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Texto de apoio ao curso de Especialização

Atividade física adaptada e saúde


Prof. Dr. Luzimar Teixeira

Brincadeiras infantis: importância para o


desenvolvimento neuropsicológico
Por Mônica Oliveira da Silva Vicente Valentim

Orientadora Educacional e Vocacional

com Especialização em Psicomotricidade

Este trabalho abordará o assunto brincadeiras infantis, fator fundamental


ao desenvolvimento das aptidões físicas e mentais da criança, sendo um
agente facilitador para que esta estabeleça vínculos sociais com os seus
semelhantes, descubra sua personalidade, aprenda a viver em sociedade e
preparar-se para as funções que assumirá na idade adulta.

A escolha deste tema surgiu da necessidade de abordarmos o assunto


"jogos e brincadeiras infantis" não apenas como simples entretenimento,
mas como atividades que possibilitam a aprendizagem de várias
habilidades. O objetivo do artigo é correlacionar o lúdico, a brincadeira de
infância, com recursos capazes de contribuir para o desenvolvimento das
funções cognitivas da criança, bem como fazer associação da atividade
nervosa à cognição, objeto de estudo da neuropsicológica.

De início é importante explicar que foi utilizada a palavra jogo para referir-
se ao "brincar". Vocábulo predominante da Língua Portuguesa quando se
trata de atividade lúdica infantil. A palavra "jogo" se origina do vocábulo
latino ludus, que significa diversão, brincadeira. O jogo é reconhecido
como meio de fornecer à criança um ambiente agradável, motivador,
planejado e enriquecido, que possibilita a aprendizagem de várias
habilidades. Em Psicologia, aprendizagem é o processo de modificação da
conduta por treinamento e experiência, variando da simples aquisição de
hábitos à técnicas mais complexas. Por desenvolvimento, a designação do
ato de desenvolver, progredir, crescimento paulatino. A brincadeira infantil
é um importante mecanismo para o desenvolvimento da aprendizagem da
criança.

Piaget (1976) diz que a atividade lúdica é o berço obrigatório das


atividades intelectuais da criança. Estas não são apenas uma forma de
desafogo ou entretenimento para gastar energia das crianças, mas meios
que contribuem e enriquecem o desenvolvimento intelectual. Ele afirma:

O jogo é portanto, sob as suas duas formas essenciais de exercício


sensório-motor e de simbolismo, uma assimilação da real à atividade
própria, fornecendo a esta seu alimento necessário e transformando o real
em função das necessidades múltiplas do eu. Por isso, os métodos ativos
de educação das crianças exigem todos que se forneça às crianças um
material conveniente, a fim de que, jogando, elas cheguem a assimilar as
realidades intelectuais que, sem isso, permanecem exteriores à
inteligência infantil.( Piaget 1976, p.160).
Outro grande pesquisador que, como Piaget, desenvolveu trabalhos na
área de Psicologia Genética e se interessou pelo jogo infantil, foi Henri
Wallon. Analisando o estudo dos estágios propostos por Piaget, Wallon fez
inúmeros comentários onde evidenciava o caráter emocional em que os
jogos se desenvolvem, e seus aspectos relativos à socialização.
Referindo-se a faixa etária dos sete anos, Wallon (1979) demonstra seu
interesse pelas relações sociais infantis nos momentos de jogo:

A criança concebe o grupo em função das tarefas que o grupo pode


realizar, dos jogos a que pode entregar-se com seus camaradas de grupo,
e também das contestações, dos conflitos que podem surgir nos jogos
onde existem duas equipes antagônicas. (p.210)

O vocábulo "brinquedo"não pode ser reduzido à pluralidade de sentidos de


jogo, pois conota criança e tem uma dimensão material, cultural e técnica.
Como objeto é sempre suporte de brincadeira. E brincadeira? É a ação que
a criança desempenha ao concretizar as regras do jogo, ao mergulhar na
ação lúdica.

Entre as concepções sobre o brincar, destaca-se as de Fröbel, o primeiro


filósofo a justificar seu uso para educar crianças pré-escolares. Fröbel, foi
considerado por Blow (1991) psicólogo da infância, ao introduzir o brincar
para educar e desenvolver a criança. Sua Teoria Metafísica pressupõe que
o brinquedo permite o estabelecimento de relações entre os objetos do
mundo cultural e a natureza, unificados pelo mundo espiritual.

Um tipo especial de jogo está associado ao nome de Maria Montessori.


