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Construção do Conhecimento

e Metodologia da Pesquisa

Marlise There Dias


UNIVERSIDADE POTIGUAR – UnP DIRIGENTES DA UNIVERSIDADE POTIGUAR – UnP
PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO
Reitoria
NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA – NEaD Sâmela Soraya Gomes de Oliveira

Pró-Reitoria de Graduação e Ação Comunitária


Sandra Amaral de Araújo

Pró-Reitoria de Pesquisa, Extensão e Pós-Graduação


Aarão Lyra

NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA


DA UNIVERSIDADE POTIGUAR – UnP

Coordenação Geral Revisão de Linguagem


Barney Silveira Arruda e Estrutura em EaD
Luciana Lopes Xavier Priscilla Carla Silveira Menezes
Thalyta Mabel Nobre Barbosa
Construção do Conhecimento e Coordenação Pedagógica Úrsula Andréa de Araújo Silva
Edilene Cândido da Silva
Apoio Acadêmico
Metodologia da Pesquisa Coordenação de Produção Flávia Helena Miranda de Araújo Freire
de Recursos Didáticos
Livro-texto EaD Michelle Cristine Mazzetto Betti Assistente Administrativo
Eliane Ferreira de Santana
Coordenação de Produção de Vídeos Gabriella Souza de Azevedo
Bruna Werner Gabriel Gibson Marcelo Galvão de Sousa
Giselly Jordan Virginia Portella
Coordenação de Logística
Helionara Lucena Nunes

D541c Dias, Marlise There.


Construção do conhecimento e metodologia da pesquisa /
Marlise There Dias. – Natal: [s.n.], 2010.
256p. : il. ; 20 cm

1. Metodologia científica. 2. Metodologia da


pesquisa.I.Título.

Natal/RN
RN/UnP/BCSF CDU 001.8
2010
Marlise There Dias

EQUIPE DE PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO


Delinea Tecnologia Educacional

Coordenação Pedagógica
Margarete Lazzaris Kleis

Coordenação de Editoração
Charlie Anderson Olsen
Larissa Kleis Pereira

Revisão Gramatical e Linguagem em EaD


Simone Regina Dias

Diagramação
Alexandre Alves de Freitas Noronha

Ilustrações
Construção do Conhecimento e Alexandre Beck

Metodologia da Pesquisa Coordenação de Produção de Recursos Didáticos da UnP


Michelle Cristine Mazzetto Betti
Livro-texto EaD
Ilustração do Mascote
Lucio Masaaki Matsuno

Natal/RN
2010
MARLISE THERE DIAS

Sou graduada em Ciência da Computação pela Universidade


do Vale do Itajaí - UNIVALI (1997). Em 2003, recebi o grau de
especialista em Desenvolvimento de Software para Web também
pela UNIVALI. Realizei meu mestrado em Ciência da Computação
no ano de 2009 na UNIVALI.

Desde 1999, atuo como docente na Universidade do Vale do


Itajaí, em disciplinas da área de ciência da computação e relacionadas
ao conhecimento. Durante este período, já ministrei disciplinas
específicas da computação, fui professora da disciplina de estágio
no curso de Administração e também de metodologia em vários
cursos presenciais. Atuei como docente também na disciplina de
metodologia da pesquisa no curso de administração - modalidade
a distância - dentre várias outras disciplinas nesta modalidade.
Atualmente, sou docente nas disciplinas de Metodologia da
Pesquisa (curso de Ciências Contábeis) e Administração de Sistemas
de Informação (curso de Administração). Na modalidade de ensino
a distância, atuo como professora responsável pelos estágios nos
cursos Ciências Contábeis e Administração, sendo também docente
da disciplina de Estágio.

CONHECENDO O AUTOR
Esta disciplina mostrará a você o que significa ser um estudante de um curso
CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO E superior, um acadêmico. Você perceberá que é relevante estar sempre buscando
METODOLOGIA DA PESQUISA conhecimento e que também é possível, no meio acadêmico, produzi-lo. Para tanto,
estudaremos nesta disciplina as formas pelas quais você pode fazer isto.
Para tratar sobre esta disciplina, começo questionando você
sobre o que deseja ao ler este material. O que você buscou quando Veremos a origem da busca pelo conhecimento, partindo de conceitos
se matriculou em um curso superior? Acredito que, rapidamente, básicos de filosofia à identificação da natureza do conhecimento. Compreender
você pensou em respostas como: aprender, conhecer, descobrir, conceitos relacionados à ciência e pesquisa e conhecer as formas de estudo e leitura
e se não foram exatamente estas palavras, pensou em outras e de divulgação de conhecimento auxiliarão você no processo de investigação e
semelhantes. Afinal, se considerarmos nossas vidas, veremos que descoberta durante todo o curso superior.
estas são palavras presentes durante todo o tempo em nossa casa,
com nossa família, no trabalho e ainda mais na academia. Isso Agora, convido você a mergulhar neste oceano de descobertas e vislumbrar
mesmo, academia. E o significado é diferente daquele que, num as mais variadas formas de conhecer que serão apresentadas durante os capítulos
primeiro momento, pode ter passado pela sua mente. desta disciplina.

Pensar em meio acadêmico, em academia, nos remete ao


conhecimento e à pesquisa. Um lugar em que buscamos, queremos
conhecer coisas novas, andar por caminhos não percorridos e
alçar novas descobertas. Chamo sua atenção para não pensar em
academia apenas pelo fato de estar matriculado em um curso
superior. Você será considerado um acadêmico de verdade se
conseguir, ao longo dos anos de estudo, colher frutos que lhe farão
um profissional no curso superior escolhido.

Acredito que, neste momento, tenha sentido um “frio na barriga”


e esteja questionando a si próprio se conseguirá obter êxito nesta
empreitada. Pode até estar com vontade de questionar: “mas professora,
como eu consigo isto? Será que consigo?” Sim, isto é totalmente possível

CONHECENDO A DISCIPLINA
e ocorrerá se você, durante os anos de curso superior, se empenhar para
ter um contato muito próximo com o máximo de conhecimento.

Então, lembre-se que você, ao ingressar em um curso superior


e almejar um título de graduação, se coloca na posição de estudante.
E o que significa ser um estudante do ensino superior? Facilmente,
estou ouvindo: “essa é fácil, professora – é alguém que estuda
para obter o referido título”. Muito bem! Resposta correta! Mas
não pode ser uma resposta vazia, é preciso que você compreenda
realmente o significado dela e é por isso que falaremos sobre a
“construção do conhecimento e metodologia da pesquisa”.
5 VALORES E ATITUDES
1 IDENTIFICAÇÃO
O aluno deve ser despertado para atividades de leitura e pesquisa em busca do
CURSO: NEaD - DISCIPLINAS DE GRADUAÇÃO A DISTÂNCIA conhecimento científico, levando-se em conta uma postura ética.
DISCIPLINA: CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
E METODOLOGIA DA PESQUISA
6 CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS
PROF. AUTOR: MARLISE THERE DIAS
MODALIDADE: A DISTÂNCIA UNIDADE I

• Noções de filosofia e aspectos da filosofia contemporânea.

• Relação entre a construção do conhecimento e as ciências.

• Epistemologia da pesquisa: fundamentos filosóficos aplicados à pesquisa e


2 EMENTA à construção do conhecimento.

A filosofia, o conhecimento e as ciências. Epistemologia da • Metodologias de pesquisa: pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa
suas técnicas e recursos.
pesquisa. Fundamentos metodológicos de pesquisa. Metodologias
de pesquisa. Métodos de pesquisa. Técnicas de pesquisa. Estratégias UNIDADE II
metodológicas. Projeto de pesquisa.
• Estratégias metodológicas: a pesquisa bibliográfica, a pesquisa de opinião,
o estudo de caso, pesquisa-ação, pesquisa-intervenção, o trabalho de campo
(a observação participante, o questionário, a entrevista, diário de campo).

PLANO DE ENSINO
3 OBJETIVOS
• Trabalhos científicos. Memorial. Monografia. TCC. Artigos.
• Compreender a natureza do conhecimento científico como • As fontes de pesquisa. Normas da ABNT na elaboração de trabalhos
objeto da pesquisa científica. científicos, resumos, resenhas, citações e referências.
• Compreender os procedimentos da metodologia da • Projeto de pesquisa: estrutura e finalidade. Introdução. Objeto de estudo.
pesquisa para elaboração de trabalhos técnico-científicos Problema de pesquisa. Metodologia. Referencial teórico. Cronograma de
que vislumbrem a pesquisa para produção de conhecimento pesquisa.
científico na referida área de estudo.

7 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
4 HABILIDADES E COMPETÊNCIAS
• Utilização de material didático impresso (livro-texto).
• Competências: ao final da disciplina, o aluno deve ser • Interação através do Ambiente Virtual de Aprendizagem.
capaz de compreender os conceitos relacionados à ciência,
conhecimento e pesquisa; reconhecer os diferentes tipos de • Utilização de material complementar (sugestão de filmes, livros, sites,
trabalhos acadêmico-científicos e sua estrutura; desenvolver músicas, ou outro meio adequado à realidade do aluno).
trabalhos acadêmico-científicos; compreender e utilizar
técnicas apresentadas buscando leitura proveitosa de
referências; reconhecer fontes de pesquisa adequadas;
identificar os diferentes tipos de métodos e pesquisas 8 ATIVIDADES DISCENTES
existentes; aplicar os conceitos desenvolvendo um projeto de
pesquisa. • Pontualidade e assiduidade na entrega das atividades propostas no material
• Habilidades: desenvolver trabalhos acadêmico-científicos e didático impresso (livro-texto) e solicitadas pelo tutor no Ambiente Virtual
projeto de pesquisa de acordo com a estrutura apresentada. de Aprendizagem.

• Realização das avaliações presenciais obrigatórias.


9 PROCEDIMENTOS DE AVALIAÇÃO

A avaliação ocorrerá em todos os momentos do processo ensino-aprendizagem


considerando:

• leitura do de material didático impresso (livro-texto);

• interação com tutor através do Ambiente Virtual de Aprendizagem;

• realização de atividades propostas no material didático impresso (livro-


texto) e/ou pelo tutor no Ambiente Virtual de Aprendizagem;

• aprofundamento de temas em pesquisa extra material didático impresso


(livro-texto).

10 BIBLIOGRAFIA

10.1 BIBLIOGRAFIA BÁSICA

AZEVEDO, I. B. de. O prazer da produção científica: descubra como é fácil e


agradável elaborar trabalhos acadêmicos. 11. ed. São Paulo: Hagnos, 2001.

CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A.; SILVA, R. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo:
Pearson, 2007.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003.

10.2 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

MARCONI, M. A.; LAKATOS, Eva Maria. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo:
Atlas, 2007.

SANTOS, B. de S. Um discurso sobre as ciências. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2009.

10.3 BIBLIOGRAFIA INTERNET

Associação Brasileira de Normas Técnicas: http://www.abnt.org.br/

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq):


http://www.cnpq.br/
Capítulo 1 - Noções de filosofia e aspectos da filosofia 3.3.1 Resolvendo ...................................................................................................................................101
contemporânea ........................................................................................... 17 3.4 Para saber mais .....................................................................................................................................102
1.1 Contextualizando .......................................................................................................... 17 3.5 Relembrando .........................................................................................................................................103
1.2 Conhecendo a teoria .................................................................................................... 17 3.6 Testando os seus conhecimentos ...................................................................................................104
1.2.1 Noções de filosofia ............................................................................................. 17 Onde encontrar ............................................................................................................................................105
Origem .................................................................................................................................................. 19
Períodos da filosofia grega ............................................................................................................20 Capítulo 4 - Pesquisa ....................................................................................................107
1.2.2 O que é filosofia? ................................................................................................. 25 4.1 Contextualizando .................................................................................................................................107
1.2.3 Filosofia contemporânea ................................................................................. 28 4.2 Conhecendo a teoria ...........................................................................................................................108
1.2.4 A razão e a verdade ............................................................................................ 36 4.2.1 Pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa: origem,
Razão .....................................................................................................................................................36 características e recursos .........................................................................................................108
Verdade .................................................................................................................................................40 4.2.2 Níveis de pesquisa .....................................................................................................................112

SUMÁRIO
1.3 Aplicando a teoria na prática .................................................................................... 42 4.2.3 Estratégias ou delineamentos de pesquisa ......................................................................116
1.3.1 Resolvendo ............................................................................................................ 43 Pesquisa bibliográfica ................................................................................................................................................. 117
1.4 Para saber mais .............................................................................................................. 44 Pesquisa de opinião .................................................................................................................................................... 119
1.5 Relembrando .................................................................................................................. 45 Pesquisa-ação ................................................................................................................................................................ 119
1.6 Testando os seus conhecimentos ............................................................................ 46 Pesquisa-intervenção ................................................................................................................................................. 120
Onde encontrar ..................................................................................................................... 47 Estudo de caso .............................................................................................................................................................. 121
Trabalho de campo ..................................................................................................................................................... 121
Capítulo 2 - A ciência e a pesquisa ............................................................. 49 4.2.4 Métodos de coleta de dados .................................................................................................123
2.1 Contextualizando .......................................................................................................... 49 Observação participante ........................................................................................................................................... 123
2.2 Conhecendo a teoria .................................................................................................... 49 Entrevista ........................................................................................................................................................................ 125
2.2.1 Natureza do conhecimento ............................................................................ 49 Questionário e formulário ......................................................................................................................................... 127
Conhecimento empírico (vulgar ou de conhecimento do povo) ....................................51 Diário de campo ........................................................................................................................................................... 129
Conhecimento filosófico ................................................................................................................53 4.2.5 Análise de dados ........................................................................................................................129
Conhecimento teológico ............................................................................................................... 54 Análise estatística ......................................................................................................................................................... 129
Conhecimento científico ................................................................................................................55 Análise de conteúdo ................................................................................................................................................... 130
2.2.2 A ciência e a filosofia .......................................................................................... 57 Análise de discurso ...................................................................................................................................................... 130
Classificação das ciências ............................................................................................................... 61 Análise qualitativa ....................................................................................................................................................... 131
2.2.3 Noções gerais sobre pesquisa ........................................................................ 66 4.3 Aplicando a teoria na prática ............................................................................................................131
Áreas de pesquisa ............................................................................................................................. 70 4.3.1 Resolvendo ...................................................................................................................................132
2.2.4 Etapas da pesquisa ............................................................................................. 72 4.4 Para saber mais .....................................................................................................................................133
2.3 Aplicando a teoria na prática ..................................................................................... 73 4.5 Relembrando .........................................................................................................................................133
2.3.1 Resolvendo ............................................................................................................ 74 4.6 Testando os seus conhecimentos ...................................................................................................134
2.4 Para saber mais .............................................................................................................. 75 Onde encontrar ............................................................................................................................................136
2.5 Relembrando .................................................................................................................. 75
2.6 Testando os seus conhecimentos ............................................................................ 76 Capítulo 5 - Estudo e leitura .........................................................................................137
Onde encontrar ..................................................................................................................... 77 5.1 Contextualizando .................................................................................................................................137
5.2 Conhecendo a teoria ...........................................................................................................................138
Capítulo 3 - Métodos de pesquisa ............................................................. 79 5.2.1 Fontes de pesquisa ....................................................................................................................138
3.1 Contextualizando .......................................................................................................... 79 5.2.2 Resumos ........................................................................................................................................148
3.2 Conhecendo a teoria .................................................................................................... 80 5.2.3 Resenhas .......................................................................................................................................150
3.2.1 Métodos de pesquisa ........................................................................................ 80 5.2.4 Fichamento ..................................................................................................................................153
3.2.2 Relevância do método ...................................................................................... 88 5.3 Aplicando a teoria na prática ............................................................................................................157
3.2.3 Métodos científico e racional ......................................................................... 91 5.3.1 Resolvendo ...................................................................................................................................159
3.2.4 Métodos dedutivo, indutivo, hipotético-dedutivo e dialético ........... 92 5.4 Para saber mais .....................................................................................................................................160
3.2.5 Métodos experimental, observacional, estatístico e comparativo ... 97 5.5 Relembrando .........................................................................................................................................162
3.3 Aplicando a teoria na prática ...................................................................................101 5.6 Testando os seus conhecimentos ...................................................................................................162
Onde encontrar ............................................................................................................................................165

Capítulo 6 - Trabalhos acadêmico-científicos .............................................................167


6.1 Contextualizando .................................................................................................................................167
6.2 Conhecendo a teoria ...........................................................................................................................168
6.2.1 Trabalhos científicos ..................................................................................................................168
6.2.2 Memorial .......................................................................................................................................173
6.2.3 Monografia ...................................................................................................................................174
6.2.4 TCC ...................................................................................................................................................179
6.2.5 Dissertação ...................................................................................................................................180
6.2.6 Tese ..................................................................................................................................................182
6.2.7 Artigo .............................................................................................................................................184
6.3 Aplicando a teoria na prática ............................................................................................................188
6.3.1 Resolvendo ...................................................................................................................................189
6.4 Para saber mais .....................................................................................................................................190
6.5 Relembrando .........................................................................................................................................192
6.6 Testando os seus conhecimentos ...................................................................................................193
Onde encontrar ............................................................................................................................................195

Capítulo 7 - Apresentação de trabalhos acadêmico-científicos ................................197


7.1 Contextualizando .................................................................................................................................197
7.2 Conhecendo a teoria ...........................................................................................................................198
7.2.1 Estrutura de trabalhos acadêmico-científicos .................................................................198
7.2.2 Citações .........................................................................................................................................210
7.2.3 Referências ...................................................................................................................................214
7.3 Aplicando a teoria na prática ............................................................................................................221
7.3.1 Resolvendo ...................................................................................................................................222
7.4 Para saber mais .....................................................................................................................................222
7.5 Relembrando .........................................................................................................................................223
7.6 Testando os seus conhecimentos ...................................................................................................223
Onde encontrar ............................................................................................................................................224

Capítulo 8 - Projeto de pesquisa ..................................................................................225


8.1 Contextualizando .................................................................................................................................225
8.2 Conhecendo a teoria ...........................................................................................................................226
8.2.1 Estrutura e finalidade ...............................................................................................................226
8.2.2 Introdução: tema, problema de pesquisa, objetivo de estudo, justificativa ........230
8.2.3 Metodologia da pesquisa .......................................................................................................237
8.2.4 Referencial teórico .....................................................................................................................242
8.2.5 Orçamento e cronograma de pesquisa .............................................................................244
8.3 Aplicando a teoria na prática ............................................................................................................246
8.3.1 Resolvendo ...................................................................................................................................247
8.4 Para saber mais .....................................................................................................................................248
8.5 Relembrando .........................................................................................................................................249
8.6 Testando os seus conhecimentos ...................................................................................................250
Onde encontrar ............................................................................................................................................252

Referências .....................................................................................................................................................253
Capítulo 1

este tópico pretende mostrar o que realmente pretende a filosofia. Os


filósofos são, muitas vezes, estigmatizados como humanos que escrevem e
CAPÍTULO 1 falam coisas que não são compreendidas por outros de sua espécie, ou que
estariam sempre fora da realidade.

NOÇÕES DE FILOSOFIA E ASPECTOS Esta atitude preconceituosa e de julgamento faz com que muitos
DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA estudantes não se sintam à vontade quando ouvem falar sobre tal área de
conhecimento. Porém, pretendo mostrar a você o quão relevante são os
conceitos da filosofia para sua vida acadêmica.

Pensando bem, todos nós filosofamos, pois estamos sempre tentando


1.1 Contextualizando dar sentido às coisas. De acordo com os pensamentos de Gramsci (1978, apud
ARANHA e MARTINS, 1993, p. 74), “não se pode pensar em nenhum homem
Conhecer a origem do que estudaremos nos permite uma melhor visualização que não seja também filósofo, que não pense, precisamente porque pensar
para o aprendizado, fazendo que estejamos situados no conteúdo. Este capítulo é próprio do homem como tal”. As escolhas que fazemos em nosso cotidiano
ajudará na compreensão de como chegamos a pensar em conhecer algo, a nos intrigar fazem parte de nossa filosofia de vida, a forma como nos alimentamos, como
com o que é apresentado. Você verificará que o ser humano pode passar de um fomos educados e educamos, a nossa rotina, etc.
estado em que simplesmente recebe informações para uma posição de questionador.
Durante nosso desenvolvimento, acabamos por nos acomodar em
O texto mostrará que, quando você passa a exigir maiores explicações a conhecimentos que nos são apresentados facilmente. Algumas atividades de
respeito de fatos e acontecimentos, está na situação de alguém em busca da nossa rotina são realizadas de maneira tão automática que nem pensamos em
verdade ou em busca de questioná-la. questionar o porquê de estarmos realizando daquela forma.

O capítulo 1 apresentará a você noções de filosofia e um pouco da história desta Chauí (2003) apresenta o desenvolvimento automático destas
área tão intrigante e interessante, que revelou os maiores pensadores da história, atividades cotidianas para nos mostrar que o fato de não questionarmos
inclusive de tempo atuais. Você perceberá o quanto os filósofos questionaram a significa que aceitamos algo como real. E exemplifica: quando você
sociedade, o que era imposto ao ser humano, sem aceitar tudo o que lhes era dito. pergunta a alguém as horas está confirmando que acredita que o tempo
existe, acredita nas horas, e também na idéia de que o passado não volta
Espera-se que, ao final do estudo, você seja capaz de definir filosofia, mais. Os aspectos em que você acredita o fazem diferente de outra pessoa
conheça sua origem, alguns filósofos e, principalmente, consiga visualizar que pode ter suas próprias crenças.
porque este assunto é apresentado nesta disciplina.
Agora pense no seu dia-a-dia com seus colegas e relembre se, em
determinado momento, frente a uma brincadeira, um questionamento,
1.2 Conhecendo a teoria uma frase bonita dita por alguém, você não se viu dizendo: “fulano está
filosofando”. Quando uma pessoa resolve perguntar ou discutir a respeito
1.2.1 Noções de filosofia de algo considerado muito normal, é comum ser julgada ou estigmatizada,
quando, na verdade, apenas está querendo conhecer. É essa capacidade de
Se você é daqueles que, quando ouve falar que determinado sujeito questionar verdades que a filosofia pode despertar.
é filósofo, já faz uma cara insinuante e acha que se trata de algum louco,

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 17 18 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 1 Capítulo 1

REFLEXÃO Pode-se compreender o mito como a narrativa sobre a origem de algo,


como a geração dos seres naturais, como o ar frio, por exemplo. A palavra
Procure refletir a respeito de sua vida cotidiana, Mito tem origem grega mythos, formada da junção de dois verbos: narrar algo
as atividades que desenvolve, as atitudes que (mytheyo) e anunciar, conversar (mytheo).
toma e reflita: você é um agente que questiona
ou apenas aceita o que o mundo lhe apresenta? O povo grego considerava mito um pronunciamento público realizado
Como está sua relação com o conhecimento, por alguém indicado e autorizado pelos deuses. Assim, havia uma confiança
com o saber hoje? Você o ama, o respeita?
total no que era proferido sem espaço para qualquer questionamento.

No entanto, o pensamento dos filósofos rompe a realidade onde não se


Origem questiona e apresenta aquela em que se problematiza e se convida a discutir.
A filosofia entende o sobrenatural como irreal e não cultiva, nem crê nas
O surgimento da filosofia para os historiadores data do final do século VII explicações divinas (ARANHA e MARTINS, 1993).
a.C. e durante o século VI a.C. na Grécia, em uma cidade chamada Mileto, tendo
como primeiro filósofo Tales de Mileto (ARANHA e MARTINS, 1996). Filosofia O surgimento dos primeiros filósofos, os questionadores, não ocorreu
é uma palavra grega composta de philo e sophos. A primeira palavra significa como um milagre grego. De acordo com Chauí (2003), alguns acontecimentos
amizade, amor fraterno e a segunda quer dizer sabedoria. Desta forma, fica fácil históricos favoreceram a origem da filosofia. Em resumo, pode-se citar:
compreender o significado literal da palavra como sendo: amor à sabedoria.
• as viagens marítimas: em que os gregos puderam verificar que não
BIOGRAFIA havia deuses nos lugares indicados;

Tales de Mileto é o primeiro filósofo ocidental


de que se tem notícia. De ascendência fenícia, • a invenção do calendário: por mostrar a percepção do tempo
nasceu em Mileto, antiga colônia grega, na como algo natural em que fatos se repetem e não mais como
Ásia menor, atual Turquia, por volta de 625 poder divino;
a.C. e faleceu aproximadamente em 547 a.C. -
segundo o historiador grego Diógenes Laércio, • o surgimento da vida urbana: que diminuiu o prestígio dos aristocratas
morreu com 78 anos durante a 58ª Olimpíada.
criadores dos mitos para interesse próprio;
Tales é apontado com um dos sete sábios da
Grécia antiga e foi o fundador da Escola Jônica.
• e a invenção da política: que institui a lei como vontade coletiva, o
direito de cada cidadão, e não mais a vontade dos deuses e o estímulo
ao pensamento compreensível por todos.
Os primeiros filósofos chamaram-se pré-socráticos por surgirem antes de
Sócrates, figura central na filosofia grega (MARTINS FILHO, 2000). Seus pensamentos Períodos da filosofia grega
fizeram ruir uma realidade na Grécia antiga conhecida como mitologia.
Os primeiros estudos da filosofia fixaram-se em conhecer a origem do
Você deve conhecer alguns personagens relacionados à mitologia, como mundo natural e suas transformações. Este período chamou-se pré-socrático
Eros, o Deus do amor, e já deve ter ouvido a expressão “deuses do Olimpo”. ou cosmológico.
Estes se referem a mitos cultuados na época do surgimento da filosofia.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 19 20 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 1 Capítulo 1

LEMBRETE As afirmações cultuadas pelos primeiro filósofos do período em seus


ensinamentos fizeram com que Sócrates, filósofo conceituado e considerado o
Caro(a) acadêmico(a): lembre-se que o período
pai da filosofia, levantasse uma bandeira contra os sofistas. Acusava os sofistas
pré-socrático apresenta esta nomenclatura
pelo fato da divisão da filosofia grega ter de não serem filósofos por não demonstrarem amor e respeito à sabedoria e
como referência o filósofo Sócrates de Atenas à verdade (CHAUÍ, 2003).
(MARTINS FILHO, 2000).
CURIOSIDADE
O filósofo considerado patrono da filosofia não
A palavra cosmologia surge da junção de cosmos e logia. A primeira deixou qualquer documento que discorra a respeito
faz referência ao mundo organizado e a segunda tem como significado de seus pensamentos, suas posições ou inquietudes.
Por isso, os relatos de Sócrates (469–399 a.C)
o pensamento racional. Observando o objeto inicial da filosofia, você
são descritos por outros filósofos, como Platão,
pode perceber porque o primeiro período denomina-se cosmológico. Xenofonte e Aristóteles. Alguns historiadores,
Alguns filósofos deste período forma Tales de Mileto, Pitágoras de Samos e inclusive, afirmam que só se pode falar de Sócrates
Zenão de Eléia. como um personagem de Platão, por ele nunca ter
deixado nada escrito de sua própria autoria.
O período seguinte é denominado socrático, em função do surgimento
do filósofo Sócrates, ou ainda chamado antropológico (do grego ântropo =
Homem), por se preocupar com temas relacionados à realidade humana, como
o estudo da ética, política e técnicas.

