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I- Clio e a grande virada da História

No decorrer da História tivemos diversas mudanças historiográficas, tais dinâmicas se


tornaram mais complexas com a inclusão de novos grupos, levantando diferentes questões.
Questionando a diversidade social, o modo de fazer política e sobretudo a cultura e os meios
de comunicação em massa. As posições Históricas mais criticadas, a princípio, foi o
marxismo e a corrente dos Annales, resultando na abertura para um novo jeito de se pensar e
fazer história, o que chamamos de História Cultural ou Nova História Cultural.

No panorama da historiografia mundial, teríamos a linha de pensamento de Ranke que


chamava atenção para as descontinuidades dos tempos históricos e a busca incansável por dar
sentido a cada episódio do passado. Da mesma forma, o positivismo de Comte, onde haveria
uma valorização a verdade absoluta contida nas fontes documentais, e era concebida a ideia
de que a História era retilínea e linear. Mas essas duas posturas, já haviam sido questionadas
tanto pelo marxismo, quanto pelos Annales.

Logo, a historiografia nacional brasileira no final dos anos de 1980, era dominada por
uma postura marxista, baseados nos livros Caio Padro Jr. e Nelson Wenerck Sondré. Nesse
cenário, temos o materialismo histórico como a postura teórica da época, voltando-se a
questões mais econômicas, como a formação do capitalismo no Brasil, transição da
escravidão para o trabalho livre e o surgimento da industrialização, por outro lado, havia
estudos sobre os movimentos sociais, as lutas de classe e a formação de partidos e sindicatos.

Na virada dos anos de 1980 para 90, a concepção de fazer história no Brasil, voltou a
ser questionada, onde a fundamentação teórica marxista sofreu as mais duras críticas. Até
mesmo seus seguidores, como é o caso de Thompson que se afastam dessa matriz. A escola
dos Annales que tanto privilegiou a análise econômica e social, deixando a cultura na terceira
instancia, era acusada de “um vazio teórico e um reduzido poder explicativo”.

Se a História Cultural é chamada de Nova História Cultural como o faz Lynn Hunt
[...] Trata-se, antes de tudo, de pensar a cultura como um conjunto de significados
partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo. [...] A cultura é ainda
uma forma de expressão e tradução da realidade que se faz de forma simbólica, ou
seja, admite-se que os sentidos conferidos ás palavras, às coisas, às ações e aos
atores sociais se apresentam de forma cifrada, portanto já um significado e uma
apreciação valorativa. P 15

A História Cultural, portanto, trata-se de mais uma reescrita da História, contando com
autores como Roger Chartier, Robert Darnton e Carlo Ginzburg.
Ora, uma narrativa é o relato de uma sequência de ações encadeadas, e na clássica
definição de Aristóteles, a História seria a narrativa do que aconteceu, distinta da
literatura, que seria a narrativa do que poderia ter acontecido. Nesta medida, a
definição aristotélica estabelece para a História um pacto com a verdade, verdade
esta que o mesmo Aristóteles define ainda como sendo a correspondência da
realidade com o discurso. (pag.49)

Ora, trata-se de um grande desafio aproximar a História com a Literatura, pois para
alguns seria a mesma coisa de tirar a ciência ou o compromisso com a veracidade. No entanto,
conforme Sandra Pesavento, para a História Cultural essa relação se resolve no plano
epistemológico, contrapondo suas aproximações e distanciamentos, entendendo que ambas
possuem diferentes formas de representatividade do mundo. Se encontrando, nas tentativas de
explicar o presente, o passado e o futuro; na mobilização de representar as inquietudes e
questões do homem e da sua época e no publico alvo, o leitor.

Nessa medida, é a História que formula as perguntas e coloca as questões, enquanto


que a Literatura opera como fonte. A Literatura ocupa, no caso, a função de traço,
que se transforma em documento e que passa a responder às questões formuladas
pelo historiador. Não se trata, no caso, de estabelecer uma hierarquia entre História e
Literatura, mas sim de precisar o lugar de onde se faz a pergunta. (pag. 82)

A literatura permite o acesso ao modo pelo qual as pessoas viviam, o que pensavam
sobre o mundo e sobre si próprias. Consente os sentimentos que as guiavam, seus medos,
inseguranças, preconceitos, sonhos e idealizações. Permite a compreensão de toda uma época,
recorrendo ao que é aceito ou não dentro daquela sociedade. Além do mais, ela é fonte de si
mesma, se comprometendo apenas com a escrita. Para o historiador, a literatura pode ser uma
fonte realmente especial, podendo ir muito além do que muitas outras, ampliando à
verossimilhança e a veracidade, estimulando o questionamento e a aprendizagem, abolindo
assim, as barreiras entre essas duas disciplinas.

Autores como Mikhail Bakhtin, Norbert Elias, Michel Foucault, Pierre Bourdieu,


Rooger Chartier, Reinhardt Koselleck, Robert Darnton, Carlo Ginzburg, entre muitos outros,
auxiliaram na resolução dessa problemática. Dessa forma, utilizamos o estudo desses
historiadores onde construíram um lugar a princípio, para a reconstrução de ideias e
narrativas, propondo um novo olhar sobre a História, a chamada História Cultural, na qual
basta um pensamento na cabeça e uma pergunta nos lábios que praticamente tudo pode virar
documento para a História, dependendo apenas da pergunta que será formulada pelo
historiador.

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