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A RELIGIOSIDADE NO ESPAÇO PÚBLICO: UM ESTUDO SOBRE A FACE PÚBLICA DAS

IGREJAS EVANGÉLICAS EM FELIPE CAMARÃO (NATAL-RN)

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Bruno César Ferreira de Barros Correia / UFRN / e-mail: cesarbrunocs@hotmail.com
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Dannyel Brunno Herculano Rezende / UFRN / e-mail: drezende@bol.com.br
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Prof. Dr. Orivaldo Pimentel Lopes Júnior (Orientador) / UFRN / e-mail: orivaldojr@yahoo.com.br

RESUMO
A pesquisa aborda a realidade atual do bairro de Felipe Camarão: o crescimento de igrejas
evangélicas e o aumento da violência social, pesquisadores e a comunidade em foco. Para tanto,
participamos diretamente dos movimentos e encontros de líderes evangélicos, acompanhando os
índices estatísticos sociais do bairro. Mapeamos estratégias de enfrentamento à violência e como
essas violências são incorporadas na prática eclesiástica através das entrevistas aos líderes
religiosos, assim como, a membrezia das igrejas e moradores do bairro.

PALAVRAS-CHAVE: Religiosidade; Violência; Felipe Camarão.

ARTIGO
Colocando-nos dentro das normas gerais Curiosos por entender essa relação, nos propomos a
investigar a realidade religiosa e social do bairro, através de uma abordagem epistemológica por nós
desenvolvida, a "parceria cognitiva". Raramente se busca perceber o impacto social na religiosidade
humana. Portanto, a pesquisa vem preencher uma lacuna nos estudos da violência urbana e
religiosidade. A justificativa para essa pesquisa é que ela vai permitir aplicações práticas em direção a
uma transformação social. Esperamos que venha interessar a outrosde uma pesquisa participante,
propomos a alguns líderes de igrejas evangélicas no bairro de Felipe Camarão, uma parceria
cognitiva que objetivou aquilatar a potencialidade das igrejas evangélicas no enfrentamento dos
desafios sociais do bairro. Esta proposta foi feita aos líderes religiosos deste lugar, por tratar-se de
um dos mais violentos bairros da cidade e por ser um dos lugares com uma grande presença de
igrejas evangélicas.
permitir aplicações práticas em direção a uma transformação social. Esperamos que venha interessar
a outrosde uma pesquisa participante, propomos a alguns líderes de igrejas evangélicas no bairro de
Felipe Camarão, uma parceria cognitiva que objetivou aquilatar a potencialidade das igrejas
evangélicas no enfrentamento dos desafios sociais do bairro. Esta proposta foi feita aos líderes
religiosos deste lugar, por tratar-se de um dos mais violentos bairros da cidade e por ser um dos
lugares com uma grande presença de igrejas evangélicas.
ermitir aplicações práticas em direção a uma transformação social. Esperamos que venha interessar
a outrosde uma pesquisa participante, propomos a alguns líderes de igrejas evangélicas no bairro de