A educação sofre interferência neste período. Os aristocratas, enquanto


donos do poder, possuem como padrão a educação baseada em poetas que
consideravam o guerreiro belo o homem perfeito. Com o surgimento da
democracia, prima-se por uma educação em que o padrão ideal é o bom
orador. Com isso, surgem os sofistas (sophos = sábio = professor de sabedoria),
considerados filósofos pioneiros neste período; em troca de pagamento, os
sofistas ensinavam aos filhos dos aristocratas a nova educação, contestando as
ideias dos filósofos do período pré-socrático.
Figuras 1 e 2 - Bustos de Aristóteles e Platão
SAIBA QUE Fonte: <http://images.google.com>.

A proposta de Sócrates direcionava a filosofia para a preocupação com


No período socrático, os filósofos sofistas o homem. O filósofo acreditava que, antes de conhecer a origem do mundo,
que mais se destacaram foram: Protágoras era necessário ao homem conhecer a si próprio. Para Sócrates, as percepções
de Abdera, Górgias de Leontini e Isócrates de sensoriais nunca chegam à verdade; são sempre questionadas e fonte de
Atenas.
mentira ou erro (CHAUÍ, 2003).

Outro filósofo deste período é Platão, que cultua o processo de


compreensão do real e cria a palavra ideia (eidos). Para este filósofo, existe

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Capítulo 1 Capítulo 1

um mundo imutável e um mundo real que sofre interferência do imutável. Em Agora imagine que um destes homens consiga se libertar das correntes e
seu livro A república, Platão utiliza-se do Mito da caverna para demonstrar seu sair da caverna. É o que Platão descreve a seguir e questiona o que aconteceria,
pensamento relativo aos dois mundos. o que ele faria. Provavelmente, no primeiro momento, todos os movimentos do
homem trariam algum tipo de problema a ele, como dor no corpo, e olhar para
BIOGRAFIA luz com certeza lhe causaria incômodo. Apesar disso, o homem questionaria tudo
o que vê tentando compreender o que ocorre fora da caverna. Seria possível a
Platão (427-347 a.C.), filho de aristocratas e discípulo de Sócrates,
escreveu mais de 30 obras, como Menexeno; Ménon; Crátilo; O
ele perceber que a fogueira, na verdade, era a luz do sol e que, refletida, gerava
banquete; A república; dentre outras. Basicamente, suas obras eram as sombras vislumbradas por todos no fundo das cavernas.
escritas em forma de diálogos. Curiosamente, esses diálogos não
apresentam Platão como personagem principal, e, sim, Sócrates. Acredita-se que o homem, ansioso por contar aos outros o que vira, retorne
à caverna atrapalhado pela escuridão e conte o que vislumbrou. Na caverna,
alguns acreditariam que as imagens que viam não eram retrato da realidade,
Para melhor entender as ideias de Platão, vamos viajar em seus outros o questionariam, o teriam como louco, sendo capazes até de matá-lo.
pensamentos conhecendo a alegoria da caverna. Concentre-se na leitura para
que possa compreender as relações realizadas pelo autor. Esta alegoria demonstra que Platão acredita que a caverna é nosso
mundo, o prisioneiro que sai da caverna é o filósofo, que vislumbra a luz do
Neste trecho do livro, o filósofo descreve seres acorrentados desde a sol, que seria a verdade (CHAUÍ, 2003).
infância em uma caverna subterrânea. A forma como estão algemados não
permite que tenham acesso à entrada, ficando obrigados a enxergar apenas O objetivo da filosofia seria incitar a busca de novas descobertas
o fundo da caverna. Por não estar totalmente fechada, uma luz adentra e conhecimento e o mito das cavernas demonstra que você pode ficar
proveniente de uma fogueira e é possível ver apenas as sombras do que está em sua zona de conforto com o que já conhece ou empreender esforços para
se passando às suas costas. As sombras mostram homens carregando objetos - mudar a realidade, agregando conhecimento e partindo para um novo mundo.
e como isto é a realidade que conhecem, para eles, tudo é verdadeiro. Afinal,
por estarem ali desde que nasceram, é a única coisa que viram. Vejamos se você está atento. Estamos agora no terceiro período chamado
de período sistemático, que tem como principal filósofo Aristóteles (nascido
na Macedônia) e discípulo de Platão. Possui como discurso agregar todas as
áreas de pensamento (o saber total) como uma forma de conhecer tudo aquilo
que existe no mundo.

Apesar de ser discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles escrevia de forma


sistemática diferente de seu mestre, que o fazia em forma de poesia e analogias. Há
também diferenças entre seus pensamentos, pois Aristóteles não aceitava o mundo
das ideias. O filósofo afirmava que era necessário compreender como o pensamento,
de forma geral, funcionava, independente do conhecimento. E com este objeto de
estudo, deu origem à Lógica, que é uma das áreas da filosofia atualmente.
Figura 3 - Mito da caverna
Fonte: < http://media.photobucket.com > Aristóteles, por suas crenças, institui uma classificação filosófica de áreas
de conhecimento, incluindo as ciências produtivas – em que há ação humana
para produção de algo, como exemplo, arquitetura, medicina, escultura,

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Capítulo 1 Capítulo 1

poesia, etc.; as ciências práticas – estudam a prática humana, sendo o próprio Como vimos, em sua essência, a palavra filosofia vem do grego e
ato realizado, como a ética e a política; e as ciências teoréticas – destinam-se significa amor e respeito à sabedoria. Pode-se dizer que, mesmo considerando
à compreensão de coisas que existem sem a influência do ser humano, como a origem da filosofia cujo foco mudou no decorrer do tempo, o objeto se
exemplos, a física, biologia, psicologia, teologia, entre outras (CHAUÍ, 2003). manteve. A filosofia é a ciência em que seus praticantes destinam seus estudos
Para Santos (2009), atualmente ainda há resquícios da forma aristotélica de ao questionamento do que inicialmente é verdade.
pensar em relação à ciência, embora haja um novo paradigma científico, com
uma melhor observação de fatos e visão de mundo. Você pode encontrar em seus estudos diferentes definições para a
filosofia. Alguns filósofos famosos definiram filosofia de acordo com a época
Por fim, temos o período helenístico da filosofia, em que se afirma que o em que viveram: Platão apresenta a filosofia com um conhecimento verdadeiro
mundo é a sua cidade e que somos cidadãos do mundo. Constitui-se a filosofia a serviço da humanidade; Descartes a definiu como o estudo da sabedoria de
de grandes doutrinas, buscando explicar a natureza, o homem e a relação todas as coisas necessárias à vivência humana; e Marx dizia que a filosofia
entre os dois. Neste período, há uma preocupação com a ética, com a física, deveria conhecer o mundo a fim de transformá-lo (CHAUÍ, 2003).
com a teologia e com a religião.
Se você perguntar a explicação da filosofia em rápidas palavras, diria
Estes períodos apresentam o início da filosofia e os pensamentos dos que é um ato de pensar e ajuda no desenvolvimento de nossas habilidades
primeiros filósofos. Esse entendimento permite que você compreenda a busca mentais. Pensando em seu objeto e sua epistemologia, pode-se dizer que a
incessante do ser humano pelo conhecimento, apesar de apresentar foco filosofia é uma ciência que, caso não existisse, o mundo continuaria como é;
diferenciado em cada um dos períodos apresentados. ainda assim, é o mais útil de todos os saberes por fornecer à sociedade meios
para ser consciente de si e de suas ações.
CURIOSIDADE
Pitágoras foi o criador da palavra filosofia e afirmava que “o filósofo
Em Nova York, no zoológico do Bronx, um
grande espaço é destinado aos primatas como [...] é movido pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar as coisas,
chimpanzés e gorilas. Em uma das jaulas, as ações, a vida; em resumo pelo desejo de saber” (CHAUÍ, 2003, p. 25). Como
separadas das outras e muito protegida, há você pode perceber, voltamos à origem da palavra filosofia.
um letreiro informando que ali você pode
encontrar o primata mais perigoso e destruidor O filósofo, em seus estudos, se baseia em problemas da existência,
do mundo. Quando você se aproxima vê sua própria imagem em um
porém para compreendê-los, precisa afastar-se deles e encontrar maneiras de
espelho. O zoo chama a atenção para o fato de tudo que o homem
promover mudanças.
já causou à natureza e a si mesmo. Pretende que o ser humano pare
e se questione sobre como está vivendo e o que vem fazendo para o
bem ou mal deste planeta (MATURANA e VARELA, 2001). Como você acredita que está tendo uma atitude filosófica? No começo
do capítulo, comentei sobre o julgamento que fazemos a colegas dizendo que
está filosofando como sendo algo pejorativo. Espero que, neste momento,
1.2.2 O que é filosofia? filosofar seja algo mais relevante para você.

Agora que você já teve acesso a algumas informações referentes à filosofia Se a partir de agora, você se concentrar mais nas atividades de sua rotina
e sua origem, seria capaz de dizer o que compreende por filosofia? Você já diária e começar a questionar certas verdades, você estará se afastando de
está convencido do conceito desta ciência? Supondo que algumas dúvidas ainda si para compreender melhor aquilo no que acredita e julga correto. Assim,
pairem em seus pensamentos, vamos conversar um pouco sobre o que é filosofia. estará tendo uma atitude filosófica.
Porém, cabe alertá-lo que não há um conceito único e preciso para a ciência.

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Capítulo 1 Capítulo 1

A nossa não aceitação direta ao que nos é imposto ou dito nos impulsiona ao Como você já descobriu, a relevância de estudar filosofia passa pelo
ato de filosofar. O que está ao nosso redor pode não ser tão óbvio e a filosofia nos desenvolvimento das habilidades de análise, avaliação e argumentação. E
convida a jamais aceitar como verdade antes de uma investigação ou compreensão. você deve se preocupar em ter atitudes filosóficas.

Você pode começar pela sua dedicação aos estudos nas disciplinas. A tríade o que, como e por que demonstra que você tem atitude filosófica.
Quando você não aceitar ou não se convencer de algum conceito ou definição Saber qual a realidade ou natureza do objeto identifica o primeiro questionamento
de determinado autor, pode ter uma atitude filosófica em relação ao tema e da tríade. Em “como”, a filosofia busca qual estrutura e relações referem-se ao
buscar conhecimento suficiente para ter opinião a respeito e ter a sua verdade objeto. E a origem ou causa do objeto é questionada em “por quê”.
com compreensão real.
Além disso, autores afirmam que a filosofia pressupõe uma reflexão
Morris (2000) afirma que a filosofia desenvolve três habilidades filosófica por parte de quem decide pensar com maior rigidez. Por sua
em quem a estuda, e justifica nisso a necessidade desta nos currículos escolares. definição, reflexão é um “movimento de retorno a si mesmo” (CHAUÍ,
Estas habilidades serão apresentadas para, mais uma vez, ajudar você a 2003, p. 20). Na filosofia, o rigor da reflexão obriga ao filósofo indagar
compreender o porquê de estudar filosofia. A primeira delas relaciona-se à a si próprio, encontrar motivos para o que fazemos ou dizemos, chegar às
necessidade imposta pela filosofia em analisar temas discutíveis. Ao estudar últimas consequências até encontrar a conclusão ideal, conhecer o objetivo de
os filósofos mais conhecidos, você pode aprender com eles como desenvolver determinado questionamento e entender o conteúdo sobre o qual estamos
esta habilidade. Pode, assim, analisar aspectos de sua vida como: entender pensando, filosofando.
pensamentos negativos, quais são suas aptidões e como educar melhor seus
filhos. Morris (2000) alerta: ao analisar, devemos ser imparciais e não deixar o Cabe deixá-lo ciente de que, conforme Chauí (2003), a filosofia precisa de
sentimento atrapalhar os pensamentos em demasia. enunciados rigorosos, com obtenção de provas para apresentar resultados, e é
sistemática, exigindo que seus questionamentos sejam válidos e verdadeiros,
E quando você se depara com situações conflitantes, como, por exemplo: constituindo ideia verdadeira.
está em uma loja e decide realizar uma compra, você pode se questionar se
o objeto de compra é realmente necessário ou apenas está atendendo a um 1.2.3 Filosofia contemporânea
capricho seu. A sua habilidade de avaliação neste momento é crucial para que
você tome uma decisão. Muitas vezes, nossos desejos não são necessidades, e Este período envolve os conhecimento e direcionamento filosóficos até
precisamos ser capazes de avaliar. os dias atuais. Para que você compreenda de forma facilitada o que a filosofia
atual discute, vou apresentar a cronologia dos períodos da história da filosofia
Os pensamentos filosóficos podem ser avaliados se você realizar e como os aspectos discutidos vão modificando. Os períodos apresentados
questionamentos como: é coerente? É completo? É correto? E demonstrar serão os considerados por Chauí (2003): filosofia antiga, patrística, medieval,
discernimento para obter uma afirmativa para as perguntas. renascença, moderna, iluminista e contemporânea.

A terceira habilidade desenvolvida pelo estudo da filosofia possibilita A filosofia antiga é datada do VI a.C. ao século VI d.C.; refere-se à fase
que você faça o uso correto do argumento na defesa ou refutação de um de origem da filosofia, que discutimos incluindo o período pré-socrático,
pensamento. Algumas pessoas podem confundir esta habilidade e achar socrático, sistemático e helenístico.
que se trata de gritar mais alto do que quem possui outra posição, afirmar
incisivamente o que acredita ou ainda fazer provações. O que se deseja do Datada do século I ao século VII, a filosofia patrística (vem de
argumento é a exposição com conteúdos fundamentados, favorecendo a sua padre) tem como objeto subsidiar a evangelização com base nas epístolas de
posição sobre determinado pensamento a fim de chegar a uma conclusão. João e Paulo, atividade antes esquecida devido à filosofia antiga (MARTINS

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Capítulo 1 Capítulo 1

FILHO, 2000). Este período trouxe à tona a ideia de pecado, de santíssima CURIOSIDADE
trindade, de criação do mundo ideias, que foram esquecidas na filosofia
No século XI, surgem as universidades espalhadas
idealizada pelos gregos como Sócrates e Platão. Os principais filósofos que se por toda a Europa, entre elas, a de Paris, de
destacam no período são: Clemente de Alexandria, Orígenes e Tertuliano. Bologna e de Oxford. As universidades são
consideradas associações corporativas livres de
SAIBA QUE alunos e professores. Havia duas vertentes: uma
voltada à preparação filosófica; e a teológica, que
Alguns autores dividem a filosofia medieval estudava profundamente a sagrada escritura.
em patrística e escolástica (que seria o mesmo
que medieval) e consideram que a patrística
parte da medieval em função de apresentar
temas que se sucedem. No entanto, estamos
adotando a divisão sugerida por Chauí (2003),
em que se tem a patrística e a medieval é
também chamada escolástica.

A filosofia medieval surge com a queda do Império Romano e data


do século VII ao século XIV, sendo uma especulação filosófica voltada ao
teologismo. Neste período, culturalmente, o que regia a sociedade eram os
valores cristãos e por isso surge, nesta época, o que se chamou filosofia cristã.
Também chamada escolástica, a filosofia medieval sistematiza a teologia e
filosofia ensinadas nas escolas medievais (MARTINS FILHO, 2000).
Figura 4 - Universidade de Oxford – Inglaterra
Imagine você que, nesta época, a temática religiosa estava prevalecendo Fonte: <http://images.google.com>.
sobre a da razão; desejava-se que a fé fosse a justificativa da verdade. Com
grandes temas, os filósofos medievais discutiam a relação humana e religiosa, A seguir, temos a filosofia da Renascença, que trouxe a
como o corpo e alma, o que diferencia a razão da fé, e afirmavam que aquele conhecimento obras de grandes filósofos, como as de Platão e novos
que estava mais ligado a Deus era considerado ser superior. Assim, os padres conhecimentos deixados por Aristóteles. A filosofia da Renascença é o período
estavam acima dos reis e autoridades. da História da Filosofia que, na Europa, está entre a Idade Média e o Iluminismo.

A exposição de ideias filosóficas era realizada por meio de apresentação As linhas de pensamento que predominavam eram de Platão, em que
de uma tese, que seria aceita ou não, com base em conceitos de outros o homem faz parte da natureza e a ideia de dois mundos, como o mito da
filósofos, como Aristóteles ou até pelo que dizia a Bíblia. Esta técnica ficou caverna; a ideia de defesa de ideais republicanos; e o homem como aquele
conhecida como Disputa. Alguns filósofos de destaque da filosofia medieval que decide sua vida e seu destino. Alguns dos filósofos dessa época foram
foram: Santo Anselmo, Santo Alberto Magno, Roger Bacon e Averróis (árabe) Dante, Maquiavel e Thomas Morus.
e Maimônides (judaico).
Conhecida também como Grande Racionalismo Clássico, a filosofia moderna
data do século XVII e tem participação marcante de Lutero e Descartes. O primeiro
foi responsável pela ruptura da religião, possibilitando o acesso livre à Bíblia. O
segundo fez uma ruptura filosófica, criando novos alicerces para o pensamento.

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Capítulo 1 Capítulo 1

Na filosofia moderna, o pensamento passa a ter as marcas do racionalismo, do A filosofia iluminista, datada do século XVIII ao início do XIX, preocupava-
antropocentrismo e do saber ativo. Para os filósofos deste período, o conhecimento se pela relevância dada às ciências, principalmente a biologia como campo da
pode ser apresentado desde que seja relacionado com ideias que possam ser filosofia de vida e pelas artes, consideradas expressões do progresso humano.
comprovadas de forma racional. Os conceitos e conhecimentos são formulados por Além disso, prepondera o questionamento sobre a riqueza do mundo e
quem os procura, os transforma e são completamente conhecidos por este. pensamentos sobre economia.

Como antropocentrismo, entenda a necessidade do homem de estar Chauí (2003) aponta aspectos que eram afirmados pela filosofia
no centro de tudo. Agora, os filósofos discutem se o ser humano pode iluminista: a liberdade e a conquista social e política podem ser alcançadas
descobrir qualquer coisa, desejam saber qual sua capacidade intelectual. O com o uso da razão; seria possível o aperfeiçoamento, progresso e perfeição
conhecimento foco da filosofia está naquele que aprende, e não mais apenas humana (não existiriam preconceitos ou medos) pelo uso da razão; a razão
no objeto do conhecimento. seria aperfeiçoada dependendo da evolução e progresso das civilizações; e
por fim, entendia que a natureza era formada por suas leis e pelas relações de
O conhecimento partindo da própria realidade - esta é submetida a causa e efeito e nenhuma relação existia com a civilização. Assim, o homem
experimento e volta à realidade - constitui o foco do saber ativo. O homem tem o livre apresenta, por sua vontade, perfeição moral, política e técnica. Como
poder de, por meio da observação e da razão do que acontece no Universo, conhecer principais pensadores, temos: Rousseau, Kant, Fichte e Voltaire.
e compreender os acontecimentos e transformar a realidade. Este pensamento
implica no homem dominando, por meio de técnicas, a natureza e a sociedade. Agora que você está situado no tempo da filosofia e conseguiu
vislumbrar as abordagens adotadas em cada período filosófico, vamos
REFLEXÃO conhecer a filosofia contemporânea.

Por muitos autores, ela é considerada a mais complexa das várias


Releia e pense no parágrafo anterior. Reflita correntes existentes. Também é difícil de ser explanada por ainda estar em
e tente relacionar o saber ativo a algo que já evolução, já que contempla até os dias atuais.
conhece ou estudou. O que o saber ativo pode
ter trazido para nosso cotidiano?
Na filosofia, este período, iniciado no século XIX, é marcado
por descobertas no campo das artes, ciências, história do homem e
da sociedade. Uma delas é que a humanidade progride acumulando
conhecimentos e aperfeiçoando suas tecnologias, se comparado ao que
A característica do pensamento moderno, relacionada ao saber ativo, existia em um período anterior. A filosofia apostava suas fichas no saber
diz respeito a vários aspectos de nossa realidade. Esta crença na capacidade científico e tecnologia como forma de controlar a natureza e a sociedade.
da humanidade em transformar a realidade, em coletar dela informações, De certa forma, estas características do período demonstravam uma
possibilitou a percepção do binômio teoria e prática, propondo os conceitos grande euforia em relação aos resultados que seriam alcançados por meio
de experiência e tecnologia. das ciências, gerando uma aversão à reflexão filosófica, pois o que se
imagina eram respostas inquestionáveis e controle sobre a natureza e
Ou seja, os estudiosos conseguiram teorizar o que viam na realidade e assim sociedade (SANTOS, 2009).
surgem algumas ciências ou base para estas, como a Matemática (geometria,
cálculo, probabilidade), fenômenos elétricos, criação do barômetro, explicação Este otimismo exagerado no progresso humano denominou-se
da circulação sanguínea, entre outros. Destacam-se neste período pensadores positivismo e teve como pai, Augusto Comte. As teorias filosóficas do
como Fernat, Descartes, Newton, Leibniz, Hooke, Galileu, Pascal, Huygens. século XIX foram questionadas no século XX e os resultados esperados

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Capítulo 1 Capítulo 1

inicialmente não foram alcançados. Os questionamentos vieram em os acontecimentos do século XX – as guerras, bombas, devastação da natureza,
função de que a pregação do progresso permitia a legitimidade de que sofrimentos mentais, problemas éticos e políticos –, ficou claro à filosofia (e à
os mais adiantados poderiam dominar os atrasados, identificados como as humanidade) que o otimismo relacionado à ciência e à tecnologia era demasiado.
ideias do colonialismo e imperialismo. Além disso, entendia-se que havia
transformação contínua, acumulativa e progressiva da humanidade, o que Assim, surge uma vertente em que se teria a razão instrumental, voltada
foi negado pelos registros, já que cada época da história traz conhecimentos ao técnico-científico como meio de intimidação ao ser humano, e a razão
e práticas próprias do período. crítica, considerando-se que as mudanças verdadeiras na sociedade só ocorrem
quando há a busca pela emancipação do ser humano.
CURIOSIDADE
A desilusão com os ideais científicos e tecnológicos cedeu lugar à crença
O filósofo Augusto Comte concordava com as
ideias otimistas do progresso e responsabilizava nos ideais revolucionários para a construção de uma sociedade mais justa e
a ciência por esta possibilidade, prevendo que feliz. Porém, o surgimento, no século XX, do fascismo e nazismo fez os filósofos
o desenvolvimento social aconteceria com base abandonarem estas ideias. Os questionamentos estavam em torno de saber se
no conhecimento científico e controle científico o ser humano seria mesmo capaz de criar a tão sonhada sociedade, justa e feliz.
da sociedade. Devido a isso, Comte criou o
conhecido: ORDEM E PROGRESSO, que está na
Outra vertente da filosofia estava no reconhecimento da cultura como o
bandeira do Brasil (CHAUÍ, 2003).
exercício da liberdade possível, a sociedade que tornava os homens diferentes
dos animais. No século XIX, os filósofos julgaram que cultura seria algo global,
dado ao que se pensava neste século. Porém, como para falar de cultura seria
necessário que o filósofo direcionasse suas atitudes para a busca, no passado,
das tradições, já que cada povo tem uma maneira de se relacionar, tem sua
própria linguagem e forma de expressão, a ideia de cultura universal na
filosofia do século XX foi questionada.

Várias questões filosóficas ainda perduram, como a criada por Marx,


chamada ideologia. O autor sustenta que a sociedade impõe, a você e a mim,
determinada maneira de agir, que no nosso modo de pensar parece ser fruto
de nossa vontade. Marx sustenta que as classes dominantes exercem seu
poder sobre todas as classes de forma “que suas ideias pareçam ser universais”
(CHAUÍ, 2003, p. 53) e todos que fazem parte daquela sociedade devem tê-las
Figura 5 - Bandeira do Brasil como verdade absoluta.
Fonte: <http://images.google.com>.
Outra descoberta realizada por Freud é a do inconsciente, conceituado
Alguns filósofos desse período “apostam suas fichas” no saber científico e como um poder invisível que domina o nosso consciente. Para Freud, o ser
tecnológico como forma de manter controle sobre o ser humano, a sociedade humano tem a ilusão de que tudo o que faz, sua forma de agir, suas escolhas,
e a natureza. Várias ciências foram pensadas como salvadoras neste período, suas ambições, está plenamente controlado por sua consciência. Trata-se de
como a sociologia (julgava-se, pelo conhecimento que teria do homem e da uma forma de “[...] poder que domina e controla invisível e profundamente
sociedade, que haveria controle racional sobre estes); e a psicologia (em que nossa vida consciente” (CHAUÍ, 2003, p. 53).
seria possível controlar as causas de emoções e comportamentos humanos). Com

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 33 34 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 1 Capítulo 1

Outros filósofos de nossos tempos são: Michel Foucault, Wittgenstein e 1.2.4 A razão e a verdade
Husserl. Alguns filósofos brasileiros de destaque são: Miguel Reale, Antonio
Paim e Luis Washington Vita. Ao conhecer aspectos básicos da filosofia, você deve ter percebido
que algumas palavras são comentadas durante vários períodos e momentos.
Atualmente, a filosofia possui seus conhecimentos limitados e possui Isto demonstra o grau de relevância desses termos para o estudo que
seus próprios campos de reflexão. Pode-se citar: lógica, epistemologia, você está realizando.
ontologia, ética, filosofia política, filosofia da história, filosofia da arte,
filosofia da linguagem, história da filosofia e teoria do conhecimento Razão e verdade são dois termos que, em vários momentos, são
(CHAUÍ, 2003). contestados, negados ou lembrados. Neste sentido, acredito que seja
importante a você, acadêmico, compreender alguns aspectos relativos a
Você pode observar que as descobertas realizadas por Marx e Freud, estes conceitos.
respectivamente, ideologia e inconsciente, promoveram uma retomada das
ideias de ilusão e imaginação. Os conceitos do início da filosofia contemporânea Razão
foram colocados à prova e o fato de conhecer aspectos relacionados à razão
começa a ser questionado. A origem da palavra razão advém de duas fontes: o ratio, do latim,
que significa juntar, calcular, reunir, e logos, que vem do grego, e apresenta
Cervo, Bervian e Silva (2007) citam que a filosofia contemporânea propõe semelhança no significado. Você consegue expor o que compreende até este
questões como: será o homem dominado pela técnica? A máquina substituirá momento por razão e o significado de sua origem?
os homens? Quando chegará a vez do combate contra a fome e a miséria? A
tecnologia traz real benefício à sociedade? Na filosofia, a razão foi exageradamente cultuada em uma das correntes
filosóficas, o Iluminismo, sendo considerada a responsável pelo progresso da
PRATICANDO humanidade. Como vimos, Marx e Freud fizeram os filósofos repensarem a
razão por meio de suas descobertas na filosofia contemporânea.
Lembrando dos períodos da origem da filosofia
e da cronologia filosófica apresentada neste
tópico, apresente o período da origem e da O que você pensa quando ouve a palavra razão? Que associações você
história da filosofia em que as ideias retomadas consegue fazer? Acredito que uma das primeiras ideias que passam em sua
por Freud e Marx relacionadas à ilusão foram cabeça seja o termo racional, isto é, eu, como ser humano, tenho razão
discutidas. Qual filósofo retratou a ilusão? Que diferente de um animal, considerado irracional. E que difere do emocional, da
recurso utilizou para demonstrá-la?
ilusão, do que diz a religião e do místico.

