Você está na página 1de 12

PARTIR DO CINEMA: DOCÊNCIA, EXPERIÊNCIAS E SABERES EM

SOCIOLOGIA

Prof. Me. Dannyel Brunno Herculano Rezende


Universidade Federal do Rio Grande do Norte
drezende@bol.com.br

Resumo: Neste artigo procuramos discutir as experiências educacionais vivenciadas no Colégio Estadual do
Atheneu Norte-Rio-Grandense em 2015. Experiências essas postas em prática por meio do projeto
“Sociologia e Cinema”, contempladas pelo Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI) da Secretaria de
Estado da Educação e da Cultura do Rio Grande do Norte (SEEC/RN). O projeto tinha por objetivo
desenvolver atividades fílmicas, direcionadas à exibição de películas e à construção de rodas de debates que
colocassem em relação a Ciência da Sociedade e o Cinema. Partimos da reflexão de que a sociologia é cada
vez mais necessária aos jovens diante das profundas transformações sociais em que vivem, sendo
fundamental o desenvolvimento da capacidade de problematizar o mundo e inserir-se criticamente na
sociedade. Foram abordados diversos temas como cidadania, trabalho, cultura, sexualidade, etc., os quais,
dialogados a partir do cinema, aprofundavam saberes de sala de aula. A nossa proposta, do ponto de vista da
metodologia, está assentada em documentos “etnográficos” que incorporam um conjunto variado de
informações sobre a escola, sobre a disciplina de sociologia e sobre o cinema, além de registros fotográficos
e diálogos construídos durante as exibições com os alunos. Contamos também com informações sobre o
ProEMI e com uma importante bibliografia destinada a subsidiar o debate nas questões de cinema e
educação.

Palavras-chave: Sociologia e Cinema, Atheneu Norte-Rio-Grandense, ProEMI.