Trata-se dos jogos sensoriais. Baseado nos "jogos Educativos" pensados
por Fröbel - jogos que auxiliam a formação do futuro adulto -, Montessori,
segundo Leif e Brunelle (1978), elaborou os "jogos sensoriais" destinados
a estimular cada um dos sentidos. Para atingir esse objetivo, Montessori
necessitou pesquisar uma série de recursos e projetou diversos materiais
didáticos para possibilitar a aplicação do método.
Durante muito tempo confundiu-se "ensinar" com "transmitir"e, nesse
contexto, o aluno era um agente passivo da aprendizagem e o professor
um transmissor. A idéia de um ensino despertado pelo interesse do aluno
acabou transformando o sentido do que se entende por material
pedagógico. Seu interesse passou a ser a força que comanda o processo
da aprendizagem, suas experiências e descobertas, o motor de seu
progresso e o professor um gerador de situações estimuladoras e eficazes.
É nesse contexto que o jogo ganha um espaço como ferramenta ideal da
aprendizagem, na medida em que propõe estímulo ao interesse do aluno.
O jogo ajuda-o a construir suas novas descobertas, desenvolve e
enriquece sua personalidade e simboliza um instrumento pedagógico que
leva o professor a condição de condutor, estimulador e avaliador da
aprendizagem.

Antunes (2000) elaborou um trabalho baseado nas áreas das inteligências


que podem ser estimuladas através da utilização de um jogo, de natureza
material ou até mesmo verbal. Incluem as dimensões: lingüística, lógico-
matemática, espacial, musical, cinestésico-corporal, naturalista,
intrapessoal e inerpessoal. Na área de inteligência lingüística temos como
exemplos o jogo da forca, bingo gramatical e telefone sem fio. Na
inteligência lógico-matemática o dominó, jogos das tampinhas, jogo das
formas e baralho de contas. Na inteligência espacial temos o jogo da
sucessão, jogo da memória e damas.

Muitos jogos infantis fazem parte do folclore, que Cascudo (1979) definiu
como a "cultura popular, tornada normativa pela tradição". Os jogos
populares, ao lado dos acalantos, parlendas, adivinhas e cantigas de roda,
estão reunidos sob o título de "Folclore Infantil". Os jogos tradicionais,
como amarelinha, o esconde-esconde, a queimada, a cabra-cega etc. são
encontrados, nas diferentes regiões do mundo: Portugal, Espanha, França,
Itália e outros.

Embora não seja objetivo deste artigo a investigação das dimensões


antropológicas do jogo infantil, é imprescindível o registro de sua
importância no quadro cultural de qualquer comunidade onde está sujeito
às influências de ordem social e político-ideológica como as demais
manifestações culturais.

Pode-se perceber a importância dos jogos e brincadeiras infantis para o


desenvolvimento intelectual e social da criança, mas faz-se necessário
também associar os mecanismos da aprendizagem com a integridade do
sistema nervoso.Crianças com algum tipo de problema neurológico ou
motor necessitam de materiais especialmente criados, para auxiliá-las nas
atividades pedagógicas.

Nos ocorreu uma pergunta: Se as brincadeiras infantis cooperam para o


desenvolvimento e aprendizagem da criança, por que alguns educadores
resistem em adotá-las em seus planejamentos educativos, utilizando-as
apenas como recreação informal? Provavelmente por tratar-se de algo que
exija certo cuidado no seu planejamento e execução.

Existem dois aspectos cruciais no emprego dos jogos como instrumentos


de uma aprendizagem significativa. Em primeiro lugar o jogo ocasional,
distante de uma cuidadosa e planejada programação, é tão ineficaz quanto
um único momento de exercício aeróbio para quem pretende ganhar maior
mobilidade física, e em segundo lugar, uma grande quantidade de jogos
reunidos em um manual somente terá validade efetiva, quando
rigorosamente selecionados e subordinados à aprendizagem que se tem
em mente como meta.

Em síntese, jamais pense em usar os jogos pedagógicos sem um rigoroso


e cuidadoso planejamento, e jamais avalie sua qualidade de professor pela
quantidade de jogos que emprega, e sim pela qualidade dos jogos que se
preocupou em pesquisar e selecionar.

Referência bibliográficas
1 - ANTUNES, Celso. Jogos para a estimulação das múltiplas inteligências. 8ª ed.
Petrópolis, R.J: Vozes, 2000.

2 - BLOW, Susan. Simbolic education: a commentary on Fröbel"s mother play. Harris,


W.T. (ed) New York an London: D. Appleton, 1991.

3 - CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo:


Melhoramentos, 1979.
4 - Enciclopédia Microsoft ® Encarta ® 2001 © 1993-2000 Microsoft Corporation. Todos
os direitos reservados.

5 - LEIFT, Joseph e Brunelle, Lucien. O jogo pelo jogo. Rio de Janeiro: Zahar, 1978

6 - PIAGET, Jean. Psicologia e Pedagogia. Trad. Por Dirceu Accioly Lindoso e Rosa Maria
Ribeiro da Silva. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976

7 - SANTOS, Santa Maria Pires dos. Brinquedoteca: o lúdico em diferentes contextos.


(org). Petrópolis, R.J.: Vozes, 1999

8 - WALLON, Henri. Psicologia e Educação da criança. Lisboa: Vega/Universidade, 1979

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