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Heil Folk,

Muitas vezes esbarrei com essa dúvida, uma dúvida que acaba por retardar a busca da prática religiosa de
muitos que estão começando; tendo isso em vista, resolvi montar um pequeno texto expondo minha visão sobre
a questão dos altares dentro de nossa religiosidade.

Nas palavras a seguir vou tentar expressar “minhas” impressões quanto a utilidade, se tem ou não necessidade,
elementos que compõe, fontes e o que mais conseguir pensar sobre altares no Paganismo Nórdico moderno.

OBS.: Vou expor “minha” visão, “minha” interpretação; você que está lendo isso é mais que livre concordar,
para pegar o que achar útil, para discordar, para ignorar e/ou buscar outras fontes e sintetizar suas concepções
quanto a este tema.

O que é um altar e para que eu o utilizaria?


Vejo um altar como um local de extrema intimidade religiosa, um local que mesmo sendo de fácil acesso seja
seguro ao religioso para expor das peculiaridades de sua espiritualidade/religiosidade ao mesmo tempo que age
como um ponto de foco.

Isso com o intuito de facilitar a comunicação com o espiritual/divino e vice-versa, assim como agir do
espiritual/divino em nosso mundo físico.

Se pararmos para analisar, independente da religião, toda fé envolve algum tipo ou mais de um tipo de “local
sagrado” para o religioso apelar a um contato mais nítido com sua fé (em companhia de outros religiosos ou
sozinho), um local onde pelos termos daquela fé, o físico é alterado pelo divino/ espiritual.

Vale a pena ressaltar que nesse ponto a idéia do “local sagrado” se divide em duas, o local sagrado para todos
daquela fé ou grupo religioso e o local sagrado para indivíduo.

Por exemplo:

Era comum povoados escandinavos, possuírem um Hof “templo” (uma cabana de madeira) ou um Horgr (uma
plataforma de pedra) onde sacrifícios e oferendas eram feitas pela comunidade.
Ao mesmo tempo, não era estranho indivíduos ou pequenos grupos familiares possuírem um local separado
para seu culto pessoal seu Vé “santuário”

E se analisarmos outras religiões, de base pagã ou não… a mecânica ainda se apresenta:

• Católicos com Igrejas e Oratórios


• Xintoístas com Templos e pequenos Altares ou Santuários
• Umbandistas com Terreiros e Congás

Em suma, simplificando muito (muito mesmo) vejo um altar pessoal ou de um grupo como o marco de um
local sagrado, um local em nosso mundo físico tão impregnado com a religiosidade de um indivíduo ou
indivíduos que o espiritual e o sobrenatural se manifestam com menor resistência.

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Para encerrar este ponto do texto, vou tentar descrever a sensação da experiência pessoal nos locais onde
sempre erguemos o Hjallr “plataforma” para Blót's do Kindred Hlórriði e o local onde fica meu Vé “santuário”.

Hjallr do Kindred Hlórriði

Sempre que visito os locais onde montamos o altar, plataforma (Hjallr) do kindred, o que sinto é um misto de
nostalgia espiritual que remete a tudo que já ocorreu ali (brindes, experiências não naturais, brigas, risadas,
rituais, oferendas) tudo isso condensado em um aperto no coração que me faz sentir uma saudade profunda,
porém de forma alguma negativa… ao mesmo tempo remete a uma sensação de curiosidade e excitação quanto
as possibilidades do que ainda está por vir.

Vé de Bölverkr Chaffin

No quarto que separei para ser meu Vé, sempre tem cheiro de incenso (velha mania), lá tem muita coisa,
estátuas, facas, velas derretidas, coisas que uso nos blót's do kindred, outras que acumulei ao longo dos anos (se
acostumem, isso é natural).

Separei essa bagunça em 3 partes, Deuses, Ancestrais e Espíritos da Terra.

A sensação é a mesma de qualquer outro cômodo da casa com uma diferença, é o único lugar em que eu não só,
me sinto em completa paz, mas em companhia de outros, por mais que esteja só.

Ali não sinto saudade dos que se foram, tristeza pelas oportunidades que perdi ou irritação pelas atribulações do
dia a dia.

