Você está na página 1de 32

Davi, de

LITERATURA Michelangelo 35

Módulo 1 1ª Série

Arte, suas manifestações e linguagens

Você pagaria pouco mais de 3 milhões de euros

Disponível em: <artemodernafavufg.blogspot.com.br>.


pelo mictório da figura ao lado?
Sem dúvidas, sua primeira resposta seria “não”. Afinal, é somente
um mictório, certo? Como pode valer tanto dinheiro? E se você
descobrisse que esse simples mictório é, na verdade, uma obra de

©iStockphoto.com/eishier
arte – além disso, uma das mais valiosas e representativas da França?
Certamente, você já foi a um museu e se questionou se um quadro
ou uma escultura poderia ou não ser visto como arte. Porém, poucas
vezes paramos para pensar o que é arte. Durante a Antiguidade A fonte, de Marcel Duchamp
Clássica, a arte deveria ser bela e, para isso, deveria apresentar
Objetivos:
harmonia e proporção entre as formas. Embora estejamos cronologi-
– Iniciar o estudo da literatura a partir de conceitos gerais básicos;
camente muito distantes desse período histórico, na maioria das vezes, C4 – entender o que é arte e sua manifestações;
ainda achamos que a arte deve cumprir esse pressuposto estético para – aprofundar os conhecimentos sobre diversos tipos de linguagem.
que possa ser assim considerada. Por exemplo, ninguém hesita em
afirmar que o Davi, de Michelangelo, é uma grande manifestação
artística, afinal, há beleza, harmonia e grandiosidade. Esse urinol se Neste módulo, estudaremos as manifestações artísticas e suas
chama A Fonte, do artista Michel Duchamps, e é também uma obra diferentes linguagens, a fim de que esses limites entre o artístico e
de arte, porém, pode fazer muitos “torcerem o nariz”. o não-artístico possam ser mais bem compreendidos.

1. O que é arte? Para que ela serve? locomoção. Um forno de micro-ondas, para esquentar rapidamente
a comida. Um binóculo, para aumentar o poder de alcance da visão.
Uma das funções da arte é suscitar emoções variadas. Muitas
René Magritte. Isto não é um cachimbo. Disponível em:
<www.waltermcalister.com.br>. Acesso em: 26 nov. 2013.

vezes, essas emoções surgem não a partir da cômoda contemplação


do belo ou do harmonioso, mas sim do incômodo trazido pelo
inesperado, que conduz a indagações e reflexões.
Além disso, não pode ser esquecido que há, por trás de toda
manifestação artística, um autor, indivíduo de determinado lugar e
época, o que o faz estar inserido em uma tradição e trazer consigo,
ainda que involuntariamente, aspectos de uma cultura. Dessa
forma, a arte ajuda a apreender e compreender aspectos do contexto
histórico, social e político atuais e de outras épocas.

O avanço da tecnologia gera grande impacto na arte. Seja


ao possibilitar novas formas de manifestações artísticas, como
O que você entende por realidade? Geralmente, considera-se no caso da fotografia e do cinema, seja ao trazer novas questões
realidade tudo aquilo que pode-se reconhecer e identificar no que serão debatidas pela arte debatidas. A verdade é que arte e
mundo, logo, o que é verdadeiro. A arte, por sua vez, é a repre- tecnologia andam, cada vez mais, lado a lado.
sentação da realidade. Não é sua obrigação, portanto, descrevê-la O papel da internet
fielmente tal como é conhecida No quadro acima, René Magritte
O artista e poeta americano Kenneth Goldsmith
discute a ideia: há o desenho de um cachimbo, mas, no mesmo cria um inusitado projeto colaborativo para imprimir
quadro, a frase afirma “Isto não é um cachimbo”. De fato, o desenho (quase) toda a rede
é uma representação do objeto e não o objeto em si. Imagine cada blog, cada álbum de fotos on-line, cada perfil
A dificuldade inicial que muitas pessoas têm em lidar com a nas redes sociais, cada mensagem trocada. Imagine o volume
arte decorre do fato de não conseguirem encontrar para ela uma colossal de páginas que foram criadas no mundo todo desde o
utilidade prática imediata. Um carro, por exemplo, é utilizado para a início da década de 1990, quando a internet começou a entrar
nas nossas casas, até hoje.
36 LITERATURA
1ª Série Módulo 1

Desde 22 de maio deste ano, o artista e poeta americano “Printing out the internet”

©iStockphoto.com/hjalmeida
Kenneth Goldsmith convoca pessoas do mundo inteiro é um tributo a Aaron Swartz,
a colaborar com um projeto de arte conceitual, ainda em um dos fundadores do site de
andamento. Ele quer imprimir toda a internet. A quantidade compartilhamentos Reddit. Aos
assombrosa – dez toneladas de papel, mais precisamente – não 26 anos, o ativista que cometeu
parou de crescer desde então e está em exposição até o dia 26 de suicídio em janeiro estava
agosto na galeria de arte Labor, na Cidade do México. sendo pressionado pela justiça
Em um espaço de 500 metros quadrados, em que o pé direito americana por piratear e tornar
mede seis metros de altura, os visitantes podem ler as páginas públicos artigos acadêmicos do
em voz alta sobre um pequeno palco ou simplesmente folhear site do MIT (Instituto de Tecno-
o conteúdo. Mais de 600 pessoas já atenderam ao chamado de logia de Massachusetts). (...)
Goldsmith e enviaram por correios folhas de formatos diferentes, O projeto de tornar a rede on-line material, concreta, é
com teores dos mais diversos. Essa amostra é bem representativa uma forma de sublinhar nosso acúmulo compulsivo de cultura
do que há na internet: e-mails, códigos de banco, pornografia, digital. A iniciativa, contudo, sabe das suas limitações e não
artigos jornalísticos, todas as partituras de Mahler, letras de Prince teme o fracasso: de acordo com o site World Wide Web Size
e 20 páginas em que aparece somente a letra A. (www.worldwidewebsize.com), o tamanho da internet impressa
Em entrevista à rádio CBC do Canadá, o artista comenta totalizaria mais de 4,8 bilhões de folhas de papel. Empilhadas,
que “estamos lidando com uma nova métrica de imensidade”. essas páginas alcançariam 55 vezes a altura do Everest. Mesmo
Evidentemente, o projeto vem sendo criticado por incentivar que a galeria fique abarrotada, portanto, é inviável dar conta
o uso excessivo de papel. A resposta à polêmica, no entanto, é do recado.
Alice Sant’Anna. O Globo, 9 ago. 2013.
que, encerrada a exposição, todo o material será reciclado. (...)

2. O que é linguagem?
Atualmente, a arte é
© iStockphoto.com/Christopher Futcher

O homem é um ser social e, por isso, está constantemente


vista pela medicina como
estabelecendo comunicação com outros indivíduos. É raríssimo,
um recurso extremamente
por exemplo, um dia no qual não haja comunicação com ninguém.
benéfico no tratamento
Seja escrevendo um bilhete para os pais ou acenando na rua para
de determinadas doenças.
um amigo que se encontra na calçada oposta. Todo o momento, há
Essa aplicação da arte na
interação com outras pessoas.
área clínica deu origem à
arteterapia, cujo conceito é A linguagem é um conjunto de signos utilizados para a
atribuído ao médico alemão comunicação. Não há apenas uma linguagem, mas várias. A escolha
Johann Christian Reil, um da forma mais eficiente dependerá do contexto: se alguém estiver em
dos grandes nomes da um ambiente no qual o silêncio é muito importante, por exemplo, é
psiquiatria alemã. natural que a comunicação seja estabelecida não por meio da fala,
mas por meio de gestos, desenhos ou da escrita. Além disso, também
Quando voltamos nossa atenção para obras de arte,
dependerá do interlocutor: de nada adiantaria escrever um bilhete
deixamos de lado, por alguns instantes, as preocupações do
para uma criança que ainda não foi alfabetizada.
cotidiano. Há alterações desde o nosso cérebro até o ritmo de
nossa respiração. Se estamos doentes, o entusiasmo decorrente Pode-se subdividir as linguagens em dois grandes grupos: o das
da apreciação de uma manifestação artística pode nos ajudar linguagens verbais e o das linguagens não verbais. O grupo das
a sair de uma crise. Com o relaxamento que ela traz, o sistema linguagens verbais é composto por todas as que se valem da palavra,
imunológico passa a funcionar melhor. ou seja, pela língua falada e escrita. O grupo das linguagens não
verbais, então, reunirá todos os demais sistemas que não a utilizam.
Por conta dessas vantagens, diversos institutos e hospitais
É um grupo mais numeroso: os desenhos, as cores, os sons, os
do Brasil e do mundo têm usado a arte como coadjuvante no
gestos, etc. Vale ressaltar que as linguagens não são sistemas fixos
tratamento de doenças.
e imutáveis, elas estão constantemente sofrendo mudanças. Além
disso, novos contextos podem propiciar o aparecimento de novas
Claro que a arte possui outras funções. Dentre elas, cabe linguagens ou o desuso de antigas.
ainda mencionar uma terceira: o seu poder de transformar a As manifestações artísticas podem fazer uso tanto da linguagem
linguagem. Porém, é necessário, primeiramente, entender o conceito verbal quanto da linguagem não verbal. Os textos literários, nosso
de linguagem. principal objeto de estudo, estabelecem comunicação com o
Arte, suas manifestações de linguagens LITERATURA 37
Módulo 1 1ª Série

interlocutor, majoritariamente, por meio da linguagem verbal, mais 03 Em diversos momentos da nossa longa história, variados artistas
especificamente, da língua escrita. As pinturas, esculturas ou as usaram a arte para expressar sentimentos religiosos dos homens
danças o fazem principalmente por meio da linguagem não verbal. para com os deuses ou entidades. Marque a alternativa em que esse
traço específico está ausente:
Além disso, não podemos descartar a possibilidade da combinação
das duas: uma música que não seja apenas instrumental mistura a

Disponível em: <najornada.wordpress.com>.


linguagem verbal (a língua falada) com a linguagem não verbal (o
som produzido pelos instrumentos). Ou ainda: uma tirinha, que
usa tanto o desenho quanto a língua escrita para a transmissão da
mensagem, também está fazendo a combinação de uma linguagem
verbal com uma linguagem não verbal. Alguns autores dão o nome
de linguagem híbrida ou mista ao resultado dessa mistura. (A)
Ao longo de toda a história da humanidade, o homem
buscou diferentes formas de se expressar artisticamente. De
pinturas na caverna até videoclipes, existe um desejo inerente a
alguns artistas de reinventar a linguagem e, consequentemente,
reinventar-se também. Os recursos para tanto são inúmeros,
como: geometrização dos planos, texturas diversas, iluminação
variada, construções sintáticas inovadoras e, conforme consta-
tado no texto de abertura do módulo, até mesmo seres vivos.

Disponível em: <en.wikimedia.org>.


01 Sabe-se que, por meio da arte, o seu realizador reflete o contexto
social e cultural em que está inserido, como podemos notar no(a): (B)

(A) invenção do guindaste, que facilita o levantamento de pesos


que não poderiam ser movidos apenas com a força humana.
(B) pintura rupestre, isto é, aquela realizada em rochedos e paredes
de cavernas, que representa interpretações do homem sobre a
natureza.
(C) criação de utensílios domésticos, como o computador, que nos
auxilia nos estudos, por exemplo.

Disponível em: <www.historiabrasileira.com>.


(D) produção de ferramentas, como a vara e o anzol, que possibi-
litam ao homem maior êxito na procura por alimentos.
(E) surgimento da calculadora, que faz parte de nossas vidas diárias
e apresenta uma utilidade evidente.

02 Pode-se entender por objetos artísticos:

(A) objetos cuja finalidade maior é facilitar nossa vida: no trabalho, (C)
nos afazeres de casa, no lazer.
(B) ferramentas para ajudar o homem em seu trabalho e a superar
suas limitações físicas.
(C) artefatos que possibilitaram ao homem dominar e transformar
o meio natural.
(D) objetos que, apesar de não terem uma utilidade imediata,
permitem ao homem expressar seus sentimentos com relação
à vida.
(E) instrumentos aperfeiçoados que tornam possível o processo
civilizatório pelo qual o homem vem passando ao longo dos
séculos.
38 LITERATURA
1ª Série Módulo 1

A da esquerda é a fotografia de um elefante e a da direita, uma ilus-

Disponível em: <obviousmag.org>.


tração do famoso pintor surrealista Salvador Dalí. Podemos dizer que
a perspectiva de ambas as figuras sobre o animal é a mesma? Explique.

(D)
01

Disponível em: <www.ccsp.com.br>.


Disponível em: <fotos.noticias.bol.uol.com.br>.