Chauí (2003) afirma que utilizamos a palavra razão de maneiras diferentes


Ao conhecer as várias fases da filosofia, você entrou em contato com e podemos estar fazendo uso dela de forma parcial, considerando a amplitude
nomes que são conhecidos, atualmente, também como cientistas. Isto porque, de seu conceito (ARANHA e MARTINS, 1993). Reflita agora em que momentos
durante certo tempo, não havia uma definição clara entre ciência e filosofia e de sua rotina você utiliza a palavra razão? Em quais situações faz uso dela?
também porque são os questionamentos sugeridos pela filosofia que, muitas
vezes, levam a resultados científicos. Santos (2009) afirma que, por meio da Eu, por exemplo, utilizo esta palavra no supermercado, quando digo ao
reflexão, é possível aos cientistas adquirir competência e interesse filosófico gerente que tenho razão de reclamar em função do mau atendimento. Posso
em problematizar suas práticas científicas. Com isso, sugere que, atualmente, fazer uso dela para argumentar com meu filho a razão de ter quebrado um
têm-se cientistas-filosóficos, como não se viu em outras épocas na história. brinquedo por vontade própria ou a razão de estar chorando por tanto tempo.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 35 36 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 1 Capítulo 1

Em uma discussão de trânsito, quando alguém, distraído, bateu na traseira do (2000) afirma que a razão é o poder que o ser humano possui para organizar e
carro, meu marido, muito exaltado, saiu do carro, começou uma discussão e eu interpretar a experiência adquirida ao longo da vida e a capacidade de chegar
disse a ele para se acalmar ou poderia perder a razão. a conclusões confiáveis.

Ao afirmar o uso da palavra razão para tantas situações diferentes, estou Russel (apud MORRIS, 2000, p. 45) diz que “a mente é uma máquina
contrapondo o que disse ser o pensamento da maioria das pessoas sobre a estranha capaz de combinar das formas mais espantosas os materiais que lhe
palavra, no segundo parágrafo deste tópico. Pascal (apud CHAUÍ, 2003, p. 60), são oferecidos”. Ou seja, tudo o que recebemos pode ser combinado com
lá no século XVII tem uma frase que você deve conhecer: “O coração tem nossas experiências, gerando novos conhecimentos.
razões que a razão desconhece”. A frase reafirma os diferentes sentidos da
palavra razão, que para a filosofia pode ser: “certeza, lucidez, motivo, causa” A filosofia divide a atividade racional em intuição e raciocínio. No
(CHAUÍ, 2003, p. 60). primeiro caso, o conhecimento do objeto ou fato é geral e completo.
Esse discernimento pode vir na forma do simples ato de reconhecer
DESAFIO uma pessoa, um carro, uma bolsa e define a intuição sensível. Quando
a percepção foca nas qualidades do objeto, como cor, forma, texturas,
refere-se à intuição empírica.
Você reconhece os dois significados diferentes
da palavra razão na frase dita por Pascal: “O A razão discursiva ou raciocínio são demonstrações que comprovam os
coração tem razões que a razão desconhece”? resultados e conclusões obtidos no processo do conhecimento, e para isso, são
Explique.
possíveis três procedimentos: dedução, indução e abdução.

No caso de dedução o raciocínio parte de uma verdade global e se prova


que todos os casos específicos (que são iguais) podem ser aplicados. Quando
Agora que já conversamos sobre alguns aspectos relacionados à razão, o raciocínio é o inverso, pensa-se em um fato particular e se busca encontrar
retomo a pergunta que fiz no primeiro parágrafo: considerando a origem da a verdade geral; trata-se aqui de indução. A abdução, abordada por alguns
palavra e o que você compreende por razão, consegue vislumbrar a relação? autores, é como uma intuição que ocorre em etapas; este raciocínio acontece
quando uma nova área está sendo descoberta.
O significado, conforme a origem do termo, é juntar, calcular, reunir.
Ao pensar sobre estas palavras, o que você compreende como atividades que A razão, por sua natureza, incorpora algumas características ao conceito,
faria para desenvolvê-las? Quando você faz uma prova de matemática e a nomeados por alguns autores como princípios da razão. A identidade afirma
questão apresentada pelo professor pede que você calcule os juros em uma que “eu sou eu”, ou seja, eu sou conhecida por ser esta pessoa e isto deve
determinada situação-problema, qual a sua atitude? A resposta pode ser: “eu ser mantido desta forma para que eu tenha a minha identidade. Isso pode
entrego a prova, pois não sei nem por onde começar” ou você se concentra se relacionar às coisas, por exemplo, o que você conhece por uma caneta
na atividade procurando ordenar seus pensamentos a fim de expor, em forma ou um dispositivo qualquer, com suas características exatas, será sempre
de palavras, a resposta. Lembro que, inicialmente, os gregos representavam reconhecido desta maneira.
número como letras.
A não-contradição também é explícita na razão. Exemplos: você não
E agora ficou mais fácil para você fazer a relação? Razão, de acordo pode afirmar que está e não está com fome; que tem e não tem carteira de
com sua origem, refere-se ao pensamento e fala de maneira ordenada e motorista; foi aprovado e não foi em determinada disciplina neste semestre;
clara, com possibilidade de compreensão para o outro (CHAUÍ, 2003). Morris a razão não permite a afirmação e negação de uma coisa, em determinado

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Capítulo 1 Capítulo 1

momento, em determinada situação e determinada relação realizada. Verdade


Diferente de afirmar que eu reprovei na disciplina neste semestre, mas serei
aprovado no próximo. Você compreendeu do que se trata a razão e suas características.
Mas o que a razão pretende? Ou ainda, o que você pretende quando adota
A decisão de um dilema é foco no chamado excluído, em que se pode um ato racional?
escolher entre duas situações apenas. Exemplos de exclusão ocorrem nas
situações apresentadas: em determinado horário, em um dia da semana, Ao tomar uma atitude racional, o ser humano pretende agir da melhor
você precisa decidir se naquele momento vai à praia ou ao futebol; se vai ao forma possível frente a uma situação. Você deve considerar que, ao raciocinar
casamento com este ou aquele vestido. frente a determinado fato, está considerando suas crenças. Embora seu
objetivo seja a busca pela justiça e verdade, como pressupõe a filosofia.
A razão suficiente pressupõe que para algo acontecer há uma causa
relacionada. Como exemplo, tem-se que, em uma partida de futebol A forma como você percebe o mundo, como age, as atitudes que
decisiva (apenas um dos times precisa sair vencedor), um dos times irá apresenta dependem de suas crenças. Estas proposições sobre o mundo nós
ganhar e, consequentemente, o outro time perderá. Logo, se o time 1 temos em grande número e sua relevância pode ser vista quando um pai
ganhar, necessariamente o time 2 perdeu, e se o time 2 perdeu é porque o educa seu filho ou quando ocorre um atentado terrorista. Mas nem todas
time 1 ganhou. as crenças que temos são verdadeiras em virtude de falta de informação,
distração ou apenas de não perceber a presença de determinado objeto
Ao observar a teoria a respeito da razão, você percebe que tem atitudes (MORRIS, 2000).
racionais todos os dias desde o momento em que acorda, sejam intuitivas ou
racionais. Mas você já se perguntou como recebeu capacidade de raciocínio? Você já percebeu como deseja insistentemente que tudo aquilo no qual
acredita seja verdade? Isto não é possível ao ser humano, pois sempre haverá
A filosofia apresenta duas respostas para este questionamento. Uma alguma crença que não será verdade. Citando a religião, existe uma infinidade
delas afirma que, ao nascer, já trazemos as características referentes ao e apenas uma pode estar certa ou nenhuma ou concepções de várias delas.
raciocínio e à inteligência, chamando esta vertente de inatismo.
Quando você deseja que sua crença seja verdadeira e se torne algo
O empirismo contraria o inatismo e afirma que adquirimos a razão, as verdadeiro a todos, pretende chegar ao conhecimento. Para isso, sua crença
verdades e ideias. Acredita-se que o ser humano é como uma folha em branco precisa ser justificada, pois a crença que considera verídica pode ser falsa.
e a razão é uma forma chegar ao conhecimento; a partir das experiências que
vivenciamos, aprendemos e vamos escrevendo na folha em branco. Podemos analisar filosoficamente uma crença para que esta seja justificada
e você pode decompô-la em várias condições. Morris (2000) exemplifica esta
Ambas as respostas apresentam conflitos. No caso de a razão ser inata, situação utilizando como crença o que é um homem solteiro. Para tanto, o
não poderia sofrer influência externa e você jamais mudaria seu intelecto. No autor busca uma definição em que o solteiro é um ser humano, que não é
empirismo, a forma como é inserido o conceito impossibilita o conhecimento casado, do sexo masculino e possui idade para casar. O próximo passo seria
objetivo da realidade universal. decompor as informações. Você consegue encontrar quatro condições?

Lembre-se da viagem que fizemos à história da filosofia e como os São elas: ser humano, não casado, sexo masculino e idade para casar:
aspectos discutidos pelos filósofos se modificaram, foram descartados e
retornaram ao pensamento filosófico. Percebe-se que a compreensão da razão • caso atenda apenas à condição do sexo, poderia ser um cachorro;
se altera conforme a perspectiva de leitura de mundo adotada. logo, preciso usar outra condição que afirma ser um homem;

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 39 40 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 1 Capítulo 1

• pode não ser solteiro e ser homem, logo, a condição não casado diferentes mídias em um mesmo dia, tenha informações diferentes a respeito
precisa ser satisfeita; de um assunto específico. A publicidade é mais um fator que inibe a busca
pela verdade, por não oferecer ao seu espectador informações sobre o
• satisfeitas as três condições, a crença pode não ser justificada, pois produto anunciado, e sim utilizar-se de ideias fantasiosas, como a de que o
pode ser um bebê; a quarta condição deve ser considerada para o uso do produto trará felicidade.
conceito de solteiro.
As atitudes negativas da política também atrapalham a busca das pessoas pela
No exemplo, a crença seria justificada e teríamos um conhecimento. verdade. Se você já está convencido de que não há verdade na política, possivelmente
Então, tem-se a sequência apresentada na figura 6, como sugere Morris (2000). você não acreditará em seu voto, na validade do seu poder de mudança.

Embora a verdade, em seu total, não possa ser captada por um ser humano,
Crença Verdade Conhecimento
o esforço por encontrá-la pode ajudar a grandes descobertas no mundo.
Figura 6 - A crença deve ser verdadeira para ser considerada conhecimento
A busca pela verdade é o queremos para provar um conhecimento. O
Você percebe o desejo de que sua crença se torne uma verdade? Você desejo de que algo seja verdadeiro é fruto de uma forte vontade que temos de
já não desejou que Papai Noel existisse? Segundo Chauí (2003), desejar que que seja de determinada forma. Para isso, questionamos e buscamos respostas.
algo seja verdadeiro vem de nossa infância. Quando criança, o ser humano Ao atestarmos a verdade, baseado no que temos de experiências, em provas
mergulha nas histórias que ouve, e a todo tempo deseja que os brinquedos concretas, em nossas crenças divinas ou em deduções possíveis, acreditamos
sejam reais e pergunta se é “de verdade”. ter gerado conhecimento (assunto a ser abordado no capítulo 2).

A verdade pode ser considerada a manifestação do que realmente é ou A razão nos permite refletir sobre os aspectos ou fatos que são de nosso
existe e se contrapõe ao falso (CHAUÍ, 2003). Pode ser também conceituada interesse em busca de uma verdade que se espera ser única. Veremos que
como um conjunto de crenças aceitas pelos indivíduos, que o tornou consenso dependendo da maneira como esta é descoberta, podemos estar fazendo
(ARANHA e MARTINS, 1993). Pode-se dizer ainda que verdade é o ser humano ciência, assim como se percebe que várias ciências podem se cruzar para
se encontrando com desvelamento (CERVO, BERVIAN e SILVA , 2007). contemplar um determinado conhecimento.

Encontrar a verdade pode ser uma atividade prazerosa, mas pode ser
também algo triste se estiver ligado à decepção. Tome como exemplo situações 1.3 Aplicando a teoria na prática
que vivencia no trabalho, com sua família e no meio acadêmico e conseguirá
observar o contraponto. Uma pessoa que está à procura de seu pai biológico A seguir, apresento uma situação rotineira e uso um nome fictício para
e o exame de DNA afirma que o encontrou tem aí uma verdade prazerosa. narrar uma situação em que você pode se reconhecer.
Agora, se uma pessoa descobre apenas quando jovem que foi adotada, esta
verdade pode ser uma decepção. João acordou cedo como todos os dias. Foi ao banheiro e realizou a
higiene pessoal, como sempre fazia. Voltou ao quarto, olhou a esposa, que
A busca pela verdade não é muito aceita em nossa sociedade e Chauí ainda dormia, e pensou como era feliz por ter alguém como ela ao seu lado.
(2003) aponta alguns aspectos que justificam sua afirmação. A quantidade Ao mesmo tempo, uma onda de dúvidas o cercou e conversando consigo,
de meios de comunicação existentes hoje é o primeiro motivo. São tantas pensou: como se pode amar tanto uma pessoa? Como explicaria o que é o
informações que as pessoas não se preocupam em buscar a verdade, pois amor? Como se diferenciava do amor incondicional que sentia pela filha de
acreditam que já estão recebendo. Mas é possível que, se você acessar três anos que dormia no quarto ao lado?

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 41 42 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 1 Capítulo 1

Continuando sua rotina, dirigiu-se à cozinha tomou seu café, voltou ao A situação apresentada inicia com filosofia pura. Ao questionar-se sobre o
quarto e preparou-se para ir ao trabalho. Foi ao quarto da filha, deu-lhe um beijo amor e a existência de tipos de amor, João está tendo uma atitude filosófica. Ele
na testa e pensou: como Deus havia sido generoso ao oferecer-lhe uma filha não se preocupa apenas que ama aquela mulher e a filha, quer entender porque
tão linda, uma casa, comida e roupas. Estava realmente agradecido ao criador isso ocorre, se o amor que sente pela mulher é diferente do que sente pela filha.
e sentia que sua aumentava a cada dia pelas maravilhas que aconteciam a ele.
Ao remeter tudo o que tem a Deus, João nos faz relembrar do período em
Ao descer a garagem do prédio em que morava, percebe uma discussão que a responsabilidade por tudo que ocorria com o ser humano estava nos Deuses.
entre o zelador e um dos condôminos. Ao descer com seu cachorrinho para
passear, o morador deixou o animal fazer suas necessidades no jardim e já Quando pensa a respeito da situação entre zelador e condomínio, João
ia indo embora sem realizar a devida limpeza e o zelador tentava convencer utiliza a razão para definir do lado de quem fica. Para ele, era óbvio que o
o rapaz de que deveria limpar a sujeira do cão. Entrou no carro e por estar zelador estava com a razão. Isto nos remete à fase da filosofia de Aristóteles,
atrasado foi pensando o quanto o rapaz estava errado. Pensou que talvez o período sistemático, que se preocupa, entre outros aspectos, com a prática
zelador pudesse fazer um documento com dados comprovados pela ciência de humana, discutindo o significado da ética.
que fezes de animais podem causar doenças aos moradores do prédio.
A situação encontrada quando João chega ao trabalho nos lembra
No trânsito, estava ouvindo músicas que gostava muito, quando um Platão, e o caso dos homens estarem presos na caverna, ou seja, o chefe
motoqueiro lhe chamou atenção pela forma que dirigia. A moto era conduzida parecia preso naquilo em que acredita, não conseguia acreditar que poderia
em velocidade alta, à frente havia uma parada de ônibus, o ônibus parou como haver outra solução, outra realidade para a situação. Se João tentasse ajudar,
de costume, a seguir, dois carros. Distraído, o motoqueiro bateu na traseira poderia ser demitido (ou morto, como na alegoria da caverna).
do último carro parado na fila. Ninguém se feriu, mas a fila se formou. João
percebeu que o motoqueiro culpava o motorista do carro, porém ele havia
batido na traseira e não se tem como discutir esse tipo de situação. 1.4 Para saber mais
Enfim, chegou ao trabalho, o chefe estava histérico por algo que não Sugiro algumas leituras para que você se atualize sobre o tema estudado
havia dado certo. Preso em seu mundo, não admitia discutir com qualquer no capítulo 1:
colega de trabalho o que poderia ser feito, preferia ficar com sua frustração.
João foi para a sua mesa e resolver trabalhar. Sabia que não adiantaria sua MATURANA, H. R.; VARELA, F. J. A árvore do conhecimento. São Paulo: Palas
força de vontade em ajudar. Athena, 2001. Cap. 1.

Inspirado pelo estudo que realizou, identifique, no caso apresentado, Neste livro, no capítulo indicado - “Conhecer o conhecer” - o autor
aspectos relacionados aos assuntos abordados neste capítulo. Lembre: você discute a relevância de questionamentos e mostra situações em que somos
estudou filosofia, verdade e razão, noções sobre o conhecimento. É possível enganados pelo que julgamos ver.
que, em uma situação, você encontre relação com mais de um tópico do estudo.
PLATÃO. A República. Bauru: EDIPRO, 1994.
1.3.1 Resolvendo
Se desejar conhecer mais sobre o filosofo Platão e seus pensamentos,
Ao apresentar uma solução para o caso, eu destaco os principais aspectos este livro é uma sugestão. Nele, você encontra na íntegra a alegoria da caverna
encontrados para cada atividade realizada pelo personagem. É possível que que discutimos no capítulo.
você encontre outras informações que complementem a resposta.
Edgar Morin - <http://www.edgarmorin.org.br>

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 43 44 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 1 Capítulo 1

Esta sugestão é para que conheça a obra de um dos mais importantes 1.6 Testando os seus conhecimentos
pensadores da filosofia contemporânea. Formado em Direito, História e Geografia,
realizou estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia. Possui vários livros na área. 1) Em se tratando da origem filosofia, relacione a coluna da direita com a da esquerda.

Portal da filosofia - <http://portal.filosofia.pro.br/> a) Pré-socrático ( ) Busca o conhecimento humano, e natureza


dos homens e da natureza, a relação entre
O site apresenta os maiores filósofos de todos os tempos apresentando estes e destes com Deus.
em detalhes suas histórias e principais contribuições para o universo da
filosofia. Aborda as ideias dos filósofos Descartes, Kant, Marx, Weber, entre b) Socrático ( ) Foca os estudos em compreender o lugar
outros, além de apresentar vários conceitos relacionados à filosofia que podem do homem no mundo investigando
complementar seus estudos filosóficos. questões humanas.

Crítica - Revista de Filosofia - <http://criticanarede.com/> c) Sistemático ( ) Preocupação exclusiva em descobrir sobre a


criação do mundo e as mudanças na natureza.
O periódico apresenta artigos e entrevistas destinados a estudantes,
professores e pesquisadores que tenham relação e afinidade com a área de d) Helenístico ( ) Desejo de provar que tudo pode ser objeto
filosofia e busquem conhecimento complementar ao assunto. da filosofia, obedecendo a critérios de
verdade e ciência.

1.5 Relembrando Assinale a alternativa que possui a sequência correta.

O capítulo 1 apresentou: a) a, b, c, d
b) d, b, a, c
• noções de filosofia: em que apresentamos sua origem, conhecendo e c) c, a, b, a
compreendendo os períodos da filosofia grega, além de estudar a busca pelo d) a, c, b,d
conceito de filosofia com base em diferentes autores. Foi possível vislumbrar e) d, a, c, b
vários filósofos considerados relevantes para o desenvolvimento da área;
2) Qual dos personagens a seguir é considerado o primeiro filósofo da história?
• aspectos da filosofia contemporânea: a fim de situá-lo e auxiliar na
compreensão da filosofia atualmente, foi apresentado o histórico a) Platão
do mundo filosófico desde a filosofia antiga até a contemporânea. b) Sócrates
Os períodos da filosofia estudados foram: filosofia antiga, patrística, c) Aristóteles
medieval, renascença, moderna, iluminista e contemporânea; d) Tales de Mileto
e) Descartes
• noções de razão e verdade e a influência da filosofia: a compreensão
da razão como forma de nos expressar de modo a propiciar a 3) Com relação à verdade, assinale a alternativa correta.
compreensão do outro e a verdade como sendo evidência da crença
que se tinha sobre algo gerando conhecimento. a) A crença não tem qualquer influência na busca da verdade.
b) A verdade pode ser absoluta, desde que comprovada.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 45 46 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 1

c) A verdade pode ser obtida com base apenas nas crenças que temos.
d) A relação entre razão e verdade é inexistente.
e) A verdade propicia o surgimento do conhecimento. CAPÍTULO 2
4) Explique a alegoria da caverna, ressaltando sua relevância para a filosofia.

A CIÊNCIA E A PESQUISA
5) Alguns acontecimentos históricos favoreceram o aparecimento dos filósofos.
Quais foram eles e por que tiveram esta influência?

2.1 Contextualizando

No capítulo 1, você conseguiu perceber a relação da filosofia e a ciência? Pelos


estudos que realizou, você pôde verificar que as primeiras ciências apareceram a
partir dos questionamentos filosóficos. A necessidade do ser humano em recriar e
transformar a realidade é uma característica da filosofia moderna, fazendo surgir
Onde encontrar as primeiras ciências, como a matemática. A percepção impulsionadora desta
descoberta foi a relação entre teoria e prática, percebida pelos pensadores da época.
ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 2.
ed. rev. atual. São Paulo: Moderna, 1993. Neste momento, você saberia explicar o que é conhecimento? Todo o
conhecimento é igual? Como se constrói o conhecimento? Sabe explicar o que
CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A; SILVA, R. da. Metodologia científica. 5. ed. São é ciência? Este capítulo pretende mostrar a você as respostas a estas perguntas.
Paulo: Pearson, 2007.
Além disso, você encontrará, no texto, aspectos que relacionam a ciência,
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003. a filosofia e a pesquisa. Poderá saber de que forma a filosofia influencia a
ciência e a pesquisa no decorrer dos tempos.
MARTINS FILHO, I. G. Manual esquemático de história da filosofia. 2. ed. rev.
e ampl. São Paulo: LTR, 2000. Chamo atenção especial para a compreensão deste capítulo, pois os demais
dependerão muito do conhecimento que você assimilar referente à ciência e pesquisa.
MATURANA, H. R.; VARELA, F. J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas
da compreensão humana. Trad. Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo:
Pala Athenas, 2001. 2.2 Conhecendo a teoria
MORRIS, T. Filosofia para Dummies: como usar os ensinamentos dos mestres 2.2.1 Natureza do conhecimento
no dia-a-dia. Trad. Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
Ao longo dos tempos, o ser humano busca o conhecimento pela sua
SANTOS, B. de S. Um discurso sobre as ciências. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2009. necessidade, como os povos primitivos que se esforçaram em conhecer o
mundo que os rodeava, a natureza, os animais, criaram objetos e formas

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 47 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 49


Capítulo 2 Capítulo 2

de cura para sua sobrevivência e também para saciar suas curiosidades No período contemporâneo, em relação ao conhecimento, a busca
(FACHIN, 2001). consiste em compreender se o ser humano seria mesmo capaz de criar a tão
sonhada sociedade, justa e feliz. O surgimento das ciências e campos específicos
Você consegue perceber a relevância e necessidade de conhecer o mundo para da filosofia marca o período.
que possamos sobreviver? É pelo conhecimento que nos apossamos da realidade e
dos objetos que fazem parte dela para lidar com as diferentes situações cotidianas. Você consegue perceber que o conhecimento, ao longo do tempo, é
reconstruído sempre com a intenção de estabelecer um relacionamento entre
Em contraponto, se você pensar em seus conhecimentos, pode se espantar o sujeito que deseja conhecer e o objeto a ser conhecido. Além disso, constitui-
quando comparar ao existente no mundo. Ainda quando o possuímos, muitas se de um ato intencional em que há o desejo do ser humano em investigar e
vezes, esses conhecimentos são superficiais e, muitas vezes, incertos. compreender um fenômeno determinado.

Ao longo da história, as visões filosóficas focaram de forma diferente Neste momento, você deve compreender que, por meio do processo de
o conhecimento. Relembrando os períodos da origem da filosofia, temos conhecer, conseguimos interiorizar o que vem de fora, da realidade, gerando
os sofistas e Sócrates. Os primeiros acreditavam que todos os homens conhecimento. Quando o desejamos, há um motivo, necessidade que nos
pensavam da mesma maneira, sendo a verdade a mesma para toda a humanidade. impulsiona a buscá-lo.
Para Sócrates, o ser humano precisava conhecer a si mesmo para que ideias pudessem
nascer, e seria necessário se afastar das ilusões para que a verdade fosse conhecida. Ao fazer uma análise sobre aspectos relacionados ao ser humano,
Cervo, Bervian e Silva (2007) apresentam quatro tipos de conhecimento.
Platão abordava o conhecimento baseado na teoria das ideias, em que se Os autores explicam que, ao considerar o mundo, a realidade que rodeia
reconhece o mundo sensível e o mundo inteligível. A definição de ciência como uma pessoa, é possível ditar várias informações com base em experiências
conhecimento verdadeiro que permite a compreensão da natureza é defendida por rotineiras adquiridas e no senso comum. Outro ponto destacado pelos autores
Aristóteles. No período chamado de patrística, considera-se que o conhecimento é o recorrente questionamento da espécie humana sobre sua origem, sobre
humano das verdades eternas é oferecido por Deus (MARTINS FILHO, 2000). aspectos do presente e do destino. Ainda é possível ao ser humano estudar
o que a Bíblia e os profetas de Jesus escrevem a serviço de Deus. Por fim, o
Já os filósofos modernos questionavam se era possível o conhecimento homem pode ser questionado sobre a verificação e comprovação de relações
da verdade e centralizado naquele que pretende conhecer. A posição em entre fenômenos e objetos.
relação ao conhecimento de Descartes preconiza que as verdades absolutas
são deduzidas pelo raciocínio. Utilizamos as diversas formas de busca de conhecimento para que
possamos evoluir e contribuir para o engrandecimento e também evolução
SAIBA QUE da sociedade. Você conhecerá agora os diferentes tipos de conhecimento:
empírico, filosófico, teológico e científico.
René Descartes (1560-1650) é considerado o pai
da filosofia moderna e sossegou sua inquietude
construindo a base para todo o seu pensamento Conhecimento empírico (vulgar ou de conhecimento do povo)
a partir da máxima “Penso, logo existo” (Cogito,
ergo sum). Filosofando sobre suas dúvidas, Você já viveu a experiência de dar alguma receita de sua avó para
raciocinou que se duvida de algo é porque uma determinada doença que é passada de geração em geração? Você já
pensa sobre isto, e se é um ser pensante, existe.
disse a um amigo: “olha, não faça experiência própria ou vai se dar mal”?
Já observou algum pescador mencionando que determinada fase da lua é
melhor para pescar?

50 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 51


Capítulo 2 Capítulo 2

A resposta dada a todas estas perguntas chama-se empirismo ou de uma planta ornamental, agora se perguntarem sua classificação, de quais
conhecimento empírico. Muitas vezes, a planta que a vovó indicava para curar partes é composta, dificilmente saberá responder.
um ferimento ou uma erva para um chá para curar uma doença funcionava,
mas não se sabe por que dava certo. Você percebe que os estímulos externos são relevantes para a criação
do conhecimento empírico que advêm de nossas percepções a fatos que nos
As relações que temos em nosso dia-a-dia, seja em sua família ou acontecem e que nos são repassados.
trabalho, fazem com que você tenha conhecimentos que vieram por sua
experiência de vida. Pense em atividades rotineiras que você realiza no seu Ao refletir sobre o conteúdo apresentado sobre conhecimento empírico,
trabalho, normalmente tarefas assim são executadas sempre da mesma forma. podemos unir alguns aspectos presentes, como a falta de especificidade,
A primeira vez que surge um caso diferenciado, que você nunca executou, ao aceitar o básico sobre o que é dito ou se sabe sobre o objeto; tem foco
resolvê-lo, você revela um novo conhecimento que parte de sua experiência. nas realidades que se apresentam; o resultado da experiência está estruturado
Isso é considerado empirismo. por quem a vivenciou, não há qualquer sistematização que afirme a veracidade
do fenômeno.
Desde muito tempo atrás, as pessoas que exercem atividades como
pescaria, seja por profissão ou lazer, se preocupam em verificar o período PRATICANDO
da lua buscando a melhor opção para a pesca, pela crença que esta afeta as
Pratique o exercício: identifique cinco
marés, embora não saibam o porquê de tal ocorrência. Os pescadores têm
conhecimentos que você tem e podem ser
razão: nas luas cheia e nova, as marés estão mais fortes, fazendo com que classificados como conhecimentos empíricos.
subam e desçam com muita violência (VENTUROLI, 1994). Justifique por que você o considera desta forma.
Isto o ajudará a entender melhor o conceito
Pode-se perceber que o conhecimento empírico pode ser adquirido deste tipo de conhecimento.
independente de estudos, pesquisas ou reflexões. Apresenta explicações
para fatos da forma que suas experiências mostram ao sujeito que
tem razão de ser daquela forma. Muitas vezes, o homem não sabe Conhecimento filosófico
justificar aquele conhecimento, pois, na maioria das vezes, aprende em
função de determinada circunstância, sem qualquer formalização da Acredito que seja possível a você rapidamente relembrar as noções que
investigação realizada. estudou até aqui.

