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Sentido da vida diante da morte e

do sofrimento
Escola de Formação Edith Stein
Dimensão Humana – 1° módulo

Mesa Redonda:
Sentido da vida e autoconhecimento
“Uma visão da saúde integral do ser humano”

Sidnei dos Santos, ocds


A morte e o sofrimento
são realidades inerentes à
condição humana
"A dor e a tristeza são inerentes aos seres
humanos, mas o sofrimento é opcional.
Nós vamos passar por milhares de
problemas nessa existência, na nossa
vida. Mas o que mais diferente uma
pessoa da outra é como cada um vai lidar
com o seu sofrimento e sua dor. Não se
permitir entrar nesse lugar que é gostoso
de ficar quando você sofre. Todo dia, o sol
vai brilhar para todo mundo, nós vamos
ter outras oportunidades. Que a gente
consiga passar pela nossa dor com uma
certa expansão de consciência, sentindo
que preciso daquilo para o meu
crescimento como pessoa, espiritual".

https://gshow.globo.com/programas/encontro-com-fatima-bernardes/noticia/mariana-rios-destaca-importancia-da-fe-para-lidar-com-perda-de-bebe-o-sofrimento-e-opcional.ghtml
A REALIDADE DO SOFRIMENTO
Como se apresenta o sofrimento humano hoje?

• Morte
• Depressão, solidão, stress/assoberbamento
• Desemprego, desilusão
• Injustiça/iniquidade/desigualdade
• Violência
• Frustração por uma “busca romântica por felicidade”
• "Os shoppings são templos da nova religião que se impôs no mundo
moderno e, nesse lugar, não há espaço para o sofrimento”1

1. Andréa Malavolta - As novas formas de sofrimento https://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/out2000/pagina8e9-Ju155.html


Que atitudes as pessoas costumam ter diante do sofrimento?

• Fuga
• Negação
• Conformismo/resignação
• Vergonha
Alguns sofrimentos são realmente
inerentes à condição humana,
“existenciais”, outros são impostos por
uns homens aos outros
O SOFRIMENTO A PARTIR DA FÉ
La mística frente al sufrimiento
Claves para una vivencia cristiana del
sufrimiento

José Carlos Bermelo H, Rómulo H.


