Você está na página 1de 143

Meu Destino @ 2019. Todos os direitos reservados.

Obra protegida pela Lei 9.610 de 1998 (Lei de Direitos Autorais)


É proibida a reprodução gratuita ou comercial dessa obra sem a
autorização da autora.
É proibida a reprodução parcial da obra, mesmo que de forma gratuita,
sem os devidos créditos.
Meu Destino é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas ou
fatos reais é mera coincidência.
Plágio é CRIME.
Sinopse
Jason foi traído, ferido, deixado. Do dia para a noite ele se tornou alguém
diferente após Lizzie ir embora com outro homem as vésperas do casamento.
Mas deixar de amá-la é difícil demais para que o irmão Hunt mais sério, e
quando sua ex-noiva retorna a sua vida, ele precisa decidir o que fazer com
este sentimento.
Elisabete Alvarez lidou com a pobreza e conseguiu sair de um dos bairros
mais perigosos de Los Angeles para a UCLA. Ela conhece Jason e sua vida
muda do dia para a noite quando o moreno de olhos azuis a envolve em uma
bolha de amor. Mas quando um perigo de seu passado ressurge, Lizzie abre
mão de seu felizes para sempre em nome da segurança de seu noivo e sua
família.
Dois anos depois, o casal se reencontra e a mágoa do passado se mistura
com a luta contra o relógio: Lizzie pode morrer e Jason se nega a perdê-la
novamente.
“Meu Destino” é o quinto livro da série “Os Irmãos Hunt”. Cada livro
tem uma história individual e apesar de poderem ser lidos fora de ordem, o
ideal é acompanhar como os três irmãos de Los Angeles terminaram se
tornando o clã Hunt-Evans-Hale.
Não recomendável para menores de 18 anos.
Queridas leitoras,
Os Hunt foram presentes na minha durante os últimos anos. Foi o projeto
mais ambicioso e que mais durou. “À Primeira Vista” começou a ser escrito
em 2015 e agora, em 2019, sai o último, “Meu Destino”.
Queria agradecer a quem acompanhou até aqui. Sem o retorno dos
leitores, nunca saberia o quão esperados Jason e Lizzie eram! Obrigada por
acompanharem meu trabalho, abraçarem o clichê e aceitarem que vou criar
situações um pouco inverossímeis para dar finais felizes aos meus
personagens.
Obrigada e boa leitura!
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Epílogo
Conheça a série “Dos meus Sonhos” de Katherine York.
Conheça a série “Primeiros Amores” de Katherine York.
Outros livros da autora
Prólogo
Jason

Eu tinha uma missão. Entrar no casamento, provar que ela não o


incomodava e sair discretamente logo depois. Prometi a mim mesmo que não
deixaria que minha ex-noiva traidora atrapalhasse o grande dia de Emma e
Logan. Eles tentaram me preparar, até mesmo fazer com que esse encontro
acontecesse antes do casamento para não causar uma situação na cerimônia,
mas me neguei. Eles fizeram a escolha deles, eu jogaria o jogo.
O problema é que no fundo eu deixava que ela me afetasse. Seria a
primeira vez desde o dia que ela me anunciou que estava indo embora que eu
a veria. Assim que entrei, a vi no altar, e desde o primeiro momento, a
acompanhei com o olhar em todos os lugares. A vi sentada em um canto
como se tentasse não chamar atenção, mas sua presença era um grande
elefante branco para mim e minha família.
Ela tinha cabelos muito curtos, e estava muito mais magra. Não era minha
Lizzie.
Minha.
O gosto ácido vinha a minha boca cada vez que pensava nisso. Eu só
fingia não pensar. Era outra vida quando éramos um casal. Sua Lizzie, Liz.
Sua luz. Cada maldito momento doloroso e todas as merdas que ele fez até
desistir de superar.
A cerimônia acabou, fui até Logan e Emma e os cumprimentei. Me sentei
com Matt, Sarah, Jack e Blair e passei vários minutos em que em todos eles
estavam dolorosamente cientes da presença de Elisabete e pareciam ter mil
olhos sobre mim esperando algum tipo de reação. Um copo de whisky.
Depois dois. Matt bateu no meu ombro. Eu já não sabia mais de nada.
Isso tudo durou uma hora? Dez minutos? E então como se estivesse a
passos de exorcizar um demônio, eu sabia o que iria fazer antes mesmo de
começar. Me levantei ainda sem saber direito o que estava fazendo e sem
perceber, fui até ela. Meu impulso venceu minha mente e caminhei até Lizzie
e sem esboçar nenhuma emoção, estendi a mão dizendo:
— Me concede essa dança?
— Jason, não... - ela respondeu com a voz baixa fugindo do seu olhar e
balançando a cabeça de forma negativa.
Ignorando a negativa, peguei sua mão, que descansava em seu colo, e a
puxei da cadeira alinhando meu olhar ao dela. Merda, ela parecia assustada.
Ainda debatendo comigo mesmo e sabendo que era uma estupidez, a trouxe
ainda mais para perto, em um movimento mais violento do que eu esperava.
Já não era o mesmo corpo e a mesma reação, ela estava leve como uma
pluma, um saco de ossos mas ainda assim era igual. O cheiro... o
reconhecimento... merda.
— Vamos dançar. Somos padrinhos, venha - continuei enquanto a
conduzia para o meio do salão e sabia instintivamente que vários olhos nos
acompanhavam.
Tinha essa voz plana, com uma alegria fingida e sei que tinha o meu pior
sorriso. Aquele que passei a usar nas salas de reuniões quando tinha deixado
de ser o Jason alegre para ser a casca do que eu era.
— Por favor, me solta... — Ela implorou baixinho em um tom
desesperado — não faça isso. Não estrague o casamento do seu irmão e cause
uma cena. Nós podemos conversar em outro lugar.
— Não estou fazendo nada e não quero conversar. Mas você quer uma
cena? Vamos fazer uma cena. Vamos dançar!
Eu parecia um lunático.
Estava sendo irracional mas só não sabia como parar. A bebida ajudou.
Era o efeito de Liz, da falta de Liz, de ter Liz nos braços e me sentir como se
estivesse prestes a enlouquecer. Eram dois anos e ainda era o mesmo. O
mesmo arder nas veias, e a atração, como se os dois corpos pertencessem um
ao outro e não pudessem fazer nada contra isso.
Lizzie estava rígida em meus braços e já não tentava lutar contra. Ela era
uma dançarina muito boa e sabia que poderia dançar se quisesse mesmo com
meus maus jeitos. Eu era muito mais alto e forte e a empurrava de um lado
para o outro, a forçando a dançar em pequenos passos. Não tinha ideia de que
música estava tocando e no momento não me importava.
É quando me aproximo, grudando minha cabeça em seu ouvido e sei que
preciso saber o que está em minha cabeça nestes últimos anos.
— Onde ele está? - sussurro em seu ouvido sentindo um leve tremor em
seu corpo — ele te abandonou? Como se sente sendo abandonada por
alguém? Seu Bob no final das contas não serviu de nada?
Eu a empurro e giro, fazendo com que ela se afaste e enrole em meus
braços, como uma boneca de pano. A puxo novamente e a poucos
centímetros de seu ouvido, voltando a perguntar.
— Valeu a pena? Valeu a pena ter sido uma sacana, uma, uma...
— Jason... — ela sussurra sem ar tentando chamar minha atenção,
batendo levemente com sua mão em meus ombros. Mas ela não vai escapar
tão fácil.
— É a verdade, querida. Eu era sua conta bancária e você quis mais.
Agora está assim, magra, maltratada. Valeu a pena?
— Não... es... estou bem — ela falou entrecortadamente, tentando puxar
ar.
— Eu estou melhor do que nunca.
— Jason... - Ela diz de forma aguda e chama minha atenção. Sinto suas
pequenas mãos agarrarem meu braço como se quisesse me fazer parar e deixo
de nos movimentar no salão.
— Não lida bem com a verdade?
Ela estava pálida e com olheiras fundas. Bem feito por qualquer que seja
o motivo.
— Jason, me desculpe - ela sussurrou com dificuldade, muito perto para
que eu conseguisse ouvir — Não me odeie.
E então ela caiu desmaiada.
Capítulo 1
Lizzie
Quatro anos antes

Estou cansada, realmente cansada. Olho para o teto do meu quarto e


penso se deveria ou não ir encontrar Barbra no bar como combinamos mais
cedo. Estou a um passo de cancelar, mas preciso fazer alguma coisa além de
trabalhar. Minha semana é sempre agitada, porém rotineira: corro dali para lá,
atendo mesas, vou para a cozinha, encontro alunos, resolvo problemas da
casa. Só queria, por algumas horas, fingir que não preciso me matar de
trabalhar para ter alguma coisa.
Vamos do início. Eu trabalho no Good Coffee (sim, o nome é horrível
desse jeito, mas o café é realmente bom), tentando mais algumas horas para
pagar a faculdade. É uma cafeteria perto do apartamento onde moro que tem
muito movimento de dia.
Esse é o meu sexto trabalho, de verdade. Sou garçonete no Good Coffee
pelas manhãs antes de ir para a aula, no final do dia vou para o Tropical Bar,
sirvo mesas, limpo e todo o tipo de coisa que consigo até às 1 da manhã.
Duas vezes por semana dou aula de salsa e outras danças latinas no diretório
estudantil, além de agendar reforço que combinem com a minha agenda e a
do aluno.
No sábado e domingo me divido entre o bar e a área administrativa da
universidade: organizo a biblioteca, arquivos e tudo o mais. Com esse são
cinco. O sexto é esse belo apartamento de frente ao campus onde moro. Eu
tinha requisitado auxílio estudantil e ainda ganho o suficiente para manter
meus livros, mas não consegui apoio para a acomodação.
Era a garota pobre e latina do Watts que conseguiu chegar na ULCA com
a ajuda de professores muito esforçados e não ia deixar ninguém na mão, mas
era impossível ir e voltar do bairro, trabalhar e ainda aguentar o assédio dos
amigos de Danny, meu padrasto. Entreguei a casinha de minha mãe e me
mudei para um apartamento mais perto da universidade. Em dois quartos,
vivíamos oito pessoas e as coisas estavam indo de mal a pior.
Mônica Suarez, a professora que me influenciou para me inscrever na
ULCA e alguém que teve uma trajetória parecida a minha, conversou comigo
depois de me ver esgotada pelas jornadas de trabalho e a falta de sono. Um
ano depois de começar a estudar, ela me fez a proposta irrecusável: amigos
seus tinham um apartamento e precisavam de um caseiro, alguém que
arrumasse, cuidasse e fizesse reparos já que raramente eles estavam em L.A.
No último ano, os Stuart apareceram apenas duas vezes e ficaram por
quinze dias. Sabendo da minha situação, durante esses dias, me deixavam
usar um quarto de serviço e os ajudei do melhor jeito possível. No resto do
período, o quarto de hospedes era meu, e, enquanto cuidasse bem da casa,
todas as outras áreas comuns também.
Era um apartamento enorme, confortável, até mesmo pomposo, mas
nunca me aproveitei do privilégio de morar ali. Era mais um trabalho para me
ajudar a pagar a faculdade e um caminho a mais para a minha independência
financeira. Ainda faltavam dois anos, e contava os dias para deixar todos os
empregos e ir atrás do meu sonho de ensinar.
Me levanto e olho para as poucas roupas do meu armário e reparo que
não tenho muita coisa além de peças largas de yoga e meus uniformes. Não
passo muito tempo com roupas normais, mas em momentos como esse, em
que posso sair, gostaria de me arrumar mais.
Acho um vestido amarelo acinturado e decido que vai servir. Ele fica bom
em minha pele morena e meus cabelos muito pretos. Não consigo negar que
sou latina e nem quero, e esta roupa combina como uma luva com o meu tom
oliva e meus olhos chamativos castanhos esverdeados. Coloco o vestido e
ajeito meus cabelos, os jogando para o lado. A massa de fios pretos longos e
volumosos se ajeitam de forma meio selvagem e me sinto bonita sem meu
eterno coque.
Soltando um bocejo alto, penso pela milésima vez de porque estou
cruzando a cidade para Bel Air para encontrar Barbra. Uma série de
coincidências me trouxe até esta boate: o Tropical Bar está fechado por
algum motivo pessoal do dono, é sexta e sai do Café pela manhã comentando
sobre essa rara noite de folga.
Barbra me disse que era nova na cidade, queria sair, não conhecia
ninguém.
GRANDE ERRO.
Pego um Uber me obrigando a me divertir pelo menos algumas horas e
penso positivo que pode ser uma noite legal. Começo a mudar de ideia
quando chego na Le Prestige. Eu fico na fila e depois de ser encarada pelo
segurança, ele me deixa entrar. Barbra me mandou uma mensagem dizendo
que estava no bar. Todas as outras mulheres no raio de um quilometro
usavam ou vestidos ou saias embaladas a vácuo, salto alto e muita
maquiagem. O som está alto e eu olho para os lados procurando por Barbra e
quase caio para trás quando a reconheço. A Barbra garçonete e a loira fatal de
cabelo descolorido e batom vermelho na minha frente não podem ser a
mesma pessoa. Ela se aproximou segurando um copo grande com alguma
bebida amarelada, energético misturado com alguma outra coisa, me
estendendo para provar. Nem morta que vou beber esse negócio.
Nós conversamos um pouco e ela me puxa para a pista de dança, mas não
consigo me virar com aquele ritmo, uma batida alta e fico irritada por estar
dando apenas alguns passinhos e tentando evitar encostar em pessoas fazendo
o mesmo a meu lado. Eu sou boa, boa de verdade, em meu tipo de dança, mas
ficar pulado em uma pista lotada sem poder me movimentar direito nunca fez
muito sentido para mim.
Barbra já foi e voltou do bar algumas vezes, quatro, acho. Sempre volta
com um sorriso torto e um copo com a mistura amarela. As vezes ela demora
mais do que deveria e me sinto culpada por me sentir aliviada e torcer para
que ela demore ainda mais. Nestes momentos eu vou para um canto, mexo no
meu celular, vou ao banheiro e muitos minutos depois, a reencontro.
Estou dando graças a Deus que moro em Westwood agora. No Watts
voltar de madrugada, mesmo para Los Angeles, poderia ser complicado.
Quero mesmo dormir e essas duas horas dentro da Le Prestige têm sido
cansativas.
Voltei do banheiro e paro perto da pista de dança esperando Barbra
aparecer novamente para anunciar que estou indo embora. Ela vem com dois
copos desta vez e acho que ela espera que eu beba seu drinque. Barbra tem
sido legal comigo, mas só não é meu mundo, não estou me divertindo. Ela me
estende a bebida e pego o copo e não bebo nada do seu conteúdo, mas o
seguro como se fosse meu. Funciona.
— Escuta... vi um amigo na pista, você liga se eu... - ela diz sem me
encarar muito tentando falar mais alto que a música. Agora entendo o porquê
dessa bebida que ela me deu. É uma desculpa ou algo assim para me deixar
aqui sozinha.
— Claro que não, vá em frente.
— Na verdade é muito mais que meu amigo, entende?
— Quer ir embora com ele?
— Você liga?
— Vou ficar mais um pouco e sair. Está tudo bem.
— Claro! - Ela diz e só vira as costas e vai embora. Fico sem reação. Ela
não vai nem mesmo se despedir?
Eu já tinha decido ir embora, mas não iria assim como ela. Nós estávamos
juntas e faria questão de saber como ela iria para casa, precisava deixar as
amigas seguras. Bem... Barbra era uma conhecida, mas onde está a
irmandade?
Sabendo que não preciso mais fingir que quero estar aqui, caminho até o
bar decidida a tomar pelo menos uma cerveja e largo o drinque amarelo em
um dos cantos da boate. A área está movimentada, mas me retorcendo,
consigo chegar até o atendente.
— Uma cerveja por favor - digo para o barman estendendo uma nota.
— ...cuidado!!
Ouço a voz atrás de mim e me viro para bater em cheio em uma mulher.
Ela derrama um drinque no meu vestido amarelo e me olha culpada. Olho
para o estrago enquanto ela dá um soluço e ajeita os óculos e penso que estou
puta, mas ela está mais bêbada. Deus, sempre esqueço como estes lugares
são.
— Está tudo bem... - digo a encarando enquanto ela parece mortificada.
Ela é bonita, com cabelos loiros escuros e uma beleza diferente das Barbies
plastificadas que andam por esta boate.
— Oh, meu Deus... me desculpa... me desculpa!! - Ela responde puxando
alguns guardanapos do balcão e tentando secar meu vestido no meio da
confusão de gente tentando entrar no bar.
— Está tudo bem... - e está mesmo, não me molhou e não parece
manchado. Obrigada Deus pela vodca transparente feita de álcool que
evapora - foi só o susto.
— Me deixe recompensar você, o que está bebendo? Sou tão atrapalhada!
— Está tudo bem - repito pela terceira vez - só pedi uma cerveja antes de
ir.
— Não, por favor! Vem comigo! - Ela diz pegando na minha mão e me
puxando enquanto o Barman finalmente me dá minha cerveja. Tento lutar um
pouco, mas ela é graciosa como um duende, e acho graça do jeito dela.
Nós subimos uma entrada e quando percebo, estou na área VIP da casa,
olhando a pista lotada do alto enquanto a moça tagarela sobre algo que não
consigo ouvir pelo som alto.
— Emma... onde você estava? - ouço uma voz e olho para um homem
moreno em um sofá levantando assim que chegamos em um dos cantos do
ambiente.
— Fui até o bar lá embaixo e encontrei ela... Sou tão desastrada, derrubei
minha bebida nela e agora ela está convidada para o LollaPalEmma, meu
aniversário! - eu rio do jeito bêbado que ela anuncia isso e acompanho os
dois, que continuam andando para um dos cantos da área VIP.
— Sou Lizzie - digo falando para o homem - sua amiga está um pouco
alta, não?
— Sim, ela está... Emma decidiu que vai beber o peso dela em álcool
agora que está solteira - ele diz me sorrindo - Sou Logan.
— O contador já era! - Emma grita aparecendo na minha frente
novamente com uma garrafa de champagne na mão e eu não faço ideia de
onde ela tirou aquilo - Nunca mais vou namorar colegas de trabalho!
Ela corre para um canto e Logan vai atrás me deixando sozinha. Eu os
observo por alguns segundos, rindo um pouco dos últimos minutos, e decido
que é hora de sair. Vejo a escada e caminho até ela, voltando a meu plano
original. Dou alguns goles na minha cerveja até terminá-la, a colocando em
um dos cantos e me virando para a saída.
— Com sede?
Apesar do som alto, escuto perfeitamente a voz ao meu lado, me virando
ao perceber que o tom aveludado e grave está perto de mim. Eu me viro e
encontro o par de olhos mais bonitos que já vi.
Corrigindo, eu encaro o homem mais bonito que já vi.
Capítulo 2
Lizzie

Ele estava segurando uma garrafa de long neck e com a blusa social
enrolada até os punhos, me encarou sorrindo. Alto, grande, moreno e com
olhos tão azuis que incomodavam. Sua garganta mexia conforme engolia a
cerveja e algo em mim se mexeu. Tesão por ver alguém beber é novo.
— Estava louca por uma cerveja. Melhor do que alguns drinques lá de
baixo. Alguns deles tem cheiro de coisas muito duvidosas.
— Como cerveja? - ele responde sorrindo e pisca, continuando a beber
aquela maldita garrafa. Minhas partes baixas devem ter algum problema,
porque só com aquela cena, com aqueles olhos azuis acesos mesmo com a
pouca luz, podia sentir a umidade entre minhas pernas.
— A probabilidade de a cerveja engarrafada ser duvidosa é muito menor
a desses drinques feitos pelo barman.
— Você tem um ponto. Costumam alterar os drinques para deixar as
mulheres mais “soltas”.
— De verdade? - pergunto assustada. As vezes sou ingênua com coisas
que deveria saber. Sei que preciso proteger meu copo, mas até mesmo do
barman?
— Sim. É comum em outras boates, principalmente pelo copo. Dá para
colocar qualquer coisa aí dentro.
— Viva pela cerveja por isso - digo sorrindo e ele me encara.
— Você não é daqui, não é?
— Você diz de Los Angeles?
— Eu digo desse estilo de vida.
— Ok, senhor julgador, e você é?
— Depende do que você entenda como estilo de vida.
— Como o que?
— Se eu quero dançar naquela pista, gritar e levantar drinques para o
alto? Não, mas tenho meus motivos para estar aqui.
— Mulheres?
— Exato.
Fiquei impressionada por ele dizer isso tão abertamente. Espera... isso era
um flerte? Ele não parecia ser o cara que gosta da latina meio gordinha
quando metade das mulheres mostra a bunda em vestidos curtos.
— Isso é um flerte?
— Deus, não... sem ofensa - ele fala rindo da minha cara de desconcerto -
gosto das mais chamativas, me entende? É menos complicado porque elas
sabem as regras.
— Regras tipo aquela do cara dos tons de cinza?
— Regras tipo vamos transar e depois vai cada um para seu lado, sem dor
para nenhum dos lados.
— Isso deve ser ótimo.
— De verdade? - Ele responde me encarando um pouco chocado –Você
acredita nisso?
— É só que elimina a tensão, sabe? Você acaba de me falar que procura
alguém para transar por uma noite. Digamos que ache você bonito, se eu
quero você, eu digo e você me responde sim ou não - respondo pensando que
não tenho ideia do que estou falando porque bem, sou virgem, mas a teoria é
ótima.
— Você me acha bonito, senhorita...?
— Lizzie.
— Eu sou Jason - ele diz estendendo a mão vazia me cumprimentando e
me perco mais alguns segundos dentro de seus olhos azuis brilhantes.
Ele olha para os lados e pede mais duas cervejas para um homem
próximo que chega com a bebida rapidamente.
— Você é bonito, Jason, mas esse não é o ponto. E antes que pergunte,
não quero dormir você.
— Achei que não teria coração quebrado esta noite - ele responde com
um sorriso safado.
— Muito engraçado, duvido que seu coração quebre assim facilmente -
suspiro dando mais um gole na cerveja e pergunto — Conseguiu alguém para
hoje?
— Cada vez que alguém me faz esse tipo de pergunta, me sinto em um
mercado: você pegou um quilo de carne? 100 gramas de queijo? Uma
mulher?
— Quem te pergunta isso?
— Tenho dois irmãos menores apostando seu pau em várias boates por aí.
— Um deles é aquele moreno que acabei de ver? Ele parecia com a outra
garota.
— Logan e Emma são algo complicado demais para explicar, mas são
solteiros e não, não estão juntos. É aniversário dela hoje, foi Emma que
escolheu essa boate.
— Ela derramou bebida em mim.
— É a cara dela - ele riu - e daí te trouxe aqui e te largou.
— O outro está aqui?
— Matt estava, mas preferiu sair com uma mulher - ele pega o celular do
bolso e olha e ri, completando - e Logan levou Emma embora porque ela
começou a passar mal. Estou oficialmente sozinho aqui.
— Você também foi largado em uma boate! Parabéns pelos largados -
puxei mais um brinde de nossos cascos de cerveja. A bebida começou a fazer
efeito. Já estava ficando um pouco alta.
— Você foi largada aqui? Difícil de acreditar.
— Pois acredite. Estava indo embora quando Emma me puxou aqui para
cima.
— Deveríamos nos vingar - Jason responde com seu sorriso safado,
juntando seu rosto mais perto do meu com um tom conspiratório.
— Como?
— Indo nos divertir de verdade?
— Mas você não vai sair com alguém?
— Ao contrário do que você pode achar nesses grandes vinte minutos de
conversa, eu não durmo com uma mulher diferente por dia. Eu vim até aqui
ter uma cerveja com meus irmãos e bem, todos eles sumiram... essa é a
última desse lugar. Qual é a sua história?
— Minha amiga encontrou um amigo de foda na pista e estou aqui
sozinha.
— Que merda de amiga você arranjou. Ela que marcou aqui, certo?
— Por que a pergunta? - ele inclina o rosto como se eu soubesse a
resposta. Você não é daqui. Só continuo a falar quando ele não responde —
Sim. Trabalhamos juntas nas últimas semanas no Good Coffee.
— Por favor, me diga que o café desse lugar é uma droga. É um nome
bom demais para ser usado de verdade.
— O café é ótimo, melhor do que a água suja desses copos cheios de
frescura.
— Isso é um convite para te visitar no trabalho, e Lizzie, não confie em
estranhos, de verdade.
— Você é todo um irmão mais velho.
— Porque eu sou um.
— Sou filha única, não sei como isso funciona.
—Sabe o que precisa funcionar? Para onde vamos. Você precisa decidir.
— Não desistiu disso, certo?
— Não - ele deu uma golada batendo a garrafa vazia na bancada e ficando
de pé levando seu paletó atrás da bancada - me surpreenda.
— E você cruzaria a cidade com uma desconhecida?
— Com o seu sorriso? O Tempo todo.
— Tudo bem - respondo sem graça e faço o mesmo com minha garrafa,
me afastando da bancada - e se eu for uma louca? Uma serial killer que
escolhe gente aleatoriamente em boates?
— Eu prometo não ser um assassino em série e você deve fazer a mesma
promessa.
— Feito - respondo estendendo a mão.
— Feito
— Você sabe que sua promessa não vale de nada, não é? Assassinos não
se revelam desse jeito.
— Você vai ter que confiar, amor... Me dê uma oportunidade - Jason
pisca e aperta minha mão. Que estou fazendo? E antes de pensar mais um
pouco, ele pega minha mão, me arrastando escada abaixo.
É quando sinto um arrepio passar pelo meu corpo, encarando Jason com
surpresa enquanto ele se virou para mim curioso, interrompendo seu
caminhar.
Já ouviu falar sobre raios, trovões, reações loucas por uma pessoa que
você nunca viu? Se conseguia imaginar meus filhos com ele só de olhar para
dentro de seus olhos? Era óbvio que depois dessas mãos entrelaçadas, poderia
escrever uma balada de sucesso sobre ele. Eu me sentia diferente, protegida,
agitada, confusa. Tudo por uma mão segurando a minha. Encarando esses
olhos azuis afiados era capaz de tudo.
Dei um salto de fé e me deixei guiar para fora.
Capítulo 3
Lizzie

Assim que saímos na rua iluminada começo a ter dúvidas. Afinal, Jason é
um desconhecido e é madrugada. Ele me encara e sorri e Dios, como ele é
bonito. Ele tem covinhas que não havia conseguido ver na luz da boate.
— Nunca vi nada tão lindo - ele diz me sorrindo e me encarando.
— O que?
— A noite, oras... E então, para onde vamos?
— Eu para minha casa e você para sua.
— Vamos, Lizzie. Me dê uma oportunidade: se você pudesse ir para
qualquer lugar dançar um pouco, beber... para onde iria?
Suspiro e fico em dúvida do que quero fazer. No início dessa noite só
queria descansar, mas meu sexto sentido diz que não deveria desperdiçar esta
noite. Que algo especial está para acontecer, que eu deveria ficar.
Levo segundos tentando me decidir e Jason me encara curioso. Pensando
rapidamente, só existia um tipo de lugar que poderia ir. Fico silenciosa e faço
sinal para um taxi parar. Alguns segundos depois, um carro para na minha
frente e permaneço em silêncio enquanto Jason apenas me olha curioso. Ele
deve estar me achando louca.
— Vai me deixar ou vamos para outro lugar? - ele pergunta vendo o carro
se aproximar.
Eu entro e deixo a porta aberta, ainda segurando a mão dele, quando
Jason hesita em entrar. Eu coloco a cabeça para fora o olhando meio
impaciente e o faço rir.
— Vamos Jason! Pode demorar um pouco para ir ao Staples Center.
— Que diabos vamos fazer lá? - ela pergunta se sentando ao meu lado
enquanto o taxista dá a partida.
— Vamos perto de lá.
— Fazer o quê?
— Dançar, mas não esse tipo de dança, uma de verdade.
— Que isso quer dizer?
— Você vai ver.
Jason ainda não soltou minha mão, e eu sequer ligo para isso. É curioso.
O sono que estava sentindo foi embora e as borboletas no meu estomago me
fazem sentir coisas engraçadas. O encaro e ele me sorri de novo, como se nós
dois tivéssemos um segredo.
A viagem segue assim até que vinte minutos depois, enquanto eu explico
ao motorista o lugar exato que quero parar. Jason olha para fora meio
estupefato e ri. Saímos do veículo direto para o letreiro luminoso. O Isla
Florida é um clube de dança onde minha mãe deu suas aulas assim que
chegamos a Los Angeles.
— Você é latina de verdade?
— Nascida aqui, com criação de gente que veio direto da ilha.
— Ilha tipo cubanos?
— Sim... você me pediu para te surpreender, o que acha?
— Que você ganhou.
Assim que entramos reparamos no salão tomado por gente dançando em
todos os diversos tipos de dificuldades, de iniciantes a dançarinos
profissionais, todos aproveitando a música ao vivo que explodia no palco.
Deixei nossas coisas em uma chapelaria e corro para o centro, com um Jason
curioso atrás de mim.
Nós perdemos o contato entre entrar e sair do taxi, soltando nossas mãos
finalmente, mas lá estava eu procurando por seu toque. Assim que entrei na
pista principal, fiz um sinal para Jason se aproximar e estendi minha mão.
Merda... o choque continuava lá. Olhando para meus pés para ele me
acompanhar, fiz devagar os passos simples para ele me acompanhar e percebi
que Jason parecia um parceiro promissor: apesar de não fazer ideia do que
estava fazendo, ele tinha o gingado e o balanço que não esperaria para um
homem tão grande como ele.
— Tudo bem? - pergunto olhando para seu rosto enquanto ele olhava para
meus pés, como se estivesse tentando entender meus passos.
— Me mostre alguma coisa...
Tentando conduzir os passos de Jason, me girei em seu corpo, o sentindo
perto de mim. Suspirei pesado pelo movimento e percebi que ele me
acompanhava. O idiota sabia o que estava fazendo e decidi apressar ainda
mais os passos para pegá-lo desprevenido, o que aconteceu quando girei para
fora tentando fazer uma passagem.
— O que exatamente você dança?
— Dança de salão, valsa... o que minha mãe obrigou.
— É um bom começo. Me diga se não conseguir acompanhar.
Nas horas seguintes, me diverti como não fazia há anos. Jason era um
vencedor, e me aguentou até quando queria fazer algo mais inventivo,
tentando acompanhar as outras duplas ao nosso redor. Não me aproximei
mais tanto de seu corpo apesar de saber que uma hora iriamos terminar
dançando colados. Eu só girava e girava no salão com o melhor parceiro
amador que consegui em anos. Sorrindo bati palmas para a banda que
anunciou uma pausa.
— Quer beber algo? Acho que foi um bom exercício.
— Foi sim - ele olhou para o relógio sorrindo - quatro horas de um bom
exercício vigoroso. É quase de manhã.
Caminhamos em direção ao bar e entramos no final da fila. Todos
pareciam ter a mesma ideia que nós dois.
— O quê?! São quatro da manhã?!
— Sim, nos esquecemos da vida dançando nessa pista. Isso foi incrível,
Lizzie.
— Você gostou de verdade?
— Sim, foi bem diferente do que estou acostumado a fazer.
— Isso é bom ou ruim?
— Você é ótima, Lizzie - Jason me deu um abraço de urso, me pegando
por trás e me trazendo para perto de seu peito. Encostei minha cabeça
fechando os olhos e senti suas batidas do coração ainda aceleradas pela
dança. Como não o afastei, ele fechou as mãos ao meu redor, me abraçando
através do meu abdômen.
— Você parece cansado.
— Só tentando conseguir o fôlego.
— Sabe o que? Vamos comer, eu estou com fome, e você?
— É de madrugada, você conhece um lugar?
— Essa cidade nunca dorme, Sherlock.
— Essa é Nova York.
— E também é Los Angeles. Você vai experimentar o hambúrguer da sua
vida!
Essa noite era uma confusão mental com Jason andando comigo para
todos lados. Eu o conheço a menos de cinco horas pelo amor de Deus, mas é
como se ele sempre estivesse aqui. Ele pegou em minha mão assim que
saímos do clube e não soltou mesmo depois que já estávamos na rua.
Andei cinco metros para a esquerda e entrei em uma ruela na lateral de
um prédio velho. Apesar do visual decadente, era um corredor bem iluminado
que me levava para o melhor hambúrguer que comi na vida.
— Bete! - Me cumprimentou Carlos na entrada. Latinos não tinham
tradição com hambúrguer, mas os que ele fazia era matador.
— Preciso de dois hambúrgueres - falo em espanhol. Jason acompanhou a
conversa com um sorriso nos lábios e falei para ele em inglês - se você quiser
bebidas, tem aquela geladeira.
Ele levantou e pegou mais duas cervejas, caminhando até uma mesinha
lateral. O segui, me sentando e pegando uma das garrafas.
— Você nasceu em Cuba?
— Não, sou 100% norte-americana. Mas minha vida é a comunidade,
cresci ao redor de todo mundo em Watts e pela cidade.
— Watts tipo a Watts violenta?
— Exatamente essa que era um bairro negro e agora está até a boca de
latinos.
— Bem...
— O que?
— Nunca conheci ninguém de lá.
— Temos medo de vocês daqui - dando uma golada pensei melhor - na
verdade eu tinha medo, tem gente com muitas bolas lá.
— Por quê?
— Porque eu sou latina e pobre, oras. É difícil para você entender isso,
mas as pessoas olham torto para você quando esse é seu endereço.
— Nasceu lá?
— Não, nasci em Las Vegas.
— De verdade?
— Sim, da cidade das luzes para cidade que nunca dorme.
— De Paris para Nova York?
— Engraçadinho.
Carlos nos chamou, entregando os dois hambúrgueres fumegantes. Enchi
de todos os molhos possíveis, dando a primeira mordida, gemendo enquanto
o sabor enchia minha boca.
— Mamãe era cubana e papai era cubano filho de um norte-americano.
Ele veio com a família logo depois da revolução, minha mãe sofreu mais com
a família e fugiu em um barco até Miami.
— Nossa... isso é muito bom! - Ele diz dando uma mordida - e como
entra Las Vegas nessa equação?
— Abuela morreu quase assim que chegou, e mamãe e abuelo lutaram
por uma vida decente. Ela começou a dar aulas de salsa e conheceu meu pai.
Ele era filho de investidores que mantinham cassinos em Havana e com o
conhecimento, levou mamãe para Las Vegas.
— Não deu certo e vieram para L.A.?
— Mamãe treinou show girls até descobrir que papai treinava elas em
outro nível de dança, se me entende. Ela me colocou debaixo do braço e
decidiu não voltar para Miami, perto dos meus avós paternos. Chegamos a
Los Angeles quando eu tinha sete anos e nunca mais sai daqui. Meu pai
morreu quando eu tinha 15 e mamãe há três anos em um acidente de carro.
— Sinto por isso.
— São coisas que acontecem.
— E agora?
— Agora eu estudo na ULCA e trabalho em todos os horários possíveis
para conseguir me manter, mas já está acabando. E você?
— Minha vida não tem muita graça: me formei em Berkeley em
negócios, hoje administro uma empresa. Tenho 27 anos, não falo espanhol e
sei me virar em pistas de dança porque minha mãe me obrigou a fazer dança
de salão.
— Por quê?
— Porque ela queria fazer e precisava de um companheiro - eu ri dele e
ele acenou com a cabeça - de verdade. Papai estava trabalhando, Matt e
Logan ainda estavam na minha cintura e aos 15 anos eu já tinha 1,80m. Ela
só aproveitou que mandava em mim.
— Bem, agradeça a ela. Você leva jeito em danças latinas apenas por
isso.
— Deus, nunca vou contar! Ela precisa saber que aquele foi o pior
período da minha vida - rimos juntos quando ele mudou assunto - o que você
faz na ULCA?
— Literatura.
— Ok, e você se chama Elizabeth e sua autora favorita é Jane Austen.
— Vamos dizer que me chamo Elisabete, em espanhol, e tenho uma forte
queda por Virginia Woolf, apesar de sim ler Jane Austen.
— Esse hambúrguer é realmente muito bom.
— Diga isso a Carlos em inglês, ele vai entender.
— Ei Carlos - ele berrou apontando para o hamburguer na sua mão - isso
é muito bom.
O homem levantou as mãos rindo dizendo “gracias”.
— Bem, mulherengo... hora de partir. Foi uma noite muito diferente da
que eu estava esperando.
— Não, espera... - Ele me olhou como se quisesse dizer mais alguma
coisa, mas não soubesse bem o que falar.
— Está tarde, de verdade. Preciso estar no meu trabalho daqui quatro
horas. Isso pode ser um pouco insano.
— Posso te acompanhar?
Capítulo 4
Lizzie