1. Introdução sociais que envolvem a atualidade,


estimulando o desenvolvimento da consciência
A sociologia no Ensino Médio é de
social dos discentes, ensinando-os a questionar
fundamental importância para a formação de
e a transformar essa realidade (ARAÚJO;
milhares e milhões de jovens em todo o país.
BRIDI; MOTIM, 2011). Enquanto Ciência da
Pois, vivemos um momento histórico de
Sociedade, a sociologia procura oferecer a
intensas transformações e incertezas quanto ao
crítica social própria de uma formação
futuro da sociedade. O cenário de
humanística e como promotora do
fragmentação social, a precarização no campo
desenvolvimento da inteligência social, a
do trabalho, as transformações nas relações
escola, nesse processo, busca levar o estudante
humanas e em instituições como a igreja, a
a “aprender a aprender” e a pensar sobre a
família, os meios de comunicação, a escola, os
realidade em mutação (BRIDI; ARAÚJO;
partidos políticos, entre ouros, colocam
MOTIM, 2010).
importantes desafios a serem compreendidos
É nesse contexto de ensino-
por toda a sociedade e principalmente pela
aprendizagem que se inserem as diversas
juventude (BRIDI; ARAÚJO; MOTIM, 2010).
possibilidades educacionais e pedagógicas
A sociologia, nesse sentido, vem
para tornar possível o aprender sociológico.
contribuindo para o desvelamento das questões
Entre elas, o ensino da sociologia por meio de
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
metodologias e recursos de caráter tecnológico consistente), contribuindo para uma formação
e/ou audiovisual, como é o caso da utilização mais completa, assegurada pelos Parâmetros
do cinema no ambiente escolar. Curriculares Nacionais (PCN’s) e em
Ver filmes é uma prática social tão
conformidade à proposta do Ministério da
importante, do ponto de vista da formação
Educação e Cultura (MEC), através do
cultural e educacional, quanto à leitura das
Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI).
obras literárias, filosóficas, sociológicas e Assim, expomos as nossas experiências
tantas mais (DUARTE, 2006, p. 17). educacionais com o cinema, ocorridas durante
Possibilita novos significados e sentidos para a o segundo semestre de 2015 no Colégio
vida e para o entendimento dela. Apresenta, Estadual do Atheneu Norte-Rio-Grandense
pois, um caráter socializador ao conservar e (Natal/RN). O projeto, de modo geral, foi
difundir valores instituídos, como também realizado nas segundas e terças-feiras no sexto
pode configurar como fonte de crítica ao horário das aulas do turno vespertino e contou
questionar valores e difundir percepções que com o fomento da Secretaria de Estado da
fluem em sentido contrário ao da ordem já Educação e da Cultura do Rio Grande do
estabelecida. Norte (SEEC/RN) por meio do ProEMI.
É claro que passar filmes para alunos
2. Metodologia
nas escolas ou instruí-los a assistir em casa,
tem sido uma prática, até certo ponto usual. Essa experiência tem sustentação em
Contudo, é preciso ressignificar essa prática, uma variedade documental reunida durante as
otimizar seu uso dentro da escola, aproveitar a exibições fílmicas que vai desde um rico
linguagem cinematográfica, promover debates, trabalho “etnográfico” a materiais construídos
reflexão e, consequentemente, desestabilizar para a sala de aula (planejamentos, materiais
dogmas (SILVA, 2007, p. 53-4). didático-pedagógicos, etc.), contando,
A nossa proposta busca, justamente,
também, com indicações bibliográficas que
discutir uma iniciativa em fortalecer o
orientam a escrita do texto e a sua
aprendizado da disciplina de sociologia,
problematização.
enriquecer o seu processo pedagógico, Nossas reflexões dialogam, portanto,
tornando os seus conteúdos mais reais e com o registro de campo, as anotações sobre o
permanentes ao estudante. cinema e a sala de aula, bem como
Nesse sentido, buscamos valorizar o
documentos fotográficos construídos durante a
currículo dos educandos, uma vez que ao se
vigência do projeto. A coleta desses dados foi
trabalhar com o cinema, contemplam-se os
orientada por uma perspectiva focada na
aspectos da ciência, da cultura, da tecnologia e
caracterização e registro de todas as
do trabalho (tornando-os indivíduos mais
informações pertinentes à realidade escolar.
críticos e com uma formação básica mais
Isso significou a realização de diálogos com os
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
alunos, professores, funcionários e Café Filho, Wilma de Farias e o atual Ministro
administração. da Previdência, Garibaldi Alves Filho.
Referencialmente, no campo da Localizado em um bairro considerado
sociologia direcionada ao Ensino Médio, além de classe média alta, a antiga “Cidade Alta”,
das já citadas docentes: Maria Aparecida Bridi, hoje centro comercial, o colégio, em 2015,
Silvia de Araújo e Benilde Motim (2010; contava com cerca de 1.132 aprendentes nos
2011), contamos, também, com a indicação do turnos Matutino e Vespertino, sendo 18 turmas
livro didático dos professores Luis Fernandes pela manhã e 10 turmas à tarde. O corpo
de Oliveira e Ricardo Cesar da Costa (2013). docente apresentava-se com 43 professores e a
Para as leituras mais gerais sobre cinema e administração com 25 funcionários, sendo 12
educação, nos apoiamos, principalmente, nas terceirizados e 13 concursados.
A escola apresenta um formato de um
contribuições das professoras Rosália Duarte
“X” (figura 1) e possui, em termos de
(2006), Roseli Pereira Silva (2007) e Lucilla
estrutura, 39 salas, divididas entre salas de
Pimentel (2011). Nas questões que dizem
aulas, laboratório de informática, química,
respeito à pedagogia docente, fundamentamos
física e matemática, biblioteca, sala de vídeo,
quase todo o nosso texto nas interpretações do
artes e música, sala de professores,
educador Paulo Freire (2006; 1996; 2005;
coordenação pedagógica, direção, secretaria,
2011; 1990).
grêmio estudantil, arquivos, cozinha,
3. Um breve panorama institucional: o
banheiros, etc.
Atheneu Norte-Rio-Grandense e o ProEMI
O prédio passou recentemente por mais
O Colégio Estadual do Atheneu Norte- uma reforma. Agora, funcionalmente mais apta
Rio-Grandense, localizado no Município de à realidade discente e docente, conta com um
Natal, no estado do Rio Grande do Norte, foi grande refeitório, um elevador e rampas de
fundado no século XIX, em 1834, e é acessos em todas as salas, adequando o
considerada a segunda mais antiga instituição ambiente escolar aos alunos com mobilidade
escolar brasileira (a primeira é o Ginásio reduzida e tornando seus espaços mais
Pernambucano, de 1825), fundada antes democráticos.
mesmo do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro
(CASCUDO, 1961). Conforme Cascudo
(1961), a palavra “Atheneu” faz referência ao
“templo de Atenas” que na mitologia grega
reporta-se à “deusa da sabedoria”. Pela escola
já estudaram muitas personalidades de
destaque do estado, como Newton Navarro,