1
Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS - UFRN), bolsista
Capes e pesquisador do Grupo de Pesquisa Mythos-Logos.
2
Graduado em Ciências Sociais pela UFRN, bolsista pesquisador de Iniciação Científica pelo CNPq e
membro do Grupo de Pesquisa Mythos-Logos.
3
Doutor em Ciências Sociais, Coordenador do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da
UFRN; Coordenador do Grupo de Pesquisa Mythos-Logos.
Felipe Camarão, uma parceria cognitiva que objetivou aquilatar a potencialidade das igrejas
evangélicas no enfrentamento dos desafios sociais do bairro. Esta proposta foi feita aos líderes
religiosos deste lugar, por tratar-se de um dos mais violentos bairros da cidade e por ser um dos
lugares com uma grande presença de igrejas evangélicas.
ões práticas em direção a uma transformação social. Esperamos que venha interessar a outrosde
uma pesquisa participante, propomos a alguns líderes de igrejas evangélicas no bairro de Felipe
Camarão, uma parceria cognitiva que objetivou aquilatar a potencialidade das igrejas evangélicas no
enfrentamento dos desafios sociais do bairro. Esta proposta foi feita aos líderes religiosos deste lugar,
por tratar-se de um dos mais violentos bairros da cidade e por ser um dos lugares com uma grande
presença de igrejas evangélicas.
es práticas em direção a uma transformação social. Esperamos que venha interessar a outrosde uma
pesquisa participante, propomos a alguns líderes de igrejas evangélicas no bairro de Felipe Camarão,
uma parceria cognitiva que objetivou aquilatar a potencialidade das igrejas evangélicas no
enfrentamento dos desafios sociais do bairro. Esta proposta foi feita aos líderes religiosos deste lugar,
por tratar-se de um dos mais violentos bairros da cidade e por ser um dos lugares com uma grande
presença de igrejas evangélicas.
social. Esperamos que venha interessar a outrosde uma pesquisa participante, propomos a alguns
líderes de igrejas evangélicas no bairro de Felipe Camarão, uma parceria cognitiva que objetivou
aquilatar a potencialidade das igrejas evangélicas no enfrentamento dos desafios sociais do bairro.
Esta proposta foi feita aos líderes religiosos deste lugar, por tratar-se de um dos mais violentos
bairros da cidade e por ser um dos lugares com uma grande presença de igrejas evangélicas.
social. Esperamos que venha interessar a outrosde uma pesquisa participante, propomos a alguns
líderes de igrejas evangélicas no bairro de Felipe Camarão, uma parceria cognitiva que objetivou
aquilatar a potencialidade das igrejas evangélicas no enfrentamento dos desafios sociais do bairro.
Esta proposta foi feita aos líderes religiosos deste lugar, por tratar-se de um dos mais violentos
bairros da cidade e por ser um dos lugares com uma grande presença de igrejas evangélicas.
Esperamos que venha interessar a outrosde uma pesquisa participante, propomos a alguns líderes
de igrejas evangélicas no bairro de Felipe Camarão, uma parceria cognitiva que objetivou aquilatar a
potencialidade das igrejas evangélicas no enfrentamento dos desafios sociais do bairro. Esta
proposta foi feita aos líderes religiosos deste lugar, por tratar-se de um dos mais violentos bairros da
cidade e por ser um dos lugares com uma grande presença de igrejas evangélicas.
Esperamos que venha interessar a outrosde uma pesquisa participante, propomos a
alguns líderes de igrejas evangélicas no bairro de Felipe Camarão, uma parceria cognitiva que
objetivou aquilatar a potencialidade das igrejas evangélicas no enfrentamento dos desafios sociais do
bairro. Esta proposta foi feita aos líderes religiosos deste lugar, por tratar-se de um dos mais violentos
bairros da cidade e por ser um dos lugares com uma grande presença de igrejas evangélicas.
Durante essa etapa da nossa pesquisa, procuramos caminhar por duas vias de forma
simultânea, das quais, uma corresponde à criação da ALEF, como um espaço para discussão dos
desafios, bem como da presença das igrejas. A outra via corresponde à nossa pesquisa de campo,
através da qual foi possível elaborarmos um banco de dados pertinente à situação social do bairro e