— Na verdade não - ele me olhou esquisito e completei - olha, se alguém


me falasse que eu teria o encontro mais louco com um desconhecido e iria
com ele sozinha para o outro lado da cidade comer hambúrguer e dançar salsa
eu riria, e aconteceu hoje. Mas me deixar na porta de casa sendo que te
conheço há seis horas me deixa desconfortável.
— Um encontro, heim...? - ele responde sorrindo e percebo que não está
ofendido pela minha escolha de palavras.
— É... - Digo olhando para o chão e fugindo do seu olhar.
— Tudo bem... me dê seu telefone - Jason estendeu sua mão e lhe
entreguei o aparelho, o vendo digitar algo e me entregar de volta - esse sou
eu, guardei como mulherengo.
Eu gargalhei com vontade fazendo os outros clientes nos olharem.
Provavelmente achavam que estávamos bêbados, ou eles mesmo também
estavam.
— Porque não sou do seu tipo?
— Você lutou bem para me mostrar o contrário. Vou te levar até o taxi -
levantamos e ele estendeu a mão para mim, e a peguei. Quando me tornei
essa pessoa que anda de mãos dadas tão fácil - Isso foi um encontro?
— Acho que foi... conversa, dança, comida. Cumpriu os requisitos.
— Falta um na verdade.
— O quê?
— O beijo.
Sem eu esperar, Jason se aproximou dos meus lábios, encostando a sua
boca com a minha. Notei pelo toque que deveria ser um beijo leve, que
promete, mas bem, aí veio o raio. Sentindo um formigamento que tomava
meu corpo e as borboletas no meu estomago, e o empurrei com força.
Merda, isso não podia estar acontecendo!
— Ei, cowboy, a noite foi ótima, mas não somos desse tipo - respondo
marcando uma distância entre nós dois. Ele beijava muito bem e não
precisava disso com minha vida tão enrolada.
— Eu só achei que... - ele diz murmurando desconcertado.
— Achou errado. Preciso ir! - Sei que estou transformando isso em algo
maior do que é, mas é só um sentimento esmagador, de algo muito maior, e
não no momento atual da minha vida, não deveria ter isso. Jason não deveria
ser tão perfeito. Nem tão bonito, nem com esses olhos azuis hipnotizantes, seu
sorriso safado e... merda, estou divagando.
— Espera... É só que... - ele estendeu a mão para mim mudando a aura
sexual que ainda parecia nos dominar. Eu estava enfeitiçada e não queria
estar — desculpa se confundi as coisas. Você foi uma ótima companhia.
— Você também foi. Me diverti, hoje.
Estendi a mão para chamar um taxi vendo um virar a rua e sabendo que
meu tempo com Jason tinha acabado.
— A gente vai se ver, Lizzie, tenha certeza.
— Vamos descobrir isso depois, Jason. Adeus... respondo quando o taxi
para ao meu lado e entro no veículo. Não queria ir embora.
— Adeus - ele diz e fica parado.
Vejo Jason pelo vidro de trás e ele olha para os próprios pés, pensativo. O
carro anda meio metro quando ele corre e bate lataria, e o taxista freia. Assim
que o carro para, Jason entra no veículo e olha para mim, fazendo um gesto
com a mão para o motorista arrancar.
— Ei... o que você está fazendo?
— Ainda não estou pronto para ir embora...
— Jason, preciso dormir... vou trabalhar amanhã...
— Quero te mostrar um lugar antes - ele diz simplesmente, pedindo para
o taxista nos deixar em outro endereço. Não discuto e não sei bem o porquê.
Está tarde, encosto a cabeça no ombro de Jason e aproveito a viagem.
Dez minutos depois, nós paramos na lateral de um prédio grande e Jason
entra em uma espécie de porta de serviço, me puxando para dentro. É uma
construção de teto alto e pisos muito brancos.
— Onde estamos?
— Você vai ver... precisamos subir.
— Jason...
— Vem, Lizzie, confia em mim... - e sorri para mim, me desarmando
completamente.
Nós subimos as escadas de serviço e mesmo cansada, me deixo levar por
Jason até chegar a uma porta de incêndio, que ele abre, dando passagem para
um telhado espaçoso. É uma espécie de cobertura cimentada de onde
podemos ver o horizonte do final da madrugada e um toque aqui e ali do céu
se tornando alaranjado. Vai amanhecer e tenho essa visão deslumbrante.
— Isso é lindo, Jason...
— Toma - ele diz colocando o blazer dele em meus ombros e se sentando
em um bloco de cimento ao nosso lado.
— Onde estamos?
— Trabalho aqui e adoro esse telhado, adoro passar tempo aqui, mas
nunca vi o amanhecer dessa paisagem.
— E decidiu invadir o taxi e me trazer aqui logo hoje?
— Eu falei, não estava pronto para deixar você ir, mesmo com você
negando o meu beijo.
— Jason, não é isso...
— Está tudo bem, Lizzie. Também estou um pouco assustado.
— Não tenho tempo para isso, minha vida é totalmente arrumada e...
— Talvez você precisasse abraçar um pouco a bagunça, talvez eu seja
essa bagunça.
— As coisas não são um conto de fadas, Jason.
— Lizzie, vem cá... - ele diz e estende a mão, me puxando para ele e nos
deixando frente a frente, com ele sentado e eu de pé - dessa vez vou te beijar
direito, entende?
— Mesmo? - pergunto e o encaro.
Olho para seus lábios e seus olhos, e é como se tivesse caído em um
feitiço. Antes que ele faça qualquer movimento, sou eu que me aproximo,
juntando nossas bocas. Algo poderoso me atingiu. Ele se aproximou, colando
seu corpo no meu, e sondando com suavidade, como se não quisesse me
assustar, colocou sua mão em meu rosto, me puxando mais para perto.
Eu abri minha boca, dando ainda mais acesso e senti sua língua brincar
com a minha enquanto sentia seu pau inchado sob o contorno da calça.
Poderia ficar ali para sempre, sentindo seus lábios nos meus e a fome entre
nossa ligação. Nunca havia me sentido assim.
Jason se separou de mim, grudando nossas testas e suspirei de olhos
fechados. Sentia suas mãos em meu rosto e sabia que essa noite não
terminaria da forma simples que eu imaginava. Sentia como se algo tivesse
mudado para sempre.
Sem falar nada, ele me puxou para cima e me sentei em seu colo,
observando o dia amanhecer. Foi uma das coisas mais bonitas e inesquecíveis
que já vi. Meus olhos foram pesando e os fechei.
Acordei uma hora depois, com as luzes do início da manhã e enrolada no
abraço de Jason, meio sentada e com ele dormindo encostado na parede do
telhado, ainda sob o bloco de cimento. Ele era lindo, mas era hora de partir.
Desejo com todas as forças que não tenha sido apenas uma noite para ele.
Capítulo 5
Jason

Eu acordo desorientado e sinto o chão e a parede dura contra mim. Onde


estou?
Olho ao redor e percebo que ainda estou no telhado da Hunt Enterprise,
coberto pelo meu blazer e com um sol da manhã no horizonte. Olho para meu
relógio e descubro que passa das sete horas.
Onde está Lizzie?
Que noite. Não esperava por isso. Sinto o sorriso em meus lábios só de
pensar nela e sei que pareço um idiota, mas quem se importa?
A primeira vez que a vi, eu sabia que algo aconteceria. Não consigo
assumir para mim mesmo as palavras "amor à primeira vista" porque bem,
ninguém ama até conhecer bem a pessoa, certo?
Foi antes mesmo de que Emma tivesse a arrastado escada acima.
Aconteceu quando a amiga de meu irmão correu para o bar e uma morena
chamou minha atenção no meio da multidão e das luzes enquanto buscava
Emma com o olhar. Ela estava ali, lutando contra uma bebida amarela
esquisita completamente deslocada que deixou de lado. Alta, curvilínea e
com cabelos castanhos escuros quase negros, ela se destacava sem perceber.
Emma tinha decidido pela Le Prestige em seu aniversário, mas estava
cansado e April estava me ligando desde cedo. Bem, April, precisava fazer
algo a respeito. Tinha passado o dia em uma discussão jurídica interminável
no trabalho, minha ex-namorada (ou quase isso, porque bem, nós nunca
namoramos) tentava falar comigo insistentemente e eu só desejava mesmo
minha cama e um banho quente, mas era sexta-feira à noite e os Hunt
queriam sair. Só me juntei a eles.
Matt sumiu primeiro, levado por alguma mulher pouco tempo depois que
chegamos aqui. Ainda não era meia-noite, mas meu irmão já tinha decidido o
que ele iria fazer. Logan estava correndo atrás de uma Emma bêbada, e
apesar de achar engraçado, eles têm seu mundinho próprio. Ela também
convidou algumas amigas que fui apresentado no início da noite, mas não
tenho interesse algum sobre elas. Isso não as impede de me encarar como se
eu fosse um prato de carne pronto para ser servido.
Só terminei ali, sozinho, tomando uma cerveja em uma boate abafada e
esperando o tempo necessário para ir embora. Encarar a morena tinha sido o
mais divertido que fiz, até sua amiga deixá-la e ela caminhar para o bar. É o
momento que vejo o destino nos atraindo com força, com Emma e ela se
conhecendo.
Meia hora depois, estava cruzando a cidade para um clube de salsa, não
me pergunte como isso aconteceu. Ela me questionou se estava flertando e eu
menti porque sabia que ela iria se afastar se contasse a verdade. Foi uma noite
enlouquecedora e quero voltar a vê-la, na verdade não queria que ela tivesse
ido embora. Eu queria mais dela e nosso beijo... Do jeito que ela dançava no
clube de salsa. Só sabia que nós nos encaixaríamos como duas partes de um
quebra-cabeça. Meu pau com vida própria também estava entendendo desse
jeito: desde nossa primeira cerveja juntos eu estava duro como pedra, e sei
que ela sentiu isso na pista de dança.
Eu pego meu celular e vejo que o número dela está ali. Graças a Deus.
Ela tentou ir embora algumas vezes, e pensar que ela podia não deixar rastros
me deixou um pouco em pânico.

Jason
Você está bem?

Visto meu blazer e me sinto morto de cansaço, com meus olhos


batalhando por cada piscada, mas também sinto leveza, um ar estranho que
não lembro de ter tido nunca. E o maldito sorriso... desço com calma as
escadas, cumprimento os seguranças e saio da Hunt pedindo um taxi na rua
ainda esperando pela resposta que não veio. Será que serei ignorado?

Jason
Preciso saber se chegou em segurança, estou preocupado.

Lizzie
Viva e bem (cansada). Estou a caminho do trabalho. Alguém não me
deixou descansar.

Jason
Mas foi uma noite que valeu a pena, não é?

Lizzie
Sim...

Jason
Quer repetir ela?

Lizzie
Você está flertando comigo! Achei que você não estava.

Jason
Sou um péssimo mentiroso, e depois daquele beijo...

Lizzie
Vá dormir porque você pode!

Jason
Antes preciso saber de uma coisa.
Lizzie
O que?
Jason
Sai comigo hoje à noite?
Lizzie
Como hoje, hoje?

Jason
Sim, não consigo esperar 24 horas. 19h, hoje?

Lizzie
Jason... eu nem sei meu nome de tanto sono.

Jason
Te mando a localização. Por favor...

Lizzie
Nos vemos hoje à noite.

Jason
Temos um encontro.
Lizzie
Deus, preciso dormir! Mas vou tomar café. Pelo menos um café bom.
;)

Eu sento no carro e fecho meus olhos por alguns segundos, primeiro


pensando em Lizzie, depois sendo roubado pelo sono. É quando meu celular
toca e estupidamente só acho que é ela.
— Finalmente decidiu me atender! - diz a voz de April saindo mais alto
do que deveria. Merda, não quero falar com ela.
— Oi, April, o que você quer?
— Só falar com meu namorado, oras... você tem me ignorado e...
— April - eu a interrompo vendo o motorista se aproximar da minha casa.
Estou com sono, cansado e sem um pingo de paciência - nós já conversamos
sobre isso. O que quer que tivemos tido, que não foi um namoro, terminou.
— Jason... eu...
— Por favor, pare de fingir que nossa conversa não aconteceu. Gosto de
você, mas acabou, pare de tentar fingir que ainda temos algo.
— Mas nós temos! Jason... - ela diz algo, quase como um grito, mas a
interrompo novamente.
— April, por favor... isso não é uma discussão, nós não namoramos e
você precisa se resguardar - sigo bocejando mais uma vez - não quero ouvir
sobre você de novo, tudo bem? Você tem tentado ligar, falar com a minha
família. Eu gosto de você e não quero ter que fazer coisas a respeito de uma
ideia que você colocou na sua cabeça.
— Mas nós, mas eu...
— Nunca houve um nós, April. Tenha uma boa vida - digo desligando.
A voz de Logan na minha cabeça dizendo que eu precisava ter sabido
melhor sobre April está mais alta do que nunca. Ela era uma mulher linda,
estonteante, loira, alta, com peitos fartos e fazia de tudo para me agradar. Nos
conhecemos em uma galeria, quando um amigo de faculdade investiu no
negócio. Nós saímos, nos divertimos, foi um bom sexo, apesar de todos os
gemidos de April serem dignos de um filme pornô, fingido, como se fosse o
que homens esperavam que ela fizesse. Bem... deveria ser isso, mas comigo
só me soou falso pra caralho.
Fui ficando entediado e no final de um mês de alguns jantares e quartos
de hotel, eu expliquei que não íamos mais sair. Ela apareceu algumas vezes
na Hunt, ligou para mim, falou com meus irmãos. Conversei com ela em
todas e na segunda e última vez que ela fez isso, deixei claro que não
tínhamos nada, nunca teria e ela não era minha namorada.
Parece que não adiantou, porque essa era a terceira e estava a um passo de
conseguir uma ordem de restrição. Logan tinha me dito que ela era uma
esposa troféu a busca de um marido que pagasse suas contas. Eu achei que
era um exagero, mas pela forma que ela me tratava, acho que era cada vez
mais possível que isso estivesse acontecendo sem eu perceber. De alguma
forma April achava que ia me vencer pelo cansaço. Não poderia estar mais
enganada.
O taxi me deixou no meu prédio. Eu morava em Koreatown,
estranhamente próximo ao Staple Center e a UCLA, porque era um bairro
agitado e moderno e há 20 minutos da Hunt Enterprise e da minha família.
Nos poucos anos de nosso negócio, a coisa deslanchou a ponto de conseguir
comprar esse apartamento de luxo e me orgulho disso. Raramente saia a noite
para chegar de manhã porque eu pagava o cansaço com juros no dia seguinte.
Desta vez valeu a pena e faria mil vezes de novo.
Caí na cama e dormi praticamente o dia inteiro. Peguei meu celular
quando acordei e vi que as mensagens, nenhuma de Lizzie, eram dos meus
irmãos se desculpando e depois preocupados porque não respondi. Eram mais
de 16h e precisava resolver o que faríamos hoje. Jesus, nunca me comportei
assim com uma mulher, querendo vê-la de novo. Será que foi a cerveja? Isso
seria um alívio muito melhor do que pensar que um dia me tornei um
obsessivo.
Me levantei morrendo de fome pensando que minha última refeição foi o
hamburguer de Carlos. Me tornaria um cliente fiel sabendo que é tão perto
daqui. Enquanto vasculhava a bancada, meu celular vibrou com o nome de
“Logan”.
— Oi, Logan...
— Sobreviveu a noite de ontem?
— Acabei de acordar, se essa é a resposta à sua pergunta.
— Planos para o sábado?
— Sim. Preciso de sua ajuda.
— O que foi?
— Algum lugar para ir. Conheci uma garota ontem... Queria fazer algo
legal.
— Isso é diferente.
— Eu só... só gostei dela.
— Tudo bem, irmãozinho. Matt e eu vamos em um pub se quiser nos
acompanhar. Coisa leve, ainda estamos todos meio cansados.
— Parece bom. Emma vai?
— Não, ela está com um idiota que conheceu em um curso de culinária.
Ela acaba de terminar o namoro e já vai sair com outro.
— E você não foi rápido o suficiente? Ah sim, essa é a saída da
vingança?
— Do que você está falando? - ouvi Logan bufar do outro lado da ligação
— Sabe o que? Fique com seu mal humor, nos vemos amanhã, no almoço
com a mamãe, não quero ver sua bunda piadista.
— Ei, Logan. Chame Emma, avise que todos vamos estar juntos.
— Vou tentar — meu irmão resmungou desligando na minha cara.
Tão certo como o dia e a noite, era só falar sobre Emma que Logan
desligava a ligação ou fugia de alguma conversa. Vejo meu irmão há mais de
uma década fingindo que não ama a garota da casa ao lado, é agoniante de
acompanhar.
Como eu prometi, mandei a localização e ela me respondeu com um
emoji. Isso era um sim ou um não? Não sei se ela conseguiu descansar e só
penso que posso estar sendo um idiota de estar forçando esse encontro
quando ela só quer dormir.
Algumas horas depois, eu espero com Matt, Logan e Emma a chegada de
Lizzie. Nós estávamos ali há 15 minutos, o suficiente para conseguir uma
mesa. Eu percebi que ela vinha em nossa direção antes mesmo de levantar os
olhos e sorri esperando-a chegar mais perto.
Lizzie estava linda em uma camiseta e uma calça jeans simples e uma
pequena mochila nas costas. Me sinto culpado pelo seu ar de cansaço mas
meu egoísmo fala mais alto quando ela sorri nos cumprimentando.
— Espero não ter feito vocês esperarem - ela olha em volta e me dá um
sorriso maior. Um só meu, mas quando sinto que ela vai falar comigo, Logan
interrompe.
— Valeu a pena — responde Logan encarando Lizzie e voltando o olhar
para mim e sei que ele quer fazer alguma piada - Lembra de mim? Acho que
só não conhece Matt.
— Me chamo Lizzie — ela responde com as bochechas vermelhas como
se estivesse com vergonha.
— Não deixe eles te envergonharem — Emma diz pegando no braço de
Lizzie — hoje vou aproveitar que não sou a única do grupo.
Emma e Lizzie conversam e percebo que, apesar do sorriso, ela nem
mesmo me cumprimentou. Logan e Matt acompanham meu olhar e riem de
mim.
— Agradeça a Emma mais tarde - diz Matt rindo - sem o LollaPallEmma,
não teria encontrado essa mulher. E para de encará-la desse jeito, vai achar
que é maluco e vai sair correndo!
— Eu a teria encontrado de um jeito ou de outro. De um jeito ou de outro
- digo simplesmente, a encarando e ela olha para mim, como se fosse atraída
pelo meu olha. Eu pisco para ela, que fica vermelha. De um jeito ou de outro.
Capítulo 6
Lizzie

— Mais uma rodada chegando! — Logan diz se sentando na nossa mesa


com alguns copos de cerveja. Matt vinha atrás segurando outros.
Agradecendo, bebi o líquido gelado com vontade.
Até agora era uma noite esquisita: passamos as últimas duas horas
conversando besteira, dançando, jogando bilhar e nos divertindo. Estava
exausta antes de chegar aqui e com sérias dúvidas se deveria ou não aparecer,
mas a excitação substituiu o cansaço ao me juntar com um grupo tão
divertido.
Só não conseguia parar de pensar em Jason, e apesar de quase não termos
conversado hoje, podia sentir sua presença. Estávamos sentados em uma
mesa em um dos cantos, e desde o primeiro momento, parecia que ele tinha
me reivindicado: estava a seu lado, quase em seu colo e de mãos dadas por
debaixo da mesa. Ele nunca a soltou, nem mesmo para beber, e brincava com
meus dedos, acariciando e me fazendo sentir coisas que... como eu poderia
estar me sentindo nervosa, excitada, atraída por apenas mãos?
— Jason me disse que vocês são lendários - falo para Logan e Matt.
— Os irmãos pegadores! — Emma riu — desde que eles passaram de
1.70m tem sido assim. Pobre de Logan que demorou mais para crescer.
— Mas cresceu até demais — falei reparando que ele era o maior do trio
— de verdade? Irmãos pegadores?
— Com certeza. O mundo é muito grande para uma mulher só - responde
Emma.
— Na verdade a mulher de Logan é Emma, a questão são as outras por aí
- diz Matt rindo.
— O que? — perguntei curiosa olhando para os dois.
— De verdade, eles parecem um casal velho casado há três décadas.
— De novo, não! — Emma gemeu ao meu lado — vão lá na pista
demonstrar seus dotes para algumas meninas e me deixem ter uma conversa
de garotas.
— Nada disso, cunhadinha. Vamos dançar — diz Matt arrastando Emma
e Logan para fora da mesa e me piscando.
Sutil como um elefante.
Acompanhei os três sumirem na pista de dança e percebendo que eram
nada discretos sobre me fazer ficar sozinha com Jason. Ele me olhou sorrindo
como se tivesse combinado aquilo tudo.
— Você também tem que demonstrar seus dotes, lembra? - Falo rindo e
vejo seu sorriso murchar depois das minhas palavras.
— Nós precisamos ser sinceros aqui, Lizzie. Eu só quero flertar com uma
pessoa dentro desse bar, e essa pessoa é você.
UAU. Não esperava que ele fosse tão direto.
— Eu... eu...
— Respire querida, calma.
— Só não esperava por isso — respondo gaguejando.
— Bem, é como é. Ontem foi ótimo e queria repetir.
— Não tenho certeza... não é um bom momento para ocupar minha vida
com um cara, droga, tenho seis empregos.
— Isso pede por um relaxamento.
— Eu quero dormir mais horas, não um namorado.
— Alguém está muito confiante — ele diz rindo a minha menção a
namoro e eu congelo pelo meu comentário. Como sua mão está na minha, ele
me sente endurecer e tento puxar meu braço, mas ele segura firme — relaxe,
vamos dançar um pouco. Está sendo divertido, não?
— Eu preciso que as coisas aconteçam com mais calma.
— É o que você vai ter.
— Preciso ir embora - Respondo ficando séria. Isso só acionou todos os
meus alertas — Quero ficar, mas...
— Isso assustou você, não? - Jason diz se aproximando e passando o
braço por meus ombros, me dando um suave aperto.
— Estou cansada, confusa. Dormimos tarde ontem, trabalhei o dia todo.
— Quer ir para minha casa?
— Jason...
— Nada vai acontecer, eu prometo. Só quero estar mais perto de você.
— Não é uma boa ideia - penso mas ao mesmo tempo... ao mesmo
tempo...
— Você vai mesmo assim, não é? — ele fala abrindo um sorriso para
mim — vamos, eu cozinho algo e depois você pode dormir.
— Trabalho amanhã.
— Juro que levo você onde você queira.
— É uma promessa?
— Sim... - Jason sorri ainda sem se afastar do abraço e complementou
baixinho — não sei explicar o que está acontecendo, só quero estar com você,
nós precisamos descobrir o que está acontecendo.
— Vamos - o encorajei me levantando da mesa — precisamos achar seus
irmãos e Emma.
— Vou mandar uma mensagem avisando. Eu moro aqui perto, eles
podem ir para lá de qualquer maneira se quiserem. Vamos?
Jason me estendeu a mão e aquilo tudo de ontem voltou. Era a segunda
vez bêbada ao lado dele, mas isso não podia ser algum efeito da cerveja, da
festa, do ar. Era só eletricidade pura enchendo minhas veias.
Ficamos em silêncio no taxi com ele fazendo suaves desenhos na minha
mão com a ponta dos dedos. Menos de cinco minutos depois, paramos em um
prédio bonito e Jason me acompanhou colocando sua mão na base das
minhas costas, levando energia para todo o lado.
— Quer comida de verdade ou pipoca?
— Nós comemos no bar, estou cheia. Você cozinha de verdade?
— Sim, minha mãe fez questão.
— Ótima mãe, só espero que não durma em cima de você, estou tão
cansada.
— Pipoca então - ele diz abrindo a porta - quer ver um filme?
— Parece maravilhoso — respondi mexendo as mãos um pouco nervosa
olhando ao redor. Sua decoração parecia cara como a dos Stuarts, apesar do
apartamento ser muito menor do que o que moro atualmente.
Era tão diferente do meu mundo, o que eu estou fazendo aqui?
Bem, eu sei porque estou aqui. Porque na primeira vez na minha vida eu
me sinto desse jeito por um homem. Mas por que ele? Por que um
desconhecido com uma vida tão diferente da minha...?
— Já disse, só quero você aqui. Nada precisa acontecer, tá? Relaxe —
Jason pega nos músculos das minhas costas massageando a tensão. Gemi no
mesmo momento.
— Tudo bem. Vamos ver um filme.
— Sim, quero relaxar você, parece tão cansada. “Velocidade Máxima” ou
“Diário de uma Paixão”?
— “Velocidade Máxima”.
— De verdade? — ele me olhou confuso achando que eu escolheria o
filme romântico sem dúvidas.
— De verdade. “Diário de uma Paixão” é lindo, mas é a receita para
começar a dormir. Por que você tem ele? Garotas?
— Emma.
— Por quê? - perguntei rindo.
— Matt não estava brincando. Mantemos uma aposta há 15 anos sobre
quando Logan e Emma vão desistir de serem amigos e finalmente começarem
a namorar. Eles moraram juntos na faculdade, e no último ano deles posso ter
feito as coisas um pouco difíceis para os dois.
— Por que você faria isso?
— Porque aos 18 anos apostei que Logan terminaria a faculdade, pegaria
sua garota e cavalgaria pelo entardecer.
— E o que você fez?
— Posso ter pago uma orquestra e um restaurante só para eles. Em outra
situação mandei uma caixa com brinquedinhos sexuais e em um determinado
momento os tranquei em uma sala por três horas.
— Você tem problemas, cara.
— Somos muito competitivos.
— O que eles estavam fazendo nessas três horas?
— Jogando xadrez, aqueles irritantes.
— E então o quê?
— No natal seguinte, um mês depois dessa última tentativa, Emma me
deu todos esses DVDs românticos que você vê na estante. De acordo com ela,
se eu estava carente de romance, essa era a melhor fonte em vez de ficar me
metendo na vida dela.
— Ouch.
— Exagerei, eu mereci. E foi assim que terminei com “Diário de Uma
Paixão” na estante.
Eu dou uma gargalhada alta e me sento no sofá.
O cansaço me venceu nos primeiros minutos de filme. Assim que Jason
me puxou para mais perto, o calor de seu corpo foi como uma canção de
ninar para mim. Em algum momento depois disso, senti ele me pegando no
colo e depositando em uma superfície confortável. Me enrolei nas cobertas e
dormi como não fazia há tempos.
Capítulo 7
Lizzie

Assim que abri os olhos, percebi que estava bem longe da cama de
hospedes dos Stuarts. Felizmente eu ainda estava vestida. Sem meus sapatos
mas com a calça jeans e camiseta que cheguei a esse apartamento. Não podia
dizer o mesmo do meu companheiro de cama.

Girando meu corpo devagar, notei a grande diferença: dormindo a meu


lado, Jason era o pecado em pessoa: moreno, despenteado, sem camisa e
muitas tatuagens. Quando ele disse que trabalhava e tinha uma vida chata,
algo não se encaixava. Talvez era sobre isso a impressão de que ele estava
escondendo algo. Tinha muito mais do que eu não podia ver. Ele tinha três
lobos tatuados no braço, que se espalhavam com flores e espinhos por parte
do peito. O antebraço só exibia uma listra fina onde ele depositava a dobra da
camisa, na mesma altura de uma figura anjo/demônio no outro braço.

— Gostando da visão?

Merda, Lizzie. Pega no flagra.

— Algo assim — sorri virando meu corpo completamente — algo não


fazia sentido sobre você, saber que é todo tatuado me deixa aliviada.

— De verdade? — ele diz duvidando enquanto levantava a sobrancelha


como uma pergunta.

— Algo não se encaixava, agora só é certo... Você entende?

— Não.

— Somos diferentes, Jason. Saber que você não é tão certinho quanto
parecia ser me alivia.

— Certinho? — ele riu me puxando para perto e senti seu corpo grudado
no meu nessa cama.
Não faço ideia de porque estou tão à vontade com um estranho seminu,
mas estou. Merda, eu poderia ficar dias de conchinha com esse homem até
morrermos de sede ou fome.

— Emprego certo, vida certa, apartamento lindo, bonito como o demônio.


As tatuagens tiram essa sua perfeição, sabe?

— Não me diz que toda essa coisa de não querer nada comigo é sobre
isso.

— Claro que é. Você é bonito demais para querer a garota latina meio
gordinha.

— Pois saiba que você tem me deixado de quatro desde que eu te


conheci. Não tem um minuto que não pense sobre você e eu em uma cama,
Lizzie - me assusto com sua sinceridade e sei que transpareço isso em minha
expressão quando ele continua a falar — Que merda, não queria te assustar...

Jason se afasta de mim, se levantando, e senti a perda do seu calor como


uma dor física. Ele estava excitado, podia sentir seu pau enquanto ele falava e
nossa conversa ficou intensa de repente. De pé, seu membro ereto chama
atenção naquela cueca boxer preta. Dios... ele é bom de olhar. Ele é... Que
merda eu faço?

— Não tenho experiência, Jason — digo olhando para o teto — a história


da minha mãe me marcou muito. Você é um desconhecido, mas algo me puxa
até você, estou confusa e eu não sei o que fazer. Sou virgem.

Ele me encara com o cenho franzido e as mãos na cintura e se aproximou,


caminhando ajoelhado na cama até me alcançar. Sem avisar, Jason me puxou
para seus braços para um beijo. Ele foi devagar, reconhecendo os contornos,
e gemi em resposta. Ele segurou meu cabelo sem força, me trazendo mais
próximo, enquanto sentia sua língua sondar meus lábios.

Nossas bocas se movimentaram em um encontro frenético que me levava


cada vez mais longe. O que era calmaria, ficou selvagem de repente. Ajeitei
minhas pernas ao redor da cintura de Jason e eu podia sentir tudo. A sensação
de minhas pernas moles, minhas partes baixas úmidas, seu pau grosso
encostado em mim e só parecia... certo... Não sabia o que pensar do meu
corpo reagindo deste jeito a um desconhecido e só me aproximava mais,
tomando e recebendo de seus lábios enquanto suas mãos passeava por meus
braços e eu procurava por sua proximidade.

Jason se de mim, encostado sua testa na minha e respirando pesadamente.

— Por mais que eu queira continuar - ele diz com a respiração erradica,
como se tivesse corrido uma maratona — prometi te levar para o trabalho.
Precisamos sair.

Merda, eu tinha esquecido.

