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DOPS/SNI E PIDE - REPRESSÃO PARA ALÉM DO ATLÂNTICO.

Anderson Guimarães Mendonça1

Resumo

Este artigo tem como objetivo é apresentar as relações existentes entre as


duas polícias políticas e suas agências de informação durante as décadas de
1960 e 1970. Pelo fato do Brasil ter tido dois momentos de regimes autoritários
(Estado Novo e Civil/Militar) e Portugal uma ditadura com traços fascistas
europeias (Salazarismo) elas precisaram criar um rede de informações com
outras nações que concordassem com seus regimes. Entre essas duas
nações, os aparatos repressivos e as agências de informação passaram a
trocar informações a respeito de opositores a seus regimes quando eles
estivessem em solo amigo. Assim, durante estas duas décadas, O DOPS/SNI
repassou várias informações para PIDE. E também de forma inversa, PIDE
vigiava os exilados brasileiros em solo africano sob o domínio de Portugal
(Angola e Moçambique). Este trabalho pretende assim mostrar alguns casos de
informações trocadas a fim de evidenciar a relação diplomática boa existente
entre Brasil e Portugal até o fim do Estado Novo português e ampliar as
discussões acerca do “Mundo-Atlântico” ainda no século XX.

Palavras-chave: DOPS; SNI; PIDE; Polícia Política.

Abstract

This article aims to present the relations between the two political police and
their information agencies during the 1960s and 1970s. Because Brazil had two
moments of authoritarian regimes (Estado Novo and Civil / Military) and
Portugal one dictatorship with European fascist traits (Salazarism) they needed
to create an information network with other nations that agreed with their
regimes. Between these two nations, the repressive apparatuses and the
information agencies began to exchange information regarding opponents to

1
Estudante do Mestrado em História na Universidade Federal Rural de Pernambuco
their regimes when they were in friendly soil. Thus, during these two decades,
DOPS / SNI passed on various information to PIDE. And also in reverse, PIDE
was watching the Brazilian exiles on African soil under the dominion of Portugal
(Angola and Mozambique). This paper intends to show some cases of
information exchanged in order to highlight the good diplomatic relationship
between Brazil and Portugal until the end of the Portuguese New State and to
broaden the discussions about the "World-Atlantic" in the twentieth century.

Keywords: DOPS; SNI; PIDE; Political Police.

Introdução

A História das Repúblicas do Brasil e de Portugal é marcada pela


existência de regimes autoritários que mudaram dinâmicas sociais e estruturas
políticas de ambos os países e que refletem ainda na situação atual destas
sociedades. No Brasil houve duas ditaduras enquanto que em Portugal apenas
uma. O período do regime autoritário em Portugal durou quase meio século,
enquanto que no Brasil, somado os dois períodos, teve-se 29 anos. Ambas
ocorreram no século XX e consequentemente muitas de suas causas podem
ser explicadas ou analisadas a luz do período histórico.

A primeira ditadura brasileira foi a varguista (1937-1945). Com um viés


nacionalista e com alguns traços fascistas, o regime surgiu depois de um
grande questionamento dos modos de distribuição do poder no período da
primeira república conhecido e apelidado pelos pesquisadores do período de
república das oligarquias (1894-1930). Neste contexto de disputa presidencial
onde apenas se elegiam presidentes de dois Estados (São Paulo e Minas
Gerais) Vargas golpeia a disputa presidencial de 1930 e se mantem no poder,
por medidas escusas, implantando um “Estado Novo” até 1945, retornando em
1950 para um mandato democrático, findado com seu suicídio quatro anos
depois após sua última posse como presidente.
A segunda ditadura que ocorreu no Brasil foi a Ditadura Civil-militar
(1964-1985) iniciada por um golpe de Estado no dia 1º de Abril de 1964,
depondo o então presidente da república João Goulart e colocando generais no
lugar. Além disso, durante os anos de chumbo, os militares controlaram as
eleições para diferentes cargos por duas décadas, inclusive o de presidente do
Brasil. Embora nós tenhamos colocado uma data acima, atualmente, a
historiografia discute até quando se poderia afirmar que existiu uma ditadura
civil-militar. Alguns historiadores consideram que ela foi até 1979 e não até
1985. Outros consideram que os mecanismos do regime existiram até a
constituição federal de 1988, logo o primeiro presidente civil foi eleito pelo
conselho do regime, o que ainda não caracterizaria um retorno a democracia.
Outros dizem que a ditadura acabou em 1979, mas houve uma espécie de
“interregno” que durou até a escolha do primeiro presidente da república pelas
leis da constituição “cidadã” e pelo voto direto 2. Este artigo não pretende fazer
uma discussão sobre a atual historiografia, mas é importante que se saiba que
ainda existem debates sobre essa temática acerca de preceitos e teses
teóricas da política e teoria geral de Estado. Para não confundir o leitor, usarei
neste artigo o termo regime militar a fim de indicar o período em que o Brasil
teve presidentes militares.