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das igrejas, mapeando-as e fotografando-as. Este processo da pesquisa nos permitiu perceber que
as igrejas têm tido muitas dificuldades e anseios no que diz respeito à sua relação com a sociedade
civil e a comunidade como um todo. Desse modo, passamos a nos interessar em captar não somente
a situação em si dessas dificuldades, mas a representação teológica e ideológica que facilita e
obstaculariza a presença pública das igrejas. Além disso, a realidade vivida pelo bairro também nos
gerou a curiosidade de saber quais são as estratégias silenciosas que se operam na intra-relação das
igrejas e sua membrezia, assim como a inter-relação destas com as outras igrejas e com a sociedade
de modo geral.
Para haver efetivamente uma real parceria cognitiva é necessário que ocorra um
envolvimento aberto e ativo entre o pesquisador e os interlocutores da pesquisa. Por isso, buscamos
priorizar esse envolvimento na nossa relação enquanto pesquisadores para com a comunidade
eclesiástica, assim como também ocorreu com todos os moradores de Felipe Camarão com os quais
tivemos uma convivência mais intensa. Tanto é que a nossa grande expectativa é a de funcionarmos
como um espelho revelador, pelo qual serão produzidas imagens que poderão servir para o
aperfeiçoamento das igrejas em sua atuação pública, podendo, dessa forma, possibilitar uma melhor
qualidade de vida para aquela população no ambiente em que vive. Desse modo, a ALEF surgiu
justamente com o propósito de ser mais um grande parceiro cognitivo, sobretudo, com a constatação
de um grupo com 58 igrejas que possuem uma considerável força política, muito embora, tal força,
não esteja sendo usada pelo fato de haver uma força teológica inibidora e também uma falta de
articulação intereclesiástica. Ultimamente, a questão do capital político tem ganhado espaço na
consciência das igrejas evangélicas no Brasil. No entanto, em tal ponto, as igrejas acabam
reproduzindo a mesma percepção que é propalada pela população em geral, ao pensar que capital
político deve ser revertido em benefícios pessoais ou corporativos. Esse tipo de percepção por hora
parece se chocar com presumíveis posturas éticas das igrejas, como mostra o relato a seguir.

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“Bruno, a igreja, nossa igreja tem uma característica de ser formada por
pessoas muito simples. E que convivem diariamente com os problemas
mais difíceis do bairro a questão da educação, a falta de oportunidade pros
jovens, violência armada, organizada ou não organizada, mas a igreja a
partir de... tem os nossos líderes, tem um olhar muito espiritual para essas
questões, vamos orar, vamos evangelizar. A partir do relacionamento com
as demais igrejas no espaço que a ALEF proporcionou. As pessoas, elas
começaram a ter uma nova visão, uma nova postura e um novo olhar de
perceber que as igrejas podem sim contribuir para mudar esse cenário, né?
e os pastores que atuam lá no bairro, pastores ligados à nossa igreja eles
tiveram oportunidade de perceber a mudança, de olhar e participar da
ALEF, né? Tudo isso ampliou, a sua visão de ministério, a sua visão de
atuação enquanto igreja, pastor começa a deixar de ser pastor da sua igreja
pra ser pastor do bairro inteiro, começa a deixar de olhar as dificuldades de
dentro da igreja e começa a enxergar as dificuldades do bairro inteiro[...].
Então os nossos pastores passaram a entender isso a partir da relação com
as outras igrejas e principalmente a partir da relação com próprio
bairro[...]”(Leandro, 2008).

Também é importante lembrar que parece existir uma grande dificuldade de


relacionamento entre as igrejas das diferentes denominações. Sobre este ponto, a teoria do mercado
religioso desenvolvida por Pierre Bourdieu é um excelente instrumento para entendermos este
processo. É evidente que um espaço populacional tão restrito como é o bairro de Felipe Camarão,
comportando 58 igrejas evangélicas, acaba acarretando uma disputa de mercado, visto que, cada
uma das igrejas precisa sobreviver, já que todas possuem contas a pagar, material de consumo, entre
outras coisas e para isso são dependentes do suporte financeiro dos seus membros.

“(...) Essas brigas ... é que... isso aí é só vaidade” (Silvestre, 2008).

