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I III l^'.l(lll |)(ii ,1. (iuinsburg

hannah arendt
ENTRE O PASSADO
E O FUTURO

Equipe de realização - Tradução: Mauro W. Barbosa; Revisão: Mary


Amazonas Leite de Barros; Produção: Ricardo W. Neves e Raquel Fernandes
Abranches.
^ C PERSPECTIVA
V/|\\N^
Objetivamente, isto é, vendo do lado de fora e
levar em conta que o homem é um início e um inicl
dor, as possibilidades de que o amanhã seja como
hoje são sempre esmagadoras. N ã o exatamente t
esmagadoras, é verdade, mas quase tanto como as poM
sibilidades de que não surgisse nunca uma terra dciiiri
as ocorrências cósmicas, de que nenhuma vida sc cl0«
senvolvesse a partir de processos inorgânicos, e dc i|UO
não emergisse homem algum da evolução da vida aiila
mal. A diferença decisiva entre as "infinitas improbn»
bilidades" sobre as quais se baseia a realidade de nosN»
vida terrena e o caráter miraculoso inerente aos even-
tos que estabelecem a realidade histórica está cm
que, na dimensão humana, conhecemos o autor I I O H

"milagres". São homens que os realizam — homens que,


por terem recebido o dúphce dom da liberdade e ilit
ação, podem estabelecer uma realidade que lhes pci
tence de direito.

5. A CRISE N A E D U C A Ç Ã O

A crise geral que acometeu o mundo moderno em


toda parte e em quase toda esfera da vida se mani-
festa diversamente em cada país, envolvendo áreas e
assumindo formas diversas. Na América, um de seus
aspectos mais característicos e sugestivos é a crise pe-
riódica na educação, que se tornou, no transcurso da
última década pelo menos, um problema político de
primeira grandeza, aparecendo quase diariamente no
noticiário jornalístico. Certamente não é preciso gran-
de imaginação para detectar os perigos de um declí-

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envolvido. É a oportunidade, proporcionada pelo pró-
nio sempre crescente nos padrões elementares na tot;.-
prio fato da crise — que dilacera fachadas e oblitera
lidade do sistema escolar, e a seriedade do problema
preconceitos — , de explorar e investigar a essência da
tem sido sublinhada apropriadamente pelos inúmeros
questão em tudo aquilo que foi posto a nu, e a essên-
esforços baldados das autoridades educacionais para de-
ter a maré. Apesar disso, se compararmos essa crise cia da educação é a natalidade, o fato de que seres
na educação com as experiências políticas de outros nascem para o mundo. O desaparecimento de precon-
países no século X X , com a agitação revolucionária ceitos significa simplesmente que perdemos as respos-
que se sucedeu à Primeira Guerra Mundial, com os tas em que nos apoiávamos de ordinário sem querer
campos de concentração e de extermínio, ou mesmo perceber que originariamente elas constituíam respos-
com o profundo mal-estar que, não obstante as apa- tas a questões. Uma crise nos obriga a voltar às ques-
rências contrárias de propriedade, se espalhou por toda tões mesmas e exige respostas novas ou velhas, mas
a Europa a partir do término da Segunda Guerra Mun- de qualquer modo julgamentos diretos. Uma crise só
dial, é um tanto difícil dar a uma crise na educação a se torna um desastre quando respondemos a ela com
seriedade devida. É de fato tentador considerá-la como juízos pré-formados, isto é, com preconceitos. Uma
um fenómeno local e sem conexão com as questões atitude dessas n ã o apenas aguça a crise como nos priva
principais do século, pelo qual se deveriam responsabi- da experiência da realidade e da oportunidade por ela
lizar determinadas peculiaridades da vida nos Estados proporcionada à reflexão.
Unidos que não encontrariam provavelmente contrapar- Por mais claramente que um problema geral possa
tida nas demais partes do mundo.
se apresentar em uma crise, ainda assim é impossível
Se isso fosse verdadeiro, contudo, a cnse em nosso chegar a isolar completamente o elemento universal
sistema escolar n ã o se teria tornado um problema po- das circunstâncias específicas em que ele aparece. E m -
lítico e as autoridades educacionais não teriam sido in- bora a crise na educação possa afetar todo o mundo,
capazes de hdar com ela a tempo. Certamente, há é significativo o fato de encontrarmos sua forma mais
aqui mais que a enigmática questão de saber por que extrema na América, e a razão é que, talvez, apenas
Joãozinho não sabe ler. Além disso, há sempre ;i na América uma crise na educação poderia se tornar
tentação de crer que estamos tratando de problemas realmente um fator na política. N a América, indiscuti-
específicos confinados a fronteiras históricas e nacio- velmente a educação desempenha um papel diferente
nais, importantes somente para os imediatamente afe- e incomparavelmente mais importante politicamente do
tados. É justamente essa crença que se tem demons- que em outros países. Tecnicamente, é claro, a expli-
trado invariavelmente falsa em nossa época: pode-sc cação reside no fato de que a América sempre foi uma
admitir como uma regra geral neste século que qual- terra de imigrantes; como é óbvio, a fusão extrema-
quer coisa que seja possível em um país pode, em fu- mente difícil dos grupos étnicos mais diversos — nun-
turo previsível, ser igualmente possível em praticamen- ca completamente lograda, mas superando continuamen-
te qualquer outro país. te as expectativas — só pode ser cumprida mediante
a instrução, educação e americanização dos filhos de
À parte essas razões gerais que fariam parecer
imigrantes. Como para a maior parte dessas crianças o
aconselhável, ao leigo, dar atenção a distúrbios em áreas
inglês n ã o é a língua natal, mas tem que ser aprendida
acerca das quais, em sentido especializado, ele pode
nada saber (e esse é, evidentemente, o meu caso ao na escola, esta obviamente deve assumir funções que,
tratar de uma crise na educação, posto que não sou em uma nação-estado, seriam desempenhadas normal-
educadora profissional), há outra razão ainda mais mente no lar.
convincente para que ele se preocupe com uma situa- Contudo, o mais decisivo para nossas considera-
ção problemática na qual ele não está imediatamente ções é o papel que a imigração contínua desempenha