Eu o encaro assustada e ele me dá um leve beijo nos lábios antes de sair


de cima de mim. Através de sua cueca consigo ver o volume de seu pênis e
ele sorri quando vê onde está meu olhar. Balanço a cabeça tentando dissipar a
neblina e o encaro confusa.

— Preciso ir, Jason... eu...

— Tudo bem, querida. Vá tomar um banho, vou fazer nosso café - ele diz
da porta do quarto me sorrindo levemente.

— Não, Jason, preciso falar algo - falo me ajeitando na cama e ele me


encara curioso - o que está acontecendo aqui... é rápido demais, mas ao
mesmo tempo eu não sei reagir a isso... Nunca tive um homem e o que sinto
por você, é confuso...

Jason caminha sério novamente, parando a minha frente e passa a mão em


meus cabelos, ficando a centímetros dos meus olhos.

— Isso vai acontecer, Lizzie, sei que vai. Mas no seu tempo, quando você
se sentir segura. Não vou te forçar a nada, entende? É só que você se encaixa
bem para caralho nos meus braços e se pudesse escolher, não deixaria você
sair da minha cama. Essa é só a primeira vez, amor, não a última - ele me dá
um beijo leve e aponta para uma porta a minha esquerda dizendo - o banheiro
fica ali, se apresse para não se atrasar tanto.
Ainda um pouco desnorteada, tomei um banho rápido e coloquei a mesma
roupa sabendo que meu uniforme reserva estaria limpo no armário da
cafeteria. Sai do banheiro para ser saudada por uma xícara de café feita por
Jason enquanto ele foi se aprontar. 30 minutos depois, um Jason de camisa
preta e calça jeans me levou até o Good Coffee e prometeu falar comigo ao
longo do dia enquanto me dava um leve beijo de despedida.

Nunca fui irresponsável até esse momento. Conheço um cara e 24h


depois já perco o horário do meu trabalho. Não podia deixar isso acontecer.
Fico com isso na cabeça mas meu pensamento traidor sempre me leva de
volta para o momento que acordei e um Jason de cueca e tatuado me deu bom
dia. Dios, que hombre.

— Seu acompanhante é bem gato - diz Barbra me encarando enquanto


entro no café.

— Eu sei - respondo simplesmente passando por ela.

— Você está atrasada.

— Eu sei disso também.

— Está tudo bem?

— Sim, um pouco cansada. Preciso começar a trabalhar antes que


reparem que...

— Que você chegou atrasada? - diz Daryl, a gerente - duas horas atrasada
Elisabete. O que diabos aconteceu? você não é assim.

— Peguei no sono e não consegui acordar.

— Com aquele homem que te trouxe? Duvido! - ela diz cruzando os


braços - olhe, é bom você ter uma vida social, mas nada de namorados por
aqui. Cumpra seu horário que você vai continuar bem...

— Mas Daryl, é meu primeiro atraso em mais de um ano.


— Se continuar assim, não teremos problemas - ela diz virando as costas
e eu bufo em resposta sabendo que apesar de certa, a reação é injusta.

Depois do meu turno de seis horas no café, já passam das 15h quando vou
para o diretório acadêmico para minha aula de salsa e volto a colocar a roupa
que usei ontem à noite. Ela cheira a bebida e cigarro, mas terá que servir.
Enquanto espero a sala encher, meu celular apita e vejo uma mensagem de
Jason: “em qual trabalho está agora?”.

Eu rio e respondo que dou aula até às 17h e então, de repente, já tenho
planos para encontrá-lo. Nós vamos jantar em seu apartamento. Novamente.
Ele me passa o endereço por mensagem e sei que apesar do cansaço e do
medo dessa coisa nova, estarei lá no final do dia.

É o que acontece.

Eu recolho minhas coisas quando a aula acaba e sinto a excitação de vê-lo


novamente. Tomo um banho no vestiário e estou pronta para sair. Tenho
pensado cada vez mais nesta maluquice que está acontecendo. Nós
conversamos ontem, hoje de manhã, ele sabe minha história e eu sei a dele.
Comida favorita, programas prediletos, o que gosta ou não na televisão, qual
a cor que mais ama. Nós só dividimos um jogo de 20 perguntas a cada vez
que nos vimos e Jason parece ter todas as respostas corretas mesmo
parecendo um cara rico de terno.

Eu chego em seu prédio e o porteiro me anuncia. Se não fosse a casa dos


Stuarts, realmente ficaria impressionada - e esmagada - pela nossa diferença
social. Quem diabos têm porteiro na Califórnia além de pessoas ricas?
Quando subo o elevador, penso e repenso o que estou fazendo, mas tudo
some da minha cabeça quando Jason abre a porta.

— Oi... cansada?

— Bastante - digo enquanto ele fecha a porta atrás de mim e me dá um


leve beijo nos lábios.

— E você nunca descansa?


— Um dia aqui e outro ali, turnos na maioria das vezes, como ontem e
hoje.

— Meu macarrão está pronto, vem - ele diz pegando na minha mão.

— E muito cheiroso.

— Você vai saber se sou bom cozinhando ou não.

— Espero que seja, a única coisa que faço direito é salada de batatas.

— Nem comidas latinas, essas coisas?

— Ah vamos, você é melhor do que isso - digo rindo — Tudo que você
pensar de comida latina será pratos mexicanos, que não sei se sabe, tem um
Estados Unidos inteiro no meio até Cuba.

— Territoriais, tipo irlandeses, heim? - ele diz rindo enquanto coloca uma
porção generosa de massa em um prato e nos sentamos na ilha da cozinha
para comer.

— É diferente porque aqui a gente só é latino, seja mexicano, cubano,


chileno, até brasileiro que nem espanhol fala. E cada um tem sua cultura,
criação, prato típico.

— Está bom? - ele pergunta, dou uma garfada e não consigo conter um
gemido. O homem é lindo e sabe cozinhar! - e o que exatamente você
cozinha?

— Nada muito bonito. Arroz, frijoles, vários tipos de carnes, muito mais
prático do que do dia a dia, porque era nossa dieta quando minha mãe estava
viva. Ela não entendia como vocês podem comer feijão em lata se o fresco é
muito melhor.

— Porque é muito mais barato.

— E tem gosto de lixo tóxico. Vou fazer um qualquer dia e... -


Imediatamente paro e penso no que estou falando. Nos conhecemos há
poucos dias, eu contrariando todas as regras de segurança, estou na casa dele.
Agora estou sugerindo cozinhar, como se nós fossemos continuar o que quer
que esteja acontecendo aqui.

— Eu adoraria - ele me sorri e eu percebo que ele entendeu o que acabou


de acontecer.

— Me sinto confortável com você, sabe? Quase certeza que você não é
um maluco. Na verdade, não deveria estar aqui sem checar você, mas eu só
não conseguia ver você como algum maluco.

— Gente louca não dá cartão de visitas, Lizzie.

— Tudo bem, contra todos os meus bons julgamentos, achei que poderia
vir aqui.

— Também confio em você Lizzie, e nem sei bem porquê. Você poderia
ser uma maluca que me drogaria e roubaria minha mobília.

— Eu sou uma pessoa legal.

— Também não consigo explicar, fica tranquila - ele diz piscando — É só


algo diferente, como se quisesse ficar perto de você o tempo todo.

— É tão rápido, e me sinto do mesmo jeito. Isso não pode... - paro


novamente pensando nas palavras e só não sei como continuar.

— Tudo bem, Lizzie. Como foi o trabalho?

— Servindo mesas, muitas mesas.

— Amanhã tem mais?

— Não, amanhã é meu dia oficial de folga, onde também acabo fazendo
os trabalhos da universidade.

— Você nunca desliga?

— Raramente, só quando durmo.


— Quer mais?

— Estou satisfeita.

— Ótimo. Agora que está alimentada, posso fazer o que eu quero - ele diz
me sorrindo.

Jason se aproxima tomando minha boca de surpresa e lentamente acaricia


meus lábios. Deus, como ele me enlouquece. Eu sinto o gemido sair de meus
lábios e a leve risada de Jason, se aproximando de mim. Segurando meus
cabelos em um leve puxão, ele gruda seu corpo no meu, trazendo sua língua
até minha boca e saboreando. Tudo acaba como começou, com ele se
afastando como se nada tivesse acontecido.

Eu o encaro aturdida e antes que consiga pensar no que estou falando


digo:

— Você beija tão bem quanto cozinha - ele ri e me puxa para perto em
um beijo mais leve. Eu me junto no abraço e penso como me sinto feliz pela
primeira vez em muito tempo.
Capítulo 8
Jason

Nós vemos um filme e assim como no dia anterior, Lizzie apaga nos
primeiros dez minutos. A pego no colo e a deposito em minha cama,
enquanto tiro minha roupa e permaneço de cueca. Estou perdendo minha
cabeça por ela.
Mamãe e meu pai me falaram que eu parecia com a cabeça nas nuvens
durante o nosso almoço e Logan e Matt começaram a falar imediatamente
sobre Lizzie. Sabia que eles estavam implicando comigo, mas fiquei puto por
estarem brincando sobre ela como brincariam sobre algum caso de uma noite
que tive.
— É que Jason pegou uma mulher e ela o deixou cansado - diz Matt.
— Tinha que ver, mãe, ele de quatro por ela. Ela o tem nas mãos -
complementa Logan.
— Pois eu a achei bem legal - diz Emma me encarando - por favor, não
mande essa embora.
— Aparentemente todos conhecem essa tal garota menos eu, meu filho.
— Conhecendo Jason, não vai ter tempo para a senhora conhecer... - diz
Matt rindo - ele termina com elas como troca de roupa. Essa é mais uma para
a lista.
Eu fecho o punho e encaro Matt, mas ele ainda não entendeu que não
estou achando graça. Logan presta atenção ao meu movimento e rapidamente
levanta as mãos como rendição e balança a cabeça em minha direção.
— Matt...
— O que irmãozinho... é a verdade.
— MATT! - eu falo mais alto - para com isso... por favor.
O almoço termina quase que depois da nossa semi-briga. Quando estou
voltando para casa, mando mensagem para Lizzie na esperança de que ela
queira me ver novamente. Estou mexido desde sua confissão que é virgem,
mas ao mesmo tempo o homem dentro de mim adora a ideia de que ela vai
ser minha quando não foi de ninguém mais. Nunca fui um homem das
cavernas, querendo bater no peito sobre ter uma mulher e pertencer a ela e, de
repente, com Lizzie, todas as minhas precauções estão sendo jogadas no
vendo.
Quando a pego no colo e coloco na minha cama, sei que é certo. Tiro sua
calça jeans tentando não ver nada e me deito, a abraçando. Sinto o cheiro de
seus cabelos e a sensação de suas curvas doces emolduradas em meu copo e
sinto plenitude. É certo.
A luz atravessa minhas cortinas no momento seguinte que abro meus
olhos. Lizzie está ali, na mesma posição, de olhos abertos me encarando. Ela
é linda pela manhã, com o rosto inchado e a expressão sonolenta.
— Oi... peguei no sono novamente?
— Sim...
— Parece que estou me esforçando para pegar no sono em sua cama.
— É bom que você sabe onde você tem que estar - digo com um sorriso
leve.
— Jason, o que é isso tudo?
— Isso o que?
— Eu e você, o que é?
— O que você quer que seja. Sei que você é ocupada. Também sou, mas
uma coisa que sei é que não quero é abrir mão de você.
— Você me conheceu na sexta, pelo amor de Deus...
— E você já dormiu nessa cama duas vezes. Se você não percebe que tem
algum significado, eu sei que tem.
— E qual é ele?
— Que você é mais do que uma coisa de uma noite, que quero você
aqui...
— Eu...
— Tudo bem, Lizzie. Eu falei... no seu tempo - digo vendo seus olhos se
abrirem assustados. Podia ver tanta vulnerabilidade ali, tantas dúvidas e sabia
que me sentia da mesma forma.
Se aproximando mais, ela tomou a iniciativa e grudou seus lábios nos
meus, um pouco sem jeito, mas me querendo inteiro. Eu conduzi o beijo,
tentando não a assustar enquanto brincava com seus cabelos, me
aproximando mais. Ela abriu sua boca, me dando acesso e nossas línguas se
entrelaçaram em um beijo voraz que deixou meu pau duro e necessitado.
Ela se moldou a mim, ficando embaixo enquanto a beijava sem parar, me
abraçando e me trazendo ainda mais para perto enquanto ela abria suas pernas
e me deixava descansar entre suas coxas. Merda, podia sentir sua buceta
através da calcinha que ela estava vestindo e podia apostar que Lizzie podia
sentir quão duro eu estava e querendo tê-la.
Senti suas mãos caírem sobre meu corpo, passeando por minhas costas
nuas e me ajeitei, dando mais espaço para a exploração de seus pequenos
dedos. Ela separou nossos lábios, levando sua boca até meu ombro e
mordendo levemente minha pele, fazendo a sensação ir direto para o meu
pau. Deus, Lizzie era quente.
— Liz... - digo entredentes, colocando uma das minhas mãos embaixo de
sua roupa e brincando com a pele quente de sua barriga enquanto espalho
beijos em seu rosto e sua língua caminha por meu ombro.
— Jason... eu não...
— Até onde você quiser, amor... - eu digo antes de a puxar para mais um
beijo selvagem. Ela podia não perceber, mas estava se esfregando em mim e
eu estava a um passo de gozar na minha cueca como um adolescente.
Ela tenta se ajeitar entre os cotovelos e arranca sua camisa, ficando
apenas de calcinha, e encaro seus peitos perfeitos, cheios e redondos
enquanto ela rebola no meu pau, tentando me beijar.
Eu faço uma trilha de beijos em sua pele, parando exatamente sob seu
seio esquerdo e começo a lambê-lo e chupá-lo, ouvindo os pequenos gemidos
que Lizzie fazia na cama, se contorcendo contra mim. Ela brincava com os
meus cabelos enquanto se grudava cada vez mais a minha boca e fechou suas
pernas em minha cintura, me abraçando e se posicionando diretamente sobre
meu pau. Eu podia sentir sua buceta quente, sabia que ela estava molhada
para mim e só comecei a me mexer, simulando que estava dentro dela e sabia
que estava atingindo seu clitóris a cada movimento.
Era um vai e vem rápido, de respiração pesada e sabia que Liz estava
próxima e voltei a beijá-la nos lábios enquanto comecei a conduzi-la com
minhas mãos em seu quadril, ouvindo a gemer cada vez que meu pau
encostava em sua entrada através das nossas peças de roupa. Eu daria tudo
para arrancar minha cueca e sua calcinha, mas não era o momento.
— Jason... - ela gemeu.
— Eu sei, amor... goza para mim, vai...
Ela deu um grito mais alto, quase saindo da cama e eu senti minha porra
sair, sujando tudo e me deixando tremendo e suado. Foi forte, como não tinha
sido nunca. Foi um formigamento em minha coluna e o sentimento de
felicidade exalando por minhas veias, como se eu tivesse energia, poder...
Eu não ia deixar essa garota fugir.
Nós ficamos deitados nesta posição por algum tempo, nos recuperando,
mas sei que preciso sair para trabalhar e Lizzie também. Ela não está na
cafeteria, mas precisa resolver outras coisas ao longo do dia.
— Jason, isso foi... - ela diz me sorrindo.
— Incrível? Maravilhoso?
— Talvez toda a série de adjetivos que eu consigo pensar? - ela fala
sorrindo.
— Eu sei, amor... Você acabou comigo e ao mesmo tempo quero fazer de
novo.
— Eu também - ela diz e sinto sua pele quente e avermelhadas de
vergonha - mas preciso sair.
— É segunda e preciso trabalhar, mas daria tudo para ficar aqui com
você. Mas você volta hoje à noite, certo?
— Jason... para onde estamos indo comigo voltando para cá todos os
dias?
— Para mais do que acabou de acontecer. Prometo todo o tipo de
orgasmo que quiser.
— É uma proposta tentadora, mas...
— Vamos lá, Elisabete Alvarez, viva um pouco.
— Tudo bem, Jason Hunt, mas agora vai, porque vai se atrasar.
Nós criamos uma rotina a partir daí. Não importa o quanto estivesse
ocupado o quão tarde Lizzie saísse do bar, eu sempre a buscava ou ela me
encontrava em meu apartamento. Nós precisávamos nos ver todos os dias,
queria senti-la nos meus braços todas as noites. Era louco e perfeito e podia
sentir que o que estava acontecendo ali era algo maior.
Eu estava me apaixonando por Liz e não faria nenhum esforço para
evitar.
Capítulo 9
Lizzie

Eu estava extremamente cansada mas feliz. Se alguém me falasse que


dava para manejar Jason, a faculdade e meus trabalhos, eu chamaria de louco,
e seis semanas depois sei que vou pagar o preço. Daryl me encara cada vez
mais, alguns professores já conversaram comigo. Chego na casa de Jason e
durmo como uma pedra e recomeço no dia seguinte.
Bem... não tanto, penso ficando vermelha. Nas últimas seis semanas eu
tive a rotina doida de lidar com minha vida e alguém especial e, em todas as
manhãs, Jason me deu um orgasmo, mais de um as vezes. Deus... seu corpo,
suas mãos. A cada dia nós íamos mais longe, mas ele não me forçava a
transar, ele parecia gostar de meu corpo e de beijá-lo e lambê-lo e...
— Senhorita Alvarez, estamos atrapalhando seu devaneio? - diz a
professora me tirando da minha viagem mental enquanto a turma me encara
com risadas presas.
— Não... eu... eu... estava pensando sobre o livro para aula que esqueci.
— Vamos acreditar na senhorita, ok? - ela diz rindo - mas preste atenção
em mim e não nos seus pensamentos.
40 minutos depois, estava de volta a mim mesma, cheia de anotações e
marcações de livros enquanto a professora dispensava os alunos. Quando o
fluxo de pessoas diminuiu e me levantei, a professora Parker se aproximou,
com um sorriso maior no rosto, mas decido me desculpar antes que ela fale
alguma coisa.
— Peço desculpas novamente, ando permanentemente cansada por causa
do trabalho. Só me perco as vezes.
— Esses olhares e suspiros não são sobre o trabalho, não? - ela diz
piscand0 - Lizzie, não nos conhecemos bem e você sabe como conduzir sua
vida, mas tome cuidado. Estar aqui é sua educação, seu meio de conseguir as
coisas. Homem nenhum merece que você deixe isso de lado.
— E eu não vou!
— Bem garota esperta, só tome cuidado. Você é nova, tem o que 20
anos? - ela diz e eu confirmo com a cabeça - você tem o futuro pela frente.
Não seja a esposa de empresário, seja você mesma a CEO. E para isso precisa
prestar atenção nas aulas, ok? Mulheres precisam ser independentes, mostrar
que são mais o tempo todo. Você veio para cá para se educar, ter um
diploma, espero que consiga, vejo o esforço nos seus olhos. Por favor, não
desista por causa de um homem.
— A minha vida inteira eu quis um diploma, tenho várias fontes de renda
para me manter aqui com a minha bolsa. Não vou me decepcionar,
decepcionar os outros... eu acho... eu acho que estou apaixonada por alguém,
senhora Parker, mas ao mesmo tempo, é minha vida, como ele tem a dele.
Preciso tentar equilibrar isso.
— Boa sorte, com isso. Estarei por aqui - ela diz virando as costas e sei
que ela tem razão. Será que conseguirei equilibrar as coisas?
Saio da aula pensativa e caminho até a casa dos Stuarts para deixar
minhas coisas. Hoje não tenho turno no Good Coffee e já é perto do almoço.
Ao contrário de todas as minhas folgas planejadas, não aviso ao diretório que
tenho tempo livre para organização e tutoria porque tinha decidido chamar
Jason de surpresa para um almoço. A voz da senhora Parker ecoa mais uma
vez com pensamentos sobre o equilíbrio entre minha vida e quanto estou me
dedicando a Jason.
É só que... é tão simples e perfeito e ele não me exige que largue tudo,
que esteja sempre com ele. Jason tenta se encaixar na minha rotina louca
como eu também me adequo a seu dia a dia como CEO da empresa. Não é o
melhor momento, mas é o que temos e não renunciaria a isso, dos nossos
minutos, das nossas noites... Ele era mais uma coisa da minha vida que eu
não estava disposta a abrir mão.
Com o pensamento renovado e olhando para o relógio, caminho para a
empresa depois de checar seu endereço na internet. Assim que entro na Hunt
Enterprise e me anuncio percebo que talvez seja uma péssima ideia. As
pessoas me olham estranho e percebo que chamo atenção e grito minha
diferença social com aquelas paredes de mármore. A pessoa do atendimento
liga para a secretária de Jason fazendo cara de poucos amigos, mas o que
quer que tenha sido dito do outro lado da ligação, foi o suficiente para me
fazer subir. Pego o elevador e chego ao 29° um pouco perdida até que ouço
sua voz.
É difícil conciliar meu Jason com essa pessoa que trabalha na Hunt
Enterprise, uma empresa de publicidade de vários formatos. Ele era CEO e
tratava dos negócios gerais. Matt comandava a área comercial de vendas e
publicidade e Logan era advogado e cuidada da área jurídica. Os três eram
sócios de um negócio criado com a ajuda do padrasto, um empresário
atualmente aposentado que trabalhou com ações durante toda a vida.
— Veio ver onde eu trabalho?
— Jason! - digo e vou até ele sorrindo.
Fico com receio de fazer qualquer outra coisa mas não parece ser intenção
de Jason evitar a fofoca. Ele me beija e pega na minha mão, me levando para
seu escritório, onde eu me sento no sofá, encarando o ambiente.
— Seu escritório é enorme. E tem uma vista ótima!
— Sim... o que estou vendo me encanta muito - ele diz me encarando e
sorrindo.
— Jason! Vim te chamar para almoçar, você pode?
— É uma ideia excelente, espera alguns minutos? Preciso responder um
e-mail e estou pronto.
— Posso ficar no sofá?
— Ah... - ele responde e de repente o ar muda. Ele me olha com seus
olhos profundos - tenho uma ideia melhor - ele diz me levantando e
imediatamente eu me enrolo em sua cintura, saindo do chão enquanto ele me
puxa para cima. Nos beijamos frenéticos e sinto minha respiração acelerar
enquanto seus lábios brincam com os meus.
Ele se senta no sofá comigo em seu colo e continuamos nossa sessão, nos
beijando, mordendo e chupando até que estamos febris e sedentos um pelo
outro. Deus.. eu acho que me apaixonei por este homem, por seu corpo, por
suas mãos, por ele todo. Puxo minha camisa para fora junto com meu sutiã
enquanto coloco a mão na gravata de Jason e começo a puxá-la para fora de
seu corpo enquanto Jason beija meu pescoço nu e me faz arrepiar. Jogo a
peça fora e começo a desabotoar a camisa dele enquanto seus lábios
escorregam por meu corpo e chegam até meus peitos. Solto um gemido
agoniado e Jason me encara com um sorriso.
— Não devemos fazer barulho...
— Jason, eu... - falo beijando seu peito e sentindo sua pele quente contra
meus lábios.
— Quietinha, amor... - ele diz emoldurando meu rosto com suas mãos e
me puxando para mais um beijo profundo. Uma ideia vem a minha cabeça e
não consigo parar, me soltando do braço de Jason e me ajoelhando na frente
dele e puxando seu zíper para baixo.
— Você também, amor... Quietinho. –Digo o encarando e ele sorri
perversamente para mim. Não seria a primeira vez. Nas últimas semanas
temos explorado o corpo um do outro sem cessar, mas eu ainda era insegura e
inexperiente. Jason tinha paciência comigo e parecia amar tudo o que eu fazia
com o seu corpo.
O sinto tremer entre minhas mãos e puxo sua excitação para fora,
revelando seu pau inchado. Ele é enorme e mais de uma vez me peguei
pensando sobre como seria perder a virgindade com ele e algum lugar do meu
cérebro sabe que estou pronta.
Jason acaricia meu rosto e cabelo enquanto o toco um pouco
desajeitadamente. Ele me dá tempo e começo devagar, beijando sua pele
sensível e o fazendo gemer. Eu o coloco em minha boca e começo a lambê-lo
com a língua enquanto me acostumo com o seu tamanho. Jason segura meus
cabelos e sei que ele está lutando para não fazer barulho nenhum. Sinto a
umidade entre minhas pernas e me sinto vazia, querendo mais. Jason
impulsiona seu quadril de encontro a meus lábios e fecha os olhos com força,
enquanto ele treme sobre meus dedos e lábios. Eu o chupo com vontade
enquanto brinco com suas bolas e sei que ele está próximo.
Eu me sinto engasgar e controlo minha respiração. Jason pega meu cabelo
e começa a foder com minha boca, cada vez com mais força até soltar um
grunhido baixo e seu líquido quente descer pela minha garganta enquanto a
pressão entre minhas pernas me faz cada vez mais necessitada. Sem me dar
tempo e ainda respirando com dificuldade, Jason me puxa para cima me
beijando levemente e me puxa para seu corpo, encostando sua testa suada na
minha.
— Merda, Liz... - ele diz com a respiração acelerada. Suas mãos descem
para meu zíper e o abre, puxando minha calça jeans para baixo
desajeitadamente - eu preciso... preciso sentir você amor, só um pouco...
Não falo nada enquanto ele puxa meu jeans e minha calcinha e estou
gloriosamente nua no sofá do seu trabalho. Seu zíper está aperto e seu pau
está duro novamente, como se Jason não pudesse esperar. Não demorava
mais do que isso? Ele me ajeita novamente em seu colo, me sentando de
frente para ele e grudando nossos corpos e posso sentir seu pau em minha
entrada.
— Por favor... - eu digo suspirando contra seus lábios e sei que estou
pedindo que ele me tome. Jason suspira balançando a cabeça e a próxima
coisa que sinto é seu pau encostando em meu clítoris.
Ele desliza para frente e para trás, nunca entrando em mim e posso sentir
o formigamento em minhas mãos. Eu salto em seu colo e torço para que ele
escape e me preencha, mas não é o que Jason quer. Ele se impulsiona me
fazendo gemer baixinho a cada investida e minhas terminações nervosas se
acenderem até que eu voo e me abaixo, mordendo o ombro de Jason para não
berrar em seu escritório. Ele abafa seu gemido em meus cabelos e sinto sua
semente em minha barriga. Nós ficamos ali, abraçados e suados quando olho
ao nosso redor.
Roupas por todo o lado, a calça de Jason suja de esperma. Ele acompanha
meu olhar e ri e sei que estamos certos. Há esta felicidade pós-sexo, esta aura.
Eu preciso tê-lo.
— Acha que fizemos algum barulho?
— Mais do que deveríamos - ele me responde rindo - vou tentar limpar
esta bagunça nas minhas roupas e vamos almoçar. Respondo este e-mail pelo
celular.
Jason me ajeita no sofá e vai até um cômodo lateral que parece ser um
banheiro. Eu me visto e espero a minha vez de ir ao reservado para me
ajeitar, também estou uma bagunça de cabelos desgrenhados. Minutos depois
estamos prestes a sair quando ouvimos batidas na porta. Jason pega na minha
mão e abre e Logan está do outro lado me olhando curioso.
— Bem... temos um problema - ele diz simplesmente.
— Como assim? - Jason pergunta.
— Mamãe ligou pedindo para te dizer que ia almoçar com sua namorada
e queria que você fosse, mas sua namorada está aqui, então quem diabos está
com a nossa mãe?
Jason suspira e ele parece com raiva e ambos se encaram antes de dizer o
mesmo nome “April”.
— O que está acontecendo?
— Acho que você vai conhecer sua sogra mais cedo do que imagina,
amor - ele me diz simplesmente e saímos.
Capítulo 10
Jason

Eu estou puto. Como diabos April chegou até minha mãe?


— Jason, quem é April? - Lizzie pergunta enquanto estamos descendo do
elevador. Tudo aconteceu tão rápido que só a levei porta a fora quando Logan
apareceu. Eu nunca falei de April com ela e seu corpo está rígido, como se
ela estivesse chateada. Eu paro, pego em seu rosto e suspiro e começo a
explicar.
— Eu saí com ela há alguns meses e quando nós paramos de nos ver ela
não levou isso bem. Liga, aparece o tempo todo. Vou colocar uma ordem de
restrição, estou com medo por você, pela minha mãe, por...
— Você tem uma namorada? - ela perguntou em um fio de voz.
— Não porra! Você é minha namorada, estamos juntos há semanas. Não
tive mais ninguém, como poderia? Nossos horários são uma loucura! Ela é
uma pessoa que não entende um não como resposta. Mas vamos resolver
isso, eu vou resolver isso. Entende?
Lizzie confirma com a cabeça mas sinto ela distante. Quando isso tudo
acabar vamos conversar melhor. Pego a mão de Lizzie, a entrelaçando e
caminho até o restaurante que minha mãe diz que estaria e assim que nos
aproximamos, vejo minha mãe e April sentadas em uma mesa na calçada.
Paro e as observo e April abre os olhos com surpresa, olhando para Lizzie em
seguida.
— Ja... Jason...?
— Que porra é essa, April? Eu disse que na próxima iria conseguir uma
ordem de restrição. Isso não tem graça, você não é minha namorada, Lizzie é.
— Jason, calma filho - diz minha mãe levantando e me encarando.
— Ela tem me seguido e me ligado e eu avisei que não toleraria mais.
Quero que vá agora.
— Você está me traindo com essa aí? - ela grita alto e sinto Lizzie
estremecer e tentar soltar meus dedos mas eu não permito. Não vou continuar
mais com essa cena com as pessoas nos olhando com curiosidade.
— Mamãe, pegue suas coisas, vamos comer em outro lugar - digo
olhando para ela e viro para a mulher loira ainda confuso sobre toda aquela
cena - April, você vai ouvir dos meus advogados.
— Jason! - ela grita enquanto minha mãe pega sua bolsa e se levanta. Nos
caminhamos para fora enquanto April parece fazer uma cena no restaurante,
mas eu não me importo e me nego a me virar para dar um pouco da minha
atenção para ela.
— O que foi isso? - minha mãe pergunta caminhando ao meu lado
enquanto olha com curiosidade para Lizzie.
— Eu saí algumas vezes com ela e April colocou na cabeça que é minha
namorada. Já fiz de tudo mas ela não para, continua a aparecer de surpresa,
me perseguir. Vou ter que acionar os advogados.
— Jason... - Lizzie sussurra ao meu lado e eu a encaro antes de olhar
minha mãe.
— Mãe, esta é Lizzie, minha namorada real – explico - a mesma que Matt
e Logan tem falado nos últimos domingos.
— Oh meu Deus! - mamãe diz parando nosso caminhar e abraçando
Lizzie forte. Minha garota está um pouco sem jeito, mas foram emoções
demais - é tão bom conhecer você!
— Sim... eu também fico feliz. Fui pega de surpresa com isso tudo e...
— Besteira, querida... é a primeira namorada que conheço de Jason, a
primeira dos meus filhos...
— Tem Emma - Lizzie diz sorrindo.
— Ah meu Deus, Jason... ela é praticamente da família - diz minha mãe
rindo da piada de Lizzie e me sinto feliz de ver que elas se entendem.
Pelas duas horas seguintes, as observo interagir conversando sobre
diversas coisas. Na última meia hora mamãe tem falado sobre a sua infância e
é visível como Lizzie se interessa por elas terem histórias parecidas: mamãe
foi criada pela mãe e um padrasto apareceu em cena quando ela tinha 14
anos. Eu sabia por Lizzie que Danny nem de perto foi o que meu avô foi para
a vida da minha mãe, mas sabia que elas tinham isso em comum.
Pego na mão dela por debaixo da mesa e sorrio, sentindo o calor de Los
Angeles e esse arrepio louco que aparece quando a toco. Ela sorri para minha
mãe e eu me perco em seus gestos por mais de vinte segundos. É quando
percebo que amo essa mulher. Pura e simplesmente. Sem planos, sem medo,
sem esconder. Era novo e me sentia bem com isso. Tinha me apaixonado
total e completamente por Liz nas últimas semanas e estava louco para ouvir
as palavras de volta.