(E)
Toda publicidade tem como objetivo convencer o leitor a adquirir
determinado produto ou serviço. No entanto, esse objetivo só
poderá ser cumprido se houver, por parte daquele que lê, um
entendimento da mensagem que está sendo transmitida. No caso
dessa propaganda da empresa Volkswagen, a eficácia na transmissão
da mensagem depende principalmente do reconhecimento, pelo
leitor, do seguinte aspecto:

04 Partindo do pressuposto que as manifestações artísticas estão (A) referência a outros modelos de carro visando a uma aproxi-
relacionadas à vivência do artista, imerso em determinado contexto mação entre as suas características e as do modelo Fox.
político, social e cultural, é incorreto dizer que ele: (B) utilização de linguagem coloquial, que facilita a comunicação
entre a publicidade e o seu público-alvo.
(A) pode comunicar e expressar suas ideias, sentimentos e sensações (C) relação entre linguagem verbal e não verbal, que garante a
para os outros. diferenciação entre o modelo Fox e os demais.
(B) cria obras cuja principal característica é a praticidade, dinami- (D) utilização do verbo “adivinhar”, atribuindo à propaganda um
zando as tarefas cotidianas. caráter inesperado.
(C) trabalha com palavras, cores, formas, sons, harmonias, estimu- (E) estabelecimento de uma comunicação direta com o interlocutor,
lando nos homens a percepção e a sensibilidade. contribuindo para aumentar seu poder de persuasão.
(D) arranja a forma de seu objeto artístico de modo a encantar e
provocar reflexões especiais nos homens. 02 Os significados das imagens estão relacionados com o trata-
(E) não mostra, em suas obras, exatamente como as coisas são, mas mento dado aos elementos que as compõem.
sim como elas podem ser, de acordo com a sua visão. Na pintura de Chagall, o tratamento conferido aos elementos situados
em primeiro plano – homem e animal – gera, pela comparação, o
05 Observe as duas figuras abaixo: seguinte sentido:
GOMERICK, E. M. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999.
© iStockphoto.com / bucky_za

Disponível em: <www.girafamania.com.br>.

(A) a música é realidade para


os homens, mas não para
os animais.
(B) os homens, tnto quanto os
animais, podem ser feitos
de música.
(C) os músicos, ao contrário
dos animais, podem se
transformar em música.
(D) a música pode ser a essência
dos músicos, sejam eles
humanos ou não.
Salvador Dalí – A Girafa-elefante
Marc Chagall. O violoncelista.
Arte, suas manifestações de linguagens LITERATURA 39
Módulo 1 1ª Série

03 A pintura e o poema, embora sendo produtos de duas linguagens


A antena da cultura pop artísticas diferentes, participaram do mesmo contexto social e
cultural de produção pelo fato de ambos:
Beatles, Bob Dylan e Andy Warhol. Esses três nomes definem
a década que mudou tudo no século XX, os anos 1960. Bob Dylan (A) apresentarem um retrato realista, evidenciado pelo unicórnio
bebeu nas tradições do passado (...) para elevar o rock ao status de presente na pintura e pelos adjetivos usados no poema.
arte. Enquanto isso, os Beatles varriam, com seu radar, várias áreas (B) valorizarem o excesso de enfeites na apresentação pessoal e na
da cultura, e assim moldaram o mais perfeito retrato da época. Se variação de atitudes da mulher, evidenciadas pelos adjetivos
Dylan olhava para trás e os Beatles captavam o espírito do presente, o do poema.
artista plástico Andy Warhol era a antena que rastreava o futuro. (...) (C) apresentarem um retrato ideal de mulher marcado pela
sobriedade e o equilíbrio, evidenciados pela postura, expressão
Warhol é importante pelas questões que sua produção levanta e vestimenta da moça e os adjetivos usados no poema.
e pelas reflexões que provoca até hoje. Reflexões, claro, bastante (D) desprezarem o conceito medieval da idealização da mulher
diferentes das que as mesmas criações suscitaram nos anos 1960. Por como base da produção artística, evidenciado pelos adjetivos
uma razão simples: Warhol falava de um novo mundo que nascia e usados no poema.
nós vivemos agora a consolidação desse mundo. (E) apresentarem um retrato ideal de mulher marcado pela
emotividade e o conflito interior, evidenciados pela expressão
Revista Bravo. no 151, ano 12, mar. 2010. da moça e pelos adjetivos do poema.
Andy Warhol (1928-1987) foi um dos principais expoentes do
05 As imagens abaixo fazem parte de uma campanha do Ministério
pop art, movimento artístico que objetivava demonstrar, com suas
da Saúde contra o tabagismo.
obras, a massificação da cultura. A partir da compreensão do texto,
podemos afirmar que uma das funções da arte é:

Disponível em: <cafesemfumo.blogspot.com>. Acesso em: 10 abr. 2009 (adaptado).


(A) debater, de forma objetiva, as questões sociais relativas ao seu
tempo.
(B) fixar-se à retratação de uma realidade a ela contemporânea sem
vislumbrar realidades futuras.
(C) constituir uma fonte esgotável de reflexão, identificando-se
somente com o homem de seu tempo.
(D) propor ao homem reflexões sobre o seu contexto social inde-
pendentemente da época em que foi concebida.
(E) captar, como um radar, preocupações pertinentes ao homem,
atendo-se ao passado e ao presente.

04
LXXVIII (Camões, 1525?-1580)

Leda serenidade deleitosa,


SANZIO, R. (1483-1520)
A mulher com o unicórnio. Roma, Galleria Borghese

Que representa em terra


um paraíso;
Entre rubis e perlas doce riso;
Debaixo de ouro e neve
cor-de-rosa;

Presença moderada e
graciosa,
Onde ensinando estão
O emprego dos recursos verbais e não verbais nesse gênero textual
despejo e siso adota como uma das estratégias persuasivas:
Que se pode por arte e por aviso,
Como por natureza, ser fermosa; (A) evidenciar a inutilidade terapêutica do cigarro.
(B) indicar a utilidade do cigarro como pesticida contra ratos e
Fala de quem a morte e a vida pende, baratas.
Rara, suave; enfim, Senhora, vossa; (C) apontar para o descaso do Ministério da Saúde com a população
Repouso nela alegre e comedido: infantil.
(D) mostrar a relação direta entre uso do cigarro e aparecimento
Estas as armas são com que me rende de problemas no aparelho respiratório.
E me cativa Amor; mas não que possa (E) indicar que os que mais sofrem as consequências do tabagismo
Despojar-me da glória de rendido. são os fumantes ativos, ou seja, aqueles que fazem uso direto
CAMÕES, L. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008.
do cigarro.
40 LITERATURA
1ª Série Módulo 1

01 No cartum apresentado, o significado da palavra escrita é

Carlos Drummond de Andrade


reforçado pelos elementos visuais, próprios da linguagem não
verbal. Explique a principal ideia expressa por meio da separação
das letras da palavra em balões distintos.

CAULOS. Só dói qundo eu respiro. Porto Alegre: L&PM, 2001.


“Esta ilustração que fiz para os versos de Carlos Drummond
de Andrade quase provocou a prisão do poeta. Tive um trabalho
danado para convencer o general de censura que publiquei o
desenho sem pedir autorização do poeta.
Jaguar

Estabeleça a relação entre a linguagem não verbal e o fragmento


do poema “E agora, José?” de Carlos Drummond de Andrade, na
02 Em 1970, o país estava sob a ditadura militar, que se apropriou construção desse novo texto de Jaguar: Avante seleção.
do tricampeonato do Brasil na Copa do Mundo em julho, para
incentivar o espírito nacionalista-ufanista do povo.

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________
LITERATURA 41

Módulo 2 1ª Série

Linguagem denotativa, conotativa e figuras de linguagem

Você sabia que existem pessoas que


interpretam tudo “ao pé da letra”?
Na famosa série de TV americana The Big Bang Theory, o
personagem Sheldon Cooper possui um distúrbio chamado

Disponível em: <www.mensagenscomamor.com>.


Síndrome de Asperger. Pessoas com tal condição têm, entre outras
características, dificuldade em perceber sarcasmo e metáfora, o que
atrapalha o entendimento e a interação pessoal.
Assim, ao ouvir alguém dizer que está “morrendo de fome”, os
portadores do Asperger são capazes de ficar realmente preocupados,
achando que a pessoa pode, de fato, falecer. Para as demais pessoas,
no entanto, o próprio contexto é capaz de evidenciar se alguém está
se referindo a uma questão no sentido literal ou não.
No estudo da língua, somos capazes de estabelecer diversas
relações entre palavras que, quando combinadas, são capazes de
Objetivos:
dar novos sentidos e aumentar a expressividade de uma mensagem.
– Entender a diferença entre conotação e denotação;
Neste módulo, estudaremos a denotação e a conotação, bem como
C5 – aprender as principais figuras de linguagem;
as principais figuras de linguagem, a fim de entender – e dominar– – conseguir identificar figuras de linguagem em diferentes
ainda melhor um texto. contextos.

1. Linguagem denotativa e Observe a tirinha a seguir:

linguagem conotativa
As palavras não apresentam um sentido fixo ou estático. O
seu significado pode ser ampliado e podem ser somadas muitas
outras à sua significação original, dependerá do contexto em que é
empregada. Isso significa dizer que, além de seu sentido denotativo,
a linguagem também pode apresentar sentido conotativo.
O sentido denotativo, também chamado de sentido literal, O humor é fruto da observação da fala da mulher, que usa a
é o sentido “básico” das palavras, ou seja, aquele que pode ser expressão “mente muito fértil”, em seu sentido conotativo, e a cabeça
compreendido por todos os usuários da língua sem que esteja do homem, com árvores e plantas, feitas a partir do entendimento
vinculado a contextos específicos. Quando uma palavra é usada do sentido literal da expressão, ou seja, denotativo.
na sua acepção original – a que geralmente é encontrada em sua Por sua função estética, a linguagem conotativa é muito usada
primeira definição no dicionário –, ela está sendo empregada no em textos artísticos. Isso não significa, porém, que ela seja exclu-
sentido denotativo ou literal. sividade deles: os textos não artísticos também a utilizam, porém
Já o sentido conotativo, também conhecido como sentido com menos frequência. No exemplo abaixo, uma das manchetes do
figurado, é o sentido diferente do literal que certas palavras podem jornal O Globo chama a atenção para o “nó” causado no trânsito
assumir em contextos específicos. Quando uma palavra ganha, em por protesto na cidade do Rio de Janeiro. Nesse caso, a palavra “nó”
um texto, acepção diferente da usual, ela está sendo empregada no está sendo empregada no sentido conotativo, para simbolizar uma
sentido conotativo ou figurado. obstrução do tráfego.
42 LITERATURA
1ª Série Módulo 2

Quando o eu lírico de “Procura da poesia” fala de poemas “em


estado de dicionário”, há uma clara referência à linguagem denota-
tiva. Afinal, quando uma palavra está “em estado de dicionário”, ela
apresenta uma limitada possibilidade de significados.
É no texto que essas palavras se libertam. Nos versos “Chega
mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces
secretas sob a face neutra”, a referência maior é, por sua vez, à
linguagem conotativa. É ela que permite que a palavra tenha
muitos outros sentidos além do sentido comum. Dessa forma, a
“face neutra” é seu sentido literal, as “mil faces secretas”, seus vários
sentidos figurados possíveis.

2. Figuras de linguagem
As figuras de linguagem são recursos que garantem maior
expressividade a nossa mensagem. Ao usá-las, o potencial criativo
da linguagem fica ainda mais evidente. A seguir, serão elencadas
algumas das principais figuras de linguagem existentes:

2.1 Comparação
A comparação é a aproximação de dois elementos que apre-
sentam entre si algum ponto em comum, alguma semelhança. Ela
é sempre feita por meio de uma partícula comparativa expressa,
O poder que a linguagem possui de assumir vários sentidos
como: “tal qual”, “como”, “semelhante a”, “que nem”, etc.
multiplica as suas possibilidades. Esse poder é amplamente
explorado pela literatura, como pode ser visto no fragmento abaixo, No fragmento da música “Tatuagem”, de Chico Buarque,
do poema “Procura da poesia”, de Carlos Drummond de Andrade. pode-se observar um exemplo de comparação:

“Quero ficar no teu corpo


Procura da poesia
Feito tatuagem
(...)
Que é pra te dar coragem
Penetra surdamente no reino das palavras.
Pra seguir viagem
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Quando a noite vem...
Estão paralisados, mas não há desespero,
(...)”
há calma e frescura na superfície intata. Chico Buarque. Disponível em: <letras.mus.br>

Ei-lo sós e mudos, em estado de dicionário,


Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. (...) 2.2 Metáfora
Não adules o poema. Aceita-o A metáfora é uma comparação implícita, pois, ao contrário do
Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada que ocorre na comparação, não há nela um elemento comparativo
no espaço. expresso. A aproximação feita entre dois elementos pela metáfora
é subjetiva e momentânea: embora haja uma relação entre os
Chega mais perto e contempla as palavras. elementos implicitamente comparados, ela não é óbvia e está muito
ligada à visão do indivíduo.
Cada uma
Na imagem abaixo, pode-se perceber a metáfora sendo
tem mil faces secretas sob a face neutra
aplicada na linguagem não verbal da publicidade. A disposição
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
das árvores na cena nos faz lembrar os pulmões humanos.
pobre ou terrível, que lhe deres: A aproximação entre os dois elementos se dá por meio da impor-
Trouxeste a chave? tância para a respiração que ambos possuem. Como o objetivo da
propaganda é chamar a atenção para o desmatamento, um dos lados
ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. Poesia e prosa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 95-97. desse “pulmão” já se encontra comprometido.
Linguagem denotativa, conotativa e figuras de linguagem LITERATURA 43
Módulo 2 1ª Série

2.4 Antítese

Disponível em: <www.greenstyle.com.br>.


