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EXCELENTÍSSIMA SENHORA DOUTORA JUÍZA DE DIREITO DA 2º VARA

CRIMINAL DA COMARCA DE RIO VERDE - ESTADO DE GOIÁS.

Autos nº: 1331/16


Protocolo nº: 201603013487

CLAIQUE RODRIGUES e JUREMA CRISTINA DOMINGUES, vulgo “Joice”,


já devidamente qualificados nos autos do processo em epígrafe, por intermédio de suas
advogadas que esta subscreve, conforme procuração anexa, vem, respeitosamente perante
Vossa Excelência, oferecer RESPOSTA À ACUSAÇÃO com fulcro nos artigos 396 e 396-A
do Código de Processo Penal pelos motivos de fato e de direito a seguir aduzidos.

1. DOS FATOS

O Ministério Público denunciou Claique Rodrigues e Jurema Cristina Domingues pela


suposta prática de homicídio qualificado, com fulcro no art. 121, §2º, III do Código Penal,
praticado no dia 27 de setembro de 2015.
Segundo o respeitoso Parquet, Jurema era dona do imóvel em que ocorreu o crime e
que, algum tempo antes do fato, a vítima Isaque, que era usuária de drogas, passou a invadir
sua casa, lá permanecendo e utilizando drogas sem o consentimento de Jurema. Irritada com
essa situação, Jurema teria solicitado seu namorado, Claique, que fosse até o local e matasse a
vítima, o induzindo à prática do crime.
Assim, no dia, mês e ano mencionados na denúncia, Claique teria ido até o imóvel
supracitado, onde começou a discutir com a vítima, dizendo que ela deveria deixar o imóvel
imediatamente. Como a vítima recusou-se, Claique teria entrado por uma grade e iniciado
uma suposta luta corporal com a vítima, espancando-o e causando-lhe várias lesões.
Assim, dois dias depois, Jurema teria ido até o local do fato, quando encontrou a
vítima agonizando e, com ajuda de populares, acionou o SAMU que conduziu a vítima até a
UPA desta cidade. Entretanto, após permanecer internado aproximadamente um mês, Isaque
veio a óbito no dia 02 de novembro de 2015, em virtude das lesões sofridas.
2. REJEIÇÃO DA DENÚNCIA POR AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA EM FACE
DE JUREMA

Preliminarmente, a respeitável peça acusatória não merece prosperar em relação ao


fato imputado a Jurema, uma vez que há ausência de justa causa para o prosseguimento da
ação penal ajuizada. Isto porque, o Parquet apresentou denúncia em face da Ré por ter, em
tese, cometido o crime previsto no artigo 121, § 2º, III do CP.
Nesse sentido, necessário se faz mencionar o entendimento do eminente promotor e
doutrinador João Porto que preconiza, in verbis:
Para o oferecimento da denúncia ou queixa-crime é indispensável a justa
causa, compreendida esta na existência de elementos idôneos que façam crer
ser o imputado o autor da infração bem como o conhecimento da ocorrência
do fato. (SILVÉRIO JÚNIOR, J. P. Opinio Delicti, 1º Ed. Curitiba: Juruá,
2013, p. 47)

Logo, depreende-se que a justa causa é a presença de elementos de convicção que


evidenciam plausibilidade da acusação, ou seja, indícios de autoria e prova da existência da
infração penal.
Ora Excelência, em nenhum momento Jurema confessou que teve alguma intenção de
fazer algum mal injusto a vítima, e de acordo com o Termo de Acareação (fl. 276/278)
Claique esclareceu que Jurema não estava presente no momento da infração, e nem tinha
conhecimento a respeito do fato, apenas no domingo quando ligou para ela.
Assim, não há nos autos qualquer informação de que a Ré teria mandado o Réu matar
a vítima, nem mesmo que ela estaria na data e local do fato, pelo contrário, as provas trazidas
demonstram a verdade real dos fatos, qual seja, de que a Ré não tem qualquer autoria ou
participação lhe imputada na presente denúncia.
Excelência, há um total descuido e ausência lógica por parte do órgão ministerial em
sua peça acusatória no que tange a imputação em face de Jurema, portanto a denúncia deve
ser rejeita com fulcro no inciso III do art. 395 do Código de Processo Penal:
Art. 395.  A denúncia ou queixa será rejeitada quando: [...]
III - faltar justa causa para o exercício da ação penal. 

Dessa forma, é importante destacarmos o entendimento jurisprudencial externado pelo


Tribunal de Justiça de Minas Gerais da 3ª Câmara Criminal, a seguir transcrita:
EMENTA: RECURSO EM SENTIDO ESTRITO - AUSÊNCIA DE
JUSTA CAUSA - DENÚNCIA REJEITADA - POSSIBILIDADE -
Inexistindo nos autos elementos probatórios mínimos que amparem a
denúncia ofertada pelo Ministério Público, correta a sua rejeição por
ausência de justa causa para o início da ação penal.  (TJMG -  Rec em
Sentido Estrito 1.0145.14.003494-6/001, Relator(a): Des.(a) Maria Luíza de
Marilac, 3ª CÂMARA CRIMINAL, julgamento em 12/04/2016, publicação
da súmula em 29/04/2016).

