, cria compreensões criado pela psicanálise, demonstrado por
e explora determinado campo. O romance, Herrmann e Lowenkron (2004), asseme-
por meio da trajetória do herói e da narra- lhando-se a uma espécie de antiepistemo-
tiva, permite descortinar as alterações nas logia radical, ciência da singularidade, da
relações sociais, na forma de amar, no sofri- não verificabilidade, da impossibilidade de
mento privado ou coletivo, e é um retrato validação, ao exigir redefinição do campo
fidedigno de seu tempo, ao nos aproximar geral das ciências, por não se limitar ao
de dada cultura e língua. Um poema ilu- espaço tradicional das definições científicas.
mina determinadas coisas e as comunica. Na psicanálise – pelas mãos de Freud –,
Restitui ao leitor, por meio de palavras, as demonstrações se deram por meio da
certos estados intensos, concretamente escrita: na escrita são encontrados o incons-
experimentados e dotados de significado ciente, o aparelho psíquico, o mecanismo
ao serem postos em palavras. A poesia é dos sonhos, as pulsões etc. A psicanálise,
corpo e sentido; é catarse e descoberta; a partir do arcabouço teórico fundante,
transcende e faz sair da circularidade dos nasceu da potência criativa que a escrita
próprios pensamentos. A transcendência oferece para a extensão das fronteiras do
é também chave para entender a ruptura pensamento e para a construção de novos
de campo, que tem filiação direta na ideia conhecimentos e mundos. Ela própria é
interpretação.
A título de extensão, exagero, e princi-
palmente como experimentação das teses

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sobre literatura como análogo da psica- estudo do papel defensivo da representa-


nálise, é que nasceu o livro A infância ção e lançaram as bases para compreender
de Adão e outras ficções freudianas (Herr- o que é a representação, como se sustenta
mann, 2002). Nasceu como obra literária e como naufraga. A resposta de Herrmann
de excelência, como provocação epistemo- está na crença, modo de ser da psique, força
lógica rigorosa e demonstração empírica de que mantém a ilusão de que desejo e Real
que a psicanálise é a mais legítima conse- são vetores separados. No momento em
quência do casamento da medicina com a que a crença enfraquece, percebe-se que
literatura e, por isso, é literacura. Também a identidade está totalmente contida na
vem à luz o escritor de ficção. Irônico e construção da realidade; esse é o absurdo,
bem-humorado, por vezes quase pedante; proibido a todos (pobres neuróticos); esse
imensa a cultura que despeja lentamente é o motivo da enorme ansiedade persecu-
nas histórias, e imensa também a elegância tória da psicose, que denuncia que, ao ver
com que enreda o leitor. o mundo, nos vemos no espelho. Torna-se
evidente que a operação é secreta. Acredi-
tamos que o mundo é o mundo e que sem-
6. A crença pre esteve em determinado lugar, e que nós
sempre fomos nós, diferentes do mundo.
O artigo “O escudo de Aquiles: sobre Acreditamos no eu, no nosso eu e no eu
a função defensiva da representação” dos outros. A crença é, entretanto, frequen-
(Herrmann, 1988) é a abertura para a por- temente surpreendida (o processo analítico
ção mais densa da obra de Herrmann, o a incomoda), o bom senso é violado, a ver-
terceiro livro dos Andaimes do Real: psi- dade é questionada, e a aparência intocável
canálise da crença (2006). De inspiração de determinada representação se desestru-
freudiana (1911-1915/2010a, 1914/2010c), tra- tura. Quando a crença (força que sustenta
tou de estudar a coincidência entre o sur- as representações) se encontra debilitada,
gimento do eu e a psicose, pois o acesso apela-se para a prova dos fatos, as provas
à psicologia do eu passa, exatamente, por concretas da realidade; apela-se para as
compreender a instabilidade, a inconstân- certezas, para reparar qualquer fresta na
cia, a divisão, a megalomania, o delírio de armadura e conter o contágio com a lou-
ciúmes e de influência. O pano de fundo cura. A insanidade está presente na fusão
é a fenomenologia. Na obra, a representa- com o Real, na aglomeração homem e
ção é examinada, e as bases para o enten- mundo. Algumas representações são está-
dimento da representação como função veis; outras nem são percebidas – a crença
defensiva são expostas. não se mostra enquanto não é abalada.
A fusão com o Real (quando a morte e Outras entram em zona de suspeita: como
a loucura nos espreitam), a dissolução das
fronteiras entre homem e mundo, entre
identidade e realidade, estimularam o