“E qual é a missão do evangelho no mundo? Ide e pregue por todo mundo,


ide por todo mundo. Eu entendo essa situação de disputa, né? Religiosa,
denominacional, como uma doença da igreja, né? De ficar apenas olhando
pra dentro das igrejas, olhando pra dentro de sua estrutura e ali com medo
de que alguém saia, de que alguém (pausa), mas até tem um pastor que é
o Ramos, é ele costuma dizer que imagina que o diabo deve passar o dia
inteiro falando pros, pros seus demônios, né? Mantenha ele ocupado na
aliança com o umbigo deles... brigando, discutindo, com medo de perder
membro um pro outro, por que o dia em que eles pararem de olhar pro
umbigo e olharem o papel que eles têm nós estamos ferrados(...)” (Leandro,
2008).

Portanto, existe um grande trânsito religioso por parte dos fieis das igrejas evangélicas.
Tal fenômeno provoca um clima de constante desconfiança, prudência e censura mútua dos líderes
religiosos. Esse mal-estar entre os líderes fica crônico com o passar do tempo, o que acaba
dificultando o diálogo tanto fora das estruturas denominacionais como dentro delas. Fica claro que, o
fato de haver 58 igrejas “evangélicas”, não geram nelas um sentimento automático de pertença
mútua, apesar de existir entre os evangélicos a forte característica do corporativismo, portanto, até o

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momento não existe entre as igrejas de Felipe Camarão um esprit de corps . Com facilidade esse
esprit de corps se reverte em corporativismo, já o contrário dificilmente ocorre. Desse modo, podemos
afirmar de modo categórico que as 58 igrejas evangélicas são unidades fechadas em si mesmas e
não se enxergam enquanto um sujeito coletivo.
Certamente, não podemos colocar que essa grande quantidade de igrejas significa
necessariamente que ocorrerá uma transformação social de forma a priorística. Até mesmo porque
isso iria de encontro com a própria crença religiosa de que a mudança da sociedade vai acontecer
somente quando a totalidade ou grande parte dos indivíduos se “regenerarem”. É bem verdade que
tal crença é um dos pilares do fundamentalismo e, um dos diversos entraves de caráter ideológico
que se tornam empecilhos à atividade social transformadora das igrejas. Nesse sentido, o que se
questiona é o que cada igreja está fazendo ou pode fazer no tocante à busca de alterar o quadro
social negativo em que vivem. Essa questão se faz necessária, pois, se tal questão não surgir na
dimensão individual de cada igreja, não se pode esperar no âmbito coletivo. Todavia parece ser claro
que se de fato houvesse uma atuação conjunta de boa parte das igrejas, o impacto certamente seria
bem maior.
Enquanto as igrejas evangélicas de Felipe Camarão não haviam feito uma revisão
doutrinária, parecia que não havia perspectivas de um real impacto transformador. A noção de que é
necessário somente a conversão de pessoas para a solução de todos os problemas dela ou
relacionados a ela, acabou levando as igrejas a uma irresponsabilidade social. Não pensamos ser
legítimo colocar que a alienação social seja uma inerência ontológica das religiões como um todo e
dos evangélicos em particular, entretanto, ultimamente parece ter ocorrido um movimento em busca
dessa revisão por parte de alguns líderes evangélicos do bairro, como é o caso do Ps. Silvestre da
Igreja de Deus em Jesus Cristo:

“Primeiro eu vejo da seguinte maneira, o movimento social, o movimento


comunitário, as ONG’s elas fazem um trabalho (pausa) é de fazer a obra
né? É de fazer a obra, elas precisam lá no trabalho social. E as igrejas tem
um conceito de duas coisas , quer dizer, por que é a fé e a obra. Quer dizer
então que se a igreja entendesse de direcionar sua prática enquanto igreja,
entre a fé e a obra, aí ela faria esse trabalho social e ao mesmo tempo
espiritual, que não tem nenhuma contradição. Você... tá fazendo um
trabalho de oração, você tá fazendo um trabalho de matutino, você tá
fazendo um trabalho no círculo de oração e você também tá na
comunidade, né? Reivindicando melhores condições de moradia para
aquela sociedade [...] então eu vejo isso aí, entendeu? Que a... interação
entre a igreja e a sociedade, a igreja e os movimentos sociais organizados
eles resultam em aplicarmos exatamente essa missão que é a fé e a obra”
(Ps. Silvestre, 2008).