Cuartas, Marcelino Iragui, F. Javier
Sancho Fermín

CITeS - 2006
• Todo sofrimento evoca a experiência de se sentir-se
como que esquecido por Deus
• Com isso, surgem perguntas:
– Por quê? Como?
• Esse mistério pode e, no nosso caso, como carmelitas
seculares, deve ser iluminado pela fé
• Abordaremos alguns dos esquemas que tentam
explicar o sofrimento e algumas chaves para vivê-lo
santamente
• Mais que dar respostas, a fé nos oferece
– um interlocutor com quem compartilhar as perguntas
– uma possibilidade de viver o sofrimento de forma sadia e
santa
• Alguns esquemas para refletirmos sobre o
sofrimento
– O binômio sofrimento-pecado
– O sofrimento como purificação
– O sofrimento como expiação/oferecimento
– Como podemos entender a passagem da Carta aos
Colossenses: “Completo em minha carne o que falta às
tribulações de Cristo, em favor do seu Corpo, que é a
Igreja” - Col 1, 24
Sofrimento e pecado
• “O homem deve pagar pelos seus erros, por isso sofre”
• O plano de Deus na criação não incluía o sofrimento, mas o
primeiro homem pecou e esse pecado merece o castigo de
Deus
• Contudo...
• O relato de Gênesis não tem a intenção de responder ao
porquê do sofrimento e não é um relato histórico-físico
• Além disso, pressupõe que uns paguem pelos pecados de
outros
– Essa ideia é equivocada por 2 motivos: por alguém “pagar” pelo
pecado e ser responsabilizado pelo erro de outros
Sofrimento e pecado
• Pode existir relação entre algum comportamento
equivocado e um sofrimento, mas isso não é uma regra
universal
• Nessa ótica, o sofrimento seria um “castigo” de um “Deus
justo”. Isso é possível?
• Ressalve-se que determinadas estruturas injustas podem
determinar sofrimento, o que exige do cristão uma atitude
profética de denúncia
Sofrimento e purificação
• O sofrimento teria uma finalidade educativa - seria uma
prova enviada por Deus
• Pr 3,11: “Deus repreende a quem ama”
– o sofrimento, procedente do amor de Deus, seria um remédio,
um meio de o homem ser purificado, corrigir sua conduta,
tornar-se melhor
• Embora o sofrimento possa levar a pessoa a perceber
novos valores, fazer-se mais humana e aproximar-se de
Deus, pode ter, conforme a pessoa e o contexto, um efeito
exatamente oposto
Sofrimento e purificação
• O “Deus dos cristãos” não é um Deus que desrespeita a
liberdade do homem para provar uma pessoa ou um grupo
• Também não é um sádico que queira provar nossa fidelidade
enviando dor e dificuldade
• Que tipo de prova ou purificação seriam o sofrimento de pessoas
inocentes?
• Aproximar-se de realidades de sofrimento pode promover nosso
amadurecimento e crescimento pessoal, porém isso é fruto da
nossa liberdade em fazer a aproximação, não consequência de
superar provas enviadas por Deus.
Sofrimento e substituição: oferecimento
• O sofrimento seria um “substituto”, satisfatório para Deus
– uma expiação pela culpa dos outros
– uma substituição das penas devidas por injustos e pecadores, que não
pagariam por elas
• Deus seria, contudo, misericordioso por um lado e justiceiro por
outro
• O sofrimento de Cristo seria uma reparação formal segundo leis que
parecem muito humanas: Alguém deve pagar uma culpa
• A partir do entendimento de que a Salvação é a vitória e afirmação
amorosa de Deus para com a humanidade, as ideias de expiação e
sacrifício são supérfluas ou, ainda, contraproducentes para a
compreensão da fé
Sofrimento e substituição: oferecimento

• Pensar assim é assumir Deus como uma caricatura,


entendendo-lhe como um monarca zeloso de seus direitos - o
sacrifício de Jesus teria como fim satisfazer um Deus irritado
• Diante de um Deus próximo e misericordioso, cujo Filho se
manifesta lutando contra toda forma de sofrimento mediante
sua dedicação à atividade terapêutica e profética, que sentido
tem “oferecer os sofrimentos a Deus?”
Sofrimento e substituição: oferecimento
• Além disso, essa interpretação dá uma ideia de que o homem
pode “comprar” de Deus um bem às custas de oferecer-lhe o
esforço que supõe um padecer, algo intrinsecamente mal
• “Ofereço meu sofrimento por um missionário” – entregar a
Deus um mal (a alguém que gostamos, oferecemos um bem...)
por alguém que já está oferecendo sua própria vida por amor
(não em busca da dor...) - Deus se agrada de receber um
“presente” como esse?
Sofrimento e substituição: oferecimento
• “Quero misericórdia, não sacrifício” - Mt 9, 13
– E o conhecimento de Deus mais que os holocaustos - Os 6, 6
• Deus não se agrada com o sofrimento em si, mas sim por nos
aproximarmos Dele através do sofrimento ou apesar dele
• É desejável que, mesmo em meio ao sofrimento, me sinta membro da
humanidade dolorida, sinta a presença de Deus comigo e dirigir-me a
Ele em atitude de fé ativa
– Isso, contudo, não é exatamente entender que o sentido do sofrimento é
oferece-lo a Deus
Completar os sofrimentos de Cristo – Col 1, 24
“Agora me alegro pelos padecimentos que suporto por vós, e
completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em
favor de seu Corpo, que é a Igreja”

