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W a r r e n W.

W i e r s b e

C o m en tá rio
B íblico

A N T I G O T E S T A M E N T O
Comentário Bíblico
Wiersbe
Antigo Testamento

Warren W. Wiersbe
REIS BOOK’S DIGITAL
Comentário Bíblico
Wiersbe
Volume I
Antigo Testamento

Warren W. Wiersbe

Traduzido p o r Regina Aranha

Santo André, SP - Brasil


Copyright® 1993 porVictor Books SP Publications, Inc.
Publicado originalmente por Cook Communications Ministries, Colorado, EUA.
Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados por
Geográfica Editora Ltda

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Título original em inglês: Wiersbe's Expository Outlines on the O ld Testament
Comentário Bíblico Wiersbe Antigo TestamentoAA/arren W. Wiersbe
Rio de Janeiro: 2009
688 páginas
ISBN: 978-85-89956-63-5
1. Comentário bíblico. Teologia/ Referência

Editor Responsável
Marcos Simas

Coordenação editorial
Aldo Menezes

Revisão Teológica
Jefferson Magno Costa

Tradução
Regina Aranha

Revisão de Tradução
Maria Helena Penteado

Revisão de provas
Josemar Pinto

Capa
Magno Paganeli

Diagramação
Pedro Simas

Impressão e acabamento
Geográfica Editora

1a edição: Dezembro/2008

Os textos das referências bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Atualizada
(ARA), 2a edição, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação específica.

GEOGRÁFICA EDITORA LTDA


Av. Presidente Costa e Silva, 2151
Parque Capuava - Santo Andre - SP - Brasil
www.geograficaeditora.com.br
D e d ic a t ó r ia

D edicado com grato apreço à memória do


dr. D. B. Eastep (1900-1962), pastor amoroso e fiel,
talentoso comentarista da Palavra, mentor devoto
para todos os pastores.
S u m á r io

Prefácio................................. 9

Antigo Testamento:
Notas introdutórias..................11 Provérbios....................... 501
Eclesiastes....................... 527
Génesis.................................15 Cântico dos Cânticos.... 535
Êxodo.................................. 89 Isaías................................ 541
Levítico.............................. 149 Jeremias...........................565
Números............................179 Lamentações..................577
Deuteronômio.................. 205 Ezequiel...........................583
Josué.................................. 223 D a n ie l.............................591
Juizes................................. 249
Rute................................... 265 Profetas menores:
Notas introdutórias............ 625
Livros históricos:
Notas introdutórias.............. 273 O séias.............................627
Joel...................................631
1 Samuel............................273 Am ós............................... 635
2 Samuel............................305 Obadias...........................639
1 Reis..................................331 Jonas................................ 643
2 Reis................................. 359 Miquéias..........................647
1— 2 Crónicas...................395 N aum .............................. 651
Esdras.................................411 Habacuque..................... 655
Neemias............................423 Sofonias...........................659
Ester...................................437 Ageu................................ 663
Jó....................................... 449 Zacarias...........................667
Salmos...............................465 Malaquias....................... 675
Prefácio ma de estudo, reuniram as lições em
formato de cadernos. A Calvary Book
Room, ministério de literatura da igre­
ja, publicou-as. Milhares de cadernos
com esses esboços foram distribuídos
pelo mundo inteiro, e o Senhor aben-
çoou-os de forma singular.
Quando decidi que já era
tempo de publicar os estudos de
forma mais permanente, contatei
O objetivo deste livro é guiá-lo
por todo o Antigo Testamen­
to e oferecer-lhe a oportunidade
Mark Sweeney, da Victor Books, e
ele ficou muito feliz em trabalhar
de estudar cada livro e seus ca­ comigo nesse projeto. Revisei e
pítulos estratégicos com a finali­ atualizei o material, acrescentan­
dade de aprender como eles se do uma seção sobre 1— 2 Cróni­
ajustam à revelação completa que cas, que não havia no estudo ori­
Deus nos deu de Cristo e sua obra ginal; mas não houve mudança
redentora. Os estudos são conci­ na posição teológica ou nas in­
sos, práticos e especificamente terpretações básicas.
úteis às aulas de escola dominical Se você já usou qualquer dos
ou aos grupos de estudos bíblicos volumes da minha coleção Comen­
que queiram examinar a Palavra tário Bíblico Expositivo, reconhecerá
de Deus de forma sistemática. uma abordagem semelhante nestes
Esses estudos nasceram das aulas estudos. Entretanto, neste livro há
que preparei para a Calvary Baptist material que não se encontra nessa
Church, em Convington, Kentucky, coleção, e ele foca capítulos estra­
em que ministrei de 1961 a 1971. O tégicos, em vez de adotar a aborda­
dr. D. B. Eastep, meu piedoso prede­ gem versículo por versículo. Mesmo
cessor, legou-nos o "Curso de Estu­ se você tiver meu Comentário Bíbli­
do Completo da Bíblia", que guiava co Expositivo, achará este novo vo­
o estudante ao longo da Bíblia em lume útil para seus estudos.
sete anos: três no Antigo Testamento Gostaria de registrar meu pro­
e quatro no Novo Testamento. Fazia fundo apreço à sra. D. B. Eastep, res­
cópias e distribuía as lições, semana ponsável muitos anos pela Calvary
a semana, aos alunos da Escola de Book Room, por supervisionar a pu­
Bíblia. No fim, quando começaram a blicação e a distribuição do original
chegar pedidos de outras igrejas que deste livro. Ela e sua equipe aceita­
queriam seguir o mesmo cronogra- ram essa difícil tarefa como um mi­
10 Prefácio

nistério de amor, pelo qual o Senhor Por fim, minha esposa, Betty,
os recompensará grandemente. certamente merece uma coroa es­
Não posso nomear individual­ pecial para premiá-la pelas horas
mente todas as pessoas queridas da que me deu para o estudo bíbli­
Calvary Baptist Church que partici­ co e a escrita enquanto preparava
param da produção das lições origi­ este material. Não seria fácil para
nais e depois dos cadernos, mas elas o pastor de uma igreja grande e
sabem que fazem parte deste proje- em crescimento, pai de quatro
to, como também sabem que as amo crianças ativas, encontrar tempo
e prezo o ministério de sacrifício de­ para escrever estas lições; mas
las. Algumas delas estão no céu e sa­ Betty estava sempre lá para man­
bem, em primeira mão, como Deus ter a casa funcionando de forma
usou, em todo o mundo, estes estu­ tranquila, para cuidar das chama­
dos simples, cujo objetivo era ganhar das telefónicas e das interrupções
o perdido e edificar sua igreja. e para me encorajar a praticar a
Robert Hosack, meu editor na filosofia de Paulo de "mas uma
Victor Books, merece agradecimen­ coisa faço" (Fp 3.13).
tos especiais por sua paciência e en­ Oro para que o Comentário bí­
corajamento, em especial quando blico Wiersbe resulte em um minis­
eu lutava para que o programa do tério vasto e fecundo para a glória
computador funcionasse de forma de Deus.
correta para que pudesse editar ra­
pidamente o material. W a rren W . W iersbe
gistro do comportamento de Deus
com seu povo celestial (a igreja)
Antigo Testamento sob a graça. A linha divisória en­
tre eles é a cruz, não a página em
Notas introdutórias branco entre Malaquias e Mateus!

II. Propósito
Muitos cristãos evitam o Antigo
Testamento, pois pensam que não
I. Nome há mensagens para eles nele ou
A palavra "testamento" significa que é muito difícil de entender.
"aliança" e refere-se a um acordo No entanto, por favor, percebam
entre os homens ou entre Deus e que o Antigo Testamento era a úni­
os homens. O Antigo Testamento, ca Bíblia que Cristo, os apóstolos e
no que diz respeito à Bíblia, é o a igreja primitiva possuíam. Quan­
registro da antiga aliança, a alian­ do Paulo refere-se às "Escrituras",
ça que Deus fez com os judeus no ele fala dos livros do Antigo Tes­
monte Sinai; e o Novo Testamento tamento. Praticamente, os escritos
é o registro da nova aliança que do Novo Testamento referem-se
Jesus fez por intermédio de seu a todos os livros do Antigo Testa­
sangue. Do ponto de vista literá­ mento ou os citam. Considere o
rio, o Antigo Testamento inicia-se propósito quádruplo dos escritos
com Génesis e termina com Mala- do Antigo Testamento:
quias, enquanto o Novo Testamen­
to inicia-se com Mateus e termina A. Fundação
com Apocalipse. Entretanto, do Se não fosse pelos registros do Anti­
ponto de vista doutrinal e dispen- go Testamento, não teríamos nenhu­
sacional, esse não é o caso, pois ma informação a respeito da origem
a antiga aliança inicia-se, de fato, do universo, da origem do homem,
em Êxodo 20 e é posta de lado do início do pecado, do nascimento
na cruz (Cl 2:14). A nova aliança da nação hebraica ou dos propósi­
inicia-se com a morte de Cristo e tos de Deus para o mundo. Podemos
continuará com o povo de Deus traçar de volta à história do Antigo
para sempre. Em sentido amplo, Testamento cada doutrina do Novo
podemos dizer que o Antigo Testa­ Testamento. Se quisermos interpre­
mento é o registro da conduta de tar de forma correta o Novo Testa­
Deus com seu povo terreno sob a mento, precisamos compreender o
Lei, e o Novo Testamento é o re­ registro do Antigo Testamento.
12 Antigo Testamento: Notas introdutórias

B. Preparação sucessos do povo de Deus. Vemos


O Antigo Testamento revela a prepa­ Deus demonstrar seu poder na vida
ração de Deus para a vinda de seu das pessoas, mas também vemos o
Filho ao mundo. Em Génesis, vemos que o pecado e a incredulidade fa­
a necessidade de um Salvador e a zem às pessoas. Deus registrou es­
promessa de que virá por intermé­ ses pecados e sucessos para nosso
dio da mulher, da nação judaica e benefício (1 Co 10:11). Quando ve­
da tribo de Judá. O resto do Anti­ mos homens como Abraão, Moisés
go Testamento amplia esses fatos e e Davi superarem seus problemas
mostra como Satanás tentou destruir por meio da fé, sentimo-nos encora­
a nação judaica a fim de evitar o jados e esperançosos (Rm 15:4). As
nascimento de Cristo. Génesis 3:15 orações de Salmos e os conselhos
indica que há duas "sementes" em práticos de Provérbios ajudam-nos
conflito no mundo, a semente de em nossa vida diária se confiarmos
Satanás e a de Cristo, e, a partir de e obedecermos.
Génesis 4, vemos esse conflito. O dr. Griffith-Thomas, em seu
excelente livro Methods of Bible
C. Tipificação Study [Métodos de estudo bíblico ],
O Antigo Testamento é a galeria afirma que o Antigo Testamento é
de quadros de Deus que mostra um livro de: (1) profecias não cum­
sua verdade em tipos e símbolos. pridas, (2) cerimónias não explica­
Cada doutrina do Novo Testamen­ das e (3) anseios não satisfeitos. No
to tem uma tipificação no Antigo Novo Testamento, temos o cum­
Testamento. O cordeiro pascal, de primento dessas profecias, a expli­
Êxodo 12, é um retrato de Cristo cação dessas cerimónias e a satis­
(Jo 1:29; 1 Co 5:7). O tabernácu­ fação desses anseios, e, é claro, a
lo do Antigo Testamento tipifica a realização de tudo isso acontece
ressurreição; a unção com óleo re­ por intermédio do nascimento, da
trata o Espírito Santo; etc. Quando vida, da morte e da ressurreição de
estudar o Antigo Testamento, certi­ Jesus Cristo.
fique-se de usar a luz do Novo Tes­
tamento para dissipar as sombras III. Análise
(Cl 1:1 7) e de procurar a pessoa e Encontramos, em cada divisão da
a obra de Cristo. Bíblia, acontecimentos históricos,
experiência pessoal e expectati­
D. Demonstração va profética. O Antigo Testamento
O Antigo Testamento é um livro prá­ conta-nos a história do povo terreno
tico que mostra os fracassos e os de Deus, Israel, quando preparava o
Antigo Testamento: Notas introdutórias 13

caminho para o nascimento de Cris­ revela o Antigo". Os princípios de


to, e o Novo Testamento conta-nos Deus não mudam, mas suas dispen-
a história da igreja como o povo de sações sim.
Deus que vive para Cristo e aguarda
com ansiedade o retorno dele. Você B. Cristo
pode delinear as principais mensa­ Nosso Senhor Jesus Cristo é a cha­
gens do Antigo Testamento como ve para a Bíblia, e é impossível en­
mostramos a seguir: tender o Antigo Testamento sem o
levarmos em consideração. Como
• Fundação (Génesis— Deuteronô- Graham Scroggie habilmente ob­
mio): fundamento para o relato serva: "Cristo é profetizado no An­
do restante da Bíblia. tigo Testamento, está presente nos
• Demonstração (Josué—Ester): Deus Evangelhos, é proclamado em Atos,
em obra na vida dos indivíduos e é mais bem compreendido nas Epís­
das nações. tolas e predomina em Apocalipse".
• Aspiração (Jó—Cântico dos Cân­ No Antigo Testamento, as experiên­
ticos): o anseio do povo de Deus cias da nação judaica são os elos na
em busca de experiência pessoal cadeia que leva ao nascimento dele,
com o Senhor. em Belém. Cada tipo ou cada sím­
• Expectativa (Isaías—Malaquias): bolo é um retrato dele. Olhe para
profecias sobre o Cristo prometi­ Cristo, e o Antigo Testamento torna-
do e o justo reino de Deus. se um novo livro para você!

IV. Princípios de estudo C. Referências cruzadas


Siga as referências cruzadas do Anti­
A. Revelação progressiva go Testamento no Novo Testamento.
O Antigo Testamento revela gradual­ Há muitas Bíblias em português com
mente as verdades divinas, mas ape­ excelentes referências cruzadas. Tal­
nas atingimos a plena luz da verda­ vez você queira adquirir a obra clás­
de de Deus no Novo Testamento. sica de R. A. Torrey, The Treasury of
Por isso, tome cuidado para não Scripture Knowledge [O tesouro de
construir doutrinas fundamentadas conhecimento das Escrituras], um li­
em versículos isolados do Antigo vro com quinhentas mil referências
Testamento, especialmente de Sal­ cruzadas que cobrem quase todos os
mos a Eclesiastes, e ignorar os ensi­ versículos da Bíblia. Certifique-se de
namentos claros do Novo Testamen­ estudar cada pessoa, evento ou dou­
to. Lembre-se do antigo adágio: "O trina do Antigo Testamento à luz da
Antigo esconde o Novo, e o Novo revelação do Novo Testamento. Isso
14 Antigo Testamento: Notas introdutórias

acrescentará toda uma nova dimen­ nossa vida! "Toda a Escritura é [...]
são ao seu estudo. útil para o ensino [...], para a edu­
cação na justiça..." (2 Tm 3:16-1 7),
D. Obediência e isso inclui o Antigo Testamento.
Não basta estudar o Antigo Testa­ É maravilhoso compreender a ver­
mento e encontrar verdades mara­ dade histórica, doutrinal e dispen-
vilhosas sobre Cristo e sua salva­ sacional, mas nosso estudo é vão
ção. Precisamos aprender as lições se não levar à verdade prática, ao
práticas e pô-las em operação em viver devoto.
G énesis

Esboço
I. História da humanidade em geral (1— 11)
A.Criação dos céus e da terra (1— 2)
B. Adão e sua família (3— 5)
Queda do homem (3)
C. Noé e sua família (6— 11)
O dilúvio (6— 10)
A rebelião de Babel (11)

II. História de Israel em particular


A.Abraão — o pai que deu seu filho (12:1— 25:18)
B. Isaque — o filho que recebeu uma noiva (25:19—26:35)
C.Jacó — a carne versus o Espírito (27:1— 36:43)
D.José — a providência de Deus (37:1— 50:26)
N o t a s in t r o d u t ó r ia s sem muitos detalhes; ao passo que,
a partir do capítulo 12, o restante
do livro apresenta, com muitos de­
I. Nome talhes, a vida de quatro homens:
"Génesis" origina-se de uma palavra Abraão, Isaque, Jacó e José. Como
grega que significa "início" ou "ge­ você observará no esboço de Gé­
ração". Mateus 1:1 traduz a palavra nesis, a primeira seção (1— 11) trata
"génesis" por "geração". Génesis é o da humanidade em geral e explica a
livro das gerações ou dos inícios. Há origem do homem e do pecado, en­
dez gerações citadas no livro: os céus quanto a última seção (12—50) trata
e a terra (2:4); Adão (5:1); Noé (6:9); especificamente de Israel. Isso indi­
Sem (11:10); Tera (11:27); Ismael ca que o objetivo do livro é explicar
(25:12); Isaque (25:19); Esaú (36:1); e a origem do homem e seu pecado e
Jacó (37:2). Génesis, o ponto de par­ de Israel e o plano de salvação de
tida para toda a Bíblia, registra para Deus. Aliás, um dos temas-chave de
nós o importante início do universo, Génesis é a eleição divina.
da história humana, da civilização, Iniciamos com os "céus e aterra",
do pecado, da salvação, do sacrifício, mas depois Deus escolhe lidar com a
do casamento e da família. terra, não com os céus; a partir desse
ponto, o tema é o plano de Deus na
II. Autor terra. Deus, ao escolher a terra, deixa
Em geral, concorda-se que Moisés de lado os anjos (até mesmo os anjos
escreveu os primeiros cinco livros da caídos) e os eleitos a fim de lidar com
Bíblia, chamados de "Pentateuco" o homem. Deus escolhe Sete (4:25)
(do grego penta, "cinco", e teuchos, entre os muitos filhos de Adão. Deus
"o recipiente em que se guarda o li­ escolhe Noé (6:8) entre os muitos des­
vro"). E claro, Moisés não estava vivo cendentes de Sete (Gn 5), e, da famí­
quando ocorreram os eventos de Gé­ lia de Noé, ele escolhe Sem (11:10),
nesis, mas o Espírito dirigiu sua escri­ Tera (11:27) e, por fim, Abraão (12:1).
ta (2 Pe 1:20-21). Jesus considerava Abraão tem muitos filhos; Isaque, po­
Moisés o autor desses cinco livros rém, é a semente escolhida (21:12).
atribuídos a ele (veja Jo 5:45-47), e a Isaque tem dois filhos, Jacó e Esaú, e
autoridade de nosso Salvador é mais Deus escolhe Jacó para ser o recipien­
que suficiente para nós. te de sua graça.
Tudo isso revela a eleição bene­
III. Propósito volente de Deus. Nenhuma dessas
Ao ler Génesis, observe que os pri­ pessoas escolhidas era merecedora
meiros 11 capítulos são gerais e dessa honra; a eleição deles, como
Notas introdutórias 17

a de todos os crentes, resultou to­ Escrituras". A seguir, apenas umas


talmente da graça de Deus. Génesis poucas referências a Cristo existen­
ilustra, em paralelo à graça eletiva tes em Génesis.
de Deus, o maravilhoso poder e a
magnífica providência de Deus. Os 1. A Palavra criativa — Génesis
homens podiam desobedecer ao Se­ 1:3; João 1:1 -5; 2 Coríntios 4:3-7
nhor e duvidar dele, contudo ele go­ 2. O último Adão — Romanos
verna e domina para alcançar seus 5; 1 Coríntios 15:45
propósitos. Se, em Génesis, o plano 3. A semente da mulher — Gé­
dele fracassasse, séculos depois não nesis 3:15; Gálatas 3:19; 4:4
nasceria o Messias em Belém. 4. Abel — Génesis 4; Hebreus
11:4; 12:24
IV. Génesis e Apocalipse 5. Noé e o dilúvio — Génesis
Os inícios registrados em Génesis tive­ 6— 10; 1 Pedro 3:18-22
ram seu cumprimento em Apocalipse. 6. Melquisedeque — Génesis
Deus criou o céu e a terra (Gn 1:1) e, 14; Hebreus 7—10
um dia, criará um novo céu e uma 7. Isaque, o filho da promes­
nova terra (Ap 21:1). Satanás atacou sa — Génesis 17; Gálatas 4:21-31
primeiro o homem (Gn 3), contudo (Isaque retrata Cristo em seu nas­
será derrotado em seu último ataque cimento miraculoso, em sua dis­
(Ap 20:7-10). Deus fez as trevas e a posição para morrer, em sua "res­
luz (Gn 1:5), mas um dia não haverá surreição" [Hb 11:19] e ao tomar
mais noite (Ap 21:23; 22:5), não ha­ uma noiva. É claro, Jesus verdadei­
verá mais mares (Gn 1:10; Ap 21:1) ramente morreu e levantou-se da
e a maldição será retirada da criação morte. Em Isaque, esses eventos
(Gn 3:14-17; Ap22:3). Deus expulsou são apenas simbólicos.)
o homem do jardim (Gn 3:24), mas o 8. O Cordeiro — Génesis
povo de Deus será bem-vindo no pa­ 22:7-8; João 1:29
raíso celestial (Ap 22:1 ss), e a árvore 9. A escada de Jacó — Génesis
da vida será restaurada para o homem 28:12ss; João 1:51
(Ap 22:14). A Babilónia será destruída 10. José — Génesis 37—50
(Gn 10:8-10; Ap 17—19) e cumprir- (Rejeitado por seus irmãos, amado
se-á a promessa do julgamento de Sa­ do Pai; sofreu injustamente; exalta­
tanás (Gn 3:15; Ap 20:10). do para reinar. Os irmãos de José
não o reconhecem na primeira vez
V. Cristo em Génesis que o vêem, mas o reconhecem na
De acordo com Lucas 24:27,44-45, segunda. Da mesma forma que Isra­
encontramos Cristo em "todas as el reconhecerá o Messias.)
G é n e s is 1 criatura em outra espécie. Por que
Deus criou o universo? Com certe­
za, não para acrescentar algo a si
Vamos nos restringir a algumas ver­
mesmo, já que ele não precisa de
dades principais que encontramos
nada. Na verdade, a criação limita
nessa importante passagem.
Deus, uma vez que agora o Eter­
no confina-se a trabalhar no tem­
po e na história humana. A Palavra
deixa claro que Cristo é o Autor, o
I. O Criador Sustentador e o Objetivo da cria­
Nenhum cientista ou historiador ção (Cl 1:15-17; Ap 4:11). Cristo,
pode aperfeiçoar esta afirmação: a Palavra viva, revela Deus na Pa­
"No princípio, criou Deus...". Essa lavra escrita e no livro da natureza
simples afirmação refuta os ateístas, (Jo 1:1 -5; veja também SI 19).
que dizem que Deus não existe; os O que a criação revela a res­
agnósticos, que afirmam que não peito de Deus? A criação revela: (1)
podemos conhecer Deus; os poli­ sua sabedoria e poder Oó 28:23-27;
teístas, que adoram muitos deuses; Pv 3:19); (2) sua glória (SI 19:1); (3)
os panteístas, que dizem que toda seu poder e divindade (Rm 1:18-
a natureza é Deus; os materialis­ 21); (4) seu amor pelo insignificante
tas, que declaram que a matéria é homem (SI 8:3-9); (5) seu cuidado
eterna, e não criada; e os fatalistas, providencial (Is 40:12ss). Nosso Se­
que ensinam que não há um pla­ nhor, quando estava na terra, viu a
no divino por trás da criação e da mão graciosa do Pai mesmo nas flo­
história. Vemos a personalidade de res e nas aves (Mt 6:25ss).
Deus nesse capítulo, pois ele fala, Em Génesis 1, em hebraico, o
vê, nomeia e abençoa. O cientista nome de Deus é Elohim — o nome
pode afirmar que a matéria ape­ de Deus que o liga a sua criação. A
nas "passou a existir", que a vida raiz básica do nome é El, que sig­
"aconteceu por acaso" e que todas nifica "poderoso", "forte", "proe­
as formas complexas de vida "evo­ minente". Em 2:4, temos " S e n h o r
luíram gradualmente" de formas Deus", que é Yahweh Elohim. Jeová
inferiores, mas não pode provar é o nome de Deus na aliança e o
isso. Admitimos que há mudanças liga ao seu povo. Este é o nome que
em meio às espécies (como o de­ ele deu quando falou com Moisés:
senvolvimento do cavalo e do gato "Eu Sou O Q ue S o u " (Ê x 3:14-15).
doméstico), mas não aceitamos que Isso significa que ele é o Deus auto-
haja transformação de um tipo de existente, imutável.
Génesis 1 19

II. A criação tágio da criação. Alguns anjos já


A existência dos anjos e a queda haviam se rebelado contra Deus,
dp-_-Sa4rmá_s são antoriftfes—à..rria^ e, com certeza, ele sabia o que o
cão, pois os anjos ("filhos de Deus") homem faria. Contudo, ele, em sua
cantaram na criação Qó 38:7). Na graça e amor, modelou o primeiro
criação original, Lúcifer era o ser Irômernà sua "imagem" no que se
mais alto entre as criaturas criadas refere à personalidade do homem
'por“Dêus~Tveja E z ’28:11-Í9)^ mas __— mente?Vo ntadêT emoção, liber-
de Deus (Is dade — mais que à aparência físi-
14:12-1 7). Em Génesis 3, já vemos <’cãT(Veja Ef 4:24; Cl 3:10.) Deu ao
Satanás em cena; portanto, sua que­ homem o domínio sobre a terra, a
da aconteceu antes disso. posição mais alta na criação. Isso
A terra era "sem forma", portanto explica o ataque de Satanás, pois
Deus, nos três primeiros dias, formou ele (Lúcifer) já tivera essa posição e
o que queria. A terra estava "vazia", quisera outra mais alta ainda! Se Lú­
portanto Deus encheu-a com o que cifer não podia ter o lugar de Deus
havia formado. Deus expandiu os no universo, ele podia-tentar pegar.,
céus ("firmamento") e encheu-os de o lygat-de-Peug na vida do homem.
estrelas e de planetas. Ele fez a terra ‘E ele foi bem-sucedido! O homem
e encheu-a de plantas e animais. Ele perdeu o domínio sobre o pecado
fez os mares e encheu-os de peixes e *(SI 8 e Hb 2:5-18); contudo, Cristo,
de mamíferos aquáticos. Ele criou a o último Adão, reconquistou esse
luz antes de iluminar os céus. Obser­ domínio para nós (veja Rm 5). Je­
ve o princípio de separação ilustrado sus, quando esteve na terra, provou
na criação, pois Deus separou a luz que tinha domínio sobre os peixes
das trevas, e os mares da terra (veja (Lc 5; Mt 17:24ss), sobre as aves (Mt
2 Co 6:14-18). Observe também que 26:74-75) e sobre os animais (Mt
todas as coisas vivas devem se repro­ 21:1-7).
duzir "segundo a sua espécie"; não Originalmente, o homem era
há qualquer sugestão de evolução vegetariano, mas em Génesis 9:3-4.
gradual. Podemos criar tipos diferen­ isso muda. Foram dadas restrições
tes de gado, mas a partir de uma vaca alimentares aos judeus (Lv 11), mas
não podemos criar uma rena! hoje não há tais restrições (Mc 7:1 7-
O homem é a coroa da criação. 23; At 10:9-16; 1 Tm 4:1-5).
Antes da criação do homem, hou­
ve uma "conferência divina" entre III. A nova criação
as pessoas da Trindade, o que não Em 2 Coríntios 4:3-6 e 5:17, se deixa
aconteceu em qualquer outro es­ claro que, em Cristo, Deus tem uma
20 Génesis 1

nova criação. Paulo utiliza imagens Os crentes, como os seres cria­


do relato da criação de Génesis para dos em Génesis, têm a responsa­
ilustrar essa nova criação. O homem bilidade de ser férteis e multiplica­
foi criado perfeito, mas se arruinou rem-se "segundo a sua espécie". Os
por meio do pecado. Ele torna-se pe­ crentes, em um paralelo à posição
cador, "sem forma e vazio", sua vida de domínio de Adão, fazem parte
é sem propósito, vazia e escura. da realeza sob o governo de Deus e
O Espírito Santo inicia seu mo­ reinam "em vida" por meio de Cris­
vimento de persuasão no coração to (Rm 5:1 7ss).
dos homens (Gn 1:2). Na verdade, Exatamente como Adão era o
a salvação sempre se inicia com cabeça da antiga criação, Cristo é o
o Senhor Gn 2:9); qualquer peca­ cabeça da nova criação; ele é o úl­
dor é salvo pela graça dele. O Es­ timo Adão (1 Co 15:45-49). O Anti­
pírito usa a Palavra para trazer luz go Testamento "é o livro da genea­
(SI 119:130), pois não há salvação logia de Adão" (Gn 5:1) e termina
sem a Palavra de Deus (Jo 5:24). E com uma fala sobre uma maldição
Hebreus 4:12 declara que a Palavra (Ml 4:6). O Novo Testamento é o li­
tem o poder de "separar", trazendo vro "da genealogia de Jesus Cristo"
à lembrança a ocasião anterior em (Mt 1:1) e termina com esta afirma­
que Deus separou a luz das trevas, ção: "Nunca mais haverá qualquer
e os mares da terra. maldição" (Ap 22:3).
G é n e s is 2 esteve na terra, observou o sábado,
já que viveu sob a dispensação da
Lei. É claro que ele não seguia as re­
gras dos fariseus, feitas pelos homens
(Mc 2:23-28).
Nos primeiros anos da igreja, os
cristãos encontravam-se na sinago­
ga no sábado, isso até que os judeus
cristãos passaram a ser perseguidos
I. O primeiro sábado e expulsos. Entretanto, o primei­
(shabbãth) (2:1-3) ro dia da semana (domingo, o dia
A palavra shabbath significa ape­ do Senhor) era o dia especial deles
nas "cessar". Deus^nãn "descansou" para a comunhão e a adoração (At
porque^estava cansado, já que Deus 20:7; 1 Co 16:1-3; Ap 1:10). O pri­
não se cansa (SI 121:4). Antes, ele meiro dia comemora a ressurreição
cessou suas obras criativas, a tarefa de Cristo (Mt 28:1; Jo 20:1), a con­
estava terminada. Ele abençoou as clusão de sua obra, a nova criação.
criaturas (1:22) e o homem (1:28). Veja 2 Coríntios 5:1 7. Esses dois dias
Agora, ele abençoa o sétimo dia ao especiais — o sábado e o dia do Se­
separá-lo como um dia especial. nhor — comemoram coisas diferen­
Aqui, não há uma ordem para que tes e não devem ser confundidos. O
as pessoas observem o sábado. De sábado relaciona-se à antiga criação
fato, uma vez que Adão foi criado e foi dado expressamente a Israel. O
no sexto dia, na verdade o sétimo dia do Senhor relaciona-se à nova
dia era o primeiro dia para ele. criação e pertence especialmente à
O sábado não é mencionado de igreja. O sábado fala da lei em que
novo no Antigo Testamento até Êxo­ após seis dias de trabalho segue-se
do 20:8-11, quando Deus dá o sába­ um dia de descanso, mas o dia do
do a Israel como seu sinal especial da Senhor fala da graça, para que ini­
aliança (Êx 31:12-17). Nas Escrituras, ciemos a semana com o descanso
não há evidência de que Deus tenha que é seguido de trabalho.
dito aos gentios que observassem o Hebreus 4 indica que o sába­
sábado; na verdade, Salmos 147:19- do do Antigo Testamento é um tipo
20 deixa claro que Deus deu apenas de descanso no reino futuro, bem
a Israel a Lei Mosaica do Antigo Tes­ como o descanso espiritual que te­
tamento. Um dos motivos do cativei­ mos por meio da fé em Cristo. Co-
ro de Israel foi a profanação do sába­ lossenses 2:13-1 7 deixa claro que o
do (Ne 13:15-22). Cristo, enquanto sábado pertence à "sombra" da Lei,
22 Génesis 2

e não à luz plena ôa graça. Se as ) nha a yesponsãb)))òaòe de cu>òar


pessoas querem adorar no sábado, do jardim (zelar) e de protegê-lo
certamente elas podem fazer isso, (guardá-lo, sugerindo a presença
mas não podem julgar nem conde­ de um inimigo). Deus deu a Adão e
nar os cristãos que não se juntam a Eva tudo que precisavam para viver
elas (Cl 2:1 6-1 7). Gálatas 4:9-11 in­ e ser felizes, tudo que era bom e
dica que a legitimidade em guardar agradável, e permitiu que usufruís­
o sábado é um retorno à escravidão. sem de tudo em abundância.
Romanos 14:4-13 sugere que guar­ As duas árvores são importan­
dar o sábado pode ser uma marca tes. O texto de 3:22 sugere que a
da imaturidade do cristão que terrv árvore da vida fornece vida para
pouca consciência. Com certeza, a humanidade (veja também Ap
vários grupos de cristãos confessos 22:2). Se Adão tivesse comido da
podem adorar no sábado, se assim árvore da vida depois de pecar, não
preferirem, mas não devem con­ teria morrido, e, assim, a morte não
denar os que dão ênfase especial passaria para todos os homens (Rm
à adoração nos domingos, o dia da 5:12ss), e Cristo não precisaria mor­
ressurreição. rer para redimir os homens. A árvo­
re do conhecimento simbolizava a
II. O primeiro jardim (2:4-14) autoridade de Deus; comer dessa
Podemos resumir a história da Bí­ árvore significava desobedecer a
blia com quatro jardins: (1) Éden, Deus e incorrer em pena de morte.
onde entrou o pecado; (2) Getsêma- Não sabemos que árvores eram es­
ni, onde Cristo entregou-se à mor­ sas, contudo é evidente que Adão e
te; (3) Calvário, onde ele morreu e Eva compreendiam a importância
foi sepultado (veja Jo 19:41-42); e delas.
(4) o jardim celestial (Ap 21:1 ss).
Moisés descreve a moradia que III. A primeira lei (2:15-17)
Deus deu para o primeiro casal. O Adão era uma criatura perfeita que
relato da criação no capítulo 1 não nunca pecara, mas tinha capaci­
inclui os detalhes adicionais dados dade para pecar. Deus fizera Adão
nessa passagem; esses detalhes são um rei com domínio (1:26ss). Con­
complementares, não contraditó­ tudo, um governante só pode go­
rios. O versículo 5 indica que Deus vernar outras pessoas se conseguir
precisava do homem para cultivar a governaT^a^T^nesmo^ assim, era
terra. O homem foi formado como necessárioque Aclao fosse tentado.
o oleiro forma a argila (mesma pa­ Deus sempre quis que suas criatu­
lavra em Jr 18:1 ss). O homem ti­ ras o amassem e lhe obedecessem
Génesis 2 23

de livre vontade, e não por coerção mas de seu lado para estar perto do
ou por recompensa. coração dele e ser amada por ele.
Esse teste era perfeitamente le­ Adão deu nome a todos os
gítimo e justo. No jardim, Adão e animais que Deus trouxe até ele (v.
Eva desfrutavam de liberdade e de 19), o que mostra que o primeiro
provisão em abundância e não pre­ homem tinha inteligência, vocabu­
cisavam do fruto da árvore do co­ lário e fala. Agora ele dá o nome de
nhecimento do bem e do mal. "mulher" a sua noiva (ishshah, em
hebraico, relaciona-se a ish, que sig­
IV. O primeiro casamento (2:18-25) nifica "homem"). Por isso, homem
Tudo na criação era "muito bom" e mulher se pertencem em nome e
(1:31), exceto a solidão de Adão. em essência. Como seria maravilho­
"Não é bom que o homem esteja so se todos os casamentos fossem
só", essa afirmação aponta o funda­ realizados por Deus. Assim, todas
mento para o casamento: (1) forne­ as casas seriam o paraíso na terra.
cer companhia; (2) dar continuida­ É claro que esse evento é uma
de à raça; (3) ajudar um ao outro a bonita ilustração de Cristo e sua
trazer à tona o melhor de si mesmo. igreja (Ef 5:21-33). Cristo, o último
O verbo "auxiliar" (v. 18) refere-se Adão, dá vida à igreja quando mor­
à auxiliadora: alguém que satisfaça re na cruz, e os homens perfuram o
as necessidades dele. Em nenhuma lado de seu corpo (Jo 19:31-37). Ele
parte da criação animal, encontra-se compartilha nossa natureza huma­
essa criatura, o que mostra o grande na a fim de que possamos compar­
abismo existente entre as criaturas tilhar a natureza divina dele. Eva
irracionais e os seres humanos feitos foi objeto do amor e do interesse
à imagem de Deus. Deus fez a pri­ de Adão, assim como a igreja rece­
meira mulher com a carne e o osso be o amor e o ministério de Cristo.
do primeiro homem, e ele fechou Em 1 Timóteo 2:11-15, observa-se
"o lugar com carne" (v. 21). No ver­ que Adão comeu de boa vontade
sículo 22, na verdade, o verbo "fa­ do fruto proibido, que ele não foi
zer" seria "construir", como cons­ enganado como Eva. Ele quis trans­
truir um templo. O fato de Eva ser formar-se em pecador a fim de ficar
feita com o osso e a carne de Adão com sua noiva, assim como Cristo
mostra a unidade da raça humana e quis fazer-se pecado a fim de que
a dignidade da mulher. Observe que pudéssemos ficar com ele para
Eva foi feita não a partir dos pés do sempre. Que amor e que graça!
homem para ser pisada por ele, ou Observe também que Eva foi feita
da cabeça dele para que o governe,, antes de o pecado entrar em cena,
24 Génesis 2

exatamente como fomos escolhi­ igreja fornecida em Efésios. Eva era


dos em Cristo "antes da fundação a noiva (Ef 5:21-33); ela também era
do mundo" (Ef 1:4). parte do corpo de Adão (Gn 2:23; Ef
Se observarmos de perto esses 5:29-30); e ela foi feita, ou "construí­
versículos, veremos neles três ima­ da", o que sugere a igreja como um
gens da igreja iguais à descrição da templo de Deus (Ef 2:19-22).
Génesis 3 Assim, Satanás ataca Deus quando
ataca a mente humana. Satanás usa
mentiras. Ele é mentiroso, o pai da
mentira Oo 8:44).

C. A tática
Satanás não pode vencer se a mente
se apega à verdade de Deus; mas, se
a mente duvida da Palavra de Deus,
I. Tentação (3:1-6) ela abre espaço para que as men­
tiras do demónio se instalem. Sata­
A. O tentador nás questiona a Palavra de Deus (v.
Deus não é o autor do pecado nem 1), nega a Palavra de Deus (v. 4) e,
tenta as pessoas para que pequem; depois, a substitui por suas próprias
esse é o trabalho do demónio (Tg mentiras (v. 5). Observe que Satanás
1:13). Já vimos que Satanás caiu tenta minar nossa fé na bondade de
em pecado antes da obra de Géne­ Deus — ele sugere a Eva que Deus
sis 1:3ss. Originalmente, ele era um resistia a eles ao mantê-los afastados
bonito anjo que se regozijava com da árvore do conhecimento do bem
a criação de Deus (Jó 38:4-7), mas e do mal. Quando questionamos a
ele pecou e foi julgado por Deus (Is bondade de Deus e duvidamos de
14:12-17; Ez 28:11-19). Observe seu amor, favorecemos diretamente
que Satanás veio a Eva na pele de Satanás. Este faz com que a tenta­
jjma^serpente, pois é mascarado e ção soe maravilhosa ao dizer: "Se­
não aparece para as pessoas com reis como Deus" (ARC). O próprio
Sigu xatáteiL verdadeiro., Em Géne­ Satanás quis ser "semelhante ao Al­
sis 3, Satanás é a serpente que en­ tíssimo" (Is 14:14), e, séculos mais
gana (2 Co 11:3); em Génesis 4, ele tarde, ele ofereceu a Cristo "todos
é o mentiroso homicida (Jo 8:44). os reinos do mundo", se Cristo o
Temos de ter cuidado para evitar os adorasse (Mt 4:8).
caminhos enganosos dele.
D. A tragédia
B. O alvo Eva não devia ter dado "lugar ao
Satanás mira a mente de Eva (2 Co diabo" (Ef 4:27); ela devia ter se
11:1-3; 1 Tm 2:9-15) e consegue apegado à Palavra de Deus e resis­
enganá-la. A mente do homem é tido ao diabo. Nós nos pergunta­
uma parte de seu ser que foi cria­ mos onde estava Adão durante essa
da à imagem de Deus (Cl 3:9-10). conversa. De qualquer forma, Eva
26 Génesis 3

afastou-se da Palavra de Deus ao B. Externa (vv. 14-19)


negligenciá-la livremente (v. 2); ela É provável que a serpente que Sa­
acrescentou "nem tocareis" à Pa­ tanás usou não seja a criatura ras-
lavra (v. 3); e ela mudou a Palavra tejante que conhecemos hoje. O
de Deus de "certamente morrerás" nome sugere brilho e glória, mas a
para "para que não morrais" (v. 3). criatura foi julgada e condenada a
No versículo 6, vemos a trágica uma vida vil na poeira, porque se
ação da cobiça da carne ("boa para rendeu a Satanás e tomou parte na
se comer"), dos olhos ("agradável tentação. O julgamento da mulher
aos olhos") e da vaidade ("desejá­ envolveu concepções múltiplas e
vel para dar entendimento") — veja dor no parto. Ela teve que se sujei­
1 João 2:15-1 7. É difícil pecar sozi­ tar a seu marido. Observe que Pau­
nho. Há algo em nós que nos faz lo sugere que as mulheres cristãs
querer compartilhar o pecado com que casam com homens não-salvos
os outros. Adão pecou deliberada­ correm perigo especial ao dar à luz
mente e mergulhou o mundo em crianças (1 Tm 2:8-15). O julgamen­
julgamento (1 Tm 2:14). to do homem envolveu seu traba­
lho: o deserto substituiu o paraíso,
II. Condenação (3:7-19) e o suor e a exaustão do trabalho
pesado no campo substituíram a
A. Interna (vv. 7-13) alegria de ministrar no jardim. Deus
De imediato, veio a perda da ino­ não puniu o trabalho, pois o traba­
cência e da glória e o sentimento lho não é pecaminoso (2:15). São o
de culpa. Eles tentaram cobrir a suor, a exaustão e os obstáculos da
nudez com vestimentas feitas por natureza que nos lembram a queda
eles mesmos, as quais Deus não do homem. Toda a criação foi amal­
aceitou (v. 21). Além disso, vemos diçoada e está em servidão por cau­
a perda do desejo de ter amizade sa do pecado (Rm 8:15-25).
com Deus. Eles se escondem quan-
^cTouvem Deus se aproximando! A C. Eterna (v. 15) ->:'
culpa, o temor e a vergonha que­ Esse foi o primeiro evangelho decla­
bram a amizade que usufruíam rado na Bíblia: a boa-nova de que,
com Deus antes da desobediência. no fim, a semente da mulher (Cristo)
Observe que também cresce uma venceria Satanás e sua semente (Gl
atitude de autodefesa: o homem 4:4-5). O curso divide-se desse pon­
culpa a mulher, a mulher culpa to em diante: Satanás e sua família
a serpente. Vemos aqui o trágico (semente) opõem-se a Deus e sua
efeito interior do pecado. família. Deus mesmo põe a inimiza­
Génesis 3 27

de (hostilidade) entre eles, e a guer­ em Cristo. É o derramar de sangue, a


ra chega a seu ápice quando Deus oferenda de uma vida inocente por
expulsa Satanás para o inferno (Ap causa da culpa. Adão e Eva tentaram
20:10). Reveja a parábola do joio, cobrir o pecado e a vergonha com
em Mateus 13, e observe que Sa­ folhas (3:7), mas Deus não aceitou
tanás tem filhos, exatamente como essas boas obras. Ele também não
Deus. Em Génesis 4, Caim mata aceita essas obras hoje!
Abel, e 1 João 3:12 informa-nos que A Bíblia, com frequência, usa
Caim "era do Maligno" — um filho as vestimentas para retratar a salva­
do demónio. O Antigo Testamento é ção (veja Is 61:10 e Zc 3). O filho
o relato das duas sementes em con­ pródigo vestiu-se de novo quando
flito; o Novo Testamento é o registro veio para casa (Lc 15:22). À vista de
do nascimento de Cristo e de sua Deus, as vestimentas de auto-retidão
vitória sobre Satanás por intermédio e as boas obras são trapos imundos
da cruz. (Is 64:6). Note que Deus quer que
Adão e Eva se cubram, ele apro­
III. Salvação (3:20-24) va esse sentimento de vergonha. A
O único evangelho que Adão conhe­ pessoa abolir isso e voltar à nudez
cia era o que Deus disse em 3:15, é sempre um sinal de degeneração.
contudo ele acreditou e foi salvo. O padrão de Deus é sempre a vesti­
Como sabemos que ele acreditou menta modesta (1 Tm 2:9).
no que Deus disse? Porque deu o Os versículos 22-24 mostram
nome de Eva, que significa "vida", uma ação singular da graça de Deus:
ou "doadora de vida", a sua mulher. ele expulsou o homem e a mulher
Deus disse que Adão e Eva morre­ do jardim! Eles perderam o direito
riam, e Adão morreu fisicamente de­ à árvore da vida ao desobedecer a
pois de 930 anos. Contudo, ele tam­ Deus. Eles, se tivessem comido des­
bém morreu espiritualmente, pois sa árvore, viveriam para sempre em
ficou separado de Deus por causa seu estado pecaminoso. Isso signi­
do pecado. Deus prometeu que o ficaria que o Salvador, o segundo
Salvador nasceria por intermédio da Adão, não poderia vir para morrer
mulher, e Adão acreditou nessa pro­ a fim de salvar a humanidade do
messa e se salvou. Deus não mudou pecado. Por isso, Deus, ao expulsar
as consequências físicas do pecado, Adão e Eva do paraíso, mostrou sua
mas ele cancelou a consequência graça e misericórdia em relação a
espiritual — o inferno. toda a raça humana. A espada que
No versículo 21, a vestimenta Deus pôs no jardim barrava a pas­
de peles retrata a salvação que temos sagem. Pode-se traduzir essa "espa­
28 Génesis 3

da flamejante" (NVI) por "fogo de justiça. Adão, como um ladrão, foi


Deus", uma referência à sua santi­ expulso do paraíso. Jesus, ao falar
dade (Hb 12:29). com um ladrão, disse: "Em verdade
O contraste entre o primeiro te digo que hoje estarás comigo no
Adão e o último Adão, Cristo, é ex­ paraíso" (Lc 23:43).
plicado em Romanos 5 e 1 Corín- Observe que em Romanos 5
tios 15:42-49. Adão foi feito da ter­ temos muito mais afirmações (9,
ra, mas Cristo desceu do céu. Adão 15,17,20) indicando que a morte
foi tentado em um jardim perfeito, de Cristo não nos trouxe apenas de
e Cristo foi tentado em um deserto volta à posição em que Adão esta­
terrível. Adão desobedeceu delibe­ va, mas ela também nos deu muito
radamente e mergulhou a raça hu­ mais que Adão já teve. Somos reis
mana no pecado e na morte, mas e sacerdotes para Deus e reinare­
Cristo obedeceu a Deus e trouxe mos com Cristo para sempre!
G é n e s is 4 fé vem pela pregação". Isso significa
que provavelmente Deus ensinou
Adão e sua família como abordá-lo,
Nesse capítulo, Caim é o persona­
e 3:21 indica que envolve sacrifício
gem principal; seu caráter e sua
de sangue. Hebreus 9:22 afirma que
conduta são revelados em quatro
deve haver derramamento de sangue
aspectos distintos.
antes de haver remissão do pecado,
contudo Caim traz uma oferenda
sem sangue da terra amaldiçoada.
I. O adorador (4:1-5) Talvez a oferenda dele fosse sincera,
Em 4:1, vemos tanto a promessa de mas não foi aceita. Ele não tinha fé
Deus, de 3:1 5, quanto a fé de Adão, na Palavra de Deus nem confiança
de 3:20. Eva trouxe uma nova vida no sacrifício substitutivo. Provavel­
ao mundo e pensou que o filho fos­ mente, Deus respondeu com fogo
se a Semente prometida. Uma tradu­ (Lv 9:24) e consumiu a oferenda de
ção possível é: "Tive um homem — Abel, mas a oferenda de Caim per­
o S e n h o r !". Caim significa "adqui­ maneceu no altar.
rir" — consideraram o menino uma Caim tinha aparência de pie­
dádiva de Deus. Abel significa "futi­ doso e de religiosidade, mas ne­
lidade, vapor" — sugere a futilidade gava o poder (2 Tm 3:5). Primeira
da vida afastada de Deus ou, talvez, João 3.12 indica que Caim era fi­
o desapontamento de Eva por Caim lho do Maligno, e isso significa que
não ser a Semente prometida. Des­ ele praticava uma falsa retidão da
de bem do início, vemos uma divi­ carne, não a retidão de Deus, por
são de trabalho: Caim identifica-se meio da fé. Jesus chamou os fari­
com a terra, Abel, com o rebanho. seus que se consideravam retos de
Deus já amaldiçoara a terra (3:17), filhos do diabo e culpou o grupo
portanto Caim identifica-se com a deles pela morte de Abel (Lc 11:37-
maldição. 51). Judas 11 fala sobre "o caminho
Essa primeira família devia co­ de Caim", que é o caminho da reli­
nhecer o local exato de adoração a gião sem sangue, a religião funda­
fim de que os dois filhos levassem mentada nas boas obras religiosas
oferendas para o Senhor. Talvez a e na auto-retidão. Hoje, há apenas
glória de Deus habitasse na árvore dois tipos de religiões no mundo:
da vida, e os querubins guardavam (1) a de Abel, que depende do san­
o caminho (3:24). Hebreus 11:4 in­ gue de Cristo e de sua obra final na
dica que Abel traz sua oferenda pela cruz; e (2) a de Caim, que depende
fé; e Romanos 10:17 ensina que "a das boas obras e da religião agradá-
30 Génesis 4

vel ao homem. Uma leva ao céu, a pecado. O sangue de Abel clama­


outra, ao inferno! va por vingança; o sangue de Cristo
clama por paz e perdão (Hb 12:24).
II. O assassino (4:6-8) Deus amaldiçoara a serpente e a ter­
Tiago 1:15 adverte-nos de que o pe­ ra. Agora, ele amaldiçoa Caim. Uma
cado se inicia de forma pequena, tradução sugerida é: "Es agora, pois,
mas cresce e leva à morte. A mesma maldito por sobre a terra [...]" (v. 11).
coisa aconteceu com Caim. Vemos Em outras palavras, a terra não possi­
desapontamento, raiva, ciúmes e, bilitaria crescimento para Caim, e ele,
por fim, assassinato. O ódio de seu para viver, vagaria de lugar em lugar.
coração leva-o a assassinar com as Ele seria um fugitivo, um errante.
próprias mãos (Mt 5:21-26). Deus Caim não se arrependeu de seu
viu o coração infiel e a fisionomia pecado; antes, demonstrou remorso
caída de Caim e advertiu-o de que e desespero. Ele, como seus pais,
o pecado rastejava como uma besta culpou Deus: "Eis que hoje me lan­
selvagem, esperando para destruí- ças da face da terra" (v. 14). Ele foi
lo. Deus disse: "O seu desejo será rejeitado pelo céu e recusado pela
contra ti, mas a ti cumpre dominá- terra! Estava condenado ao desas­
lo". Bem, Caim alimentou a besta sossego que apenas a fé cura.
selvagem da tentação, depois abriu Observe também o temor e a
a porta e convidou-a a entrar! Ele desesperança de Caim: "Quem co­
convidou o irmão para conversar e migo se encontrar me matará" (v. 14).
matou-o a sangue frio. Caim, o filho Deus, pela graça, promete proteger
do Maligno (1 Jo 3:12), como seu Caim e dar-lhe um sinal (marca) para
pai, era um mentiroso e um assassi­ comprovar sua promessa. (Não é pro­
no (Jo 8:44). No capítulo 3, vemos o vável que houvesse uma marca real
homem pecando contra Deus pela em Caim; antes, Deus deu-lhe um si­
desobediência à Palavra do Senhor; nal para encorajá-lo. Quanta graça!)
no capítulo 4, vemos o homem pe­ Por que Deus libertou Caim? Por um
cando contra o homem. motivo: Caim tornou-se um "sermão
ambulante" da graça de Deus e das
III. O errante (4:9-16) trágicas consequências do pecado.
"Onde estás, [Adão]?" "Onde está Que retrato da humanidade de hoje:
Abel, teu irmão?" Como essas duas desassossegada, desesperançada, er­
primeiras questões da Bíblia são re­ rante, derrotada!
levantes! O pecado sempre nos des­ Caim passou o resto da vida
mascara, embora tentemos (como errando? Não! Ele estabeleceu-se e
Caim) mentir a respeito de nosso edificou uma cidade! Aqui, temos a
Génesis 4 31

origem da "civilização" — o substi­ não tentou mudar os caimitas. Ele


tuto do homem para as dádivas de rejeitou-os e, no fim, condenou-os
Deus. no dilúvio. À medida que os cai­
mitas se afastaram gradualmente
IV. O edificador (4:17-26) da verdadeira adoração a Deus, os
"Node" significa "vaguear, errar", setitas retornavam a ele (v. 26) e es­
portanto a própria terra de Caim fala tabeleceram de novo a adoração ao
de seu vaguear afastado de Deus. Senhor.
Ele retirou-se da presença de Deus A civilização de hoje é caimita
(4:16), não precisava de uma religião na origem. Ela tem elementos como
de sangue. Certamente, Caim casou- agricultura, indústrias, artes, grandes
se com uma de suas irmãs, pois na cidades e religiões sem fé no sangue
época havia muitos descendentes de de Cristo. Ela também será destruída
Adão (5:3 indica que se passaram como a antiga civilização de Caim.
130 anos). Mais tarde, Abraão casou- Nós ainda nos gabamos de assassi­
se com sua meia-irmã; por que Caim nos como Lameque e ainda temos
não poderia se casar com sua irmã pessoas (como Lameque) que vio­
de pai e mãe, principalmente em lam os votos sagrados do casamen­
uma época em que o pecado ainda to. "Pois assim como foi nos dias de
não cobrara seu tributo em todo o Noé, também será a vinda do Filho
corpo humano? O nome de seu fi­ do Homem" (Mt 24:37). Os homens
lho "Enoque" significa "iniciação" e ainda desprezam a revelação divi­
sugere um novo início, mas era um na e ainda se fiam em seus próprios
início sem Deus. recursos. O verdadeiro cristão não
Os descendentes de Caim, em pertence a esse "sistema mundano"
uma avaliação do ponto de vista que"passa"(1 Jo2:15-1 7)enãodeve
humano, têm um destino admirável. se envolver com ele (Rm 12:1-2;
Jabal ("errante") fundou a ciência 2 Co 6:14—7:1).
da agricultura (v. 20); Jubal fundou Devemos observar de forma es­
a "cultura" — a música; e Tubal- pecial a mensagem de Lameque (vv.
caim fundou a indústria de metais. 23-24). Essa passagem não é clara,
Externamente, a "cidade" de Caim e nem todos os estudiosos da Bíblia
era um grande sucesso, mas Deus a interpretam da mesma maneira.
deixou claro que rejeitara a coisa Lameque, do lado de Caim, era o
toda. No versículo 25, Deus dá ou­ sétimo na descendência de Adão e
tra semente a Adão e Eva — Sete, desagradou a Deus, enquanto Eno­
que significa "o designado, o substi­ que, do lado de Sete, era o sétimo
tuto" (tomou o lugar de Abel). Deus na descendência de Adão (5:3-27)
32 Génesis 4

e caminhou com Deus e o agra­ em legítima defesa. Outros sugerem


dou (Hb 11:5). Note que a linha que Tubalcaim inventara as primei­
caimita até copiou os nomes dos ras armas de latão e ferro, e Lame­
crentes verdadeiros da linhagem de que demonstrara-as com orgulho
Sete (Enoque—Enos; Irade—Jarede; para suas esposas. Pode-se traduzir
Meujael—Maalalel; Lameque— La- os verbos hebreus no tempo futuro:
meque). Alguns estudiosos sugerem "Matarei um homem porque ele me
que Lameque foi ferido por um jo­ feriu; e um rapaz porque me pisou.
vem, e matou-o, portanto, em legí­ Sete vezes se tomará vingança de
tima defesa. Com certeza, se Deus Caim; de Lameque, porém, setenta
desagravara Caim, que era culpado vezes sete". Sob essa luz, essa é a
de assassinato brutal, certamente primeira expressão na Bíblia de de­
defenderia Lameque, que matara safio arrogante e de luta.
G é n e s is 5 - 8 Mais tarde, estudaremos os deta­
lhes.
Esses capítulos falam do dilúvio e
C. A sequência dos eventos do
da fé de Noé. Já que aqui nos é im­
dilúvio
possível descobrir todos os tesouros
Se contarmos o ano da criação de
espirituais, nos limitaremos a quatro
Adão como o ano 1, então Noé
aspectos desse importante evento da
nasceu no ano 1056. Génesis 6:3
história bíblica.
indica que Deus deu 120 anos a
I. O dilúvio sob o ponto de Noé para construir a arca e pregar
vista histórico (1 Pe 3:20), o que significa que ele
tinha 480 anos quando iniciou a
A. O fato do dilúvio construção da arca (7:11). Isso se­
Os registros de Génesis, como tam­ ria o ano de 1536. O dilúvio acon­
bém de Cristo (Mt 24:37-39; Lc teceu quando Noé tinha 600 anos,
17:26-27), dos profetas (Is 54:9) e em 1656 e 1657, e Noé e sua fa­
dos apóstolos (1 Pe 3:20; 2 Pe 2:5; mília, quando ele tinha 601 anos
3:6), comprovam que realmente de vida, voltaram para a terra seca
houve o dilúvio. Muitos arqueólo­ (8:13ss). Os eventos iniciaram-se
gos comprovam que muitas civili­ no décimo dia do segundo mês
zações primitivas tinham tradições (10/2) de 1656, quando Noé e sua
relacionadas ao dilúvio, cujos de­ família entraram na arca (7:1-9). O
talhes são paralelos ao relato de dilúvio veio em 17/2 (7:10-11); as
Génesis. É provável que essas his­ chuvas cessaram em 26/3 (7:12); e
tórias (que envolvem os deuses e a arca repousou no monte Ararate
as deusas fantásticos deles) sejam em 17/7 (8:1-4). Em 1/10, a famí­
adulterações da história original do lia viu o cimo dos montes (8:5). Em
dilúvio transmitidas de geração a 11/11, Noé enviou o corvo (8:6-9).
geração. Em 18/11, ele enviou a pomba, que
trouxe de volta uma folha de olivei­
B. A finalidade do dilúvio ra (8:10-11). Uma semana depois
Conforme 6:5-13 afirma, houve o de 25/11, Noé mandou de novo a
dilúvio porque as pessoas se cor­ pomba, e ela não retornou (8:12).
romperam, e a terra estava cheia No primeiro dia do primeiro mês
de violência. Deus enviou o dilú­ do ano seguinte (1657), Noé remo­
vio a fim de destruir a humanida­ veu a cobertura da arca e olhou a
de. Sempre deve haver julgamento terra (8:13). Em 27/2, todos deixa­
e morte antes de um novo início. ram a arca (8:14ss)
34 Génesis 5-8

D. A arca pelo homem. Há apenas uma forma


Não era um navio; antes, era uma de salvação e apenas uma porta na
"caixa flutuante" feita de madeira de arca. A arca era de madeira, o que
cipreste e calafetada com betume. diz respeito à humanidade de Cris­
A arca media 183 metros de com­ to: ele tinha de nascer como ho­
primento, 30 metros de largura e 18 mem a fim de nos salvar. Em 6:14,
metros de altura. Outra medida pos­ a palavra para "betume" é a mesma
sível seria 137 metros x 23 metros x usada para "redenção" mais adiante
14 metros. Nos dois casos, a arca era no Antigo Testamento. Deus convi­
grande o suficiente para abrigar todos dou Noé e sua família para entrar
os animais, a comida necessária e os na arca (7:1). Depois, Deus, quando
membros da família de Noé. Não sa­ eles estavam lá, trancou-os na arca a
bemos quantas espécies de animais fim de que ficassem seguros (7:16).
existiam na época. Observe que 6:20 A arca salvou não apenas a humani­
indica que Deus trouxe os animais até dade, mas também as criaturas que
Noé. Havia três pavimentos na arca, estavam nela, exatamente como,
com uma janela ou no teto do andar um dia, a morte de Cristo libertará
superior ou à volta toda do andar su­ a criação da escravidão do pecado
perior (6:16) e uma porta. (Rm 8:18-23). A arca salvou Noé e
sua família do julgamento porque
E. O dilúvio acreditaram na promessa de Deus
A chuva e a erupção de água brotando (Hb 11:7); Cristo salva-nos do cas­
da terra provocaram o dilúvio (7:11). tigo vindouro quando cremos nele.
Podemos muito bem imaginar o tre­ Em 1 Pedro 3:18-22, a arca é rela­
mendo efeito que isso causou à super­ cionada à ressurreição de Cristo; as
fície da terra, como também ao clima. águas sepultaram o antigo mundo,
A essas erupções, seguiram-se ondas mas promoveram uma nova vida
gigantescas. Génesis 2:5-6 sugere que, para Noé. Noé foi fiel ao obedecer a
na época de Noé, a chuva era algo tudo que Deus ordenou; Jesus disse:
novo na terra, o que torna a fé de Noé "Eu faço sempre o que lhe agrada"
ainda mais maravilhosa. (Jo 8:29). Noé permaneceu salvo em
meio ao dilúvio; Cristo atravessou
II. O dilúvio considerado de um dilúvio de sofrimento (SI 42:7)
forma tipológica e saiu vitorioso. Noé saiu da arca,
A arca é uma imagem luminosa de o cabeça de uma nova criação com
nossa salvação em Cristo (1 Pe3:18- sua família; e Cristo saiu do sepul­
22). A salvação e a arca foram pla­ cro, o Cabeça de uma nova criação
nejadas por Deus, não inventadas e o Pai de uma nova família.
Génesis 5-8 35

Noé atravessou o julgamento e morreu no ano 1656 — o ano em


salvou-se, exatamente como o rema­ que houve o dilúvio! Em outras pa­
nescente de judeus crentes atraves­ lavras, Deus deu 969 anos de graça
sará a tribulação para estabelecer o ao mundo pecaminoso. E nos últi­
reino na terra. Enoque foi arrebata­ mos 120 anos desse período, Noé
do antes do julgamento (5:21-24; esteve pregando e preparando a arca
Hb 11:5), exatamente como a igreja (Gn 6:3; 1 Pe 3:20). Hoje, Deus avi­
será arrebatada antes da vingança de sa que o julgamento está a caminho
Deus espalhar-se pelo mundo. Veja (2 Pe 3 — pelo fogo, não pela água),
1 Tessalonicenses 1:10 e 5:9-10. mas poucos escutam, e um número
ainda menor crê nisso.
III. O dilúvio considerado de
forma profética IV. O dilúvio considerado de
Cristo ensina que os dias anteriores forma prática
ao arrebatamento e à tribulação se­ No mínimo, encontramos estas seis
rão como os dias de Noé (Lc 17:26; considerações práticas no relato do
Mt 24:37-39). Hoje, vivemos nos dilúvio: (1) Deus deve punir o pe­
"dias de Noé". Vemos alguns para­ cado. O antigo deve morrer antes
lelos como a multiplicação de pes­ de ele estabelecer o novo. (2) Deus
soas na "explosão populacional" adverte, mas, no fim, sua paciência
(6:1); todo tipo de corrupção moral esgota-se e vem o julgamento. (3)
(6:5); violência (6:11,13); a expan­ Deus sempre salvou as pessoas da
são das artes e das indústrias (4:16- mesma forma: pela graça (6:8), pela
22); a falta de consciência, até para fé (Hb 11:7). (4) A verdadeira fé leva
o assassinato (4:23-24); e o fato de à obediência (6:22; 7:5). (5) O tes­
os verdadeiros crentes serem uma temunho verdadeiro exige afastar-
minoria (6:8-10). Contudo, tenha se do pecado, e Noé e sua família
em mente que os "dias de Noé" mantiveram-se não maculados pelo
também foram dias de testemunho. mundo. (6) Em 6:1-4, quer "os filhos
Na verdade, Deus disse a Enoque de Deus" fossem anjos quer fossem
que o julgamento estava a caminho, a família de Sete, vemos a mesma li­
e ele advertiu as pessoas (Jd 14-15). ção: Deus condena a concessão e a
Metusalém, filho de Enoque, nasceu rebelião, mas recompensa os santos
no ano 687 e viveu 969 anos. Ele separados.
G é n e s is 9 - 1 1 lhe deu um sentido especial quan­
do fez essa aliança. O arco-íris é o
resultado da luz do sol e da tem­
pestade, e suas cores lembram-nos
da "graça de Deus em suas múlti­
plas formas [multicor]" (1 Pe 4:10,
NVI). O arco-íris é a ponte entre
o céu e a terra, lembrando-nos de
que Deus, em Cristo, construiu a
I. A aliança de Deus com Noé (9:1 -17) ponte sobre o abismo que separa o
A palavra "aliança" significa "cor­ homem de Deus. Em Ezequiel 1:28
tar", referindo-se ao corte dos sacri­ e Apocalipse 4:3, o arco-íris apare­
fícios que são parte decisiva quando ce de novo.
se faz um acordo (veja Gn 15:9ss). Devemos ter em mente que a
Deus, por intermédio de Noé, fez aliança foi feita com a "semente"
um acordo com toda a humanidade, de Noé, que veio depois dele, e nos
e os termos desse acordo ainda per­ inclui hoje. Por essa razão, muitos
manecem hoje. O fundamento des­ cristãos apóiam a punição capi­
sa aliança era o derramamento de tal (9:5-6). Deus prometeu castigar
sangue do sacrifício (8:20-22), da Caim (4:15), mas o Senhor, nessa
mesma forma que o fundamento aliança com Noé, deu ao homem a
da nova aliança é o derramamento responsabilidade de punir o assas­
do sangue de Cristo. sino.
Os termos da aliança são estes:
(1) Deus não destruirá a humanida­ II. A maldição de Noé sobre
de com um dilúvio; (2) o homem Canaã (9:18-29)
pode comer a carne animal, mas
não o sangue (veja Lv I7:10ss); (3) A. O pecado
há medo e terror entre o homem e Foi um santo maduro de mais de
a besta; (4) os seres humanos são 600 anos, não um jovem pródigo,
responsáveis pelo governo huma­ que caiu nesse pecado e vergonha.
no, vemos isso no princípio da O texto hebreu sugere que Noé
punição capital (veja Rm 13:1-5). deliberadamente se despiu de for­
Deus reservou o arco-íris como o ma vergonhosa; com frequência,
símbolo e a garantia da aliança. a intemperança e a impureza ca­
Isso não quer dizer que o arco-íris minham juntas. Alguns desculpam
apareceu pela primeira vez naque­ Noé ao sugerir que as condições
le momento, mas apenas que Deus atmosféricas da terra após o dilú­
Génesis 9-11 37

vio levariam à fermentação do vi­ Atos 17:26 ensina que Deus fez to­
nho e que ele não sabia realmente dos os homens "de um só".
o que fazia. Contudo, a Bíblia não
desculpa os pecados dos santos. C. A bênção
Esse é o terceiro fracasso do ho­ Noé abençoou os judeus (Sem) e
mem. Ele desobedeceu no Éden, o deu-lhes os cananeus como servos.
que resultou em sua expulsão; ele Ele prometeu que os gentios (Jafé)
corrompeu a terra, o que resultou seriam espalhados, mas que (espi­
no dilúvio; e agora ele torna-se um ritualmente falando) habitariam em
beberrão vergonhoso! Para piorar tendas judias. Paulo explica isso em
as coisas, Cam não respeita seu Romanos 9— 11.
pai; em vez disso, ele delicia-se em
contar o que Noé fizera. III. A confederação de
Ninrode contra Deus (11:1-9)
B. A maldição
Noé soube o que Cam fizera e lan­ A. O ditador (10:6-14)
ça sua famosa maldição. (Essa é Ninrode era neto de Cam por par­
a terceira maldição em Génesis. te de Cuxe, e seu nome significa
Veja 3:14-19 e 4:11.) O fato de ele "rebelde". Sob o ponto de vista de
amaldiçoar o filho de Cam, Canaã, Deus, ele era um tirano poderoso,
sugere que este estava envolvido o primeiro ditador. A palavra "ca­
com seu pai no pecado e que Deus çador" não se refere à caça de ani­
puniria os pecados do pai e do fi­ mais, mas à de homens. Ele foi o
lho. Canaã e seus descendentes (as fundador do Império Babilónico e
nações enumeradas em 10:15-20) o organizador do empreendimento
seriam os servos mais humildes que levou à construção da torre de
para seus irmãos. É fácil perceber Babel. A história informa-nos que
isso, pois os judeus e os gentios os Ninrode e sua esposa inventaram
fizeram escravos. E claro, os semi­ uma nova religião fundamentada
tas eram os judeus. As tribos deles em torno da "mãe e do filho". Para
estão enumeradas em 10:21-32 mais detalhes, leia o livro The Two
e 11:10-26, traçando a linhagem Babylons [As duas Babilónias], de
até Abraão. Os descendentes de Alexander Hislop (Londres: S. W.
Jafé são os gentios (10:1-5). Géne­ Partridge, 1956). Na Bíblia, "Ba­
sis 15:13-21 e 10:15-20 mencio­ bilónia" simboliza rebelião contra
nam a escravidão dos descenden­ Deus e confusão na religião. Ao
tes de Canaã. Não sabemos como longo da Bíblia, vemos a Babilónia
surgem as distinções raciais, mas opondo-se ao povo de Deus e cul­
38 Génesis 9-11

minando em "Babilónia, a Grande" Isso foi tanto um ato de misericórdia


de Apocalipse 17 e 18. quanto um julgamento, pois haveria
um julgamento ainda mais terrível a
B. A rebelião seguir se persistissem em seu plano.
Deus ordenou que os homens repo­ O nome "Babel" origina-se de uma
voassem a terra (9:1,7,9), mas eles palavra hebraica que significa "por­
decidiram descer à planície de Si- tão de Deus". Ela soa como a pala­
nar, onde ficava a Babilónia (10:8- vra balai, que significa "confusão".
10). Isso foi uma rebelião deliberada A descrição da ação de Deus nesse
contra a Palavra de Deus. Eles cami­ episódio explica a origem das lín­
nharam "do Oriente", o que sugere guas da humanidade. Com frequên­
que deram as costas à luz. Eles deci­ cia, tem-se apontado que Pentecos­
diram se unir e construir uma cidade tes é o reverso de Babel — havia
e uma torre. Eles tinham por objeti- verdadeira união espiritual entre o
vo (1) manter unidade na oposição povo de Deus; eles falavam em ou­
a Deus e (2) tornar-se famosos. Toda tras línguas, mas compreendiam-
essa operação é um vislumbre pré­ se; e o trabalho deles glorificava a
vio da oposição final do homem (e Deus, não ao homem.
de Satanás) contra Cristo, centrada
na Babilónia de Apocalipse 17 e 18. IV. Deus chama Abraão (11:10-32)
Depois, os homens unir-se-ão em Em 10:21 -32, temos a genealogia de
uma igreja e organização política Sem, mas aqui o escritor repete a li­
mundanas; eles serão guiados pelo nhagem para mostrar como Abraão
anticristo, o último ditador do mun­ se encaixa no plano. Ele pega a li­
do; e seus planos serão frustrados. nhagem até Tera, pai de Abraão
É interessante observarmos que hoje (11:26). Aqui vemos outra evidência
o mundo, graças às Nações Unidas da eleição divina: Deus, em sua gra­
e outras alianças internacionais, ca­ ça, escolhe Abraão! Ele ignora Cam e
minha com rapidez em direção ao Jafé e escolhe Sem. Deus, dos cinco
conceito de "um mundo". filhos de Sem (10:22), escolhe Arfa-
xade (11:10). E dos três filhos de Tera
C. O julgamento (11:26), ele escolhe Abraão. Esse é o
Deus conhecia os desígnios dos início da nação hebraica.
rebeles e julgou-os. A divindade Génesis 12:1 indica que o Se­
fez outra conferência (veja 1:26 e nhor disse (tempo passado) a Abraão:
3:22) e decidiu misturar as línguas "Sai". Contudo, 11:31-32 afirma que
dos trabalhadores, tornando, assim, Abraão não obedeceu completamen­
impossível que trabalhassem juntos. te. Em vez de deixar seu pai para trás,
Génesis 9-11 39

ele levou-o junto; e a peregrinação sabia a razão dessa jornada, acredi­


detém-se em Harã, onde Tera morre. tou em Deus (11:17-19).
Com frequência, nossa meia obedi­ Devemos enfatizar mais uma
ência tem um preço alto, em tempo e vez que Deus não chamou Abraão
em valor. Abraão perde o tempo que por seus méritos pessoais. Ele não
poderia gastar no caminhar com Deus tinha nenhum. Ele era cidadão de
e também perde seu pai. No próximo uma cidade idólatra, Ur dos cal­
estágio da jornada, Abraão leva Ló deus. Abraão, se Deus não tivesse se
com ele, mas este também teve de ser revelado a ele, morreria incrédulo.
afastado de Abraão (13:5-14). Do ponto de vista do ser humano,
Hebreus 11:8-19 é um resumo Deus escolher Abraão e Sara — que
da fé de Abraão. Alguém disse que não tinham filhos — foi uma tolice.
Abraão, quando ele não sabia para Mas, em última instância, isso trou­
onde iria (Hb 11:8), quando não sa­ xe grande glória para Deus e grande
bia como iria (11:11) e quando não bênção para o mundo.
G énesis 1 2 - 1 3 : 4 nação; e (4) uma bênção que se
espalharia por todo o mundo. Foi
necessária muita fé por parte de
Esse capítulo inicia-se com a ca­ Abraão para responder a essas pro­
minhada de fé de Abraão. (É claro, messas, pois ele não tinha filhos, e
seu nome original era Abrão, "pai ele e a esposa eram idosos (11:30).
da exaltação", que foi mudado para Observe como Deus repete: "Fa­
Abraão, "pai de uma multidão". rei". Deus faria tudo isso apenas se
Por conveniência, usaremos seu Abraão acreditasse. Com certeza,
nome mais conhecido.) O dilúvio Deus cumpriu suas promessas, pois
destruiu uma civilização corrom­ Israel tem sua terra (e conseguirá
pida, mas outra sociedade peca­ mais); os judeus abençoaram todas
minosa tomou o lugar desta. Deus as nações ao nos dar a Bíblia e Cris­
chamou um homem para começar to; e os judeus, os mulçumanos, os
o cumprimento de sua promessa de cristãos e, até mesmo, os incrédu­
Génesis 3:15, o envio do Salvador los reverenciam o nome de Abraão.
ao mundo. Esse homem era da li­ Os homens de Babel queriam fazer
nhagem de Sem (11:1 Oss) e era o um nome para si mesmos, mas fra­
pai da nação judaica. Deus, por in­ cassaram (11:4), Abraão, porém,
termédio desse homem, abençoou confiou em Deus, e o Senhor deu-
o mundo inteiro! lhe um grande nome!