O empenho contra a fragmentação do campo religioso e, nesse caso, do evangélico,


somente terá sentido quando as unidades eclesiásticas envolvidas compartilharem minimamente de

4
Ver Rogério Cezar de Cerqueira LEITE em artigo publicado na Folha de São Paulo em
7/4/2006:http://www.inicamp.br/unicamp/canal_aberto/clipping/abril2004/clipping040407_folha.html (Visitado
em 09/08/2008).

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uma expectativa de transformação social. Nesse sentido, a ALEF surge como uma experiência
heróica de suplantar o isolamento que ainda persiste entre as igrejas - embora seu alcance seja
limitado - tanto é que em pouco mais de três anos de atividades, a associação ainda não conseguiu
reunir nem a metade das igrejas do bairro, sendo composta somente por 24 das 58 igrejas de Felipe
Camarão. Isso ocorre, pois, na óptica da maior parte dos líderes evangélicos do bairro, mudar a
realidade onde estão inseridos não faz o menor sentido, uma vez que possuem a crença de que ao
evangelizarem os moradores já estão cumprindo com o seu papel.
O fato de haver o estudo e a constatação desse isolamento já poderia servir como uma
indicação do caminho a ser seguido pelas igrejas. Ao estudarmos as causas deste quadro de
isolamento, notamos o quanto a idéia de mercado religioso é mais heurística do que o estudo de
diferenças de doutrinas entre as igrejas, visto que, a questão doutrinária somente é acionada depois
que é constatada a ameaça das igrejas concorrentes para o capital religioso. Não é um hábito se
fazer “cavalo de batalha” com as questões doutrinárias, a não ser em um momento posterior (esse
costume foi quase que totalmente desarraigado do meio evangélico). Isso se deu, sobretudo, por não
haver grandes diferenças no que diz respeito às questões doutrinárias, sociologicamente falando:
(BERGER, 1985) o problema não está na teodicéia e sim na sócio-dicéia das igrejas.
Reiterando o que já sinalizamos anteriormente, a pretensão da nossa pesquisa é de
servir como um espelho aos líderes evangélicos do bairro de Felipe Camarão, para que eles possam
enxergar a força que possuem e possam colocar em discussão a importância e o sentido da política e
da luta por políticas públicas que tenham eficácia para o bairro. Procurando, desse modo, apontar a
dispensável competitividade entre as igrejas, uma vez que, mesmo que cada igreja tenha 100
membros, Felipe Camarão ainda teria cerca 44 mil pessoas passíveis de serem evangelizadas.
Apesar disso, ainda podemos ir mais além, pois mesmo que todos os moradores do bairro fossem
membros das igrejas - coisa que muito dificilmente poderá vir a acontecer - o meio social de Felipe
Camarão não mudaria de forma substancial, visto que ela não se apresenta constituída pela soma
dos seus indivíduos, portanto, nesse caso não é a quantidade que vai fazer a diferença.

“Se você pegar a população de Felipe Camarão e o número de igrejas nos


não somos nem 1%, nós não somos nem 1%. Quer dizer então se nós, se
nós temos que, se a visão é ‘Ide por todo mundo e pregai o evangelho a
toda criatura’, né? Quer dizer, é toda a criatura não apenas o grupinho
(risos). Então é o que leva a gente a gueto”. (Ps. Silvestre, 2008).