Percebe-se que a jurisprudência dos nossos tribunais tem comungado do mesmo


entendimento ora mencionado.
Desta feita, restando comprovada a fragilidade da acusação, face às provas de conduta
atípica, bem como a falta de materialidade e autoria do delito, não há se falar em crime
cometido por Jurema.
Logo, deverá Vossa Excelência, em não querendo chamar o feito a ordem para rejeitar
a denúncia, se digne, em ocasião propícia, absolver sumariamente a ré, por não ser ela a
autora ou partícipe, aos olhos dos artigos 386, inciso V e 415-A, inciso II, ambos do Código
de Processo Penal Brasileiro:
Art. 386.  O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva,
desde que reconheça: [...] IV – estar provado que o réu não concorreu para a
infração penal;
Art. 415.  O juiz, fundamentadamente, absolverá desde logo o acusado,
quando: [...] II – provado não ser ele autor ou partícipe do fato;

3. ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA POR EXCLUDENTE DE ILICITUDE EM FACE


DE CLAIQUE

Como se pode observar Excelência, só houve agressão por parte do Réu, porque ele
teve que repelir injusta agressão da vítima. Uma vez que, Claique não foi com a intenção de
iniciar uma briga, muito menos matar a vítima, somente queria pedir para que ela deixasse a
casa. Portanto, só teve início as agressões quando Isaque o ameaçou com “pedaço de pau” e
uma faca.
Nesse ínterim, ambos entraram em vias de fato. Porém, em um certo momento a
vítima ainda conseguiu pegar novamente o referido “pedaço de pau” e a faca, mas desta vez, o
Réu simplesmente deixou a vítima no local e se evadiu.
Importante salientar que, em nenhum momento Claique teve o dolo para matar, visto
que se ele quisesse, mesmo repelindo a uma injusta agressão, ele poderia ter continuado a
bater, ou ter voltado para matá-lo. Muito pelo contrário, ligou preocupado e pediu pra Jurema
ir ao local verificar como Isaque estava.
Ora Excelência, uma pessoa que quer a morte de outra, não pede para outra pessoa
verificar como a vítima estava, ou dá a possibilidade de alguém ir até o local chamar o
socorro. Além disto, uma pessoa que tem o dolo de matar, não se arriscaria se quer a falar pra
a outra onde está a vítima, e que deixou ela em determinado lugar.
Então, é possível afirmar que Claique não agiu com o propósito de matar, o que
desclassifica a conduta dele referente ao animus necandi – vontade de matar, pois foi
totalmente ao contrário disto. Assim, explica o Dr. Prof. e Advogado André Peixoto De
Souza, o que é animus necandi:
Vontade consciente de matar. Elemento volitivo e consciencioso de agir
contra vida humana. Dolo no homicídio implica, necessariamente, o desejo
de matar, e não só o desejo, como a plena consciência – refletida e meditada
– de agir nesse propósito: matar. (SOUZA, A. P. Dolo no homicídio. Canal
Ciências Criminais, 2016.)

Portanto, é explícito que Claique não quis a morte da vítima, ele somente repeliu a
injusta agressão, ele desejava apenas que Isaque saísse da casa, dito isto percebe-se que a sua
conduta foi fundada na Legítima Defesa, visto que havia um perigo prestes a acontecer
naquele momento. Assim expõe o artigo 25 do Código Penal:
Art. 25. Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos
meios necessários, repele a injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu
ou de outrem.

Assim, no caso em análise, seria impossível exigir que o Réu agisse de maneira
diversa, pois já havia sido ameaçado diversas vezes pela vítima, que inclusive era usuária de
drogas. Dessa forma, o réu foi agredido e reagiu em legítima defesa, logo cabe perfeitamente
a absolvição sumária.
Assim, deve se dar o reconhecimento da legítima defesa, causa de excludente da
ilicitude (art. 23, II, do Código Penal), com a consequente ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA do
acusado, nos termos do art. 415, IV, do Código de Processo Penal.
Art. 23, CP: Não há crime quando o agente pratica o fato: [...] 
II - em legítima defesa;
Art. 415, CPP:  O juiz, fundamentadamente, absolverá desde logo o acusado,
quando: [...]
IV – demonstrada causa de isenção de pena ou de exclusão do crime.

4. DESCLASSIFICAÇÃO DE HOMICÍDIO QUALIFICADO PARA LESÃO


CORPORAL SEGUIDA DE MORTE

Caso assim não entenda Excelência pela absolvição, deve, então, o Réu
ser responsabilizado tão somente pelo delito de lesão corporal seguida de morte. Haja vista
que, por conta das vias de fato, o certo seria falar em lesão corporal, e não tentativa de
homicídio, pois como dito anteriormente, o Réu não quis a morte da vítima, isto é, não houve
animus necandi, mas sim, somente animus laedendi, isto é, vontade de lesionar,
configuradora do crime de lesão corporal.
A lesão corporal seguida de morte é um crime de preterdoloso, isto é, o agente possui
dolo na ação (lesionar) e culpa no resultado (morte). Assim, oportuno mencionar o
entendimento do eminente doutrinador Rogério Greco, em sua obra Código Penal Comentado,
sobre o crime preterdoloso, in verbis:
Eliminar a chamada responsabilidade penal objetiva, também conhecida
como responsabilidade penal sem culpa ou pelo resultado, evitando-se, dessa
forma, que o agente responda por resultados que seque ingressaram na sua
órbota de previsibilidade. (GRECO, R. Código Penal Comentado, Ed. 11º,
rev., ampl. e atual. Niterói, RJ: Impetus, 2017, p. 128.)