B. A concessão (vv. 4-6)


I. A resposta de fé de Abraão (12:1 -9) "Ló foi com ele" — esse foi o se­
gundo erro. Harã, pai de Ló, morreu
A. A aliança (vv. 1-3) (11:28), portanto Abraão pôs o jo­
Deus chamou Abraão em Ur dos vem sob sua proteção, apenas para
caldeus (At 7:2-4), mas ele ficou em que este lhe criasse sérios proble­
Harã até a morte de seu pai (11:27- mas. Mais tarde, Deus teve de se­
32). Deus ordenou separação para parar Ló de Abraão, antes de poder
si mesmo, nem que fosse preciso a prosseguir com seus planos para a
morte para alcançar isso. Esse cha­ vida do patriarca. Não há registro
mado deveu-se totalmente à graça da longa jornada deles de Harã até
de Deus, e as bênçãos da aliança Canaã, mas certamente foi neces­
derivaram-se completamente da sário fé e paciência para completá-
bondade do Senhor. Deus prome­ la. E fácil perceber que Abraão era
teu dar a Abraão (1) uma terra; (2) um homem próspero, contudo essa
um grande nome; (3) uma grande prosperidade não foi uma barreira
Génesis 12-13:4 41

ao seu caminhar com Deus. Os via­ ficado muito desapontados com isso.
jantes chegaram a Siquém, "o om­ Deus testava a fé deles a fim de saber
bro". Que coisa maravilhosa para o se confiavam no Senhor ou na terra.
crente viver no "ombro", de onde Eles, em vez de permanecerem em
Deus, "por baixo de ti, estende os Canaã e confiarem em Deus, des­
braços eternos" (Dt 33:27). ceram ao Egito, provavelmente por
sugestão de Ló (veja 13:10). O Egito
C. A confissão (vv. 7-9) simboliza o mundo, a vida de auto­
A obediência sempre leva à bênção. confiança; Canaã retrata a vida de fé
O Senhor, depois de Abraão chegar e de vitória. O Egito era irrigado pelo
a Canaã, apareceu para Abraão a fim lamacento rio Nilo; Canaã recebia
de encorajá-lo mais. Abraão não he­ as chuvas frescas de Deus (veja Dt
sitou em confessar sua fé diante de 11:10-12). Abraão abandonou sua
uma terra pagã. Ele, onde quer que tenda e seu altar e confiou no mun­
fosse, construía sua tenda e seu al­ do! Veja Isaías 31:1.
tar. (Veja 13:3-4,18.) A tenda fala do
peregrino, a pessoa que confia em B.A decepção (vv. 11-13)
Deus, um dia de cada vez, e está Um pecado leva a outro: primeiro
sempre pronta para se mover. O altar Abraão confiou no Egito; agora ele
fala do adorador que traz um sacrifí­ acreditou na mentira que sua es­
cio e o oferece a Deus. De forma in­ posa disse para protegê-lo. Géne­
teressante, a localização de Abraão, sis 20:13 deixa claro que Sara era
Betei ("a casa de Deus"), fica no oci­ tão culpada como Abraão, e 20:12
dente, Ai ("um monte de ruínas") fica indica que, na verdade, a "mentira"
no oriente, e ele viajava em direção era uma meia-verdade, pois ela era
à "casa de Deus". Em 13:11, Ló vi­ sua meia-irmã. Parece que Abraão
rou as costas à casa de Deus e fez estava mais preocupado com a pró­
sua jornada em direção ao oriente, pria segurança que com a de sua es­
de volta ao mundo e com resultados posa — ou a segurança da semente
desastrosos. Abraão, sempre que se prometida. Se Sara tivesse permane­
afastou do desejo de Deus, perdeu a cido no harém, Deus não poderia
tenda e o altar. cumprir sua promessa! Abraão, sem
sua tenda e seu altar, agia como as
II. O lapso de fé de Abraão (12:10-20) pessoas do mundo (SI 1:1 -3).

A. O desapontamento (v. 10) C. A disciplina (vv. 14-20)


Havia fome no local a que Deus o Que vergonha Abraão, homem de
conduzira! Os peregrinos devem ter fé, ser repreendido por um rei in-
42 Génesis 12-13:4

fiel. O faraó, até saber a verdade Com certeza, Deus perdoou Abraão
a respeito de Sara, "tratou bem" a e restaurou-o à comunhão, mas
Abraão, mas, assim que Deus in­ Deus não podia invalidar as tristes
terferiu e expôs a mentira, o faraó consequências da viagem ao Egito.
pediu-lhes que partissem. O cristão
dá um testemunho pobre quando se A. Tempo perdido
mistura com o mundo e faz conces­ As semanas que Abraão e sua famí­
sões. Alguém disse: "Fé é viver sem lia passaram afastados do Senhor
esquemas". Abraão e todos seus estavam perdidas e não podiam
descendentes precisavam aprender ser recuperadas. Todos os crentes
essa lição! Ló viveu com o mundo e devem orar para evitar esses tipos
perdeu seu testemunho (19:12-14); de perdas: "Ensina-nos a contar os
e Pedro permitiu o fogo inimigo e nossos dias, para que alcancemos
negou seu Senhor. coração sábio" (SI 90:12).

III. Abraão retorna à fé (13:1-4) B. Testemunho perdido


Os cristãos enredados no mundo Abraão poderia testemunhar o ver­
não podem sentir-se felizes consi­ dadeiro Deus ao faraó depois de
go mesmos. Eles têm de voltar ao enganá-lo? Provavelmente não. Que
exato lugar em que abandonaram tristeza sentiremos no julgamento
o Senhor. Isso é arrependimento e final de Cristo quando encararmos
confissão, sentir-se contrito pelo Deus e descobrirmos quantas almas
pecado e corrigir-se. Abraão não foram para o inferno por causa do
podia confessar seu pecado e per­ pobre testemunho dado por cristãos
manecer no Egito! Não, ele tinha de carnais!
voltar ao local de sua tenda e altar,
voltar ao local em que podia rogar C. O lugar de Agar na família
ao Senhor e receber bênção. Este é Agar, serva de Sara, veio do Egi­
um bom princípio para os cristãos to (16:1 ss) e trouxe um problema
seguirem: não ir a lugar algum deste imenso para a família. É claro que
mundo em que têm de deixar seu a sugestão de ela ter um filho par­
testemunho para trás. Qualquer lu­ tiu de Sara, mas a presença de Agar
gar em que não possamos construir ajudou a realizar o esquema car­
o altar e montar a tenda está fora de nal. Em última instância, tudo que
nossos limites. trazemos conosco do Egito (o mun­
Parece que a restauração de do infiel) causa-nos problemas.
Abraão desfaria toda sua desobe­ Devemos ser crucificados para o
diência, mas não era esse o caso. mundo e certificarmo-nos de que
Génesis 12-13:4 43

o mundo está crucificado para nós to pelo Egito (13:10), mas, embora
(Gl 6:14). Abraão tirasse Ló do Egito, ele não
podia tirar o Egito de Ló! Sempre
D. Mais prosperidade é uma tragédia quando um cristão
O aumento das riquezas ajudou a maduro desvia um cristão mais jo­
causar a disputa posterior entre os vem. Em 12:8, Ló compartilha a
pastores de Abraão e de Ló. Mais tenda e o altar de Abraão. Quando,
tarde, Abraão recusou as riquezas porém, Ló deixa o Egito, tem apenas
terrenas (14:17-24). a tenda, mas não mais o altar (13:5).
Não é de admirar que Ló gravitasse
E. A alegria de Ló com o Egito em direção a Sodoma e terminasse
Esse jovem desenvolveu um gos­ arruinado moral e espiritualmente.
G énesis 1 3 :5 - 1 4 :2 4 põe-se à frente de Abraão. Este era
um homem benevolente. Ele ansiava
por promover a paz (S1133). Enquan­
to Abraão preocupava-se em manter
Aqui, iniciamos o relato trágico um bom testemunho, Ló preocupa-
da apostasia e do fracasso de Ló. va-se apenas consigo mesmo. Con­
Se não fosse pelo relato de 2 Pe­ tudo, "a soberba precede a ruína"
dro 2:7-8, poderíamos perguntar- (Pv 16:18), e Ló perderia tudo!
nos se Ló foi mesmo salvo. Ele é
o retrato do crente mundano que B. Incredulidade (v. 10a)
perde tudo no fogo do julgamen­ "Levantou Ló os olhos" — ele vivia
to (1 Co 3:11 -15). Contudo, ainda pela visão, não pela fé. Se Ló con­
assim, é salvo pelo fogo! sultasse Deus, descobriria que o
Senhor planejava destruir Sodoma,
I. O conflito (13:5-7) mas, em vez disso, ele confiou na
Ló caminhava na carne, e Abraão própria visão e escolheu a cidade
caminhava no Espírito. Isso sempre rica e pecaminosa.
leva ao conflito. A causa exterior era
o aumento da riqueza; a causa real C. Mundanidade (v. 10b)
era a incredulidade e carnalidade de A terra que Ló viu era "como a terra
Ló. Cristo é um divisor de águas (Jo do Egito" — isso foi tudo que teve
7:43; 9:16; 10:19). A presença dele importância para ele! Ló caminhava
traz conflito entre pessoas da mesma segundo a carne, vivia para as coi­
família (Lc 12:49-53). O conflito com sas do mundo. Para Ló, a região em
Ló deve ter sido um peso para Abraão volta de Sodoma parecia bem irri­
e Sara, ao mesmo tempo que era um gada e fértil, mas para Deus ela era
triste testemunho do paganismo que pecaminosa (v. 13). Os descrentes de
agora havia na terra. hoje, como Ló, fundamentam suas
esperanças neste mundo e riem da
II. A escolha (13:8-18) idéia de que, um dia, Deus destruirá
As pessoas mostram o seu verdadei­ o mundo por meio do fogo (2 Pe 3).
ro eu por intermédio das escolhas
que fazem. Observe o que Ló revela D. Egoísmo (v. 11)
aqui: Ló devia seu sucesso principalmen­
te à bondade de Abraão, contudo o
A. Orgulho (vv. 8-9) jovem deixou o tio generoso e ten­
O mais jovem deve submeter-se ao tou pegar "o melhor" para si mes­
mais velho (1 Pe 5:5), contudo Ló mo. É claro, Deus queria separar Ló
Génesis 13:5-14:24 45

e Abraão (12:1), mas, do ponto de da tinha sua tenda e seu altar. Vale a
vista humano, essa separação era pena andar pela fé e confiar na Pala­
difícil e penosa. vra de Deus!

E. Negligência (v. 12) III. O cativo (14:1-12)


Primeiro, Ló olhou em direção a So- Os arqueólogos confirmam a exati-
doma. Depois, ele se moveu em di­ dão do relato bíblico dessa primeira
reção a Sodoma. Não muito tempo guerra. Quando Ló entrou em So­
depois (14:12 e 19:1), ele passou a doma (v. 12), perdeu a proteção do
morar em Sodoma. O versículo 11 "Juiz de toda a terra" (18:25) e sofreu
conta-nos a jornada de Ló em dire­ as consequências disso. Ló seguiu a
ção ao oriente; ele, em vez de cami­ vereda da amizade com o mundo
nhar na luz, foi em direção à escuri­ (Tg 4:4), depois a do amor do mundo
dão (Pv 4:1 8). (1 Jo 2:15-17), a seguir a da confor­
Ao mesmo tempo que Ló se dis­ midade ao mundo (Rm 12:2) e, por
tanciava mais do Senhor, Abraão se fim, a do julgamento com o mundo
aproximava mais dele! Ló tornava-se (1 Co 11:32). Ló pensou que Sodoma
um amigo do mundo (Tg 4:4); Abraão fosse um lugar de paz e de proteção;
se tornava amigo de Deus (Tg 2:23). entretanto, ela tornou-se um lugar de
Deus disse a Abraão que levantasse combate e de perigo!
os olhos (veja v. 14-15) e observasse Raramente, os santos são "cati­
a terra inteira. As pessoas do mundo vados pelo mundo" de forma repen­
afirmam o que seus olhos podem tina. Eles entram nos locais de perigo
ver; as pessoas de fé declaram o que aos poucos, em estágios. Com Ló, o
os olhos de Deus vêem! Ló pegou processo iniciou-se quando adotou
uma parte da terra, mas a Abraão o Egito como padrão e começou a
foi dada toda a terra. Deus sempre caminhar pela visão, em vez de pela
dá o melhor àqueles que deixam a fé. Ele preferiu as pessoas do mundo
escolha por conta dele (Mt 6:33). a seu tio piedoso, e as casas de Sodo­
Deus prometeu abençoar a semente ma às tendas de Deus. O resultado
de Abraão, mas a família de Ló des- disso: ele ficou cativo!
truiu-se em Sodoma ou corrompeu-
se na caverna (19:12-38). O versícu­ IV. A conquista (14:13-24)
lo 17 deixa claro que o crente deve O piedoso Abraão, embora vivesse
apressar-se em direção às promessas em uma tenda, estava em local segu­
de Deus e afirmá-las pela fé (Js 1:3). ro. Abraão, ao saber da situação de
Ló perdera seu altar e logo perderia Ló, fez algo generoso e foi resgatá-lo.
sua tenda (19:30), mas Abraão ain­ Apenas o crente separado pode sal­
46 Génesis 13:5-14:24

var o apóstata, e o apóstata volta-se Hebreus 5—7 deixa claro que Mel-
para esse santo fiel quando está com quisedeque ("rei da retidão") é um
problemas. Nesse capítulo, Abraão tipo de Cristo, nosso Sumo Sacer­
liberta Ló com sua espada. Ele, pela dote divino. Cristo, como o rei de
fé, domina o inimigo, percorrendo Salém ("paz"), dá-nos paz por meio
193 quilómetros para fazer isso. Veja de sua retidão, possibilitada por sua
1 João 5:1-4. Em 19:29, Abraão li­ morte na cruz. É encorajador ver
berta Ló por meio da oração (18:23- Melquisedeque encontrar Abraão
33). O cristão mundano é realmente exatamente quando o rei de Sodoma
afortunado se tem um ente querido o tenta! Cristo, como Rei e Sacerdo­
que ora por ele! te, pode dar-nos "graça para socorro
Abraão, depois da vitória, en­ em ocasião oportuna" (Hb 4:16). O
frenta grande tentação quando se en­ pão e o vinho (v. 18) simbolizam o
contra com o rei de Sodoma. Em ge­ corpo e o derramamento do sangue
ral, é verdade que Satanás tenta-nos de Cristo, pois é a cruz que torna
logo após uma grande vitória espiritu­ possível o sacerdócio divino de
al. Satanás encontra Cristo no deserto Cristo. Melquisedeque encontrou
depois de ele ser batizado. Elias foge Abraão, alimentou-o e abençoou-o.
com medo depois de seu grande tra­ Que Salvador maravilhoso!
balho de fé no monte Carmelo (1 Rs Abraão honrou Melquisedeque
19). O rei de Sodoma quer negociar ao pagar-lhe o dízimo de tudo. Esse
com Abraão e fazer com que ele faça é o primeiro exemplo de dízimo na
concessões e aceite as riquezas de Bíblia, e isso ocorreu anos antes do
Sodoma, mas Abraão recusa a oferta. recebimento da Lei Mosaica. He­
Fora provado que a riqueza do Egito breus 7:4-10 indica que esses dízi­
era uma cilada. A riqueza de Sodoma mos eram pagos (em espécie) a Cris­
seria ainda pior. Se Abraão não esti­ to, o que sugere que os cristãos de
vesse em guarda, sucumbiria à sutil hoje seguem o exemplo de Abraão ao
tentação e usurparia toda a glória de pagarem dízimos ao Senhor. Abraão
Deus. As pessoas diriam: "Abraão sal­ recusou as riquezas do mundo, mas
vou Ló pelo que poderia ganhar com compartilhou sua riqueza com o Se­
isso, não por causa de sua fé e de seu nhor, e Deus abençoou-o muito.
amor. Abraão recusou-se a viver em Essa batalha e essa noite de pe­
Sodoma com Ló, mas ele também rigo trouxeram Ló ao seu juízo? In­
gosta das posses de Sodoma". Abraão felizmente, não! Em 19:1, o vemos
perderia seu testemunho. de volta a Sodoma. O coração de
Abraão ignorou o rei de So­ Ló estava em Sodoma, portanto era
doma, mas honrou o rei de Salém. para onde seu corpo tinha de ir.
G é n e s is 1 5 - 1 7 nha 85 anos, e havia dez anos es­
perava pelo filho prometido. Se ele
não tivesse filho, toda a sua herança
Nesses capítulos, temos uma rica ficaria para Eliézer, seu servo. Em
mina de verdade espiritual que al­ 12:2, Deus não prometera: "De ti
cança o Novo Testamento, especial­ farei uma grande nação"? Portanto,
mente Romanos e Gálatas. Deus es­ por que ele não cumpria sua pro­
boçou suas promessas em 12:1-3 e messa? Deus respondeu à súplica
expandiu-as em 13:14-18, mas, nes­ de Abraão levantando os olhos dele
se ponto, ele revela de forma mais de si mesmo e de seu servo para
completa as promessas da aliança. os céus (v. 5). O versículo 6 é um
Essa aliança diz respeito ao filho de versículo-chave da Bíblia que pode­
Abraão e à prometida semente por ríamos traduzir da seguinte manei­
vir, Cristo. Esses capítulos também ra: "E ele disse ' am ém ' ao S e n h o r , e
tratam da terra de Canaã e do pro­ o S e n h o r creditou isso em sua conta
grama maravilhoso que Deus tem de retidão" (veja Gl 3:6; Rm 4:3; Tg
para seu povo, Israel. 2:23). Como Abraão foi salvo? Não
por guardar a lei, pois a lei ainda
não fora dada; não pela circunci­
I. Os termos da aliança (15) são, pois ela não foi instituída até
que ele tivesse 99 anos. Ele foi salvo
A. O cenário pela fé na Palavra de Deus.
Abraão acabara de derrotar os reis
(cap. 14) e vencera a grande tenta­ C. O sacrifício
ção do rei de Sodoma. Agora, Deus A salvação fundamenta-se em sacri­
interfere a fim de encorajá-lo. Como fício, pois a aliança exige o derra­
é maravilhoso que Cristo venha até mamento de sangue. Naquela épo­
nós quando precisamos dele (14:18)! ca, em um acordo, era costume que
Deus é nossa proteção (escudo) e as partes contratantes andassem en­
provisão (recompensa), jamais preci­ tre as partes de animais sacrificados;
samos temer. Abraão não precisava isso selava o acordo. No versículo 9,
da proteção do rei de Sodoma ou das todos os sacrifícios falam de Cristo e
riquezas que ele oferecia, pois ele ti­ da cruz. Abraão ofereceu sacrifícios
nha tudo que precisava em Deus. e trabalhou para manter Satanás
afastado (prefigurado pelas aves no
B. A súplica v. 11; Mt 13:4,19). Contudo, nada
Abraão não queria um prémio; ele aconteceu realmente até Abraão ir
queria um herdeiro. Agora, ele ti­ dormir. Abraão nunca caminhou
48 Génesis 15-1 7

entre as partes. Deus sozinho (v. 17) haver bênçãos sem sofrimento. An­
caminhou entre as partes; a aliança tes que Abraão veja as estrelas de
toda era de graça e dependia ape­ Deus, é preciso que escureça!
nas do Senhor. Abraão, como Adão
(2:21), dormia profundamente e não II. O teste da aliança (16)
podia fazer nada para ajudar Deus. Deus fizera a aliança e a cumpriria.
Quando estamos desamparados, Tudo que Abraão e Sara precisavam
Deus faz grandes coisas para nós. fazer era esperar pela fé (Hb 6:12).
Infelizmente, o espírito deseja isso,
D. A garantia mas a carne é fraca! No capítulo an­
Abraão queria saber com certeza terior, Abraão escutou a Deus e exer­
o que Deus faria (v. 8), e Deus sa­ citou a fé, mas aqui ele escutou sua
tisfez sua necessidade. A salvação esposa e revelou sua incredulidade.
fundamenta-se no sacrifício de Cris­ Ele deixou de caminhar no Espírito
to e na graça de Deus; a garantia e começou a fazê-lo na carne. Vi­
vem da Palavra de Deus. Deus deu mos que "fé é viver sem esquemas",
uma previsão resumida dos even­ mas, nesse momento, os dois tenta­
tos a Abraão: a curta permanência ram ajudar Deus a cumprir seus pla­
de Israel no Egito, o sofrimento de­ nos. Isso explica por que Deus teve
les no Egito, a libertação deles na de esperar até que estivessem velhos
quarta geração (veja Êx 6:16-26) e para dar-lhes o filho. Eles tinham de
a possessão da terra prometida. Ob­ morrer para si mesmos a fim de que
serve que Deus diz: "Dei esta ter­ ele pudesse trabalhar (Gl 5:16-26).
ra" (v.18), e não: "Darei", como em No versículo 2, Sara culpa
12:7. As promessas de Deus são tão Deus por sua esterilidade e sugere
boas quanto suas realizações! que ele não é bom para eles (veja
Note que, nesse capítulo, apa­ 3:1-6). Ela vira-se para o mundo em
recem pela primeira vez, pelo me­ busca de ajuda — para Agar, a egíp­
nos, sete palavras ou frases: "A pa­ cia —, mas todo o esquema fracas­
lavra do S e n h o r " (v . 1); "Não temas" sa. Agora, surgem as obras da carne
(v. 1); "galardão" (v. 1); "herdeiro"; (Gl 5:16-26).
"herança" (vv. 3,7); "creu"; "impu­ Deus não reconhece o casa­
tado" e "justiça" (todas no v. 6). Esse mento. Ele chama Agar de "serva de
capítulo mostra-nos que não pode Sara" (v. 8). Essa é a primeira men­
haver herança sem filiação (Rm ção ao Anjo do Senhor no Antigo
8:16-17), não pode haver retidão Testamento, e ele não é ninguém
sem fé (Rm 4:3ss), não pode haver mais além de Cristo. Deus cuida de
garantia sem promessas e não pode Agar, a instrui para que se submeta
Génesis 15-1 7 49

a Sara e promete que seu filho, Is­ esperar que Abraão e Sara morres­
mael, será um grande homem, mas sem para si mesmos a fim de que
"como um jumento selvagem". "Is­ seu poder de ressurreição se reve­
mael" significa "Deus ouvirá" (veja lasse na vida deles. Deus revelou-se
v. 11). como o "DeusTodo-Poderoso" — El
Quando Isaque, filho de Sara, Shaddai, "o todo suficiente". Nes­
entra na família, não há mais es­ se capítulo, observe a repetição da
paço para Ismael, e ele é expulso expressão "minha aliança". O cum­
(21:9ss). No fim, Ismael teve doze primento dela repousa sobre Deus,
filhos (25:13-15), e, durante sécu­ não sobre o homem. Note também
los, seus descendentes são inimi­ a repetição da afirmação: "Farei".
gos dos judeus. Gálatas 4:21-31
ensina que Sara representa a Nova A. Os nomes novos
Aliança, e Agar, a Antiga Alian­ "Abrão" significa "pai da exaltação",
ça. Agar era escrava, e a Antiga Abraão, "pai de uma multidão". Diz-
Aliança escravizava as pessoas (At se que "Sarai" significa "briguenta",
15:10); Sara era uma mulher livre, mas "Sara" significa "princesa".
e Cristo nos libertou (Gl 5:1 ss). Is­ Seus novos nomes eram a prepara­
mael nascera da carne e não podia ção para a bênção que estava para
ser controlado. Da mesma forma, entrar na casa deles. Apenas a gra­
a Lei apela à carne, mas não pode ça de Deus podia transformar dois
mudá-la nem controlá-la. Isaque adoradores de ídolos pagãos em reis
era filho do Espírito, o filho da pro­ e rainhas!
messa (Gl 4:23), que desfrutava de
liberdade. B. O novo sinal
Não perca a lição prática des­ Essa é a primeira menção à circun­
sa passagem: sempre há problema cisão na Bíblia. O Antigo Testamen­
quando passamos à frente de Deus. to não ensina em lugar nenhum
A carne adora ajudar a Deus, mas que a circuncisão salva o homem.
demonstramos a verdadeira fé na Contudo, ela é o símbolo exterior
paciência (Is 28:16). Não podemos da aliança entre Deus e o homem.
misturar fé e carne, lei e graça, pro­ A finalidade era lembrá-los da cir­
messa e auto-realização. cuncisão interior do coração que
acompanha a verdadeira salvação
III. O símbolo da aliança (17) (Dt 10:16 e 30:6; Jr 4:4; veja tam­
Há treze anos de silêncio entre os bém Rm 4:11 e Gl 5:6). Devia-se
acontecimentos desse capítulo e o realizar o ritual no oitavo dia (v.
nascimento de Ismael. Deus teve de 12), e é relevante notar que oito é
50 Génesis 15-17

o número da ressurreição. É triste (a antiga natureza), e podemos vi­


dizer que os judeus dependiam do ver no Espírito, não na carne.
ritual carnal, não da realidade inte­ No versículo 17, o riso de
rior (At 15:5). Hoje, os crentes estão Abraão é de fé jubilosa; o de Sara foi
na Nova Aliança e são a verdadeira de descrença (18:12). "Isaque" signi­
circuncisão (Fp 3:1-3), que se vi­ fica "riso". Deus rejeita Ismael e esta­
vência espiritualmente por intermé­ belece sua aliança com Isaque e sua
dio da morte de Cristo (Cl 2:9-15). semente; contudo, ele, pela graça,
Despe-se todo o corpo de pecado designa bênção especial para Ismael.
Génesis 1 8 - 2 0 coração de vocês". Ele anseia por
comungar conosco.
Esses capítulos registram três visitas,
e cada uma delas traz uma lição es­ B. A confissão de descrença de
piritual. Sara (vv. 9-15)
Conecta-se o nascimento de Isaque
a risos. De fato, o nome "Isaque"
significa "riso". Abraão riu em fé
jubilosa quando ouviu a notícia
I. A visita de Cristo a Abraão (18) de que Deus lhe daria um filho
Os versículos 17-22 deixam claro (17:15-18), mas aqui Sara parece
que um dos visitantes celestiais rir graças à incredulidade carnal.
era o Senhor Jesus Cristo; observe Por que duvidamos das promessas
também as palavras de Abraão no de Deus? "Acaso, para o S e n h o r
versículo 3. O grande tema desse há coisa demasiadamente difícil?"
capítulo é a comunhão do crente Observe, em Lucas 1:34, a fé de
com Cristo, pois Abraão era "ami­ Maria quando pergunta: "Como
go de Deus" (Tg 2:23). No capí­ será isto?". Entretanto, Sara ri gra­
tulo 19, veremos Ló, o amigo do ças à alegria espiritual quando Isa­
mundo. que nasce (21:6-7).

A. A comunhão de Abraão C. A confiança de Cristo em


com Cristo (vv. 1-8) Abraão (vv. 16-22)
Esses versículos retratam a comu­ Os anjos saíram e foram para Sodo­
nhão amorosa do crente com Cristo. ma, mas Cristo ficou para trás a fim
Abraão está em Manre, que signifi­ de visitar Abraão. Que cena! Cristo
ca "vigor". Ele desfruta a plenitude não esconde nada de seu amigo.
da bênção de Deus. A tenda fala de Veja a passagem de João 15:14-
sua vida de peregrino; o "calor do 15 em que Cristo promete reve­
dia" indica que ele caminha na luz lar seus desejos para seus amigos.
(1 Jo 1). Sua pressa prova seu dese­ Leia também Salmos 25:9-14 e
jo amoroso de agradar ao Senhor. E veja como Abraão satisfaz todas as
ele não poupa sacrifícios para fazer condições dadas aí. Abraão sabia
com que Cristo sinta-se em casa. mais sobre Sodoma que Ló, e este
Em Efésios3:17, Paulo ora: "Habi­ vivia em Sodoma! Os cristãos obe­
te Cristo no vosso coração", o que dientes, separados, sabem mais
significa literalmente: "Cristo pode sobre este mundo que os filósofos
instalar-se e sentir-se em casa no ateístas!
52 Génesis 18-20

D. A preocupação de Abraão noite quando os anjos chegaram, e


com Ló (vv. 23-33) a maior parte dos eventos acontece
Abraão amava muito Ló apesar da à noite. Ló não caminhava na luz.
mundanidade e da incredulida­ O Ló mundano não perdera apenas
de deste. Observe que Abraão não sua tenda, seu altar e sua amizade
pede a graça de Deus, mas a justi­ com Deus, mas perdera também seu
ça de Deus: como o Senhor poderia padrão espiritual: ele ousou sugerir
destruir o justo com o ímpio? (Deus, que sua filha solteira fosse à rua a
no Calvário, puniu o Justo, em vez fim de satisfazer a luxúria da multi­
do pecador.) Abraão, com persistên­ dão! Ele também perdera seu teste­
cia e ternura, intercedeu em favor demunho diante de toda a sua família
Sodoma. Deus disse que pouparia (vv. 12-14). Quando tudo isso se ini­
toda a cidade se fossem encontra­ ciou? Quando ele "levantou [...] os
dos apenas dez crentes em Sodoma. olhos" (13:10) e escolheu sua terra.
O capítulo 19 indica que Ló tinha, Ele começou a caminhar pela visão,
pelo menos, duas filhas casadas (v. não pela fé, vivendo para as coisas
do mundo. Ele deve ter se casado
14) e duas filhas solteiras (v. 30ss);
portanto, com sua esposa e genros, com uma mulher mundana, pois o
havia oito membros em sua família. coração dela estava em Sodoma, e
Se Ló conquistasse a própria famí­ ela não conseguia deixar a cidade
lia e mais dois vizinhos, Deus teria para trás.
poupado toda uma cidade! Mas ele Aquele dia amanheceu lumi­
fracassou em satisfazer até mesmo noso e bonito. As pessoas iniciaram
essa condição. suas tarefas diárias — e veio o jul­
gamento! As cidades pecaminosas
II. A visita do anjo a Ló (19) foram totalmente destruídas. Ape­
Cristo não acompanhou os anjos, nas Ló e suas duas filhas solteiras
ele não se sentiria "em casa" na mo­ escaparam com vida. O destino de
radia do apóstata mundano. Segun­ Sodoma retrata a ira por vir. A des­
da Pedro 2:7-8 indica que Ló era um truição virá quando os homens pen­
homem salvo. Ele tinha união com sarem que há paz e segurança (1 Ts
o Senhor, mas não comunhão; filia­ 5). Entrementes, a salvação de Ló
ção, mas não amizade. Contudo, ele é um retrato do arrebatamento da
foi salvo "todavia, como que através igreja antes do derramar da ira de
do fogo" (1 Co 3:14-15). Note que Deus. O Senhor salvou Ló por cau­
Ló perdera sua tenda. Pois, nessa sa de Abraão (19:29), e ele libertará
época, ele vivia em uma casa (v. a igreja da ira por vir por causa de
3), e não se menciona um altar. Era Jesus (1 Ts 1:10; 5:9).
Génesis 18-20 53

Os dias finais de Ló foram cheios le, porém, que faz a vontade de


de escuridão e de pecado quando Deus permanece eternamente"(1 Jo
ele cometeu incesto na caverna. Ele 2:17). Infelizmente, esse capítulo
trocou a tenda por uma casa na ci­ registra a repetição de um pecado
dade e acabou em uma caverna, e antigo — Abraão mente a respeito
suas filhas o embebedaram! Os mo- de sua esposa (veja 12:10-20). Mes­
abitas e os amonitas, filhos dessa mo o santo mais dedicado deve es­
cena horrível, foram inimigos dos tar constantemente em guarda para
judeus durante séculos, o que ilus­ que Satanás não o derrube.
tra que a carne luta contra o Espírito. Por que houve a repetição des­
Certifiquemo-nos de seguir o desejo se pecado? Porque Abraão não o
de Deus quando nos estabelecemos julgou em sua vida. Com certeza,
com nossa família. Ló escolheu o lo­ ele confessou-o ao Senhor e foi per­
cal errado e arruinou a si mesmo e a doado, mas confessar o pecado não
seus entes queridos. é a mesma coisa que julgar o peca­
É interessante contrastar as duas do. Julgar nossos pecados significa
visitas dos capítulos 18 e 19. O pró­ vê-los em sua verdadeira luz (como
prio Cristo visitou Abraão, mas apenas Deus os vê), odiá-los e expulsá-
os anjos foram a Sodoma visitar Ló. los de nossa vida. No versículo 13,
Cristo tinha uma mensagem de júbilo Abraão admite que esse pecado es­
para Abraão e Sara, mas os anjos le­ tava com ele desde que saiu de Ur
varam uma mensagem de julgamento dos caldeus.
para Ló. A visita para Abraão ocorreu Há uma diferença entre o cren­
durante o dia, mas a de Ló aconteceu te e o incrédulo, embora o crente
à noite. Abraão estava à porta da ten­ possa pecar. Deus destruiu a corte
da; Ló, no portão da cidade. Abraão ti­ pagã, mas protegeu Abraão. Deus
nha força diante de Deus, mas Ló não disse ao governante: "Vais ser pu­
tinha influência nem mesmo na pró­ nido de morte" (v. 3), mas chamou
pria família. Abraão viu a destruição Abraão de profeta (v. 7). Isso não
de Sodoma e não perdeu nada, mas quer dizer que os crentes tenham
Ló perdeu tudo. Apenas sua vida foi licença para pecar, mas mostra que
poupada. Abraão trouxe bênção para Deus, embora sejamos incrédulos,
o mundo, mas Ló, problemas (os amo­ é fiel (2 Tm 2:12-13). Certamente,
nitas e os moabitas). Abraão sofreu vergonha e reprova­
ção por seu pecado, mas Deus pro­
III. A visita de Abraão em Gerar (20) tege os seus. Na verdade, se Abi-
Ló ficou esquecido, porém a his­ meleque tivesse ficado com Sara,
tória de Abraão continua. "Aque­ isso alteraria o plano de Deus para
54 Génesis 18-20

o nascimento de Isaque no ano se­ É muito triste observar que, anos


guinte. O egoísmo e a incredulida­ mais tarde, seu filho, Isaque, usou
de de Abraão quase destruíram sua esse mesmo esquema (26:6ss) com
vida e o futuro da nação judaica. o mesmo resultado amargo.
G én esis 2 1 - 2 2 4:19-20), mas à promessa e ao poder
de Deus. Sempre há conflito entre
Esses dois capítulos registram três a carne e o Espírito, a antiga natu­
testes que acontecem na vida de reza e a nova natureza (Gl 5:16-24).
Abraão. A verdadeira fé sempre é A salvação não muda a antiga natu­
testada, pois apenas por intermé­ reza, tampouco é possível melhorar
dio do teste descobrimos o tipo de ou disciplinar a antiga natureza (veja
fé que temos. Os testes de fé são Rm 6—7). A única forma de dominar
oportunidades de crescimento e a antiga natureza é aceitar a avalia­
de vitória. ção que Deus faz dela e obedecer à
Palavra de Deus. Abraão amava Is­
I. O teste da família (21:1 -21) mael e ansiava por apoiá-lo (21:10-
Com frequência, é mais difícil vi­ 11; veja também 17:18), mas Deus
ver para Cristo em família. Abraão disse-lhe: "Mande-o embora!". Ro­
já fora testado em família por seu manos 6 informa-nos que nossa úni­
pai (11:27-32), por seu sobrinho ca vitória sobre a carne é a crucifica­
Ló (caps. 12— 13) e por sua espo­ ção — considerada a morte de nós
sa (cap. 16). Vemos aqui conflito mesmos. Os cristãos que alimentam
entre os dois filhos, Ismael (que de a antiga natureza (Rm 13:14) sempre
acordo com 16:16 estava no fim da têm conflito e problemas.
adolescência) e Isaque (desama­
mentado, com cerca de 3 anos). B. A antiga aliança versus a
De início, o nascimento de Isaque nova aliança
trouxe júbilo e riso (compare 21:6 Gálatas 4:21-31 explica que os even­
com 17:17 e 18:12), pois o pró­ tos com Ismael e Isaque são uma
prio nome "Isaque" significa "riso". alegoria que simboliza a antiga
Contudo, logo houve conflito, já aliança de Deus com Israel e sua
que Ismael perseguia constante­ nova aliança com a igreja. Podemos
mente seu irmão mais jovem. Há resumir de forma breve as principais
algumas lições valiosas aqui: idéias da seguinte maneira: Agar
simboliza a antiga aliança da lei,
A. A carne versus o Espírito identificada com a Jerusalém terrena
Ismael era filho da carne (v. 16), e da época de Paulo. Sara simboliza a
Isaque era filho da promessa, nas­ nova aliança da graça, identificada
cido de forma milagrosa. A presen­ com a Jerusalém celestial. Ismael
ça de Isaque na casa não se devia nasceu da carne e era filho de uma
à força de Abraão (pois o corpo de escrava. Isaque "nasceu do Espírito"
Abraão já estava amortecido, Rm e era filho de uma mulher livre. Por-
56 Génesis 21-22

tanto, esses dois filhos retratam os O local em que se deu a aliança


judeus sob a escravidão da Lei e os chamava-se Berseba, "porque ali
verdadeiros cristãos sob a liberda­ juraram eles ambos", e tornou-se
de da graça. Paulo argumenta que um local de comunhão e de ora­
Deus mandou Abraão expulsar Agar ção para Abraão. É importante que
(a antiga aliança), porque sua bên­ os testes que enfrentamos com a
ção estava sobre Isaque. Tudo isso vizinhança ou nos negócios sejam
se ajusta ao argumento de Paulo, de estabelecidos de forma cristã. Para
Gálatas 3—4, de que os cristãos de mais esclarecimentos a respeito
hoje não estão sob a Lei. disso, veja Romanos 12:18.

C. A maneira do homem versus III. O teste do Senhor (22:1-24)


a maneira de Deus Satanás tenta-nos para que expo­
A melhor maneira de resolver qual­ nhamos o pior de nós, mas Deus
quer problema é a de Deus. Em testa-nos a fim de nos ajudar a tra­
1 6:10, Agar esqueceu a promessa de zer à tona o melhor de nós. Veja
Deus; de outra forma, ela não teria Tiago 1:12-15. Os testes mais difí­
ficado desesperada. Deus sustentou- ceis não vêm das pessoas, mas do
os e manteve sua Palavra. O Senhor, Senhor, contudo sempre são acom­
se obedecermos a ele, sempre abre panhados das bênçãos mais exce­
o caminho e resolve o problema. lentes. Deus nunca testou Ló dessa
forma. Ele viveu de um modo tão
II. O teste dos vizinhos (21:22-34) baixo que Sodoma e o mundo o tes­
Os crentes devem ter cuidado ao taram. Deus, para sua glória, faz os
relacionar-se com "os que são de maiores testes com o santo que ca­
fora" (Cl 4:5; 1 Ts 4:12; 1 Tm 3:7). minha mais próximo do Senhor.
Abraão deu um bom testemunho
diante de seus vizinhos não-salvos, A. A lição tipológica
e o conflito em relação ao poço Esse evento é um exemplo maravi­
poderia ter arruinado isso para lhoso de Cristo: o único Filho que
sempre. Observe que Abraão con­ queria dar a vida para agradar seu
cordou em estabelecer o problema Pai. Isaque e Cristo eram filhos pro­
em forma de negócio: "Tudo, po­ metidos; os dois nasceram de forma
rém, seja feito com decência e or­ milagrosa (claro que Cristo nasceu
dem" (1 Co 14:40). Abraão e seus da virgem Maria e não tinha peca­
vizinhos trocaram os presentes do); os dois trouxeram júbilo ao co­
apropriados e fizeram os sacrifícios ração do pai; os dois nasceram no
adequados para selar a aliança. momento determinado por Deus. Os
Génesis 21-22 57

dois foram perseguidos pelos irmãos 19). Deus prometera que Abraão
e foram obedientes até a morte. Cru­ teria muitos descendentes, e essa
cificaram Cristo entre dois ladrões, e promessa não poderia ser cumpri­
dois jovens foram com Isaque (v. 3). da, a menos que Isaque vivesse ou
Isaque questionou seu pai; Jesus per­ que Deus o ressuscitasse dos mor­
guntou: "Deus meu, Deus meu, por tos. Abraão sabia que Deus não
que me desamparaste" (Mt 27:46). mentiria, portanto ele confiou em
E claro que, no fim, Cristo morreu, sua Palavra imutável. "Não duvide
enquanto Isaque foi poupado. En­ na escuridão do que Deus lhe disse
tretanto, na visão de Deus, Isaque a plena luz." Abraão obedeceu sem
"morreu". Hebreus 11:19 diz que demora. Se fizermos o que Deus
"figuradamente" (isto é, simbolica­ nos ordena fazer, ele revelará o
mente) Isaque levantou da morte. próximo estágio no momento cer­
O versículo 19 indica que Abraão to. A resposta de Deus nunca chega
retornou até os servos que espera­ com um segundo de atraso! Deus
vam, mas não diz nada a respeito de providenciou um carneiro no exa-
Isaque. Isso também é um exemplo: to momento em que foi necessário.
pois na próxima vez que vemos Isa­ Por isso, Abraão chamou o local de
que, ele está recebendo sua noiva "O S e n h o r Proverá" — o Senhor
(24:62ss). Da mesma forma, Cristo proverá o que for preciso!
deu-se na cruz, voltou ao céu e, um
dia, retornará para receber sua noi­ C. A lição profética
va, a igreja. Esse evento se deu no monte Moriá
(22:2), onde, no fim, se construiu
B. A lição prática o templo (2 Cr 3:1). Isaque pergun­
A fé verdadeira sempre é testada. É tara: "Onde está o cordeiro?", mas
óbvio que Deus não queria a vida Deus providenciou um carneiro. A
de Isaque; ele queria o coração resposta à pergunta dele veio na
de Abraão. Abraão amava Isaque, pessoa de Cristo: "Eis o Cordeiro
e Deus quis certificar-se de que de Deus" (Jo 1:29). Abraão disse:
ele não era um ídolo entre ele e "No monte do S e n h o r se proverá"
Abraão. É possível que Abraão te­ (v. 14); Cristo foi visto no templo e
nha feito aquilo porque achava que depois sacrificado no monte Calvá­
era Isaque quem cumpriria a pro­ rio. Veja também João 8:56.
messa, e não por confiar em Deus.
Como Abraão passou nesse teste? D. A lição doutrinária
Graças ao fato de ele ter confiado Tiago 2:14-26 discute a relação
nas promessas de Deus (Hb 11:17- entre fé e obras, e Tiago usa esse
58 Génesis 21-22

evento para ilustrar seu ponto prin­ quando ofereceu Isaque, mas anos
cipal: prova-se sempre a verdadeira antes quando confiou na promessa
fé por meio da obediência. Obser­ de Deus (Gn 15:6). Tiago não nos
ve a tradução exata de Tiago 2:21: diz que somos salvos por meio de
"Não foi por obras que Abraão, o obras ou de sacrifícios, mas a prova
nosso pai, foi justificado, quando de que possuímos a fé salvadora é
ofereceu sobre o altar o próprio fi­ uma vida de obediência (veja Rm
lho, Isaque?". Abraão não foi salvo 4:1-5 e Gl 3:6ss).
G é n e s is 2 3 - 2 4 te, mas ele quer certificar-se de es­
colher a noiva certa para Isaque. É
Esses dois capítulos contrastam um claro que aqui vemos uma imagem
com o outro, pois em um deles temos do Pai celestial escolhendo a noi­
um funeral, e no outro, um casamen­ va (a igreja) para seu Filho (Cristo).
to. A terra de Canaã é "terra de montes Como Abraão sabia que Deus pro­
ede vales" (Dt 11:11); a vida cristã tem videnciaria a mulher certa para seu
mágoas e alegrias. Contudo, Abraão, filho? Ele confiava nas promessas
nas duas situações, caminhou pela fé de Deus! Isaque era posse de Deus.
(Hb 11:13-17). O capítulo 23 mostra Anos antes, Abraão deitara-o no al­
Abraão como um lamentador, como
tar e sabia que Deus supriria o ne­
alguém que lamenta, contudo não
cessário. De outra forma, a semente
"como os demais, que não têm es­
prometida nunca nasceria.
perança" (1 Ts 4:13ss). Que testemu­
nho ele dava diante de seus vizinhos A mulher deveria vir de uma
perdidos! Como o sepultamento de família de Deus; ela não deveria ser
Sara foi diferente dos sepultamen- pagã. Não há dúvida de que havia
tos pagãos da época. Que estranho entre as filhas de Canaã muitas mu­
o fato de que o primeiro pedaço de lheres bonitas e talentosas que fica­
terra que Abraão possuiu em Canaã riam felizes em se casar com Isaque e
fosse um túmulo! Génesis 49:31-33 compartilhar sua riqueza, mas não era
indica que, no fim, seis pessoas foram essa a vontade de Deus. Nos versícu­
enterradas lá. Observe também com los 6 e 8, Abraão enfatiza isso; e pre­
que cuidado Abraão lidava com seus cisamos enfatizar isso hoje. Primeira
assuntos de negócios, certificando-se aos Coríntios 7:39-40 admoesta: "So­
de que tudo fosse feito "com decên­ mente no Senhor" (veja também 2 Co
cia e ordem". É vergonhoso que cren­ 6:14-18). É uma tragédia quando os
tes efetuem transações de negócios pais forçam seus filhos a se casarem
questionáveis, especialmente com "em sociedade" e fora da bênção do
aqueles que são perdidos. Senhor! Abraão preferiria que seu fi­
Vamos nos concentrar no capítu­ lho ficasse solteiro a voltar a Ur, em
lo 24, que é rico em lições espirituais. busca de uma esposa, ou a se casar
Temos três exemplos maravilhosos em com alguém da nação de Canaã.
Abraão, em seu servo e em Rebeca.
I. O exemplo de dedicação I. O exemplo de devoção do
de Abraão (24:1-9) servo (24:10-49)
Nessa época, Abraão tinha 140 anos Em um sentido espiritual, o servo
de idade (veja 25:20 e 21:5). Deus o é a imagem do Espírito Santo cujo
abençoou espiritual e materialmen­ trabalho é trazer o perdido a Cris­
60 Génesis 23-24

to e, assim, suprir uma noiva para mim, estando no caminho, o S en h o r


ele. O relato não fornece o nome do me guiou" (v. 27). Veja a afirmação
servo, pois o ministério do Espírito de João 7:17. Uma vez que ele to­
é apontar para Cristo e glorificá- mou conhecimento da vontade de
lo. Observe a frequência com que Deus, não tardou, mas apressou-
o servo menciona seu senhor e o se em cumprir sua tarefa (v. 17). A
filho do seu senhor. Ele vivia para hospitalidade da casa era agradável,
agradar seu senhor, pois encontra­ mas ele tinha um trabalho a fazer
mos a palavra "senhor" 22 vezes para seu senhor e tudo o mais po­
nesse capítulo. Enviou-se o Espírito dia esperar. Observe também que
para representar Cristo e para fazer o servo, quando voltou para casa,
a vontade do Salvador aqui na ter­ prestou contas ao seu senhor (v. 66),
ra. O servo carrega consigo uma exatamente como devemos fazer
parte da riqueza de seu senhor (vv. quando vemos Cristo. É interessante
10,22,30,53), da mesma forma que conjeturar se o servo ensinou a noi­
hoje o Espírito Santo "é o penhor da va durante a jornada deles e se falou
nossa herança" (Ef 1:14), comparti­ sobre o esposo para ela. Cristo, em
lhando conosco uma pequena por­ relação ao Espírito Santo, disse: "Ele
ção da grande riqueza que um dia me glorificará" Qo 16:14).
usufruiremos em glória.
Em acréscimo a isso, o servo é III. O exemplo de decisão de
um exemplo para quando procura­ Rebeca (24:50-67)
mos servir ao Senhor. Como já men­ Vemos, de novo, o retrato de Cristo
cionamos, o servo pensa apenas e sua igreja. Rebeca era uma noiva
em seu senhor e na vontade deste. virgem, exatamente como a igreja
Na verdade, ele estava tão ansioso será quando acontecer o casamen­
para completar sua tarefa que não to no céu (Ap 19:7-8). Observe que
carregou nenhum alimento (v. 33; Rebeca se identifica com o rebanho,
Jo 4:31-34). Muitas vezes, passamos da mesma forma que a igreja é am­
as coisas físicas à frente das espiri­ bos, a noiva de Cristo e o rebanho
tuais. O servo recebeu ordens de (Jo 10:7-18).
seu senhor e não as mudou nem um Rebeca tem de tomar uma de­
pouco. Ele acreditava na oração (Is cisão importante: ela ficaria em casa
65:24) e sabia como esperar no Se­ com a família e continuaria a ser
nhor. Não há espaço para impaciên­ uma serva, ou acreditaria, pela fé,
cia apressada no serviço de Cristo. nas palavras do servo e iria com ele
O servo sabia como confiar na para ficar com Isaque, um homem
orientação do Senhor: "Quanto a que nunca vira? Com certeza, havia
Génesis 23-24 61

obstáculos no caminho: seu irmão Ela sabia tudo sobre ele? Não. Mas
queria que ela ficasse por pouco o que viu e ouviu convenceu-a de
tempo (v. 55); a viagem seria longa que devia ir. De forma semelhante,
e difícil; Isaque era um peregrino o Espírito fala e mostra aos pecado­
sem casa estabelecida; e ela teria de res perdidos de hoje as coisas de
deixar os entes queridos. Cristo, o suficiente para que tomem
Com frequência, o mundo a decisão certa.
aconselha o pecador a esperar, exa- Deixamos Isaque (até onde diz
tamente como Labão recomendou respeito ao relato) no monte Moriá,
a sua irmã. (Entretanto, observe que pois 22:19 menciona apenas Abraão.
Labão, quando se trata de conseguir Isaque retrata o nosso Senhor que foi
coisas materiais, apressa-se [vv. 28- ao Calvário a fim de morrer por nós e
31]. Perguntamo-nos se ele convi­ depois retornou ao céu para esperar
dou o servo para entrar na casa por por sua noiva. No capítulo 24, o servo
cortesia ou por cobiça!) Em geral, (o Espírito Santo) continuou a busca
os pecadores não têm pressa na pela noiva. Depois, Isaque, quando
salvação de sua alma. Até esse pon­ a noiva se aproxima, apareceu para
to, Rebeca fora apressada (vv. 18- recebê-la. Que cena! Ela pode acon­
20,28), mas agora eles querem que tecer hoje! Eles se encontraram justo
ela vá com calma. "Buscai o S e n h o r quando anoitecia, portanto será noite
enquanto se pode achar" (Is 55:6). neste mundo quando Cristo retornar
Não podemos deixar de admi­ para sua noiva.
rar a decisão dela: "Irei". Esse ato A fé de Rebeca foi recompen­
de fé ("A quem, não havendo vis­ sada. Registrou-se o nome dela na
to, amais" [1 Pe 1:8]) mudou a vida Palavra de Deus; ela compartilhou o
dela. Ela mudou de serva para noi­ amor e a riqueza de Isaque e tornou-
va, abandonou a solidão do mun­ se uma parte importante do plano
do para a felicidade do amor e do de Deus. Ela seria uma mulher des­
companheirismo, deixou a pobreza conhecida se tivesse se recusado a
dela para a riqueza de Isaque. Ela ir. "Aquele [...] que faz a vontade de
viu toda a riqueza de Isaque? É cla­ Deus permanece eternamente" (1 Jo
ro que não! Isso seria impossível! 2:17).
Génesis 2 5 - 2 7 B. Uma casa frustrada (vv. 12-23)
O cumprimento da promessa da
Isaque era filho de um pai famoso aliança de Deus exigia que Rebe-
(Abraão) e pai de um filho famoso ca e Isaque tivessem um filho, con­
(Jacó), e, às vezes, as pessoas o "per­ tudo ela foi estéril nos primeiros
dem" quando estudam Génesis. Ao vinte anos do casamento deles (vv.
mesmo tempo que viveu mais que 20,26). E encantador ver como ma­
qualquer outro patriarca, sua vida rido e mulher, com mente espiritual,
foi menos empolgante. Infelizmen­ levaram seu fardo ao Senhor. Com
te, ele não parece ser tão forte em certeza, lembraram Deus de suas
sua fé no fim de sua vida quanto o promessas, e o Senhor, certamente,
foi no início dela. agradou-se com as orações deles.
A batalha com o filho não nascido
desorientou Rebeca, portanto ela
pediu sabedoria a Deus (Tg 1:5).
I. Isaque, o pai (25) Deus disse-lhe que nasceriam duas
nações e, ao contrário do costume,
A. Uma casa ilustre (vv. 1-11) a mais velha serviria à mais nova.
O casamento de Abraão após a Essa é uma evidência clara da
morte de Sara deu-lhe mais seis eleição soberana de Deus (Rm 9:10-
filhos e, pelo menos, sete netos e 16). A escolha dele não se funda­
três bisnetos. Entretanto, observe menta nas obras dos meninos, pois
que esses outros filhos de Abraão estes ainda não haviam nascido e,
não têm o mesmo status de Isaque, portanto, não tinham feito bem nem
pois ele (como Cristo) é o herdeiro mal. Esaú, no que se refere ao ca-
de todas as coisas (Hb 1:2). A morte ráter, era o mais aceitável dos dois
de Abraão mostra o que a fé pode — contudo, Jacó era o escolhido de
fazer por um homem. Ele morreu Deus (Ef 2:8-10).
em paz (veja 15:15); morreu "dito­
so" (satisfeito), e morreu em fé (Hb C^Uma casa dividida (vv. 24-34)
11:13ss). Essa foi a herança que Os gémeos eram o oposto um do
Abraão deixou para seu filho: seu outro em aparência e temperamen­
exemplo piedoso (18:19), a tenda to. O primeiro menino era cabeludo
e o altar (veja 26:25) e a promes­ e chamava-se "Esaú" (Peludo); mais
sa maravilhosa de Deus (26:2-5). tarde, sua ligação com o ensopado
Essas bênçãos espirituais represen­ vermelho rendeu-lhe o apelido de
tam muito mais para um filho que "Edom", que significa "vermelho"
os bens materiais. (v. 30). O fato de Jacó ter nasci­
Génesis 25-27 63

do segurando o calcanhar de Esaú terrompeu a jornada e parou-o. A


(como para apanhá-lo e derrubá-lo) natureza humana não melhora de
rendeu-lhe o nome de "Jacó" — o geração para geração. Isaque vivia
"apertador de calcanhar" (suplanta- em Gerar, que ficava na fronteira
dor, maquinador, enganador). Jacó (10:19). Da mesma forma, temos
era um homem quieto que ficou em muitas "fronteiras cristãs" hoje. Lá,
casa; Esaú era um homem do mun­ Isaque tinha bênçãos materiais,
do, cheio de vigor e aventureiro. mas não as espirituais, que Deus
Infelizmente, Esaú não apreciava o lhe deu depois, quando ele deixou
espírito. Ele preferia alimentar seu aquele local.
corpo a usufruir das promessas de
Deus. É claro, o esquema de Jacó B. Ele repetiu o pecado do pai
para conseguir o direito de nasci­ (vv. 6-11)
mento mostrou que ele duvidava do Veja 12:10-20 e 20:1-5. Isaque e Re­
cumprimento da promessa de Deus beca adotaram essa "meia-verdade"
em 25:23. "Fé é viver sem esque­ de que eram irmão e irmã com o
mas!" Esaú, apesar de seus privilé­ mesmo resultado triste — perda da
gios espirituais como primogénito bênção, perda do testemunho e re­
(veja Dt 21:17 e 1 Cr 5:1-2), esco­ provação pública por um rei pagão.
lheu a carne, não o Espírito. Não
lemos nunca a respeito de Esaú ter C. Ele cava de novo os poços do pai
uma tenda ou um altar, e 26:34- (vv. 12-22)
35 indica que ele ama as mulheres Os poços de água falam dos recur­
mundanas. Hebreus 12:16 descreve sos divinos de Deus para a vida es­
Esaú como "profano", o que signifi­ piritual Oo 4:1-14). Abraão cavou
ca "do mundo, comum" (em latim, esses poços, mas o inimigo roubou-
profanus — "fora do templo"). Esaú, os e bloqueou-os. Como isso é ver­
como muitas pessoas de hoje, era dade hoje! O mundo tirou de nós
um sucesso no mundo e um fracas­ os poços espirituais em que nossos
so com Deus. pais bebiam. Precisamos voltar aos
poços antigos (como a oração, a Bí­
II. Isaque, o peregrino (26) blia, o altar familiar, a igreja). Isaque
não apenas abriu-os de novo, mas
A. Ele enfrenta as tentações de chamou-os pelos mesmos nomes
seu pai (vv. 1-5) que Abraão chamava (v. 18). De­
Reveja 12:10ss, quando Isaque pois, ele cavou alguns poços novos
iniciou viagem em direção ao Egi- para satisfazer as necessidades do
to, mas Deus, em sua graça, in­ dia.
64 Génesis 25-27

D. Ele confiou no Deus de seu ela planejou e tramou o recebimen­


pai (vv. 23-35) to da herança a fim de certificar-se
Isaque, contanto que estivesse longe de que Esaú seria deixado de lado.
de Canaã, teria conflito, mas quan­ Ela, em vez de ir a Deus em oração
do voltou para Berseba ("o poço como fizera anos antes, confiou em
do juramento"), Deus encontrou-se seus próprios planos, prática que
com ele e reconciliou "com eles os caracterizaria Jacó em anos poste­
seus inimigos" (Pv 16:7). riores. Rebeca pagou caro por seu
pecado: ela nunca mais viu seu fi­
III. Isaque, o abençoador (27) lho (veja vv. 43-45). Esaú agiu de­
E triste dizer que esse capítulo, no liberadamente para magoá-la, e o
que diz respeito ao aspecto espiritu­ mau exemplo que deu a Jacó custou
al, descreve toda a família de forma a ele vinte anos de provações.
ruim. Em 25:28, vimos a divisão da A
casa, e agora veremos os resultados ' Cj O filho enganador
pecaminosos dessa divisão carnal. 'tLertamente, Jacó conhecia os pla­
nos de Deus para sua vida, contu­
A. O pai decadente do ele ouviu sua mãe, em vez de
Deus. Como os dois apressaram-se
Nesse ponto, Isaque tinha cerca de para finalizar o plano! "Aquele que
137 anos, contudo agia como se fos­ crer não foge" (Is 28:16). Rebeca era
se morrer logo. Na verdade, ele viveu uma boa cozinheira para conseguir
180 anos (35:28). A impaciência dele fazer com que carne de bode tives­
em abençoar Esaú sugere que seguia se sabor de carne de caça. Jacó é
seus planos carnais, não a vontade o retrato perfeito do hipócrita: sua
de Deus. Ele esquecera a palavra de voz e mãos não concordam (o que
25:23, ou tentava mudar os planos de ele diz é diferente do que faz), e ele
Deus? Observe como agora ele de­ engana os outros. Apenas no ver­
pende de seus sentidos (tato, paladar, sículo 19, Jacó conta três mentiras
olfato). Note também que alimentar o para o pai: "Sou Esaú" (ele era Jacó);
corpo tem prioridade a fazer a vonta­ "Fiz" (a mãe fizera tudo); "come da
de de Deus. Isaque, certa vez, deita- minha caça" (era carne de bode). E,
ra-se no altar e desejara morrer pelo no versículo 27, o beijo que deu no
Senhor. Que mudança! pai era igualmente enganador. Jacó
pagou por esse pecado? Sim, muitas
B. A mãe duvidosa vezes. Labão enganou-o em relação
Deus contou a Rebeca que Jacó re­ a suas esposas e, continuamente,
ceberia a bênção de Deus, contudo mudava seu salário. Em acréscimo
Génesis 25-27 65

a isso, um dia, os próprios filhos de planejar matar o irmão e, delibera­


Jacó matariam um cabrito (37:31) damente, magoou os pais ao incitar
e poriam seu sangue no casaco de problemas por meio de seu casa­
José para enganar o pai. "Sabei que mento com mulheres pagãs. A gra­
o vosso pecado vos há de achar" ça de Deus não falhara, mas Esaú
(Nm 32:23). abandonou a graça de Deus.
O pecado em família sempre
D. O irmão desesperado traz sofrimento e mal-entendido. Se
Hebreus 12:17 indica que Esaú pro­ Isaque e Rebeca não "tomassem par­
curou bênção com lágrimas, con­ tido" em relação a seus dois filhos;
tudo não encontrou lugar para ar­ se continuassem a orar a respeito
rependimento verdadeiro por seus dos assuntos como faziam no início
pecados. Remorso, sim, mas não do casamento; se eles permitissem
arrependimento sincero. Ele arre- que Deus fizesse as coisas da sua
pendia-se pelo que perdera, mas maneira, os acontecimentos teriam
não pelo que fizera. No versícu­ sido diferentes. Da forma como as
lo 33, Isaque estremeceu quando coisas foram feitas, todos eles so­
percebeu que Deus rejeitara seus freram por causa da incredulidade
planos. As lágrimas de Esaú não e da desobediência. Nunca estamos
podiam mudar a mente de Isaque velhos demais para ser tentados —
ou a bênção. Esaú vingou-se ao ou para fracassar!
G é n e s is 2 8 do pai! Contudo, Jacó não podia
contar com a fé de seu pai. Ele pre­
cisava encontrar Deus e tomar algu­
mas decisões por si mesmo. Infeliz­
mente, Jacó pagou caro por sua in­
credulidade e rebelião e levou mais
de 20 anos para chegar ao ponto
de se entregar verdadeiramente! Os
versículos 6-9 ilustram o conflito da
I. A ventura (28:1-9) carne e do Espírito. Esaú (a carne)
Com correção, podemos dizer que desobedeceu deliberadamente ao
o resto de Génesis apresenta a vida Senhor e trouxe sofrimentos maiores
de Jacó, mesmo suas provações com para a família. Observe que Jacó não
Labão (28—31), com Esaú (32—33) era um jovem quando iniciou essa
e com seus filhos (34ss). Na verda­ aventura. Ele tinha, no mínimo, 77
de, a história de José faz parte da anos. Génesis 47:9 afirma que Jacó
história de Jacó. tinha 130 anos quando foi para o
O verdadeiro motivo por que Egito. José tinha 17 anos quando foi
Rebeca engendrou a partida de Jacó vendido no Egito, e 30 anos quan­
foi para evitar a ira de Esaú (27:41 - do foi apresentado ao faraó (41:46).
46), mas sua desculpa para isso foi Assim, some os 13 anos em que José
que queria que Jacó encontrasse foi servo aos 7 anos de abundância
uma esposa piedosa (veja 24:1-9). e aos 2 anos de escassez e verá que
As esposas mundanas de Esaú cau­ José tinha cerca de 39 anos quando
savam problemas na casa, como Jacó foi para o Egito. Isso significa
sempre acontece quando o povo que Jacó tinha 91 anos quando José
de Deus casa em desacordo com a nasceu, e Génesis 30:25 relata que
vontade de Deus. Na verdade, Re­ Jacó já cumprira os 14 anos de ser­
beca planejava fazer com que Jacó viço por suas esposas quando José
voltasse quando fosse o momento nasceu. Isso indica que Jacó tinha
certo (27:45), mas esse plano não cerca de 77 anos quando começou
deu certo. Jacó nunca mais viu sua a caminhar "por si mesmo".
mãe de novo. Mais uma vez, "fé é
viver sem esquemas". Todos preci­ II. A visão (28:10-12)
samos prestar atenção a essa adver­ Jacó viajou cerca de 116 quilómetros
tência de Tiago 4:13-17. de Berseba a Betei, jornada de três
É maravilhoso quando o filho dias. Naquela noite, ele recostou-se
pode deixar a casa com a bênção em "uma das pedras" para dormir,
Génesis 28 67

e Deus deu-lhe uma visão de uma salvam a pessoa, mas a fé na Palavra


escada que ia do céu à terra. No de Deus. Observe a promessa que
Novo Testamento, a passagem de Deus fez a Jacó:
João 1:43-51 é a explicação desse
versículo. A escada simboliza Jesus A. A terra (v. 13)
Cristo. Jacó é o retrato perfeito da Primeiro, ele fez essa promessa a
alma perdida — na escuridão, em Abraão (13:14ss) e reafirmou-a a
fuga para proteger sua vida, longe da Jacó (26:1-5). A terra santa pertence
casa do pai, oprimido pelo pecado e aos judeus, embora eles não possuam
desconhecedor do fato de que Deus toda ela. Um dia, Israel possuirá "as
está próximo dele e quer salvá-lo. suas herdades" (Ob 17).
A escada retrata Cristo como o úni­
co caminho da terra para o céu. Ele B. A semente se multiplicaria
abre o céu para nós e traz bênçãos (v: 14)
celestiais para nossa vida. E apenas Isso assegurou a Jacó que Deus lhe
ele pode levar-nos para o céu. Jacó daria uma esposa; de outra forma,
pensava que estava solitário em um ele não poderia ter descendentes
deserto e deu-se conta de que estava (veja também 13:16 e 22:1 7). Hoje,
no próprio portão do céu! Ainda em há judeus em todos os pontos da
relação a João 1:43-51, observamos terra.
que Jacó era um israelita cheio de
fraude (logro), enquanto Natanael C. A presença pessoal de Deus
era um israelita sem fraude. (v. 15)
Essa é a primeira de pelo menos Esse versículo sugere que Jacó pe­
sete revelações de Deus para Jacó rambularia, mas Deus prometeu es­
(veja 31:3,11-13; 32:1-2; 32:24-30; tar com ele. Por quê? Porque Deus
35:1,9-13; 46:1-4). Os anjos na es­ tinha um plano para a vida de Jacó
cada são uma indicação do cuidado e, assim, cuidaria para que seu pla­
e da atenção de Deus. Eles apare­ no se cumprisse (Fp 1:6; Rm 8:28-
cem de novo a fim de proteger Jacó, 29). Embora Jacó, nos difíceis anos
quando ele está para enfrentar Esaú que tinha à frente, tivesse de colher
(32:1-2). as consequências de seus pecados,
Deus ainda estava com ele para pro-
111. A voz (28:13-15) tegê-Io e abençoá-lo.
As visões, quando separadas da Pala­
vra de Deus, podem ser enganosas; IV. O voto (28:16-22)
assim, Deus falou a fim de inspirar- Jacó exclama: "É a Casa de Deus",
lhe confiança. Anjos ou visões não pois "Betei" significa "casa de
68 Génesis 28

Deus". A experiência que teve na­ paz para casa (Gn 35:27-29) e dizi­
quela noite não apenas mudou-o, mou (v. 22). Ele percebeu que sua
mas também mudou o nome do lo­ consagração a Deus queria dizer
cal em que dormiu. Jacó, para co­ que seus bens materiais também
memorar o acontecimento, erigiu estavam subordinados ao controle
uma coluna e transformou-a em de Deus. Abraão praticara o dízimo
altar, despejando uma oferenda lí­ (14:20), e, em ambos os casos, a lei
quida ao Senhor. Anos mais tarde, ainda não fora dada. Os que dizem
Jacó, quando voltou a Betei, repe­ que o dízimo não é para essa era
tiu esse ato de consagração (35:9- de graça esquecem o fato de que
15). Esse ato de fé (embora causa­ os santos primitivos praticavam o
do pelo temor), era a forma de Jacó dízimo. Isso era a expressão da fé e
oferecer-se a Deus. (Veja Fp 2:17, da obediência deles ao Senhor que
em que "oferecer" é literalmente os guiava, os protegia e provia para
"libação".) É algo maravilhoso o eles.
fato de um crente, por meio da fé, Nos anos seguintes, Jacó nem
transformar um "travesseiro" em sempre cumpriu esse voto. Ele "en­
uma "coluna"! controu seu parceiro" em Labão,
Sugerem-se duas interpreta­ um homem de esquemas! Por vin­
ções para o voto de Jacó: (1) que te anos, os dois tentaram passar a
ele faz um acordo com Deus ao di­ perna um no outro, mas, no fim,
zer: "Se..."; (2) que ele demonstra Jacó disciplinou-se, e Deus mante­
fé em Deus, já que se pode traduzir ve suas promessas. E bom que nós,
a palavra hebraica por: "Já que...". os crentes, tenhamos um "Betei"
Na verdade, esse é o primeiro voto em nossa vida, um local em que
registrado na Bíblia. É provável que encontramos Deus de forma séria
ambas as interpretações sejam ver­ e em que assumimos alguns com­
dadeiras: Jacó acreditava na Palavra promissos definitivos com ele. Se
de Deus, mas ainda havia muito nos afastarmos do Senhor, sempre
do "antigo homem" nele para que poderemos voltar "a Betei" (Gn
tentasse negociar com Deus, como 35:9-15) para renovar nossa entre­
fizera com Esaú e Isaque. Ele esta­ ga. Jacó retrata o conflito das duas
va tão acostumado a "fazer esque­ naturezas, pois ele sempre estava
mas" que tentou planejar a forma em luta com a carne e tentava de­
de receber a bênção de Deus! No pender de suas habilidades e pla­
fim, expôs-se isso e Jaboque lidou nos. Que bom saber que Deus zela
com isso (Gn 32). Jacó retornou em por seus filhos teimosos!
G é n e s is 2 9 - 3 1 amor, o tempo passa depressa. Ob­
serve que no versículo 15 vemos o
Jacó, do topo da montanha espiri­ primeiro "resultado" do disciplina-
tual de Betei (cap. 28), desceu para mento de Jacó: ele torna-se um ser­
a vida diária de Harã, e aí "encontra vo. Em 25:23, havia a promessa de
seu parceiro" em esquemas, Labão, que "o mais velho servirá ao mais
seu tio. Jacó passa cerca de vinte moço", mas agora o mais jovem era
anos com Labão. Durante esse pe­ servo.
ríodo, ele colhe os tristes resultados
de seus pecados, mas, ao mesmo B. Engano (29:21-30)
tempo, Deus disciplina-o e prepara-o Aqui temos a segunda fração de
para o serviço futuro. "disciplinamento" — o próprio en­
ganador é enganado. Labão não
I. O serviço de Jacó para as queria perder as chances de casar
filhas de Labão (29:1—30:24) sua filha mais velha; assim, obrigou
Jacó a casar-se com ela. Jacó mentira
A. Decisão (29:1-20) a respeito da primogenitura (27:19);
Providencialmente, Deus guia Jacó agora, mentiam para ele a respeito
à casa de Labão, mas observe que da primogenitura (29:26). "O cami­
Jacó não pára para orar, como o ser­ nho dos pérfidos é intransitável" (Pv
vo de Abraão o fez quando estava 13:15). Ele cumpriu a semana de
em sua importante missão (24:12). celebração de casamento com Lia,
Jacó encoraja os outros pastores a depois casou-se com Raquel e ini­
voltarem para o local onde o reba­ ciou seu segundo período de servi­
nho pastava (v. 7), porque queria ço por mais sete anos. Labão teve o
saudar Raquel em particular. Ele cuidado de fazer com que todos os
ainda era o homem de esquemas. homens da região testemunhassem
Observe como Raquel e Labão cor­ o casamento com Lia (v. 22). Jacó,
rem quando descobrem quem é Jacó após consumar o casamento, não
(vv. 12-13). Jacó fez sua escolha: ele podia voltar atrás. Não há dúvida de
queria a bonita Raquel para esposa. que ele percebeu que Deus o disci­
Raquel significa "ovelha", enquan­ plinava para seu próprio plano.
to Lia significa "vaca selvagem". Os
olhos de Lia não tinham a cintilação C. Divisão (2 9 :3 1 -3 0 :2 4 )
profunda que, na cultura do Oriente Em geral, há divisão e infelicidade
Médio, é um sinal de beleza. Jacó na família quando um casamento
concordou em servir Labão por sete se inicia com pecado. Primeiro, ne­
anos, e, como sempre, onde há nhuma das duas mulheres podia ter
70 Génesis 29-31

filhos, mas era óbvio que Jacó ama­ usou Labão e as circunstâncias difí­
va mais Raquel e desprezava (v. 31) ceis da vida para disciplinar Jacó e
Lia. Portanto, Deus honrou Lia dan­ prepará-lo para as tarefas que tinha
do-lhe quatro filhos: Rúben ("Ve­ à frente.
jam, um filho!"), Simeão ("ouvinte"),
Levi ("união") e Judá "("louvor"). II. O esquema de Jacó para o
Essa foi a resposta às orações de Lia rebanho de Labão (30:25-43)
(veja 29:33 e 30:6,17,22). Raquel Jacó serviu por quatorze anos e per­
não podia evitar sentir inveja de sua cebeu que devia seguir seu rumo e
irmã, e essa inveja criou raiva e de­ prover para sua grande família. Ele
sacordo entre ela e Jacó. Ele, em vez pediu que Labão o mandasse em­
de perder a calma, deveria ter orado bora, entretanto o esperto sírio não
a respeito do problema, como seus queria perder um genro tão valioso.
pais fizeram anos antes (25:19-23). Jacó trabalhara quatorze anos por
Jacó adotou uma solução humana, suas duas esposa; agora, ele pode­
casou-se com Bila, que lhe deu Dã ria trabalhar pelo gado que preci­
("juízo") e Naftali ("luta"). A se­ saria para se estabelecer por conta
guir, Lia deu-lhe Zilpa, e teve Gade própria. É claro, Labão encobriu
("afortunado") e Aser ("boa fortu­ o motivo maldoso de seu plano ao
na"). É óbvio que Jacó não tinha usar o nome do Senhor (v. 27) e ao
uma casa espiritual: suas esposas pedir que Jacó escolhesse os termos
não se entendiam e o usavam como do negócio. "Fixa o teu salário, que
pivô em seus planos (30:14-16). Ra­ te pagarei." Labão quis dar-lhe um
quel tinha até interesse em ídolos presente, mas Jacó o recusou, pois
(31:19). Lemos que não há altar na a última vez em que recebera um
casa dele, e não é difícil perceber o "presente" de Labão fora enganado
triste resultado disso. Lia teve mais (29:19). Jacó ofereceu-se para traba­
dois filhos: Issacar ("recompensa") lhar como pastor de Labão, se este
e Zebulom ("habitação"); e Raquel lhe desse os animais "rejeitados" dos
teve José ("o Senhor acrescenta"), rebanhos e das manadas. As ovelhas
o amado de Jacó. Mais tarde, ela orientais são brancas, e os bodes,
deu à luz Benjamim ("filho da mão marrons ou pretos. Aparentemente,
direita") e depois morreu (35:16- Jacó, ao aceitar os animais listrados,
20). Jacó também teve muitas filhas manchados e salpicados, dava a me­
(30:21; 37:35; 46:7,15). lhor parte a Labão. Com certeza, isso
Esse relato abrange quatorze foi um ato de fé da parte de Jacó.
anos da vida de Jacó — anos de la­ No entanto, o homem de es­
buta, de provação e de teste. Deus quemas estava em obra. Jacó, em
Génesis 29-31 71

vez de confiar em Deus para pro­ B.A perseguição (vv. 17-35)


ver às suas necessidades (veja 31:9 Jacó, em vez de confiar em Deus para
e 28:15,20), usou seus planos pes­ protegê-lo, saiu às escondidas, com
soais. Provavelmente, o bordão es­ pressa, enquanto Labão pastoreava
pecial e as varetas na gamela não as ovelhas. Os crentes dão um pobre
influenciam o tipo de ovelha que testemunho quando decidem agir às
nasce, pois Deus é quem determina escondidas. Jacó já tinha três dias de
que tipo de ovelha e de bode deve jornada à frente de Labão (30:36),
nascer. Entretanto, Jacó utilizou a portanto eles não se encontraram por
"procriação seletiva" (vv. 40-43) uma semana. Deus advertiu Labão
para que apenas o gado mais forte antes mesmo que ficasse face a face
concebesse. Em 31:7-8, vemos que com Jacó, portanto não havia motivo
Labão mudou diversas vezes os ter­ para Jacó ter medo (v. 31; veja tam­
mos do contrato quando viu que o bém Pv 16:7). Labão tentou mostrar
rebanho de Jacó aumentava, mas com seu semblante que estava ofen­
Deus prevaleceu sobre Labão e tor­ dido, embora provavelmente estives­
nou Jacó um homem rico. se feliz em livrar-se do homem que
lhe passava a perna e enriquecia à sua
III. A fuga de Jacó da casa de custa. No versículo 30, surge a preo­
Labão (31) cupação verdadeira dele — alguém
roubara seus ídolos! O pecado escon­
A. A conferência (vv. 1-16) dido levou a mais pecado quando Ra­
Três fatores fizeram com que Jacó quel, a ladra, mentiu para o pai e para
decidisse partir: a mudança de atitu­ o marido, enquanto o raivoso Labão
de de Labão; a necessidade de esta- examinava tudo na caravana.
belecer sua própria casa; e, acima de
tTúcIõ, a orientaçãodireta do Senhor. C. O conflito (vv. 36-42)
Deus lembrou a Jacó seu voto fei­ Agora, revelam-se os vinte anos de
to em Belém. Agora, o pagão devia raiva reprimida, e Jacó "deu o troco
voltar e cumprir as promessas que de imediato" a seu sogro. Labão era
fizera ao Senhor, que o abençoara. idólatra, e Jacó pagão — como po­
Raquel e Lia concordaram em ir, mas deria haver qualquer acordo entre
a decisão delas fundamentou-se em eles? A única coisa redentora na fala
razões materiais, não na vontade do raivosa de Jacó foi dar a Deus a gló­
Senhor. Perguntamo-nos se as espo­ ria por seu sucesso (v. 42).
sas, até esse momento, sabiam algu­
ma coisa a respeito da experiência D. A aliança (vv. 43-55)
de Jacó em Betei. A chamada "Bênção de Mispa" que
72 Génesis 29^31

encontramos em muitos hinários de testemunho".) Realmente, é mui­


não é de todo escriturai. Esses dois to triste quando os membros de uma
homens não confiam um no outro, família não confiam uns nos outros.
portanto instalaram uma coluna Seria muito melhor se tivessem per­
para lembrá-los que Deus os vigia­ doado um ao outro e entregue todas
va. Essas pedras, em vez de teste­ as questões a Deus. O versículo 52
munharem a amizade deles (como indica que a coluna que Labão le­
afirma a "Bênção de Mispa"), tes­ vantou também era uma fronteira
temunharam a desconfiança mútua além da qual Jacó não ousava ir.
deles. Observe que, no versículo 47, Acabaram-se os vinte anos de
os dois homens nem falam a mesma servidão de Jacó, porém ele precisa­
língua! (Os dois nomes significam va voltar a Betei e acertar as coisas
"monte de testemunhas" ou "monte com Deus.
G én esis 3 2 - 3 6 começou a confiar em si mesmo e
em seus esquemas de novo! Ele ten­
Esses capítulos registram várias ex­ tou apaziguar Esaú com presentes.
periências cruciais na vida de Jacó Ele dividiu sua companhia em dois
quando este fez sua jornada da bandos (v. 7) e ignorou a proteção
casa de Labão para Betei. Eles nos do exército de anjos. Assim, depois
dão três retratos vívidos desse ho­ de dar esses passos em confiança
mem que ilustram o conflito entre carnal, ele pediu a ajuda de Deus!
a carne e o espírito, a antiga vida Ele esquecera a forma como Deus o
e a nova. protegera de Labão (31:24)?