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O legado de Fabio Herrmann: Teoria dos Campos, um pensamento original 215
Luciana Estefno Saddi

que irritadas, chegam a produzir incerte- torna nítida no interior de sofisticada e difí-
zas e dúvidas obcecadas. Quando o limite cil maneira de pensar.
da suspeita é ultrapassado, observa-se o O livro da crença (assim foi chamado) é
colapso da crença. O eu torna-se bizarro, um grande desafio para quem se dedica aos
atravessado pelo mundo, observado por estudos de psicanálise, pois coloca o ana-
antenas, manipulado por forças oriundas lista na posição de trabalhar apenas com
do universo distante, e denuncia que os representações e abalos na força que as sus-
delírios de influência são mais verdadei- tenta, sem atribuir valor ou hierarquia. Per-
ros do que se suporta imaginar, são o avesso mite iluminar e legitimar a parte da clínica
da rotina que pretende separar e ordenar que resiste a se encaixar em qualquer teoria
cada elemento do mundo e do homem conhecida. Se a psicanálise tem como voca-
para assegurar que mundo interno é dife- ção recolher os restos e dar voz aos proscri-
rente e separado de mundo externo – ter- tos, a Teoria dos Campos veio recuperar a
minologia freudiana muito explorada pelos vitalidade perdida pela saturação do pen-
analistas da SBPSP (Sociedade Brasileira de samento clínico. Derrubou qualquer ves-
Psicanálise de São Paulo) durante os anos tígio do método positivista, instrumentos e
de formação de Fabio Herrmann. processos. Ao depurar o método, encontrou
Reunir mundo interno e mundo externo, na crença uma formulação sólida para a
borrar a distinção, foi apenas uma das con- abordagem do problema epistemológico
sequências, talvez a menor, que o estudo da da psicanálise. Redefiniu, por meio desse
crença agregou à psicanálise. A mais impac- conceito, a legitimidade das teorias psica-
tante consequência desse livro (Herrmann, nalíticas, ao problematizar a forma como
2006) é a mudança estrutural desenhada, se opera a aquisição de conhecimento em
pois é correto afirmar que a crença é um tra- psicanálise. Afirmou que o que pode ser
balho de metapsicologia a partir do método. adquirido são os procedimentos e meca-
Modelo especial e novo de metapsicologia, nismos interpretativos, tal como se acu-
com desdobramentos clínicos e teóricos mulam os procedimentos e mecanismos
importantes. Ao se tratar de representação narrativos (ou os manejos da língua pró-
e crença, penetra-se em um campo teórico, prios à poesia). As teorias psicanalíticas, de
aparentemente, mais próximo do filosófico forma equivocada, têm se igualado mais
ou artístico do que do propriamente psica- aos resultados dos procedimentos inter-
nalítico. Quando se formula o mundo e a pretativos, quando deveriam centrar-se na
clínica pelo referencial da crença, abre-se maneira, nos mecanismos e procedimen-
mão de teorias consagradas, como aparelho tos que promovem o nascer desses sentidos.
psíquico, mente e psiquismo. A ruptura com Essa confusão é típica das jovens ciências.
qualquer traço positivista da psicanálise se Freud (1915/2010b) já havia imaginado essa
possibilidade ao constatar dificuldades das
ciências iniciantes em obter categorias cla-
ras e critérios rigorosos de ordenação.