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na consciência política e na estrutura psíquica do país, gregos chamavam simplesmente ói neói, os novos. H á
A América não é simplesmente um país colonial ca- fato adicional, contudo, e que se tornou decisivo para
recendo de imigrantes para povoar a terra, embora in- significado da educação, de que esse pathos do novo,
dependa deles em sua estrutura política. Para a Amé- (bora consideravelmente anterior ao século X V I I I ,
rica o fator determinante sempre foi o lema impresso mente se desenvolveu conceituai e politicamente na-
em toda nota de dólar — Novus Ordo Sedorum, Uma de século. Derivou-se dessa fonte, a princípio, um
Nova Ordem do Mundo. Os imigrantes, os recém-chc- al educacional, impregnado de Rousseau e de fato
gados, são para o país uma garantia de que isto repre- tamente influenciado por Rousseau, no qual a edu-
;ão tornou-se um instrumento da política, e a própria
senta a nova ordem. O significado dessa nova ordem,
tividade política foi concebida como uma forma de
dessa fundação de um novo mundo contra o antigo,
'ucação.
foi e é a eliminação da pobreza e da opressão. Mas
ao mesmo tempo, sua grandeza consiste no fato de que, O papel desempenhado pela educação em todas as
desde o início, essa nova ordem não se desligou do topias políticas, a partir dos tempos antigos, mostra o
mundo exterior — como costumava suceder alhures na uanto parece natmral iniciar um novo mundo com aque-
fundação de utopias — para confrontar-se com um ;s que são por nascimento e por natureza novos. No
modelo perfeito, e tampouco foi seu propósito impor que toca à política, isso implica obviamente um grave
pretensões imperiais ou ser pregada como um evange- equívoco: ao invés de juntar-se aos seus iguais, assu-
lho a outros. Em vez disso, sua relação com o mundo mindo o esforço de persuasão e correndo o risco do
exterior caracterizou-se desde o início pelo fato de esta fracasso, há a intervenção ditatorial, baseada na abso-
repúbhca, que planejava abolir a pobreza e a escravi- luta superioridade do adulto, e a tentativa de produ-
dão, ter dado boas-vindas a todos os pobres e escra- zir o novo como um fait accompli, isto é, como se o
vizados do mundo. Nas palavras pronunciadas por novo já existisse. Por esse motivo na Europa, a cren-
John Adams em 1765 — isto é, antes da Declaração ça de que se deve começar das crianças se se quer
da Independência — "Sempre considerei a colonização produzir novas condições permaneceu sendo principal-
da América como a abertura de um grandioso desíg- mente o monopóUo dos movimentos revolucionários de
nio da providência para a iluminação e emancipação feitio tirânico que, ao chegarem ao poder, subtraem as
da parte escravizada do género humano sobre toda a crianças a seus pais e simplesmente as doutrinam. A
terra". Esse foi o intento ou lei básica em conformi- educação não pode desempenhar papel nenhum na po-
dade com qual a América começou sua existência his- lítica, pois na política lidamos com aqueles que já estão
tórica e política. educados. Quem quer que queira educar adultos na
O entusiasmo extraordinário pelo que é novo, exi- realidade pretende agir como guardião e impedi-los de
bido em quase todos os aspectos da vida diária ameri- atividade política. Como não se pode educar adultos,
cana, e a concomitante confiança em uma "perfectibi- a palavra "educação" soa mal em política; o que há
lidade ilimitada" — observada por Tocqueville como o é um simulacro de educação, enquanto o objetivo real
credo do "homem sem instrução" comum, e que como é a coerção sem o uso da força. Quem desejar seria-
tal precede de quase cem anos o desenvolvimento mente criar uma nova ordem política mediante a edu-
em outros países do Ocidente — , presumivelmente re- cação, isto é, nem através de força e coação, nem atra-
sultariam de qualquer maneira em uma atenção maior vés da persuasão, se verá obrigado à pavorosa conclu-
e em maior importância dadas aos recém-chegados por são platónica: o banimento de todas as pessoas mais
nascimento, isto é, as crianças, as quais, ao terem ul- velhas do Estado a ser fundado. Mas mesmo às crian-
trapassado a infância e estarem prontas para ingressar ças que se quer educar para que sejam cidadãos de
na comunidade dos adultos como pessoas jovens, eram um amanhã utópico é negado, de fato, seu próprio

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papel futuro no organismo político, pois, do ponto dc ucação progressista, uma radical revolução em todo
vista dos mais novos, o que quer que o mundo adulto sistema educacional. Aquilo que na Europa perma-
possa propor de novo é necessariamente mais velho do ia sendo um experimento, testado aqui e ali em
que eles mesmos. Pertence à própria natureza da con- terminadas escolas e em instituições educacionais iso-
dição humana o fato de que cada geração se transfor- 'as e estendendo depois gradualmente sua influên-
ma em um mundo antigo, de tal modo que preparar cia a alguns bairros, na América, há cerca de vinte e
uma nova geração para um mundo novo só pode signi- cinco anos atrás, derrubou completamente, como que
ficar o desejo de arrancar das mãos dos recém-chega- de um dia para outro, todas as tradições e métodos
dos sua própria oportunidade face ao novo. estabelecidos de ensino e de aprendizagem. N ã o en-
Tudo isso de modo algum ocorre na América, e trarei em detalhes, e deixo de fora as escolas particula-
é exatamente esse fato que torna tão difícil julgar aqui res e, sobretudo, o sistema escolar paroquial católico-
corretamente esses problemas. O papel político que -romano. O fato importante é que, por causa de deter-
a educação efetivamente representa em uma terra de minadas teorias, boas ou más, todas as regras do juízo
imigrantes, o fato de que as escolas não apenas servem humano normal foram postas de parte. U m procedi-
para americanizar as crianças mas afetam também a mento como esse possui sempre grande e perniciosa
seus pais, e de que aqui as pessoas são de fato aju- importância, sobretudo em um país que confia em tão
dadas a se desfazerem de um mundo antigo e a entrar larga escala no bom senso em sua vida política. Sem-
em um novo mundo, tudo isso encoraja a ilusão de que pre que, em questões políticas, o são juízo humano
um mundo novo está sendo construído mediante a edu- fracassa ou renuncia à tentativa de fornecer respostas,
cação das crianças. É claro que a verdadeira situação nos deparamos com uma crise; pois essa espécie de
absolutamente n ã o é esta. O mundo no qual são intro- juízo é, na realidade, aquele senso comum em virtude
duzidas as crianças, mesmo na América, é um mundo do qual nós e nossos cinco sentidos individuais estão
adaptados a um único mundo comum a todos nós, e
velho, isto é, um mundo preexistente, construído pelos
com a ajuda do qual nele nos movemos. O desapare-
vivos e pelos mortos, e só é novo para os que acaba-
cimento do senso comum nos dias atuais é o sinal mais
ram de penetrar nele pela imigração. Aqui, porém, a
seguro da crise atual. Em toda crise, é destruída uma
ilusão é mais forte do que a realidade, pois brota di-
parte do mundo, alguma coisa comum a todos nós. A
retamente de uma experiência americana básica, qual
falência do bom senso aponta, como uma vara mágica,
seja, a de que é possível fundar uma nova ordem, e o
o lugar em que ocorreu esse desmoronamento.
que é mais, fundá-la com plena consciência de um
coníinuum histórico, pois a frase "Novo Mundo" re- Em todo caso, a resposta à questão: — Por que
tira seu significado de Velho Mundo, que, embora admi- Joãozinho não sabe ler? — ou à questão mais geral:
rável por outros motivos, foi rejeitado por não poder — Por que os níveis escolares da escola americana
encontrar nenhuma solução para a pobreza e para a média acham-se tão atrasados em relação aos padrões
opressão. médios na totalidade dos países da Europa? — não é,
infelizmente, simplesmente o fato de ser este um país
Com respeito à própria educação, a ilusão emer- jovem que não alcançou ainda os padrões do Velho
gente do pathos do novo produziu suas consequências Mundo, mas, ao contrário, o fato de ser este país, nesse
mais sérias apenas em nosso próprio século. Antes de campo particular, o mais "avançado" e moderno do
mais nada, possibilitou àquele complexo de modernas mundo. E isso é verdadeiro em um dúplice sentido:
teorias educacionais originárias da Europa Central e em parte alguma os problemas educacionais de uma
que consistem de uma impressionante miscelânea de sociedade de massas se tornaram tão agudos, e em ne-
bom senso e absurdo levar a cabo, sob a divisa da nhum outro lugar as teorias mais modernas no cam-