I. Jacó, o lutador (32) B. Ele encontra o Senhor (vv. 21-26)


Esaú estava vindo, e Jacó estava Coisas boas começam a aconte­
para encontrar-se com seu passado cer quando estamos sozinhos com
esquecido. Esaú o perdoaria ou lu­ Deus. Cristo veio para lutar com
taria com ele? Jacó perderia tudo o Jacó, e o combate durou a noite in­
que conseguira por meio de estrata­ teira. Tenha em mente que Jacó não
gemas? É trágico quando o passado lutava para conseguir a bênção de
alcança o pecador. A geografia não Deus; antes, ele defendia a si mesmo
podia apagar o passado de Jacó, e recusava-se a capitular. O Senhor
nem vinte anos de história poderiam queria quebrar Jacó e levá-lo para a
mudar isso. Contudo, Jacó teve três atitude em que poderia dizer hones­
outros encontros antes de se encon­ tamente: "Já não sou eu quem vive,
trar com Esaú: mas Cristo" (Gl 2:20). Durante toda
a noite, Jacó defendeu-se e recusou
A. Ele encontra os anjos de render-se ou mesmo admitir que pe­
Deus (vv. 1-20) cara. Assim, Deus enfraqueceu Jacó,
Primeiro, ele havia visto esses anjos e o lutador pôde apenas agarrar-se a
em Betei (cap. 28), e eles deviam ele! Agora, ele, em vez de armar es­
lembrá-lo que Deus, estava no con­ quemas para obter a bênção ou de
trole. Ele deu o nome de "Maanaim" negociar a bênção, pediu a bênção
(seu próprio campo e o campo ou a Deus — e recebeu-a.
exército dos anjos), mas fracassou
em confiar em Deus, que, anos an­ C. Ele encontra a si mesmo
tes, prometera protegê-lo. Os crentes (vv. 27-32)
de hoje afirmam Hebreus 1:14 e Sal­ Nós não nos vemos verdadeira­
mos 91:11-13 quando caminham na mente até que tenhamos visto o Se­
vontade de Deus. Infelizmente, Jacó nhor. "Qual é o teu nome?" (v. 27),
74 Génesis 32-36

essa pergunta forçou Jacó a con­ cipe com Deus encolhe-se diante
fessar seu verdadeiro eu — "Jacó, de um homem do mundo! É me­
o usurpador". Ele podia mudar, lhor mancar pela fé que reveren­
uma vez que encarara a si mes­ ciar pela autoconfiança.
mo e confessara seu pecado. Deus
deu-lhe um novo nome — "Israel, B. O poder (33:1-2,8-11)
príncipe com Deus" ou "homem Mais uma vez, Jacó fazia esquemas,
governado por Deus". A forma de negociava com o inimigo. Deus não
ter poder com Deus é ser quebrado lhe assegurou seu poder? Deus não
por Deus. Deus também lhe deu prometera auxiliá-lo?
um novo início e um novo poder
quando ele começou a caminhar C. O testemunho (33:12-17)
no Espírito, e não na carne. O novo Jacó mentiu para Esaú a respeito dos
caminhar de Jacó, pois agora ele rebanhos e viajou para a direção
mancava, ilustra isso. Deus que- oposta. Os dois não se encontra­
brou-o, mas seu manquejar era um ram mais até o sepultamento do pai
sinal de poder, não de fraqueza. O (35:29). Sem dúvida, Esaú, nesse en­
versículo 31 indica o alvorecer do contro, perguntou a Jacó o que lhe
novo dia, quando o sol se levanta, acontecera depois que ele partira.
e Jacó manca ao encontro de Esaú
— com a ajuda de Deus! D. A tenda (33:17)
Jacó construiu uma casa e estabele­
II. Jacó, o apóstata (33— 34) ceu-se em Sucote.
Seria maravilhoso se Jacó tivesse vi­
vido para seu novo nome e sua nova E. A visão (33:19)
posição com Deus, mas ele não fez Ele mudou-se de novo e montou sua
isso. O capítulo inicia-se com "Jacó", tenda próximo à cidade de Siquém,
o nome antigo, não "Israel", o novo da mesma forma que Ló (13:12). Ele
nome, e o vemos levantar os olhos perdeu a visão da cidade de Deus
— caminhar pela visão, não pela fé. (Hb 11:12.-16).
Veja o que Jacó perdeu por não afir­
mar seus privilégios espirituais: F. A filha (34)
Jacó, como Ló, pôs sua família em
A. O manquejar (33:3) um local de tentação, e sua filha,
Ele inclina-se diante de Esaú, em quando examinava a cidade, foi
vez de caminhar (mancar) e en­ violada. É triste dizer que os filhos
cará-lo de homem para homem. de Jacó eram mentirosos como o
Sempre é trágico quando um prín­ pai. Na verdade, eles usavam o rito
Génesis 32-36 75

sagrado da circuncisão para realizar Jacó retornou a Betei e cons­


seus esquemas pecaminosos. Os truiu um altar. Deus encontrou-o
versículos 30-31 sugerem que Jacó, de uma maneira nova e lembrou-o
de forma egoísta, estava mais preo­ de seu novo nome, Israel. O Senhor
cupado com a própria segurança e reafirmou as promessas que fez a
bem-estar que com os pecados de Abraão e a Isaque, e Jacó, como
sua família. fizera anos antes, respondeu levan­
Quando tudo isso se iniciou? tando uma nova coluna e ungindo-a.
Quando Jacó fracassou em viver Um crente apóstata não precisa de
para sua nova posição com Deus. uma nova experiência para se acer­
Por que os cristãos do Novo Testa­ tar com Deus. Ele precisa apenas
mento hoje fazem esquemas, e pe­ reafirmar a antiga experiência de
cam, e fracassam? Porque fracassa­ uma forma nova.
ram em viver na posição celestial É estranho Raquel morrer logo
deles em Cristo (Ef 4:1 ss). depois de Jacó restaurar a comu­
nhão com Deus. As grandes expe­
III. Jacó, o viajante (35— 36) riências espirituais não são ^uma
Nesses capítulos, observe com garantia contra os sofrimentos e as
que frequência Jacó faz "jornadas" provações da vida. E, certamente,
(35:5,16,21). Deus chamara-o para Jaco, agora que reconstruíra seu al­
voltar a Betei (v. 1), ao local da vi­ tar, era mais capaz de suportar esse
são e do voto. Quando a pessoa sofrimento. Ele, por ter encontrado
se torna apóstata (como Jacó), não Deus no altar, recebeu de volta tudo
há nada mais a fazer além de re­ o que perdera antes.
tornar ao local em que se entre­ Na família do crente dedicado
gou e renovar os votos. Entretanto, não há apenas esses sofrimentos,
Jacó tinha de "limpar a casa" an­ mas também há pecados (v. 22).„Rú-
tes que pudesse levar sua compa­ ben nasceu em m e io a _grande_ex­
nhia de volta ao altar — tinha de pectativa (29:32), e Jacó, anos mais
queimar os bens estrangeiros e as tarde, disse que Rúben realizara
jóias associados à adoração pagã. muito (49:3). Contudo, Rúben era
O único lugar para o pecado é a impetuoso, não tinha caráter piedo­
sepultura. Na verdade, há quatro so (49:4) e, em consequência dis­
sepulturas nesse capítulo: a se- so, perdeu o direito de nascimento
puJjuj-ra-eki^ íd o lo s (v. 4), a sepul- que pertencia ao filho primogénito
tura de Débora (v. 8), a sepultura (1 Cr 5:1-2) e teve de dá-lo a Judá e
de Raquel (v. 19) e a sepulturajje a José. O pecado nunca traz bênção
Isaque (v. 29). e sempre custa caro.
76 Génesis 32-36

O ato final dessa jornada cou­ lo 36 conta a história de Esaú, pois


be a Jacó e a Esaú, o sepultamento Deus o fez uma nação poderosa.
do pai deles. Jacó planejava rever Infelizmente, durante séculos, os
a mãe, porém ela morreu antes edomitas foram inimigos do povo
de ele chegar em casa. O capítu­ de Deus
G énesis 3 7 - 4 0 sonho tem um cenário terreno, en­
quanto o segundo tem um cenário
Agora, iniciamos o estudo de uma celestial J sso é uma sugestão aos fi­
das biografias mais empolgantes da lhos terrenos de Abraão (os judeus)
Bíblia, a de José e seus irmãos. A e a sua semente celestial (a igreja).
história toda retrata a soberania de Um dia, os irmãos de José se curva­
Deus e o cuidado providencial de riam diante dele! Veja também 42:6;
Deus para com os seus. Embora José 43:26 e 44:14.
tenha seus defeitos, ele ainda se so­
bressai como um gigante espiritual C. O esquema de Judá (vv. 12-28)
em sua própria família. Não sabemos qual foi o primeiro ir­
mão de José que sugeriu suprimi-lo.
I. José, o filho favorito (37) Provavelmente, foi Simeão que se
ressentiu com a intrusão de José nos
A. O amor de Jacó (vv. 1-4) direitos de primogenitura (que, por
É fácil perceber por que Jacó favo­ fim, seria tirado de Rúben, 49:3-4).
recia José em sua velhice, já que O capítulo 34 informou-nos que Si­
Raquel era a esposa preferida dele, meão era astuto e cruel, e José, em
"êloséfoi o primogênitodela (30:22- 42:24, é mais áspero com Simeão.
T4). Seguramente,'èssêTTpÕ' de par­ De qualquer forma, os irmãos vol­
cialidade em uma família traz pro­ taram à região de Siquém (onde se
blema. José, aos 17 anos, ajudava meteram em problema, cap. 34) e
com os rebanhos, mas Jacó logo o planejaram matar José. Deve-se cre­
'liberõújdessa tarefa e o tornou um ditar a Rúben a tentativa de poupar
vigia ao dar-lhe uma "túnica talar". a vida de José, embora ele tenha
Tãco^queria tornar José administra­ usado um método errado para reali­
dor antes que ele aprendesse a ser zar uma obra nobre. Deus dominou
seryõ! O resultado disso — os ir­ o ódio dos homens, e losé foi ven-
mãos de José odiavam-no (v. 4) _e dido como escravo, em vez de ser
tinham inveja dele (v. 11). assassinã3õ~a sangueJrioZ_

B. Os sonhos de José (vv. 5-11) D. O sofrimento de Jacó (vv. 29-36)


Não há dúvida de que esses sonhos Anos antesjacó sacrificaraJim .ca­
de José vinham de Deus, e, com brito para enganar seu pai (27:9ss);
certeza, a segurança de que um dia agorã7 seus filhos o enganavam da
ele governaria ajudou-o a manter-se mesma 'Tõrma. Nós colhemos o
fiel durante os muitos anos de teste que plantamos. Jacó sofreu durante
no Egito. Observe que o primeiro os vinte anos seguintes pensando
78 Génesis 37-40

que José estava morto. Ele pensou 5:5-6) e a importância de obedecer


que tudo trabalhava contra ele (Gn às ordens.
42:36) quando, na verdade, tudo Como José era fiel nas peque­
trabalhava a favor dele (Rm 8:28). nas coisas, Deus elevou-o a coisas
Deus mandara )osé na frente para maiores. Veja Provérbios 23:29 e
preparar o caminho para a preser­ 12:24.
vação de Israel como nação.
B. A disciplina do
II. José, o mordomo fiel (38-39) autocontrole (39:7-18)
O capítulo 38 apresenta um retrato A mãe de José era uma mulher bo­
sórdido de Judá rendendo-se às Iu- nita, e, sem dúvida, ele herdou os
xúrias da carne. É um contraste to­ traços dela (29:17). As egípcias
tal com a pureza de José (39:7-13). eram conhecidas pela infidelidade,
Judá queria vender seu irmão como mas José não cedeu. Deus testava
escravo, contudo ele mesmo era José, pois se José não pudesse se
"escravo do pecado" (Jo 8:34). Ain­ controlar como servo não poderia
da assim, "onde abundou o pecado, ■controlar os outros quando fosse
superabundou a graça" (Rm 5.20), governante. Ele poderia argumen­
pois vemos a inclusão de Tamar na tar: "Ninguém saberá!", ou: "Todos
linhagem de Cristo (Mt 1:3). Obser­ fazem isso!". Contudo, em vez dis­
ve que Judá é mais severo com os so, ele vivia para agradar a Deus, e
outros que consigo mesmo (v. 24). isso foi fundamental para não dar
Ele, como Davi, queria que o "peca­ espaço à carne (Rm 13:14). Paulo
dor" fosse julgado — até descobrir admoestou: "Foge, outrossim, das
que ele mesmo era pecador! paixões da mocidade" (2 Tm 2:22),
Jacó tentou proteger José das e José fez exatamente isso. Como o
responsabilidades do trabalho, mas pregador puritano disse, José per­
Deus sabia que José não podia ser deu sua túnica, mas conservou seu
governante antes de ser servo (Mt caráter. Muitas pessoas fracassaram
25:21). Deus usou três lições na vida nessa lição, e Deus teve de encos-
de José a fim de prepará-lo para ser tá-las, pondo-as na prateleira (1 Co
o segundo governante do Egito: 9:24-27; Pv 16:32; 25:28).

A. A lição de serviço (39:1-6) C. A disciplina do


José trocou a "túnica talar" por uma sofrimento (39:19-23)
vestimenta de servo, e Deus forçou-o José não só era apenas capaz de
a aprender a trabalhar. Dessa for­ controlar seus apetites, mas tam­
ma, ele aprendeu a humildade (1 Pe bém de controlar sua língua, pois
Génesis 37-40 79

ele não argumentou com os oficiais o padeiro-chefe do faraó. Não se es­


nem expôs a mentira que a esposa clarecem quais foram seus crimes,
de Potifar espalhara a respeito dele. talvez uma coisa menor que desa-
O controle da língua é um sinal de grádou o faraó. Entretanto, sabemos
maturidade espiritual (Tg 3). É pro­ que Deus fez com que fossem pre­
vável que Potifar fosse o capitão dos sos por causa do plano que o Se­
guardas incumbidos dos prisionei­ nhor tinha para José. Trataram José
ros; ele até podia ser o chefe de exe­ com injustiça, mas ele sabia que um
cução. De qualquer modo, ele viu dia Deus cumpriria sua Palavra.
que José fora posto na prisão do rei Observe a humildade de José
(v. 20), e, mais uma vez, a fidelidade quando interpreta os dois sonhos (v.
e a devoção de José renderam-lhe 8). Ele dá toda a glória ao Senhor:
o favor dos oficiais. "O S e n h o r era "Humilhai-vos, portanto, sob a po­
com José", essa era a chave para o derosa mão de Deus, para que ele,
sucesso dele (39:2,5,21). José sofreu em tempo oportuno, vos exalte"
como prisioneiro por pelo menos (1 Pe5:6)>
dois anos, provavelmente por mais Os dois prisioneiros estavam
tempo. Salmos 105:17-20 explica em correntes por alguma coisa que
que esse sofrimento pôs "ferros" em fizeram, enquanto José era inocente.
sua alma. Isso ajudou a transformá- A interpretação que fez dos sonhos
lo em um homem. As pessoas que tornou-se realidade: o mordomo foi
evitam o sofrimento têm dificulda­ reintegrado, e o padeiro, enforcado.
de em desenvolver o caráter. Com Contudo, deixaram José na prisão!
certeza, José aprendeu perseveran­ Talvez nos perguntemos por que
ça com seu sofrimento (Tg 1:1-5), outros vivenciam as bênçãos de que
como também a ter fé mais profunda precisamos tanto; contudo, Deus
na Palavra de Deus (Hb 6:12). Esse tem seu plano e seu tempo.
sofrimento não era agradável, mas Entretanto, no versículo 14, o
necessário, e, um dia, transformou- pedido de José revela uma ponta de
se em glória. desencorajamento e de descrença.
José inclinava-se em direção aos bra­
III. José, o servo esquecido (40) ços da carne? Se esse for o caso, o
Agora, José era um servo na prisão braçq da carne desapontou-o, pois o
real (41:12). Ele fazia fielmente seu mordomo esqueceu completamente
trabalho e esperava pelo dia em que de José pelos dois anos seguintes.
seus sonhos proféticos se tornassem Essa foi uma boa lição para José nun­
realidade. Um dia, trouxeram dois ca confiar nos homens. Em última
novos prisioneiros — o mordomo e instância, Deus usaria a má memória
80 Génesis 37-40

do mordomo para libertar José, mas Cristo. José era um filho amado que
ainda não chegara o momento certo foi odiado e rejeitado pelos irmãos.
para isso. O mordomo esquecera-se Eles o venderam como escravo e,
de José, mas Deus não o esquecera! um dia, encontraram-no como rei
José tinha 17 anos quando foi deles. Ele teve de sofrer antes de al­
para o Egito e 30 anos quando saiu cançar sua glória. Ele venceu a ten­
da prisão (41:46). Isso quer dizer que tação e, no entanto, foi preso e tra­
ele gastou treze anos como servo e tado com injustiça. Era um servo fiel
como prisioneiro, anos de discipli­ que ministrava aos outros. Por fim,
na e de treino, anos de preparação elevaram-no ao trono, e ele foi res­
para seu ministério de toda a vida, ponsável pela salvação das nações.
como segundo governante do Egi­ Os irmãos dele, na primeira vez que
to. Deus, se nos entregamos a ele, o viram, não o reconheceram, mas
prepara-nos para o que já planejou ele se revelou a eles na segunda
para nós. vez que vieram ao Egito. O mesmo
De muitas maneiras, José é um aconteceria com Israel: eles não
retrato de nosso Senhor Jesus Cristo, reconheceram Cristo quando veio
embora em nenhuma passagem do pela primeira vez, mas eles o verão
Novo Testamento ele seja especifi­ quando vier de novo e se curvarão
camente chamado como um tipo de diante dele.
G énesis 4 1 - 4 5 do seus irmãos de carne o rejeitam.
"Manassés" significa "esquecer",
Esta seção registra a ascensão de José e isso sugere que Jo sé esquecerá
de prisioneiro a segundo governante suas provações passadas por cau­
da terra. Deram-lhe um novo nome sa de sua nova posição em Deus;
— Zafenate-Ranéia, "o revelador de e "Efraim" significa "duplamente
segredos" (41:45). frutífero", sugerindo que, por fim,
Observe os três segredos que todas as suas provações levaram à
José desvendou: fecundidade e à bênção. José, como
a semente do trigo, "morreu", para
I. O mistério dos sonhos que ele não ficasse só (Jo 12:23-26).
do faraó (41) Deus manteve sua Palavra a José,
José esperava que o mordomo se e as predições de José tornaram-se
lembrasse dele e intercedesse a seu realidade. A Palavra do Senhor per­
favor (40:13-15), mas o homem não manece quando a sabedoria do ho­
se lembrou de José até o dia em que mem fracassa (41:8).
o faraó ficou perturbado, porque não Entretanto, tudo isso era parte
conseguia decifrar o significado de de um plano maior, um plano para
um sonho estranho que tivera. Os preservar Israel e preparar o nasci­
caminhos de Deus são insondáveis, mento de Cristo.
mas o momento de Deus agir nun­
ca é muito prematuro nem muito II. Os mistérios do coração de seus
tardio. Observe a humildade de José irmãos (42—44)
quando fica diante do monarca mais O plano foi posto em movimento,
poderoso da terra: "Não está isso em pois Jacó soube que havia cereais
mim; mas Deus dará resposta favorá­ no Egito e envia seus filhos a fim de
vel a Faraó" (v. 16). Ele explicou o so­ garantir mantimentos para eles. Re­
nho: haveria sete anos de abundân­ flita a respeito das duas visitas deles
cia seguidos de sete anos de penúria. ao Egito.
Depois, ele deu um conselho sábio:
designe um homem sábio para ad­ A. A primeira visita (v. 42)
ministrar o suprimento de alimento. Dez dos filhos de Jacó desceram ao
Deus direcionou o faraó para que de­ Egito, e José reconheceu-os, embo­
signasse José. Assim, ele foi elevado ra eles não o reconhecessem. Com
ao trono! Veja também 1 Pedro 5:6. certeza, em vinte anos a aparência
O casamento de José com uma dele mudara, e sua fala e vestimen­
gentia é um símbolo do casamento ta egípcias levaram-nos a acreditar
de Jesus com a igreja nesta era quan­ que ele fosse um nativo. Observe
82 Génesis 41-45

que os dez homens prostraram-se versículo 36 indica que Jacó sabia o


diante dele (42:6), mas os sonhos de que fizeram com José anos antes.
José previam que onze se curvariam
diante dele (37:9-10). Isso explica B. A segunda visita (caps. 43 —44)
a razão pela qual José sabia que os Deus deixou a família de Jacó fa­
homens voltariam com seu irmão minta de novo, e esses homens,
Benjamim. como o filho pródigo de Lucas 15,
Por que José foi tão duro com tinham de voltar ao Egito ou morrer
seus irmãos? E por que ele esperou de fome. Vemos aqui outra indica­
tanto tempo para revelar-se a eles? ção da mudança do coração deles:
Porque queria certificar-se de que a disposição de Judá de assegurar a
estavam arrependidos de seus peca­ volta do jovem Benjamim e de as­
dos. Perdoar pessoas que não estão sumir a responsabilidade por ele;
sinceramente arrependidas torna- a disposição deles em devolver o
as ainda piores pecadoras (veja Lc dinheiro; e a confissão da verdade
17:3-4). Como José lidou com seus ao servo de José (43:19-22). No en­
irmãos? Ele falou de forma ríspida tanto, eles também cometem alguns
com eles e acusou-os de serem espi­ erros — levar um presente para José
ões (vv. 7-14); aprisionou-os duran­ e confessar seus pecados ao mordo­
te três dias (v. 17); depois, manteve mo, em vez de ao próprio José. Nes­
Simeão como refém e algemou-o se episódio, não podemos deixar de
diante dos olhos dos outros irmãos ver a forma como Deus lida com os
(vv. 18-24). Seu ato culminante foi pecadores perdidos. Deus controla
devolver o dinheiro deles (vv. 25- as circunstâncias para trazer o peca­
28). Esse tratamento áspero obteve o dor à consciência de si mesmo e ao
resultado almejado, pois os homens fim de suas forças. Contudo, é triste
confessaram: "Somos culpados"! admitir que muitos pecadores com­
Veja os versículos 21-23. Essa afir­ provados tentam ganhar a salvação
mação mostrou a José que o coração oferecendo presentes, ou confessan­
deles estava se suavizando. Quan­ do a um servo humano, ou fazendo
do voltaram para casa, o relatório algum grande sacrifício (como Judá
que fizeram a Jacó e a descoberta fez, ao oferecer a própria vida como
do dinheiro nos sacos apenas com­ garantia por Benjamim). A única
plicaram o problema deles. O que forma de José perdoar os pecados
fariam? Se ficassem em casa, seriam deles seria por meio da confissão e
ladrões, mas, se voltassem ao Egito, do arrependimento honestos deles.
correriam risco se levassem Benja­ José usou dois artifícios para
mim com eles. Perguntamo-nos se o levá-los ao ponto de confessarem:
Génesis 41-45 83

o banquete de alegria (43:26-34 — de culpa, os sacrifícios que fizeram


observe que nos versículos 26 e 28 ou os presentes que deram. Foi o
todos os onze homens prostram-se perdão gracioso de José que lhes
diante de José) e a descoberta do trouxe salvação, o perdão adquiri­
copo de prata no saco de Benja­ do com seu próprio sofrimento em
mim. Em 44:14, os onze homens favor deles. Que retrato de Jesus
prostram-se diante de José em con­ Cristo!
trição verdadeira. Eles confessam:
"Achou Deus a iniquidade de teus III. O mistério do propósito
servos" (44:16). Não podemos dei­ de Deus (45)
xar de admirar a fala de Judá em Chegou o momento de José revelar
44:18-34, não apenas pela humil­ a si mesmo e o propósito de Deus
dade de sua confissão, mas também ao enviá-lo. Atos7:13 deixa claro
pelo amor que demonstra pelo pai que "na segunda vez" ele revelou-
e pelo irmão mais jovem. Ele queria se, assim como foi na segunda vez
assegurar que levaria a culpa, em­ que Israel aceitou Moisés depois de
bora isso pudesse custar-lhe a vida. ter rejeitado sua liderança quarenta
Aqui, temos uma bonita lição anos antes (At 7:35). Esse é o tema
espiritual. Judá pensa que, na verda­ da fala de Estêvão registrada em
de, José estava morto (44:20) e, por Atos 7. O povo escolhido de Israel
isso, ele mesmo era culpado de as­ sempre rejeitou seus salvadores na
sassinato. Ele não percebia que José primeira vez e recebeu-os na segun­
estava vivo — e era o salvador dele! da vez; eles farão a mesma coisa
O pecador perdido põe-se diante da com Jesus Cristo.
corte de julgamento de Deus e con­ A revelação de José deixou seus
fessa sua culpa, pensando que sua irmãos aterrorizados, pois espera­
confissão certamente acarretaria cas­ vam que os julgasse por seus peca­
tigo. Contudo, Jesus Cristo está vivo, dos passados. Contudo, ele vira o
e, por ele estar vivo, pode salvar total arrependimento deles, pois eles se
e plenamente. Cristo não espera que prostraram diante dele, e ele sabia
sejamos fiadores de nossos pecados que podia perdoá-los. Ele explicou-
ou dos pecados dos outros, pois ele lhes que haveria mais cinco anos
mesmo é nossa garantia diante de de penúria, mas que preparara um
Deus (Hb 7:22). Contanto que Cristo refúgio para eles e suas famílias no
viva, Deus não pode nos condenar Egito. Deus o enviara antes para sal­
nunca. E ele viverá para sempre! var a vida deles.
O que trouxe salvação para os Ele prometeu sustentá-los (v.
irmãos de José não foi a confissão 11) e protegê-los. Ele "chorou sobre
84 Génesis 41-45

eles", beijou-os e enviou presentes mudança que houve nos discípu­


para seu pai a fim de assegurá-lo los quando descobriram que Cris­
das riquezas que havia no Egito. to estava vivo! Antes, Jacó dissera:
Ele convidou: "Vinde para mim" "Todas estas coisas me sobrevêm"
(45:18). Que mudança aconteceu (42:36), mas agora ele podia di­
em Jacó quando soube que José es­ zer: "Todas as coisas operam para
tava vivo — não muito diferente da o bem!".
G én esis 4 6 - 5 0 dos em 1 Crónicas 7:14ss. Observe
que agora Judá é o confiável, pois
Esses capítulos cobrem os últimos Jacó o manda à frente, como líder.
dias de Jacó. Nós o vemos desem­ Nesse meio tempo, José preparava
penhando vários atos pela última o caminho com o faraó, achava um
vez. É um sério lembrete de que, local para eles viverem e uma ocu­
um dia, todos enfrentaremos o fim. pação para eles enquanto estives­
sem no Egito. Já que o Egito é um
retrato do sistema de mundo atual,
I. A última jornada de Jacó (46-47) não é de surpreender que o pasto­
Jacó, pela fé, deixou Hebrom e reio seja uma abominação para o
iniciou sua viagem para o Egito, e povo não-salvo. Nosso Senhor é
Deus honrou sua fé ao revelar-se ^ojlomj^astor, e o mundo não tem
de novo e renovar suas promessas nada que ver com ele!
(46:2-4). Sem dúvida, Jacó lembra­ Jacó encontrou-se com o faraó,
va que Abraão pecara em sua via­ testemunhou a bondade de Deus
gem para o Egito (12:10ss), e que durante sua longa vida e, depois,
Isaque fora proibido de ir para lá abençoou-o. A única bêncão deste
(26:2), portanto a Palavra de Deus mundo veio de Deus por intermédio
tranquilizou-o. O Egito poderia, de seu põvõTTsrãel (lo 4:22).
em vez de ser um lugar de derrota, Os versículos 13ss descrevem
ser um lugar de bênção, pois a na­ a forma como José administrava os
ção cresceria apesar do sofrimento. assuntos do Egito, dando-nos uma
Toda a família foi com Jacó: os trin­ imagem de dedicação: o povo deu-
ta e três descendentes de Lia (vv. lhe seu dinheiro, suas terras, suas
8-15); os dezesseis descendentes posses e seus corpos (Rm 12:1-2).
de Zilpa (vv. 16-18), os quatorze Devemos nos dar todos a Cristo que
descendentes de Raquel (vv. 19-22) nos salvou e cuida de nós diaria­
e os sete descendentes de Bi la (vv. mente.
23-25). Na verdade, sessenta e seis
Ressoas viajaram com lacó e. quan- II. A última bênção de Jacó (48)
do acrescentamos Jacó, José e os Jacó passa os últimos 17 de seus 147
dõTiTfíThos deste (v. 27), chegamos anos de vida com José no Egito; as­
a um total de 70 pessoas. Veja Êxo­ sim, ele teve seu filho predileto du­
do 1:5. Atos 7:14 diz que haviam rante os primeiros 17 anos da vida
75 pessoas na família, mas esse de José e, agora, nos últimos 17 anos
número deve incluir os cinco filhos de sua vida. O patriarca idoso, sa­
de Manassés e de Efraim, enumera­ bendo que estava para morrer, cha­
86 Génesis 46-50

ma José até sua cama (47:31) para e veja Jo 4:5). Isso era um símbolo
que pudesse abençoar os dois filhos da herança toda que receberiam.
deste. Veja Hebreus 11:21. Os dois
meninos estavam, pelo menos, no III. A última mensagem de Jacó (49)
início de seus 20 anos (veja 41:50 Esse é um capítulo difícil, e não
e 47:28). Jacó afirmou os meninos podemos entrar em todos os deta­
como seus descendentes, equipa- lhes. Jacó, nessa última mensagem
rando-os em posição com seu pri­ aos filhos, revela o caráter deles e
mogénito, Rúben, e com Simeão. prediz a história deles. Rúben era
(Em 49:5-7, veremos que Simeão e o primogénito e deveria herdar po­
Levi formam tribos separadas, por­ der e glória; contudo, por causa de
tanto Efraim e Manassés tomam o seu pecado perdeu as bênçãos do
lugar deles.) Como José sabia que nascimento (Gn 35:22; 1 Cr 5:1-2).
Manassés era o primogénito, ele o Simeão e Levi eram filhos de Lia,
pôs à direita de Jacó, e Efraim, à es­ e ambos eram cruéis e determina­
querda. Jacó, porém, cruzou os bra­ dos, como vimos no assassinato dos
ços e deu a bênção de primogenitu- homens de Siquém (Gn 34). Mais
ra a Efraim. Isso desagradou a José, tarde, a tribo de Judá absorve os
mas Jacó fora guiado por Deus, pois descendentes de Simeão Os 19:1),
o Senhor daria a bênção mais exce­ e Levi torna-se a tribo sacerdotal
lente a Efraim. Esse é outro exemplo (que graça!), e eles não recebem
do princípio divino de pôr de lado o herança. Quando comparamos Nú­
primeiro para estabelecer o segun­ meros 1:23 (59.300) com Núme­
do (Hb 10:9). Já vimos isso antes em ros 26:14 (22.200), vemos o declí­
relação a Sete e Caim, a Isaque e Is­ nio numérico de Simeão.
mael e a Jacó e Esaú. O fato de Jacó Identifica-se Judá com o leão, a
cruzar as mãos, apresenta a cruz na fera real; pois o legislador (Cristo) e
descrição desse fato. Deus crucifica também os reis justos de Israel viriam
a antiga natureza por intermédio da de Judá. Jesus é o Leão da tribo de
cruz e, agora, põe de lado o natural Judá (Ap 5:5). O versículo 10 prediz
para estabelecer o espiritual. Deus, que Siló (Cristo, "o Doador de des­
quando você nasce de novo, rear- canso") não viria até que Judá per­
ranja a "ordem de seu nascimento" desse seu governo, e, com certeza,
espiritual. isso era verdade quando Jesus nas­
Jacó também abençoa José em ceu. Os versículos 11-12 prometem
nome do Deus que o "pastoreou" grande bênção material para Judá.
durante todos esses anos e dá a José Zebulom se estenderia do mar da
um pedaço especial de terra (v. 22, Galiléia até o mar Mediterrâneo, por
Génesis 46-50 87

isso sua ligação com navios. Retrata- dade pessoal, pois algumas tribos
se Issacar como um servo humilde perderam as bênçãos por causa dos
paia os ouVíos, desejoso àe suportai pecaàc& àe tanàaâcm. }osé
os fardos deles para que possam des­ foi o que mais sofreu no início de
frutar de descanso, em vez de resistir sua vjda^ontudp foi o que recebeu
e ter liberdade. Liga-se Dã à serpente a maior bênção.
e à fraude. Não é de surpreender que
Dã foi quem iniciou a idolatria em IV. O último pedido de jacó (50)
J srael. Gade significa "afortunado" Em 49:29-33, o homem idoso pede
(30:11) e é ligado à guerra. Conecta- para ser enterrado com sua família
se Aser às riquezas, especialmente na caverna de Macpela. Abraão,
do tipo que agradariam a um rei. Sara, Isaque, Rebeca e Lia já es­
Compara-se Naftali a uma bonita ga­ tavam na caverna, portanto Jacó
zela solta e promete-se que ele sa­ seria o sexto corpo. Quando Jacó
berá como usar a palavra de forma morreu, seus filhos o prantearam e
poderosa; em Juizes 4—5 (veja 4:6), deram-lhe um sepultamento hon­
vemos a vitória e a música de Bara- roso. Aparentemente, a terra in­
que e de Débora. teira pranteou-o setenta dias, e os
A bênção de José é a mais longa. embalsamadores, durante quarenta
Ele é um ramo frutífero que foi ata­ dias desse período, prepararam o
cado pelos irmãos, mas venceu no corpo dele. Esse é o primeiro caso,
fim. Jacó dá uma variedade de bên­ na Bíblia, de um corpo embalsa­
çãos materiais e espirituais a José e mado e de um funeral elaborado.
assegura-lhe a vitória final por meio Por que Jacó (e José depois dele,
do Deus de Israel. José é "separado 50:24-26) queria ser enterrado em
de entre os seus irmãos" (fim do v. Canaã? Deus dera essa terra a ele,
26, NVI). Compara-se Benjamim a ele não pertencia ao mundo (Egi­
um lobo que pega a presa e, depois, to). Talvez também tenhamos uma
à tarde deleita-se com o despojo. CX lição espiritual aqui: não apenas
rei Saul veio dessa Jxibo--e_^ra_um o espírito do crente vai para o céu
congLTistãd õ rfSaulo deJarso. que quando ele morre, mas o corpo
se tornou o apóstolo Paulo, também também será tirado deste mundo
descende de-Reajamim. na ressurreição.
E difícil extrair todos os deta­ Infelizmente, os irmãos de José
lhes dessa profecia incrível. A his­ não acreditaram quando, anos an­
tória mostra que as palavras de Jacó tes, ele dissera que os perdoara! Na
tornaram-se realidade. Certamente, verdade, a descrença e o medo de­
aqui há uma lição de responsabili­ les fizeram José chorar. Eles são um
88 Génesis 46-50

retrato dos cristãos fracos de hoje ele lhes deu perdão total por meio
que não aceitam a Palavra de Deus da graça.
e, em consequência disso, vivem Génesis inicia com um jardim
em medo e em dúvida. "Não te­ e termina com um caixão. Que co­
mas", essa é a Palavra de Jesus para mentário a respeito do pecado neste
nós, assim como foi a palavra de mundo! Contudo, a Bíblia termina
José para seus irmãos. Eles, em sua com a descrição de uma bonita "ci-
cegueira, quiseram trabalhar para dade-jardim" (Ap 21—22), a casa
obter o perdão dele ("Eis-nos aqui de todos que põem sua confiança
por teus servos", [v. 18]), contudo em Jesus Cristo.
Ex o d o

Esboço
I. Redenção — o poder de Deus (1— 17)
A. A escravidão do pecado (1— 4)
B. A obstinação do faraó (5— 11)
C .A salvação de Deus (12— 1 7)
1. Páscoa — Cristo, o Cordeiro do sacrifício (12— 13)
2. A travessia do mar — ressurreição (14— 15)
3. Maná — Cristo, o pão da vida (16)
4. A rocha ferida — o Espírito (1 7:1-7)
5. Amaleque — carne versus Espírito (1 7:8-16)

II. Justiça — a santidade de Deus (18— 24)


A. A preparação da nação (18— 19)
B. A revelação da lei (20— 23)
1. Os mandamentos (de Deus) (20)
2. Os julgamentos (dos homens) (21— 23)
C .A confirmação da aliança (24)

III. Restauração — a graça de Deus (25— 40)


A. A descrição do tabernáculo (25— 31)
B. A necessidade do tabernáculo — os pecados de Israel (32—34)
C .A construção do tabernáculo (35— 40)
N o t a s in t r o d u t ó r ia s mou a autoria mosaica do livro (Jo
7:19; 5:46-47).

III. Propósito
I. Nome Génesis é o livro dos inícios. Êxodo
Em grego, exodus significa "o ca­ é o livro da redenção. Ele registra a
minho de partida". (Veja Hb 11:22; libertação de Israel do Egito e apre­
"saída" [NTLH].) Esse livro descre­ senta os fatos históricos básicos a
ve a escravidão de Israel no Egi­ respeito da origem da nação hebréia
to e a maravilhosa libertação (ou e suas cerimónias religiosas. Esses
"caminho de partida") que Deus relatos também são retratos de Cristo
lhes deu. Em Êxodo, uma das pa- e da redenção que ele comprou na
lavras-chave é "redenção", já que cruz. Em Êxodo, há muitos exemplos
"redimir" significa "libertar". O li­ e símbolos de Cristo e do crente, es­
vro apresenta muitas imagens de pecialmente nas guarnições e nas
nossa salvação por intermédio de cerimónias do tabernáculo. Êxodo
Cristo. O Novo Testamento usa a também registra a entrega da Lei.
palavra exodus em duas ocasiões: Seria impossível entender muitas
Lucas 9:31 ("partida"), em que o doutrinas do Novo Testamento sem a
tema é a obra redentora de Cris­ compreensão dos acontecimentos e
to na cruz; e em 2 Pedro 1:1 5, em dos símbolos relatados em Êxodo.
que "partida" significa a "morte"
de um crente. Em outras palavras, IV. Tipos
na Bíblia há três experiências de Em Êxodo, há muitos tipos básicos:
êxodo — a libertação de Israel do (1) o Egito é um tipo do sistema do
Egito, a libertação do pecador fei­ mundo que se opõe ao povo de
ta por Cristo na cruz e a liberta­ Deus e tenta mantê-lo em escravi­
ção do crente da escravidão deste dão. (2) O faraó é um modelo de
mundo na morte. Satanás, "o deus deste século", pois
ele exige adoração, desafia Deus e
II. Autor quer escravizar o povo de Deus. (3)
Não há razão para duvidar de que Israel é um modelo da igreja — li­
Moisés escreveu esse livro. A unida­ bertada da escravidão do mundo,
de do livro (veja o esboço) sugere levada em jornada de peregrinação
que houve apenas um autor, e os e protegida por Deus. (4) Moisés é
relatos de testemunhos oculares in­ um modelo de Cristo, o Profeta de
dicam que o autor estava presente Deus. (5) A travessia do mar Verme­
nesses acontecimentos. Cristo afir- lho é o retrato da ressuscitação que
Notas introdutórias 91

liberta o crente do mal presente nes­ Mt 11:29), fiel (Hb 3:12), obedien­
te mundo. (6) O jgianá retrata Crjs- te e poderoso em palavras e obras
to, o pão da vida Qo 6). (7) A rocha (At 7:22; Mc 6:2). Em sua história,
ferida é um tipo de Cristo ferido, Moisés era um filho no Egito e cor­
por meio da morte de quem nos é ria o risco de ser morto (Mt 2:14ss),
dado o Espírito Santo. (8) Amaleque mas Deus providencialmente cui­
é o retrato da carne, opondo-se ao dou dele. Ele escolheu sofrer corn
crente em jornada de peregrinação. os judeus a reinar no Egito (Hb 11:24-
Em Êxodo, o modelo-chave é a Pás­ 26; Tp 2:1-11). Da primeira vez,
coa, que retrata a morte de Cristo, o os irmãos de Moisés o rejeitaram,
uso de seu sangue para nossa salva­ mas, na segunda vez, o receberam,
ção e a apropriação da vida dele (o e ele, enquanto era rejeitado, ga­
cordeiro como alimento) para nosso nhou uma noiva gentia (um retrato
fortalecimento diário. de Cristo e da igreja). Moisés con­
denou o Egito, e Cristo condenou
V. Moisés e Cristo o mundo. Moisés libertou o povo
Poderíamos enumerar várias com­ de Deus por intermédio do sangue,
parações e o principal contraste da mesma forma que Cristo o fez
entre os dois, já que Moisés é um na cruz (Lc 9:31). Moisés guiou o
retrato maravilhoso de Jesus Cristo. povo, alimentou-o e carregou o far­
Em seus ofícios, Moisés foi profe- do dele. É claro que o contraste é
Ja (At 3:22), sacerdote (SI 99:6; Hb que Moisés não fez Israel entrar na
7:24); §£im(SI 105:26; Mt 12:18), terra prometida; Josué teve de fa­
.gastor (Êx 3:1; Jo 10:11-14), media^ zer isso. "Porque a_l£Íjoi dada por
dor (Ex 33:8-9; 1 Tm 2:5) e liberta­ intermédk)-da-Moisés; a graca-e-a-
dor (At 7:35; 1 Ts 1:10). Em~seu~cã- verdade vieram por meio de lesus
ráter, Moisés era manso (Nm 12:3; Cristo" (Jo 1:1 7).
Êxo d o 1 - 2 deles; portanto, eles decidiram agir
de forma vigorosa com os filhos de
Israel. Já que José foi o salvador do
Egito, seria improvável que um rei
egípcio não o conhecesse, mas esse
novo rei era estrangeiro. Claro que,
no entanto, a escravidão no Egito é
um retratcTcfã- escTãyíBãcTêsp irituaI
do pecadora este mundo. Os ju­
I. A perseguição ao povo de Deus (1) deus clescerãrfrão EgTícTè viveram
no melhor da terra (Gn 47:6), mas,
A. A nova geração (vv. 1-7) mais tarde, esse fausto transformou-
Em Génesis 15:13-16, profetiza-se se em provação e sofrimento. Assim
a escravidão de Israel no Egito. Já como é hoje a vereda do pecador
que Abraão tinha 100 anos quan­ perdido; o pecado também promete
do Isaque nasceu, a quarta gera­ prazer e liberdade, mas traz sofri­
ção equivalia a 400 anos. É claro, mento e escravidão.
as gerações são mais curtas hoje.
Deus também cumpriu a promessa C. A nova estratégia (vv. 15-22)
de multiplicar as pessoas (Gn 46:3), Não fosse pela intervenção de Deus,
e os 70 descendentes originais de o plano do rei de matar todos os be­
Jacó transformaram-se em mais de 1 bés do sexo masculino teria muito
milhão! Eles aumentaram, apesar da sucesso. Ele usou as parteiras para
perseguição e do sofrimento. Veja confundir o rei, da mesma forma
Atos 7:15-1 9. como depois usou o choro do bebê
para alcançar o coração da filha
B. O novo rei (vv. 8-14) do faraó. Deus usa as coisas fracas
Atos 7:1 8 diz que havia "outro rei de deste mundo para anular as podero­
um tipo diferente" (tradução literal sas. É claro, a estratégia do rei veio
do grego). Isto é, o novo rei era de de Satanás, o assassino. Portanto,
um povo diferente. A história conta- essa foi outra tentativa de Satanás
nos a respeito do período em que de destruir os judeus e de impedir
os invasores "hicsos" dominaram o o nascimento do Messias. Posterior­
Egito. Eles eram semitas, provavel­ mente, Satanás usaria o rei Herodes
mente da Assíria (Is 52:4). O novo para tentar assassinar o bebê Jesus.
rei advertiu seu povo (não os egíp­ Era certo as mulheres desafiarem as
cios) de que a presença de tantos ju­ ordens do rei? Sim, pois "antes, im­
deus era uma ameaça ao governante porta obedecer a Deus do que aos
Êxodo 1-2 93

homens" (At 5:29). O crente, quan­ em misericórdia e dava tempo à pe­


do as leis da terra definitivamente caminosa nação de Canaã para se
são contrárias aos mandamentos de arrepender (Gn 15:16). Deus nun­
Deus, tem o direito e o dever de pôr ca tem pressa. Ele escolhera o líder
Deus em primeiro lugar. Ao mesmo dos hebreus e preparava-o para sua
tempo que Deus não aprova as des­ imensa tarefa. Observe os recursos
culpas dadas pelas parteiras ao faraó que Deus usou a fim de preparar
(embora as palavras delas pudessem Moisés:
ser verdadeiras), ele as abençoa por
sua fé. Lembre-se, esse mesmo go­ A. A casa piedosa (vv. 1-10)
vernante que queria suprimir o povo Leia Atos 7:20-28 e Hebreus 11:23.
de Deus viu seu exército ser esma­ Em Êxodo 6:20, aprendemos que os
gado no mar Vermelho (Êx 15:4-5). pais de Moisés são Anrão e Joquebe-
Colhemos o que plantamos, embora de. Foi um ato de grande fé e amor
a colheita possa demorar a chegar que se casassem em uma época de
(Ec 8:11). tanta dificuldade, e Deus recompen­
Nesse capítulo, também ve­ sou-os por isso. Eles, já que agiram
mos a tentativa de Satanás de es­ movidos pela fé (Hb 11:23), devem
cravizar o povo de Deus. O versí­ ter tido uma comunicação de Deus
culo 1 chama os judeus de "filhos a respeito do nascimento do filho,
de Israel", e IsraeTsignifica "lutou Moisés. Ele era uma "criança divina"
[como príncipe] com Deus" (Gn (bonita aos olhos de Deus), e eles,
32:28) — o príncipe do mundo por meio da fé, o deram a Deus.
(Satanás) desafia o príncipe com P s pais nunca sabem o que Deus
Deus! O povo de Deus não é deste vê em cada criança que nasce, e é
mundo e será libertado dã~êscravi- importante que eduquem osjjjhos
dão de Satanás! no temor do Senhor. Foi necessária
muita fé para pôr a criança no rio,
II. A preparação do profeta de Deus (2) o local exato em que matavam os
Parecia que Deus não estava fazen­ meninos! Observe como Deus usou
do nada. Os judeus oravam e cla­ as lágrimas de uma criança para to­
mavam por ajuda (2:23-25) e se per­ car a princesa e como arranjou as
guntavam onde estava a libertação coisas para que a própria mãe da
de Deus. Se eles se lembrassem das criança a criasse. Leia Jó 5:13.
palavras de Génesis 15, saberiam
que deveriam passar 400 anos. Du­ B. A educação especial (At 7:22)
rante esse tempo, Deus preparava Moisés, educado no palácio como
seu povo, mas ele também esperava filho adotivo da princesa, foi trei­
94 Êxodo 1-2

nado nas grandes escolas egípcias. migos sabiam que matara um ho­
Mesmo hoje, os estudiosos maravi- mem. (Nota: o texto de Atos 7:24
Iham-se com os ensinamentos egíp­ pode indicar que Moisés matou o
cios, e Moisés, sem dúvida, era um homem em legítima defesa, mas
dos melhores. Não há nada errado mesmo assim ele era um criminoso
com a instrução. Com certeza, Moi­ aos olhos dos egípcios.) Seu único
sés fez uso de seu treinamento. Mas recurso era fugir da terra.
não há substituto para a sabedoria Ao mesmo tempo que, justifica-
de Deus que vem por meio do so­ damente, podemos criticar Moisés
frimento, e da provação, e do cami­ por seus delitos, temos de admirar
nhar pessoal com Deus. sua coragem e convicção. Como o
dr. Vance Havner disse (em um co­
C. O grande fracasso mentário sobre Hb 11:24-26): "Moi­
(vv. 71-5; Hb 11:24-26) sés viu o invisível, escolheu o impe­
Moisés tinha 40 anos quando to­ recível e fez o impossível!". A fé tem
mou a grande decisão de deixar o suas recusas, e essas recusas trazem
palácio e ser o libertador de Israel. recompensas. Infelizmente, Moisés
Nós o admiramos pelo amor a seu era muito precipitado em suas ações,
povo e por sua coragem, mas te­ e Deus tinha de pô-lo de lado para
mos de reconhecer que ele, da um treino adicional. As armas de
maneira como agiu, adiantou-se nosso combate não são carnais, mas
ao Senhor. O versículo 12 indica espirituais (2 Co 10:3-6).
que ele caminhava pela visão, não
pela fé, pois "olhou de um e de ou­ D. A longa demora (vv. 16-25)
tro lado" antes de matar o egípcio A vida de Moisés divide-se em três
que batia em um hebreu. Moisés, períodos iguais: 40 anos como prín­
como Pedro no jardim de Getsê- cipe no Egito, 40 anos como pastor
mani, dependia da espada que ti­ em Midiã e 40 anos como líder de
nha nas mãos e da energia de seus Israel. No início desse segundo pe­
braços. Mais tarde, ele troca essa ríodo, Moisés ajudou as mulheres
espada por um bordão, e o poder que tentavam dar água aos reba­
vem das mãos de Deus, não mais nhos, e essa gentileza levou-o a co­
das dele (veja 6:1). Ele enterrou nhecer Jetro e a casar-se com a filha
o corpo, mas isso não quer dizer dele, Zípora. Observe que as moças
que o feito não fora visto. No dia identificaram Moisés como "um
seguinte, ele viu dois judeus lutan­ egípcio". Isso sugere que ele se pa­
do e tentou ajudá-los, apenas para recia mais com os egípcios que com
descobrir que os amigos e os ini­ os judeus. Moisés passou 40 anos
Êxodo 1-2 95

como servo fiel em Midiã, e aqui momento certo para agir. Sempre que
Deus preparava-o para as difíceis Deus trabalha, ele escolhe o trabalha­
tarefas que tinha à frente. A rejeição dor certo, usa o plano certo e age no
por sua nação e a esposa gentia são momento certo. Moisés cuidava de
um retrato de Cristo, que hoje toma umas poucas ovelhas e logo estaria
uma noiva das nações para si mes­ pastoreando uma nação inteira. Ele
mo. "Gérson" significa "estrangei­ trocaria o cajado de pastor pelo bor­
ro" e sugere que Moisés sabia que dão de poder e seria usado por Deus
seu iugar verdadeiro era ao lado do para ajudar a criar uma nação po­
povo de Israel, no Egito. derosa. Deus, porque ele era fiel ao
Rarecia que Deus não estava fazer seu humilde serviço de pastor,
fazendo nada, contudo ele ouvia os usou-o para realizar a tarefa maior, a
gemidos de seu povo e esperava o de libertador, legislador e líder.
Êx o d o 3 - 4 Moisés durante os muitos quilóme­
tros difíceis de deserto.
Alvorecia um novo dia, e tudo mu­
II. Deus chama Moisés (3:7-10)
daria para Moisés. Naquela manhã, "Vi [...], ouvi o seu clamor [...]. Co­
quando ele saiu com suas ovelhas,
nheço [...], desci." Que mensagem
não tinha idéia de que se encontraria
de graça! Com frequência, Moisés
com Deus. Vale a pena estar pronto, se perguntava a respeito da condi­
pois nunca sabemos o que Deus pla­
ção de seu povo amado e, agora,
neja para nós.
tomava conhecimento de que Deus
estivera zelando por eles todo o tem­
I. Deus aparece a Moisés (3:1-6) po. Podemos, facilmente, aplicar
A sarça ardente tem significado tri­ esses versículos à situação de quan­
plo. Primeiro, é um retrato de Deus do Cristo nasceu: era um tempo de
(Dt 33:16), pois revela sua glória e escravidão, provação e sofrimento,
poder, contudo não é consumida. contudo Deus desceu na Pessoa de
Moisés devia ser lembrado da gló­ seu Filho para libertar os homens do
ria e do poder de Deus, pois estava pecado. Deus tem um plano defini­
para assumir uma tarefa impossível. tivo para tirá-los e depois trazê-los à
Segundo, a sarça significa Israel terra prometida. Ele termina o que
atravessando o fogo da aflição, mas inicia.
não se consumindo. Com frequên­ Moisés regozijou-se quando
cia, as nações tentaram exterminar soube que Deus estava para libertar
os judeus, mas fracassaram! Por fim, Israel; contudo, depois, escutou a
a sarça retrata Moisés — um humil­ notícia de que ele era o libertador!
de pastor que com a ajuda de Deus "Eu te enviarei." Deus usa o homem
se tornaria um fogo que não pode para realizar sua obra na terra. Moi­
ser extinto! Note que Moisés estava sés teve 80 anos de preparação;
no local em que se inclinara diante agora, era hora de agir. Infelizmen­
de Deus e o adorara, cheio de admi­ te, Moisés não respondeu: "Eis-me
ração, pois esse é o verdadeiro iní­ aqui, envia-me" (Is 6:8).
cio do culto cristão. Deus pode usar
os servos que sabem tirar os sapatos III. Deus responde a Moisés
com humildade para caminhar em (3:11-4:17)
poder. Mais tarde, vemos que Deus, Moisés não concordou imediata­
antes de chamar Isaías, revelou-se mente com o plano de Deus de
em sua glória (Is 6). A lembrança da enviá-lo. Ele não era um fracasso?
sarça ardente deve ter encorajado Ele não tinha família? Ele não era
Êxodo 3-4 97

muito velho? Talvez esses e outros no qual encontramos as sete gran­


argumentos tenham passado por des afirmações "Eu sou" (6:35; 8:12;
sua mente, mas ele, quando argu­ 10:9 e 11; 11:25; 14:6; e 15:1-5). Se
mentou com Deus sobre a vontade Deus é "Eu sou", então ele sempre
do Senhor para a vida dele, deu voz é o mesmo, e seus propósitos serão
a pelo menos quatro objeções. cumpridos. Deus prometeu a Moi­
sés que ele libertaria seu povo, ape­
A. "Quem sou eu?" (3:11-12) sar da oposição do faraó.
Admiramos Moisés por sua humil­
dade, pois 40 anos antes ele poderia C. "Mas eis que não crerão" (4:1-9)
dizer a Deus quem ele era! Ele "foi Contudo, Deus acabara de dizer que
educado [...] e era poderoso em pa­ acreditariam nele (3:18), portanto essa
lavras e obras" (At 7:22). Contudo, afirmação não era nada além de total
; anos de comunhão e de disciplina descrença. Deus fez dois milagres para
no deserto tornaram Moisés humil­ Moisés — o bordão transformou-se em
de. A pessoa que age~pela carne é serpente, e a mão dele ficou leprosa.
impulsiva e não vê obstáculos, mas. Essas seriam suas credenciais diante do
a pessoa humilde que caminha no^ povo. Deus pega o que temos à mão e
Espirito sabe as^batalhas queTepou- usa isso, se apenas confiarmos nele. O
sãrn^nFêntéT^êus respondeu para bordão, por si mesmo, não seria nada,
afirmá-lo: "Eu serei contigo!". Essa mas nas mãos de Deus transformou-se
promessa sustentou-o por 40 anos, em poder. A própria mão de Moisés
como também aconteceu depois matara um homem, mas, no segundo
com Josué Qs 1:5). JNão é importante milagre, Deus mostrou a Moisés que
quem somos; o que importa é Deus pode curar a fraqueza da carne e usá-
estar conosco, pois sem ele não po- lo para sua glória. As mãos dele não
. demos fazer nada (Js 15:5}........... eram nada, mas nas mãos de Deus po­
diam fazer maravilhas! Depois, Deus
B. "Qual é o seu nome? Que lhes acrescentou um terceiro sinal — trans­
direi?" (3:13-22) formar a água em sangue. Esses sinais
Essa não era uma pergunta ambígua, convenceriam o povo de Deus (4:29-
pois os judeus quereriam a con­ 31), mas eram apenas imitados pelos
firmação de que o Senhor enviara egípcios ímpios (7:10-25).
Moisés nessa missão. Deus revelou
seu nome, Jeová — "Eu Sou O Q ue D. "Eu nunca fui eloquente" (4:10-17)
S o u ", ou: "Eu fui, eu sou, e eu sem­ Deus disse: "Eu Sou" — e tudo que
pre serei!". O Senhor Jesus utilizou Moisés dizia era: "Eu não sou!". Ele
esse nome no Evangelho de João, olhava para si mesmo e para suas
98 Êxodo 3-4

fraquezas, em vez de olhar para Apreciamos o fato de que Moisés


Deus e seu poder. Nesse caso, Moi­ cuidou de suas tarefas terrenas de
sés argumentou que não era elo­ forma fiel antes de partir, mas ele
quente. Contudo, o mesmo Deus não foi um testemunho muito bom
que fizera sua boca podia usá-la. para Jetro. Observe as garantias que
Deus não precisa de eloquência Deus deu a Moisés, quando ele ini­
nem de oratória: ele precisa ape- ciou sua nova vida de serviço:
nas de um vaso puro que possa se
encher corfTTua mensagem. No A. A Palavra do Senhor (vv. 19-23)
versículo 13, Mõíses“cTãrnãTT/Envia O povo que queria matar Moisés
aquele que hás de enviar, menos estava morto, e Deus queria que
a mim". Essa atitude de descrença Moisés confiasse nele e não tivesse
enraiveceu Deus, contudo ele de­ medo. Como Deus é paciente com
signou Arão para ser ajudante de os seus! Como suas promessas são
Moisés. Infelizmente, Arão, mais encorajadoras!
de uma vez, foi mais um obstáculo
que uma ajuda! Eje levou a nação B. A disciplina do Senhor (vv. 24-26)
à idolatria (32:15-28) e murmurou A circuncisão era uma parte im­
contra Moisjs (Nm 12). Era trági­ portante da fé judaica, contudo
c o que Moisés estivesse disposto Moisés deixou de trazer o próprio
a confiar em um homem fraco, de filho para a aliança (Gn 17). Deus
carne, em vez de no Deus vivo do teve de disciplinar Moisés (talvez,
céu. O versículo 14 ensina-nos que pela doença) para lembrá-lo de
Deus, quando move seu povo, tra­ sua obrigação. Como ele poderia
balha nas duas extremidades da li­ guiar Israel se fracassava em guiar
nha. Ele trouxe os dois irmãos para a própria família nas coisas espi­
ajudá-lo. rituais? Mais tarde, Moisés manda
sua família de volta para Midiã
IV. Deus afirma Moisés (4:18-31) (veja 18:2).
Moisés tem a Palavra de Deus, os
sinais milagrosos e o auxílio de seu C. A liderança do Senhor (vv. 27-28)
irmão, Arão, contudo esses versí­ Deus prometera que Arão viria (v.
culos deixam claro que ele ainda 14) e, agora, cumpria sua promes­
não estava pronto para caminhar sa. Ao mesmo tempo que Moisés e
pela fé. Ele não contou ao sogro a Arão tinham suas fraquezas e que
verdade a respeito de sua viagem cada um deles fracassou mais de
ao Egito, pois Deus lhe contara que uma vez com Deus, era uma grande
seus irmãos ainda estavam vivos. ajuda para Moisés ter o irmão a seu
Êxodo 3-4 99

lado. Eles encontraram-se no "mon­ beram Moisés e inclinaram a cabe­


te de Deus", local onde Moisés vira ça para Deus, depois o odiaram e
a sarça ardente (3:1). o criticaram por causa do aumento
de trabalho que tiveram (5:19-23).
D. A aceitação do povo (vv. 29-31) É sábio não pôr nossas esperanças
Isso também é o cumprimento da na reação das pessoas, pois, com
3 ._
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Ralavra de Deus (3:18). Infelizmen­ frequência, ‘as pessoas deixam de


te, esses mesmos judeus que rece­ cumprir seus compromissos.
Êx o d o 5 - 1 0 Infelizmente, o povo de Israel
procurou o faraó em busca de aju­
da, em vez de procurar o Senhor
que prometera libertá-lo (5:15-19).
Não é de admirar que os judeus não
fossem capazes de concordar com
Moisés (5:20-23) e o acusassem,
em vez de encorajá-lo. Os crentes
que não têm comunhão com Deus
I. A ordem trazem pesar para seus líderes, em
Sete vezes nesse capítulo, Deus diz vez de ajuda. Com certeza, Moisés
ao faraó: "Deixa ir o meu povo" estava desencorajado, mas ele fez o
(veja 5:1; 7:16; 8:1,20; 9:1,13; que sempre é melhor — levou seu
10:3). Essa ordem revela que Israel problema ao Senhor. No capítulo 6,
estava na escravidão, mas Deus Deus encorajou Moisés ao lem-
queria-o livre para servir-lhe. Essa é brá-lo de seu nome (6:1-3), de sua
a condição de todo pecador perdi­ aliança (6:4), de sua preocupação
do: escravização ao mundo, à car­ pessoal (6:5) e de suas promessas
ne e ao mal (Ef 2:1-3). fiéis (6:6-8). O "EU SOU" e "FAREI"
"Quem é o S e n h o r para que lhe de Deus são suficientes para derro­
ouça eu a voz e deixe ir a Israel", tar o inimigo! O propósito de Deus
foi a resposta do faraó à ordem de ao permitir que o faraó oprimisse
Deus (5:2). O mundo não respeita Israel era fazer com que o mundo
a Palavra de Deus, pois para ele conhecesse o poder e a glória do
são "palavras mentirosas" (5:9). Senhor (6:7; 7:5, 17; 8:10, 22; veja
Moisés e Arão apresentam a or­ Rm 9:17).
dem de Deus ao faraó, e o resulta­ Montou-se o cenário: o faraó
do foi mais escravidão para Israel! recusou a ordem de Deus, e, ago­
O pecador entrega-se à Palavra de ra, o Senhor mandaria seu julga­
Deus ou resiste a ela e endurece mento sobre o Egito. Ele cumpriria
(veja 3:18-22 e 4:21-23). Em um sua promessa de Génesis 12:3 de
sentido, Deus endureceu o co­ julgar as nações que perseguissem
ração do faraó ao apresentar-lhe os judeus. Ele revelaria seu poder
suas reivindicações, mas o pró­ (9:16), sua ira (SI 78:43-51) e sua
prio faraó endureceu o coração ao grandeza, mostrando que os deuses
resistir às reivindicações de Deus. do Egito eram falsos deuses, e que
O mesmo sol que derrete o gelo Jeová é o único Deus verdadeiro
endurece o barro. (12:12; Nm 33:4).
Êxodo 5-10 101

II. O conflito 10. Morte dos primogénitos, 11-


As dez pragas do Egito represen­ 12 (o julgamento final).
tam muitas coisas: (1) eram um si­
nal para Israel que lhe assegurava o Na verdade, as pragas eram
poder e o cuidado de Deus, 7:3; (2) uma declaração de guerra aos
eram pragas de julgamento para o deuses do Egito (veja 12:12). Os
Egito a fim de punir seu povo por egípcios adoravam o rio Nilo
perseguir Israel e de mostrar a inu­ como um deus, porque esse rio
tilidade dos deuses dele, 9:14; e (3) era fonte de vida para eles (Dt
eram profecias de julgamentos por 11:10-12), e Deus, quando Moisés
vir, conforme Apocalipse revela. transformou-o em sangue, mostrou
Observe a sequência das pra­ seu poder sobre o rio. Retrata-se
gas. Elas dividem-se em três grupos, a deusa Heqet como rã, símbolo
com três pragas em cada grupo. A egípcio de ressurreição. Com cer­
décima praga (morte dos primogé­ teza, a praga de rãs virou o povo
nitos) foi a última: contra Heqet! As moscas e os pio­
lhos aviltaram o povo — um golpe
1. A água transforma-se em san­ terrível, pois os egípcios não po­
gue, 7:14-25 (advertência em diam adorar seus deuses, a menos
7:16) que tivessem o corpo imaculada­
2. Rãs, 8:1 -15 (advertência em 8:1) mente limpo. A pestilência ata­
3. Piolhos, 8:16-19 (sem adver­ cou o gado, que era sagrado para
tência, e os magos não pude­ os egípcios, Hator era a "deusa
ram copiar, 8:18-19) vaca", e Ápis era o touro sagrado.
4. Moscas, 8:20-24 (advertência Os deuses e as deusas que contro­
em 8:20) lavam a saúde e a segurança foram
5. Peste no gado, 9:1-7 (adver­ atacados com as pragas das úlceras
tência em 9:1) e tumores, da chuva de pedras e
6. Úlceras e tumores nas pesso­ dos gafanhotos. A praga das trevas
as, 9:8-12 (sem advertência, os espessas foi a mais séria, já que os
magos foram afligidos, 9:11) egípcios adoram o deus sol, Rá, o
7. Chuva de pedras, fogo, 9:13- principal deus deles. O bloqueio
35 (advertência em 9:13) do sol por três dias significava que
8. Gafanhotos, 10:1-20 (adver­ Deus conquistara Rá. A praga final
tência em 10:3) (morte dos primogénitos) conquis­
9. Trevas espessas, 10:21-23 (sem tou Meskhenet, a deusa do parto,
advertência, o faraó recusou-se a e Hator, sua companheira, as duas
ver Moisés de novo, 10:27-29) que supostamente cuidavam dos
102 Êxodo 5-10

primogénitos. Todas essas pragas A. Adorar Deus em terra


deixaram claro que Jeová era o egípcia (8:25-27)
verdadeiro Deus! Deus exige separação total do mun­
Traçamos essas mesmas pragas do, a amizade com o mundo é
em Apocalipse, quando Deus des­ inimizade com Deus (Tg 4:4). Os
creve seu embate final com o deus egípcios poderiam se ofender se
deste mundo, Satanás: água transfor­ vissem os judeus sacrificar seu gado
mada em sangue (Ap 8:8; 16:4-6); a Jeová, já que adoravam vacas. Os
rãs (16:13); úlceras malignas e per­ crentes devem sair "do meio deles"
niciosas (16:2); chuva de pedras e e separar-se (2 Co 6:17, NVI).
fogo (8:7), gafanhotos (9:1 ss); e tre­
vas (16:10). B. Não se afastar muito (8:28)
Os magos egípcios consegui­ O mundo diz: "Não seja fanático!".
ram copiar alguns dos milagres de "E bom ter religião, mas não leve
Moisés — transformar o bordão em isso a sério demais". Aqui, temos a
serpente (7:8-13), e a água, em san­ tentação de ser "crentes limítrofes",
gue (7:19-25), e fazer aparecer as os que tentam se manter próximos
rãs (8:5-7). Contudo, eles não con­ do mundo e de Deus ao mesmo
seguiram transformar o pó em pio­ tempo.
lho (8:16-19). Em 2 Timóteo 3:8-9,
somos advertidos de que, nos últi­ C. Apenas os homens
mos dias, falsos mestres se oporão podem ir (10:7-11)
a Deus ao imitar seus milagres. Veja Isso significa deixar as mulheres e
2 Tessalonicenses 2:9-10. Satanás é as crianças no mundo. A fé envolve
um falsificador que engana o mun­ toda a família, não apenas os ho­
do perdido ao imitar o que Deus faz mens. É privilégio do marido e do
(2 Co 11:1-4,13-15). pai liderar a família nas bênçãos do
Senhor.
III. As concessões
O faraó é um tipo de Satanás: ele D. Manter as posses no Egito
era o deus do Egito, tinha poder su­ (10:24-26)
premo (exceto no que era impedido Satanás ama segurar nossas rique­
por Deus), era mentiroso, assassino, zas materiais para que não possa­
mantinha as pessoas em escravi­ mos usá-las para o Senhor. Tudo
dão, odiava a Palavra e o povo de que temos pertence a Cristo. E
Deus. O faraó não queria libertar os Jesus disse-nos: "Onde está o teu
judeus, portanto fez quatro conces­ tesouro, aí estará também o teu
sões ténues: coração" (Mt 6:21). Que tragédia
Êxodo 5-10 103

roubar a Deus ao deixar nossos o mundo, mas estamos enganados.


"rebanhos e gados" para Satanás Deus exige obediência total, separa­
usar (Ml 3:8-10). ção completa do mundo. Realizou-
Moisés recusou fazer cada uma se isso com o sangue do cordeiro e
das concessões, pois não podia fazer a travessia do mar Vermelho, retratos
concessões a Satanás e ao mundo da morte de Cristo na cruz e de nossa
e ainda agradar a Deus. Podemos ressurreição com ele, libertando-nos
pensar que vencemos ao pacificar "deste mundo perverso" (Gl 1:4).
Êx o d o 1 1 - 1 3 em Génesis 15:14, e Êxodo 3:21 e
12:35ss.
Do ponto de vista do homem,
0 ponto principal dessa seção é o
não há diferença entre o primogéni­
cordeiro. A Páscoa marca o nasci­
to do Egito e o de Israel. A diferença
mento da nação de Israel e sua li­
está na aplicação do sangue (v. 7).
bertação da escravidão. Esse grande
Todos são pecadores, contudo os
evento também retrata Cristo e sua
que confiam em Cristo estão "sob o
obra na cruz Qo 1:29; 1 Co 5:7-8;
sangue" e são salvos. Essa é a dife­
1 Pe 1:18-20).
rença mais importante no mundo!