(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
e a gestão escolar. Em sua maioria, os
estudantes são oriundos dos bairros populares
de Natal, distribuídos, sobretudo, na Zona
Norte, Oeste e Leste da cidade, assim como
muitos advinham das cidades vizinhas,
destacadamente, os Municípios de São
Gonçalo do Amarante, Extremoz, Macaíba e
Parnamirim, região Metropolitana de Natal.
Figura 1: Prédio reformado em 2015, Atheneu Norte A escola por ter visibilidade histórica é
Rio-Grandense (Natal/RN).
palco de inúmeros projetos do governo
Com relação ao corpo docente, o estadual e de outras instituições. No ano de
quadro geral é bastante amadurecido, isto é, 2015, ela contava com diversos programas
formado por professores com muitas como o Núcleo de Tecnologias Educacionais,
experiências e em fase de aposentadoria. Mais Cultura, Pronatec, PIBID e ProEMI.
Porém, tendo em vista as consequentes Pensando em apoiar e fortalecer o

chamadas de professores concursados pela desenvolvimento da educação no Ensino

Secretaria do Estado, esse quadro pareceu Médio, a SEEC/RN incentivou a escola a

diluir-se mais ultimamente. Podemos dizer que participar, em 2009, do ProEMI. O programa

os docentes compunham a classe média da foi criado para fomentar propostas curriculares

cidade, com alguns residindo no próprio bairro inovadoras e, consequentemente, provocar o

onde está instalada a escola. Há entre eles um debate sobre o Ensino Médio junto aos

sentimento de pertença à instituição, pois se sistemas de ensino. Integra as ações do Plano

trata de um estabelecimento tradicional, o qual de Desenvolvimento da Educação (PDE),

durante décadas construiu um nome, formando como estratégia para induzir o redesenho dos

pessoas ilustres do RN, bem como se currículos do Ensino Médio e incorporar

destacando por abrigar, em tempos idos, ações, como a ampliação do tempo na escola e

professores e intelectuais de envergadura como a diversidade de práticas pedagógicas