∞∞∞
Eu decido que não vou voltar a trabalhar depois de deixar minha mãe em
casa. Em vez disso e com Lizzie em minha carona, vou para meu
apartamento. Subimos abraçados e assim que chego, ela se senta no meu sofá
e aviso que vou tomar banho. Assim que entro no chuveiro, começo a me
esfregar tentando massagear meus músculos cansados quando ouço um
barulho na porta do banheiro. Abro o box lentamente dizendo:
— Você precisa de alguma coisa, amor?
— De você... - ela diz suave e quando a olho novamente, Liz está tirando
suas peças de roupa e ficando nua para mim. Não é a primeira vez que a vejo
sem roupas, mas percebo que dessa vez é diferente e a encaro embasbacado
enquanto ela caminha para dentro do chuveiro.
— Liz...
— Não quero esperar mais. Por favor...
Eu a puxo para mim sem dizer mais nada, e enquanto a água quente cai
sobre minhas costas, a beijo. Começo com calma, tentando sentir seus
contornos, mas ela sempre me faz um selvagem, e assim que suspira uma
primeira vez, a puxo para cima, a encaixando em minha cintura e a
devorando com minha boca.
Nós ficamos ali, lambendo, chupando, sentindo e beijando até que estou a
ponto de gozar e sinto Liz se perdendo em meus braços e tentando se
encostar mais e mais em mim. A encosto na parede do box e sem me separar
dela, fecho o chuveiro e saio, a levando no meu colo.
Caminho a passos largos e a deposito na minha cama, cabelos molhados,
olhos selvagens e a respiração errática enquanto me puxa para mais perto
dela, me fazendo cobri-la com meu corpo. Eu deslizo minhas mãos pelo seu
corpo e sinto os dedos de Lizzie em meu pau, tentando me acariciar enquanto
eu fecho os olhos tentando segurar o orgasmo.
— Amor, não vou durar se continuar - digo suspirando enquanto desço
com minha mão para brincar com seu clitóris e percebo que Liz está pronta e
molhada para mim.
— Quero você, Jason... - diz Lizzie que tem outros planos e se ajeita
afastando minhas mãos e me abraçando mais forte enquanto abre suas pernas.
Com o movimento, meu pau descansa sob sua entrada e qualquer mínimo
movimento vai me levar para onde quero tanto.
— Precisamos ir com calma, não quero machucar você... - falo colocando
a mão em seu quadril. Ela balança a cabeça mas se empurra sobre mim e
sinto minha ponta deslizar em sua buceta apertada. Eu gemo com o
movimento e ouço o mesmo sentimento sair dos lábios de Lizzie.
— Por favor... - ela diz me encarando e abro os olhos muito sério,
gravando essa imagem em meu cérebro. Ela ali, com a pele vermelha, o suor
em sua testa e esse olhar amoroso enquanto sinto suas mãos em minhas
costas.
Me afundo sentindo a barreira de Liz e ela grita enquanto me impulsiono.
Ela fecha seus olhos com força e me agarro a ela beijando seu rosto e
esperando algum tipo de reação.
— Tudo bem...? - pergunto sussurrando e incerto.
— Vai ficar... preciso de alguns minutos - ela diz e passo a brincar com
seus cabelos esperando que Lizzie não saia correndo depois de machucá-la.
Algum tempo depois, a sinto mexer embaixo de mim, como se estivesse se
aproximando e se afastando, tentando se ajustar.
— Melhor?
Ela balança a cabeça afirmativamente e procura meus lábios. Depois,
cruza as pernas em meu quadril e se impulsiona em mim, gemendo com
força. Eu a deixo livre para ir e voltar esperando algum tipo de reação
enquanto beijo seu corpo, ela só brinca com meu pau por algum tempo até
que já não posso esperar mais e agarro seus quadris, a empurrando contra a
cama e saindo e entrando de sua buceta apertada. Dentro e fora, vai e vem. Eu
estava na borda e Lizzie gemia sensual a cada investida.
Eu a sinto me apertar e sei que está próxima e aumento o movimento, me
transformando em um selvagem.
— Jason! - ela diz e aperta os dentes em meu ombro enquanto seu corpo
tenta sair da cama. Ela é tão apertada que eu não consigo segurar o orgasmo
se formando dentro de mim.
A sinto me ordenhar me travando com suas pernas em meu quadril e gozo
dentro, gemendo e vendo pontos pretos em minha visão. Nunca foi desse
jeito. Com ela, chegava perto, mas desta vez, dentro dela, a sentindo gemer,
foi como se algo tivesse se quebrando e sem poder segurar mais, a beijei sem
ar, grudei minha testa na dela e disse sem me arrepender:
— Eu te amo, Liz.
Ela me beijou de volta sem me responder, mas eu sabia sem palavras.
Lizzie me pertencia da mesma forma que eu era dela desde a primeira maldita
vez.
Capítulo 11
Lizzie

Eu te amo, Liz.
Fiquei sem reação depois da confissão de Jason e só o beijei, sem saber
como reagir. Agora, horas depois o vendo dormir depois de mais duas
rodadas de fazer amor, talvez eu respondesse. Demorei para entender, para
acreditar que tinha direito disso. A verdade acendeu em mim como uma
árvore de natal.
Eu o amo.
Não tinha pensado nisso. Corrigindo, não quis enfrentar isso. A sensação
de que se algo acontecesse com ele eu poderia morrer, as borboletas no
estomago. A felicidade de só ouvir sua voz, alguém usar seu nome. Era uma
bolha de amor que alguém que teve uma vida parecida com a minha não
estaria acostumada.
Eu o amo.
Brinquei com seus cabelos e me aconcheguei em seus braços com a
realização deixando meu peito. Me sentia leve, poderosa. As coisas apenas
fluíam enquanto esse maldito sorriso bobo não deixou meus lábios.
— Tudo bem? - ele me pergunta com voz sonolenta e toca levemente em
meu rosto. E então eu quero dividir, preciso que ele saiba.
— Eu te amo - respondo simplesmente.
— Eu sei - ele me responde sorrindo.
— É uma punição porque não respondi antes? - falo o beijando nos lábios
e escondendo meu rosto em seu ombro.
— É um fato. Talvez só soubesse antes de você mesma - ele diz rindo - o
que você faria sem mim, Elisabete?
— Não chegar atrasada - respondo suspirando - quero ficar, mas preciso
ir para o café.
— Eu te levo. Vá se arrumar, vamos sair em alguns minutos - ele diz
levantando e me dando um beijo leve.
Nós criamos essa rotina de eu tomar banho primeiro enquanto ele faz
nosso café. Tem sido assim sempre porque bem, nas últimas seis semanas eu
pouco dormi na casa dos Stuarts. Já tinha tanta coisa no apartamento de Jason
que nem mesmo precisava ir até lá para pegar novas mudas de roupa.
Assim que Jason me deixa no Good Coffee e vai trabalhar, vejo que algo
está errado. Daryl me encara e me faz um sinal com as mãos, olho para o lado
e vejo April em sua imensa gloria. Ela é linda, magra, loira... o conjunto
completo, mas ainda assim me olha com olhos malvados, como se estivesse
disposta a tudo para me atrapalhar.
— ... e então esta cidadãzinha de meia tigela roubou meu namorado! ELA
DORMIU COM MEU NAMORADO - April fala mais alto - por favor, suma
com ela daqui!
— O que... o que está acontecendo?
— Lizzie, precisamos conversar. Essa senhora está contanto coisas
horríveis e...
— E isso não tem nada a ver com o meu trabalho, tem?
— Lizzie, tem semanas que você se atrasa, agora traz problemas pessoais
para o café. Não acho que...
— Deixa ver se eu entendi - questiono cruzando meus braços - uma
desconhecida vem aqui me acusar de coisas da minha vida pessoal e você me
demite?
— Ela está gritando, não é bom para os negócios - minha gerente diz
entredentes.
— Isto é minha demissão então?
— Sim, Lizzie, infelizmente... - olho para April que me encara vitoriosa e
começa a agradecer a Daryl com lágrimas fingidas e é desconfortável assistir.
Passo para a área dos funcionários e vou até meu armário recolher minhas
coisas quando ouço novamente a voz da gerente — ...onde está indo?
— Tenho coisas pessoais aqui, se quiser chamar o segurança para ver o
que estou pegando, fique à vontade - digo caminhando para dentro e
recolhendo livros e pequenos lanches que mantinha aqui para estudar nos
intervalos.
Daryl entra minutos depois e acompanha meus movimentos. Faço o mais
rápido que posso para fugir daquele silêncio constrangedor. Ela me explica
que um cheque estará a minha disposição com o que trabalhei no mês no dia
seguinte e me sorri amarelo dizendo que sente muito. Uma ova que sente,
mas é bom que ela perceba que eu era uma ótima garçonete e que agora só
ficará com pessoas como Barbra, que flerta e é lenta.
Eu caminho para fora sabendo que só quero contar para uma única
pessoa. Conforme caminho para a Hunt Enterprise uma realização começa a
tomar conta de mim e penso seriamente nos próximos passos que devo tomar.
A voz da professora Parker vem até mim enquanto percebo que sem Jason
não estaria nesta confusão toda.
Assim que chego, sou tratada de forma completamente diferente da vez
anterior. Jason me colocou em uma lista de nomes que tinham livre acesso.
Depois, ele me explicou que o atendimento precisava verificar algumas vezes
quando alguém se dizia sua namorada porque April fez um escândalo da
última vez que esteve ali se apresentando como tal.
Assim que subo, sorrio para Diana, secretária de Matt. Ela é uma mãe e
todos tem muito carinho por ela. Não vejo a secretária de Jason em sua mesa
e só bato algumas vezes antes dele dizer para entrar.
— Oi, amor... que surpresa - ele diz se levantando - não esperava você.
— Fui demitida - eu digo ainda confusa e de supetão - eu quis te contar
assim que aconteceu.
— O que! Como assim...
— Meus horários, meus atrasos, o quão distraída eu ando... eu só não
sei...
— E como isto está te afetando?
— April apareceu no café. É só que não sei o que fazer... - digo me
sentando no sofá e Jason vem até mim pegando em meu rosto e me dando um
beijo leve antes de se ajoelhar na minha frente, ficando na altura dos meus
olhos.
— Estou fazendo algo a respeito disso, ela não vai mais nos incomodar...
— Não quero ficar longe de você, mas você é a pessoa certa no momento
errado. Não tenho tempo, tenho provas, meu trabalho...
— Nós podemos fazer acontecer, Liz. Precisa confiar em mim...
— Eu confio. Estou aqui por causa disso. Penso em terminar e me dói. Só
não sei como fazer isso e... Eu te amo.
— Vem morar comigo - ele diz simplesmente.
— O quê? - pergunto atordoada.
— Nós teremos nossas noites, você vai voltar sempre pra mim. Podemos
só comer, deitar na cama e nos abraçar. Transar como coelhos... É a solução
perfeita.
— Você tem noção do que está falando? Você é meu namorado
oficialmente há o que? Duas semanas. E você nem mesmo pediu, só anunciou
para a sua mãe e...
— Eu sabia que algum dia você ia reclamar disso, mas é só o que sempre
foi.
— Como assim? - pergunto o encarando séria.
— Eu te amo... isso, nós dois, tem meses, mas é só certo e quando vejo
algo que é correto, só quero abraçar e viver isso. Você é minha felicidade,
Liz. Três meses, três anos... qual a diferença? Sei que quero dormir e acordar
com você, me casar com você, ter filhos com você...
— É mais complicado do que isso.
— Porque nós fazemos isso ser complicado. Não precisa ser. Você
conhece minha família, praticamente mora na minha casa. Dorme comigo
todas as noites. Não faz diferença, amor. Começar agora ou daqui alguns
anos... Eu vou te apoiar, você vai ter uma casa para estudar, vai ser uma
professora fodona. Você vai ter tudo sem a pressão social de precisar acordar
e trabalhar como louca até a exaustão, me deixe te dar isso...
— Não quero ser mantida por ninguém, quero ter minhas coisas, meu
dinheiro.
— Pense, Liz. Eu não quero isso. Quero que tenha tempo, que seja
independente. Você tem mais dois anos de faculdade e só quero seu amor em
troca. Por favor...
— Eu preciso ter as coisas por mim mesma - sussurro me levantando até
a porta e Jason suspira meio derrotado. Ele abre e fecha a boca algumas vezes
como se quisesse falar mais, mas desiste e apenas me abraça.
— Eu preciso te dar tempo e ter o nosso tempo. Eu quero que pense a
respeito, ok? Não precisa responder agora, só pense - ele me diz dando um
beijo leve nos meus lábios.
Saio do escritório ainda desnorteada pelos últimos acontecimentos. Estou
tentada, mas não quero ser uma pessoa que vai ser praticamente mantida por
Jason. Entendo a necessidade de tê-lo o tempo todo porque é o que quero, é
tentador, mas ao mesmo tempo, e se não durasse? E se a magia acabasse
meses depois de me mudar?
Estou chegando na casa dos Stuarts quando recebo uma ligação de um
número de fora do estado. Não reconheço no primeiro momento mas atendo e
ouço a voz de Vaughn Stuart do outro lado da linha.
— Lizzie, tudo bem? É Vaughn. Precisamos conversar.
— Claro, algo aconteceu?
— O porteiro nos notificou de algo desagradável e infelizmente não vou
poder continuar com você. Sei que vai entender, mas não queremos que algo
possa acontecer e nos prejudicar.
— Como assim, senhor Stuart?
— Uma mulher apareceu na portaria e fez um escândalo. Disse que você
roubou o namorado dela, que ela está gravida, quebrou coisas. Espero que
entenda que isso não pode ficar deste jeito.
— Não sabia... ela falou sobre mim? - Que diabos!?
— Sim... pelas câmeras a coisa foi bem feia. Loira, alta... espero que
entenda. Se puder sair na semana que vem ia ser ótimo para nós dois. Me
desculpe, Lizzie, só não podemos te manter deste jeito.
— E você não quer saber de mim o que aconteceu? Não conheço essa
mulher... eu... eu... - balbucio. Mantenho minha voz baixa mas estou puta.
Por que April está fazendo isso? Me perseguindo, me fazendo perder
emprego, casa...
— Lizzie, confiamos em você e por isso estou ligando com tranquilidade.
A questão é que não podemos deixar isso acontecer e infelizmente você terá
que ir.
— Está... está tudo bem - digo ainda sem acreditar no que está
acontecendo - gostei muito de trabalhar com vocês e peço desculpas pela
confusão.
— Você não parece estar no meio disso, Lizzie, mas ao mesmo tempo,
temos uma imagem a zelar, não posso deixar que isso aconteça mais vezes.
Se puder dar um conselho, preste queixa contra esta mulher, ela parece um
problema.
— Eu sei, senhor. É o que vou fazer. Obrigada...
Eu subo o elevador tremendo e lágrimas de raiva começam a sair dos
meus olhos. Suspiro pensando que talvez o destino tenha decidido por mim
afinal e pego meu telefone discando o número de Jason.
— Liz, aconteceu algo? - ele diz em resposta atendendo no primeiro
toque.
— April aconteceu. Ela conseguiu que eu também fosse expulsa da casa
dos Stuarts.
— Deus... Liz... amor. Nós vamos resolver. Ela vai parar.
— Eu sei.... pretendo prestar queixa, fazer algo. Ela não pode ficar
fazendo isso - digo suspirando e limpando as lágrimas em meus olhos - sobre
sua proposta, ela ainda está de pé?
— De vir morar comigo?
— Oficialmente sou uma sem teto.
— Eu nunca deixaria você ser, Liz. Você pode ir morar comigo mesmo
que queira ir morar em outro lugar depois.
— Acho que não quero esta opção.
— Então você vai ficar? - ele falou e ficou em silêncio do outro lado da
minha por alguns segundos antes de responder - não vai se arrepender, meu
amor.
Capítulo 12
Jason

Liz se mudou nos dias seguintes e, apesar de mobilizar toda a minha


família, percebi que entre ela e eu conseguiríamos tirar as poucas malas e
caixas. Aquela casa nunca foi dela no final das contas e quase tudo ali dentro
era de seus donos. Nós começávamos nossos dias juntos, e aos poucos as
coisas foram se acertando. Lizzie conseguiu um emprego no período da tarde
e desistiu do emprego de garçonete no Tropical Bar, ficando apenas com suas
atividades na universidade e no trabalho de meio período na livraria a poucos
metros da UCLA.
Todos os dias, quem chegasse primeiro fazia nosso jantar, nós víamos um
pouco de televisão e nos perdíamos um no outro. Era bom, tranquilo e intenso
ao mesmo tempo. Eram mais de três meses que vivíamos nosso idílio
amoroso e eu via cada vez mais que Lizzie era o meu para sempre.
Nós íamos a minha mãe aos domingos e nós fomos ver o túmulo de sua
mãe no Angeles Abbey Memorial Park, em Compton, algumas vezes. Ela
sempre fazia carinho na lápide enquanto eu me mantinha em pé atrás dela,
dando um apertão suave em seu ombro.
— Oi, mamãe... - ela disse sussurrando na primeira vez que me levou lá,
se virando para mim - Quero te apresentar minha mãe. Venho aqui para
conversar quando me sinto sozinha.
Apenas a observei e pensei em quão difícil foi para uma jovem perder a
mãe tão cedo e ter que lidar com o padrasto e tudo o que restou depois da
morte de Allegra Alvarez. Ela superou as dificuldades, saiu de um bairro
perigoso e conseguiu a bolsa em uma universidade prestigiada. Meu coração
sempre se enchia de orgulho quanto pensava no que ela passou e onde chegou
- e como isso me fez chegar até ela.
Sobre April, Lizzie chegou a prestar queixa, mas nada foi resolvido. A
reclamação de perseguição da casa e trabalho foram anexados ao meu
processo e Liz e minha família adicionados ao pedido de restrição.
Apesar de não querer, hoje era o dia que resolveria esse problema em
nossas vidas. Deixei Lizzie na faculdade e dirigi para o escritório de Ruben
Valls, advogado conhecido de Logan que pegou meu caso contra April. Ela
tinha ficado quieta depois das ameaças contra Lizzie, mas continuei com
meus planos porque morria de medo dela poder fazer algo contra minha
namorada.
Chegando lá, eu encontraria April para um acordo já previamente aceito
por seu advogado. Ela ia aprender finalmente a respeitar os outros já que não
poderia chegar nem perto de mim nem de Lizzie por toda a sua vida, ou do
contrário, pagaria cinco milhões de dólares por violação.
Eu estava sentado ao lado do meu advogado quando ela e um senhor de
cabelo branco chegaram. Ao contrário das vezes que a vi, ela parecia tímida,
recatada, como se tivesse vergonha de me encarar. Ruben disse que quando
encontrou o advogado dela em particular para oferecer o acordo, ele contou o
quão furiosa ela tinha ficado. Ela parecia achar que eu nunca chegaria até
aquilo, mas April mexeu em algo muito precioso para mim: minha família.
Eu estava me lixando para ela e só a queria bem longe. Quando ela entrou
e não me cumprimentou e sua postura era completamente diferente de todas
as outras vezes, entendi que ela tinha se conformado.
Ela leu o papel e engoliu a seco enquanto assinava o documento sem
emitir palavra alguma para mim ou para o doutor Ruben. Foi um momento
longo e constrangedor que terminou em menos de cinco minutos. Assim que
April saiu, apertei a mão de seu representante e a segui com o olhar não
resistindo a uma última troca de palavras.
— Preciso te agradecer... - digo a ela e April vira para me encarar. Talvez
estivesse com medo de falar comigo depois do acordo.
— Como... como assim? - ela perguntou assustada.
— Acho que seu tiro saiu pela culatra. Lizzie mora comigo agora, vou
pedi-la em casamento. Você tentou prejudicá-la, mas acabou a trazendo para
mais perto de mim - digo sorrindo - Obrigado!
Um nervo pulsou na testa de April enquanto ela me encarava e sem me
responder, sai batendo a porta. Eu não ouviria falar mais dela mesmo depois
de tudo que iria acontecer nos anos seguintes. Algum tempo depois soube que
ela se casou com um homem vinte anos mais velho do que ela e finalmente
tinha conseguido a vida que almejava. Eu ficava feliz por tê-la longe.
Também tinha dito a verdade para ela. Ia pedir Lizzie em casamento.
Tinha tudo planejado, eu a levaria a um restaurante, tentaria ir em um bar
de salsa e encerrar nossa noite no último andar da Hunt Enterprise onde tudo
começou. Comprei seu anel de impulso durante um almoço de negócios.
Tinha um encontro com um grande da indústria de cinema e estava perto da
Rodeo Drive quando passei pela Tiffany & Co.
Estava distraído com meu celular quando meus pés me levaram até lá e
entendi que era o destino. Fazia uma semana que Lizzie morava comigo mas
eu tinha certeza.
Entrei, escolhi um anel delicado e bonito como Liz e sai com uma
caixinha azul queimando em meu bolso.
O escondi por semanas com medo de afastar Lizzie com minha vontade
de oficializar as coisas, mas em alguns dias faríamos seis meses e já era
tempo suficiente. Elizabete Alvarez estava destinada a ser Lizzie Hunt e ia
trabalhar para que isso acontecesse o mais rápido possível.
Mas os planos estão sempre prontos para serem desfeitos.
Alguns dias depois do acordo com April, Lizzie chegou tarde do trabalho,
cansada e com cara de choro e correu para me abraçar assim que passou pela
porta da frente.
— O professor me reprovou, Jason... Ele disse que meu texto parecia de
uma criança de cinco anos... eu não... eu não... - ela disse fungando.
— Ei, amor... está tudo bem. O que aconteceu?
— O professor de literatura inglesa disse que não sou boa o suficiente,
que não deveria estar lá - ela diz se afastando e respirando fundo, encarando o
chão - falta tão pouco, mas as vezes eu acho o mesmo... lá não é o meu...
— Não continue - a corto, interrompendo sua frase - você merece estar lá,
é uma bolsista esforçada. Tente negociar ou volte no semestre que vem e
esfregue na cara dele que você é incrível.
— Não sou incrível... não entendo porque estou aqui, porque você está
aqui - ela responde com a voz frustrada - por que isso tudo? Sou a droga de
uma impostora roubando a vaga de alguém.
— Ei... é normal você se sentir desse jeito. Todo mundo um dia dúvida de
si mesmo. Mas eu te amo, eu quero você do meu lado e acho você incrível.
Você é doce, inteligente e esforçada e uma das únicas pessoas que
conseguiria cumprir sua rotina estressante com um sorriso no rosto.
— Você também conseguiria...
— Você dorme três horas em algumas noites, tenta se manter acordava
mesmo morta de cansada só para estar comigo, as vezes está desesperada mas
sempre tem um sorriso no rosto, uma palavra boa. Eu te amo, Elisabete.
— E eu também... Mas sabe quem não me ama? Meu professor de
literatura inglesa.
— Isso é bom, porque só eu posso te pedir em casamento.
— O que?! — Ela me encara confusa e enruga seu nariz de duende em
uma careta graciosa.
— Quero me casar com você - digo e me ajoelho em sua frente sorrindo -
você casaria comigo, Liz?
Ela me encara sem acreditar por alguns segundos e balança a cabeça
afirmativamente quando as lágrimas começam a escorrer em seu rosto e
sussurra um “sim” antes de me puxar para seus braços.
— Sei que não vamos fazer isso agora - afirmo a abraçando - você vai
terminar a universidade, virar uma profissional incrível e chutar a bunda
desse professor que te fez ficar chateada. E eu vou estar ao seu lado o tempo
todo, Lizzie, não vou sair de lá.
— Deus... Jason. Eu te amo tanto - ela suspira me beijando e eu a pego no
colo, levando para nosso quarto.
Algum tempo depois, nus, suados e cansados, deslizo o anel que comprei
semanas antes em seu dedo e sinto a perfeição do momento. Ela me sorri e
vejo minha felicidade em seus olhos. Meu mundo sempre seria dividido entre
antes e depois de Lizzie e ia me esforçar para fazê-la feliz a cada momento
que estivéssemos juntos.
Capítulo 13
Lizzie
Dois anos depois

Finalmente acabou. Já não aguentava mais a universidade, sua


programação e suas aulas intermináveis. Eu amava a UCLA mas queria estar
fora todo o tempo. Nos meses antes da minha formatura, comecei a trabalhar
como assistente em uma escola, já dava algumas aulas sob supervisão e
estava cada vez mais inclinada a continuar lecionando. Tinha o sonho de
escrever um livro, de dividir minha paixão por literatura, mas cada vez mais
era fascinada por ser um ponto de mudança como meus professores foram
quando ainda morava no Watts.
Jason me apoiava em cada passo. Ele era extremamente ocupado e a Hunt
Enterprise crescia cada vez mais, mas ele sempre tinha um tempo para mim,
para meus pés cansados, uma massagem nos músculos ou um orgasmo
avassalador. Seu cheiro estava na minha cama, nas minhas coisas e desejava
nosso passo seguinte. Iriamos casar em março, perto da data de onde nós nos
conhecemos na Prestige.
Na minha formatura ele estava lá, gritando por meu nome e me sorrindo
enquanto tirava fotos. Ele e todos os Hunt, que me abraçaram como família e
me incluíam em tudo que faziam. Emma tinha se tornado uma grande amiga e
Logan e Matt meus irmãos mais velhos. Ava e James eram os pais que já não
tinha e sempre me abraçavam e motivaram com o passar dos anos.
Na noite da formatura, Jason fez um jantar especial e me mostrou sua
última tatuagem. Conhecia seu corpo de cima a baixo e cada desenho
espalhado por seu peito, costas e braços, mas algo ali era novo. Em sua
costela estava uma flor de lis estilizada, que ele me disse, tinha sido feito
naquele lugar para simbolizar que eu sempre faria parte dele. Jason era a
única pessoa que me chamava de Liz. Eu era Lizzie para todos, mas a Liz de
Jason. Beijei todas as suas tatuagens, essa em especial, e comemoramos que
estávamos mais próximos do nosso casamento com uma das noites mais
quentes que tivemos.
Na manhã seguinte liguei para Logan, pedi o contato do tatuador de
Jason, expliquei a história e no final do dia, tinha um lobo de olhos azuis em
minha costela. Jason quis brigar em um primeiro momento, dizendo que
tatuagens eram para sempre e aquela era a minha primeira, mas assim que ele
viu, se ajoelhou em meus pés e beijou a pele próxima ao desenho. Dios...
como amava aquele homem.
Depois da formatura, fui convidada a entrar na escola como professora
substituta. Se tudo desse certo, entraria no ano letivo seguinte em uma turma
de literatura só minha. Senti o frio na barriga no primeiro dia, principalmente
quando Jason me deixou na frente da escola e disse para eu mostrar a eles
como eu era ótima. Ele era sempre tão bom e positivo que me fazia acreditar
mais em mim mesma, e terminei tento um dia razoável e uma indicação de
que poderia fazer aquilo para sempre.
A vida foi se encaixando com a nova rotina e de repente já estávamos
próximos do natal. Ava organizava uma reunião no dia de ação de graças e no
natal e eu sempre a ajudava a arrumar e cozinhar. Nós tínhamos trabalhado a
manhã inteira e eu estava arrumando a mesa quando senti.
Me segurei contra a parede suspirando. De novo essa tonteira? Nas
primeiras vezes pensei que estava grávida, mas o teste deu negativo. Criei
esperanças mas não era a hora. Com o emprego e o casamento, ainda
teríamos tempo e poderíamos esperar.
— Você está bem? - pergunta Emma parando ao meu lado.
— Já tem um tempo que estou cansada, com dores de cabeça, tonturas.
— Você pode estar...
— Grávida? - eu completei seu pensamento balançando a cabeça — Deu
negativo. Também pensei...
— Falsos negativos existem, amiga.
— Eu sei... mas tenho ficado doente o tempo todo. Dor no corpo, febre.
Acho que é o estresse do novo emprego, terminar a universidade...
— Pode ser os preparativos, não?
— É... falta pouco - digo piscando um pouco nervosa pela visão turva - a
Ava tem me ajudado tanto. Não sei se conseguiria com todas as coisas que
precisamos resolver para o casamento.
— Mas vai ser lindo! - Emma afirma sorrindo.
— Sim! Você já viu a vista da nova casa de Matt? É ao leste da praia de
Santa Monica, com a visão toda de Malibu. Vamos montar um altar ali e
fazer uma pequena recepção.
— Ava e James não quiseram chamar mais gente?
— Já temos mais de 50 convidados e está bom para mim. Nós dois
vivemos juntos há dois anos, não? Não vai mudar muita coisa.
— Sim... Mas Jason está louco para te ver caminhar de branco para ele.
— Ele me disse o mesmo - digo com um sorriso doce nos lábios
pensando em todas as vezes que ele me falou aquilo - mas acabou a UCLA,
deixei os empregos esgotantes e só tenho apenas um, já estamos quase lá.
Falta pouco para me tornar Elisabete Hunt.
— É um nome que combina com você.
— E com você também - afirmo dando uma cotovelada leve - Emma
Hunt é realmente um nome muito bom...
— Ora, Lizzie... chega!
— O que é? até você, amor? - diz Jason se aproximando e me dando um
beijo leve nos braços.
— Emma que não quer aceitar que o sobrenome Hunt também fica muito
bonito no nome dela.
— Nós precisamos de uma aposta - eu digo - quanto tempo até esses dois
se entenderem.
— Lá vamos nós de novo... - diz Jason rindo.
— Sabe o que? A hora é de comer e Deus se eu não corro até a sua salada
de batatas porque Matt está comendo grande parte delas há horas - diz Emma
se afastando de mim e indo para a mesa.
— Ei... eu ouvi isso! - Matt diz gritando e eu também vou para a sala de
jantar atrás dela, me sentando a seu lado e esperando que Jason faça o mesmo
a meu lado.
— Você gostou mesmo? - pergunto ao irmão do meio dos Hunt.
— Não conte para mamãe, mas sua salada de batatas é incrível! - diz Matt
de boca cheia me sorrindo.
Nós comemos, rimos e dançamos e percebia a sorte de ter encontrado a
família Hunt na minha vida. Era a primeira vez em muito tempo que uma
onda de coisas boas acontecia comigo e nada de ruim me alcançava. Tinham
sido os melhores dois anos da minha vida.
Era uma pena que eles estivessem prestes a acabar.

∞∞∞
Já era janeiro e o calor em Los Angeles era insuportável. Sai para fazer
algumas compras para a casa depois do trabalho e o peso das sacolas mas o
suor me deixava incomodada. Meu resfriado não passava e as febres e
calafrios continuavam a me perturbar. Jason dizia que precisava ver um
médico, mas era algo tão bobo que eu só tomava alguns analgésicos e
melhorava.
Entro com as compras cantarolando uma música que toca no meu Spotify
quando percebo que há algo de estranho. A porta parece meio aberta, o ar
pesado. Olho para os lados e a bancada da cozinha parece mexida. Me viro
para voltar para o caminho de onde eu vim, tentando não fazer barulho
enquanto pego meu celular para ligar para 911 quando ouço a voz.
— Nem pense nisso. Vim ter uma conversa - ouço e ao virar a cabeça em
direção a voz, vejo uma figura do meu passado que achava que não ficaria
frente a frente nunca mais.
Danny estava mais velho, mais tatuado, mais assustador. Já fazia uns
bons cinco anos que não o via e o último que sabia sobre ele é que estava
preso.
— Que merda! Como você entrou aqui? - gritei assustada.
Minha mão no celular tentava dedilhar qualquer coisa, mas só precisa
fazer ele sair daqui. Não tinha para onde fugir com ele andando em minha
direção. Merda, merda, merda...
— Você vê... estava vendo televisão quando vi que a merdinha da filha da
minha ex-namorada estava andando com pessoas muito melhores que ela.
Decidi te procurar e vigiar e como foi fácil! Preciso de dinheiro e você vai me
dar - ele me diz com um olhar ameaçador.
— De que merda está falando, Danny?
— Olhe ao redor. Parece que se deu muito bem... com aquele riquinho
metido a besta. Andando de carros importados. Esse anel caro em seu dedo.
Um milhão até sábado. Estou falando sério - ele diz se aproximando e
sussurrando as palavras contra meu rosto.
— Por que eu faria isso, Danny? Você é um bandido de merda que vem
aqui me assustar e...
— Até sábado... vou ter certeza que você vai arranjar isso. Ou você sabe
o que - ele diz frio puxando uma faca do bolso da calça.
Ele olha para o metal como um espelho e aproxima o objeto do meu
rosto, perto demais. Engoli em seco olhando para a arma e Danny, sabendo
que estava por um fio.
— Você acha mesmo que ele vai me dar alguma coisa? Não sabe como
são essas pessoas. Sou um brinquedo para ele. Eu vou pedir o dinheiro para
ele e vou ser jogada na rua, pelo amor de Deus!
— Eu vejo como ele te olha. Ele se importa com você. Vim provar que estou
falando sério, quero o dinheiro e você tem até sábado para conseguir.
— Eu sou descartável, nunca vou conseguir nada! — repeti engasgada —
pegue algo da casa, ele não vai sentir falta.
— Eu já peguei, coração. Mas quero o dinheiro grande, não essas
mixarias. Toma — ele me estendeu algo que me parecia muito familiar mas
não sabia de onde. Como eu não peguei, ele jogou o objeto na bancada e
esperou minha reação.
Chegando mais perto notei o que me chamou atenção: Danny tinha a mão
ensanguentada como se tivesse batido em alguém e em seus dedos estava o
relógio que Ava deu para Jason aos 18 anos. “Para Jason” dizia simplesmente
no verso e gelei ao reconhecer o objeto.
Ele chegou perto de Jason. Ele o machucou para pegar esse relógio, ele...
Merda, merda, MERDA.
— O que você fez? — eu respondo puxando o relógio e tentando não
externar minha raiva. Precisava sair daqui e deixar a família de Jason segura.
Preciso me afastar, eu só...
— Ele está bem sua idiota, só dei um susto. Não brinque comigo. Você
tem uma semana — e com isso, ele saiu.
No mesmo tempo corri para fechar a porta e me arrastei contra a porta até
chão. Esse era nosso final, podia sentir. Eu preciso afastar Danny de Jason.
Danny dos Hunt. Preciso afastar Jason de mim.
Capítulo 14
Lizzie