I. O cordeiro necessário (11) II. O cordeiro escolhido (12:1-5)


"Mais uma praga!" Acabara-se a pa­ Os judeus têm um calendário reli­
ciência de Deus e estava para acon­ gioso e outro civil, e a Páscoa mar­
tecer seu julgamento final — a mor­ ca o início do ano religioso deles.
te dos primogénitos. Observe que A morte do cordeiro traz um novo
todos morreriam (11:5-6; 12:12- início, assim como a morte de Cris­
13), a menos que fossem protegidos to traz um novo início para o crente
pelo sangue do cordeiro. "Todos pecador.
pecaram" (Rm 3:23), e "o salário do
pecado é a morte" (Rm 6:23). Deus A. Escolhido antes de ser morto
especifica que o "primogénito" mor­ Separava-se o cordeiro no 10° dia e
rerá, e isso expressa a rejeição de ele era morto na noite do 14° para
Deus ao nosso primeiro nascimen­ o 15odia. Portanto, Cristo era o Cor­
to. Todas as pessoas que não "nas­ deiro predestinado antes da criação
ceram de novo" são "primogénitas". do mundo (1 Pe 1:20).
"O que nasce da carne é carne [...].
E necessário que vocês nasçam de B. Imaculado
novo" (Jo 3:6-7, NVI). As pessoas O cordeiro devia ser macho e sem
não podem salvar a si mesmas da defeitos, um retrato do perfeito Cor­
pena de morte; elas precisam de deiro de Deus, sem mácula e sem
Cristo, o Cordeiro de Deus. defeito (1 Pe 1:19).
Durante anos, os judeus foram
escravos dos egípcios sem receber C. Testado
pagamento; portanto, agora Deus As pessoas, do 10e ao 14Q dia, vi­
permite que peçam seu salário de giavam os cordeiros a fim de certifi­
direito (não que "se apropriem" carem-se de que eram satisfatórios;
dele). Veja a promessa de Deus Cristo, da mesma forma, foi testado
Êxodo 11-13 105

e vigiado durante seu ministério ter­ mento em que ofereciam o cordeiro


reno, principalmente na última se­ da Páscoa. Observe que Deus fala
mana antes de ser crucificado. Ob­ que Israel o matou (o cordeiro), e
serve a evolução: "um cordeiro" (v. não os matou (cordeiros), pois para
3), "o cordeiro" (v. 4) e "cordeiro" Deus há apenas um Cordeiro — Je­
(v. 5, NV1). Isso faz paralelo com "o sus Cristo. Isaque perguntou: "Onde
Salvador" (Lc2:11), "o Salvador" (Jo está o cordeiro?" (Gn 22:7), e, em
4.42) e "meu Salvador" (Lc 1:47). João 1:29, João Batista respondeu:
Não é suficiente chamar Cristo de "Eis o Cordeiro de Deus". Todos no
"Salvador" (um entre muitos) ou de céu dizem: "Digno é o Cordeiro"
"o Salvador" (para outra pessoa). (Ap 5:12).
Cada um de nós deve dizer: "Ele é
meu Salvador!". IV. O cordeiro deve ser
comido (12:8-20,43-51)
111. O cordeiro morto (12:6-7) Com frequência, negligenciamos
Um cordeiro vivo é algo adorável, essa parte importante da Páscoa, a
mas não pode salvar! Não somos Festa dos Pães Asmos. Na Bíblia, le­
salvos pelo exemplo de Cristo ou vedura (fermento) retrata o pecado:
por sua vida; somos salvos pela ele trabalha em silêncio, ele corrom­
morte dele. Leia Hebreus 9:22 e pe e cresce e só pode ser removido
Levítico 17:11 para ver a importân­ com fogo. Na época da Páscoa, os
cia do derramamento do sangue de judeus têm de tirar todo fermento de
Cristo. É claro que, para os doutos casa e não podem comer pão com
egípcios, parecia tolice matar um fermento durante sete dias. Paulo
cordeiro, mas essa era a forma de aplica isso aos cristãos em 1 Corín-
salvação de Deus (1 Co 1:18-23). tios 5; leia o capítulo com atenção.
Deviam marcar a porta das O sangue do cordeiro é sufi­
casas com o sangue do cordeiro ciente para salvar da morte, mas as
(12:21-28). Em 12:22, a palavra pessoas devem se alimentar com o
"verga" pode significar "soleira", cordeiro a fim de se fortalecerem
portanto marcavam o espaço vazio para a peregrinação. A salvação é
na soleira da porta com o sangue apenas o início. Temos de nos ali­
do cordeiro. Depois, aplicava-se o mentar de Cristo a fim de termos
sangue na verga de cima da porta e forças para segui-lo. Os cristãos são
nos batentes laterais. Ninguém que peregrinos (v. 11), sempre prontos a
saísse da casa pisaria sobre o san­ se mover quando o Senhor ordena.
gue (veja Hb 10:29). Cristo foi mor­ Eles deviam assar o cordeiro no fogo,
to no 14° dia-do mês, no exato mo­ o que fala do sofrimento de Cristo na
106 Êxodo 11-13

cruz. Não devem deixar nada para lou, e isso era suficiente para Moi­
comer depois. As sobras não satis­ sés e seu povo. Por favor, lembre-
fazem o crente, pois precisamos do se de que o povo foi salvo pelo
Cristo inteiro. Precisamos da obra sangue e garantido pela Palavra
completa da cruz. Além disso, as (v. 12). Sem dúvida, muitos judeus
sobras estragam, e isso desonra o salvos pelo sangue não "se sen­
tipo, pois Cristo não vê corrupção (SI tiam seguros", exatamente como
16:10). Infelizmente, muitas pessoas hoje temos santos que duvidam
recebem o Cordeiro como salvação da Palavra de Deus e preocupam-
da morte, mas não se alimentam dia­ se em perder a salvação. Deus fez
riamente dele. exatamente o que dissera que fa­
Os versículos 43-51 dão ins­ ria. E os egípcios apressavam os
truções adicionais a respeito da judeus para que deixassem a ter­
festa. Nenhum estrangeiro, ou ser­ ra, exatamente como Deus dissera
vo assalariado, ou homem não-cir- que fariam (11:1-3). Deus não se
cuncidado pode participar da festa. atrasou nem um dia. Ele manteve
Esse regulamento lembra-nos que a sua Palavra.
salvação é o nascimento na famí­
lia de Deus — não há estrangeiros VI. O cordeiro consagrado (13)
nela. Esse nascimento é pela graça, O cordeiro morrera pelo primogé­
ninguém se torna merecedor dele. nito; agora, o primogénito pertencia
E isso acontece por intermédio da a Deus. Os judeus eram um povo
cruz — pois a circuncisão aponta comprado, exatamente como nós
para nossa verdadeira circuncisão somos o povo comprado de Deus
espiritual em Cristo (Cl 2:11-12). (1 Co 6:18-20). A nação consagra­
Não se deve comer o banquete do ria para sempre o Cordeiro ao dar
lado exterior da casa (v. 46), pois o o primogénito — o melhor — para
banquete não pode se separar do o Senhor. Deveriam dar as mãos, os
sangue derramado. Enganam a si olhos e a boca para o serviço do Se­
mesmos os modernistas que querem nhor (v. 9).
se alimentar de Cristo à parte de seu Deus guiou seu povo não pelo
sangue derramado. caminho mais próximo, mas pelo
caminho que era melhor para ele
V. O cordeiro da confiança (12:21-42) (vv. 17-18), exatamente como faz
Foi necessário ter fé para libertar- hoje. A coluna de nuvem durante
se naquela noite! Os egípcios pen­ o dia e a coluna de fogo à noite.
savam que todas essas coisas eram Deus sempre deixa sua vontade
tolices, mas a Palavra de Deus fa­ clara para os que querem segui-lo
Êxodo 11-13 107

(Jo 7:17). Ele salva-nos, alimenta- no Egito era um lembrete para os ju­
nos, guia-nos e protege-nos — e deus de que Deus os libertaria um
ainda fazemos tão pouco por ele! dia. A respeito dos ossos de José,
José sabia em que acreditava e veja Génesis 50:24-26; Josué 24:32
a que lugar pertencia. Seu túmulo e Hebreus 11:22.
Êx o d o 1 4 - 1 5 Infelizmente, os judeus cami­
nhavam pela visão, não pela fé;
por isso, quando viram a chegada
A Páscoa retrata a salvação cristã
por meio do sangue do Cordeiro, do exército egípcio, entraram em
mas há mais coisas para a vida cris­ desespero e clamaram em temor.
tã que ser salvo de julgamento. As A fé e o temor não podem habitar
o mesmo coração; se cremos em
da do Egito a Canaã são ilustrações Deus, não precisamos ter medo.
das batalhas e das bênçãos da vida Como acontece com frequência, os
cristã. Deus quer Israel em Canaã, filhos de Israel criticaram seu líder
e Canaã é o retrato da vida cristã espiritual, em vez de orar e tentar
vitoriosa — a vida que clama nos­ encorajar uns aos outros. Na ver­
sa herança em Cristo (Ef 1:3). Infe­ dade, eles reclamavam de Deus,
lizmente, muitos cristãos (como os pois Moisés guiara-os ao local exato
judeus antigos) foram libertados do que Deus determinara. Eles, em vez
Egito, mas perderam-se no deserto de levantarem os olhos para Deus
da descrença! Sim, eles foram sal­ pela fé, olharam para o Egito e dis­
vos pelo sangue, mas fracassaram seram: "Pois melhor nos fora servir
em afirmar sua rica herança pela fé aos egípcios". Como a memória de­
(Hb 3—5). Nesses dois capítulos, les era fraca! Deus cativara o Egito
vemos quatro experiências distin­ com seus julgamentos e libertara
tas do povo de Deus em sua pere­ Israel com grande poder, contudo
grinação. eles ainda não acreditavam que ele
poderia ajudá-los. Sem dúvida, o
I. Israel clama em temor (14:1-12) "misto de gente" que foi com eles
De forma específica, Deus guiou (12:38) liderou o coro de reclama­
Israel ao local de acampamento ao ções, da mesma forma que liderou
lado do mar Vermelho e disse a Moi­ anos mais tarde (Nm 11:4). O "mis­
sés que os egípcios os perseguiriam. to de gente" representa as pessoas
De forma semelhante, Deus, na sua não-convertidas e mundanas em
Palavra, explica-nos a vida cristã, meio aos filhos de Deus.
portanto sabemos o que esperar. Sa­
tanás não gosta quando o pecador II. Israel caminha em fé (14:13-31)
se liberta de suas garras e, portanto, Moisés sabia que o caminho da vi­
persegue o cristão para tentar escra­ tória era por meio da confiança no
vizá-lo de novo. Deve-se alertar, em Senhor (Hb 11:29). Observe seus
especial, os novos convertidos sobre três comandos: "Não temais", pois
a vinda de seu adversário! Deus está ao seu lado; "aquietai-
Êxodo 14-15 109

vos", pois não podem vencer essa na ressurreição para toda uma nova
batalha com sua própria força; vida. Todos os israelitas foram "ba-
"vede o livramento do S e n h o r ", tizados [...] com respeito a Moisés"
pois ele lutará por vocês. É impor­ (1 Co 10.2) (identificados com Moi­
tante que nos aquietemos antes de sés) ao atravessar as águas, e identi­
marchar (v. 15), pois, a menos que ficamo-nos com Cristo e, por isso,
permaneçamos na fé, nunca mar­ somos separados do mundo (Egito).
charemos pela fé. Moisés levanta Os egípcios não podiam atravessar
seu bordão, e Deus começa a tra­ o mar, porque nunca foram protegi­
balhar. dos pelo sangue.
Deus protege seu povo ao ficar A Páscoa ilustra a morte de Cris­
entre Israel e o exército egípcio (vv. to por nós, enquanto a travessia do
19-20). A obra do Senhor traz es­ mar Vermelho retrata sua ressurrei­
curidão para o mundo e luz para o ção. O sangue libertou-nos da pu­
povo de Deus. Durante toda a noi­ nição do pecado, e a ressurreição,
te, Deus mantém o exército distan­ do poder do pecado. A primeira
te. Depois, Deus abriu o caminho à experiência é de substituição, pois
frente de Israel ao mandar um vento o cordeiro morre no lugar do pri­
forte. Sem dúvida, os judeus senti­ mogénito. Veja Romanos 4—5. A
ram medo quando ouviram o vento segunda experiência é de identifi­
soprar, mas o próprio vento que os cação, pois nos identificamos com
amedrontava era o meio utilizado Cristo em sua morte, sepultamen-
para a salvação deles. Toda a nação to e ressurreição, e Romanos 6—8
atravessou o mar Vermelho sobre explica isso. Em Josué 3—4, a tra­
terra seca! Contudo, o mesmo mar vessia de Israel através do Jordão
que era a salvação para Israel era até Canaã é um exemplo do crente
condenação para o Egito, pois Deus entrando na posse de sua herança
usou as águas para afogar os egíp­ espiritual pela fé e reivindicando-a
cios e separar definitivamente Isra­ para si. Em todos os casos, é por
el do Egito. O faraó colheu o que meio da fé que o cristão afirma sua
plantou, pois ele afogara os meni­ vitória.
nos judeus, e agora seu exército foi
afogado. III. Israel louva em triunfo (15:1-21)
Devemos captar o sentido es­ Esse é o primeiro registro de um
piritual desse evento (1 Co 10:1-2). cântico na Bíblia que, de forma re­
A travessia do mar Vermelho é um levante, vem depois da redenção da
exemplo da união do crente com escravidão. Apenas os cristãos têm
Cristo, na morte para a antiga vida e o direito de entoar cânticos de re­
110 Êxodo 14-15

denção (SI 40:1-3). Êxodo inicia-se nham motivo para louvar o Senhor
com gemidos (2:23), mas agora, por pela redenção que lhes dera em
causa da redenção, vemos a nação Cristo.
entoar cânticos. Note que esse cân­
tico exalta a Deus, pois esses 18 IV. Israel reclama em
versículos referem-se, pelo menos, descrença (15:22-27)
45 vezes ao Senhor. Muitos cânti­ Seria maravilhoso demorar-se à bei­
cos exaltam os homens, em vez de ra do mar e louvar o Senhor, mas o
a Pessoa, o santo caráter de Deus e crente é peregrino e deve seguir a
sua maravilhosa obra de poder. liderança de Deus. Como é estra­
No versículo 2, observe o re­ nho o fato de o Senhor os ter leva­
frão central. Salmos 118:14 repete do a um local onde não havia água.
isso quando os judeus retornam do Contudo, Deus deve disciplinar
cativeiro e reconstroem o templo seus filhos a fim de que descubram
sob o comando de Esdras, como o próprio coração. Quando os ju­
também em Isaías 12:2, referindo- deus encontram água, descobrem
se a um dia, no futuro, em que que é amarga e imediatamente re­
Deus devolverá à nação sua terra. clamam a Moisés e a Deus. Como
Veja Isaías 11:15-16. Israel entoa o coração humano é perverso! Um
esse cântico quando é libertado do dia, louvamos Deus por sua glorio­
Egito, quando é liderado por Moi­ sa salvação e, na primeira vez em
sés, o profeta, e quando é libertado que encontramos águas amargas,
da Babilónia por Esdras, um sacer­ reclamamos a ele. Essa experiência
dote. Ele ainda entoará cânticos ensinou algumas lições valiosas ao
quando for libertado das nações povo de Israel:
gentias, quando se voltar para Cris­
to, seu Rei. A. Sobre a vida
Não nos estenderemos nos de­ A vida é uma combinação de doçura
talhes dessa canção. Observe que e amargor, de triunfos e provações.
0 povo louva Deus por sua reden­ No entanto, se seguirmos Deus, nun­
ção (vv. 1-10), sua orientação (vv. ca precisamos temer o que surge em
11 -13) e sua vitória (vv. 14-17). E o nosso caminho. Com frequência,
cântico termina com uma nota de depois da provação há um "Elim"
glória, um olhar à frente, ao reino espiritual (v. 27), em que Deus nos
eterno de Deus (v. 18). Miriã lide­ conforta. Devemos aceitar as águas
ra as mulheres (veja 1 Co 14:34; amargas junto com as doces, lem-
1 Tm 2:11-12) em um coro separa­ brando-nos de que Deus sabe o que
do, pois certamente as mulheres ti­ é melhor para nós.
Êxodo 14-15 111

B. Sobre si mesmos Deus quando surgiam provações


A vida é um grande laboratório, e em seu caminho.
cada experiência radiografa nosso
coração e mostra quem realmente C. Sobre o Senhor
somos. As águas de Mara revelaram Deus sabe o que é necessário, por­
que os judeus eram mundanos, pen­ que planejou o caminho. Ele usou
savam apenas na satisfação do cor­ a árvore (o que sugere a cruz, 1 Pe
po; eles caminhavam pela visão e 2:24) para transformar as águas
esperavam ser satisfeitos pelo mun­ amargas em doce. Ele é Jeová-Rafá,
do, eram ingratos e reclamavam a "o S enhor , que te sara".
Êx o d o 1 6 D. Sua doçura
Era doce (v. 31). "Provai e vede que
o S e n h o r é bom" (SI 34:8). Em Nú­
Deve-se ler esse capítulo junto com
meros 11:4-8, observe que o "misto
João 6, pois o maná do céu é um
símbolo de Cristo, o Pão da vida. Ele de gente" que foi com os judeus não
também se refere à Palavra de Deus gosta do sabor do maná e pergun­
escrita que, dia após dia, alimenta o ta a respeito "dos alhos silvestres,
povo peregrino de Deus (Mt 4:4). das cebolas e dos alhos" do Egito.
Eles não se satisfaziam com o sim­
ples maná. Eles o colhiam, moíam e
coziam, mas o maná tinha sabor de
"azeite", não de mel. Aqui, há uma
I. O maná explica quem é Jesus lição espiritual para nós: não pode­
A palavra hebraica manna signifi­ mos aperfeiçoar a Palavra de Deus
ca: "Que é isto?" (v. 15), a declara­ (SI 119:103).
ção dos judeus quando não conse­
guem explicar o alimento novo que E. Sua nutrição para nós
Deus mandou. Em 1 Timóteo 3:16, Por quase quarenta anos, foi satisfa­
Paulo escreve: "Grande é o misté­ tório e fortalecedor para a nação ali-
rio da piedade". Observe como o mentar-se do maná. Tudo que pre­
maná retrata Jesus Cristo: cisamos como alimento espiritual é
Jesus Cristo, o Pão celestial enviado
A. Sua humildade por Deus. Devemos banquetear-nos
Era pequeno (v. 14), o que nos lem­ com o Pão que nunca nos deixará
bra a humildade dele, pois ele se famintos.
tornou um bebê e, até mesmo, um
servo. II. O maná retrata a forma
como Jesus veio
B. Sua natureza eterna
Era redondo (v. 14), o que nos lem­ A. Ele veio do céu
bra o círculo, símbolo da eternidade Ele não foi importado do Egito nem
dele, pois Jesus Cristo é o Deus eter­ feito no deserto, veio do céu; é dá­
no Go 8:53-59). diva da graça de Deus. Jesus Cristo
desceu do céu (Jo 6:33), como uma
C. Sua santidade dádiva do Pai para alimentar o pe­
Era branco (v. 31), o que nos lembra cador. Dizer que Cristo é "apenas
a pureza e impecabilidade dele. Ele homem como outro qualquer" é o
é o Filho santo de Deus. mesmo que negar o ensinamento de
Êxodo 16 113

toda a Bíblia de que ele é o Filho de muitas mercês de Deus. O povo mur­
Deus enviado do céu. mura contra Moisés e contra Deus
(veja 15:22-27) e anseia pela alimen­
B. Ele veio à noite tação de carne da vida antiga; contu­
A cada início de manhã, as pessoas do, Deus, em sua misericórdia e gra­
pegavam o maná, pois ele caía du­ ça, supre-os com pão. O versículo 4
rante a noite. Isso sugere a escuridão faria bem se dissesse: "Farei chover
do pecado que havia neste mundo fogo e enxofre sobre esses pecadores
quando Jesus veio. Era noite quando ingratos!". Mas não, Deus prova seu
Jesus nasceu, pois ele veio para ser amor por eles ao fazer chover pão so­
a luz do mundo Oo 8:12). E ainda é bre eles. Veja Romanos 5:6-8. Alguém
noite no coração dos que o rejeitam calculou que para suprir diariamente
(2 Co 4:1-4). dois milhões de pessoas com menos
de quatro litros aproximadamente de
C. Ele veio sobre o orvalho (vv. 13-14) maná para cada uma, seriam neces­
O orvalho impedia que a terra ma­ sários quatro trens de carga com ses­
culasse o maná (veja Nm 11:9). Isso senta vagões cada um. Como Deus é
é um símbolo do Espírito Santo, pois generoso conosco!
Jesus veio à terra por intermédio do
ministério miraculoso do Espírito F. Ele caiu exatamente onde
(Lc 1:34-35). Se Jesus não tivesse eles estavam
nascido de uma virgem, nunca seria Como os judeus tinham acesso fácil
chamado "o Santo". ao maná! Eles não tiveram de escalar
uma montanha nem atravessar um rio
D. Ele caiu no deserto profundo. O maná caiu onde eles esta­
Este mundo não é um paraíso. Ele vam (veja Rm 10:6-8). Jesus Cristo não
é um lugar maravilhoso para o não- está distante dos pecadores. A qual­
salvo, mas é um deserto para o cris­ quer momento, eles podem ir a ele.
tão em sua peregrinação em direção
à glória. Contudo, Cristo veio a este III. O maná mostra-nos o que
mundo por amor aos homens, para devemos fazer com Jesus Cristo
dar sua vida a nós. Que graça!
A. Nós devemos perceber
E. Ele veio para um povo a necessidade
rebelde (vv. 1-3) Temos uma fome espiritual que ape­
Que memória fraca Israel tem! Ape­ nas Jesus pode satisfazer (Jo 6:35).
nas seis semanas, fora libertado da O filho pródigo decidiu voltar para
escravidão no Egito e já esquecera as a casa do pai e pedir perdão quando
114 Êxodo 16

disse: "Morro de fome!" (Lc 15:17- desaparece quando o sol esquenta,


18). Hoje, muito do desassossego e e isso sugere que o dia do julgamen­
do pecado no mundo é resultado to chegará quando for muito tarde
da fome espiritual não satisfeita. As para se voltar para Cristo (Ml 4). Isso
pessoas vivem com substitutos e re­ também sugere que, como crentes,
jeitam a alimentação que Deus ofe­ devemos nos alimentar com a Pala­
rece livremente (Is 55:1-3). vra no início do dia, meditando e
orando a respeito dela.
B. Nós devemos inclinar-nos
O maná não caiu sobre mesas ou ár­ E. Nós devemos continuar a nos
vores, mas no chão, e o povo tinha alimentar dele
de inclinar-se para pegá-lo. Muitos Uma vez que recebemos Cristo
pecadores não se humilham. Eles como Salvador, estamos salvos para
não se curvam! Não se arrependem sempre Oo 10:27-29). No entanto,
nem se voltam para o Salvador! é importante que nos alimentemos
em Cristo para ter forças para nossa
C. Nós devemos pegar por peregrinação, assim como os judeus
nós mesmos se alimentaram com o cordeiro da
Os judeus famintos não se alimentam Páscoa (Êx 12:11 ss). Como os cren­
ao olhar o maná, ao admirá-lo ou ao tes se alimentam de Cristo? Ao ler,
ver os outros comerem-no; eles têm meditar e estudar a Palavra dele.
de pegá-lo e comê-lo por si mesmos. Deus convida-nos a levantar cedo e
Se o pecador quiser salvar-se, tem de pegar o precioso maná que alimen­
receber Cristo no coração pela fé. ta nossa alma com sua Palavra. Não
Em João 6:51-58, foi isso que Jesus podemos acumular as verdades de
quis dizer com "comer a minha car­ Deus para o dia seguinte (vv. 16-21 );
ne e beber o meu sangue". João 6:63 devemos pegar alimento fresco a
deixa claro que Jesus não falava a cada novo dia. Muitos cristãos mar­
respeito de carne e sangue literais, e cam suas Bíblias e enchem cader­
João 6:68 diz-nos que ele se referia nos com esboços, contudo nunca se
à sua Palavra. Quando recebemos a alimentam realmente de Cristo.
Palavra no coração, alimentamo-nos Observe que o maná espiritual
com Cristo, a Palavra viva. (Cristo) realiza mais do que o maná
físico que Deus manda para os ju­
D. Nós devemos fazer isso deus. O maná do Antigo Testamento
de manhã (v. 21) sustenta a vida física, mas Cristo dá
Isaías 55:6 adverte: "Buscai o S enho r vida espiritual a todos os que o rece­
enquanto se pode achar". O maná bem. O maná do Antigo Testamento
Êxodo 16 115

era apenas para os judeus, mas Cristo to de iniciar meu dia recolhendo o
oferece a si mesmo ao mundo todo maná?
(Jo 6:51). Não custou nada a Moisés Josué 5:10-12 conta-nos que o
assegurar o maná a Israel, mas Cristo maná cessou quando os judeus en­
teve de morrer na cruz para se tor­ traram em Canaã por Gilgal, e que
nar disponível para o mundo. Como eles "comeram do fruto da terra".
é triste observar que a maioria das O maná caía do céu, referindo-se
pessoas do mundo caminha sobre à encarnação e à crucificação de
Cristo, como se ele fosse o maná não Cristo. O "fruto da terra" crescia
utilizado, deixado no chão, em vez em um local de sepultamento e de
de inclinar-se para recebê-lo a fim de morte e fala da ressurreição e do
poder viver. ministério celestial de Cristo. Entrar
Deus testava a obediência de em Canaã significa entrar na posse
Israel ao fazê-lo pegar o maná dia­ de sua herança celestial em Cris­
riamente (v. 4), e isso ainda é um to (Ef 1:3), e isso significa reter as
teste para o povo de Deus. Deus bênçãos que recebemos na ressur­
pode confiar e usar os cristãos que reição, ascensão e no sacerdócio
começam o dia buscando alimento celestial de nosso Salvador. Muitos
espiritual na Bíblia. Infelizmente, santos conhecem "Cristo segundo
muitos cristãos ainda anseiam pela a carne" (2 Co 5:16) por meio da
alimentação carnal do mundo (v. vida e do ministério terrenos dele,
3)! E muitos esperam que o pastor mas nunca chegam ao seu minis­
ou o professor da escola dominical tério sacerdotal celestial. Quando
recolha o maná para eles e "alimen- eles dão o passo nessa direção, co­
te-os". Este é o teste de nossa cami­ mem "do fruto da terra" — alimen-
nhada espiritual: eu tenho Cristo e tam-se do poder da ressurreição de
sua Palavra em alto apreço, a pon­ Cristo.
Êx o d o 1 7 - 1 8 esse é o mesmo bordão que virou
serpente [Êx 4:2-3] e que o ajudou
a trazer pragas sobre o Egito.) Aqui,
À medida que Israel seguia a lide­
a ordem dos eventos é maravilho­
rança do Senhor, vivenciou testes
e provações que o ajudaram a se sa: no capítulo 16, temos o maná,
compreender melhor e a ver, de retratando a vinda de Cristo à terra;
forma mais completa, o poder e a no capítulo 17, vemos o ferir a ro­
graça de Deus. Nesses capítulos, há cha, que retrata sua morte na cruz.
três dessas experiências. A água é um símbolo do Espírito
Santo, dado depois da glorificação
I. A água brota da rocha (17:1-7) de Cristo (Jo 7:37-39).
A congregação tivera sede antes Leia Números 20:1 -13 para ver
(15:22), e Deus satisfizera a neces­ a segunda experiência com a ro­
sidade dela; contudo, como as pes­ cha. Deus manda Moisés falar à
soas de hoje, ela esqueceu a mise­ rocha, mas Moisés, em seu livre-
ricórdia de Deus. Afinal de contas, arbítrio, fere a rocha. Assim, ele é
estava no local para o qual Deus a impedido de entrar em Canaã por
levara, e o Senhor tinha a responsa­ causa de seu pecado. Moisés, ao
bilidade de cuidar dela. As pessoas ferir a rocha de novo, corrompe o
criticaram Moisés e murmuraram símbolo — Cristo só pode morrer
contra Deus, um pecado a respeito uma vez. Veja Romanos 6:9-10
do qual 1 Coríntios 10.1-12 adver- e Hebreus 9:26-28. O Espírito é
te-nos. Na verdade, elas "tentaram dado uma vez, mas o crente pode
ao S e n h o r " com sua atitude, pois di­ pedir suplementos adicionais a
ziam que Deus não cuidava delas e Deus.
não podia ajudá-las. Elas testavam a Primeira aos Coríntios 10:4
paciência de Deus com suas quei­ afirma que Israel bebia "de uma
xas contínuas. pedra espiritual que os seguia".
Moisés retrata o que o cristão Algumas pessoas interpretam que
confiante faz nos momentos de pro­ isso significa que a rocha ferida
vação: ele vira-se para o Senhor e viajou com os judeus através do
pede orientação (Tg 1:5). O Senhor deserto, mas essa explicação é
instruiu-o a pegar o bordão e ferir improvável. O pronome "os" não
a rocha, e a água brotou da rocha. consta do texto grego original.
Essa rocha é Cristo (1 Co 10:4), e o A sentença diz que eles bebiam
ferir a rocha fala da morte de Cristo água da rocha, e que esse evento
na cruz, em que ele sentiu o bor­ acompanhava o ato de dar o maná
dão da maldição da lei. (Lembre-se, (cp. 1 Co 10:3 com Êx 16).
Êxodo 1 7-18 117

II. A peleja com o inimigo (17:8-16) Paulo diz que os crentes se "ajudam
Às vezes, os novos cristãos surpre­ com as suas orações" (2 Co 1:11,
endem-se com o fato de que a vida NVI), e isso foi o que Arão e Hur fize­
cristã é de pelejas e de bênçãos. ram. Moisés tinha o bordão de Deus
Até esse ponto, Israel não tivera de nas mãos, o que fala do poder onipo-
pelejar, pois Deus pelejara por ele tente do Senhor. Moisés derrotou to­
(13:17). Contudo, agora, o Senhor dos os inimigos no Egito, assim como
escolheu pelejar por intermédio Cristo subjugou o mundo em vitória
dele para vencer o inimigo. Ama- poderosa.
leque era descendente de Esaú (Gn É importante que o povo de
36:12,1 6) e pode ilustrar a oposição Deus coopere com ele na vitória so­
da carne (Gn 25:29-34). Israel liber­ bre a carne. Romanos 6 diz-nos para
tou-se da carne (Egito) de uma vez avaliar e entregar, e, pela fé, matar
por todas ao atravessar o mar Ver­ as obras do corpo. Moisés sozinho
melho, mas, até o retorno de Cris­ no monte não podia vencer a bata­
to, o povo de Deus sempre pelejará lha, nem Josué sozinho, no campo
com a carne. de batalha; eram necessários os dois
Observe que os amalequitas para se obter vitória. Que maravi­
não aparecem até a água ser dada, lha que o Filho de Deus interceda
pois a carne só começa a opor-se por nós (Rm 8:34), e que o Espírito
ao Espírito quando ele vem habi­ de Deus habite em nós (Rm 8:26),
tar em nós (Gl 5:17ss). Deutero- além de termos a Palavra inspirada
nômio 25:1 7-19 conta-nos que os de Deus em nosso coração!
amalequitas fizeram um ataque Observe que Josué não destrói
furtivo, "na retaguarda". Como cris­ totalmente os amalequitas; ele os
tãos, devemos sempre vigiar e orar. "desbarata" (v. 13). A carne nunca
Como Israel dominou o inimigo? será destruída ou "erradicada" nes­
Ele tinha um intercessor na montanha ta vida. Cristo, quando retornar, nos
e um comandante no vale! O bordão dará um corpo novo (Fp 3:21). Em
de Moisés na montanha ilustra a obra 1 Samuel 15, vemos o pecado de
de intercessão de Cristo, e Josué com Saul em sua recusa de lidar com­
sua espada retrata o Espírito de Deus pletamente com os amalequitas; e
usando a Palavra de Deus contra o ini­ 2 Samuel 1:6-10 informa-nos que
migo (Hb 4:12 e Ef 6:17-18). É claro Saul foi morto por um dos amale­
que Moisés é uma imagem imperfeita quitas que ele poupara! "Nada dis­
de Cristo e sua obra de intercessão, já ponhais para a carne" (Rm 13:14).
que nosso Senhor nunca se cansa e Jeová-Nissi significa "o Senhor
não precisa de ajuda (Hb 4:16; 9:24). é nossa bandeira". Somos vitoriosos
118 Êxodo 17-18

nao pelo nosso esforço, mas apenas os de fora (Lc 16:8), mas devemos
por intermédio de Cristo (Jo 16:33; testar tudo pela Palavra de Deus (Is
1 Jo 2:13-14; 5:4-5). 8:20). Perguntamo-nos se a "sabe­
doria mundana" de Jetro agradava
III. A sabedoria do mundo (18) a Deus, pois o próprio Jetro não ti­
Os estudiosos da Bíblia discordam nha certeza disso (veja v. 23). Ele
em relação à interpretação desse estava disposto a alegrar-se com
capítulo, se a advertência de Jetro tudo que o Senhor fizera (vv. 9-10),
a Moisés é do Senhor ou da carne. mas não estava disposto a acredi­
Alguns apontam para Números 11, tar que Deus podia ajudar Moisés
em que Deus distribui o poder de com os fardos diários da vida. Moi­
seu Espírito entre os 70 anciãos, o sés adotou o esquema de Jetro, e o
que sugere que Moisés já tinha todo povo concordou com isso (Dt 1:9-
poder necessário para desempe­ 18), mas não temos garantia de que
nhar a tarefa. Nos capítulos 3—4, Deus aprovou o novo arranjo. Na
Deus dissera a Moisés que apenas verdade, em Números 11, a atitu­
ele supriria a graça necessária para de de Deus sugere que aconteceu
que se fizesse a tarefa. No versícu­ o contrário.
lo 11, Jetro diz que Jeová "é maior Os crentes enfrentam ataques
que todos os deuses", mas isso é um diretos e abertos da carne, como os
longínquo clamor de uma confissão de Amaleque (17:8-16), mas tam­
definitiva de fé no Deus verdadeiro. bém enfrentam idéias sutis da car­
Além disso, no versículo 27, Jetro ne, como as de Jetro. Certamente,
recusa-se a ficar com Israel e volta Moisés podia fazer qualquer traba­
para o seu povo. lho que Deus o chamasse a fazer,
Com certeza, nosso Deus é um pois Deus nos capacita para cum­
Deus de ordem, e não há nada de prir suas ordens. Como temos faci­
errado em ser organizado. No Novo lidade em sentir pena de nós mes­
Testamento, os apóstolos, quando mos, em sentir que ninguém cuida
o fardo do ministério torna-se mui­ de nós, e em achar que Deus nos
to pesado, acrescentam os diáco­ deu um fardo grande demais! Leia
nos para auxiliá-los (At 6). O povo Isaías 40:31 para ver a solução de
de Deus pode aprender até com Deus para esse problema.
Êx o d o 1 9 - 2 0 às leis diárias que regem a vida do
povo). Na verdade, parece que a
Bíblia não faz distinção entre as
leis "moral" e "cerimonial", já que
definitivamente uma é parte da ou­
tra. Por exemplo, encontramos o
quarto mandamento, que trata do
dia de sábado, na lei moral, em­
bora, com certeza, faça parte do
sistema cerimonial e também dos
dias santos judeus.
I. Notas introdutórias: a
importância da Lei III. Propósitos
Nenhum tópico foi mais mal-entendi- Para entender a Lei, precisamos
do entre os cristãos que a Lei de Moi­ nos lembrar que Deus já fizera
sés e sua aplicação hoje aos crentes uma aliança eterna com os judeus
do Novo Testamento. Confundir as por intermédio de Abraão, o pai
alianças de Deus é interpretar erro­ deles (Gn 15). Ele prometeu-lhes
neamente a mente de Deus e perder suas bênçãos e deu-lhes a posses­
as bênçãos dele; portanto, sábio é o são da terra de Canaã. Mais tarde,
crente que examina a Pâlavra a fim de "acrescentou-se" a Lei Mosaica à
estabelecer a posição e o propósito aliança abraâmica, mas isso não
de todo o sistema mosaico. a anula (Gl 3:13-18). A lei entrou
lado a lado com a aliança anterior
II. Nome de Deus (Rm 5:20), contudo era
As pessoas, iniciando com Êxo­ uma medida provisória de Deus (Gl
do 19 e continuando até a cruz de 3:19). O Senhor deu a Lei apenas a
Cristo (Cl 2:14), estavam sob o sis­ Israel para mostrar que eles eram o
tema mosaico. Chama-se isso de "a povo escolhido de Deus e sua na­
Lei de Moisés", "a Lei" e, às vezes, ção santa (Êx 19:4-6; SI 147:19-20).
de "a Lei de Deus". Com frequên­ Deus não deu a Lei para salvar as
cia, a chamamos, por uma questão pessoas, pois é impossível ser sal­
de conveniência, de "lei moral" vo por guardar a Lei (Gl 3:11; Rm
(em relação aos Dez Mandamen­ 3:20). Ele deu a Lei a Israel pelas
tos), de "a lei cerimonial" (em re­ seguintes razões:
lação aos exemplos e aos símbolos
que encontramos no sistema sacri­ A. Revelar sua glória e santidade
ficial) e de "a lei civil" (em relação (Dt 5:22-28)
120 Êxodo 19-20

B. Revelar a pecaminosidade do traste à realidade e à realização que


homem (Rm 7:7,13; 1 Tm 1:9ss; Tg temos em Cristo (Hb 10:1; Cl 2:14-
1:22-25) 17).
C. Marcar Israel como seu povo es­ IV. Deficiência
colhido e para separá-lo das outras É importante notar o que Lei não
nações (SI 147:19-20; Ef 2:11-17; pode fazer. Ela não pode realizar
At 15) estas coisas: (1) tornar tudo perfeito
(Hb 7:11-19; 10:1-2); (2) justificar o
D. Dar a Israel um padrão do viver pecado (At 13:38-39 e Rm 3:20-28);
piedoso a fim de que pudessem ha­ (3) dar justiça (Gl 2:21); (4) dar paz
bitar a terra e desfrutar das bênçãos ao coração (Hb 9:9); e (5) dar vida
dela (Dt 4:1ss; 5:29ss; Jz 2:19-21) (Gl 3:21).

E. Preparar Israel para a vinda de V. Cristo e a Lei


Cristo (C l 3:24) "Porque a lei foi dada por intermé­
O "aio" era um servo treinado e cuja dio de Moisés; a graça e a verdade
tarefa era preparar as crianças para a vieram por meio de Jesus Cristo" (Jo
vida adulta. Quando a criança ama­ 1:1 7). Obviamente, há um contraste
durece e torna-se adulta, recebe sua entre o sistema legalista de Moisés
herança e não precisa mais do aio. para Israel e a posição graciosa que
Israel, sob a Lei, estava em sua "in­ o cristão tem no corpo de Cristo.
fância espiritual", mas ela preparava Cristo nasceu sob a Lei (Gl 4:4-6) e
esse povo para a vinda de Cristo (Gl cumpriu a Lei sob todos os aspectos
3:23—4:7). (Mt 5:17). Vemos a pessoa e a obra
dele na Lei (Lc 24:44-47). Ele é a
F. Ilustrar o tipo e a cerimónia da pes­ finalidade da Lei para trazer justiça
soa e da obra de Cristo (Hb 8 —10) ao crente (Rm 10:1 -13). Ele pagou a
Compara-se a Lei a um espelho, punição da Lei e sofreu a maldição
porque ela revela nossos pecados da Lei na cruz (Gl 3:10-14; Cl 2:13-
(Tg 1:22-25); a um jugo, porque traz 14). A Lei não separa mais judeus e
servidão (At 15:10; Gl 5:1; Rm 8:3); gentios, pois, em Cristo, somos um
a um aio, porque prepara Israel para na igreja (Ef 2:11-14).
a vinda de Cristo (Gl 3:23—4:7); a
letras escritas em tábuas de pedra VI. O cristão e a Lei
(2 Co 3), em contraste com a lei do O Novo Testamento deixa muito
amor escrita em nosso coração pelo claro que o cristão não está sob a
Espírito; e a uma sombra, em con­ Lei (Rm 6:14 e Gl 5:18), mas vive
Êxodo 19-20 121

na esfera da graça. Em Cristo, mor­ pecaminosa e não pode se submeter


remos para a Lei (Rm 7:1-4) e liber­ à Lei. Mas nos consideramos mortos
tamo-nos da Lei (Rm 7:5-6). Não para o pecado (Rm 6) e entregues
podemos nos enredar de novo na ao Espírito Santo (Rm 8). O Espírito
escravidão da Lei (Gl 5:1-4), o que cumpre a Lei em nós e por nosso in­
significaria sair da esfera da graça e termédio (Rm 8:1 -4).
viver como servo, não como filho. Voltar à Lei é trocar realidade
Isso significa que o cristão pode por sombras, e liberdade por escra­
agir sem a Lei e ignorar as exigências vidão. Significa perder o alto cha­
santas de Deus? É claro que não! Os mado da graça que temos. A Lei sig­
inimigos de Paulo lançaram-lhe essa nifica que temos de fazer algo para
acusação, porque ele enfatizou a agradar a Deus; a graça significa
posição gloriosa do crente em Cris­ que Deus opera em nós para cum­
to (Rm 6:1). Em 2 Coríntios 3, deixa- prir sua vontade perfeita.
se claro que a glória da graça do
evangelho de Deus supera em mui­ VII. Os Dez Mandamentos hoje
to a glória temporária da Lei do An­ Toda a Lei do Antigo Testamento é
tigo Testamento, e que nós, cristãos, uma ampliação e aplicação dos Dez
caminhamos "de glória em glória" Mandamentos. O Novo Testamento
(3:18) quando crescemos em graça. repete nove dos Dez Mandamentos
Na verdade, o cristão do Novo Tes­ para o crente de hoje:
tamento está sob uma forma mais
exigente de vida que estava o crente A. Não ter outros deuses diante do
do Antigo Testamento, pois a Lei do Senhor (At 14:15; Jo 4:21-23; 1 Tm
Antigo Testamento lidava com atos 2:5; Tg 2:19; 1 Co 8:6)
exteriores, enquanto a lei do amor
do Novo Testamento lida com ati­ B. Não fazer ídolos ou imagens (At
tudes interiores. Estar livre da Lei 17:29; Rm 1:22-23; 1 Jo 5:21; 1 Co
não significa estar livre do pecado 10:7,14)
— liberdade não é licença. Fomos
chamados à liberdade e devemos C. Não tomar o nome de Deus em
usar essa liberdade para o bem dos vão (Tg 5:12; Mt 5:33-37 e 6:5-9)
outros e para a glória de Deus (leia
Gl 5:13-26). Estamos sob a lei mais D. Lembrar o dia de sábado
alta do amor, a lei de Cristo (Gl 6:2). Em nenhum lugar do Novo Testa­
Não tentamos obedecer a Deus na mento, repete-se esse mandamento
força da carne, porque isso é im­ para que a igreja lhe obedeça hoje.
possível (Rm 7:14); a carne é fraca e Mateus 12, Marcos 2, Lucas 6eJoão 5
122 Êxodo 19-20

mencionam o guardar o sábado, no Novo Testamento. Nenhum deles


mas todas as citações referem-se ao menciona o sábado: Mateus 19:16-
povo de Israel, não à igreja. Colos- 20; Marcos 10:17-20; Lucas 18:18-
senses 2 e Romanos 14—15 ensi­ 21; Romanos 13:8-10. É claro que os
nam que os crentes não devem jul­ "novos mandamentos" de amor são a
gar uns aos outros em relação aos motivação fundamental para o cristão
dias santos ou aos sábados. Dizer de hoje Uo 13:34-35; Rm 13:9-10). O
que uma pessoa é perdida, ou que Espírito derrama esse amor em abun­
ela não é espiritual, por não guardardância em nosso coração (Rnn 5:5).
o sábado, é ir além dos limites das Assim, amamos a Deus e aos outros
Escrituras. e, dessa forma, não precisamos do
controle externo de uma lei em nossa
E. Honrar pai e mãe (Ef 6:1-4) vida. A antiga natureza não conhecia
a Lei, e a nova natureza não precisa
F. Não matar (1 Jo 3:15; Mt 5:21-22) da Lei. O sábado era o dia especial de
Deus para os judeus que estavam sob
C. Não cometer adultério (Mt 5:27- a Antiga Aliança, mas, para a igreja,
28; 1 Co 5:1-13; 6:9-20; Hb 13:4) que está sob a Nova Aliança, o Dia do
Senhor é o dia especial de Deus. O sá­
H. Não roubar (Ef 4:28; 2 Ts 3:10- bado simboliza a salvação por meio de
12; Tg 5:1-4) obras: seis dias de trabalho e, depois,
descanso; o Dia do Senhor simboliza
I. Não dar falso testemunho (Cl 3:9; a salvação por meio da graça: primei­
Ef 4:25) ro o descanso e, depois, o trabalho. O
sábado, os sacrifícios, as leis alimenta­
J. Não cobiçar (Ef 5:3; Lc 12:15-21) res, o sacerdócio e os cultos do taber­
Observe estes "resumos da Lei" náculo acabaram todos em Cristo.
Êx o d o 2 1 - 2 3 mio 15:17 e Salmos 40:6. A Lei dava
proteção especial às mulheres a fim
Moisés, depois de dar a Israel a Lei de garantir que os amos não abu­
de Deus, que está nos Dez Man­ sassem delas e não as privassem de
damentos, explicou e aplicou a Lei seus direitos.
aos vários aspectos da vida do ho­
mem. Onde quer que haja lei, deve II. Compensação de injúrias
haver interpretação e aplicação; de pessoais (21:12-36)
outra forma, a lei não é praticada e Essas regulamentações tinham por
não pode ser útil de forma alguma. objetivo garantir a equidade na inde-
No início, eram os sacerdotes que nização de injúrias pessoais. O "olho
ensinavam e praticavam a Lei em por olho, dente por dente" não é uma
Israel, mas, em anos posteriores, os "lei da selva", mas a manifestação de
rabinos e os escribas tornaram-se que haja um pagamento justo pelas in­
os professores oficiais da Lei. Infe­
júrias recebidas. Assim, os juizes não
lizmente, a interpretação deles era
exigiriam nem mais nem menos do
tão autoritária quanto a Lei original,
e foi esse erro que Jesus expôs por que fosse certo. Esse é o fundamento
meio de seus ensinamentos, em es­ da lei hoje, embora nem sempre essa
pecial no Sermão da Montanha (Mt lei seja aplicada de forma justa. Em
5—7). Para obter mais percepções Mateus 5:38-42, as palavras de nos­
a esse respeito, veja também Mar­ so Senhor têm que ver com vingança
cos 7:1 -23. pessoal mais que com desobediência
pública à Lei. Havia muitos crimes
capitais em Israel: assassinar (vv. 12-
I. Cuidados com os servos (21:1-11) 15), raptar (v. 16), amaldiçoar os pais
Os judeus podiam comprar e ven­ de alguém (v. 17), causar a morte de
der escravos, mas eram proibidos de mulher grávida e/ou do feto (w. 22-
tratá-los como escravos. Às vezes, as 23), praticar feitiçaria (22:18) e prati­
pessoas tinham de vender a si mes­ car coito com animal (22:19). O fun­
mas em troca de serviço por causa damento para a punição capital é a
da pobreza (Lv 25:39; Dt 15:12), aliança de Deus com Noé (Gn 9:1-6)
mas o serviço delas ficava limitado e o fato de o homem ter sido criado à
a apenas seis anos. Depois desse imagem de o Deus. Deus deu a vida e
período, elas tinham de ser liberta­ apenas ele tem o direito de tirá-la ou
das. Se um servo quisesse permane­ de autorizar que seja tirada (Rm 13).
cer com o seu senhor, marcava-se Deus faz distinção entre assas­
sua orelha, e ele permanecia para sinato deliberado e morte acidental
sempre na casa. Veja Deuteronô- ou homicídio culposo (vv. 12-13).
124 Êxodo 21-23

As cidades de refúgio existiam para dor não é acusado. Contudo, se o


proteger pessoas que mataram por crime acontece à luz do dia, quan­
acidente (Nm 2>5'.6ss). Naquela épo­ do o proprietário pode pedir ajuda
ca, não havia polícia, e a família ou mesmo reconhecer o invasor e
da pessoa morta via-se obrigada a acusá-lo depois, então o matador é
vingar a morte do ente querido. Por culpado de homicídio.
isso, era necessário proteger o ino­ Moisés também lida com danos
cente até que o caso fosse investiga­ a propriedades causados por ani­
do pelos anciãos. mais que se alimentam em outros
Observe que Deus considera o campos que não os de seu dono (v.
proprietário de um animal respon­ 5) ou por fogo incontrolado (v. 6) e a
sável pelo que o animal faz a outros perda de propriedade entregue aos
(vv. 28-36) quando já se sabe que cuidados de outros (vv. 7-15). Os
o animal é perigoso. A lei certifica- juizes, nessas circunstâncias espe­
se de que ninguém tire vantagem cíficas, podem investigar os princí­
de uma situação como essa e lucre pios a fim de que estes os ajudem a
com ela. decidir os casos, porém Moisés não
Os versículos 22-23 são fun­ explica isso em detalhes.
damentais em relação à posição
pró-vida em relação ao aborto, pois IV. Respeito à humanidade (22:16-31)
indicam que o aborto de um feto Essa série de leis variadas revela a
equivale ao assassinato da crian­ preocupação de Deus com a huma­
ça. Punia-se a parte culpada com nidade, e seu desejo de que não se
a morte ("vida por vida") se a mãe explore as pessoas. Isso inclui as vir­
ou a criança não-nascida, ou am­ gens (vv. 16-17; veja Dt 22:23-24),
bas, morresse. Veja também Sal­ os forasteiros (v. 21), as viúvas (vv.
mos 139:13-16. 22-24) e os pobres (vv. 25-27). Deus
promete ouvir o clamor dos que fo­
III. Proteção à propriedade ram prejudicados e defender os po­
privada (22:1-15) bres e os oprimidos.
Aqui, Moisés lida com diversos ti­ Não se permite que feiticei­
pos de furto e, mais uma vez, ele ras e feiticeiros vivam, porque eles
afirma que o ladrão deve compen­ têm ligação com os poderes de­
sar a pessoa prejudicada. Contudo, moníacos que atuam nas religiões
observe que Deus considera sagra­ ímpias das nações que rodeiam
da até mesmo a vida do ladrão que Israel. Veja Levítico 19:31; 20:27
arromba uma casa! Se ele arromba e Deuteronômio 18:9-12. As práti­
a casa à noite e é morto, o mata­ cas ocultas modernas são um con­
Êxodo 21-23 125

vite para que Satanás trabalhe e Deus, no que se refere à apli­


destrua vidas. cação da lei, não quer que se jus­
Deus também proíbe o coito tifique o ímpio (v. 7; 2 Cr 6:23). No
com animais (veja Lv 20:15-16; Dt entanto, no que se refere a salvar o
27:21). Essa prática fazia parte da pecador perdido, Deus, em sua gra­
adoração pagã de ídolos e avilta a ça, justifica o ímpio (Rm 4:5). Ele
sexualidade humana, um dom pre­ pode fazer isso porque o Filho de
cioso de Deus. Deus propiciou a punição por nos­
O povo devia respeitar seus sos pecados na cruz.
governantes e não amaldiçoá-los,
como também respeitar Deus. De VI. A celebração de momentos
acordo com Romanos 13, as au­ santos (23:10-19)
toridades foram estabelecidas por Há ligação entre a adoração de
Deus. Se amaldiçoarmos um líder, Deus e o trabalho da terra (que per­
corremos o risco de amaldiçoar tence a Deus). Em Israel, as festivi­
Deus, que estabeleceu a autoridade dades religiosas ligavam-se ao ano
do governo. agrícola em uma série de "setes".
Os versículos 29-31 vão ao cer­ Veja Levítico 23. O sétimo dia era
ne da obediência à Lei: pôr Deus em sábado, ou shabbath, e o sétimo
primeiro lugar em sua vida, e obede­ ano era o ano sabático. Depois da
cer ao que ele diz com alegria. Essa Páscoa, celebrava-se a Festa dos
é a versão do Antigo Testamento de Pães Asmos durante sete dias. O
Mateus 6:33. sétimo mês iniciava-se com a Festa
das Trombetas e incluía também o
V. A atribuição de justiça (23:1-9) Dia da Expiação e a Festa dos Ta­
Em Israel, o sistema judicial, como bernáculos (Cabanas).
nosso sistema de tribunais de hoje, O sábado, ou shabbath, se­
dependia de leis justas, juizes hones­ manal não apenas lembra os ju­
tos e testemunhas fidedignas. As leis deus que pertencem a Deus, mas
de Deus eram justas, mas podiam também mostra o cuidado de Deus
ser mal interpretadas, de forma deli­ com a saúde do homem, do animal
berada, por um juiz injusto, ou uma e a "saúde" da terra. O ano sabático
testemunha mentirosa podia dar fal­ propicia uma oportunidade ainda
so testemunho. O julgamento não maior de descanso e de restaura­
deve ser influenciado pela maioria ção. Deus preocupa-se com a forma
(v. 2), pelo dinheiro (vv. 3,6,8), por como usamos os recursos naturais
sentimentos pessoais (vv. 4-5) ou que nos deu graciosamente. Se hoje
por posição social (v. 9). as pessoas tivessem isso em mente,
126 Êxodo 21-23

haveria menos exploração dos re­ práticas idólatras das outras nações.
cursos humanos e naturais. Deus prometeu saúde, prosperidade
A Páscoa fala da morte de Jesus e segurança a seu povo se este lhe
Cristo, o Cordeiro de Deus (Êx 12; obedecesse, pois essas bênçãos fa­
Jo 1:29); a Festa das Primícias é um ziam parte de sua aliança. Ele não
símbolo da ressurreição dele (1 Co garantiu essas mesmas bênçãos ao
15:23); e a Festa dos Tabernáculos seu povo da Nova Aliança de hoje,
lembra-nos de sua nova vinda e do mas prometeu suprir todas as nos­
futuro reino de alegria e plenitude sas necessidades e capacitar-nos a
(Zc 14:16-21). fim de vencermos nossos inimigos
A enigmática afirmação a res­ espirituais. Muito da "pregação de
peito de crianças e leite materno prosperidade" de hoje fundamenta-
refere-se à prática pagã que fazia se em uma interpretação errónea da
parte de um rito idólatra de fertili­ Antiga Aliança que Deus fez com os
dade (veja 34:26 e Dt 14:21). Moi­ judeus.
sés conectou essa lei aos festivais de Israel conquistou a terra prome­
colheita porque era nessas ocasiões tida e destruiu as cidades e os ído­
que se praticavam os rituais pagãos los de seus habitantes ímpios. Mas
de fertilidade. o povo de Deus, de forma gradual,
começou a promover a paz com os
VII. A conquista da terra vizinhos e a aprender a adorar os
prometida (23:20-33) falsos deuses e deusas deles. Isso
Deus prometeu vitória ao seu povo levou disciplina à terra (livro de Jui­
porque seu anjo iria à frente dele e zes) e, por fim, levou à escravidão,
o ajudaria a vencer seus inimigos, quando foram levados para longe
se a nação obedecesse fielmente a da terra. Entretanto, antes de julgar­
seus mandamentos. O povo tinha mos Israel de forma muito severa
a posse da terra apenas pela graça por isso, precisamos nos perguntar
de Deus, mas o usufruto da terra de­ sobre a quantidade de concessões
pendia da fé e da fidelidade dele. que, hoje, o povo de Deus faz aos
Uma vez em sua terra, o povo deuses deste mundo, como o di­
devia ter cuidado em não imitar as nheiro, o prazer e o sucesso.
Êx o d o 2 4 senta o perdão gracioso de Deus de
nosso pecado, e o sangue aspergido
Moisés recebe de Deus o padrão di­ sobre as pessoas comprometia-as a
vino para o tabernáculo e o sacer­ ter uma vida de obediência. Hoje,
dócio. Deus, sempre que nos cha­ asperge-se os crentes com o sangue
ma para fazer um trabalho, dá-nos de Cristo em um sentido espiritual,
os planos e espera que sigamos sua e eles comprometem-se a obedecer
vontade. O ministério não se reali­ à vontade dele (1 Pe 1:2).
za por nossas tentativas de inventar
formas de servir a Deus, mas pela II. A visão do Senhor (24:9-18)
busca da vontade dele e pela obedi­ Setenta e cinco homens subiram a
ência a ela (Is 8:20). montanha: Moisés, Josué, Arão e
seus dois filhos, Nabade e Abiú, e
70 dos anciãos de Israel. Na mon­
I. A confirmação da aliança (24:1 -8) tanha, eles viram a glória de Deus
O povo devia estabelecer um rela­ e ali comeram e beberam na pre­
cionamento de aliança com Deus, sença dele. Talvez você ache que o
antes que Moisés e os líderes da versículo 11 deveria declarar: "Eles
nação pudessem subir a montanha viram Deus e abaixaram a face em
para se encontrar com Deus. Moisés temor". Contudo, ele declara que
compartilhou a Palavra de Deus com eles viram Deus "e comeram, e be­
o povo, e este concordou em obe­ beram". Eles podiam ter comunhão
decer. Como eles entendiam pouco com Deus e uns com os outros por
o próprio coração! Eles deviam ter causa do sangue aspergido sobre o
dito: "Com a ajuda de Deus, obe­ altar. Nós, embora não estejamos na
deceremos à sua Lei". Depois de montanha, podemos comer e beber
poucas semanas, a nação adorou a glória de Deus (1 Co 10:31) e vi­
um ídolo e violou a mesma Lei que ver todos os dias na presença do Se­
prometera obedecer. nhor.
Confirmou-se a aliança com Deus pediu que Moisés subisse
sacrifícios e com a aspersão do san­ mais alto para que pudesse dar-lhe
gue sobre o Livro da Aliança e so­ as instruções para a construção do
bre as pessoas que concordaram em tabernáculo e estabelecer o ministé­
obedecer. As doze pedras do altar rio sacerdotal. Ele deixou Arão e Hur
representam as doze tribos de Isra­ com os anciãos e levou Josué à nu­
el, indicando que cada tribo com­ vem de glória com ele. Josué, men­
prometera-se a obedecer à voz de cionado pela primeira vez em Êxo­
Deus. O sangue sobre o altar repre­ do 17:9, por fim, torna-se o sucessor
128 Êxodo 24

de Moisés. Não sabemos quem era seu servidor; depois, Moisés, quan­
Hur, mas ele e Arão ajudam Moisés do entrou na nuvem e na presença
a orar pela vitória de Josué na bata­ do Senhor, deixou Josué para trás.
lha contra amalequitas (Êx 17:8-1 6). Deus, sob a Lei, determina quan­
Arão deve ter descido da montanha, to as pessoas podem se aproximar
pois, no capítulo 32, nós o vemos dele. Contudo, sob a graça, somos
ajudando as pessoas a fazer o bezer­ nós que determinamos nossa proxi­
ro de ouro. Quando abandonamos midade com Deus. Deus convida-
nosso local de ministério, não ape­ nos a comungar com ele. Os anci­
nas pecamos, mas podemos levar ãos adoraram Deus "de longe" (v.
outras pessoas a pecar. Veja João 21. 1), mas hoje somos convidados a
Na época do Antigo Testamen­ nos aproximar dele (Hb 10:22; Tg
to, Deus, com frequência, revelava 4:8). Que privilégio comungar com
sua glória em uma nuvem (19:9,16). Deus, e que tragédia que fracasse­
Ele guiou a nação com uma colu­ mos em passar tempo na presença
na de nuvem e de fogo (Êx 13:21- dele com tanta frequência.
22). "O S enhor , teu Deus, é fogo Nabade e Abiú receberam o
que consome" (Dt 4:24; Hb 12:29). privilégio gracioso de ver a glória de
Moisés não se atreveu a aproximar- Deus; no entanto, mais tarde, eles
se de Deus até que ele o chamasse, presunçosamente desobedeceram
mas, quando Deus o chamou, Moi­ a Deus e foram mortos (Lv 10:1-5).
sés obedeceu. É possível aproximar-se de Deus e,
Pode-se crer em Deus, fazer depois, afastar-se e pecar. É muito
parte da aliança dele e, contudo, importante que o resultado de nos­
não estar próximo de Deus. A nação sa adoração pessoal ao Senhor seja
estava na base da montanha; os 70 um coração puro e um espírito ina­
anciãos, Arão, Hur, Nabade e Abiú balável (Sl 51:10), pois eles trazem
estavam mais acima na montanha; grandes privilégios e até responsabi­
Moisés subiu mais alto com Josué, lidade mais excelente.
Êx o d o 2 5 para a construção (vv. 1-9). Essa era
uma oferta única, que devia partir
Génesis registra que Deus caminhou de um coração disposto (veja 35:4-
com seu povo (Gn 3:8; 5:22,24; 6:9; 29). Aqui, enumeram-se 14 tipos di­
17:1). Contudo, em Êxodo, Deus ferentes de materiais: de pedras pre­
disse que queria habitar com seu ciosas e ouro a fios de várias cores.
povo (Êx 25:8; 29:46). O taberná­ Posteriormente, Paulo usa a imagem
culo construído por Moisés foi a de "ouro, prata, pedras preciosas"
primeira de muitas habitações que ao escrever a respeito da constru­
Deus abençoou com sua presença ção da igreja local (1 Co 3:1 Oss). É
gloriosa (Êx 40:34-38). Contudo, importante notar que as várias pe­
quando Israel pecou, a glória se foi ças de mobiliário foram construídas
(1 Sm 4:21-22). O templo de Salo­ e, portanto, podiam ser carregadas,
mão foi seu segundo local de ha­ pois o tabernáculo enfatiza que so­
bitação (1 Rs 8:10-11). O profeta mos um povo peregrino. Mudou-se
Ezequiel viu a partida da glória (Ez o desígnio para o templo de Salo­
8:4; 9:3; 10:4,18; 11:23). A glória mão, pois o templo retrata a habi­
de Deus retornou à terra na pessoa tação permanente do povo de Deus
de seu Filho, Jesus Cristo (Jo 1:14, no glorioso Reino de Deus.
em que "habitar" significa "viver no Sem entrar em detalhes ente-
tabernáculo"), e os homens o pre­ diantes, analisaremos as várias pe­
garam na cruz. Hoje, as pessoas de ças de mobiliário do tabernáculo
Deus são o templo dele, de forma e as lições espirituais que transmi­
universal (Ef 2:20-22), local (1 Co tem.
3:16) e individual (1 Co 6:19-20).
Em Ezequiel 40—46, promete-se o II. A arca do Testemunho (25:10-22)
reinado do templo em que a glória Deus iniciou a construção pela arca
de Deus habitará (Ez 43:1 -5). Vemos porque era a peça de mobília mais
também que a presença de Deus importante na tenda. Ela era o tro­
com seu povo será eterna na mora­ no de Deus sobre o qual repousava
dia celestial (Ap 21:22). sua glória (v. 22; SI 80:1 e 99:1).
Ela fala da humanidade (madeira)
e deidade (ouro) de nosso Senhor
I. Ofertas para o santuário (25:1-9) Jesus Cristo.
Deus deu a Moisés o padrão para Havia três itens especiais den­
a construção do tabernáculo (v. 9), tro da arca: as tábuas da Lei (v. 16),
mas pediu que as pessoas contri­ o bordão de Arão que florescera
buíssem com o material necessário (Nm 16— 17) e um vaso de maná
130 Êxodo 25

(Êx 16:32-34). O interessante é que pedras do peitoral do juízo gravadas


cada um desses três itens está ligado com os nomes delas (28:15-25) e
à rebelião do povo de Deus: as tá­ pelos 12 pães sobre a mesa no Santo
buas da Lei à confecção do bezerro Lugar. Os pães são um lembrete de
de ouro; o bordão de Arão à rebe­ que as tribos estão constantemente
lião liderada por Corá; e o maná à na presença de Deus, e de que Deus
murmuração de Israel no deserto. vê tudo que fazem (veja Lv 24:5-9).
Se não fosse pela tampa (NVI) O pão também lembrava que
misericordiosa sobre a arca, sobre Deus alimentou seu povo ("O pão
o qual se espargia sangue todos os nosso de cada dia dá-nos hoje" [Mt
anos no Dia da Expiação (Lv 16:14), 6:11]), que seu povo devia continu­
esses três itens dentro da arca po­ ar alimentando-se com a verdade
diam trazer julgamento para Israel. de Deus (Mt 4:4), e que Israel devia
O derramamento de sangue cobriu "alimentar" os gentios e testemu­
o pecado das pessoas, portanto nhar para eles. Deus chamou Israel
Deus viu o sangue, e não a rebelião para ser uma bênção para os gen­
delas. A palavra "tampa" também tios, assim como o pão é alimento
significa "propiciatório", e Jesus para a humanidade. Mas nem sem­
Cristo é a propiciação (tampa) para pre o povo de Israel cumpriu seu
nós hoje (Rm 3:25; 1Jo 2:2). Vamos chamado.
a Deus por intermédio dele e ofere­ Toda semana, trocavam-se os
cemos nossos sacrifícios espirituais pães, e apenas os sacerdotes po­
(1 Pe 2:5,9). diam comer esse pão santo. Veja
As vezes, a expressão "sob suas Levítico 22. Davi pôde comer o pão
asas" refere-se às asas do querubim porque era o rei ungido de Deus, e
mais que às asas da mãe. Estar "sob o pão não estava mais sobre a mesa.
suas asas" significa habitar no San­ Deus está mais preocupado em sa­
to dos Santos em estreita comunhão tisfazer as necessidades dos homens
com Deus. Veja Salmos 36:7-8 e que em proteger rituais sagrados (Mt
61:4. 12:3-4).

111. A mesa dos pães da proposição IV. O candelabro de ouro (25:31 -40)
(25:23-30) A palavra "castiçal" é um engano,
No tabernáculo, as 12 tribos de Israel pois essa peça era um candelabro
foram representadas de três formas: cuja luz alimentava-se com azeite
pelas duas pedras nas ombreiras da (veja Lv 24:2-4; Zc 4). O candelabro
estola sacerdotal gravadas com os individual de ouro que dá a luz de
nomes delas (Êx 28:6-14); pelas 12 Deus ao mundo imerso nas trevas
Êxodo 25 131

representa a igreja local (Ap 1:12- nos ilumina enquanto caminhamos


20). O candelabro no Santo Lugar por este mundo (SI 119:105). Isra­
fala de Jesus Cristo, a luz do mun­ el devia ser luz para os gentios (Is
do (Jo 8:12). O azeite das lâmpadas 42:6; 49:6), mas fracassou em sua
lembra-nos o Espírito Santo que nos missão. Hoje, cada crente é luz de
unge (1 Jo 2:20). Alguns estudiosos Deus (Mt 5:14-16), e cada igreja lo­
vêem o candelabro de ouro como cal deve brilhar neste mundo escuro
um retrato da Palavra de Deus que (Fp 2:12-16).
Êx o d o 2 6 - 2 7 lho", e outra de peles finas. Naquela
época, era comum o uso desses ma­
teriais entre os povos nómades.

II. A estrutura (26:15-30)


A combinação de madeira coberta
de ouro aponta para a humanidade
e a deidade de nosso Senhor Jesus
Cristo. O tabernáculo tinha muitas
I. As cortinas e as cobertas (26:1 -14) partes, mas o consideravam como
No interior do tabernáculo, visto uma estrutura única. E o que o des­
apenas pelo sumo sacerdote, havia tacava e tornava-o realmente espe­
cortinas de linho colorido pendura­ cial era a glória de Deus que habi­
das na estrutura de madeira. Deus tava nele.
construiu algo belo nas paredes in­ As bases de prata eram neces­
ternas e no teto do tabernáculo não sárias para dar equilíbrio à estrutu­
apenas pela utilização de cores, ra, bem como para firmá-la sobre
mas também pelos querubins sobre o chão do deserto. A prata dessas
as cortinas. O mandamento contra a bases veio do "dinheiro das expia­
confecção de imagens gravadas não ções" pago por todo homem com
impediu as pessoas de se envolve­ 20 anos ou mais (Êx 30:11-16). As
rem no trabalho artístico e fazerem tábuas do tabernáculo repousavam
coisas bonitas, pois elas não preten­ sobre as bases de prata, e as cortinas
diam adorar essas coisas que fize­ eram penduradas por colchetes de
ram para a glória de Deus. bronze. Hoje, o fundamento para
Lembre-se de que o próprio ta­ nossa adoração é a redenção que
bernáculo era uma tenda localiza­ temos em Cristo.
da em um átrio com várias cobertas
postas sobre a estrutura de madeira. III. Os véus (26:31-37)
Há quatro cobertas distintas: duas A cortina interna pende entre o San­
internas, tecidas, e duas exteriores, to Lugar e o Santo dos Santos, e o
de pele de animais. A coberta mais sumo sacerdote a atravessava ape­
interna foi confeccionada em linho, nas uma vez por ano, no Dia da
belamente colorido, coberto com Expiação (Lv 16). Hebreus 10:19-20
tecido confeccionado com pêlos de ensina que esse véu representa o
cabra. Depois, temos as duas cober­ corpo de nosso Senhor Jesus Cristo,
tas de proteção da tenda — uma de que nos foi dado na cruz. Quando
"peles de carneiro tintas de verme­ Jesus entregou seu espírito, o véu do
Êxodo 26-27 133

santuário se rasgou em duas partes sou o fogo do julgamento por nós


de alto a baixo, permitindo, assim, e deu-se como sacrifício pelos nos­
que qualquer pessoa entre a qual­ sos pecados.
quer momento na presença de Deus
(Mt 27:50-51). V. O átrio do tabernáculo (27:9-19)
O véu externo pendia de lado O átrio era rodeado de cortinas de
a lado das cinco colunas que for­ linho com uma bonita "entrada" te­
mavam a entrada da tenda da con­ cida que abria para o local em que
gregação e era visível para os que ficava o altar de bronze. Ao olhar
vinham ao altar de bronze com seus a imagem completa, vemos que o
sacrifícios. No entanto, esse véu im­ tabernáculo tem três partes: o átrio
pedia que, de fora, qualquer pessoa externo, que todos podem ver; o
olhasse o Santo Lugar. Santo Lugar, no qual estão o cande­
labro, a mesa e o altar de incenso; e
IV. O altar de bronze (27:1-8) o Santo dos Santos, onde está a arca
Havia dois altares ligados ao ta­ do Testemunho.
bernáculo — um altar de bronze Essa divisão tripla indica a na­
para os sacrifícios e um altar de tureza tripla do ser humano — es­
ouro para a queima de incenso (Êx pírito, alma e corpo (1 Ts 5:23). Da
30:1-10). O altar de bronze ficava mesma forma que o Santo Lugar e o
no átrio do tabernáculo, logo na Santo dos Santos são duas partes de
entrada. Havia uma entrada e um uma estrutura, nossa alma e espírito
altar, exatamente como há apenas encerram nosso "homem interior"
um caminho para a salvação do pe­ (2 Co 4:16). Moisés podia baixar as
cador perdido (At 4:12). cortinas do átrio externo, e isso não
Na consagração do taberná­ afetaria a tenda. Da mesma forma,
culo, Deus acendeu o fogo do altar, nosso corpo, quando morremos, vai
e o sacerdote era responsável por para o pó, mas nosso espírito e alma
mantê-lo aceso (Lv 6:9-13). Dispu­ vão para junto de Deus e não são
nha de recipientes e de pás para afetados pela mudança (2 Co 5:1-8;
limpar as cinzas, bacias para a ma­ Tg 2:26).
nipulação do sangue e garfos para
o sacerdote dividir a oferenda. Esse VI. O azeite para o candelabro
altar representa a morte sacrificial (27:20-21)
de nosso Senhor na cruz. Ele é re­ Zacarias 4:1-6 indica que o azeite
tratado em todos os sacrifícios que para o candelabro é um símbolo
Deus ordenou que Israel trouxesse do Espírito Santo de Deus. Um dos
(Lv 1—5; Hb 10:1-14). Ele atraves­ ministérios do Espírito é glorificar
134 Êxodo 26-27

o Senhor Jesus Cristo, da mesma continuamente" (27:20; Lv 24:2).


forma que a luz brilha no boni­ Parece que apenas o sacerdote po­
to candelabro de ouro Qo 16:14). dia trocar o pavio e repor o azeite.
Quando os sacerdotes ministram Toda manhã e toda noite, quando o
no Santo Lugar, eles caminham na sumo sacerdote queimava incenso,
luz fornecida por Deus (1 Jo 1:5- também devia preparar as lâmpa­
10). A lâmpada devia estar "acesa das (Êx 30:7-8).
Êx o d o 2 8 I. O estofo (28:6-14)
"Estola sacerdotal" é uma transli-
Esse capítulo foca a vestimenta dos teração da palavra hebraica que
sacerdotes, enquanto o capítulo 2 9 descreve uma peça de vestuário es­
trata principalmente da consagração pecífica — um casaco sem manga
dos sacerdotes. Lembre-se, quando feito do mesmo material e com as
estudar esses dois capítulos, que mesmas cores dos reposteiros do ta­
todo o povo de Deus era sacerdote bernáculo. Ele era preso ao ombro
(1 Pe 2 :5 ,9 ). Além disso, o sacerdó­ por engastes especiais, e cada om­
cio aarônico ensina-nos a respeito breira tinha uma pedra de ônix gra­
dos privilégios e das obrigações que vada com os nomes de seis tribos de
temos como sacerdotes de Deus. (O Israel. O sumo sacerdote carregava
sacerdócio de nosso Senhor vem da seu povo nos ombros quando servia
ordem de Melquisedeque, não da ao Senhor. O sumo sacerdote usava
de Arão. Veja Hebreus 7—8.) Ob­ um bonito cinto em volta da esto­
serve que os sacerdotes, acima de la sacerdotal como um lembrete de
tudo, ministram ao Senhor, embora que era um servo.
também ministrem ao povo do Se­
nhor. Os sacerdotes representavam II. O peitoral (28:15-30)
as pessoas diante de Deus e minis­
Era uma bonita "algibeira" de tecido
travam no altar, contudo a primeira
que tinha doze pedras preciosas no
obrigação deles era servir ao Senhor
lado externo e o Urim e oTumim no
(vv. 1 ,3 ,4 ,4 1 ). Da mesma forma
que servimos às pessoas de forma bolso. Ele ficava sobre o coração do
correta, também devemos servir ao sumo sacerdote e era fechado com
Senhor de forma satisfatória. A ves­ argolas de ouro e com fita azul. O
timenta mais interna dos sacerdotes sumo sacerdote carregava as doze
eram calções de linho (v. 4 2 ), cober­ tribos de Israel não apenas sobre
tos por uma túnica de linho fino (vv. os ombros, mas também sobre o
3 9 -4 1 ). O sumo sacerdote vestia por coração. Jesus Cristo, nosso sumo
cima disso a estola sacerdotal de es­ sacerdote no céu, tem seu povo no
tofo azul da sobrepeliz (vv. 3 1 -3 5 ) e coração e sobre seus ombros quan­
vestia por cima do estofo a própria do intercede por nós e capacita-nos
sobrepeliz e a estola sacerdotal (vv. para ministrar neste mundo.
6-30). O sumo sacerdote também Os nomes das tribos nas pe­
usava um turbante de linho (mitra) dras sobre os dois ombros estavam
com uma lâmina de ouro com a se­ posicionados de acordo com a or­
guinte frase gravada: "Santidade ao dem de nascimento delas (v. 10),
Se n h o r" (vv. 3 6 -3 8 ). enquanto, no peitoral, as tribos es­
136 Êxodo 28

tavam na ordem estabelecida pelo bilo ao servir ao Senhor, e as romãs,


Senhor (Nm 10). Deus vê seu povo fecundidade.
como jóias preciosas — cada uma Note que o sumo sacerdote dei­
é diferente da outra, mas todas xa de lado essa vestimenta gloriosa
são bonitas. Em hebraico, Urim quando ministra no Dia da Expiação
e Tumim significam "luzes e per­ anual (Lv 16:4). Nesse dia, ele usa a
feição". Em geral, pensa-se que vestimenta simples de linho dos sa­
eram pedras usadas para determi­ cerdotes, ou levitas, um retrato da
nar a vontade de Deus para seu humilhação de Cristo (Fp 2:1-11).
povo (Nm 27:21; 1 Sm 30:7-8).
No Oriente, é comum usar pedras IV. A coroa sagrada (28:36-39)
brancas e pretas na tomada de de­ O turbante (mitra) era um simples
cisões. A pedra branca significa capelo de linho branco, talvez um
"sim", e a pedra preta, "não". É capelo semelhante ao usado pe­
insensato ser dogmático a respeito los chefes de cozinha modernos,
dessa interpretação porque não te­ apenas não tão alto. Havia uma
mos informação suficiente em que lâmina de ouro sobre o turbante,
nos fundamentarmos. É suficiente presa com fita azul, em que esta­
dizer que Deus forneceu ao povo va escrito: "Santidade ao S e n h o r ".
da Antiga Aliança uma forma de Essa peça era chamada de "coroa
determinar a vontade dele, e hoje sagrada" (29:6; 39:30; Lv 8:9) e en­
ele nos deu sua Palavra e seu Espí­ fatizava o fato de que Deus queria
rito Santo para nos orientar. que seu povo fosse santo (Lv 11:44;
19:2; 20:7). A nação era aceita
III. A túnica da estola diante de Deus por causa do sumo
sacerdotal (28:31-35) sacerdote (v. 38), da mesma forma
Era uma peça azul sem costuras com que o povo de Deus é aceito em Je­
uma abertura para passar a cabeça, sus Cristo (Ef 1:6). Hoje, o povo de
com campainhas de ouro, e a orla Deus é um sacerdócio santo (1 Pe
decorada com romãs de estofo azul. 2:5, NVI) e um sacerdócio real
As romãs de estofo azul impediam (1 Pe 2:9, NVI).
que as campainhas encostassem
umas nas outras. Quando o sumo V. A vestimenta dos
sacerdote ministrava no Santo Lu­ sacerdotes (28:40-43)
gar, as campainhas tocavam permi­ Os filhos de Arão servem como sa­
tindo que os de fora soubessem que cerdotes e têm de usar as vestimen­
ele ainda estava servindo a eles e ao tas estabelecidas. O fino linho de
Senhor. As campainhas indicam jú­ todas as vestimentas lembra-nos a
Êxodo 28 137

retidão que deve caracterizar nosso de cultos pagãos conduzem seus


caminhar e nosso serviço. Os sacer­ rituais de forma impudica, mas os
dotes corriam o risco de morrer se sacerdotes do Senhor tinham de
não usassem as vestimentas apro­ cobrir sua nudez e praticar a mo­
priadas. Às vezes, os sacerdotes déstia.
Êx o d o 2 9 to" e vestir a "roupa da graça" (Cl
3:1 ss). A vestimenta diferenciada do
A consagração de sacerdotes ensi­ sacerdote identifica-o como o ser­
na-nos muito sobre nosso relaciona­ vo santo de Deus, separado para o
mento com o Senhor. ministério do Senhor. Como obser­
vamos antes, o óleo santo da unção
simboliza o Espírito de Deus, que
sozinho pode capacitar-nos para o
serviço (30:22-33).
I. A cerimónia (29:1-9)
Arão e seus filhos não escolheram II. Os sacrifícios (29:10-37)
o sacerdócio por si mesmos, mas De acordo com a lei do Antigo
foram escolhidos por Deus. Este foi Testamento, há três agentes de
um ato da graça de Deus. Não se purificação: a água, o sangue e o
permitia que nenhum forasteiro (al­ fogo. O sacerdote deve purificar-se
guém de fora) entrasse no sacerdó­ por meio do sangue sacrificial (Lv
cio (Nm 3:10), nem mesmo um rei 17:11). A cada dia, sacrificava-se
(2 Cr 26:1 6-23). um novilho como oferta pelo peca­
O banho retrata a pureza que do por toda a semana de consagra­
alcançamos por meio da fé em Je­ ção (v. 36), oferecia-se o primeiro
sus Cristo (1 Co 6:9-11; Ap 1:5; At carneiro como oferenda cozida,
15:9), um banho único, de uma vez um símbolo de total dedicação a
por todas, que não precisamos repe­ Deus. Aplicava-se o sangue do se­
tir nunca Oo 13:1-10). O sacerdote gundo carneiro à orelha direita, aos
precisava banhar-se diariamente no polegares da mão e do pé de Arão
vaso, o que se refere à nossa puri­ e de seus filhos, retratando a con­
ficação diária quando confessamos sagração deles para ouvir a Palavra
nossos pecados (1 Jo 1:9). de Deus, fazer o trabalho de Deus
Nas Escrituras, com frequên­ e seguir o caminho de Deus. Esse
cia, a vestimenta simboliza caráter segundo carneiro torna-se uma
e conduta. Diante de Deus, nossa oferta "movida" e, depois, oferta
justiça é como trapo de imundícia queimada.
(Is 64:6), e não podemos nos vestir Guardavam-se partes do se­
com obras boas como Adão e Eva gundo novilho para uma refeição
tentaram fazer (Gn 3:7). Quando especial que apenas os sacerdotes
cremos em Cristo, vestimos a justiça comiam (Lv 7:28-38). Deus orde­
dele (2 Co 5:21; Is 61:10). Devía­ nou que certas partes de alguns sa­
mos tirar a "roupa de sepultamen- crifícios pertenciam aos sacerdotes
Êxodo 29 139

como pagamento pelo ministério às nossa "hora devocional" matinal.


pessoas. "Reavives o dom de Deus" (2 Tm
1:6) significa literalmente: "Atice o
111. A queima contínua de oferendas fervor ao máximo". O fogo do al­
(29:38-46) tar de nosso coração diminui com
Agora o Senhor descreve as tarefas facilidade (Ap 2:4); dessa maneira,
ministeriais dos sacerdotes, inician­ tornamo-nos mornos (Ap 3:16) e
do com a oferenda queimada a ser até frios (Mt 24:12). O tabernáculo
feita todos os dias pela manhã e era consagrado (separado) pela gló­
ao entardecer. Todas as manhãs, a ria de Deus (v. 43) quando a glória
primeira obrigação dos sacerdotes de Deus movia-se para o Santo dos
era recolher as cinzas antigas do al­ Santos (Êx 40:34). Israel era a única
tar, manter o fogo aceso e, depois, nação que possuía "a glória" (Rm
oferecer o cordeiro ao Senhor, um 9:4). O Espírito de Deus vive em
símbolo da total devoção a Deus. nós, e, por isso, somos pessoas se­
Veja Levítico 6:8-13. Essa é uma paradas que trazem glória a Deus
bonita imagem de como deve ser (2 Co 6:14—7:1).
Êx o d o 3 0 feita pelo sumo sacerdote toda ma­
nhã e todo entardecer, lembra-nos
Deus queria que seu povo fosse um que devemos iniciar e encerrar o
"reino de sacerdotes" (19:6). Hoje, dia com oração e orar "sem cessar"
todas as pessoas de Deus são sa­ durante o dia (1 Ts 5:17). O sacer­
cerdotes (1 Pe 2:5,9; Ap 1:6), mas, dote conserva o aroma do incenso
na época do Antigo Testamento, a durante todo o dia.
nação de Israel tinha um sacerdote Os versículos 34-38 dão a com­
que a representava diante de Deus. posição especial do incenso, e não
Toda a nação devia ser o que o sa­ se devia usar essa fórmula para pro­
cerdote era. Que tipo de pessoa cria pósitos comuns. Da mesma forma,
um "reino de sacerdotes"? a oração é algo especial, e Deus
decretou os requerimentos necessá­
rios para a oração efetiva. Não de­
I. A pessoa que ora (30:1-10,34-38) viam usar "incenso estranho" (v. 9) e
Como vimos, há dois altares envolvi­ "fogo estranho" (Lv 10:1) no altar de
dos nos cultos do tabernáculo — um Deus. Não importa quão fervorosa
altar de bronze para os sacrifícios de seja a oração, não será respondida
sangue e um de ouro para o incenso. se não estiver de acordo com o de­
O ouro que cobre a madeira repre­ sejo de Deus.
senta a deidade e a humanidade do
Salvador e lembra-nos que podemos II. A pessoa agradecida (30:11-16)
orar ao Pai apenas por causa da obra A celebração anual da Páscoa de­
de intercessão de seu Filho. Traze­ via lembrar o povo de que a nação
mos nossos pedidos em nome de Je­ fora redimida da escravidão, e esse
sus Cristo Co 14:12-15). "imposto de censo" anual era ou­
A queima de incenso retrata tro lembrete da redenção dele (veja
a oferenda de nossas orações (SI 1 Pe 1:18-19). Originalmente, usa­
141:2; Lc 1:10; Ap 5:8). O fogo va-se prata para os colchetes e as
que consome o incenso lembra-nos bases do tabernáculo (38:25-28).
o Espírito Santo, pois sem ele não Anos mais tarde, isso ajudou a pa­
podemos orar com sinceridade (Rm gar a manutenção da casa de Deus
8:26-27; Jd 20). O altar de ouro fica (Mt 17:24-27). Quando Davi impe­
antes do véu, fora do Santo dos San­ tuosamente fez o censo sem rece­
tos, mas temos o privilégio de ousa­ ber o "dinheiro do resgate", Deus
damente estar na presença de Deus mandou uma praga à nação (1 Cr
e fazer pedidos a ele (Hb 4:14-16; 21:1-17). É perigoso usar "estatís­
10:19-22). A queima de incenso ticas religiosas" para louvar o ho­
Êxodo 30 141

mem, e não para a glória de Deus. der purificador de Deus Oo 15:3; Ef


Devemos agradecer a Deus a re­ 5:25-27; SI 119:9). Somos "lavados
denção que recebemos em Cristo e completamente" de uma vez por
estar desejosos de dar a ele a glória todas quando confiamos em Jesus
que lhe é devida. Cristo, mas precisamos confessar
nossos pecados e "lavar nossas mãos
III. A pessoa purificada (30:17-21) e pés" se queremos desfrutar de co­
A bacia dè bronze ficava entre o al­ munhão com o Senhor (Jo 13:1-11;
tar de bronze e a tenda, e usava-se 1 Jo 1:9).
a água que havia nela para o ceri­
monial de purificação das mãos e IV. A pessoa ungida (30:22-33)
dos pés dos sacerdotes. Como não O óleo para a unção dos sacerdo­
havia piso no tabernáculo, os pés tes, como o incenso para o altar de
deles ficavam sujos. Além disso, a ouro, era um artigo especial; não
manipulação dos sacrifícios macu­ podia ser copiado nem profanado
lava as mãos deles. Pode-se ser ma­ em uso comum. Apenas podia-se
culado mesmo enquanto servimos despejá-lo sobre os sacerdotes, e as
ao Senhor. pessoas comuns não podiam usar
A bacia foi feita com o bronze esse unguento. É maravilhoso que
dos espelhos (38:8). Já que o espe­ hoje todo o povo de Deus seja un­
lho retrata a Palavra de Deus (Tg gido com o Espírito (1 Jo 2:20,27;
1:23-25), a bacia simbolizava o po­ 2 Co 1:21).
Ê x o d o 31 dos para ser pregadores, professores
ou missionários. Também há neces­
sidade de cristãos escritores, artis­
tas, músicos, arquitetos, médicos,
jardineiros — na verdade, podemos
servir ao Senhor por meio de toda
vocação legítima (1 Co 10:31).