“Câmara Cascudo”. inovadoras que atendam as necessidades e


Os discentes, por sua vez, destacam-se expectativas dos educandos. Para tal, prevê
por serem receptivos, curiosos e dinâmicos. apoio técnico e financeiro às escolas que
Em trabalho de “etnografia”, os alunos deverão elaborar os seus projetos de forma
mostraram-se atentos em apresentar os espaços mais flexível e com características inovadoras.
que a escola possuía, bem como trouxeram Inovar significa pensar em uma ação
informações gerais sobre o corpo docente, a pedagógica, conjunta, que procure superar os
estrutura da instituição e, até mesmo, os desafios de aprendizagem do aluno, fortalecer
embates, representados pelo grêmio estudantil o uso das tecnologias e estimular o processo de
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
mudança dos professores e da escola para uma O cinema representa um forte aliado à
educação do século XXI (GOVERNO DO educação, uma maneira rica de estimular os
ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE, discentes a ver diferente a realidade a sua
2015). volta, educar o olhar e incentivar o exercício
Assim, as ações do ProEMI são
da reflexão. Para que isso, de fato, pudesse
ofertadas no contra turno ou por acréscimo de
ocorrer na escola, o caminho encontrado foi
1h de atividades diárias. A escola busca
envolver os educandos no processo de
promover uma aprendizagem como processo
construção, no qual a participação da maioria
de apropriação significativa, integrando os
foi fundamental para a sua existência e
estudantes, de forma dinâmica, aos
consecução dos objetivos do projeto.
componentes curriculares do Ensino Médio e, Nesse sentido, a nossa experiência
acima de tudo, fomentar um redesenho organizacional foi feita da seguinte maneira:
curricular que propicie uma escola marcada a primeira reunião no auditório da
estimuladora do aprender, com liberdade e escola, foi construído uma pauta que
confiança para o estudante poder agir e se priorizasse as principais temáticas de
desenvolver como sujeito social, com direito a sociologia voltadas para o Ensino Médio,
uma formação mais integral (GOVERNO DO contempladas em maior parte no livro didático
ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE, do aluno (OLIVEIRA; COSTA, 2013) e, a
2015, p. 9-10). partir dela, as sugestões fílmicas para o
cinema. Em seguida, as definições de
4. A experiência do cinema na
construção de saberes sociológicos responsabilidades e as datas das sessões. Por
último, a demarcação da sala de cinema.
4.1. A organização do cinema
As temáticas sugeridas, colhidas a
Conforme pensa o professor Marcos partir dos conhecimentos dos educandos e
Napolitano (2009, p. 30), o cinema, assim complementadas com os conteúdos do plano
como o samba, “não se aprende na escola” de aula docente, foram, ao final, organizadas
(Noel Rosa), mas o seu uso pode trazer para a da seguinte maneira: Indivíduos e Instituições
escola a experiência de ver um filme, analisá- Sociais; Classe e Estratificação Social; Cultura
lo, comentá-lo e trocar ideias em torno das e Sociedade; Diversidade Cultural;
questões por ele suscitadas. Evidentemente Diversidade Religiosa; Diversidade Sexual e
que não se trata de “aprender cinema na Gênero; Trabalho e Sociedade; Pobreza e
escola”, mas de aprender a pensar o mundo Desigualdade Social; Violência, Crime e
por uma das experiências culturais mais (In)justiça; Democracia, Cidadania e Direitos
fascinantes e encantadoras dentro de uma Humanos.
A partir de tais temas, os estudantes se
instituição que tem muito a nos oferecer.
comprometeram em trazer sugestões de
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
cinema que conhecessem, nos mais diversos Uma forma importante de construir
gêneros possíveis (documentário, ficção, autonomia ao grupo e conferir maior vida ao