A antítese é o emprego de palavras que possuem sentidos
opostos, que se contrapõem. Por meio do contraste, ambas são
enfatizadas.
Observe o trecho abaixo, retirado do poema “O dia da criação”,
de Vinicius de Moraes:

“(...)
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens
vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
2.3 Metonímia Todos os maridos estão funcionando regularmente
A metonímia é a substituição de uma palavra por outra com a Todas as mulheres estão atentas
qual guarde uma relação estreita de afinidade ou relação de sentido. Porque hoje é sábado.
Observe a manchete a seguir: (...)”
Disponível em:
<www.estadao.com.br>.

Vinicius de Moraes. Disponível em: <www.viniciusdemoraes.com.br>.

Em um dos versos do poema, o eu lírico diz: “Neste momento


todos os bares estão repletos de homens vazios”. Logo, há um nítido
contraste entre o adjetivo “repletos”, relacionado ao substantivo
“bares”, e “vazios”, ligado ao substantivo “homens”. Repare como
essa oposição dá origem a uma imagem, ao mesmo tempo, bonita
Encontra-se um caso de metonímia presente na expressão e crítica.
“sem-teto”, na qual o termo “teto” remete, imediatamente, à ideia
de casa, lar ou abrigo. Logo, “teto” constitui uma parte de um todo, 2.5 Paradoxo
que, nesse contexto, seria a moradia.
O paradoxo é a união de termos contrastantes em uma mesma
unidade de sentido, dando origem, portanto, a uma ideia aparen-
temente contraditória.
Além do tipo mais famoso de metonímia, a parte pelo
No fragmento a seguir, do poema “Fanatismo”, da poetisa
todo, também conhecida como sinédoque, podemos encontrar
portuguesa Florbela Espanca, o eu lírico faz uso do paradoxo:
essa figura em várias outras situações. Dentre elas, podemos
destacar estas:
“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
• Autor pela obra: “Não me canso de ouvir Cazuza”. Meus olhos andam cegos de te ver!
• Efeito pela causa, e vice-versa: “Aquele homem enriqueceu Não és sequer razão de meu viver,
com muito suor”.
Pois que tu és já toda a minha vida! (...)”
• Continente pelo conteúdo: “Comi dois pratos no almoço”.
• Concreto pelo abstrato: “Tem que ter muito braço para Florbela Espanca. Disponível em: <www.jornaldepoesia.jor.br>.

suportar este peso”.


• Singular pelo plural: “A mulher deve continuar lutando Repare que, diferentemente da antítese, não há, no verso
por direitos iguais”. destacado, somente a contraposição de elementos antagônicos,
• Matéria pelo objeto: “O garçom derrubou a bandeja com mas a presença simultânea de opostos em um mesmo elemento:
os cristais”. os olhos do eu lírico, ao mesmo tempo em que estão cegos, vêem.
• Marca pelo produto: “Preciso tirar xerox deste livro” .

Repare que todos os exemplos citados mantêm uma relação


de interdependência com as palavras que substituem. Trata-se,
portanto, de uma relação objetiva.
44 LITERATURA
1ª Série Módulo 2

2.6 Personificação ou prosopopeia

Disponível em: <realejornal.blogspot.com.br>.


Disponível em: <bentobjects.blogspot.com.br>.
Na propaganda acima, o uso da hipérbole reforça a qualidade
do produto anunciado. A imagem reforça a eficácia do produto ao
sugerir força em demasia para o animal que dele usufrui.
A personificação, também chamada de prosopopeia, é a
atribuição de características próprias dos seres humanos a seres
inanimados ou irracionais. 2.9 Ironia
Nessa imagem, do fotógrafo Terry Border, há um kiwi se A ironia consiste em dizer o contrário do que deseja-se afirmar.
raspando diante do espelho. O trabalho faz parte de um criativo Na maioria das vezes, ela é utilizada para satirizar ou questionar
projeto idealizado por Border em que explora alimentos, objetos algum aspecto que pretende-se criticar. A ironia é mais facilmente
pessoais e embalagens de produtos, conferindo-lhes uma aparência percebida na língua oral do que na escrita, já que, na oralidade, a
humana. Logo, os elementos inanimados acabam sofrendo um ironia pode ser evidenciada por meio da entonação. Sempre que
processo de personificação. utilizada, a preocupação deve ser em construí-la bem, pois, se
essa figura de linguagem não for identificada, a mensagem será
2.7 Eufemismo entendida justamente da forma oposta à que o emissor desejava.
Foi isso que aconteceu com a crônica “A audácia”, de Luis
O eufemismo é a suavização de uma ideia ou expressão forte,
Fernando Veríssimo. Será reproduzido, a seguir, um trecho dela:
desagradável ou chocante por meio do emprego de outra ideia ou
expressão mais suave ou agradável. “(...)
Leia o trecho a seguir, retirado do romance Dom Casmurro, O Lula tomando Romanée-Conti... Ora faça-me o favor.
de Machado de Assis: Que coisa grotesca. Que coisa ridícula. Que acinte. Que escândalo.
E que desperdício. Vai ver ele não sabe nem pronunciar o nome,
“(...) Uma certidão que me desse vinte anos poderia enganar os
quanto mais apreciar o sabor. Vai ver derramou um pouco pro
estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os
santo, na toalha. Romanée-Conti não é pra gentinha, não, Lula.
amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram
As coisas boas da vida são para as pessoas finas do mundo, não pra
estudar a geologia dos campos-santos.”
pé-rapado que bota gravata e acha que é doutor. Muito menos pra
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Moderna, 2004. p. 18.
pé-rapado brasileiro.
(...) Está bom, foi só um gole. Mas é assim que começa. Hoje
O narrador, em vez de dizer que os amigos morreram, afirma
tomam um gole de Romanée-Conti, amanhã estão com delírio de
que eles “foram estudar a geologia dos campos-santos”, ou seja,
grandeza, pedindo saneamento básico, habitação decente, oportu-
dos cemitérios. Trata-se de um eufemismo, já que a troca do verbo
nidade de trabalho e até – gentinha metida a grande coisa não sabe
“morrer” pela expressão garante a suavização da ideia. Além, claro,
quando parar – mais saúde pública, mais igualdade e caviar. Enfim,
de reforçar seu efeito expressivo.
essas coisas que intelectual comunista põe na cabeça deles. (...)
O Lula tomando Romanée-Conti... É o cúmulo. É uma inversão
2.8 Hipérbole completa dos valores sob os quais nos criamos, segundo os quais
A hipérbole é o emprego do exagero com a finalidade de reforçar se Deus quisesse que os pobres tomassem vinho de rico daria uma
a mensagem que está sendo transmitida. ajuda de custo. É o fim de qualquer hierarquia social, portanto o
Linguagem denotativa, conotativa e figuras de linguagem LITERATURA 45
Módulo 2 1ª Série

caos. Ainda bem que ainda existem patriotas alertas para denunciar “E foram virando peixes
o ridículo, o acinte, o escândalo, e chamar o Lula de volta à Virando conchas
humildade. Para mandar o Lula se enxergar.
Virando seixos
Sim, porque hoje é Romanée-Conti e amanhã pode ser até a
Virando areia
Presidência da República. Gentinha que não conhece o seu lugar
é capaz de tudo.” Prateada areia
Com lua cheia
O Globo, 15 out. 2002.
E à beira-mar”
Na crônica, Luis Fenando Veríssimo assumiu a voz de parte da Chico Buarque. Disponível em: <letras.mus.br>.
elite, que considerou inaceitável Lula tomar um Romanée-Conti,
um dos vinhos mais caros do mundo. O objetivo era expor quão
absurda era essa atitude da elite, criticando-a, pois. No entanto,
muitos leitores não entenderam a ironia do cronista e o acusaram Além da utilização das figuras de linguagem no contexto
de assumir uma postura reacionária. No mesmo dia, Veríssimo artístico e em diversos meios de comunicação, também
respondeu às críticas: “Quando o leitor não entende o que um fazemos uso delas em nosso cotidiano. Não são poucas as vezes
jornalista escreveu, a culpa é sempre do jornalista. Peço desculpa a que recorremos às figuras de linguagem para conferir maior
quem não entendeu a intenção da coluna. O alvo era o preconceito expressividade ao que falamos.
social implícito na reação desmedida ao fato do Lula ter tomado Quando dizemos que uma pessoa “é a maior mala”, estamos
um bom vinho. Talvez tenha faltado o aviso ‘Atenção, ironia’. fazendo uso de uma metáfora. Quando dizemos para um amigo
De qualquer jeito, culpa minha”. que ele “faltou com a verdade” em vez de acusá-lo de mentiroso,
é um eufemismo, e talvez consigamos com isso que ele confesse
2.10 Pleonasmo mais facilmente seu erro. Quando dizemos a um colega que
tirou nota baixa em uma avaliação que ele “tirou o maior notão”,
O pleonasmo é a combinação de termos que vinculam a mesma estamos usando a ironia.
ideia para enfatizar a mensagem.
Há, além desses, muito outros exemplos. Já reparou no
No fragmento abaixo, do “Soneto de Fidelidade”, de Vinicius quanto utilizamos, no nosso dia a dia, termos e expressões
de Moraes, há um exemplo de pleonasmo: próprios do esporte? Usamos o “jogar a toalha”, contribuição
do boxe, o “por em xeque”, do xadrez, o “dar a assistência”,
“Quero vivê-lo em cada vão momento do basquete. Se pararmos para pensar nas contribuições do
E em seu louvor hei de espalhar meu canto futebol, a lista é ainda maior:

©iStockphoto.com/kaarsten
E rir meu riso e derramar meu pranto dizemos que alguém “pisou
na bola”, que já não vale mais
Ao seu pesar ou seu contentamento”
se esforçar “nessa altura do
Vinicius de Moraes. Disponível em: <www.releituras.com>. campeonato”, que “em time
que ganha não se mexe”,
2.11 Elipse que o filme a que assistimos
A elipse consiste em omitir um termo que pode ser facilmente ontem é “show de bola”, que o
identificado pelo contexto, como na frase “Na sala de aula, apenas ex-namorado de nossa amiga
alguns alunos”. Nela, há a omissão do verbo “haver”, que pode ser, “ganhou cartão vermelho” e
no entanto, depreendido pelo leitor. “foi colocado pra escanteio”.

Quando o termo omitido houver sido citado anteriormente, a


figura de linguagem em questão será a zeugma.

2.12 Gradação 01 “Meu pai e o proprietário sumiram-se, foram cuidar de


A gradação é a exposição de ideias em ordem crescente (clímax) negócios, numa daquelas conversas cheias de gritos. Minha mãe e
eu ficamos cercados de saias.”
ou decrescente (anticlímax).
No trecho abaixo, retirado da música “Mar e lua”, de Chico Considerando essa passagem, de Infância, de Graciliano Ramos,
Buarque, há o emprego de uma gradação decrescente: que figura de estilo ocorre no último período? Reescreva-o em
linguagem denotativa.
46 LITERATURA
1ª Série Módulo 2

02 Indique, entre as alternativas abaixo, a figura que aumenta ou Nessa tirinha, a personagem faz referência a uma das mais conhe-
diminui, exageradamente, a verdade das coisas: cidas figuras de linguagem para:

(A) Metáfora. (A) condenar a prática de exercícios físicos.


(B) Metonímia. (B) valorizar aspectos da vida moderna.
(C) Comparação. (C) desestimular o uso das bicicletas.
(D) Hipérbole. (D) caracterizar o diálogo entre gerações.
(E) Eufemismo. (E) criticar a falta de perspectiva do pai.

