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PAI CONTRA MÃE

OFICINA – CONTOS DE MACHADO DE


ASSIS
PANORAMA GERAL

 O conto “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, editado e publicado em 1906, no livro Relíquias da Casa
Velha, situado na fase “madura” do autor, de características marcadamente Realistas. Ambienta-se no Rio
de Janeiro do século XIX antes da abolição da escravatura, que serve de pano de fundo para a narrativa.
 O texto foi editado em 1906, fazendo parte da coletânea Relíquias de casa velha (Machado, nascido em
1839, faleceu dois anos depois dessa publicação, em 1908). Naquela data, comemoravam-se dezoito anos
que a escravatura fora oficialmente abolida no Brasil (1888). O conto parece uma “homenagem” ácida a
essa “maioridade” inconclusa e uma descrição impactante dos traços de sua permanência na atualidade das
relações sociais e nos discursos que perfazem nossa subjetividade. (PEREIRA, 2016)
 No conto, dois traços típicos de Machado de Assis ganham destaque: em primeiro lugar, a prática da ironia;
em segundo, a articulação entre enredo e as reflexões que ele aciona.
 O texto faz remete à época da escravidão.
 Machado explora como norte narrativo a miséria humana, através dos dramas paralelos de um pai contra
mãe, lutando por duas vidas.
ENREDO

 No século XIX, durante a escravidão, Cândido Neves não gosta de trabalhar e, por isso, não fica muito
tempo em emprego algum. Depois de tentar vários ofícios, ele assume a função de capturar escravos
fugidos. Cândido casa-se com Clara que era órfã e morava com a tia Mônica. O casal decide ter um filho, a
contragosto da tia. “Candinho – cedeu à pobreza quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha
um defeito grave este homem, não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade”.
 Durante a gravidez, a situação financeira da família vai piorando até que no nono mês de gravidez de Clara,
eles são despejados. Quando nasce o filho, tia Mônica insiste para que o menino seja entregue na “Roda dos
enjeitados” para ser adotado. Cândido e Clara sofrem muito, mas aceitam. No caminho para a Roda,
Cândido vê uma escrava fugida, captura a mulher e recebe uma gorda recompensa, podendo então manter
seu filho em casa.
 A escrava capturada estava grávida e, provavelmente, abortou com os castigos recebidos pelo seu dono
quando a recuperara. Assim, fica a amarga ironia de vida do filho de Candinho ter custado a vida do filho da
escrava. “Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração” (sensação de normalidade).
- A Roda dos Enjeitados, ou roda dos expostos, sempre esteve ligada às instituições caridosas (abadias,
mosteiros e irmandades beneficentes). Nela, eram deixadas crianças cujos pais por alguma razão não
as podiam criar.
- Formada por uma caixa dupla de formato cilíndrico, a roda foi adaptada no muro das instituições
caridosas. Com a janela aberta para o lado externo, um espaço dentro da caixa recebia a criança após
rodar o cilindro para o interior dos muros, desaparecendo assim a criança aos olhos externos; dentro
da edificação a criança era recolhida, cuidada e criada até se fazer independente.

Fonte: https://www.santacasasp.org.br/portal/site/quemsomos/museu/pub/10956/a-roda-dos-expostos-1825-1961
O término do uso da roda da Santa Casa de Misericórdia de
São Paulo se dá em 20 de dezembro de 1950, quando Maria
Assunta foi recebida e registrada em um livro com o número
de 4.580. Maria foi exposta na roda e as Irmãs de São José a
acolheram e levaram-na ao Asylo dos Expostos Sampaio
Vianna , fundado em 1896, e assim nomeado em homenagem
ao benemérito Irmão João Maurício de Sampaio Vianna.

