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Memórias de um orientador de tese:

um autor relê sua obra depois de um


quarto de século 1

Cláudio Moura Castro


mestre em Economia pela Universidade de Yale , USA;
doutor em Economia pela Universidade de Vanderbilt , EUA e
presidente do Conselho Consultivo da Faculdade Pitágoras, MG.
e- mail: claudiomc @ attglobal . net

Os organizadores desta colet â nea perguntaram-me se gostaria de


introduzir consertos ou modificações. Sem reler, preferi n ão bulir no
texto, inicialmente, por respeito ao autor de 25 anos atr ás. Al é m disso,
poderia me entusiasmar e começ ar a remendar o texto. Mas o argumento
preponderante é que o teste do ensaio é a sua possível atualidade e a
sobrevivência dos problemas que descreve. Se o recauchutasse, os leitores
não saberiam onde está o novo e onde está o velho.
Reli com grande trepidação o texto, confesso, morrendo de medo
de achar uma porcaria. Não achei. Será falta de modéstia ou objetividade?
Que decida o leitor, já que a idéia de republicá-lo tampouco foi minha.

Nota dos organizadores: Texto originalmente publicado no ano de 1978, compondo


a colet â nea : NUNES , Edison de Oliveira ( Org . ) . A aventura sociol ógica:
objetividade, paix ão, improviso e m étodo de pesquisa social. Rio de Janeiro: Zahar,
1978 , p.307-326. No processo de organização desta colet â nea , consultamos o
professor Edson de Oliveira Nunes sobre a possibilidade de republicar o artigo do
professor Clá udio Moura Castro. Agradecemos ao professor Edson a pronta liberação
do artigo para compor esta obra coletiva.
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Certamente , h á trechos obsoletos, pela morte morrida de alguns Pelo pouco que entendo, o vendaval ideol ógico amainou por todas
temas contra os quais descarrego minha bílis. Assim foi com as chamadas as partes - umas mais do que outras. Já se pode falar em dados, evidência
“an á lises de sistema ” da é poca , uma farsa , pois n ã o passavam de e n ú meros com impunidade. O discurso racional e a busca desapaixonada
prescrições ingé nuas fantasiadas de an á lise. de explicações e a verificação empírica estão deixando de ser crime contra
a pá tria.
Há um tema em que mudaram as etiquetas mas não mudaram os
problemas. Como n ão havia doutorados, a discussã o se refere às teses Portanto, imagino que o ensaio é hoje mais atual do que h á dez ou
de mestrado. Naquele momento tais teses podiam ser tão alentadas quanto vinte anos atrás. Cabe ao leitor julgá-lo.
uma tese de doutorado hoje. De resto, já ent ão n ão tinham menos
ambi ções - e em certos casos, méritos - do que doutorados na Europa e
Estados Unidos . Belo Horizonte , março de 2001