03 Assinale a figura de linguagem predominante no seguinte 02


trecho: Metáfora
A engenharia brasileira está agindo rápido para combater a Uma lata existe para conter algo,
crise de energia. Mas quando o poeta diz: “Lata”
Pode estar querendo dizer o incontível
(A) metáfora. Uma meta existe para ser um alvo,
(B) metonímia. Mas quando o poeta diz: “Meta”
(C) eufemismo.
Pode estar querendo dizer o inatingível
(D) hipérbole.
(E) pleonasmo. Por isso não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
04
Na lata do poeta tudonada cabe,
“O encanto do Recife não aparece à primeira vista. O Recife não
Pois ao poeta cabe fazer
é uma cidade oferecida e só se entrega depois de longa intimidade.
Com que na lata venha caber
Se não fosse muito esquisito comparar cidades com mulheres, eu
O incabível
diria que o Recife tem o físico, a psicologia, a graça arisca e seca,
reservada e difícil de certas mulheres magras, morenas e tímidas. Deixe a meta do poeta não discuta,
Porque, não repararam que há cidades que são o contrário disso? Deixe a sua meta fora da disputa
Cidades gordas, namoradeiras, gozadonas? O Rio, por exemplo, Meta dentro e fora, lata absoluta
Belém do Pará, São Luís do Maranhão são cidades gordas. A Deixe-a simplesmente metáfora.
Bahia é gordíssima. São Paulo é enxuta. Mas Fortaleza e o Recife Gilberto Gil. Disponível em: <www.letras.terra.com.br>. Acesso em: 5 fev. 2009.
são magras. (...)”
A metáfora é a figura de linguagem identificada pela comparação
O trecho apresentado, extraído da crônica “Um grande artista subjetiva, pela semelhança ou analogia entre elementos. O texto
pernambucano”, de Manuel Bandeira, utiliza-se, para caracterizar de Gilberto Gil brinca com a linguagem remetendo-nos a essa
as cidades, do(a): conhecida figura. O trecho em que se identifica a metáfora é:

(A) paradoxo. (A) “Uma lata existe para conter algo”.


(B) antítese. (B) “Mas quando o poeta diz: ‘Lata’”.
(C) ironia. (C) “Uma meta existe para ser um alvo”.
(D) metonímia. (D) “Por isso não se meta a exigir do poeta”.
(E) personificação. (E) “Que determine o conteúdo em sua lata”.

05 Na frase “Naquela horrível batalha, vários adormeceram 03 Leia o texto seguinte:


eternamente”, qual é a figura de linguagem utilizada? Em seguida,
reescreva a expressão figurada em seu sentido denotativo. “A aposentada A. S., 68, tomou na semana passada uma
decisão macabra em relação ao seu futuro. Ela pegou o dinheiro
de sua aposentadoria (um salário-mínimo) e comprou um
caixão. A. mora com a irmã, M. F., 70, que também é aposentada.
Elas não têm parentes. A. diz que está investindo no futuro. Sua irmã
01 a apoia. A. também comprou – a mortalha – roupa que quer usar
quando morrer. O caixão fica guardado na sala da casa.”
“Aposentada compra caixão para o futuro”. Folha de S. Paulo, 22 ago 1992 (adaptado).

a. Localize um trecho que revela ironia.


b. Explique como se dá esse efeito de ironia.
Linguagem denotativa, conotativa e figuras de linguagem LITERATURA 47
Módulo 2 1ª Série

04 (A) o emprego, em ambos os textos, do sentido conotativo da


Oxímoro, ou paradoxismo, é uma figura de retórica em que palavra “pedra”.
se combinam palavras de sentido oposto que parecem excluir-se (B) a identidade de significação, já que, nos dois textos, “pedra”
significa empecilho.
mutuamente, mas que, no contexto, reforçam a expressão.
(C) a personificação de “pedra” que, em ambos os textos, adquire
Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. características animadas.
(D) o predomínio, no primeiro texto, do sentido denotativo de
Considerando a definição apresentada, o fragmento poético da “pedra” como matéria mineral sólida e dura.
obra Cantares, de Hilda Hilst, publicada em 2004, em que pode ser (E) a utilização, no segundo texto, do significado de “pedra” como
encontrada a referida figura de retórica é: dificuldade materializada por um objeto.

(A) “Dos dois contemplo


rigor e fixidez.
Passado e sentimento
me contemplam” (p. 91).
01
(B) “De sol e lua
De fogo e vento Favelário nacional
Te enlaço” (p. 101). 1. Prosopopeia
(C) “Areia, vou sorvendo
A água do teu rio” (p. 93). Quem sou eu para te cantar, favela,
(D) “Ritualiza a matança
de quem só te deu vida. que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta
E me deixa viver e a noite inteira de sábado
nessa que morre” (p. 62). e nos desconheces, como igualmente não te conhecemos?
(E) “O bisturi e o verso.
Dois instrumentos Sei apenas do teu mau cheiro: baixou a mim, na vibração,
entre as minhas mãos” (p. 95). direto, rápido, telegrama nasal
05 anunciando morte... melhor, tua vida.

Texto I (...)
No meio do caminho tinha uma pedra Tua dignidade é teu isolamento por cima da gente.
Não sei subir teus caminhos de rato, de cobra e baseado,
tinha uma pedra no meio do caminho
tuas perambeiras, templos de Mamalapunam
tinha uma pedra
em suspensão carioca.
no meio do caminho tinha uma pedra
(...) Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer,
medo só de te sentir, encravada
ANDRADE, C. D. Reunião. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971.
favela, erisipela, mal-do-monte
Texto II na coxa flava do Rio de Janeiro.

As lavadeiras de Mossoró, cada uma tem sua pedra no rio: Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver
cada pedra é herança de família, passando de mãe a filha, de filha Nem de tua manha nem de teu olhar.
a neta, como vão passando as águas no tempo (...) A lavadeira e a Medo de que sintas como sou culpado
pedra formam um ente especial, que se divide e se reúne ao sabor e culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade.
do trabalho. Se a mulher entoa uma canção, percebe-se que nova Custa ser irmão,
pedra a acompanha em surdina... custa abandonar nossos privilégios
(...) e traçar a planta
ANDRADE, C. D. Contos sem propósito. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, Caderno B. 17 jul. 1979. da justa igualdade.
Somos desiguais
Com base na leitura dos textos, é possível estabelecer uma relação
e queremos ser
entre forma e conteúdo da palavra “pedra”, por meio da qual se
observa: sempre desiguais.
(...)
ANDRADE, Carlos Drummond de. Corpo. São Paulo: Record. p. 109-112, 1984.
48 LITERATURA
1ª Série Módulo 2

O texto tem como subtítulo a palavra “Prosopopeia” e aborda uma Como em sonho perder a passada
temática de apelo social. E no oco da Terra tombar?
(...)
a. Sintetize, em uma frase completa, a relação entre o subtítulo e
a favela.
Como assim? Levitante colono?
b. Sintetize, em uma frase completa, por que somos culpados de
pouca ou nenhuma irmandade, segundo a argumentação do Pasto aéreo? Celeste curral?
texto. Um rebanho nas nuvens? Mas como?
Boi alado? Alazão sideral? (...)
02 O texto a seguir está publicado em obra dedicada “às milhares
de famílias de brasileiro sem terra”. HOLANDA, Chico Buarque de. In: SALGADO, Sebastião: Terra.
São Paulo: Companhia das Letras, p. 111, 1997.

Levantados do chão As imagens da última estrofe constroem-se por meio da combi-


Como então? Desgarrados da terra? nação de substantivos com adjetivos, pertencentes aos campos
semânticos de ar e de terra.
Como assim? Levantados do chão?
Como embaixo dos pés uma terra a. A maneira como esses campos semânticos estão combinados
Como água escorrendo da mão? resulta em imagens contraditórias, expressas numa figura de
linguagem. Diga qual é essa figura de linguagem.
Como em sonho correr numa estrada? b. Essa figura de linguagem revela a opinião do eu lírico sobre a
Deslizando no mesmo lugar? realidade. Explique por quê.

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________
LITERATURA 49

Módulo 3 1ª Série

Funções da linguagem

Você já parou para pensar por que ficamos


tão irritados quando estamos no meio de uma
conversa on-line e a internet cai?
Hoje em dia, a internet é um dos principais canais de
comunicação existentes e milhões de pessoas se conectam
todos os dias – por vezes, mais de uma vez por dia –

©iStockphoto.com/mantosh
à rede mundial de computadores. Logo, quando esse canal é inter-
rompido, todo o processo comunicacional acaba não sendo mais
possível. Aliás, poucas vezes paramos para pensar em como esse
processo é complexo, e de que forma vários elementos precisam se
combinar para que consigamos interagir.
É justamente isso que será estudado neste módulo: os elementos
Objetivos:
da comunicação e suas funções da linguagem. Juntos, eles são
– Aprender as diferenças da linguagem;
responsáveis pelo sucesso – ou pela falta dele – em qualquer C5 – identificar funções da linguagem em textos com diferentes
processo comunicacional. linguagens

1. Os seis elementos da Além disso, toda mensagem é transmitida por um canal, o


meio, material ou não, por meio do qual ocorre a comunicação.
comunicação Quando alguém fala com um amigo no chat do Facebook, só o faz
graças à internet. Dessa forma, a internet é o canal que possibilita a
Conforme estudado em redação, em toda situação de comu-
mensagem chegar ao amigo. Se, por conta do tempo ruim, a internet
nicação, estão presentes seis elementos: o emissor, o receptor, a
cai, a comunicação imediatamente para de ser estabelecida.
mensagem, o código, o canal e o referente.
Por fim, para que o ato comunicacional seja pleno, um sexto
O emissor é o elemento responsável por enunciar, emitir e
elemento se faz necessário: o referente. Por trás de toda situação
produzir a informação que será recebida pelo receptor. Ainda que
comunicacional, há um contexto, um conjunto de informações
seja comum pensarmo no ato comunicativo como uma situação
que permite o receptor compreender a mensagem transmitida
com emissor e receptor bem definidos e facilmente identificáveis,
pelo emissor. Esse conjunto de informações é o referente. Pense
nem sempre é assim. Basta imaginar, por exemplo, os discursos
na seguinte situação: você é parado por uma pessoa na rua e ela
feitos pela presidente em rede nacional: o emissor é facilmente
lhe pergunta se você irá à festa da Ana, que acontecerá no sábado.
identificável, mas o receptor a que ela se dirige é um grupo grande e
Você não conhece essa pessoa nem a Ana de quem ela fala. Logo,
heterogêneo, difícil de ser delimitado. Ainda assim, se a informação
haverá problemas na comunicação de vocês dois justamente porque
é passada pelo emissor, chega até o receptor – que, nesse caso, serão
irá lhe faltar o referente.
milhões de brasileiros – e é por ele apreendida. Está estabelecida
a comunicação.
©iStockphoto.com/Steve Debenport

Também está sempre presente em uma situação comunicativa a


mensagem, que é a enunciação feita pelo emissor para o receptor, a
informação passada do remetente para o destinatário. Para que ela
seja transmitida, o emissor faz uso de um código, ou seja, de um
conjunto de símbolos. Só haverá comunicação se o receptor souber
decodificar a mensagem, isto é, se ele conhecer o código que foi
usado pelo emissor na hora de transmitir a mensagem. Por exemplo:
uma pessoa que nunca frequentou a autoescola dificilmente saberá
o que todos os desenhos das placas de trânsito representam. Dessa
forma, por não compartilharem do mesmo código, muitas dessas
placas não estabelecerão comunicação com ela.
50 LITERATURA
1ª Série Módulo 3

2. As funções da linguagem principal função é convencer o receptor de que ele precisa adquirir
determinado produto ou serviço. A função conativa está presente,
A linguagem pode desempenhar seis funções, que estarão principalmente, nas frases imperativas, nas frases interrogativas,
centradas nos seis elementos que vistos. Vamos revisar essas funções nos vocativos e na 2a pessoa tanto dos verbos quanto dos pronomes.
que você está estudando em redação: Observe como esta propaganda se utiliza do imperativo e da 2a
pessoa do singular para convencer o receptor:
2.1 Função emotiva
A função emotiva está centrada no emissor. Ela fica em

Disponível em: <portaldoprofessor.mec.gov.br.>


evidência quando exteriorizadas as emoções, sentimentos e
opiniões. A função emotiva está presente, principalmente, nas
interjeições, nas frases exclamativas, na 1a pessoa tanto dos verbos
quanto dos pronomes e no recorrente uso de adjetivos.
No trecho a seguir, retirado do poema “Meus oito anos”, de
Casimiro de Abreu, repare como o foco é o emissor, havendo,
portanto, o predomínio da função emotiva:

“Oh! que saudades que eu tenho


Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais.”
ABREU, Casimiro de. As primaveras. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 38-39.

O objetivo maior do sistema de comunicação publicitário


A função emotiva da linguagem está muito presente na é provocar a necessidade de compra (de produtos, serviços ou
literatura, principalmente em poemas cujo grande foco são as ideias). Para tanto, alguns recursos linguísticos e extralinguís-
emoções do eu lírico. Porém, ela também fica em evidência em ticos são utilizados. Também podemos encontrar, nesse mesmo
outros contextos, como na linguagem popular, principalmente sistema comunicativo, especificidades capazes de fornecer, a
no uso dos chamados “palavrões”. Como as pessoas os utilizam um atento leitor do mundo, ferramentas que lhe garantam
para exprimir as mais diversas emoções – tristeza, surpresa, colaborar na resolução de problemas sociais. É o que podemos
felicidade, dor, etc. – a linguagem centra-se no emissor e a notar no texto a seguir, de Luiz Costa Pereira Junior.
função emotiva é evidenciada.
O anúncio que ri de si mesmo
©iStockphoto.com/CHIOSEA_ION

Linha auxiliar do mercado, a publicidade ganha autonomia criativa e estatuto


e arte e de contestação
Disponível em: <agonistica.com>.