II. A responsabilidade de não


I. A habilidade para o trabalhar (31:12-18)
trabalho (31:1-11) Há um tempo para trabalhar pelo
Deus, sempre que nos chama para Senhor e um tempo para descan­
fazer um trabalho para ele, dá-nos a sar. Os dois são parte do plano dele
capacitação necessária e os ajudan­ para seu povo (Mc 6:31). Bezalel e
tes que precisamos. Ele fez isso para Aoliabe estavam construindo o ta­
Bezalel e Aoliabe. Bezalel significa bernáculo santo, mas receberam
"protegido por Deus"; já encontra­ instrução para não violar o sábado
mos Hur, o pai dele (Êx 17:10-16; (ou shabbath). O sábado foi dado
24:14). Deus deu a esses homens a apenas a Israel, não às nações gen­
habilidade necessária para que se­ tias, como um sinal do relaciona­
guissem o padrão celestial e fizes­ mento especial dele com o Senhor.
sem as coisas necessárias para o Como já observamos antes, em lu­
tabernáculo. A sabedoria e a habili­ gar algum das Escrituras ordena-se
dade deles vieram do Senhor, e eles o mandamento do sábado à igreja,
as usaram em obediência à ordem pois a igreja honra o primeiro dia da
de Deus. semana, o Dia do Senhor, o dia da
Podemos dedicar a Deus nossa ressurreição dele. O sábado perten­
habilidade artística e usá-la para a ce à antiga criação (v. 17), e o Dia
glória dele. Nem todos são chama­ do Senhor pertence à nova criação.
Êx o d o 32-34 como um símbolo de Jeová, um altar
à fraqueza do povo, não o desculpa,
O povo, enquanto Moisés tinha uma pois Arão sabia o que o Senhor dis-
com o Senhor, pecava no vale abai­ A causa básica desse pecado
xo. Não há apenas bênçãos na lide­ foi a descrença: o povo impacien-
rança espiritual.Também há obriga­ tou-se enquanto esperava por Moi­
ções incómodas. sés e, como não tinha fé verdadeira,
decidiu que precisava de algo que
I. Moisés, o intercessor (32:1-35) pudesse ver. A impaciência e a des­
crença levam à idolatria, e a ido­
A. O povo de Deus peca (vv. 1-6) latria leva à imoralidade (veja Rm
Não importa como você veja esse 1:18-32).
pecado, ele foi uma grande ofensa
a Deus. Os judeus eram o povo de B. O servo de Deus intercede
Deus, escolhidos por meio da graça (vv. 7-14)
dele e redimidos do Egito pelo po­ Claro que o Senhor sabia o que
der dele. Ele guiou-os, alimentou- acontecia no acampamento de Is­
os, protegeu-os do inimigo e os fez rael. Veja Hebreus 4:13. Observe
parte de sua aliança. Ele deu-lhes como Deus parece "culpar" Moisés
suas leis sagradas, e o povo con­ pelo que aconteceu, contudo Moi­
cordou em obedecer a elas (19:8; sés foi rápido em lembrá-lo de que
24:3-7). Aqui, no Sinai, o povo viu Israel era o povo escolhido dele.
a espantosa demonstração da gló­ Era a glória de Jeová que estava em
ria de Deus e tremeu sob o poder jogo, não a reputação de Moisés.
dele. Contudo, apesar de todas es­ Assim, este lembrou o Senhor de
sas experiências maravilhosas, eles suas promessas aos patriarcas.
imprudentemente desobedeceu ao As Escrituras usam a linguagem
Senhor e caiu em idolatria e imora­ do homem para descrever a res­
lidade. posta divina quando dizem que o
Moisés concordou em que Senhor "se arrepende" (Nm 23:19;
Deus lhe desse Arão como ajudante Jr 18:7-10; Am 7:1-6). Duas vezes,
(4:10-17), mas agora Arão transfor- durante a vida de Moisés, Deus
mava-se em um líder que ajudava propôs destruir Israel e usar Moisés
o povo a pecar. Quando Arão des­ para achar uma nova nação (v. 10;
ceu da montanha? Por que ele não Nm 14:12), mas ele se recusou a fa­
repreendeu o povo e pediu ajuda a zer isso. Os judeus nunca souberam
Deus? Dizer que Arão fez o bezerro o preço que Moisés pagou para ser
144 Êxodo 32-34

líder deles. Eles deviam muito a ele, dela. Como mediador, ficava entre a
contudo demonstraram muito pou­ nação e as bênçãos futuras que rece­
ca gratidão! Deus pretendia até ma­ beria. Moisés não se satisfazia com o
tar Arão, mas Moisés intercedeu por fato de a nação ser perdoada; ele tam­
ele (Dt 9:20). bém queria certificar-se de que Deus
seguiria com eles quando continuas­
C. A ira julgadora de Deus (w. 15-35) sem a marcha em direção à terra pro­
Deus, em sua graça, perdoou o pe­ metida. O povo, quando soube que
cado deles, mas, em seu governo, Deus não iria com ele, humilhou-se
tinha de discipliná-los. Quantas e pranteou. Uma coisa é chorar em
lágrimas foram derramadas pelas consequência da disciplina do Senhor
consequências dolorosas de peca­ por causa de nossos pecados, e outra,
dos perdoados! Moisés tinha o di­ bem diferente, chorar por causa do
reito de estar irado e de humilhar afastamento de Deus como resultado
Arão e o povo. Moisés, ao quebrar de nosso orgulho. C. H. Macintosh
as duas tábuas da Lei escrita por escreveu: "A pessoa aflita é objeto de
Deus, mostrou dramaticamente ao graça, mas a pessoa obstinada deve
povo a grandiosidade do pecado ser humilhada".
dele. Arão, em vez de confessar seu A tenda descrita nos versícu­
pecado, deu desculpas. Ele culpou los 7-11 não é o tabernáculo, pois
o povo por aquela depravação (v. ele ainda não fora construído. Essa
22), Moisés pela demora (v. 23) e o tenda é onde Deus encontrava-se
fogo por ter produzido um bezerro! com Moisés e compartilhava seus
Moisés, depois de lidar com o povo, planos com ele (Nm 12:6-8; Dt
retornou ao Senhor na montanha e 34:10). Moisés moveu a tenda para
ofereceu-se para dar sua vida para fora do acampamento como um
que o povo fosse poupado. Veja gesto simbólico para mostrar a Isra­
Romanos 9:3. Quando uma pessoa el como este tinha sido perverso. Al­
morre, tira-se seu nome do livro da guns foram encontrar-se com Deus,
vida (SI 69:28; Ez 13:9). Não deve­ enquanto outros apenas olharam
mos confundir o livro da vida (ou Moisés sair. Josué foi um dos que
"dos vivos") com o Livro da Vida do ficaram com Moisés em vigília na
Cordeiro, em que se registra o nome tenda do encontro. J. Oswald San-
dos salvos (Ap 21:27; Lc 10:20). ders disse: "Cada um de nós fica tão
próximo de Deus quanto escolhe fi­
II. Moisés, o mediador (33:1-17) car", e isso é verdade.
Moisés, como intercessor, permanecia Moisés pediu a graça de Deus
entre a nação e os pecados passados para abençoar o povo e que ele fos­
Êxodo 32-34 145

se com o povo, e o Senhor atendeu 30:9; Ne 9:17; Jn 4:2). A declara­


a seu pedido. Afinal de contas, era ção anterior, em Êxodo 20:5, afirma
a presença gloriosa de Deus que di­ que Deus envia julgamento "até à
ferenciava Israel de todas as outras terceira e quarta geração daqueles
nações. As outras nações tinham que me aborrecem". Os filhos e os
leis, sacerdotes e sacrifícios. Apenas netos não são condenados pelos pe­
Israel tinha a presença de Deus en­ cados de seus antepassados (veja Ez
tre ele. 18:1-4), mas podem sofrer por causa
desses pecados. Moisés, mais uma
III. Moisés, o adorador (33:18— vez, curvou-se e adorou enquanto
34:35) comungava com o Senhor.

A. A visão da glória (33:18—34:9) B. A proteção da glória (34:10-28)


Moisés sabia o que muitos hoje, na Deus lembrou Moisés de que o
igreja, esqueceram — a atividade povo de Israel deveria ser diferen­
mais importante do povo do Senhor te do povo que vivia em Canaã e
é adorar a Deus. O Senhor garan­ também o advertiu do pecado da
tiu a Moisés que estaria com seu idolatria. O que é idolatria? É tro­
povo, mas isso não era suficiente; car a glória do Deus incorruptível
ele queria uma nova visão da glória por uma imagem (Rm 1:23) e ado­
de Deus. A "bondade" (33:19) de rar a criatura e servir a ela, em vez
Deus significa seu caráter e atribu­ de ao Criador (Rm 1:25). O Senhor
tos. A palavra "costas" (33:23) car­ deu sua Lei a Israel para que este
rega a idéia de "o que sobra", isto pudesse levar uma vida piedosa e
é, o arrebol da glória de Deus — o expressar a glória dele.
que "fica" depois da passagem do
Senhor. Deus não tem um corpo C. A reflexão da glória (34:29-35)
como os seres humanos, pois ele é Talvez você queira ler 2 Coríntios 3
espírito. Essas são apenas represen­ para obter uma lição espiritual para
tações humanas das verdades divi­ hoje. A glória da Lei do Antigo Tes­
nas a respeito de Deus. tamento era temporária e, por fim,
Moisés retornou à montanha desvaneceu-se, mas a glória de graça
para mais 40 dias com Deus (34:28; da Nova Aliança resplandece mais e
Dt 9:18,25), e o Senhor deu-lhe as mais. Moisés apenas refletia a glória
novas tábuas da Lei. Em 34:6-7, a de Deus e tinha de usar um véu para
proclamação do Senhor torna-se que as pessoas não vissem a glória
um padrão de "afirmação de fé" desaparecer, mas hoje o povo do Se­
para os judeus (Nm 14:18; 2 Cr nhor irradia de seu interior a glória
146 Êxodo 32-34

de Deus quando vê Cristo na Pala­ mos com o Senhor ("renovação",


vra (o espelho) e torna-se mais pare­ em Rm 12:2, e "transformados", em
cido com ele (2 Co 3:18). Passamos 2 Co 3:18, ambas referem-se à pa­
constantemente pela experiência da lavra grega "transfiguração", usada
"transfiguração" quando caminha­ em Mt 17:2).
Êx o d o 3 5 - 4 0 fazer e a habilidade para fazer. Da
mesma forma, Deus deu dons a seu
povo de hoje a fim de que a igreja
pudesse crescer e se fortalecer (1 Co
12— 14; Ef 4:1-17; Rm 12). Bezalel
e Aoliabe não fizeram todo o traba­
lho sozinhos, mas ensinaram outras
pessoas para ajudá-los.
Nos versículos seguintes, Moi­
I. O povo traz seus presentes (35:1 -29) sés nomeia, uma a uma, as várias
Moisés já dissera ao povo que Deus partes do tabernáculo, como tam­
queria que ele estivesse disposto a bém as vestimentas dos sacerdotes.
dar presentes para a construção do Deus preocupa-se com todos os
tabernáculo (25:1-8). Que graça a de detalhes de nosso trabalho e não
Deus em aceitar presentes de um povo minimiza nenhum aspecto dele. O
que lhe desobedeceu e fez sofrer seu menor colchete para as cortinas era
coração. Esses presentes tinham de tão importante para ele como o altar
ser dados com boa-vontade, de co­ de bronze. Se formos fiéis nas coisas
ração (vv. 5,21,26,29), pois o Senhor menores, Deus confia a nós as coi­
"ama a quem dá com alegria" (2 Co sas maiores (Lc 16:10).
9:6-8). Provavelmente, a maior parte Os estudiosos estimam que eles
dessas riquezas vinha dos egípcios usaram perto de 1 tonelada de ouro,
(12:35-36) — salários atrasados por 3,25 toneladas de prata e 2,25 to­
todos os trabalhos que os judeus fi­ neladas de bronze na construção do
zeram para os egípcios. Eram ofertas tabernáculo. Não era uma estrutura
para o Senhor (vv. 22,24,29), e, por barata!
isso, eles queriam dar as melhores
coisas que tinham. Na verdade, eles Hl. O Senhor dá sua glória (40:1-38)
deram com tanta generosidade que Três meses depois do êxodo do
Moisés impediu-os de trazer mais Egito, Israel chegou ao Sinai (19:1),
coisas (36:4-7). Perguntamo-nos se e agora era o primeiro dia do se­
na igreja de hoje já houve esse tipo gundo ano de peregrinação dele
de problema! (40:2); portanto, passaram-se nove
meses entre o recebimento da Lei
II. O povo dotado presta serviço e a consagração do tabernáculo
(35:30—39:43) concluído. Cerca de três meses
O Espírito Santo deu a Bezalel e a dessa data, Moisés esteve com
Aoliabe a sabedoria para saber o que Deus na montanha (24:18; 34:28).
148 Êxodo 35-40

Depois, vemos que a construção O auge do culto de dedicação


do tabernáculo levou cerca de seis foi a revelação da glória de Deus no
meses. fogo sobre o altar (Lv 9:24) e na nu­
Moisés, à medida que levanta­ vem que cobriu a tenda (Êx 40:34-
va o tabernáculo pela primeira vez, 38; veja também 1 Rs 8:10). Não
montou a tenda e, trabalhando do importa quão caro fosse o taberná­
interior do Santo dos Santos para o culo, sem a presença do Senhor se­
exterior, pôs o mobiliário no lugar ria apenas mais uma tenda. A glória
estabelecido. Ele, depois de fazer não apenas residiu no tabernáculo,
isso, iniciou o átrio externo. Quan­ mas também guiou os israelitas em
do tudo estava no lugar certo, Moi­ sua peregrinação. Quando falamos
sés ungiu a estrutura e seu conte­ de "shekinah [manifestação da] gló­
údo (vv. 9-11) e separou-os para o ria de Deus", referimo-nos ao fato
Senhor. O último ato de dedicação de que o Senhor habita o tabernácu­
dele foi a consagração de Arão e lo ou o templo. A palavra hebraica
dos sacerdotes (vv. 13-16), que foi transliterada como shekinah significa
seguida pela apresentação de sacri­ "habitação de Deus", cuja origem é
fícios que estes fizeram para o Se­ a palavra hebraica shakan, que quer
nhor (Lv 8—9). dizer "habitar" (Êx 29:45-46).
L evític o

Esboço

I. A provisão de Deus para o pecado (1— 10)


A. Os sacrifícios (1— 7)
1. Oferta queimada (1; 6:8-13)
2. Oferta de manjares (2; 6:14-23)
3. Oferta pacíficas (3; 7:11-34)
4. Oferta pelo pecado (4; 6:24-30)
5. Oferta pela culpa (5:1— 6:7; 7:1-7)
B. O sacerdócio (8— 10)

II. O preceito de Deus para a separação (11— 24)


A. A nação santa (11— 20)
1. O limpo e o imundo — leis de pureza (11— 15)
2. O Dia da Expiação (16— 17)
3. Várias leis de separação (18— 20)
B. O sacerdócio santo (21— 22)
C. Os dias santos — as festas do Senhor (23— 24)

III. A promessa de Deus para o sucesso (25— 27)


A. O sábado (ou shabbath) da terra (25)
B. A importância da obediência (26)
C. A seriedade dos votos (27)
N o ta s in t r o d u t ó r ia s ao Senhor. Deus livrou a nação da
escravidão; agora, ele quer que ela
ande em santidade e pureza para a
I. Nome glória dele. Como fomos salvos por
Levítico significa "pertencente aos intermédio do sangue do Cordei­
levitas". Os levitas eram membros ro e libertados da escravidão deste
da família de Arão que não foram mundo, também devemos caminhar
ordenados sacerdotes, mas eram em comunhão com nosso Senhor
responsáveis por ajudar os sacer­ (1 Jo 1:5-10). Precisamos do sangue
dotes no culto do tabernáculo (Nm de Cristo, o Sacrifício Perfeito, para
3:1-13). Esse livro contém as ins­ purificar-nos do pecado, como tam­
truções divinas para os sacerdotes bém precisamos obedecer à Palavra
em relação aos vários sacrifícios, às e andar em pureza e em santidade
festas e às leis de separação (entre neste mundo mau. Levítico mostra-
limpo e imundo). nos tudo isso por meio de tipos e de
símbolos.
II. Tema
Génesis apresenta o pecado e a con­ III. Sacrifício
denação do homem, enquanto Êxo­ Levítico é um livro de sacrifício
do é o livro da redenção. Levítico e sangue, temas repulsivos para
trata de separação e de comunhão. a mente moderna. Hoje, as pes­
Em Êxodo, a nação foi tirada do Egi­ soas querem uma "religião sem
to e levada ao Sinai, mas, em Leví­ sangue" e salvação sem sacrifício,
tico, o Senhor fala do tabernáculo mas isso é impossível. Talvez Le­
(Lv 1:1) e explica como o homem vítico 16 seja o capítulo-chave do
pecador pode caminhar em comu­ livro, e o capítulo 17 deixa claro
nhão com Deus. Nesse livro, na que é o derramamento de sangue
língua original, encontramos mais que trata do problema do pecado
de 80 vezes as palavras "santo" ou (17:11). A palavra "expiação" sig­
"santidade". A primeira seção do nifica "cobrir"; usa-se essa palavra
livro trata dos sacrifícios, pois não no livro cerca de 45 vezes. O san­
podemos nos aproximar de Deus gue dos sacrifícios do Antigo Tes­
sem o derramamento de sangue. tamento não leva embora o peca­
Em Levítico, encontramos a palavra do (Hb 10:1-18). Alcançou-se isso
"sangue" 88 vezes. A segunda meta­ de uma vez por todas por meio do
de do livro cobre as leis de pureza e sacrifício de Cristo na cruz. O san­
explica como as pessoas devem le­ gue dos sacrifícios do Antigo Tes­
var uma vida separada para agradar tamento apenas cobria o pecado
Notas introdutórias 151

e apontava para o Salvador, cuja levíticos, mas esse livro ainda traz
morte consumaria a obra reden­ algumas lições práticas valiosas, e
tora. A oferta de sacrifícios, por si faríamos bem em meditar a respeito
mesma, não salva o pecador. Tem delas.
de se crer na Palavra de Deus, pois
é a fé que salva a alma. Davi sa­ A. A atrocidade do pecado
bia que apenas os sacrifícios não A expiação do pecado requer o
afastariam seus pecados (SI 51:16- derramamento de sangue. O pe­
17); os profetas também deixaram cado não é uma coisa leve e sem
isso claro (Is 1:11 -24). No entanto, importância; ele é odioso aos olhos
quando o pecador tem um coração de Deus. O pecado custa muito —
contrito e crê na Palavra de Deus, todo sacrifício é caro para o adora­
então o Senhor aceita seu sacrifí­ dor judeu.
cio (veja Caim e Abel, Gn 4:1 -5).
Levítico apresenta muitas ima­ B. A santidade de Deus
gens de Cristo e sua obra redentora Nesse livro, Deus faz distinção en­
na cruz. Os cinco sacrifícios ilustram tre o limpo e o imundo. Ele também
vários aspectos da pessoa e da obra adverte as pessoas: "Sereis santos,
dele, e o Dia da Expiação é um belo porque eu sou santo" (11:44).
retrato de sua morte na cruz. Não
tente tirar todos os detalhes de cada C. A benevolência de Deus
exemplo. Algumas instruções refe­ Ele proporciona um caminho de
rentes aos sacrifícios, por exemplo, perdão e de restauração! É claro,
têm propósitos práticos por trás delas esse "Caminho" é Cristo, o "novo
e não precisam necessariamente tra­ e vivo caminho" (Hb 10:19ss). Os
zer lições espirituais especiais. sacrifícios do Antigo Testamento
apontam para o Salvador por vir.
IV. Lições práticas Levítico costuma usar a frase "eles
Hoje não praticamos os sacrifícios serão perdoados".
L e v ít ic o 1 - 7 João 10:17 e Romanos 5:19. Leví­
tico 6:8-13 salienta que a primeira
coisa que o sacerdote tinha de fa­
Hebreus 10:1 -14 deixa claro que em zer todas as manhãs era uma oferta
Cristo temos o cumprimento total
queimada. Assim, oferecia-se todos
de cada sacrifício do Antigo Testa­ os outros sacrifícios durante o dia
mento. Esses cinco sacrifícios espe­ sobre o fundamento da oferta quei­
ciais ilustram os vários aspectos da
mada. Romanos 12:1-2 instrui os
pessoa e da obra do Salvador.
cristãos a se darem como sacrifício
vivo — como oferta queimada viva
I. Oferta queimada — a — totalmente consagrados a Deus.
consagração completa de Cristo (1) Da mesma forma que os sacerdo­
Para esse sacrifício, precisava-se tes deviam manter o fogo ardendo
de um macho perfeito de 1 ano, o continuamente sobre o altar (6:12-
melhor do rebanho. Levava-se o sa­ 13), nós devemos nos consagrar
crifício para a porta do tabernácu­ continuamente ao Senhor para a
lo, pois havia apenas um local de glória dele.
sacrifício aceitável para Deus (veja
Lv 17). O oferente punha as mãos II. Oferta de manjares — a
sobre a cabeça do holocausto. As­ perfeição de Cristo (2)
sim, identificava-se com o animal O uso da palavra "manjares" implica
e transferia seu pecado e culpa que não há sangue envolvido nessa
para o animal inocente. Matava-se oferta. Podia ser farinha fina, manja­
o animal, e o sacerdote aspergia o res ou até espigas de milho secas. A
sangue em volta do altar de bron­ farinha fina retrata o caráter e a vida
ze, que ficava na entrada do taber­ perfeitos de Cristo — não há nada
náculo. Depois, tirava-se a pele do imperfeito ou maculado nele. O
animal (dava-se a pele para o sa­ azeite simboliza o Espírito de Deus.
cerdote), cortavam-no em peças e E note que há dois usos para o azei­
queimavam-no completamente no te: (1) misturar (v.4), o que nos lem­
altar. A frase-chave é: "Tudo isso bra que Deus nasceu do Espírito; e
sobre o altar" (v. 9): o animal intei­ (2) despejar (v. 6), o que simboliza a
ro que era queimado no fogo dava- unção de Cristo, pelo Espírito, para
se para Deus. Esse é um retrato da o ministério. O incenso limpo acres­
consagração total que nosso Se­ centa um aroma agradável à oferta,
nhor fez de si mesmo a Deus. "Eis o que retrata a beleza e o aroma da
aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vida perfeita de Cristo aqui na ter­
vontade" (Hb 10:9). Veja também ra. A oferta tem de ir ao fogo, assim
Levítico 1-7 153

como Cristo sofreu o fogo do Cal­ Em Levítico 7:28-34, observe que


vário. A oferta sempre deve ter sal os sacerdotes recebiam o peito e a
(v. 13), o que simboliza a pureza e coxa direita, lembrando-nos de que
a ausência de queda, pois não há o povo de Deus tem de se alimentar
perversão de qualquer espécie em de Cristo a fim de se fortalecer. Leví­
Cristo. Entretanto, a oferta não po­ tico 17:1 -9 diz que toda vez que um
dia ter fermento, pois este simboli­ israelita mata um animal deve tra­
za o pecado (1 Co 5:6-8; Mt 16:6; tar o ato como oferta pacífica. Não
Mc 8:15), pois não havia pecado seria maravilhoso se víssemos cada
em Cristo. A oferta também não de­ refeição como uma oferta pacífica a
via conter mel, que é a coisa mais Deus e fizéssemos de nosso tempo
doce que existe na natureza. Não à mesa ocasião de comunhão com
há nada da "doçura humana natu­ ele e uns com os outros?
ral" em Cristo: ele era amor divino Não pode haver paz longe de
em carne. Cristo. E necessário o sangue da
Como é maravilhosa a perfei­ cruz para liquidar o problema do
ção de Cristo! Que o Espírito de pecado de uma vez por todas.
Deus possa operar em nós para que
nos tornemos mais parecidos com IV. Oferta pela culpa — Cristo
ele — equilibrados, até perfumados, se fez pecado por nós (4)
limpos. Não há oferta pelo pecado cometi­
do "atrevidamente" (Nm 15:30-31),
III. Oferta pacífica — Cristo, mas há prescrição para pecados de
nossa paz (3) ignorância. Observe que se deve
Esse procedimento é quase o mes­ aspergir o sangue diante do véu (v.
mo da oferta queimada, exceto que 6) e pô-lo também nos chifres do
o oferente recebia de volta algumas altar de incenso (v. 7), o que mos­
partes do animal e banqueteava-se tra a seriedade do pecado. Os ver­
com elas. Primeiro, davam o animal sículos 3-12 apresentam instruções
para Deus (vv. 3-5), mas o oferente para os pecados dos sacerdotes; os
devia comer o resto de acordo com versículos 13-21 dão as instruções
as regras estabelecidas em 7:11- para os pecados de toda a congre­
21. O banquete devia ser alegre, gação — observe que se requer o
mostrando que havia paz entre o mesmo sacrifício para os dois ca­
oferente e o Senhor, que a barrei­ sos! Os pecados do sacerdote (o
ra do pecado fora removida. Para a ungido de Deus) igualam-se aos
verdade do Novo Testamento, veja pecados de toda a nação! Nos ver­
Efésios 2:14,1 7 e Colossenses 1:20. sículos 22-26, temos as regulamen­
154 Levítico 1-7

tações para os governantes, e nos nosos de forma individual. Observe


versículos 27-35, para as pessoas que, na oferta pela culpa, o ofensor
comuns. Portanto, a oferta depen­ tem de restituir pelo que fez (5:16;
dia da posição e da responsabilida­ 6:4-5). Portanto, essa oferta lembra-
de da pessoa que quebrou a Lei de nos de que o pecado é caro e que,
Deus. quando há arrependimento sincero,
Veja que a oferta não é queima­ há restituição e reembolso. Levítico
da no altar de bronze, mas levada 5:14-19 enfatiza que transgredimos
para fora do acampamento e quei­ contra Deus, enquanto 6:1-7 desta­
mada em um local limpo. Isso lem­ ca a culpa em relação a outra pes­
bra-nos Hebreus 13:11-13 e o fato soa. Nos dois casos, vê-se o pecado
de que Cristo foi crucificado "fora como uma dívida a ser paga, e, cla­
do arraial", rejeitado pela nação ro, Cristo pagou total e completa­
que veio salvar. No Novo Testamen­ mente essa dívida.
to, a passagem de 2 Coríntios 5:21, É interessante notar a ordem
que diz que Cristo se fez pecado por em que a Bíblia registra esses sa­
nós, oferece o paralelo para esse pe­ crifícios. Deus inicia com a oferta
cado. Veja também 1 Pedro 2:24. queimada, a completa consagração
É maravilhoso ver que mesmo de seu Filho à obra redentora, pois
o mais pobre ofensor pode fornecer o plano de salvação inicia-se na
uma oferta pelo pecado, pois em eternidade passada. Contudo, do
5:7 vemos que Deus também aceita ponto de vista do homem, a ordem
rolas ou pombas. Maria e José ofe­ é inversa. Primeiro, vemos que co­
receram esse holocausto humilde metemos vários tipos de pecados
(Lc 2:24), mostrando a pobreza da e, depois, percebemos que esta­
família de nosso Senhor. mos em dívida com Deus e com o
homem. Isso é a oferta pela culpa.
V. Oferta pela culpa — Cristo Contudo, à medida que o trabalho
pagou a dívida do pecado (5:1—6:7) de condenação continua, percebe­
As ofertas pelos pecados e pela cul­ mos que somos pecadores — nossa
pa são muito próximas. Na verdade, verdadeira natureza é pecaminosa!
elas retratam dois aspectos da morte Isso é oferta pelo pecado. Depois,
de Cristo em favor do pecador per­ o Espírito revela-nos Cristo, aquele
dido. A oferta pelo pecado lida com que fez paz por intermédio do san­
o pecado como parte da natureza gue de sua cruz, e descobrimos a
humana, com o fato de que todas as oferta pacífica. Quando crescemos
pessoas são pecadoras, enquanto a em graça, entendemos a perfeição
pela culpa enfatiza os atos pecami­ de nosso Senhor e que ele "nos
Levítico 1-7 155

concedeu gratuitamente no Ama­ Não precisamos de quaisquer


do"; essa é a oferta de manjares. O sacrifícios hoje. "Porque, com uma
resultado disso tudo deve ser nossa única oferta, aperfeiçoou para sem­
consagração total ao Senhor — a pre quantos estão sendo santificados"
oferta queimada. (Hb 10:14). Aleluia! Que Salvador!
UvÍTICO 1 0
A. No servir (vv. 1-5)
Alo capítulo anterior, Mo/sés e Arão Nabade e Abiú estiveram na monta­
nha com Moisés e Arão, paí deles (Êx
levantaram o tabernáculo e con sa­
24:1-2,10), portanto eram uma dupla
graram-no ao Senhor, o fogo do Se­ privilegiada. Eles ouviram as palavras
nhor caiu sobre o altar, e a glória de da Lei e sabiam o que Deus exigia de
Deus encheu o santuário. Foi uma seus sacerdotes, portanto não peca­
experiência sublime e santa para os ram por ignorância.
sacerdotes e para a nação de Israel. Qual foi o pecado deles? O tex­
Entretanto, dois filhos de Arão, Na- to diz que eles ofereceram "fogo es­
bade e Abiú (Êx 6:23; 28:1), peca­ tranho" ao Senhor. A palavra "estra­
ram maliciosamente contra o Senhor nho" significa "não autorizado pela
e foram julgados por ele. O fogo de Palavra de Deus" (veja Êx 30:9). Eles
Deus que consumia o sacrifício pos­ eram entusiastas, contudo o que fi­
to sobre o altar (9:24) trouxe morte zeram não estava de acordo com as
súbita para eles. "Nosso Deus é fogo Escrituras. Mencionou-se que eles fa­
consumidor" (Hb 12:29). lharam no uso do fogo do altar (9:24),
O versículo 3 estabelece o tema portanto Deus não podia aceitar a
central do capítulo: "Mostrarei a adoração deles. Mas há muito mais
minha santidade naqueles que se coisa envolvida nisso.
cheguem a mim e serei glorifica­ Uma vez por ano, no Dia da
do diante de todo o povo". A frase Expiação, o sumo sacerdote tinha
"naqueles que se cheguem a mim" o privilégio de entrar no Santo dos
refere-se aos sacerdotes, que tinham Santos com incenso (Lv 16:12). No
o privilégio de ministrar no taberná­ resto do ano, queimava-se incenso
culo em que Deus habitava no San­ pela manhã e, ao entardecer, no al­
to dos Santos. Veja Ezequiel 42:13 tar de ouro que ficava diante do véu
e Êxodo 19:22. Privilégio sempre (Êx 30:1-10,34-38). Os dois filhos
acarreta responsabilidade, contudo de Arão imaginaram uma nova ce­
Nabade e Abiú provaram ser irres­ rimónia para adorar Jeová, e ele não
podia aceitar isso. Eles não eram
ponsáveis.
sumo sacerdotes, não era o Dia da
Ser servo do Senhor é um pri­
Expiação, e eles não queimaram o
vilégio. Deus exorta seus servos a
incenso sobre o altar de ouro.
honrá-lo e a glorificá-lo em três áre­
Por que eles pecaram1 Talvez
as especiais da vida.
tenham sido levados por um entu­
Levítico 10 157

siasmo momentâneo quando viram pranteassem a morte de Nabade e


a glória de Deus encher o santuário . Abiú da forma çjue as ^pessoas co­
e o fogo do Senhor descer do céu. O muns pranteariam (veja 21:1-12 e
que eles fizeram foi um exemplo de Ez 24:16-17). Eles deviam perma­
"devoção voluntária" (Cl 2:23) e é necer nos arredores do tabernáculo
uma advertência para todos os que na hora da dedicação (8:33). Se eles
lideram o povo de Deus no culto de desobedecessem, o castigo cairia
adoração. O entusiasmo carnal não sobre todas as pessoas, não apenas
pode substituir a plenitude do Espí­ sobre os sacerdotes. Eles, ao ficarem
rito, e um dos aspectos do fruto do em seus postos, honravam a Deus e
Espírito é o autocontrole (Gl 5:23). mostravam às pessoas a importância
Temos de adorar a Deus "em espíri­ de obedecer à Palavra, independen­
to e em verdade" (Jo 4:24). O Espí­ temente do custo.
rito de Deus jamais levará o crente Claro que hoje essa ordem não
a fazer nada que seja contrário à se aplica às pessoas de Deus, que
Palavra de Deus, não importa quão também são seus sacerdotes (1 Pe
alegre e entusiasmado ele se sinta. 2:5,9). Pranteamos a morte dos
O julgamento inicia-se na casa entes queridos, mas não devemos
do Senhor (1 Pe 4:17; veja também prantear a morte dos "que não têm
Ez 9:6). Esse foi o início de um novo esperança" (1 Ts 4:13-18). Lamentar
período na história de Israel, e Deus de forma piedosa é testemunhar ao
usou esse julgamento como uma mundo perdido que temos esperan­
advertência para seu povo. Vemos ça em Jesus Cristo e não nos deses­
julgamentos semelhantes quando peramos.
Israel entra na terra prometida (Js 7),
quando Davi tenta levar a arca para C. No comer e no beber (vv. 8-20)
Jerusalém (2 Sm 6), e durante os pri­ Essas admoestações referem-se às
meiros dias da igreja (At 5). De uma tarefas diárias dos sacerdotes, mas
forma ou de outra, sempre há julga­ têm aplicações práticas para os
mento quando homens e mulheres crentes de hoje.
pegam para si mesmos a glória que (1) Bebida forte (vv. 8-11). Em
pertence apenas a Deus. O Senhor Levítico, essa é a única ocasião em
não dá sua glória a outros (Is 48:8; que Deus fala diretamente a Arão,
48-."\ "\; 52 A). \ portan to d eve tratar-se de u m a ord em
importante. Não era permitido aos
B. No pranto (vv. 6-7) judeus beber vinho ou bebida forte,
Moisés advertiu Arão e seus dois mas foram advertidos da bebedice e
filhos remanescentes de que não do pecado que, com frequência, a
158 Levítico 10

acompanha (Pv 20:1; 23:20,29-31; gamento já era bastante ruim, mas


Is 5:11; Hc 2:15). Os que servem ao agora os sacerdotes não faziam o
Senhor têm de ser um exemplo para que deviam fazer e chamavam mais
os outros e estar cheios do Espírito, julgamento!
não de vinho (Ef 5:18). Eles devem Moisés repreendeu os dois filhos
evidenciar a diferença entre o santo de Arão, mas Arão falou em defesa
e o profano por meio dos ensina­ deles. Não foi permitido à família la­
mentos e do exemplo (veja Ez 22:26; mentar a morte de Nadade e Abiú;
42:20; 44:23; 48:14-15). O Novo portanto, em vez disso, eles jejuaram
Testamento segue essa mesma abor­ e não comeram a carne da oferta pelo
dagem (Rm 14:14-23). pecado. Se tivessem comido o sacrifí­
(2) Os sacrifícios (vv. 12-20). cio, seria apenas uma rotina mecâni­
Davam-se certas porções dos sacri­ ca, e não uma refeição santa, pois o
fícios aos sacerdotes, que deviam coração deles não participaria do ato.
comê-las no tabernáculo. Elas eram Deus queria esse tipo de culto? Ele
santas e não deviam ser tratadas quer obediência, não sacrifício (1 Sm
como a comida comum. O capí­ 15:22), e corações que estejam verda­
tulo 9 relata a cerimónia de consa­ deiramente com ele.
gração em que foram feitas oferta Esse capítulo é uma advertência
de manjares, oferta pelo pecado, severa contra a adoração e o culto
oferta queimada e oferta pacífica, que vão além dos limites estabeleci­
e os sacerdotes deviam comer suas dos pela Palavra de Deus. É também
porções como parte do culto. Outro um aviso contra o entusiasmo carnal
lembrete para eles e para o povo de que imita a obra do Espírito. A ado­
que os sacrifícios eram santos aos ração simulada ofende o Espírito de
olhos do Senhor. Para mais detalhes, Deus, que quer nos guiar em expe­
veja Levítico 6:14-30 e 7:11-38. riências de adoração fundamentadas
Havia dois tipos de ofertas para nas Escrituras, as que glorifiquem o
o pecado: uma em que se aspergia Senhor. Nossa adoração deve pro­
o sangue no Santo Lugar, e outra em clamar as virtudes de Deus (1 Pe 2:9)
que se aspergia o sangue sobre o al­ e ser agradável ao Senhor (1 Pe 2:5).
tar de ofertas queimadas. Naquele A adoração que exalta homens e
dia, a oferta pelo pecado era a do mulheres e não glorifica a Deus não
segundo tipo (9:9; 10:18), portanto é aceitável aos olhos dele.
Arão e os sacerdotes deviam comê- "Portanto, quer comais, quer
las, mas não fizeram isso. O fato bebais ou façais outra coisa qual­
de Nabade e Abiú fazerem o que quer, fazei tudo para a glória de
não deveriam ter feito e trazido jul­ Deus" (1 Co 10:31).
L e v ít ic o 11 entanto, o principal motivo para as
restrições alimentares era lembrar
os judeus diariamente, a cada re­
Da ênfase à expiação, nos capítu­
feição, de que eles eram um povo
los 1— 10, Moisés volta-se agora
separado e não deviam viver como
para o tema da impureza. Nos ca­
as nações gentias que os rodeavam.
pítulos 11— 15 e 17—22, ele ensi­
Para mais informações, veja Deute­
na ao povo a diferença entre lim­
ronômio 14:1-20.
po e imundo no que se refere ao
Essas leis alimentares foram
alimento, ao nascimento, à morte,
dadas apenas aos judeus e foram
às doenças e aos relacionamentos
abolidas com o cumprimento da
pessoais. Os capítulos 21—22 ins­
Lei Mosaica em Jesus Cristo (Cl
truem os sacerdotes em relação à
2:11-17). Jesus deixou claro que
responsabilidade que têm de man-
essas leis eram temporárias e não
ter-se separados do pecado e devo­
determinavam a condição do co­
tados ao Senhor.
ração (Mc 7:1-23). A igreja primiti­
va dividiu-se a respeito dessas leis
(Rm 14:1— 15:7). Aparentemente,
I. Diretrizes para o povo de Deus (11) Pedro, mesmo depois do Calvário
e do Pentecostes, manteve a "casa
A. A dieta do povo de Deus (w. 1-23) kosher" (At 10:9-16). Logo, porém,
Não sabemos quando o povo de ele aprendeu que Deus fizera mu­
Deus recebeu a lei sobre alimentos danças drásticas. (Kosher vem da
limpos e imundos, mas sabemos palavra hebraica que significa "cer­
que foi na época de Noé (Gn 7:1- to, adequado". As pessoas em uma
10). Talvez isso fizesse parte dos en­ casa judia kosher comem apenas
sinamentos que Deus deu a Adão e alimentos que Deus disse que eram
Eva no jardim do Éden. Havia, no certos e adequados.) Hoje, a igreja
mínimo, duas razões para essa lei não considera a dieta alimentar um
alimentar: (1) a saúde do povo de meio de salvação ou de santidade
Deus e (2) a diferenciação de Israel, (Cl 2:20-31; 1 Tm 4:1-5); e os cris­
o povo separado. Muitos alimentos tãos não devem julgar uns aos outros
proibidos eram potencialmente peri­ em relação a esses assuntos. Ao mes­
gosos para a saúde do povo em uma mo tempo que alguns alimentos não
época em que não havia refrigera­ são bons sob o aspecto físico para
ção nem recursos adequados para o algumas pessoas, não se deve trans­
cozimento dos alimentos. Veja Êxo­ formar em prova de espiritualidade o
do 15:26 e Deuteronômio 7:15. No que os cristãos comem ou bebem.
160 Levítico 11

Primeiro, Moisés lidou com Floje, os cristãos são livres para


as criaturas da terra (vv. 1-8) e afir­ comer o que quiserem, mas devem
mou que apenas podiam comer os ter em mente 1 Coríntios 10:31.
animais que tivessem o casco di­
vidido e que ruminassem. As cria­ B. A impureza do povo de Deus
turas da água (vv. 9-12) tinham (vv. 24-40)
de ter barbatana e escamas. Isso Moisés avisou os judeus não ape­
eliminava as criaturas que chafur­ nas para terem cuidado com o que
davam na lama, onde podiam pe­ comiam, mas também no que toca­
gar todo tipo de parasitas. O peixe vam, pois a carcaça dos animais era
que nadava livremente era seguro impura para eles. Se um judeu to­
para comer. (Claro, isso foi muito casse uma carcaça, ficaria imundo
antes da poluição dos sistemas de até a tarde, o início de um novo dia.
água da terra.) Depois vinham as Depois, ele tinha de lavar a roupa e
criaturas voadoras (vv. 13-23), em o corpo e, assim, poderia entrar no
que se proibia comer as aves sel­ acampamento.
vagens (vv. 13-19) e os insetos (vv. Nos versículos 24-28, a lei
20-23). Aqui, o Senhor nomeou trata das pessoas que ficam imun­
as criaturas específicas e não deu das por causa de animais mortos,
qualquer padrão geral a ser segui­ e os versículos 31 b-38 lidam com
do, como fez com as criaturas da a impureza de coisas, especial­
terra e da água. A quarta categoria mente as coisas da casa. As coi­
refere-se às coisas rastejantes (vv. sas impuras podiam deixar impu­
29-31 a,41-43). De novo, ele for­ ros vasos, vestimentas, mobílias,
nece os nomes de criaturas espe­ alimento e água. Se a pessoa e a
cíficas, as consideradas impuras casa tinham por objetivo agradar
para os judeus. ao Senhor, então tinham de lidar
Alguns estudiosos bem-inten- com seriedade com esse "ritual de
cionados tentam "espiritualizar" impureza". Nos versículos 39-40,
essas leis a fim de achar alguma Moisés trata da impureza dos ani­
verdade mais profunda nelas, mas mais limpos usados como alimen­
os resultados são contraditórios e to. Os judeus não comiam muita
questionáveis. Fazer do "ruminar" carne, pois era muito caro perder
uma referência a meditar sobre as um animal que era útil para a pro­
Escrituras, ou do "casco dividido" criação e para dar lã e leite. Eles
um retrato do caminhar dividido em tinham de prestar atenção para
Cristo, é torcer as Escrituras e rou­ não matar seus animais de forma
bar-lhe o verdadeiro significado. descuidada, pois isso era contra a
Levítico 11 161

lei de não comer sangue (Lv 3:17; 1 Co 5:7; 1 Pe 1:18-19). Se somos


7:26-27; 17:14). um povo redimido, temos de levar
uma vida santa a fim de agradar ao
C. A consagração do povo Deus que nos libertou.
de Deus (vv. 44-47) (3) Deus quer que seu povo
Aqui, Moisés dá três motivos para seja diferente (vv. 46-47). Essas leis
a nação judaica ser pura. Ela podia ensinam aos judeus que eles são
sentir-se tentada a seguir os costu­ um povo especial para o Senhor,
mes imundos dos vizinhos pagãos, e que deveriam ser diferentes das
mas essas verdades podiam motivá- nações que os rodeavam. Veja Le­
la a obedecer ao Senhor e mantê-la vítico 10:10 e 20:22-26, como tam­
longe da profanação. bém Ezequiel 22:26; 42:20; 44:23
( 1 ) 0 Senhor é um Deus san­ e 48:14-15. Os judeus esqueceram
to (v. 44). A frase "Sereis santos, sua dívida com o Senhor e, em con­
porque eu sou santo" repete-se, de sequência disso, começaram a mis­
várias formas, nove vezes em Leví­ turar-se com as nações gentias e a
tico (11:44; 19:2; 20:7,26; 21:8,15; aprender os caminhos ímpios delas.
22:9,16,32). Também 1 Pedro 1:15- Eles deixaram de diferenciar entre o
16 cita-a para ser aplicada hoje ao santo e o ímpio, o limpo e o imun­
cristão do Novo Testamento. Se so­ do, e isso trouxe punição e cativeiro
mos o povo do Senhor, e ele é um para eles. Claro, hoje "não há distin­
Deus santo, então é lógico que leve­ ção" entre judeus e gentios em rela­
mos uma vida santa. As leis alimen­ ção à condenação (Rm 3:22-23) ou
tares lembravam os judeus de que à salvação (Rm 10:12-13). Acredita-
eram um povo separado, um povo se que judeus e gentios são "um em
santo (Êx 19:5-8; veja 1 Pe 2:9). Cristo Jesus" (Gl 3:26-29).
(2) Deus nos redimiu para si É relevante o fato de que o
mesmo (v. 45). Com frequência, Senhor Jesus estabeleceu um regu­
o Senhor lembra os judeus de que lamento para sua igreja no que se
eles são um povo redimido, e que refere ao comer e ao beber (1 Co
ele os libertou por meio de sua 11:23-34). Cada vez que compar­
graça e poder (19:36; 22:33,43; tilhamos o pão e o cálice, fazemos
25:38,42,55; 26:13,45). Eles ainda isso em memória dele e do que ele
seriam escravos no Egito, se ele não fez por nós na cruz. A observação
os tivesse libertado. É claro que Êxo­ da ceia do Senhor (a Eucaristia) en­
do retrata a redenção que temos em coraja-nos a ser um povo santo, um
Jesus Cristo, pois ele é o Cordeiro da povo grato e um povo diferente das
Páscoa sacrificado por nós Oo 1:29; pessoas do mundo.
L e v ít ic o 1 3 - 1 4 muitos de nossos problemas. Os pe­
cadores não mudam com remédios
superficiais; eles precisam mudar o
Nosso Senhor, em seu ministério ter­
coração. Veja Jeremias 17:9; Roma­
reno, curou leprosos (Mt 10:8; 11:5;
nos 7:18; Salmos 51:5 e Jó 14:4.
Mc 1:40-45; Lc 17:11-19). Chama­
va-se isso de purificação, já que a le­
B. A lepra se espalha (v. 7)
pra era considerada como impureza
A lepra não é uma chaga isolada
e doença. Separava-se o leproso da
em uma parte do corpo. Ela se es­
sociedade normal, e ele não podia
palha e polui o corpo todo. O peca­
ir ao templo. Esses dois capítulos de
do também se espalha: ele começa
Levítico tratam da lepra como um
com um pensamento; a seguir, vem
símbolo do pecado e ilustram o que
o desejo; depois, o ato; e, então,
Cristo fez para purificar os pecado­
os resultados terríveis (Tg 1:13-
res. (A palavra hebraica traduzida
15). Veja 2 Samuel 11 e observe
por "lepra" aplica-se a várias doen­
como o pecado espalha-se na vida
ças de pele.) de Davi. Davi deixa seu exército,
quando devia lutar; ele permite que
seus olhos se lancem em direção à
I. As características do pecado (13) esposa do vizinho; ele entrega-se à
As pessoas que achavam que ti­ luxúria; ele comete adultério; ele
nham lepra precisavam ir ao sacer­ mente; ele faz Urias, o vizinho, be­
dote para ser examinadas. Observe ber; e, por fim, ele assassina esse
as características da lepra, e como homem.
elas retratam o pecado:
C. A lepra deixa a pessoa
A. A lepra é mais profunda impura (vv. 44-46)
que a pele (v. 3) Isso, obviamente, significa impu­
A lepra não é apenas uma erupção reza cerimonial; não se permitia
superficial, é mais profunda que a que os leprosos participassem dos
pele. Como o pecado! O proble­ cultos religiosos. Os leprosos eram
ma não é a superfície. O problema, forçados a se marcar e a clamar:
mais profundo que a pele, repou­ "Imundo! Imundo!", a fim de aler­
sa na natureza pecaminosa do ser tar as pessoas a sua volta. Qualquer
humano. A Bíblia não tem nada de pessoa que tocasse um leproso tam­
bom a dizer em relação à carne (a bém ficava imunda. Essa é a tragé­
antiga natureza), porque nossa na­ dia do pecado: ele macula a mente,
tureza pecaminosa é a fonte de o coração, o corpo e todos que o
Levítico 13-14 163

tocam. Um pecador pode macular como o profeta usa a lepra como


toda uma família; lembre-se de Acã uma imagem do pecado.
(Js 7). Nenhuma pessoa ficou mais
pura por causa do pecado, pois o II. A purificação do pecador (14)
pecado é o grande maculador da Esse capítulo explica o cerimonial
raça humana. de purificação dos leprosos para
que pudessem conviver em socie­
D. A lepra isola (v. 46) dade de novo.
"Habitará só!" Que palavras tristes.
"Fora do arraial", o único lugar re­ A. O sacerdote vai até o
servado ao leproso era o de rejeição. leproso (v. 3)
O pecado sempre isola as pessoas. Claro, o leproso não podia entrar
Ele as separa da família, dos amigos no acampamento, portanto o sa­
e, por fim, de Deus. Jesus, quando cerdote saía "do arraial" para en­
se fez pecado por nós, clamou: "Por contrá-lo. Que imagem de Cristo,
que me desamparaste?". O pecado que veio a nós e morreu "fora da
afasta as pessoas de Deus — o in­ porta" a fim de que fôssemos salvos
ferno é isso. (Hb 13:10-13). Nós não o busca­
mos; ele veio em busca do perdido
E. A lepra destina coisas para o e salvou-o (Lc 19:10).
fogo (v. 52)
Queimava-se qualquer vestimenta B. O sacerdote oferece os
que tivesse se tornado impura pela sacrifícios (vv. 4-7)
lepra. Há apenas um lugar para o A cerimónia é uma bela imagem da
pecado: o fogo do julgamento. Je­ obra de Cristo. O sacerdote pega
sus descreveu o inferno como um uma das aves, põe-na em um vaso
lugar em que o fogo nunca se extin­ de barro e, depois, mata-a. É claro,
gue (Mc 9:43-48). É triste pensar em as aves não foram criadas para vi­
milhões de "leprosos espirituais" ver em um vaso, mas para voar nos
entregues ao fogo eterno do julga­ céus. Cristo, de boa vontade, dei­
mento, porque nunca confiaram em xou o céu e tomou um corpo para
Jesus como Salvador. Como é im­ si mesmo, como se fosse um vaso
portante que contemos ao mundo a terreno, para que pudesse morrer
boa-nova do evangelho! por nós. Observe que o sacerdote
As pessoas podem rir do peca­ mata a ave sob água corrente, um
do, desculpá-lo ou tentar justificá- retrato do Espírito Santo. Depois,
lo, mas o pecado é uma coisa séria ele molha a ave viva no sangue
para Deus. Em Isaías 1:4ss, observe da ave morta e solta-a. Eis uma
164 Levítico 13-14

imagem vívida da ressurreição de do, não pôde servir ao Senhor como


Cristo. Cristo morreu por nossos deveria e tem uma grande dívida
pecados e levantou-se de novo, ele para com Deus. A oferta pela culpa
levou o sangue (falando de forma é a única forma de consertar o dano
espiritual) de volta ao céu para que causado por esse período de quebra
fôssemos purificados do pecado. em sua vida. Todo pecador perdi­
Por fim, o sacerdote asperge um do rouba de Deus a honra devida
pouco do sangue sobre o leproso, ao seu nome, e a cada dia a dívida
pois "sem derramamento de san­ aumenta.
gue, não há remissão" (Hb 9:22).
E. O sacerdote aplica o sangue e o
C. O leproso lava-se e espera (w. 8-9) óleo (vv. 14-20)
O sacerdote já pronunciou a puri­ Essa é uma parte tocante do ritual. O
ficação dele, e o leproso, no que sacerdote aplica o sangue na orelha
toca ao Senhor, foi aceito; contu­ direita, no polegar direito do pé e da
do, agora ele tem de se tornar ri­ mão do homem, simbolizando que
tualmente aceito. Esse banho sim­ agora todo o seu corpo foi comprado
boliza o crente purificando-se das e pertence a Deus. Ele deve escutar
impurezas da carne e do espírito a Palavra de Deus, trabalhar para a
(2 Co 7:1). É nossa responsabilida­ glória dele e seguir os caminhos do
de, depois de salvos, manter nos­ Senhor. Depois, o sacerdote aplica
sa vida santa e livre de falta por o azeite sobre o sangue, simboli­
causa dele. Observe que o leproso zando o poder do Espírito de Deus
espera até o oitavo dia, pois oito é para fazer a vontade dele. Não se
o número da ressurreição, do novo podia pôr o sangue sobre o azeite;
início. tinha-se de pôr o azeite sobre o san­
gue. Pois onde se aplica o sangue,
D. O leproso oferece os sacrifícios o Espírito de Deus pode operar. As­
(vv. 10-13) pergia-se o restante do azeite sobre
Agora, ele volta do campo e chega a cabeça do homem, e, assim, ele
à porta do tabernáculo. Ele faz uma estava ungido para sua nova vida.
oferta pela culpa, uma pelo peca­ Em Levítico 8:22-24, vemos que ha­
do e uma queimada. A oferta pelo via uma cerimónia semelhante para
pecado cuida de sua profanação; a a consagração dos sacerdotes. Em
queimada representa a renovação outras palavras, Deus trata o leproso
de sua consagração a Deus. Por que como se fosse um sacerdote.
ele faz a oferta pela culpa? Porque E claro que hoje cumprimos
enquanto o homem esteve profana­ tudo isso por meio da fé em Jesus
Levítico 13-14 165

Cristo. Ele saiu "do arraial" para Deus. Um dia, um leproso disse
nos encontrar. Ele morreu e as­ a Cristo: "Senhor, se quiseres, po­
cendeu de novo para nos salvar. des purificar-me". Ele respondeu:
Ele, quando cremos nele, aplica o "Quero, fica limpo!". Veja Mar­
sangue e o azeite em nossa vida e cos 1:40-45. Cristo quer salvar e
restabelece-nos na comunhão com pode fazer isso.
L e v ít ic o 1 6 - 1 7 monial. Isso, como uma imagem de
Cristo, retrata-o santificando-se por
nossa causa Qo 17:19). Ele consa­
O Dia da Expiação era o feriado reli­
grou-se de boa vontade à tarefa de
gioso mais importante de Israel, pois,
dar sua vida para resgatar muitos.
nesse dia, Deus lidava com todos os
pecados que não haviam sido cober­
tos durante o ano. Hebreus 10:1 ss é D. Ele faz uma oferta pelo pecado
o comentário do Novo Testamento a (vv. 6-11)
respeito desse capítulo. Nosso Senhor não tinha de oferecer
quaisquer sacrifícios por si mesmo.
Leia com atenção Hebreus 7:23-28.
I. A preparação do sacerdote (16:1 -14)
E. Ele entra no Santo dos Santos (vv.
A. Ele tem de ficar sozinho 12-13)
(vv. 1-2; 16:17) Na verdade, o sumo sacerdote entra
Nenhum levita podia assistir a esse três vezes no Santo dos Santos: pri­
importante ritual. O sumo sacerdote meiro, com o incenso, que simbo­
tinha de oficiá-lo sozinho. Da mes­ liza a glória de Deus; depois, com
ma forma que nosso Senhor, sozi­ o sangue do sacrifício ofertado a fa­
nho, pagou o preço pelo pecado. vor de si mesmo; e, por fim, com o
Sua nação rejeitou-o, seus discípu­ sangue derramado pelas pessoas. O
los o abandonaram e fugiram, e o incenso precede o sangue, porque o
Pai afastou-se dele quando morreu propósito da salvação é a glória de
na cruz. Nosso Senhor, sozinho, de­ Deus (Ef 1:6,12,14). Jesus não mor­
cidiu a questão do pecado de uma reu apenas para salvar o pecador
vez por todas. perdido e dar-lhe vida, mas para a
glória de Deus Qo 17:1 -5).
B. Ele põe de lado suas Tudo isso era preparação para
vestimentas magníficas (v. 4) a principal tarefa do Dia da Expia­
Que imagem de nosso Senhor vin­ ção, a oferta pelo pecado em favor
do à terra como homem. Ele põe de da nação.
lado sua vestimenta de glória e põe
sobre si a de servo. Veja também Fi- II. A apresentação dos bodes
lipenses 2:1-11. (16:15-34)
Observe que os dois bodes são con­
C. Ele se banha (v. 4) siderados como uma oferta pelo
Para o sacerdote, isso significa li­ pecado (v. 5). Eles simbolizam dois
vrar-se de qualquer impureza ceri­ aspectos da obra da cruz. O sumo
Levítico 16-17 167

sacerdote, depois de retornar da as­ do, e afastada (simbolicamente) a


persão do sangue de sua oferta pelo iniquidade da nação, o sumo sa­
pecado, mata o bode designado cerdote põe de lado suas humildes
para morrer como uma oferta pelo vestimentas de linho e veste suas
pecado de toda a nação. Depois, vestimentas de glória. Isso simbo­
ele entra pela terceira vez no Santo liza a ressurreição e ascensão de
dos Santos, dessa vez com o san­ Cristo. Ele, depois de terminar sua
gue do bode. Ele asperge o sangue obra na cruz, voltou em glória ao
sobre o propiciatório diante dele e, Pai, à direita do qual está sentado
assim, cobre os pecados da nação. hoje. O Dia da Expiação era um
Observe que o versículo 20 indica dia sério para os judeus, e eles
que o sangue da oferta pelo pecado não faziam nenhum trabalho nes­
reconcilia o povo e o tabernáculo se dia. Não se alcança a salvação
com Deus (veja Hb 9:23-24). por meio de obras, mas totalmente
O sumo sacerdote, depois de pela graça de Deus.
aspergir o sangue, pega o bode
vivo, põe as mãos sobre a cabe­ III. A proibição em relação
ça dele e confessa os pecados do ao sangue (17)
povo, transferindo simbolicamen­ Levítico 17:11 é um versículo-chave
te, dessa forma, a culpa do povo da Bíblia, pois afirma enfaticamen­
para o animal inocente. O termo te que a única forma de expiação é
"bode expiatório" origina-se de por meio do sangue. Muito antes de
uma palavra hebraica que signifi­ a ciência descobrir a maravilha do
ca "remover". O bode é enviado sangue, a Bíblia ensinava que a vida
para o deserto a fim de que nunca está no sangue. Os médicos tenta­
mais seja visto, e isso simboliza a vam tirar o sangue para fazer as pes­
remoção dos pecados da nação (SI soas ficarem bem; hoje eles fazem
103:12). É claro que esses rituais transfusões de sangue!
não removem o pecado, já que têm Esse capítulo proíbe os judeus
de repetir essas cerimónias ano de abater seus animais de forma
após ano. Contudo, eles ilustram descuidada. Eles devem fazer com
o que Cristo fez quando morreu que cada animal seja uma ofer­
uma vez pelos pecados do mun­ ta pacífica ao Senhor, ao trazê-lo
do. O crente israelita salvava-se à porta do tabernáculo para que o
por meio de sua fé, exatamente da sacerdote o ofereça. É claro que o
mesma forma que as pessoas sem­ perigo era que ficassem tentados a
pre têm sido salvas. Apenas depois sacrificar a ídolos ou demónios (v.
de terminada a oferta pelo peca­ 7), prática que aprenderam no Egi-
168 Levítico 16-17

to; ou que não tirassem o sangue do A vida, tanto a física como a es­
animal, e, assim, as pessoas pecas­ piritual, está no sangue. Nossa vida
sem ao comer sangue. O sangue era espiritual depende do derramamen­
algo especial, não podia ser tratado to do sangue de Cristo (veja 1 Jo 1:7;
como alimento comum. Ef 1;7; Cl 1:14; Hb 9:22).
Todo esse capítulo enfatiza que Vivemos em uma época em que
há apenas um local de sacrifício. os teólogos liberais rejeitam a doutri­
Deus aceitaria apenas um preço na do sangue de Cristo. Eles a cha­
— o sangue —; e havia apenas um mam de "religião de matadouro".
local em que ele aceitaria isso — a Precisa-se deixar claro que a Bíblia é
porta do tabernáculo. Da mesma um livro de sangue, de Génesis (em
forma que hoje. Deus aceita apenas que Deus matou animais para vestir
um preço pelo pecado — o sangue Adão e Eva) a Apocalipse (em que
de seu Filho. E derramou-se esse João vê Jesus como o "Cordeiro que
sangue no lugar designado pelo Se­ foi morto"). Não é Cristo, o Exemplo,
nhor — a cruz do Calvário. Deus ou Cristo, o Mestre, que nos salva,
rejeita qualquer outro sacrifício em mas Cristo, o Cordeiro de Deus, cru­
qualquer outro local. cificado pelos pecados do mundo.
L e v ític o 2 1 - 2 2 dado em relação às coisas santas
de Deus (veja Ml 1:6—2:9). Infe­
Os sacerdotes, em geral, e o sumo lizmente, a igreja de hoje transfor­
sacerdote, em particular, deviam mou o ministério em negócio e em
manter os mais altos padrões de ca- zombaria; e a igreja precisa deses­
ráter e conduta, e não podiam ofe­ peradamente de uma revivificação
recer sacrifícios abaixo do padrão. espiritual.
Sob esses aspectos, eles retratam
nosso Senhor Jesus Cristo, o per­
feito Sumo Sacerdote e o sacrifício I. Sacerdotes perfeitos (21:1—22:16)
perfeito (Hb 7:26-28; 10:1-14). Eles Essas leis referem-se à conduta do
também desafiam o povo de Deus a sacerdote em relação ao prantear o
dar, como sacerdotes (1 Pe 2:5,9) e morto, ao casamento e ao relacio­
como sacrifício (Rm 12:1), o melhor namento familiar.
dele mesmo ao Senhor.
Observe a repetição das pala­ A. A conduta dos sacerdotes (21:1-9)
vras "contaminação", "impureza", No acampamento de Israel, a pes­
"defeito", "imundo", "santo" e "san­ soa contaminava-se se tocasse um
tificado". O tema refere-se ao cará- corpo morto ou mesmo entrasse
ter e à conduta santos dos servos de em uma casa em que houvesse um
Deus quando ministram ao Senhor morto (Nm 19:11-22). O sacerdote
e a seu povo. Deus adverte-nos de, comum podia contaminar-se por
quando lhe servirmos, não profanar causa de algum membro próximo
a nós mesmos (21:5), o nome dele
da família, mas não por outros pa­
(21:6; 22:2), o santuário do Senhor
rentes ou amigos. Nenhum judeu
(21:12), os nossos filhos (21:15) ou
as coisas santas que manuseamos devia seguir as práticas de luto dos
no ministério (22:15). pagãos (19:27-28; Dt 14:1). Os ver­
Ao longo da história de Isra­ sículos 6 e 8 dão os motivos para
el, uma das tragédias que ocorreu essas leis: os sacerdotes oferecem
foi a profanação do sacerdócio, o os sacrifícios de Deus e foram sepa­
que, no fim, levou à profanação da rados pelo Senhor (veja 21:15,23;
nação. Se o pecado máximo é a 22:9,16,32). Nenhum sacerdote po­
corrupção do bem máximo, então dia casar com prostituta ou repudia­
os sacerdotes judeus cometeram o da, pois isso poderia trazer para o
pecado máximo, pois corrompe­ clã sacerdotal crianças nascidas de
ram o sacerdócio por causa de seu homens que não fossem da tribo de
caráter irreligioso, de sua má con­ Levi (veja v. 15). A filha de um sa­
duta e de seu ministério descui­ cerdote que se envolvesse em imo­
170 Levítico 21-22

ralidade devia morrer (veja 20:14 e Sumo Sacerdote, Jesus Cristo. Com
Gn 38:24). certeza, hoje o Senhor não inclui a
perfeição física como um requisito
B. A conduta do sumo para o ministério (1 Tm 3); a ênfase
sacerdote (21:10-15) está na moral e na maturidade es­
Esperava-se que o sumo sacerdote, piritual. Paulo tinha um espinho na
por causa de sua posição diante de carne, o que o tornava ainda mais
Deus e por ser ungido por ele, fosse qualificado para servir!
até mais exemplar que os sacerdotes
comuns. Deus sempre espera mais D. Os contatos dos
dos líderes. Ele não podia nem mes­ sacerdotes (22:1-16)
mo contaminar-se por causa de seu Os sacerdotes não "profanarão as
pai e de sua mãe nem exibir os sinais coisas sagradas" de Deus manten-
normais de luto. O versículo 11 não do-se separados de impurezas. Se­
ensina que o sumo sacerdote vivia ria trágico se o servo santo de Deus
no tabernáculo, pois Números 3:38 tornasse tudo que toca imundo por
conta-nos que montavam a tenda causa de sua própria impureza (veja
no lado leste do tabernáculo. Esse Mt 23:25-28). Moisés repete algu­
versículo instrui o sumo sacerdote mas das causas da impureza que já
a estar sempre em serviço e a não explicou em capítulos anteriores: le­
deixar os arredores do tabernáculo pra (caps. 13— 14), úlceras (cap. 15).
nem mesmo para um funeral. Ele O sacerdote que, presunçosamente,
tem de se casar com uma virgem a ministrar quando estiver imundo cor­
fim de assegurar à nação que o pró­ re perigo de morte (vv. 3,9).
ximo sumo sacerdote é mesmo seu Os sacerdotes, além de evitar
filho. as coisas impuras, devem ser cuida­
dosos em como preparar as coisas
C. As características dos santas. Apenas os sacerdotes podem
sacerdotes (21:16-24) comer as porções tiradas das ofertas
Tanto os sacerdotes no altar como de manjares, das ofertas pelo peca­
os sacrifícios sobre o altar (22:17- do e das ofertas pela culpa, contudo
25) não deviam ter defeito. Ao mes­ os membros da família do sacerdo­
mo tempo que não temos certeza te podem comer as outras ofertas.
sobre a quais defeitos alguns desses A pessoa tem de ser membro oficial
termos se referem, fica claro que da família pelo nascimento ou pela
Deus queria que seus ministros fos­ compra. A filha casada com alguém
sem perfeitos fisicamente. De novo, que não seja sacerdote não pode co­
isso exalta a perfeição de nosso mer as porções de oferta. Qualquer
Levítico 21-22 171

pessoa que coma alimento sagrado O capítulo encerra-se com Deus


inadvertidamente tem de ser punida. lembrando as razões que devem
motivar seu povo quando oferece
II. Sacrifícios perfeitos (22:17-33) sacrifícios: ele é o Senhor que o se­
Deus sempre merece o mais exce­ parou como seu povo. Ele o libertou
lente, e que não ousemos trazer-lhe do cativeiro no Egito, e essas são as
algo com defeito (Ml 1:6—2:9). O ordens dele.
sangue de um sacrifício com defei­ Hoje, os crentes não trazem
to nunca agrada a Deus nem expia sacrifícios de animais a Deus
o pecado. Além disso, esses sacrifí­ porque esse sistema todo acabou
cios eram símbolos do Senhor Jesus na cruz. Contudo, apresentamos
Cristo e de seu sacrifício perfeito nosso corpo a ele (Rm 12:1-2),
(Hb 9:14; Ef 5:27). Oferecer sacrifí­ as pessoas que ganhamos para
cios com defeito a Deus significava Cristo (Rm 15:16), nosso louvor
profanar o nome dele. (Hb 13:15), a prática do bem (Hb
As leis relacionadas ao imolar 13:1 6), o coração quebrantado (SI
os sacrifícios mostram a ternura de 51:1 7) e nossas orações (SI 141:2).
Deus em relação aos animais (vv. Devemos oferecer nossos sacrifí­
27-28). Ele não tira o filhote da mãe cios por intermédio de Cristo para
muito depressa. O Senhor também que sejam aceitáveis a Deus, já
se preocupa com as aves (Dt 22:6-7) que nada que oferecemos a ele é
e as árvores (Dt 20:19-20). perfeito (1 Pe2:5).
L e v ít ic o 2 3 do povo de Deus; e do 15Qao 212
dia, os judeus celebravam jubilo­
samente a Festa dos Tabernáculos,
As sete festas do Senhor são cheias que retrata as bênçãos do Reino
de manjares santos magníficos e
futuro. O povo de Deus é um povo
merecem um estudo cuidadoso. Já disperso que precisa ser reunido;
estudamos algumas dessas festas,
é um povo pecador que precisa
portanto não as trataremos em de­
ser purificado; e é um povo sofre­
talhes, mas algumas são novas em
dor que precisa receber alegria. O
nosso estudo. É importante notar a longo período (cerca de três me­
ordem dessas sete festas, pois isso ses) entre o Pentecostes e a Festa
nos oferece um "calendário profé­ das Trombetas fala da era atual da
tico" de Israel e da igreja. O ano
igreja, quando o Senhor deixa Is­
religioso inicia-se com a Páscoa,
rael de lado, porque este rejeitou
que retrata a morte de Cristo. No
o Messias.
dia seguinte ao sábado (ou shab-
bath) de Páscoa (o domingo), os is­
raelitas celebravam a Festa das Pri­ I. Páscoa (23:4-5)
mícias (Festa dos Primeiros Frutos, Já vimos essa festa, portanto recorra
NVI), que simboliza a ressurreição às observações sobre Êxodo 11 —
de nosso Senhor. Devotavam a 13. Tudo depende do sangue do
semana seguinte à Páscoa à Festa cordeiro: não haveria outras festas
dos Pães Asmos, período em que se não houvesse a Páscoa. Hoje, as
tiravam todo fermento das casas. pessoas que querem abolir o sangue
Essa festa retrata a santificação solapam o próprio fundamento do
dos crentes, em que tiram o peca­ plano de Deus para todas as eras!
do de sua vida. Tudo isso acontece
no primeiro mês do ano. O Pente­ II. Festa dos Pães Asmos (23:6-8)
costes do Novo Testamento, a vin­ Também já falamos a respeito des­
da do Espírito Santo para a igreja, sa festa. Ela retrata o povo de Deus
acontece 50 dias depois da Festa tirando o pecado de sua vida (2 Co
das Primícias. No sétimo mês do 7:1) e alimentando-se do Cordeiro
ano, celebravam-se três festas. A que o fortalece para a jornada. Não
Festa das Trombetas abria o mês e inverta essas duas festas. Ninguém
lembra-nos a reunião do povo de se salva deixando de lado o fermen­
Deus quando o Senhor retornar. O to (pecado), e ninguém quer deixar
décimo dia do mês era o Dia da o pecado de lado antes de ser salvo
Expiação, que ilustra a purificação pelo sangue! Essa é a diferença entre
Levítico 23 173

reforma religiosa e regeneração espi­ costes. A "nova oferta de manjares"


ritual, que significa nascer de novo (v. 16) compunha-se de dois pães,
por intermédio do Espírito de Deus. simbolizando o batizado, por inter­
médio do Espírito Santo, de judeus
III. Festa das Primícias (23:9-14) e de gentios em um corpo, a Igreja
O Senhor reservou essa festa para a (1 Co 12:13). A permissão de que o
terra de Canaã, em que o povo tinha pão tivesse fermento ilustra que há
campos e colheitas. Seria impossível pecado na igreja hoje. Pela graça de
celebrar essa festa no deserto. No dia Deus, virá o dia em que não have­
seguinte ao sábado (ou shabbath) de rá fermento em meio ao seu povo!
Páscoa (um domingo, o primeiro dia Observe também que os sacerdotes
da semana), o sacerdote devia mo­ apresentam os pães, e não molhos,
ver o molho, ou feixe, dos primeiros ou feixes, de grãos, pois agora os
grãos diante do altar como um si­ crentes unem-se em Cristo por meio
nal de que toda a colheita perten­ do Espírito Santo. Depois do Pente­
cia ao Senhor. Isso é uma imagem costes temos um longo intervalo em
da ressurreição de nosso Senhor, já que não há festas. Há três festas no
que 1 Coríntios 15:20-21 definitiva­ primeiro mês e três no sétimo e, en­
mente chama-o de "as primícias". A tre estas, o Pentecostes. Esse longo
adoração no Dia do Senhor não é intervalo fala da presente era, a era
invenção da igreja, como algumas da igreja. Israel rejeitou seu Cordei­
pessoas ensinam. Há séculos, Deus ro e não pode receber o Espírito até
determinou isso em seu calendário! que aceite seu Messias; e Israel es­
Toda a "colheita" da ressurreição palhou-se pelo mundo. Agora, não
pertence a Deus, porque Cristo, as há templo, nem sacerdócio, nem
Primícias, está vivo! Ninguém será sacrifício, nem rei. Que futuro espe­
esquecido. A promessa é clara: ra Israel? Veremos isso nas próximas
"Porque eu vivo, vós também vive­ três festas.
reis" (Jo 14:19).
V. Festa das Trombetas (23:23-25)
IV. Pentecostes (23:15-22) Israel, como nação, recebeu instru­
"Pentecostes" significa "cinquenta", ções por meio de sinais dos sacer­
e 50 dias após a ressurreição de Cris­ dotes tocando trombetas (Nm 10). A
to, o Espírito Santo veio aos crentes Festa das Trombetas ilustra a reunião
(At 2). Durante 40 dias, Cristo mi­ de Israel, quando Deus soa a trom­
nistrou aos seus discípulos (At 1:3), beta, chama-o dos confins da terra.
e eles, nos outros dez dias, oraram Leia Isaías 27:12-13 e as palavras de
e esperaram a chegada do Pente­ Cristo em Mateus 24:29-31.
174 Levítico 23