Talvez o ponto mais curioso é que a redaçã o precedeu a idade das


trevas ideol ógicas em que mergulhou a educação e outras á reas sociais a
partir do fim da década de setenta. O ensaio reage a um momento onde o
pecado mortal das pesquisas na educação era a irrelev ância e falta de
expressão dos problemas escolhidos para assunto das teses. Tomavam-
se aspectos menores, testes de novos mé todos de ensinar esta ou aquela
disciplina. Ou descrições de assuntos ou pessoas irrelevantes.
Mas , de repente , a ideologia desabou no pa ís. A teoria da
dependê ncia , a teoria da reprodu ção, os economistas neomarxistas
radicais, a teoria do imperialismo cultural e todas as outras explicações
conspiratórias da nossa realidade. E vinha tudo empapado em fervor
ideológico, em f órmulas prontas e em explicações simples - simples
demais. Todas tinham um fundo de verdade, todas punham o dedo em
problemas importantes . Mas ao transformarem - se em religi ões
fundamentalistas, perderam a capacidade de serem testadas e de se auto-
renovarem.
Meus colegas da educaçã o se enfureceram quando comentei
publicamente que a temá tica havia saltado do tricô para a luta de classe ,
sem parar na educaçã o. Para estas novas modas, meu ensaio pouco dizia ,
imagino. Tinha a falsa neutralidade do neopositivismo. Nã o bradava
contra tudo e contra as forças opressoras. Sugeria n ú meros e estatísticas.
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Memórias de um orientador de tese única. A experiência de orientação de tese pode ser altamente enriquecedora,
mais do que compensando as atividades do cotidiano aqui descritas no mesmo
tom professoral com que são declamadas aos alunos.
Introdu ção
Este ensaio é uma tentativa de reflex ão sobre minha experiência O que não é uma tese?
como orientador de teses. O que segue é uma colagem de experiências
Os cursos de Pós-graduação em Ciências Sociais recebem nos dias
pessoais e pequenos incidentes , entremeados em uma discussão de
de hoje um grande n ú mero de alunos capazes de satisfazer a contento as
quest ões substantivas e metodol ógicas. Naquilo que se refere a esses
suas exigê ncias acadêmicas. Contudo, se é decepcionante a proporção
problemas de conte ú do e método, as observações oferecidas contêm um
destes graduados que conseguem terminar sua tese de mestrado, mais
grau apreci á vel de generalidade. Todavia , no que se refere a estilos de
inquietante ainda é a qualidade destes trabalhos . Não me deterei aqui na
atuação como orientador, cabe enfatizar o cará ter idiossincrá tico da
especulação do porquê do grande n ú mero de desistentes; meu propósito
experi ê ncia . Cada orientador tem seu estilo pessoal de trabalho .
é discutir problemas de qualidade.
Seguramente , alguns serão melhores ou piores, o que inclusive pode
depender do estudante , mas de forma alguma haveria modelos de atuação Para tomar mais concreta a quest ão, bem como para recorrer a
pessoal que fossem ú nicos ou necessariamente melhores. Dentre os uma á rea que conheç o melhor, centrarei a discuss ão nas teses em
orientadores, ocorre tal variedade de personalidades e estilos de trabalho Educação. Contudo, parece- me que em boa parte os resultados seriam
que n ão haveria qualquer sentido em emular caracter ísticas que são aplicá veis a outras á reas.
puramente idiossincrá ticas. Contudo, dado o espírito deste ensaio, n ão Nesta seção n ão pergunto como se escolhe um tema de pesquisa ,
houve qualquer tentativa de eliminar comentá rios sobre situações em mas simplesmente elaboro sobre o que n ão é uma tese.
que componentes subjetivos podem prevalecer.
Um exame superficial de t ítulos de teses sugere a seguinte
A fidelidade aos objetivos e ao tom proposto para esta coletânea levam- classificação provisó ria dos falsos caminhos observados: 1 ) propostas ,
me a mencionar que o seu organizador, em uma primeira leitura, considerou planos ou reformas de algum aspecto do sistema escolar; 2) teses
excessivamente normativo o presente ensaio.2 Voltei a lê-lo, e dei-me conta didá ticas, cujo objetivo é preparar um texto did á tico sobre algum assunto;
então de que o tom normativo corretamente percebido por ele meramente 3) teses de revis ão bibliogr áfica , nas quais se tenta reconstruir o
reflete o cotidiano do orientador de tese - ou pelo menos do meu estilo de desenvolvimento empírico ou teórico de alguma á rea ; 4) teses tipo
trabalho. Grande parte do tempo de orientação é consumido tratando de “levantamento”, nas quais se constatam ou se medem certos parâ metros
questões onde a inexperiê ncia do aluno e as limitações de tempo sugerem da realidade; 5) teses teóricas, nas quais se tenta avançar a fronteira ao
uma tática direta e óbvia: “Assim está errado, por que não tenta desta outra nível teórico-anal ítica. Em oposição a esta lista , proponho uma alternativa
forma...”. Não vai aí a implicação de que se trate de um caminho de mão que , esta sim , parece representar o formato mais apropriado e mais ó bvio
Ao mesmo tempo, notou que faltavam exemplos, crítica que sou contumaz em fazer
para uma tese: 6) teses teórico-empíricas, nas quais se relaciona algum
a meus orientandos. modelo teórico com observações empíricas.
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A julgar pelo fato de que em todas estas categorias tem havido um curso repetidamente ministrado, uma estratégia madura de transmissão
teses aprovadas, já ficou claro que meu pensamento colide com aquele de conhecimento. O curso de pós-graduação é uma volta ao desconhecido,
das bancas examinadoras dos cursos de Educação. Examinemos cada é uma tomada de consciê ncia da nossa própria ignorâ ncia. E um desafio
um dos tó picos: àquilo que criamos ou que pensávamos saber. Há tanta destruição quanto
1) Propostas ou planos - A nossa tradição educacional glorifica o criação num curso desta natureza e, portanto, nos parece pouco oportuno
furor legislativo , pressupondo uma plasticidade do mundo real , esse exercício de burilar exaustivamente a apresentação de alguma área
denunciada e negada pelas mais simples observações do que acontece a do conhecimento: isto é o que significa redigir um texto did á tico.
nossa frente. Isso sugere o pouco oportuno que é gastar alguns semestres Lembro- me de consultas feitas a mim sobre uma proposta de
do tempo de um aluno para repetir esse exercício deseducacional de organizar um roteiro de estudo de estat ística para alunos de pós -
futilidade. E preciso conhecer a realidade, antes de tentar modificá-la. O graduação. Não tive o menor sucesso em dissuadir o candidato a esse
desafio de desvendar a realidade é precondi ção para o desenho de tema. Contudo, esse tipo de tese felizmente perdeu grande parte de sua
legislação ou planejamento educacional com perspectivas de sucesso. popularidade.
Parto da premissa de que a formulação de planos toma-se muito mais
3) A revis ão da bibliografia, entendo, é o primeiro capítulo de
f ácil , uma vez compreendida a realidade, com suas áreas de plasticidade
uma tese e n ão a pró pria . O curso de pós-graduação é um esforço de
e as á reas em que seria ingé nuo ou in ócuo tentar manipular o processo
an á lise e síntese, isto é, entender o legado do conhecimento e, em
educacional . E necess á rio quebrar a tradição de redigir documentos em
seguida, elaborar sobre ele, trabalhar de maneira original e inovadora
jarg ão legal , em que se descreve aquilo que gostar íamos que fosse a
sobre essa heranç a. Escrever uma tese de revisão de bibliografia é limitar
realidade, sem qualquer respeito pelo que de fato é a realidade , pelo que
o curso de pós- graduação à primeira fase. É deixar aleijada ou mutilada
é refrat á rio à mudança e sem a ast ú cia de descobrir os pontos em que o
a d íade an á lise/s íntese . Contudo, longe de mim estaria afirmar que n ão
processo é manipul á vel .
h á dificuldades ou mé ritos nesta revisão, nesta tomada de posição crítica
Pela minha frente j á desfilaram impá vidas e invulner á veis às com relação ao “estudo das artes” . Nada mais adequado e desafiador
minhas críticas propostas para salvar os mais variados n íveis e tipos de para um aluno , mas apenas como exerc ício no que estamos
educaçã o. Lembro- me , por exemplo , de propostas para organizar provisoriamente chamando de fase anal ítica do curso. O resultado
programas pré-escolares, incluindo, naturalmente, a minuta da legislação desses exercícios raramente poderá passar de conhecimento requentado
requerida. e mal digerido. Há lugar para a revisão da literatura, aquilo que em
2) A tese didática n ão é uma aventura de raciocínio e de exploração, l íngua inglesa se costuma chamar “ survey” . Mas n ão é por acaso que
mas sim um mero exercício de redação. Escrever bons textos didá ticos é esses artigos s ão necessariamente escritos pelas pessoas de maior
função de professores, n ão de alunos, enquanto nas universidades são alunos experiê ncia e autoridade no campo, nunca por principiantes. E raro o
que escrevem teses de mestrado. E se são alunos, est ão avançando o seu campo n ão reexaminado periodicamente por algué m que por muitos
conhecimento, agu çando a sua capacidade de an álises ; n ão é esse o anos j á refletiu e contribuiu nesta área. Pode apenas ocorrer que o artigo
momento de ensinar, de congelar o conhecimento, mas sim de desafi á-lo, n ão esteja em português , mas devemos nos lembrar de que o mestrado
de alargá-lo. O texto didá tico é o resultado de um polimento sucessivo de n ão é um curso de “Tradutores e Intérpretes” .
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4) As teses do tipo “ levantamento” merecem uma discussão simples, mais elegantes ou que melhor descrevam a realidade. Aguçar as
cuidadosa . Dado o irresistível atrativo do tema para um grande n ú mero armas analíticas corresponde a uma tarefa eminentemente nobre na produção
de mestrandos, estas s ã o as chamadas teses “descritivas”. Todavia, científica. Fará um esplêndido trabalho aquele que consiga contribuir nesta
evitamos aqui essa nomenclatura de inapel á vel ambiguidade. Uma área. Em princípio, este é um tópico eminentemente nobre para uma tese.
pesquisa normalmente envolve um exame de dados e observações. Como Porém, em oposição a tópicos anteriores, que pecaram pelo excesso de
nem sempre estas observa ções est ã o dispon í veis em um formato modéstia, este impõe um grande desafio, e um desafio que o aluno deverá
adequado para a investigaçã o contemplada, é necessá rio ir ao campo realisticamente avaliar. Minha experiência pessoal com alunos de pós-
colet á- las. graduação sugere que apenas um n ú mero extremamente reduzido deles
Mas esta coleta n ão passa , ou n ão deve passar, de uma fase inicial deveria optar por este caminho. Em economia, alunos com um superlativo
da pesquisa, digamos, de um mal necessá rio. A experiê ncia de colher conhecimento de matemá tica poderão trabalhar num refinamento da
dados é importante e enriquecedora , porém corresponde a uma fração expressão simbólica de diversos aspectos do conhecimento económico. Mas,
bem modesta na formação pós- universitá ria. É o exame e a reflex ão excetuando-se áreas cuja expressão matemática já atingiu um elevado n ível ,
sobre o nexo que h á entre esses dados que correspondem ao nobre seria muito raro que um mestrando pudesse sair-se com sucesso em um
processo da pesquisa científica. Preparar questões e aplicar questioná rios, experimento estritamente dedutivo. Aquilo que com ingenuidade vem sendo
examinar a distribuição dos parâ metros ou das vari á veis, n ão passa de chamado tese teórica não passa de teoria de segunda mão. Se por tese teórica
um pref ácio, uma preparação que nã o pode e n ão deve monopolizar a entendermos discussões ou reflexões filosóficas, doutrinárias ou ideológicas,
atenção do mestrando. Interessa o que vem depois da tabulação das saímos tanto do assunto deste ensaio quanto do conte údo usual dos programas
vari á veis. Interessa o sentido que faz o entrelaçamento destas variá veis. de Ciências Sociais. Não estamos negando a procedência de teses desta
Interessa- nos o como e o porquê. Contentar-se com menos é contentar- natureza, mas simplesmente afirmando que não se referem ao que estamos
se com praticamente nada. discutindo.