Você percebe que o primeiro contato que realizamos é com o conhecimento Como você aprendeu, a filosofia tem sua relevância por possibilitar a quem
empírico? Ao conhecer coisas e objetos, num primeiro momento, fazemos o a estuda desenvolver algumas habilidades que permitem desenvolver o raciocínio.
reconhecimento, mas não nos aprofundamos em suas especificações. Você Além disso, pressupõe o questionamento ou investigação sobre algum fato novo,
sabe identificar o que é um papel, mas não possui explicações mais científicas exigindo do filósofo uma reflexão crítica. Estes aspectos são necessários em
sobre sua origem, a celulose. Você compreende que está com gripe, mas não qualquer ser humano com o desejo de estudar, desvelar novos fenômenos.
consegue especificar que tipo de vírus o acometeu.
Para Fachin (2001, p. 7), o conhecimento filosófico:
Fachin (2001) apresenta ainda outros exemplos que possibilitam entender
conduz a uma reflexão crítica sobre os fenômenos e possibilita aos
a limitação do conhecimento empírico. Você pode reconhecer e utilizar um
filósofos informações coerentes [...] objetiva o desenvolvimento
lápis com frequência, mas alguns seletos notam que é composto por grafite e funcional da mente, procurando educar o raciocínio.
é um condutor de energia. Um homem pode também reconhecer uma folha

52 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 53


Capítulo 2 Capítulo 2

O conhecimento filosófico pressupõe uma reflexão sobre um fato ou intelecto, de sua razão recai sobre a sua fé, que se manifesta pela presença
objeto, sempre objetivando a busca da verdade, mas não seu estabelecimento de revelações do mistério ou sobrenatural interpretados como revelação
a todo o custo. Assim, é possível, ao estudioso, por meio do debate de ideias, divina (FACHIN, 2001).
compreender o objeto e desenvolver seu raciocínio.
Todos sabem da certeza de que se tem a respeito da morte.
Alguns aspectos são também destacados no conhecimento filosófico, Costuma-se dizer que é a única certeza que o ser humano tem na vida:
como apresentar hipóteses não verificáveis; os questionamentos filosóficos são um dia, morrerá. Porém, há várias outras questões que não conseguimos
realizados de forma ordenada logicamente, e quando há indagações, estas estão responder, e muitos acreditam na existência de uma divindade e em
em consonância com a realidade, pois advêm de fatos ou fenômenos sociais. resposta vindas dela.

De acordo com o que você estudou, o conhecimento filosófico propõe a O que é exatamente esta divindade? Onde está? Como se apresenta?
reflexão e elabora princípios e valores válidos e considerados universais. São perguntas que podem se modificar pelos anos da história e conforme a
cultura dos povos. Deuses são cultuados há bastante tempo; alguns povos
Conhecimento teológico tiveram como esta figura o sol e a lua, outros acreditavam no Deus do amor
e muitos recorrem a um Deus único, universal.
Você já deve ter ouvido a palavra teologia, e rapidamente, ao ler o
subtítulo, fez uma relação com religião ou Deus. Você está no caminho certo. Assim, o conhecimento que é revelado pela divindade se aceito pela fé
A origem da palavra vem do grego, em que theos significa “Deus” e logos teológica irá criar o conhecimento teológico. Independente da forma como os
significa “palavra”. Desta forma, podemos compreender a teologia como o povos acreditam que seu Deus se manifeste, o conhecimento teológico existe
estudo de Deus ou manifestações divinas. e estará embasado na fé apresentada por estes povos.

O que se pode afirmar a respeito deste conhecimento é que não há Aquilo que pensamos e acreditamos com fé nos move, faz pensar e
possibilidade de ser negado ou comprovado. Se você estiver frente a um sentir. Você já deve ter ouvido a máxima: “a fé move montanhas”. Ela nos
mistério, como é o divino, você pode tomar dois caminhos: tentar de todas as diz que a fé contida em nós tem poder e está unificada com nosso intelecto
formas usar sua razão, valendo-se de procedimentos e técnicas que possibilitem e faculdades mentais.
o transformar em conhecimento filosófico ou científico; ou aceitar o que é
dito por alguém a respeito do mistério. O conhecimento teológico são respostas, resultados que alcançamos
utilizando nosso raciocínio, mas com base em revelações divinas.
Os mistérios nos colocam em situações complicadas ao necessitar tomar
uma posição. Pense em alguns casos judiciais em que a situação é tão complexa Conhecimento científico
que, embora haja um julgamento, sempre ficaremos desconfiados quanto à
verdade. Por exemplo, um acusado de assassinato sem testemunhas em que Você lembra que o estudo dos tipos de conhecimento iniciou pelo
o réu jura ser inocente. A menos que o acusado assuma a autoria do crime, empirismo? Ao primeiro olhar criterioso, pode lhe parecer um conhecimento
nunca saberemos se falou a verdade, por não ter qualquer outra pessoa que bastante simplório, por não usar qualquer método e não ser sistemático.
tenha visto o incidente.
Por outro lado, você percebe que o conhecimento empírico está
Quando você acredita em algo que lhe foi contado por alguém, mas relacionado às primeiras informações que se recebe e tem sua origem em
que você não tem como saber a verdade, demonstra uma atitude de fé. tempos remotos.
Assim, o conhecimento teológico refere-se àquele em que o resultado do

54 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 55


Capítulo 2 Capítulo 2

Neste sentido, para que seja gerado, o conhecimento científico necessita Você pode pensar, então, que se chegou à certeza não há mais o que
do empírico como base. É sobre a realidade existente, fruto do conhecimento discutir sobre o objeto de estudo. Engana-se, atualmente não existem verdades
empírico, que o ser humano irá estudar, procurando por comprovações, como absolutas e eternas. A qualquer momento, uma verdade pode ser contestada
causas e leis que possam ser aplicadas. e pesquisadores podem refutar, mudar ou confirmar verdades.

Na busca da verdade e comprovação do empirismo, o estudioso deve se 2.2.2 A ciência e a filosofia


valer de métodos e sistematizações que possibilitem demonstrar os resultados
encontrados. O pesquisador fará classificações, comparações, aplicará métodos, Durante a história, em um longo
fará análises e sínteses para estruturar o conhecimento científico. processo, por meio de observações do
meio em que vive, o homem reuniu e
A forma de conhecer utilizada para alcance do conhecimento científico processou várias informações, criando
difere do empírico exatamente pelo uso de instrumentos metodológicos. Espero conhecimento. Você conheceu as diversas
que você tenha percebido a palavra “metodológicos”, que deve remetê-lo ao formas de conhecimento existentes:
nome desta disciplina. Perceba que os estudos que fará nos próximos capítulos empírica, filosófica, teológica e científica.
estarão relacionados à busca do conhecimento científico. Nenhuma destas pode ser descartada e o
conhecimento empírico, por exemplo, é, por
A busca pela verdade dos fatos é objeto do conhecimento científico e vezes, base para que haja investigação por
não admite que o pesquisador se deixe influenciar em seus resultados por suas meio de método, criando o conhecimento
crenças ou valores. Para encontrar a verdade, é necessário que se tenha uma científico, que permite fazer ciência.
manifestação clara, transparente, o desvelamento e desocultamento do ser,
que se chama evidência (CERVO, BERVIAN e SILVA, 2007). Ao relembrar as questões filosóficas
estudadas no capítulo 1, percebemos Figura 1 - Personificação da “Ciência” em frente à
Você já deve ter ouvido e usado a palavra evidência para demonstrar que, inicialmente, filosofia e ciência Biblioteca Pública de Boston
aspectos que demonstrem clareza de que, por exemplo, determinada situação andavam entrelaçadas. Muitos filósofos Fonte: Science - Bela Pratt.
ocorreu. Pense em sua mesa de trabalho. Todos têm formas específicas de cuidar foram responsáveis por desenvolver temas
das suas coisas. Você deve deixar seus documentos e instrumentos de trabalho científicos, como por exemplo, Tales de Mileto e Pitágoras, que realizaram
organizados de seu jeito. Se, ao chegar ao seu trabalho, perceber algo diferente descobertas matemáticas. Porém, as descobertas de Galileu, comprovando
em sua mesa, dirá que tem evidências de que alguém passou por ali, mesmo que matematicamente uma observação de mundo por meio da lei da queda dos corpos
seja para realizar a limpeza. No caso do conhecimento científico, a evidência pode (chamada ciência positiva), fizeram com que ciência e filosofia se separassem.
ser obtida por meio de instrumentos metodológicos e sistematização de estudo.
De acordo com Fachin (2001), ao longo do tempo, outros episódios
Quando o pesquisador, embasado na evidência, chega a uma verdade demonstraram o aparecimento e fortalecimento da ciência, como:
considerada por ele de grande valia, em que não se tem dúvidas de sua
veracidade, diz-se que se tem certeza. Cervo, Bervian e Silva (2007, p. 14) a • a geometria apresentada por Euclides, baseado em conhecimentos egípcios;
definem como “um estado de espírito que consiste na adesão firme a verdade,
sem temor de engano”. Se, no exemplo anterior, além de você ver seus • os estudos sobre ciências naturais e biologia partindo da descoberta
pertences em lugares diferentes, perceber que uma mancha de café foi retirada de movimento celular apresentados por Aristóteles e também de
de sua mesa, terá certeza de que alguém passou por sua mesa. Lembre que no descrições de animais e classificações por meio de dados encontrados
conhecimento científico, tudo precisa ser comprovado de alguma forma. instituindo, em livro, uma metodologia;

56 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 57


Capítulo 2 Capítulo 2

• Francis Bacon sugeriu, baseado nas ideias de Aristóteles, que o método Chauí (2003) afirma que há três concepções de ciência ditadas pela
científico deveria iniciar com observação e experimentação; história: a racionalista, a empirista e a construtivista. E a autora (2003) explica:

• a publicação do livro de René Descartes, O discurso do método, que sugeriu • Desde o período grego até o século XVII, tem-se a concepção chamada
a apresentação da verdade pela utilização de procedimentos racionais; racionalista, em que a ciência podia comprovar verdades universais
sem que houvesse dúvidas, sendo um conhecimento racional dedutivo
• Newton institui o conhecimento científico por meio da e demonstrativo.
experimentação na matemática e da apresentação da simbologia
empregada neste campo; • Na concepção empirista, cujo período é de Aristóteles, ao final do
século XIX, o conceito de ciência é visto como interpretação de fatos
• estudiosos como Stuart Mill e Claude Bernard introduziram aspectos com base em fatos e experimentações.
referentes à forma como a comprovação científica deve ser realizada.
• Na concepção construtivista, a ciência é vislumbrada como criadora de
Inicialmente, a filosofia era considerada a “dona do saber”, mas com modelos que explicam a realidade, opondo-se à ideia de representação
o positivismo e a consideração exacerbada da razão, até mesmo a filosofia da própria realidade.
passou a ser considerada área inferior à ciência, e seus seguidores imaginaram
que só haveria ciências, sugerindo a extinção da filosofia. O homem percebeu a possibilidade de pensar e conhecer vislumbrando
que seus desejos podem ser descritos e que era possível a sua inteligência
Pelos estudos filosóficos do capítulo 1, foi possível observar que os demonstrar e comprovar conhecimentos empíricos por meio de observação,
conceitos puramente racionais foram extintos no século XX e a filosofia voltou experimentação e organização, obtendo o conhecimento científico e, assim,
à ativa como responsável pelos pressupostos da ciência. fazendo ciência.

As demonstrações apresentadas pela ciência de que seus princípios Gil (2008) afirma que, epistemologicamente, a compreensão do conceito
não eram totalmente corretos e rigorosos e que seus resultados poderiam de ciência é conhecimento. No entanto, como já se comprovou a existência
estar totalmente incorretos ou sem fundamentação abriram espaço para a de diferentes tipos de conhecimento, esta definição não é aceita, sendo mais
filosofia. A incumbência de compreender, interpretar e discutir os conceitos, adequado relacioná-la especificamente ao conhecimento científico.
os métodos, os resultados alcançados pelas ciências, além de estabelecer a
interdisciplinaridade entre as várias áreas de conhecimento, ficou a cargo da Para Fachin (2001), ciência pode ser conceituada como: a sequência
filosofia (ARANHA e MARTINS, 2001; CHAUÍ, 2003). permanente de acréscimos de compreensão e domínio de mundo, de maneira
racional, realizada pelo ser humano.

EXPLORANDO
Outra definição diz que ciência pode ser “um conjunto de conhecimentos
Acesse o site http://www.abc.org.br/ e conheça a racionais, certos ou prováveis, obtidos metodicamente, sistematizados e
Academia Brasileira de Ciências. Esta instituição, verificáveis, que fazem referência a objetos de uma mesma natureza” (ANDER-
fundada em 1916, reúne diversos cientistas
EGG, 1978 apud FACHIN, 2001, p. 3).
de grande evidência em diferentes ciências,
como Matemáticas, Físicas, Químicas, da Terra,
Biológicas, Biomédicas, da Saúde, Agrárias, da Cervo, Bervian e Silva (2007, p. 7) explicam que “ciência é entendida como
Engenharia e Ciências Sociais. uma busca constante de explicações e soluções, de revisão e reavaliação de
seus resultados e tema consciência clara de sua falibilidade e de seus limites.”

58 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 59


Capítulo 2 Capítulo 2

Para Lakatos e Marconi (2010), ciência se refere ao aprendizado ou registro O pensar crítico seria não permitir que a facilidade de uma resposta, de
de fatos e sua demonstração por meio de causas que o constituem ou determinam. um resultado, sem que se exija a demonstração e comprovação do que foi
obtido como solução a um problema encontrado.
Você percebe que a ciência acontece por meio do emprego de meios formais
e sistemáticos de observação e experimentação, que permitem a comprovação O fato de não aceitar ”achismos” demonstra a objetividade necessária.
de determinado objeto de estudo, gerando conhecimento científico. Se você tem espírito científico, não pode se deixar levar por aquilo que acredita
ou parece ser. Você precisa focar a sua situação problema e forma de encontrar
REFLEXÃO soluções que a atendam.

A ciência não permite sentimentos ou crenças para as respostas ou


Você consegue, neste momento, compreender soluções encontradas. Você precisa racionalmente explicar o que encontrou
as razões pelas quais está estudando esta para solucionar a o fato pesquisado.
disciplina? Qual a relação entre conhecimento,
ciência e metodologia?
A ciência apresenta hoje muitas pessoas com este perfil, que buscam
respostas para questões da sociedade a serem respondidas criticamente, com
objetividade e racionalidade. No entanto, vimos no capítulo 1 que não há
verdades eternas e que, a qualquer momento, um conhecimento pode ser
A ciência possui, por sua natureza, um objetivo de estudo, em que há a transformado ou até questionado.
preocupação de diferenciar características comuns de leis que regem determinados
evento; uma função, relacionada à responsabilidade de permitir o aperfeiçoamento Vislumbrando a filosofia contemporânea, você pode pensar que há um
humano, considerando o aumento do seu conhecimento e a relação homem e contraponto, mas perceba que são os questionamentos ditados pela filosofia
mundo; e ainda possui objetos divididos em: material – em que congrega tudo que fazem surgir novos questionamentos do ser humano para a construção de
o que se deseja estudar, analisar, interpretar ou verificar; e é formal, já que várias novos conhecimentos científicos.
ciências possuem objeto material idêntico (LAKATOS e MARCONI, 2010).
LEMBRETE
Atualmente, os pesquisadores prezam pelo emprego do rigor
científico, pois se acredita que, desta forma, é possível alcançar uma verdade Lembre-se que a filosofia contemporânea
mais absoluta. O espírito científico é responsável pelo alcance do rigor trouxe à tona o questionamento do mundo que
necessário à ciência. vivemos, de nossas atitudes e das consequências
daquilo que criamos.

Diz- que uma pessoa tem um espírito científico quando busca soluções
reais e verdadeiras para dificuldades ou situações problemas que encontra em
sua realidade, baseada em métodos adequados. Para Cervo, Bervian e Silva Classificação das ciências
(2007), esta atitude pode nascer com o ser humano ou vir da experiência por
meio de aprendizado. Como vimos, durante a história, muitos filósofos, por meio de seus
questionamentos em relação ao mundo, à realidade humana, acabam
Neste contexto, o homem dotado deste espírito apresenta em seu por serem também responsáveis pelo surgimento de várias ciências. Pela
pensamento a crítica, a objetividade e a racionalidade (CERVO, BERVIAN e diversificação de tipos de áreas encontradas, os cientistas têm procurado
SILVA, 2007). realizar uma classificação das ciências.

60 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 61


Capítulo 2 Capítulo 2

De acordo com Aristóteles, filósofo que você já conheceu, sugeriu uma • Química: o estudo da matéria, sua qualidade, força e quantidade
divisão baseada na finalidade que cada ciência possuía. O autor foi criticado por envolvem esta área.
não fazer um relacionamento entre as ciências e excluir algumas consideradas
relevantes, como a história, porém para este, as ciências poderiam ser divididas • Fisiologia: prepondera a preocupação com o estudo da matéria
em (FACHIN, 2001): organizada e não orgânica.

• Teóricas: o objeto seria o conhecimento puro, como a matemática e REFLEXÃO


a física.

• Práticas: o comportamento do ser humano seria o foco, caso da ética, Pelo seu conhecimento até o momento,
economia e política. alguma das opções de classificação apresentada
abrange todas as áreas de conhecimento que
você conhece ou ouviu falar?
• Poéticas: preocupam-se com as obras que os homens são capazes de
produzir, como as artes.

Da época renascentista, o filósofo inglês Bacon classifica as ciências a


partir das faculdades humanas exigidas à época. Esta é a principal crítica à Pode-se perceber a evolução das divisões com o passar do tempo e dos
divisão apresentada a seguir. Fazem parte dela (FACHIN, 2001): pensamentos dos filósofos em cada época e, ao mesmo tempo, a falta de
consenso entre os autores. Atualmente, Lakatos e Marconi (2010) adotam a
• Memorativa ou História (da memória): agrupa história natural, civil e seguinte classificação:
sagrada.
Nas ciências formais, há preocupação
Formais Factuais
• Imaginação ou Poesia: abrange a poesia épica, dramática e alegórica. com o estudo das ideias, não sendo
possível o contato com a realidade para
• Razão ou Filosofia: em que a preocupação era com Deus, Homem e Natureza. validar seus conhecimentos, como é o Lógica Naturais
caso da lógica e da matemática. Embora
Augusto Comte foi considerado o pai do positivismo e sua divisão das ciências haja abstração de objetos da realidade, Matemática Sociais
foi pautada em suas convicções e foi base para a classificação moderna da ciência. as ideias destas ciências são interpretadas
Cabe destacar que problemas com generalizações e subordinações das áreas pela nossa mente, estando em forma Figura 2 - Divisão das ciências
prejudicaram sua divisão. Sua proposição é apresentada a seguir (FACHIN, 2001): conceitual e não fisiológica. Fonte: adaptado de Lakatos e Marconi (2010).

• Matemática: esta área foi assim definida pelo foco ser a preocupação Vamos pensar na seguinte situação: sua mãe lhe pede para comprar
com a quantidade. dois abacaxis, três maçãs, uma melancia, cinco pêssegos e uma penca de
banana. Perceba que, ao chegar à feira, você consegue identificar nas
• Astronomia: a ideia seria agrupar as ciências que estudam as forças, prateleiras e separar em sacolas o número de cada fruta utilizando sua lógica
movimento das massas e sua atração. de raciocínio. Porém, não lhe é possível identificar, na essência, o número
5. O que vemos são representações desenvolvidas pelos estudiosos e que
• Física: o objeto seria a preocupação com qualidade, critérios de aprendemos no decorrer de nossa vida.
quantidade e força.

62 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 63


Capítulo 2 Capítulo 2

As ciências factuais referem-se aos fatos e realidade do mundo em que Cabe, em se tratando de ciência, definir fato, lei e teoria, por serem
vivemos. Neste caso, os pesquisadores necessitam se utilizar de observação e termos indispensáveis dentro do contexto científico.
experimentações para que possam ter uma comprovação, ou não, de causas
ou soluções propostas. Quando se fala em fato, corriqueiramente se imagina algo que aconteceu
e, por isso, não pode ser desmentido. Como por exemplo, um acidente de trânsito
O que acontece se sua avó enche um copo de água até o limite e que você presenciou. Em se tratando de ciência, fato ou fenômeno é algo que
depois coloca a dentadura antes de dormir? Se você respondeu que a será considerado para verificação e que, por meio de observação, foi descoberto.
água irá espalhar está correto. Isso acontece por uma lei na química em
que se afirma a impossibilidade de dois corpos ocuparem o mesmo lugar Ao criar este universo de observação e análise, definindo a propriedade
no espaço ao mesmo tempo. Desta forma, é possível verificar como as do fato, é possível que o pesquisador vislumbre acontecimentos que se
ciências factuais podem ser visualizadas, ao contrário das formais. repetem, e que seria interessante, no universo da ciência, serem agrupados ou
considerados de uma mesma classe; neste caso, temos uma lei científica. Esta
Nas ciências factuais, as naturais congregam ciências como a física, a apresenta como funções: resumir um volume considerável de fatos e favorecer
química e a biologia; e as ciências sociais abrangem áreas como o direito, a a prevenção de novos fatos que, se acaso não se adequarem à lei existente,
economia, a política, a sociologia, a psicologia. podem permitir a formulação de uma nova.

Com relação à divisão apresentada na figura 3, os autores afirmam que A teoria, ao ser elaborada, está um patamar acima da lei. No linguajar
foram considerados alguns aspectos para ser desta forma: popular, quando se trata de sabedoria, diz-se que a teoria é oposição à
prática, ou seja, a teoria seriam os conteúdos, e a prática, a aplicação destes.
• Formais: preocupa-se com enunciados. No entanto, no contexto científico, tem-se outra concepção.
Objeto
• Factuais: tratam de objetos empíricos, coisas e processos.

A teoria tem como característica expressar a uniformidade e explicações


Diferença entre • Formais: relações entre símbolos.
enunciados • Factuais: fenômenos e processos. das leis em um patamar mais genérico e mais amplo (LAKATOS e MARCONI,
2010). As teorias científicas têm como objeto reunir várias leis que se relacionam,
Método de • Formais: lógica para comprovar rigorosamente teoremas. criando uma lei universal (CERVO, BERVIAN e SILVA, 2007).
comprovação • Factuais: utilizam experimentação e/ou observação. Procura alterar
enunciado fenômenos para saber até que ponto as hipóteses são comprovadas.
Um exemplo de lei é a criada por Galileu, a “Lei da queda livre dos
Grau de suficiência • Formais: são suficientes em relação a métodos de prova e conteúdos.
(conteúdo e • Factuais: com relação ao conteúdo depende do fato e em relação ao corpos” ou Lei de Kepler. Em relação à teoria, tem-se a Teoria de Newton, que
método de prova) método precisa da experimentação. abrange as Leis de Kepler e também a Lei de Galileu.
• Formais: ser coerente ao enunciado que foi escolhido para
Coerência para comprovação, como por exemplo um teorema. DESAFIO
alcance da verdade • Factuais: os enunciados devem ser racionais e verificáveis por meio da
experimentação.

Resultado • Formais: realizam demonstrações ou provas. Pesquise e defina o que é a lei de Kepler. E
alcançado • Factuais: refutam ou comprovam hipóteses definidas previamente.
procure refletir: de que forma a Lei de Kepler e
Figura 3 - Aspectos considerados na divisão da ciência em formais e factuais a Lei de Galileu podem estar inseridas em uma
Fonte: adaptado de Lakatos e Marconi (2010). mesma teoria científica?

64 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 65


Capítulo 2 Capítulo 2

esta forma simplificada, você pode identificar a representação da a quem já fez uso do sistema, buscando saber o grau de dificuldade destas
relação fato, lei e teoria a partir da apresentação da figura . pessoas, fica mais fácil ter uma noção se terá ou não dificuldades na utilização
do novo recurso.

on nto Observe que a interpretação dos dados pode ser diferente para você e para
la ifica o
e fato ei outras pessoas que os recebam. Cada um possui experiências e realidades que o
e fato
elaciona o
eo ia fazem pensar de forma diferenciada na transformação de dados e informação.
on nto
la ifica o
e fato ei Para que você se torne um con ecedor do novo objeto de estudo que
e fato
elaciona o
l e está sendo apresentado, precisará fazer um pouco mais de esforço. Para
Figura 4 - Relação entre fato, lei e teoria
Fonte: adaptado de Lakatos e Marconi (2010).
} dizer que você tem con ecimento a respeito do novo software, é preciso que
experimente, que o utilize e, baseado no que já tem de con ecimento da área
de tecnologia, é possível ter mais ou menos facilidade de uso. Neste caso,
Você sabe dizer qual a forma utilizada pelo pesquisador para gerar leis e você terá con ecimento quando analisar, transformar e até experimentar as
teorias? e que forma, ap s definir uma temática para estudar, o pesquisador informações recebidas para poder afirmar se á, ou não, dificuldade no uso
vai à busca de sua verdade? O pr ximo t pico tem como intuito apresentar do novo recurso de software.
estas respostas e outros conteúdos referentes à geração de con ecimento e à
necessidade umana de questionamento. PRATICANDO
Pense na quantidade de dados que recebe todos
2.2.3 Noções gerais sobre pesquisa os dias e faça o seguinte exercício em um dia
de sua rotina: elabore uma lista de dados que
Em nosso cotidiano, á uma necessidade de nos apropriarmos de observa ou identifica. A partir disto, liste quais
determinados objetos, considerando suas características e seus aspectos informações conseguiu obter. Sendo um pouco
relevantes de modo a identificá-los para que possamos prosseguir em nossas mais exigente, peço que identifique o que gerou
de con ecimento neste dia.
atividades. Por exemplo, se, em seu trabal o, você precisa utilizar determinado
software específico, é necessário con ecê-lo para desenvolver, de forma
adequada, sua função. esta forma, o con ecimento dependerá de nossos
sentidos e de como os utilizamos. O exercício o fará pensar na imensidade de informações que recebemos
todos os dias, principalmente com a c amada era da informação, advinda
Quando você está descobrindo algo, inicialmente busca dados a respeito do uso das tecnologias da informação. Mas será que tudo o que recebemos
do que deseja con ecer. ados são fatos ou elementos recon ecidos por sua é transformado? Ou seja, dados geram informações e as informações são
forma bruta. Ao ser analisado de forma individual, não nos leva à compreensão analisadas de forma a gerar con ecimento?
da situação ou fato. Somente ol ando o software que você terá que trabal ar,
não consegue mensurar o grau de dificuldade que terá, por exemplo. Provavelmente, você respondeu não para esta pergunta. Como
vimos, o con ecimento é algo desejado pelo ser umano. Logo, recebemos
Ao juntar os dados que você obtém a respeito do sistema que fará uso, dados, informações, e geramos con ecimentos quando nos é necessário ou
independente da forma de recebimento, dando significado a estes dados, será interessante. Além disso, o número de informações é tão grande que não
possível ter informações sobre o uso do software especificado. Quando, além conseguimos assimilar tudo o que recebemos.
de observar as funcionalidades do sistema, você também faz questionamentos

66 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 67


Capítulo 2 Capítulo 2

Quantas vezes você já se viu na situação de, durante uma conversa ac in (2001, p. 12 ) diz que a pesquisa é
com um colega, responder um sim sem saber sobre exatamente o que
Um procedimento intelectual para adquirir con ecimentos pela
conversavam? Muito provavelmente, o que estava sendo apresentado não
investigação de uma realidade e busca de novas verdades sobre
era interessante a você naquele momento ou você estava pensando sobre um fato (objeto, problema). Com base em métodos adequados
algum outro dado ou informação. e técnicas apropriadas, o pesquisador busca con ecimentos
específicos, respostas ou soluções ao problema estudado.