Podemos conduzir nosso raciocínio através de uma analogia, pois da mesma forma que
existem impedimentos de natureza ideológica obstacularizando a população pobre de conseguir
impor sua vantagem numérica no tocante à definição de políticas públicas que serviriam a seu
benefício, os líderes evangélicos desse ambiente social também se acham bloqueados. No entanto,
eles possuem uma convivência em grupos organizados e se colocam permanentemente expostos aos
discursos que - em grande parte das vezes - são produzidos por eles mesmos. É interessante saber
de qual forma tais discursos esclarecem teologicamente a sociedade da qual eles fazem parte. No

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livro O Dossel Sagrado, (Berger, 1985) nos aponta que toda Teodicéia – Construção do universo
simbólico peculiar de um grupo religioso - também se configura como uma sócio-dicéia, e, portanto,
como uma forma de representação simbólica que coloca o que é a sociedade.
Na atualidade, a presença dos líderes evangélicos no meio político já é bastante
diferente do que era há duas décadas atrás. Esse fato pode nos indicar que houve um crescimento
acentuado no conhecimento da potencialidade numérica na democracia simplesmente contábil que
ocorre no Brasil. Entretanto, apesar desse avanço ocorrido nos últimos anos, o agrupamento que é
formado pelas igrejas evangélicas parece estar despregado do cotidiano à sua volta. Tanto é que, ao
falarmos dessa cotidianidade em algumas igrejas – principalmente as que não fazem parte da ALEF –
parecemos colocar algo politicamente incorreto, a menos que o discurso seja plasmado de
interpretações morais e religiosas do fenômeno. Desse modo, uma provável solução dos problemas
estaria na moral individual e na religião. Talvez a teologia da prosperidade seja a que mais se adeque
neste quadro, visto que coloca de forma clara que a solução para a pobreza está à disposição
daqueles que são incorporados à igreja, ao passo que adotem outra postura moral. Posto isso, fica
notório um dos elementos que compõem a ideologia dessas igrejas, que é o individualismo.
Evidentemente, esse isolamento que existe por parte dos líderes eclesiásticos representa um enorme
obstáculo ao impacto social das igrejas, uma vez que, sem o sentimento de grupo coletivo elas ficam
impossibilitadas de desempenharem o seu papel enquanto atores políticos. A tentativa de
agrupamento é sistematicamente limitada devido a uma complicada estrutura disjuntiva, em que as
igrejas são pertencentes a grupos diferentes, as que são do mesmo grupo pertencem a linhas
distintas, e, além disso, todas se olham como concorrentes no “mercado das almas”. Por conseguinte,
a maior parte do discurso colocado nas igrejas se destina principalmente à desvalorização da igreja
concorrente, isso acaba causando uma constante sectarização entre as igrejas evangélicas de Felipe
Camarão.
Um fato importante a ser lembrado é que parece haver uma forte disposição dos
habitantes a se tornarem mais receptivos às pregações religiosas, em lugares marcados por tensões
sociais e consequentemente pela violência. Esse aspecto pode se configurar tanto como uma forma
de conforto simbólico quanto como uma forma preliminar de organização social. Para (KEHL, 2000),
essa presença de Deus não produz conformismo nos moradores, é uma referência simbólica “para
não deixar a vida desandar”. Sendo assim, consideramos que uma das áreas em que as igrejas
poderiam potencializar uma transformação seria a comunidade familiar, já que nela são deflagradas a
maior parte dos problemas com a violência, não somente doméstica, mas também as que são
inerentes a uma falta de estrutura familiar que propicie um melhor desenvolvimento dos jovens,
impedindo-os de se envolverem com as gangues e quadrilhas existentes no bairro. As igrejas,
enquanto uma das raras instituições que possuem acesso direto às famílias, certamente poderão agir
com eficácia na busca de alterar esse quadro. Falta uma maior interação em relação à dinâmica das
igrejas para com as famílias. É bem verdade que este problema é mais freqüente na igreja católica,
mas isso não diminui a responsabilidade das igrejas evangélicas, pois o que se percebe são
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machismos exacerbados que, por vezes, fomentam ainda mais a desagregação interna nas famílias .

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Embora a figura do pai fica fortalecida numa sociedade de pais ausentes.