Nesse ponto, minhas divergê ncias com outros orientadores é mais Algumas vezes tive sucesso em dissuadir candidatos que se
forte . Uma tese que apenas chega ao umbral da an álise é uma tese propunham a escrever o que pensavam ser uma tese teórica. A atração
incompleta; n ão est á no ponto de ser defendida. da análise de sistemas, n ão obstante, se revelou em um par de vezes
maior que meus poderes de persuasão. Traduzir duas ou três versões
Se o aluno n ão tem a disposição, gosto ou as qualificações para requentadas de aná lise de sistemas, desenhar quadrinhos e setas com o
alguma coisa al é m de coletar dados, julgamos ent ão que n ão é talhado nome do problema e das vari á veis que se deseja entender parece algum
para a pós-graduação, destinada à elite cient ífica da sociedade. tipo de magia negra. Deve ser algo assemelhado a feitiçaria ou umbanda ,
5) Chegamos agora às teses teóricas. As teorias, os modelos, os com efeito semelhante a escrever nomes em papéis e espetar alfinetes
constructos, ou como quer que chamemos, são o arcabouço lógico que nos em bonecos que representam inimigos.
permite organizar e dar sentido às nossas observações sobre o mundo real. 6) O ceticismo que revelo com relação aos temas anteriormente
Ocasionalmente ocorrem grandes saltos teóricos, as “revelações científicas”, mencionados j á deve ter claramente sugerido ao leitor que minhas
mas o trabalho cotidiano do cientista “teórico” consiste no aperfeiçoamento preferências para assuntos de tese de mestrado recaem sobre os temas
ou redirecionamento do arcabouço conceptual através de formulações mais teórico-empíricos ou indutivo-dedutivos. Não se trata de capricho ou *
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ati vismo, mas sim do fato consagrado de que este é o caminho mais trilhado transcurso do tempo nos permite mais perspectiva e objetividade, ao
na evolução da ciê ncia e na expansão do conhecimento. Por sua índole, mesmo tempo que aumenta a imprecisão e a deficiê ncia de informações ;
alguns são mais dedutivos do que indutivos, partindo de alguma formulação contudo, raramente adiciona relev â ncia a um tó pico. Paralelamente,
teórica e confrontando-a com a realidade, isto é, com a observação empírica. n ú meros, nomes e datas só adquirem import ância, no presente ou no
Outros s ão de temperamento mais indutivo, partindo do exame das passado, na medida em que se encaixam em uma estrutura lógica coerente
observações , ou mesmo da sua coleta , e daí prosseguindo para sua e teoricamente fé rtil . O levantamento de dados, de hoje ou de ontem , é
interpretação; seu raciocínio segue os meandros dos dados e da realidade, apenas o princ ípio.
eventualmente chegando ao corpus teórico da disciplina. Mas é importante E interessante ver esta mesma posição expressada pelo grande
que se entenda , n ão h á lugar para desavisados ou desprevenidos. O naturalista Von Martius, escrevendo em meados do século passado:
indutivismo puro , tal como o dedutivismo puro, são igualmente invi á veis
ou impossíveis. Aqueles que partem dos dados, já partem procurando Sobre a forma que deve ter uma histó ria do Brasil (...). As obras até o
alguma coisa e em absoluto desconhecem o repertório teórico; e aqueles presente publicadas (...) abundam em factos importantes, esclarecem até
que partem de teorias n ão as tiraram do v ácuo, mas sim de pré vios com minuciosidade muitos acontecimentos; contudo n ão satisfazem ain-
confrontos com o real . Há um escasso n ú mero de gê nios e iluminados que da as exigências da verdadeira historiografia, porque se ressentem demais
transformam e revolucionam nossos paradigmas teóricos, no outro extremo de certo esp írito de cró nicas. Um grande n ú mero de factos e circunstâ nci-
h á o exército dos proletários da ciê ncia que nada mais fazem do que produzir as insignificantes, que com monotonia se repetem , e a relação minuciosa
até o excesso de acontecimentos que se desvaneceram sem deixarem ves-
matéria-prima, em uma primitiva ind ústria extrativista. Não nos interessa
tígios históricos, tudo isso, recebido em uma obra histórica, h á de prejudi-
aqui qualquer destes dois grupos. Nosso modelo é o grande contingente car o interesse da narração e confundir o ju ízo claro do leitor sobre o
de pesquisadores que em sua atividade metódica e sistemática fazem essencial da relação. O que avultará repetir-se o que cada governador fez
avançar as fronteiras do conhecimento. Para os mais criativos , mais ou deixou de fazer na sua prov íncia, ou relacionar factos de nenhuma
preparados e experientes , estão reservados avanços mais substanciosos. importâ ncia histórica que se referem à administração de cidades, munic í-
Mas n ão é vão o trabalho dos principiantes. Não é dif ícil nem impossível pios ou bispados, etc.; ou uma escrupulosa acumulação de citações e au -
localizar á reas do conhecimento em que num exame da confluê ncia da tos que nada provam , e cuja autenticidade histórica é por vezes duvidosa ?
teoria com a realidade, do constructo com o protocolo, n ão se possam - Tudo isso deverá, segundo a minha opinião, ficar exclu ído.
antecipar contribuições respeitá veis ainda que modestas. E que isto n ão
Em suma , n ão consideramos como temas adequados para teses de
seja entendido como um teste mecânico e mortiço de “ modelos” . Pelo
mestrados (em cursos que se possam enquadrar no campo das ci ê ncias
contrário, trata-se da essência do pensamento científico, e, nas ciê ncias
sociais) os trabalhos de polimento de textos didá ticos, os exercícios
sociais , do seu maior desafio.
escolares de revisão bibliogr áfica , ou outras empreitadas, que deixem o
Propositadamente n ão coloco as pesquisas históricas em uma classe curso pela metade. Tememos o excesso de ambição daqueles que se
separada. Estarão enquadradas na ú ltima categoria , na medida em que metem em aventuras de formulaçã o te ó rica ou metodol ó gica . E
perguntam o porquê e o como de certos eventos importantes. Fatos
desinteressantes não adquirem interesse por haverem ocorrido no passado. “Como se deve escrever a história do Brasil”, Carlos Frederico Pr. de Martius, Revista
Alguns eventos s ão triviais tanto no presente quanto no passado. O do Instituto Histórico, janeiro de 1845.
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finalmente, julgamos que est á na confluência da teoria com a realidade universit á rios o caso do professor c ínico que após a eloqiiente e
o foco mais f é rtil para os trabalhos de tese de mestrado. pretensiosa conferê ncia de um colega jovem afirmou: “Tivemos hoje a
satisfação de ouvir muitas coisas importantes e muitas coisas novas. Só
lamento que as coisas novas n ão sejam importantes e que as coisas
O evento traumá tico da escolha do tema importantes n ão sejam novas”.
Sem d ú vida , a escolha do tema da tese é uma quest ão crucial. Uma Um projeto de tese que buscasse descobrir o elixir da juventude
escolha infeliz pode tomar a tese praticamente inviá vel , insalvá vel ou seria importante e original porém de viabilidade duvidosa. Uma tese que
estéril como contribuição em uma á rea em que muito pouca exploração buscasse medir a deserção do ensino primá rio estaria tratando de um tema
sistemá tica tem sido feita ; portanto, uma á rea onde é f ácil contribuir importante e vi á vel , n ão trazendo contudo qualquer originalidade. Uma
com trabalhos significativos. Uma boa idéia n ão basta , e as teses tese sobre a cor da roupa que os alunos trajam para ir fazer exame vestibular
defendidas est ão a í para melhor documentar esta assertiva. Mas, se nem seria original e vi á vel , porém destitu ída de import ância.
isto temos para recompensar as dificuldades de sua execução, a situação Vale a pena tentar caracterizar melhor o sentido das palavras
nos deixa poucas esperanç as . “importância, viabilidade” e “originalidade ”. Cabe enfatizar inicialmente a
As ang ústias e traumas observados nos estudantes, ao momento impossibilidade de defini-las de forma rigorosa. Paradoxalmente, alguns
de escolherem seus temas, est ão à altura da import ância da ocasi ão. Mas dos conceitos mais essenciais a nortear o procedimento científico se revelam
n ão vai a í dizer que as lamentações e a agressividade errá tica ent ão vergonhosamente vagos . As defini çõ es precisas e operacionais
geradas tenham qualquer funcionalidade na solu ção deste problema. freqiientemente n ão são possíveis naqueles conceitos que têm a ver com os
Tampouco é cabível imputar culpa aos alunos pelos desacertos e pela procedimentos básicos da ciência. As exigências de validade objetiva e de
infelicidade de suas escolhas. Tais erros podem em boa parte se imputar definições operacionais se aplicam de forma í rgida apenas às fases mais
à orientação acadê mica e ao clima de opini ão que prevalece no ambiente rasteiras do processo científico. Quando falamos de originalidade, por
universit á rio frequentado. exemplo, no máximo podemos aspirar ao que é conhecido como validação
intersubjetiva, isto é, embora o critério seja subjetivo, exige-se a coincidência
Há uma regrinha convencional que é perfeitamente apropriada de pontos de vistas ou percepções da parte de diferentes observadores.
como esquema mental para se discutir a escolha de um tema de tese - ou Original então é o que todo mundo acha que é original. Mas quem é esse
de qualquer pesquisa. Como todas as regras desta á rea , sua validade se “todo mundo”? Se todo mundo for realmente um grupo casualmente reunido,