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O estudo da crença lançou as bases meta- Lacan ou Bion, que também reescreve-
psicológicas para a contundente e necessá- ram toda a psicanálise à luz das correntes
ria crítica ao movimento de produção de filosóficas que lhes interessaram. O pen-
teorias vigente na psicanálise. Herrmann, samento de Fabio Herrmann é antropofá-
com tal base epistemológica, criou no pre- gico: nutre-se de inúmeras influências da
sente o futuro da psicanálise, não apenas ao psicanálise, filosofia, literatura e ciências
realizar a vocação de ciência dos sentidos humanas, embora quase nenhuma esteja
humanos, mas principalmente ao conferir citada em seus escritos. O resultado dessa
à jovem ciência depuração epistêmica. travessia é uma obra singular, radical e,
A Teoria dos Campos é pensamento ori- por vezes, hermética. As  novas gerações
ginal produzido no Brasil. Não é menor devem apreciar as contribuições e, princi-
nem menos importante que o pensamento palmente, manter o espírito crítico contido
psicanalítico de autores estrangeiros como nesse pensamento.

Nota
1 A questão era entender como análises orientadas pelas
mais diversas escolas psicanalíticas funcionavam, o
que havia de comum.

El legado de Fabio Herrmann: Teoría de los The legacy of Fabio Herrmann: Theory of Fields, an
Campos, un pensamiento original original thinking

Algunos puntos importantes de la Teoría de los The author comments on some relevant points
Campos (método, ruptura de campo, inconsciente, of the Theory of Fields (method, rupture of field,
técnica, psicoanálisis de lo cotidiano, literacura unconscious, techniques, everyday psychoanalysis,
y creencia) son comentados con la intención de literacure, and belief). The author’s purpose is to
realizar un breve estudio crítico, con el objetivo briefly develop a critical study in order to place the
de situarla junto a las más importantes teorías Theory of Fields among the most important theories of
del psicoanálisis. Se concluye que existe más que psychoanalysis. According to the author’s conclusions,
originalidad en esta forma de pensar, existe esfuerzo this theory goes beyond originality. In this way of
de depuración epistémica con el sentido de llevar el thinking, there is an effort of epistemic depuration in
psicoanálisis a cumplir su vocación: tener conciencia order to enable psychoanalysis to fulfill its calling: to
general de los sentidos humanos. become the general science of human senses.
Palabras clave: epistemología; Teoría de los Campos; Keywords: epistemology; Theory of Fields; method;
método; ruptura de campo; psicoanálisis de lo rupture of field; everyday psychoanalysis; literacure;
cotidiano; literacura; creencia. belief.

Referências
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O legado de Fabio Herrmann: Teoria dos Campos, um pensamento original 217
Luciana Estefno Saddi

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Herrmann, F. (2004). Introdução à Teoria dos Campos (2a Companhia das Letras. (Trabalho original publicado
ed.) São Paulo: Casa do Psicólogo. em 1973)

Luciana Estefno Saddi


Praça Morungaba, 66
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Tel.: (11) 99983-7195
lusaddi@uol.com.br

