Você está na página 1de 9

______________________________________________________________________________

EXCELENTÍSSIMO SENHOR(A) DOUTOR(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA ___ª VARA


CÍVEL DA COMARCA DE FORTALEZA-CE

AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO C/C DANOS MORAIS

RAQUEL ALVES BEZERRA DE OLIVEIRA, brasileira, solteira, engenheira


civil, portadora do RG nº 2000029261016 e inscrita no CPF nº 675.210.383-
00, residente e domiciliada na Rua Braz de Francesco, 300, Apto. 434, São
Gerardo, CEP. 60.325-010, por intermédio do Defensor Público e estagiários,
in fine subscritos, perante Vossa Excelência, propor a presente AÇÃO
DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO C/C DANOS MORAIS, em face da
AZUL LINHAS AÉREAS BRASILEIRAS S.A, pessoa jurídica de direito privado, situada
ao Logradouro Al Surubiju, 2010 E, 2050, Bloco C, CEP.: 06.455-040, bairro
Centro Industrial e Empresarial, Barueri-SP, inscrita sob o CNPJ nº
09.296.295/0001-60 e MASTERCARD BRASIL LTDA, pessoa jurídica de direito
privado, situada à Av. das Nações Unidas, nº 12901, 26º andar, CEP.: 04.578-

FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ – FIC 1


RUA VISCONDE DE MAUÁ 1940- BLOCO G – TÉRREO
FONE: 3456-4156
______________________________________________________________________________

000, bairro Brooklin, São Paulo-SP, inscrita sob o CNPJ nº 01.248.201/0001-


75. O que se faz pelas seguintes razões de fato e de direito:
PRELIMINARMENTE

DA JUSTIÇA GRATUITA

A requerente faz jus aos benefícios da justiça gratuita, por ser


pobre na forma da Lei, sendo assistida pela Defensoria Pública (doc. Juntos),
tendo ainda o prazo, em dobro para realizar todos os atos processuais, nos
termos do artigo 128, I da lei Complementar federal nº. 80/94 e artigo 5º da
lei Complementar Estadual nº. 06/97.

DOS FATOS

A requerente portadora do cartão de crédito nº 5193 3900 1928


5015, que mantém contrato com a segunda requerida.

A requerente foi vítima de um golpe, através do qual foram feitas


03 (três) compras sem seu consentimento: duas compras na TAM Linhas
Aéreas (já reembolsadas) e uma na primeira requerida, nos dias 23/01/2011
e 24/01/2011, respectivamente. Ao entrar em contato com a primeira
requerida foi informada que as compras realizadas se deram de forma
eletrônica.

Operações estas suspeitas, não informadas à autora, que só veio


tomar conhecimento das mesmas através de verificação online de suas
transações financeiras com a segunda requerida, e temendo ter sido vítima
de golpe de clonagem, a requerente se dirigiu à Delegacia do 2° Distrito
Policial, no dia 23/02/2011, onde informou sobre as compras irregulares e na
mesma ocasião confeccionou um Boletim de Ocorrência, de n° 102–
3825/2011 (documento anexo).

A requerente ainda entrou em contato com a administradora do


cartão Mastercard Banco Santander, e após explicar a situação conseguiu
com que as duas compras da TAM fossem ressarcidas.

FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ – FIC 2


RUA VISCONDE DE MAUÁ 1940- BLOCO G – TÉRREO
FONE: 3456-4156
______________________________________________________________________________

Em contrapartida, a autora não obteve o mesmo sucesso ao tentar


o ressarcimento pela compra na primeira requerida. Em resposta, a
administradora alegou que a compra fora feita com o uso de senha, e que
por esta senha ser de conhecimento exclusivo da requerente, não haveria
possibilidade de cancelamento da compra.

É sabido que na modalidade de compra eletrônica não há


necessidade do uso da senha para realização de qualquer transação
financeira, sendo suficiente o número do cartão de crédito e outros dados do
titular do cartão. Ainda na ocasião em que manteve contato com a primeira
requerida, a autora tentou obter mais informações sobre a compra, que lhe
foram negadas.

Dessa forma, a autora continua sendo cobrada por uma compra


que não realizou, compra esta que fora feita em dez parcelas de R$ 101,76
(cento e um reais e setenta e seis centavos), totalizando R$ 1017,60 (hum
mil e dezessete reais e sessenta centavos), conforme se depreende pela
fatura detalhada que também segue em anexo.

Como se pode perceber compulsando os emails que seguem


anexos, diante de tantos empecilhos impostos pelas empresas requeridas
para solucionar o problema de forma pacífica, a autora não encontrou outra
saída, senão recorrer ao Poder Judiciário para que não tenha seu patrimônio
diminuído de forma injusta, através da cobrança indevida, e sua imagem
maculada, como má pagadora.

DO DIREITO

DA APLICAÇÃO DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E DA RESPONSABILIDADE


OBJETIVA DOS PROMOVIDOS

O caso sob análise se trata de uma patente relação de consumo


entre a suplicante com as promovidas. O discurso que se segue não visa
lecionar sobre qualquer matéria, mas apenas explanar as principais teses
que corroboram com o direito da suplicante.

FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ – FIC 3


RUA VISCONDE DE MAUÁ 1940- BLOCO G – TÉRREO
FONE: 3456-4156
______________________________________________________________________________

A utilização do cartão de crédito motiva o próprio consumo e


atualmente podemos notar que estamos em plena transformação deixando
de ser uma sociedade de consumo e passando a ser uma sociedade de
crédito.

As conseqüências disto para o consumidor são sérias, pela a


grande e constante oferta de crédito e a facilidade de comprar dada ao
usuário, este acaba hipotecando seu próprio futuro, estabelecendo uma
relação de profunda confiança com Administradoras de Cartões de Crédito ao
utilizar estes créditos e fornecer dados pessoais e os números de suas
principais documentações.

Por este motivo explicita a Vossa Excelência, a intenção de


requerer a aplicação do Código do Consumidor ao presente caso.

No tocante a responsabilidade objetiva das requeridas, é sabido que


fornecedor de serviço responde independentemente de culpa por qualquer
dano causado ao consumidor, pois que, pela teoria do risco, este deve
assumir o dano em razão da atividade que realiza. Vejamos o ensinamento
de Sérgio Cavalieri:

Uma das teorias que procuram justificar a responsabilidade objetiva é a teoria


do risco do negócio. Para esta teoria, toda pessoa que exerce alguma
atividade cria um risco de dano para terceiros. E deve ser obrigado a repará-
lo, ainda que sua conduta seja isenta de culpa.

Como o próprio Código de Defesa do Consumidor nos diz, o fato


que gerou o dano, proveniente da relação de consumo, e o dano à parte mais
fraca, caberá ao responsável a sua reparação, não havendo necessidade do
consumidor apresentar prova da culpa, senão vejamos:

Art. 14. O fornecedor de serviços responde,


independentemente da existência de culpa, pela
reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos
relativos à prestação dos serviços, bem como por informações
insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. (grifos
nossos)

Ou seja, quando uma operadora de crédito disponibiliza um cartão


para um consumidor e exige o uso de senha ou assinatura para autorizar as
FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ – FIC 4
RUA VISCONDE DE MAUÁ 1940- BLOCO G – TÉRREO
FONE: 3456-4156
______________________________________________________________________________

transações, mas em contrapartida possibilita que se utilize este mesmo


cartão para compras online dispensando esta senha ou a assinatura, está
expondo o consumidor a riscos, que no caso devem ser assumidos pelas
requeridas e não pela requerente.

Então com fulcro no Código de Defesa do Consumidor, devemos


admitir que a responsabilidade pelos danos causados pelas promovidas seja
considerada objetiva.

DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA

Outro instituto a ser invocado e aplicado ao caso em epígrafe é a


inversão do ônus probatório, previsto como direito básico do consumidor, de
acordo com o art 6°, VIII do Código de Defesa do Consumidor, senão vejamos
in verbis:

Art 6. São direitos básicos do consumidor:


[…]
VIII – A facilitação dos seus direitos, inclusive com a
inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil,
quando à critério do juiz, for verossímil a alegação ou
quando for ele hipossuficiente, segundo as regras
ordinárias de experiência.

Assim, tendo em vista que ao tentar uma composição amigável


com os requeridos já lhe foi dificultado o acesso a determinadas informações;
e cumpridos os requisitos legais acima explanados, mister se faz a aplicação
do instituto em tela, com o escopo de fazer recair sobre a parte demandada
o ônus de comprovar os fatos.

O doutrinador Luis Guilherme Marinoni, que assim estabelece o


seu entendimento:

Quando a prova é impossível, ou muito difícil, ao


consumidor, e possível, ou mais fácil ao fabricante ou ao
fornecedor, a inversão do ônus da prova se destina a dar
ao réu a oportunidade de produzir a prova que, de acordo
com a regra do art. 333, incumbiria ao autor. Agora não
FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ – FIC 5
RUA VISCONDE DE MAUÁ 1940- BLOCO G – TÉRREO
FONE: 3456-4156
______________________________________________________________________________

se trata de inverter o ônus da prova para legitimar – na


sentença – a incompletude ou a impossibilidade da prova,
mas de transferir do autor ao réu o ônus de produzi-la – o
que deve ser feito na audiência preliminar. (Manual do
Processo de Conhecimento; 2005, 4ª ed., RT,
p.275).

Desta forma, a promovente pretende requerer mais adiante a


inversão do ônus da prova, conforme determinação legal e doutrinária.

DO VALOR DA REPARAÇÃO

A suplicante, baseada no Art.5º, XXXII da Constituição Federal de


1988, procura o Judiciário para punir as promovidas, diante do descaso com
seus consumidores.