deriva do fato de que é excessivamente genérica e nada afirma sobre o além da dificuldade de se obter consenso, este pouco significará. A validação
conte ú do substantivo. E meramente um roteiro que sistematiza as intersubjetiva requer, pois, a formação, pelo menos hipotética, de um grupo
discussões em tomo do assunto. cuja apreciação do tema deva receber maior credibilidade. São em geral os
Uma tese deve ser original, importante e viá vel. Cada um desses chamados “peritos” ou os patriarcas da matéria; espera-se que sejam pessoas
crité rios aponta em uma direçã o. Nã o h á qualquer dificuldade em cuja competência pessoal e cuja experiência profissional os tenha permitido
encontrar temas que satisfaçam a um ou dois deles. A dificuldade est á conviver mais e refletir mais sobre o assunto. Abrandamos o subjetivismo,
em satisfazer aos três. E se, em algum grau , os três n ão forem satisfeitos, mas na verdade não conseguimos superar o fato de que importante é o que
a tese será um rematado fracasso. E conhecido nos meios acadêmicos as pessoas importantes julgam que é importante.
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0 mérito portanto dessas regras n ão é oferecer receitas para o que foram medidos, empresta originalidade a um esforço inicial de pesquisa
se deve fazer ou deixar de fazer, mas sim servir como roteiro para nessa direção. Espera-se que o supletivo seja um instrumento de mobilidade
organizar nossa busca de uma solu ção. ascensional; os de baixo indo para cima. Estarão os candidatos realmente
1) Importância: Dizemos que um tema é importante quando está de vindo de baixo? Quem faz um curso por correspondê ncia ? Será esse um
alguma forma ligado a uma quest ão crucial que polariza ou afeta um segmento instrumento de formação profissional ? Ou uma maneira conveniente para
substancial da sociedade. Um tema pode também ser importante se está jovens de classe média adquirirem hobbies ? Em geral , quanto mais testada
ligado a uma questão teórica que merece atenção continuada na literatura uma teoria , menos os novos testes nos surpreender ão e menor a
especializada. A situação mais delicada e dif ícil teria a ver com os temas probabilidade de que nos digam alguma coisa de novo.
novos que a ninguém preocupam, seja teórica ou praticamente, mas que 3) Viabilidade: Dentre os três, este é seguramente o conceito mais
contêm o potencial de virem a interessar ou afetar muita gente. tangível. Dados os prazos, os recursos financeiros, a compet ê ncia do
Foi realizada uma pesquisa que verificou que estudantes do sexo futuro autor, a disponibilidade potencial de informações, o estado dai
masculino tendem a carregar seus livros junto aos quadris, seguros por teorizaçã o a respeito , d á para fazer a pesquisa ? O prazo pode ser
apenas uma das mãos. J á as mulheres levam - nos com ambas as mãos , insuficiente, o mesmo se dando com os recursos. Ao pesquisador pode
cingidos junto ao peito. Original e vi á vel essa pesquisa pode ser. Sua faltar o preparo espec ífico naquele campo. Pode n ã o haver uma
relev â ncia , contudo, est á por ser demonstrada. Não nos parece um tema sistematização pré via do conhecimento na área ou a teoria apresentar
priorit á rio na pesquisa educacional brasileira. insolvê ncia metodol ógica . Finalmente, os dados necess á rios podem
inexistir, ou mesmo , a sua coleta ser impossível. O veredicto de
Em oposição aos antropólogos que buscam o exótico, estudantes inviabilidade é mais f ácil ser atingido com confianç a, em contraste com
de educação se sentem irremediavelmente atra ídos pelos estudos sobre critérios de import ância e originalidade.
sua pró pria profissão - querem saber como anda o seu pró prio mercado
de trabalho, em que consistem suas funções etc. Ao experimentarem um Em uma ocasi ão recebi uma proposta de tese na área de nutrição, na
novo método pedagógico, por exemplo, querem saber o que os professores qual se previa um estudo experimental com mensurações no início e no
pensam dele. Ora, isso poderia vir a ser uma segunda ou terceira fim de um processo de interven ção no funcionamento de unidades
preocupação, em termos de import ância. O que realmente cabe saber familiares. Tratava-se de uma pesquisa com pré-escolares, visando a alterar
primeiro é se os alunos aprendem melhor desta maneira. hábitos de alimentação. Tal como estava desenhado, o estudo requereria
pelo menos quatro ou cinco anos, se estivesse em mãos de pesquisadores
2) Originalidade: Um tema original é aquele cujos resultados têm o experimentados e com todos os recursos disponíveis. Para tomá-lo viável
potencial para nos surpreender. O fato de n ão haver sido feito não confere houve que transformá-lo em um estudo transversal , sem componentes
necessariamente originalidade a um tema. Em muitos estados brasileiros experimentais ou semi-experimentais, ou qualquer tipo de intervenção. O
e em muitas ocasi õ es foi medido o status socioecon ô mico dos resultado final , embora muito mais modesto do que a proposta inicial ,
universitários. A mensuração deste conceito em um estado que estivesse revelou-se uma tese de mestrado particularmente interessante.
faltando n ão ofereceria muita originalidade: sabemos que os resultados
não nos vão surpreender. Por outro lado, o status socioeconômico dos A an á lise ocupacional tem se revelado particularmente falida
alunos do supletivo ou dos cursos por correspondê ncia, porque jamais no caso das ocupações mais complexas , que convencionalmente
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requerem escolaridade superior. De fato, o fracasso do mé todo das tirar alguma coisa que n ão havia sido encontrada antes. Achar que com
previs ões de m ã o-de-obra ( manpower requeriments approach ) em pouca experiência e com pouco esforço será possível descobrir coisa
boa parte pode ser atribu ído à insolvê ncia da an á lise ocupacional. E nova onde os outros n ão descobriram é pueril , pretensioso e subestima o
dentre as ocupações de n ível superior, n ão h á mais refrat á rias a esta esforço daqueles que anteriormente examinaram o tema.
an á lise do que aquelas que envolvem uma forte dose de administração.
Mas, como amainar o fervor de um aluno que se propõe à an á lise As pretensões de um trabalho científico têm que ser dosadas de
ocupacional de um diretor de escola ? Como convencê- lo que tal acordo com as possibilidades do autor nas circunst â ncias dadas. Isto n ão
pesquisa s ó produzir á banalidades ? quer dizer que o trabalho tenha que ser concebido j á do tamanho certo e
justo . No planejamento de uma pesquisa h á um período inicial de
Um problema traiçoeiro também de viabilidade est á em teorias expansão, seguido por um outro de contenção ou corte; em termos da
que aparentemente são simples e bem arrematadas mas que na realidade nomenclatura usada em estudos de criatividade, há um per íodo divergente,
escondem enormes dificuldades. O Ministé rio da Educação alegremente seguido por um outro convergente. Há um per íodo em que todas as idéias
convida a todos para sondagens de mercado para ocupa çõ es são acolhidas, todas as ramificações são interessantes e bem- vindas e
profissionalizantes do 2- grau . Caveat emptor, somente os mais onde a autocensura e limitações de tamanho são peias impertinentes.
sofisticados em economia da educação poderão perceber que estas Neste período, o enciclopedismo é bem-vindo.
sondagens são inacreditavelmente dif íceis. Os problemas teóricos e
metodol ógicos para sua realização ainda n ão foram resolvidos. Há entretanto um momento - que não pode tardar muito - em que
a pesquisa tem que adquirir foco, livrar-se dos desvios e ramificações
menos importantes , chegando finalmente ao seu tamanho vi á vel .
Diá rio de um orientador Sentimentalismo com relação ao que é jogado fora significa um duro
sacrif ício no tratamento daquilo que fica. Essa é a hora de transformar
Nesta seção passamos em revista um conjunto de situações que um ex-futuro tratado definitivo em uma contribuição modesta. Ao mesmo
frequentemente se apresentam no processo cotidiano de orientação de tempo, significa trocar um sonho utópico por uma possibilidade tangível .
teses . Pesquisa n ão se faz com sonhos e pretensões , mas pela adi ção de
contribuições pequenas mas sólidas e irreversíveis.
a) A ambição excessiva: os tratados definitivos
Quase todos os autores de teses passam por uma fase em que se b) A história da humanidade como tema de tese
imputam a missão de produzir o tratado definitivo sobre o assunto. É O excesso de ambição na amplitude do objeto de estudo a ser tratado
como se a história da ci ência fosse passar a ser dividida nos períodos encontra paralelo na dimens ã o histórica que principiantes tendem a dar
“antes da minha tese ” e “depois da minha tese”. O otimismo e a ambi ção aos seus temas. O que n ão deveria passar de uma tentativa parcimoniosa
são saud á veis até o momento em que impedem um grau de atenção de localizar o t ópico no espaço e no tempo termina em uma empreitada
suficiente a cada um dos pontos a serem cobertos . de narrar a história da humanidade. Qualquer que seja o assunto, podemos
A perspectiva de uma contribuição significativa é contingente à esperar citações de Aristóteles ou Plat ão, referências sobre sua ocorrência
concentração de esforç os em certos t ó picos, até que seja possível deles na Idade Média, talvez em S ão Tomás de Aquino, o que disseram os
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de um quarto de século