comédia, suspense, etc.). Filmografias que projeto, foi envolver os aprendentes em
tivessem interesses em assistir novamente, funções de administração e apoio pedagógico
filmes recentes e de várias nacionalidades, (Monitorias). Foram escolhidos, por votação,
dentro ou fora do circuito comercial, longa e dois nomes de alunos para auxílio
curta metragem, películas de distintas épocas e organizacional (preparação de sala, instalação
escolas cinematográficas, entre outros. de equipamentos, etc.) e dois nomes com
Uma vez feitas as sugestões fílmicas,
função pedagógica (auxiliar de orientação no
anotadas e discutidas nas reuniões, foram
projeto). Essa postura de organização
selecionadas, por votação, as que iriam para a
assentou-se no método pedagógico de Freire
exibição no projeto: “Deus não está morto”
(2005; 2006; 1996) que procura construir
(Drama, Harold Cronk, 2014), “O menino de
responsabilidades nos educandos,
pijama listrado” (Drama, Mark Herman,
reconhecendo a sua autonomia e capacidade de
2008), “Somos tão jovens” (Biografia, Antônio
intervenção no mundo, possibilitando a prática
Carlos Fontoura, 2013), “Identidade, gênero e
de sua valorização como homem.
diversidade sexual na escola” (Documentário, Assim, a nossa metodologia de ensino-
Alípio de Sousa Filho, 2009), “O sal da terra” aprendizagem com o cinema, fundamentou-se,
(Documentário, Wim Wenders/Juliano Ribeiro principalmente, na ideia e prática do “diálogo”
Salgado, 2015) e, por último, Lincoln como estratégia permanente à reflexão do
(Biografia, Steven Spielberg, 2015). mundo social. Vale lembrar, o diálogo não é
O interessante dessa seleção é que ela
apenas técnica como o “ir e vir”, é
foi fruto das escolhas dos estudantes,
essencialmente condição da própria
reforçando a tese da importância da
aprendizagem humana, ou seja, “algo que
identificação do espectador com os filmes
pertence a própria natureza do ato de
(DUARTE, 2006). Nesse sentido, como a
conhecer” (FREIRE; GUMARÃES, 2011).
grande parte dos alunos já tinha conhecimento
Como estrutura democrática e propulsora da
das películas, o que estava em jogo era a
construção de saber crítico-reflexivo, o diálogo
possibilidade de uma releitura do cinema em
pode ser visto como uma relação horizontal de
grupo. Os educandos, também, souberam
A com B, nasce de uma matriz crítica e gera
relacionar as diversas indicações temáticas
criticidade. Exercita-se a comunicação
com as abordagens fílmicas. Respectivamente
(FREIRE, 2006, p. 115).
aos temas da “religião”, dos “direitos
Quadro de organização geral do cinema
humanos”, da “diversidade sexual”, da  Para o semestre: 1 ciclo de cinema.
“cultura e diversidade cultural” e da  Número inicial de inscritos: 90 alunos (1º, 2º e
3º anos).
“democracia e cidadania”.
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
 Meses: (Julho), Agosto, Setembro, Outubro, de trabalho, a fragilidade da infância e a vida
Novembro, (Dezembro).
 Sugestão de temas em cada mês: 1 tema (total adulta e, finalmente, o cenário urbano que
de 6 temas). chamou a atenção dos discentes, a destacar os
 Sugestão de filmes em cada mês: 1 filme (se
for curtas o número de películas poderá ser símbolos da desigualdade social evidentes nos
alterado). contrastes das submoradias e dos arranha-céus
 Sugestão de turmas: uma turma.
 Encontros: semanais (segunda e terça / 6º visualizados na tela.
horário). Foi uma exibição rápida, porém com
Programação inicial e datas:
 Dia 28/07 – 1ª reunião geral de organização. muita alegria e vontade para o debate, a
 Dia 03/08 – seleção dos filmes e finalização intenção era estimular a crítica, ao fazer saltar
organizacional.
 Dia 04/08 – abertura oficial com a primeira as diversas observações e o gosto pela arte
Exibição Geral (local: Auditório da escola). cinematográfica. Em síntese, pretendíamos

