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Resenha de André Singer, Esquerda e Direita no Eleitorado Brasileiro: A

Identificação Ideológica nas Disputas Presidenciais de 1989 e 1994, São


Paulo, Edusp, 1999; publicada em Caderno de Resenhas (Folha de S. Paulo),
9/9/2000, p. 3, com o título “A Razão do Eleitor”

O VOTO E O “SENTIMENTO” IDEOLÓGICO

Fábio Wanderley Reis

Este volume de André Singer, fruto de tese de doutorado apresentada ao


Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo em 1998, é
um estudo de natureza empírica, tendo seu cerne no exame de dados coletados
por institutos como DataFolha e Ibope por ocasião das eleições presidenciais
de 1989 e 1994. A contribuição central que o livro pretende trazer é bem
simples e clara.

As pesquisas acadêmicas do processo eleitoral até aqui desenvolvidas


no Brasil tendiam ou a deixar de lado a variável correspondente ao contraste
entre esquerda e direita ou a considerá-la em termos das posições adotadas
pelos eleitores quanto a questões como intervencionismo estatal, nacionalismo
e outras normalmente associadas a ela. Já o estudo de Singer usa dados sobre a
maneira pela qual os próprios eleitores se situam em resposta a perguntas
diretas sobre a sua posição na escala que vai da esquerda à direita. O resultado
é que os dados mostram a existência de correlação entre a autocolocação como
esquerdistas ou direitistas por parte das pessoas entrevistadas e seu voto nas
eleições mencionadas. Assim, os votos em Lula tendem a concentrar-se entre
os que se definem como de esquerda, enquanto os votos em Collor e Fernando
Henrique Cardoso se concentram entre os que se definem como de direita ou
de centro.

A grande indagação é o significado ou alcance a atribuir a essa


verificação. A leitura que faz o próprio Singer de seus dados vai na direção de
destacar, como se resume na orelha do livro, que “a ideologia está muito mais
presente na decisão eleitoral no Brasil do que é habitual imaginar”. É
admissível, por certo, a sugestão de alguma “ideologização” crescente que
trazem outros aspectos dos dados, bem como a intensificação da nitidez do
confronto esquerda-direita como consequência da afirmação do PT no nível da
disputa presidencial e da introdução da polarização própria do segundo turno.
Matéria recente da Folha de S.Paulo (16 de julho passado) mostrava também

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que a distribuição de votos entre “esquerda” e “direita”, tal como os eleitores
revelam percebê-las em pesquisas eleitorais, aproxima-se das proporções de
deputados federais pertencentes aos partidos percebidos como situando-se em
cada categoria. Contudo, serão indícios como esse suficientes, em combinação
com as constatações de Singer, para considerar “ideológico” o eleitorado
brasileiro, ou ver a presença forte da ideologia no condicionamento da decisão
eleitoral?

Em pesquisas anteriores que trataram de utilizar a escala esquerda-


direita, a razão para deixá-la de lado foi a constatação de que a enorme
maioria dos eleitores brasileiros simplesmente não conhece o significado
dessas categorias. Em projeto que eu mesmo coordenei, por exemplo, dados
coletados em 1991/92 junto a uma amostra do eleitorado de Belo Horizonte e
a trabalhadores paulistas e mineiros mostram níveis de desconhecimento que
alcançam a faixa dos 90% ou mais. Diante da importância atribuída por Singer
à identificação com esquerda e direita, somos levados a pensar que seus dados
neguem ou corrijam, de alguma forma, essa constatação. Ao contrário, eles a
corroboram: Singer nos informa (com alguma demora: p. 142), referindo-se a
dados por ele utilizados, não só que mais de 60% dos entrevistados declaram
diretamente não saber o que as categorias significam ou dão respostas
inteiramente equivocadas à pergunta correspondente, mas também que outros
20% as assimilam a ser contra ou a favor do governo, resposta igualmente
errada que ele, com leniência, decide tratar como correta.