Eu choro desconsoladamente e preciso ver Jason. Preciso saber se ele está


bem. Ainda é três da tarde, já que só dei aula pela manhã, então ele está
trabalhando. Quando consigo me recuperar e respirar direito, desço do nosso
prédio e chamo um carro para me levar até a Hunt Enterprise. Os seguranças
e atendentes já me conhecem e simplesmente subo, atraindo olhares pelo jeito
que estou, quase correndo e com o rosto inchado de choro.
— Lizzie, que bom que está aqui! - diz Diana me encarando assim que
saio do elevador - você precisa colocar bom senso na cabeça daquele menino.
— O que... o que aconteceu? - pergunto assustada.
— Jason está machucado e se nega a ir para o hospital... olhe! - ela me
aponta para um lado e ele vem caminhando pelo corredor. Ele tem um pano
na cabeça e sangue seco por sua camisa.
— Lizzie... o que faz aqui?
— O que... o que aconteceu com você?! - digo tremendo e me
aproximando dele.
— Foi tudo muito rápido. Sai do carro e um homem pulou sobre mim me
dando socos. Eu reagi mas ele me jogou no chão e bati a cabeça. Ele levou
meu relógio, amor. O que minha mãe me deu...
— Mas você está bem?
— Me sentindo um merda por este assalto. Era como se ele quisesse me
ferir de propósito... - ele diz pensativo - mas estou bem. Vem cá.
Ele me puxa para seus braços e relaxo ao ver que ele está bem. Eu posso
denunciar Danny para a polícia, mas não saberia onde achá-lo e ele estaria
com ainda mais rancor e fazendo dos Hunt seu alvo. Eu precisava sair.
— Precisa contratar seguranças, você, toda sua família. Olha o que
aconteceu...
— Calma, amor. Los Angeles é violenta. Fui vítima dessa vez e..
— NÃO! NADA PODE ACONTECER - digo gritando e ele me olha
engraçado. Respiro fundo e volto a falar - por favor, pense nisso.
— Ei... ei - ele diz segurando meu rosto - sei que está com medo. Mas
estou bem. Vai ficar tudo bem.
— Não vai... Jason.
— É uma ferida pequena.
— Por favor... pense sobre a segurança... por favor.... - Respondo quase
que em lágrimas. Ele só me abraça e decide voltar para casa mais cedo
comigo, percebendo o quão descontrolada estou. Ele se nega a ir para o
hospital, então eu cuido do corte, fazendo um curativo sob a ferida causada
por Danny.
Os dias passam e não consigo pensar em como sair dessa situação. Danny
é violento, batia na minha mãe e em mim, e dar dinheiro para ele uma vez
significaria uma vida de ameaças com ele sempre machucando alguém para
provar um ponto. Precisava pará-lo. Tentar denunciá-lo de alguma forma,
fazê-lo sair de nossas vidas.
Mas ele me vigiava o tempo todo. O vi duas vezes do lado de fora do
prédio e outra em frente à escola. Se eu pisasse em uma delegacia, significava
que alguém da família seria morto. Era uma sentença.
Jason ia para Nova York tratar de alguns contratos e era o tempo ideal
para fazer as coisas. O negócio cresceu na costa leste e meu noivo tem
passado cada vez mais tempo em reuniões de vídeo, telefonemas e visitas
eventuais.
Nos últimos dias tenho o observado dormir. Meu emocional está frágil e
quase me fazendo quebrar e choro por tudo, mas me faço de forte quando ele
está comigo. Eu digo que o amo o tempo todo, até quando ele está dormindo.
Um plano está se formando em minha cabeça e preciso falar enquanto ele
ainda vai me olhar com esses olhos brilhantes e me responder de volta. Com
o coração inteiro e sem a traição e desconfiança pairando em seus olhos.
Quero gravar esse Jason em minha mente para sempre.
Meu prazo se encerra na segunda feira e faltando quatro dias, preciso ser
rápida. Enquanto estou em casa e Jason não está, só arrumo as coisas. Ele
parte pela manhã e só volta no domingo depois de uma agenda de reuniões
intensa. Preparo um jantar e uma bola enche minha garganta por saber que é
o último. Ele chega e me beija levemente quando estou com uma taça de
vinho encarando a noite de Los Angeles e vai direto para o banheiro.
Assim que ouço o barulho do chuveiro, o sigo, tirando minha roupa e
entrando no box. Assim que me vê, Jason me sorri com seu sorriso torto e
safado e eu o beijo profundamente, o puxando para mim. Ele me levanta,
beijando meu pescoço e enterro meu rosto na curva de seus ombros sentindo
o nó que vai me fazer chorar a qualquer minuto. Ele está duro e guia seu pau
para minha boceta. Ele entra e sai e sinto a intensidade de sentimentos dentro
de mim. Sussurro seu nome a cada investida e seus olhos azuis brilhantes me
encaram sérios enquanto me puxa para seu corpo.
Seus quadris empurram em mim em um vai e vem que faz minha pele
arrepiar enquanto a água quente cai sob nossos corpos. Jason contrai os
músculos cada vez que entra em mim e sei que ele está perto. Também estou.
Minha pele arrepia e solto um gemido enquanto minha vista embaça e sinto o
orgasmo me atingir ao mesmo tempo que Jason. Ele me segura, me puxando
para seu peito, colocando suas mãos em meu queixo e me encarando firme.
— O que aconteceu? - pergunta me olhando profundamente.
— Eu te amo - digo simplesmente.
— Também te amo, Liz. Mas não é só isso...
— Não consigo ficar sem você - digo e realmente não sei o que vai ser
dali para frente.
— É uma viagem rápida, vou estar de volta antes que você perceba.
— Eu sei... mas... - me interrompo. Não tenho palavras para explicar o
que vai acontecer nos próximos dias. Ele me abraça, é intenso. Nós
quebramos o momento um tempo depois, jantando um macarrão simples que
fiz antes dele chegar. Vemos um pouco de televisão antes de atraí-lo
novamente para a cama. Fazemos amor a noite toda e então pela manhã,
muito cedo, ele me beija levemente ainda na cama, diz que está indo embora
e que é para eu voltar a dormir.
Não fechei os olhos durante toda aquela noite.
Eu ouço a porta bater e me descontrolo novamente, chorando até o ar me
faltar, precisando de vários minutos para colocar o plano em prática. Termino
de arrumar as coisas e alugo um Airbnb até decidir o que vou fazer. Pego o
carro de Jason que ficou na garagem e faço minha mudança. Ao contrário da
primeira vez na casa dos Stuarts, eu teria coisas para levar, que compramos e
escolhemos juntos, mas decido por deixar tudo para trás e abandonar o
apartamento como um rato em um naufrágio, pegando apenas roupas e
documentos. Comigo vai apenas coisas da minha mãe e em um último
momento não resisto e pego um porta-retrato nosso.
Graças a Deus que Danny não estava na frente do apartamento quando
saí, mas espero que ele me siga até lá. Faz parte do plano. Ele precisa me
encontrar depois que estiver tudo acabado para que eu conte que os Hunt não
quiseram nada de mim. Penso em deixar meu anel de noivado mas não
consigo me desfazer dele. Decido usá-lo no cordão e levar Jason para sempre
perto do meu coração.
Os dias passam e tenho uma mochila no apartamento de Jason e todo o
resto no local alugado. Ele me liga e eu só finjo que estou bem, que tenho
pressa, que estou ocupada. Não quero ficar tempo suficiente ouvindo sua voz
porque tenho medo de quebrar, de chorar, de deixar a verdade escapar. Não
consigo deixar nossa casa e durmo as noites seguintes com suas roupas em
nosso lençol, me agarrando aos últimos momentos antes do caos.
É domingo de manhã e estou arrumada, abatida de banho tomado quando
ouço a chave na fechadura. Respiro fundo e tento acabar com a tremedeira de
minhas mãos mas é inútil. Observo Jason entrar e olhar para minha mochila
antes de me encarar sério.
— Oi, amor... - ele diz se aproximando para me beijar e eu viro o rosto —
... está tudo bem?
— Não. Precisamos conversar.
— O que está acontecendo? - ele diz colocando sua chave na ilha da
cozinha e sua mala em um dos cantos do ambiente.
— Não quero mais nada disso - sussurro olhando para o chão e percebo
que não serei convincente desse jeito, então levando o rosto e o encaro
repetindo - quero acabar nosso noivado.
— O quê?! - responde Jason confuso enquanto tenta se aproximar e eu
levanto as mãos tentando o afastar de mim. Ele passa a mão no cabelo, o
bagunçando e me sinto mal por fazê-lo se sentir mal depois de chegar tão
cansado.
— Você, essa casa, nosso casamento... você é um capacho da sua família.
Nunca vai poder me dar o que eu quero.
— O que você quer, Lizzie? Eu te conheço, não sei o que está
acontecendo, mas essa não é você. Estava tudo bem dias atrás.
— Não está tudo bem... não estava há algum tempo. Eu tentei mas... -
digo dando de ombros.
— É por isso que estava tão estranha antes de eu viajar?
— Eu... eu conheci alguém.
— Você o quê?! - ele me olha incrédulo e sinto seus olhos doloridos
tentarem entender o que está acontecendo. Me seguro para não o abraçar mas
preciso continuar com isso.
— Estou indo embora. Eu... eu te amei... foi bom. Mas quero mais e ele
pode me dar.
— DO QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FALANDO? - Jason grita e vejo
lágrimas em seus olhos. Também quero chorar mas preciso terminar isso e
sair daqui.
— Bob tem dinheiro, contatos, é rico...
— TAMBÉM SOU, MERDA.
— Não como ele. Nunca mais vou passar por nada e...
— O que está acontecendo?
— Acabou, Jason. Estou sendo honesta. Consegui alguém melhor. Me
deixe em paz.
— E só isso?
Eu não respondo, coloco minha mochila nas costas e deposito a chave ao
lado da sua na mesa da cozinha.
— Eu... eu espero que volte a ser feliz, Jason. Te amei tanto... TANTO.
— Mas não o suficiente para ficar... para não me trair... você estava
transando com ele e comigo, é isso? - ele pergunta e seus olhos estão
vermelhos. Sinto que estou matando-o aos poucos e decido que não posso
continuar, só preciso correr e chorar.
Só saio correndo como uma covarde. Assim que bato a porta ouço algo se
espatifar, como se ele tivesse jogado contra a madeira.
Sigo meu caminho enquanto bloqueio os contatos de Jason e de toda a sua
família. Quando a poeira baixar ele vai achar a história esquisita e talvez me
procure. Quero sumir no meio da multidão. Quero ser a sombra que vou me
tornar agora que não tenho Jason.
Capítulo 15
Lizzie

Danny me ligou no domingo, quando estava já estava no apartamento


alugado e fedorento que ficava perto da UCLA. Tinha me certificado de
deixar algumas coisas para trás que fariam Jason não querer vir atrás de mim.
Na sexta pedi demissão do meu trabalho com medo de alguém me
procurar na escola. Tinha algumas economias e tenho pensado em sair de Los
Angeles e viver uma vida tranquila enquanto monitoro se Danny chegou
perto de algum dos Hunt. Talvez voltar para o Watts e esquecer tudo o que
conquistei nos anos anteriores.
Pensaria no que fazer e no que seria na minha vida sem Jason depois, mas
por agora, precisava me embebedar, mas tinha medo de meu padrasto
aparecer a qualquer momento e eu me tornar vulnerável. Cai em um sono
pesado e cheio de pesadelos depois de chorar abraçada a travesseiros
cheirando a mofo. Não dormi muito e pela madrugada minha cabeça estava
pesada, como se tivesse de ressaca.
Observei o céu clarear do lado de fora a espera do passo final do plano.
Quando alguém bateu na porta na manhã de segunda-feira.
Instintivamente eu sabia que era Danny, a única pessoa capaz de me seguir.
Digitei rapidamente em meu celular por 911 e olhei pelo olho mágico. Era
mesmo ele do outro lado e confirmei a ligação, esperando alguém me atender
do outro lado da linha.
— Vamos, Elisabete, sei que está aí... - ele diz batendo com força
enquanto ainda ouço o barulho da ligação se completando.
— 911, qual é a sua emergência?
— Meu padrasto está do lado de fora do apartamento que estou
hospedada e está me ameaçando. Ele está forçado a porta. City Center, 404,
na esquina da Lucas Ave com a sétima... venham rápido.
— ELIZABETE! - ele grita do outro lado da porta e começa a empurrar e
bater com força. Eu aperto o telefone na mão.
— Aguente firme senhora, chegamos em oito minutos.
— Me ajude... me ajude por fa... - é quando a porta arrebenta e Danny se
empurra através da entrada, vindo direto até mim e pegando no meu pescoço,
começando a me sufocar.
— Cadê o meu dinheiro, puta!
— Ele me man... mandou em... embora - digo com dificuldade - não te...
tenho dinheiro.
— VAGABUNDA! - ele grita e me empurra para trás.
Caio de frente, com a barriga virada para o chão e quase de joelhos, e
tento engatinhar porta afora mas ele me pega, me sacodindo com força.
Lembro das aulas de defesa pessoal e piso em seu pé e dou uma joelhada em
suas partes e corro porta a afora enquanto o ouço gemer atrás de mim.
Chego no final do corredor quando sinto seu corpo sobre mim e de
repente a pressão acima do meu quadril com algo afiado. Ele segura meu
rosto sobre o carpete sujo do hotel enquanto força algo duro nas minhas
costas. Sinto o objeto entrar e sair com força e pelo pouco que posso ver, tem
sangue por todos os lados. Meu sangue. Como se não pudesse aguentar mais,
desmaio enquanto Danny não para de me apunhalar.
Minha cabeça fica pesada, tudo está escuro e de repente eu abro os olhos
para um lugar muito iluminado. Estou em um ambiente completamente
diferente de onde me encontrava antes de apagar.
— Olá, Elisabete. Tudo bem? - ouço a voz baixa de uma médica a meu
lado enquanto abro os olhos, piscando devagar - que bom que acordou. Já era
sem tempo.
Percebo que estou deitada de bruços com um lençol branco sobre mim e
sou observada de perto pela médica.
— Onde estou? Há quanto tempo estou aqui?
— Saint Andrews e a poucas horas. A polícia te achou desacordada e com
sete facadas nas costas. A pessoa que te fez isso já foi presa e você está
segura agora - eu balanço a cabeça em resposta e ela continua –Eles vão
querer falar com você, mas está fora de perigo. Conseguiram te trazer a
tempo de acontecer algo pior.
— Quanto tempo vou ficar aqui? - digo baixo e com dificuldade - minhas
coisas estão naquele apartamento.
— Preciso falar com você sobre isso - ela diz suspirando — algo chamou
atenção em seu exame de sangue. Nós vamos ter que refazê-los.
— Alguma complicação?
— Outra coisa no seu exame me chamou atenção, nada a ver com o
ataque - ela diz baixo - vou preparar tudo, ok? Tem alguém que queira
chamar?
— E... não. Não tenho família.
— Tudo bem... um policial deixou sua bolsa e seu celular e vão passar
pelos seus pertences mais tarde. Todo o resto você consegue resolver depois.
Uma enfermeira vem te ver daqui a pouco, tudo bem?
— Obrigada - eu murmuro e vejo a médica sair. Vejo minha bolsa ao lado
da cama e me esforço para pegá-la. Me estico e encontro meu celular, vendo
que tenho mensagens de Emma, que devo ter esquecido de bloquear, e de
recado de um número desconhecido.
“Como pode fazer isso com Jason?”, ela dizia.
Deus... como eu o queria aqui. Com a prisão de Danny tudo poderia se
resolver e voltar ao normal, mas eu tinha tanto medo de que mesmo longe ele
conseguisse que alguém fizesse alguma coisa.
Tive certeza que não deveria mais chegar perto de Jason assim que
coloquei o celular no ouvido para o recado na secretaria eletrônica.
Vou observar você mesmo de longe. Vou fugir, vou sair e quando te
encontrar, acabo com você, seu namoradinho e toda a família dele.
Ele tinha gasto seu direito de usar o telefone para isso? Por que tanto
ódio?
Não poderia chegar perto de Jason nunca mais. Danny estaria sempre
olhando de longe e eu sempre com medo de que alguém os ferisse. Como as
coisas podem se esvair de um dia para o outro, como areia entre os dedos?
Eu só teria lembranças, memorias felizes com um sabor amargo. Mas
teria também a certeza, que como estivesse e com quem estivesse, Jason
estaria bem, seria feliz. Iria garantir isso até o final dos meus dias.

∞∞∞
Alguns exames depois, a médica conversou comigo seriamente.
Leucemia aguda. Rápido, talvez letal. Eu chorei, me desesperei, percebi o
quão sozinha estava e quão longo seria aquele tratamento. Eram tantos “e se”
na minha cabeça, tantas coisas que rondavam meu pensamento e a cada noite
eu fechava os olhos e pensava em Jason e no que poderia ter sido se não fosse
tão covarde, se tivesse contato a ele, se tivesse ido a polícia.
Eu brincava com o meu anel no pescoço, tentava ser positiva, mas estava
me matando aos poucos. Foi como Emma voltou a minha vida, foi como
apesar de nunca ter contato a verdade, ela ter ficado comigo e me apoiado.
Através dela, eu tinha um teto e consegui um auxílio social que me garantia
algum dinheiro além dos trabalhos temporários que conseguia na internet. Só
fui vivendo, ficando melhor e pior, e desejando a vida que eu não pude ter.
Já não tenho pelo que lutar, pelo que querer. Emma tinha me dito que
Jason mudou, que ele me odiava e não podia ouvir meu nome. Eu merecia
mas me sentia cada vez mais morta, isolada. Um dia fiz Emma me prometer
que estaria lá quando acontecesse. Uma amiga, alguém para quando desse o
último suspiro, quando meu caixão baixasse no final de tudo.
— Eu não quero morrer sozinha... - expliquei com olhos cheios de
lágrimas para Emma que só balançou a cabeça concordando.
Elisabete Alvarez, que um dia quase foi Lizzie Hunt, não faria falta a
ninguém, mas morreria sentindo falta de alguém que vivia na sua memória
como um filme que não parava de passar. Mesmo que fechasse os olhos.
Capítulo 16
Jason

Eu entrei em negação, não entendendo o que tinha acabado de acontecer.


Tinha quebrado um jarro na porta e tinha vontade de jogar mais coisas para
longe. Lizzie saiu com uma mochila, então ela voltaria pelo resto, certo?
Caminhando pela casa percebi meu engano. Seu computador e livros se
foram, sua metade do armário estava vazia. A pintura colorida que era de sua
mãe já não estava na parede assim como uma das nossas fotos em cima do
aparador da sala. Ela tinha se preparado? Aproveitado a viagem para tirar
suas coisas?
Caminhei pela sala desnorteado enquanto tentava ligar para seu telefone
quando a mensagem de que aquela linha tinha sido desligada tocava sem
parar. Entrei em suas redes sociais, tentei mandar mensagens e e-mails... eu...
eu precisava entender. Em todos os lugares ela não estava disponível, seu
perfil não aparecia, o e-mail voltava. Ela tinha me bloqueado? Como alguém
desperdiça quase três anos e dedica apenas 10 minutos de conversa para
terminar tudo?
A casa parecia vazia, silenciosa demais, já não era um lar.
“Eu te amei”.
EU TE AMO, PORRA. NO PRESENTE.
Mexo em suas coisas em busca de algo quando encontro na cômoda ao
lado da cama camisinhas e alguns itens de hotéis da região. Nós não usamos
proteção porque Lizzie sempre usou anticoncepcionais, e isso e a sua negação
em dizer se estava comigo e com o tal Bob ao mesmo tempo faz meu coração
em mil pedaços.
Lizzie tinha uma vida dupla. Ela estava vendo alguém em minhas costas.
Minha noiva estava me traindo de uma forma cruel e covarde.
Mesmo assim...
Mesmo assim precisava falar com ela. Ter uma última chance. Talvez ela
só tivesse confusa. Íamos casa e Liz tinha apenas 22 anos, tão jovem... tão...
MERDA!
Saio porta a fora sem saber bem o meu destino e passo por todos os
lugares que tenham algum significado para Lizzie. Vou a UCLA, ao Isla
Florida, a Carlos, todos os seus antigos trabalhos, o Observatório Griffith e
outros lugares que ela gostava de passear, mas ela não está em lugar nenhum.
Não deixo de tentar ligar e a operadora me diz que aquele número está
desligado todo o tempo.
De madrugada chego em casa mas não consigo conciliar o sono e só
começo a beber tudo que tenho em casa, até que dá sete da manhã e vou até
seu trabalho. Não estou no meu melhor juízo, ainda usando o terno que
cheguei, amassado, com os olhos injetados e a barba por fazer. Sei que estou
assustador.
Chego na escola e todos me olham a ponto de que cerca de 30 minutos
depois um segurança vem na minha direção.
— Preciso que o senhor saia - ele diz simplesmente - vou chamar a
polícia se continuar.
— Estou esperando Elisabete Alvarez, ela dá aula aqui.
— Sei quem é, mas ela não trabalha mais aqui, saiu na semana passada -
ele diz simplesmente - você precisa ir.
— Ela foi demitida?
— Se demitiu. Ela não está aqui e nem vai chegar. Por favor, vá - ele diz
firme e eu balanço minha cabeça bêbada em concordância e caminho alguns
metros antes de me sentar no meio fio e colocar minhas mãos na cabeça.
Não tenho ideia de quanto tempo passo ali, mas o sol já está alto quando
o efeito da bebida começa a passar e sei que preciso de mais. Passo em uma
loja de conveniência e compro meu peso em álcool antes de ir para casa e
começar minha festa de piedade. Enquanto eu fechasse os olhos e visse
Lizzie, bebia. Meu telefone começou a tocar no período da tarde e Logan,
Matt, Emma e meus pais tentavam a todo custo entrar em contato comigo.
Ouvi passos e batidas, mas nunca atendi, continuando a beber direto da
garrafa enquanto encarava as paredes do meu apartamento. O dia clareava e o
dia escurecia e eu pouco mudava de posição enquanto sentia as lágrimas em
meu rosto e o nome de Lizzie saia de meus lábios.
Foi quando um barulho forte saiu da porta do apartamento e na minha
posição, no chão da cozinha, vi meus irmãos me encarem com pena.
— O que aconteceu? - foi Logan que me perguntou, se abaixando em
minha direção.
Eu não respondi e eles me pegaram pelo braço como se eu fosse um
boneco de pano. Ainda de roupa, senti a água gelada do chuveiro e me
negava a deixar a realidade voltar. Estava confortável em minha névoa
bêbada e me negava a encarar um mundo sem Lizzie em que eu estivesse
sóbrio e sabendo que ela não estaria mais ali.
Vomitei, chorei e falei coisas sem sentido até pegar em um sono pesado e
acordar com ambos me olhando preocupados. Em algum momento eu contei
o que aconteceu e pedi para não falar mais a respeito. Dias depois, magro e
abatido me olhei no espelho e decidi que tinha acabado. Fui ao primeiro
almoço em família e assim que me viu, minha mãe correu e me abraçou.
Antes que qualquer um deles dissesse qualquer coisa, eu apenas falei:
— Ela me traiu e foi embora e gostaria que não falassem dela, no nome
dela ou em qualquer coisa que lembre que ela esteve aqui. Ela me machucou
e não merece mais um minuto dessa família. Por favor, tentem isso por mim.
Todos balançaram a cabeça afirmativamente e seguimos a vida, algumas
semanas forçando para não falar dela e aos poucos esquecendo que algum dia
ela esteve ali. Eu tinha me tornado alguém diferente, que tinha sido quebrado,
sério, que pouco ria ou era aberto como antes dela aparecer na minha vida.
Me dediquei a Hunt Enterprise e nosso negócio virou a porra de um sucesso
às custas de 14 horas de trabalho e minha mão de ferro.
Seis meses depois, comecei a ir a Nova York e percebi que doía como um
inferno. Entrei em uma boate, dancei com uma mulher, ela se esfregou em
mim, ela tentou me beijar, encostar em mim e brincar com meus músculos.
Era o cheiro errado, o sabor errado, a pessoa errada. Tentei mais algumas
vezes até perceber que não estava pronto. Um dia deixaria minha mágoa e
rancor de lado e conseguiria deixar de ser um celibatário que bebia sozinho
tentando esquecer mas não conseguia.
Ficava cada vez mais tempo em Nova York, longe da minha família e de
suas perguntas curiosas até que algo aconteceu. Ashton Hunt, meu pai
biológico morreu e descobrimos que tínhamos duas irmãs que nunca
conhecemos. Coloquei meu tempo e esforço em achá-las e trazê-las para a
família e comecei a fazer as pazes com estar com pessoas que me amavam,
com uma rede de apoio que nunca me deixaria em paz, mesmo com sua
curiosidade elevada.
Detesto ser essa pessoa, mas no meio do caminho, achei minha irmã
favorita. Victoria combinava comigo, com o meu humor, com a dor que eu
carregava dentro de mim. Ela foi tão desconfiada na primeira vez que nos viu
e de repente era o irmão mais velho e confidente enquanto todos os nossos
irmãos estavam felizes. Tanto que quando finalmente ela encontrou alguém,
me alegrei como um idiota por ser o único solitário e me orgulhei de quão
longe ela chegou. Eu os vi acharem seus maridos e esposas, os vi fazerem
burradas e se arrependerem, e em todo esse tempo, eu demorava a dormir e,
ao fechar os olhos, eu a via.
Todas as noites funcionavam do mesmo jeito. Deitar e não dormir. A
insônia tinha sido minha amiga desde que... desde que, bem... voltei a dormir
sozinho. Eu já não sabia mais como fazer e meu corpo se negava a cooperar.
Dois anos e ainda sentia falta do corpo dela enrolado no meu, da pele macia
que eu acariciava antes de pegar no sono. Do seu cheiro servindo como um
caminho para os braços de Morfeu. Tinha caído na tentação de beber até
dormir, mas assim como tentar usar outras mulheres, era uma coisa que
decidi parar de tentar uma e outra vez.
Eu rolava na cama, as vezes por minutos, as vezes por horas. Desajeitado
e querendo um momento que já não estava mais lá. Finalmente conseguia
dormir e ela aparecia. Era sempre a última coisa que eu pensava quando
perdia a consciência.
Eu quis que parasse mas nunca aconteceu. Me resignei a ter Lizzie por
poucas horas. A minha Liz, não a estranha do dia final. A mulher que eu
deveria passar o resto da minha vida, ter filhos, netos, que estava tatuada em
minha costela. Era transportado para essa fantasia até a manhã seguinte,
quando me crucificava por me afundar cada vez mais na falta que ela me
fazia.
Quebrado. Ferido. Só dependia de mim esconder tudo isso. Minha família
não merecia sofrer comigo e por mim. E então só fui entrando em uma
concha de seriedade. Já não sabia a graça das coisas, só sentia os dias
passando ao meu redor. Sempre seria uma parte de minha alma faltando e
precisava me acostumar. Quando Lizzie foi embora, uma parte do Jason que
eu costumava ser foi embora com ela, e tinha receio que ele nunca mais
voltaria.
Capítulo 17
Jason

Uma Emma muito grávida me convidou para almoçar junto a Logan. Eu


estava cada vez mais tempo em Los Angeles e menos em Nova York pela
minha decisão de cuidar mais da minha família e estar presente. Eles tinham
finalmente ficados juntos e apesar da minha vitória moral, os dois nos
pegaram de surpresa ao dizer que estavam casados desde Las Vegas. Eu não
quis discutir sobre a aposta porque no final tudo ficou do jeito que deveria: eu
como padrinho e todos nós saindo da miséria de vê-los como amigos sem
perceber que são perfeitos um para o outro.
— Emma, parece que vai explodir! - digo e dou um beijo suave em sua
bochecha enquanto nos sentamos na varanda do restaurante.
O garçom nos serve água e deixa os menus, que Logan parece estar
estranhamente muito interessado e mal me olha.
— Com tanto tato quanto um elefante, heim... - ela diz rindo - obrigada
por vir nos encontrar. Tenho algo para contar e pode ser difícil...
— O que está acontecendo? - pergunto sério olhando de Logan para
Emma enquanto ambos fogem do meu olhar.
— Nós precisamos contar algo sobre o casamento - Logan responde.
— Lizzie estará lá - diz Emma baixo como se estivesse arrancando um
band-aid.
Lizzie!?
— Por que ela estaria lá?
— Ela é minha amiga e minha madrinha - ela responde baixo.
Encaro Emma que ainda olha para o chão enquanto meu irmão me faz
uma careta. Me levanto devagar e os encaro até que Emma e Logan me
olham nos olhos. Estou puto por fazerem isso comigo. Sinto minha veia saltar
no pescoço, sei que estou vermelho e prestes a perder meu temperamento.
Estou puto pelo poder que um simples nome tem em mim.
— É bom que fiquem felizes com a decisão que estão tomando, porque
não vou pisar nesse casamento.
— Jason! - Logan gritar e eu saio andando, tentando sair do restaurante o
mais rápido possível. Ouço alguém correndo e vejo que Logan me alcançou e
está na minha frente.
— Logan, me deixe ir... - sussurro feroz e o olho duro. Por que ela
estaria lá?
— Coisas aconteceram... circunstâncias... - Logan diz colocando a mão
no meu peito e tenho vontade de socar meu irmão pelo que ele está me
fazendo sentir. Não quero sentir, não quero pensar - Vamos nos casar daqui
um mês, aceleramos tudo e quero que esteja lá. Rapidamente se o desejar,
mas apenas lá. Somos família, Jason... por favor...
Eu suspiro e me afasto, dando alguns passos para trás. O encaro duro e
respondo dando a volta.
— Pensasse nisso antes.
Eu volto para casa e faço minhas malas para Nova York, abandonando o
apartamento rapidamente, o mesmo que morei com ela. Eu ainda o tenho
apesar de ter caído na tentação de vende-lo muitas vezes. No meu cargo atual,
posso trabalhar da Hunt aqui de Los Angeles como de lá. No fundo sei que só
estou fugindo, mas não consigo evitar.
Ver meus irmãos felizes me deixa feliz para caralho, mas com a sensação
de vazio. Deveria ser eu, já deveria ter um, dois filhos, Lizzie redonda os
esperando assim como Emma. Era o sabor da vida que eu não teria nunca que
descia ácida no estômago.
Desembarquei em Nova York e comecei a trabalhar, evitando pensar em
qualquer outra coisa que não fosse negócios. No dia seguinte chamei Blair
para almoçar. Era impressionante como ela tinha uma agenda tão louca
quanto a minha no setor de cinema. Sempre que podia, tentava roubar alguns
minutos com ela. Blair era a irmã sensata, a que nos ouvia de coração aberto
e sem julgamentos. Tinha me acostumado rapidamente a ela e a buscava
sempre que algo estava me incomodando. Quando ela contou a família que
estava em um set em Nova York, a contactei na espera de um desabafo.
Assim que entrei na delicatesse no final da quinta avenida, ela se levantou
para me abraçar. Com seu cabelo vermelho em um coque, uma calça jeans e
uma camiseta de banca, Blair era tudo o que Victoria, sua irmã gêmea não
era. Onde uma era básica a outra era exuberante, se completando como o dia
e a noite.
— Não sabia que estava em Nova York - ela disse me encarando.
— Foi uma decisão de impulso.
— Pelo que?
— Eu... ah... Minha ex-noiva. Emma a convidou para o casamento - digo
me sentando a sua frente e fugindo de seu olhar enquanto respondo.
— Por quê? - ela perguntou e suas palavras são o eco da pergunta que eu
também me fazia.
— Não sei... só vim embora, não quis saber. Não perguntei. Ela vai ser a
madrinha.
— Como isso é possível?
— Nem nos meus sonhos mais louc0s saberia responder.
— E o que você vai fazer?
— Não ir.
— Ah não, Jason - ela disse suspirando - é o casamento do seu irmão,
você vai.
— Mas ela...
— Fique longe dela.
— Não consigo.
— Como não consegue?
— Eu vou vê-la e tenho medo de como vou reagir. Eu a odeio e a amo na
mesma intensidade, Blair - digo quase envergonhado, esfregando a mão no
meu rosto - ela tem poder sobre mim.
— Não a deixe ter - ela disse simplesmente — Chegue atrasado, vá
embora cedo, sei lá. Mas beije Emma e seu irmão, tire algumas fotos e não
chegue perto dela.
— Não é tão fácil.
— É exatamente assim de fácil. Você não é o único que foi enganado,
que sofreu. Se junte ao clube dos corações partidos, irmão. Posso estar com
você em todos os momentos e sei que Matt e Vic também estarão - ela diz
estendendo a mão e me apertando antes de seu celular começar a vibrar -
falando dela...
Blair atende enquanto nosso sanduiche chega e dou algumas mordidas no
pastrami com molho. Eu a vejo reagir, dizendo um “você está brincando!” e
depois derramar algumas lágrimas. São muitas emoções enquanto não
cheguei nem a metade do meu sanduiche e minutos depois ela desliga me
sorrindo.
— O que foi tudo isso?
— Você está com seu passaporte? - ela me pergunta simplesmente.
— Sempre, mas por quê?
— Vamos para a Grécia. Vic decidiu se casar com Liam.
Como se não bastasse a viagem de impulso para Nova York, dias depois
estava em Zakynthos, conduzindo minha irmã para o altar. Ela era feliz e eu
estava feliz por ela, e a observando pude ver a burrada que estaria fazendo se
não participasse desse momento da vida do meu irmão por um capricho meu.
Um capricho dolorido, mas apenas meu.
Eu me isolei apesar disso, já não atendendo telefonemas e me negando a
ver meus irmãos quando o assunto não era trabalho. Emma chegou a tentar
marcar um encontro com Lizzie antes, mas me neguei. Passei a não dormir e
voltei a beber, como se a fortaleza que tinha conseguido construir estivesse se
derrubando aos poucos. No dia, me arrumei com esmero, ajeitei meu terno e
arrumei meu cabelo rebelde para trás com um gel. Meus olhos azuis muito
frios me encaravam e mostravam o meu estado de espírito através das
olheiras de cansaço.
Me atrasei, insuportavelmente, mais tarde do que os noivos e entrei
correndo pela lateral enquanto o pastor abençoava Emma e Logan e meu
irmão me deu um olhar agradecido antes de voltar a prestar atenção nas
palavras do celebrante. Olhei ao redor e podia ver minha mãe me olhando
desaprovadora enquanto Matt e Sarah apenas me cumprimentaram com a
cabeça. Meu olhar foi atraído para frente, imediatamente ao lado de Sarah e
eu a vi.
Muito mais magra de cabelos muito curtos. Um sorriso leve nos lábios e
minha mente voltou para todas as vezes que eu vi um parecido em sua boca.
Como se tivesse sido puxada pela força do meu olhar, ela me encarou. Seus
olhos abriram e uma lágrima silenciosa escorreu de seus olhos enquanto
murmurava um “Jason”. Tudo ficou quieto por alguns segundos. Ela me
olhou como eu a olhei e então o pastor pediu para o noivo beijar a noiva e
todos começaram a aplaudir.
No automático, acompanhei as pessoas enquanto Matt apareceu do meu
lado, me puxando pelo braço enquanto observava a responsável pela minha
cabeça de vento.
— Não faça nada de estúpido - ele murmurou em meu ouvido me levando
para a mesa enquanto Lizzie me seguia com o olhar, me encarando da mesma
forma que eu fazia com ela. Que tipo de feitiço ela me jogou?
Capítulo 18
Lizzie