4.2. As sessões, os debates e as atividades iniciar as discussões e empolgar os discentes


criadoras para as próximas exibições, o que surtiu efeito.

A sessão de abertura se deu com o Vejamos.


A primeira sessão, dentro das escolhas
curta-metragem “Bilú e João” (direção de
feitas pelos alunos, foi marcada pela exibição
Kátia Lund, Brasil), inserido no filme
do longa-metragem “Deus não está morto”,
“Crianças invisíveis” (longa-metragem, 2002,
um drama norte-americano que aborda o
produzido com o apoio do Fundo das Nações
desafio de um estudante cristão, Josh
Unidas para a Infância – Unicef. Conta com
Wheaton, em enfrentar um forte pensamento
vários diretores internacionais em sete
ateísta em seu primeiro dia de aula na
segmentos fílmicos). O curta relata uma
universidade. Narra-se um contexto de
fascinante história de duas crianças, uma
violência simbólica (BOURDIEU, 2006) sobre
garota e um garoto de aproximadamente 10 a
Josh e a sua turma quando, na aula de
12 anos de idade que se aventuram na maior
filosofia, o professor Jeffrey Radisson os
cidade brasileira, São Paulo, com o intuito de
orientam a negarem, por escrito, a existência
conseguir dinheiro para a sua família. Em suas
de Deus. Apesar de muito angustiado, Josh não
trajetórias, eles irão passar por muitos desafios
cede às pressões. A partir desse momento,
e ameaças, mas também por muitas alegrias e
defenderá a existência de Deus para toda a
experiências.
A sessão do cinema foi marcada por classe.
Esse filme ensejou importantes críticas
muitas expectativas, atenção e um debate
durante o debate. Foram diversas as
reflexivo e crítico. De maneira ampla, foi
colocações, sobretudo, em defesa do
acentuado pelos participantes a coragem dos
protagonista Josh e da importância da fé cristã.
meninos e a dureza da vida que enfrentavam, o
Contudo, houve inflexões nos pensamentos
porquê de não estarem na escola, as negativas
dos alunos ao sugerimos os seguintes
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
questionamentos: “além do cristianismo, que amizade com Samuel, um menino judeu. Entre
outras religiões aparecem no filme? quantas outras coisas, o filme aborda questões sobre o
são?” “Há diversidade?” “Como elas são preconceito étnico, injustiças, Estado ditatorial
representadas? e como aparece o direito de não e violações dos direitos humanos.
Esse drama possibilitou reflexões
ter religião?”, entre outras, estimulando “a
múltiplas e diálogos com os conteúdos de
competência a ver” (DUARTE, 2006).
Esse debate foi aprofundado ao disciplinas como Historia, Filosofia e
dialogarmos, por meio de uma atividade em Sociologia. Após o debate, foi sugerida uma
grupo, com acontecimentos sociais recentes. atividade aos discentes em que pudessem
Contando com imagens provocadoras representar, em cartolinas, imagens e
(charges) retiradas das capas da revista Charlie principais impressões. Assim, em grupos,
Hebdo, no contexto atual de violências puderam apresentar as suas representações e
político-religiosas no mundo, foi sugerido o compartilhar os olhares com os demais
confronto de reflexões sobre a vida em colegas, viabilizando um espaço favorável à
sociedade, as imagens postas e as emergência do saber crítico, uma vez que
interpretações trazidas pelo filme. Dessa despertada à curiosidade em entender o
maneira, nas diferentes possibilidades “da trabalho do outro e com ele buscar
leitura do mundo e leitura da palavra” dos explicações, gerava a necessidade de
educandos (FREIRE, 2006; FREIRE; verbalização e com ela, novas indagações e
MACEDO, 1990) foi possível reconstruir respostas num ciclo de conhecimento. O
reflexões sobre a necessidade do respeito à exercício dessa atividade ampliou o potencial
diversidade religiosa e aos que não tinham das discussões ao colocar os participantes
religião, como também, identificar os como protagonistas e construtores de símbolos
equívocos do radicalismo religioso e do (PIMENTEL, 2011, p. 93).
A sessão seguinte foi marcada pela
ateísmo desrespeitador das diferenças.
A segunda sessão, procurando discutir exibição do longa “Somos tão jovens”. A
o tema dos direitos humanos, trouxe o titulo película contou a emocionante história da
“O menino de pijama listrado”, um filme de transformação de Renato Manfredini Júnior no
origem dupla, norte-americana e inglesa, cuja destacado compositor e cantor Renato Russo,
história se passa durante a Segunda Guerra revelando como um rapaz de Brasília, no final
Mundial. Nele, uma família alemã se muda de da ditadura, criou canções belíssimas que se
Berlim para Auschwitz, pois o patriarca, um tornaram verdadeiros hinos da juventude
destacado oficial nazista, é ordenado a urbana dos anos 80. O filme abre
trabalhar em um campo de concentração. possibilidades para a discussão de diversos
Assim, Bruno, um garoto de 8 anos e temas, como cultura, identidade, sexualidade,
protagonista da história, começa uma linda juventude, entre outros. A sua exibição foi
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
caracterizada por muita emoção, pois se coordenado pelo Professor Alípio de Sousa
tratava de uma narrativa pontuada por namoros Filho do Departamento de Ciências
e amizades, além de um forte tom musical Sociais/UFRN.
O vídeo, de mesmo título, trouxe
presente no repertório da maioria dos
alguns recortes esclarecedores sobre o tema,
estudantes, revelando o efeito da linguagem
com falas de estudantes e professores das
cinematográfica em suas subjetividades
escolas públicas de Natal/RN, de professores
(SILVA, 2007, p. 100).
O diálogo foi aprofundado por uma da UFRN e de pessoas vítimas da violência e
atividade semelhante a anterior, porém do preconceito sexual. Esse documentário
organizada da seguinte maneira: foram feitos pôde assim complementar algumas lacunas
três grandes grupos, um composto só por deixadas nas discussões anteriores. Em face de