• Teríamos que completar os sofrimentos de Cristo com nossas


enfermidades e pobrezas, oferecendo-as a Deus pela salvação do mundo
• Paulo fala, contudo, do “sofrimento ministerial”, ou seja, do quanto custa
proclamar da mensagem do Evangelho e a construção do Reino
– Perseguições, incompreensões, etc.
Completar os sofrimentos de Cristo
• Nosso Deus não é um Deus insaciável, que quer mais sangue para
que a salvação se consume, mas de uma práxis iniciada por Jesus
de luta contra o mal e que vai na contramão do mundo,
acarretando, por isso, em algumas circunstâncias, sofrimento
• O cristão pode, em meio ao sofrimento, sentir-se partícipe da
missão salvadora de Cristo. Essa participação, contudo, não se dá
na medida que sofre, mas porque, mesmo em meio à dor, exerce
da sua atividade apostólica
Explicações limitadas...
• Todas essas explicações são racionais e limitadas
• Para a pessoa que sofre, ter uma explicação não é uma necessidade
imperiosa - Jó
• No Novo Testamento não se encontramos uma explicação
• Vemos, sim, que Deus manifestou uma práxis em virtude da qual o
sofrimento fica situado num contexto luminoso:
– O contexto da atividade terapêutica e profética de Jesus que luta contra o mal
– E do Mistério Pascal, que nos apresenta a vitória do Amor sobre todo o mal
• Não se trata, pois, de revelar o mistério, de buscar um responsável ou uma
solução
– um mistério, diferentemente de um problema, não é algo que precise uma solução, pois
está fora de nós, mas é algo que nos envolvendo, cabendo a nós apenas vivê-lo
O que importa, então?
• O que verdadeiramente podemos experimentar no
sofrimento é a possibilidade de um encontro pessoal
com o próximo e com Deus
• A questão muda de enfoque: não importa o “porquê”,
mas “como” viver o sofrimento de maneira cristã e
“quem” está na intimidade da pessoa que sofre
• E como fica Deus? Está “livre de toda responsabilidade”?
– Não! Deus se revela a todo momento e se implica no
sofrimento quando Jesus assume a condição humana e a insere
na vida divina
O que importa, então?
• Deus não sente atração alguma pelo sofrimento, não encontra
prazer nele; tampouco o exige para que se faça justiça
• O que o atrai, certamente, é a fé do homem: Deus deseja ser
conhecido pelo homem como seu Criador fiel e que esse
conhecimento se converta em vida e em uma prática igualmente
fiel, mesmo que isso redunde em sofrimento
Sofrer conforme a vontade de Deus – 1 Pe 1, 19
• O “valor” do sofrimento não está em sua dimensão
“passiva”, ou no sofrimento “por si mesmo”
– Que seja nossa atitude cristã que provoque sofrimento
(“ministerial”), ou...
– Que o sofrimento promova em nós uma atitude cristã
• Essas atitudes é que nos aproximam de Cristo, que agiu
desse modo enquanto esteve nesse mundo
Orar a partir do sofrimento
• Acompanhar/experimentar o sofrimento, a partir da fé, tem
como objetivo
– promover a justiça quando ela está ausente
– acompanhar o cultivo de uma relação sadia consigo mesmo, com os
demais e, para o crente, uma relação sadia com Deus
• Nem sempre estas relações estão purificadas: por vezes, se
espera um milagre ou se negocia com Deus
• Devemos ter cuidado para não impor, na nossa relação com
Deus, o mesmo esquema das nossas relações humanas
Orar a partir do sofrimento
• Podemos entender Deus não como alguém presente, que
dinamiza o amor em nós, mas como alguém distante, nos
comanda, julga e, de vez em quando, nos ajuda enviando
algum auxílio
• Mais do que “pedir”, podemos fazer uma oração de
“expressão”: expressar nossa pequenez, compaixão,
preocupação pelos que tem fome, necessidade de conforto
e, inclusive, nossas queixas
A PERSPECTIVA CRISTÃ DA MORTE
• Que percepção e que experiência temos da morte?
• Podemos atribuir à morte e ao sofrimento a mesma
interpretação? Essas realidades provocam em nós a
mesma reação?
• O que pensamos a respeito da nossa morte? E das
pessoas próximas a nós?
• “É em face da morte que o enigma da condição humana
mais se adensa” – GS 18
• A morte é o termo da vida terrena - como acontece com
todos os seres vivos da terra, a morte surge como o fim
normal da vida
• A morte é consequência do pecado:
– Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal;
porque, no dia em que comeres, morrerás indubitavelmente –
Gn 2, 17
– Embora o homem possuísse uma natureza mortal, Deus
destinava-o a não morrer