Naquele recanto… é como se houvesse um silêncio profundo, levemente tingido pelas coisas que levo comigo
quando entro, mas que tendem a ir desaparecendo no silêncio.

Literalmente sinto que os deuses me ouvem mais que em qualquer lugar, que aqueles que seguiram sua jornada
além vida ali conseguem me enxergar… e que os espíritos da terra e da casa apreciam vivenciar essa
experiência física que chamamos de vida o mais próximo possível de nós.

Mas isso são minhas impressões da minha vivência, não tem que ser assim com mais ninguém e não ligo para
ligeira hipótese dos céticos de eu estar louco… rs.

O que eu espero ao dividir isso com você caro leitor?

Espero que um sinta isso também um dia, seja qual for o caminho que trilhe ou venha a trilhar.

E quem sabe estimulá-lo a buscar isso, muitas vezes basta uma palavra amiga, para ajudar.

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O que pode e não pode compor um altar?
Já perdi a conta de quantas vezes me perguntaram isso e eu respondi “intuindo” que é uma questão de auto-
analise, reflexão religiosa e busca de conexão entre o indivíduo e suas crenças, com as divindades que cultua....
Resumindo: só indivíduo pode dizer o que faz sentido em seu altar religioso.

“Literalmente” ao fim dessa página (espero) que você venha a entender que só você pode dizer o que vai e o
que pode ou não compor seu altar.

Vamos começar com o seguinte conceito… ou melhor, com algumas perguntas:

• O que separa fingir um ritual religioso de vivenciar um ritual religioso?


• Tem como ver o que passa na mente ou coração de outra pessoa?
• Tem como saber se ela está fingindo ou sentindo uma conexão divina?
• Existe (com certeza) um meio de definir se os atos durante um evento religioso são mera coreografia ou
se existe um porque espiritual por trás?
• Existe como provar qualquer fé por meio de fatos físicos?

Bem, para mim a resposta de todas essas perguntas é alguns minutos de silêncio, pensamentos demais ou de
menos talvez ou não é bem assim… resumindo não tem como. Coração dos outros é terra que ninguém vai
(dizia minha avó).

Partindo disso:

• A única pessoa que pode dizer o que você vivencia no espiritual, é você mesmo.
• A única pessoa que pode dizer que algo tem um sentido filosófico, espiritual, emocional para você, é
você mesmo.
• A única pessoal que pode dizer que “este” ou “aquele” objeto, ajudam você a se conectar ao Deus x,
Ancestral y ou Espírito da terra w é você mesmo.
• A única pessoa que pode dizer que os atos da sua intimidade religiosa x,y,z tem um porque espiritual
por trás e não são mera teatralidade, é você mesmo.

Somando isso a:

• Paganismo no geral (não só o nórdico) é uma forma de religiosidade pouco baseada em dogmas (tem
um cá e lá) e priorizando a “vivência”, a “experiência pessoal”
• Somos todos diferentes, cada um a sua maneira e este, meu caro leito é um direito nosso.
• Simbolismos não são escrituras em pedra, sempre surgem de alguém que aponta o dedo diz:
O símbolo x me faz recordar desse momento nessa história, ou da história dessa pessoa ou dessa
característica dessa pessoa.

Podemos concluir que:

• Quem além de você para saber o que vai ter no seu espaço sagrado para ajudá-lo a se comunicar com
sua religiosidade?
• Quem além de você para dizer que o objeto x, ou y, ou z te remete ao Deus w de seu culto religioso?
• Quem além de você para dizer que o conjunto de atos x te aproxima mais dos Deuses que o conjunto de
atos y de sua escolha?

… espero ter ajudado a entender que sua vivência espiritual é a base e a prioridade neste assunto.

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Dicas pessoais para ajudar a montar o altar
Então, sem mais reflexão; agora vou tentar dar algumas dicas práticas que acumulei para ajudar, use o que
quiser, descarte o que não quiser.

1º Escolha bem o local

Priorize antes de tudo a escolha do local para seu altar (pessoal ou do kindred), pense além do momento e tente
perceber a viabilidade, o acesso e segurança do local a longo prazo.
Uma das coisas mais irritantes é ter problema com qualquer um desses três pontos justamente com o local onde
você vai despejar tanto da sua intimidade.