Em Portugal, a ditadura Salazarista (1933-1974), também conhecida


como Estado Novo Português, iniciou-se com a promulgação da constituição
portuguesa de 1933 que passou a transformar e subjugar os mecanismos
legais aos desmandos do regime. Antes disso, em 1926, houve um golpe de
Estado que retirou do poder Bernardino Machado, último presidente da jovem I
República (1910-1926) e que deu as bases e poderes para que Antônio
Oliveira Salazar pudesse impor seu pensamento dentro do conselho de
ministros. Salazar morreu antes de terminar o regime iniciado por ele, deixando
o seu “legado” para Marcelo Caetano em fins da década de 1960. Marcelo
Caetano como bom sucessor tentou manter aquilo que Salazar tinha começado
e tentado manter. Mas foi destituído do cargo em 25 de Abril de 1974, na
conhecida Revolução dos Cravos.

2
Assim também chamada a constituição federal de 1988.
No campo da política, usaremos como teoria as proposições e análises
da filósofa política Hannah Arendt, tanto em seu livro Origens do Totalitarismo
(2012), representando as estruturas policiais criadas pelo regime nazista e que
serviram de referência para outros regimes, incluindo os citados neste artigo,
quanto no livro Entre o passado e o futuro (2005), principalmente na
diferenciação feita por ela entre os regimes autoritários, ditaduras/tiranias e o
totalitarismo. Na descrição feita por Arendt, nestes livros, apenas na Alemanha
Nazista e na Rússia Stalinista teriam ocorrido um sistema totalitário e todos os
demais regimes autoritários teriam sido ditaduras que mantiveram
características próximas ou distantes destes dois exemplos.

Neste artigo, nós não pretendemos discutir ou comparar diretamente os


regimes, nem os países no que concerne a situação instaurada por ambas as
ditaduras, nem categorizar conforme a filósofa política fez em seus livros, visto
que tais discussões são, de certa forma, polêmicas e merecem mais espaço do
que um artigo. No entanto, como objeto de estudo e instrumento de controle
social, tanto o Brasil, quanto Portugal criaram aparatos polícias que vigiavam e
repremiam quaisquer grupos ou indivíduos que pudessem retirá-los do poder,
assim como Hitler criara a sua. Desta forma, pretende-se neste artigo discutir e
apresentar as polícias políticas de ambos os regimes, A PIDE e o DOPS/SNI, e
trazer as relações existente entre elas, principalmente no que se refere ao
combate do “maior inimigo” do século XX: O Comunismo.

DOPS/SNI: Repressão nas ditaduras no Brasil

Criado em 1935, A Delegacia de Ordem e Polícia Social (DOPS) tinha


como objetivo garantir a ordem pública e evitar distúrbios sociais que
pudessem parar o “bom andamento” da sociedade. Sua criação se deve muito
ao momento histórico e aos eventos que antecederam as suas práticas
cotidianas. Em novembro de 1935, aconteceu pelo Brasil um putsch conhecido
como “Intentona Comunista”. A Intentona foi um movimento militar armado de
esquerda que visava retirar Vargas do Poder e colocar em seu lugar um
governante de cunho popular e sem alinhamento com qualquer grupo
nazifascista. A Intentona aconteceu em vários Estados do país. Mas por
problemas com a comunicação e com o vazamento da ação, ela foi facilmente
derrotada. Esse evento, somado com o medo “subversivo” internacional do
bolchevismo, fez com que Vargas tivesse motivos de sobra para decretar
Estado de Sítio, censurar a imprensa e, consequentemente, implantar uma
política com viés de caça político. Junto com o DIP (Departamento de Imprensa
e Propaganda) O DOPS se manteve durante todo o Estado Novo, fazendo com
que movimentos de esquerda fossem perseguidos. Tanto o DOPS como o DIP
funcionavam como engrenagens reguladoras das relações entre o Estado e o
povo.