https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2cap3_683-1065_po.html
A morte é transformada por Cristo
• Jesus, Filho de Deus, também sofreu a morte, própria da condição
humana.
• A obediência de Jesus transformou em bênção a maldição da
morte
• Para aqueles que morrem na graça de Cristo, morrer é participar na
morte do Senhor a fim de poder participar na sua ressurreição –
Rm 6, 5
• Assim como o pecado reinou para a morte, assim também a graça
reinaria pela justiça para a vida eterna, por meio de Jesus Cristo,
nosso Senhor – Rm 5, 21
O sentido da morte cristã
• Graças a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo
– Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro (Fl 1, 21).
– É digna de fé esta palavra: se tivermos morrido com Cristo,
também com ele viveremos (2 Tm 2, 11)
– Ansiosa por ver-te, desejo morrer – Teresa de Jesus
– Eu não morro, entro na vida – Teresa do Menino Jesus
– Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal,
à qual nenhum homem vivo pode escapar – Francisco de Assis
O que nos diz Santa Teresa de Jesus?
• Após sua experiência de paralisia aos 23 anos, refere que
tinha medo da morte (V 38, 5)
• Sua experiência cristológica, contudo, muda sua percepção a
respeito da morte (V 22):
– Passei a ter pouco medo da morte. Hoje, ela me parece coisa
facílima para quem serve a Deus, porque, com ela, a alma se vê,
num instante, livre deste cárcere e posta em descanso (V 38, 5)
– Meus desejos... entendo que são morrer por Ele (R 5, 9)
– Vê-se [a alma] com tal desejo de louvar ao Senhor que gostaria de
desfazer-se e morrer por Ele mil mortes (M 5, 2, 7)
O que nos diz São João da Cruz?
• A alma não faz muito em querer morrer à vista da formosura
divina a fim de gozá-la para sempre. Se percebesse um só
vestígio da beleza e sublimidade de Deus, não desejaria apenas
uma morte, como aqui, para contemplá-la eternamente, mas
mil acerbíssimas mortes – C 11, 7
• “Rompe a tela desse doce encontro” e “Matando, a morte em
vida me hás trocado”
– Mas... Cautério suave, regalada chaga...
• Vivo sem viver em mim... Morrendo porque não morro (P 5)
Uma palavra de Elisabete da Trindade
• Que mistério incompreensível é a morte! Mas, ao mesmo tempo,
que ato tão simples para quem viveu a fé – C 208

Ó morte, feliz liberdade,


Não és o poderoso sustento
E a mais consoladora esperança
Do coração fiel e verdadeiramente cristão?
Ó, visto que deves unir a Deus
A quem já dei minha vida,
Abre-me a porta dos Céus.
(P 39)
SENTIDO DA VIDA DIANTE DA MORTE E DO
SOFRIMENTO
• É inquestionável que a identificação de um “sentido de
vida”, daquilo que para nós é a “razão para viver”,
interfere de forma decisiva na maneira como vamos
enfrentar as realidades do sofrimento e da morte
• Nossa presença na Igreja e, mais especificamente, no
Carmelo, deve ter um papel determinante naquilo que
para nós será assumido como “sentido de vida”
• Contudo, nossa personalidade, experiência de vida,
história pessoal, qualidades e limitações, também terão
papel decisivo na identificação desse sentido
• O que devemos perseguir não é a identificação de
um sentido no sofrimento em si ou nos
entregarmos a sentimentos de desesperança ou
revolta diante da morte, mas, a partir do sentido
da nossa vida, fazer dessas realidades uma
oportunidade de crescimento e amadurecimento.
• Como cristãos, nossa caminhada de fé e os
momentos da vida em que nos depararmos com o
sofrimento e a morte devem ser valorizados como
oportunidade de nos conhecermos melhor, nos
aproximarmos de Deus e dos irmãos
MUITO OBRIGADO!
sidneisjr@gmail.com

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