2.2 Função conativa ou apelativa


A função conativa, também chamada de apelativa, está centrada A tradição das estratégias inventivas para concepção de
no receptor. Ela fica em evidência quando espera-se uma resposta mensagens publicitárias, mais que vender produtos, parece
ou uma atitude do receptor, ou quando a intenção é influenciá-lo. ter conquistado espaço criativo próprio, que se retroalimenta.
Por isso, aparece com frequência, nos textos publicitários, cuja
Funções da linguagem LITERATURA 51
Módulo 3 1ª Série

“Não me turbou, porém, o despeito que investe


O publicitário, diz Washington Olivetto, é um adequador
Gritando maldições contra aquilo que amou.
de mensagens. Adapta o que se quer vender a um público que
pode consumir. Mas já há um caldo cultural ávido por devorar De ti conservo no peito a saudade celeste
comunicações publicitárias como obras autônomas, julgadas Como também guardei o pó que me ficou
fora do contexto dos fins mercantis que as geraram. Daquele pequenino anel que tu me deste.”
Tal estatuto de arte pode ser um exagero, mas sinaliza o Manuel Bandeira. O Anel de Vidro
valor da criatividade na confecção de slogans e mensagens
audiovisuais. (...)

Disponível em: <www.mundoeducacao.com>.


Fez fama a fase em que a Benneton esteve sob influência
do fotógrafo milanês Oliviero Toscani. Nos anos 1990, ele foi
o responsável por (pregar) peças com a grife italiana. Divulgou
a marca de roupas exibindo padre beijando freira, uma família
com um soropositivo moribundo, túmulos e corações em
sequência.
Toscani diz, em A publicidade é um cadáver que nos sorri
(Ediouro, 1996), que publicidade não serve só para vender bem
um produto, mas pode ser intervenção social relevante em
tempos de globalização e perda de influência da arte.
Pode ser, ainda mais num ambiente em que já não é nítido
o contraste entre o que é fato ou mera persuasão. Mas a publi-
cidade pode reivindicar um papel crítico? Parte da retórica,
ela não apela a argumentos racionais, mas quer convencer a Noite Estrelada, de Van Gogh (MoMA, NY)
qualquer preço. Mostra só o que beneficia o interlocutor. O
consumo compulsivo, passageiro e de elite é seu oásis. Encarar
sua dimensão cultural é talvez testar limites, mas muita gente
2.4 Função metalinguística
dá como certo que está longe de ser uma impossibilidade. A função metalinguística está centrada no código. Ela fica em
evidência quando a linguagem é usada para comentar ou explicar
PEREIRA JR., Luiz Costa. Revista Língua. Ano II. Número 16, 2007.
a própria linguagem, ou seja, o código é usado para explicar ou
comentar o próprio código. A função metalinguística está presente
2.3 Função poética toda vez que um poema retrata um poema, que um filme retrata
umfilme, um quadrinho retrata um quadrinho e assim por diante.
A função poética está centrada na mensagem. Ela fica
em evidência quando há um maior cuidado na elaboração da O quadro a seguir, de René Magritte, pode ser considerado
mensagem, por meio de recursos como a seleção vocabular ou uma obra metalinguística:
o emprego de palavras em sentido conotativo. A função poética

René Magritte. Disponível em: <blogopontodevista.blogspot.com.br>.


está presente, principalmente, no uso das figuras de linguagem, no
cuidado com o ritmo e no emprego de rimas.
Embora seja muito comum na poesia, também é possível
encontrar a função poética em outros tipos de texto como a prosa
e até em manifestações artísticas que não fazem uso da linguagem
verbal, como fotografias e pinturas. Além de estar presente também
na linguagem publicitária ou, com menos frequência, no texto
jornalístico.
Por causar estranheza – já que se diferencia da linguagem
comum, cotidiana, vulgar –, a função poética faz o receptor prestar
mais atenção no que está sendo dito ou mostrado, evidenciando,
assim, a mensagem. O foco na função poética geralmente é um
dos principais critérios para diferenciar os textos literários dos
não literários.
Perceba a presença da função poética em dois textos diferentes:
versos de um poema de Manuel Bandeira e um quadro de Van Gogh:
52 LITERATURA
1ª Série Módulo 3

2.5 Função fática


A função fática está centrada no canal. Ela fica em evidência
quando a comunicação é iniciada, prolongada ou encerrada, ou
quando o canal é testado por meio do qual a comunicação está sendo 01 Relacione os elementos da comunicação abaixo aos seus devidos
significados:
estabelecida. A função fática está presente no uso de expressões
como “oi”, “alô”, “né?”, “tchau”, “como vai?”, etc.
I. Mensagem ( ) Meio físico que conduz a mensagem ao
Na música abaixo, a expressão “alô” evidencia a função fática receptor.
da linguagem ao ser utilizada para iniciar a comunicação entre
II. Referente ( ) Aquele que diz algo a alguém.
emissor e receptor. Observe:
III. Emissor ( ) Texto – tudo que é transmitido do emissor
ao receptor.
“Alô, alô, marciano
IV. Canal ( ) Aquele com quem o emissor se comunica.
Aqui quem fala é da Terra
V. Receptor ( ) Contexto em que mensagem, emissor e
Pra variar, estamos em guerra receptor estão inseridos.
Você não imagina a loucura” VI. Código ( ) Convenção social que permite ao receptor
Disponível em: <letras.mus.br>. compreender a mensagem.

02 Temos contato diariamente com vários sistemas de comu-


2.6 Função referencial nicação, como, por exemplo, o sistema informativo. Partindo
do pressuposto que o objetivo maior dos textos pertencentes a
A função referencial está centrada no referente. Ela fica em
esse sistema é destacar o assunto, ou seja, informar, a função da
evidência quando informações ou constatações são transmitidas, linguagem em destaque é a referencial. Logo, o tipo de linguagem
geralmente de modo objetivo, por meio do uso da linguagem mais empregada por eles é a:
denotativa e, predominantemente, da 3a pessoa. A função referencial
está presente, principalmente, em enciclopédias, livros didáticos e (A) científica. (D) conotativa.
textos jornalísticos. (B) artística. (E) denotativa.
(C) metafórica.
Um bom exemplo de função referencial é o seguinte, que
procura explicar o que é filosofia: 03 O uso do modo imperativo, da segunda pessoa em pronomes
“Filosofia é uma palavra grega que significa “amor à sabedoria” e desinências verbais, além da presença do vocativo são recursos
e consiste no estudo de problemas fundamentais relacionados linguísticos que nos permitem identificar que função da linguagem
à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e em destaque? Explique.
estéticos, à mente e à linguagem. Filósofo é um indivíduo que
04 “Lutar com palavras / é a luta mais vã / entanto lutamos /
busca o conhecimento de si mesmo, sem uma visão pragmática, mal rompe a manhã”. Os versos citados pertencem ao poema
movido pela curiosidade e sobre os fundamentos da realidade. “O lutador”, de Carlos Drummond de Andrade, e propõem uma
Além do desenvolvimento da filosofia como uma disciplina, a reflexão sobre a dificuldade da carpintaria poética à qual o poeta
filosofia é intrínseca à condição humana, não é um conhecimento, é imposto diariamente. Ao refletir sobre o seu exercício com as
mas uma atitude natural do homem em relação ao universo e seu palavras, o eu lírico chama-nos a atenção para qual função da
próprio ser. A filosofia foca questões da existência humana, mas linguagem? Explique.
diferentemente da religião, não é baseada na revelação divina ou na
05 Sistemas de comunicação distintos tendem a aplicar recursos
fé, e sim na razão. Dessa forma, a filosofia pode ser definida como diferentes de linguagem, porém, isso não constitui uma regra:
a análise racional do significado da existência humana, individual não são poucas as vezes que podemos encontrar uma mescla
e coletivamente, com base na compreensão do ser. desses mesmos recursos em apenas um determinado sistema
comunicativo. Imaginemos um outdoor contendo uma campanha
Disponível em: <www.significados.com.br>. Acesso em: 2 ago. 2015.
publicitária, tentando nos convencer de aproveitar a promoção, em
um supermercado, e, simultaneamente, informando-nos sobre os
produtos e preços em destaque. Nesse exemplo, quais são as funções
da linguagem presentes?
Funções da linguagem LITERATURA 53
Módulo 3 1ª Série

02

01
Sentimental
Ponho-me a escrever teu nome com
letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
ESTE É O LECO ESTE É O JOÃO
e debruçados na mesa todos contemplam
• Ele tem 3 refeições diárias;
esse romântico trabalho. • tem consultas regulares
para cuidar da sua saúde;
Desgraçadamente falta uma letra, • Ele tem 4 anos de idade.
• tem carinho;
uma letra somente • tem alguém que se
preocupa com ele.
para acabar teu nome! Apadrinhe. Igual ao João, milhares de crianças também precisam de um melhor
amigo. Seja o melhor amigo de uma criança.
— Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Anúncio assinado pelo Fundo Cristão para Crianças CCF-Brasil.
Revista IstoÉ. São Paulo: Três, ano 32, no 2079, 16 set. 2009.
Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências este cartaz amarelo: Pela forma como as informações estão organizadas, observa-se que,
nessa peça publicitária, predominantemente, busca-se:
“Neste país é proibido sonhar.”
(A) conseguir a adesão do leitor à causa anunciada.
ANDRADE, C. D. Seleta em Prosa e Verso. Rio de Janeiro: Record, 1995.
(B) reforçar o canal de comunicação com o interlocutor.
(C) divulgar informações a respeito de um dado assunto.
Com base na leitura do poema, a respeito do uso e da predomi-
(D) enfatizar os sentimentos e as impressões do próprio enunciador.
nância das funções da linguagem no texto de Drummond, pode-se
(E) ressaltar os elementos estéticos, em detrimento do conteúdo
afirmar que:
veiculado.
(A) por meio dos versos “Ponho-me a escrever teu nome”(v.1) e
03
“esse romântico trabalho” (v.5), o poeta faz referências ao seu
próprio ofício: o gesto de escrever poemas líricos. Canção Amiga
(B) a linguagem essencialmente poética que constitui os versos Eu preparo uma canção,
“No prato, a sopa esfria, cheia de escamas e debruçados na Em que minha mãe se reconheça
mesa todos contemplam” (v.3 e 4) confere ao poema uma
Todas as mães se reconheçam
atmosfera irreal e impede o leitor de reconhecer no texto dados
constitutivos de uma cena realista. E que fale como dois olhos.
(C) na primeira estrofe, o poeta constrói uma linguagem centrada [...]
na amada, receptora da mensagem, mas, na segunda, ele deixa Aprendi novas palavras
de se dirigir a ela e passa a exprimir o que sente. E tornei outras mais belas.
(D) em “Eu estava sonhando...” (v. 10), o poeta demonstra que está
Eu preparo uma canção
mais preocupado em responder à pergunta feita anteriormente
e, assim, dar continuidade ao diálogo com seus interlocutores Que faça acordar os homens
do que em expressar algo sobre si mesmo. E adormecer as crianças.
(E) no verso “Neste país é proibido sonhar.” (v. 12), o poeta
abandona a linguagem poética para fazer uso da função ANDRADE, C. D. Novos poemas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948.

referencial, informando sobre o conteúdo do “cartaz amarelo” A linguagem do fragmento acima foi empregada pelo autor com o
(v.11) presente no local. objetivo principal de:

(A) transmitir informações e fazer referência a acontecimentos


observados no mundo exterior.
(B) envolver, persuadir o interlocutor, nesse caso, o leitor, em um
forte apelo à sua sensibilidade.
(C) realçar os sentimentos do eu lírico, suas sensações, reflexões e
opiniões frente ao mundo real.
(D) destacar o processo de construção de seu poema, ao falar sobre
o papel da própria linguagem e do poeta.
(E) manter eficiente o contato comunicativo entre o emissor da
mensagem, de um lado, e o receptor, de outro.
54 LITERATURA
1ª Série Módulo 3

04 (D) na literatura, quando o escritor se vale das palavras para expor


Em uma famosa discussão entre profissionais das ciências procedimentos construtivos do discurso.
biológicas, em 1959, C. P. Snow lançou uma frase definitiva: “Não (E) nos manuais de instrução, quando se organiza com clareza uma
determinada sequência de operações.
sei como era a vida antes do clorofórmio”. De modo parecido, hoje
podemos dizer que não sabemos como era a vida antes do compu-
tador. Hoje não é mais possível visualizar um biólogo em atividade
com apenas um microscópio diante de si; todos trabalham com o
auxílio de computadores. Lembramo-nos, obviamente, como era Para responder às questões seguintes, leia os textos a seguir:
a vida sem computador pessoal. Mas não sabemos como ela seria
se ele não tivesse sido inventado. Psicografia
PIZA, D. “Como era a vida antes do computador?” OceanAir em Revista no 1, 2007 (adaptado). Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
Nesse texto, a função da linguagem predominante é: cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
(A) emotiva, porque o texto é escrito na primeira pessoa do plural. da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
(B) referencial, porque o texto trata das ciências biológicas, em que
na vida) e demito o verso como quem acena
elementos como o clorofórmio e o computador impulsionaram
o fazer científico. e vivo como quem despede a raiva de ter visto
Ana Cristina Cesar
(C) metalinguística, porque há uma analogia entre dois mundos
distintos: o das ciências biológicas e o da tecnologia.
(D) poética, porque o autor do texto tenta convencer seu leitor de Autopsicografia
que o clorofórmio é tão importante para as ciências médicas O poeta é um fingidor.
quanto o computador para as exatas. Finge tão completamente
(E) apelativa, porque, mesmo sem ser uma propaganda, o redator Que chega a fingir que é dor
está tentando convencer o leitor de que é impossível trabalhar A dor que deveras sente.
sem computador, atualmente.
E os que leem o que escreve,
05 Observe, abaixo, esta gravura de Escher: Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só as que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa

Vocabulário:
comboio: trem de ferro.
calhas de roda: trilhos sobre os quais corre o trem de ferro.