iluministas sobre o assunto, e por aí afora . Nos exemplos mais tristes, c ) Das maneiras naturais de se dispor mal do tempo: excesso de
essa historiografia da humanidade ocupa praticamente todo o prazo que dados e escassez de análise
estaria destinado à tese e preenche um n ú mero de laudas nas quais se
pensaria que deveria estar o trabalho completo. A prá tica da pesquisa indica que na maioria dos trabalhos existe
uma sequência aceitavelmente previsível de etapas. Da mesma forma, a
Uma tese deve revelar o domínio dos conceitos utilizados e um certo duração de cada uma dessas fases, embora possa variar de pesquisa a
conhecimento da literatura técnica. O assunto n ão deve estar solto no pesquisa, segue uma distribuição que nada tem de caótica. E bem verdade
espaço, mas colocado no seu contexto. Todavia, o domínio dos conceitos que qualquer tentativa de fazer com que um modelo de pesquisa ou uma
se revela no seu uso ao longo da análise e não na infind á vel sequência de sé rie padronizada de procedimentos se imponha sobre as necessidades
definições de diferentes autores. Quanto ao conhecimento da literatura, sentidas ao longo do trabalho é indevida , injustific á vel e corresponde a
espera-se competê ncia e n ão erudição. São aqui particularmente culpados uma compreensão errada do papel ou das funções dessas regras; contudo,
os orientadores que tendem a valorizar nas teses o tecido adiposo de citações h á algumas generalizações cabíveis.
e a exumação histórica de autores que escreveram no passado sobre o
assunto. Como regra geral , devemos entender que todos esses Toda pesquisa tem uma fase inicial na qual se definem seus
prolegômenos têm que se manter em uma posição modesta, tanto no esforço objetivos, se examina a literatura pertinente e, enfim , se planeja o trabalho.
de elaboração da tese quanto na voracidade de papel. Se pouco h á que Essa fase normalmente culmina com aquilo que chamamos termos de
dizer de substantivo, se há poucos resultados a comentar, não é apresentando referê ncia ou projeto de pesquisa, mas este documento deve ser entendido
alentadas revisões da literatura , “ histórias da humanidade” ou capítulos como um subproduto do processo de planejamento e da pesquisa e n ão
metodológicos que se vai atenuar o problema. Uma tese grande e sem como objetivo em si. Segue-se então uma fase de coleta de dados, sejam
novidade é pior do que uma tese pequena e sem novidades. eles de primeira ou de segunda mã o. A próxima fase é o processamento
Uma história da educação no Brasil est á por ser escrita. Não se dos dados, envolvendo ou n ão computação eletrónica, de acordo com o
pense por isso que esse possa ser um tema de tese. Quatrocentos anos de -tipo de pesquisa. Vem ent ão a sua an á lise e interpretação. Finalmente ,
hist ória do Brasil diluem a criatividade do autor, a ponto de não sobrar vem a redação do trabalho, chamando-se a atenção para o fato de que
nada substancial para a compreensã o de qualquer local ou momento. parte dela pode preceder o final da an álise. Finalmente, h á um período
Em contraste, uma tese sobre a educação em Minas Gerais na década de de revis ã o que envolve a circulaçã o do trabalho entre leitores ,
vinte seria um estudo bem- vindo e vi á vel . orientadores, críticos, amigos, etc. As revisões de estilo e d ú vida quanto
à clareza têm que ser atendidas e a apresentação física do trabalho cuidada.
O que foi dito sobre a história da humanidade é também v á lido
para os tratados de geografia e as descrições minuciosas sobre o processo Podemos pensar em uma sequê ncia correta de duraçã o de cada
de amostragem. Nada mais tentador do que preencher espaços com mapas uma das fases, tal como ilustrado abaixo.
e as variadas estatísticas contidas em um anu á rio.
Igualmente, quando amostramos, estamos interessados no universo. Sequência correta
Não cabe, portanto, descrever minuciosamente as unidades que compõem
defini çã o coleta de processamento an á lise reda çã o revis ã o
a amostra, a não ser que isso possa definitivamente contribuir para uma dados
melhor compreensão de certos resultados.
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de um quarto de século