Por ser o con ecimento a fonte para transformar nossa realidade e da


sociedade, damos mais importância a alguns fatos, em detrimento de outros, O autor ainda lembra que não se tem a verdade absoluta sobre a
quando estamos em processo de con ecer. descoberta, pois estas são renovadas e a análise realizada sobre determinado
objeto sempre será questionada. Pode-se dizer que esta é uma influência
Nesta disciplina, interessa-nos o con ecimento científico, aquele da filosofia sobre a pesquisa atual, ao questionar sempre o que é tido como
que pode ser comprovado. Como faremos para transformar nossos dados verdade. E vimos que isto é primordial para a geração de novos con ecimentos.
brutos em informações que possam ser evidenciadas para obtermos o
con ecimento científico? REFLEXÃO

Quando descrevemos a situação do novo software a ser utilizado em Pense na epidemia recente que ouve no
mundo, c amada popularmente de gripe A.
seu escrit rio ou quando você pensa em algo que deseja investigar, qual sua
Analisando cientificamente, o que poderia ter
primeira atitude? O que você pensa que precisa con ecer de verdade de um
acontecido se os cientistas acreditassem apenas
fato ou objeto que escol eu para seu estudo? em con ecimentos anteriores, que estes não
poderiam ser questionados e tratassem as pessoas
Se você respondeu que precisa pesquisar sobre o tema para ter dados como se estivessem com uma gripe comum?
e informações que possam ser analisadas e que l e ajudem a encontrar a
resposta, você está correto

Em se tratando de con ecimento científico, a pesquisa tem um Gil (200 , p. 2 ) afirma que pesquisa é “um processo formal e
caráter formal, pois nos permite, por sua natureza, alcançar os quesitos sistemático de desenvolvimento do método científico. O objeto fundamental
necessário para a comprovação do estudo, sendo atributo primordial em se da pesquisa é descobrir respostas para problemas mediante o emprego de
tratando de ciência. procedimentos científicos”.

SAIBA QUE Tal conceito é aceito também por Cervo, Bervian e Silva (2007), que
afirmam que a pesquisa faz uso de processos e métodos científicos para a
busca de uma solução para problemas ou dúvidas.

por meio da pesquisa científica que se torna Você consegue perceber a relevância da pesquisa científica para a
possível a validação do con ecimento científico produção do con ecimento cientifico? Em que ela diferente das atividades do
nosso dia-a-dia em busca de con ecimento?

Se você respondeu que, para a pesquisa científica, é necessário


a utilização de métodos e procedimentos que permitam a validação e

68 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 69


Capítulo 2 Capítulo 2

comprovação de resultados, você acertou Para isso, temos a metodologia 1 Matemática


Ciências Exatas Ciência da Computação
científica, que nos apresenta uma série de estratégias para execução ísica
e da Terra
da pesquisa e obtenção de resultados que possam ser considerados Química

con ecimento científico. iolo ia e al


2 io í ica
Ciências Biológicas
a acolo ia
Áreas de pesquisa
n en a ia i il
3 n en a ia ec nica
Como você aprendeu, as ciências são divididas em grupos de acordo Engenharias
n en a ia í ica
com alguns critérios e, assim, cada campo de con ecimento é integrado a um
e icina
grupo, conforme a classificação proposta pelos autores.
4 ti o
Ciências da Saúde a cia
nfe a e
Você aprendeu que a filosofia valida os métodos aplicados e resultados
obtidos pela ciência produzida por meio da pesquisa. A atividade do ono ia
5 itotecnia
pesquisador nos permite alcançar o con ecimento científico. Ciências Agrárias n en a ia lo e tal
n en a ia ícola

Atualmente, á investimento de rgãos governamentais para a produção i eito


6 ini t a o
de con ecimento e, consequentemente, no desenvolvimento de pesquisas. Ciências
i ncia ont ei
Sociais Aplicadas
Um dos rgãos que realiza esta atividade é o CNPq (Consel o Nacional de cono ia
esenvolvimento Científico e Tecnol gico). ilo ofia
7 ociolo ia
Ciências Humanas nt o olo ia
Pertencente ao Ministério da Ciência e Tecnologia, o CNPq tem como icolo ia
finalidade fomentar a pesquisa científica e tecnol gica, além de promover
8 et a
a formação umana voltada à pesquisa no Brasil. esta forma, trata-se de Linguística, te
uma agência governamental responsável por desenvolver pesquisadores Letras e Artes ca o tí tica

altamente qualificados, incentivando a produção de con ecimento no io tica


país (CNPQ, 2010). 9 i ncia ientai
Outros efe a
i l a o ientífica
Como rgão do governo que possui uma responsabilidade Figura 5 - Áreas de conhecimento do CNPq
relevante no que se refere à pesquisa, o CNPq proporciona oportunidades Fonte: <www.cnpq.br/cnpq/index.htm>.
para o desenvolvimento de pesquisa com atividades como: bolsas de
pesquisa de iniciação científica, de mestrado e de doutorado, programas EXPLORANDO
de pesquisa e editais de pesquisa que oferecem apoio financeiro para o
Nem todos os campos de pesquisa apresentados
desenvolvimento de pesquisas.
pelo CNPq estão disponíveis na figura . Acesse
o site ttp: www.cnpq.br areascon ecimento
Assim, para que os vários campos de con ecimento possam ser index. tm e confira todos os campos pertencentes
beneficiados com o que é oportunizado pelo CNPq, foram criadas áreas de a cada área de con ecimento e também a nova
con ecimento que congregam as várias disciplinas de pesquisa, como pode ser tabela de áreas de con ecimento sugerida.
observado na figura .

70 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 71


Capítulo 2 Capítulo 2

Perceba que á vários campos disponíveis para pesquisa e que cabe ao encontrada pelo pesquisador que o leva ao desejo de desvendar. Neste caso, o
ser umano se dispor a novas descobertas. Não aceitar todas as verdades como problema de pesquisa pode ser feito na forma descritiva e ou com a criação de uma
certas. Utilizar os conceitos da filosofia que nos propõem questionar, indagar pergunta de pesquisa em que o pesquisador indaga sobre o problema em questão.
o porquê das coisas, dos fatos, dos fenômenos.
Ao realizar estudos explorat rios, o pesquisador buscará informações já
2.2.4 Etapas da pesquisa existentes sobre o tema escol ido para auxiliar no desenvolvimento de sua
pesquisa. Para tanto, pode utilizar levantamento documental e bibliográfico,
Você deve estar se perguntando quais os procedimentos deve adotar se e outros tipos de material de pesquisa.
resolver realizar uma pesquisa, ou seja, como deve sistematizar seu con ecimento.
Por fim, o pesquisador irá se concentrar na obtenção de dados que
Inicialmente, Cervo, Bervian e Silva (2007) sugerem que, ao realizar uma possam l e auxiliar a responder sua pesquisa de forma comprobat ria. uma
investigação, o pesquisador deve pensar em algumas etapas, como: escol a tarefa árdua que pressupõe coleta e registro de informações, além da análise
do assunto - seleção, delimitação, objetivos; definição do problema; estudos e interpretação dos mesmos.
explorat rios - documentação, biblioteca, material de pesquisa; e a coleta e análise de
dados. Estes t picos serão apresentados tendo como base os autores apresentados. Estes passos básicos para realizar uma pesquisa contribuem para que você
compreenda o que terá que fazer para tornar-se um pesquisador. Eles contribuem
Na fase de escol a do assunto, os autores (2007) sugerem que você escol a para direcionar as atividades de pesquisa na sua fase inicial. No decorrer da disciplina,
temas que ten am relação com a carreira de pesquisa que deseja seguir. O as etapas serão analisadas e detal adas de forma a permitir seu con ecimento no
desejo de descobrir pode ser simplesmente por curiosidade do pesquisador, mas desenvolvimento da pesquisa e consequente criação do saber científico.
normalmente está vinculado ao desejo de tornar algo mel or. Você pode criar
critérios que l e auxiliem na escol a do mel or tema dentro da sua área de estudo.
2.3 Aplicando a teoria na prática
Ap s a escol a do tema, torna-se fundamental delimitar o tema, ou seja,
decidir especificamente o que estudará a respeito do assunto selecionado. Se A família Alves está muito feliz, pois sua fil a caçula oana está se formando
você escol eu pesquisar sobre futebol, por exemplo, existe uma infinidade em um curso superior. Será uma bi loga, recebendo, em poucos dias, o título da
de extensões para o tema: referentes ao jogador, ao esporte, aos torcedores, universidade que cursou. esde pequena, demonstrava muita abilidade, esforço e
aos dirigentes, entre outros. Não será possível em uma pesquisa abordar com inteligência no desempen o das atividades estudantis. Sua aprovação nas disciplinas
grandeza dados e informações suficientes para gerar con ecimento científico sempre foi consolidada com antecedência e os professores não l e poupavam
se tratarmos do assunto como um todo. elogios. Adorava as disciplinas de matemática e ciências no ensino fundamental e
se encontrou com biologia no ensino médio. Agora que está se formando, oana
Assim, focalizar os t picos que o pesquisador deseja abordar é pretende atuar como professora, ensinando aos alunos o que aprendeu.
fundamental no processo de pesquisa. Você pode decompor seu tema em várias
partes que facilitem a sua escol a ou ainda você pode definir que vai estudar Ao pensar no ensino fundamental, identifique uma disciplina que possa
o tema em um período específico e em determinada região, por exemplo. Na ser conceituada como ciência formal e uma como ciência factual. Aponte ao
sequência, o pesquisador deve indicar qual seu objetivo com a pesquisa, o que menos uma disciplina estudada por oana durante a vida estudantil (desde
pretende indicar em sua conclusão. séries iniciais à universidade) para quatro áreas de con ecimento (conforme
tabela do CNPq apresentada). Lembre-se de consultar o site, caso seja necessário
Quando você pensa em pesquisar algo o faz por algum questionamento para sua resposta. urante a camin ada estudantil, você acredita que oana
que fez a respeito de determinado objeto; potencialmente, é uma dificuldade fez uso de quais tipos de con ecimento?

72 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 73


Capítulo 2 Capítulo 2

2.3.1 Resolvendo 2.4 Para saber mais

No caso da ciência formal, oana teve a disciplina de matemática durante o tal o ini t io a i ncia e ecnolo ia tt ct o
todo o ensino fundamental e ensino médio, e como ciência factual, cita-se a
disciplina de física. O Ministério tem responsabilidades governamentais que o permitem
dispor de legitimidade, entre outros aspectos, sobre uma política nacional de
Quando se trata de áreas de con ecimento do CNPq, pode-se citar: pesquisa científica, tecnol gica e inovação. Possui duas agências de fomento
CNPq e INEP que possibilitam a fiscalização e coordenação das atividades
Ciências Exatas e da Terra: disciplina de química durante o ensino relacionadas à execução de projetos e programas destinados à pesquisa.
médio.
tt cn cn in e t
Ciências Biol gicas: durante o curso superior, teve várias disciplinas, já
que se trata da área de seu curso. A disciplina de ciências é dada no O Consel o Nacional de esenvolvimento Científico e Tecnol gico
ensino fundamental e trata dos temas desta área de con ecimento, o apresenta uma série de informações relevantes para quem pertence à academia
mesmo ocorrendo no ensino médio. e pode propiciar suas atividades iniciais como pesquisador.

Ciências umanas: a disciplina de filosofia é trabal ada no ensino n tit to i ncia o e tt ciencia o e ol co
médio e em alguns cursos superiores.
Neste site, você obtém informações sobre o que é pesquisado e construído
Linguística, Letras e Artes: educação artística é disciplina do ensino de con ecimento científico em várias áreas. possível também acessar a Revista
fundamental. Ciência Hoje, com muitas matérias interessantes. importante seu contato
para verificar a forma de realização da ciência, os métodos empregados e
urante o aprendizado, nas mais diversas áreas, os vários con ecimentos resultados obtidos.
são abordados. Considerando o estudo de oana desde as séries iniciais até o
grau universitário, pode-se perceber disciplinas que a fizeram utilizar e ou ter
contato com diversos tipos de con ecimento. O con ecimento científico é o 2.5 Relembrando
que todas as disciplinas envolvem, pois por serem assim considerados é que são
ministrados aos alunos. e acordo com os conceitos vistos, os con ecimentos O capítulo 2 apresentou:
empírico, filos fico e teol gico foram utilizados por oana para auxiliar seu
raciocínio na compreensão dos con ecimentos científico. os tipos de con ecimento e sua relevância para o desenvolvimento
umano. oram apresentados: con ecimento empírico, con ecimento
teol gico, con ecimento filos fico e con ecimento científico;

a filosofia e sua influência na ciência, além do conceito e a divisão da


ciência em formais e factuais;

a relação entre filosofia, ciência e pesquisa. Os conceitos e as áreas de


pesquisa foram apresentados e discutidos. Por fim, as etapas básicas
para o desempen o de uma pesquisa foram descritas.

74 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 75


Capítulo 2 Capítulo 2

2.6 Testando os seus conhecimentos

“Tudo o que con eço agradeço à fé divina e às escrituras.” A que tipo de


con ecimento a afirmação se refere?

a Teol gico.
Científico.
c ilos fico.
Artístico.
e Empírico.

No que se refere às ciências factuais, escol a as assertivas corretas.

A apresentação rigorosa de provas quando do resultado de uma


pesquisa é referência das ciências formais.
Onde encontrar
As experimentações são irrelevantes nas ciências factuais.
ARAN A, M. L. de A.; MARTINS, M. . P. ilo ofan o introdução à filosofia. 2.
As ciências formais podem ser visualizadas como realidades para ed. rev. atual. São Paulo: Moderna, 1 .
validação de provas, diferente das factuais.
CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A.; SILVA, R. da. eto olo ia científica . ed. São
A comprovação de fatos por meio de observação é característica das Paulo: Pearson, 2007.
ciências factuais.
C AUI, M. on ite filo ofia 1 . ed. São Paulo: tica, 200 .
Assinale a alternativa que apresenta apenas os itens verdadeiros:
CNPQ. Consel o Nacional de esenvolvimento Científico e Tecnol gico.
a I, II, III II, III isponível em: ttp: www.cnpq.br cnpq index. tm . Acesso em: 11 jul. 2010.
II, IV e I, IV
c I, III AC IN, O. n a ento a eto olo ia . ed. São Paulo: Saraiva, 2001.

Qual a influência da filosofia na ciência e na pesquisa? LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. eto olo ia científica . ed. São Paulo:
Atlas, 2010.
Relacione fato, lei e teoria, considerando seus conceitos no universo da ciência.
MARTINS IL O, I. G. an al e e tico e i t ia a filo ofia 2. ed. rev.
Supondo que você seja um pesquisador que irá estudar sobre o tema e ampl. São Paulo: LTR, 2000.
“acidente”. Observando as etapas de desenvolvimento de uma pesquisa,
explique como procederia sua pesquisa, descrevendo o resultado das etapas VENTUROLI, T. Sob o domínio da Lua: os mitos deste satélite. e nte e ante
de delimitação de tema, opções de objetivos e forma de exploração do tema. São Paulo, 1 . isponível em: ttp: super.abril.com.br ciencia dominio-
lua-mitos-deste-satelite- 101 .s tml . Acesso em: 0 jun. 2010.

76 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 77


Capítulo 3

Você conhecerá os principais tipos de métodos aplicados, suas


características e aplicações. Verá que, dependendo do objeto de estudo,
CAPÍTULO 3 acaba-se por adotar diferentes métodos de pesquisa.

Deseja-se que, ao final do capítulo, você compreenda quando


adotar cada um dos métodos, considerando o objeto de sua
MÉTODOS DE PESQUISA
pesquisa, e possa, desta forma, chegar à veracidade dos fatos,
comprovando-os cientificamente.

3.2 Conhecendo a teoria


3.1 Contextualizando
3.2.1 Métodos de pesquisa
Ciência, filosofia e pesquisa formaram a temática do capítulo 2.
Estudamos a relação entre ciência e pesquisa na história e foi possível perceber Vimos, nos períodos da ciência, as concepções racionalista, empirista
seu entrelaçamento e a importância de alguns episódios históricos que e construtivista. Cada uma delas demonstra de que forma os cientistas
corroboraram para o engrandecimento da ciência. vislumbravam o conhecimento e o que usavam para comprová-lo. Além
da mudança de pensamento científico apontado pelas concepções
Você viu que a ciência pode ser dividida, atualmente, em ciências formais da ciência, outro ponto de mudança foi a passagem da ciência teórica
(lógica e matemática) e factuais (naturais e sociais). A esse respeito, cabe e qualitativa (antiga) para a ciência tecnológica e quantitativa
destacar que as ciências, em suas áreas de conhecimento, enfrentam barreiras (moderna) (CHAUÍ, 2009).
para se firmar. Como por exemplo, as ciências sociais, em que a definição de
leis universais é difícil, uma vez que os fatos sociais, foco de pesquisa, são LEMBRETE
condicionados a episódios históricos e culturais e, assim, podem se alterar com
Racionalista (caso dos gregos no final do século
o passar o tempo (SANTOS, 2009). XVII) – conhecimento racional e dedutivo;
empirista (Aristóteles, ao final do século XIX)
Vimos a relevância da pesquisa no contexto científico e que a filosofia nos – conhecimento baseado em observações e
ajuda a contestar as descobertas científicas. As etapas iniciais para a realização experimentações; e construtivista (início do
de uma pesquisa científica nos mostraram como proceder se você quiser se nosso século) – conhecimento como modelos
explicativos da realidade.
tornar um pesquisador.

Para tanto, será necessário também conhecer procedimentos possíveis


para a realização da pesquisa e que permitam cientificamente comprovar Observando as mudanças apresentadas, a impressão inicial é que
o que está sendo realizado. Assim, este capítulo pretende apresentar o se tinha um progresso da ciência por meio de mudanças científicas.
conceito de método e sua relevância no universo científico, além de Chauí (2009) aponta que as físicas de Aristóteles, Galileu e Einstein são
demonstrar como se desenvolveu o método científico. A ideia é que você três físicas diferentes, com experimentos, demonstrações e métodos
possa ter orientações que favoreçam seu processo de pesquisa, permitindo distintos, pois a forma de conhecer empregada não é a mesma. Neste
a explicação dos fatos estudados. ponto, a autora aponta para uma ruptura epistemológica em que a
ideia de progresso e evolução das ciências passa para a descontinuidade,

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 79 80 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

considerando ainda a diferença temporal das teorias científicas abordadas. Para Lakatos e Marconi (2010, p. 46), método é o “conjunto de
Thomas Kuhn designa a ruptura e criação de novas teorias com a expressão atividades sistemáticas e racionais que [...] permite alcançar o objetivo
revolução científica. [...] traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as
decisões dos cientistas.” Estes autores, assim como Gil (2008), enfatizam
O que caracteriza uma ruptura epistemológica ou uma revolução a finalidade da atividade científica: a busca pela verdade no alcance de
científica é mudança na forma de realização da pesquisa, principalmente conhecimentos válidos e verdadeiros.
nas teorias e métodos utilizados. Ao se afirmar que cada concepção tem sua
forma de comprová-lo, diz-se que se usa de uma sequência de procedimentos O método, para Fachin (2001, p. 27), é visto como um
que permitem chegar a um resultado conclusivo e de possível demonstração.
instrumento do conhecimento que proporciona aos pesquisadores,
Desta forma, refere-se ao método empregado para o desenvolvimento da
em qualquer área de sua formação, orientação geral que facilita
pesquisa de determinada ciência. planejar uma pesquisa, formular hipóteses, coordenar investigações,
realizar experiências e interpretar os resultados.
A palavra método vem do grego methodo e designa: “ao longo de”
– meta e “via, caminho” – hodós (ARANHA e MARTINS, 2001). De acordo Na concepção de Mattar (2010), método refere-se a procedimentos
com os autores (2001, p. 154), pode ser conceituado como “a ordem que se repetitivos e aperfeiçoados por várias ciências e que são utilizados
segue na investigação da verdade, no estudo da ciência, ou para alcançar durante o período em que o pesquisador observa a realidade, cria e comprova
um fim determinado”. suas hipóteses.

Durante nossas atividades diárias, nós nos organizamos mentalmente Por fim, Cervo, Bervian e Silva (2007) corroboram com os conceitos já
para que possamos passar bem os dias sem tantas atribuições. Quando algo apresentados, afirmando que “nas ciências, entende-se por método o conjunto
muda na rotina já se pensa em como as coisas podem ser resolvidas para que de processos empregados na investigação e na demonstração da verdade.”.
tudo corra bem. Suponhamos a seguinte situação: você é casado(a) há dois
anos, o casal trabalha e descobre que terá um bebê. Além de toda ansiedade, Observando os conceitos abordados, de forma geral, pode-se dizer que
vocês já se programam para quando chegar o momento de deixar o bebê em métodos são procedimentos ordenados de maneira a prover uma forma de
uma creche. Qual será a escola, quem levará, a que horas sairão de casa, realizar uma pesquisa em busca de conhecimento, a partir do momento que
como farão para buscar... provavelmente, algum tempo antes, organizarão possibilitará ao pesquisador comprovar o objeto de estudo.
todas estas ideias. No entanto, sabem que dificilmente tudo será como se
deseja. E se o carro quebrar? O método sempre foi estudo no âmbito da filosofia. No entanto, no
século XVII, os filósofos deram grande ênfase ao método como objeto de
Aranha e Martins (2001) sugerem que estas antecipações mentais estudo e discussão. Isso porque, se você lembra, é nesta época que os filósofos
nos ajudam a racionalizar como iremos agir, porém não costumamos nos se preocupam com o conhecer, e então a ciência e o conhecimento são trazidos
ater a isto na vida cotidiana, apenas quando algo não sai como o desejado. para o centro da discussão (ARANHA e MARTINS, 2001).
No caso da pesquisa e da ciência, é necessário direcionar a forma como
agiremos para ajudar no desenvolvimento e também para fins de Um dos filósofos que, nesta época, mais se preocupou com o método foi
demonstração e comprovação. René Descartes, sendo este tema foco de seu filosofar. Isto tornou o método
uma invenção e outros amantes da filosofia passaram a se dedicar e discutir o
Gil (2008) afirma entender por método operações mentais técnicas método, como Galileu Galilei e Francis Bacon.
que possibilitam a veracidade de um conhecimento para que este possa ser
chamado de científico.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 81 82 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

BIOGRAFIA A figura exemplifica as principais etapas indicadas pelo autor do método.

O filósofo, físico e matemático francês René


Observação
Descartes (1596-1650) tem grande destaque na
ciência e filosofia moderna. Muitos autores o
chamam de “fundador da filosofia moderna“, Análise dos elementos
ou ainda o consideram o “pai da matemática
moderna”. Um de seus trabalhos mais Indução de hipóteses
conhecidos é O discurso sobre o método, em que
o autor apresenta uma proposta de um modelo Verificação de hipóteses
quase matemático para conduzir o pensamento
humano. Suas atividades de pesquisa fizeram dele personagem
na revolução científica e grande marco no desenvolvimento das
Generalização dos resultados
ciências (MATTAR, 2008).
Confirmação de hipóteses

Figura 1 - Método de Galileu Galilei


Fonte: Adaptado de Lakatos e Marconi (2010).
• Histórico do método
Você pode constatar, na figura, que o autor indica sete fases para que
Vimos que a curiosidade humana a respeito da natureza e do próprio seja possível estabelecer leis gerais. Como o autor se preocupa com dados
homem nos fez distinguir diferentes conhecimentos. Explicamos a natureza por quantitativos, a obtenção destes parte de vários experimentos para que se
meios religiosos e divindades no conhecimento teológico; usando o conhecimento confirmem suas possíveis respostas.
filosófico para investigar racionalmente, captando a essência imutável do real;
utilizamos o senso comum ou conhecimento empírico para explicar realidades Inicialmente, os fatos ou fenômenos considerados para estudo são
humanas. Estes conhecimentos buscavam explicar as preocupações humanas observados para que se verifique o que ocorre. Em seguida, são analisados
com seu Universo, mas não eram capazes de comprovar fatos. Assim, o buscando-se obter relações quantitativas entre estes, uma vez que vários
conhecimento científico pretende estabelecer relações e explicações entre fatos casos específicos dos fatos em estudo são observados. Com base nos
e acontecimentos por meio de raciocínio e da observação científica. fatos, são induzidas várias hipóteses, ou seja, são determinadas possíveis
respostas ao problema ou fato em questão (FACHIN, 2001). As hipóteses
Neste contexto, surgem os métodos e seus primeiros autores, sendo aqui com base em experimentos relativos aos fenômenos são analisadas e
apresentados os definidos por Galileu Galilei, Francis Bacon e René Descartes verificadas buscando-se indicar se as respostas sugeridas são negadas ou
(LAKATOS e MARCONI, 2010). conclusivas. Assim, é possível ao pesquisador observar casos semelhantes
durante o experimento e sugerir generalizações dos resultados. Neste
a) Método de Galileu Galilei sentido, isto é possível devido à confirmação de algumas ou de todas as
hipóteses levantadas em fase anterior.
Galileu Galilei, considerado o teórico do método experimental, se
preocupava com relações quantitativas, em que se chega a uma lei por meio A partir do momento em que o cientista, passando por todas as etapas
da observação de determinado número de participantes de casos particulares indicadas, consegue confirmar hipóteses, ele está obtendo leis gerais para o
de um objeto. fenômeno em estudo.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 83 84 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

BIOGRAFIA buscando-se mais dados. A testagem das hipóteses partirá da nova sequência de
experiênciasquedevetrazermaisdadosúteisnaconfirmaçãodashipótesescriadas,isto
O físico, matemático, astrônomo e filósofo
italiano Galileu Galilei (1565-1642) foi por conta da quantidade de evidências apresentadas na coleção de dados obtidos
responsável por grandes descobertas que pelos pesquisadores. Obrigatoriamente, o pesquisador precisa ter percorrido todas
influenciaram a revolução científica em suas as etapas anteriores para que consiga generalizar as explicações aos fatos estudados e
áreas de conhecimento. Criou algumas leis, como formular a(s) lei(s) que conseguiu evidenciar por conta dos experimentos realizados.
a Lei dos corpos, e inventou instrumentos, como
a balança hidrostática. Vimos que seu método EXPLORANDO
empírico foi de grande relevância, influenciando
os métodos atuais.
No livro de Lakatos e Marconi (2010), você
encontra as regras sugeridas por Bacon para
realizar os experimentos. Consulte!
b) Método de Francis Bacon

Bacon entende que a observação e a experimentação são cruciais para


que se possa comprovar o resultado, afirmando sua veracidade, que constitui Os métodos propostos por Bacon e Galileu baseiam-se em processos
o grande objetivo da ciência. Para o autor, o conhecimento filosófico não indutivos (em que se parte de dados particulares a generalizações),
possui artefatos para afirmar se algo é ou não verdadeiro. diferenciando-se do próximo método a ser abordado, que é dedutivo.