Compare os poemas de Fernando Pessoa e de Ana Cristina Cesar


e responda:

01 Por que se pode dizer que em ambos os poemas está presente


a função metalinguística?

02 Explique a ambiguidade presente no poema de Fernando


Pessoa, revelada pelo título e pelo adjetivo fingidor, em contraste
Na linguagem verbal, exemplos de aproveitamento de recursos equi- com o poema de Ana Cristina Cesar.
valentes aos da gravura de Escher encontram-se, com frequência:

(A) nos jornais, quando o repórter registra uma ocorrência que lhe
parece extremamente intrigante.
(B) nos textos publicitários, quando se comparam dois produtos
que têm a mesma utilidade.
(C) na prosa científica, quando o autor descreve com isenção e
distanciamento a experiência de que trata.
LITERATURA 55

Módulo 4 1ª Série

A arte literária e suas funções

Você acharia um absurdo alguém ser condenado


à prisão por 5 anos por ter roubado um pão?
Por mais estranho que possa nos parecer, aconteceu no destino
do personagem Jean Valjean no célebre livro francês Os Miseráveis,
de Victor Hugo, publicado no século XIX.
Essa narrativa se passa em plena Revolução de Julho, entre dois
grandes momentos históricos: a Batalha de Waterloo e os motins de
junho de 1832. Subjugado e condenado a permanecer em péssimas
situações, Jean e as demais personagens contribuem para que o
livro seja mais do que um entretenimento, mas um testemunho

©iStockphoto.com/helenecanada
histórico da miséria desse século, além de nos levantar reflexões
importantes sobre as mais diversas questões, como a noção de
justiça, por exemplo. Os Miseráveis, um sucesso até os dias atuais,
é um excelente exemplo de como a Literatura pode extrapolar os
limites de uma simples leitura.
Neste módulo, estudaremos justamente isso: que aspectos fazem Objetivos:
da Literatura uma manifestação artística única, bem como suas C8 – Iniciar o estudo específico da arte literária;
diversas funções, que vão bem além do senso comum. – entender o que é literatura e suas funções.

1. O que é a Literatura?

©iStockphoto.com/Christin Gasner
Mais do que somente uma disciplina, a Literatura é, sobretudo,
uma paixão. Ao entrar em contato com ela, deve-se permitir ser
tocado pelos textos, pelo modo como eles brincam com as palavras,
criando-as e recriando-as; por sua capacidade de, sendo represen-
tação da realidade, transpor a vida para suas páginas, tirando de
uma posição de inércia e levando a importantes reflexões.
Quando movidas para o texto literário, situações que seriam
vistas e vividas de modo automatizado tomam, com a ajuda da
linguagem artística, outras proporções: tornam-se grandiosas,
intensas, por vezes emocionantes, por vezes incômodas. Muito além
disso, a Literatura – diferentemente dos textos não literários, cujos
objetivos maiores são noticiar, convencer ou explicar – permite
vivenciar experiências que jamais seriam proporcionadas pela Ao fazer essa viagem, a pessoa conhece e lança um olhar
vida real. É, portanto, um caminho com infinitas possibilidades. crítico ao passado, o que é uma boa forma de lidar com o presente,
compreendendo-o e evitando que velhos erros sejam cometidos.
Por meio da Literatura, são acessadas informações de muitos
Certamente, a leitura de um poema como “Navio negreiro”, de
outros campos do saber. Por exemplo, o livro Os Sertões, de
Castro Alves, que denuncia a forma como eram trazidos, para o
Euclides da Cunha, em que o autor retrata a Guerra de Canudos,
Brasil, os escravos africanos, reforça a convicção de que a escravidão
confronto que aconteceu no interior da Bahia, nos anos de 1896
é uma prática social que deve ser sempre combatida.
e 1897. O livro é escrito em três partes: “A terra”, “O homem” e “A
luta”. Então, além de seu valor artístico, Os Sertões é uma obra que Além disso, os textos literários estarão sempre abertos a
reúne saberes geográficos, históricos e antropológicos. novas leituras, a novas conexões com aspectos contemporâneos.
É o que permite que obras sejam revisitadas por novos atores sociais.
A Literatura é, também, uma forma de transportar as pessoas
Dessa forma, aparecem perguntas que antes não haviam sido feitas
para outros lugares e épocas. Há a possibilidade de conhecer outras
e, consequentemente, serão alcançadas novas respostas. Isso é o que
culturas, outros povos e grupos sociais, tendo acesso, por meio do
faz, por exemplo, grupos feministas considerarem a obra Madame
texto, a seus costumes, valores, preconceitos e padrões de beleza.
56 LITERATURA
1ª Série Módulo 4

Bovary, de Flaubert – cuja personagem principal, em pleno século Leia o poema a seguir, de Manuel Bandeira:
XIX, é uma mulher adúltera – uma importante fonte de debate
sobre a imagem social da mulher. Nova Poética
Portanto, não há prazo de validade para a literatura: Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
pode-se ler a Ilíada, que é uma obra da Antiguidade Clássica Poeta sórdido:
e, ainda assim, ela nos apresentará questões atuais. Grandes Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
autores, como Shakespeare ou Machado de Assis, não “saem Vai um sujeito.
de moda”, não são substituídos de uma hora para outra por
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem
novos autores. Eles permanecem inseridos na tradição literária
engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-
e continuam vivos por meio de seus leitores e de outros autores.
A literatura estará sempre disposta a falar e propor reflexões sobre -lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
questões relevantes. Cabe a cada pessoa dar uma chance a ela. É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:


Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
No Brasil, grupos de escritores têm buscado novas formas
Sei que a poesia é também orvalho.
de produzir Literatura. Eles se apoiam em novas ferramentas
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfa, as virgens
trazidas pelo avanço da tecnologia. Diferentemente de uma
Literatura impressa ou mesmo digitalizada, feita para ser lida cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
em tablets, por exemplo, eles propõem a substituição do livro BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

tradicional por uma nova experiência de leitura, a partir de um


novo tipo de texto e de autor. É o que podemos observar na No texto, o eu lírico – ou seja, a voz que se expressa no
notícia a seguir, cujo foco é o “Movimento Literatura Digital”: poema – propõe uma reflexão sobre o fazer poético a partir da
comparação com uma cena cotidiana. Há, no poema, um possível
Por uma Literatura digital incidente ocorrido em uma rua: um homem, que vestia uma roupa
Movimento gaúcho reúne autores e leitores em Porto Alegre impecavelmente branca, vê-se, subitamente, sujo de lama. Num
primeiro momento, ao dizer que o poema deve ser como a mancha
Um grupo de escritores gaúchos lança, no dia 17 de abril, de lama naquele tecido, a revelação parece chocar. O que de fato o
o Movimento Literatura Digital, no Instituto Estadual do Livro eu poético estaria propondo com tal comparação?
do Rio Grande do Sul (Rua André Puente, 318, bairro Inde- Imagine-se nessa mesma situação. Após algumas horas se
pendência) em Porto Alegre. Voltado para o tipo de Literatura arrumando para uma festa, ao se aproximar do local pretendido,
feita, especialmente, para mídias digitais, impossível de ser um veículo passa por uma poça e o encharca por completo. O que
reproduzida em papel por utilizar ferramentas próprias das você faria? A resposta não vem de imediato. Um misto de sensações
novas tecnologias, como animações, multimídia e hipertexto, o e vontades o atravessaria. Você iria querer correr atrás do carro,
movimento defende que o avanço tecnológico não representa xingar o motorista, esconder-se em algum lugar para afastar a
ameaça à Literatura. Um dos princípios anunciados no manifesto vergonha ou até mesmo apenas sentar e chorar. O eu lírico constata:
(acessível no site) aponta a necessidade de autores e leitores serem “É a vida”, referindo-se tanto à nódoa de lama quanto ao terno de
apresentados à Literatura digital como um novo espaço para a brim branco. Em suma, a vida é feita de contrastes: brancura do
produção literária, considerando as características próprias do brim versus sujeira da lama.
meio e a importância do papel social da Literatura. Na estrofe seguinte, quando o poema se volta para si mesmo, o eu
lírico afirma que o papel da poesia, e das manifestações artísticas em
©iStockphoto.com/WARRENGOLDSWAIN

geral, é desestabilizar a previsibilidade do cotidiano. É preciso permitir


a experiência de “se dar ao desespero”, ou seja, sentir, refletir sobre
os fenômenos da vida, de forma diferente da tradicional. O eu lírico
também não nega que a poesia
©iStockphoto.com/Neustockimages

é capaz de suscitar outros senti-


mentos, como sugere o verso
“Sei que a poesia é também
orvalho.”. Porém, o mesmo
opta por um ponto de vista
mais inovador, prenunciado
no título, e correspondente à
Disponível em: <publishnews.com.br>. Acesso em: 25 ago. 2013. modernidade de sua época.
A arte literária e suas funções LITERATURA 57
Módulo 4 1ª Série

Essa consciência do eu lírico é importante para constatar que “Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da
diferentes épocas, culturas, pontos de vista e manifestações artísticas equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar
fazem com que não haja apenas uma única e verdadeira concepção uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar
de qual é o papel da literatura. Dentre as várias funções possíveis, continuamente a consciência.”
serão destacadas aquelasconsideradas centrais. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Abril, 2010.

2.3 Função social


2. As funções da literatura Ao contribuir para o desenvolvimento intelectual e crítico,
a Literatura permite que a pessoa se posicione como indivíduo
2.1 Função epistemológica socialmente ativo. A denúncia social por ela realizada possibilita
uma maior consciência acerca dos fatos sociais e a intervenção em
A Literatura ajuda a aumentar o conhecimento de mundo das
realidades que precisam ser modificadas.
pessoas. Como visto, por meio dela é possível ter acesso a outras
culturas, a outras épocas e lugares. Com isso, o horizonte de: cada Repare como a função social está presente no fragmento a
leitor amplia-se: não só é possível ter contato com o que é familiar, seguir, do livro Vidas secas, de Graciliano Ramos. A obra conta a
mas também com elementos que não estão ao alcance. história de Fabiano e sua família, que tentam sobreviver às dificul-
dades advindas não só da seca do interior do Nordeste brasileiro,
O livro Comer, rezar e amar, de Elizabeth Gilbert, adaptado para
mas também dos poderosos que com ela lucram. O trecho abaixo
o cinema, é um bom exemplo disso. Por meio dele, apresenta-se
denuncia a situação de escassez habitual em que vive Fabiano, e
a história de Elizabeth, que, após pedir o divórcio, enfrentar uma
mostra os impostos abusivos que lhe são cobrados.
depressão e uma nova decepção amorosa, resolve pedir demissão
e embarcar em uma viagem de um ano na qual visitaria três países: “Recordou-se do que lhe sucedera anos atrás, antes da seca,
Itália, Índia e Indonésia. Ao ler o livro, aprende-se um pouco mais longe. Num dia de apuro recorrera ao porco magro que não queria
sobre esses lugares e melhor sobre sua cultura. Logo, quem o lê, engordar no chiqueiro e estava reservado às despesas do Natal:
aumenta seu conhecimento de mundo. matara-o antes de tempo e fora vendê- -lo na cidade. Mas o cobrador
da prefeitura chegara com o recibo e atrapalhara-o. Fabiano fingira-
-se desentendido: não compreendia nada, era bruto. Como o outro
Disponível em: <viagem.uol.com.br>.

lhe explicasse que, para vender o porco, devia pagar imposto, tentara
convencê-lo de que ali não havia porco, havia quartos de porco,
pedaços de carne. O agente se aborrecera, insultara-o e Fabiano se
encolhera. Bem, bem. Deus o livrasse de história com o governo.
Julgava que podia dispor dos seus troços. Não entendia de imposto.
– Um bruto, está percebendo?
(...)
Despedira-se, metera a carne no saco e fora vendê-la noutra
rua, escondido. Mas, atracado pelo cobrador, gemera no imposto
e na multa. Daquele dia em diante não criara mais porcos. Era
perigoso criá-los.”
2.2 Função psicológica RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 120a ed. Rio de Janeiro: Record, 2013.