Há contudo uma outra sequ ê ncia que poder íamos chamar dos projetos de tese. Em segundo lugar, o autor não é capaz de se antecipar
“ natural ” e que corresponde à manifestação de duas grandes forças à infinidade de pequenos problemas administrativos e logísticos que
naturais: o alongamento das fases iniciais e o encurtamento das finais, ocorrem no curso da coleta. Todo otimismo com relação a autorizações
este ú ltimo produzido pela inelasticidade dos prazos , conforme para entrar em escolas, f ábricas ou repartições é totalmente infundado.
ilustraçã o a seguir. Facilmente leva-se seis meses para tramitar uma permissão de entrevistar
alunos de uma escola ou duas. No caso do uso de dados secund ários,
Sequência “natural” aquilo que se pensava existir, muitas vezes nunca chegou a ser coletado.
Entrevistadores de campo exibem uma assustadora taxa de deserção e
definiçã o coleta de dados processamento
o- tê m que ser substitu ídos ao meio do caminho. Freqiientemente , o tempo
1 7~ previsto para a coleta de dados amplia-se enormemente. O pesquisador
termina então tendo consumido uma fração muito grande do seu tempo
A fase de planejamento encontra seus obst áculos naturais na para coletar muito mais dados do que na realidade necessita.
produção do malfadado “ projeto de pesquisa ” e na procrastinação do O processamento de dados quando é feito em computador oferece
in ício da pesquisa, gerada pelos dramas existenciais . Nessa fase, a imensas perplexidades. O pesquisador n ão conhece o que pode fazer o
pesquisa ainda n ão começou ; seu autor n ão sabe como iniciar e tem computador e tampouco sabe dialogar com o programador. Assustado
medo de fazê- lo. Da í sua tendê ncia escapista . Continuar revendo a com um curso de “ Fortran ” , iniciado h á muito tempo , ele vê no
literatura é uma desculpa perfeita , havendo sempre um livro a mais para programador uma t á bua de salvação e a ele entrega todo o seu programa,
ser lido, mais um artigo que aparece de ú ltimo hora , etc.4 A redação do todo seu trabalho , na ilusão de que em poucos dias receberá os resultados.
projeto é també m traumá tica. O aluno entende que aí se deverá resolver Desaparecem os programadores, n ão funcionam os programas preparados
uma sé rie de problemas que na realidade constituem o objetivo da e o tempo passa. Fracassaram os pesquisadores por n ão entenderem que
pesquisa e que n ão poderiam ser atendidos antes . o processamento eletrónico n ão é um apê ndice estranho ao seu trabalho,
A coleta de dados é prejudicada por dois tipos de problemas. mas sim uma parte integrante. Quem deve conhecer toda a estat ística
Frequentemente , h á um erro no desenho amostrai , no sentido de que é envolvida é o pesquisador; o programador n ão é professor de estatística
planejada uma amostra excessivamente grande. Esta amostra é grande disfarç ado. Quem est á interessado em usar um package estat ístico é o
tanto no que se refere à signific â ncia dos par â metros e à sua pesquisador, que tem pressa, e n ão o programador, que está interessado
representatividade quanto no tempo necessário para obtê-la. Amostras em fazer o seu próprio programa com o gasto de tempo muito maior.
ineficientes ou simplesmente grandes demais caracterizam a vasta maioria Vem então finalmente a fase de análise, já espremida e sacrificada no
cronograma, uma vez que os prazos finais se aproximam. Acossado pelas
Devemos nos lembrar de que Darwin , após ter todo o material de que necessitava advertências sobre prazos dos chefes de departamento, iludido pela pouca
para demonstrar suas idéias, decidiu completar mais ainda sua evidência através de familiaridade com o que seja uma an álise, o pesquisador se limita às
uma pesquisa sobre moluscos que consumiu cerca de dez anos. Somente depois interpretações mais imediatas das primeiras tabelas em que põe a mão. Há
desse estudo redigiu o ensaio no qual expõe sua teoria evolucionista . Esse escapismo dados demais e não há tempo para manipulá-los. Há muitas variá veis e o
parece ter sido determinado por causas emocionais e d ú vidas religiosas.
tempo mal dá senão para examinar as distribuições de frequência de cada
i