3
O DOPS/Deops, e suas distritais pelo Brasil, também confiscavam
livros e evitava a circulação de muitos jornais e periódicos vistos por ele como
subversivos ou que pudessem perverter a sociedade com as ideias
comunistas.

O Deops, enquanto segmento da polícia política em nível estadual e


órgão preocupado em sustar a propaganda de ideias revolucionárias,
adotou medidas administrativas sistemáticas, assim como endossou
o discurso ordenador e saneador articulado pelo regime oficial.
Através da lógica da suspeição, manteve-se vigilante, procurando,
sempre que possível, apreender a literatura “perigosa” e processar
seus mentores intelectuais. (CARNEIRO, 1997, p. 27)

Um ponto importante a ser lembrado é que havia na sociedade da


ditadura varguista uma matriz católica muito importante, matriz esta que se
posicionava contra os pontos colocados na pauta comunista da época, pauta
essa alinhada a Moscou e, nesse momento, a Josef Stalin. Assim se
configurou, brevemente apresentada, a relação e criação do aparato policial no
bojo da Segunda Guerra Mundial diante de vários movimentos fascistas ou
fascizantes, o que não pode ser descartado do contexto que envolveu a política
varguista.

3
Departamento de Polícia e Ordem Social. Sigla usada unicamente no Estado de São Paulo
para o DOPS nas demais cidades, tendo as mesmas atribuições.
Uma questão curiosa do DOPS e ao mesmo tempo importante para criar
o processo diacrônico deste artigo se dá pela permanência do aparato mesmo
após o fim regime varguista, o que leva a discussão a “experiência democracia”
que se encontrava o Brasil no período comumente chamado de Segunda
República (1945-1964). O historiador Carlos Fico trata isso no livro História do
Brasil Contemporâneo. Não apenas pelo aparato, mas também pela série de
tentativas de golpes durante os dezenove anos. Embora se possa dizer que o
Brasil se encontrava mais “democrático” do ponto de vista eleitoral, as
instituições que deveriam manter funcionando o regime democrático muitas
vezes chegaram a falhar o que ajudaria a explicar ainda mais o retorno a uma
ditadura menos de duas décadas depois (FICO, 2015). Mesmo que por causas
e contextos diferentes, muitos dos discursos legitimadores da ditadura
varguista permaneceram existentes no regime militar.

Com a instauração da ditadura civil-militar já supracitada, O DOPS


voltou a ser de extrema importância para o controle social e para os
mandatários do Regime. No entanto, agora o aparato não seria o único a
repreender e/ou espionar os ditos subversivos. O regime militar se sofisticou
em matéria de espionagem e criou em 1964 o Serviço Nacional de Informação
(SNI). Sob o comando do General Golbery Couto e Silva, o SNI foi pensado
logo no primeiro mês de instauração do regime, apesar de ter suas funções
plenamente ativas no ano seguinte. O SNI teve uma independência que não
era comum de ser vista em outras nações. Se compararmos com a CIA ou a
KGB, ambas se reportavam para alguma instituição ligada ao governo. No caso
do SNI, o status era de ministério e as atividades efetuadas pelo órgão eram
reportadas diretamente ao presidente da República.

Diferente do DOPS, o SNI não prendia, nem torturava. Conhecido


também como “comunidade de informações”, uma das características do órgão
foi a sua atribuição de recolher e analisar informações, enviando tanto para
outros órgãos da comunidade de informação (como Centro de Informações do
Exército) como também para órgãos de segurança. O Serviço de Informação
foi um órgão de “mão dupla”, pois além de coletar as informações, ele também
servia para fazer uma propaganda política assim como o Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP) fazia no período de Vargas. Desta forma, a
“comunidade de informação” foi responsável pela legitimação do discurso
favorável a radicalização da repressão.

O SNI fez parte de uma rede internacional de espionagem no Ocidente,


junto, principalmente, com a CIA dos Estados Unidos da América, o MI5 da
Grã-Bretanha e a PIDE de Portugal. Este último será analisado mais adiante.
Nesta rede interligada entre os Serviços de Informação, a SNI enviou aos EUA
alguns membros para treinar técnicas e compartilhar instrumentos de
espionagem. Em contrapartida o governo brasileiro permitia que a CIA tivesse
acesso a todas as informações pedidas pelo governo norte-americano.
(GASPARI, 2015, p. 158)

O SNI assistiu e participou da reconfiguração da polícia política do


regime militar. Do mesmo modo, continuou existindo após a extinção da
ditadura, no final do governo de João Figueiredo (1978-1984), ficando a cargo
da nova república a remodelação do sistema de informações. Esta longevidade
talvez se explique pela persistência da ideia de que o SNI era o “órgão de
segurança por excelência” por ter subordinado todos os demais órgãos
repressivos a ele.