É claro que aqui há uma apli­ a igreja será purificada de toda con­
cação para a igreja, pois nós espera­ taminação e embelezada para o ca­
mos o soar das trombetas no ar para samento do Cordeiro.
anunciar o retorno de nosso Senhor
(1 Co 15:52ss; 1 Ts 4:13-18). Os VII. Festa dos Tabernáculos
judeus soaram as trombetas para (23:33-44)
reunir a assembléia, e nosso Senhor Durante sete dias, os judeus deviam
fará isso quando for reunir seus fi­ viver em tendas a fim de lembra­
lhos. Os judeus também soavam as rem-se da provisão e da proteção
trombetas para a guerra, e, de novo, de Deus quando estavam no deser­
Cristo, quando tirar seus filhos da to. Contudo, também há uma Festa
terra, declarará guerra às nações. dos Tabernáculos por vir para Israel
que acontecerá quando o Rei for re­
VI. Dia da Expiação (23:26-32) cebido, e a nação restaurada. Para
Já falamos desse dia nas observações mais detalhes, leia Zacarias 14:16-
a respeito de Levítico 16—17. No 21. Portanto, essa festa fala do futu­
fim, quando Deus reunir os judeus, ro Reino milenar que Deus prome­
revelará Cristo para eles, e "Eles ve­ teu aos judeus. Essa festa acontece
rão aquele a quem traspassaram". depois da colheita (v. 39), o que
Zacarias 12:10—13:1 descreve o nos mostra que Deus reunirá toda
futuro Dia da Expiação de Israel. a sua colheita antes de Cristo esta­
Leia esses versículos com atenção. belecer seu reino terreno. Essa era
Será um dia de pesar pelo pecado, uma festa de regozijo, não de pesar;
de purificação por meio do sangue e certamente os céus e a terra se re­
do Cordeiro. Algumas pessoas justa­ gozijarão quando Cristo reinar de
põem o Dia da Expiação ao tribunal Jerusalém. Esse capítulo é a "agen­
de Cristo, em que os santos de Deus da profética" de Deus, e nós não sa­
prestarão contas das obras que fize­ bemos quando as trombetas soarão.
ram no corpo. Entretanto, ele aplica- É muito importante que estejamos
se principalmente à nação de Israel. prontos para o soar das trombetas e
Com certeza, no tribunal de Cristo, a vinda do Senhor!
L e v ít ic o 2 5 se e restaurasse sua produtividade.
Nesse ano, o povo não podia ter a
colheita regular, mas qualquer pes­
O sistema económico de Israel basea­
soa podia comer os frutos dos cam­
va-se em três princípios fundamen­
pos e dos pomares. Deus prometeu
tais: (1) a terra pertencia a Deus, e ele
fornecer uma safra abundante no
tinha o direito de controlá-la (v. 23);
sexto ano, portanto observar o Ano
(2) o povo pertencia a Deus, porque
Sabático era realmente um teste de
ele o libertara da escravidão do Egito
fé para as pessoas. Era também uma
(vv. 38,42,55); e (3) os judeus eram
expressão do amor do Senhor pelos
uma família ("teu irmão") e deviam
pobres da terra (Êx 23:10-12). De
cuidar uns dos outros (vv. 25,35-
acordo com Deuteronômio 15:1-
36,39,49). Josué e o exército judeu
11, deviam-se cancelar todas as dí­
conquistaram a terra de Canaã, mas
vidas ao final do sétimo ano. Os ser­
Deus determinou a herança deles (Js vos judeus deviam servir apenas por
13—21). O povo habitaria na terra e seis anos (Êx 21:2), e encorajava-se
desfrutaria de seus frutos, mas Deus o povo judeu a ser especialmente
era dono dela e determinava como generoso com o pobre.
seria usada. O ano sabático era um período
Esse capítulo foca estes três tó­
de descanso para a terra, para o povo
picos relacionados à economia da
e para os animais que trabalhavam
nação.
na terra. Para os que estavam em difi­
culdades financeiras, era uma opor­
tunidade de terem um novo início.
I. O ano sabático (25:1-7,18-22) Infelizmente, não há evidências de
O calendário judeu do Antigo Testa­ que a nação sempre obedeceu fiel­
mento funcionava em uma série de mente a essa lei (2 Cr 36:21). Com
"setes". O sétimo dia da semana era frequência, os profetas condenavam
o sábado (ou shabbath). Sete sema­ os líderes judeus e os ricos pelo tra­
nas depois da Páscoa era Pentecos­ tamento desumano que dispensavam
tes, e o sétimo mês do ano traz a Fes­ aos pobres. Se tivessem observado a
ta das Trombetas, o Dia da Expiação lei do ano sabático, o pobre não per­
e a Festa dos Tabernáculos. A cada deria suas terras, e o rico não acu­
sete anos, acontecia o "ano sabáti­ mularia tantas posses. A economia
co", e depois de sete anos sabáticos poderia não ser perfeita, mas seria
acontecia o Ano do Jubileu. muito mais equilibrada.
O ano sabático foi a forma de A cada ano sabático, durante
Deus permitir que a terra descansas­ a Festa dos Tabernáculos, os sacer­
176 Levítico 25

dotes deviam ler e explicar o livro deriam semear de novo. Não have­
de Deuteronômio para o povo (Dt ria colheita até o ano seguinte.
31:9-13). Era algo como uma sema­ A terra não era propriedade das
na de conferência bíblica em que pessoas, portanto elas não podiam
o povo era lembrado do que Deus vendê-la em caráter permanente.
fizera por ele e do que ele queria Deus dera-lhes a terra (Gn 12:1-3;
em troca. Precisa-se ensinar a Pala­ 15:7; 17:8; Dt 5:16) e permitira-lhes
vra de Deus a seu povo, pois toda usá-la, mas ele sempre teria o con­
geração nova ainda não a aprendeu, trole dela. As pessoas deviam andar
e as gerações antigas precisam lem­ em temor a Deus e não deviam usar
brar-se dela. a riqueza para oprimir umas às ou­
tras.
II. O Ano do Jubileu (25:8-17,23-24) Nesse ano especial, liberta-
A palavra "jubileu" deriva-se da pa­ vam-se os escravos, e, assim, eles
lavra hebraica yobel, que significa reintegravam-se a suas famílias. O
"chifre de carneiro". Anunciava-se "Sino da Liberdade", na Filadélfia,
esse ano especial com o soar de tem uma gravação com a frase "Pro­
trombetas no Dia da Expiação. As­ clamareis liberdade na terra a todos
sim, o ano iniciava-se com jejum os seus moradores" (v. 10).
e arrependimento, pois nesse dia a O Ano do Jubileu relaciona-se à
nação confessava seus pecados ao era do Reino em que Jesus Cristo rei­
Senhor (Lv 16). nará em glória e cumprirá as promes­
Durante esse ano, a pessoa re­ sas feitas ao povo judeu. Leia Isaías 61
cuperava a terra que fora vendida. e veja o que Deus planejou para a
Assim, a terra não saía da família,ou nação de Israel. Em um sentido espi­
clã. Em qualquer compra de pro­ ritual, o Ano do Jubileu também retra­
priedade judaica, calculava-se o ta nossa vida cristã (Lc 4:16-21, que
preço até o próximo Ano do Jubileu, é uma citação de Is 61:1-2). Aquele
quando a terra voltaria para o pro­ sábado (ou shabbath), na sinagoga
prietário original. Nesse cálculo, o de Nazaré, Jesus terminou sua leitu­
fator principal era quanto alimento ra do Antigo Testamento com "o ano
ela poderia produzir nesse período. aceitável do Senhor" (Lc 4:19), que se
A terra, como no ano sabático, de­ refere ao Ano do Jubileu. Ele não leu
veria descansar no Ano do Jubileu. "o dia da vingança do nosso Deus" (Is
As pessoas tinham de confiar na 61:2), pois esse dia não chegará até
provisão de Deus para o ano sabá­ que Deus termine seu programa atual
tico (o 49e), para o Ano do Jubileu de "constituir [...] um povo para o seu
(509) e para o 512 ano, quando po­ nome" (Lc 15:14).
Levítico 25 177

111.O cuidado com o pobre (25:25-55) Neemias 5. O judeu não devia tra­
Aplicava-se essa lei independente­ tar como escravo o irmão judeu que
mente de ser ano sabático ou Ano trabalhava para ele como servo a
do Jubileu. Os versículos 25-28 es­ fim de pagar uma dívida, e no Ano
tabelecem os princípios gerais e, de­ do Jubileu esse servo deveria ser li­
pois, apresentam-nos sua aplicação bertado.
a situações específicas. A pessoa
que vende a propriedade por cau­ C. O parente redentor (vv. 47-55)
sa de dificuldade financeira pode Em Rute, encontramos a melhor
readquiri-la a qualquer momento ilustração dessa lei, quando Boaz
ou um irmão pode fazer isso por resgata Rute, Noemi e a proprie­
ela. Contudo, estabelece-se o preço dade delas. O redentor resgatava
conforme o número de anos que fal­ os parentes ao pagar a dívida deles
tam para o Ano do Jubileu. e ao recuperar a terra para eles. O
"redentor" tinha de ser um paren­
A. A casa na cidade (vv. 29-34) te próximo que pudesse resgatar e
Essa era uma propriedade muito va­ quisesse fazer isso. O parente pobre
liosa por causa da segurança que a ficava livre da servidão e da dívida.
cidade murada fornecia. Por essa O parente redentor é um retrato de
razão, o vendedor tinha apenas o nosso Senhor Jesus Cristo, que se
prazo de um ano para comprá-la de tornou nosso "parente próximo" ao
volta. Depois desse período, o pro­ vir como homem (Fp 2:1-11; Hb
prietário poderia ficar com a pro­ 2:9-18) e pagar o preço da nossa re­
priedade pelo tempo que quisesse; denção ao morrer na cruz. Ele era
e ela não voltaria para o proprietá­ tanto capaz de salvar como estava
rio original no Ano do Jubileu. En­ disposto a isso.
tretanto, essa regra não se aplicava Devemos mencionar que o sis­
às casas dos levitas. Pois o levita tema económico de Israel não era
dava sua propriedade ao Senhor. uma forma de comunismo. As pesso­
Veja Atos 4:34-37. as tinham propriedades particulares
que podiam comprar e vender, mas
B. O irmão pobre (vv. 35-46) a terra pertencia a Deus, e ele não
Os judeus não deviam oprimir nem permitia que fosse vendida em cará-
tirar vantagem uns dos outros em ter permanente. O ano sabático e o
assuntos financeiros. Se empresta­ Ano do Jubileu, se fossem obedeci­
vam dinheiro, não deviam cobrar dos, impediriam que o rico se tornas­
juros; se vendiam alimento, não se mais rico, e, dessa forma, o pobre
deviam ter lucro exorbitante. Veja se tornasse mais pobre. Contudo, os
178 Levítico 25

judeus não obedeceram a essas leis, porque descansava a cada sete anos
e o resultado foi trágico. Eles tam­ e dois anos seguidos no Jubileu. Cla­
bém aprovaram leis que favoreciam ro que é necessário ter fé para fazer
o rico e tiranizavam o pobre, e Deus isso; no entanto, Deus prometera
julgou-os por isso. Veja Isaías 3:12- suprir as necessidades deles. Afinal
15 e 10:1-3; Amós 2:6-7 e 5:11. de contas, o alimento que ingerimos
Por fim, essas leis especiais vem da mão de Deus, não do super­
mostram a preocupação de Deus mercado; e todos nós precisamos
com a terra. A terra restaurava sua orar: "O pão nosso de cada dia dá-
produtividade e aumentava de valor nos hoje" (Mt 6:11).
N úm ero s

Esboço

I. A antiga geração posta de lado (1— 20)


A. Recenseamento (1— 4)
B. Diretrizes (5— 10)
C. Castigos (11— 12)
D. Condenação (13— 20)

II. A nova geração separada (21— 36)


A. Jornada (21— 25,33)
B. Recenseamento (26—27)
C. Ofertas (28— 30)
D. Divisão da herança (31— 36)
N o tas in t r o d u t ó r ia s III. Lição espiritual
Como Hebreus 3—4 e 1 Coríntios
10:1-15 explicam, o livro de Núme­
ros tem uma importante lição espi­
I. Nome ritual para os cristãos de hoje. Deus
O livro recebeu esse nome por honra a fé e pune a incredulidade: os
causa dos dois recenseamentos de israelitas não confiaram na Palavra
homens de combate nos capítulos de Deus. Em Cades-Barnéia, duvida­
1—4 e 26—27. Fizeram o primeiro ram da Palavra de Deus e perderam
censo no segundo ano após a nação o direito à herança. Eles, em vez de
deixar o Egito, e o segundo, 38 anos tomar posse de Canaã por meio da
depois, quando a nova geração es­ fé, andaram errantes pelo deserto em
tava para entrar em Canaã. Esses re­ descrença. Hoje, muitos cristãos es­
censeamentos não se referem à na­ tão "a meio caminho" em sua vida
ção toda, mas apenas aos homens espiritual. O sangue do Cordeiro
capazes de combater. O primeiro libertou-os do Egito, mas ainda não
censo revelou que havia 603.550 tomaram posse de sua herança em
homens disponíveis, e o segundo, Cristo. Canaã não é um retrato do
que havia 601.730. céu. Antes, é uma imagem de nossa
herança espiritual em Cristo (Ef 1:3),
II. Tema uma herança que devemos reclamar
No Antigo Testamento, Números é o por meio da fé. Canaã era uma ter­
livro do deserto. Ele descreve o fra­ ra de lutas e de bênçãos, como é a
casso da nação em Cades-Barnéia vida cristã hoje. Infelizmente, mui­
e seu andar errante pelo deserto tos cristãos vão ao local da decisão
até que a antiga geração incrédula (o Cades-Barnéia deles) e não con­
morresse. Alguém descreveu o errar seguem tomar posse de sua herança
de Israel pelo deserto como "a mais por meio da fé! Eles, em vez de ser
longa marcha fúnebre da história". conquistadores (como descrito em
Deus, da antiga geração, permitiu Josué), tornam-se errantes (como
a entrada em Canaã apenas de Ca- descrito em Números). Sim, eles são
lebe e Josué, porque confiaram no salvos, mas fracassam em cumprir o
Senhor e se opuseram à decisão da propósito de Deus para a vida deles.
nação de voltar para Cades-Barnéia. Eles não confiam em Deus para ven­
Até mesmo Moisés foi proibido de cer os gigantes, para derrubar os mu­
entrar na terra prometida por causa ros e para dar-lhes a herança que ele
de seu pecado, quando feriu a pe­ lhes prometera. Eles não atravessam
dra, em vez de falar a ela. o rio Jordão (um retrato da morte do
Notas introdutórias 181

"eu") e não dão o passo de fé a fim te todo o tempo em que esteve em


de reivindicar o que Cristo lhes pro­ sua "marcha fúnebre". Isso é o que
metera. a descrença faz com os cristãos. Ela
E interessante observar que a desperdiça tempo, esforço, energia
nação não cresceu enquanto foi e não traz bênção verdadeira. Como
errante no deserto. Na verdade, o é triste quando as igrejas não acele­
segundo censo mostra que havia ram o passo de fé e, em consequên­
1.820 homens de combate a menos. cia disso, começam a degenerar es­
A nação desperdiçou 38 anos, pa­ piritual, numérica e materialmente.
deceu aflições desnecessárias, não Que Deus possa ajudar-nos a crer
cresceu e não honrou a Deus duran­ em sua Palavra!
N ú m er o s 9 -1 2 que quando, na Páscoa, Nicodemos
e José descem o corpo de Jesus da
Esses capítulos descrevem algumas cruz, eles macularam-se e não pu­
experiências que a nação de Israel deram participar da festa (Jo 19:38-
teve no deserto, e nelas vemos as 42). Entretanto, eles encontraram
experiências dos cristãos de hoje. salvação em Cristo, o verdadeiro
Cordeiro de Deus.

B. Ele orienta nosso caminhar


I. Deus guia seu povo (9—10) diário (9:15-23)
Antes, em Êxodo 13:21-22, vimos
A. Ele dá sabedoria para a nuvem que guiava o povo do Se­
resolver problemas (9:1-14). nhor. É encorajador saber que o
Esse é o segundo ano depois da mesmo Deus que nos salva e nos
maravilhosa libertação de Israel guarda também nos guia em nossa
do Egito, e a nação devia celebrar jornada. Deus queria guiar a na­
a Páscoa. Essa festa é um lembrete ção ao local da sua bênção, mas a
constante de que os israelitas de­ descrença deles impediu-o de fazer
viam sua libertação ao sangue do isso. E provável que a coluna de nu­
cordeiro e ao poder de Deus. Todas vem e de fogo simbolize a Palavra
as bênçãos que recebiam vinham de Deus, que é nossa conselheira
por meio do sangue, da mesma for­ e guia na vida presente. O Espírito,
ma que acontece com a igreja hoje ao usar a Palavra, guia-nos: "sem­
(Ef 1:3ss). Entretanto, alguns homens pre [...] de dia [...] e de noite" (v.
estavam cerimonialmente imundos 16). Seria tolice, na verdade bem
por terem tocado um cadáver e pre­ perigoso, que o acampamento ou
cisavam conhecer a mente de Deus qualquer parte dele se movesse sem
para saber se podiam participar da a orientação de Deus. Os judeus
festa. Moisés, graciosamente, admi­ eram um povo peregrino que vivia
tiu que não sabia a resposta, mas em tendas e tinha de estar pronto
que perguntaria ao Senhor. Veja Tia­ para mover-se a qualquer momen­
go 1:5. O Senhor permitiu que esses to. O versículo 22 deixa claro que
homens celebrassem a festa depois, a orientação de Deus está além da
no segundo mês, o que mostra que previsão humana: às vezes, a nu­
mesmo na rígida Lei de Moisés ha­ vem tardava alguns dias; às vezes,
via liberdade quando as circuns­ um mês; e, às vezes, um ano. Algu­
tâncias assim o exigiam (veja 2 Cr mas vezes, Deus os levava durante
30:13-15). E interessante lembrar o dia e, outras vezes, à noite (v. 21).
Números 9-12 183

Contudo, isso não fazia diferença, pecífico à volta do tabernáculo, e


já que Deus os orientava. cada seção movia-se ao comando
da trombeta.
G Ele adverte-nos quando
precisamos (10:1-10) E. Ele não precisa da
As duas trombetas são feitas de pra­ sabedoria mundana (10:29-36)
ta (metal que simboliza redenção) Hobabe era cunhado de Moisés;
e eram usadas para a convocação Reuel era sogro de Moisés, também
da assembléia e para a partida do chamado de Jetro (veja Êx 2:18-21
acampamento. Os sacerdotes e os e 3:1). Deus prometera guiar seu
levitas viviam muito próximos do povo, mas Moisés queria apoiar-se
tabernáculo e eram os primeiros a em braço de carne.
ver a nuvem se movendo. Era res­
ponsabilidade deles avisar o acam­ II. Deus castiga seu povo (11— 12)
pamento. Ao ler esses versículos, Depois das evidências incríveis do
vemos que usavam as trombetas amor de Deus apresentadas nos ca­
,para vários outros objetivos: para pítulos 9— 10, é surpreendente ver­
reunir o acampamento à porta do mos que o povo se queixa. Embora
tabernáculo (vv. 3,7); para convocar faça parte da natureza humana, fra­
os líderes das tribos (v. 4); para aler­ cassamos em agradecer o que Deus
tar tanto em relação à guerra quanto faz por nós.
à partida do acampamento (vv. 6,9);
e para anunciar os dias especiais, a A. O povo se queixa, e Deus manda
mudança de lua, etc. (v. 10). É inte­ fogo para castigá-lo (11:1-3)
ressante que associem a trombeta a O mesmo povo que se queixa, im­
Israel e à igreja. Ao som da trombeta plora por ajuda a Moisés, e este é
se dará o arrebatamento da igreja, benevolente o bastante para orar
quando Deus chamará seu povo ce­ por ele. Taberá significa "queima".
lestial (1 Co 15:51-53, 1 Ts 4:16-1 7; E uma coisa séria queixar-se contra
veja também Ap 4:1). Ele também Deus.
usará a trombeta para reunir o Israel
espalhado pelo mundo (Mt 24:31; B. O povo tem desejo> e Deus
e veja a Festa das Trombetas em Lv fornece carne a ele (11:4-35)
23:23-25). Um "misto de gente" viajava com
Israel, mas o coração dele, como o
D. Ele guia seu povo de forma dos membros mundanos da igreja
ordenada (10:11-28) de hoje, ainda estava no Egito. Em
Cada tribo acampava em lugar es­ vez de as pessoas lembrarem-se da
184 Números 9-12

bondade de Deus, lembravam-se orientação de Deus, ele podia fazer


das co isas c a rn a is d o Egito! E se o im possfvel. C ontudo, M o isés esta-
queixavam do maná celestial, que va tão desencorajado que até pediu
Deus lhes dava todos os dias. O para morrer!
versículo 8 indica que as pessoas Deus atendeu às duas neces­
faziam o que podiam para melho­ sidades: deu a Moisés 70 anciãos
rar o maná, pois o moíam, o amas­ para ajudá-lo em seu trabalho e deu
savam e o cozinhavam. Elas não aos judeus a carne pela qual sus­
podiam fazer com que o pão de piravam. Entretanto, observe que,
Deus tivesse o sabor do alimento nos dois casos, a resposta de Deus
do Egito, mas o problema estava no teve um custo alto. Deus pegou o
apetite delas, não no pão de Deus. mesmo Espírito que capacitara Moi­
Êxodo 16:31 diz que o maná tinha sés e deu-o aos 70 anciãos que o
sabor de mel, mas o versículo 8 ajudariam, mas o Espírito não po­
afirma que, quando os judeus ten­ deria dar a Moisés todo o poder de
taram "melhorar" o maná, ele ficou que necessitava para seu trabalho?
com sabor de azeite! E as pessoas que comeram a car­
O desencorajamento dos líderes ne morreram de uma grande praga
foi um dos tristes resultados da car- no momento em que a comeram
nalidade do povo de Deus (v. 10ss). (SI 78:25-32; 106:13-15). Às vezes,
Agora, o próprio Moisés queixa-se a Deus responde às nossas orações,
Deus! Observe com que frequência e achamos que a resposta não é de
ele usa as palavras "eu", "meu" e forma alguma uma bênção! Obser­
"mim" em suas orações, pois a pre­ ve que, nos versículos 26-30, Moi­
ocupação dele era com ele mesmo, sés mostra que não tem ciúmes dos
não com a glória do Senhor. Moisés dois homens capacitados a profeti­
deveria saber que o mesmo Deus zar pelo Espírito. Essa é a marca de
que os libertara, os guiara e provera um grande homem. Com certeza,
para eles lhes daria carne no deserto; Moisés teve seus dias de desencora­
mas, como acontece com frequência, jamento, mas ele era um homem de
a oração autocentrada matou sua fé. Deus, apesar de suas falhas.
Por fim, Moisés estava quase desistin­ No versículo 31, vemos que as
do: "Eu sozinho não posso levar todo codornizes vieram do mar e voa­
este povo, pois me é pesado demais" ram a cerca de 1,32 metro acima
(v. 14). Veja, em Êxodo 18:18, o que da face da terra, perto o suficiente
seu sogro lhe disse a respeito disso. É para que os judeus as pegassem. As
claro, Moisés, por si mesmo, não era pessoas gastaram dois dias e uma
capaz de conduzir Israel, mas, com a noite juntando as codornizes; con­
Números 9-12 185

tudo, quantas delas foram fiéis em servos (Is 54:17). Aparentemente,


recolher o maná celestial? O nome Miriã comandava a discussão, pois
'Qu ibrote-Hataavá" significa "se­ ela ficou leprosa, e seu pecado atra­
pultura de luxúria". "A mentalidade sou a marcha do acampamento em
da carne é morte" (Rm 8:6, NVI). sete dias. Arão confessou sua culpa,
e Moisés orou por sua irmã Miriã,
C. Os líderes criticam > e Deus uma evidência de amor e humilda­
disciplina-os (cap. 12) de verdadeiros. É muito sério quan­
Arão, sumo sacerdote, e Miriã, pro­ do um líder sente ciúmes de outro,
fetisa (Êx 15:20-21), eram líderes pois seu pecado afeta toda a con­
em Israel junto com seu irmão Moi­ gregação.
sés. A causa aparente da discussão Não sabemos se essa esposa é
deles foi a esposa de Moisés, que uma nova esposa ou Zípora, esposa
era cuxita (etíope e, portanto, gen­ de Moisés de anos anteriores. Moi­
tia). Contudo, a causa verdadeira foi sés pode ter-se casado pela segunda
o ciúme que sentiam por causa da vez, contudo não há evidência em
liderança de Moisés (v. 2). Moisés, nenhuma passagem de que Zípo­
ao recusar-se a discutir com eles, ra tivesse morrido. No versículo 8,
provou sua mansidão (humildade) e observe que a expressão "de vista"
deixou sua causa nas mãos de Deus. (ARC) significa "claramente"; Deus
O Senhor prometera defender seus fala "boca a boca" com Moisés.
N ú m er o s 1 3 -1 4 pede-os de entrar na posse da he­
rança por meio da fé.
Hebreus 3-4 é o comentário do Novo É interessante notar a "promo­
Testamento desses capítulos. O pen- ção" de Josué. Números 11:28 ci-
samento-chave é que a descrença tava-o como "servidor de Moisés";
tira-nos a bênção. Repare nas evi­ no fim, ele tornou-se sucessor de
dências da descrença da nação e dos Moisés Qs 1). Em Êxodo 17:8-16, o
líderes. vemos como soldado; Êxodo 24:13
mostra-o com Moisés no monte Si­
I. O envio de espiões (13:1-27) nai; em Êxodo 33:11, ele é o respon­
Leia Deuteronômio 1:20-23, em que sável pela tenda de encontro; e em
Moisés deixa claro que o envio de Números 13, ele é um dos espiões.
espiões era desejo do povo, não uma Josué, por causa de sua fidelidade
ordem do Senhor. Deus permitiu esse em qualquer tarefa que Deus lhe
plano a fim de mostrar aos israelitas deu, progredia de uma responsabi­
como era realmente o coração deles. lidade a outra.
O Senhor já lhes contara muitas ve­
zes como era a terra de Canaã, que II. A recusa em entrar na
nações havia lá e como ele elimina­ terra (13:28-33)
ria os inimigos deles e lhes daria a Os dez espiões descreveram as gló­
herança prometida; portanto, qual a rias da terra e, depois, acrescenta­
necessidade de enviar homens para ram: "[...], porém". Em geral, essa
espiar a terra? É triste constatar que conjunção indica descrença. O
a natureza humana prefere caminhar povo era forte, as cidades eram for­
pela visão, não pela fé. tificadas, e havia gigantes na terra.
Os espiões examinaram a ter­ Os israelitas viram os gigantes e, a si
ra e até trouxeram alguns de seus mesmos, viram como gafanhotos —,
frutos maravilhosos, mas também mas não viram Deus. Eles tinham os
trouxeram um relato ruim que de­ olhos voltados para os obstáculos,
sencorajou o coração das pessoas. não para o Senhor que os guiara
Ninguém na nação, exceto Moi­ até lá. Calebe mostrou verdadeira
sés, Calebe e Josué, acreditou que fé quando disse: "Prevaleceremos".
Deus cumpriria sua promessa! Os Os dez espiões, em vez de relatar
dez espiões descrentes representam as bênçãos da terra, enfatizaram as
muitos cristãos de hoje: eles "espio­ dificuldades e fizeram um "relato
nam" sua herança em Cristo e até ruim" da terra santa de Deus. A des­
experimentam alguns dos frutos da crença sempre vê os obstáculos; a fé
bênção dele, mas a descrença im­ sempre vê as oportunidades.
Números 13-14 187

A recusa em entrar na terra sabia que seus descendentes não


simboliza a recusa dos crentes em seriam nem um pouco diferentes da
tomar posse da herança em Cristo nação que ele liderava agora, pois
(Hb 3—4). Os cristãos que duvidam "toda carne é como a erva". Veja
vêem problemas e obstáculos e pe­ Êxodo 32:10, em que Deus faz uma
rambulam desassossegados, cegos oferta semelhante.
para bênçãos que recebem, em vez
de repousarem totalmente em Cristo B. A intercessão de Moisés (w. 13-19)
e confiarem nele para todas as suas Moisés, pouco tempo antes, recla­
necessidades. mava porque o povo era um fardo
e agora ele suplicava em favor dele.
III. A rebelião contra seus Ele tinha o coração de um verdadei­
líderes (14:1-39) ro pastor — amava seu povo e orava
Em Êxodo 15, vemos Israel cantan­ por ele. Observe que Moisés lembra
do grande vitória, mas aqui ele cho­ o Senhor de suas promessas e reali­
ra de frustração! Ele esquecera seu zações: era a glória de Deus que es­
cântico? Veja Êxodo 15:14-18. Será tava em jogo! Moisés também lem­
que os israelitas tinham esquecido bra o Senhor de sua misericórdia e
tudo que Deus fizera por eles nesses perdão (veja Êx 33:18-23 e 34:5-9).
dois últimos anos? Eles viram a gló­ Nessa cena, Moisés é um retrato de
ria e o poder dele, contudo agora o Cristo, o qual se dispôs a desistir da
punham à prova com sua atitude de própria vida para salvar-nos.
rebelião e descrença (vv. 22-23).
Deus esperou até o povo ex­ C. O julgamento de Deus (vv. 20-39)
pressar o desejo de substituir Moisés Deus, em sua graça, perdoou o pe­
e voltar ao Egito. Depois ele come­ cado do povo, mas ele, em seu go­
çou a agir. Calebe e Josué percebe­ verno, tinha de permitir que o pe­
ram que a reação da nação não era cado produzisse seu fruto amargo
nada além de rebeldia (v. 9). De re­ (veja 2 Sm 12:13-15). Primeiro, o
pente, a glória de Deus surge, e ele Senhor atendeu ao pedido do povo
fala com Moisés. ao anunciar que este morreria no de­
serto (vv. 2,28-30). Apenas Calebe e
A. A oferta de Deus (vv. 11-12) Josué foram excluídos desse julga­
Deus desejava destruir a nação toda mento por causa da fé e da fideli­
e fazer uma nova nação a partir da dade deles. O povo afligia-se com
família de Moisés, contudo Moisés seus pequeninos, contudo seriam as
recusou essa oferta. Que humilda­ próprias crianças que viveriam e en­
de e amor! Tenha certeza, Moisés trariam na terra. Como os homens
188 Números 13-14

espionaram a terra durante 40 dias, pensavam que Deus poderia mudar


Deus determinou que os judeus er­ sua m ente e dar-lhes vitória. M oisés
rariam durante 40 anos no deserto advertiu-os, mas eles ignoraram sua
enquanto morriam um a um. Que advertência, o que provava que não
contraste com a igreja hoje: quando caminhavam pela fé no poder do
o último judeu descrente morresse, Espírito. Como Pedro esclareceu, a
a nação entraria em Canaã; contu­ carne sempre é autoconfiante e au­
do, quando o último pecador des­ to-suficiente (Lc 22:31-54).
crente entrar no corpo de Cristo, a Os homens avançaram até o
igreja deixará este mundo e tomará topo do monte, e o inimigo derro­
posse de sua herança! Por fim, os tou-os. A aventura toda foi "presun­
dez espiões que trouxeram o rela­ ção" da parte deles, pois eles esta­
to ruim morreram de imediato por vam vivendo de acordo com as pro­
causa de uma praga (v. 37). babilidades, não pela fé. O Senhor
Não há perigo de incorrermos não estava com eles, apesar do apa­
em exagero quando enfatizamos rente arrependimento e fervor deles.
que Deus honra a fé e julga a des­ Nunca fazemos nada pela fé se isso
crença. A fé leva à obediência e glo­ contraria a Palavra de Deus. Hoje,
rifica o Senhor; a descrença leva à muitos cristãos constatam suas fal­
rebelião e à morte. Temos a Palavra tas e tentam compensá-las com ati-
de Deus cheia de suas promessas e vidades carnais que levam apenas
garantias. Não há motivo para que ao desencorajamento e à derrota.
qualquer um de nós erre em des­ Os israelitas podiam apenas aceitar
crença quando podemos caminhar o julgamento de Deus e entregar-se
em vitória, desfrutando as riquezas à vontade dele. Seria muito melhor
espirituais que temos em Cristo. errar pelo deserto de acordo com a
vontade do Senhor que lutar uma
IV. A tentativa de combater batalha perdida em desacordo com
sem Deus (14:40-45) a vontade dele.
Como a natureza humana é incons­ Esses dois capítulos enfatizam,
tante! Um dia, a nação chorava por mais uma vez, a importância da fé.
causa de sua condição; no dia se­ A fé não é cega, ela fundamenta-se
guinte, tentava temerariamente rea­ em todas as promessas e garantias
lizar a obra de Deus distante da von­ da Palavra de Deus. "Hoje, se ou­
tade e da bênção dele. Os israelitas, virdes a sua voz, não endureçais o
como tinham confessado o pecado, vosso coração" (veja Hb 3:7-8).
N ú m er o s 1 6 -1 7 Raramente, os rebeldes forne­
cem as razões verdadeiras para seu
Judas 11 menciona a "revolta [falar ataque; no versículo 3, os homens
contra] de Corá" como uma das argumentam que toda a nação era
marcas dos falsos mestres no fim dos um "reino de sacerdotes" (Êx 19:6),
tempos; e hoje, com certeza, vemos e, portanto, Moisés e Arão não ti­
uma rebelião combinada contra a nham o direito de assumir a lide­
autoridade de Moisés e o sacerdó­ rança. É claro que essa rebelião
cio de Arão (a forma da salvação baseava-se em aspiração egoísta e
de Deus pelo sangue). Fica eviden­ inveja. Esses homens queriam exal­
te que Corá é primo de Moisés (Êx tar a si mesmos diante da congre­
6:21), o que torna a rebelião ainda gação. Com certeza, toda a nação
mais séria. era santa para Deus, mas ele, con­
forme sua vontade, pôs algumas
I. Corá desafia Moisés e Arão (16:1 -18) pessoas em posição de liderança.
Corá era um levita que estava insa­ Isso também é verdade para a igre­
tisfeito em ajudar no tabernáculo; ja hoje. Todos os santos são ama­
ele também queria servir como sa­ dos por Deus, mas ele deu a alguns
cerdote (v. 10). Essa atitude era uma dons e posição espirituais para o
rebelião direta contra a Palavra de trabalho de ministro (Ef 4:15-16;
Deus transmitida por Moisés, já que 1 Co 12:14-18). Somos encoraja­
o Senhor fizera as nomeações para dos a procurar "os dons espirituais"
o tabernáculo. Corá, não contente (1 Co 14:1), mas não a cobiçar a
em rebelar-se sozinho, reuniu 250 posição espiritual de outra pessoa.
príncipes de Israel, homens muito Se um crente quiser um lugar de li­
conhecidos (provavelmente a maio­ derança espiritual, deixe-o provar-
ria deles era levita), como também se merecedor disso por seu caráter
três homens da tribo de Rúben, o e conduta (1 Tm 3:1 ss). A igreja
primogénito de Jacó. Os rebeldes, deve prestar atenção à advertência
em nome, em número, em unidade que Paulo faz em Atos 20:28-31.
e em atitude, pareciam ter um caso Moisés e Arão não se defende­
forte contra Arão e Moisés. Parece ram; eles deixaram Deus defendê-
que Corá e seus seguidores desafia­ los. Moisés instruiu Corá e seus
ram Arão, enquanto Datã, Abirão e seguidores a levar os incensários
Om (como descendentes de Rúben, (vasos para a queima de incenso)
o primogénito) questionaram a auto­ ao tabernáculo, onde Deus mos­
ridade de Moisés. No entanto, eles traria quem tinha razão na disputa.
estavam unidos nessa conspiração. Moisés chamou Datã e Abirão para
190 Números 16-17

que comparecessem, mas eles de­ causa a morte de muitas outras. An­
safiaram sua autoridade e não obe­ tes do término dessa rebelião, cerca
deceram. No versículo 25, Moisés de 15 mil pessoas morreram (veja v.
vai a eles, mas sua visita significou 49). Leia 2 Pedro 2:10-22 para ver
condenação, não bênção. Observe a avaliação de Deus em relação às
como os homens culpam Moisés pessoas que "menosprezam qual­
por não conseguirem entrar na ter­ quer governo" e rebelam-se contra
ra prometida (vv. 13-14), quando a verdade dele.
a descrença deles mesmos trou­
xe essa derrota. Rebelar-se contra III. Deus defende a autoridade
Moisés significava rejeitar a Palavra de Arão (16:36— 17:13)
de Deus, pois ele era profeta do
Senhor; e rebelar-se contra Arão, a A. Ao dar o incensário dos rebeldes
rejeição da obra de Deus no altar, a Arão (16:36-40)
a salvação pelo sangue. Moisés disse a Eleazar, filho de Arão,
que juntasse os incensários dos re­
II. Deus defende a autoridade de beldes queimados e os transformas­
Moisés (16:19-35) se em lâminas para cobrir o altar
No dia seguinte, Deus entrou e jul­ de bronze. Quando os adoradores
gou os rebeldes. O fogo procedente viessem ao altar, veriam as lâminas
do Senhor matou os seguidores de e lembrar-se-iam de que Deus julga
Corá, Datã e Abirão (v. 35), e a terra com severidade o pecado da rebe­
abriu-se e tragou estes líderes e as lião. Por que esses incensários eram
posses deles. Números 26:11 conta- "santos" (santificados)? Porque Deus
nos que a família de Corá não foi os usara de uma forma especial para
destruída. Isso explica por que ve­ dar uma lição a Israel. Permitir que
mos, na Bíblia, salmos intitulados tratassem os incensários como "lixo"
"Salmo dos filhos de Corá" (SI 84; ou utensílios comuns diminuiria o
85; 87; 88). Aparentemente, os des­ impacto do julgamento.
cendentes de Corá estavam satis­
feitos em ser humildes ministros, e B. Ao permitir que Arão
não sacerdotes, pois escreveram em interceda (16:41-50)
Salmos 84:10: "Prefiro estar à porta Pensaríamos que a morte de todas
da casa do meu Deus, a permanecer essas pessoas espalharia terror e
nas tendas da perversidade". Leia a respeito no coração da nação, mas
respeito de "tendas da perversidade" isso não aconteceu. No próprio dia
em Números 16:26. É trágico quan­ posterior ao ocorrido, toda a con­
do o pecado de algumas pessoas gregação rebelou-se de novo! Ape­
Números 16-1 7 191

nas a graça de Deus pode mudar o lo. Deus anunciara que o bordão
. coração do ser humano. Nenhuma que florisse indicaria a pessoa que
lei ou julgamento jamais deu um ele escolhera para o sacerdócio. O
novo coração às pessoas. A con­ versículo 8 conta-nos que o bordão
gregação reuniu-se contra Moisés de Arão não apenas germinou, mas
cArão e acusou-os de assassinato, floresceu e deu fruto! Os outros bor­
mas Deus defendeu seus servos. Se dões continuaram mortos, e cada
Moisés tivesse um espírito amargo, um dos príncipes levou de volta seu
permitiria que a praga destruísse o bordão morto; o bordão de Arão foi
povo. Em vez disso, ele ordenou posto no tabernáculo como teste­
que seu irmão Arão entrasse em munho da rebelião da nação e da
meio à praga com seu incensório nomeação de Arão como o sumo
para pararo julgamento. Quão pou­ sacerdote escolhido por Deus.
co as pessoas percebiam o amor e A germinação do bordão é um
o sacrifício de Moisés por elas. belo retrato da ressurreição de Cris­
Arão tornou-se literalmente o sal­ to. Deus, por meio da ressurreição,
vador — ele pôs-se em pé entre os declarou que Cristo é seu Filho e
vivos e os mortos e parou a praga. o único Sacerdote que ele aceita.
O incensório dele sozinho realizou Deus rejeitou todos os outros sa­
mais que os 250 incensórios dos cerdócios. Há um Sumo Sacerdote,
rebeldes! Em certo sentido, Arão um sacrifício e apenas um caminho
ilustra a obra de nosso Salvador, aberto para o céu; leia Hebreus 10.
pois Cristo deixou o lugar seguro e Hoje, temos muitas pessoas como
pôs-se entre os vivos e os mortos e Corá que ousam assumir o sacer­
salvou os pecadores da morte. dócio, mas não têm autorização
celestial.
C. Ao fazer com que o bordão Nos versículos 12-13, observe
de Arão florescesse (17:1-13) que as pessoas ficaram amedron­
Agora, Deus estava para declarar de tadas depois dessa demonstração
uma vez por todas a autoridade do do poder de Deus. O que a morte
sacerdócio aarônico. O povo não de quase 15.000 pessoas não pôde
aprendera a lição, portanto Moisés fazer, o florescimento silencioso de
instruiu cada tribo a trazer um bor­ um galho morto realizou! "Não por
dão — um galho morto — para ser força nem por poder, mas pelo meu
posto diante da arca do tabernácu­ Espírito" (Zc 4:6).
N ú m ero s 2 0 - 2 1 17:1 ss). Eis a explicação de por que
Moisés devia falar à rocha, não feri-
Nesses dois capítulos, temos dois la: Cristo, nossa Rocha, ressuscitou
retratos magníficos de Cristo. da morte, ele é nosso Sumo Sacer­
dote vivo e dá-nos as bênçãos es­
pirituais que precisamos quando
pedimos a ele. A pessoa não tem
de ser salva várias vezes, bem como
não é necessário repetir a dádiva do
I. Cristo, a rocha ferida (20:1-13) Espírito Santo. Recebemos o Espírito
Êxodo 17:1-7 já nos apresentou uma vez, quando aceitamos Cristo,
essa imagem. Em muitas passagens e ficamos cheios do Espírito diversas
das Escrituras, retrata-se Deus como vezes, quando pedimos a Cristo.
a Rocha; e 1 Coríntios 10:4 deixa No entanto, a principal ra­
claro que a Rocha de Êxodo e de zão por que Deus julgou Moisés e
Números é um retrato de Cristo. As manteve-o fora da terra prometida é
pessoas não vivem sem água, como esta: ele exaltou a si mesmo e dei­
hoje também não vivemos sem a xou de glorificar a Deus. Moisés, ao
água da vida (Jo 4:13-14; 7:37-39). chamar as pessoas de "rebeldes" e
Na Bíblia, a água de beber é um ao dizer: "Faremos [Arão e eu] sair
símbolo do Espírito Santo que sa­ água desta rocha?" (v. 10), não dava
tisfaz nossa sede espiritual. A água a Deus a glória devida a seu Nome.
de banho retrata a Palavra de Deus Isso foi uma evidência de orgulho e
que tem poder purificador Oo 15:3; de descrença (v. 12). O ponto mais
Ef 5:26). forte de Moisés era sua mansidão
Nessa passagem, os eventos (12:3), contudo foi nisso que ele fra­
contrastam com os de Êxodo 17. cassou. Não há dúvida de que Pedro
No relato de Êxodo, Deus disse a foi um homem valente, contudo ele
Moisés que ferisse a rocha, simbo­ fracassou exatamente nesse ponto
lizando a morte de nosso Senhor quando negou o Senhor. A menos
na cruz. Mas aqui, ele diz-lhe que que glorifiquemos a Deus em tudo
fale à rocha, pois Jesus Cristo mor­ que fazemos, ele lidará conosco, e
reu apenas uma vez. E, agora, tudo perderemos a bênção que ele pla­
que precisamos fazer é pedir, e ele nejou para nós.
dará seu Espírito Santo Oo 7:37-39).
Moisés não usa seu bordão quando II. Cristo, a serpente de bronze
fere a rocha, mas o de Arão. Esse elevada (21:1-9)
é o bordão sacerdotal da vida (Êx João 3:14 dá-nos a autoridade para
Números 20-21 193

esse símbolo de Cristo. Observe fez pecado por nós (2 Co 5:21). O


como essa passagem retrata a sal­ bronze é o metal que se refere ao
vação que temos em Cristo. julgamento, e Cristo, na cruz, sofreu
julgamento por nós. Observe que a
A. A necessidade serpente não era eficaz nas mãos
As pessoas pecaram de duas formas: de Moisés ou sobre uma pratelei­
murmuraram contra Deus e con­ ra. Ela tinha de estar levantada —
tra Moisés. Por isso, elas estavam Cristo teve de ser crucificado. Veja
morrendo. "O salário do pecado João 3:14; 8:28 e 12:30-33.
é a morte" (Rm 6:23). Temos aqui
os dois aspectos da Lei de Deus: o D. Por meio da fé
comportamento em relação a Deus O povo orou: "Tire de nós as serpen­
e em relação uns aos outros. A mor­ tes". Contudo, o método de Deus
te está no mundo, e todos são con­ era vencer a picada da morte por
denados por causa do pecado (Jo meio da fé. A resposta era: "Olhe
3:16-18). Todas as pessoas nascidas e viva!". As pessoas atormentadas
neste mundo foram picadas pela não se salvavam ao ignorar as pica­
serpente causticante do pecado e das, ao bater nas serpentes, ao usar
estão destinadas à morte. medicamentos ou ao tentar fugir. A
salvação dava-se por meio de olhar
B. A graça de Deus com fé para a serpente posta na has­
Deus poderia ignorar a situação de te no centro do acampamento (cf. Is
seu povo, pois este merecia mor­ 45:22). Note que, de maneira algu­
rer, mas ele, em seu amor e graça, ma, liga-se para a serpente ao taber­
providenciou um remédio. No ver­ náculo. Nenhum sacrifício poderia
sículo 7, a intercessão de Moisés salvar as pessoas da morte.
lembra-nos a oração de Cristo: "Pai,
perdoa-lhes, porque não sabem o E. A acessibilidade
que fazem" (Lc 23:34). Não levantaram a serpente em algum
canto escondido do acampamento.
C. A outra serpente Penduraram-na no centro do acam­
Como é estranho que Moisés faça pamento, onde todos podiam vê-la
outra serpente, quando foram as e, assim, viver. Cristo está acessível
serpentes que causaram todos os hoje; ele não está longe de nós. Para
problemas iniciais! Será que já uma instrução mais completa, veja
não havia serpentes suficientes no Romanos 10:6-13. O remédio está
acampamento? Contudo, a serpen­ acessível a todos: "quem quiser re­
te de bronze retrata Cristo, que se ceba" (Ap 22:1 7).
194 Números 20-21

F. A gratuidade salvo!". No acampamento de Israel,


Não custava nada para que os peca­ havia apenas uma forma de ser sal­
dores, que estavam à beira da mor­ vo, e hoje também há apenas uma
te, olhassem e vivessem. Talvez eles forma de ser salvo. Leia João 14:6 e
não tenham entendido como isso Atos 4:12. A menos que o pecador
tudo aconteceu e a razão daquilo (e veja Cristo por meio da fé, ele estará
quem entende a salvação?), contu­ perdido para sempre.
do podiam crer e viver!
J. A segurança dupla
G. A suficiência Como os moribundos sabiam que
Uma serpente levantada era sufi­ o remédio funcionaria? Primeiro,
ciente para todo o acampamento. eles tinham a garantia da Palavra
Cristo sozinho é suficiente para de Deus. O Senhor prometera que
nossa salvação; não precisamos qualquer um que olhasse, viveria.
de mais nada. Os moribundos não Segundo, eles viam o que acontecia
eram salvos ao olhar a serpente e, na vida dos outros. Deus não faria
depois, manter a Lei, ou ao olhá-la uma revelação especial, não man­
e oferecer um sacrifício, ou ao olhá- daria um sentimento especial; o
la e prometer ser melhor. Eles eram pecador dependia da promessa de
salvos apenas pela fé. Cristo é sufi­ Deus.
ciente para cuidar de todas as nossas Tudo isso parece tão tolo para
necessidades agora e para sempre. as pessoas do mundo (1 Co 1:18-
31). Imagine, olhar para a serpen­
H. A cura imediata te levantada e ser salvo da morte!
A salvação não é um processo; é Hoje, as pessoas zombam da cruz
um milagre imediato que acontece enquanto tentam matar as serpen­
quando o pecador olha para Cristo tes e fabricar novos remédios contra
por meio da fé. Cristo, em sua mor­ serpentes. Contudo, todos os remé­
te e ressurreição, não nos salva "um dios inventados pelo homem fra­
pouco de cada vez". Ele salva de cassaram em seu intento! Reforma,
forma instantânea, imediata e com­ educação, melhores leis, religião
pleta. — tudo teve sua vez. E as pessoas
ainda morrem em pecado. A única
/. O remédio para todos resposta é a cruz de Jesus Cristo, o
As pessoas imprudentes dizem: Salvador levantado.
"Como há muitos caminhos que Em 2 Reis 18:4, relata-se que os
levam a Roma, há muitas estradas judeus preservaram essa serpente de
para o céu, muitas formas de ser bronze e a transformaram em ídolo.
Números 20-21 195

Isso faz parte da natureza huma­ brou a serpente-ídolo em pedaços


na, ver a coisa material e ignorar o e chamou-a Neustã — que significa
Deus que merece nossa confiança. um pedaço de bronze. Perguntamo-
Não era a serpente que curava as nos o que Deus pensa dos milhões
pessoas, mas o Deus que mandou de ídolos espalhados pelo mundo,
fazer a serpente. E idolatria ado­ pedaços de madeira ou metal que
rar e servir "a criatura em lugar do roubam a fé e a glória que perten­
Criador" (Rm 1:25). Ezequias que­ cem a ele.
N ú m ero s 2 2 - 2 5 teu muita riqueza e honra a Balaão e
propôs que o profeta reconsiderasse
Na Bíblia, poucos homens provo­ o assunto. Com frequência, Satanás
cam tantos problemas quanto Ba- faz isso quando tomamos a decisão
laão. Aparentemente, ele era de definitiva de obedecer à Palavra de
uma nação pagã, contudo conhecia Deus. Balaão, no fundo de seu co­
o Deus verdadeiro. Ele era um adi­ ração, queria ir com os mensageiros
vinhador e conseguiu predizer o fu­ porque cobiçava o ganho financei­
turo de Israel. Ele escutou a Palavra ro que teria. Usar a religião como
de Deus e proclamou-a fielmente, uma forma de adquirir riqueza é o
contudo torceu-a e levou Israel ao "caminho de Balaão" (2 Pe 2:15-16).
pecado e ao julgamento. Ele era um Deus permitiu que Balaão fosse com
enigma! os príncipes, mas ele fez isso apenas
para testá-lo (vv. 20-22). Aqui acon­
I. Balaão recebe a visita de tece o conhecido episódio do anjo
Balaque (22) e da jumenta. O anjo põe-se no ca­
minho de Balaão, mas o profeta não
A. A primeira visita (vv.1-14) o vê! A jumenta o vê e age de forma
Balaque era rei de Moabe e, aparen­ tão estranha que Balaão a espanca.
temente, aliado, de alguma forma, O comportamento da jumenta devia
dos midianitas. Ele vira as conquistas advertir Balaão, mas ele estava mui­
de Israel (Nm 20—21) e temia que to atento a sua missão egoísta e não
seu povo também fosse conquista­ estava sensível à vontade de Deus.
do. Ele percebeu que a força física Balaão, ao abrir os olhos, vê o anjo
nunca venceria os judeus, portanto e percebe seu erro. Deus diz clara­
recorreu ao malogro espiritual ao mente: "Teu caminho é perverso" (v.
pagar Balaão para amaldiçoar Isra­ 32), portanto não havia motivo para
el. Ele ofereceu um bom preço para Balaão dizer: "Se- parece mal aos
que Balaão fizesse o serviço, mas teus olhos, voltarei" (v. 34). Balaão
o profeta (depois de consultar ao brincava com a vontade de Deus a
Senhor) recusou-se a fazer isso. Os fim de ver até onde podia ir. Deus
mensageiros de Balaque voltaram permitiu que Balaão se encontrasse
para casa e relataram o fracasso. com Balaque, que lhe deu uma gran­
de festa (no v. 40, "sacrificou" signifi­
B. A segunda visita (vv. 15-41) ca "matou, como para uma festa") e
Balaque não era de desistir com fa­ levou-o para ver Israel.
cilidade. Ele enviou príncipes mais A grande lição aqui é que deve­
honrados que os primeiros, prome­ mos descobrir a vontade de Deus e
Números 22-25 197

obedecer a ela, independentemente pecavam com frequência, mas eles,


dos desejos pessoais ou das circuns­ no que dizia respeito à posição de
tâncias subsequentes. Deus, foram aceitos. Eles libertaram-
se do Egito pelo sangue do Cordeiro
II. A visão que Balaão tem de e eram possessão adquirida pelo Se­
Israel (23—24) nhor (Êx 19:1 -6). Do ponto de vista
Balaque queria que Balaão amaldi­ humano, eles eram falhos, mas, do
çoasse Israel para, dessa forma, pro­ ponto de vista divino, eram o povo
teger Midiã e Moabe, mas, cada vez de Deus para sempre. Nessa altura,
que Balaão abria a boca, abençoava Balaque estava furioso, mas levou
Israel, em vez de amaldiçoar. Balaão para olhar Israel de outro lu­
gar.
A. A primeira visão — o
chamado de Israel (23:1-12) C. A terceira visão — Israel e
Balaão deixa claro que não pode Canaã (24:1-9)
amaldiçoar Israel, porque Deus Dessa vez, Balaão não usou nenhum
abençoou esse povo. Ele vê a nação de seus encantamentos; em vez dis­
como um povo especial, chamado so, o Espírito de Deus veio sobre
pelo Senhor e separado das outras ele e abriu-lhe os olhos. Essa visão
nações (Dt 26:18-19; 32:8-9; Lv descreve Israel desfrutando suas
20:26). Ele vê o crescimento de Is­ bênçãos na terra prometida, depois
rael (como o pó) e expressa seu de­ de derrotar as outras nações. Nes­
sejo de morrer como um judeu reto sa visão, observe a ênfase sobre a
morreria, na bênção e no favor de água, um item precioso no deserto.
Deus. É claro que essa visão desa­ Essa visão era mais do que Balaque
grada Balaque, que leva Balaão "a podia suportar. Ele ameaça Balaão
outro lugar" em que terá uma vista e afirma que "o S e n h o r " o impedira
diferente. de receber riquezas e honra (vv. 10-
11). Então, o profeta tem uma quar­
B. A segunda visão — a ta visão.
aceitação de Israel (23:13-30)
Dessa vez, Balaão deixa claro que D. A quarta visão — a glória
Deus fala e cumpre sua Palavra. Ele futura de Israel (24:10-25)
não é como os homens que mudam Provavelmente, há duas formas de
de idéia e não cumprem suas pro­ vermos essa mensagem simbólica.
messas. Ele anuncia o fato surpreen­ Com certeza, o rei Davi ajusta-se
dente de que Deus não vê iniquida­ à descrição, já que derrotou os
de em Israel. Certamente, os judeus moabitas, os edomitas e outros po­
198 Números 22-25

vos (veja 2 Sm 8:2,14). Contudo, suficiente para trazer uma mulher


o cumprimento máximo está em pagã para casa, bem à vista de Moi­
Cristo, o Messias, a Estrela de Jacó sés (v. 6). As mulheres de Moabe e
e o Cetro de Israel. Israel domina­ de Midiã conseguiram o que os exér­
rá quando Cristo retornar e esta­ citos de outras nações não puderam
belecer o Reino milenar. Os vários fazer. Se Satanás não consegue con­
inimigos de Israel serão vencidos. quistar o povo de Deus como um
Veja Lucas 1:68-79. leão (1 Pe 5:8), então ele vem como
Em suas quatro visões, Ba­ serpente. Acautele-se contra a ami­
laão apresenta uma bonita história zade dos inimigos de Deus! O sorri­
de Israel, todo o caminho desde a so deles é uma armadilha.
eleição dele como nação até a exal­ Finéias, neto de Arão, assu­
tação dele no Reino. Claro que po­ miu uma posição definitiva em
demos transferir essas verdades para favor do Senhor e opôs-se a essa
os crentes do Novo Testamento: es­ concessão do povo de Deus aos
colhidos por Deus, justificados (para pagãos (2 Co 6:14-18). A praga do
que sejamos aceitos no amado), os Senhor já começara. Quando Fi­
quais receberam uma herança mag­ néias matou o homem e a mulher
nífica em Cristo e a quem lhes foi culpados, a praga cessou, mas não
prometida a glória futura. antes de 24 mil pessoas morrerem.
Veja Números 31:16. Precisamos
III. A vitória de Balaão sobre de mais homens corajosos como
Israel (25) Finéias, que se candidatem à se­
Balaão teria se salvado se tivesse paração e à santidade nesta era em
ficado nas visões de Deus, mas ele que as pessoas dizem aos cristãos
queria o dinheiro e a honra que Ba­ que se tornem amigos de seus ini­
laque prometera. Assim, ele disse migos espirituais.
ao rei como vencer Israel. Seu plano É claro que Balaão pensou que
era simples: convidar os judeus para os pecados de Israel destruiriam
participarem das festas sacrificiais a nação. Esse foi o erro de Balaão
pagãs e corrompê-los com idolatria mencionado em Judas 11. Hoje, as
e luxúria. As cerimónias envolvidas pessoas olham a igreja e condenam-
na adoração a Baal eram muito pe­ na por sua desonra, seus enganos e
caminosas, e Balaão sabia que os suas máculas, contudo Deus vê sua
judeus sentir-se-iam tentados a jun­ igreja de um ponto de vista distinto.
tarem-se às mulheres moabitas. Foi É verdade, ele pune nossos pecados
exatamente isso que aconteceu. Na e disciplina-nos quando desobede­
verdade, um israelita teve coragem cemos, mas ele nunca nos deixará
Números 22-25 199

nem abrirá mão de nós. Balaão não pois "Pérgamo" significa "casado".
entendia esse ato abençoado de Este é o grande perigo de hoje: os
paça. Apocalipse 2:14 menciona a cristãos, individualmente, e a igreja
doutrina de Balaão. Ele aconselhou (e as denominações), coletivamen-
Balaque a convidar os judeus a mis­ te, esquecem seu chamado para ser
turarem-se com os gentios, a casa- separados e juntam-se ao mundo.
rem-se com as moabitas e a partici­ Isso só pode trazer julgamento.
parem de suas festas pecaminosas. Para outras referências a Balaão,
Esse tipo de "doutrina" nada mais é veja Deuteronômio 23:4-5; Josué 24:
que concessão. É interessante que 9-10; Neemias 13:2; Miquéias 6:5;
a advertência do Novo Testamento 2 Pedro 2:15-16; Judas 11 e Apoca­
conste da carta à igreja de Pérgamo, lipse 2:14.
N ú m ero s 3 3 - 3 6 micídio culposo (por acidente) duas
coisas distintas. Nas leis modernas,
Esses capítulos tratam da determina­ seguimos essa distinção. Quando
ção da herança das tribos, com os o assassino tem intenção delibera­
olhos voltados para o momento em da de matar, ele tem uma história
que a nação tomaria posse de Canaã. de ódio com a vítima. Contudo, a
Designam-se as partes das tribos, os pessoa que mata outra por aciden­
levitas e suas cidades especiais e, te não tem intenção assassina. Ela
mais importante, define-se as cida­ merece o direito de apresentar seu
des de refúgio. Estudaremos essas caso e de salvar sua vida. Esse era o
seis cidades de três pontos de vista. objetivo das cidades de refúgio. O
(Para conhecer fatos adicionais, leia homicida tinha de fugir para a ci­
Deuteronômio 19 e Josué 20.) dade de refúgio mais próxima, em
que os anciãos poderiam encontrá-
lo, ouvir seu caso e presidir o jul­
I. O sentido prático gamento. Se eles decidissem que a
A nação não tinha polícia, e os an­ pessoa era culpada, enviavam-na
ciãos de cada cidade constituíam a à autoridade adequada e, depois,
"corte" que julgava os crimes capi­ matavam-na (Dt 19:11-13). Se ficas­
tais. Se uma pessoa matasse outra se claro que a morte fora acidental,
por acidente, precisava de algum então se autorizava a pessoa a viver
tipo de proteção, pois se considera­ na cidade sob a proteção deles, e
va legal que um membro da família o "vingador do sangue" não podia
da pessoa morta vingasse o sangue tocá-la. Entretanto, se a pessoa dei­
do parente morto. Génesis 9:6 esta­ xasse a cidade, poderia ser morta.
belece o princípio da punição ca­ A pessoa podia voltar a salvo para
pital, que Moisés afirmou em Êxo­ sua cidade, quando o sumo sacer­
do 21:12-14. (Entretanto, observe dote morria.
no versículo 13 a sugestão de cida­ Observe que o objetivo dessa
des de refúgio.) Em outras palavras, lei era evitar a profanação da terra
a pessoa que matasse outra correria (Nm 35:29-34). O assassinato macu­
risco de vida, porque o "vingador do lava a terra, e o assassino não con­
sangue" (o parente) poderia matá-la denado trazia grande pecado para a
antes que o assassino tivesse chance terra. Essa lei visava à proteção do
de provar sua inocência. inocente e à condenação do culpa­
Números 35:16-23 deixa claro do. Era uma lei justa. Infelizmente,
que Deus considera o assassinato com frequência, nossas leis hoje
(com intenção deliberada) e o ho­ são mal aplicadas, e torna-se fácil
Números 33-36 201

para o culpado que saia livre. Não é des maiores e mais proeminentes
de espantar que nossa nação esteja em Israel, mas nenhuma delas po­
manchada de sangue e haja pouco dia abrigar o pecador. Hoje, existem
respeito pela lei e pela ordem. muitas "religiões", mas há apenas
um caminho para a salvação confor­
II. O sentido do tipo me anunciado pela Palavra de Deus
Essas seis cidades de refúgio são um — a fé em Jesus Cristo (At 4:12).
belo símbolo de Cristo, em quem
*nos refugiamos [...] para tomar C. As cidades eram acessíveis
posse da esperança a nós proposta" a todos
(Hb 6:18, NVI). Se você consultar um mapa da
terra santa, verá que as seis cida­
A. As cidades eram designadas des estão arranjadas de forma que
por Deus nenhuma das tribos ficasse muito
Era um ato de graça, pois todos os distante do lugar de segurança. Ao
homens são pecadores e merecem norte do lado ocidental do Jordão,
morrer. Moisés não escolheu as ci­ ficava Quedes; na área central, Si-
dades, pois a Lei não pode salvar quém; e Hebrom, no sul. Do lado
qualquer um. Essas cidades não oriental do rio (em que Rúben,
eram designadas por sacerdotes Gade e Manassés escolheram se
terrenos, embora fossem cidades estabelecer), estava Golã ao norte,
sacerdotais. O coração amoroso de Ramote na parte central e Bezer ao
Deus designava as cidades e enviava sul. Essas cidades eram acessíveis.
o Messias. "Deus amou ao mundo Algumas delas estavam localizadas
de tal maneira que deu o seu Filho em montes, para que ficassem até
unigénito" Oo 3:16). mais proeminentes. A tradição diz
que os sacerdotes cuidavam para
B. As cidades eram anunciadas que as estradas de acesso a essas
na Palavra seis cidades estivessem sempre em
Josué 20:7-8 cita o nome das seis ci­ bom estado, como também eles
dades, e elas não podiam ser muda­ punham sinalizadores para guiar os
das. O assassino, sob a autoridade fugitivos. Os rabis também dizem
da Palavra de Deus, podia entrar na que nunca se fechavam os portões
cidade, e ninguém podia impedi-lo dessas cidades. Que imagem de
de fazer isso! Da mesma forma que Cristo! Com certeza, o caminho
acontece com nossa salvação: ela para a cidade é iluminado! Nin­
nos é prometida na Palavra, e isso guém precisa perguntar-se quem é
não pode ser mudado. Havia cida­ o Salvador ou como chegar a ele,
202 Números 33-36

pois vamos a ele por meio da fé. (2 Co 5:21; Cl 2:13). Siquém signi­
Ele nunca rejeitará nenhum peca­ fica "ombro" e indica que encon­
dor (Jo 6:37). Há um ponto de con­ tramos um local de repouso em
traste entre as cidades e Cristo: o Cristo, um amigo a quem podemos
assassino era admitido na cidade, entregar nossos fardos. O novo con­
mas também era investigado. Para vertido sempre pergunta: "Será que
nós, não há julgamento, pois já eu consigo aguentar?". A resposta
fomos condenados! Veja também é: "Ele o segurará!". Hebrom signi­
João 3:18. Os anciãos da cidade fica "comunhão", indicando nossa
acolhiam a pessoa que não tivesse comunhão com Deus em Cristo e
cometido assassinato, mas Cristo também com outros crentes. Bezer
recebe pecadores culpados. Que significa "fortaleza", o que aponta
graça! para a proteção que encontramos
em Cristo e a vitória que temos
D. As cidades eram adequadas para nele. O lugar mais seguro do mun­
satisfazer o necessitado do é a vontade de Deus. Ramote
Enquanto o assassino permanecesse na significa "alturas" e lembra-nos
cidade, estava seguro. Ele era libertado que os crentes estão sentados "nos
quando o sumo sacerdote morria. Isso lugares celestiais em Cristo Jesus"
não indica que podemos "deixar Cris­ (Ef 2:4-10). O pecado sempre leva
to" e perder nossa salvação, pois não a pessoa para baixo, mas Cristo
construímos nossa doutrina a partir levanta-nos, e, um dia, seremos le­
de tipos; antes, interpretamos os tipos vantados nas nuvens para encontrar
com base nas doutrinas. O verdadeiro o Senhor nos ares! Por último, Golã
cristão não perece nunca, mas, quan­ significa "círculo" ou "completo" e
do deixa de "permanecer em Cristo", indica que estamos completos em
ele abre a porta para o perigo espiritu­ Cristo (Cl 2:9-10). Algumas pessoas
al e físico. Nosso Sumo Sacerdote não dizem que Golã significa "felici­
morrerá nunca, e, porque ele vive, nós dade", e, com certeza, o cristão é
também vivemos. uma pessoa feliz, apesar das prova­
Pondere sobre os nomes das ções e dos problemas da vida.
cidades a fim de ver a suficiência Observe que se diz ao assassi­
de Jesus Cristo para satisfazer todas no que fuja para a cidade. A pessoa
as nossas necessidades. Quedes não pode se dar ao luxo de demorar!
significa "retidão", e essa é nossa E hoje, também, o pecador perdido
primeira necessidade. Quando va­ não pode dar-se ao luxo de demo­
mos a Cristo, ele nos dá sua retidão rar a fugir para o único refúgio que
e perdoa todos os nossos pecados existe, Jesus Cristo.
Números 33-36 203

III. O sentido dispensacional o homicida involuntário na cidade


Alguns estudiosos vêem nessas ci­ de refúgio. Em outras palavras, Deus
dades um retrato de Israel e sua re­ protege Israel e, um dia, quando
jeição a Cristo. Israel matou Cristo esse povo vir seu Messias, o Senhor
por ignorância e cegueira (At 3:14- o apresentará com perdão e bênção
17; 1 Co 2:8). Jesus orou: "Pai, per­ (Zc 12:10— 13:1).
doa-lhes, porque não sabem o que Pode-se aplicar essa mesma
fazem" (Lc 23:34). Isso significa que noção a Paulo, culpado de matar
se trata Israel como homicida in­ outras pessoas (veja 1 Tm 1:12-16).
voluntário, e não como assassino, Ele é um "tipo" para os judeus que
e que há perdão e segurança para serão salvos no futuro, pois verão
Israel. Entretanto, agora, Israel está Cristo em glória, da mesma forma
"em exílio", como também estava que Paulo o viu (At 9).
D eu ter o n ô m io

Esboço

I. Disposições históricas: Moisés relembra (1— 4)


A. A tragédia da descrença (1)
B. Jornadas e vitórias (2— 3)
C. Exortação final que eles obedecem (4)

II. Disposições práticas: Moisés olha o íntimo (5— 26)


A. Testemunhos (5— 11)
1. A proclamação da Lei (5)
2. A prática da Lei (6)
3. A preservação da Lei (7— 10)
a. Perigos dos de fora (7)
b. Perigos dos de dentro (8— 10)
4. A exortação final (11)
B. Estatutos (12— 18)
C. Julgamentos (19— 26)

III. Disposições proféticas: Moisés olha à frente (27— 30)


A. Bênçãos e maldições (27— 28)
B. Arrependimento e retorno (29— 30)

IV. Disposições pessoais: Moisés olha para o alto (31— 34)


A. O novo líder (31)
B. O novo cântico (32)
C. A nova bênção (33)
D. A nova moradia (34)
N o tas in tro d u tó ria s riam ter 'bata'!Vias pe\a írente e pre­
cisavam estar preparados. A melhor
forma de preparar-se para o futuro
é entender o passado. Um filósofo
I. Nome famoso declarou: "A queles que não
"D e u tero n ô m io ", em grego, sig n i­ lembram o passado estão co n d e n a ­
fica "segunda lei". O nome desse dos a repeti-lo". Moisés queria que
livro originou-se em Deuteronômio a nação se lembrasse do que Deus
17:18 e também do fato de que fizera por ela.
Moisés reafirmava a Lei para a nova
geração. Esse livro não contém uma C. Novo líder
nova Lei; ele é a segunda proclama­ Moisés estava para morrer, e Josué
ção da Lei original. assumiria a liderança da nação.
Moisés sabia que, independente­
II. Propósito mente de quem fosse o líder huma­
Moisés reafirmou a Lei nas frontei­ no, o sucesso da nação dependia da
ras de Canaã por várias razões. obediência a Deus. Se ela crescesse
na Palavra e amasse ao Senhor, se­
A. Nova geração guiria Josué e venceria.
A antiga geração (com exceção de
Calebe e Josué) morrera no deserto, D. Novas tentações
e a nova geração precisava ouvir a Um povo assentado na terra enfren­
Lei de novo. Todos temos memória taria problemas distintos dos de pe­
curta, e essas pessoas tinham 20 regrinos no deserto. Moisés queria
anos, ou menos, quando a nação, que os israelitas não apenas possuís­
décadas antes, enfrentara o fracasso sem a terra, mas também mantives­
em Cades-Barnéia. sem essa possessão. Assim, ele os
Era importante que elas conhe­ advertiu em relação aos perigos e
cessem a Palavra de Deus mais uma lhes transmitiu a forma de serem
vez e percebessem como era im­ bem-sucedidos.
prescindível obedecer a Deus. Em Deuteronômio 1:1-3, mui­
tos cristãos, em um sentido espiri­
B. Novo desafio tual, comportam-se como Israel.
Até agora, a vida da nação fora ins­ Eles foram libertados do Egito, mas
tável. Ela era peregrina. Contudo, ainda não haviam tomado posse
agora os israelitas estavam para en­ de sua herança espiritual. Ficaram
trar na terra prometida e tornar-se "desse lado do Jordão", em vez de
uma nação assentada. Eles pode­ na terra prometida de bênçãos. Eles
Notas introdutórias 207

precisavam ouvir a Palavra de Deus de que possuíssem a terra e desfru­


e apressarem-se em tomar posse, tassem dela.
por meio da fé, de sua herança em
Cristo. F. Livro para todos
Os livros de Êxodo, Levítico e
E. Mensagem mais profunda Números eram "técnicos" e per­
Ao ler Deuteronômio, não podemos tenciam, de forma especial, aos
deixar de nos impressionar com a sacerdotes e aos levitas, mas Deu­
mensagem mais profunda que Moi­ teronômio foi escrito para todos.
sés transmite em relação à vida es­ Ao mesmo tempo que apresenta
piritual de seu povo. No texto he­ muitas das leis encontradas nos
braico desse livro, repete-se, pelo livros anteriores, ele oferece um
menos, 20 vezes a palavra "amor", sentido novo e mais profundo des­
ênfase que não encontramos de sas leis e mostra o que elas repre­
Génesis a Números. Em Deutero­ sentam na vida diária das pessoas.
nômio, o novo tema é: "O amor Hoje, todos nós podemos aprender
a Deus e o amor de Deus por seu muito em Deuteronômio a respeito
povo" (4:37; 6:4-6; 7:6-13; 10:12; do amor a Deus e da obediência à
11:1; 30:6,16,20). Deuteronômio, vontade dele.
embora o livro anterior certamen­ Enumeramos as várias palavras-
te fale de amor e prove o amor de chave desse livro e o número de ve­
Deus por Israel, enfatiza esse tema zes que as encontramos na versão
como nunca foi feito antes. A pala­ Almeida Revista e Atualizada: terra
vra "coração" também é importante: (196); herança (25); possuir (19); ou­
a Palavra precisa estar no coração vir, ouviu, ouve, ouvi (25); coração
dos israelitas (5:29; 6:6); o pecado (43); amor, amar, ama, amai (9). Ao
começa no coração (7:17ss e 8:11- alinhar essas palavras, uma ao lado
20); e eles devem amar a Deus de da outra, vemos rapidamente qual é
coração (10:12). Em outras palavras, a ênfase desse livro: você entrará na
Moisés deixa claro que as bênçãos terra e a possuirá se ouvir a Palavra
vêm quando o coração está alinha­ de Deus, amá-lo e ouvi-lo (obede­
do com os propósitos de Deus. O cer). Se escutarmos a Deus, obede­
coração deles devia estar cheio de cemos a ele; e se obedecemos ao
amor a Deus e à sua Palavra a fim Senhor, ele nos abençoa.
D e u t e r o n ô m io 1 —6 estava organizada dessa forma e por
que não tomou posse de sua heran­
ça antes. Moisés deixou claro que o
M oisés revê a história passada da
n a çã o q u a n d o in ic ia e ssa sé rie de
pecado deles em Cades-Barnéia foi
discursos para a nova geração de is­ a rebelião (v. 26), fundamentada na
raelitas. É pecado viver no passado, descrença. Para rever esses eventos,
mas, se ignorarmos o passado, não veja as notas a respeito de Núme­
poderemos entender o presente nem ros 9— 14.
preparar-nos para o futuro.
B. As nações que eles
I. Ele lembra-os da evitaram (2:1-23)
orientação de Deus (1—3) Moisés, em uma sentença, passa
A nação reuniu-se nas planícies de por cima de anos dessa jornada em
Moabe "dalém do Jordão". Os israe­ que eram errantes no deserto (1:46)
litas levaram 40 anos para chegar e segue para a jornada deles até
lá, contudo o versículo 2 afirma que os limites de Canaã. Eles evitaram
essa jornada levava 11 dias! Esta é a três nações: Edom (descendentes
tragédia da descrença: ela desperdi­ de Esaú, irmão de Jacó), Moabe e
ça tempo, força e energia e rouba de Amom (descendentes de Ló, sobri­
Deus a glória devida ao seu nome. nho de Abraão). Uma vez que es­
Moisés começa a "proclamar" (NVI) sas nações tinham laços de sangue
a Lei de Deus, e a palavra "procla­ com Israel, Deus não permitiu que
mar" significa "gravar". Ele quer os judeus lutassem com elas. E Deus
deixá-la clara, escrevê-la no cora­ protegeu Israel quando passou pelas
ção deles. fronteiras dessas grandes nações.