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de um quarto de século
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uma. O que passa então por análise nada mais é do que a religiosa limpeza Infelizmente, cada uma dessas partes corresponde a uma etapa mais e mais
analítica dos dados, sua depuração e arrumação em categorias básicas. A k
nobre, mais e mais criativa, e com um potencial cada vez maior de valorizar
f
relação entre páginas de textos e páginas de tabelas nos d á uma idéia da o trabalho. Com exceção da escolha do tema e do desenvolvimento de
habilidade do pesquisador para extrair coisas interessantes e importantes uma estratégia geral, as primeiras fases de um trabalho são puramente
dos dados. O autor se esquece de que não são os n ú meros que dão sentido à mecânicas, não contendo um grande potencial de afetar a natureza da
interpretação, mas sim a interpretação que dá sentido aos n ú meros. contribuição que se pretende do trabalho - exceto no sentido de que algum
Ainda mais premido pelos prazos, vem o momento de redigir e erro grave cometido a princípio pode pôr a perder todo o esforço. Com
concluir o trabalho. A revisão da literatura foi feita e refeita ao início, já grande generalização, diríamos que há uma incontível tendência para que
estando a estas alturas imaculadamente polida, o mesmo se dando com a as teses tenham dados demais e análise de menos.
descri ção da amostragem e a metodologia . Mas a an álise , coitadinha,
atrofiou-se , perdeu a imaginação; das expectativas grandiosas do começo d) As ofensas à l íngua pátria: prova de redação para o mestrado ?
não resta quase nada. A experiê ncia de fazer um mestrado talvez tenha como grande
A redaçã o n ã o deve ser entendida como um processo de ganho pessoal um imenso aumento na capacidade para se fazer entender
congelamento gráfico daquilo que parecia haver sido descoberto na por escrito na língua pá tria. Possivelmente , os ganhos de conhecimento
aná lise. É muito mais. No processo de passar para o papel de forma na á rea substantiva da tese ou a contribuição para a humanidade daquele
articulada e rigorosa , as idéias crescem, amadurecem , lançam raízes. conhecimento não se comparem às melhorias na capacidade de expressão
escrita. De um aluno que praticamente nada escreveu até entã o - quem
O que tínhamos na cabeça antes de escrever é uma pá lida imagem , sabe uma carta para a mamãe , um telegrama, ou um suado trabalhinho
uma sombra mortiça daquilo que finalmente sai no papel. Mas isto n ão é de estágio - pede-se que produza uma obra que tenha inclusive o potencial
um processo que acontece instantaneamente. E sobretudo, se não há idéias de publicação em forma de livro.
para se passar ao papel , n ão h á o que crescer.
Se o grande ganhador nesse processo é o aluno, não h á d ú vida que
O processo de revis ã o oferece um grande potencial de o grande perdedor é o orientador de tese. Não raro, cerca de 50% do
enriquecimento. Assim , como massa de pão , o trabalho tem que tempo de orientação é consumido em questões de estilo, clareza ou forma.
“descansar”. Nesse período, ele deve visitar outros pesquisadores amigos As idéias n ão são transmitidas por intuição, mas sim através da palavra
e , quem sabe , inimigos. O esforço artesanal de preparação e certos escrita. Se nas orações falta o sujeito, predicado ou outras partes , é
mecanismos psicológicos nos tomam excessivamente aliados do nosso necessá rio indagar do aluno quais sejam. O conte ú do vem através da
trabalho. É preciso um pouco de tempo para perder parte do amor por ele, forma - se esta é ininteligível, obscura, ambígua ou desconchavada, deixa
para vê-lo com mais perspectiva e mais espírito cr ítico. E é quando de ser apropriadamente transmitido o conte ú do. Dizer que est á mal a
adquirimos esta perspectiva que o trabalho pode ser melhor articulado e forma raramente adianta , pois voltará igualmente insatisfat ó ria na
melhor defendido. \ próxima versão, obrigando o orientador a ler duas vezes a mesma porcaria.
O que vemos então nas formas espontâneas de se dispor do tempo é A contragosto e praguejando, o orientador toma-se ent ão um revisor de
uma compressão progressiva de cada fase subsequente da pesquisa. estilo e de gramá tica, perdido em meio a questões de forma: “Se é isso
que você queria dizer, por que n ão o disse em vez de escrever o que aí