alunos, outro só por alunas e outro misto sua abordagem, foi feita uma roda de diálogo
(alunos e alunas) e a partir da temática do para colher as interpretações e ensejar a critica.
A quinta sessão de cinema contou com
gênero e da sexualidade, apontada com vigor
o documentário “O sal da terra”, uma biografia
pelos discentes, solicitamos que cada grupo
sobre o renomado fotógrafo brasileiro
expusesse (com cartolinas e lápis coloridos) as
Sebastião Salgado. O filme apresentou o seu
suas compreensões sobre questões de gênero e
ambicioso projeto "Gênesis", expedição que
sexualidade. Os alunos iriam expor suas ideias
tinha por objetivo registrar, a partir de
sobre as mulheres, as alunas sobre os homens
imagens, civilizações e regiões do planeta até
e o grupo misto, sobre a homossexualidade
então inexploradas. Um excelente material
masculina e feminina.
De modo geral, percebemos as para discutir o tema da cultura e da diversidade
representações que eles tinham sobre os cultural.
Nesse sentido, descrever, questionar e
diferentes gêneros e comportamentos sexuais,
interpretar as imagens, dialogar com os alunos
o que foi muito empolgante e gerou um debate
acerca das diferenças culturais foram,
sem limites de tempo. O mais importante do
metodologicamente falando, os caminhos
diálogo é que foi possível tecer compreensões
encontrados. Nossa atenção se voltou à
alternativas e desfazer alguns dos preconceitos
educação para a imagem, ou seja, no aprender
postos.
Esse tema, de grande aceitação entre os a ler. Buscou-se, então, romper com o hábito
aprendentes, por despertar a curiosidade e de apenas ver a imagem e depois saber o que
dialogar diretamente com suas vivências, abriu ela diz, mas ler e apreender o sentido,
espaço, na sessão seguinte, para a visualização reconhecer os efeitos a partir do processo de
de um documentário educativo, produzido projeção, identificação e transferência
como parte das ações do “Projeto Identidades, (PIMENTEL, 2011, 89).
Gênero e Diversidade Sexual na Escola”,
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
A exploração das imagens das confronto com as imagens, permitiram-nos a
diferentes sociedades (organização estrutural, um maior conflito da realidade (PIMENTEL,
estética e costumes de vida) associadas à 2011, p. 93).
Encerrado o debate, a atividade que
distribuição e leitura de um importante texto,
buscou aprofundar os saberes construídos em
cujo conteúdo abordava o homem enquanto ser
sessão, presentificou-se por meio de um texto
cultural que se diferencia dos animais, seres
escrito por parte dos educandos, no formato de
biológicos, permitiu tornar sólido os sabres da
uma reação aos dilemas do longa-metragem e
sala de aula. Com isso, o olhar etnocêntrico
da vida. Esse texto foi recolhido no encontro
pôde dar espaço ao relativismo cultural, bem
seguinte e, em sequência, entregue a todos
entendido na mudança do susto ou riso ao
com as devidas correções e observações.
“exótico” à compreensão crítica das imagens
acerca de povos nômades e homens da 4.3. Resultados e avaliações parciais
sobre a experiência do cinema
floresta.
A última sessão foi a exibição do
Podemos dizer que a experiência do
longa-metragem “Lincoln”, também uma
cinema trouxe consigo importantes resultados,
biografia, mas agora sobre o 16º presidente
sobretudo, na construção e desenvolvimento
norte-americano, Abraham Lincoln. O filme se
de saberes possíveis aos educandos, aos
passa durante a Guerra Civil Norte-Americana
educadores e à escola de modo geral. Com os
(1861-1865), que terminou com a vitória do
alunos, foi possível construir aprendizagens no
Norte sobre o Sul dos Estados Unidos. Nele,
campo das ciências humanas e fomentar o
narra-se a história do incrível feito do
desenvolvimento de muitas competências, a
presidente, no qual, ao mesmo tempo em que
exemplo da defesa de pontos de vistas por
se preocupava com o conflito, procurava
meio do diálogo, entre outros.
passar uma emenda à Constituição dos Estados Para os professores, ressaltamos o
Unidos que garantiria o fim da escravidão. enriquecimento do saber cultural ao lidar com
O longa explora o debate sobre o valor
o cinema e o aprendizado intelectual,
da democracia, da inclusão dos negros na
necessário à realização de tarefas no campo da
sociedade norte-americana e da importância da
docência. Em se tratando da escola,
politica. Destaca-se por ser um filme com um
mencionamos, preferencialmente, um
ritmo narrativo mais lento e reflexivo,
aprendizado organizacional sobre o projeto
apresenta importantes cenas históricas e
EMI, ao relacionar os diversos projetos, como
dialogadas. Diante disso, a grande relevância
o de cinema aos demais e mobilizar a escola
em assisti-lo foi em discutir a importância da
como um todo.
democracia e relacioná-la com o filme “O De maneira ampla, em nossa avaliação,
menino de pijama listrado”, além do debate destacamos três importantes desafios
sobre os valores e preconceito de cor que, em existentes às exibições que dificultaram um
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
maior desenvolvimento do projeto na escola, indicações de atividades com o cinema, os
quais sejam, a existência de uma variedade de filmes e as iniciativas pedagógicas com os
temáticas abordadas que limitou o alunos. Destacamos, também, a centralidade
aprofundamento de determinados assuntos. A do debate na formação crítica dos discentes,
necessidade, de nossa parte, de um maior acentuado o diálogo como metodologia
conhecimento de atividades ou dinâmicas para fundamental. Finalmente, não nos resta dúvida
melhor trabalhar os saberes sociológicos com da importância da Sociologia na formação
os aprendentes e, finalmente, a disponibilidade crítica do educando, do mesmo modo que é
de tempo bastante reduzida que tínhamos para impossível não notar a feliz contribuição do
desenvolvermos o cinema. cinema no ambiente educacional-escolar.