A. Do Sinai a Cades-Barnéia (1:1-46) C. As nações que eles


Do terceiro mês do primeiro ano derrotaram (2:24—3:29)
(Êx 19:1) ao segundo mês do segun­ Houve dois motivos para que Deus
do ano posterior ao êxodo do Egito permitisse que Israel lutasse e con­
(Nm 10:11), a nação acampou em quistasse essas nações: (1) como ad­
Horebe. Durante esse período, Moi­ vertência às nações de Canaã (v. 25)
sés recebeu a Lei e construiu o ta­ e (2) tornar a terra acessível para as
bernáculo. É interessante que Moi­ duas e meia tribos que se assenta­
sés reveja seu próprio fracasso (vv. riam ao oriente do Jordão (3:12-17).
9-18), como também o fracasso da Os judeus foram gentis com essas
nação (vv. 19-46). Com certeza, a nações quando chegaram, oferecen-
nova geração sabia por que a nação do-lhes passagem pacífica. Entretan­
Deuteronômio 1-6 209

to, quando as nações os atacaram, nhor, e estes não a respeitam mais,


Deus conquistou-as. A nova geração então eles caminham em direção a
conquistou as grandes cidades forti­ problemas sérios.
ficadas que tinham assustado a anti­
ga geração (3:5). Com certeza, isso B. Voltar-se para os ídolos (4:14-49)
os encorajou quando se preparavam Nos versículos 4:9,15,23, Moisés
para entrar em Canaã. Moisés orou adverte os israelitas: "Guarda-te".
para que fosse permitida a entrada Ele os fez lembrar de que não vi­
na terra; no entanto, Deus não lhe ram imagens de Deus no Sinai e
permitiu que assim fizesse. advertiu-os de que não fizessem
No passado, Deus guiou e pro­ nenhuma imagem (vv. 15-19; veja
tegeu Israel e, certamente, estaria Rm 1:21-23). Deus provou ser
com ele no futuro. maior que todos os deuses do Egito;
portanto, por que adorar os outros
II. Ele os lembra da glória e da deuses? Deus, em amor, chamou a
grandeza de Deus (4—5) nação para si. Se eles se voltassem
Nessa seção, Moisés leva a nação para os ídolos, isso seria adultério
de volta ao Sinai, onde se revelara espiritual. Nos versículos 25-31,
a glória e a grandeza do Senhor, e Moisés resume o futuro de Israel:
onde a nação estremeceu com a Lei ele se voltaria para os ídolos, seria
de Deus. O povo corria o risco de expulso da terra e espalhado e, em
esquecer a glória e a grandeza de escravidão, serviria a outros deu­
Deus (veja 4:9,23,31). Moisés sa­ ses. Israel, no cativeiro, aprenderia
lientou três perigos: sua lição e abandonaria os ídolos
de uma vez por todas.
A. Esquecer a Palavra (4:1-13)
Que outra nação fora abençoada C. Negligenciar sua Lei (5:1-33)
com a Palavra de Deus? A Palavra Aqui, Moisés repete os Dez Man­
do Senhor era a sabedoria e o po­ damentos, o fundamento da Lei
der de Israel. Se os israelitas obede­ Moral de Deus. Na verdade, o resto
cessem à sua Palavra, ele os aben­ de Deuteronômio é a ampliação e
çoaria, e eles possuiriam a terra. Se a aplicação desses mandamentos.
eles mudassem sua Palavra (v. 2) ou Israel devia ouvir, aprender, guar­
desobedecessem a ela, ele os dis­ dar e cumprir essas leis (v. 1), pois
ciplinaria, e eles perderiam o gozo na obediência à Lei honrava Deus
da terra deles. Quando a Palavra de e abria o caminho para a vitória e a
Deus, a qualquer tempo, torna-se bênção. Uma frase importante des­
lugar-comum para os filhos do Se­ se livroé: "Ouvi, ó Israel!" (veja 5:1;
210 Deuteronômio 1-6

6:3-4; 9:1; 20:3). Deus deu essa Lei em sua graça, suportou os pecados
para revelar o pecado (Rm 3:20); dele; ele guiou-o e protegeu-o e, de­
para preparar a nação para a vinda pois, deu-lhe uma terra maravilho­
de Cristo (Gl 3:19-24); e para tor- sa. Seria uma ingratidão se Israel,
ná-la a nação separada na terra (Dt de forma deliberada (ou negligente)
4:5-8). Observe que Moisés lembra ignorasse Deus e não obedecesse
os israelitas de que a responsabi­ a ele. Com muita frequência, nós
lidade deles fundamentava-se na queremos usufruir das bênçãos, mas
redenção de Deus, pois o Senhor não queremos obedecer àquele que
libertara-os do Egito (vv. 6 e 15; cf. nos deu as bênçãos!
6:12; 8:14; 13:5,10). "Não sois de "Teu Deus, é Deus zeloso" (v.
vós mesmos [...] porque fostes com­ 15). Isso leva-nos de volta ao Sinai
prados por preço. Agora [...]" (1 Co (Êx 20:5), onde Deus estabeleceu o
6:19-20). O versículo 10 introduz relacionamento da aliança com Is­
o amor de Deus; compare-o com rael. Da mesma forma que um ma­
4:37. O versículo 29 deixa claro rido tem o direito de ser zeloso com
que devem ter a Lei no coração sua esposa, Deus tem o direito de
ou não há obediência verdadeira. ser zeloso com seu povo. Veja Jo­
Veja também Hebreus 8:8-12; Je­ sué 24:19 e Tiago 4:5. A idolatria é
remias 32:39-40 e 31:31-34. Se­ adultério espiritual, e, com frequên­
gunda aos Coríntios 3 ensina que o cia, Israel foi culpado desse peca­
Espírito de Deus escreveu a Lei no do.
coração dos crentes do Novo Tes­ Os pais deviam lembrar os fi­
tamento; e Romanos 8:1-4 explica lhos do que Deus fizera pela nação,
que obedecemos à Lei pelo poder exatamente como Moisés, naquele
do Espírito. dia, lembrou Israel do cuidado de
Deus (vv. 20-25). Os versículos 6-9
III. Ele lembra-os da bondade deixam claro que a Palavra devia
de Deus (6) ser parte da casa, o centro da con­
Os versículos 10-12 ilustram a fra­ versa e o recurso para a instrução
queza fundamental da natureza hu­ dos filhos no amor e na obediência
mana: achamos que as bênçãos de ao Senhor. Infelizmente, os judeus
Deus estão garantidas. "Guarda-te, apreenderam as palavras dessa lei,
para que não esqueças o S e n h o r ". mas não o espírito, e acabaram por
Como somos propensos a pensar fazer filactérios (Mt 23:5), peque­
que nossa sabedoria e força deram- nas caixas que contêm passagens
nos tudo que temos. Veja 8:17-18. da Lei. Eles usavam essas caixas so­
Deus, em seu amor, escolheu Israel; bre os braços e a cabeça, o que não
Deuteronômio 1-6 211

quer dizer que tivessem a Palavra no sados e não nos abandonará agora.
coração. Precisamos lembrar-nos da glória e
É necessário fazer todas essas da grandeza de Deus, pois os ídolos
advertências também aos crentes têm facilidade em se insinuarem em
do Novo Testamento. Somos muito nossa vida. E precisamos lembrar-nos
propensos a esquecer a orientação da bondade do Senhor. Se amarmos
de Deus e a reclamar quando as a ele e à sua Palavra de todo o co­
circunstâncias tornam-se desconfor­ ração, então ele nos abençoa, e nós
táveis. Ele ajudou-nos em dias pas­ seremos bênçãos para os outros.
D eu t e r o n ô m io 7 -1 1 da, nunca poderia dar ao mundo a
Palavra e o Filho de Deus.
Agora, Moisés, depois de lembrar Nessa passagem, o argumento
os eventos passados ao povo (caps. de Moisés é simples: Israel é a nação
1— 6), adverte-o em relação aos ris­ especial de Deus, o povo escolhido,
cos futuros. Durante séculos, Israel separado de todas as outras nações.
foi uma nação escrava, e um povo Deus escolheu-o porque o ama, e ele
peregrino por quarenta anos. Agora provou seu amor ao tirá-lo do Egito e
o povo estava para se estabelecer cuidar fielmente dele no deserto. Ao
em sua terra e precisava ter cuidado longo da Bíblia, surge o princípio de
com os perigos que viriam do novo separação, Deus separou a luz das
ambiente. Observe pelo menos cin­ trevas (Gn 1:4), e as águas, do firma­
co perigos que o povo tinha de reco­ mento (Gn 1:7). Ele ordenou a sepa­
nhecer e evitar. ração de Israel das outras nações (Êx
23:20-23; 34:11-16). Ele ordenou
I. Concessão ao inimigo (7:1-16) que a igreja se separasse do mun­
O propósito de Deus era expulsar do (2 Co 6:14—7:1; veja Ap 18:4).
as nações pagãs e estabelecer Is­ Deus, quando chamou Abraão para
rael em Canaã. Contudo, ele tinha fundar a nação judia, separou-o dos
de advertir Israel para que destruís­ pagãos em volta dele. Deus promete
se totalmente essas nações e não abençoar quando seu povo está se­
fizesse qualquer concessão a elas. parado do pecado (Dt 7:12-16).
Havia duas razões para essa des­ Vivemos em uma época em
truição total: (1) as nações eram que a igreja e o mundo estão tão
ruins e estavam prontas para o jul­ entrelaçados que temos dificuldade
gamento (Gn 15:16; cf. Dt 9:4-5); em saber quem realmente pertence
(2) se as nações fossem deixadas na a Cristo. Somos chamados a nos se­
terra, levariam Israel ao pecado. As parar do mundo a fim de que possa­
pessoas que não entendem o julga­ mos ser testemunho para o mundo
mento de Deus e a atrocidade do (Jo 15:16-27). Os cristãos mundanos
pecado argumentam que Deus foi impedem a obra de Deus.
"mau" por destruir essas nações.
Esses críticos ficariam agradecidos II. Temor ao inimigo (7:17-26)
por Israel ter eliminado essas na­ Em geral, o temor leva à concessão;
ções se compreendessem a peca- temos de "capitular" em relação à
minosidade dessas religiões pagãs necessidade de nos defendermos.
e como essas nações resistiram a Moisés adverte o povo para não te­
Deus. Israel, uma nação corrompi­ mer o inimigo, pois Deus estará com
Deuteronômio 7-11 213

Israel a fim de que este obtenha vitó­ necessidades diárias. Contudo, so­
ria. Ele não o libertou do Egito e dos mos auto-suficientes e esquecemos
reis no deserto? Portanto, o Senhor de Deus quando "as coisas vão bem"
podia dar-lhe vitória em Canaã! A vi­ e temos mais do que precisamos. To­
tória seria em estágios (v. 23; Jz 2:20- dos nós precisamos nos lembrar da
23) para que os israelitas pudessem declaração "É ele o que te dá força
possuir a terra com segurança. Deus para adquirires riquezas" (v. 18). As
faria a libertação, mas eles tinham de vezes, Deus tem de nos disciplinar
fazer a destruição (vv. 23-26) — eli­ para lembrar-nos quem controla as
minar os reis pagãos, os ídolos e os riquezas deste mundo.
altares. Nada que ficasse poderia ser
uma armadilha para eles, levando- IV. Orgulho (9:1— 10:11)
os ao pecado. Leia 2 Coríntios 7:1 e Os israelitas, depois de conquistar as
Romanos 13:14. nações pagãs de Canaã, poderiam
ser tentados a sentir-se orgulhosos
III. Prosperidade e e pensar que Deus lhes dera vitória
auto-satisfação (8) por causa da retidão deles. Moisés
Os "ardis" do demónio são mais lembra-os de que todas as vitórias
perigosos que seus exércitos! Nes­ que alcançassem seriam concedidas
sa seção, Moisés adverte os israeli­ pela graça de Deus. Antes de tudo,
tas sobre os riscos da prosperidade. Deus deu-lhes a terra em cumpri­
Eles esqueceriam os 40 anos em que mento à promessa feita aos pais de­
Deus cuidou deles, em que apenas les (Gn 15), promessa que fez por
o Senhor lhes forneceu alimento e sua graça. Os judeus não mereciam
vestimenta em abundância. Eles es­ a terra. Deus dera-lhes a terra porque
queceriam até a mão disciplinadora os amava. Além disso, ele expulsou
de Deus quando pecaram. E esse es­ as nações pagãs porque eram peca­
quecimento levá-los-ia ao pecado: doras, não por causa da bondade de
eles, na prosperidade e na bênção da Israel. Moisés lembrou os judeus de
"terra que mana leite e mel", tornar- que tinham uma história de rebe­
se-iam satisfeitos consigo mesmos e lião, não de retidão! Eles provoca­
pensariam que alcançaram todas es­ ram Deus no deserto, fizeram ídolo
sas coisas com a própria força. no monte Sinai e rebelaram-se em
Hoje, também não cometemos descrença em Cades-Barnéia. Deus,
esse pecado? Com frequência, lem­ se não fosse pela intercessão de Moi­
bramos de Deus e obedecemos a ele sés, teria destruído toda a nação.
quando passamos por momentos difí­ A alusão é verdadeira para os
ceis e dependemos dele para nossas cristãos de hoje. Não ousemos es­
214 Deuteronômio 7-11

quecer a graça de Deus! Somos sal­ e os seus estatutos que hoje


S en h o r
vos pela graça (Ef 2:8-10), e qual­ te ordeno, para o teu bem?" (v. 12).
quer obra que façamos para ele é A circuncisão era a marca da alian­
pela graça (1 Co 15:10; Rm 12:6). ça (Gn 17), mas Israel ignorou esse
Temos bênçãos materiais e espiri­ rito durante o período em que erra­
tuais por causa da graça dele, não va pelo deserto (Js 5). No entanto,
por nossa bondade. Essas bênçãos o importante não era a circuncisão
devem tornar-nos humildes, não or­ física, mas a espiritual — a entrega
gulhosos, e deveríamos querer usar do coração a Deus (v. 16).
o que temos para a glória dele ao No capítulo 11, Moisés deixa
ganhar almas para ele. Da mesma claro que a verdadeira questão é o
forma que Moisés intercedeu pela coração: se eles realmente amassem
nação e salvou-a, Cristo morreu a Deus, obedeceriam à Palavra dele
por nós e sempre intercede por nós. (Jo 14:21). Sim, eles deviam temer
Hoje, temos tão excelentes bênçãos a Deus, pois viram seus milagres e
apenas por causa dele. seus julgamentos, mas esse temor
Talvez o pior tipo de orgulho devia ser uma reverência amorosa
seja o "orgulho espiritual", como ao Deus que os escolheu acima de
o que vemos nos fariseus. A pessoa todas as outras nações. Deus não
espiritual não pode ser orgulhosa. podia abençoá-los se recusassem
A ostentação de dons espirituais ou obedecer à sua Palavra.
graças é um convite para a mão dis- Talvez alguns judeus disses­
ciplinadora de Deus. sem: "Depois de entrarmos na terra,
poderemos viver como quisermos e,
V. Desobediência deliberada mesmo assim, usufruir de suas rique­
(10:12 — 11:32) zas". Mas não era bem assim, pois a
Nessa seção, Moisés faz sua exorta­ terra prometida não era como o Egi-
ção final antes de iniciar a revisão to (vv. 10-17). No Egito, o povo de­
e a aplicação das várias leis que re­ pendia do rio Nilo, bem lamacento,
gerão a vida deles na terra prome­ para irrigar as plantações, mas, em
tida (12:1 ss). Moisés diz: "Agora, Canaã, a chuva viria do céu, duas
pois, ó Israel, que é que o S enho r vezes por ano, a fim de garantir as
requer de ti? Não é que temas o S e­ colheitas necessárias. A produtivi­
n h o r , teu Deus, e andes em todos dade da terra prometida dependia
os seus caminhos, e o ames, e sir­ da chuva do céu, da mesma forma
vas ao S enho r , teu Deus, de todo o que hoje dependemos da "chuva de
teu coração e de toda a tua alma, bênçãos" a fim de que nossa vida
para guardares os mandamentos do seja frutífera para Deus. O Senhor
Deuteronômio 7-11 215

não mandaria chuva, se Israel deso­ mudou: se obedecemos à Palavra


bedecesse, o que aconteceu muitas de Deus de coração, ele abençoa a
vezes na história da nação. nós e ao nosso trabalho, mas, se de­
Chegara o momento de deci­ sobedecemos ao Senhor, ele envia-
são (vv. 26-32). Eles tinham de es­ nos uma maldição e nos disciplina.
colher entre a bênção e a maldição. A obediência é a chave para a feli­
Esse princípio fundamental nunca cidade.
D e u t e r o n ô m io 2 7 - 3 0 bênção; e observe que todas elas
são originárias de Lia e Raquel. Rú-
Essa seção é profética e dá-nos qua­ ben e Zebulom eram filhos de Lia,
tro imagens de Israel em comunhão mas deviam ficar com os outros que
com a terra. estavam no monte da maldição (v.
13). Rúben perdeu seus direitos de
primogenitura quando pecou contra
seu pai (Gn 49:4). Os levitas, com a
arca, deviam ficar no vale entre os
I. Israel entra na terra (27) dois montes e proclamar a Lei. Note
Em Josué 8:30-35, vemos o cumpri­ que não deviam recitar nenhuma
mento dessa profecia. Deuteronô­ bênção, pois a Lei trazia maldição,
mio 27:3 ensina que a conquista da não bênção (Gl 3:10).
terra pela nação depende da obedi­ Essa cerimónia toda era um
ência a esse conjunto de instruções. lembrete incrível para Israel de que
O vale entre os montes Ebal e Geri- era a nação da aliança (v. 9) e es­
zim é um lugar bonito, onde se lo­ tava obrigada a obedecer à Lei de
caliza a cidade de Siquém. A área Deus. Leia 2 Coríntios 3 para ver o
forma um anfiteatro natural, com contraste entre o ministério da Lei e
cerca de 3,2 mil metros de largura, o glorioso ministério da graça.
o que facilitava para que as pessoas
ouvissem a leitura da Lei. II. Israel possui a terra e
Os anciãos das tribos deviam usufrui dela (28:1— 14)
levantar as "pedras" do monte Ebal O tema da Palavra de Deus é: a
e escrever nelas os Dez Mandamen­ obediência traz bênção (vv. 1-2).
tos. No sopé do monte, deviam er­ Efésios 1:3 declara que o crente do
guer um altar sobre o qual sacrifi­ Novo Testamento já tem todas as
cariam ofertas queimadas e ofertas bênçãos espirituais em Cristo e des­
pacíficas. A Lei traz condenação fruta-as quando crê em Deus e obe­
(2 Co 3:7-9), mas o altar satisfaz a dece a ele. É claro que encontramos
necessidade do pecador condena­ o princípio da obediência em todos
do. A oferta queimada retrata o sa­ os períodos da história da salvação,
crifício completo de Cristo em nos­ pois Deus não abençoa aqueles que
so favor, e a oferta pacífica lembra- se rebelam contra ele.
nos que ele nos reconciliou com Observe que Deus prometeu
Deus, apesar de termos quebrado a bênçãos materiais a Israel em todas
Lei (Rm 5:1). Seis tribos deviam fi­ as áreas — na cidade, no campo, no
car no monte Gerizim, o monte de fruto, no gado, na chegada, na saída.
Deuteronômio 27-30 217

Ele prometeu derrotar os inimigos As maldições de 28:15-19 fa­


de Israel e estabelecê-lo como povo zem paralelo com as bênçãos de
santo na terra. O versículo 10 indi­ 28:3-6. Deus advertiu-os de que as
ca que a nação devia espalhar pelo mesmas doenças e pestes, que vi­
inundo o testemunho da graça do ram entre os inimigos, os visitaria,
Senhor. Infelizmente, os israelitas se até as pragas que o Senhor lançara
tornaram o testemunho da discipli­ sobre o Egito (28:27). Uma evidên­
na e do castigo de Deus (vv. 45-46). cia da fúria de Deus é a retenção
O Senhor prometeu-lhes chuva nas das chuvas do início e do fim do
épocas propícias. Ele afirmou que fa­ ano (28:23-24; veja 11:10-1 7; 2 Cr
ria de Israel a nação líder (v. 13), seu 7:13-14; 1 Rs 17:1 ss; Jr 14:1 ss). Os
instrumento de bênção no mundo. inimigos os venceriam; eles seriam
Lembre-se de que Israel pos­ espalhados como servos cegos por
suía a terra por causa da aliança de toda a face da terra. Deuteronô­
Deus com Abraão, mas o povo ape­ mio 28:36 dá a entender que Israel
nas possuiria a terra e usufruiria dela pediria um rei (veja 1 Sm 8). A rica
se, como nação santa, obedecesse terra que manava leite e mel viraria
à aliança de Deus. Hoje, temos em um deserto. E Israel, em vez de ser
Cristo todas as bênçãos de que ne­ a primeira nação da terra, seria a
cessitamos por causa da graça dele, "cauda" (28:44).
mas só usufruímos dessas bênçãos No versículo 45, a palavra
quando cremos nele e obedecemos "destruído" não significa aniquila­
à sua voz. do, pois Deus não podia desonrar
sua aliança e destruir totalmente a
III. Israel arrancado da terra nação de Israel. Ela significa "sub­
(28:15— 29:29) jugado" pelas provações e castigos
Aqui encontramos a profecia do cas­ terríveis que cairiam sobre Israel por
tigo, do cativeiro e da diáspora para causa da desobediência. A nação
Israel, como também seu retorno seria um sinal e uma maravilha para
futuro em bênção. "Espiritualizar" o mundo, como ainda é hoje.
essas bênçãos e maldições e aplicá- Em 28:46-68, há a profecia dos
las à igreja é o mesmo que torcer as cativeiros de Israel e da remoção da
Escrituras e deixar de "dividir corre- nação da terra prometida. O versícu­
tamente a Palavra da verdade". Essas lo 49 refere-se, de imediato, a Babi­
maldições são literais e depois caí­ lónia e, remotamente, a Roma (ob­
ram sobre Israel, porque ele quebrou serve a referência à águia e ao jugo
a aliança com Deus ao adorar ídolos de ferro; veja Jr 5:15ss). Aqui, retrata-
e ao desobedecer à sua Lei. se o terrível cerco a Jerusalém (veja
218 Deuteronômio 27—30

Lm 2:20-22; 4:10; Mt 24:19). Os Esse capítulo promete que


versículos 63-65 deixam claro que a Deus "mudará [a] sorte" de Israel
continuação da desobediência resul­ e reintegrará a nação à terra se re­
tornar ao Senhor e obedecer à sua
taria no desarraigamento de Israel da
voz. É claro que um remanescente
terra e sua dispersão entre as nações,
onde não haveria repouso, um retra­ retornou à terra em 536 a.C., contu­
to perfeito dos judeus no mundo de do não foi um grande retorno nacio­
hoje. Que outra nação sofreu mais nal. Aqui, Moisés prediz o retorno
que Israel? O versículo 68 prevê quefinal dos judeus à terra deles (veja Is
alguns judeus seriam levados para o 11:10— 12:6). Contudo, eles retor­
Egito, e isso aconteceu quando Tito nam à terra em descrença, embora
conquistou Israel, em 70 d.C., e de­tenham voltado de novo à Lei de
pois enviou um bom número de ju­ Deus. Mesmo hoje, vemos judeus
deus para o Egito. voltarem para a Palestina e segui­
O capítulo 29 resume os acon­ rem os "velhos caminhos" de seus
tecimentos básicos da aliança: Deus pais. Mais uma vez, Deus começa a
redimiu-os, e eles tinham obrigação abençoar a terra com as chuvas do
de obedecer a ele; se obedeces­ início e do final do ano, e o deserto
sem, ele os abençoaria; se desobe­ começa a florir como uma roseira.
decessem, ele os julgaria. Moisés A nação, quando vir seu Messias
advertiu-os de que mesmo uma pes­ trespassado, se arrependerá e será
soa podia destruir a nação inteira purificada de todos os seus pecados
(29:18-19). Por fim, há alguns se­ (Zc 12:9—13:1).
gredos que Deus não revelou, mas Em Romanos 10:6-8, Paulo cita
temos a obrigação de obedecer ao 30:11-14 e aplica-o a Cristo. Cris­
que ele revela (29:29). to não está distante de seu povo. Se
eles o chamarem, ele os salvará!
IV. Israel reintegrado à terra (30) Deuteronômio 30:15-20 apre­
Por pelo menos mil anos, Israel senta a grande conclusão do discur­
usufruiu das bênçãos. Por volta de so de Moisés. A nação tem de es­
1400 a.C., ele entrou em Canaã, e colher entre a vida e a morte, entre
Babilónia conquistou Israel em cer­ a bênção e a maldição. Como sem­
ca de 587 a.C. Além disso, durante pre, essa escolha é uma questão de
esse período, Israel desobedeceu coração (v. 17). A mera obediência
ao Senhor diversas vezes e foi cas­ exterior não vale nada; ela deve vir
tigado. do interior.
D eu t e r o n ô m iq 3 1 - 3 4 sua obra." Moisés deu uma cópia de
Deuteronômio aos sacerdotes para
Todos da antiga geração, com exce- que pusessem na arca e para que
ção de Calebe, Josué e Moisés, mor- lessem na Festa dos Tabernáculos.
■eram, e agora Moisés estava para Ele sabia que apenas a Palavra de
sair de cena. Esses capítulos são de Deus transformaria o povo no tipo
transição, quando Moisés diz suas de nação que o Senhor queria que
palavras finais ao povo que amou fosse.
e guiou durante 40 anos. E incrível Por fim, Deus convocou Moisés
que Moisés tenha permanecido tão e Josué ao tabernáculo (vv. 14-30),
leal ao seu povo, pois ele o critica­ onde lhes disse que a nação se re­
ra, rebelara-se contra ele e mentira a belaria e se afastaria da Lei. Ele in­
respeito dele. Moisés sabia que ele cumbiu os dois de escreverem um
mesmo não entraria em Canaã, con­ "cântico" (veja 32:44) que deviam
tudo fez tudo que podia para capa­
ensinar ao povo. O cântico poderia
citar Israel a entrar! Moisés era fiel
ser um testemunho contra eles (v.
ao Senhor (Hb 3:1-6) e, por isso, era
tão fiel a Israel. 19), como também a Lei guardada
na arca o era (v. 26). Mais uma vez,
ele encorajou Josué (v. 23), e, de­
I. O novo Líder (31) pois, Moisés reuniu os anciãos para
Primeiro, Moisés anunciou o novo ensinar-lhes o cântico, registrado no
líder para o povo (vv. 1-6) e expli­ capítulo 32.
cou que não poderia liderá-lo por Moisés não recebeu permissão
muito tempo mais por causa do jul­ para guiar Israel em sua entrada em
gamento de Deus. No versículo 6, Canaã por dois motivos: (1) ele pe­
Moisés conta ao povo a maravilho­ cara contra Deus, em Meribá (Nm
sa promessa da presença vitoriosa 20:7-13; Dt 3:23-29); (2) Canaã é
do Senhor. No versículo 8 e em Jo­ um símbolo do "descanso" que te­
sué 1:9 (o próprio Deus), repete-se mos em Cristo, e Moisés, o legisla­
essa promessa a Josué. Ela também dor, não poderia nunca descansar.
nos é feita hoje (Hb 13:5). Apenas Josué, o retrato de Cristo,
Depois, Moisés chamou Josué o conquistador, poderia descansar
e comissionou-o (vv. 7-13), repou­ (Hb 4; e observe que em Hb 4:8,
sando as mãos sobre ele e, por meio no texto grego, Josué é chamado de
disso, outorgando-lhe o poder es­ "Jesus").
piritual de que precisaria para sua
grande tarefa (3.4:9). "Deus muda II. O novo cântico (32)
seus trabalhadores, mas continua Israel entoou o "Cântico de Moisés"
220 Deuteronômio 31-34

no mar Vermelho (Êx 15) para ce­ mento e despejem seu ódio sobre
lebrar a vitória deles e o poder de os judeus. Em eras passadas, Deus
Deus, contudo esse novo cântico la­ usara as nações gentias para dis­
menta a apostasia de Israel e a disci­ ciplinar Israel, contudo o Senhor,
plina do Senhor sobre seu povo. Em quando essas nações ultrapassaram
31:19-30, Deus deixa claro que o os limites impostos por ele e des­
cântico é um testemunho para lem­ pejaram seu ódio sobre Israel, in­
brar o povo de seus pecados. O no- terferiu e julgou essas nações (vv.
me-chave de Deus nesse cântico é 35-43). Chegará o dia em que ele
"a Rocha" (vv. 4,15,18,30-31). Des­ vingará a nação de Israel e a reinte­
sa forma, Moisés lembra os israelitas grará ao lugar em que as nações se
da água que verteu da rocha (Êx 17; regozijarão com ela (v. 43).
Nm 20) e da bondade de Deus com Infelizmente, Israel não era
a nação. O versículo 6 retrata Deus muito cuidadosa com sua Rocha,
como o Pai, o Redentor que com­ portanto não se lembra desse cân­
prou o povo. Mas os versículos 5-6 tico nem aceita essa advertência.
descrevem a nação como corrupta, Contudo, um dia, essas palavras
"perversa e deformada". falarão à nação de Israel, e ela se
Nos versículos 7-14, Moisés voltará para sua Rocha e descobrirá
lembra-os das bênçãos de Deus: que ela é Jesus Cristo, a quem cru­
ele achou-os no deserto; amou-os e cificou!
abrigou-os; alçou-os aos "altos" da
vitória; e deu-lhes as mais ricas bên­ III. A nova bênção (33)
çãos da terra. Contudo, o que Israel Não podemos estudar esses versí­
fez? A nação rebelou-se. Os versí­ culos de forma detalhada, a não ser
culos 15-18 descrevem a apostasia observar como Moisés não nomeia
e a idolatria de Israel, como aban­ qualquer pecado das tribos, como
donou a Rocha e esqueceu o amor Jacó faz em sua bênção (Gn 49).
dele. Como Deus responde ao pe­ O coração de Moisés está cheio de
cado deles? Nos versículos 19-25 amor por seu povo e, nesse capítulo,
temos o julgamento de Deus: ele dá sua bênção de despedida quando
esconde sua face; provoca Israel ao pede que Deus abençoe as diversas
voltar-se para os gentios (v. 21, veja tribos. Observe que ele inicia com
Rm 10:19); e despeja sua ira sobre os filhos de Lia, mas deixa de fora
eles ao espalhá-los pelo mundo. Simeão. No fim, a tribo de Judá ab­
Contudo, Deus esconde Israel de sorveu essa tribo, portanto Simeão
seus inimigos (v. 27) a fim de que compartilha da bênção de Judá.
não tirem vantagem de seu julga­ A tribo de Rúben dividiu-se na
Deuteronômio 31-34 221

rebelião relatada em Números 16, prometida, no monte da transfigura­


mas Moisés ora para que a tribo ção, e discutiram com Jesus sobre o
viva e cresça. Judá é a tribo real. êxodo (falecimento), que ele cumpri­
Provavelmente, Moisés refira-se ao ria em Jerusalém (Lc 9:27-31).
Messias, o Legislador prometido Deus permitiu que Moisés
em Génesis 49:10, quando pede a visse a terra, que é tudo que a Lei
Deus: "Introduze-o no seu povo" pode fazer no que diz respeito ao
(v. 7). Levi era a tribo de Moisés, e viver santo. A Lei anuncia o padrão
ele ora para que o Senhor abençoe divino, mas não pode nos ajudar a
o ministério dela para o povo. Ob­ alcançá-lo. Sem a morte de Cristo e
serve a bênção especial para José o dom do Espírito (Rm 8:1-4), não
(vv. 13-17), cumprida na riqueza de podemos cumprir a retidão da Lei
Efraim e de Manassés. em nossa vida. Podemos ver a ter­
É interessante notar a atitude ra, mas não entramos nela. Os que
espiritual do povo de Deus descrita seguem Moisés (legalistas) jamais
nesse capítulo: nas mãos de Deus e entrarão na terra da bênção.
aos seus pés (v. 3); debaixo da sua Apenas Deus estava presente
proteção (v. 12, BLH); e sustenta­ quando Moisés morreu, e ele sepul-
do por seus braços eternos (v. 27). tou-o. Se o povo soubesse a locali­
"Como os teus dias, durará a tua zação de sua sepultura, sem dúvida
paz", é uma boa promessa para nós o transformaria em um santuário de
hoje (v. 25). "Quem é como tu? Povo idolatria. Judas 9 afirma que Satanás
salvo pelo S e n h o r " (v . 29). Que pri­ queria o corpo de Moisés, talvez
vilégio ser filho de Deus! sob a alegação de que Moisés era
assassino (Êx 2:11-12), além de ter
IV. A nova moradia (34) pecado em Meribá ao ferir a rocha.
Moisés orou para que Deus se ar­ O povo, por 30 dias, pranteou
rependesse e permitisse que ele en­ Moisés. Com frequência, as pesso­
trasse na terra prometida, mas Deus as apreciam mais um líder após sua
recusou atender ao seu pedido (Dt morte que durante sua vida. O livro
3:23-29). O Senhor sabia que Josué encerra-se com um lembrete para
("Jeová é salvação") guiaria o povo nós do caráter único do ministério
ao seu descanso terreno, da mesma de Moisés — ele foi um homem com
forma que o Josué celestial, Jesus quem Deus falou face a face.
Cristo, conduziria seu povo ao des­ Agora, o povo estava pronto
canso espiritual. Isso é algo que a Lei para entrar na terra e reivindicá-la,
(Moisés) jamais poderia fazer. Con­ e estudaremos isso em Josué.
tudo, Moisés visitou com Elias a terra
J o su é

Esboço

L A travessia do rio (1— 5)


A. O comissionamento de Josué (1)
B. A aliança com Raabe (2)
C. A travessia do Jordão (3— 4)
D. A circuncisão em Gilgal (5)

II. A conquista do inimigo (6— 12)


A. A campanha central: Jericó, Ai, Gibeão (6— 9)
B. Os campos do sul (10)
C. Os campos do norte (11)
D. Os reis derrotados (12)

Hl. A posse da herança (13— 24)


A. A designação do território tribal (13— 19)
1. Canaã Oriental (13— 14)
2. Canaã Ocidental (15— 19)
B. O estabelecimento das cidades especiais (20— :
1. As cidades de refúgio (20)
2. As cidades sacerdotais (21)
C. A indicação das tribos fronteiriças (22)
D. A admoestação à nação inteira (23— 24)
N o t a s in t r o d u t ó r ia s vo no Egito e serviu como ministro
de Moisés durante a jornada da na­
ção (Êx 24:13). Ele também liderou
o exército durante a batalha contra
I. Tema Amaleque (Êx 17) e era um dos dois
Anteriormente, mencionamos que espiões que tiveram fé para entrar
Canaã simboliza a herança cristã em Canaã, quando a nação rebelou-
em Cristo. Canaã não é um retrato se em descrença (Nm 14:6ss). Ele (e
do céu, pois o crente não precisa Calebe), como resultado de sua fé,
lutar para ganhar sua moradia ce­ pôde entrar na terra prometida. A
lestial. Canaã representa a herança tradição judaica diz que Josué tinha
de Deus dada ao crente e da qual 85 anos quando substituiu Moisés na
ele toma posse por meio da fé. A liderança da nação. Josué 1—12 (a
vida cristã vitoriosa é uma vida de conquista da terra) são capítulos que
lutas e bênçãos, mas também é uma cobrem aproximadamente os sete
vida de repouso. Em Hebreus 4—5, anos seguintes: ele passou o restan­
vemos que a entrada da nação em te de sua vida dividindo a herança
Canaã retrata a entrada do crente e governando a nação. Ele morreu
em uma vida de repouso e de vitó­ aos 110 anos de idade Os 24:29). O
ria por meio da fé em Cristo. Mui­ Novo Testamento deixa claro que
tos cristãos encontram-se "a meio Josué representa Cristo. Em grego, o
caminho" em sua vida espiritual nome "Jesus" equivale a "Josué". Os
— entre o Egito e Canaã. Eles foram dois significam "Deus é salvação"
libertados da escravidão do pecado, ou "Jeová é salvação". Da mesma
mas não têm fé para tomar posse da forma que Josué venceu seus inimi­
herança de repouso e de vitória. O gos terrenos, Cristo derrotou todos
tema de Josué é como entrar e to­ os inimigos por meio de sua morte
mar posse dessa herança. e ressurreição. Foi Josué, não Moisés
(representante da Lei), quem entrou
II. Josué, o homem com Israel em Canaã, e Jesus é quem
Josué nasceu na escravidão egípcia. nos leva ao repouso e à vitória es­
Ele é filho de Num, da tribo de Efraim pirituais. Como Josué apontou para
(1 Cr 7:20-27), mas não sabemos as tribos sua herança, Cristo dá-nos
nada sobre sua mãe. Originalmen­ nossa herança (Ef 1:3ss).
te, seu nome era Oséias, que signi­
fica "salvação", mas Moisés mudou III. As nações derrotadas
para Josué, que significa "Jeová é Aqueles que se opõem à inspiração
salvação" (Nm 13:16). Ele era escra­ da Bíblia divertem-se atacando as
Notas introdutórias 225

passagens de Josué que descrevem religiosa pagã! Qualquer pecador da


K guerras e as matanças (por exem­ nação (tal como Raabe, Js 2 e 6:22-
plo, 6:21). Eles perguntam: "Como 27) poderia salvar-se por meio da fé,
um Deus de amor ordena tal derra­ e eles foram advertidos previamente
mamento de sangue?". Lembre-se de forma adequada (leia Jo 2:8-13).
de que Deus deu centenas de anos As vezes, Deus usa a guerra para
para que essas nações se arrepen­ castigar e até destruir nações que se
dessem (Gn 15:16-21), contudo elas esquecem dele. Deus destruiu essas
Rcusaram-se a deixar seus caminhos nações perversas para puni-las por
corruptos. Leia Levítico 18 se quiser seus pecados e proteger seu povo
saber como era a "conduta de Ca­ dos caminhos perversos delas, como
naã" e lembre-se de que essas práti­ um médico que desinfeta os instru­
cas imorais faziam parte da adoração mentos para matar os germes.
ío s u é 1 -2 em fé e tomar posse da terra! Deus
já nos deu "toda sorte de bênção es­
piritual" em Cristo (Ef 1:3). Tudo que
Deus enterra seus trabalhadores, mas
precisamos fazer é andar pela fé e
sua obra continua. Israel terminou
seu pranto por Moisés, e agora Deus desfrutar de nossas posses.
fala com Josué a respeito de suas Da mesma forma que Deus es­
responsabilidades como novo líder tava com Moisés, ele estaria com
da nação. Josué: "Não te deixarei, nem te de­
sampararei" (v. 5). Essa promessa
I. O comissionamento de Josué (1) foi feita a Salomão (1 Cr 28:20) e
a nós, em Hebreus 13:5-6. Os líde­
A. Deus fala com Josué (vv. 1-9) res e as épocas mudam, mas Deus
Deus, desde a batalha com Ama- não. Observe a coragem que a vida
leque, escolhera Josué para ser o cristã requer (vv. 6-7,9), mas a Pala­
sucessor de Moisés (Êx 17:8-16; vra do Senhor supre-nos com essa
observe v. 14). O Senhor disse a coragem (v. 8). Moisés escreveu o
Moisés que escrevesse isso em seu "Livro da Lei" (Êx 17:14; 24:4-7;
livro e lembrasse a Josué que Ama- Nm 33:2; Dt 31:9-13), e agora esse
leque seria exterminado. Em Núme­ Livro é dado a Josué. Ele devia ler o
ros 27:15ss, Deus instruiu Moisés Livro, meditar sobre ele dia e noite
a ordenar Josué, e, em Deuteronô­ e fazer tudo segundo o Livro. Veja
mio 31:7ss, Moisés dá uma palavra Salmos 1:1 -3 e 119:15. Se Josué, de
final de encorajamento e de bênção posse apenas dos primeiros cinco
a seu sucessor. Saber que fora cha­ livros da Bíblia, foi capaz de con­
mado por Deus deve ter fortalecido quistar Canaã, devemos conquistar
muito Josué, pois ele tinha uma ta­ muito mais agora que temos a Bí­
refa colossal pela frente. blia completa!
Observe que Deus dá todo en­
corajamento a Josué: (1) a promessa B. Josué fala com o povo (vv. 10-15)
da terra (vv. 2-4); (2) a promessa da Temos aqui uma "cadeia de coman­
presença dele (v. 5); (3) a garantia de do espiritual". O Senhor comanda­
que o Senhor manteria sua palavra va Josué (v. 9); Josué comandava
(vv. 6-9). É interessante estudar os os líderes (v. 10); os líderes deviam
verbos que Deus usa: "à terra que comandar o povo (v. 11). Isso é li­
eu dou [...]" (v. 2); "[...] tenho dado" derança espiritual sob o comando
(v. 3); "[...] tu farás este povo [...]" de Deus, e esse mesmo padrão deve
(v. 6). Ele já dera a terra a eles; tudo prevalecer na igreja do Novo Tes­
que eles tinham de fazer era andar tamento. Josué contou aos líderes
Josué 1-2 227

o que o Senhor lhe dissera, e eles ca de 3,2 hectares e era rodeada por
rapidamente transmitiram a mensa­ muros internos e externos. O muro
gem para o povo deles. Dentro de interno tinha 3,6 metros de espes­
três dias, eles atravessariam o Jordão sura, e o externo, 1,8 metro de es­
e entrariam na terra prometida e ti­ pessura, e havia casas em cima dos
nham de se preparar para o evento. muros (v. 15). Os muros tinham cer­
-Três dias" é uma referência à res­ ca de 9,1 metros de altura, e as es­
surreição — a nação estava para ter cavações mostram que esses muros
um novo início em uma nova terra. foram "violentamente destruídos".
As três tribos escolhidas escolheram Das muitas pessoas que viviam em
viver do lado oriental do Jordão (veja Jericó, sabemos o nome de apenas
Nm 32:16-24), mas haviam prome­ uma — Raabe, a meretriz (veja Hb
tido ajudar a conquistar a terra antes 11:31;Tg2:25). Ela retrata a história
de tomar posse de sua herança. Jo­ espiritual do crente em Jesus Cristo:
sué lembrou-os de sua obrigação.
A. Ela era uma pecadora
C. O povo fala com Josué (vv. 16-18) Nesse caso, o pecado era impureza
Como é maravilhoso quando o povo moral, mas "todos pecaram e care­
de Deus honra o Senhor ao respeitar cem da glória de Deus" (Rm 3:23).
e seguir seus líderes espirituais. Veja Naquela época, não era incomum
Deuteronômio 34:9. Eles, ao con­ que meretrizes administrassem hos­
trário dos cristãos carnais de Corinto pedarias.
(1 Co 1:11-17), não se dividiram em
grupos, com os seguidores de Moi­ B. Ela estava sob a condenação
sés, já morto, opondo-se aos segui­ Deus já condenara a cidade de Ra­
dores de Josué. Todos eles seguiram abe; era só uma questão de tem­
o Senhor! No versículo 17, observe po executar a sentença de morte.
a oração que fazem por Josué e, no Tudo na cidade, bem como todas as
versículo 18, como o encorajam. pessoas que ali habitavam, seriam
Anos antes, Josué vira a divisão e destruídos (6:21), tanto as pessoas
ouvira a murmuração deles. Como condenadas como as não condena­
ele devia estar grato por esse espíri­ das! Jericó é um retrato do mundo
to de harmonia! condenado de hoje. As pessoas não
podem sentir confiança e paz, pois
II. A aliança com Raabe (2) a morte está a caminho.
Os arqueólogos fizeram muita pes­
quisa em Jericó. Eles dizem que a C. Ela recebeu um período de graça
cidade ocupava uma área com cer­ Durante muitos anos, a cidade fora
228 Josué 1-2

posta de lado para julgamento (Dt Senhor, não com os pagãos que a
7:1 -5,23-24; 12:2-3). Génesis 15:13- rodeavam. Veja Tiago 2:25.
16 lembra-nos que Deus esperou
400 anos antes de permitir que o jul­ C. Ela tentou ganhar outras pessoas
gamento caísse sobre a terra! Raabe Pense no risco que Raabe corria
e todos os outros moradores de Jeri- ao compartilhar a Palavra com sua
có ouviram sobre o êxodo do Egito família! Quando as pessoas crêem
Cs 2:10), que acontecera havia 40 em Cristo, seu primeiro desejo é
anos. Josué 4:19 e 5:10 acrescentam compartilhá-lo com os outros, em
outros dias de espera, o que leva em especial com a própria família (Jo
consideração a semana adicional em 1:35-42; Mc 5:18-20).
que Israel marchou em volta da cida­
de (6:14). Como Deus é paciente! H. Ela foi salva do julgamento
Havia um duplo julgamento sobre a
D. Ela ouviu a Palavra de Deus cidade: primeiro, o abalo que des­
Raabe ouvira uma mensagem de truiu a cidade; depois, o fogo que
julgamento que, por fim, apresen­ destruiu tudo que havia na cidade.
tou-lhe a verdade de Deus. Observe A casa de Raabe ficava sobre o muro
como ela chama Deus em sua fala: (2:15), mas, aparentemente, essa
"o S e n h o r ". parte do muro não caiu! Depois de
Raabe e seus entes queridos serem
E. Ela creu na Palavra tirados da casa dela, Josué ordenou
"A fé vem pela pregação, e a pre­ que o resto da cidade fosse destruí­
gação, pela palavra de Cristo" (Hb do com fogo. Talvez Raabe e sua fa­
10:1 7). É a fé que salva o pecador, mília tenham se inquietado quando
mesmo o mais ímpio (Rm 4:5). as coisas começaram a tremer, mas
Hebreus 11:31 relata-nos que a fé eles estavam em perfeita segurança
salvou Raabe. Observe que a segu­ nas mãos de Deus (6:22-25). Hoje,
rança dela vem da Palavra: "Bem os cristãos vêem todo o mundo ao
sei que o S e n h o r v o s deu esta ter­ seu redor tremer, mas não têm cer­
ra" (v. 9). teza se Deus os resgatará antes de
enviar seu julgamento pelo fogo so­
F. Ela provou sua fé por meio bre o mundo (1 Ts 1:10; 5:9).
de obras
O fato de ela arriscar a vida ao rece­ I. Ela foi a um casamento
ber, esconder e proteger os espiões Em Mateus 1:5, vemos Raabe in­
prova que Raabe confiava em Deus. cluída pelo casamento na nação
Ela identificava-se com o povo do judaica e citada como ancestral do
Josué 1-2 229

Messias! Raabe e sua família desfru­ por causa do caráter dela ou de sua
taram de uma festa de casamento, obra religiosa. Essa é a única forma
enquanto o povo de Jericó sofreu de Deus salvar as pessoas (Ef 2:8-9).
a morte! Veja Apocalipse 19:7-9 e Você crê em Jesus como Raabe creu
17-19. Raabe salvou-se pela fé, não em Josué?
Io s u é 3 - 5 decer seus servos a fim de que as
pessoas os honrem (1 Cr 29:25; 2 Cr
1:1; veja Js 4:14). Era Josué quem
comandava os sacerdotes e dava
orientação aos líderes em relação
ao povo. O povo de Deus deve en­
grandecer Cristo (Fp 1:20-21), mas
o Senhor também se alegra em en­
grandecer seu povo quando este
I. O milagre da travessia (3) obedece a ele (At 5:12-13).

A. O povo santificado (vv. 1-5) C. O Senhor glorificado (vv. 9-13)


Josué, como nosso Jesus do Novo Em Êxodo, Deus provou ser o Se­
Testamento (Mc 1:35), levantou-se nhor e o verdadeiro Deus, e, ao
de madrugada para meditar sobre lado dele, os deuses do Egito não
a Palavra (1:8; 3:1) e preparar-se passavam de ídolos inofensivos.
para as tarefas do dia. Não coube­ Agora Deus prova ser o "o Senhor
ra a Josué inventar um método para de toda a terra" (vv. 11,13; veja SI
atravessar o transbordante Jordão, 97:5; Mq 4:13). Todos os deuses das
pois Deus dera-lhe todas as instru­ nações pagãs cairiam diante dele!
ções necessárias. Nesse capítulo, a O Senhor prova seu poder ao reter
palavra-chave é arca, usada 25 ve­ as águas do transbordante Jordão e
zes. A arca simbolizava a presença permitir que seu povo atravesse em
de Deus. A arca ia à frente do povo terra seca.
a fim de guiá-lo, mas ela foi mantida
no meio do rio até que toda a nação D. A Palavra cumprida (vv. 14-17)
o atravessasse. Cristo sempre vai Aconteceu exatamente como Deus
adiante de seu povo e abre o cami­ dissera que seria! Os sacerdotes fo­
nho, mas o povo deve santificar-se ram na frente, carregando a arca, e,
(veja 2 Co 7:1) e estar pronto para a quando molharam os pés na água,
liderança de Deus. O Senhor estava o Senhor represou a correnteza!
para levar os judeus por um novo (Às vezes, o povo de Deus tem de
caminho (v. 4), e eles tinham de es­ "molhar os pés" pela fé antes de o
tar prontos para isso. Senhor operar! Veja Js 1:2-3.) Os sa­
cerdotes pararam no meio do rio e
B. Josué engrandecido (vv. 6-8) permaneceram lá, enquanto todo o
Claro, deve-se toda a glória a Deus, Israel atravessava para o outro lado.
mas ele acha apropriado engran­ Depois, eles mesmos foram para o
Josué 3-5 231

outro lado. Que imagem perfeita de do rio (v. 8), uma evidência de que
Cristo! Ele vai à nossa frente para Deus partira as águas para que o
abrir o caminho, ele permanece povo atravessasse em segurança.
conosco até atravessarmos e segue Apenas o Senhor pode ver as doze
atrás a fim de nos proteger! Deus pedras escondidas no meio do rio,
cumpre sua Palavra quando seu mas elas também falam da mara­
povo crê nele e lhe obedece. vilhosa travessia de Israel. As duas
É instrutivo comparar a travessia colunas de pedras representam a
do mar Vermelho (Êx 14— 15) com morte e o sepultamento (as pedras
a do rio Jordão. A primeira travessia escondidas) e a ressurreição (as
representa a separação do passado pedras do leito do rio) de Cristo.
(Egito, o mundo), e a segunda retra­ Elas ilustram, ao mesmo tempo,
ta a tomada de posse pela fé de nos­ a união espiritual do crente com
sa herança espiritual em Cristo. O Cristo: quando ele morreu, mor­
inimigo foi vencido de uma vez por remos com ele; fomos sepultados
todas quando o exército egípcio foi com ele; ressuscitamos em vitória
coberto pelo mar Vermelho, mas os com ele! Veja Efésios 2:1-10; Gála-
judeus tinham de vencer, vez após tas 2:20; Colossenses 2:13; Roma­
vez, depois de atravessar o Jordão nos 6:4-5. Hoje, a igreja tem dois
e entrar em Canaã. Jesus, na cruz, memoriais dessa grande verdade:
derrotou nossos inimigos, mas, se (1) o batismo lembra-nos que o Es­
quisermos vencer todos os dias, pírito de Deus batiza-nos em Cristo
temos de caminhar e lutar pela fé. (1 Co 12:13); (2) a ceia do Senhor
Nós "atravessamos o Jordão" quan­ aponta para sua morte e para seu
do vivenciamos em fé a experiência retorno.
de vitória de Romanos 6—8. Os judeus não podiam ter vi­
tória em Canaã e conquistar os
II. O memorial da travessia (4) inimigos sem primeiro atravessar o
Houve a construção de duas colunas Jordão. Hoje, os cristãos também
de pedras: uma feita com as pedras não podem conquistar seus inimi­
retiradas do leito do rio pelos doze gos espirituais, a menos que matem
homens escolhidos (3:12; 4:1-8), seu "eu", considerem-se crucifica­
e outra feita por Josué no meio do dos com Cristo e permitam que o
rio (4:9-10). Elas são memoriais da Espírito lhes dê o poder de ressur­
travessia e nos transmitem verdades reição. Reveja Romanos 5—8, no
espirituais maravilhosas. Comentário bíblico expositivo, para
As doze pedras sobre o leito a explicação do Novo Testamento a
do Jordão foram tiradas do meio respeito dessa verdade.
232 Josué 3-5

III. A marca da aliança (5) a descrença deles suspendeu tem­


Não fazia muito que os judeus es­ porariamente o relacionamento
tavam seguros do outro lado do rio que tinham com Deus por meio
quando Deus lhes ordenou que da aliança (Nm 14:32-34). Quan­
recebessem a marca da aliança, a do se recusaram a entrar em Ca­
circuncisão (Gn 17). Em conjunto, naã por causa de sua descrença,
como nação, eles passaram pela Deus "os entregou" para que er­
experiência "mortal" de atravessar rassem no deserto, até que a an­
o rio. Agora, eles, individualmente, tiga geração morresse. Agora, a
deviam praticar a "morte do eu". nova geração estava para receber
Ao longo da Bíblia, a circun­ a marca da aliança. É provável que
cisão sempre retrata a verdade es­ "o opróbrio do Egito" signifique o
piritual. Infelizmente, os judeus opróbrio que os egípcios (e outras
tornaram o rito físico mais impor­ nações) lançaram sobre os judeus
tante que a verdade espiritual que enquanto erravam pelo deserto
ele ensina (veja Rm 2:25-29). A (veja Êx 32:12ss; Dt 9:24-29). A
circuncisão simboliza tirar o que é descrença deles não glorificou
pecaminoso e, no Novo Testamen­ Deus, e as nações pagãs disseram:
to, retrata despojar-se do "antigo "O Deus deles não é forte o sufi­
homem" carnal (Cl 3:1 ss; Rm 8:13). ciente para levá-los para Canaã!".
Não é suficiente dizer: "Morri com Agora, Deus levou-os à terra pro­
Cristo"; devo também praticar essa metida, e o opróbrio acabara.
verdade em minha vida diária por A nova geração atravessou o
meio da "morte" das obras da car­ Jordão, mas não atacou Jericó de
ne. Contudo, os judeus do Antigo imediato. Muitos cristãos de hoje
Testamento tiravam uma pequena teriam se apressado direto para a
porção de sua carne. Entretanto, os batalha! Mas Deus sabia que seu
cristãos do Novo Testamento, por povo precisava estar preparado es­
intermédio de Cristo, despojam- piritualmente para a batalha que
se "do corpo da carne" (Cl 2:9- tinham à frente, portanto ele o fez
13). Assim, essa operação no Gil- esperar e descansar. O povo come­
gal ilustra a verdade de que cada morou a Páscoa enquanto esperava.
crente deve viver "crucificado com Passaram-se 40 anos da libertação
Cristo" (Gl 2:19). da nação do Egito até essa primeira
Os homens judeus, durante os noite de Páscoa.
anos em que erraram pelo deser­ Deus deu-lhe novo alimento —
to, não receberam essa marca da o "fruto" (cereal antigo) da terra. O
aliança, mas por uma boa razão: maná foi o alimento da nação en­
Josué 3-5 233

quanto era peregrina, mas agora ela Cristo) e comeram o fruto da terra
se instalaria na terra. Veja Deutero- (ressurreição).
nômio 6:10-11 e 8:3. O cereal fala A principal lição desses capítu­
da ressurreição abençoada de Cris­ los é bem clara: não há conquista
to, pois a semente tem de ser enter­ sem a morte do "eu" (travessia do
rada antes de frutificar (Jo 12:24). A Jordão) e a identificação com a res­
ordem dos eventos lembra-nos, de surreição de Cristo (os dois memo­
novo, de sua morte, sepultamento riais de pedra). Os judeus, antes de
e ressurreição — os filhos de Isra­ vencerem os inimigos, tinham de
el celebraram a Páscoa (a morte de vencer o pecado e o "eu".
I o su é 6 direção à vitória é reconhecer que
você é o segundo comandante.
Não pode haver vitória pú­
A conquista dessa poderosa cidade blica para o Senhor, a menos que
por Israel ilustra diversas verdades o adoremos em particular. Josué
espirituais práticas: (1) é a fé que prostrou-se com o rosto abaixado
vence os obstáculos (Hb 11:30 e em adoração; ele tirou as sandálias
1 Jo 5:4); (2) usamos armas espiritu­ em humildade; e entregou todos
ais (2 Co 10:4); (3) Cristo é o vence­ os seus planos a seu Comandante
dor, e podemos confiar totalmente quando disse: "Que diz meu se­
nele Oo 16:33). Os cristãos enfren­ nhor ao seu servo?". Como solda­
tam muitos "Jericós" na vida diária dos cristãos (2 Tm 2:3; Ef 6:10ss),
e, com frequência, têm a tentação temos de nos submeter a Cristo e
de desistir, como os espiões fizeram ouvir suas ordens na Palavra. Cristo
em Cades (Nm 13:28ss). Contudo,
deu a Josué as ordens exatas para
nenhum muro é muito alto ou muito
conquistar a cidade (6:2-5), e tudo
forte para o Senhor. Nós vencemos
e tomamos posse da herança por que ele tinha de fazer era obedecer
meio da fé! pela fé. Cristo disse-lhe: "Entreguei
na tua mão Jericó". Contudo, as
pessoas tinham de andar pela fé e
I. O príncipe do exército do Senhor declarar a vitória.
(5:13— 6:5) Os homens armados deviam
Jericó era uma cidade fechada. Jo­ liderar a procissão (vv. 3,7), segui­
sué estava ao pé da cidade e lá dos por sete sacerdotes com trom­
viu um homem com "uma espada betas (v. 4). A arca devia vir atrás
nua" na mão. Destemidamente, Jo­ dos sacerdotes (vv. 4,7) e, depois,
sué pediu ao homem que dissesse o resto das pessoas ("a retaguar­
quem era e descobriu que aquele da") encerrava a procissão (v. 9). A
Homem era o Senhor dos Exérci­ procissão devia marchar em volta
tos! Esse é o título de "guerra" do de Jericó uma vez por dia, duran­
Senhor e fala de seu comando su­ te seis dias, em silêncio absoluto,
premo das multidões (exércitos) de exceto pelo soar das trombetas (v.
Israel e do céu. Veja Salmos 24:10 10). No sétimo dia, eles deviam
e 46:7,11; 1 Reis 18:15; Isaías 8:11- marchar sete vezes em volta da
14; Ageu 2:4; Tiago 5:4. Jesus Cristo cidade (perfazendo o total de 13
descera para dirigir a batalha, e Jo­ marchas), e, nesse dia, na sétima
sué foi rápido em reconhecer a li­ marcha, deviam soar as trombetas
derança dele. O primeiro passo em e gritar. Que plano de guerra es-
Josué 6 235

tranho! Contudo, os caminhos de que sim! Contudo, a exigência de


Deus não são os nossos caminhos; marcharem seis dias (durante os
<ele usa o que o mundo considera quais não podiam conversar) era
"loucura" para confundir os fortes uma ótima forma de disciplinar a
(1 Co 1:26-31). nação. A fé e a paciência andam
Deus, em sua Palavra, delineou juntas (Hb 6:11-15). Também foi
tudo que precisamos saber sobre necessário disciplina para ficar em
difundir o evangelho e conquistar silêncio e esperar pelo momento
o inimigo. É triste dizer que muitos determinado por Deus. Tiago 3:1-2
cristãos (e igrejas) inventam seus ensina-nos que as pessoas que
próprios planos, utilizam esquemas conseguem controlar a fala são
do mundo feitos pelo homem, e, maduras em sua fé; veja também
por fim, o esforço deles fracassa. Se Provérbios 16:32.
ouvirmos as ordens de nosso Prín­
cipe e obedecermos a elas, ele nos C. Eles creram em Deus para
dará a vitória. fazer o impossível (vv. 15-16)
Quem já ouviu falar em conquistar
II. A conquista da cidade (6:6-25) uma cidade com armas com gritos
E fácil ver por que os israelitas ven­ e com trombetas? Contudo, a arca
ceram o inimigo: (que representa a presença de Cris­
to) estava com eles, e isso queria di­
A. Eles obedeceram a seus zer que Deus faria o trabalho. Com
líderes (vv. 6-9) o Senhor, todas as coisas são possí­
Em Josué 1, vimos a "cadeia de veis. Veja Jeremias 33:3.
comando espiritual" de Deus, e
aqui a vemos em funcionamento. D. Eles obedeceram ao Senhor
O povo ouviu, com respeito, a Pa­ em todos os detalhes (vv. 17-25)
lavra de Deus transmitida por seus As coisas da cidade deviam ser
líderes e obedeceu ao comando "devotadas a Deus" (condenadas,
do Senhor. Ele demonstrou unida­ consagradas); os animais e os ci­
de, cooperação e sinceridade de dadãos deviam ser mortos; Raabe
mente nas fileiras, e Deus deu-lhe e sua família seriam salvas. As ve­
vitória. zes, obedecemos ao Senhor antes
da batalha, mas (como Acã, cap. 7)
B. Eles tiveram paciência desobedecemos depois da vitória.
e fé (vv. 10-14) Deus deu vitória total aos judeus
Deus poderia livrar a cidade no sobre Jericó porque creram em sua
primeiro dia para Josué? É óbvio Palavra. Observe que tiraram Raabe
236 Josué 6

e a família da cidade antes de in­ lavra de Deus e rebelar-se contra a


cendiarem-na. Veja 1 Tessalonicen- vontade dele!
ses 1:10; 5:9. Em diversas passagens do Novo
Em Atos dos Apóstolos, vemos Testamento, salienta-se a cidade
como o "exército espiritual" de de Jericó. O homem da parábola
Deus conquista uma cidade após do bom samaritano ia de Jerusa­
outra por meio da fé. Mesmo a po­ lém para Jericó (Lc 10). Zaqueu
derosa cidade de Roma caiu dian­ era de Jericó (Lc 19:1-10), e, em
te do poder do evangelho! Hoje, Jericó, Cristo curou a cegueira de
o povo de Deus precisa aprender Bartimeu (Mc 10:46-52). A Jericó
de novo como capturar cidades, e do Novo Testamento não ficava no
esse capítulo diz-nos como fazer mesmo local da cidade do Antigo
isso. Testamento, mas era uma cidade
totalmente nova e conhecida por
III. A maldição do Senhor (6:26-27) sua beleza.
No versículo 26, provavelmente a Eis alguns pontos práticos sobre
palavra "povo" refere-se às pessoas os quais devemos meditar quando
que foram salvas vivas, pois pode­ enfrentamos nossos "Jericós":
riam ter a tentação de reconstruir
sua cidade. Da mesma forma que A. O soldado que quer lutar melhor
alguns judeus quiseram voltar ao tem de se prostrar o mais baixo
Egito, também alguns membros da possível antes da batalha (5:13-15)
família de Raabe poderiam querer Vencemos nossas batalhas sobre
voltar para Jericó. Por essa razão, nossos joelhos e sobre nossa face
Deus lançou uma maldição espe­ curvada diante do Senhor.
cial sobre a cidade e sobre qualquer
homem que a reconstruísse. Veja B. Ninguém conquista uma
Deuteronômio 13:15-18. cidade sozinho
Em 1 Reis 16:34, cumpre-se essa Josué teve a cooperação leal dos
maldição. Durante o reinado do sacerdotes e do povo, e juntos con­
malvado rei Asa, um homem cha­ quistaram o inimigo.
mado Hiel, o betelita, reconstruiu
Jericó. Quando ele lançou os funda­ C. Quando seguimos os métodos de
mentos da cidade, perdeu seu filho Deus, ele vence a batalha e recebe
primogénito, e quando pôs as por­ a glória por isso
tas, perdeu o filho mais moço. Que Por isso, ele usa "métodos loucos".
sacrifício por uma cidade! Como as Quando usamos nossos esquemas
pessoas são tolas em desafiar a Pa­ e sistemas, podemos conseguir a
Josué 6 237

glória, mas a vitória nunca é du­ tos de Deus são capacitações do


radoura. Senhor.

D. A descrença vê os muros e os E. Mesmo no julgamento>


gigantes (Nm 13:28ss), mas vemos a graça de Deus em
a fé confia no Senhor operação, pois Raabe e a
"Obstáculos são aquelas pe­ família foram salvas por
quenas coisas desagradáveis que meio da fé
vemos quando tiramos os olhos Há aqui uma sugestão de que, no
do objetivo". E, devemos acres­ fim, quando o julgamento de Deus
centar, quando afastamos nossos cair sobre este mundo, "serão pou­
olhos do Senhor. Os mandamen­ cos os salvos" (NVI)?
Io s u é 7 - 9 B. Desencorajamento (vv. 6-9)
O coração dos judeus derreteu-se (v.
5), em vez de isso acontecer com o
A estratégia militar de Josué era atra­
coração dos inimigos Os 2:11). Josué
vessar Canaã e dividir a terra, inician­
do com Jericó e continuando com Ai, e os anciãos passaram todo o dia em
Betei e Gibeão. Depois, ele conquis­ oração diante da arca, e Josué até
taria as cidades do sul e completaria queria "voltar" e acomodar-se com
sua conquista ao derrotar as cidades a herança do outro lado do Jordão!
do norte. Entretanto, ele sofreu um Entretanto, observe que Josué estava
revés em Ai e foi enganado pelos lí­ mais preocupado com a glória de
deres de Gibeão. Deus e com o testemunho de Israel
diante das nações pagãs que com o
desencorajamento da derrota. De-
I. A desobediência de Acã (7) monstra-se a marca da verdadeira
espiritualidade quando é a glória de
A. Derrota (vv. 1-5) Deus que motiva a vida do servo.
Deus deixara claro que as coisas de
Jericó deviam ser "consagradas", ou C. Descoberta (vv. 10-18)
dedicadas, a ele e ir para seu tesou­ Deus falou com severidade a seu ser­
ro (6:18-19), mas Acã desobedeceu vo: "Levanta-te! [...] Israel pecou". É
a essa lei. É possível que Josué tenha claro, apenas um homem pecara,
sido tão apressado em seu ataque a mas isso envolvia toda a nação (v.
Ai que não esperou pela orientação 1-2; 1 Co 12:12ss). É uma verdade
do Senhor. Além disso, ele agiu de solene que a desobediência de uma
acordo com a sugestão dos espiões, pessoa pode causar dor e abatimento
em vez de com a Palavra de Deus. a toda uma nação, família ou igreja.
Posteriormente, o Senhor rejeita Acã achou que poderia esconder seu
o plano dos espiões (compare 7:3 pecado, mas Deus viu o que ele fez.
com 8:1). Esses versículos sugerem E Deus, porque "coisas condenadas"
uma confiança excessiva: Jericó fora estavam no acampamento, não po­
arruinada por Israel, e este estava dia estar com seu povo. Isso causou
confiante de que conquistar a cida­ a derrota deles em Ai. Talvez Josué
de menor de Ai seria uma "moleza". e o sumo sacerdote usaram o Urim
A autoconfiança, a confiança na sa­ e o Tumim para determinar o culpa­
bedoria humana, a impaciência, a do (Êx 28:30) ou lançaram a sorte.
falta de oração e o pecado secreto "Sabei que o vosso pecado vos há de
estavam por trás da derrota de Israel achar" (Nm 32.23). Acã foi desco­
em Ai. berto, e seu pecado, exposto.
Josué 7-9 239

D. Destruição (vv. 19-26) Ai (v. 12). Alguns dos guerreiros ata­


Acã confessou: "Verdadeiramente, caram Ai e atraíram os homens para
pequei", e explicou: "quando vi fora da cidade. Nesse ponto, Josué
[...] uma boa capa babilónica [...] sinalizou para os homens que esta­
tomei" as coisas de Jericó (veja Gn vam em emboscada, e eles entraram
3:6). Sem dúvida, a família dele sa­ na cidade e a capturaram. A vitória
bia sobre o roubo e compartilhava foi total! No versículo 26, Josué, se­
seu pecado. Todos eles tinham de gurando sua lança, lembra-nos de
ser julgados por seu pecado; portan­ Moisés levantando a mão enquan­
to, o povo levou-os ao vale e os ape­ to Josué lutava com Amaleque (Êx
drejou. Chamou-se o local de "vale 17:8ss). Ai ficou tão destruída que
deAcor" (problema) como lembran­ até hoje os arqueólogos não têm
ça do problema que Acã trouxe para certeza de sua localização.
o povo. Oséias2:15 promete que
Deus fará do vale de Acor a "porta III. A proclamação da Lei (8:30-35)
de esperança" para os judeus. Com Josué interrompeu sua campanha
certeza, Israel tem estado no "vale militar para levar a nação a 48 qui­
de problema", porque rejeitou Cris­ lómetros dali, a Siquém, local em
to, mas um dia se voltará para ele e que cumpriu a ordem de Deutero­
terá esperança. nômio 27:4-6. É-nos dito que esse
lugar é um anfiteatro natural com
II. A destruição de Ai (8:1 -29) ótima acústica, e ali Josué pôs as tri­
Agora que a nação foi santificada bos de Rúben, Gade, Aser, Zebulom,
(7:13) e seu pecado julgado, Deus Dã e Naftali no monte Ebal (o mon­
poderia de novo levar seu povo a te das maldições); e as de Simeão,
vencer. Observe como Deus usa a Levi, Judá, Issacar, Efraim, Manas-
derrota para tirar vantagem, pois o sés e Benjamim no monte Gerizim
povo de Ai estava confiante de que (o monte das bênçãos). Josué sabia
poderia dominar Israel de novo. muito bem que a vitória de Israel e
Note também que Deus permitiu a posse da terra dependiam da obe­
que o povo pegasse os despojos de diência dele à Palavra de Deus. Era
Ai. Se Acã tivesse esperado alguns mais importante para a nação ouvir
dias, poderia pegar todas as rique­ a Palavra do Senhor que lutar qual­
zas que pudesse carregar! Leia Ma­ quer outra batalha. Observe que ele
teus 6:33. também construiu um altar (vv. 30-
O plano era simples. À noite, 31), pois, separados do sangue de
Josué envia 30 mil homens a Ai (v. Cristo, não temos justiça diante de
3) e pôs 5 mil homens entre Betei e Deus. A Lei poderia condená-los e
240 Josué 7-9

matá-los se negligenciassem os sa­ peito do assunto. Em vez disso, jul­


crifícios. Devemos admirar e imitar garam pelas aparências. A história
o respeito de Josué pela Palavra de dos gibeonitas soou razoável, pois
Deus (veja 1:8; 24:26-27; também certamente a comida e as roupas
23:14). pareciam velhas e usadas, e tudo
parecia estar em ordem. Em conse­
IV. A decepção dos gibeonitas (9) quência disso, Josué fez uma alian­
As tribos pagãs de Canaã estavam ça com os homens e depois desco­
divididas em muitas "nações" (cida- briu que eram de Gibeão! Três dias
des-Estados) pequenas, e algumas depois, Israel chegou a Gibeão e a
cidades-chave eram o centro delas. suas cidades aliadas (v. 17), mas não
Em geral, elas lutavam umas com podia feri-los por causa da aliança.
as outras, mas, quando o povo de Isso provocou murmuração entre o
Deus chegou, esses reis menores povo, que, provavelmente, queria
uniram-se a fim de opor-se a Israel. mais despojos. Contudo, o povo de
E impressionante como os inimigos Deus não podia voltar atrás em seu
unem-se contra Deus! Entretanto, o juramento. Tudo que Israel podia
povo de Gibeão, a próxima cidade fazer era tornar os gibeonitas ser­
a ser tomada, decidira valer-se de vos — e ele os pôs para trabalhar
estratagema, em vez da força. (Sata­ rachando lenha e tirando água para
nás é tanto um leão como uma ser­ o tabernáculo. Pelo menos, Israel
pente.) Os gibeonitas fingiram-se de reverteu o erro que cometera em
embaixadores (como homens que benefício para ele!
estavam em uma longa jornada), O que Jericó não conseguiu
com sacos velhos, sandálias remen­ com seus muros, e Ai com suas
dadas e com comida embolorada, e armas, os gibeonitas conseguiram
o plano deles funcionou. Deus or­ com estratagema. Satanás tenta um
denara que Israel não fizesse alian­ engodo atrás do outro para derrotar
ça com as nações de Canaã (Dt 7), o povo de Deus, e precisamos estar
mas os gibeonitas sabiam que, se constantemente em guarda. Note
Israel fizesse uma aliança, a mante­ que, em geral, é depois de uma
ria. Eles mentiram quando disseram grande vitória que Satanás inicia
que vinham de uma terra distante. seus ataques ardilosos. Foi depois
Observe também que eles não dis­ da vitória sobre Jericó que Ai der­
seram nada a respeito das vitórias rotou Israel, e foi depois de Israel
de Israel em Jericó e em Ai. derrotar Ai que Gibeão enganou
Josué e seus anciãos não bus­ Josué. Devemos ter cuidado com o
caram o conselho de Deus a res­ julgar "segundo a carne" (Jo 8:15)
Josué 7-9 241

e com o depender de nossa sabe­ gado a defender seus inimigos por


doria (Pv 3:5-6). Tiago 1:5 prome­ causa da aliança precipitada que
te que Deus nos dará sabedoria se fez. Em Deuteronômio 7, Moisés
pedirmos a ele. Os cristãos têm de advertiu Israel de que a amizade
tomar cuidado com as associações com as nações pagãs apenas o le­
mundanas (2 Co 6:14-18). No ca­ varia ao pecado, e isso era o que
pítulo 10, vemos que Josué é obri­ estava acontecendo.
I o su é 1 4 - 1 5 se não tivesse primeiro vivenciado
redenção sob Moisés.
Na Bíblia, Calebe sobressai-se como
um grande herói da fé. Somos infor­ II. Calebe, o defensor (Nm 13— 14)
mados seis vezes de que ele perse­ Em estudos anteriores, já discuti­
verou "em seguir ao S en h o r " (Nm mos a rebelião de Israel em Cades-
14:24; 32:12; Dt 1:36; Js 14:8-9,14). Barnéia. A nação, quando chegou
Calebe foi um vencedor (1 Jo 2:13- à entrada de Canaã, saíra do Egito
14 e 5:4), um homem que se entre­ havia cerca de dois anos. Eles, em
gou totalmente ao Senhor e obede­ vez de crerem na Palavra de Deus
ceu completamente à sua Palavra. e tomar posse imediatamente de
Podemos traçar sua história espiritu­ sua herança, pediram um relatório
al em quatro estágios. dos 12 espiões (Dt 1:21ss). Calebe
e Josué estavam entre os espiões, o
que mostra a posição de confiança
I. Calebe, o sofredor que desfrutavam em meio à nação.
Calebe deve ter nascido no Egito, na Quando se fez o relatório desses es­
época em que os judeus passavam piões, apenas Calebe e Josué defen­
por grande sofrimento (Êx 1—2), já deram Moisés e encorajaram a nação
quetinha40anosemCades-Barnéia. a entrar em Canaã. Os dez espiões
Ele nasceu escravo, contudo morreu infamaram aterra (14:36), enquanto
herói! Josué 14:13-14 apresenta a Calebe e Josué encantaram-se com
ascendência dele. Alguns acham a terra. A nação queria voltar; os
que Calebe (cujo nome significa dois homens de fé queriam seguir
"cachorro") tinha ascendência mis­ adiante. A maioria caminha pela vi­
ta, sendo seu pai quenezeu, e sua são; a minoria, pela fé. A nação re­
mãe da tribo de Judá (Js 15:13). Se belde viu apenas os obstáculos, os
isso for verdade, sua fé torna-se algo problemas; o líderes crentes viram
ainda mais espantoso! Entretanto, as oportunidades, as perspectivas.
1 Crónicas 2:18 apresenta-o como Qual foi o resultado disso? Os dez
filho de Hezrom, descendente de espiões e a geração incrédula mor­
Perez (1 Cr 2:5); e isso o põe na li­ reram no deserto! Contudo, Calebe
nhagem de Cristo (Mt 1:3). Em todo e Josué viveram para entrar na terra
caso, Calebe foi redimido pelo san­ prometida e usufruir dela. "O pen­
gue do cordeiro da Páscoa, libertado dor da carne dá para a morte" (Rm
do Egito e ganhou a perspectiva de 8:6). Calebe precisou ter coragem
uma grande herança em Canaã. Ele para permanecer contra toda a na­
poderia não ter herança sob Josué, ção, mas Deus honrou-o por isso.
Josué 14-15 243