Ora, um pouco de sensibilidade metodológica desperta a atenção para


um problema evidente. Trata-se da possibilidade de que a correlação
observada entre a decisão de voto e a opção por esquerda ou direita (que não é
lá tão intensa, com os próprios dados de Singer mostrando que a preferência
ou identificação partidária é muito mais importante para o voto) não seja
senão a combinação de duas coisas: o fato de que a minoria que sabe o
significado das categorias e se identifica com uma ou outra vota de acordo
com sua identificação, o que é banal; e o fato de que aqueles eleitores que
ignoram o significado das categorias e se colocam às cegas numa ou noutra
têm uma chance razoável de estabelecer por acaso a correspondência “correta”
entre o voto e a autocolocação na escala esquerda-direita. Do ponto de vista da
manipulação analítica a ser feita dos dados, daí resulta uma recomendação: a
de tratar de observar a maneira como se comporta a correlação em questão
quando se controla ou mantém constante o conhecimento do eleitor sobre o
significado de esquerda e direita. Naturalmente, cabe esperar que, se
separarmos os que sabem o que essas categorias significam dos que não

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sabem, a correlação inicial do voto com a identificação esquerda-direita se
intensificará entre os que sabem, enquanto se reduzirá ou eventualmente
desaparecerá entre os que não sabem.

Singer prescinde dessa operação simples, abrindo mão de assim


esclarecer melhor, no plano do processamento dos próprios dados, o sentido
da correlação encontrada (apesar de que o livro contém, na seção 3.5,
tabulações e análises “trivariadas” ou tridimensionais a propósito de como se
combinam o efeito da “ideologia” e o do apoio ao Plano Real sobre o voto de
1994). Mas a operação seria crucial, já que o autor sustenta a posição sibilina
segundo a qual a correlação entre o voto e a “ideologia”, tomada esta última
em termos de adesão a “esquerda” ou “direita” em circunstâncias em que a
maior parte do eleitorado ignora o significado dessas categorias, indicaria a
existência de um “sentimento” ideológico de natureza “intuitiva”... A clara
implicação, não verificada e de plausibilidade duvidosa, é que, se excluída a
minoria informada, a correlação não seria afetada de maneira relevante,
continuando a ocorrer distribuição significativamente diferente da que
resultaria da mera correspondência casual entre voto e identificação
“ideológica”.

De acordo com Singer, sua interpretação enigmática teria respaldo em


certa perspectiva na literatura internacional relativamente recente sobre o
comportamento eleitoral. Com efeito, encontra-se nessa literatura a idéia do
papel de “imagens” mais ou menos difusas dos partidos na decisão dos
eleitores, além da velha idéia de Anthony Downs segundo a qual a ideologia
permite ao eleitor economizar na obtenção de informações (embora a idéia de
Downs não remeta por força à concepção do eleitor cognitivamente rústico e
ignorante, mas antes à daquele que se furta deliberadamente às complicações e
aos vaivéns das conjunturas mutáveis). Contudo, apesar das posições confusas
de autores em que Singer encontra apoio mais direto (como T. Levitin e W.
Miller em texto de 1979), os analistas mais sofisticados, como Giovanni
Sartori, não deixam de apontar enfaticamente a conexão dessas “imagens”
com elementos intelectuais e o caráter de síntese cognitiva da percepção de
questões complexas que elas podem adquirir.

Sartori é mal lido por Singer, que o invoca para assimilar (p. 37)
“identificação ideológica” com imagem e esta com a idéia de um eleitorado
“cognitivamente pouco estruturado”. Na própria passagem de Sartori citada
por Singer a respeito, entretanto, a importância das imagens partidárias para o
voto aparece condicionada a que a política “se desenvolva”, o eleitor adquira

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“capacidade de abstração” e o sistema partidário seja estruturado de modo
efetivo por partidos de massas. Na verdade, a propósito da comparação das
orientações partidário-eleitorais na América do Norte e na Europa, Sartori
relaciona mesmo explicitamente a capacidade (note-se bem) de situar-se na
escala esquerda-direita a “populações de elite”, tais como os estudantes
universitários (e o eleitorado europeu em geral), embora sustente que se pode
atingir o ponto em que o simbolismo emocional das imagens ideológicas
sobrepuje sua função cognitiva (vejam-se, por exemplo, as páginas 341 e 354,
nota 55, de Parties and Party Systems).