Eu acompanhei quase de camarote o relacionamento de Logan e Emma,


antes, quando eles eram apaixonados um pelo outro mas escondiam o
sentimento, e agora, quando finalmente deram renda solta a paixão e
perceberam que eram perfeitos um para o outro.
Logan só soube da minha existência na vida de Emma em um dia que nos
encontramos por acaso no apartamento dela e imediatamente ele me atacou,
leal a seu irmão. Quando contei o que estava acontecendo comigo, ele baixou
a guarda, e era esse o meu medo.
Não queria que Jason soubesse desse jeito. Que ele me procurasse porque
eu estava doente. Pelo pouco que vi em televisão e revistas, ele tinha se
tornado sério, ranzinza, alguém que não parecia feliz. Emma me dizia o
mesmo. Falava que o rompimento do noivado tinha influenciado ele mais do
que eu era capaz de imaginar.
Eu sentia saudade o tempo todo e pensava em quão diferente a minha
batalha com a leucemia seria com ele e a família ao meu lado. Quando a
doutora Hellen da emergência me encaminhou para Amber Jones,
oncologista, tremi. Era leucemia aguda, e como foi diagnosticada cedo, tinha
muitas esperanças. Pelo tipo de câncer, precisávamos ser rápidos, porque era
uma doença agressiva que se desenvolvia rapidamente.
Todas as febres e tonturas que tive eram sinais claros que decidi ignorar e
me martirizava o tempo todo, porque minha história podia ser diferente. Eu
comecei a quimio semanas depois de diagnosticada. Estava sozinha,
desempregada, cada vez mais em dívidas para pagar minha saúde e chorava o
tempo todo, estava sempre triste. Esquecia de comer todo o tempo, dormia
mais do que deveria. Estava maltratando minha saúde, eu sabia, mas ao
mesmo tempo só me perguntava para que? Por que precisava lutar?
A primeira rodada não deu certo, tampouco a segunda. Entrei na lista de
um tratamento experimental. Tentava tomar meus remédios em dia e mais
sobrevivia do que outra coisa. Estava sempre cansada, com dor, me sentindo
mal.
Pensei algumas vezes em suicídio, mas Jason sempre aparecia no fundo
da minha mente. Foi quando Emma me encontrou no hospital e eu tive uma
virada. Ainda era sozinha, mas tinha um pouso, um lugar para voltar. Se ela
era minha amiga antes, hoje era essencial para mim, só não sabia que ela
também achava isso de mim até receber o convite para ser sua madrinha.
Eu trabalhava em meu computador e só esperava ser chamada pela
doutora Amber. Ela e eu sabíamos que minha única esperança era um
transplante de medula e estava cada vez mais fraca. O tratamento custava
caro e minha médica buscava meios de conseguir que ele fosse custeado. Ela
tentava e eu esperava, como uma valsa da morte sobre o que chegaria
primeiro.
A menos que o doador aparecesse rápido, ou eu morreria primeiro, ou
estaria muito mal para fazer o procedimento e morreria em seguida. O tempo
estava correndo contra mim. O tratamento experimental poderia prolongar as
coisas, mas a custa de muitos mil dólares que eu não tinha. Já estava na fila
há anos e ninguém compatível apareceu. As esperanças eram muito, muito
pequenas.
Eu fecho os olhos por alguns segundos pensando em como será ver Jason
depois de tanto tempo. Tinha pensado em procurá-lo depois que soube da
morte de Danny na cadeia, mas ao mesmo tempo, para quê? Estava
condenada.
Me ligaram há seis meses dizendo que eu era um dos contatos do meu
padrasto. Ele gostava de me ligar, as vezes não falando nada, às vezes
fazendo ameaças vazias só para eu desligar em seguida. Ele ganhava o
privilégio de ligar para alguém de períodos longos a períodos longos, e ele
usava cada um desses momentos para me fazer não esquecer.
Respirei aliviada por alguns instantes, mas percebi que nada tinha
mudado. Era eu, isolada e doente e Emma me visitando ocasionalmente,
quando ela aparecia, quase sempre eu estava afundada no computador
fazendo uma tradução, revisão ou qualquer coisa que envolvesse texto que
pudesse fazer a distância. Era o caso desse dia, em que dividíamos um
pequeno café enquanto meus trabalhos me esperavam no computador.
— Você vai ser minha madrinha - disse Emma me encarando enquanto
acariciava sua barriga em uma das visitas em seu antigo apartamento. Não foi
uma pergunta, foi uma afirmação.
— Pare de ser louca. Você vai se casar com a família que me odeia -
respondo bebericando meu café.
— E eles vão ter que aceitar - ela disse me dando língua - eu a quero lá.
Vamos adiantar o casamento...
— Para que eu não tenha morrido até lá? - pergunto como uma piada e
sinto uma dor no peito.
— Pare de fazer piadas com isso, ok? Me magoa.
— Desculpe, Emma. Mas não consigo entender.
— Você me apoiou quando eu precisei e quero você comigo quando me
casar, é muito simples.
— Mas Jason...
— Ele vai se comportar. Matt e Logan estarão de olho nele, por favor,
Lizzie!
— Tudo bem... tudo bem.. - Concordo suspirando - devo ficar sentada o
tempo todo de qualquer jeito. Já nem consigo mais ficar de pé mais do que
alguns minutos. Vou ter que sair cedo de qualquer maneira.
— E vamos dançar uma música. Eu, você e o bebê e depois morreremos
de cansaço - ela diz rindo.
Emma começa a falar dos preparativos e de como escolheu um vestido
para mim. Uma pessoa iria até o apartamento para ajustá-lo, já que eu ficava
cada vez mais preocupantemente magra, e me entregaria com as correções
necessárias.
No dia, me arrumei, pronta para estar lá para Emma e Logan. Ele, de
fraque e parecendo um modelo de revista, e ela com um vestido branco
simples e gloriosa com sua barriga de final de gravidez. Ela tinha uma tiara
de flores e parecia brilhar de felicidade.
Jason não apareceu até o início da cerimônia enquanto o resto da família
Hunt me encarava com dor, como se minha presença os machucasse. A
cerimônia se desenrolou até que Jason surgiu no fundo do salão e caminhou
até o pequeno altar se colocando ao lado do irmão, o cumprimentando. Ele
observou o seu redor até que seus olhos afiados me encararam e pude sentir a
força que emanava deles.
Seu nome escapou de minha boca e uma lágrima solitária escapou antes
que começasse a tentar respirar profundamente para me acalmar. Ele apertou
os olhos ainda sem parar de me encarar até que Matt o puxou pelos braços
enquanto a cerimônia terminava e o levava para a mesa da família.
Emma me queria ali também, mas me neguei. Tinha uma mesa lateral de
onde vi as pessoas dançando, comendo e se divertindo enquanto eu tentava
me manter sã apesar de sentir o peso de seus olhos sobre mim. Surgindo do
nada, Jason parou na minha frente, estendendo a mão. Foi como se um
flashback daquele primeiro toque todo de novo, a dança no Isla Florida, sua
mão nunca deixando a minha, o formigamento e a energia. Tudo surgiu em
minha mente enquanto ele apenas dizia:
— Me concede essa dança?
— Jason, não... - respondi baixo o vendo de perto. Ele parecia tão igual
mas tão diferente, duro. Fui eu que causei aquilo?
Ele ignorou minha resposta, me puxando para seu corpo e senti como se
pudesse cair. Apertei seus braços tentando me estabilizar enquanto ele me
puxava para mais perto, quase com violência. Estava frágil depois para este
tipo de coisa e sabia que se ele me soltasse, eu cairia no chão como um saco
de batatas.
— Vamos dançar. Somos padrinhos, venha! - Ele tinha um olhar meio
louco e entendi que aquilo era uma espécie de vingança.
— Por favor, me solta... Não faça isso. Não estrague o casamento do seu
irmão e cause uma cena. Nós podemos conversar em outro lugar.
— Não estou fazendo nada e não quero conversar. Mas você quer uma
cena? Vamos fazer uma cena. Vamos dançar!
Ele arriscou alguns passos, tentando conduzir mas eu não tinha forças
para acompanhar. Era toda uma vida quando dividíamos a pista de dança e
fazíamos um espetáculo. Agora eu só gostaria que acabasse.
— Onde ele está? Ele te abandonou? Como se sente sendo abandonada
por alguém? Seu Bob no final das contas não serviu de nada? Valeu a pena?
Valeu a pena ter sido uma sacana, uma, uma...
As palavras me machucam como se fossem facadas, uma a uma, em meu
coração frágil. Ele estava sussurrando cada uma delas, me afetando, me
fazendo tremer. Estou ficando tonta. Conheço os sintomas. Minhas mãos
estão suadas, respiro com dificuldade...
— Jason... - falo enquanto tento chamar sua atenção mas ele não percebe
que vou desmaiar a qualquer minuto.
— É a verdade, querida. Eu era sua conta bancária e você quis mais.
Agora está assim, magra, maltratada. Valeu a pena?
— Não es...estou bem - digo tentando puxar ar.
— Eu estou melhor do que nunca.
— Jason...
— Não lida bem com a verdade?
— Jason... Jason, me desculpe. Não me odeie.
E então tudo fica escuro.
Capítulo 19
Jason

Entre tê-la nos braços e destilar um veneno que não sabia que tinha dentro
de mim, ela desmaiou, caindo sobre desajeitada sob meu corpo. Tentei pegá-
la da melhor forma possível quando ouvi a voz de Emma gritando sob a
música.
— Lizzie!
Ouvi seus passos antes de vê-la e a música foi interrompida. Ela saiu
correndo em direção a onde eu estava parado segurando Lizzie nos braços,
balançando seu vestido longo e tentando ser rápida apesar da barriga pesada
do final da gravidez. Encarei o corpo frouxo de Liz e olhei ao redor, sabendo
que precisava sair daquela agitação.
O casamento acontecia em um salão pequeno, mas estávamos entre a
música, a decoração e a comida em um espaço cheio com mais de 50 pessoas.
Olhando ao redor, pensei no que poderia fazer até que ela acordasse. Logan
foi e voltou dos fundos do local algumas vezes com Emma. Poderia apostar
que deveria ter alguma sala de descanso longe da vista dos convidados. Com
seu corpo em meu colo e com ela ainda de olhos fechados, caminhei naquela
direção enquanto Emma vinha como um raio atrás de mim, seguida por
Logan que tentava fazê-la se acalmar.
Assim que atravessei a porta, encontrei uma saleta com um sofá pequeno.
A deitei o mais calmamente possível, porque ela parecia tão frágil que me
dava a impressão de que iria se machucar apenas de bater no sofá com
alguma força. Poderia tê-la ferido sem perceber na pista de dança. Eu era um
babaca.
— Você é um idiota! - Emma gritou atrás de mim como se estivesse
lendo meus pensamentos. Vi sua mão vindo até meu rosto, mas não quis
revidar, sentindo a dor do tapa irradiando dentro de mim, como se precisasse
disso — Ela está fraca seu idiota! Eu a forcei a vir... eu...
— Qual é o seu problema, merda! — Berrou meu irmão aparecendo
depois de Emma — ela não está bem!
— Ela usa drogas, qualquer merda dessas? Isso não é normal... - eu digo a
encarando e percebendo o quão magra e abatida ela está mas no fundo do
meu cérebro eu só sei. Há algo errado. Por favor, que não seja... — Ela
estava ali e em outro momento não estava.
Me sentei na ponta do sofá com Lizzie a poucos centímetros de mim.
Fazia tanto tempo desde a última vez. Minhas mãos coçavam por tocá-la.
Passei os dedos pelo rosto sentindo a queimação do tapa. Encarei meu irmão
e minha cunhada esperando uma resposta Emma e Logan se entreolharam.
Odeio não saber das coisas.
— Jason... - Logan respondeu e parou, como se não soubesse o que falar
em seguida.
— Que foi? O que aconteceu? - pergunto e me levanto, indo em direção a
meu irmão e o segurando pelo colarinho como se quisesse o machucar. Nós
nos encaramos por alguns segundos e ele tem um olhar perdido, como se não
soubesse como contar o que viria em seguida. Desde que entrei nessa maldita
festa, pareço um ser irracional. Eu disse que não viria e deveria ter ficado
desse jeito.
— Ela está doente, Jason... - Logan sussurrou muito perto de mim,
evitando o meu olhar.
O quê?! Meus dedos ficam dormentes e dou um passo para trás
encarando Lizzie e voltando meu olhar para Emma e Logan. Eu via pena e
lágrimas não derramadas... o que diabos!?...
— O que você está dizendo? - pergunto querendo ouvir novamente.
Como é possível, ela é nova, saudável, ela não deveria estar doente.
— Câncer. Ela não faz nenhum tratamento há um tempo. Diz que dói
muito e ela não tem para quem voltar. Que é uma perda de tempo...
— Não... - eu berro interrompendo Logan, aumentando ainda mais a
minha voz em uma crescente enquanto aponto para ele gritando mais alto -
Não! NÃO!
Isso não pode estar acontecendo.
Eu preciso... eu... caminho de um lado a outro da pequena sala, respirando
rápido com dificuldade enquanto não conseguia encarar Emma e Logan, que
me olhavam com preocupação. Passo a mão no rosto e por meus cabelos
tentando pensar, mas minha mente está em branco sobre o que acabei de
descobrir.
— Por isso nos casamos tão rápido. Era para ser depois que a bebê tivesse
nascido, mas fiquei com medo dela... - Emma hesitou — dela partir antes. E
ela é importante para mim, e é por isso que você não deveria perturbá-la. Ela
não queria vir e eu a obriguei. Ela não queria ver você...
— Desde quando ela está doente? - pergunto tentando manter o tom de
voz baixo. Preciso me acalmar. Preciso de minha atenção total.
— A diagnosticaram há algum tempo, ela começou o tratamento, mas não
deu resultado. Ela ficou fraca, com dor, perdeu os cabelos. E então um idiota
como você vem humilhá-la desse jeito - Emma diz engrossando seu tom e sei
que mereço.
— Eu não sabia... - murmurei colocando as mãos no rosto enquanto sentia
meu mundo desabar.
Eu era desprezível. Um idiota que queria vingança contra uma pessoa do
passado que hoje estava frágil e doente. Me sentei ao lado dela e passei a mão
em sua cabeça, onde antes tinham cabelos fartos e agora só restavam fios
curtíssimos. Ela tinha perdido uns bons 10 quilos e parecia minúscula.
— Eles disseram que a menos que ela consiga um doador de medula, ela
não conseguirá viver mais do que alguns meses — diz meu irmão ao meu
lado, apertando meu ombro com uma das mãos em uma espécie de conforto
— sei como ela é importante para você, mesmo você fingindo que não.
— Ela é meu tudo, Logan. Metade da minha alma - respondo ouvindo
minha voz quebrar. Eu sinto a umidade em meus olhos, mas estou além de
tentar esconder o que estou sentindo no momento — Quando ela foi embora,
algo se quebrou e me transformei nesse merda que sou, nesse merda que fez
ela sofrer naquele salão. Me quebrou saber que ela preferia viver com outro,
mas eu sabia que ela estaria feliz. Não consigo suportar a ideia de existir um
mundo em que ela não esteja viva.
— Eu vou buscar as coisas dela, vou levá-la em casa assim que acordar.
— Posso ficar com ela? — Parecia uma criança implorando. Emma me
lançou um olhar de advertência e outro para Logan que a seguiu até a porta
enquanto balançava a cabeça afirmativamente.
— Se ela acordar, não a magoe - ela responde.
— Nunca mais... nunca mais - repito enquanto ouço a porta se fechar.
Mais do que para eles, precisava dizer essas palavras para mim mesmo.
Eu me transformei em um desconhecido nos últimos dois anos. Deixei
que a raiva me cegasse e não lutei contra o que estava acontecendo. Penso
sobre ela doente e de como não estive com ela esse tempo todo. As coisas
eram diferentes agora? E agora que ela estava aqui, eu estava pronto para
pedir minha segunda chance? O faria?
Foi como se um interruptor acendesse dentro de mim. A voz de Logan
dizendo que ela tinha poucos meses, Emma dizendo que o casamento tinha
sido acelerado pelo medo de que ela não estivesse lá depois que o bebê
nascesse.
Há alguns momentos na vida em que a cautela precisa ser jogada pela
janela, e observando Lizzie desacordada, acreditava que era um desses. Ela
me magoou, me machucou tão mal que tudo o que fiz nos últimos dois anos
foi tentando fingir que a odiava ou não me importava. O Jason de sorriso fácil
morreu dando lugar a pessoa séria, exigente e por vezes até ácida que me
tornei. Mas Lizzie estava sozinha, doente, frágil e não podia abandoná-la.
Se ela quisesse eu estaria lá. Merda... se ela não quisesse também. Eu a
vigiaria, a obrigaria a comer, a dormir, acharia um doador nem que fosse a
base da força. Só precisava dela bem... saudável. E se no final disso, ela
decidisse ir embora novamente, teria que aceitar, mas não sem uma luta. Há
dois anos, quando ela sumiu, me conformei muito rápido. Ela se tornou
incomunicável, eu bebi meu peso em álcool e de repente tinham se passado
quase um mês sem ela e eu estava miserável. As vezes penso que tudo o que
aconteceu foi estranho, que não combinava com a personalidade de Lizzie e
que éramos felizes até dias antes dela terminar.
O pensamento me vem as vezes, quando não consigo encaixar a decisão
de ir embora com um homem mais rico com a mulher que dividi minha.
Deveria ter feito tanta coisa diferente. Ter contratado um detetive particular,
ter acionado minha família, ter a perseguido assim que ela saiu. Tê-la feita
falar. Mas não, eu só fiquei puto, quebrei coisas e de repente era uma pessoa
miserável.
Desta vez não.
Eu era o CEO da Hunt Enterprise, as pessoas tinham medo de mim, de
uma palavra minha, de um olhar meu. Iria usar isso a meu favor, fazê-la falar
sobre o que tinha acontecido, garantir que dessa vez ela tivesse motivos para
ficar. Liz era minha, e por mais idiota que parecesse por aceitá-la assim,
facilmente e sem uma desculpa ou explicação era simples: a amava demais
para fingir que não me importava. Liz era minha e ela precisava acordar para
que eu dissesse novamente as palavras.
Capítulo 20
Lizzie

— Isso amor, acorda para mim.


Abro os olhos e vejo Jason sobre mim, sentado em minha direção
enquanto estava deitada em um sofá. Ele me olhava com olhos amorosos e
tinha aquele sorriso meio fácil nos lábios. Observo ao meu redor e chego a
uma constatação horrível.
Era isso... eu tinha morrido.
Merda.
— Ah, eu sou uma pessoa horrível! - falo esticando a mão e tocando sua
bochecha. Ele fecha os olhos com o toque, se aproximando mais da carícia.
Eu suspiro alto e não sei bem o que fazer.
— Não, não é - Jason responde em sua voz de barítono, baixa e rouca que
eu sentia tanta saudade de ouvir.
— Claro que sou. Acabo de morrer no casamento da minha melhor
amiga, isso é terrível
Ele me olha desconcertado mas de repente ri, acompanhando meus
movimentos. Como ele ousa rir de mim? Ele é minha imaginação, meu Deus
do céu. Não pode rir de mim.
— Você não morreu, só passou algum tempo desacordava.
— Isso é mentira. Não acredito que morri logo agora! - respondo
resmungando para mim mesma tentando me levantar, mas mesmo morta,
meus movimentos ainda são difíceis e permaneço deitada.
Como assim? Não deveria ter melhorado? E a coisa toda de abandonar
meu corpo físico e blá blá blá...
— Você está viva, amor — ele pegou minha mão em sua bochecha e
entrelaçou os dedos aos meus, os apertando — viu? Você sente isso?
— Eu sei que morri porque você está aqui - digo simplesmente, o
encarando séria — você me odeia, o Jason real nunca estaria aqui. Se você
está aqui, eu morri e finalmente estou dentro de algum devaneio meu. Seu
cabelo está maior, você tem uma barba por fazer... É um pouco diferente mas
devo ter guardado a sua última imagem.
— Liz, você não está morta - ele diz baixo como se estivesse explicando
algo a uma criança - você está aqui, eu estou aqui.
— Jason...? - o encaro percebendo o meu redor e digo seu nome em tom
de pergunta. O que aconteceu enquanto estive desacordada?
— Você desmaiou na pista de dança, então Emma e Logan gritaram
comigo e me contaram sobre você — ele suspirou — por que não me contou
que estava doente? Eu sei que faz um tempo... Mas por que não me procurou?
Era ele de verdade.
Reparo mais de perto e é isso. Ele estava mais velho, com traços duros no
rosto. Um cabelo maior que insistia em cair um pouco para o lado e uma
barba por fazer. Ele parecia maior, mais sarado, com músculos. O meu Jason
era mais arrumadinho, sempre impecável, este parecia com os olhos
injetados, meio loucos, como na pista de dança... como...
Eu só não podia...
As lágrimas começaram a cair assim percebi que ele era Jason mesmo e
não um produto da minha mente. Com os dedos, lentamente, tracei os
ângulos de seu rosto, que eu tinha tanta saudade enquanto um choro feio saia
de mim. Sentia meu corpo vibrar sem forças enquanto apertava o rosto dele
na palma das minhas mãos.
— Eu vou morrer - sussurrei no meio do meu choro.
— Você não vai - Jason respondeu quase em um sussurro. Ele me olha
feroz. Seus olhos também estavam cheios de lágrimas e vi uma gota solitária
escorrer de seu olho azul brilhante - você não vai, está me entendendo? Eu
não vou deixar.
Por que agora?
Jason uniu sua testa a minha, acariciando meus braços ternamente
enquanto meu choro diminuía de intensidade. Eu estava tranquila em morrer
vivendo com as minhas lembranças, tenho memórias sem fim dele e algumas
da minha infância. Com ele presente, minhas decisões voavam pela janela.
Ele é meu mundo, ele continuou sendo mesmo depois do que aconteceu e ele
vai continuar para sempre.
— Eu ainda te amo. Eu sempre te amei e nunca parei - falo o encarando
solene tentando segurar as lágrimas - aquilo... aquilo foi...
— Depois... - ele responde cobrindo minha boca com seus dedos e me
olhando fundo nos olhos.
— Eu não quero que você sofra - respondo. Fecho meus olhos com força
pensando na injustiça desse momento.
— Sofri sem você e agora te tenho de volta. Você vai procurar o
tratamento e vamos ficar bem - Jason responde balançando a cabeça
afirmativamente, meio selvagem. Ele parece repetir aquilo para mim e para
ele mesmo, tentando impor uma força sobre o que ele acabou de descobrir
sobre mim.
— Jason, não é só isso... Não é fácil desse jeito.
— Eu sei, e vamos enfrentar o que tiver que ser.
— Não tenho o que enfrentar, só esperar o final.
— Não. Emma disse você não tinha para quem voltar, mas adivinha.
Agora você tem e eu vou te acompanhar em tudo. Deve haver algo, um
tratamento, qualquer coisa! - ele responde com a voz quebrando.
— Preciso de um transplante mas não apareceu... tenho pouco tempo.
— Nós vamos encontrar alguém. Não é justo que não apareça.
— A vida não é justa...
— Não, mas você não merece e nem eu. Quero ter fé. Eu a perdi há dois
anos. Tudo tem que ter uma razão. Você estar aqui neste casamento, hoje...
Você deveria voltar para a minha vida. É um sinal.
— Jason, me desculpa. Me desculpa por agora, por anos atrás... - ele
passa a mão nos meus cabelos ralos, quase espetados de tão curtos me
fazendo calar.
— Você vai me contar o que aconteceu no momento certo. Agora, não é o
que eu quero.
Ele me encarou com intensidade e me aproximei dele, unindo nossos
lábios e o beijando com toda a força que eu tinha. Me sentia fraca, com dores,
mas ele era meu elixir. O abracei enquanto aprofundávamos o beijo e
parecíamos querer muito mais um do outro.
Ouvimos um pigarro da porta.
— Eu deveria perguntar o que é isso? — Diz James Larson, o pai de
Jason.
Eu me separo dos braços de Jason, criando um espaço entre nós dois. Ele
permanece abaixado perto do sofá enquanto eu estou deitada e com vergonha
de ter sido pega no flagra.
Ao lado de James, a mãe, Ava, também parecia desconcertada. Os irmãos
de Jason e suas esposas eram o resto da plateia, que não escondiam a boca
aberta sobre a cena. Era uma turma grande incluindo pessoas que nunca vi
pessoalmente, como Blair, uma das irmãs recém—descobertas pelos Hunt.
— Isso significa que vamos ter outro casamento - respondeu Jason se
virando para eles. Ele sorriu para mim, eu sorri para ele. Pela primeira vez
nessa doença, eu queria e rezava fervorosamente para que eu ficasse bem.
— Nós vamos? - Pergunto curiosa com sua afirmação.
— Temos que compensar esse tempo perdido.
— Preciso confessar algo - respondo ainda olhando todos eles e puxo o
colar do meu pescoço - nunca tirei realmente seu anel de noivado.
— Você nunca deixou de ser minha noiva? - ele diz um pouco confuso
com um sorriso estranho no rosto, meio contido. Isso é outra coisa que
mudou, como se ele não usasse tanto esses músculos como antes.
— Sempre perto do meu coração.
— É hora de colocá-lo de volta a seu dedo - ele diz tirando o cordão e
puxando o anel, o recolocando no meu dedo anular, de onde ele nunca
deveria ter saído.
Olhando ao redor, vejo vários níveis de desconfiança e descrença mas não
me importo. Eu o tenho de volta. Por semanas ou anos é o de menos, mas da
mesma forma repentina que parti, voltei para seus braços, e depois de tudo o
que sofri, iria lutar muito mais e parar de ser idiota.
Se tive uma segunda chance, agarraria com unhas e dentes por quanto
tempo ela durasse.
Capítulo 21
Jason

Logan aparece com a bolsa de Lizzie e eu a pego. Todo o álcool que


ingeri parece ter evaporado de minhas veias, mas decido por não dirigir, e me
preparo para pedir um Uber com Liz até minha casa.
— Vamos? - pergunto simplesmente olhando ainda toda a minha família
embasbacada pela cena. Amanhã eu brincaria de 20 perguntas, mas hoje tinha
que fazer Lizzie descansar.
— Para onde? - ela me pergunta.
— Casa. Você precisa descansar.
— Casa?
— Minha casa... nossa casa - corrijo - eu ainda moro lá.
— Você não se desfez do apartamento? - ela me pergunta com emoção
nos olhos.
— Está lá do jeito que você deixou. A mesma tomada ruim, o rodapé
lascado. Não consegui me desfazer dele. Quer ir para lá?
Ela me encara séria e balança a cabeça afirmativamente. Lizzie olha para
Emma, que se aproxima e a abraça com força. Eu a pego no colo, colocando
sua bolsa sob sua barriga e antes que cheguemos até a porta, o carro já está
nos esperando. Emma, Logan e todos os demais apenas observam enquanto
coloco Lizzie gentilmente no veículo e entro. É um dia confuso e com coisas
demais acontecendo.
— Nós precisamos conversar - ela diz me encarando assim que o carro dá
a partida. O dia começa a escurecer lá fora e eu pego a sua mão, sedento por
seu toque.
— Nós vamos. Podemos assim que chegar. Quero saber sobre a doença,
Liz. Eu quero...
— Jason, isso tudo é só por que estou doente? - ela me pergunta
encarando fundo - se isso é pena, culpa ou qualquer merda, não quero isso de
você, entende?
— Nem de longe... Temos tempo a recuperar. Você disse que não
sabemos quanto tempo temos. Só quero começar logo ele.
Eu a puxo para mim e ela descansa a cabeça em meu ombro. Se alguém
me contasse que meu dia terminaria desse jeito, eu ia xingar de dez jeitos
diferentes. Ainda sinto essa hesitação no meu peito quando a olho, mas tento
acalmar meu coração para o que vem pela frente. É um misto de ódio e amor
que preciso aprender a controlar. Uma hesitação que se nega a fugir do meu
pensamento.
Nós descemos na frente do apartamento e Lizzie decide subir andando e
se nega a voltar para meu colo. Eu pego sua mão e é como se algo voltasse a
fluir em mim. Desde a primeira vez que a vi, ao pegar em suas mãos, sempre
senti essa energia, a eletricidade, o sentimento forte de estar ligado a outra
pessoa. Assim que nossos dedos se entrelaçam eu olho para nossa conexão,
assim como Liz.
Nós entramos no apartamento e ela vai direto para o sofá, andando com
passos planejados e com calma e se senta, me encarando. Pergunto a coisa
que tem rondado minha cabeça nas últimas horas, sem meias palavras.
— Você foi embora por que estava doente?
— Não sabia que estava doente quando fui embora... - ela suspira e
coloca o rosto entre as mãos — foi outra coisa... Mas por favor... vamos
começar do zero, não quero falar disso.
— Você vai falar - respondo lacônico, caminhando até ela e me sentando
a seu lado. Tento parecer menos feroz, mas sei que sou maior mais
intimidante. Passei meu tempo na academia tentando exorcizar todo o tipo de
coisa negativa que tinha dentro de mim - mas primeiro quero saber o que
você tem.
— Leucemia aguda - ela responde se virando para me olhar — Lembra
dos resfriados, febres e tudo o que estava sentindo? Era isso. Já estava mal há
algum tempo, mas descobri semanas depois.
— Ele desistiu de você por causa disso?
— Jason... - ela responde e suspira e meu coração perde uma batida. Eu
preciso saber mais - nunca houve um “ele”, você já deve ter percebido. Tive
meus motivos na época.
Ela me encara por alguns instantes com o coração na mão e não posso
continuar. Só finjo que não ouvi essa confissão e pergunto:
— E o que é leucemia aguda?
— Um tipo de câncer que se espalha muito rápido.
— E qual é o tratamento?
— Remédios, quimio e em alguns casos como o meu, apenas o
transplante de medula. Minha quimio não deu resultado. Minha médica está
em um processo experimental, mas ela ainda não me chamou. É uma forma
de aumentar meu tempo, mas nada é certo.
— Por que não começou o tratamento?
— Verba principalmente. Condições. Quando ela me chamou estava
muito debilitada, agora estou melhor.
— Um vento mais forte pode te derrubar, Liz.
— Já estive muito pior, pergunte para Emma.
— Esse tratamento pode ajudar você, mas o que importa mesmo é um
transplante?
— Sem ele devo durar alguns poucos meses - ela fala me encarando séria
- você precisa se preparar se quiser participar disso.
— Por que você está tão certa sobre sua morte? - pergunto com rancor na
voz - é o que você quer, Liz?
— É O QUE PODE ACONTECER! - ela diz mais alto - Jason, estou
doente há algum tempo, a quimioterapia não funcionou. Estava bem com o
final que isso tivesse, mas agora... agora com você...
— Você vai lutar, querida?
— Tenho medo que não seja suficiente... - ela sussurra vencida. Eu a
puxo para meu colo e a abraço, acariciando seus cabelos curtos. Tenho muito
o que pensar, mas não quero que ela saia de meus braços. Ela se enrola em
mim e quando percebo, está dormindo.
A pego no colo e a deposito em minha cama a ajeitando. Uma lembrança
doce das primeiras vezes em que fiz isso vem a minha mente, com Liz
completamente esgotada dos trabalhos e da universidade sendo roubada pelo
sono. Acaricio seu rosto uma última vez e pego meu telefone, começando a
traçar o plano que estava na minha cabeça enquanto esse dia louco acontecia.
Vou para a sala e no segundo toque Kevin, meu assistente, atende e me
sinto um pouco culpado. É sábado e ele não deveria estar preocupado com as
minhas ligações. Ele fica em Nova York, já que aqui em Los Angeles tenho
as secretárias dos meus irmãos para me apoiar. Ele é mais eficiente em seu
dedo do pé do que muitas outras pessoas que trabalharam para mim. Ele
aguenta minha rotina com graça e faz coisas aconteceram em um passo de
mágica.
— Kevin, é Jason. Preciso que mapeie e consiga pessoas para fazer testes
de compatibilidade de medula.
— O que!? - ele me pergunta confuso.
— Alguém muito especial para mim precisa da doação. Faça o rumor
correr, invista em campanhas. Você tem carta branca, só preciso achar a
merda de um doador, ok?
— Tudo bem chefe, apenas isso? - Apenas...
— Também preciso do contato do melhor oncologista de L.A. e que ele
esteja disponível na segunda. Me envie a confirmação por mensagem?
Eu desligo agradecendo e começo a estudar sobre leucemia aguda. As
pesquisas têm muitos resultados e todos eles preocupantes. Mortalidade,
gravidade, rapidez... Não gosto de nenhuma dessas palavras. Não posso
controlar nenhuma delas. Quero gritar, quebrar coisas.
Eu tenho medo.
Muito medo.
Não quero pensar em perdê-la.
As lágrimas vêm, confusas, quase como uma dor física. Escondo meu
rosto em minhas mãos e me descontrolo sobre a injustiça das coisas.
MERDA!
A dor no peito alivia, o nó vai passando e percebo que eu deveria ter
sabido disso há dois anos. Ela deveria ter ido ao médico, eu estaria lá...
Não vou perdê-la. Não vou deixar isso acontecer. Custe o que custar.
Capítulo 22
Lizzie