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número especial · 2017

Roteiro de leitura para a obra Fabio o faz pelos grandes temas psicana-
de Fabio Herrmann líticos elencados por Freud, introduzindo
o leitor pelas veredas do pensamento que
Leda Herrmann
criara e vinha trabalhando. Por isso o sub-
título “para iniciantes ou não…”. Nessa
Tarefa desafiadora a que me foi proposta
última edição, por um azar, foi suprimido
por Luciana Saddi e pela editoria da Revista
o primeiro capítulo, “Duas palavras”, em
Brasileira de Psicanálise. A obra escrita de
que Fabio explicita o porquê da linguagem
Fabio é grande – não se resume aos dez
coloquial, em que “o estilo é o de uma
livros publicados: espalha-se pela centena
história contada a um menino, embora o
de artigos de revistas, jornais e coletâneas.
conteúdo nem tanto” (1999, pp. 7-8), e a
Fabio escreveu muito nos seus 61 anos de
revisão que a edição fazia ao texto de 83.
vida (1944-2006). Nesses escritos, esteve
“Duas palavras” apresentava um caminho
sempre presente o pensamento psicanalí-
para a leitura desse pequeno livro e aqui,
tico que criou, original e crítico-heurístico,
neste roteiro, o livro está indicado como
como o defini em meu livro Andaimes do
um caminho de apresentação da obra de
Real: a construção de um pensamento.
Fabio.
A solução a que cheguei foi seguir a
A segunda estação de nosso roteiro é o
linha de apresentação de Fabio como autor
livro Clínica psicanalítica: a arte da inter-
psicanalítico criada por Luciana em seu
pretação (2003, Casa do Psicólogo, 3.ª ed.).
artigo. Ative-me a um roteiro pelos livros
Ele introduz a perspectiva metodológica da
ordenando-os por essa linha. Não incluí
criação dessa obra, tão bem explorada no
artigos, nem mesmo aqueles em que um
artigo de Luciana, e o faz através da discus-
importante aspecto do pensamento psica-
são sobre a clínica de nossos consultórios.
nalítico de Fabio aparece mais explicita-
Ele me parece indicado pela caracterís-
mente abordado que nos livros.
tica que apresenta de penetrar o pensa-
Para essa viagem psicanalítica por um
mento clínico psicanalítico pelo método
pensamento brasileiro original, recomendo
interpretativo.
a primeira parada no livro O que é Psicaná-
Na terceira parada indico as introduções
lise: para iniciantes ou não… Publicado em
dos livros Andaimes do Real: o método da
1983, fez parte da coleção Primeiros Passos
Psicanálise (2001, Casa do Psicólogo, 3.ª
da editora Brasiliense, e aí conheceu 12 edi-
ed., “Introdução”, pp. 13-36) e O divã a
ções sob o título O que é Psicanálise, tendo
passeio: à procura da Psicanálise onde não
sido adotado em vários cursos de psicologia
parece estar (2001, Casa do Psicólogo, 2.ª
pelo Brasil. Indico a edição revista de 1999,
ed., “Breve introdução à Teoria dos Cam-
que no ano passado teve, pela editora Blu-
pos”, pp. 9-72). Ambos os textos constituem
cher, sua 14.ª edição. Recomendo-o como
o início do percurso deste roteiro porque,
ao apresentar a Psicanálise ao iniciante,

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O legado de Fabio Herrmann: Teoria dos Campos, um pensamento original 219
Luciana Estefno Saddi

uma apresentação do pensamento do autor de que, como produção de conhecimento,


por ele mesmo e contêm uma espécie de nossa ciência interpretativa habita um
roteiro dos voos que o pensamento de reino análogo que é o da ficção literária.
Fabio foi alçando. O livro que exemplifica essa posição episte-
Assim, parece-me que o leitor interes- mológica, mesmo sem nunca mencionar a
sado nessa obra fica preparado para apear teoria do análogo construída por Fabio, é A
na quarta estação e enfrentar a leitura de infância de Adão e outras ficções freudianas
Andaimes do Real: o método da Psicanálise, (2002, Casa do Psicólogo). Seu primeiro
já referido e núcleo duro da demonstração capítulo, “A  ficção freudiana”, introduz
do alcance do método interpretativo criado o leitor no tema de a forma psicanalítica
por Freud na perspectiva metodológica crí- aparentar-se com a literatura, explorando
tica heurística criada por Fabio. o Freud escritor, alguém que pensava por
Como quinto apeadeiro, recomendo escrito. Lança os argumentos que depois
Andaimes do Real: psicanálise do quoti- vai explorar em seu último livro, só publi-
diano (2001, Casa do Psicólogo, 3.ª ed.). cado postumamente em 2015, da especifici-
Esse livro pode ser definido como a recu- dade da produção de nosso conhecimento,
peração da prospecção freudiana do saber diferindo-o do padrão “correspondência à
que ele estava criando, na exploração da materialidade” das ciências empírico-for-
intersecção homem/mundo – ou seja, uma mais, como a física, e definindo-o como
recuperação daquilo que foi rompido pela produtor de teorias interpretativas que
psicanálise pós-freudiana, com sua dico- nunca descrevem fatos.
tomização artificial das perspectivas de Na derradeira estação deste percurso,
pensar homem e mundo. Por causa da também acompanhando Luciana, chega-
importância e predominância que foram mos ao livro Andaimes do Real: psicanálise
tomando os desenvolvimentos sobre a clí- da crença (2006, Casa do Psicólogo, 2.ª ed.).
nica de consultório, a partir dos anos 50, o Último livro da trilogia Andaimes do Real,
pensamento clínico parece que se viu for- depois de percorrer o caminho do desvela-
çado a essa distinção teórica entre mundo mento do efeito terapêutico da Psicanálise
interno e mundo externo, tomando-os com a exploração do método de ruptura
como campos opostos em conflito. É nesse de campo, e da recuperação do estudo do
livro que se desenvolve a perspectiva, recu- quotidiano mirando a prospecção de cam-
perada de Freud, de que a psique, reino pos produtores das condições do mundo
do sentido humano, não é exclusivamente em que vivemos na atualidade, apresenta
individual: é também social. o trabalho minucioso de Fabio da constru-
Seguindo o texto de Luciana, aportamos ção de um conceito clínico metodológico:
à importante questão posta por nosso autor a crença – conceito que, do ponto de vista
de nosso método interpretativo e segundo
Luciana, “coloca o analista na posição
de trabalhar apenas com representações