Por meio da Literatura, além de aprimorar o sobre o mundo,


©iStockphoto.com/NK SUTTLE

também aprimora conhecimento sobre o homem. Ela possibilita


investigar a sua natureza, descobrir sensações e compreender
diferenças.
Observe como Brás Cubas, narrador do romance Memórias
Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, faz uma interessante
observação sobre a natureza humana ao descobrir a “lei da equiva-
lência das janelas”. A descoberta aconteceu depois que ele devolveu
uma moeda de ouro que encontrara, para aliviar sua consciência
por ter valsado e flertado com uma mulher casada:
58 LITERATURA
1ª Série Módulo 4

2.4 Função cultural


A literatura é, também, meio de construir e reforçar a identidade
nacional de um povo. Por meio dela, é possível se reconhecer e se 01 Sobre a literatura é correto dizer que:
identificar como integrantes de determinada nação ou grupo social.
Pode-se, também, ter acesso aos elementos que caracterizam e (A) se trata de uma representação simbólica do mundo.
individualizam pessoas de outras sociedades. (B) é um retrato fiel da realidade.
(C) mostra exatamente como as coisas são.
O poema a seguir, de Gonçalves Dias, é um dos mais conhecidos (D) se baseia somente em fatos inventados.
da literatura brasileira. Ele é de um período literário conhecido (E) se apoia na repetição de temas e na restrição de seu uso pelas
como Romantismo, mais especificamente de sua primeira fase, cuja classes dominantes.
principal preocupação era a construção de uma identidade nacional.
Observe como há, nele, um nítido instinto de nacionalidade, fator 02 Podemos dizer que o autor, por meio da Literatura:
importante para a criação de identidade:
(A) promove a alienação.
(B) desenvolve principalmente o pensamento científico.
Canção do exílio (C) estimula a imaginação e a criatividade.
(D) potencializa a insensibilidade humana.
Minha terra tem palmeiras, (E) limita a percepção do homem.
Onde canta o Sabiá;
Texto para as questões 03 e 04.
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá. A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é
a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida
Nosso céu tem mais estrelas, através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais
Nossas várzeas têm mais flores, ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida,
Nossos bosques têm mais vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de
Nossa vida mais amores. onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam
a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação
DIAS, Gonçalves. Canção fo exílio. São Paulo: Abril Educação, 1982.
do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos
naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social.
Vale atentar para o fato de que o poema foi feito no exílio. O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que
Logo, para se referir ao Brasil, o eu lírico utiliza o advérbio “lá”. não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades fatuais.
Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade
concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um
Catarse sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das
coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato
Na Poética, o filósofo grego Aristóteles utiliza o nome
vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgota o quadro.
“catarse” para se referir a um dos efeitos provocados pela
tragédia, que era uma peça teatral focada em ações humanas A Literatura é, assim, a vida, parte da vida, não se admitindo
transgressoras da ordem no contexto familiar ou social. possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias,
Segundo ele, as tragédias provocavam, na plateia, sentimentos tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns
como terror e piedade, promovendo a purificação dessas a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma
emoções. Essa purificação seria justamente a catarse. condição humana.

Hoje em dia, quando falamos da função catártica da COUTINHO, Afrânio. Notas de teoria literária. 2ª ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
literatura, estamos nos referindo à identificação que o leitor
pode ter com o texto, geralmente promovida pela aproximação 03 Com base no texto, pode-se afirmar que a Literatura é somente
entre ele e um personagem ou mesmo entre ele e uma situação uma imitação da realidade? Justifique.
trazida pela obra. Essa identificação faz com que o leitor nela se
projete, libertando antigas e novas emoções e possibilitando a 04 Retire do texto de Afrânio Coutinho o período que evidencia
construção de um novo eu, com novas ideias, novas maneiras a independência da Literatura em relação à realidade que a cerca.
e novas formas de ver o mundo.
A arte literária e suas funções LITERATURA 59
Módulo 4 1ª Série

05 Correlacione as funções da Literatura com seus devidos 03 Em algumas obras literárias, a estruturação do texto se faz com
objetivos: períodos simples, curtos, sem recorrência a estruturas oracionais
subordinadas, como os seguintes:
I. Função social ( ) Conhecimento de mundo.
Ninguém O Haiti é aqui
II. Função hedonística ( ) Busca pelo prazer.
Ninguém é cidadão O Haiti não é aqui
III. Função estética ( ) Cuidado com a forma.
IV. Função psicológica ( ) Conhecimento de si e do No exemplo a seguir, colhido em chat na internet, envolvendo vários
outro. usuários, pode-se dizer que ocorre, igualmente, um procedimento
“econômico” de linguagem.
V. Função epistemológica ( ) Denúncia social.

<fabricio_TF JB> ALGUMA GAROTA ENTRE 13 E 20 ANOS,


ME MANDE UMA MENSAGEM POR FAVOR...
***{_deby_} has quit IRC (Quit:)
Texto para as questões 01 e 02:
<O-amAdo> alguma mulher afim de ver conversar?pvt me
Açúcar ***||_ZE_CARIOCA_|| has joined #brasil
O branco açúcar que adoçará meu café ***Impulso_has joined #brasil
Nesta manhã de Ipanema <^^A_BRUXA^^> xauzinhos
Não foi produzido por mim
<_|MARCELINHO|_> alguma gatinha quer tc
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
[...] ***Lissa_Rock has left #brasil
Em lugares distantes, ***pErIgOsO_RJ has joined #Brasil
Onde não há hospital, <[^Lindinha^]> ALGUÉM AI É DE XERÉM?
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos Em contextos de produção de língua escrita na obra literária e no
Plantaram e colheram a cana diálogo da internet, os procedimentos diferem porque:
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga (A) na linguagem literária, a “economia” linguística é quase sempre
um traço estilístico visando à expressividade. Na internet, a
E dura
economia deriva de um tipo de coesão textual, decorrente da
Produziram este açúcar
constituição de um novo meio de comunicação.
Branco e puro (B) na linguagem literária, a “economia” linguística também pode
Com que adoço meu café esta manhã representar a dificuldade expressional do narrador/autor.
Em Ipanema. Na internet, a presença de períodos simples e curtos busca a
agilidade em um sistema de comunicação lento.
GULLAR, F. Toda poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
(C) na linguagem literária, a “economia” pode representar uma
forma de imitação dos meios de comunicação de massa. Na
01 A Literatura brasileira desempenha papel importante ao suscitar internet, o diálogo se torna por vezes inviável pelo esgotamento
reflexão sobre desigualdades sociais. No fragmento, essa reflexão dos temas.
ocorre porque o eu lírico: (D) na linguagem literária, a “economia” caracteriza uma falha dos
procedimentos estéticos utilizados pelos poetas. Na internet,
(A) descreve as propriedades do açúcar. a sequência das falas se intercala de códigos indecifráveis por
(B) se revela mero consumidor de açúcar. usuários inoportunos.
(C) destaca o modo de produção do açúcar. (E) na linguagem literária, a extensão do período, notadamente
(D) exalta o trabalho dos cortadores de cana. subordinativo, ganha sempre status de estética bem-sucedida.
(E) explicita a exploração dos trabalhadores. Na internet, os diálogos são mais longos quando os temas
envolvem maior complexidade.
02 A antítese que configura uma imagem da divisão social do
trabalho na sociedade brasileira é expressa poeticamente na 04
oposição entre a doçura do branco açúcar e:
“Comenta-se, um pouco rápido demais, que a predileção que os
(A) o trabalho do dono da mercearia de onde veio o açúcar. leitores sentimos por um ou outro personagem vem da facilidade
(B) o beijo de moça, a água na pele e a flor que se dissolve na boca. com que nos identificamos com eles. Esta formulação exige algumas
(C) o trabalho do dono do engenho em Pernambuco, onde se pontuações: não é que nos identifiquemos com o personagem, mas
produz o açúcar. sim que este nos identifica, nos aclara e define frente a nós mesmos;
(D) a beleza dos extensos canaviais que nascem no regaço do vale. algo em nós se identifica com essa individualidade imaginária, algo
(E) o trabalho dos homens de vida amarga em usinas escuras
contraditório com outras ‘identificações semelhantes’, algo que de
60 LITERATURA
1ª Série Módulo 4

outro modo apenas em sonhos haveria logrado estatuto de natureza. 06


A paixão pela literatura é também uma maneira de reconhecer que Os poemas
cada um somos muitos, e que dessa raiz, oposta ao senso comum Os poemas são pássaros que chegam
em que vivemos, brota o prazer literário.” não se sabe de onde e pousam
Traduzido de: SAVATER, Fernando. Criaturas del aire. Barcelona: Ediciones Destino,1989. no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
Esse texto trata de um conceito importante na teoria da Literatura: o
conceito de catarse. De acordo com o autor, pode-se definir catarse como de um alçapão.
como o processo que afeta o leitor no sentido de: Eles não têm pouso
nem porto
(A) valorizar o imaginário.
(B) superar o senso comum. alimentam-se um instante em cada par de mãos
(C) construir a personalidade. e partem.
(D) liberar emoções reprimidas. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
05
que o alimento deles já estava em ti...
Um boi vê os homens
QUINTANA, Mário. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
“Eles não têm pouso / nem porto” (v. 7-8)
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres Os versos podem ser lidos como uma pressuposição do autor sobre
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, o texto literário.
até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam Essa pressuposição está ligada ao fato de que a obra literária, como
texto público, apresenta o seguinte traço:
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível (A) é aberta a várias leituras.
(B) provoca desejo de transformação.
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
(C) integra experiências de contestação.
e no rasto da tristeza chegam à crueldade. (D) expressa sentimentos contraditórios.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
01
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas, Poética
1
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
Que é Poesia?
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
uma ilha
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
cercada
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de palavras
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme por todos os lados
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água, 2
Que é o Poeta?
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.
um homem
ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1977.
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto
O poema de Drummond procura ver os seres humanos de um um homem
ponto de vista não humano. Se fizermos uma correlação entre a que tem fome
construção deste texto e a própria Literatura, podemos perceber como qualquer outro
na Literatura a capacidade fundamental de: homem

(A) espelhar a realidade do homem. Cassiano Ricardo

(B) deslocar a perspectiva do leitor. Em que o conceito de poesia, expresso no poema de Cassiano
(C) estabelecer uma negação do cotidiano. Ricardo, se identifica com o de Literatura?
(D) promover a ratificação do senso comum.
A arte literária e suas funções LITERATURA 61
Módulo 4 1ª Série

02 Leia com atenção os dois fragmentos a seguir, extraídos do Não faças poesia com o corpo,
poema “Procura da Poesia”, de Carlos Drummond de Andrade, esse excelente, completo e confortável corpo,
cujo título também indica seu tema. Compare-os e explique como
o tema é desenvolvido em cada um deles. tão infenso à efusão lírica.”

Texto I: Texto II:


“Não faças versos sobre acontecimentos. “Penetra surdamente no reino das palavras.
Não há criação nem morte perante a poesia. Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Diante dela, a vida é um sol estático, Estão paralisados, mas não há desespero,
não aquece nem ilumina. há calma e frescura na superfície inata.
As finalidades, os aniversários, os incidentes pessoais Ei-los, sós e mudos, em estado de dicionário.”
não contam.

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________
LITERATURA 62

Módulo 5 1ª Série

Intertextualidade

Você sabia que há trechos do Hino Nacional


Brasileiro inspirados em um texto que já tinha
sido escrito quase um século antes?
Nosso hino data do século XX, porém quando ouvimos e
cantamos “Do que a terra mais garrida / Teus risonhos, lindos
campos têm mais flores / Nossos bosques têm mais vida / Nossa
vida no teu seio mais amores” podemos não reparar, mas o poeta

©iStockphoto.com/NatanaelGinting
Gonçalves Dias já havia dito que “Nosso céu tem mais estrelas /
Nossas várzeas têm mais flores / Nossos bosques têm mais vida
/ Nossa vida mais amores” em 1832. Ao se apropriar da ideia
para os versos, além de contribuir para a expressividade do texto,
ainda é feita uma homenagem a um dos maiores poemas de nossa
Literatura, a “Canção do Exílio”.
Objetivos:
O que ocorreu nesse exemplo não é raridade nas mais diversas
– Entender o significado de intertextualidade;
manifestações artísticas: a referência a outros textos dentro de
C6 – conhecer os principais tipos de intertextualidade;
um texto. A isso damos o nome de intertextualidade, e é o que – conseguir identificar esses recursos em diferentes textos e
estudaremos neste módulo. linguagens.