Naturalmente, uma perspectiva análoga à de Sartori será indispensável


se quisermos ser fiéis à complexidade da idéia de ideologia, que, além do
componente emocional ou de identificação e antagonismo, esteve sempre
associada com certa visão doutrinária estruturada de modo mais ou menos rico
e sofisticado. Sem falar de Marx e de coisas como o condicionamento do
acesso à “consciência de classe” por fatores intelectuais ligados à
transformação das condições objetivas, ou da conhecida “estruturação
ideológica” de Philip Converse, seria possível lembrar, por exemplo, a
cuidadosa revisão do tema da ideologia realizada por Robert Putnam muitos
anos atrás (“Studying Elite Political Culture”, APSR, 1971), na qual o núcleo
da noção de “política ideológica” surge como remetendo ao papel das idéias
na política, enquanto o “estilo ideológico” é caracterizado por traços como a
tendência a raciocionar politicamente em termos abstratos e teóricos e a
referência a ideologias específicas ou a utopias de algum grau de coerência.
Nessa óptica, a posição de Singer acaba por sugerir o oxímoro de uma
“ideologia não-ideológica”, paradoxo, aliás, utilizado quase nesses termos em
avaliação do trabalho de Levitin e Miller citada com aprovação tácita por ele
(p. 35).

Seja como for, o componente cognitivo da ideologia desaparece na


perspectiva de Singer. Daí que o eleitor que sua análise levaria a classificar
como “ideológico” possa corresponder igualmente a qualquer dos dois casos
seguintes: em primeiro lugar, o do eleitor sofisticado que, ao decidir como
votar, traz seus valores à avaliação de como problemas diversos da conjuntura
se articulam com um diagnóstico informado do próprio sistema sociopolítico
geral em que vive e atua; em segundo lugar, o do eleitor tosco que ouviu
cantar o galo de “esquerda” e “direita”, teve sua simpatia por uma ou outra
despertada por motivos espúrios e projeta sobre partidos ou candidatos os
traços que sua desinformação lhe dita como cabíveis. Neste segundo caso,
“esquerda” e “direita” não têm sequer a consistência e o interesse da

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contraposição singela entre “ricos” e “pobres” que estudos anteriores há muito
nos mostram em operação no eleitorado popular brasileiro (que certamente
sabe o que significa ser rico ou ser pobre) e da qual continua a valer-se o
nosso velho populismo: haverá aí algo relevante para as verificações que
Singer relata? Isso permite assinalar que o trabalho de Singer furta-se
inteiramente ao diálogo adequado com estudos brasileiros anteriores em que,
como nos de minha própria autoria, são perseguidos os matizes de
identificações políticas diversas e estáveis que diferem, justamente, em sua
articulação com os fatores de maior ou menor sofisticação intelectual e com a
capacidade de apropriada compreensão de questões políticas específicas
(issues) de natureza variada.

O volume de André Singer traz contribuições interessantes em alguns


aspectos, sobretudo com respeito às circunstâncias das eleições de 1989 e
1994. Em seu ponto central, no entanto, ele redunda em erigir simplismos
conceituais e metodológicos em achado importante e em convidar-nos a
esquecer nuances do jogo político-eleitoral brasileiro que há tempos, com
esforço, chegamos a apreender.

-x-x-x-

Tréplica à resposta de André Singer no Jornal de Resenhas (Folha de S.


Paulo), 11 de novembro de 2000, p. 4, a minha resenha de seu livro Esquerda
e Direita no Eleitorado Brasileiro

SIMPLES E TORTO

Fábio Wanderley Reis

“Medo” de esquerda e direita? Como não capto o alcance da esquisita


insinuação de André Singer na réplica a minha resenha de seu livro, dirijo-me
ao que interessa.

1. Ressalto que minha resenha começa por conceder a possível


ocorrência de alguma “ideologização” no processo eleitoral brasileiro que os
dados do livro indicam e que se ajusta à afirmação do PT no nível da disputa
presidencial e aos efeitos do segundo turno. Meu problema, assim, é antes o de

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tentar apontar os simplismos e exageros quanto à leitura dessa possível
ideologização que resultam dos defeitos da análise de Singer.