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ssível. O que é intentado na Inglaterra é a "merito-
po da Pedagogia foram aceitas tão servil e indiscrimi-
nadamente. Desse modo, a crise na educação america- ;ia", que é obviamente mais uma vez o estabeleci-
na, de um lado, anuncia a bancarrota da educação ento de uma oligarquia, dessa vez não de riqueza
progressiva e, de outro, apresenta um problema imen- de nascimento, mas de talento. Mas isso significa,
samente difícil por ter surgido sob as condições de uma esmo que o povo inglês n ã o esteja inteiramente es-
sociedade de massas e em resposta às suas exigências. 'arecido a respeito, que, mesmo sob um governo so-
alista, o país continuará a ser governado como o tem
A esse respeito, devemos ter em mente um outro "o desde tempos imemoriais, isto é, nem como mo-
fator mais geral que, é certo, não provocou a crise, quia nem como democracia, porém como oligar-
mas que a agravou em notável intensidade, e que é o
•'a ou aristocracia — a última, caso se admita o
papel singular que o conceito de igualdade desempe-
nto de vista de que os mais dotados são também os
nha e sempre desempenhou na vida americana. Há
elhores, o que não é de modo algum uma certeza.
nisso muito mais que a igualdade perante a lei, mais,
^»a América, uma divisão quase física dessa espécie
também, que o nivelamento das distinções de classe,
Jentre crianças muito dotadas e pouco dotadas seria
e mais ainda que o expresso na frase "igualdade de
considerada intolerável. A meritocracia contradiz, tanto
oportunidades", embora esta tenha uma maior impor-
"' uanto qualquer outra oligarquia, o princípio da igual-
tância em nosso contexto, dado que, no modo de ver
americano, o direito à educação é um dos inalienáveis 3 ade que rege uma democracia igualitária.
direitos cívicos. Este último foi decisivo para a estru- Assim, o que torna a crise educacional na Amé-
tura do sistema de escolas públicas, porquanto escolas rica tão particularmente aguda é o temperamento polí-
secundárias, no sentido europeu, constituem exceções. tíco do país, que espontaneamente peleja para igualar
Como a freqiiência escolar obrigatória se estende à ida- ou apagar tanto quanto possível as diferenças entre jo-
de de dezesseis anos, toda criança deve chegar ao co- vens e velhos, entre dotados e pouco dotados, entre
légio, e o colégio é portanto, basicamente, uma espé- crianças e adultos e, particularmente, entre alunos e
cie de continuação da escola primária. E m consequên- professores. É óbvio que um nivelamento desse tipo
cia dessa ausência de uma escola secundária, a prepa- ló pode ser efetivamente consumado às custas da auto-
ração para o curso superior tem que ser proporcionada ridade do mestre ou às expensas daquele que é mais
pelos próprios cursos superiores, cujos currículos pade- dotado, dentre os estudantes. Entretanto, é igualmente
cem, por isso, de uma sobrecarga crónica, a qual afeia
óbvio, pelo menos a qualquer pessoa que tenha tido al-
por sua vez a qualidade do trabalho ali realizado.
gum contato com o sistema educacional americano, que
Poder-se-ia talvez pensar, à primeira vista, que essa essa dificuldade, enraizada na atitude política do país,
anomalia pertence à própria natureza de uma socieda- possui também grandes vantagens, não apenas de tipo
de de massas na qual a educação não é mais um pri humano mas também educacionalmente falando; em
vilégio das classes abastadas. Uma vista d'olhos na todo caso, esses fatores gerais n ã o podem explicar a
Inglaterra, onde, como todos sabem, a educação secun crise em que nos encontramos presentemente, e tam-
daria também foi posta à disposição, em anos reccn pouco justificam as medidas que a precipitaram.
tes, de todas as classes da população, mostrará qiu'
não é isso o que ocorre. L á , ao fim da escola prima
ria, tendo os estudantes a idade de onze anos, instituiu 11
se o temível exame que elimina quase 10% dos
escolares qualificados para instrução superior. O rigor Essas desastrosas medidas podem ser remontadas
dessa seleção não foi aceito, mesmo na Inglaterra, sem esquematicamente a três pressupostos básicos, todos
protestos; na América, ele simplesmente teria sido ini mais do que familiares. O primeiro é o de que existe

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um mundo da criança e uma sociedade formada entro mesmas, ou entregues à tirania de seu próprio grupo,
crianças, autónomos e que se deve, na medida do pos- contra o qual, por sua superioridade numérica, elas
sível, permitir que elas governem. Os adultos aí estão não podem se rebelar, contra o qual, por serem crian-
apenas para auxiliar esse governo. A autoridade que ças, n ã o podem argumentar, e do qual não podem es-
diz às crianças individualmente o que fazer e o que capar para nenhum outro mundo por lhes ter sido bar-
não fazer repousa no próprio grupo de crianças — e rado o mundo dos adultos. A reação das crianças a essa
isso, entre outras consequências, gera uma situação em pressão tende a ser ou o conformismo ou a delinqiiên-
que o adulto se acha impotente ante a criança indi- cia juvenil, e frequentemente é uma mistura de ambos.
vidual e sem contato com ela. Ele apenas pode dizer- O segundo pressuposto básico que veio à tona na
Ihe que faça aquilo que lhe agrada e depois evitar que presente crise tem a ver com o ensino. Sob a influên-
o pior aconteça. As relações reais e normais entre cia da Psicologia moderna e dos princípios do Prag-
crianças e adultos, emergentes do fato de que pessoas matismo, a Pedagogia transformou-se em uma ciência
de todas as idades se encontram sempre simultanea-
do ensino em geral a ponto de se emancipar inteira-
mente reunidas no mundo, são assim suspensas. E
mente da matéria efetiva a ser ensinada. U m professor,
é assim da essência desse primeiro pressuposto básico
pensava-se, é um homem que pode simplesmente en-
levar em conta somente o grupo, e não a criança in-
sinar qualquer coisa; sua formação é no ensino, e não
dividual.
no domínio de qualquer assunto particular. Essa atitu-
Quanto à criança no grupo, sua situação, natural- de, como logo veremos, está naturalmente, intimamente
mente, é bem pior que antes. A autoridade de um ligada a umpressuposto básico acerca da aprendizagem.
grupo, mesmo que este seja um grupo de crianças, é Além disso, ela resultou nas últimas décadas em um
sempre consideravelmente mais forte e tirânica do que negligenciamento extremamente grave da formação dos
a mais severa autoridade de um indivíduo isolado. Se professores em suas próprias matérias, particularmente
a olharmos do ponto de vista da criança individual, as nos colégios públicos. Como o professor não precisa
chances desta de se rebelar ou fazer qualquer coisa conhecer sua própria matéria, não raro acontece en-
por conta própria são praticamente nulas; ela não se contrar-se apenas um passo à frente de sua classe em
encontra mais em uma luta bem desigual com uma conhecimento. Isso quer dizer, por sua vez, que não
pessoa que, é verdade, tem absoluta superioridade sobre apenas os estudantes são efetivamente abandonados a
ela, mas no combate a quem pode, no entanto, contar seus próprios recursos, mas também que a fonte mais
com a solidariedade das demais crianças, isto é, de sua legítima da autoridade do professor, como a pessoa
própria classe; em vez disso, encontra-se na posição, que, seja dada a isso a forma que se queira, sabe mais
por definição irremediável, de uma minoria de um em e pode fazer mais que nós mesmos, n ã o é mais eficaz.
confronto com a absoluta maioria dos outros. Poucas Dessa forma, o professor não-autoritário, que gostaria
pessoas adultas são capazes de suportar uma situação de se abster de todos os métodos de compulsão por
dessas, mesmo quando ela não é sustentada por meios ser capaz de confiar apenas em sua própria autorida-
de compulsão externos; as crianças são pura e sim- de, não pode mais existir.
plesmente incapazes de fazê-lo.
Contudo, o pernicioso papel que representam na
Assim ao emancipar-se da autoridade dos adul- crise atual a Pedagogia e as escolas de professores só
tos, a criança não foi libertada, e sim sujeita a uma se tomou possível devido a uma teoria moderna acer-
autoridade muito mais terrível e verdadeiramente tirâ- ca da aprendizagem. Era muito simplesmente a apli-
nica, que é a tirania da maioria. Em todo caso, o re- cação do terceiro pressuposto básico em nosso contexto,
sultado foi serem as crianças, por assim dizer, bani- um pressuposto que o mundo moderno defendeu du-
das do mundo dos adultos. São elas, ou jogadas a si rante séculos e que encontrou expressão conceituai sis-