O Código de Defesa do Consumidor estabelece no seio de suas


normas uma política Nacional de Relações de Consumo, que ilustra bem os
danos sofridos pela requerente, senão vejamos:

Art. 4º. A política Nacional de Relações de Consumo


tem por objetivo o atendimento das necessidades dos
consumidores, o respeito a sua dignidade, a
saúde e segurança, a proteção de seus
interesses econômicos, a melhoria da sua
qualidade de vida, bem como a transparência e
harmonia das relações de consumo.
(grifos e destaques nossos)

E é com base nisso, que o legislador ordinário, ao compor o Código


de Defesa do Consumidor atribuiu uma série de direitos ao consumidor,
dentre eles garantia de prevenção e reparação aos eventuais danos sofridos
pelo consumidor, como se extrai da inteligência do artigo 6º do diploma
retro, ipisis litteris:
Art.6º. São direitos básicos do consumidor:
[…]

FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ – FIC 6


RUA VISCONDE DE MAUÁ 1940- BLOCO G – TÉRREO
FONE: 3456-4156
______________________________________________________________________________

VI - A efetiva prevenção e reparação de danos


patrimoniais e morais, individuais, coletivos e
difusos;
[…]
VIII – A facilitação da defesa de seus direitos,
inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu
favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for
verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de
experiência;
[…]
(grifos e destaques nossos)

No caso em tela, patentemente houve dano material, tendo em


vista a ofensa ao patrimônio da suplicante, no quantum da divida que lhe foi
atribuída, sendo ele de dez parcelas de R$ 101,76 (cento e um reais e
setenta e seis centavos), totalizando R$ 1017,60 (hum mil e
dezessete reais e sessenta centavos).

O dano moral também está claro, pois o uso indevido do nome e


dos dados pessoais da autora violou a relação de confiança que até então
existia entre ela e as promovidas, tendo gerado conseqüências negativas ao
respeito, à psique, ao nome, ao crédito, ao bem estar e à vida da requerente.

Desde já, com base na natureza e extensão do dano, na


capacidade econômica da autora e das promovidas, bem como no efeito
pedagógico da indenização, informamos que a pretensão da autora pela
reparação dos danos morais é de R$ 10.000,00 (dez mil reais).

Acerca da pretensão da autora, podemos citar a Teoria da


Qualidade por inadequação, trazida pelo nobre Professor e Ministro do STJ
Antônio Herman Benjamim, que defende a reparação, quando houver dano
financeiro e psicológico ao consumidor. No caso em questão, não há dúvidas
quantos aos prejuízos financeiros e psicológicos acarretados por esses
transtornos, que causaram stress e insegurança para o requerente uma vez
que a relação de confiança entre a autora e as promovidas foi violada. Neste
caso as empresas requeridas têm responsabilidade e devem reparação.

FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ – FIC 7


RUA VISCONDE DE MAUÁ 1940- BLOCO G – TÉRREO
FONE: 3456-4156
______________________________________________________________________________

A requerente além de ter tido o sigilo de suas informações


pessoais violadas, ainda está tendo que arcar com os custos pertinentes à
aquisição das passagens para o uso de outra(s) pessoa(s).

DO PEDIDO

I. Citar as Requeridas, no endereço indicado, para querendo, conteste a


presente inicial, sob pena de revelia e de confissão quanto à matéria de fato,
de acordo com o art.319 do CPC;

II. Conceda a inversão do ônus da prova, nos termos do art. 6º, VII do Código
de Defesa do Consumidor, ficando ao encargo das Requeridas, a produção de
todas as provas que se fizerem necessárias ao andamento do feito;

III. A aplicação do Código de Defesa do Consumidor ao presente caso e que


se admita a responsabilidade das promovidas como objetiva;

IV. Julgar procedente os pedidos autorais, declarando a inexistência dos


débitos em favor da autora, referente as compras de passagens aéreas na
empresa requerida, ao pagamento no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais) à
título de danos morais, bem como a restituir os valores já pagos pela
requerente.

V. Por fim, que V. Exa. Condene as promovidas a arcar com os ônus da


sucumbência (honorários advocatícios e custas processuais) em 20% sobre o
valor da causa a serem revestidos à Defensoria Pública do Estado do Ceará.

Protesta provar o alegado por todos os meios admitidos em


Direito, em especial juntada ulterior de documentos, bem como, quaisquer
outras providências que Vossa Excelência julgue necessárias à perfeita
resolução do feito ficando tudo de logo requerido.

Dá-se à causa o valor de R$ 11.017,60 (onze mil, dezessete reais e


sessenta centavos).
Nestes Termos,
Pede e Espera Deferimento.
FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ – FIC 8
RUA VISCONDE DE MAUÁ 1940- BLOCO G – TÉRREO
FONE: 3456-4156
______________________________________________________________________________

Fortaleza, 10 de Março de 2011.

_______________________________
DEFENSOR PÚBLICO

_______________________________
ARTHUR SILVA DE SOUZA
ESTAGIÁRIO
_______________________________
ROBSON DE VASCONCELOS SOUZA
ESTAGIÁRIO

FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ – FIC 9


RUA VISCONDE DE MAUÁ 1940- BLOCO G – TÉRREO
FONE: 3456-4156