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e abalos na força que as sustenta”, como ministrava na pós-graduação da PUC-SP e


que oferecendo ao estudioso da Psicanálise no Instituto de Psicanálise da SBPSP. Con-
e a seu praticante as condições que, pela seguiu finalizar o curso, mas não o livro,
clínica, do homem ou do mundo, lhe asse- pois faleceu em julho de 2006. Coube a
guram a descrença necessária nas teorias mim fazê-lo com a oportunidade surgida
produzidas para que outras possam surgir, quando da preparação, por Paulo Cesar
na forma como Freud produziu as suas. Sandler, dessa coleção brasileira para a edi-
Por isso Luciana considera que “o estudo tora Karnac. No livro, Fabio revisita, pelos
da crença lançou as bases metapsicológi- cursos que elegeu, os grandes temas que
cas para a contundente e necessária crí- compõem seu pensamento psicanalítico.
tica ao movimento de produção de teorias Assim, o leitor do artigo de Luciana, inte-
vigente na psicanálise”. Um livro comple- ressado em viajar pelos temas da produção
mentar ao estudo da crença, mas publicado de Fabio por ela selecionados, pode recor-
bem antes desse, é A psique e o eu (1999, rer aos capítulos desse livro, na medida em
HePsyché), que problematiza a questão do que tiver aguçado seu interesse. O preâm-
eu como o único conceito positivo da Psi- bulo, “Andaimes do Real: um ensaio de
canálise. Encontra no disfarce a condição psicanálise crítica”, que introduzi como
proposta da multiplicidade do eu, condi- abertura do livro, é o texto inédito com
ção que Fabio encontrou para driblar esse que se apresenta para membro associado da
engano teórico. SBPSP, depois de finda sua formação. Tra-
Uma última recomendação de leitura ta-se de um texto que contém o tronco de
da produção escrita de Fabio e que não seu pensamento psicanalítico, a partir do
vem com posição marcada no roteiro já qual se desenvolveram produtivos ramos,
considerado: trata-se do livro publicado segundo metáfora que usei em meu livro
em 2015 pela Karnac do Brasil, Sobre os antes citado. Já os cursos nos apresentam
fundamentos da Psicanálise: quatro cursos aos temas do autor por ele mesmo. Nos
e um preâmbulo. Esse livro é composto dois primeiros, discorre sobre sua criação,
por quatro cursos ministrados por Fabio a Teoria dos Campos, com pontos de par-
aqui e no exterior ao longo de sua carreira tida diferentes em cada um. Os dois últi-
psicanalítica, com o adendo do trabalho mos representam a revisitação do autor à
com que se apresentou em 1976 a mem- obra que produziu sem a ela se referir: no
bro associado da Sociedade Brasileira de primeiro, “Da clínica extensa à alta teo-
Psicanálise de São Paulo. Fabio, em 2004, ria”, revisita os próprios andaimes de seu
preparou esse conjunto de quatro cursos pensamento; no segundo, “A intimidade da
já com uma apresentação para o livro. clínica”, toma a clínica pela intimidade de
Pretendia publicá-lo ao terminar o último seus fundamentos e através de exposições
curso, “Meditações clínicas”, que ainda de sua prática clínica.
Boas leituras!

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