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temática no Pragmatismo. Esse pressuposto básico é
o de que só é possível conhecer e compreender aquilo isto é, fazendo, e não pelo estudo da gramática e da
sintaxe; em outras palavras, deve aprender um língua
que nós mesmos fizemos, e sua aplicação à educação
estranha da mesma maneira como, quando criancinha,
é tão primária quanto óbvia: consiste em substituir, na
aprendeu sua própria língua: como que ao brincar e
medida do possível, o aprendizado pelo fazer. O mo-
na continuidade ininterrupta da mera existência. Sem
tivo por que n ã o foi atribuída nenhuma importância ao
mencionar a questão de saber se isso é possível ou não
domínio que tenha o professor de sua matéria foi o — é possível, em escala limitada, somente quando se
desejo de levá-lo ao exercício contínuo da atividade pode manter a criança o dia todo no ambiente de língua
de aprendizagem, de tal modo que ele n ã o transmitisse, estrangeira — , é perfeitamente claro que esse processo
como se dizia, "conhecimento petrificado", mas, ao in- tenta conscientemente manter a criança mais velha o
vés disso, demonstrasse constantemente como o saber é mais possível ao nível da primeira infância. Aquilo
produzido. A intenção consciente n ã o era a de ensinar que, por excelência, deveria preparar a criança para o
conhecimentos, mas sim de inculcar uma habilidade, mundo dos adultos, o hábito gradualmente adquirido
e o resultado foi uma espécie de transformação de ins- de trabalhar e de não brincar, é extinto em favor da
tituições de ensino em instituições vocacionais que t i - autonomia do mundo da infância.
veram tanto êxito em ensinar a dirigir um automóvel ou Seja qual for a conexão entre fazer e aprender,
a utilizar uma máquina de escrever, ou, o que é mais e qualquer que seja a validez da fórmula pragmática,
importante para a "arte" de viver, como ter êxito com sua aplicação à educação, ou seja, ao modo de apren-
outras pessoas e ser popular, quanto foram incapazes dizagem da criança, tende a tornar absoluto o mundo
de fazer com que a criança adquirisse os pré-requisitos da infância exatamente da maneira como observamos
normais de um currículo padrão. no caso do primeiro pressuposto básico. Também aqui,
Entretanto, essa descrição é falha, n ã o apenas por sob o pretexto de respeitar a independência da crian-
exagerar obviamente com o fito de aclarar um argu- ça, ela é excluída do mundo dos adultos e mantida
artificialmente no seu próprio mundo, na medida em
mento, como por não levar em conta como, nesse pro-
que este pode ser chamado de um mundo. Essa reten-
cesso, se atribuiu importância toda especial à diluição,
ção da criança é artificial porque extingue o relaciona-
levada tão longe quanto possível, da distinção entre
mento natural entre adultos e crianças, o qual, entre ou-
brinquedo e trabalho — em favor do primeiro. O
tras coisas, consiste do ensino e da aprendizagem, e por-
brincar era visto como o modo mais vívido e apro- que oculta ao mesmo tempo o fato de que a criança
priado de comportamento da criança no mundo, por é um ser humano em desenvolvimento, de que a infân-
ser a única forma de atividade que brota espontanea- cia é uma etapa temporária, uma preparação para a
mente de sua existência enquanto criança. Somente condição adulta.
o que pode ser aprendido mediante o brinquedo faz
justiça a essa vivacidade. A atividade característica A atual crise, na América, resulta do reconheci-
da criança, pensava-se, está no brinquedo; a aprendi- mento do caráter destrutivo desses pressupostos bási-
zagem no sentido antigo, forçando a criança a uma cos e de uma desesperada tentativa de reformar todo
atitude de passividade, obrigava-a a abrir m ã o de sua o sistema educacional, ou seja, de transformá-lo intei-
ramente. A o fazê-lo, o que se está procurando de
própria iniciativa lúdica.
fato — exceto quanto aos planos de uma imensa am-
A íntima conexão entre essas duas coisas — a pliação das facilidades de educação nas Ciências Fí-
substituição da aprendizagem pelo fazer e do trabalho sicas e em tecnologia — n ã o é mais que uma restaura-
pelo brincar — pode ser ilustrada diretamente pelo ção: o ensino será conduzido de novo com autoridade; o
ensino de línguas: a criança deve aprender falando, brinquedo deverá ser interrompido durante as horas de