2º Designer

Não se prenda a aparência ou aspecto, sei que muitos idealizam um local com temática nórdica (peles, sangue,
estátuas de madeira ou pedra); não se prenda a isso. Escolhido um local seguro, acredite em mim, você terá
muito tempo ao longo dos anos e dos objetos que forem surgindo nas suas vivências para ajudar a compor seu
altar. No fim ele pode não ser o que você idealizou (esteticamente), mas tenha certeza será tudo o que você
precisa ter.

3º Adaptação

Não sinta medo de adaptar as coisas, lembre-se é seu canto e ninguém tem direito de falar nada.

Exemplos:

Você quer estátuas dos Deuses, mas não tem grana e não sabe esculpir… então busque imagens que na sua
concepção melhor representam esses Deuses, imprima, coloque em porta-retratos e use no seu altar.

Você quer queimar ervas, mas não sabe como, ou não pode… coloque um incenso.

Você quer uma fogueira no meio do local, mas o local é seu quarto… coloque uma vela (só tenha cuidado para
não incendiar a casa).

O organismo que melhor se adapta a seu meio, tem maiores chances de sobrevier… infelizmente, adaptar-se a
vida nas grandes cidades cinzas é algo necessário.

4º Elementos externos a nossa fé

Vamos dizer o seguinte... se você consegue traçar um paralelo do objeto x (externo a nossa fé).... ao elemento y
interno a nossa fé, parabéns você criou seu primeiro simbolismo pessoal.

Exemplos comuns disso:

Cristais, Incenso, Velas, o uso de frutas, vegetais ou materiais desconhecidos aos antigos escandinavos para
simbolizar algo que eles conheciam e por ai vai.

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5º Dicas que surgiram na releitura

Eu não sei como são suas práticas caro leitor, mas sei que nesse mar de diversidade que é o Paganismo Nórdico
alguns conceitos são comuns a todos, vamos a alguns deles.

Separe no seu altar um lugar ou um simbolismo para lembrar dos:


• Deuses (Aesir/Vanir),
• Seus ancestrais
• Os espíritos da terra (Landvaettir)
• Os espíritos do lar (Housewight)

Obs.: Pessoalmente eu gosto de ter um local para cada um, por mais diminuto que seja o espaço; porém a
aqueles que mantém junto o espaço para os espíritos do lar e terra, outros que o “local” dos espíritos da terra
tem quem ser externo ao lar e outros que mantém tudo junto; mas isso é com você.

Separe um recipiente (do material que tiver) ou compre em uma loja de umbanda ou candomblé uma gamela
“travessa de madeira” ou outro material para depositar suas oferendas quando em um local fechado.

Oferendas com o tempo podem estragar, não se acanhe em renovar ou limpar seu local de oferendas para evitar
sujeira… é bom ter um local para enterrar estes restos.

Lembre-se de limpar o local de tempos em tempos. Não adianta criar algo incrível e deixar ao relento juntando
pó, tenha cuidado com o local que reserva a seus Deuses.

Se for usar velas ou incenso, procure por candelabros e porta incensos de material não inflamável (barro, metal,
louça).

Comece pelo básico das simbologias e depois vai aumentando, por exemplo… se eu te perguntar, diga um
objeto que remeta a cada Deus Nórdicos, tenho certeza que vai conseguir imaginar uma para cada, estas são
simbologias para você, não importa se são para os outros.

“Eu” sempre acho bom ter uma martelo (marreta de 2,5kg com o cabo cortado) como simbologia de Thor…
mas é apenas uma sugestão pessoal.

Se local sagrado onde está seu altar serve tanto para fazer seus blót's quanto para espairecer a mente, desabafar
ou meditar. Use e abuse do fruto de seu esforço, muitas vezes conversar com os Deuses é mais produtivo do
que se imagina.

Espero que esse material possa lhes ajudar de qualquer forma possível, espero que o questionem, que busquem
suas fontes e que nunca se limitem às palavras de ninguém. Questionem, aprendam, criem, melhorem…
E se possível espero esbarrar com todos vocês no caminho do Caolho.