2. André Singer desconjunta em “motivos” e temas diversos minha


crítica, que contém dois pontos focais: a manipulação metodologicamente
deficiente dos dados e o entendimento insatisfatório e as distorções quanto à
dimensão cognitiva da noção de ideologia. Quanto aos dados, o que é tratado
por ele como um “artifício” meu, isto é, a demanda de que a correlação
encontrada entre voto e autolocalização na “esquerda” e na “direita” seja
examinada separadamente entre os que sabem e os que não sabem o
significado das categorias, corresponde na verdade a uma regra elementar da
lógica da análise multivariada, a ser encontrada em qualquer manual de
metodologia, que recomenda a introdução de variáveis de controle para aferir
a força ou o sentido real de correlações aparentes. Cerca de 20% de eleitores
informados, que os dados de Singer mostram, combinados com eleitores
desinformados que se distribuam às cegas entre esquerda e direita e “acertem”
casualmente na correspondência com o voto, podem produzir “preditores”
razoáveis deste – e as correlações iniciais de Singer (que, aliás, não vão além
de “V” de Cramer de 0,33 e 0,37) podem mostrar-se, com a introdução do
controle sugerido, bem menos afins a suas teses.

Singer afirma que “fez o teste” (onde? quais são os números?) e que a
correlação entre os desinformados é “fortemente significativa”. Ora, essa
reiteração do uso ritualista de coeficientes de significação, em que o livro é
abundante, ilustra o equívoco banal de esquecer que a significação estatística,
a qual se refere a erro amostral, não tem nenhuma conexão necessária com a
intensidade das correlações: correlações fracas podem ser significativas. No
“teste” feito, como se comparam, do ponto de vista da intensidade, as
correlações que se dão nos casos dos informados e dos desinformados? A
possibilidade que avento tem a ver com algo substantivo: mesmo numa boa
amostra (ou no universo...), eleitores desinformados podem, sim, estabelecer
por acaso a correspondência “correta” entre o voto e a autolocalização,
particularmente tratando-se de categorias pouco numerosas em ambas as
variáveis. Não vejo como se poderá negar tal possibilidade, quanto à qual
coeficientes de significação nada acrescentam.

3. Dizer que “definir esquerda e direita não é fácil”, que há confusões


entre liberalismo político e liberalismo econômico, ou o que mais seja,
redunda justamente em dizer que a ideologia contém um importante elemento
cognitivo. Se André Singer pretende nos ensinar algo com a idéia de que,

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mesmo não sendo capaz de verbalizá-lo, o eleitor teria a percepção “intuitiva”
do conteúdo de “esquerda” e “direita”, esse algo não pode ser senão que tal
eleitor se encontraria em níveis intermediários de cognição, diferentes dos do
eleitor que não tem sequer essa intuição. Ora, o que nos interessa são
precisamente os matizes que o eleitorado apresenta a respeito. Trabalhos
anteriores já foram, quanto a isso, muito além de André Singer, revelando a
articulação de níveis diversos de cognição e estruturação ideológica com
condições socioeconômicas distintas e seus efeitos sobre o voto. “Dialogar
adequadamente” com esses trabalhos seria levá-los em conta e procurar
avançar com respeito a eles. E caberia esperar que André Singer, para
esclarecer a “relevância” de esquerda e direita, tratasse, quem sabe, de
mostrar-nos como a operação dessas categorias se relaciona com os matizes já
estabelecidos.

Mas, em vez de lidar de maneira devidamente refinada e atenta com a


dimensão cognitiva e de explorá-la nos dados, a análise de André Singer
apaga os matizes e joga no mesmo saco, como eleitor “ideológico”, tanto o
eleitor sofisticado que opera com informações complexas ao votar quanto o
eleitor tosco que projeta sua indigência e desinformação sobre partidos e
candidatos, e que é eventualmente manipulável. Com isso, perdemos mais do
que boa análise: arriscamos confundir as metas pelas quais cabe ansiar.

Vale talvez a pena esperar uma segunda edição revista. Bem revista.