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aula, e o trabalho sério retomado; a ênfase será des- objeto da educação, possui para o educador um duplo
locada das habilidades extracurriculares para os conhe- aspecto: é nova em um mundo que lhe é estranho e
cimentos prescritos no currículo; fala-se mesmo, por se encontra em processo de formação; é um novo ser
fim, de transformar os atuais currículos dos professo- humano e é um ser humano em formação. Esse duplo
res de modo que eles mesmos tenham de aprender al- aspecto não é de maneira alguma evidente por si mes-
go antes de se converterem em negligentes para com as mo, e não se aplica às formas de vida animais; corres-
crianças. ponde a um duplo relacionamento, o relacionamento
Essas reformas propostas, que estão ainda em dis- com o mundo, de um lado, e com a vida, de outro.
cussão e são de interesse puramente norte-americano, A criança partilha o estado de vir a ser com todas as
não precisam nos ocupar aqui. N ã o discutirei tam- coisas vivas; com respeito à vida e seu desenvolvimen-
pouco a questão mais técnica, embora talvez a longo to, a criança é um ser humano em processo de forma-
prazo ainda mais importante, de como é possível re- ção, do mesmo modo que um gatinho é um gato em
formular os currículos de escolas secundárias e elemen- processo de formação. Mas a criança só é nova em
tares de todos os países de modo a prepará-las para as relação a um mundo que existia antes dela, que con-
exigências inteiramente novas do mundo de hoje. O tinuará após sua morte e no qual transcorrerá sua
que importa para nossa argumentação é uma dupla vida. Se a criança não fosse um recém-chegado nesse
questão. Quais foram os aspectos do mundo moder- mundo humano, porém simplesmente uma criatura viva
no e de sua crise que efetivamente se revelaram na ainda não concluída, a educação seria apenas uma fun-
crise educacional, isto é, quais são os motivos reais ção da vida e não teria que consistir em nada além
para que, durante décadas, se pudessem dizer e fazer da preocupação para com a preservação da vida e do
coisas em contradição tão flagrante com o bom senso? treinamento e na prática do viver que todos os animais
Em segundo lugar, o que podemos aprender dessa crise assumem em relação a seus filhos.
acerca da essência da educação — não no sentido de
Os pais humanos, contudo, não apenas trouxeram
que sempre se pode aprender, dos erros, o que não
seus filhos à vida mediante a concepção e o nascimen-
se deve fazer, mas sim refletindo sobre o papel que a
to, mas simultaneamente os introduziram em um mun-
educação desempenha em toda civilização, ou seja, so-
bre a obrigação que a existência de crianças impõe a to- do. Eles assumem na educação a responsabilidade, ao
da sociedade humana? Começaremos com a segunda mesmo tempo, pela vida e desenvolvimento da criança
questão. e pela continuidade do mundo. Essas duas responsa-
bilidades de modo algum coincidem; com efeito podem
entrar em mútuo conflito. A responsabilidade pelo
III desenvolvimento da criança volta-se em certo sentido
contra o mundo: a criança requer cuidado e proteção
Uma crise na educação em qualquer ocasião ori- especiais para que nada de destrutivo lhe aconteça de
ginaria séria preocupação, mesmo se n ã o refletisse, parte do mundo. Porém também o mundo necessita
como ocorre no presente caso, uma crise e uma insta- de proteção, para que não seja derrubado e destruído
bilidade mais gerais na sociedade moderna. A edu- pelo assédio do novo que irrompe sobre ele a cada
cação está entre as atívidades mais elementares e ne- nova geração.
cessárias da sociedade humana, que jamais permanece Por precisar ser protegida do mundo, o lugar tra-
tal qual é, porém se renova continuamente através do dicional da criança é a família, cujos membros adultos
nascimento, da vinda de novos seres humanos. Esses diariamente retornam do mundo exterior e se recolhem
recém-chegados, além disso, não se acham acabados, à segurança da vida privada entre quatro paredes. Essas
mas em um estado de vir a ser. Assim, a criança. quatro paredes, entre as quais a vida familiar privada

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das pessoas é vivida, constitui um escudo contra o mun- esta sustentava que seu único propósito era servir a
do e, sobretudo, contra o aspecto público do mundo. criança, rebelando-se contra os métodos do passado
Elas encerram um lugar seguro, sem o que nenhuma por não levarem suficientemente em consideração a na-
coisa viva pode medrar. Isso é verdade não somente tureza íntima da criança e suas necessidades. "O
para a vida da infância, mas para a vida humana em Século da Criança", como podemos lembrar, iria
geral. Toda vez que esta é permanentemente exposta emancipar a criança e liberá-la dos padrões originá-
ao mundo sem a proteção da intimidade e da seguran- rios de um mundo adulto. Como pôde então aconte-
ça, sua qualidade vital é destruída. No mundo pú- cer que as mais elementares condições de vida neces-
blico, comum a todos, as pessoas são levadas em con- sárias ao crescimento e desenvolvimento da criança
ta, e assim também o trabalho, isto é, o trabalho de fossem desprezadas ou simplesmente ignoradas? Como
nossas mãos com que cada pessoa contribui para com pôde acontecer que se expusesse a criança àquilo que,
o mundo comum; porém a vida qua vida não interessa mais que qualquer outra coisa, caracterizava o mundo
aí. O mundo não lhe pode dar atenção, e ela deve adulto, o seu aspecto público, logo após se ter che-
ser oculta e protegida do mundo. gado à conclusão de que o erro em toda a educação
passada fora ver a criança como não sendo mais que
Tudo que vive, e não apenas a vida vegetativa,
um adulto em tamanho reduzido?
emerge das trevas, e, por mais forte que seja sua ten-
dência natural a orientar-se para a luz, mesmo assim O motivo desse estranho estado de coisas nada
precisa da segurança da escuridão para poder crescer. tem a ver, diretamente, com a educação; deve antes
Esse, com efeito, pode ser o motivo por que com tan- ser procurado nos juízos e preconceitos acerca da na-
ta freqiiência crianças de pais famosos não dão em tureza da vida privada e do mundo público e sua re-
boa coisa. A fama penetra as quatro paredes e inva- lação mútua, característicos da sociedade moderna des-
de seu espaço privado, trazendo consigo, sobretudo nas de o início dos tempos modernos e que os educadores,
condições de hoje, o clarão implacável do mundo pú- ao começarem relativamente tarde a modernizar a edu-
blico, inundando tudo nas vidas privadas dos implica- cação, aceitaram como postulados evidentes por si mes-
dos, de tal maneira que as crianças não têm mais um mos, sem consciência das consequências que deveriam
lugar seguro onde possam crescer. Ocorre, porém, exa- acarretar necessariamente para a vida da criança. É
tamente a mesma destruição do espaço vivo real toda uma peculiaridade de nossa sociedade, de modo algum
vez que se tenta fazer das próprias crianças um espécie uma coisa necessária, considerar a vida, isto é, a vida
de mundo. Entre esses grupos de iguais surge então terrena dos indivíduos e da família, como o bem su-
uma espécie de vida pública, e, sem levar absoluta- premo; por esse motivo, em contraste com todos os
mente em conta o fato de que esta não é uma vida séculos anteriores, ela emancipou essa vida e todas as
pública real e de que toda a empresa é de certa forma atividades envolvidas em sua preservação e enriqueci-
uma fraude, permanece o fato de que as crianças mento do ocultamento da privatividade, expondo-a à
isto é, seres humanos em processo de formação, porém luz do mundo público. É esse o sentido real da eman-
ainda não acabados — são assim forçadas a se expor cipação dos trabalhadores e das mulheres, não como
à luz da existência pública. pessoas, sem dúvida, mas na medida em que preen-
chem uma função necessária no processo vital da so-
Parece óbvio que a educação moderna, na medida ciedade.
em que procura estabelecer um mundo de crianças,
destrói as condições necessárias ao desenvolvimento e Os últimos a serem afetados por esse processo de
crescimento vitais. Contudo, choca-nos como algo real- emancipação foram as crianças, e aquilo mesmo que
mente estranho que tal dano ao desenvolvimento da significara uma verdadeira liberação para os trabalha-
criança seja o resultado da educação moderna, pois dores e mulheres — pois eles não eram somente traba-