Logo, como a vítima veio a óbito, passível falar de lesão corporal seguida de morte,
pois por mais que se resultou a morte da vítima, Claique não quis tal resultado, e as
circunstâncias ocorridas após as lesões, evidenciaram isto, pois ele em ato contínuo ligou para
Jurema, e pediu a ela para que fosse verificar como a vítima estava, então houve uma
preocupação com a vida de Isaque. Assim evidencia tal artigo:
Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem: [...]
§ 3° Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o
resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo;

Dessa maneira, é fundamental trazer o entendimento jurisprudencial explanado pelo


Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul da 1ª Câmara Criminal, a seguir transcrita:
APELAÇÃO-CRIME. JÚRI. RECONHECIMENTO DA
MATERIALIDADE E DA AUTORIA DELITIVA PELOS JURADOS,
QUE, NO ENTANTO, AFASTARAM O ANIMUS NECANDI,
OPERANDO A DESCLASSIFICAÇÃO DO FATO DELITUOSO.
SENTENÇA CONDENATÓRIA PELO CRIME DE LESÃO CORPORAL
SEGUIDA DE MORTE. MANUTENÇÃO DO APENAMENTO. Apelo
improvido. (Apelação Crime Nº 70044444677, Primeira Câmara Criminal,
Tribunal de Justiça do RS, Relator: Manuel José Martinez Lucas, Julgado
em 25/01/2012).

Isto posto Excelência, com a ausência do Animus Necandi comprovada, deve ser
desclassificado o crime de homicídio qualificado, imputado ao Réu, para lesão corporal
seguida de morte.

5. PEDIDOS
Diante do exposto requer se digne Vossa Excelência:
a) Seja rejeitada de plano a denúncia contra a Ré, com fulcro nos art. 395, e incisos,
do Código de Processo Penal, eis que objetiva a denúncia imputar responsabilidade
penal sob conduta atípica;

b) Caso Vossa Excelência não entenda pela rejeição da denúncia, seja dada a
absolvição da Ré, com fundamento no art. 386, V do Código de Processo Penal;

c) Requer o reconhecimento da legítima defesa, causa excludente da ilicitude (art. 23,


II, do Código Penal), com a consequente absolvição sumária do Réu, nos termos
do art. 415, IV, do Código de Processo Penal.

d) Caso Vossa Excelência não entenda pela absolvição do Réu, requer a


desclassificação do crime de homicídio qualificado para lesão corporal seguida de
morte.

e) Requer que sejam intimados, na qualidade de testemunhas as pessoas elencadas no


rol abaixo.

f) No mérito, requer que a presente denúncia seja julgada totalmente


IMPROCEDENTE.

Protesta provar o alegado por todos meios de provas, documental, testemunhal e


demais meios de prova em direito admitidos.
Termos, em que, pede deferimento.

_________________________________________
EVELYN AMANDA GUTH
XXXXX OAB/GO
_________________________________________
NYCOLE OLIVEIRA DIAS
XXXXX OAB/GO

ROL DE TESTEMUNHAS
1) Benoni Pereira da Silva, qualificado à fl. 69;
2) Valdelson Muniz do Prado, qualificado à fl. 285.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Decreto-Lei 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal. Diário Oficial da
União, Rio de Janeiro, 31 dez. 1940. Disponível em:<
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm> Acesso em: 10 de
junho de 2019.

BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível


em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689compilado.htm Acesso em: 10
de junho de 2019.

BRASIL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Apelação Crime Nº 70044444677,


Primeira Câmara Criminal, Relator: Manuel José Martinez Lucas, Julgado em 25/01/2012.

BRASIL. Tribunal de Justiça de Minas Gerais -  Recurso em Sentido Estrito


1.0145.14.003494-6/001, Relator(a): Des.(a) Maria Luíza de Marilac, 3ª Câmara Criminal,
julgamento em 12/04/2016, publicação da súmula em 29/04/2016.

GRECO, R. Código Penal Comentado, Ed. 11º, rev., ampl. e atual. Niterói, RJ: Impetus,
2017, p. 128.

SILVÉRIO JÚNIOR, J. P. Opinio Delicti, 1º Ed. Curitiba: Juruá, 2013, p. 47.

SOUZA, A. P. Dolo no homicídio. Canal Ciências Criminais, 2016. Disponível em:


https://canalcienciascriminais.com.br/dolo-no-homocidio/ Acesso em: 10 de junho de 2019.

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