1. O que é intertextualidade? 2. Citação


Por mais desconexas que, em um primeiro momento, aparentem A citação consiste na transcrição de ideias contidas anterior-
ser as inúmeras produções humanas, existem entre elas, na verdade, mente em textos de outros autores. Para melhor evidenciar esse
uma permanente inter-relação. Para entender isso, basta imaginar a processo, as aspas costumam ser empregadas.
sociedade como uma grande rede intertextual, em que são cruzados No fragmento abaixo, retirado da música “O que eu só vejo em
trabalhos de indivíduos e grupos sociais por meio de bens culturais. você”, de Nando Reis, há a citação de um trecho da música “Tempos
Dessa forma, a intertextualidade deve ser entendida como Modernos”, de Lulu Santos.
a referência que um texto faz a outro de forma explícita ou
implícita. Dentro dessa rede sociocultural na qual as pessoas estão Tempos modernos
imersas, encontra-se a Literatura, espaço privilegiado para a relação Hoje o tempo voa, amor
entre textos. Escorre pelas mãos
Um texto pode se relacionar com outro de diferentes formas. Mesmo sem se sentir
Destaca-se, a seguir, os quatro principais tipos de intertextualidade. E não há tempo
Que volte, amor
©iStockphoto.com/bluecinema

Vamos viver tudo


Que há pra viver
Vamos nos permitir
Lulu Santos. Disponível em: <letras.mus.br>.

O que eu só vejo em você


Porque não pode ser assim
Não pode ser assim
Por que você não chega perto de mim?

Não há tempo que volte, amor


Como diz Lulu na canção
Não há tempo que falte o amor
Pode ver na escuridão
Nando Reis. Disponível em: <letras.mus.br>.
Intertextualidade LITERATURA 63
Módulo 5 1ª Série

3. Paráfrase 4. Paródia
A paráfrase consiste na reprodução da ideia central de A paródia consiste na descons-

Disponível em: <www.cineclick.com.br>.


determinado texto em outro, utilizando-se, porém, de estruturas trução do sentido original de um
diferentes. Logo, há a manutenção do sentido, mas não a cópia texto em outro. Ela se estabelece
literal das palavras. Simplificando: é como dizer a mesma coisa, por meio de um discurso crítico,
mas com outros termos. irônico, distorcido ou invertido
Contudo, é importante salientar que a paráfrase não constitui em relação às ideias contidas no
plágio, já que, quando utilizada, é explícita não a vontade de roubar texto com o qual dialoga.
ideias, mas a de dialogar com o texto retomado. A franquia Todo mundo
A seguir, há um exemplo de paráfrase. Nos dois textos, o que está em pânico é um bom exemplo
em evidência é a dificuldade de se estabelecer uma correspondência de paródia, já que se utiliza de
amorosa, fato evidenciado pelo uso da palavra “quadrilha” – dança elementos de filmes de terror para,
de pares típica das festas juninas brasileiras – nos títulos. Repare em vez de assustar, provocar risos.
como o poema de Maíra Ferreira dialoga com o de Drummond,
mantendo seu sentido, mas o adaptando à realidade virtual do
mundo contemporâneo.
A intertextualidade é um recurso extremamente presente
em nosso dia a dia, podendo ser facilmente identificada no
Quadrilha sistema de comunicação publicitário. Para conferir maior
João amava Teresa que amava Raimundo expressividade à sua mensagem e, consequentemente, atingir
que amava Maria que amava um público maior, ele estabelece inúmeros diálogos com textos
do mesmo e de outros gêneros.
Joaquim que amava Lili
Na primeira propaganda apresentada a seguir, de um
que não amava ninguém.
famoso plano de saúde, o objetivo principal é convencer o
João foi para os Estados Unidos, leitor de que, dentre os planos de saúde que o dinheiro pode
Teresa para o convento, pagar, ele é a melhor opção. O que está em foco, portanto, é um
Raimundo morreu de desastre, serviço que visa prolongar a vida por meio de uma assistência
médica de qualidade.
Maria ficou para tia,
Na outra propaganda, de uma seguradora, percebemos o
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
diálogo com parte do slogan da propaganda anterior. Porém, em
que não tinha entrado na história.
vez de exaltar a vida, sugere-se a possibilidade da morte, visto
ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimentos do Mundo. que o objetivo do anúncio é vender planos funerários. Com
Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 57.
isso, há a inversão do sentido original da propaganda anterior.

Disponível em: <idsonora.blogspot.com.br>.


Quadrilha contemporânea
João cutucava Teresa que chamava no chat o
Raimundo que curtia
todas as postagens de Maria que stalkeava
Joaquim que enchia a inbox de Lili
que não usava o Facebook.

João desativou o perfil,


Disponível em: <vitaminapublicitaria.com.br>.

Teresa aderiu ao Candy Crush


Raimundo morreu de overdose
Maria voltou para o Orkut
Joaquim suicidou-se e Lili casou
com Ana Maria Vieira de Araújo Sousa
que não tinha computador.
Maíra Ferreira
64 LITERATURA
1ª Série Módulo 5

paródias, havia perdido parte de seu apelo junto ao público.


Os Mercenários apresenta, além do caráter nostálgico, “ingre-
4. Referência ou alusão dientes” suplementares aos filmes do passado.
A referência ou alusão consiste na menção, direta ou indireta,
que um texto faz a outro por meio de nomes, personagens,

Disponível em: <omelete.uol.com.br>.


lugares, situações, etc. Trata-se de um tipo de intertextualidade
mais discreto, mas que, como os outros, coloca obras diferentes
em diálogo.
Embora sejam tratadas, na maioria das vezes, como sinônimos,
alguns autores consideram a referência uma menção explícita, e a
alusão, uma menção fraca.
A música abaixo, de Adriana Calcanhotto, faz alusão a
dois livros de importantes autores da literatura brasileira:
Dentro da noite veloz, de Ferreira Gullar, e A cinza das horas, de
Manuel Bandeira.
Vambora
Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz...

Ainda tem o seu perfume


Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas...
Adriana Calcanhotto. Disponível em: <letras.mus.br>.

Além dos quatro tipos vistos anteriormente, podemos


identificar dois outros modos de se fazer intertextualidade, que 01 Correlacione os tipos de intertextualidade às suas respectivas
não são tão comuns em nosso dia a dia. Um deles é a epígrafe, definições:
muito utilizada no meio acadêmico. A epígrafe é a reprodução
de um pensamento ou reflexão proferida por um escritor, (1) Citação ( ) Manutenção do sentido do texto
filósofo, teórico, etc., geralmente de grande notoriedade. É original, mas mudança de estrutura.
sempre empregada no início de outro texto que a ela de alguma (2) Paráfrase ( ) Retomada da voz original do texto,
forma se relaciona. mas mudança de sentido.
(3) Paródia ( ) Transcrição do texto de outro autor,
Outro tipo de intertextualidade possível é o pastiche.
geralmente marcada pelas aspas.
Diferentemente da paródia, que, impulsionada pelo discurso
satírico, critica a saturação de determinado gênero, o pastiche (4) Alusão ( ) Referência direta ou indireta a
elementos de outros textos.
recorre, com seriedade, ao gênero já saturado, conferindo-lhe
frescor e novidade por meio da utilização ostensiva de seus 02 Em transmissão de um jornal noturno televisivo (RedeTV,
elementos marcantes. Um bom exemplo de pastiche é o filme 7/10/2008), um jornalista afirmou: “Não há uma só medida que o
Os Mercenários. Nele, o seu realizador, Sylvester Stallone, governo possa tomar.”
resgata um gênero dos anos 1980 – do qual, inclusive, foi um
dos grandes ícones –, que já estava demasiadamente desgas- Considerando que há duas possibilidades de interpretação do
tado. O gênero em questão é o filme de ação, que, após inúmeras enunciado acima, construa uma paráfrase para cada sentido possível
de modo a explicitá-los.
Intertextualidade LITERATURA 65
Módulo 5 1ª Série

Texto para as questões 03, 04 e 05. Texto para as questões 02 e 03.

Reprodução: Vestibular UFF


Disponível em: <edsantana.files.wordpress.com>.

02 Para que um texto seja plenamente compreendido é indispensável


que haja, entre emissor e receptor, conhecimento partilhado, ou
seja, informações comuns a esses dois elementos da comunicação.
Comente essa afirmativa utilizando elementos da propaganda acima.

03 O anúncio, em seu texto verbal, explora a frase “Quem não vier


para a Hortifruti vai pagar caro” para convencer o receptor. Boa
parte da expressividade da frase deve-se ao duplo sentido que dela
se pode depreender. Explique.

04

03 Identifique o texto que circula em nossa cultura e que serve de Língua


base à intertextualidade com a charge. Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
04 Nomeie dois elementos da linguagem não verbal que sejam
exemplos dessa intertextualidade. Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
05 Retire dois elementos da linguagem verbal que também sejam
exemplos dessa intertextualidade. A criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
01 O jornal carioca Meia hora é famoso pelo tratamento jocoso
que confere a algumas notícias. Abaixo, está reproduzida a capa Da rosa no Rosa
cuja principal manchete noticia a morte do presidente venezuelano E sei que a poesia está para a prosa
Hugo Chávez. Nela, o efeito cômico está relacionado a dois tipos
de intertextualidade. Explique-as. Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixa os portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala, Mangueira!
Flor do Lácio, Sambódromo
Lusamérica, latim em pó.
O que quer
O que pode
Esta língua?
(...)
Caetano Veloso

No texto, Caetano Veloso fala de “paródias”. Em qual das alternativas


abaixo o segundo texto não parodia o primeiro?
66 LITERATURA
1ª Série Módulo 5

(A) Penso, logo existo. / Penso, logo desisto. Entrevistado – De fato, o que parece ser antagônico, como você
(B) Quem vê cara não vê coração. / Quem vê cara não vê aids. bem observou, no fundo é complementar. Em função do crescente
(C) Nunca deixe para amanhã o que pode fazer hoje. / Nunca deixe individualismo, queremos sempre descartar o que nos causa
para amanhã o que pode fazer depois de amanhã.
problema, o que nos entedia, o que é incapaz de despertar fortes
(D) Em terra de cego, quem tem um olho é rei. / Em terra de cego,
sensações ou grandes instantes de êxtase. É assim que estamos
quem tem um olho não abre cinema.
(E) Antes só do que mal acompanhado. / Antes mal acompanhado aprendendo a ser felizes, como, em épocas anteriores, aprendemos
do que só. a ser felizes de outras formas. No entanto, na raiz desse utilitarismo
tosco existe a promessa oculta de que, um dia, iremos encontrar
alguém que preencha todos esses requisitos, ou seja, alguém que,
de forma permanente, seja interessante, excitante, apaixonante,
tolerante. Ora, esse alguém, todos sabemos, não existe, exceto na
01 ficção de nossos ideais. Mas, embora todos saibam que esse alguém
Lavoisier não existe, ninguém pensa em desistir de procurar, porque, sem
ele, a vida perde todo atrativo. Eis o impasse. Jamais encontramos
Na poesia,
a figura ideal de pessoa perfeita para amar, mas não podemos
natureza variável
dispensar a ilusão porque não sabemos inventar outras formas de
das palavras,
satisfação pessoal, exceto a obsessão amorosa e sexual.
nada se perde
ou cria, No fundo, o triste resultado disso tudo é a descrença, a
tudo se transforma: amargura, o ressentimento, a inveja e a espera passiva e resignada
cada poema, do milagre amoroso – que quase nunca chega – ou da morte, que,
no seu perfil com certeza, chega! Isso, fique claro, não significa “condenar”
incerto ou “menosprezar” a emoção amorosa, o que seria uma tolice.
e calígrafo, Isso significa constatar que a via de satisfação amorosa atual
já sonha está condenada ao impasse, até que venhamos a inventar novos
outra forma. modos de amar. É porque fomos habituados a pensar que o “amor
é único, universal, e sempre o mesmo de hoje em dia” que não
O princípio enunciado por Lavoisier, na Química, diz que “na encontramos ânimo para imaginar novos modelos de realização
natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. amorosa. Ora, o que procurei mostrar no trabalho é que isso, em
absoluto, não é verdade. O romantismo amoroso é uma invenção
a. O que teria levado Carlos de Oliveira a dar a esse poema o título
cultural recente, recentíssima, na história da humanidade. Não
de “Lavoisier”?
temos por que imaginar que ele é a “última forma de amar” nem
b. Como podem ser interpretados seus versos finais (“cada poema
/ no seu perfil / incerto / e calígrafo, / já sonha / outra forma.”)? mesmo que seja a melhor.
Entrevista com Jurandir Freire Costa. In: CARVALHO, J. M. de et alii. “Quatro autores em busca do
02 Brasil.” Entrevistas a José Geraldo Couto. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

Entrevista com Jurandir Freire Costa


No texto citado, o entrevistado expõe as ideias combinando
Entrevistador – Quando você fala do amor nos dias de hoje, declarações e opiniões suas e de outras pessoas. Enquanto
parece identificar dois problemas opostos e complementares: a) formula seu raciocínio, ele recorre a contrastes, contrapontos,
uma espécie de utilitarismo sexual, em que os indivíduos se servem ressalvas. Tomando por base o segundo parágrafo da resposta do
dos parceiros como quem consome produtos; b) o mito do amor entrevistado, transcreva dele um trecho que exemplifique a citação
romântico, que condena ao sofrimento as pessoas que se sentem de uma declaração ou opinião alheia e indique o recurso textual
que o caracteriza como citação.
incapazes de encontrar o parceiro ideal. Como essas duas distorções
se combinam?

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Você também pode gostar