As etapas indicadas no método são apresentadas na figura 2. c) Método de Descartes

Experimentação René Descartes propõe uma nova forma de sistematização, em que o método
proposto é dedutivo, ou seja, parte da generalização para a especificidade.
Formulação de hipóteses
A figura 3 esquematiza os passos indicados por Descartes em sua proposta
Repetição de método, descrita em seu livro O discurso do método.

Testagem de hipóteses Evidência

Formulação de gereneralizações e leis Análise


Figura 2 - Método de Bacon
Fonte: adaptada de Lakatos e Marconi (2010). Síntese

O início da pesquisa, para o método de Bacon, implica na realização de vários Enumeração


experimentos envolvendo o problema de pesquisa, sendo que o pesquisador
deve anotar suas observações de forma sistemática. Após análise dos resultados Figura 3 - Método de Descartes
Fonte: adaptada de Lakatos e Marconi (2010).
obtidos, deve-se formular hipóteses que consigam explicar a relação entre os fatos
observados durante os experimentos. O autor, na terceira etapa, sugere a repetição
dos experimentos realizados, mas por outros pesquisadores e em outros lugares,

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 85 86 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

Os passos ou preceitos sugeridos por Descartes para a pesquisa 3.2.2 Relevância do método
iniciam pela aceitação da informação verdadeira. Não se pode ter como
verdade algo que deixa alguma pequena margem de dúvida, bem como Algumas possíveis verdades nos são apresentadas todos os dias. Chauí
não se deve usar juízo, precipitação e preconceito na decisão; é preciso (2009) nos mostra alguns exemplos: a ideia de que é o Sol que se move ao redor
que se trate realmente de algo evidente. A decomposição do fenômeno da Terra, que permanece imóvel, já que, todos os dias, vemos o Sol nascer de
em quantas partes for necessário para a melhor compreensão e resolução, um lado e se pôr de outro, não é? No entanto, há muito tempo, a Astronomia
sempre em direção ao que possui menos complexidade, é a sugestão comprovou que a Terra que se move em torno do Sol; da mesma forma, temos
de análise indicada pelo autor, o que indica o uso da dedução. A a impressão de que o Sol é menor do que a Terra, pois ao visualizarmos, esta
partir daí, Descartes sugere que o pesquisador reconstitua, de forma impressão é muito clara, mas a Astronomia também já comprovou que a
ordenada, os objetos/partes mais simples, indo ao que possua maior Terra é muito menor que Sol. Assim, você pode perceber a diferença entre
complexidade, de acordo com a decomposição realizada na fase de as certezas cotidianas, que chamamos senso comum, e as que se referem ao
análise, realizando, desta forma, a síntese do processo. Por fim, a conhecimento científico.
sugestão é que o cientista procure enumerar e revisar os resultados, as
conclusões, para que não se corra o risco de omitir alguma parte ou dado Você já viu que as certezas cotidianas são necessárias para que haja o
no desenvolvimento do processo. conhecer científico. Essa ruptura existente na história ocorre na chamada
revolução científica, em que há um desenvolvimento considerável da ciência.
BIOGRAFIA Mattar (2010) cita o surgimento da Astronomia, com Copérnico, Kepler e
Newton, como o principal acontecimento impulsionador da revolução científica.
As teorias demonstradas na época foram comparadas sistematicamente, o que
O inglês Francis Bacon (1561 – 1626), filósofo e fortaleceu a ciência.
político, é chamado por alguns de “fundador
da ciência moderna”, tendo como sua principal
Chauí (2009, p. 219) afirma que “os fatos ou objetos científicos não são
obra filosófica o Novum Organum. Tinha
como preocupações principais o empirismo e a dados empíricos espontâneos de nossa experiência cotidiana [...]”. Para que
metodologia científica. seja alcançado o conhecimento científico, é preciso que haja uma investigação
científica, em que se torna necessária a aplicação de atividades racionais,
experimentais e técnicas. Quando se fala em técnica, há uma referência aos
métodos que nos permitem obter um rigor científico, fator fundamental para
tornar possível a comprovação da verdade na ciência.
Observando os autores apresentados, percebe-se a preocupação, ao
longo da história, em fornecer aos pesquisadores recursos para a comprovação Desta forma, classifica-se o trabalho científico como metódico e sistemático.
de verdades que levassem ao desenvolvimento da ciência. Mais uma vez, nota- Chauí (2009) diz que o método permite o rigor científico e apresenta algumas
se a presença dos filósofos como âncoras no desenvolvimento de teorias e atividades que julga serem relevantes para o investigador científico e que
processos para o mundo da pesquisa e da ciência. podem constituir uma ciência de acordo com as exigências desta:

Estes métodos apresentados passaram por transformações, assim como • Separar o que é subjetivo e objetivo em um fato a ser estudado.
novos métodos foram surgindo para favorecer a pesquisa e a ciência. Você os
conhecerá ainda neste capítulo. • Construir um fenômeno como algo possível de controle, de verificação,
de interpretação e de ser retificado ou corrigido.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 87 88 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

• Demonstrar e provar, de forma rigorosa, por meio dos métodos, os Pela figura 4 apresentada, inicialmente, o investigador, ao enunciar o
resultados obtidos. problema de forma adequada, deve verificar se há explicação para o problema,
sendo, nesse caso, desnecessária a pesquisa. Mas se não houver explicação,
• Relacionar um fato isolado a outros, buscando transformar o deve-se apresentar o problema de forma precisa antes de iniciá-la. A seguir, com
fenômeno em um objeto científico por meio da aplicação de teoria. tentativa de solucionar o problema, buscam-se conhecimentos já existentes
ou ainda instrumentos que possam contribuir com o intuito, como teorias ou
• Possibilitar a criação de teoria que possa explicar os fatos e fenômenos técnicas de cálculo, dependendo da natureza do problema. Em seguida, tenta-
observados. se resolver o problema com o que foi identificado. No caso de existir explicação
não satisfatória para encontrar a solução do problema, torna-se necessário
Lakatos e Marconi (2007) afirmam que a investigação científica apresentar novas ideias ou dados que possam contribuir para a resolução do
alcançará seus objetivos ao tempo que se propõe cumprir as atividades problema. A partir disto, o pesquisador deve propor uma solução adequada
propostas na figura 4. ao problema, seja esta exata ou aproximada, seguida da investigação das
consequências do que foi adotado. Com base em dados e teorias sobre o
assunto, deve-se apresentar uma comprovação de que a solução apresentada
Problema
para o problema é conclusiva. Caso seja satisfatória, o ciclo finaliza e, no caso
de não possibilitar provar as hipóteses, haverá necessidade de iniciar um novo
Explicação Não explicação ciclo de investigação (LAKATOS e MARCONI, 2007).
Colocação prevista
do problema Observe que os itens apresentados demonstram necessidades relevantes
Procura de conhecimento ou ao pesquisador no desenvolvimento científico. Percebe-se que todo trabalho
instrumento relevante
científico, por sua concepção, vislumbra o conhecer, sendo, para isso, necessário
ser apreciado por procedimentos metodológicos que o embasem (FACHIN, 2001).
Tentativa de Solução

Assim, o método deve colaborar com o investigador para que seja possível
Satisfatório Inútil a este não permitir que seu capricho ou acaso influenciem a pesquisa sobre o
Invenção de novas ideias objeto de estudo (CERVO, BERVIAN e SILVA, 2007). Deve ser possível que, ao ter
ou produção de novos seu trabalho investigado por outro cientista, o autor tenha certeza de que o leitor
dados empíricos
poderá verificar todos os processos e sistematização de seu método aplicado.
Obtenção de
uma solução
Pode ser possível contestação, o que não é aceitável é a falta da apresentação do
método definido e utilizado, bem como a demonstração dos resultados obtidos
Prova de solução
por meio deste. Exatamente por esta necessidade é que Lakatos e Marconi (2010,
p. 44) afirmam: “não há ciência sem o emprego dos métodos científicos”.
Satisfatória Não satisfatória
Cabe destacar que não será atribuição do método a responsabilidade
Conclusão Início de novo ciclo por ensinar a encontrar hipóteses, ideias novas e fecundas, que constituem
responsabilidade do cientista (CERVO, BERVIAN e SILVA, 2007). A ciência será
Figura 4 - Etapas a serem cumpridas para o alcance dos objetivos da investigação científica
possível se o investigador utilizar a sua criatividade, inteligência, talento e
Fonte: adaptada de Lakatos e Marconi (2007).
atividade mental, juntamente com a aplicação dos procedimentos eficientes
que constituem o método escolhido para o estudo de determinado objeto.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 89 90 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

Em se tratando da seleção do método, cabe dizer que se deve entender De acordo com Cervo, Bervian e Silva (2010, p. 29),
a natureza do objeto em estudo, de cada problema investigado para que se
O método científico aproveita a observação, a descrição, a
escolha o que for mais adequado. Fachin (2001) sugere que, além da natureza
comparação, a análise e a síntese, além de processos mentais da
do objeto foco da pesquisa, o pesquisador se preocupe também com o objetivo dedução e da indução, comuns a todo tipo de investigação, quer
que se tem ao realizar a investigação. experimental, quer racional.

É possível que, em uma pesquisa, você utilize mais de um método entre No caso do método racional, os autores (2010) afirmam que é também
os vários existentes, para tanto, vamos conhecer alguns dos métodos utilizados científico e aplicado em áreas como a filosofia, em que a realidade ao
atualmente para investigação científica. Cabe ressaltar que há diferentes qual é aplicado não se refere a fatos que possam ser comprovados pela
classificações dos métodos por diferentes autores. experimentação. A interpretação da realidade em relação a sua origem,
natureza, destino e significado é objeto das ciências que empregam a lógica e
REFLEXÃO racionalidade deste método.

A forma como é possível a comprovação ou refutação das hipóteses


de pesquisa é o que diferencia do método científico, uma vez que o método
Ao observar o conceito de método apresentado,
é possível você pensar na aplicação deste em sua racional pretende uma compreensão mais ampla a respeito da vida, do mundo
vida cotidiana? e do ser humano.

3.2.4 Métodos dedutivo, indutivo, hipotético-dedutivo e dialético

Diferentes formas de pensamento ou de raciocínio são a bases nos


3.2.3 Métodos científico e racional métodos dedutivo, indutivo e hipotético-dedutivo. Já o método dialético é
tratado na literatura de maneira diferente por vários autores e relaciona-se
A distinção destes dois métodos, apresentada por Cervo, Bervian e com a contestação de ideias.
Silva (2010), está em suas características básicas, em que se distingue o
método científico como aplicável a fatos que possam ser comprovados • Método dedutivo
experimentalmente, e o método racional aplicado a ciências cujo objeto é o
questionamento da realidade. O método dedutivo é conhecido como aquele em que a forma de pensar
parte do geral para o específico. De acordo com Fachin (2001, p. 30), “é aquele
Cervo, Bervian e Silva (2010) afirmam que o método científico deseja que de duas proposições necessariamente surge uma conclusão”.
conhecer a realidade dos fatos, buscando explicar um variado número de
ocorrências semelhantes para um dado objeto de estudo. Os autores (2010, p. Conforme Gil (2008, p. 9), “parte de princípios reconhecidos como
28) lembram que “[...] o método é apenas um meio de acesso; só a inteligência verdadeiros e indiscutíveis e possibilita chegar a conclusões de maneira
e a reflexão descobrem o que os fatos e os fenômenos realmente são.” puramente formal [...]”. Ainda Cervo, Bervian e Silva (2010, p. 46) afirmam que,
nesta forma de pensamento, estruturas lógicas são construídas relacionando
O pesquisador observa um problema e questiona como poderá proceder antecedente e consequente, premissa e conclusão.
sua investigação acerca do tema. Para tanto, pode, por exemplo, sugerir
alguma hipótese e delimitar o assunto. Neste caso, tem-se o método científico Veja o exemplo apresentado por Gil (2008):
que lhe fornecerá ferramentas para alcançar seu objetivo em sua pesquisa.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 91 92 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

Percebe-se que, como no dedutivo, a lógica é baseada em premissas,


estas identificam informações conclusivas sobre os fatos observados, e pelo
TODO HOMEM É MORTAL. (Premissa maior)
raciocínio, o pesquisador revela uma realidade antes não conhecida que
PEDRO É HOMEM. (Premissa menor) poderá se tornar, por exemplo, uma lei universal (LAKATOS e MARCONI, 2010).
LOGO, PEDRO É MORTAL. (Conclusão)
O método pode ser realizado em três fases, assim apresentadas por
Lakatos e Marconi (2010):
Por meio da premissa maior e premissa menor, é possível inferir a
conclusão apresentada. Pelo exemplo, é perceptível que este método possui • Observação dos fenômenos: em que os fatos são observados e
a facilidade de chegar do conhecido ao desconhecido com uma margem analisados pelo pesquisador a fim de conhecer suas causas e o porquê
pequena de erro, porém há uma restrição de conclusão, uma vez que não de sua manifestação.
pode apresentar respostas que não estejam embutidas nas premissas (CERVO,
BERVIAN e SILVA, 2010). • Descoberta da relação entre eles: comparando os vários fatos
relacionados ao objeto de estudo, o pesquisador busca aproximá-los
Outro ponto refere-se ao fato de que há a necessidade de que a premissa para encontrar possíveis relacionamentos.
previamente adotada não tenha possibilidade de ser colocada em dúvida,
como aponta Gil (2008). • Generalização da relação: o pesquisador deve generalizar relações
encontradas entre fatos semelhantes.
A aplicação do método dedutivo é maior na Física e na Matemática
devido à característica de que, normalmente, apresentam seus enunciados na Algumas regras são relevantes no método apresentado: o pesquisador
forma de leis (GIL, 2008). não deve ter dúvidas quanto à generalização ser realmente essencial; e
deve ter certeza de que os fatos que foram relacionados entre si para
• Método indutivo obtenção da generalização sejam realmente semelhantes (CERVO, BERVIAN
e SILVA, 2010).
Este método, de forma geral, contempla descobertas partindo-se do específico
para o universal, como confirmam Lakatos e Marconi (2007, p. 53): a “indução O método indutivo influenciou o método científico desde sua aplicação
é um processo mental por intermédio do qual, partindo dos dados particulares, por Bacon nas ciências naturais e também tem sua relevância nas ciências
suficientemente constatados, infere-se uma verdade geral ou universal [...]”. sociais por servir como propulsor ao uso da observação em detrimento da
especulação para chegar ao conhecimento científico.
Cervo, Bervian e Silva (2010, p. 44) corroboram afirmando que, na
indução, “de verdades particulares concluímos verdades gerais”, e apresentam INTERAGINDO
um exemplo para o método:
Entre em contato com seus colegas de turma por
meio do Ambiente Virtual de Aprendizagem e
Terra, Marte, Vênus, Saturno, Netuno são todos planetas. apresente premissas e conclusões utilizando o
método dedutivo e o método indutivo. Será um
Ora, Terra, Marte, Vênus Saturno, Netuno, etc., não brilham
ótimo exercício de lógica, além de favorecer sua
com luz própria.
compreensão sobre o tema abordado.
Logo, os planetas não brilham com luz própria.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 93 94 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

• Método hipotético-dedutivo EXPLORANDO

Apesar dos benefícios do método indutivo, este também sofreu críticas O método hipotético-dedutivo apresenta
outras variantes na percepção de outros
de alguns cientistas, como, por exemplo: não ser possível obter generalizações
autores. Você pode conhecer mais sobre o
com uso de amostras ou não poder promover evidência e certeza. Estas,
método no livro Metodologia científica, de
associadas às realizadas ao método dedutivo, culminaram no desenvolvimento Lakatos e Marconi (2007).
do método hipotético-dedutivo.

As bases para a criação do processo hipotético-dedutivo foram


desenvolvidas por Sir Karl Raymund Popper, que afirma ser este o único método • Método dialético
reconhecido. Em sua concepção, as pesquisas têm como base um problema a
ser solucionado e sua resolução está num processo de tentativas e eliminação Dialética é um conceito antigo que data da Grécia Antiga e foi utilizado por
de erros (LAKATOS e MARCONI, 2007). Platão, ao considerar a arte do diálogo, posto que deriva da palavra de origem
grega dialektos, que significa debate, forma de discutir e debater (GIL, 2001).
Kaplan (1972 apud GIL, 2008, p. 12) diz que:
No entanto, o apogeu dialético veio com o filósofo Hegel (1770 – 1831),
[...] o cientista, através de uma combinação de observação
que fundamentou a concepção moderna da dialética, em que “tudo tem
cuidadosa, hábeis antecipações e intuição científica, alcança
um conjunto de postulados que governam os fenômenos pelos relação com um todo, que encerra, em si próprio, contradições” (LAKATOS e
quais está interessado, daí deduz ele as consequências por meio MARCONI, 2007, p. 82). Os autores (2007, p. 82) ainda afirmam que “a dialética
de experimentação e, dessa maneira, refuta os postulados,
é a lógica do conflito, do movimento, da vida.”
substituindo-os, quando necessário, por outros, e assim prossegue.

Para a dialética de Hegel, a importância primeira era dada ao espírito, por


A citação apresentada corrobora com a estrutura indicada por Popper ser um idealista. Esta posição foi criticada por Karl Marx e Friedrich Engels, que
para o método hipotético-dedutivo na figura 5. modificaram a dialética dando bases materialistas à dialética. Pode-se entender
o método materialista como uma forma de interpretação da realidade.
Expectativas ou Testes de
Conhecimento Problema Conjecturas
prévio Falseamento
Figura 5 - Fases do método hipotético-dialético
Fonte: adaptada de Lakatos e Marconi (2007).

Os conhecimentos prévios advêm do que existe em termos de estudo das


teorias já conhecidas, e com base nestes e expectativas existentes, conflitos
aparecem, tornando-se foco de investigação. Como conjectura, entende-se
uma solução na forma de proposições que poderão, de alguma maneira, ser
testadas considerando suas consequências, utilizando-se de dedução. Por fim,
existem os testes de falseamento, em que o objeto é submetido à eliminação
de possíveis erros durante a aplicação do método; para os testes, pode-se Figuras 6 e 7 - Karl Marx e Friedrich Engels
usar a observação e a experimentação. Quanto mais você conseguir produzir Fonte: <http://images.google.com>.
falseamentos, maior rigor científico será obtido na aplicação do método.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 95 96 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

Engels (1974 apud GIL, 2008) apresenta os princípios que norteiam o O uso deste método pode ter a aplicação de pré-teste, ou seja, você
materialismo dialético: define como fará sua pesquisa, seus instrumentos para coleta de dados e os
aplica. É possível, ao pesquisador, verificar se há falta de questões ou se o
• Unidade de opostos: os objetos possuem aspectos contraditórios número da amostra é pequeno, por exemplo.
que, organicamente, são unidos. Lakatos e Marconi (2007, p. 84)
exemplificam este princípio: “a planta, que fixa o oxigênio do ar, • Método observacional
mas também interfere no gás carbônico e no vapor d’água, e essa
interação modifica, ao mesmo tempo, a planta e o ar.” Este método pode ser apresentado como o início de toda pesquisa
científica, afirma Fachin (2001), devido ao fato de servir de base para as
• Quantidade e qualidade: são características de todos os objetos. diferentes áreas científicas existentes. Gil (2010) destaca que é um dos métodos
Mudanças quantitativas podem gerar mudanças qualitativas. Por mais utilizados nas ciências sociais e também o mais primitivo.
exemplo, se para obter o grau de cliente Vip de determinado banco
você precisa ganhar acima de R$ 3.000,00 e hoje você ganha R$ O objetivo deste método é conseguir identificar, com precisão, num
2.989,00, condição negada. Mas se amanhã você receber um aumento contexto empírico, as características mais relevantes, essenciais de determinado
e passar a ganhar R$ 3020,00 a mudança quantitativa fez a qualitativa, fato que está sendo pesquisado.
fazendo você se tornar um cliente Vip do banco.
O método pressupõe a presença de um humano para exercer a atividade
• Negação da negação: este princípio pressupõe a negação como mola de observação, sendo que o executor da atividade deve ter preparo intelectual
propulsora de desenvolvimento. A lagarta que vira borboleta muda, adequado, ser curioso, capaz, paciente, persistente e, principalmente, ser
nega uma realidade anterior para que o novo possa se mostrar. ético. Estas características devem-se ao fato de que, ao redor do objeto em
estudo, há vários estímulos e distrações que podem afastar o pesquisador de
Assim, percebe-se que a ideia do método dialético está em se desenvolver seu intento. Cabe lembrar a importância das anotações dos dados observados
com base na anulação de um sistema de hipóteses, que dará surgimento a um para que sejam foco de análise posteriormente. Assim, Fachin (2001) aponta
novo sistema. algumas dicas ao pesquisador que se utilizar deste método:

3.2.5 Métodos experimental, observacional, estatístico e comparativo • Os objetos devem estar bem definidos quanto à pesquisa.

• Método experimental • O planejamento da pesquisa deve ser sistemático antes da aplicação


do método.
De acordo com Gil (2008, p. 16), o método submete “[...] os objetos
de estudo à influência de certas variáveis, em condições controladas e • O registro dos dados de forma sistemática é imprescindível.
conhecidas pelo investigador, para observar os resultados que as variáveis
produzem no objeto.” • É necessário a submissão da pesquisa à comprovação e controle de
validade e confiabilidade.
O método experimental é aquele em que a manipulação de variáveis
é realizada de forma preestabelecida e os efeitos disto são controlados e Este método envolve desde as fases iniciais do estudo do pesquisador
conhecidos em função da observação do estudo. Fachin (2001) explica que os chegando aos estágios considerados mais avançados, possibilitando, inclusive,
resultados devem ser aceitos como são demonstrados no experimento, mesmo o aprimoramento de outros tipos de pesquisas (FACHIN, 2001).
que haja incidentes durante a realização do método.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 97 98 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

PRATICANDO DEFINIÇÃO
Pense em situações diárias de sua vida cotidiana ou
na sociedade e procure apontar, definir possíveis A amostragem refere-se ao ato de escolher
problemas que poderiam constituir problemas de elementos de uma população que fará parte
pesquisa, onde você poderia utilizar a observação. da pesquisa e cujo objeto é estimar valores não
Por exemplo, observando diariamente o trânsito conhecidos, como média, por exemplo.
e a infinidade de acidentes, você pode encontrar
um foco de pesquisa. De alguma forma, o método
de observação lhe auxiliaria?

• Método comparativo

• Método estatístico Este método pressupõe o apontamento de diferentes e semelhantes


entre grupos de indivíduos, classes, fenômenos e fatos que podem ser foco
As conclusões obtidas por este método baseiam-se na aplicação de teoria de investigação, ou seja, as semelhanças irão explicar o objeto de estudo. Para
estatística da probabilidade. Mesmo assim, não é possível considerar seus Lakatos e Marconi (2010), este método ocupa-se de analisar o dado concreto,
resultados totalmente verdadeiros, mas com uma probabilidade muito boa de conseguindo abstrair destes elementos constantes, abstratos e gerais.
o serem (GIL, 2008).
Muitas ciências se utilizam deste método por ser possível abranger na
A utilização deste método está voltada à pesquisa de objetos aleatórios pesquisa uma quantidade considerável de indivíduos e grupos destes em
por se repetirem e terem uma grande variabilidade (FACHIN, 2001). É difícil, universos diferenciados e geograficamente distintos.
após um fato ocorrer, termos uma clareza de quando poderá acontecer
novamente. Você já deve ter ouvido a máxima: “um raio não cai duas vezes Imagine você que é possível, por este método, a realização de estudos
no mesmo lugar”. em diferentes culturas ou sistemas políticos, padrões de comportamento em
diferentes épocas, aprendizagem de alunos em escolas com diferentes teorias
Neste caso, este método pode ser empregado quando se trabalha com pedagógicas (GIL, 2008).
a teoria de amostragem, possibilitando representar e explicar, de forma
sistemática, observações quantitativas numéricas relativas às ciências Na literatura, você poderá encontrar vários outros tipos de método que
sociais como padrão cultural ou de outra ciência, como Física, cujos fatos podem ser aplicados em sua pesquisa. É possível estudá-los e aproveitar suas
apresentam multiplicidade de causas sendo representados de forma indicações de forma a apoiar sua pesquisa na produção de conhecimento.
analítica (FACHIN, 2001).
Santos (2009) destaca: para um conhecimento que seja local e total
Lakatos e Marconi (2007, p. 93) explicam que o método estatístico tem o baseado em temas que evoluem à medida que o objeto de estudo evolui,
papel de “fornecer uma descrição quantitativa da sociedade, considerada um buscando as várias faces que este pode ter, só poderá ser obtido se o
todo organizado”. pesquisador se esforçar no emprego de método a fim de que consiga realizar
uma investigação de qualidade científica, conforme as exigências e rigor
pressupostos pela ciência.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 99 100 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa


Capítulo 3 Capítulo 3

3.3 Aplicando a teoria na prática O mesmo ocorre quando o texto cita o fato de as crianças não irem à
escola, o que poderia também fazer uso do método estatístico caso nosso
A ida ao cinema de Bruna e o namorado Artur estava programada para as objetivo fosse quantificar o objeto de estudo.
19h. Ele a buscaria para que pudessem assistir à sessão das 20h. Como o horário
se aproxima, de cinco em cinco minutos, a garota vai até a janela para ver se o A lembrança de Bruna quanto ao fato de que vários pais não foram
namorado está a caminho e, por consequência, observa sua vizinhança, fazendo vacinar seus filhos com o vírus H1N1 nos faz lembrar que, para a criação e
com que pense sobre a realidade a sua volta. Bruna mora em uma comunidade desenvolvimento da vacina, os pesquisadores podem ter se utilizado do
de muita desigualdade social e acredita que os assaltos e a violência que, por método experimental.
vezes, ocorrem se devem a este fator. Como está estudando para ser pedagoga,
Bruna já percebeu que muitas crianças não frequentam a escola; mesmo não Ainda quando fala do lançamento da nova linha de produto na loja,
sabendo os reais motivos, acredita ser um problema social grave e que afeta pode ser propício a realização de uma pesquisa junto aos clientes sobre os
diretamente o futuro daquelas crianças. Observadora da realidade, percebeu novos produtos em comparação com aqueles já vendidos pela loja; para isto,
que muitos pais não se preocupam com a vacinação de seus filhos e que vários sugere-se o método comparativo.
não compareceram aos postos de saúde para vacinar o filho contra o vírus da
gripe H1N1. Neste curto espaço de tempo, consegue se perceber como ser
humano e pensa como teve sorte de ter pais tão preocupados com sua saúde 3.4 Para saber mais
e sua educação. Isto favoreceu para que hoje estivesse empregada e pudesse
continuar seus estudos. Lembrou-se que, no dia seguinte, haveria lançamento LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo:
de uma nova linha produto na loja em que trabalhava e ia ser divertido, pois Atlas, 2010.
a loja estaria super movimentada. Na distração de seus pensamentos, alguém
bateu na porta e, claro, era Artur, que chegava para que fossem ao cinema. O livro de Lakatos e Marconi (também em edições anteriores) apresenta
alguns outros métodos e detalhamentos dos métodos apresentados que
Refletindo sobre o caso apresentado, aponte ao menos dois métodos em podem enriquecer os seus conhecimentos sobre o método.
que você pode perceber sua aplicação na passagem do texto. Você deve pensar
em pesquisas que podem ser realizadas ou ainda em algo que já foi realizado, René Descartes – O discurso do método
investigado e que deve ter o emprego de algum método científico. Não se esqueça
de mostrar a passagem do texto e indicar o método. E procure justificar sua escolha. Se você deseja realmente conhecer as primeiras discussões sobre método,
este livro apresenta as ideias de Descartes, precursor na definição de uma
3.3.1 Resolvendo maneira de sequenciar o pensamento no desenvolvimento de uma pesquisa
com o rigor exigido pela ciência.
Observando o caso de Bruna e os conceitos sobre métodos apresentados,
podemos indicar alguns métodos aplicáveis ou utilizados em aspectos Portal da filosofia - http://portal.filosofia.pro.br/
indicados no caso.
O site apresenta informações detalhadas sobre alguns dos filósofos e
Quando lemos no texto “Bruna mora em uma comunidade de muita cientistas citados neste capítulo, como Popper, Descartes e Karl Marx. É uma
desigualdade social e acredita que os assaltos e a violência que, por vezes, oportunidade de conhecer outras atividades e descobertas realizadas e sua
ocorrem se devem a este fator”, podemos encontrar neste trecho tema para relevância para a ciência.
uma pesquisa científica e, para tanto, pode ser adotado, em um primeiro
momento, o método observacional.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 101 102 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa
Capítulo 3 Capítulo 3

3.5 Relembrando 3.6 Testando os seus conhecimentos

O capítulo apresentou: Relacione a coluna da esquerda com a da direita.

de que forma as concepções da ciência ao longo da história exigiram a Comparativo ( ) Possibilita quantificar os resultados, permitindo
e utilizaram o método; especificar características de classes sociais.

como vários autores apresentam o conceito de método que, de Observacional ( ) Permite o controle de variáveis que se está
forma geral, pode ser visto com um conjunto de procedimentos utilizando, ao observar sua influência sobre
que devem ser realizados para uma pesquisa que apresente o rigor o objeto estudado.
científico desejado;
c Estatístico ( ) tiliza-se de procedimentos de natureza
os métodos que surgiram ao longo da história apresentados por sensorial para captar os aspectos relacionados
grandes cientistas e filósofos, como alileu, Bacon e Descartes, que ao objeto de estudo.
influenciaram muito os métodos atuais;
d Experimental ( ) As explicações científicas são possibilitadas
a relevância do método para a ciência na busca de resultados que com base em comparações realizadas entre
sejam rigorosamente científicos; grupos relacionados ao objeto de estudo.

a apresentação das principais características de alguns dos métodos Assinale a alternativa que possui a sequência correta.
conhecidos e encontrados na literatura, como científico, racional,
dedutivo, indutivo, hipotético-dedutivo, dialético, experimental, a b, c, a, d c d, a, c, b
observacional, estatístico e comparativo. c, d, b, a d a, d, b, c

Em se tratando dos métodos sugeridos por Bacon, Descartes e alileu,


assinale a alternativa correta.

a A experimentação foi a bandeira maior no método de alileu.