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Ihadores e mulheres, mas também pessoas, tendo por- ça, a escola representa em certo sentido o mundo, em-
tanto direito ao mundo público, isto é, a verem e se- bora n ã o seja ainda o mundo de fato. Nessa etapa da
rem vistos, a falar e serem ouvidos — constituiu aban- educação, sem dúvida, os adultos assumem mais uma
dono e traição no caso das crianças, que ainda estão vez uma responsabilidade pela criança, só que, agora,
no estágio em que o simples fato da vida e do cresci- essa não é tanto a responsabilidade pelo bem-estar v i -
mento prepondera sobre o fator personalidade. Quan- tal de uma coisa em crescimento como por aquilo que
to mais completamente a sociedade moderna rejeita a geralmente denominamos de livre desenvolvimento de
distinção entre aquilo que é particular e aquilo que é ; qualidades e talentos pessoais. Isto, do ponto de vis-
público, entre o que somente pode vicejar encoberta- ta geral e essencial, é a singularidade que distingue
mente e aquilo que precisa ser exibido a todos à ple- cada ser humano de todos os demais, a qualidade em
na luz do mundo público, ou seja, quanto mais ela virtude da qual ele não é apenas um forasteiro no mun-
introduz entre o privado e o público uma esfera so- do, mas alguma coisa que jamais esteve aí antes.
cial na qual o privado é transformado em público e
Na medida em que a criança não tem familiarida-
vice-versa, mais difíceis torna as coisas para suas crian-
ças, que pedem, por natureza, a segurança do oculta- de com o mundo, deve-se introduzi-la aos poucos a
mento para que não haja distúrbios em seu amadure- ele; na medida em que ela é nova, deve-se cuidar para
cimento. que essa coisa nova chegue à fruição em relação ao
mundo como ele é. Em todo caso, todavia, o educa-
Por mais graves que possam ser essas violações das dor está aqui em relação ao jovem como representante
condições para o crescimento vital, é certo que elas de um mundo pelo qual deve assumir a responsabili-
não foram de todo intencionais; o objetivo central de to- dade, embora não o tenha feito e ainda que secreta ou
dos os esforços da educação moderna foi o bem-estar da abertamente possa querer que ele fosse diferente do
criança, fato esse que evidentemente não se torna me-
que é. Essa responsabilidade n ã o é imposta arbitra-
nos verdadeiro caso os esforços feitos nem sempre te-
riamente aos educadores; ela está implícita no fato de
nham logrado êxito em promover o bem-estar da ma-
que os jovens são introduzidos por adultos em um mun-
neira esperada. A situação é inteiramente diversa na
do em contínua mudança. Qualquer pessoa que se
esfera das tarefas educacionais n ã o mais dirigidas para
recuse a assumir a responsabilidade coletiva pelo mun-
a criança, porém à pessoa jovem, ao recém-chegado e
forasteiro, nascido em um mundo já existente e que do n ã o deveria ter crianças, e é preciso proibi-la de
não conhece. Tais tarefas são basicamente, mas não tomar parte em sua educação.
exclusivamente, responsabilidade das escolas; compe- Na educação, essa responsabilidade pelo mundo
tem à sua alçada o ensino e a aprendizagem, e o fra- assume a forma de autoridade. A autoridade do edu-
casso neste campo é o problema mais urgente da Amé- cador e as qualificações do professor não são a mesma
rica atualmente. O que jaz na base disso? coisa. Embora certa qualificação seja indispensável
Normalmente a criança é introduzida ao mundo para a autoridade, a qualificação, por maior que seja,
pela primeira vez através da escola. N o entanto, a nunca engendra por si só autoridade. A qualificação
escola n ã o é de modo algum o mundo e não deve fingir do professor consiste em conhecer o mundo e ser ca-
sê-lo; ela é, em vez disso, a instituição que interpomos paz de instruir os outros acerca deste, porém sua auto-
entre o domínio privado do lar e o mundo com o fito ridade se assenta na responsabilidade que ele assume
de fazer com que seja possível a transição, de alguma por este mundo. Face à criança, é como se ele fosse
forma, da família para o mundo. Aqui, o compareci- um representante de todos os habitantes adultos, apon-
mento não é exigido pela família, e sim pelo Estado, tando os detalhes e dizendo à criança: — Isso é o
isto é, o mundo público, e assim, em relação à crian- nosso mundo.