j
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de um quarto de sé culo

est á?” Às vezes n ão sobra tempo nem paciência para as questões de f ) O orientador como guia espiritual e consultor sentimental
conte ú do. Al é m de professor de portugu ês , professor de estat ística e
Seguramente , o aspecto mais cansativo e desalentador de orientar bibliotecário, o orientador tem outros tantos papéis no domínio afetivo.
uma tese resulta da incapacidade e inexperiência do aluno em questões Preparar uma tese é uma experiência emocionalmente tensa para a maioria
de redação. É surpreendente a diferenç a na qualidade da redação entre o dos alunos . Alé m das crises normais geradas na condu çã o da pesquisa , a
primeiro e o ú ltimo capítulo. Ultimamente, como solução de desespero, mobilização psicológica para a preparação da tese pode desencadear crises
adotei como critério para aceitar orientandos: uma prova de redação. maiores com origem em outras áreas. Até desquites não são incomuns.
Para tomar mais incruenta a confrontação , esta passa um pouco disfarçada De qualquer forma , o desafio e as dificuldades da tese podem criar
como pedido de uma discussão inicial, por escrito, sobre o tema. insegurança e grandes temores.
Por motivos que psicólogos amadores facilmente identificariam ,
e ) Do discurso de vereador ao discurso científico
as crises metodol ógicas e os dramas existenciais s ão acompanhados
Apesar de que são capazes de colocar sujeitos e predicados e evitar por ferozes invectivas contra a universidade e a chefia dos
frases de pé-quebrado, alguns sofrem de incontíveis tendências para a departamentos a que pertencem os zangados alunos . Quando vacilam
adjeti vação rica, o circunlóquio, a hipérbole, e praticamente todos os recursos as teses ou claudica o ritmo de trabalho , isso se deve a algo
estilísticos. Quando finalmente se entende a figura de estilo, já se esqueceu a profundamente sinistro sendo tramado ou a desmandos ca ó ticos da
idéia. Há sempre uma maneira mais simples, mais direta de se dizer alguma coordenação do departamento.
coisa, e esta é sempre evitada. Se há uma palavra mais vaga, mais grandiloquente Um pouco independentemente de suas qualificações na á rea ,
e com maior variedade de significados, por que não usá-la? vê-se o orientador forç ado a consolar, encorajar ou aplicar v á rios
Alguns só conseguem escrever claro quando levados à exaust ão, modelos de sermão, improvisados de acordo com o momento: algumas
premidos por prazos improrrogá veis e totalmente desiludidos da sua prédicas para n ão desanimar os que j á est ão chegando ao fim , v á rias
capacidade de manipular a língua. É então que voltam apologeticamente versões para a necessidade de aprender a escrever; alguns sermões
com um trabalho que relutam em entregar e se envergonham de havê-lo pregando a f é em que algum dia alguma coisa vai sair do computador.
escrito. Ficam imensamente surpreendidos ao saberem que pela primeira Há outros indicando que um “chi ” quadrado, um “T” ou um “F* n ão
vez escreveram claro e bem. Trata-se aí de um trabalho de catequese e significativos n ão indicam nem o fim do mundo nem o fracasso da
doutrinação para o orientador, que finalmente descobre que o aluno sabe pesquisa . A primeira vers ão do capítulo de conclus ões requer um
escrever mas que se envergonha de qualquer maneira direta de transmitir serm ão especial para acompanhar os coment á rios do orientador
uma idéia. indicando que ali est á longe de haver qualquer conclus ão e que n ão
O problema se complica muito quando o pesquisador, além de n ão passa da repeti çã o mec â nica de meia d ú zia de coisas que j á se
saber escrever, n ão admite a possibilidade de fazê-lo em forma simples. encontravam antes. Recentemente incendiou- se, ficando totalmente
Se forçado a escrever rapidamente para evitar as met áforas e outras carbonizada , a ú nica vers ão final da tese de um orientando meu . Devo
figuras, ninguém sabe o que est á querendo dizer. Se lhe damos tempo, a confessar a minha incapacidade para produzir a alocu ção que a
compreensão da idéia passa a ser agora obstruída pela ornamentação. gravidade do momento sugeria.

ií .
iSsSs., '
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g ) Dos direitos e deveres do orientador


O orientador é um ser humano, com uma dose dada de paci ência e
tem portanto o direito de esbravejar diretamente com o orientando i no
estilo que mais lhe agrada ou alivia. Não cabe à sua mulher, mas sim ao
pró prio orientando a ingrata função de receber todas as tempestades
provocadas pela sua iné pcia .
O orientador deve permitir e estimular divergê ncias de opini ão
entre o orientando e ele próprio. Sua função n ão é de catequizar ou
doutrinar, mas sim de levar sua cr ítica ao extremo l ógico daquilo que
pode ser demonstrado factualmente ou teoricamente. O que pode ser
demonstrado como errado est á, ipso facto , errado e cai fora. Se a lógica
fracassa , pela mesma raz ã o entra na censura . Todavia, se h á uma
divergê ncia de opini ão ou de ju ízo de valor, a atuação do orientador será
apenas no sentido de levar o autor a fazer conspícua a natureza subjetiva
ou valorativa da quest ão.
Por persuasão ou por índole , orientadores variam em seus estilos
de trabalho. Uns s ão pacientes, outros afoitos; uns são benevolentes,
outros zangados. Alguns vetam sucessivamente até que os alunos
consigam chegar finalmente por conta pró pria à solução correta. Outros
quase chegam a fazer o trabalho do aluno. Naturalmente , alguns têm
mais tempo ou mais disposição para gast á-lo com seus alunos. E
importante que o aluno conheça antecipadamente as regras do jogo e as
idiossincrasias do seu orientador.

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