A quantificação era a preocupação do método proposto por Descartes.

c alileu considerava que a filosofia não possuía artefatos para a


comprovação da ciência.

d A base do método de Descartes era o pensamento dedutivo.

e Bacon negava a necessidade de observação e experimentos em sua


proposição de método.

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 103 104 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa
Capítulo 3

No que se refere aos métodos dedutivo e indutivo, escolha as assertivas corretas.

O método dedutivo parte de pensamentos universais para os CAPÍTULO 4


mais específicos.
A criação de leis universal utilizando o método indutivo é impossível.
Quando se parte de raciocínios específicos buscando uma verdade
PESQUISA
universal, trata-se do método indutivo.
Para inferência no método dedutivo, apenas uma premissa é suficiente.

Assinale a alternativa que apresenta apenas os itens verdadeiros:

a I, II, III d I, II, II 4.1 Contextualizando


II, I e I, I
c I, III Os métodos para realização de pesquisas foram contemplados no
capítulo 3. Você pôde compreender que as ciências possuem orientações e
Diferencie os métodos racional e científico. procedimentos que permitem a comprovação de uma pesquisa desenvolvida
ou em desenvolvimento.
Apresente para cada um dos métodos comparativo e experimental uma
situação em que você acredita que estes são utilizados. Você conheceu a diferença entre os métodos científico e racional;
conheceu as características dos métodos indutivo, dedutivo, hipotético-
dedutivo e dialético; e os métodos experimental, observacional, estatístico
Onde encontrar e comparativo.

ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. P. ilosofando introdução à filosofia. 2. Além disso, conheceu os principais cientistas e suas colaborações para
ed. rev. atual. São Paulo: Moderna, 1 . o desenvolvimento dos métodos de pesquisa utilizados atualmente para
alcançar os objetivos almejados pela ciência.
CER O, A. L.; BER IAN, P. A.; SIL A, R. da. Metodologia científica 5. ed. São
Paulo: Pearson, 200 . Agora, você já pode conhecer abordagens e tipos de pesquisa existentes
que podem ser aplicados nas diversas áreas da ciência, sendo que para a
CHA , M. on ite filosofia 1 . ed. São Paulo: tica, 200 . escolha sempre se deve considerar o objeto da pesquisa.

ACHIN, O. undamentos da metodologia . ed. São Paulo: Saraiva, 2001. Deseja-se que sua compreensão dos tópicos apresentados permita que
você consiga identificar e aplicar as abordagens e tipos de pesquisa.
IL, A. C. Métodos e técnicas de es uisa social. . ed. São Paulo: Atlas, 200 .

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Metodologia científica 5. ed. São Paulo:


Atlas, 2010.

SANTOS, B. de S. m discurso so re as ci ncias . ed. São Paulo: Cortez, 200 .

Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 105 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 107
Capítulo 4 Capítulo 4

4.2 Conhecendo a teoria Pesquisas qualitativas podem ainda ser conceituadas como aquelas que

[...] podem descrever a complexidade de determinado


4.2.1 Pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa: origem, problema, analisar a interação de certas variáveis, compreender
características e recursos e classificar processos dinâmicos vividos por grupos sociais,
contribuir no processo de mudança de determinado grupo e
possibilitar, em maior nível de profundidade, o entendimento
Estas duas pesquisas estão agrupadas neste tópico por diferenciar-se na forma
das particularidades do comportamento dos indivíduos
de coleta e análise dos dados coletados durante o desenvolvimento da pesquisa, (RICHARDSON, 1999, p. 80).
ou seja, quando você emprega conceitos de uma ou de outra metodologia em
sua pesquisa, pode caracterizá-la como qualitativa ou quantitativa. Pode-se perceber que a pesquisa qualitativa tem como foco a centralização
em aspectos mais específicos e peculiares que permitam a compreensão do
Richardson (1999) afirma que essas duas formas de pesquisa diferenciam- objeto em estudo.
se pela sistemática e pela maneira como abordam o problema de pesquisa.
A pesquisa qualitativa (data do final do século XIX, início do século XX, na
A experiência como pesquisador mostrará a você que é possível empregar Europa) inicia sendo empregada na Antropologia, seguindo por vários outros
as duas formas de pesquisa em um trabalho científico, mas tudo dependerá do campos de atuação, como a Sociologia, a Psicologia, Educação, Geografia,
objeto de pesquisa e do que será necessário para sua comprovação, inclusive entre outros (LAKATOS e MARCONI, 2010).
em fases diferenciadas da pesquisa.
Por meio do estudo das tribos, foi possível a verificação, pelos
Atualmente, a pesquisa qualitativa tem sido mais aceita na comunidade antropólogos, de que não seria possível quantificar os dados coletados nas
científica em detrimento da quantitativa, que foi adotada em grande parte pesquisas e que era necessário, ao pesquisador, a habilidade de interpretar
da história. os dados coletados. Neste campo de estudo, a investigação é chamada
pesquisa etnográfica e está relacionada ao estudo da cultura (LAKATOS e
• Pesquisa qualitativa MARCONI, 2010).

A abordagem qualitativa se relaciona a uma visão de mundo em que há Na pesquisa etnográfica, quem investiga os fatos, conforme Minayo
um desejo de compreensão subjetiva do homem e seu universo, sendo que os (1994, p. 15), “exerce o papel subjetivo de participante e o papel objetivo de
dados utilizados descrevem aspectos relacionados ao objeto de pesquisa de observador, colocando-se numa posição ímpar para compreender e explicar o
forma enriquecedora. comportamento humano.”

De acordo com Lakatos e Marconi (2010, p. 269), há uma preocupação da EXPLORANDO


pesquisa qualitativa em “[...] analisar e interpretar aspectos mais profundos,
descrevendo a complexidade do comportamento humano”.
No livro de Lakatos e Marconi (2010), você
pode encontrar mais informações a respeito do
Conforme Minayo (2002, p. 21), pode-se conceituar a pesquisa qualitativa método etnográfico.
como aquela que “[...] trabalha com o universo de significados, motivos,
aspirações, crenças, valores, atitudes, o que corresponde a um espaço mais
profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser
reduzidos à operacionalização de variáveis”.

108 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 109
Capítulo 4 Capítulo 4

Em se tratando das características, a pesquisa qualitativa apresenta “caracteriza-se pelo emprego de quantificação tanto nas modalidades de
a estruturação da pesquisa de difícil realização. É complexo antecipar coleta de informações quanto no tratamento delas por meio de técnicas
aspectos referentes à pesquisa, uma vez que se torna necessário estar em estatísticas [...]”.
atuação na investigação para que se possa observar e interpretar os dados
coletados no fato estudado. Sugere-se que haja uma estruturação prévia, Para Richardson (1999, p. 70), a pesquisa quantitativa,
assim como um estudo teórico sobre o fenômeno em estudo (LAKATOS e
[...] como o próprio nome indica, caracteriza-se pelo emprego da
MARCONI, 2010).
quantificação tanto nas modalidades de coleta de informações,
quanto no tratamento delas por meio de técnicas estatísticas,
Lakatos e Marconi (2010) afirmam que a primeira atividade neste tipo de desde as mais simples com percentual, média, desvio-padrão,
às mais complexas, como coeficiente de correlação, análise de
pesquisa é a coleta de dados para que se possa, então, apresentar uma teoria
regressão, etc.
sobre o objeto de estudo.

Algumas técnicas de coletas de dados que serão estudadas posteriormente O universo quantitativo preponderou primeiramente nas ciências,
são utilizadas neste tipo de pesquisa, como a observação e a entrevista. conforme se estuda na história da ciência. A maioria das áreas se
preocupava com a comprovação de suas investigações por meio de
PRATICANDO dados numéricos.
Como você notou, a pesquisa qualitativa
demonstra a preocupação com dados que Na concepção de Lakatos e Marconi (2010), há algumas características
podem ser coletados e analisados de forma da abordagem quantitativa a serem destacadas: evidencia a observação
subjetiva. Em qual situação problema, por e valorização dos fenômenos; estabelece ideias; demonstra o grau de
exemplo, você considera ser possível utilizar fundamentação, revisa ideias resultantes da análise; e propões novas
este tipo de pesquisa? Pense nos exercícios dos observações e valorizações para esclarecer, modificar e/ou fundamentar
outros capítulos em que você foi solicitado a
respostas e ideias.
indicar temas de pesquisa.

INTERAGINDO

• Pesquisa quantitativa Convido você a discutir com seus colegas, via


ambiente virtual, os possíveis temas de pesquisa
A natureza dos dados e informações que você terá na pesquisa lhe qualitativa e quantitativa e situações em que
seja possível aplicar uma ou outra.
indicará o tipo de pesquisa ou abordagem a ser utilizada, a forma de coleta
de dados, as ferramentas que serão selecionadas... Neste caso, percebe-se a
relevância do conhecimento integral do fenômeno que está em estudo para
que se defina a característica qualitativa ou quantitativa ou até mesmo a Foi possível observar que as pesquisas qualitativas e quantitativas
associação quali-quanti do objeto estudado na investigação. podem ser definidas e identificadas pelo caráter dos dados coletados
e analisados.
Como diferencial da pesquisa qualitativa, a pesquisa quantitativa
se preocupa com a utilização de instrumentos estatísticos, coletando e Algumas outras diferenças entre pesquisa qualitativa e quantitativa
analisando dados e informações numéricas. Como afirmam Richardson et podem ser identificadas, como:
al. (1999 apud LAKATOS e MARCONI, 2010, p. 269), a pesquisa quantitativa

110 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 111
Capítulo 4 Capítulo 4

• Pesquisador se preocupa em • O interesse do investigador Neste tipo de pesquisa, há possibilidade estudar: características de
observar os contextos relativos está em medições, definições determinado tipo de pessoas ou grupos, opiniões de um público específico
ao objeto pesquisado. de escalas.
ou ainda uma pesquisa de atendimento. Assim, Cervo, Bervian e Silva (2007),
• Seleciona casos específicos • Define população e amostra na figura a seguir, apontam as formas pelas quais a pesquisa descritiva
para que sejam realizadas as (participantes aleatórios da
pode se comportar.
observações. pesquisa).

• Preocupa-se em criar padrões, • Preocupa-se em medir,


classificações. comparar, explicar possíveis
variações. Estudos descritivos
• Estudo e descrição de características ou relações existentes em
Pesquisa Qualitativa Pesquisa Quantitativa determinado grupo.

Figura 1 - Qualitativa x Quantitativa Pesquisa de opinião


Fonte: adaptado de Richardson (1999) e Lakatos e Marconi (2010).
• Tem como intuito conhecer o ponto de vista sobre determinado
fenômeno estudado.
As pesquisas qualitativa e a quantitativa nos ajudam a pensar no tipo
de coleta e análise dos dados, tão relevantes para a realização de uma Pequisa de motivação
investigação científica. • Busca conhecer motivos reais que levam os seres humanos a terem
determinadas preferências.
É possível também definir um tipo de pesquisa tomando por base seus
Estudo de caso
objetivos, ou seja, o que se deseja alcançar como resultado(s) ao final do
trabalho científico. Isso você verá no próximo tópico. • Aqui a pesquisa é focada em determinado grupo ou família que tenha
uma amostra que represente sua totalidade.

4.2.2 Níveis de pesquisa Pesquisa documental


• A investigação baseia-se em documentos existentes sobre o fato ou
As pesquisas nas mais diversas áreas pressupõem a criação de objetivo, fenômeno para que seja possível identificar diversas características do
objeto em estudo.
que indica o que o pesquisador deseja alcançar ao final do processo de
investigação. Neste sentido, as pesquisas podem ser classificadas em níveis Figura 2 - Formas da pesquisa descritiva
considerando seus objetivos imediatos. Na atualidade, os níveis de pesquisa Fonte: adaptada de Cervo, Bervian e Silva (2007).
apontados pelos autores contemplam: pesquisa descritiva, pesquisa
exploratória e explicativa (GIL, 2008). Por meio das características apresentadas sobre a pesquisa descritiva,
esta se torna facilmente identificável. Assim, quando estiver desenvolvendo
• Pesquisa descritiva uma pesquisa, você deve ser capaz de, ao observar seus objetos, definir se
possuem aspectos que levam a este tipo de investigação.
De acordo com Gil (2008, p. 28), pesquisas descritivas “[...] têm como
objetivo primordial a descrição das características de determinada população As ciências humanas e sociais, em especial, fazem uso significativo da
ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis”. pesquisa descritiva em virtude das características encontradas nos referidos
campos de estudo.
Neste caso, como confirmam Cervo, Bervian e Silva (2007, p. 61), “a
pesquisa descritiva observa, registra, analisa e correlaciona fatos ou fenômenos
(variáveis) sem manipulá-los.”.

112 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 113
Capítulo 4 Capítulo 4

PRATICANDO de forma aprofundada a realidade. Conhecer o seu conceito lhe ajudará a


compreender por quê.
Observando as características da pesquisa
descritiva, apresente duas instituições em nossa
sociedade que fazem uso deste tipo de pesquisa. A pesquisa explicativa pode ser compreendida como aquela que
Você já deve ter participado de várias pesquisas apresenta a preocupação central de “identificar os fatores que determinam
descritivas e talvez não tenha se dado conta por ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos” (GIL, 2008, p. 28).
não conhecer seus conceitos.

O nome da pesquisa reflete bem sua preocupação e objetivo maior, que


consiste em explicar a razão do acontecimento dos fatos relativos à realidade
• Pesquisa exploratória da pesquisa.

Este tipo de pesquisa é “o passo inicial no processo de pesquisa pela Alguns autores afirmam que pode ser considerada uma extensão ou
experiência e um auxílio que traz a formulação de hipóteses significativas para continuação de uma pesquisa descritiva, uma vez que tem por objeto identificar
posteriores pesquisas” (CERVO, BERVIAN e SILVA, 2007, p. 63). fatores que possibilitam detalhar um fato ou fenômeno estudado (GIL, 2008).

Gil (2008, p. 27) afirma que a pesquisa exploratória “tem como principal De acordo com o autor (2002), é possível classificar as pesquisas deste
finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em tipo como:
vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para
Experimentais
estudos posteriores”.
Manipulam as variáveis do objeto de
estudo diretamente.
Observe que a pesquisa em questão pretende proporcionar ao
investigador uma maior familiaridade com o problema e é escolhida quando
o assunto do estudo é pouco conhecido.
Ex-post-facto
A pesquisa é realizada após a ocorrência
Neste caso, sugere-se que haja um planejamento para a realização da de variações na variável em estudo.
pesquisa de forma flexível, possibilitando os diversos aspectos que podem
estar relacionados ao tema em questão. Figura 3 - Classificação da pesquisa explicativa
Fonte: adaptada de Gil (2002).
Em virtude de sua finalidade, por vezes, resultar em esclarecimento e
sistematização de um problema, constituindo a fase inicial de uma pesquisa, Segundo Gil (2002), a pesquisa experimental é uma das mais conceituadas
alguns autores costumam chamá-la de pesquisa “quase científica” e “não no mundo científico. Em sua essência, o autor (2002, p. 48) afirma que é aquela
científica”. Isto porque, pelo que foi apresentado, você deve ter percebido que se preocupa em “determinar um objeto de estudo, selecionar as variáveis
que, algumas vezes, pode-se não chegar a um resultado científico, mas sim ao capazes de influenciá-lo e definir as formas de controle e de observação dos
levantamento de um problema mais claro para estudo e pesquisa científica. efeitos que a variável produz no objeto”.

• Pesquisa explicativa De acordo com Cervo, Bervian e Silva (2007, p. 67), a pesquisa experimental
“caracteriza-se por manipular diretamente as variáveis relacionadas com o
Entendida pelos autores como um pesquisa que se destaca pela sua objeto de estudo. [...] a manipulação das variáveis proporciona o estudo da
pretensão maior, em detrimento das outras formas de pesquisa, em conhecer relação entre as causas e os efeitos de determinado fenômeno”.

114 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 115
Capítulo 4 Capítulo 4

Os autores (2007) ainda afirmam que este tipo de pesquisa objetiva


Fontes de papel Pessoas
apontar de que modo ou por que determinado fato em estudo é produzido,
diferenciando-se da pesquisa descritiva, em que o fenômeno é classificado
• Pesquisa de opinião
e interpretado. A pesquisa experimental pode ser realizada em campo ou • Pesquisa bibliográfica • Pesquisa-ação
em laboratório. • Pesquisa-intervenção
• Pesquisa documental • Estudo de caso
A pesquisa ex-post facto – cuja tradução literal é “a partir do fato • Trabalho de campo
passado” –, indica o interesse em realizar uma investigação após o fato ter Figura 4 - Divisão da pesquisa quanto à fonte de coleta de dados
acontecido. Ou seja, a ocorrência dele levou ao interesse pela pesquisa, e caso Fonte: adaptada de Gil (2008).

não tivesse ocorrido, não haveria estudo.


Os delineamentos indicados na figura 4 serão abordados destacando-se
A pesquisa ex-post facto também tem como objetivo básico, segundo as formas diferentes de como os dados da pesquisa podem se apresentar.
Gil (2002, p. 49), “[...] verificar a existência de relações entre variáveis”. No
entanto, diferencia-se da experimental, pois não há controle sobre a variável, Pesquisa bibliográfica
uma vez que o fato já ocorreu. Quando se está usando a pesquisa experimental,
é possível, de acordo com os resultados, mudar dados que possibilitem verificar Como vimos no decorrer dos capítulos anteriores, a busca pelo desenvolvimento
como a variável se comporta. No caso da ex-post facto, isso não se aplica, já da ciência acontece faz muito tempo. Assim como as atividades de intelecto, pois há
que o fato aconteceu antes da investigação. registros desde 25 a.C., por exemplo, com as Tábuas de Calímaco, que possuíam 120
volumes com vários dados detalhados da obra (FACHIN, 2001).
4.2.3 Estratégias ou delineamentos de pesquisa
De acordo com Cervo, Bervian e Silva (2007, p. 60), a pesquisa bibliográfica
Conforme Gil (2008), as estratégias ou delineamento de pesquisa se “procura explicar um problema a partir de referências teóricas publicadas em
preocupam com o ambiente em que os dados serão coletados e como as artigos, livros, dissertações e teses”.
variáveis da pesquisa serão controladas.
Para Gil (2008), a pesquisa bibliográfica se caracteriza por constituir-se
O pesquisador considera a aplicação de meios técnicos para realizar sua de material que já existe, sendo constituído principalmente de livros e artigos
pesquisa de acordo com o objeto estudado. Os níveis de pesquisa apresentados considerados científicos.
no tópico anterior relacionam-se com os objetivos traçados pelo pesquisador
e, a partir disto, definem-se os resultados possíveis de se visualizar de acordo A pesquisa bibliográfica, para Fachin (2001, p. 125), relaciona-se ao
com a pesquisa escolhida. “conjunto de conhecimentos humanos reunidos nas obras. [...] constitui o
ato de ler, selecionar, fichar, organizar e arquivar tópicos de interesse para a
Os delineamentos ou estratégias aqui apresentados preocupam-se com as pesquisa em pauta”.
técnicas para a coleta de dados, sendo consideradas as que se preocupam com
as fontes em papel e as que são fornecidas por pessoas envolvidas no processo Normalmente, esta pesquisa fornece embasamento para os demais estudos,
de pesquisa, levando-se em conta o objeto desta, conforme a figura 4. e o investigador não pode abrir mão desta durante o processo de pesquisa.
Outra aplicação da pesquisa bibliográfica é na obtenção de dados históricos, pois
como os fatos já ocorreram, para conhecermos, temos que nos atentar para os
registros bibliográficos existentes. Neste caso, o objeto é seleção de informações e
conhecimento prévio de algum tema ou problema para prosseguir a investigação.

116 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 117
Capítulo 4 Capítulo 4

Também é possível a utilização da pesquisa bibliográfica como foco do Pesquisa de opinião


trabalho em que se deseja, por exemplo, comprovar ou aplicar determinada
teoria já consolidada. Popularmente, a pesquisa de opinião pretende verificar o que um grupo de
pessoas pensa a respeito de determinado assunto ou tema que se deseja pesquisar.
Assim, percebe-se que a pesquisa em questão pode tanto fazer parte de
uma pesquisa experimental ou descritiva quanto ser uma pesquisa independente. Cervo, Bervian e Silva (2007, p. 63) afirmam que este tipo de pesquisa
pretende verificar “[...] preferências das pessoas a respeito de algum assunto,
Este é, provavelmente, o tipo de pesquisa que você, como acadêmico, com o objetivo de tomar decisões”. Consideram ainda que a pesquisa de
mais utiliza na busca de informações sobre determinado estado da arte, ou opinião “[...] abrange uma faixa grande de investigações que visam identificar
seja, sobre determinado tema ou assunto de interesse que necessite estudar falhas ou erros, descrever procedimentos, descobrir tendências, reconhecer
ou compreender com propriedade. interesses e outros comportamentos”.

Por também fazer parte das fontes de papel, vamos descrever brevemente Uma das aplicações mais conhecidas deste tipo de pesquisa reside em
a pesquisa documental, tendo em vista que a diferença para a pesquisa verificar a pretensão de votos em épocas de eleições. O interessante é que os
bibliográfica está na natureza das fontes de dados. responsáveis por este tipo de pesquisa conseguem abranger todo o país quando,
por exemplo, fazem uma previsão dos resultados de uma eleição presidencial.
De acordo com Fachin (2001, p. 152), pesquisa documental “é toda
informação de forma oral, escrita ou visualizada”. Complementando, Gil PRATICANDO
(2008, p. 51) sustenta que a pesquisa documental “vale-se de materiais que
Existem várias empresas/instituições que se
não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser especializaram em realizar este tipo de pesquisa,
reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa”. como, por exemplo, o Ibope (Instituto Brasileiro
de Opinião Pública e Estatística). Pesquise
Em se tratando de documentos, a ciência considera informações na forma outras instituições que trabalham com este
de textos, imagens, sons, sinais em papel/madeira/pedra, gravações, pintura, tipo de pesquisa e verifique como o trabalho é
realizado metodologicamente.
incrustações, editoriais, leis, relatórios, documentos jurídicos, fotografias,
filmes (FACHIN, 2001).

REFLEXÃO Pesquisa-ação

Entre as várias áreas estudadas, você consegue Este tipo de pesquisa é considerado pesquisa social que se utiliza do
distinguir quais podem se valer da pesquisa empirismo em sua prática. Muitos autores tecem críticas pelo caráter subjetivo
bibliográfica e da pesquisa documental? e pelo controle por parte do investigador, uma vez que lida com o empirismo.
Observe as áreas apresentadas no capítulo 2 e
reflita: de que forma as pesquisas podem ser
Thiollent (1985 apud GIL, 2008, p. 30) afirma que a pesquisa-ação
aplicadas ou utilizadas?
[...] é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida
e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução
de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e participantes
representativos da situação ou do problema estão envolvidos do
modo cooperativo ou participativo.