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Outro ponto importante a ser trabalhado é a educação para a cidadania, por meio dos púlpitos, das
escolas bíblicas dominicais e também publicações, visando a conscientização da membrezia com
relação às suas potencialidades na busca de alteração do quadro social do bairro, entretanto, nos
remetendo a Edgar Morin, “quem vai educar os educadores?”. Na ascese extra-mundana promovida
pelo protestantismo no Brasil, não há perspectivas de projeto de sociedade. Infelizmente essa é uma
verificação da qual não podemos nos arrogar.
Em Felipe Camarão, as igrejas evangélicas, por intermédio da ALEF, têm ultimamente
centrado suas atenções nas questões ambientais do bairro. Enxergamos esta postura tomada pelos
líderes eclesiásticos de forma positiva, uma vez que pode se configurar em uma reação das igrejas
de Felipe Camarão com relação ao quadro em que esse bairro se encontra, já que as agressões
ambientais também podem ser encaradas como forma de violência. Em nossas estadas no bairro,
também foi possível verificar a presença de novas expressões de espiritualidade nos cultos das
igrejas, caracterizado principalmente pela intensidade emocional dos cânticos e orações. Tal postura
já era comum de acontecer nas igrejas pentecostais e ultimamente tornou-se freqüente nas demais
igrejas. É provável que haja uma estreita ligação desse fenômeno com a questão da violência,
sobretudo, pela similaridade das músicas aos padrões musicais recorrentes no cotidiano, isso
demonstra a procura de uma articulação entre as ações das igrejas e as manifestações culturais dos
jovens moradores de Felipe Camarão, principalmente com o hip-hop. Sobre esse ponto, Regina
Novaes coloca que, “... a Bíblia também se faz presente em outro importante espaço de crítica social:
o Movimento Hip-Hop. Os salmos bíblicos permeiam músicas de protesto concebidas na ótica das
favelas e periferias (onde o Estado é pouco e as violências são muitas).” (NOVAES, 2003, p. 26).
Essa mesma autora ainda ressalta que estas manifestações também aquecem o mercado religioso:

A industria fonográfica tem crescido muito nos últimos anos no Brasil. Neste
nicho de mercado, que abriga vários estilos e demandas diferenciadas,
também se aloja o rap gospel. Do ponto de vista da produção e consumo
deste tipo de rap, o pertencimento religioso é um diferencial, abre um
mercado específico. Por outro lado, existem muitas pontes de comunicação
entre o rap gospel e o movimento hip-hop. (NOVAES, 2003, p. 28).

Logicamente, não podemos conceber as igrejas como instâncias que se encontram à


parte de um contexto, existe uma constante troca que oportuniza as igrejas a disseminarem uma
ampla formação cultural para a comunidade. Além disso, há uma possibilidade de abertura para o
desenvolvimento de uma cultura de paz em um contexto marcado pela violência. Até mesmo porque
as igrejas são compostas por pessoas que moram no bairro e que, portanto, os efeitos negativos e
estigmatizantes inerentes ao fato de viverem em um lugar violento - como o medo, a busca de
sobrevivência em um ambiente conturbado, as dores ocasionadas pelas perdas, entre outras coisas -
que são vivenciadas tanto dentro quanto fora das igrejas, gera um sentimento generalizado de
impotência. Durante a campanha do desarmamento, a ALEF se mobilizou no intuito de incentivar a
entrega das armas, instalando - em uma de suas igrejas filiadas - um posto de recolhimento, onde
foram entregues poucas armas, entretanto o gesto em si foi bastante significativo. Um movimento