Acordo desorientada e percebo que não estou na minha cama. Olho para
os lados e é como se um filme passasse pela minha cabeça com tudo que
aconteceu ontem. Me levanto e percebo que ainda estou com o vestido do
casamento, mas ele é folgado e confortável, e por isso que dormi tão fácil.
Meu anel de noivado brilha novamente em meu dedo, muito largo e tenho
medo de perdê-lo. Jason parece que não dormiu ali, e pensamentos de que as
coisas não vão voltar ao normal começam a passar pela minha cabeça.
Caminho para a sala e encontro Jason sentado com uma calça de pijama
mexendo no celular. Deus... ele está ótimo. Maior, mais definido. Todas as
suas tatuagens me encaram e lembro de traçar cada uma delas com os dedos e
a boca.
A flor de lis está em sua costela. Ele me encara e sorri.
— Bom dia! Tem café. Pedi umas outras coisas, você precisa comer.
— Jason... - digo me aproximando e sentando a seu lado - você não vai
ser minha babá.
— Quando você não come direito? Pode apostar que sim! Vá tomar
banho, vou preparar as coisas - ele diz levantando e virando as costas para
mim.
— Por que não dormiu no quarto? - pergunto o encarando séria - por que
não me beijou depois que saímos do casamento?
— Liz... - ele responde suspirando e se vira para me encarar. Parece que
vai me responder mas desiste.
— Te falei... não quero estar aqui por pena. Eu te amei, eu te amo. Foi
muito bonito o que tivemos mas não se sinta pressionado!
— Não é isso...
— Então o que é? - digo cruzando os braços e o encarando.
— Há esse poder que você tem sobre mim... na primeira vez foi fácil,
simples... mas agora eu sei melhor. É como se isso me fizesse vulnerável. Só
não consigo dizer as palavras... estar ali...
— Jason... já falei, se isso é um gesto de piedade...
— Não! - ele diz me interrompendo - mas ao mesmo tempo não é fácil,
entende? É como se falar que te amo me tornasse mais vulnerável e caralho,
eu passei os últimos anos construindo uma pele mais grossa, endurecendo e
desconfiando mais...
— Fui eu que fiz isso com você... - afirmo simplesmente e começo a
sentir as lágrimas caírem - me desculpe.... me desculpe...
Eu sussurro isso algumas vezes e ele me abraça forte, acariciando minhas
costas com leveza enquanto coloco meu rosto em seu pescoço.
— Nós nunca vamos voltar do ponto que paramos. Coisas aconteceram,
foram dois anos. Eu estou diferente e você também está. Mas eu quero tentar,
só me sinto estranho por isso, entende? Um dia eu não consigo ouvir seu
nome e no outro vejo você acordar aqui.
— Você tem alguém em sua vida, é isso?
— Droga, Liz, é óbvio que não! Nunca houve mais ninguém... Só você.
Eu tentei, mas só... não conseguia. Fui fiel a você esse tempo todo.
— Não precisa mentir para mim...
— É verdade, merda! Você era a única em meus pensamentos. Você é...
mas eu olho para você e vejo traição. Agora sei que é uma mentira, mas é um
sentimento que me acostumei a ter. Você me deve uma explicação sobre o
maldito bob não existir, uma que vai acontecer. Estou confuso merda!
— Não houve ninguém mais. Só você... mas se eu te faço mal, se eu te
machuco tanto... Quer que eu vá embora?
— Não! Vamos buscar suas coisas onde quer que elas estejam. É um
ajuste. Vou me acostumar a te ter ao redor como me acostumei a não te ter.
Preciso que entenda, não é por mal... é só um ajuste.
— Tudo bem... - Balanço a cabeça em resposta e ele se afasta de mim. Eu
sabia que ele não seria tão confiado. O homem aberto que me levou para sua
casa no primeiro dia e me fez ficar.
Um ajuste.
Vou tomar banho e quando volto, nos sentamos para tomar café e
continuamos esse balé entre ser estranhos um com o outro e Jason brincar
com minhas mãos e me acariciar levemente. Me sento a seu lado vestindo
uma de suas camisetas e tomamos café em silêncio. Nós vemos um filme,
tomo meus remédios, que estavam dentro da bolsa do casamento já que nunca
saio sem eles, e Jason é atento e não para de fazer perguntas.
O dia passa rápido apesar do estranhamento e quando olho o relógio vejo
que está tarde e anuncio que vou dormir. Ele continua trabalhando no
computador e celular e percebo que essa é uma das novidades do novo Jason.
Ele nunca para de lidar com a Hunt Enterprise.
Dez minutos depois que me deito na cama, sinto seu peso a meu lado, me
puxando para ele e imediatamente Jason começa a dormir profundamente.
Acho graça da situação mas algo parecido acontece comigo, e assim que ele
se enrola em meus braços e sinto seu calor, apago e durmo como não fazia a
meses.
Abro os olhos novamente e está claro no quarto e Jason me encara com
um sorriso tímido.
— Desculpa por ontem... é que desde que você foi embora eu não durmo
direito - ele fala com a voz sonolenta.
— E conseguiu dormir bem ontem? - pergunto acariciando seus cabelos e
ele parece um menino de olhos inchados.
— Como um bebê... Você também. Já passa de 11 da manhã!
— Você não vai trabalhar? É segunda-feira.
— Ontem resolvi umas coisas para ficar mais tempo com você.
— Não é necessário!
— Claro que é! Vem aqui! - ele diz e se aproxima de mim, me beijando
delicado.
Eu respondo seu beijo, insinuando minha língua entre seus lábios e Jason
geme em resposta. Nós nos beijamos e brincamos um com o outro durante
alguns minutos e estou sem fôlego, mas vale a pena. Sinto Jason duro contra
mim e estou excitada. Me sinto mulher e esqueço da minha doença por
alguns segundos.
— Nós podemos...? - Jason pergunta com o rosto afundado em meu
pescoço, me dando beijos lentos e molhados na clavícula.
— Sim... - respondo gemendo - mas devagar e com calma, mas sim.
Ele se aproxima me beijando mais e gira nossos corpos me deixando
embaixo dele. Eu passo minhas unhas em suas costas e o beijo de volta, o
atraindo mais para mim. Jason puxa a camiseta de meu corpo e estou nua por
debaixo da peça de roupa já que não tinha nada o que vestir. Ele se vira e
chuta para fora a calça do pijama, ficando gloriosamente nu para mim.
Jason escorrega por meu corpo, beijando meus peitos e a tatuagem de
lobo na minha costela. Com a luz do dia vindo da janela, vejo sua tatuagem
em minha homenagem em toda a sua glória e passo os dedos reverente no
desenho da flor na lateral de seu corpo. Quando ele volta a devorar minha
boca, fecho minhas pernas no quadril de Jason enquanto ele tenta não jogar
seu peso em todo o meu corpo. Não consigo fazer tanta força e fico frustrada,
mas Jason usa um de seus braços para manter uma das minhas pernas no
lugar.
Sinto seu pau em minha entrada, afundando apenas a ponta e eu gemo em
resposta, me impulsionando para frente e o fazendo entrar mais alguns
poucos centímetros. Ele acaricia meu corpo enquanto lambe o ponto sensível
perto do meu pescoço e eu pouco a pouco posso o sentir me completando,
entrando e saindo com lentidão.

— Jason... eu preciso...

Puxo seu rosto para mim e o beijo mais selvagem, aumentando meus
movimentos de quadril, desajeitados pela minha falta de força. Ele acelera,
me beijando em resposta e estou gemendo a cada investida, tentando chegar
mais perto. É quando algo se quebra e sinto meu corpo acender como uma
arvore de natal. Me sinto viva, brilhante e chamo por ele. Jason goza forte e o
sinto jorrar enquanto grita baixo, abafando o gemido no travesseiro.

Ele cai esgotado e roda nossos corpos, me deixando por cima enquanto
nossas respirações voltam ao normal. Ele brinca com minha pele, fazendo
pequenos círculos e me sinto contente e relaxada. Jason também parece estar,
com seus olhos fechados e sem as linhas enrugadas da sua testa.
Eu o sinto endurecer e sei o exato momento que Jason encontra minhas
cicatrizes. Tinha me esquecido delas, tão envolvida no momento. Eu torcia
para ele não perguntar, mas conhecendo Jason, não seria assim tão fácil.
— O que é isso nas suas costas?
— É uma cicatriz.
— Tem mais de uma.
— São sete - respondo e levanto meu rosto brevemente e vejo seu olhar
preocupado. Afundo meu rosto em seu peito e espero a pergunta seguinte.
— Você sofreu um acidente? São cicatrizes grandes como se uma coisa...
uma coisa afiada tivesse feito isso — Ele sussurrou as últimas palavras mais
para si do que para mim. Eu via quão assustado ele estava por essa
possibilidade.
— O que é isso, Lizzie?
— Nós combinamos que não iriamos falar sobre o passado — ele suspira
e eu soube naquele momento que precisaria contar. Nós nunca poderíamos
estar juntos novamente se ele não soubesse o que realmente aconteceu.
— Isso começou antes, antes de eu terminar com você.
— O que realmente aconteceu quando você foi embora? Chegou a hora
de você me contar.
Capítulo 23
Lizzie

Tinha imaginado esse momento tantas vezes antes e ele finalmente tinha
chegado. Jason colocou uma das mãos em meu rosto e me obrigou a olhá-lo.
Sinto seus olhos afiados, azuis brilhantes, mas desta vez ele não parece
refletir ódio, mas sim preocupação, como se ele estivesse completando um
quebra—cabeças difícil e ele precisasse de toda a atenção possível.
— Eu... eu não queria. Senti tanta a sua falta. Se eu pudesse, aquilo nunca
aconteceria, mas estava com tanto medo.
— Medo da pessoa que fez isso? — Afirmei com a cabeça e levantei o
corpo, me sentando na cama. Continuei sem encarar seus olhos. Me sentia
exposta nua. Agarrei um lençol, cobri meu corpo e continuei.
— Você me conheceu como a pobre, a sem pai, a bolsista. Mas tem algo
pior...
— Ter conseguido seus estudos sozinha não é vergonha — ele diz se
sentando também e pegando nas minhas mãos. Olhei para os dedos
entrelaçados e de novo para os olhos de Jason antes de continuar.
— Sabe quando sua mãe disse que teve uma história parecida com a
minha? O problema é que enquanto sua mãe conseguiu um padrasto bom, que
mudou a vida dela. Minha mãe arranjou Danny, um bandido, que entrou e
saiu da cadeia durante todo o relacionamento deles.
— Foi ele? — Eu ignorei o ódio em seu olhar e continuei.
— Um dia cheguei aqui no apartamento e ele me esperando. Ele disse que
soube de você e sua família pelos jornais e que eu deveria ajudar ele. Danny
queria dinheiro, pura e simplesmente, em troca de não machucar nenhum de
vocês.
— Foi por isso que você insistiu tanto em segurança?
— Eu disse a ele que nós não tínhamos nada sério, que você me jogaria
na rua se pedisse dinheiro e Danny disse que me daria uma prova que não
estava de brincadeira.
— O assalto?
— Ele te atacou, deixou seu rosto com um hematoma e levou seu relógio.
Ele me deu ele e disse para pensar melhor nas minhas opções. Ele poderia
ferir todos vocês se eu não fizesse algo - suspirei - ainda tenho seu relógio,
vou devolvê-lo quando pegar minhas coisas.
— Você está me dizendo o que eu acho que está dizendo? - ele pergunta e
me encara com raiva nos olhos, uma que não era dirigida a mim, mas a toda a
situação.
— Jason, eu...
— Você inventou a história toda sobre não querer mais estar comigo para
me proteger?
Jason me roda na cama e se levanta, como se não pudesse ficar parado
ouvindo a história. Ele começa a andar pelo quarto, nu em sua glória, como
se não soubesse o que fazer ou o que falar depois.
— Ele era covarde. Ele te atacou pelas costas para me apavorar. Eu
precisava acabar com aquilo. Inventei aquela história ridícula e terminei com
você. Ele foi atrás de mim e chamei a polícia. Ele ia ser preso, mas tentaria de
novo. Era importante que não tivesse relação com vocês.
— Lizzie! — Ele parecia perturbado pela história.
— Cheguei no apartamento que tinha alugado depois que sai daqui e ele
estava lá exigindo o dinheiro. Disse a ele que você tinha terminado comigo e
que me achava uma interesseira. Danny ficou histérico, invadiu o
apartamento e avançou com uma faca. Corri, mas ele me pegou pelas costas,
afundando a faca. Várias e várias vezes.
— Eu deveria ter estado com você - ele diz com a mão no rosto,
suspirando — Eu estava tão cheio de ódio, e você só queria me proteger.
— Não sei ao certo o que aconteceu depois, mas acordei no hospital e
uma enfermeira me disse que perdi muito sangue. Danny foi preso mas
mandou uma mensagem dizendo que fugiria e mataria vocês. Eu só não
podia... - me interrompi o encarando e me levantando, ficando frente a frente
de Jason - Me avisaram que tinham matado ele na cadeia há pouco tempo. Eu
pude respirar fundo pela primeira vez em muito tempo. Acabou.
— Você aguentou isso esse tempo todo. Merda, amor. Você deveria ter
me avisado. Deveria ter me procurado quando te avisaram... Antes! - Ele diz
pegando no meu rosto e acariciando minha face.
— Achei que o nosso tempo tinha passado, e eu estava doente.
— Que tipo de homem você acha que eu sou se fizesse isso.
— Eu tinha perdido você, estava doente. Eu estava esperando a morte e
então você voltou.
— Baby - diz Jason me abraçando — eu deveria ter estado ao seu lado o
tempo todo. Me promete que daqui em diante não teremos nenhuma outra
mentira.
— Pelo tempo que temos...
— Para com essa merda, Lizzie. Você vai criar nossos filhos, ver nossos
netos correrem. Você vai brigar comigo quando eu querer tomar a pílula azul
e roubar beijos suficientes para que nossos netos gemam de vergonha.
— Você precisa parar com isso, amor. Eu não consegui um doador nos
últimos anos, seria um milagre que alguém aparecesse. Mas só de ter
conseguido mais alguns momentos com você, faz com que tenha valido a
pena.
— Não mereço você, Liz - ele diz e me encara profundamente, me dando
um beijo leve - eu te amo demais. Tanto que não sei explicar.

∞∞∞
Nós continuamos nossa rotina anterior, com Jason providenciando a
comida enquanto eu me arrumo. Sou rápida e coloco uma outra camisa de
Jason, que parece um vestido. Enquanto bebo o café, ele me conta que vamos
fazer algumas paradas hoje. A primeira é na casa de Emma para buscar
minhas coisas. Assim que chegamos ele começa a arrumar minha mala e eu
pego uma calça e uma camisa para me trocar.
— Em pensar que você estava tão próxima esse tempo todo... - ele diz me
encarando e pisca para mim.
Vejo a caixa onde guardo o relógio e o tiro, o olhando pela primeira vez
em meses. Separo minhas coisas e entrego o para Jason, que coloca o relógio
no pulso, de onde não o tira mais.
O segundo lugar que paramos é no Hospital Saint Margaret. Queria ficar
irritada e explicar que a doutora Amber já cuida de mim, mas era o jeito de
Jason se sentir melhor. Ele conseguiu uma consulta em dois dias com o
doutor Shaw Murray, que ele me explicou, era neurologista especializado em
tumores e criou uma terapia alternativa. Há um tempo um milionário
chamado Ethan Green investiu na pesquisa e ele e outros doutores tinham um
trabalho mais amplo, que poderia me ajudar.
Doutor Murray era um homem baixo, perto dos 50 anos e com um bigode
farto. Ele parecia bem-humorado e me deixou à vontade. Eu expliquei minha
história, meus tratamentos e dei os contatos da doutora Amber. Preenchi uma
ficha quilométrica ele disse que iria ver meus exames com calma e que iria
entrar em contato. Como nós tínhamos marcado a consulta dias antes, ele não
poderia dizer se poderia me ajudar ou não.
Nós saímos e percebo que Jason está mais bem-humorado enquanto
caminhamos pela saída do hospital em direção ao carro.
— Você gostou dele? - ele me pergunta.
— Ele parece estar estudando bastante sobre câncer. Quando entrar em
contato saberemos.
— Só não sei lidar bem com a ansiedade do contato - ele me responde e
me abraça com carinho - acho que deveria procurar a doutora Amber sobre o
tal tratamento experimental.
— Tenho pensado nisso também. Ela me explicou que é um tratamento
com versões geneticamente modificadas das minhas próprias células de
defesa, estimulando também a produzir anticorpos, que reconhecem e atacam
as células cancerígenas. São injeções e medicamentos por um período. Tem
alguns prós e contras, mas várias coisas me impediam de tentar.
— Como o que?
— É um tratamento caro, Jason. Não tinha dinheiro para isso. Doutora
Amber também tinha uma questão com estrutura. Acho que o doutor Murray
pode ajudar nisso se eles concordarem.
— Liz... - ele diz e suspira meu nome.
— Eu sei... agora eu posso tentar porque você vai querer que eu faça e vai
pagar por isso - digo sorrindo para ele - não vou discutir a respeito.
— É bom que já saiba disso - ele diz entrando no carro e me dando um
beijo leve - vamos para casa? Quer comer em algum lugar?
— Na verdade, queria ir a outro lugar. Você iria comigo ao cemitério?
Não tenho visitado minha mãe porque não confio em mim sozinha.
— Claro, e depois casa para descansar.
— Claro, babá!
Nós visitamos o cemitério por alguns minutos enquanto deixo algumas
flores no túmulo de minha mãe e voltamos para casa. Meu coração está
melhor por ter conseguido fazer isso com a ajuda de Jason.
Entramos em uma rotina calma e Jason trabalha praticamente de casa,
indo apenas a reuniões na Hunt Enterprise. Nós rimos, conversamos e
fazemos amor, como em outros tempos, mas agora de uma forma mais calma,
mas um pouco desesperada pela incerteza do futuro.
Na sexta a doutora Amber avisa que quer me ver e Jason vai comigo.
Amber Jones é uma oncologista de pouco mais de 40 anos, negra e com um
abraço reconfortante. Ela e Emma foram os únicos braços que senti ao meu
redor nos últimos anos. Assim que entro, ela olha Jason de cima e baixo e me
sorri.
— Bem, bem... isso é novo.
— Doutora, quero que conheça Jason, meu noivo.
— Noivo? Você foi rápida, garota!
— Na verdade, bem lenta - Jason ri - esse noivado já tem quatro anos.
— Por que você escondeu seu noivo de mim, Elisabete?
— Uma longa história, doutora... uma longa história - eu digo rindo e ela
me encara quando começa a falar.
— Recebi uma ligação interessante de um médico chamado Shaw
Murray. Algo que eu precise saber?
— Eu a obriguei a ir vê-lo - responde Jason - há alguma coisa que
podemos fazer entre vocês dois?
— Ele me ofereceu o hospital para seu tratamento. Isso quer dizer que
quer tentar a imunoterapia?
— Sim - respondo e a encaro - podemos ver os detalhes com calma, mas
queria começar assim que possível.
— Bem, bem... parece que o moreno aí mudou outras coisas em você,
heim... Nós já conversamos sobre isso e preciso que se lembre bem. Podem
acontecer febres, calafrios, problemas respiratórios, tonturas, vômitos,
diarreia, dores, convulsão, problemas neurológicos como perda de equilíbrio
e na fala. Você precisa estar ciente, principalmente porque está muito fraca.
O que havíamos previsto eram quatro sessões, uma por semana.
— E caso um doador compatível apareça? - Jason pergunta.
— Podemos interromper e começar a medicação para a transfusão. Não é
um problema - Doutora Amber responde.
Ela continua a responder perguntas, principalmente de Jason, e ela diz
que vai tentar fazer de tudo para que eu comece já na semana seguinte. Jason
está com medo e confuso e parece mais calado do que o normal, como se
estivesse absorvendo cada palavra.
Não falamos mais sobre a consulta e no domingo de manhã sei que tenho
uma outra batalha para enfrentar: o almoço na casa de Ava e James.
Capítulo 24
Lizzie

Era o primeiro domingo em família novamente, mas ao contrário de todas


as vezes que estive aqui, eu via dor e rechaço. Jason apertava minha mão e
me trazia para perto mas eu via a distância emocional que Ava e James
colocavam em mim, o cumprimento impessoal, a falta do abraço caloroso que
sempre recebi. Assim que chegamos, foi como se um silêncio tivesse caído
na casa sempre barulhenta.
— Olá, pessoal - diz Jason ao meu lado e sei que ele está puto com a
reação da família, mas não quero que ele faça nada. Estou decidida a contar o
que aconteceu assim que todos nos sentarmos na mesa, eu devia isso a eles
tanto quando devia para Jason - Liz, não conhece minha irmã Blair e seu
marido Jack. Sarah também é nova por aqui.
Eles se aproximam e apenas apertam minhas mãos murmurando pequenos
cumprimentos enquanto todos pareciam observar. O silêncio era incômodo,
mas era parte do que tinha sido reservado para mim nos últimos anos.
— Vamos comer? - Ava disse alto, quebrando o ambiente tenso e fomos
todos para o salão de jantar. Jason pegou em meu braço e me conduziu,
comigo dando pequenos passos, até chegar à cadeira e me ajeitar a mesa. Ele
se sentou ao meu lado e os cheiros me trouxeram lembranças. Estava com
água na boca pela primeira vez em meses, anos até.
— Jason... isso no seu pulso é o relógio que perdeu no assalto? - James
perguntou e nós dois gelamos com a observação. Jason não o tirou do pulso
desde que eu tinha devolvido a ele.
— Não... É uma réplica... - ele responde meio forçado e eu só o
interrompo decidindo que isso precisa sair do caminho logo.
— Eu o devolvi.
A mesa para de se movimentar e todos me encaram. Eu vejo sentimentos
diferentes por todos os lados. Emma me encarava com apoio, Logan apenas
acompanhava mais um desenrolar com aquela história. Sarah, Blair e Jack
pareciam confusos e Matt me olhava com ódio, e eu sabia que tinha muito a
ver com o fato de que ele viu Jason em seus piores momentos depois que fui
embora. Jason tinha me contado como ele ficou nos dias seguintes a minha
partida e não foi fácil de ouvir o que fiz com ele e o como fiz todos os Hunt
sofrerem com isso.
— E você pode explicar como diabos você estava com o relógio que meu
irmão perdeu sendo assaltado e agredido? - Matt diz lentamente me
encarando.
— Matt...! - Jason sussurra entredentes ameaçador depois de ouvir a
pergunta do irmão. Eu estendo a mão para ele e faço um gesto para ele parar
quando começo a responder à pergunta.
— Eu tive um padrasto muito diferente do seu Ava - digo olhando para a
mãe de Jason - quando me contou sua história fiquei impressionada como
éramos iguais e diferentes. Danny era nojento, entrou e saiu da cadeia, batia
na minha mãe, me batia... E então, um dia depois do nosso último natal ele
apareceu.
— Como assim? —James me perguntou.
— Ele invadiu nosso apartamento, me pediu dinheiro e disse que do
contrário machucaria Jason. Machucaria vocês. Ele me deu o relógio e disse
que não estava brincando, que faria pior da próxima vez. Quando vi Jason
ensanguentado eu surtei... - suspiro e olho para o alto, tentando controlar a
emoção que está me tomando.
— A traição nunca existiu? - Logan pergunta baixo e vejo que todos
prestam atenção em cada palavra que digo. Eu respiro e balanço a cabeça
negativamente e as lágrimas começam a sair.
— Eu... eu... precisava proteger vocês. Eram minha fa... família - digo
fungando - e ele chegou tão perto de Jason tão rápido, entrou no apartamento
tão fácil. Eu o conhecia e sabia que ele era capaz. Nunca ia nos deixar em
paz, estaríamos inseguros para sempre.
— Por que não denunciou? - Matt pergunta e apesar de desconfiado, vejo
os olhos mais doces, como o do irmão mais velho brincalhão que sempre foi
comigo.
— Não adiantaria... ele foi preso e me mandou uma mensagem da cadeia.
Me ligou ao longo dos anos. Fiz o que deveria ser feito e não me arrependo.
Ele na... não ia tocar em vocês. Não ia deixar!
Ava se levanta com o rosto banhado de lágrimas e se joga em mim, me
abraçando e chorando alto. Isso me faz chorar ainda mais. Sinto seus dedos
me apertando docemente e sinto como se tivesse chegado em casa. Nós
ficamos ali por alguns minutos enquanto a família nos encara em vários
níveis de emoção, algumas lágrimas de muita gente naquela mesa como
Sarah e Blair. Jason parece apenas orgulhoso e tem os olhos vermelhos.
Emma me sorri e sei que ela só vê sentido no que assistiu nos últimos
anos. Ela me dizia o tempo todo que nunca entendeu o que eu fiz e
finalmente ela tinha uma resposta. Logan estava do mesmo jeito, como se
tivesse colocado a última peça no quebra—cabeças.
— Nós podemos comer? Não temos a salada de batatas de Lizzie, mas
estou morto de fome! - diz Matt me piscando e sei que acabou. Ele está sério,
mas como o irmão mais velho que sempre foi para mim, me dá um sorriso
emocionado. Sinto um alívio passar por mim enquanto Ava me dá um último
aperto no ombro e volta para seu lugar.
A refeição tem um tom familiar depois disso, com conversas e risos e
com uma mesa maior do que antes. Ainda falta uma das irmãs e seu marido, o
que significa que Ava chega a reunir 11 pessoas em uma mesa quando estão
todos. 12 comigo, penso suspirando.
Nós nos sentamos na sala e vemos um pouco de televisão e conversamos
quando Matt se senta do meu lado e me cumprimenta.
— Desculpa por aquilo na mesa.
— Você sempre foi o irmão urso, Matt. Se alguém ia me ofender para
defender Jason, esse seria você.
— Mesmo assim... - Ele diz e aperta minha mão - você está bem? Emma
nos contou sobre a leucemia.
— Muito cansada e ficando cada vez pior - eu paro e o encaro por alguns
segundos e pergunto - como é se curar?
— Eu passei muito tempo sendo paranoico com isso, quase perdi minha
esposa por isso, sabe?
— É curioso te ver casado - respondo sorrindo.
— Pois eu faria qualquer coisa por aquela mulher e Deus, entendo o
Jason depois que conheci Sarah - ele me olha e me dá um sorriso - a quimio é
horrorosa, lembro como vomitava, como queria desistir, mas a família não
me deixava. Vai dar certo.
— Meu corpo dói e tem horas que só quero desistir e esperar. Eu estava
conformada, mas seu irmão pensa diferente.
— Sei que é sua vida e suas decisões, mas o tratamento é pesado, as horas
com dor custam a passar. Deixe-o ficar a seu lado. Vai passar.
— Meu caso é muito mais complicado que isso.
— Mas e se não, querida? O deixe tentar. Você passou os últimos anos
sozinha nisso. Apoio faz a diferença.
∞∞∞
Terminamos o almoço de forma amistosa e vamos para casa, onde
ficamos juntos. As coisas acontecerem rápido depois de domingo. Na
segunda, doutora Amber avisa dizendo que na quarta-feira teria tudo pronto.
Ao mesmo tempo, Jason e toda a família Hunt fizeram o exame de
compatibilidade. Sabendo que não teria volta atrás, assim que a ligação
terminou, olho para Jason e pergunto:
— Em quanto tempo conseguimos uma licença na Califórnia?
— Acho que imediatamente, por quê?
— Quero me casar.
— Como agora, agora?
— Sim - disse simplesmente e Jason riu.
– Ok.
— Apenas “ok”?
— Ah querida, espero esse momento há tanto tempo que correr para uma
corte e apenas assinar uns papeis é tudo o que eu quero. O que me importa é
que você seja minha esposa e que tenha meu nome - ele diz me abraçando - é
o que realmente você quer?
— Sim, é o que eu quero. Há tanto tempo que dói.
— Seu desejo é uma ordem - Jason responde rindo.
Às 9h da manhã seguinte, com parte da família Hunt presente e com um
vestido branco simples que já viu dias melhores, eu finalmente me casei com
o amor da minha vida. A foto simples de uma Lizzie magrela e sorridente
com Jason de terno preto me segurando contra seu peito seria minha favorita
pelo resto da minha vida.
Nós tivemos nossa pequena noite de núpcias, fazendo amor mais lento e
calmo como tem sido desde que voltei porque estou sempre sentindo dor e
cansada. Com o tratamento, me resigno a que não verei tanto o corpo de
Jason quanto eu gostaria, já que estaria mal com os efeitos colaterais. É como
uma despedida, e rezo a Deus que seja mais temporária que definitiva.
No final da segunda semana de tratamento, e casada apenas por uma
semana, eu tinha duas péssimas notícias: ninguém era compatível e eu já
estava mal demais para ficar em casa. Precisava ser internada.
Capítulo 25
Jason

As coisas não poderiam ser tão injustas desse jeito. Eu estava animado
com o tratamento experimental, com nosso casamento. As dúvidas
lentamente foram jogadas para o vento quando a história real de porque
Lizzie foi embora saiu a luz. Eu a amava enlouquecidamente e detestava vê-
la sofrer. Entre a família e amigos, quase 30 pessoas fizeram o teste de
compatibilidade e nenhum deu positivo.
Eu tentava me manter são e a espera de boas notícias, mas comecei a
quebrar três dias depois da primeira sessão. Nós tínhamos acabado de nos
casar, ela estava tão feliz, e de repente Lizzie começou a passar mal, febre,
calafrios, tudo o que esperávamos. Estava trabalhando na sala quando ouvi
um baque seco no banheiro e encontrei Liz desmaiada no chuveiro. Ela nunca
tinha apetite, definhava na minha frente e por mais que a forçasse, dava para
perceber o quão magra e frágil ela estava. Seu corpo queria conservar a
energia. Ela só começou a dormir mais e mais.
No final da segunda semana ela estava quase sempre desacordava.
Quando abria os olhos era para vomitar ou gemer de dor. Minha mãe
praticamente se mudou para nosso apartamento para cuidar de Lizzie. Meus
irmãos e suas esposas iam e voltavam tentando ajudar de qualquer forma, e
eu só sentia vontade de chorar enquanto a acompanhava definhar.
Victoria chegou no meio desse furação e ele e Liam fizeram o exame de
compatibilidade. No final da quinta-feira, dois dias depois da última sessão, a
levei para o Hospital Saint Margaret a pedido da doutora Amber, que
preocupada com a reação as injeções a medicação, decidiu por intubar-la
depois que os problemas respiratórios começaram a aparecer. Eu sabia que
qualquer parada cardíaca ou respiratória poderia ser o fim. Quando por fim
nos deixaram sozinhos na UTI eu só segurava sua mão e chorava. Eu
encarava nossas alianças e tentava não acreditar que só teríamos esses
últimos dias. Deus não seria tão injusto.
Alice tinha nascido depois que Liz foi internada. A bebê também foi
testada, mas seu cordão umbilical não serviu. Emma chorou quando soube,
mas ela não precisava dessa pressão em um momento tão frágil.
No início do terceiro dia Amber e a equipe médica decidiram que Liz
estava bem o suficiente para não ficar intubada e poderia voltar para a
medicação. Eu percebia que era tudo paliativo, uma forma de melhorar sua
condição até o final.
Demorou mais um dia inteiro para ela acordar e passei todas as horas a
seu lado, primeiro estando na UTI e depois sentado no sofá do quarto do
hospital. Minha mãe tentou me tirar de seu lado e ao menor tomar banho e
comer algo, mas era difícil sair dali sabendo que poderia perder Lizzie a
qualquer momento.
Quando ela abriu os olhos e me encarou curiosa, vi seus olhos encherem
de lágrimas. Estávamos sozinhos e eu me debruçava sob sua maca, com os
cabelos despenteados e um cansaço físico e emocional desgastante.
— Ei... não precisa chorar.
— Eu... pen... pensei... - ela diz com dificuldade.
Sei o que ela pensou. Eu também pensei. Achei que não veria mais seus
lindos olhos castanhos esverdeados. Ela tinha razão sobre todas as vezes que
disse que eu deveria me preparar. Estávamos em um beco sem saída, mas me
negava a lidar com a ideia de que teria que deixar Liz partir.
Os dias passam lentamente depois disso, comigo e minha família
ativamente no hospital. A primeira vez que Victoria apareceu, ela correu para
mim e eu chorei em seus braços como uma criança. Aos poucos fomos nos
acostumando ao vai e vem e a família de um jeito ou de outro vinha,
mostrava fotos de Alice para Liz e ela sorria, quase sem forças para
conversar. Eu a beijava e a abraçava e dizia tantas vezes que a amava que as
palavras ficariam tatuadas em minha cabeça para sempre como uma memória
daqueles dias.
— Jason, como ela está? - ouço Victoria atrás de mim enquanto ouço os
médicos se movimentarem no quarto de Lizzie.
Nós vamos para o corredor, onde observo a movimentação lá dentro. Já
passa das 18h e estamos em um dia ruim. É o oitavo dia de internação. Ela
está desacordada há tanto tempo que só quero fingir que não sei o que isso
significa. Eles tinham alertado que lentamente o corpo dela ia tentar preservar
forças e aos poucos ela ia passar cada vez menos tempo lúcida.
Nós tínhamos tão pouco tempo.
— Na medida do possível... - digo me virando e a abraçando.
Vic tinha entrado nas nossas vidas a pouco tempo mas parecia como se
ela me conhecesse mais do que meus outros irmãos, como se uma alma velha
reconhecesse a outra. Podíamos falar de conexão de família ou o que quer
que seja, mas vê-la minutos antes de fugir do casamento meses atrás só fez
meus alertas se acenderem. Eu estava a um passo de fazer alguma merda
comigo mesmo quando Lizzie reapareceu.
– Você também merece ser feliz - ela tinha me dito.
— Meu momento já passou, Vic.
— E se não for apenas ela? E se você tiver um amor muito maior aí fora?
Como ter certeza?
— O céu é azul, Vic? O sol é brilhante? É dessa forma que eu sei.
Existem verdades que só são verdades.
— Eu vou me arrepender se fizer isso, não?
— Sim, você vai. É horrível viver com alguns arrependimentos. É melhor
você ir até lá e quebrar a cara do que ficar pensando no que poderia ter
sido.
— E você se arrepende?
— Dela? Jamais. De não ter percebido antes que Lizzie iria embora e
não ter convencido ela a ficar? Todos os dias
Sabendo da verdade, as lembranças sobre esse dia me doíam ainda mais.
Ela me observa e percebo que ando letárgico, vivendo de memorias e
sabendo que precisaria de muita ajuda se Liz morresse. Eu via a preocupação
da minha família. Dentro de mim eu achava que seria como da outra vez, mas
pior. Não queria pensar.
— O resultado saiu - ela diz e reparo que ela tem um envelope nas mãos e
me encara ansiosa. Ela tem lágrimas nos olhos
Não quero criar expectativas. Todos tínhamos feito e dado negativo. No
último mês foram mais pessoas do que eu poderia contar. Victoria e Liam
foram os últimos porque estavam na Grécia, e não fizeram ao mesmo tempo
que a gente e por isso o resultado tinha demorado a sair.
— E então?
– Deu positivo, Jason. Eu posso doar...
Eu a encaro atordoado e vejo as lágrimas nos olhos da minha irmã e sinto
a tormenta se aproximando quando minha respiração começa a falhar
enquanto ela balança a cabeça positivamente no meio do choro. Deu positivo,
Jason. Eu posso doar... As palavras ecoam algumas vezes até que começam a
fazer sentido.
É quando me jogo no chão, segurando meu rosto e choro como uma
criança. Victoria se abaixa e me abraça forte, chorando junto comigo e eu
agradeço o destino. Quando eu ganhei duas irmãs, não sabia que estava
salvando meu futuro, me salvando de mim mesmo e das burrices que faria
sem Liz.
— Vic... eu não se... sei... como te... te agradecer - digo fungando.
— Muitas vezes eu duvidei da minha vida... do porquê estar aqui depois
de tudo o que aconteceu - ela suspira sorrindo entre as lágrimas — Minha
vida tem sido boa há algum tempo, com vocês os Hunt, Liam... e hoje,
quando peguei esse papel, entendi que o destino é um sacana. Deus me
colocou aqui para algo, e esse algo foi para mudar sua vida, a de Lizzie,
assim como você mudou a minha no dia daquele casamento. Pode não dar
certo, mas Deus! Vou me agarrar na minha fé, na minha vontade e eu vou
fazer essa mulher viver... porque Jason, você merece ser feliz, ela merece ser
feliz. É impossível que um ser divino e misericordioso não ia permitir que
vocês dois ficassem juntos depois de tanto tempo. Vocês se amam e precisam
viver isso plenamente. Sem medo, sem mentiras. Só Lizzie e você...
— Eu... eu... não sei... - digo gaguejando - já não acreditava mais.
Esperava o banco de doadores, mas é tão difícil...
— A doutora Amber conversou comigo quando o resultado saiu. Vão
preparar ela. Vou fazer alguns exames para saber se tudo está bem e querem
fazer a cirurgia assim que possível. Ela está muito fraca.
— Eu sei... não sei como te agradecer... eu só...
— Poderia pedir o nome do primeiro filho como Logan - ela diz rindo -
mas eu só quero que seja feliz, Jason. Tão feliz quanto eu sou, como nossos
irmãos são. Eles vão fazer uma punção em mim e vou tomar anestesia. Já
conversei com Liam e ele vem ficar comigo. Estou morrendo de medo, mas
vale a pena... no final, tudo vale a pena.
Capítulo 26
Jason