118 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 119
Capítulo 4 Capítulo 4

Pode-se perceber, pelo conceito apresentado, que há uma presença Estudo de caso
marcante do pesquisador envolvido no processo de pesquisa.
Utilizado na Europa por La Play, ao estudar famílias operárias, este tipo
Neste contexto, o investigador, nesta pesquisa, não acredita em uma de pesquisa está relacionado ao estudo ou investigação de casos (LAKATOS e
realidade fixa; há uma modificação do quadro por meio da intervenção do MARCONI, 2010).
pesquisador, utilizando de instrumentos para coleta, análise e interpretação
de dados (GIL, 2008). De acordo com Gil (2008, p. 57), tem como característica o “estudo
profundo e exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira a permitir o seu
Refletindo sobre a importância da participação do pesquisador neste conhecimento amplo e detalhado [...]”. Ao mesmo tempo, torna-se restrito
tipo de pesquisa, Kastrup (2009, p. 40) afirma que é “no trabalho operado pela por focar apenas o caso estudado.
atenção que podemos identificar mais incisivamente a produção de dados de
uma pesquisa e a dimensão construtivista do conhecimento”. Para Cervo, Bervian e Silva (2007), o estudo de caso pode ser considerado
um tipo de pesquisa “sobre determinado indivíduo, família, grupo ou
Pesquisa-intervenção comunidade que seja representativo de seu universo, para examinar aspectos
variados de sua vida”.
As primeiras ideias de pesquisa-intervenção surgiram com o advento
dos movimentos institucionalistas. Estes apresentam como principal aspecto O autor Yin (2005 apud GIL, 2008, p. 58) considera o estudo de caso como
para a intervenção, considerando a atividade coletiva, um novo conceito para “[...] um estudo empírico que investiga um fenômeno atual dentro do seu
grupo e instituição. contexto de realidade, quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não
são claramente definidas e no qual são utilizadas várias fontes de evidência”.
Esta proposta opositora à experimentação indica considerar aspectos
políticos e sociais, além de um pesquisador intervindo no processo da pesquisa. Lakatos e Marconi (2007) afirmam que motivos intrínsecos, instrumentais e
Neste sentido, a opção pela intervenção seria uma posição do investigador em coletivos motivam os estudos de casos. O primeiro, por possibilitar representação
busca da ciência. Durante a pesquisa, ao estudar a realidade da sociedade, o de traços particulares, o segundo, por favorecer o esclarecimento destes traços,
pesquisador está inserido no processo de investigação. e o terceiro, por permitir a abordagem de diversos fatos em conjunto.

De acordo com Passos e Barros (2009), a realização da intervenção Gil (2008) ainda apresenta diferentes objetivos que incitam o uso do
pressupõe um aprofundamento na experiência da relação sujeito e objeto, estudo de caso: desvendar situações reais que não estão definidas de forma
teoria e prática. clara, proporcionar a descrição da situação em estudo e possibilitar a explicação
das variáveis que causam determinado fato relativo à situação em investigação.
Para os autores (2009, p. 19), a intervenção “[...] indica o trabalho de
análise das implicações coletivas, sempre locais e concretas”. Assim, por meio Cabe ressaltar que há uma referência de identificação entre pesquisa
destas análises, considerando todos que fazem parte da pesquisa, torna-se qualitativa e estudo de caso. Este pode ser utilizado também em pesquisas
possível identificar o processo de institucionalização. exploratórias, descritivas e explicativas.

Este tipo de pesquisa pressupõe o envolvimento ativo da comunidade Trabalho de campo


por meio de aspectos que motivem a realização da investigação. Necessita-se
que haja conhecimento da problemática e contexto do grupo pesquisado para Para o trabalho de campo, Gil (2002) sugere dois tipos de atividades: o
que a intervenção aconteça. levantamento de campo e o estudo de campo.

120 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 121
Capítulo 4 Capítulo 4

Em se tratando de levantamento de campo, o autor (2002, p. 50) afirma Neste caso, as pesquisas descritivas são adeptas do levantamento, que pode
que este tipo de pesquisa “caracteriza-se pela interrogação direta das pessoas ser usado para busca de informações que não tenham muita complexidade.
cujo comportamento se deseja conhecer”. A ideia é que o pesquisador, com
base no problema definido, busque junto a determinado grupo informações No caso do estudo de campo, há um “estudo exaustivo de um
que o possibilitem gerar conclusões por meio de análise quantitativa. ou poucos objetos, de maneira que permita seu amplo e detalhado
conhecimento [...] (GIL, 2002, p. 54).
Algumas vantagens podem ser apontadas para este tipo de pesquisa,
como demonstra a figura 5 (GIL, 2002). É possível apontar algumas características do estudo de campo:
aprofundamento das questões de estudo propostas sobre um determinado
Conhecimento Economia e tema e o estudo pode ocorrer mesmo que seus objetivos sejam modificados
Quantificação
direto da realidade rapidez durante a investigação.
Quanto mais informa- A obtenção de dados É possível análise quan-
ções são fornecidas é rápida partindo de titativa uma vez que os Se você achou que os conceitos de levantamento e estudo de campo
pelos pesquisados mais entrevistadores, codifi- dados são agrupados em se assemelham, pense no seguinte exemplo: o estudo em uma comunidade
afasta-se o risco de sub- cadores e tabuladores tabelas.
carente; no caso da aplicação do primeiro tipo, você estaria preocupado em
jetividade. competentes.
buscar informações que demonstrassem características de quem está sendo
Figura 5 - Vantagens do levantamento
Fonte: adaptada de Gil (2002). estudado, como faixa etária, estado civil, renda familiar, etc.; no caso do
estudo de caso, a preocupação residiria em entender aspectos sociais, como os
Pode-se perceber, pelas informações apresentadas na figura 5, que este fatores que levam à marginalização.
tipo de pesquisa nos fornece, de forma rápida e se bem planejada, dados
quantitativos relacionados a um grupo de pessoas em estudo. 4.2.4 Métodos de coleta de dados

O autor (2002) ainda apresenta algumas limitações, como apresentado A definição de quais métodos ou técnicas de coleta de dados serão
na figura 6. utilizados na pesquisa é tarefa intermediária, devendo ser planejada e
estruturada para que seja possível alcançar os objetos propostos à investigação.
Pouca profundidade
Ênfase nos Limitada apreensão
no estudo da São vários os métodos apresentados e discutidos pelos diversos autores
aspectos do processo de
estrutura e dos
perceptivos mudança na área, mas serão apresentados neste tópico alguns dos mais usuais, como a
processos sociais
observação, entrevista, questionário e formulário, diário de campo.
A percepção das pessoas Em virtude dos dados Não indica possíveis
sobre si mesmas pode não serem adequados variações ou mudanças Observação participante
gerar dados subjetivos ao não considerar no fenômeno estudado.
e consequentemente fatores interpessoais e
Lakatos e Marconi (2010, p. 275) afirmam que a observação é uma
informações distorcidas. institucionais.
técnica que permite “informações utilizando os sentidos na obtenção de
Figura 6 - Limitações do levantamento
Fonte: adaptada de Gil (2002). determinados aspectos da realidade”.

As limitações evidenciadas pelo autor (2002) nos fazem refletir sobre Pode-se definir observação como “o exame minucioso ou a mirada
a dificuldade de coletar informações que nos permitam explicar os fatos de atenta sobre um fenômeno no seu todo ou em algumas de suas partes”
forma consistente. (RICHARDSON, 1999).

122 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 123
Capítulo 4 Capítulo 4

Já para Ruiz (1996, p. 53), a observação pode ser considerada a arte de “aplicar Cabe considerar também que este tipo de observação participante pode
a atenção a um fenômeno ou problema, captá-lo, retratá-lo tal como se manifesta”. ter as seguintes vantagens: em função de o pesquisador fazer parte do grupo,
a execução das atividades será realizada de forma natural; alguns aspectos
Em complemento, Gil (2008, p. 100) explica que “a observação nada mais considerados privados do grupo serão mostrados naturalmente; situações
é que o uso dos sentidos com vistas a adquirir os conhecimentos necessários habituais serão rapidamente conhecidas (RICHARDSON, 1999; GIL, 2008).
para o cotidiano”.
Algumas desvantagens são observadas, tendo como foco o papel
Considerando os conceitos apresentados, pode-se perceber que a desempenhado pelo observador: o risco de perder o foco da pesquisa deixando-
observação permite a realização de uma pesquisa somente com sua utilização, se influenciar pelo grupo; ou não conseguir a confiança do grupo, e muitos
sendo possível a retratação de uma realização ou um determinado fato estudado. dados podem ser perdidos.

Os autores costumam considerar a seguinte classificação para a CURIOSIDADE


observação: assistemática, sistemática, não participante e participante.
No filme Avatar (2009), a atividade de coleta de
dados da pesquisa realizada pelo povo da Terra
Na observação assistemática, a coleta de dados será realizada de no novo planeta descoberto revela-se como
forma livre, sem que haja roteiros específicos a seguir, porém pressupõe a observação participante, em que os humanos se
preocupação com o objeto de estudo. Ao contrário, a observação sistemática misturavam ao povo que habitava Pandora para
indica a necessidade de uma estrutura formalizada para a realização da obter informações a respeito de seus costumes.
Neste caso, trata-se de uma ficção.
referida técnica, tendo inclusive um plano de observação.

Quando se realiza uma observação em que o pesquisador fica apenas


como mero espectador sem interferir nos fatos ou acontecimentos observados Entrevista
tem-se uma observação não participante. Cabe ressaltar que tem caráter
sistemático (LAKATOS e MARCONI, 2010). Ao ler o nome da técnica, é possível que você compreenda o seu intuito e a
forma como é realizada pela sua recorrente utilização em meios de comunicação
Na observação participante, a característica marcante está no fato de o de massa. Isto porque se trata de uma técnica que permite a interação com o outro
pesquisador ser atuante no processo, estando na mesma posição do observado. de forma muito próxima. Richardson (1999) confirma que esta técnica possibilita
Em consonância, Gil (2008, p. 103) afirma que nesta técnica “se chega ao o desenvolvimento de uma relação muito estreita entre as pessoas envolvidas.
conhecimento da vida de um grupo a partir do interior dele”.
Gil (2008, p. 109) aponta que, na entrevista, “o investigador se apresenta
Pode-se perceber que a observação participante pelo envolvimento ao investigado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados
do pesquisador depende muito de seu desempenho. Assim, Alves-Mazzotti que interessam à investigação”.
(1999 apud LAKATOS e MARCONI, 2010, p. 277) afirma que é importante
que o observador apresente algumas habilidades, como: estabelecer com A definição de Lakatos e Marconi (2010, p. 278) para entrevista remete a
os sujeitos da pesquisa um relacionamento de confiança, ser sensível às “[...] uma conversa oral entre duas pessoas, das quais uma delas é o entrevistador
pessoas, possuir a capacidade de ouvir, elaborar perguntas coerentes, estar e a outra o entrevistado [...]”. E acrescentam que o objetivo é “[...] a obtenção
familiarizado com as questões estudadas, adaptar-se a situações inesperadas de informações importantes e de compreender as perspectivas e experiências
e ter calma na identificação de padrões ou nas atribuições de significados, das pessoas entrevistadas”.
considerando os fatos observados.

124 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 125
Capítulo 4 Capítulo 4

As formas de entrevistas mais citadas pelos autores são a estruturada e a Questionário e formulário
não estruturada, cujas características são:
Estas duas técnicas de coleta de dados se assemelham muito pela
• Entrevista não estruturada: o pesquisador não se detém em elaboração de questões para o público de sua pesquisa com o objetivo de
perguntas fixas. Pode ser usada quando se deseja dar liberdade de obter dados consistentes que embasem seus resultados.
fala ao entrevistado e quando o entrevistador pretende intervir
durante o processo. O questionário é uma técnica que se vale de “um conjunto de questões
que são submetidas a pessoas com o propósito de obter informações sobre
• Entrevista estruturada: há um roteiro estabelecido antecipadamente conhecimentos, crenças, sentimentos [...]” (GIL, 2008, p. 121).
pelo entrevistador para que os dados sejam coletados junto ao
entrevistado. As perguntas possuem uma ordem, são em grande Richardson (1999, p. 189) complementa que o instrumento possibilita
número e são as mesmas para todos os entrevistados. mapear “características de um indivíduo ou grupo. Por exemplo: sexo, idade,
estado civil [...]”.
A figura 7 apresenta uma sugestão de etapas para a realização da entrevista.
Este instrumento é conceituado também por Fachin (2001, p. 147) como
Roteiro
“[...] um elenco de questões que são apreciadas e submetidas a certo numero
Não estruturada: definição dos Estruturada: criar questões para
aspectos de interesse guiar a entrevista de pessoas com o intuito de obter respostas para a coleta de informações”.

Introdução De acordo com Cervo, Bervian e Silva (2007, p. 53), o questionário é o modo
Explicar ao entrevistado o objetivo do processo, garantir mais conhecido e utilizado para coleta de dados e se trata de “[...] um meio de
o anonimato e sigilo de respostas.
obter respostas às questões por uma fórmula que o próprio informante preenche”.

Início
Os questionários podem ser desenvolvidos utilizando-se de questões abertas
Solicitar ao entrevistado permissão ou não para
identificá-lo e de gravação da conversa. ou questões fechadas. No primeiro caso, faz-se uma pergunta e não são apresentadas
proposições aos respondentes. No caso da segunda forma, os entrevistados devem
Registro escolher entre as alternativas indicadas pelo pesquisador no questionário. Observe o
Anotações durante a entrevista ou uso de gravador. uso da forma 1 (questão aberta) e 2 (questão fechada) na elaboração de questionário:

Finalização 1) Quais fatores são causadores do aumento da violência no trânsito?


Agradecer e despedir-se do entrevistado.
2) Identifique, entre os fatores a seguir, dois que você considera causas do
Transcrição da entrevista aumento da violência no trânsito?
Transcrever exatamente o que o entrevistado afirmou durante a entrevista.
Figura 7 - Etapas da entrevista ( ) Imprudência ( ) Motoristas dirigindo alcoolizados
Fonte: adaptada de Lakatos e Marconi (2010); Gil (2008); Richardson (1999); Cervo, Bervian e Silva (2007). ( ) Motoristas despreparados ( ) Alta velocidade

Aconselha-se, após a transcrição literal da entrevista, repassar o texto ao Algumas vantagens no uso do questionário são sugeridas por Gil (2008),
entrevistado para confirmação dos dados coletados. como: o fato de atingir um grande número de pessoas em locais distantes, por ser
preenchido pelo entrevistado não há gasto com treinamento de aplicadores, as

126 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 127
Capítulo 4 Capítulo 4

respostas podem ser dadas no momento que melhor convir para o pesquisador, As duas formas de coleta de dados apresentadas, questionário e
não há identificação do respondente, não há influência do entrevistador. formulário, apresentam aspectos positivos e negativos. Cabe ao pesquisador,
baseado em seu objeto de estudo e nas características de cada técnica, verificar
O mesmo autor (2008) menciona também algumas limitações: pessoas a que é mais adequada e viável para sua investigação.
que não sabem ler ou escrever são excluídas do processo, não há auxílio ao
respondente no caso de dúvida, não se sabe em que contexto as questões Diário de campo
foram respondidas, não há garantia da devolução, os itens perguntados
podem ter significados diferentes aos entrevistados. Diante desses possíveis Este tipo de instrumento é utilizado em pesquisas em que se tem, no campo
problemas, sugere-se que o pesquisador opte por um número reduzido de de atuação, a base para a busca de dados. Assim, cabe ao pesquisador anotar o
perguntas para que haja o interesse de responder. que aconteceu em cada dia de sua atividade de pesquisa em campo. Para algumas
áreas do conhecimento, o diário de campo faz parte do cotidiano profissional.
Este tipo de instrumento pode ser usado em pesquisas descritivas, por
exemplo, quando se deseja conhecer um perfil dos clientes de uma loja. Barros e Passos (2009) lembram que, quando se pensa em pesquisa, a atividade
de registro do que é pesquisa e do processo como um todo, incluindo pesquisador
A diferença básica entre questionário e formulário está exatamente e pesquisado, constitui obrigatoriedade para a obtenção do resultado esperado.
na forma de aplicação destes instrumentos. Enquanto o primeiro deixa
o documento com o pesquisado, o segundo necessita do pesquisador para De acordo com Lourau (1988 apud BARROS e PASSOS, 2009), o diário de
realizar os questionamentos ao respondente da pesquisa. bordo data do início do século XIX e era empregado como relato pessoal, mas
passou a ser usado como estratégia metodológica.
Cervo, Bervian e Silva (2007, p. 53) conceituam formulário como “[...] uma
lista formal, catálogo ou inventário, destinado à coleta de dados resultantes 4.2.5 Análise de dados
quer de observações quer de interrogações, e o seu preenchimento é feito
pelo próprio investigador”. Após a coleta de dados, a partir da aplicação de uma ou mais técnicas
apresentadas, o pesquisador deve dar prosseguimento à pesquisa, buscando
Outra diferença para o questionário é que o formulário pode se destinar tabular e analisar os dados encontrados.
a anotar dados oriundos de uma observação. Ou seja, o pesquisador observa o
fato ocorrido e relata, com base nas questões, o que está vendo. São várias as formas indicadas e citadas por autores para a realização da
análise de dados coletados. Você conhecerá a análise estatística, a análise de
Como vantagens para a utilização do formulário, apresentam-se: ser conteúdo, a análise do discurso e a análise qualitativa.
aplicado a todas as pessoas relativas ao estudo, o número de questões pode
ser maior, analfabetos podem participar da pesquisa, há possibilidade de Análise estatística
sanar dúvidas com o entrevistador, o pesquisado não pode deixar questões em
branco ou incompletas (FACHIN, 2001; CERVO, BERVIAN e SILVA, 2007). Este tipo de análise pressupõe a utilização de algum tipo de técnica
estatística auxiliando na caracterização e resumo de dados, bem como em verificar
Como desvantagens, os autores mencionam: necessidade de mais tempo as relações existentes entre as variáveis relacionadas ao problema de pesquisa.
para aplicação, mais custos com treinamento e deslocamento dos pesquisadores
e/ou aplicadores, se o treinamento não for adequado pode haver influência Para que esta análise seja realizada da melhor forma possível, é necessário
nos resultados, e a presença do pesquisador pode gerar inibição no pesquisado que os dados tenham sido tabulados e organizados de forma a favorecer a
ao responder alguns questionamentos. análise desejada.

128 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 129
Capítulo 4 Capítulo 4

A realização deste tipo de análise pode envolver procedimentos materializações de discurso pela linguagem, considerando o contexto histórico
estatísticos simples, como a realização de um percentual, forma mais comum, em que o texto está inserido e percebendo a visão ideológica apresentada
ou em procedimentos mais complexos, em que se torna necessário chamar um pelo autor.
especialista no assunto (GIL, 2008).
Análise qualitativa
Análise de conteúdo
A análise qualitativa é empregada em casos em que os procedimentos
Historicamente, na Idade Média já havia pessoas com interesse na são de natureza qualitativa.
interpretação de escritos sagrados. No entanto, este tipo de análise surgiu
com Harold Laswel, em 1927, com um estudo que discutia a propaganda na Mules e Hurban (1994 apud GIL, 2008, p. 175) sugerem três etapas que
primeira Guerra Mundial. podem ser seguidas para se obter uma análise adequada: redução; exibição;
conclusão/verificação.
Para Richardson (1999, p. 223), a análise de conteúdo teve seu conceito
modificado com o passar do tempo, mas pode ser definida como “um conjunto Na redução, cabe ao investigador selecionar e simplificar os dados
de instrumentos metodológicos cada dia mais aperfeiçoados que se aplicam a coletados durante a pesquisa, criando formas organizadas e estruturadas,
discursos diversos”. considerando os objetivos iniciais da pesquisa.

A utilização da análise de conteúdo está focada em material qualitativo A exibição refere-se a como estes dados serão apresentados para que
em que seria complicada a aplicação de técnicas estatísticas. seja possível, ao observá-los, identificar o que há de comum entre estes e o
que os relaciona.
Análise do discurso
Em se tratando da fase de conclusão/verificação, espera-se que o investigador
A análise do discurso é uma proposta que tem base na filosofia materialista apresente padrões criados, explicações sobre os resultados pesquisados.
e que considera aspectos relacionados ao contexto histórico e social em seu
processo de análise. Este tipo de análise é utilizado especialmente em pesquisa de campo,
pesquisa-ação e pesquisa-intervenção (GIL, 2008).
Esta técnica sugiu na França na década de 60 e para compreendê-
la é importante entender que “o discuso não é a língua e nem a fala, mas
que necessita de elementos linguísticos para ter uma existência material. 4.3 Aplicando a teoria na prática
[...]” (FERNANDES, 2007, p. 24). Ou seja, utiliza-se da língua para poder ser
apresentado, externado a outros. Eliseu é proprietário de uma grife de roupas masculinas e possui
uma loja em que é o administrador. Com o grande sucesso da loja e da
A análise de discurso se baseia na tríade ideologia, que é a posiçao marca, que é revendida por outros, resolveu alçar voos mais altos. Para
adotada em um discurso por um indivíduo; o contexto histórico em que o tanto, interessou-se em lançar também uma grife de roupas femininas e,
discurso está inserido; e a linguagem, que apresenta o que o sujeito quer inicialmente, apresentá-la em sua loja. O investidor já fez pesquisas de
expressar por meio da materialização. viabilidade financeira e de mercado concorrente, mas tem seu foco agora
em saber o que seu público acha disso.
Neste sentido, a análise do discurso busca uma interpretação neutra
vislumbrando os possíveis sentidos que podem ser encontrados em Em sua loja, possui um estagiário, Vitor, que precisa desenvolver um

130 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 131
Capítulo 4 Capítulo 4

trabalho acadêmico. O administrador e proprietário da grife, então em 4.4 Para saber mais
acordo com o estagiário, solicita que este, no trabalho acadêmico que precisa
desenvolver na loja, pesquise exatamente a impressão de sua clientela quanto Sugiro que você consulte as seguintes obras:
ao fato de a loja dispor de uma grife feminina.
RICHARDSON, R. J. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. rev. ampl. São
Considerando seus conhecimentos acadêmicos, Vitor decide pesquisar Paulo: Atlas, 1999.
a visão que os clientes da loja possuem desta, pois acredita que isto pode
contribuir para o sucesso da nova marca e também o que acharam desta nova O livro de Richardson apresenta explicações adicionais acerca dos
marca na loja. Afinal, deixaria de ser uma loja exclusivamente masculina. métodos de coleta de dados possíveis de utilização. O autor apresenta maior
detalhamento de como criá-los e aplicá-los.
Para saber o que pensam os clientes sobre a loja, sobre o atendimento e os
produtos, o estagiário decidiu solicitar aos clientes que respondessem algumas Avatar (2009)
questões anonimamente para evitar constrangimentos no caso de respostas
negativas sobre a loja. Já para verificar a percepção da clientela quanto ao Este filme de grande sucesso de bilheteria, dirigido por James Cameron, é
fato de a loja ter também uma grife ou marca feminina, resolveu ele mesmo uma produção norte-americana cujo projeto iniciou em 1994. O que interessa
questionar os clientes com perguntas diretas e anotar suas respostas. para a disciplina é o foco de pesquisa apresentado no filme. Assim, caso não
tenha assistido, procure observar os procedimentos de pesquisa apresentados,
Com base no caso apresentado, responda: qual estratégia de pesquisa considerando a natureza de ficção do filme.
mais explicitamente é apresentada? Observando o exposto, aponte qual
a técnica de coleta de dados foi utilizada pelo estagiário na pesquisa de GIL, A. C. Método e técnicas da pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
satisfação de clientes e na percepção quanto à marca feminina na loja?
O livro apresenta um detalhamento muito interessante sobre a criação de
4.3.1 Resolvendo questionário, especificando como formular perguntas, ordená-las, construção
de alternativas, entre outros detalhes. O livro também dedica um capítulo
Em se tratando de estratégia de pesquisa, pode-se perceber claramente específico à entrevista e outro à observação.
que o acadêmico opta por uma pesquisa de opinião em que deseja saber o
que os clientes pensam a respeito da empresa atualmente e dos produtos que
a loja comercializa, além de saber sua opinião a respeito do aparecimento e 4.5 Relembrando
venda de uma grife feminina no mesmo estabelecimento.
O capítulo 4 apresentou:
Em relação à técnica de coleta dados, as evidências demonstram que
na primeira pesquisa utilizou-se do questionário para que não houvesse • o conceito e as características das pesquisas qualitativas e quantitativas,
identificação e por ser preenchido pelo respondente, sem interferência do apresentando também suas diferenciações;
pesquisador. Na segunda situação de pesquisa, a opção foi pelo formulário, em
que o próprio estagiário faria as perguntas estruturadas ao cliente e anotaria • a abordagem relativa aos níveis de pesquisa considerados na literatura:
a resposta no formulário. as pesquisas descritivas, exploratórias e explicativas;

• uma miscelânea de estratégias ou delineamentos de pesquisa


explicitando os conceitos e características. As pesquisas consideradas

132 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 133
Capítulo 4 Capítulo 4

foram: pesquisa bibliográfica, pesquisa de opinião, pesquisa-ação, c) A busca por dados e tratamento estatístico é característica da pesquisa
pesquisa-intervenção, estudo de caso, trabalho de campo; qualitativa.

• as principais técnicas de coleta de dados: observação, entrevista, d) Crenças, valores e observações não são considerados quando se trata
questionário, formulário, diário de campo; de pesquisa quantitativa.

• as possíveis formas de realizar a análise de dados pesquisados: análise e) Estas pesquisas não podem ocorrer concomitantemente.
estatística, análise de conteúdo e análise qualitativa.
3) Considerando as estratégias ou delineamento de pesquisa estudados,
selecione as assertivas corretas.
4.6 Testando os seus conhecimentos
I. A pesquisa de opinião considera dados em que a fonte são as pessoas
1) Considerando os conceitos dos níveis de pesquisa apresentados, relacione a investigadas.
coluna da esquerda com a da direita.
II. A pesquisa de campo é uma estratégia que tem no papel sua fonte
a) Descritiva ( ) Preocupa-se em conhecer um assunto ou problema de dados.
em maior detalhamento.
III. Podem ser divididas em pesquisas cujas fontes de dados vêm do papel
b) Exploratória ( ) Destina-se a encontrar o porquê do acontecimento ou de pessoas.
de determinado fato em estudo.
IV. A pesquisa documental fornece dados em fonte de papel.
c) Explicativa ( ) Pretende a apresentação de características de um
grupo de indivíduos. Assinale a alternativa que apresenta apenas os itens verdadeiros:

Assinale a alternativa que possui a sequência correta. a) I, II, III


b) II, IV
a) b, a, c d) a, b, c c) I, III
b) c, a, b e) a, c, b d) I, IV
c) b, c, a e) I, III, IV

2) Em se tratando de pesquisa qualitativa e quantitativa, assinale a 4) Considerando as formas de coleta de dados questionário e formulário,
alternativa correta. aponte situações de pesquisa para aplicação de cada uma delas.

a) A criação de padrões e classificações é característica da pesquisa 5) Em se tratando das estratégias de pesquisa apresentadas, diferencie
quantitativa. pesquisa bibliográfica e pesquisa documental.

b) A descrição da complexidade dos fatos é uma preocupação da pesquisa


quantitativa.

134 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa 135
Capítulo 4

Onde encontrar

BARROS, R. B.; PASSOS, E. Diário de bordo de uma viagem-intervenção. In: PASSOS,


E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L.da. (Orgs.) Pistas do método da cartografia: pesquisa-
intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009. p. 172-200.

CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A.; SILVA, R. da. Metodologia científica. 5. ed. São
Paulo: Pearson, 2007.

CHAUI, M. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003.

FACHIN, O. Fundamentos da metodologia. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2001.

FERNANDES, C. A. Análise do discurso: reflexões introdutórias. 2. ed. São


Carlos: Claraluz, 2007.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

______. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

KASTRUP, V. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. In: PASSOS,


E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. da. (Orgs.) Pistas do método da cartografia: pesquisa-
intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009. p. 32-51.

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo:


Atlas, 2010.

MINAYO, M. C. S. (org.) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 20. ed.


Petrópolis: Vozes, 2002.

PASSOS, E.; BARROS, R. B. A cartografia como método de pesquisa-intervenção. In:


PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L.da. (Orgs.) Pistas do método da cartografia:
pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009. p. 17-31.

RICHARDSON, R. J. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. rev. ampl. São


Paulo: Atlas, 1999.

RUIZ, J. A. Metodologia científica: guia para eficiência nos estudos. 4 ed. São
Paulo: Atlas, 1996.

136 Construção do Conhecimento e Metodologia da Pesquisa