5. Considerações finais 6. Referências

As experiências por nós delineadas ARAÚJO, Silvia Maria de; BRIDI, Maria
Aparecida; MOTIM, Benilde Lenzi.
possibilitaram perceber a importância do
Sociologia: um olhar crítico. São Paulo:
cinema na construção de saberes no ambiente Contexto, 2011.
escolar. Ao discutir as vivências educacionais,
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 5.
ressaltamos como prioridade a organização do ed. Rio de Janeiro: Editora Bertrand-Brasil,
2006.
cinema e as abordagens educacionais no
campo da sociologia. BRIDI, Maria Aparecida; ARAÚJO, Silvia
Desse modo, expomos as Maria de; MOTIM, Benilde Lenzi. Ensinar e
aprender sociologia no ensino médio. São
possibilidades de organização do projeto com
Paulo: Contexto, 2010.
o máximo de autonomia conquistada e
CASCUDO, Luiz da Câmara. Ateneu norte-
participação dos estudantes. Mostramos que é
rio-grandense. Natal, 1961. Coleção Juvenal
possível inserir os alunos, do inicio ao fim e de Lamartine.
maneira democrática, na construção do
DUARTE, Rosália. Cinema e Educação. Belo
cinema. Seja na elaboração coparticipativa do Horizonte: Autêntica, 2006.
calendário, seja nas escolhas temáticas e
FREIRE, Paulo. Educação como prática da
fílmicas ou, ainda, na participação direta com liberdade. 29. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
2006.
as monitorias, contribuindo para uma
aprendizagem com maior autonomia, atuação e FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia:
saberes necessário à prática docente. 34. ed.
compromisso dos educandos.
São Paulo: Paz e Terra, 1996.
Com as sessões fílmicas, os debates e
as atividades educacionais, pomos em FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 43.
ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.
evidência as películas escolhidas em grupo, as
abordagens educacionais e as reflexões nos FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sérgio. Partir
da infância: diálogos sobre educação. São
variados temas da Sociologia. Citamos, como
Paulo: Paz e Terra, 2011.
(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br
FREIRE, Paulo; MACEDO, Donaldo.
Alfabetização: leitura do mundo leitura da
palavra. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1990.

GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE


DO NORTE. Cartilha ProEMI: indicativos e
estratégias para o redesenho curricular no RN.
Natal/RN: [s.n.], 2015.

NAPOLITANO, Marcos. Cinema: experiência


cultural e escolar. In.: SECRETARIA DA
EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO
PAULO. Caderno de cinema do professor:
dois. São Paulo: FDE, 2009.

OLIVEIRA, Luis Fernandes de; COSTA,


Ricardo Cesar da. Sociologia para jovens do
século XXI. 3. ed. Rio de Janeiro: Imperial
Novo Milênio, 2013.

PIMENTEL, Lucilla da Silveira Leite.


Educação e cinema: dialogando para a
formação de poetas. São Paulo: Cortez
Editora, 2011.

SILVA, Roseli Pereira. Cinema e Educação.


São Paulo: Cortez, 2007.

(83) 3322.3222
contato@conedu.com.br
www.conedu.com.br

Você também pode gostar