Tanto o SNI quanto o DOPS foram instrumentos de coerção e clara


repressão a qualquer individuo que pudesse representar uma ameaça para os
regimes impostos. As justificativas dadas sempre foram as da subversão como
arma maior do “inimigo vermelho”. Contudo, sabe-se que muitos dos presos,
censurados, torturados e mortos não tinham características comunistas e foram
violados pelos regimes. Tanto nas condições da Segunda Guerra Mundial,
quanto da Guerra Fria, o aparato policia se manteve quase intocável.

PIDE: Repressão em Portugal e na África.

A história da polícia política salazarista pode ser dividida em três fases,


embora apenas nos detenhamos neste artigo na segunda fase: A primeira fase
foi a Polícia de Vigilância de Defesa do Estado (PVDE) criado em 1933, logo no
início do Estado Novo Português, existindo até 1945. A Segunda fase
aconteceu com a internacionalização da polícia, transformando-a em Polícia
Internacional de Defesa e Estado (PIDE) de 1945 até 1969. E por fim, essa
polícia se tornou em DGS (Direção Geral de Segurança) que atuou de 1969 até
o final do Estado Novo em 1974, com o então presidente de Portugal Marcelo
Caetano. 4

A PIDE surge como uma nova polícia política do Estado Salazarista


após o fim da Segunda Grande Guerra, mudando o foco e as atenções
prioritárias em material de repressão e vigilância. Como já explanado sobre o
contexto internacional, o mundo passou a temer a ameaça comunista e muitos
países alinhados aos EUA ou a práticas fascistas passaram a recrudescer sua
polícia internamente. Assim, a PIDE tinha como função vigiar não só o território
continental português na Europa, mas também toda a extensão de terra
existente na África ainda sob seu domínio no século XX. Em Angola,
Moçambique e Guiné-Bissau, a polícia política permaneceu até as revoluções
africanas que libertaram estas três “nações” do domínio português, o que não
evitou sequelas sociais e culturais nos povos africanos. Todas as suas ações
eram reportadas aos Ministérios do Interior e Ultramar. Pelo perfil centralizador
das suas decisões, Salazar também tinha acesso a muitas das informações
enviadas para ambos os ministérios ou órgãos do Estado (Como o Gabinete de
Negócios Políticos) encarregados de coletar informações.

Como práticas de intervenção direta, a PIDE podia desde penalizar os


suspeitos com detenção mínima e regida por lei, ou até mesmo ampliar de
forma arbitrária as penas dos detentos sem explicar o motivo, chegando ao
extremo, quando usava a tortura como tática de delação. A partir do final da
década de 1950, a PIDE também existiu como aparato de controle social e
repressão contra os movimentos de libertação nos três territórios africanos
portugueses. Estes movimentos planejavam ações armadas, visando a
independência territorial e político-administrativa portuguesa. Com ajuda
internacional, especialmente da URSS, estes movimentos se organizaram nos
anos que seguiram até o fim do colonialismo português. Eles passaram a ser

4
Sobre a PVDE ver: RIBEIRO, Maria da Conceição Nunes de Oliveira. A polícia política no
Estado Novo. Lisboa: Estampa, 2000.
caçados e vigiados interna e externamente junto com a rede de agências de
informação ao qual a PIDE fazia parte (Já anteriormente citado no tópico do
DOPS), incluindo as brasileiras, o que fez com tivessem problemas de
organização no início dos movimentos.

A PIDE surgiu e persistiu a existir por questões internacionais e pela


permanência do Salazarismo. Visto pelo mundo como o “baluarte do fascismo”,
Salazar deu bases ideológicas suficientes para manter instrumentos coercitivos
presentes até a segunda metade do século XX. De um lado do Atlântico,
Portugal se mostrou resistente às mudanças “democráticas” europeias do pós-
segunda guerra. No outro lado do Atlântico, o Brasil criou um novo modelo de
regime autoritário militar que acabou exportando para países vizinhos latino-
americanos um sistema característico das América Latina depois da onda do
Populismo. Nas rupturas destes dois países, vamos mostrar como os aparatos
policiais trocaram informações, considerando o momento histórico e sincrônico:
A Guerra Fria.