Vic passou pela cirurgia e saiu como uma guerreira. Era algo simples, e
48 horas depois das pequenas punções no osso do seu quadril, ela estava de
volta a vida normal. Assim que Victoria fez o procedimento, a doutora
Amber começou o tratamento para a transfusão de medula óssea.
Era complicado com Lizzie tão mal, mas era um caso extremo. Foram dez
dias de medicação que a deixavam doente e enjoada e eu não podia chegar
perto. Até mesmo pegar em sua mão era um risco e não deixaria nada, nem
eu mesmo, estragar a nossa chance. A medicação estava ali para eliminar a
medula óssea e o sistema imune de Lizzie, e qualquer doença que pudesse
transmitir para ela deixaria sua vida em risco. Só a observava de longe,
enquanto as enfermeiras iam de um lado a outro. Eu parecia um selvagem,
sempre amassado, descabelado, mas me negava a sair da linha de visão de
Lizzie, mesmo com ela dormindo e acordando todo o tempo.
Uma noite a enfermeira trouxe a transfusão e foi como se eu começasse a
respirar novamente desde o momento que Lizzie saiu da minha vida. Nada
mudou nos primeiros dias, mas de repente, no final da segunda semana,
Lizzie começou a ficar mais tempo acordava. Ela me olhava atrás do vidro,
tão frágil, magra e com aquela máscara que meu coração apertava para saber
se estava tudo bem ou não. Duas semanas depois e já mais corada e
reclamando de tédio com todas as enfermeiras, ela fez o primeiro exame. A
medula pegou. Eu não entendi quando a doutora Amber me falou com esses
exatos termos.
A ficha caiu.
Tinha acabado.
O pior tinha passado.
Não sei explicar os sentimentos daquele dia, de falar disso para Liz e vê-
la chorar tão longe dos meus braços. Nós tínhamos comprado mais tempo de
futuro. Ele iria ser longo, eu acreditava.
Era uma aposta. Lizzie poderia ter uma recaída e quanto mais tempo
ficasse sem sintomas, melhor seria. Cada vez que ela externava seu medo, eu
falava sobre poder simplesmente morrer atropelado saindo do hospital e ela
ficava puta comigo. Mas era verdade. Coisas acontecem, a vida acontece.
Nós só deveríamos viver com o conhecimento de que um dia Lizzie esteve
doente e tirar o melhor disso.
Ela teria um longo caminho até a recuperação total, mas o tratamento
tinha dado certo. Eu queria beijá-la mas não podia, abraçá-la, senti-la em
meus braços. No final desse primeiro mês, pude tocar sua mão e foi como se
uma energia passasse por meu corpo e soubesse que estava tudo bem
finalmente.
— Oi... - eu sussurrei muito perto dela, grudando nossas mãos. Eu sentia
tanto a falta do seu contato.
— Senti saudades - ela me diz simplesmente.
— Você está corada, a bochecha parece mais vermelha.
— É você, tocar você - ela responde rindo - e toda a comida do hospital
que sou obrigada a comer. Tenho que aproveitar que estou com fome.
Ela se aproxima de mim, me abraçando e me sento em sua cama. Agora
que posso tocá-la, não vou sair mais daqui.
— Você deve voltar para casa em algumas semanas. Eu perguntei para a
doutora Amber.
— Eu também perguntei uma coisa para a doutora Amber - ela me diz
sorrindo.
— E o que é?
— Quando poderia beijar você novamente.
— É mesmo? E qual é a resposta?
— Agora... para sempre.
— Mesmo?
— Sim... - ela sussurra essa resposta com a testa grudada na minha e me
beija de leve.
Eu saboreio seus lábios lentamente, gemendo baixo enquanto a saudade
de sua boca me enlouquecia. Nos perdemos um no outro até que alguém faz
um barulho na porta e me viro para encontrar minha mãe e meu pai nos
encarando.
— Parece que alguém finalmente foi liberada para ter contato humano.
— Alguns, como um abraço - ela diz para eles e abre os braços à espera
da aproximação.
Apesar da liberação, nós entramos em uma fase de atenção em que os 100
primeiros dias em casa depois da alta seriam decisivos. Ainda no hospital
começaram a série de exames e médicos, de dentista a neurologista, e o
excesso de zelo com a limpeza. Lizzie tinha o sistema imunológico de um
bebê recém-nascido e qualquer convívio com pessoas doentes e ambientes
lotados poderiam botar a perder sua recuperação.
No final desse mês nós pudemos voltar para casa, e, apesar de não poder
nos tocar muito, nós conversávamos, brincávamos e víamos televisão.
Doutora Amber tinha dito que deveríamos voltar a nossa vida sexual aos
poucos, então esperei a passagem desses primeiros três meses para nos dar
tranquilidade. Eu queria beijá-la tão forte que assim que saímos do
consultório com a informação, a puxei para mim, encostando seus lábios nos
meus com força, querendo mostrar toda a saudade que sentia.
A máscara saiu dois meses depois, quando o cabelo de Lizzie começou a
crescer novamente. Ela estava cada vez mais irritada, o que era bom, porque
significava que ela estava bem o suficiente para querer fazer outra coisa além
de estar deitada sentindo dor. Ela não teve nenhuma das reações esperadas,
como alterações na pele, tosse, falta de ar, enjoo e vômitos, e, apesar de usar
o cateter, não precisou de nenhuma medicação de emergência. Ela só estava
entediada. Muitos exames, muito remédio e uma rotina presa ao pós-
transplante de medula.
Eu tinha medo de estar me forçando em Lizzie, mas ela tinha outros
planos. Lizzie contava mais os dias do que eu. Aos três meses e dez dias, a
encontrei nua em nossa cama, seu corpo lentamente voltando ao que era
quando nos conhecemos. Tinha tanta saudade de suas curvas, de seu corpo,
que vou com calma para sentir os limites dela, mas tenho vontade de jogar a
prudência janela a fora quando ela escorrega sua boca em meu pescoço. Ela
geme e grita meu nome e me abraça depois de fazermos amor. É tão bom tê-
la por perto novamente me enlouquecendo.
Com quatro meses eu decidi que era hora de voltar a trabalhar, e Lizzie
passou a ficar muitas horas em casa, ainda proibida de sair ao sol e enfrentar
multidões. Foi quando ela decidiu que iria escrever um livro sobre nós dois.
Sobre toda a nossa família, um projeto que ela se dedicou enquanto ainda era
uma paciente em recuperação.
E o ano passou e Lizzie recebeu alta. Ela teria que cuidar da saúde para
sempre, comer saudável, fazer exercícios e estar atenda a qualquer sinal de
imunidade baixa ou anemia. Nós começamos a malhar e correr juntos e de
repente chegamos as maratonas. Mas no final tudo valia. E nos finalmente
poderíamos viver como um casal normal e qualquer, sem doença, sem um
padrasto, sem inúmeros trabalhos e pouco tempo.
— Você imaginou que chegaríamos até aqui? - ela me perguntou no
primeiro ano após a alta.
— Sempre. Cheguei a perder a fé em alguns momentos, mas eu te disse.
Mão ia deixar. Não ia se livrar de mim tão fácil.
— Nunca ia querer algo assim... passei tempo demais sem você para
saber o quão miserável me sentiria. O tempo em que dormia, eu sabia que ao
acordar veria você e isso me fazia voltar... você me guiou, Jason.
— É bom saber que não vai a lugar algum - respondo com um sorriso
safado nos lábios - eu te amo, Liz.
— E eu amo você, Jason. Mesmo quando quis parar não consegui. Você é
alguém fácil de amar. Meu cavalheiro de olhos azuis. A pessoa que não
desistiu de mim até quando eu desisti de mim mesma.
— Você não entende que é minha força, não é? Eu pertenço a você, você
me completa. É simples.
E era. Éramos eu e Lizzie contra o mundo, não importasse quanto tempo
nós tivéssemos. Iriamos aproveitar todos eles.
Capítulo 27
Lizzie
Cinco anos depois

— Existe esta lenda... uma que ouvimos uma e outra vez, sobre um
homem tão apaixonado que foi até o inferno para buscar sua amada. Orfeu
amava tanto Eurídice que foi ao mundo inferir depois de chorar seu lamento e
ira pela perda da amada. E a trouxe de volta das garras da morte mas a perdeu
quando olhou para trás. Ele nunca olhou para trás. Ele me trouxe de volta
vida, como uma chama esmaecendo que de repente volta a ter toda a sua
luz...
Eu estava nervosa. Era a primeira leitura do livro que escrevi durante meu
tratamento. “Meu Destino” foi publicado quase um ano depois da minha alta,
e a história de Jason e eu estava gravada naquelas páginas. Um agente e uma
editora se interessaram no jeito que eu escrevia e entrei de cabeça no ramo.
Como ainda estava em recuperação, o livro nunca foi divulgado
corretamente, apesar de ter vendido como água. Todos gostam de ler um
romance com final feliz, principalmente um que a mocinha estava destinada a
morrer e termina com seu felizes para sempre.
Nunca contei que aquilo tudo tinha acontecido realmente. Apesar do
drama e de um pouco de liberdade artística, estava tudo lá. Como nos
conhecemos, como nos amamos, como eu tive que ir embora e como estava
destinada a morrer em seus braços até o minuto final, quando um anjo de
cabelos ruivos me salvou e me deu um futuro. Victoria detestava a atenção,
mas eu a agradeceria para sempre. Ela também era a irmã favorita de Jason e,
apesar de ele não anunciar isso aos quatro ventos, ela ganhou muitos pontos
com ele e com a família depois do transplante.
Enquanto a Jason e a mim, nós tivemos nossa oportunidade de voltar a ser
um casal normal, estar apenas um na companhia um do outro, sem dramas do
passado e um futuro escapando de nossas mãos. No meio da minha
recuperação, Jason adicionou mais uma tatuagem a sua coleção: um desenho
intrincado de duas pessoas de mãos dadas no interior do seu braço. Ele me
chamava de sua “Eurídice”, que assim como a lenda grega, foi guiada para
fora do inferno por seu amor. Ele ria dizendo que foi melhor do que a
mitologia porque eu estava viva e bem ao contrário do final do casal da lenda.
Eu queria escrever seu nome em meu corpo, mas todo o cuidado pós-
leucemia deixava pouco espaço para uma tatuagem no primeiro ano de cura.
Só esperei e gravei cada detalhe no livro. Agora, cinco anos depois de receber
alta, estou em uma livraria, cercada de pessoas, que me ouvem ler trechos da
história. Os Hunt estavam em peso, o que atraiu ainda mais atenção para o
meu pequeno evento porque não é todo dia que dois atores e um diretor
ganhadores de Oscar, uma produtora de cinema mundialmente conhecida e
empresários de uma empresa multimilionária vão a uma pequena livraria em
Sunset Strip.
Termino a leitura um pouco nervosa e todos aplaudem enquanto Jason me
olha orgulhoso. Ele bate palma e segura nossos pequenos, que tentam
acompanhar a plateia com suas mãozinhas gordinhas enquanto correm atrás
de seus primos. Eu sorrio para os três e, apesar de nenhum dos dois terem
saído do meu útero, reparo como são parecidos conosco, tão morenos quanto
eu e sempre imitando o jeito do pai, com seus olhares tão masculinos apesar
da pouca idade.
Três anos depois do meu diagnostico, nós entramos na fila de adoção. Os
médicos nunca tiveram um resultado definitivo sobre minha infertilidade,
mas todos me falaram que seria muito difícil engravidar. Não tive menopausa
precoce e cheguei aos 27 anos saudável, sem recaídas, correndo com Jason
em maratonas e escrevendo livros.
Eu ainda queria dar aulas como tinha decidido assim que sai da
universidade, mas toda a questão sobre minha imunidade e muitas pessoas
em um ambiente me fizeram repensar a ideia nos primeiros anos após o
transplante. Isso chegaria na minha vida em algum momento, mas quando os
pequenos chegaram, ficar em casa escrevendo caiu como uma luva para a
nossa rotina.
Chegamos a consultar um especialista em fertilidade, mas os exames não
diziam se meus ovários tinham sido comprometidos ou não com a
quimioterapia. Havia uma ínfima oportunidade e não quis me agarrar a ela.
Poderia acontecer ou não, mas nós queríamos filhos e víamos a felicidade de
Sarah e Matt com Olivia e Mandy, além da pequena tropa que formavam com
Alice, Rose e Anna. O importante é que eu estava bem. Curada era uma
palavra forte, mas cada ano me trazia mais esperanças, porque significava
uma não—recaída e todo o tratamento de leucemia de volta a minha vida.
A ligação da adoção chegou em um dia quando Jason estava viajando. Ele
iria direto do aeroporto e me encontraria no escritório da assistente social.
Fiquei presa no trânsito e cheguei quinze minutos depois do previsto para
encontrar Jason, meu marido tão sério de 34 anos, sentado no chão do
escritório, riscando papeis com dois meninos de cabelos encaracolados.
Trevor e Noah Gonzalez, dois e um ano respectivamente, irmãos que
terminaram no sistema após os pais morrerem em um acidente. Eles não
tinham com quem ficar e depois de uma busca incessante sobre parentes
disponíveis, eles entraram na adoção.
Maritza e José Gonzales, primeira geração norte-americana de duas
famílias cubanas que vieram para os EUA sofreram um acidente de trânsito
na interestadual e de repente uma família jovem terminou em segundos. Eles
moravam no Watts. Eram tantas coincidências juntas que só precisava
conhecê-los. Meu coração doeu por eles e me reconheci naqueles dois órfãos
tão jovens.
Encarando aquela cena enquanto Jason sorria para os dois meninos, vi o
futuro. Eles eram nossos, eu senti bem dentro de mim. Os Gonzales sempre
fariam parte da nossa vida, eles estariam nas paredes de nossa casa enquanto
os meninos cresciam, sabendo que tiveram pais biológicos que os amaram e
pais adotivos que fariam tudo por eles. Com o coração apertado e sorrindo
para Jason, me aproximei vendo Noah caminhar com sua frauda e colocar
suas mãozinhas gordas no rosto de meu marido enquanto Trevor me encarava
com curiosidade. Eu olhei a cena com um nó na garganta quando o menino
mais velho voltou seu olhar para Jason perguntando com sua voz infantil:
— É ela? - Jason confirmou com a cabeça e sorriu para mim.
— É bonita... - disse Trevor em suas palavras de bebê. Eu dei uma risada
quando senti as lagrimas começaram a descer e olhei para Jason e vi que ele
fazia o mesmo. Ele me estendeu a mão e apertou, e era todo o confiança e
conforto que bastava.
Nós éramos dois e viramos quatro naquele momento. Senti no meu
coração e tive certeza. Tudo estava melhor que bem. E desta vez para sempre.
— Mamãe, mamãe, MAMÃE! - grita Trevor pulando em meu colo e me
tirando do devaneio. Eu o pego, o abraçando forte enquanto Jason se
aproxima com Noah no colo, me sorrindo daquele jeito meio sacana só dele.
Deus... esse homem ficava cada vez mais bonito!
— Foi ótimo, querida! - ele diz me dando um beijo leve nos lábios.
— Estava tão nervosa!
— Se acalme! Todos te amaram. Tem uma fila enorme esperando para ter
o livro autografado.
— De verdade?! - pergunto o encarando e não posso acreditar.
— As pessoas gostam de você, amor... Preciso me acostumar a dividir
você.
— Eu gosto de você, mãe! - diz Trevor do meu colo e eu rio ouvindo o
coro de “eu também” de Noah. Eles são tão fofos juntos.
— Parece que temos um time que te ama, mulher - Jason diz rindo - vá
ver seus fãs, vamos esperar.
— Leve as crianças para casa... pode demorar aqui.
— Logan vai levá-los - Jason responde e como mágica, o irmão mais
novo surge acenando e me beijando e leva meus pequenos embora. Ele os faz
rir e sussurra algo sobre doces mas eu me nego a respondê-lo, apenas fazendo
uma cara feia.
— E você?
— Eu vou te esperar - diz Jason se aproximando e me beijando - sempre
vou te esperar, amor... eles vão dormir na casa dos tios hoje e sabe... - ele diz
passando seus lábios por meu pescoço e sinto o arrepio surgir dentro de mim
- você vai assinar todos esses livros, e depois vou te dar uma massagem em
casa. E quando você estiver bem relaxada, eu vou te chupar e te lamber tanto
que você não vai saber seu nome até o final da noite.
— Posso desistir e ir direto para casa? - respondo sussurrando enquanto
minha respiração fica irregular. Estou excitada e vejo nos olhos de Jason e
em suas pupilas dilatadas que ele sente o mesmo.
— A espera é doce, mas agora vai... quando mais cedo você começar,
mas rápido consigo te levar para casa! - ele diz me empurrando para frente da
loja onde uma mesa me espera.
Ele pega na minha mão e beija meus dedos, me deixando na cadeira. A
eletricidade está lá mesmo depois de tantos anos. Eu amo tanto esse homem e
a certeza de ser amada de volta faz meu coração explodir.
Conhecê-lo não foi uma coincidência, passar por tudo o que passamos
para que no final sua irmã perdida salvasse minha vida não foi medo o acaso.
A vida era graciosa e só poderia agradecer por tudo o que aconteceu até ali.
Jason sempre foi o meu destino, assim como eu era o dele.
FIM
Epílogo
Allegra
27 anos depois

Eu fui um bebê tardio, não no sentido estrito da palavra.


Talvez o conceito certo seja “milagroso”.
Quer dizer, não milagroso, milagroso... mas fiz meu lugar no mundo para
surpresa de todos. Mamãe teve câncer, achou que não poderia ter filhos, meus
irmãos chegaram através do sistema de adoção, e então um dia, sem esperar,
ela foi ao médico para um check-up e descobriu que estava grávida de cinco
meses.
Sempre lembro da sua cara quando me contou como eles surtaram com a
notícia porque nunca esperavam. Fui um pouco voluntariosa desde o primeiro
momento, fazendo meu pai, naquela época com 41, e mamãe com 34,
comerem na minha mão. Só não fui uma criança mimada porque família tinha
mais crianças que pudéssemos contar. Cheguei com o mesmo rosto anguloso
dos Hunt, os olhos azuis brilhantes do meu pai e tão morena quanto minha
mãe.
24 anos de idade e estamos aqui, meu casamento.
Eu conheci Brandon aos 18, mas só soube disso realmente há seis meses.
É uma história esquisita que talvez um dia consiga contar com mais calma,
mas envolve uma antiga lenda da família do meu marido de que um homem
Blake se apaixona à primeira vista e como Brandon só foi capaz de me ver
cinco anos depois de nos conhecermos.
Há também uma pequena parte em que eu sou destrambelhada o
suficiente para tentar enganar o destino depois de descobrir a verdade, mas o
amor é doce e terminamos aqui apesar da minha boa vontade de estragar as
coisas.
Sou tímida que dói. Voluntariosa, aberta com a minha família, mas no
meio de tantos Hunts de personalidade forte, fiquei feliz por estar nos
bastidores. Por isso é estranho ser a protagonista de um dia como esse.
Observo a decoração enquanto pego um copo de champagne e vejo meu
marido dançar com sua mãe. Ela tem um problema na perna, mas nada
poderia impedir Hannah de dançar com seu filho mais velho em uma noite
como essa. Estamos ao ar livre, as luzes iluminando a decoração simples e
me sinto feliz. Olhos para os rostos de todos e penso como sou sortuda apesar
de as vezes me irritar por ser o bebê da família.
Meus primos e irmãos têm idades próximas e, quando eu nasci, eram
quase sete anos depois de Dylan. Entre Olivia e ele, eram sete crianças em
uma escadinha. Era um grande clube em que não fui convidada a participar.
Bem... eu e James.
Ele é o primeiro bebê milagroso da família, e talvez o verdadeiro, com
menos de três anos de diferença comigo. Nós formamos nosso próprio clube,
e apesar de amar meus irmãos e primos com muita força, sabia que nossa
ligação era especial. Às vezes eu me sentia culpada por isso, mas meu pai ria
e dizia que todo mundo sabia e não ligava, afinal, ele também tinha seus
prediletos da família sem um pingo de culpa.
Deus, James é o pior de todos, protetor como o inferno e me deu um
tempo de merda antes das coisas se acertarem com Brandon. Ele foi até Nova
York atrás de mim apenas para garantir que nenhum mulherengo se
aproveitasse de sua “irmãzinha”. Trevor e Noah compraram a briga e fizeram
um videochat raivoso e até mesmo o calmo e artístico Dylan veio participar
do esquadrão.
Se não fosse Alice e sua moral de prima mais velha, eles não teriam me
deixado em paz. Ela, assim como sua mãe, consegue ser diplomática e
mandona como o inferno, e no final tudo se ajeitou - apesar do turismo em
grupo dos Hunt para Nova York e toda a vergonha que passei nas mãos dos
meus primos e primas. Meu pai e mãe não ficaram sabendo, graças a Deus.
Desde que papai decidiu se aposentar e deixou para a família o cuidado da
Hunt Enterprise, eles têm viajado, se divertindo tanto, que só não quis que
eles tivessem lá– e porque no meu coração eu sabia que se James apareceu na
minha casa em dias, meu pai apareceria com a SWAT inteira em horas.
Eles só conheceram Brandon Blake depois que tudo estava resolvido e
caíram de amores por ele. Eu me casei e meu pai me levou ao altar. Seus
cabelos escuros foram aos poucos ficando brancos mas seus olhos azuis
estavam afiados quanto sempre. Jason Hunt passou dos 60 mas era quase um
modelo, sarado, tatuado e com fios prateados por seu cabelo castanho.
Mamãe também não ficava longe, maravilhosa, definida e com uma classe
que eu gostaria de ter apenas no meu dedo do pé. Agradecia a Deus por meus
genes.
Eles eram enjoadamente românticos, todos os meus tios e tias eram. A
família de Brandon também era. Era como se, apesar da realidade dos
divórcios e separações do mundo atual, algo na água destas famílias os
fizessem românticos até a raiz.
Os Hunt envelheceram, nos perdemos primeiro vovô e depois vovó. Meus
tios e tias ficaram de cabelos brancos mas o amor entre eles, entre nós, estava
ali. Mamãe me disse certa vez que achou que ia morrer quando tinha 24 anos,
minha idade. Não conseguia imaginar. Isso tinha mais de 30 anos. Ela tinha
sobrevivido ao câncer e todo dia vivia seu felizes para sempre, o tempo todo.
Ela nunca teve uma recaída e aos poucos íamos criando coisas só nossas.
Passamos parte da nossa infância visitando o túmulo da mãe da minha mãe,
Allegra como eu, no aniversário da cirurgia. Ela fazia questão de comemorar
que estava viva o tempo todo. Ela pegou gosto por correr maratonas, andar de
montanhas russas e ver filmes de terror. Exercícios cardiovasculares, ela
dizia.
Dançando nos braços do meu pai, tão envolvida em seu olhar, podia
sentir como aqueles dois se pertenciam, como as vezes dava vergonha de ser
um expectador daquilo, quase um intruso.
Quando apareceu Brandon Blake, eu entendi. Ele era minha constante.
A pessoa que me faria ficar enjoadamente romântica, deixando os outros
com vergonha de estar ao nosso redor. A que me acompanharia na vergonha
quando nossos filhos nos pegassem transando como aconteceu com meus
pais algumas vezes, como meus primos pegaram seus pais antes de mim. Era
a beleza da vida.
Eu carregava a geração seguinte em minha barriga. Nós tínhamos bebês
na família novamente. Os Hunt e agora os Blake cresciam para todos os lados
e eu desejava do fundo do meu coração que todos eles sentissem o tipo de
felicidade que sinto agora, o amor me absorvendo por todos os lados e saindo
por meus poros.
Todos merecem um feliz para sempre, e olhando minha família dançando,
conversando e celebrando o meu casamento, posso dizer que estamos no
caminho certo.
Deixe seu comentário na página da Amazon. Gostaria de saber sua opinião sobre meu livro. Para
falar com a autora, mande e-mail para: thekathyork@gmail.com ou @thekatherineYork no instagram.
www.katherineyork.com.br

Proibida a cópia total. Cópia parcial apenas para resenhas. Todos os direitos reservados. License:
All rights reserved
Conheça a série “Dos meus Sonhos” de
Katherine York.

O Homem dos meus Sonhos


Sabrina é apaixonada por seu chefe, mas ele não repara nela. Sufocada
por esses sentimentos, ela decide pedir demissão, mas ela precisa antes
cumprir um projeto. Alex Blake é o bonito irmão de seu chefe, um pedaço de
mau caminho que fará de tudo para seduzi Sabrina. Quando Alex começa a
aparecer em sonhos picantes de Sabrina, é o momento dela decidir se segue
apaixonada pela ideia do felizes para sempre ou se entrega a paixão
avassaladora com o bonito e sedutor advogado.

A Mulher dos meus Sonhos


Alex se apaixonou à primeira vista por Sabrina, mas ela já deixou claro
que não gosta dele. Forçados a trabalhar juntos, Alex fará de tudo para mudar
a opinião de dela e mostrar que ele é um bom candidato para ganhar seu
coração em lugar de seu irmão, Daniel.

Lista de Desejos
Hannah se sentia um estorvo para sua irmã Sabrina, e decide que é hora
de partir — seja lá o que isso signifique. Mas antes de ir, ela quer cumprir
uma lista de desejos e encontra em Daniel, o irmão de seu cunhado, um
parceiro para realizar suas vontades. Daniel sempre foi certinho e queria uma
chance de se libertar e esquecer sua ex-noiva, e embarca na aventura de
ajudar Hannah. Mas quando a sina do Amor à Primeira vista ataca o irmão
Blake mais descrente, ele vai fazer de tudo para manter sua princesa pronta
para um final feliz.
Feita pra Mim
Miles Blake viu Brooke Clement e se apaixonou. O problema? Eles são
novos demais para um grande amor e a garota não acredita na possibilidade
de que o cara mais popular da escola queria algo verdadeiro com a novata
gordinha.
Conheça a série “Primeiros Amores” de
Katherine York.

O Coração do Cowboy
Grace Richards sempre foi apaixonada por Colin Duke. Para fugir desse
amor, ela se afastou por sete anos, mas agora precisa voltar para o Texas para
ajudar na fazenda da família. Descrente de relacionamentos, a veterinária não
consegue acreditar quando começa a chamar a atenção da sua antiga paixão
de adolescente. O fazendeiro, que tinha carinho pela irmã do melhor amigo, a
vê depois de seu regresso e decide que ela era tudo o que ele quer, mas Colin
vai ter que se esforçar para ter Grace e fazê-la acreditar que esse amor é
possível.

O Coração do Cafajeste
Em breve
Outros livros da autora

Contrato de Amor
Casamento de conveniência? Charlie Smith e Nate O’Connell não se
davam bem e foram obrigados a entrar em um negócio juntos: um
casamento. Nate e Charlie se conhecem há uma década e não voltaram a se
falar depois de todo esse tempo. Nos últimos dez anos, ele se tornou um
empresário bem-sucedido, e ela, uma cientista de sucesso. Depois da morte
de uma pessoa importante para os dois, eles se reúnem e descobrem que o
testamento tem uma cláusula que precisam cumprir: casar e conviver durante
um ano.

A Bailarina
O que você faria se sua vida está em risco? Sophie Ripley é uma talentosa
bailarina que paga as contas como garçonete de uma boate de stripper.
Empurrada até as últimas consequências depois de se descobrir doente, ela se
torna uma dançarina no local. É lá que ela conhece o sexy e misterioso Ethan
Green e se torna mais uma peça do plano de vingança do milionário.

A Outra Mulher
Meg Thomas é uma botânica tímida que precisa de um empurrãozinho da
irmã para se transformar. Maquiada e penteada como sua gêmea, ela vai parar
em uma festa exclusiva, onde tudo pode acontecer. Travis Green não confia
muito em relacionamentos e gosta de não se amarrar a ninguém até conhecer
Meg. Juntos eles são pura dinamite e provarão os desejos mais intensos que
sentem um pelo outro.

O Barman
Logan Harrison tem uma obsessão: a morena que entrou no seu bar.
Desde esse dia, ele não para de pensar em formas de fazê-la sua. Kate
Ashwood não sabe como conquistar o barman do Green Light e toda semana
tenta chamar sua atenção. O que ela não sabe, é que ele também faria de tudo
para ter uma noite com ela.

O Meu Conto de Fadas


Samantha Jensen sempre sonhou com um romance de conto de fadas, mas
sua vida estava mais para patinho feio do que para cisne. Mas a vida da
editora de romances muda quando ela conhece o irmão da melhor amiga em
um baile de máscaras. Zachary Walton está de volta depois de uma
temporada no Reino Unido, fica encantado por Sam e está disposto a dar tudo
que ela sonhou, incluindo seu final feliz.

Ardente Tentação - Com Sarah Summers


Kate Sullivan fez um acordo com Aidan Blackstone. O sexy e misterioso
milionário é seu primeiro cliente como acompanhante de luxo e pode se
tornar o último. Empurrada até as últimas consequências depois de saber que
está doente, a violinista não estava preparada para as intensas carícias e as
tórridas noites de paixão ao lado de seu mais novo amante. Mas Aidan tem
um segredo e nem tudo é o que parece.

Contrato com o Destino - Com Sarah Summers


Emma Davis e Sebastian Harris têm um contratempo que só um contrato
pode resolver. O problema? Eles se odeiam e a proposta inclui casamento.
Depois de uma morte inesperada e um testamento surpreendente, os dois
precisam unir forças em uma união de conveniência para levar adiante o
negócio da família. Mas o que começou com um acordo pode se tornar amor
quando se dá a chance de recomeçar.