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semelhante ocorreu no período da campanha de proibição da comercialização de armas, embora
tenha tomado proporções ainda menores, certamente, nesta ocasião, as igrejas perderam uma boa
oportunidade de propalarem uma cultura de paz e de não violência. Sobre este ponto, o Diácono
Leandro afirmou que, “Então a igreja tem um papel importante. Durante a campanha do
desarmamento, quem mais recolheu armas aqui em Natal foram as igrejas (pausa) a gente tem
convicção do nosso papel.” (Leandro, 2008).
Por fim, entendemos que as igrejas evangélicas de Felipe Camarão possuem, de fato,
uma potencialidade de ensaiar reações, bolsões de resistência, santuários de vida e difundir uma
cultura de paz. No entanto, tal potencialidade acaba encontrando barreiras na população como um
todo, sobretudo, por haver entre os moradores um sentimento de impotência, solidificando um
marasmo perante a violência. Isso vem comprovar o quão a democracia - enquanto potência de um
povo - ainda não é consumada de forma real nas periferias sociais das cidades, como é o caso do
bairro Felipe Camarão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com relação às igrejas, verificamos que a maior parte entende que possui um papel
puramente religioso, certamente, por entenderem que se houver transformações na vida dos
indivíduos, consequentemente, o restante da sociedade irá ser transformada. Também nos saltou aos
olhos, a desunião que marca a relação entre as igrejas do bairro, sinal disto, é o pequeno número de
igrejas que estão associadas à ALEF - somente 24 em um universo de 58 igrejas. Sendo assim,
embora as igrejas tenham como fundamento central a propagação da fé por meio de mensagens
religiosas, atos litúrgicos presentes em práticas pastorais, elas, enquanto instituições, defendem
interesses que muitas vezes são divergentes entre si. Desse modo, acumulam ressentimentos
mútuos e atuam numa lógica de mercado religioso, delegando grande importância ao número de
agentes e de seguidores, e portanto, a sua situação financeira, até mesmo porque as igrejas
possuem contas a pagar e com isso, precisam se sustentar.
Sabemos que as igrejas não são instituições despregadas do contexto social no qual
estão inseridas, com isso, algumas igrejas buscam atrair os jovens da comunidade através de
cânticos que sejam condizentes com as músicas que são freqüentemente escutadas pelos jovens de
áreas periféricas, como por exemplo, o Hip-Hop gospel. Essa ação é desencadeada com o objetivo
de fazer com que não se crie nos jovens um “espírito altruísta”, de que estão abrindo mão de ouvir
músicas que antes só eram tocadas fora do meio evangélico.
Por fim, até o presente momento, embora tenha havido um progresso na atuação das
igrejas evangélicas em busca de uma alteração da situação da violência no bairro, ainda não é
possível colocarmos que a propagação de templos e de membros dessas igrejas tenha implicado em
uma influência cultural transformadora, embora essa não seja uma ação impossível de ser praticada
ao longo do tempo. Notadamente, ainda faltam por parte das igrejas, ações que operem nas causas e
não somente nos efeitos da violência.
Queremos concluir esse ciclo da pesquisa, colocando que a produção científica –

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sobretudo no campo das Ciências Sociais – ainda está longe de esgotar ou de dar respostas mais
favoráveis para os fenômenos inerentes aos estudos do binômio: Religião e Violência. Portanto, essa
é apenas uma primeira etapa de um vasto estudo que certamente continuará a ser feito, se não por
nós, esperamos que por outros pesquisadores desse campo bastante promissor dos estudos
sociológicos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGER, Peter Ludwig. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São
Paulo: Ed. Paulinas, 1985.
KEHL, Maria RITA. A fratria órfã. O esforço civilizatório do rap na periferia de São Paulo. In: KEHL,
Maria Rita (org.). A função fraterna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
MORIN, Edgar. Cultura de Massa no Séc. XX. Rio de Janeiro: Forense, 1976.

MORIN, Edgar. Da Culturanálise à Política cultural. In: Margem. n. 16. São Paulo: Faculdade de
Ciências Sociais da PUC-SP/EDUC, 2003.

MORIN, Edgar. O Método III: O conhecimento do conhecimento/1. Portugal: Europa-América, 1986.

MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. Trad. Maria D. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dória. 7º
ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

NOVAES, Regina. Errantes do Novo Milênio: salmos e versículos bíblicos no espaço público. In:
BIRMAN, Patrícia (org.). Religião e Espaço Público. São Paulo: Attar, 2003.

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