Fonte: https://www.santacasasp.org.br/portal/site/quemsomos/museu/pub/10956/a-roda-
dos-expostos-1825-1961
ELEMENTOS DA NARRATIVA

 Narrado em terceira pessoa. Aproxima o leitor do tempo e do espaço através de relatos históricos
sobre os fatos que envolviam a escravidão.
 Os aspectos dos personagens beiram à miséria e à pobreza, com dificuldades muito grandes e
dependência. O pensamento predominante opera na lógica do “oprimido contra oprimido”, com
destaque para a “coisificação” do ser humano (escravo = mercadoria).
 Literatura de Proposta – Análise Social. A miséria torna o pobre inimigo de sua própria classe
(desumanização).
PERSONAGENS

 Arminda;
 Tia Mônica – viúva; abrigou e criou a sobrinha Clara, que consegue sustentar a família com seu
trabalho de costureira, vai assumindo papel preponderante na vida do casal. Consegue uma moradia
no momento em que são despejados e, com seu discurso da necessidade, vai realizando a ideia de
que a “roda dos enjeitados” poderia dar um futuro melhor para o recém-nascido;
 Clara - Distinção essa não revelada por sua personalidade que mesmo em meio à perda de seu filho,
não esboça nenhuma reação e é sempre submissa aos desmandos da tia;
 Cândido Neves – “pobre mas branquíssimo até no nome”, seu caráter mostra-se insensível ao aborto
da escrava, é extremamente desumano arrastando-a pelas ruas até a casa do seu senhor, pois o que
realmente importa para ele é conseguir alcançar o seu propósito, que é ficar com o seu filho. O
egoísmo é sua marca principal.
Cândido Neves é a versão urbana do capitão do mato, retrato de sua decadência trinta anos antes
da abolição (que aconteceu em 1888). No período relatado por Machado (década de 50 do século
19), os escravos alforriados (que conseguiam comprar ou obter sua liberdade) misturavam-se aos
nascidos "de ventre livre" (a lei do ventre livre decretou a libertação de todo filho de escrava a
partir dessa época), criando uma caótica convivência no cotidiano da cidade. Essa complexa
urbanidade e precária civilidade comparecem também em seu apelido: Candinho. Diminutivo que
caracteriza o tratamento dos filhos do Rio de Janeiro, capital do Império, ou mesmo da primeira
República. Forma de tratamento que se mantém vigente até hoje, mostrando e encobrindo toda a
complexidade de uma cordialidade. E evidencia um paradoxo: um sujeito Cândido que, por sua
candura, preguiça ou inércia, termina sendo quase um pária, num ofício violento por sua própria
natureza.

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da
força com que se mantém a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações
reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade
de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também,
ainda que por outra via [...].
“QUANDO O OUTRO NÃO É SEMELHANTE” – ANÁLISE
PSICANALÍTICA POR ROBSON DE FREITAS PEREIRA (2016)
 A possibilidade de leitura dos traços que constituem o campo do Outro para nossa subjetividade:
Isto se evidencia pela tensão à qual estamos submetidos quando somos obrigados/levados pelo autor a acompanhar a
trajetória de Candinho em busca do pagamento que permitirá sustentar o filho, mesmo à custa do aborto de uma
escrava fugida (“há crianças que não vingam”). A lógica dessa situação é implacável e nos deixa em dificuldades para
uma crítica moral, pois estamos em outro tempo, outros valores, e até mesmo para uma crítica ética. A escravidão
era condenável, os embates já apontavam para seu fim, mas havia uma ordem, um estatuto social que ainda
legitimava a condição escrava e essas profissões quase marginais. Em outras palavras, a condição biológica invocada
pela escrava para tentar manter sua liberdade é insuficiente para ser escutada pelo seu captor. “Estou grávida, meu
senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei sua escrava”.
Este discurso proferido por Arminda (a escrava fugitiva) não provoca uma identificação que pudesse levar Candinho a
não produzir seu ato. Cândido era pai, mas não era escravo. Sua afirmação como pai passava por capturar a escrava
fugida. Um escravo não é um semelhante, sua súplica não será escutada no mesmo registro. No máximo, uma
acusação: “[...] você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois?”; ou, quando leva o próprio filho
e a recompensa de cem mil réis para casa, uma frase apenas serve de autocomplacência: “[...] beijando o filho,
entre lágrimas verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto. – Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe
o coração”. (O aborto em questão aconteceu quando Cândido realizava a entrega de Arminda a seu proprietário.
Devido ao esforço, de tanto lutar, abortara.) (PEREIRA, 2016).

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