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Pois bem: sabemos todos como as coisas andam babilidade de que a esfera privada não permaneça in-
hoje em dia com respeito à autoridade. Qualquer que cólume. H á o fato adicional, muito provavelmente
seja nossa atitude pessoal face a este problema, é óbvio decisivo, de que há tempos imemoriais nos acostuma-
que, na vida pública e política, a autoridade ou não mos, em nossa tradição de pensamento político, a con-
representa mais nada — pois a violência e o terror siderar a autoridade dos pais sobre os filhos e de pro-
exercidos pelos países totalitários evidentemente nada fessores sobre alunos como o modelo por cujo inter-
têm a ver com autoridade — , ou, no máximo, desem- médio se compreendia a autoridade política. Ê justa-
penha um papel altamente contestado. Isso, contudo, mente tal modelo, que pode ser encontrado já em Pla-
simplesmente significa, em essência, que as pessoas não tão e Aristóteles, que confere tão extraordinária am-
querem mais exigir ou confiar a ninguém o ato de as- biguidade ao conceito de autoridade em política. Ele
sumir a responsabilidade por tudo o mais, pois sempre se baseia sobretudo em uma superioridade absoluta
que a autoridade legítima existiu ela esteve associada que jamais poderia existir entre adultos e que, do pon-
com a responsabilidade pelo curso das coisas no mun- to de vista da dignidade humana, não deve nunca exis-
do. Ao removermos a autoridade da vida política c tir. Em segundo lugar, ao seguir o modelo da cria-
púbhca, pode ser que isso signifique que, de agora em ção dos filhos, baseia-se em uma superioridade pura-
diante, se exija de todos uma igual responsabilidade mente temporária, tornando-se, pois, autocontraditório
pelo rumo do mundo. Mas isso pode também signifi- quando aplicado a relações que por natureza não são
car que as exigências do mundo e seus reclamos de temporárias — como as relações entre governantes e
ordem estejam sendo consciente ou inconscientemente governados. Decorre da natureza do problema — isto
repudiados; toda e qualquer responsabilidade pelo é, da natureza da atual crise de autoridade e da natu-
mundo está sendo rejeitada, seja a responsabilidade de reza de nosso pensamento político tradicional — que
dar ordens, seja a de obedecê-las. N ã o resta dúvida a perda de autoridade iniciada na esfera política deva
de que, na perda moderna da autoridade, ambas as in- terminar na esfera privada; obviamente n ã o é aciden-
tenções desempenham um papel e têm muitas vezes, tal que o lugar em que a autoridade política foi sola-
simultânea e inextricavelmente, trabalhado juntas. pada pela primeira vez, isto é, a América, seja onde a
Na educação, ao contrário, não pode haver tal am- crise moderna da educação se faça sentir com maior
biguidade face à perda hodierna de autoridade. As intensidade.
crianças não podem derrubar a autoridade educacio- A perda geral de autoridade, de fato, não pode-
nal, como se estivessem sob a opressão de uma maio- ria encontrar expressão mais radical do que sua intru-
ria adulta — embora mesmo esse absurdo tratamento são na esfera pré-política, em que a autoridade pare-
das crianças como uma minoria oprimida carente de cia ser ditada pela própria natureza e independer de
libertação tenha sido efetivamente submetido a prova todas as mudanças históricas e condições políticas. O
na prática educacional moderna. A autoridade foi re- homem moderno, por outro lado, não poderia encon-
cusada pelos adultos, e isso somente pode significar
trar nenhuma expressão mais clara para sua insatisfa-
uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a
ção com o mundo, para seu desgosto com o estado de
responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as
coisas, que sua recusa a assumir, em relação às crian-
crianças.
ças, a responsabilidade por tudo isso. É como se os
Evidentemente, há uma conexão entre a perda de pais dissessem todos os dias: — Nesse mundo, mesmo
autoridade na vida pública e política e nos âmbitos nós não estamos muito a salvo em casa; como se mo-
privados e pré-políticos da família e da escola. Quanto vimentar nele, o que saber, quais habilidades dominar,
mais radical se torna a desconfiança face à autoridade tudo isso também são mistérios par anós. Vocês devem
na esfera pública, mais aumenta, naturalmente, a pro- tentar entender isso do jeito que puderem; em todo

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caso, vocês não têm o direito de exigir satisfações. ou menos verídicas para cada nova geração, embora
Somos inocentes, lavamos as nossas mãos por vocês. tenham adquirido talvez, desde o início de nosso século,
Essa atitude, é claro, nada tem a ver com o de- uma validez mais persuasiva do que antes.
sejo revolucionário de uma nova ordem no mundo — Basicamente, estamos sempre educando para um
Novus Ordo Sedorum — que outrora animou a A m é - mundo que ou já está fora dos eixos ou para aí cami-
rica; mais que isso, é um sintoma daquele moderno nha, pois é essa a situação humana básica, em que
estranhamento do mundo visível em toda parte mas o mundo é criado por mãos mortais e serve de lar aos
que se apresenta em forma particularmente radical e mortais durante tempo limitado. O mundo, visto que
desesperada sob as condições de uma sociedade de feito por mortais, se desgasta, e, dado que seus habi-
massa. Ê verdade que as experiências pedagógicas tantes mudam continuamente, corre o risco de tornar-
modernas têm assumido — e não só na América — se mortal como eles. Para preservar o mundo contra
poses muito revolucionárias, o que ampliou até certo a mortalidade de seus criadores e habitantes, ele deve
ponto a dificuldade de identificar a situação com cla- ser, continuamente, posto em ordem. O problema é
reza, provocando certo grau de confusão na discussão simplesmente educar de tal modo que um por-em-or-
do problema. E m contradição com todos esses com- dem continue sendo efetivamente possível, ainda que
portamentos, continua existindo o fato inquestionável não possa nunca, é claro, ser assegurado. Nossa es-
de que, durante o período em que a América foi real- perança está pendente sempre do novo que cada gera-
mente animada por este espírito revolucionário, ela ção aporta; precisamente por basearmos nossa espe-
jamais sonhou iniciar a nova ordem pela educação, rança apenas nisso, porém, é que tudo destruímos se
permanecendo, ao contrário, conservadora em matéria tentarmos controlar os noves de tal modo que nós, os
educacional. velhos, possamos ditar sua aparência futura. Exata-
mente em benefício daquilo que é novo e revolucioná-
A fim de evitar mal-entendidos: parece-me que o
rio em cada criança é que a educação precisa ser con-
conservadorismo, no sentido de conservação, faz parte
servadora; ela deve preservar essa novidade e introdu-
da essência da atividade educacional, cuja tarefa é sem-
zi-la como algo novo em um mundo velho, que, por
pre abrigar e proteger alguma coisa — a criança con-
mais revolucionário que possa ser em suas ações, é
tra o mundo, o mundo contra a criança, o novo con-
sempre, do ponto de vista da geração seguinte, obsole-
tra o velho, o velho contra o novo. Mesmo a respon-
to e rente à destruição.
sabilidade ampla pelo mundo que é aí assumida impli-
ca, é claro, uma atitude conservadora. Mas isso per-
manece válido apenas no âmbito da educação, ou me-
lhor, nas relações entre adultos e crianças, e n ã o no IV
âmbito da política, onde agimos em meio a adultos e
com iguais. Tal atitude conservadora, em política — A verdadeira dificuldade na educação moderna
aceitando o mundo como ele é, procurando somente está no fato de que, a despeito de toda a conversa da
preservar o status quo — , não pode senão levar à des- moda acerca de um novo conservadorismo, até mesmo
truição, visto que o mundo, tanto no todo como em aquele mínimo de conservação e de atitude conserva-
parte, é irrevogavelmente fadado à ruína pelo tempo, dora sem o qual a educação simplesmente não é pos-
a menos que existam seres humanos determinados a sível se torna, em nossos dias, extraordinariamente di-
intervir, a alterar, a criar aquilo que é novo. As pala- fícil de atingir. H á sólidas razões para isso. A crise
vras de Hamlet: — "The time is out <?/ \oint. O cursed da autoridade na educação guarda a mais estreita co-
nexão com a crise da tradição, ou seja, com a crise
spite thaí ever I was born to set it righí"* — são mais
de nossa atitude face ao âmbito do passado. Ê sobre-
( * ) " O tempo está fora dos eixos. ó ó d i o maldito ter nascido
para colocá-lo em ordem".
modo difícil para o educador arcar com esse aspecto