Bölverkr Chaffin
https://www.facebook.com/groups/odinismoeasatrureg/

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Fontes, links e livros uteis para quem quiser se aprofundar no assunto:

Sei que imagens valem mil palavras, porém fica difícil publicar imagens das quais não tenho direitos autorais,
então deixo a seguinte dica:

Usem como motor de busca no google, youtube e outros veículos de mídia, variações das seguintes palavras:
asatru, nordic, norse, odinism + shrine, altar, blóthús, hóf, horgr, hjallr, stallheilagr, stalli, vé.

Agora vou listar o que me ajudou a compor esse pdf, não só o “papel” mas as idéias que se formaram ao longo
dos anos e resultaram no que escrevi; com certeza não vou lembrar de tudo, com certeza nem tudo será
diretamente ligado ao tema, porém com certeza, vai gerar algumas horas de leitura e reflexão aos interessados.

Os.: A Wikipédia tem seus pontos altos e baixos, porém, sobretudo a de domínio .en, tem seus louros quanto a
artigos com detalhamento de bibliografia. Todos estes links (abaixo), além de resumos sobre os termos de
busca possuem ao final da página a bibliografia e fontes para o artigo.
Então sugiro o mesmo bom senso que para qualquer outra fonte ao utilizar este site, ler, refletir, comparar,
buscar as fontes da informação, etc...

en.wikipedia.org/wiki/Hörgr
en.wikipedia.org/wiki/Heathen_hofs
en.wikipedia.org/wiki/Sacred_grove
en.wikipedia.org/wiki/Blót
en.wikipedia.org/wiki/Vé_(shrine)
en.wikipedia.org/wiki/Germanic_neopaganism

http://www.vikinganswerlady.com/sacspace.shtml

Johnni Langer, Religião e Magia entre os Vikings: Uma Sistematização Historiográfica


https://www.academia.edu/6789405/Religi%C3%A3o_e_Magia_entre_os_Vikings_Uma_Sistematiza%C3%A
7%C3%A3o_Historiogr%C3%A1fica

Johnni Langer, Símbolos Religiosos dos Vikings: Guia Iconográfico


http://www.historiaimagem.com.br/edicao11outubro2010/simbolos-religiosos-vikings.pdf

Johnni Langer, Midvinterblót: O Sacrificio Humano na Cultura Viking e no Imaginário Contemporâneo


https://www.academia.edu/752567/MIDVINTERBLOT_O_SACRIF%C3%8DCIO_HUMANO_ENTRE_OS_
VIKINGS_E_NO_IMAGIN%C3%81RIO_CONTEMPOR%C3%82NEO_BRATHAIR_4_2004

Márcio Alessandro, Dicionário de Mitologia Germânica


http://www.4shared.com/office/ciR7loZR/Dicionrio_de_Mitologia_Germnic.html

Márcio Alessandro, Invocando os Deuses Nórdicos dos tempos primitivos aos tempos modernos
http://www.4shared.com/office/voIzne5q/Invocando_os_Deuses_Nrdicos_do.html

What rites and celebrations do Heathens perform?


http://heathengods.com/faq/

“Forn Halr is Jotun's Bane Kindred's holy tree”


http://heathengods.com/jbk/forn_halr.htm

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Mark Ludwig Stinson, Heathen Gods – A Collection of Essays Concerning the Folkway of Our People
Pagina 135, Capítulo: House and Land Wights
http://www.heathengods.com/library/book/

Odroerir Heathen Journal Vol.II


Pagina 22, Capítulo: Holiness; established and maintained

Bil Linzie, Drinking at the Well of Mimir “Livro”


Capítulo 3, Midgard
Capítulo 8.7, Durante a Cerimonia

Edred Thorsson, An Introduction to the Germanic Tradition “Livro”


Pagina 15

Mindy MacLeod e Bernard Mess, Runic Amulets and Magic Objects “Livro”
Capítulo 7, Pagan Ritual Items

Hilda Ellis Davidson, The Road to Hel “Livro”


Capítulo, The cult of the dead, página 100

Hilda Ellis Davidson, The Lost Beliefs of Northern Europe “Livro”


O livro todo, em especial o Capítulo 4 “The cult of the Northern Gods”

Diana L. Paxson, Asatrú: Um Guia essencial para o paganismo nórdico “Livro”


Capítulo 11, Questões e Conflitos
Capítulo 12, Da Lareira ao Templo: Organizações Heathen's

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