As Relações entre as polícias políticas do Brasil e de Portugal

A PIDE e o DOPS/SNI vigiavam sem trégua qualquer um que pudesse


representar uma ameaça aos seus respectivos regimes. Durante anos, mas
especialmente na década de 1960, esses órgãos de informação e repressão
trocaram informações um com outro a fim de espionar nomes muitas vezes
exilados em seus países. Nesta parte do artigo, não pretendemos trabalhar
todas as relações ou as respectivas condições escusas, mas apresentar alguns
casos da relação entre os regimes e suas polícias.

Existem evidências de que a rede Brasil/Portugal já existia em 1960,


antes da eclosão da guerra em Angola e do golpe civil/militar no Brasil. No
entanto, foi apenas em 1964, com o inicio da ditadura civil/militar, que essa
cooperação se tornou mais formal, havendo a clara troca de documentos entre
as polícias. Claro que as mudanças diplomáticas ocorridas no período do
regime militar como a conivência de práticas portuguesas em solo africano
acabaram contribuindo para a troca de informações entre as nações,
mostrando o “espírito de colaboração e amizade” que unia uma nação no velho
continente e sua “representação” num novo continente. A presença sombria
dos agentes da PIDE veio a tona à medida que o DOPS/SNI lançaram uma
rede para deter suspeitos tidos como radicais, como ex-estudantes da UNE
exilados em Portugal ou nas possessões portuguesas na África (Angola,
Moçambique ou Guiné-Bissau), ou pelo Brasil ter recebido militantes e políticos
opositores do regime salazarista, como, por exemplo, Humberto Delgado.

Contudo, alguns membros do “alto escalão” brasileiro daquela época


também foram espionados pela PIDE, sem que o DOPS soubesse. Um
exemplo desses foi o caso de Marechal Costa e Silva, presidente do Brasil de
1967 à 1969. Durante alguns anos, a PIDE enviava constantemente relatórios a
Lisboa e cúpula do salazarismo, informando que o Presidente Costa e Silva se
posicionava contra o colonialismo ainda existente na África e era vista como
“antiportuguês”. Isso se deve a posição sempre incerta do Brasil sobre sua
parceira com Portugal entre 1950 e 1980, pois ela mudou de acordo com o
presidente que estivesse no poder. Nesse ponto, independia a existência de
uma democracia ou de uma ditadura, o que mostra uma falta de coerência por
parte dos militares ao condenarem o regime salazarista e seu colonialismo,
mas manterem internamente um sistema autoritário que durou por mais de
vinte anos. (DÁVILA, 2011)

Essa relação entre as duas polícias apenas terminou com a Revolução


dos Cravos em Portugal. A partir de 1974, o governo brasileiro, e seus órgãos
de vigilância, começaram a fechar as portas diplomáticas com Portugal por
terem medo de que houvesse a invasão comunista no país pelos escritórios de
turismo, consulados e embaixada, considerando esses espaços em “centros de
subversão”. O SNI se infiltrou na comunidade de exilados em Portugal,
colocando informantes para enviar relatórios sobre brasileiros exilados do
Brasil que visitavam a nação portuguesa. Esse foi o caso da visita de Leonel
Brizola e Miguel Arraes, antigos membros do Partido Trabalhista Brasileiro
(PTB) e que organizavam uma oposição ao regime militar na Europa e com
membros da América Latina. Ainda nesse período, o DOPS/SNI ampliou sua
rede agora também com as ditaduras latino-americanas.
Considerações Finais

Algumas dessas situações visam neste texto apenas mostrar a rede e as


ligações entre o Brasil e o Portugal durante a segunda metade do século XX.
Estes dois aparatos surgiram de um contexto de repressão e se mantiveram
durante décadas mesmo em regimes democráticos de direito. No campo do
direito, eles representariam elementos de um estado de exceção, existente
ainda hoje nos moldes comportamentais das polícias no Brasil e em Portugal.
Tal questão merece um estudo mais detalhado, pois a exceção para alguns
talvez sempre tenha existido, o que justificaria esses aparatos em períodos
entendidos como democráticos, sob o ponto de vista jurídico-social.

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