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da crise moderna, pois é de seu ofício servir como me-
te "fazer-vos ver que sois inteiramente dignos de vos-
diador entre o velho e o novo, de tal modo que sua sos antepassados", e nesse mister o educador podia ser
própria profissão lhe exige um respeito extraordinário um "companheiro de luta" ou um "companheiro de
pelo passado. Durante muitos séculos, isto é, por todo trabalho" por ter também, embora em nível diverso,
o período da civilização romano-cristã, não foi neces- atravessado a vida com os olhos grudados no passado.
sário tomar consciência dessa qualidade particular de Companheirismo e autoridade não eram nesse caso se-
si próprio, pois a reverência ante o passado era parte não dois aspectos da mesma substância, e a autoridade
essencial da mentalidade romana, e isso não foi modi- do mestre arraigava-se firmemente na autoridade in-
ficado ou extinto pelo Cristianismo, mas apenas deslo- clusiva do passado enquanto tal. Hoje em dia, porém,
cado sobre fundamentos diferentes. não nos encontramos mais em tal posição; não faz mui-
to sentido agirmos como se a situação fosse a mesma,
Era da essência da atitude romana (embora de como se apenas nos houvéssemos como que extraviado
maneira alguma isso fosse verdadeiro para qualquer c i - do caminho certo, sendo livres para, a qualquer mo-
vilização, ou mesmo para a tradição ocidental como um mento, reencontrar o rumo. Isso quer dizer que não
todo) considerar o passado qua passado como um mo- se pode, onde quer que a crise haja ocorrido no mun-
delo, os antepassados, em cada instância, como exem- do moderno, ir simplesmente em frente, e tampouco
plos de conduta para seus descendentes; crer que toda simplesmente voltar para trás. Tal retrocesso nunca
grandeza jaz no que foi, e, portanto, que a mais exce- nos levará a parte alguma, exceto à mesma situação
lente quahdade humana é a idade provecta; que o ho- da qual a crise acabou de surgir. O retorno não passa-
mem envelhecido, visto ser já quase um antepassado, ria de tmia repetição da execução — embora talvez
pode servir de modelo para os vivos. Tudo isso se em forma diferente, visto não haver limites às possi-
põe em contradição não só com nosso mundo e com bilidades de noções absmrdas e caprichosas que são ata-
a época moderna, da Renascença em diante, como, por viadas como a última palavra em ciência. Por outro
exemplo, com a atitude grega diante da vida. Quando lado, a mera e irrefletida perseverança, seja pressionan-
Goethe disse que envelhecer é "o gradativo retirar-se do para frente a crise, seja aderindo à rotina que acre-
do mundo das aparências", sua observação era feita dita bonachonamente que a crise não engolfará sua es-
no espírito dos gregos, para os quais ser e aparência fera particular de vida, só pode, visto que se rende ao
coincidiam. A atitude romana teria sido que justamente curso do tempo, conduzir à ruína; para ser mais pre-
ao envelhecer e ao desaparecer gradativamente da co- cisa, ela só pode aumentar o estranhamento do mundo
munidade dos mortais o homem atinge sua forma mais pelo qual já somos ameaçados de todos os flancos. Ao
característica de existência, ainda que, em relação ao considerar os princípios da educação temos de levar em
mundo das aparências, esteja em vias de desaparecer; conta esse processo de estranhamento do mundo; pode-
isto porque somente agora ele se pode acercar da exis- mos até admitir que nos defrontamos aqui presumivel-
tência na qual ele será uma autoridade para os outros. mente com um processo automático, sob a única con-
Contra o pano de fundo inabalado de uma tradição dição de não esquecermos que está ao alcance do po-
dessa natureza, na qual a educação possui uma fun- der do pensamento e da ação humana interromper e
ção política (e esse caso era único), é de fato relati- deter tais processos.
vamente fácil fazer direito as coisas em matéria de edu-
cação, sem sequer fazer uma pausa para apreciar o O problema da educação no mundo moderno está
que se está fazendo, tão completo é o acordo entre o no fato de, por sua natureza, não poder esta abrir mão
•ethos específico do princípio pedagógico e as convic- nem da autoridade, nem da tradição, e ser obrigada,
ções éticas e morais básicas da sociedade como um apesar disso, a caminhar em um mundo que não é es-
todo. Nas palavras de Políbio, educar era simplesmen- truturado nem pela autoridade nem tampouco mantido

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coeso pela tradição. Isso significa, entretanto, que não ensinar; uma educação sem aprendizagem é vazia e
apenas professores e educadores, porém todos nós, na portanto degenera, com muita facilidade, em retórica
medida em que vivemos em um mundo junto à nossas moral e emocional. É muito fácil, porém, ensinar sem
crianças e aos jovens, devemos ter em relação a eles educar, e pode-se aprender durante o dia todo sem por
uma atitude radicalmente diversa da que guardamos isso ser educado. Tudo iso são detalhes particulares,
um para com o outro. Cumpre divorciarmos decisiva- contudo, que na verdade devem ser entregues aos es-
mente o âmbito da educação dos demais, e acima de pecialistas e pedagogos.
tudo do âmbito da vida pública e política, para aplicar
O que nos diz respeito, e que não podemos por-
exclusivamente a ele um conceito de autoridade e uma
tanto delegar à ciência específica da pedagogia, é a
atitude face ao passado que lhe são apropriados mas
relação entre adultos e crianças em geral, ou, para co-
não possuem validade geral, não devendo reclamar uma
locá-lo em termos ainda mais gerais e exatos, nossa
aplicação generalizada no mundo dos adultos.
atitude face ao fato da natalidade: o fato de todos nós
Na prática, a primeira consequência disso seria virmos ao mundo ao nascermos e de ser o mundo cons-
uma compreensão bem clara de que a função da es- tantemente renovado mediante o nascimento. A edu-
cola é ensinar às crianças como o mundo é, e não ins- cação é o ponto em que decidimos se amamos o mun-
truí-las na arte de viver. Dado que o mundo é velho, do o bastante para assumirmos a responsabilidade por
sempre mais que elas mesmas, a aprendizagem volta-se ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria ine-
inevitavelmente para o passado, não importa o quanto vitável n ã o fosse a renovação e a vinda dos novos e
a vida seja transcorrida no presente. Em segundo l u - dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se
gar, a linha traçada entre crianças e adultos deveria amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las
significar que não se pode nem educar adultos nem de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios re-
tratar crianças como se elas fossem maduras; jamais se cursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportuni-
dade de empreender alguma coisa nova e imprevista
deveria permitir, porém, que tal linha se tornasse uma
para nós, preparando-as em vez disso com antecedên-
muralha a separar as crianças da comunidade adulta,
cia para a tarefa de renovar um mundo comum.
como se não vivessem elas no mesmo mundo e como
se a infância fosse um estado humano autónomo, capaz
de viver por suas próprias leis. É impossível determinar
mediante uma regra geral onde a linha limítrofe entre
a infância e a condição adulta recai, em cada caso.
Ela muda frequentemente, com respeito à idade, de
país para país, de uma civilização para outra e tam-
bém de indivíduo para indivíduo. A educação, contu-
do, ao contrário da aprendizagem, precisa ter um final
previsível. Em nossa civilização esse final coincide pro-
vavelmente com o diploma colegial, não com a con-
clusão do curso secundário, pois o treinamento profis-
sional nas universidades ou cursos técnicos, embora
sempre tenha algo a ver com a educação, é, não obs-
tante, em si mesmo uma espécie de especialização. Ele
não visa mais a introduzir o jovem no mundo como
um todo, mas sim em um segmento limitado e parti-
cular dele. N ã o se pode educar sem ao mesmo tempo

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