Hl. Calebe, o errante cada tribo sua herança especial, e


Calebe não morreu no deserto, mas Calebe pediu a sua parte. Ele lem­
leve de sofrer com a nação incré­ bra Josué da promessa do Senhor
dula durante os quase 40 anos em (14:6-9), pois, apenas fundamenta­
que erraram pelo deserto. Imagine dos na Palavra de Deus, podemos
o que esse crente piedoso teve de tomar posse de nossas bênçãos.
sofrer! Todos os dias, ele viu pes­ Observe o testemunho glorioso de
soas morrerem e perderem sua he­ força que Calebe dá (14:10-11). A
rança. Ele ouviu a murmuração e as pessoa de fé é aquela que tem força.
queixas do povo. Esse homem de fé Quarenta e cinco anos depois do fra­
leve de suportar a descrença dos ir­ casso da nação em Cades-Barnéia,
mãos israelitas. Ele amava Moisés, Calebe já tem 85 anos, contudo ele
mas teve de ouvir os judeus critica­ está ansioso em tomar posse de sua
rem o líder e oporem-se a ele. herança para a glória de Deus. É
Como Calebe conseguiu man­ triste quando os crentes permitem
ter sua vida espiritual rodeado de que a "idade avançada" os torne
tanta carnalidade e descrença? O queixosos, quando deveriam (como
coração dele estava em Canaã! Calebe) ser conquistadores.
Deus dera-lhe uma herança mara­
vilhosa (leia Js 14:9-12), e, embora "Dá-me este monte" (14:12).
seu corpo estivesse no deserto, sua Calebe era um homem de visão es­
mente e seu coração estavam em piritual, como também tinha vitali­
Canaã! Ele é uma imagem perfeita dade espiritual, e essas duas quali­
de Colossenses 3:1-4. Ele tinha o dades levaram-no à vitória espiritu­
que Romanos 8:6 cita como "pen­ al. Deus prometera-lhe a herança, e
dor do Espírito". Calebe resistia às Calebe tinha fé de que ele cumpri­
provações do deserto, porque sabia ria sua promessa (veja Rm 4:20-21).
que não precisava temer a morte, Calebe estava capacitado para ex­
que tinha a herança, e que Deus pulsar os habitantes de sua herança
não o abandonaria. Como nós te­ Qs 15:13-14), os próprios "gigantes"
mos muito mais em Cristo! Con­ de quem os dez espiões descrentes
tudo, desistimos com muita facili­ tiveram medo (Nm 13:28,33). A des­
dade e, logo, abandonamos nossa crença vê os gigantes; a fé vê Deus.
peregrinação. A descrença depende do "senso co­
mum" do homem; a fé repousa to­
IV. Calebe, o vencedor talmente na Palavra de Deus.
Isso nos leva ao nosso estudo de Jo­ Otniel, sobrinho de Calebe,
sué 14— 15. Josué estava dando a ajudou-o em uma de suas conquis­
244 Josué 14-15

tas (Js 15:15-17) e recebeu a filha de 8:37). Josué e Calebe venceram


Calebe por esposa. Mais tarde, esse com armas físicas e tomaram posse
homem torna-se o primeiro juiz de de uma herança material, mas nós
Israel (]z 3:9ss) e, dessa maneira, vencemos com armas espirituais
exerce a liderança da família. A fi­ (2 Co 10:3-5) e tomamos posse de
lha de Calebe retrata uma verdade nossa herança espiritual em Cristo
espiritual maravilhosa. Ela, depois (Ef 1:3). Os cristãos devem vencer
de seu casamento com Otniel, re­ por meio da fé em Cristo (1 Jo 5:4).
torna a seu pai para pedir mais uma Temos de vencer o mundo (1 Jo
bênção (15:18-19). Calebe dera-lhe 5:5), as falsas doutrinas (1 Jo 4:1 -4)
uma terra, mas ela também queria e o Maligno (1 Jo 2:13-14). Cristo
fontes de água para nutrir a terra. O já venceu Satanás (Lc 11:21-22) e o
cristão deve continuar, com alegria, mundo Qo 16:33, portanto apenas
a pedir ao Pai as bênçãos mais exce­ precisamos afirmar a vitória dele
lentes, especialmente as "fontes es­ por meio da fé. Observe, nas cartas
pirituais" que irrigam a vida produ­ às sete igrejas (Ap 2—3), as mui­
tiva. A terra que Deus nos dá nunca tas promessas àqueles que vencem:
frutificará sem as fontes de água (Jo "O vencedor herdará estas coisas"
7:37-39). (Ap 21:7).
Que diferença faz para a vida Da mesma forma que Calebe,
do crente perseverar "em seguir ao nós vencemos o inimigo e toma­
S e n h o r " e em exercitar a fé na Pa­ mos posse da herança: (1) devemos
lavra. A dedicação e a fé de Cale­ entregar-nos totalmente ao Senhor;
be salvaram-lhe a vida, deram-lhe (2) devemos conhecer as promes­
uma herança, venceram o inimigo sas dele e crer nelas; (3) devemos
e possibilitaram que enriquecesse manter o coração e a mente fixos na
a família pelos anos por vir. Com herança; (4) devemos depender de
certeza, o Senhor espera que os Deus para conseguir vitória. "Gra­
cristãos de hoje sejam vencedo­ ças a Deus, que nos dá a vitória por
res; na verdade, Paulo afirma que intermédio de nosso Senhor Jesus
"somos mais que vencedores" (Rm Cristo" (1 Co 15:57).
Io s u é 2 3 - 2 4 B. A promessa para o futuro (v. 5)
Os trabalhadores de Deus mudam,
Normalmente, pensamos em Josué mas sua Palavra permanece a mes­
como um grande soldado, e ele era, ma. Josué garante-lhes que Deus
mas aqui o vemos como um grande continuará a lutar por eles e a dar-
pastor que demonstra preocupação lhes vitória sobre os inimigos deles.
amorosa para com seu povo. Ele
serviu fielmente ao Senhor e à na­ C. A responsabilidade pelo
ção. Agora, ele receia que o povo se presente (vv. 6-16)
afaste de Deus e perca sua herança. Com frequência, o que Deus faz por
Pedro também se preocupou com a seu povo depende do que o povo faz
mesma coisa antes de morrer (1 Pe por ele. Josué lembra-os de sua res­
1:12-15), como também o apóstolo ponsabilidade como povo de Deus,
Paulo (At 20:13ss). É trágico quando e suas palavras levam-nos às adver­
uma geração se sacrifica para obter
tências de Moisés, em Deuteronô-
as bênçãos de Deus, e uma nova ge­
mio 7—11. Aqui, a palavra-chave é
ração vem e perde tudo.
nações, usada seis vezes nos versí­
culos 3 a 13. Israel deve ter cuida­
do com as nações pagãs da terra. A
I. O discurso de Josué para os única forma de Israel ter esperança
líderes (23) de ganhar a terra e tomar posse de
Josué chamou os líderes de todas as sua herança é pela obediência à Lei
tribos. Provavelmente, isso aconte­ de Deus (veja Js 1:7-8). Ele precisa­
ceu em Siló (18:1). Ele queria ins­ va de coragem para crer na Palavra
tilar em seus líderes a devoção sin­ e opor-se aos inimigos, mas Deus o
cera ao Senhor. Ele morreria, mas capacitaria para isso.
eles deveriam continuar o trabalho. A principal preocupação de Jo­
Josué quer que sejam fiéis a Deus. sué era Israel ser um povo separado e
que não se misturasse com as nações
A. A revisão do passado (vv. 3-4) pagãs. O versículo 7 apresenta o ne­
Esses homens, da travessia do Jor­ gativo ("Não vos mistureis com estas
dão àquele dia, viram os prodígios nações que restaram entre vós"), e o
do Senhor. Perceba como Josué dá a versículo 8, o positivo ("Mas ao Se­
Deus toda a glória pelo que foi rea­ n h o r , vosso Deus, vos apegareis").

lizado: o Senhor lutou as batalhas. Que loucura seria adorar os deuses


Tudo que Josué fez foi dividir a ter­ de um inimigo derrotado! Como Isra­
ra! É bom que nos lembremos do el era a nação separada pelo Senhor,
que Deus fez por nós. Deus capacitaria um homem para fa­
246 Josué 23-24

zer o trabalho de mil (v. 10)! Os isra­ sabia que a idolatria faria com que
elitas tinham de apegar-se ao Senhor perdesse sua herança. Portanto, ele
ou às nações pagãs (vv. 11-12); mas, usou diversos argumentos a fim de
caso se misturassem com os pagãos, encorajá-lo a devotar-se totalmente
Deus tiraria deles suas bênçãos. O ao Senhor.
princípio do versículo 13 aplica-se
a todos os crentes: quaisquer peca­ A. A bondade de Deus no
dos que permitamos permanecer em passado (vv. 2-13)
nossa vida tornam-se redes e espi­ Josué fez todo o caminho de volta
nhos para nós. ao nascimento da nação no cha­
Não podemos deixar de obser­ mado de Abraão. Abraão e seu pai
var a ênfase de Josué na Palavra de eram idólatras até que Deus, em sua
Deus (vv. 6,14). "Nem uma só pa­ graça, os chamasse. O chamado de
lavra falhou de todas as suas boas Abraão não se deveu a sua bonda­
promessas" (veja 1 Rs 8:56). Obede­ de, pois era pagão, mas à graça e ao
cer à sua Palavra significa vitória e amor de Deus. O Senhor deu a terra
bênção; desobedecer a ela significa a Abraão, Isaque e Jacó. O Senhor
derrota e provação. Veja João 1:8. protegeu os judeus no Egito e, de­
pois, libertou-os com sua mão po­
II. O apelo de Josué ao povo (24:1 -28) derosa. Ele guiou-os e proveu para
eles no deserto. Ele derrotou nações
Josué, depois de exortar os líderes, por causa deles. Ele os fez passar o
chamou todo o povo em Siquém, Jordão, trouxe-os à terra prometida
um lugar caro ao coração de Isra­ e expulsou os inimigos que tinham
el, já que foi ali que Deus prometeu diante deles. O que mais Deus po­
a terra a Abraão pela primeira vez deria ter feito por seu povo? Agora,
(Gn 12:6-7). Também nesse local, eles tomavam posse de sua herança
Jacó construiu um altar (Gn 33:20) e e desfrutavam das bênçãos da terra.
exortou a família a lançar fora seus Como eles deviam amar e servir ao
ídolos (Gn 35:1-4). Ao mesmo tem­ Senhor!
po em que não há "lugares santos"
na terra, há locais que despertam B. O exemplo do próprio
lembranças sagradas nos crentes. Josué (vv. 14-15)
Josué preocupava-se que o Israel tinha de servir a algum deus —
povo caísse em idolatria por causa os deuses dos pagãos ou o verdadei­
da influência das nações pagãs que ro Deus, Jeová. Josué disse: "Eu e a
viviam entre ele. Israel era propen­ minha casa serviremos ao S en h o r ".
so à adoração de ídolos, e Josué Não é apenas encorajador, mas es­
Josué 23-24 247

sencial, que líderes piedosos dêem não mantiveram sua aliança com o
o bom exemplo na própria casa. Senhor. Rara o relato dessa tristeza,
leia Juizes 21:25.
C O perigo da disciplina (vv. 16-21)
Por três vezes, o povo garante a 111. As realizações de Josué para
Josué que servirá ao Senhor (vv. o Senhor (24:29-33)
16,21,24). Ele sabia que o que os O versículo 31 é um grande teste­
israelitas diziam com os lábios nem munho desse homem de Deus —
sempre era verdade no coração. por causa de sua liderança, a na­
Ele adverte: "Não podereis servir ção serviu ao Senhor e continuou
ao S enho r , porquanto é Deus san­ servindo-lhe mesmo depois de sua
to, Deus zeloso, que não perdoará morte. Deus usou Josué para fazer
a vossa transgressão nem os vossos muitas coisas por Israel. Ele guiou
pecados. Se deixardes o S e n h o r e os israelitas na travessia do Jordão,
servirdes a deuses estranhos". Ele levou-os de uma vitória a outra na
advertiu-os de que a idolatria traria terra, deu-lhes sua herança. Com
punição e disciplina e a perda da certeza, para Israel, o túmulo de Jo­
terra. sué era outro lembrete do poder e
da misericórdia do Senhor. O povo
D. A aliança com Deus (vv. 22-28) de Deus age com acerto quando se
No Sinai, Deus fez uma aliança com lembra de guias piedosos e imita a
Israel (veja Êx 20), e, em Deuteronô- fé que tiveram (Hb 13:7-8).
mio, a nova geração, sob a lideran­ Esses versículos registram três
ça de Moisés, renovou essa aliança. sepultamentos: o de Josué, o de
Contudo, cada geração tinha de rea­ José e o de Eleazar. Os irmãos de
firmar sua fidelidade a Deus, portanto José tinham prometido sepultar
Josué renovou a aliança com o povo. seus restos em Canaã (Gn 50:25),
Ele escreveu as palavras no Livro da portanto os judeus levaram seus
Lei e, depois, as pôs sobre uma pe­ ossos do Egito (Êx 13:19). Isso é
dra para lembrá-los de sua promessa. um retrato de nossa futura ressur­
Isso traz à mente as pedras assenta­ reição, pois, como o corpo de José
das quando Israel atravessou o Jordão foi redimido do Egito, também
(cap. 4). Somos tão propensos ao es­ nosso corpo, um dia, não apenas
quecimento que Deus precisa usar descansará em sua moradia de di­
lembretes (como a ceia do Senhor) a reito, como também se transforma­
fim de manter seu povo no caminho rá para ser igual ao corpo de Jesus
da obediência. Nos anos seguintes, Cristo (Fp 3:20-21). É fácil acre­
os judeus, mesmo com os lembretes, ditar que também a sepultura de
248 Josué 2 3 -2 4

José era um lembrete para o povo Lembremo-nos, ao terminar esse


da fidelidade de Deus. O Senhor livro, que Cristo é nosso Salvador e
usara José para manter o povo vivo que ele luta nossas batalhas por nós
durante a fome, e ele foi-lhe fiel e ajuda-nos a tomar posse de nossa
mesmo na terra pagã do Egito. herança.
J u izes

Esboço

I. Apatia (1— 2)
A. Primeiras vitórias (1:1 -26)
B. Derrotas consecutivas (1:27-36)
C. Castigo divino (2:1-5)
D. Serviço a outros deuses (2:6-23) (resumo do livro todo)

II. Apostasia (3— 16)


A. Otniel (3:1-11 — Mesopotâmia)
B. Eúde e Sangar (3:12-31 — Moabe)
C. Débora e Baraque (4— 5 — cananeus)
D. Gideão (6— 8 — midianitas)
E. Abimeleque, Tola e Jair (9:1 — 10:5 — homens de Siquém)
F. Jefté (10:6— 12:15 — Amom)
G. Sansão (13— 16 — filisteus)

III. Anarquia (17— 21)


A. Idolatria (17— 18)
B. Imoralidade (19)
C. Guerra civil.(20— 21)
N o t a s in t r o d u t ó r ia s tudo, desanimamos com facilidade
ou fazemos concessões ao inimigo
depois de dar esse passo de fé. Is­
I.Tema rael entrou em sua terra, mas não
O livro de Juizes, da mesma forma tomou posse de toda a sua herança.
que o de Josué, continua a história Primeiro, a nação tolerou o inimi­
de Israel após a morte de Moisés Os go, depois recolheu tributos (taxas)
1:1) e apresenta a história de Israel dele e misturou-se com ele e, por
após a morte de Josué i]z 1:1). Esse, fim, entregou-se a ele. Os israeli­
conforme vemos em seu versículo- tas conseguiam vencer apenas por
chave, é um livro de derrota e de intermédio dos libertadores (juizes)
desgraça: "Cada qual fazia o que de Deus. Os cristãos têm facilidade
achava mais reto" (17:6). O Senhor para "acomodar-se ao pecado" e
já não era mais "rei em Israel" — as perder as bênçãos da dedicação
tribos dividiram-se; o povo misturou- completa e da vitória total.
se com as nações pagãs; e Deus pre­
cisava castigar seu povo. Em 2:10- III. A terra
19, temos um resumo do livro todo A terra prometida tinha muitas na­
— bênção, desobediência, castigo, ções e muitos "reis menores" que
arrependimento, libertação. Juizes governavam territórios menores.
é o livro da vitória incompleta, é o Josué liderou a nação, em conjun­
livro do fracasso do povo de Deus to, e obteve grandes vitórias sobre
em crer em sua Palavra e afirmar o os principais inimigos; assim, pa­
poder dele. vimentou-se o caminho para que
cada tribo tomasse posse, pela fé,
II. Lição espiritual da herança que lhe fora destinada.
Recordaremos as três divisões de Josué é um registro do esforço con­
Josué: a travessia do rio, a conquista junto, mas Juizes registra uma nação
do inimigo e a posse da herança. dividida, não mais devotada ao Sen­
Josué relata como Israel atravessou hor, esquecida da aliança que fizera
o rio e iniciou a conquista do inimi­ no Sinai.
go, mas o livro termina com "ainda
muitíssima terra ficou para se pos­ IV. Os juizes
suir" Os 13:1 e 23:1-11). A "traves­ Esse livro enumera 12 juizes escolhi­
sia do rio" significa a morte do "eu" dos por Deus a fim de derrotar
e a separação do pecado, significa um inimigo específico em um ter­
tomar posse de nossa herança es­ ritório particular e dar descanso ao
piritual por meio da fé (Ef 1:3). Con­ povo. Esses juizes não eram líderes
Notas introdutórias 251

nacionais; antes, eram líderes lo­ (2:22 e 3:4); (3) para fornecer ex­
cais que livravam o povo de várias periência de guerra a Israel (3:2);
opressões. É possível que houvesse e (4) para impedir que a terra se
sobreposição de alguns períodos de tornasse um deserto (Dt 7:20-24).
opressão e de descanso. Nem todas Se Israel quisesse viver com essa
as tribos participaram de toda batalha, situação de "segunda classe",
e, com frequência, havia rivalidade Deus faria a vontade dele. Assim,
entre as tribos. Que o Senhor cha­ ele usou essas nações para seus
masse essas "pessoas comuns" de próprios propósitos. Os judeus po­
juizes e usasse-as de forma tão pode­ diam usufruir vitória total, mas eles
rosa, é outra evidência de sua graça enveredaram para a concessão.
e poder (1 Co 1:26-31). O Espírito Os capítulos 3— 16 retratam as ex­
de Deus revestiu esses líderes para periências de "altos e baixos" de
um serviço específico (6:34; 11:29; algumas pessoas do povo de Deus.
13:25), embora a vida pessoal de­ Infelizmente, a nação não se en­
les não fosse exemplar em todos os tregou ao Senhor nem obedeceu a
sentidos. Os muitos anos sob o gov­ ele; em vez disso, voltou-se para
erno dos juizes prepararam Israel os ajudadores humanos. Muitos
para pedir um rei (1 Sm 8). cristãos têm seus "altos e baixos" e
correm para o pastor, ou um ami­
V. As nações que sobraram go, em busca de ajuda, em vez de
Deus, por várias razões, permitiu primeiro ficar a sós com Deus, a
que as nações pagãs ficassem na fim de permitir-lhe examinar o co­
terra: (1) para punir Israel (2:3,20- ração deles e dar-lhes a ajuda de
21); (2) para pôr Israel à prova que precisam.
I u ízes 1 - 5 B. Eles não obedecem à Lei (2:1-10)
E cla ro que essa foi a razão para os
contínuos fracassos e derrotas de­
les. Deus prometera a Josué vitó­
ria constante, se a nação honrasse
e obedecesse à Palavra (Js 1:7-8), e
Josué repetiu essa promessa aos lí­
deres Os 23:5-11). Gilgal foi cená­
rio de grande vitória de Israel, mas
I. O fracasso dos israelitas (1—2) agora o Senhor moveu-se de Gilgal
para Boquim, "o local de choro",
A. Eles não conquistam a terra (1:1-36) enfatizando o trágico declínio de Is­
Os versículos 1-8 registram as vi­ rael de vencedor a pranteador! (Para
tórias anteriores de Judá e Simeão, ver a importância de Gilgal, cf. Js
enquanto o resto do capítulo é o 5:1-9; 9:6; 10:6. Gilgal era o cen­
registro de inúmeras derrotas. Essas tro das operações militares de Israel,
duas tribos conseguiram tomar Beze- o campo de Josué. Agora, ele fora
que (v. 4), Jerusalém (v. 8), Hebrom abandonado.)
(v. 10), Debir (v. 11), Zefate (v. 17), Deus lembrou o povo de que
Gaza, Asquelom e Ecrom (v. 18). A desobedecera à Lei ao fazer alian­
casa de José toma Betei (v. 22), mas ça com as nações pagãs e ao unir-
o resto das tribos não conseguiu ex­ se aos deuses delas. Leia Deutero­
pulsar o inimigo. O que se iniciou nômio 7 com atenção para ver as
como uma série de vitórias, lide­ instruções do Senhor sobre esse
radas pelo Senhor, terminou como assunto de separação. Durante os
uma série de concessões. Judá não anos de Josué e dos líderes que
conseguiu expulsar os moradores do vieram depois dele, a nação se­
vale (v. 19; e veja 4:13ss); Benjamim guiu a Lei; contudo, após a morte
não expulsou os jebuseus (v. 21), deles, apostatou. "E outra geração
e, da mesma forma, as outras tribos após eles se levantou, que não co­
"estabeleceram-se" com as nações nhecia o S e n h o r " (veja v. 10). Eles
pagãs (vv. 27-36). Eles conseguiram não tinham nem mesmo trazido os
racionalizar o fracasso ao tornar os próprios filhos para o Senhor! Em
povos pagãos servos, mas isso trouxe Deuteronômio 6:1-1 5, Deus ins­
apenas problemas adicionais. Em Jo­ truiu-os a ensinar a Lei aos filhos, e
sué 23—24, Josué advertira-os de não eles não fizeram isso. Isso acontece
fazerem concessões ao inimigo, mas com muita frequência em nações,
agora eles caíam na própria rede. igrejas e famílias. É muito fácil a
Juizes 1-5 253

'geração mais jovem" afastar-se do em vez de derrotarmos o inimigo,


Senhor, se a "geração mais velha" não fazemos concessões e deixamos o
éfiel em ensiná-la e em dar o melhor inimigo levar-nos para baixo. Com
exemplo de obediência para ela. frequência, desobedecemos deli­
beradamente à Palavra de Deus e,
C f/es não se achegam ao muitas vezes, fracassamos em amar
Senhor (2:11-23) ao Senhor e em achegarmo-nos a
Eles deixaram o Senhor e seguiram ele por meio da fé. Deus, quando
outros deuses. A religião dos cana- isso acontece, tem de castigar-nos, e
neus era horrivelmente perversa, o único remédio para nós é arrepen­
com práticas obscenas demais para der-nos e voltar-nos para ele.
serem discutidas. A adoração a Baal
e a Astarote (deidades masculina e II. As vitórias dos juizes (3—5)
feminina, v. 13) infestou Israel ao Em Josué, havia um líder, e Deus es­
longo de sua história. Quando isso tava com toda a nação; mas, em Jui­
entra na vida dele, fica difícil de zes, há muitos líderes, e Deus está
exterminar. Quando o povo aban­ apenas com esses líderes, não com
donou ao Senhor, ele também o toda a nação (2:18). Aqui, o livro
abandonou. Vez após vez, ele "o enumera vários juizes menores que
entregou" nas mãos de seus inimi­ podemos apenas estudar de forma
gos. Durante centenas de anos, a breve.
nação, em vez de usufruir o "des­
canso" que Deus prometera, entrou A. Otniel (3:1-11)
e saiu da escravidão, com apenas Durante oito anos, o povo da Me-
períodos ocasionais em que usu­ sopotâmia escravizou Israel; depois,
fruíra do "descanso" do Senhor. O Deus suscitou Otniel, genro de Ca­
julgamento, todas as vezes, era tão lebe, para libertar a nação. Otniel
severo que, no fim, a nação gemia significa "Deus é força", e ele viveu
para Deus. O Senhor poderia enviar de acordo com seu nome. Veja Jui­
um libertador, mas note que o Se­ zes 1:9-15 ejoão 15:16-19. É prová­
nhor estava com a pessoa do juiz, vel que tenha agradado à família de
não com a nação toda. É muito tris­ Calebe ter um homem tão corajoso
te que as pessoas se voltem para o em suas fileiras. Ele libertou a na­
Senhor apenas quando estão com ção, e os israelitas tiveram descanso
problemas; quando o juiz morria, a durante 40 anos.
nação reincidia no pecado.
Hoje, vemos esses fracassos em B. Eúde (3:12-30)
cristãos confessos. Às vezes, nós, Dessa vez, o Senhor usou os moa-
254 Juizes 1-5

bitas para castigar Israel, junto com recebeu do Senhor. Em geral, o rio
Amom e os amalequitas, inimigos Quisom ficava seco, mas Deus esta­
antigos dos judeus! Durante 18 va mandando uma grande tempes­
anos, os israelitas serviram como tade que inundaria o leito do rio,
escravos, até que Eúde libertou-os e os carros de ferro ficariam presos
e deu-lhes descanso por 80 anos. (veja 4:3 e 5:20-22). Embora He­
Deus usou o fato de ele ser canho­ breus 11:32 cite Baraque como um
to para derrotar o inimigo, pois o homem de fé, aqui o vemos como
rei não tinha como saber que Eúde um homem que depende de Débo­
tiraria o punhal do lado direito de ra para vencer. Na verdade, Deus
sua vestimenta (3:21). Ao que tudo usou duas mulheres para libertar os
indica, os benjamitas eram pródigos judeus — Débora, a profetisa, e Jael
em canhotos Qz 20:16; 1 Cr 12:2). (vv. 18-24). É interessante comparar
Eúde, depois de matar o rei inimigo, Baraque e Sansão. Ambos estavam
pôde reunir seu exército e expulsar associados a mulheres, mas em um
os invasores. caso esse fato leva à vitória, e no
outro, à derrota. Baraque liderou 10
C. Sangar (3:31) mil homens no monteTabor, crendo
Provavelmente, Sangar liderou o na promessa de Deus transmitida
povo em uma vitória local contra por sua serva, Débora. O Senhor,
os filisteus. Ele não é chamado de quaisquer que tenham sido as fra­
juiz, embora seja citado com eles. quezas de Baraque, ainda honrou-o
Deus é capaz de usar as armas mais por sua fé. Débora, em seu cântico
loucas, mesmo "uma aguilhada de de vitória (cap. 5), bendiz ao Senhor
bois". pela disposição do povo em lutar
na batalha (vv. 2,9). Entretanto, ela
D. Débora e Baraque (caps. 4 —5) também cita o nome de algumas tri­
A nação caíra tão baixo que agora bos que foram muito covardes para
uma mulher a julgava, o que era lutar (5:16-1 7). A batalha aconteceu
humilhante para os homens naque­ "junto às águas de Megido", onde o
la sociedade predominantemente rio Quisom desliza do monte Tabor.
masculina (veja Is 3:12). Durante 20 Sísera e seu exército pensaram que
anos, Israel oprimiu os cananeus, e os carros de ferro os fariam vencer,
Deus suscitou essa profetisa a fim mas foram os carros que os levaram
de liderá-lo no caminho para a vi­ à derrota! Deus mandou uma gran­
tória. Primeiro, ela chamou Bara­ de tempestade (5:4-5 e 20-22) que
que para libertar a nação (4:1-7) e transformou a planície em um char­
até deu-lhe o plano de batalha que co, e o inimigo não pôde atacar.
Juizes 1-5 255

Nesse dia, Israel obteve uma grande difícil entender essa obra. Com
vitória, liderada por Baraque e pla­ certeza, quando as tropas de Ba­
nejada por Débora. raque pegassem Sísera, elas o ma­
Contudo, não é Baraque que tariam, pois ele era inimigo do
mata o general Sísera. Essa tarefa Senhor (5:31), não inimigo pesso­
cabe a outra mulher, Jael. Os que- al de Jael. Ela estava ajudando Is­
neus eram amigáveis com Israel (Jz rael a lutar as batalhas do Senhor.
1:16) por causa da ligação deles Duas mulheres regozijam-se em
com a família de Moisés (Jz 4:11), vitória (Débora e Jael), porém uma
mas eles também eram amigáveis (a mãe de Sísera) clama em sofri­
com Jabim, o rei cananeu. Em ge­ mento (5:28-30).
ral, na cultura oriental, um homem Em 5:6-8, observe a descrição do
não entra na tenda de uma mu­ estado lamentável da sociedade de Is­
lher, mas Jael persuadiu Jabim, o rael nessa época. O povo estava tão
fez sentir-se confortável e, depois, temeroso que se mudava das aldeias
matou-o. A "estaca" provavelmen­ para as cidades fortificadas, e era pe­
te era uma estaca de madeira usa­ rigoso viajar pelas estradas principais.
da nas tendas. Sua obra é bendita O declínio na vida social e moral da
no cântico de Débora (5:24-27), nação era uma consequência inevitá­
embora algumas pessoas achem vel do declínio espiritual dela.
I u ízes 6 - 8 "Tu és [...] tu serás..." Uo 1:42). Con­
tudo, veja a descrença de Gideão,
a causa de sua covardia, quando
Hebreus 11:32 põe Gideão no topo
questiona Deus: "Se [...] por que
da lista de juizes. Embora, às vezes,
[...] e que é feito [...] porém...?". A
ele vacilasse em sua fé, ainda era
um "homem de fé" que ousara crer seguir, ele pede que Deus lhe dê
na Palavra de Deus. Vemos como um sinal! Com certeza, essa não é
sua fé é maravilhosa ao perceber a linguagem da fé. Gideão confes­
que ele era um fazendeiro, não um sou que Deus castigara seu povo
guerreiro treinado! Nessa passagem, justamente (v. 13), mas ele não po­
traçaremos a carreira de Gideão. dia entender como o Senhor usaria
um pobre fazendeiro como ele para
libertar a nação. Deus satisfez a des­
I. Gideão, o covarde (6:1-24) crença dele com uma série de pro­
Sete anos de escravidão sob o co­ messas: "O S e n h o r é contigo"; "Li­
mando dos midianitas levou Israel vra Israel [...] não te enviei eu?"; "Já
ao seu estado de mais debilidade. que eu estou contigo" (vv. 12,14). A
Em vez de "cavalgar sobre os altos fé vem ao ouvir a Palavra de Deus
da terra" (Dt 32:13), eles cavalga­ (Rm 10:17). Gideão pediu um sinal,
vam nos antros! Não permitiam nem e Deus graciosamente deu-lhe um
mesmo que os israelitas colhessem sinal (vv. 19-24). Entretanto, esse
seus grãos, o que explica o fato de não é um bom exemplo a ser segui­
Gideão estar amassando no lagar. O do por nós. "Jeová Shalom" significa
profeta de Deus (vv. 7-10) lembra " O S en h o r é nossa paz" (vv. 23-24).
o povo de sua descrença e peca­
do; depois, o Anjo do Senhor — o II. Gideão, o contendor (6:25-32)
próprio Cristo — visitou Gideão a Uma coisa é encontrar Deus na
fim de prepará-lo para a sua vitória. discrição do lagar, mas outra bem
Lembre-se de que Deus abandona­ distinta é tomar publicamente o
ra seu povo temporariamente; ele partido do Senhor. Naquela mesma
agora trabalhava por intermédio de noite, Deus testou a dedicação de
pessoas escolhidas (2:18). Gideão ao pedir-lhe que derrubas­
Pareceu zombaria quando o se o altar de Baal que pertencia ao
Anjo chamou Gideão de "homem pai dele e construísse um altar ao
valente" (v. 12), contudo Deus ape­ S e n h o r . Além disso, ele devia sacri­
nas antecipava o que Gideão se tor­ ficar o segundo boi de propriedade
naria por meio da fé. Isso nos lem­ do pai (provavelmente reservado a
bra das palavras de Cristo a Pedro: Baal) sobre o novo altar. O testemu-
Juizes 6-8 257

nho cristão deve começar em casa. 10 mil homens restantes. Assim, ele
;Gideão obedeceu ao Senhor, porém testou-os e mandou a maioria para
tnostrou descrença ao fazer a obra casa. Os 300 homens que beberam
à noite (v. 27) e ao pedir que dez água na mão (v. 6) tinham mais con­
homens o ajudassem. Pode-se ima­ dição de enfrentar o inimigo em um
ginar o furor da vizinhança quan­ ataque-surpresa.
do, na manhã seguinte, descobriu o Na noite da batalha, Deus viu
altar destruído! Ele matou Gideão? que ainda havia temor no coração
Não! Antes, Gideão tornou-se um lí­ de Gideão (vv. 9-14) e deu-lhe gra­
der com capacidade para reunir um ciosamente um sinal especial asse­
exército a fim de prepará-lo para lu­ gurando-lhe que venceria a batalha.
tar. Deus nunca usará "santos secre­ O pão de cevada representava Gi­
tos" para vencer grandes batalhas. deão, pois a cevada era o alimento
Temos de sair em campo aberto e mais pobre que existia. Contudo, o
assumir nosso lugar, independente­ Senhor usaria esse fazendeiro co­
mente do custo. mum para conquistar uma grande
vitória!
III. Gideão, o conquistador
(6:33—8:3) B. Ele conquistou seus
inimigos (7:15-25)
A. Ele dominou seus temores Observe como Gideão transmite ao
(6:33—7:14) povo a promessa de vitória feita por
Um exército de 32 mil homens ajun­ Deus (v. 15; note o v. 9). Ele creu
tou-se ao seu lado, mas ele ainda totalmente na Palavra do Senhor.
tinha dúvidas em relação a vencer. Alcançaram essa vitória pelo po­
Como Deus é gracioso em minis­ der de Deus, pois suas armas eram
trar a seus santos frágeis! Por duas inúteis na batalha. Agora, o Espírito
vezes, Gideão pôs "uma porção de de Deus usava Gideão (6:34); veja
lã na eira", e Deus respondeu nas Zacarias 4:6 e 1 Coríntios 1:26-31.
duas vezes. No entanto, é muito Os cântaros escondiam a luz das
ruim quando o povo de Deus con­ tochas e também fariam muito ba­
fia nas circunstâncias para guiá-lo, rulho quando fossem quebrados; e,
em vez de crer na clara Palavra do certamente, esse barulho, acrescido
Senhor. Gideão não era o único que dos gritos e do soar das trombetas,
tinha medo; 22 mil soldados tam­ afugentaria o inimigo. O cântaro,
bém estavam temerosos e voltaram a tocha e a trombeta também têm
para casa (7:1-3; e veja Dt 20:8). relevância espiritual. Temos de nos
Entretanto, Deus não precisava dos purificar, ser vasos entregues para
258 Juizes 6-8

o uso de Deus (2 Tm 2:21), deixar os homens de Sucote e Penuel não


nossa luz brilhar (Mt 5:16) para que os ajudam. A atitude deles provo­
soe um testemunho claro de Cristo cou Gideão, que prometeu se vin­
(1 Ts 1:8). gar. Parece que esse é o início de
É fácil traçar os passos da vitó­ sua apostasia, pois certamente Deus
ria de Gideão: ele tem uma promes­ lidaria com esses homens rebeldes
sa na qual pode crer (6:12,14,16; da sua maneira (Rm 12:19). O exér­
7:7-9), um altar para construir (6:25- cito pegou os midianitas de surpresa
26), um cântaro para quebrar, uma quando os reis sentiam-se confian­
tocha para acender e uma trombeta tes (8:11), e Gideão, em sua marcha
para soar. E Deus deu vitória a ele! de regresso, puniu os homens de Su­
cote e Penuel com espinhos do de­
C. f/e controlou seus serto e abrolhos (8:16-17). Depois,
sentimentos (8:1-3) ele matou os dois reis que haviam
O exército original não incluía matado seus irmãos.
Efraim (6:35), contudo Manassés, Devemos sempre prestar aten­
a tribo irmã, foi convocada para a ção à tentação do pecado após
batalha. Mais tarde, Gideão cha­ conseguir uma grande vitória, pois
mou a tribo de Efraim para captu­ Satanás ataca-nos sutilmente quan­
rar dois príncipes famosos, e essa do menos esperamos. A nação pe­
tribo fez o que ele lhe pedira. Mas diu que Gideão se tornasse seu rei e
ela fora provocada! Como é fácil a estabelecesse uma dinastia, mas ele
carne agir mesmo quando Deus dá se recusou a fazer isso. "O S enho r
uma grande vitória. Gideão poderia vos dominará." No entanto, Gideão
"repreendê-la", mas, em vez de fa­ aproveitou a oportunidade para pe­
zer isso, praticou Provérbios 15:1: dir uma coisa menor — todas as ar­
"A resposta branda desvia o furor". golas deles. Esse parecia um presen­
É melhor dominar nossos sentimen­ te adequado para um grande liberta­
tos que conquistar uma cidade (Pv dor; contudo, tenha em mente que
16:32), e se Gideão ofendesse seus essas jóias de ouro se associavam à
irmãos nunca mais poderia tê-los de adoração de ídolos. Na verdade, o
volta (Pv 18:19). Líderes piedosos versículo 21 descreve ornamentos
devem saber controlar os próprios em forma de meia-lua, que estão
sentimentos. ligados à adoração da lua. Leia Gé­
nesis 35:1-4 para ver a associação
D. Gideão> o concessor (8:4-35) entre brincos e idolatria.
Gideão e seus 300 homens perse­ Gideão fez uma "estola sacer­
guem os dois reis midianitas, mas dotal" (ou imagem) idólatra com os
Juizes 6-8 259

31,7 quilos de ouro que arrecadou. Ele teve muitos filhos e filhas com
Satanás, com as argolas, conseguiu suas "muitas mulheres" (v. 30), mas
o que os midianitas não consegui- todos eles foram mortos (com ex-
,iam com a espada. É triste ver o ho­ ceção de Jotão) pelo filho da con­
mem que destruiu o altar de Baal cubina de Gideão, cujo nome era
instituir um ídolo próprio. Infeliz­ Abimeleque (v. 31; Jz 9:1-6). Além
mente, toda a nação afastou-se de disso, a nação não tratava a famí­
Deus e adorou o novo deus (v. 27). lia de Gideão, antes que todos seus
Quando Gideão morreu, a nação membros fossem mortos, com bene­
voltou imediatamente à adoração volência (v. 35). O coração pecador
de Baal (v. 33). esquece com rapidez do Senhor (v.
A história subsequente da famí­ 34) e das pessoas que lhe serviram
lia de Gideão não é encorajadora. fielmente.
J u ízes 1 3 - 1 6 ("separado"), totalmente entregue a
ele. De acordo com Números 6, o
nazireu nunca podia tomar bebida
Na BvbUa, há poucos relatos tão
forte nem tocar um cadáver; e o si­
trágicos como esse. Eis um homem
a quem Deus deu um tempo de 20 nal de sua dedicação era o cabelo,
anos para começar a conquistar "sobre cuja cabeça não passará na­
o inimigo; contudo, no fim desse valha".
tempo, ele mesmo fora conquista­ O Sansão adulto desprezou
do pelo inimigo. A história de San- toda essa herança maravilhosa! Ele,
são é uma ilustração da advertên­ em vez de pôr-se nas mãos de Deus
cia de Paulo, em 1 Coríntios 9:27, a fim de cumprir a tarefa que lhe foi
pois Sansão era um desqualificado. dada pelo Senhor, escolheu vivet
Hebreus 11:32 cita-o por sua fé na para agradar a si mesmo. Como e
Palavra de Deus; contudo, afora trágico quando Deus dá ao joverr
isso, pode-se dizer muito pouco a uma herança maravilhosa, uma
favor dele. "Aquele, pois, que pen­ grande oportunidade, e ele a trata
sa estar em pé veja que não caia" de forma leviana.
(1 Co 10:12). Observe o caminho
que levou Sansão ao pecado e a II. Ele afronta os pais (14:1-4)
um trágico fim. A forma como nos damos com nos­
sos entes queridos pode ser uma
I. Ele despreza sua herança (13) evidência de declínio espiritual,
Sansão nasceu em uma casa piedo­ "Desceu Sansão [...]" (14:1) é uma
sa, de pais que criam na oração. Ele verdade tanto sob o aspecto espiri­
era uma dádiva especial de Deus tual como geográfico. Ele, em vez
para seus pais e para a nação. Ele de ficar nos limites de Israel, foi ac
teve um pai que orou: "Nos ensine território inimigo e apaixonou-se
o que devemos fazer ao menino que por uma mulher pagã. Ele conhecia
há de nascer" (v. 8; e veja v. 12). Os as leis de separação que Deus det
pais tinham temor a Deus e tenta­ aos judeus, mas escolheu ignorá-las
ram instilar esse temor no filho. Eles (veja Êx 34:16; Dt 7:3 e 2 Co 6:14-
trouxeram ofertas para o Senhor e 1 8; e também Gn 24:1 -4). Observe
não recearam em crer nas maravi­ que ele declarou aos pais, ele nãc
lhosas promessas dele. pediu a eles. E quando eles o lem­
Deus deu a Sansão uma inves­ braram da lei de Deus, ele afron­
tidura especial do Espírito Santo que tou-os. Ele insistiu: "Toma-me esta,
o tornou um conquistador. O Senhor porque só desta me agrado". O fatc
chamou Sansão para ser um nazireu de sua vontade desagradar aos pais
Juízes 13-16 261
í-
não incomodou Sansão. Observe lhas dos filisteus", de realizar um
que, nesse exemplo, Deus, miserí- casamento mundano. O casamen­
ícordiosamente, desconsidera o pe­ to nunca se concretizou, mas a se­
cado dele e usa-o para enfraquecer mente do pecado já fora semeada
|o5 filisteus (v. 4). Os jovens cristãos no coração dele.
[precisam parar e meditar com cui-
!dado quando afrontam pais pie­ IV. Ele desconsidera a
dosos que conhecem a Palavra de advertência de Deus (15)
Deus. Esse é um capítulo de vitórias apa­
rentes, contudo termina com o "ho­
III. Ele contamina seu corpo (14:5-20) mem forte" absolutamente exaurido
Naquela época, os pais faziam os pela falta de água. Ele queimou os
arranjos para o casamento, e, entre campos dos filisteus, mas estes so­
o noivado e o casamento, havia um bem e queimam a casa da mulher
período de tempo cuja duração era que ele amava (15:6 paralelo a
de diversos meses. Apesar de San­ 14:15). Sansão vinga a morte deles,
são não caminhar totalmente na mas, seu próprio povo vira-se contra
vontade de Deus, o Senhor dá-lhe ele e entrega-o ao inimigo (vv. 11-
poder para dominar o leão quando 13). Deus liberta-o, mas o Senhor
se encontra com este. Meses mais adverte-o ao mostrar-lhe como era
tarde, Sansão, quando volta para fraco. Há apenas duas orações fei­
completar o casamento, encontra tas por Sansão: aqui, por água (vv.
mel na carcaça do leão. Núme­ 18-20) e, em 16:20, por força para
ros 6:6-9 conta-nos que o nazireu destruir os filisteus. Seus pais eram
não deve jamais tocar um cadáver, devotos, porém Sansão não seguiu
mas ele contamina-se deliberada­ o exemplo deles. Aqui, Deus adver­
mente por causa do mel! Quantos te-o, mas ele não presta atenção à
cristãos de hoje contaminam-se advertência.
apenas para desfrutar de um pouco
de mel da carcaça do leão — tal­ V. Ele brinca deliberadamente
vez seja um livro popular, um fil­ com o pecado (16)
me ou uma amizade questionável. Sansão já tivera problema com uma
É triste dizer que Sansão passou o mulher, mas agora ele tenta de novo
pecado para os pais e, depois, fez e, dessa vez, penetra no território
uma brincadeira com isso a fim de inimigo de Gaza. Deus, mais uma
entreter seus amigos! Ele, como na­ vez, adverte-o ao permitir que os
zireu e judeu, não tinha o direito inimigos quase o peguem, mas San­
de tomar por esposa "uma das fi­ são ainda se recusa a arrepender-se.
262 Juizes 13-16

Nesse momento, Dalila entra em pois os filisteus vazaram seus olhos.


sua vida e leva-o à ruína. O vale de Ele perde a liberdade, pois o amar­
Soreque ficava próximo à casa dele, ram com duas cadeias de bronze. Ele
contudo o coração de Sansão já es­ perde sua utilidade para o Senhor,
tava longe do Senhor. pois termina moendo grãos, em vez
É chocante ver esse nazireu de lutando as batalhas de Deus. Al­
dormir sobre os joelhos de uma guém disse que o versículo 21 retrata
mulher perversa, mas é isso que a cegueira, a prisão e a opressão re­
acontece quando as pessoas esco­ sultantes do pecado. E tudo isso tem
lhem desprezar os conselhos dos início quando Sansão despreza suas
entes queridos e do Senhor. Três bênçãos e afronta os pais!
vezes, Dalila instiga Sansão, e, três Sansão também perdeu seu tes­
vezes, ele mente para ela. A cada temunho, pois era motivo de diver­
vez, o inimigo atacou-o, portan­ são para os filisteus. Deram toda a
to ele deveria perceber que estava glória a Dagom, o deus deles, não
em perigo. No entanto, leia Pro­ ao Deus de Israel. Aparentemente,
vérbios 7:21-27 para saber por que Sansão arrependeu-se de seu peca­
Sansão cedia. Ele dormia quando do, pois o Senhor deu-lhe mais uma
devia estar acordado! Lembre-se da chance para agir pela fé. O cabelo
advertência de Cristo a Pedro, em dele começara a crescer de novo,
Mateus 26:40-41. Observe que, na e Sansão pede que o Senhor lhe
verdade, a cada mentira que Sansão dê força para que possa obter mais
conta, ele aproxima-se mais da ver­ uma vitória sobre o inimigo. Deus
dade. Como é perigoso brincar com responde ao pedido dele, contudo
o pecado. Sansão, para destruir os inimigos,
O resto da história mostra o tira a própria vida. Sansão, como
trágico fim do crente que não deixa Saul, era um desqualificado, pois
Deus traçar seu caminho e sua vida. pecara até a morte, e Deus tinha de
A partir do versículo 20, Sansão não tirá-lo de cena (veja 1 Co 11:30-31;
faz nada mais além de perder. Ele 1 Jo 5:16-17). Seus pais pediram seu
perde o cabelo, o símbolo nazireu corpo e sepultaram-no "entre Zorá
de sua consagração, pois abandona­ e Estaol" — o mesmo local em que
ra havia muito sua consagração. As­ iniciara seu ministério (13:25).
sim, ele perde sua força, mas ignora Sansão retrata as pessoas que
o fato até ser dominado. Como é vã a têm poder para dominar os outros,
tentativa do servo de Deus de servir- mas não conseguem dominar a si
lhe em desacordo com a vontade do mesmas. Ele pôs fogo nos campos dos
Senhor. A seguir, Sansão perde a luz, filisteus, mas não conseguiu controlar
Juizes 13-16 263

o fogo da própria luxúria. Ele matou Faltaram-lhe a disciplina e a direção,


|am leão, mas não pôde matar as pai­ sem as quais sua força pouca coi­
xões da carne. Ele quebrou com fa­ sa poderia realizar. Ele fracassou em
cilidade as correntes com que os ho- examinar os impulsos que se manifes­
ns o prenderam, mas os grilhões taram logo no início de sua carreira,

E pecado, gradualmente, prenderam os quais o mataram.


n mais força sua alma. Ele preferiu A tarefa de finalmente derro­
ikabalhar sozinho, em vez de liderartar os filisteus ficou para Samuel e
a nação, e, como resultado disso, Davi, em anos posteriores. Samuel,
«ião deixou uma vitória permanente com uma oração, realizou mais que
en seu rastro. Ele é lembrado pelo Sansão em 20 anos de luta (veja
que destruiu, não pelo que construiu. 1 Sm 7:9-14).
R ute

Esboço

| .0 pesar de Rute (1)


A. A decisão errada de Noemi (1:1 -5)
B. O conselho errado de Noemi (1:6-18)
C. A atitude errada de Noemi (1:19-22)

|L O serviço de Rute (2)


A. Deus guia Rute (2:1-3)
B. Boaz demonstra bondade para com Rute (2:4-16)
C. Noemi encoraja Rute (2:17-23)

Hl. A entrega de Rute (3)


A. Ela segue o conselho de Noemi (3:1-5)
B. Ela submete-se a Boaz (3:6-13)
C. Ela espera Boaz tomar a decisão (3:14-18)

IV. A gratificação de Rute (4)


A. Boaz resgata Rute (4:1-12)
B. Boaz casa-se com Rute (4:13)
C. Boaz e Rute.têm um filho (4:14-21)
N o t a s in t r o d u t ó r ia s II. Teologia
Ao mesmo tempo que o objetivo
desse pequeno livro é traçar a as­
cendência do rei Davi, encontra­
mos muitas verdades espirituais
nessa história. Rute era de Moabe,
I. Histórico e os moabitas foram expulsos da
É difícil crer que os eventos desse nação de Israel (Dt 23:3). No en­
livro aconteceram na mesma épo­ tanto, ela foi aceita porque cria no
ca de Juizes, ocasião em que Israel Deus de Israel, um retrato da graça
era uma nação dividida e derrota­ de Deus em relação aos gentios (Ef
da. Contudo, nos piores momentos, 2:11-22). Boaz, o parente resga-
Deus revela seu amor e ainda ope­ tador, é um símbolo de nosso Se­
ra a favor daqueles que o temem e nhor Jesus Cristo que pagou o pre­
crêem nele. Hoje, vivemos em uma ço da nossa redenção e tomou-nos
época em que não há "rei em Isra­ como sua noiva. O parente próxi­
el" (Jz 17:6; 18:1; 19:1; 21:25), pois mo desconhecido estava relutante
os judeus rejeitaram seu rei, contu­ em arriscar sua herança por causa
do acontece uma bonita história de de Rute, contudo Boaz amava tan­
amor neste mundo: Deus está to­ to Rute que a tomou para que fi­
mando uma Noiva para seu Filho. zesse parte de sua herança! A gra­
O livro de Rute é uma história de ça e a orientação providencial de
colheita, quando o "Senhor da sea­ Deus são os temas centrais dessa
ra" junta seus feixes (jo 4:31-38). história.
Não temos certeza sobre em Rute torna-se uma ancestral do
que ponto do relato de Juizes en­ Messias (Mt 1:5) e de Davi, por meio
caixa-se a história de Rute. É pos­ de cuja linhagem o Messias foi pro­
sível que a devastação provocada metido (2 Sm 7). Rute, como Raabe
por um dos exércitos invasores, Qs 2; 6; Hb 11:31), era uma gentia
que Deus usou para disciplinar seu que se casou com um judeu e tor­
povo, tenha causado a fome. Devia nou-se parte da "história da salva­
haver paz entre Judá e Moabe, ou ção" (Mt 1:5). Esse livro é pequeno,
Elimeleque e sua família não con­ mas a história que conta faz parte
seguiriam mudar para lá. Durante da maior história já contada.
o período de Juizes, é possível que
houvesse paz em uma parte da ter­ III. Lições práticas
ra enquanto havia problema em Podemos aprender muitas lições
outra parte. com esse magnífico livro:
Notas introdutórias 267

(1) Não importa quão difícil nossos erros. Deus usou Rute para
seja a situação, se entregarmo-nos acabar com o desespero de Noemi
ao Senhor e lhe obedecermos, ele e introduzi-la em sua bênção.
nos ajudará. (5) Para Deus, não há "decisões
(2) Ninguém está fora do al­ pequenas". A decisão de Rute de
cance da graça de Deus de forma apanhar espigas no campo levou-a
que não possa ser salvo. Rute ti­ a se tornar ancestral do rei Davi e
nha tudo contra ela, mas o Senhor do Messias. Leia Salmos 37:3-7 e
salvou-a! veja como isso se cumpre na expe­
(3) Deus guia de forma provi­ riência de Rute.
dencial as pessoas que lhe obede­ (6) É sábio esperar no Senhor
cem e servem aos outros. Por causa e deixá-lo operar seus propósitos
da preocupação de Rute para com amorosos. "Aquele que crer não
Noemi, Deus guiou-a e deu-lhe foge" (Is 28:16). Depois de fazermos
uma vida de felicidade. tudo que pudermos, devemos con­
(4) Não há benefício em ficar fiar no Senhor para fazer o resto, e
com raiva de Deus e culpá-lo por ele nunca nos faltará.
R u te 1-4 l »• O pesar de Rute (1)

A. A decisão errada (vv. 1-5)


Não sabemos por que havia fome
Esse é o oitavo livro do Antigo Tes­ em Belém ("casa de pão"). Prova­
tamento, e oito é o número do velmente isso acontecia por causa
novo início. Os eventos de Rute dos pecados do povo. Elimeleque
acontecem na época de Juizes, mas ("Deus é Rei") e Noemi ("agradá­
que diferença há entre esses dois li­vel") levaram os dois filhos para a
vros! Em Rute, encontramos bran­ terra de Moabe, em vez de confiar
dura, amor e sacrifício, em vez de em Deus na terra deles mesmos.
violência e desobediência à Lei. É Abraão cometeu um erro seme­
bom saber que mesmo em épocas lhante quando foi para o Egito (Gn
ruins ainda há pessoas boas, e que 12:1 Oss). É melhor passar fome em
Deus continua a operar nos "qua­ conformidade com a vontade de
tro cantos da terra", embora a vio­ Deus que comer o pão do inimigo!
lência ocupe os noticiários. Rute e Eles planejavam "habitar" por pou­
Ester são os únicos livros do Antigo co tempo em Moabe, mas "ficaram"
Testamento que recebem nome de até morrerem o pai e os dois filhos.
mulheres. Rute era uma gentia que O nome dos filhos reflete a prova­
se casou com um judeu. Ester era ção da estada deles em Moabe: Ma-
uma judia que se casou com um lom significa "doentio", e Quiliom
gentio. Contudo, Deus usou as duas significa "desperdício". "O pendor
para salvar a nação. O livro de Rute da carne dá para a morte" (Rm 8:6).
localiza-se entre Juizes e Samuel Os judeus não deviam se misturar
por um motivo claro. Juizes apre­ com os moabitas (Dt 23:3). Assim,
senta o declínio da nação judaica; a decisão errada deles trouxe-lhes a
Samuel, o estabelecimento do rei­ disciplina de Deus.
no judaico; e Rute retrata Cristo e
sua noiva. Na presente era, em que B.A orientação errada (vv. 6-18)
Israel é posta de lado, Cristo cha­ A apóstata Noemi deseja voltar para
ma sua noiva dentre os gentios e os Judá, mas não é sábia em convidar
suas noras para acompanhá-la! Tome
judeus. Como veremos, esse livro
cuidado com a advertência sobre os
conciso tem um sentido simbólico
cristãos carnais. Imagine, Noemi
magnífico. É uma história de amor
manda essas mulheres de volta a
e de colheita, e é isso que Deus faz
seus ídolos pagãos! Ela pensava que
em nosso mundo hoje.
os únicos interesses delas (como os
Rute 1-4 269

que ela mesma nutria) eram carnais, a face com o homem que o Senhor
mas Rute tinha anseios mais altos escolheu para resgatá-la e casar-se
que pão e casamento. Orfa retornou com ela! "Estando no caminho, o
a sua vida antiga, mas Rute "se ape­ S e n h o r me guiou" (Gn 24:27). Deus
gou a ela". Ela queria seguir o Deus não abençoa nem orienta pessoas
verdadeiro, Jeová, e abandonar a preguiçosas. Os que fazem a tare­
antiga vida pagã. Ela tomou uma fa que têm à mão encontram sua
decisão firme: "Aonde quer que fo­ orientação. Boaz protege Rute e
res, irei eu", apesar da orientação provê para ela muito antes de casar-
mais materialista, não espiritual, de se com essa moabita, um retrato
Noemi. perfeito de nosso Senhor. Tudo isso
vem da graça de Deus (v. 2): favo-
G O estado de espírito errado recimento (v. 13) e benevolência (v.
(w. 19-22) 20). É bom ver Noemi perder sua
O retorno delas comoveu a cidade, amargura. Deus estava usando a
pois Noemi mudara muito. Nota­ gentia Rute para restituir Noemi a
mos aqui um espírito amargo em sua bênção de novo, da mesma for­
relação ao Senhor? Ela culpa Deus ma que ele está salvando os gentios
por suas provações? Com certeza, hoje e, um dia, restituirá Israel a seu
esses versículos advertem o apóstata lugar de bênção.
do alto custo que acarreta contrariar
a vontade de Deus. "Chamai-me III. A entrega de Rute (3)
Mara" — "amargura"! Veremos que Em Moabe, Noemi dissera a Rute
Deus usa Rute para mudar as atitu­ que ela encontraria felicidade em
des de sua sogra em relação à vida meio ao seu povo (1:9), mas ago­
e a Deus. ra Noemi percebe que há felici­
dade apenas em meio ao povo de
II. O serviço de Rute (2) Deus e na vontade dele. Chega o
A colheita da cevada era em abril, momento de Rute apresentar suas
e Rute entra na colheita como uma reivindicações a Boaz e dar-lhe a
apanhadora pobre; veja Deutero- oportunidade de ser seu resgatador.
nômio 24:19-22 e Levítico 19:9ss. A Lei do Antigo Testamento permi­
Observe a dedicação e a determina­ te que um parente próximo compre
ção dela: "Deixa-me ir ao campo" de volta uma propriedade que fora
(v. 2); "Deixa-me rebuscar espigas e perdida em virtude da pobreza (Lv
ajuntá-las" (v. 7); "Tu me favoreces" 25:23-55). Isso mantém a posse da
(v. 13). Deus orienta-a na escolha do terra com o próprio povo. É claro
campo a fim de que ela fique face que o parente próximo tem de estar
270 Rute 1-4

disposto e ter disponibilidade para da propriedade; portanto, no dia


resgatar. Rute seguiu o costume seguinte, Boaz abordou-o. O ho­
da época e apresentou seu caso a mem estava ansioso por reivindicar
Boaz: se ele resgatasse a proprie­ a terra, porém ele não queria Rute!
dade de seu marido morto tam­ "Nesse caso não poderei resgatá-
bém deveria casar-se com Rute, a la, pois poria em risco a minha pro­
viúva. Com frequência, os homens priedade" (NVI). Que coisa magní­
dormiam na eira para proteger o fica que Cristo estivesse disposto
cereal. "Estende a tua capa sobre a tornar-nos parte de sua herança
a tua serva" (v. 9), essa era a de­ e a requerer-nos como sua noiva!
claração legal de Rute para Boaz, Como seu amor por nós é abne­
em que lhe pedia que fosse seu gado! O resgatador desconhecido
resgatador e a reivindicasse como sabia que qualquer filho que Rute
esposa. Com certeza, ela precisou tivesse teria o nome de seu primei­
de fé e de coragem para dar esse ro marido, não o seu (v. 5), e, dessa
passo. Boaz alegrou-se por essa forma, ele perderia a propriedade
jovem não o rejeitar por causa de que o filho herdaria. Do ponto de
sua idade e prometeu que, no dia vista dele, esse era "um acordo de
seguinte, cumpriria a obrigação de negócio ruim"; com certeza, ele
resgatador. Observe que ele não a não amava Rute. Boaz estava dis­
manda embora de mãos vazias! posto a pagar qualquer preço para
Vemos nos atos de Rute uma bela resgatar a mulher e sua proprieda­
imagem do relacionamento do crente de simplesmente porque a amava.
com Cristo. Certamente, se queremos Que bela imagem de Cristo e de
ter um relacionamento com Cristo, seu amor pela igreja!
precisamos ser lavados, ungidos (o Es­ Agora, descobrimos a rele­
pírito Santo) e vestidos (v. 3). O lugar vância desse livro: Rute torna-se
adequado para nós é aos pés dele. É uma ancestral de Davi. Deuteronô­
"noite" agora, contudo comungamos mio 23:3 expulsa um moabita da
com ele até que a manhã venha (v. 13), congregação de Israel até a "déci­
e ele requeira a noiva para si mesmo! ma geração", contudo a graça de
Como resultado de nossa comunhão Deus aceita Rute, a moabita, como
com ele, temos alimento para compar­ membro da família terrena que deu
tilhar com os outros (w. 15-17). Cristo ao mundo (Mt 1:3-6; e note a
menção a Tamar e Bate-Seba, uma
IV. A gratificação de Rute (4) prova adicional da graça de Deus).
Havia outro homem em Belém que Esse livro inicia-se com um
tinha prioridade; na reivindicação sepultamento e termina com um
Rute 1-4 271

casamento. Abre com fome e en­ B. Típica


cerra com abundância! O amor de Com certeza, Boaz retrata Cristo,
Rute pela sogra e sua disposição nosso Resgatador. Cristo tomou so­
em obedecer à Palavra trazem-lhe bre si nossa carne (sem pecado, é
alegria e bênção. A decisão que to­ claro) a fim de poder resgatar-nos.
mou no capítulo 1 foi determinante Ele pagou o preço e o fez porque
em seu futuro. Não ouviríamos fa­ nos ama. Ele, o "Senhor da seara",
lar dela se ela tivesse retornado à como Boaz, supre nossas necessi­
antiga vida pagã. No encerramento dades, resgata a herança para nós e
do livro, observe algumas lições es­ dá-nos descanso.
peciais:
C. Prática
A. Profética A apostasia é um assunto sério; ela
O capítulo 1 apresenta Israel dis­ custou o marido e os filhos a Noe­
tante da vontade de Deus e so­ mi. Não importa quão difíceis sejam
frendo o castigo dele. Contudo, o as circunstâncias, o único lugar para
Senhor começa a lidar com uma o povo de Deus é na vontade dele.
gentia (Rute), da mesma forma que Pagamos um preço alto quando pro­
hoje ele chama, dentre os gentios, curamos nossa satisfação no mun­
um povo para seu nome (At 15:14). do. Entretanto, Deus está disposto
A bênção de Noemi vem antes a perdoar os apóstatas e restituí-los
do casamento de Rute, da mesma à sua proteção. Noemi não poderia
forma que Israel será restaurado e jamais reaver o tempo perdido fora
abençoado antes da união de Cris­ da vontade de Deus, mas pôde rea­
to e sua igreja. ver sua alegria e testemunho.
III. Os livros de Samuel
Esses livros registram a transição do
L iv r o s H is t ó r ic o s período dos juizes para a época de es­
tabelecimento da monarquia. Samuel
Notas introdutórias foi o último juiz e o primeiro profeta
nacional. Ele ungiu Saul, o primeiro
I. Tema rei, e depois Davi, sucessor de Saul.
Samuel, Reis e Crónicas são livros Pode-se fazer um esboço dos dois li­
históricos que registram o estabele­ vros juntos como mostramos a seguir:
cimento da monarquia, seus anos
de vitória e de derrota e o fim de um A. Samuel (1 Sm 1—7)
reino dividido. Quando lemos esses 1. Nascimento e infância (1-3)
livros, destaca-se uma lição: "A jus­ 2. Início do ministério (4-7)
tiça exalta as nações, mas o pecado
é o opróbrio dos povos" (Pv 14:34). B. Saul (1 Sm 8-15)
Sempre que a nação exalta a Deus, 1. Torna-se rei (8-10)
o Senhor exalta a nação; contudo, 2. Vitórias anteriores (11-12)
quando os governantes, os profetas 3. Pecados e rejeição (13-15)
e o povo afastam-se da Lei, Deus re­
move sua bênção. C. Davi (1 Sm 16-2 Sm 24)
Vemos essa verdade não ape­ 1. O pastor (1 Sm 16-17)
nas na história da nação em conjun­ 2. O servo (1 Sm 18-19)
to, mas na vida pessoal dos líderes. 3. O exílio (1 Sm 20-31)
Davi e Salomão desobedeceram a 4. O rei (2 Sm 1-24)
Deus e pagaram caro em sua família a. Seus triunfos (2 Sm 1-12)
e vida pessoal. b. Suas provações
(2 Sm 13-24)
II. Os profetas i. Pecado pessoal (11-12)
Em um período de declínio espiritu­ ii. Pecado de Amnom (13)
al, Deus enviou seus profetas para iii. Pecado deAbsalão
despertar o povo. Nesses livros, há (14-18)
diversos "profetas anónimos"’, como iv. Inquietação nacional
também servos de Deus famosos (19-24)
como Elias, Eliseu, Isaías, Joel, Amós,
Jonas e Mica. Certifique-se de estu­ IV. Os livros de Reis
dar seu dicionário, ou manual, bíbli­ Como o nome indica, esses livros
co para ver os paralelos entre a vida lidam com os reis da nação. Ini­
dos profetas e a história da nação. ciam-se com o glorioso reinado de
274 Livros históricos 274

Salomão e terminam com a trágica 20). Deus, não fosse por sua aliança
escravização de Judá pela Babiló­ com Davi e sua promessa de manter
nia. Podemos esboçar esses livros os descendentes de Davi no trono
conforme mostramos a seguir: de Jerusalém, teria destruído a na­
ção há muito tempo. Jesus Cristo, o
A. O reino unido (1 Rs 1—11) "Filho de Davi" (Mt 1:1), que estabe­
1. A riqueza e a sabedoria de lecerá o trono de Davi (Lc 1:26-33) e
Salomão (1—4) 0 governo de Jerusalém, é o cumpri­
2. O templo de Salomão (5—9) mento supremo dessa promessa.
3. Os pecados de Salomão No esboço de 1 e 2 Samuel e de
( 10— 11) 1 e 2 Reis, cobrimos muito da histó­
ria de Saul, de Davi, de Salomão e
B. O reino dividido (1 Rs 12—22) dos reis importantes. Em 1 e 2 Cróni­
1. Reboão e Jeroboão (12—14) cas, focaremos o material encontra­
2. Uma série de reis bons e do exclusivamente nesses livros. Os
maus (15—16) novos eventos apresentados nesses
3. Elias e o rei Acabe (17—22) dois livros são paralelos a Samuel e
a Reis e os complementam. Por essa
C. O reino cativo (2 Rs 1—25) razão, focaremos o material exclusi­
1. O cativeiro de Israel (1—17) vo de 1 e 2 Crónicas.
2. O cativeiro de Judá (18—25)
I. Genealogia de Adão ao rei Saul
V. Os livros de Crónicas (1 Cr 1—9)
Primeiro e Segundo Reis foram es­
critos antes do cativeiro de Judá e II. O reinado do rei Davi (1 Cr 10—29)
parecem enfatizar o ponto de vista A. A morte do rei Saul (10)
de um profeta, enquanto 1 e 2 Cró­ B. Davi consolida seu reinado
nicas foram escritos depois do cati­ (11—16)
veiro (1 Cr 6:15) e parecem apresen­ C. A aliança de Deus com Davi
tar o ponto de vista de um sacerdote. (17)
Esses livros lembram-nos de que "a D. Davi expande o reino (18-20)
justiça exalta as nações, mas o pe­ E. Davi faz o censo (21)
cado é o opróbrio dos povos" (Pv F. Davi prepara a construção
14:34). O pecado tinha uma trata­ do templo (22—29) (A morte
mento especial para os judeus, por­ de Davi)
que eles eram o povo de Deus, e o
Senhor chamou-os graciosamente III. O reinado de Salomão
para uma vida de santidade (Êx 19— (2 Cr 1—9)
Livros históricos 275

A. Salomão recebe a bênção de C. O reinado de Josafá (17—20)


Deus (1) D. DeJeorão a Amazias (21—25)
B. Salomão constrói e consagra o E. O reinado de Uzias (26)
templo (2—7) F. Os reinados de Jotão e Acaz
C. A fama e o esplendor de Salo­ (27—28)
mão (8—9) G. O reinado de Ezequias (29—32)
H.Os reinados de Manassés e
IV. O reino dividido (Os reis de Judá) Amom (33)
(10—36) I. O reinado de Josias (34—35)
A. O reinado de Reboão (10—12) J. Os últimos reis e a queda de
B. De Abias a Asa (13— 16) Judá (36)
1 Sam uel 1 - 3 provou sua espiritualidade ao ofe­
recer de boa vontade a Deus o que
tinha de melhor — seu primogéni­
Nesses capítulos iniciais do livro, os to. O versículo 21 sugere que seu
eventos centram-se em três pessoas. marido concordou com o voto; veja
também Números 30:6-16. Núme­
ros 6 fornece a regulamentação so­
bre o nazireado. Com certeza, Eli, o
sumo sacerdote, julgou Ana com se­
I. Ana — uma mãe piedosa (1:1—2:11) veridade (Mt 7:1-5), principalmente
porque seus filhos eram "filhos de
A. Sua dor (1:1-10) Belial [Satanás]" (veja 2:12).
Embora, desde o início, o padrão per­
feito de Deus para a família fosse um C. Sua entrega (1:20-28)
marido e uma esposa, "por causa da Deus respondeu às orações de Ana
dureza do [...] coração" (Mt 19:8) dos e enviou-lhe um filho. Assim, ela
homens, Deus permitiu a poligamia. deu-lhe o nome de Samuel, "do S e­
Veja Deuteronômio 21:15-17. Elcana n h o r o pedi". As mulheres judias

era um homem piedoso, porém tinha desmamavam seus filhos quando


uma casa dividida, e sua esposa favo­ tinham cerca de 3 anos; nessa data,
rita, Ana ("graça"), carregava um far­ Ana levou Samuel para Eli e cum­
do constante de dor por causa de sua priu o voto que fez ao Senhor. Pro­
esterilidade e da perseguição da outra vavelmente, o novilho, a farinha e o
esposa de Elcana. vinho eram para a oferta pelo peca­
do, a oferta queimada e a oferta es­
B. Sua súplica (1:11-19) pecial para o voto de nazireu; veja
Ana era uma mulher de oração, Números 15:8. "Por este menino
portanto não é de surpreender que orava eu." Que testemunho de uma
seu filho, Samuel, fosse um grande mãe piedosa! Veja 2 Timóteo 1:5. Se
homem de oração. O coração de tivéssemos mais pais como Elcana e
Ana estava tão triste que ela deixou Ana, teríamos mais pessoas piedo­
a festa sem comer e foi orar no ta­ sas como Samuel. "Devolvido" sig­
bernáculo. (Em 1:9, a palavra "tem­ nifica "dado"; Samuel pertencia ao
plo" significa apenas um "grande Senhor pelo resto de sua vida.
edifício público", e não se refere
ao templo de Salomão, que ainda D. Seu filho (2:1-11)
não fora construído.) Ana não "ne­ Enquanto Elcana adorava (1:28),
gociou" com o Senhor; antes, ela sua esposa orava e louvava a Deus.
278 1 Samuel 1-3

Compare essa passagem com o cân­ Deus interferiria e acabaria com


tico de Maria, em Lucas 1:46-55. aquela zombaria.
Nos dois casos, as mulheres louvam
a Deus peia vitória dele e por honrar B. A desobediência egoísta (vv. 22-26)
as orações dos humildes. Em 2:10, Eli recusava-se a enfrentar os fatos
observe os dois nomes de Cristo — com honestidade e a obedecer à
"seu rei" e "seu ungido" (Messias, Palavra de Deus; veja Deuteronô-
Cristo) —, pois o fardo de Ana era mio 21:18-21 e 17:12. Em 3:13,
para a glória do Senhor entre seu Deus afirma com clareza que Eli se
povo. Com certeza, Ana exemplifica recusou a repreender os filhos e, em
a mãe piedosa, pois ela põe Cristo vez disso, acostumou-os mal. No
em primeiro lugar; e como ela acre­ versículo 2:23-25, a admoestação
ditava na oração, guarda seus votos amena que faz aos filhos não subs­
e dá a Deus toda a glória. titui, com certeza, a disciplina efeti-
va. Compare 2:26 com Lucas 2:52.
II. Eli — um pai negligente (2:12-36)
C. O julgamento severo (vv. 27-36)
A. Os filhos pecadores (vv. 12-21) Deus, em sua graça, envia, por in­
E trágico quando um servo do Se­ termédio de um homem do Senhor
nhor (nesse caso, um sumo sacer­ desconhecido, uma mensagem se­
dote) não consegue trazer os pró­ vera a Eli, advertindo-o de que sua
prios filhos em sujeição a Deus! família sofreria por causa dos peca­
Os filhos de Eli eram egoístas, pois dos de seus filhos e da negligência
punham os próprios desejos antes do próprio Eli. Ele honrava os filhos
da Palavra do Senhor e das neces­ mais que ao Senhor (v. 29), e isso era
sidades das pessoas; eles eram do­ idolatria. Eli não fora zeloso para a
minadores e concupiscentes (2:22). glória do Senhor, portanto Deus tinha
Filipenses 3:1 7-19 descreve com de removê-lo. Em anos posteriores,
perfeição os sacerdotes ímpios. E, Saul matou muitos descendentes de
nesse texto do Novo Testamento, Eli (1 Sm 22:17-20), e, depois, Salo­
observe a repetição da palavra car­ mão substituiu a família de Eli pela de
ne. Em 1 Samuel 18, note também Zadoque (1 Rs 2:26-27,35). Obvia­
o contraste entre os filhos de Eli e mente, o versículo 35, quando cita o
o jovem Samuel: "Porém Samuel "sacerdote fiel", refere-se diretamente
[...]" (ARC). Não há dúvida de que a Samuel, mas, em última instância, a
os filhos de Eli riam do jovem Sa­ Cristo. O versículo 34 prevê a morte de
muel e o ridicularizavam por cau­ dois filhos de Eli; para constatar o cum­
sa de seu ministério fiel, mas logo primento da previsão, veja 4:17-18.
1 Samuel 1-3 279

III. Samuel — um filho devotado (3) coração de Samuel. Ele amava Eli e
aprendera muito com ele, mas Sa­
A. O chamado do Senhor (vv. 1-10) muel sabia que tinha de ser verda­
A tradição afirma que, nessa épo­ deiro em relação ao Senhor, apesar
ca, Samuel tinha cerca de 12 anos. de seus desejos pessoais.
Ele cresceu na presença do Senhor
e aprendeu a servir em seu taber­ C. A mensagem para Eli (vv. 15-21)
náculo, contudo não tivera uma ex­ Essa tremenda experiência não im­
periência pessoal com o Senhor (v. pediu Samuel decumprirsuastarefas
7). É importante que as pessoas que diárias na manhã seguinte. Ele não
crescem em casas cristãs tomem a "desfilou" diante do povo; não, ele
decisão de seguir a Cristo no âmbi­ caminhava em grande humildade,
to pessoal. Samuel encheu de óleo carregando em seu coração o encar­
o lampião. O dia estava para rom­ go do Senhor. Da mesma forma que
per, e a lâmpada quase se apagan­ disse ao Senhor: "Eis-me aqui!", ele
do. Samuel dormia, e Deus cha- respondeu: "Eis-me aqui!", quando
mou-o. De início, ele pensou que Eli o chamou. Os que honram ao
o cego Eli precisava de sua ajuda, Senhor, também honram aos anci­
de modo que correu até ele. (Veja ãos. Samuel preferia guardar a triste
como esse menino era rápido em mensagem em seu coração, mas Eli
obedecer quando era chamado.) O pediu-lhe que lhe contasse tudo, e
versículo 10 registra a conversa de ele fez isso. Ao mesmo tempo que
Samuel: "Fala, porque o teu servo não admiramos o fracasso de Eli
ouve". Posteriormente, Deus pode­ com a família, temos de admirar sua
ria até dizer a Samuel: "Fala servo, resignação à vontade de Deus, em­
pois seu Senhor ouve!". Pois Sa­ bora isso representasse a morte para
muel tornou-se um grande homem ele e seus filhos.
de oração. Esse acontecimento foi um
ponto de virada na história. Até
B. A mensagem do Senhor (w. 11-14) aquele momento, Deus não falava
A pessoa que se entrega ao Senhor e com as pessoas por meio de visões
está disposta a ouvir, sempre apren­ frequentes ou "claras" (v. 1), mas
de a vontade de Deus. Eli desobe­ agora todos sabiam que Samuel
deceu a Deus e pôs a família em era um profeta de Deus, e que o
primeiro lugar, portanto Deus não Senhor estava com ele. Agora, o
podia falar diretamente com ele. A Senhor podia aparecer de novo,
mensagem era o julgamento da casa pois sabia que havia um servo em
de Eli e deve ter pesado muito ao quem podia confiar. Com certeza,
280 1 Samuel 1-3

mesmo hoje, o Senhor faria mais respondeu às orações deles. Hoje,


por seu povo se encontrasse cren­ somos abençoados pela dedicação
tes devotos dispostos a serem ser­ de Ana, pois, por intermédio dela,
vos dele. o Senhor deu Samuel ao mundo, o
Nesses capítulos, há diversas último juiz e o primeiro profeta na­
lições práticas: cional.
1. Nunca subestime o poder do 3. Deus faia com crianças e
pecado em uma família. Os filhos jovens, e os adultos devem tornar
de tVi precisavam de disdpUna, mas mais fácU para e\es o ouvir à voz
ele, em vez de fazer isso, acostu­ do Senhor e o responder pela fé.
mou-os mal. Essa atitude custou-lhe Como Eli foi sábio em saber que
a vida, e, por fim, custou o sacerdó­ o Senhor chamava o jovem Sa­
cio à família. muel! O treinamento das crianças
2. Nunca subestime o poder da em coisas espirituais é uma grande
oração em uma família. Ana e Elca- responsabilidade, e não devemos
na eram pessoas de oração, e Deus negligenciá-la.
1 Sam uel 4 - 7 po de batalha, eles se comportariam
como soldados fortes e varonis! Os
filisteus venceram com facilidade,
Esses capítulos relatam três grandes
já que Deus abandonara seu povo.
eventos da história de Israel.
Salmos 78:56ss é uma descrição ví­
vida dessa tragédia. Israel devia sa­
ber que a presença do Senhor com
ele dependia da obediência à sua
Palavra. Hofni e Finéias eram sacer­
I. A glória de Deus se ausenta (4) dotes ímpios. A presença deles tra­
zia julgamento, não bênção.
A. O grande pecado (vv. 1-5)
Na primeira batalha, Israel perdeu 4 C. O grande pesar (vv. 11-22)
mil homens, e isso, para ele, devia Eli, o sacerdote cego de 98 anos, es­
evidenciar o desgosto de Deus. Os tava sentado "em uma cadeira ao pé
israelitas arrependeram-se e volta- do caminho", quando o mensageiro
ram-se para o Senhor em oração e chegou a Siló com as tristes novas,
confissão? Não! Em vez disso, recor­ mas o mensageiro passou direto por
reram à superstição e trouxeram a ele e anunciou sua mensagem à ci­
arca da aliança para o campo de ba­ dade. O barulho na cidade desper­
talha. Eles não podiam pegar a arca tou a curiosidade de Eli, pois, sem
pela fé, pois Deus não ordenara isso dúvida, ele esperava o cumprimen­
a eles por meio da sua Palavra. Eles to da profecia de Samuel (3:11-14;
agiam de forma casual, não pela 2:34-35). Observe como o mensa­
fé. Eles acharam que a presença da geiro transmite as quatro partes das
arca garantia-lhes vitória sobre os más novas por ordem de importân­
filisteus, porque a arca fora à frente cia: Israel fugiu; houve grande mor­
da nação no deserto e marchara em ticínio; os dois filhos de Eli foram
vitória em volta de Jericó. Em vez mortos; e os inimigos levaram a
de reverenciarem a arca como o arca. O versículo 13 diz-nos que a
símbolo da presença de Deus, eles maior preocupação de Eli era com
transformaram-na em uma relíquia a segurança da arca. Agora vemos
religiosa! Veja Números 10:35ss. pesar sobre pesar: Eli, em estado
de choque, cai, quebra o pesco­
B. O grande massacre (vv. 6-10) ço e morre; da mesma forma, sua
De início, os filisteus ficaram com nora morre ao dar à luz um filho. O
medo; depois, determinados. Embo­ nome "Icabô" significa "Sem glória"
ra o Deus de Israel estivesse no cam­ ou "Onde está a glória?". Veja Êxo-
282 1 Samuel 4-7

do 40:34ss. No versículo 21, pode­ tirassem de lá! Mais uma vez, Deus
mos traduzir "foi-se" por "ir para o defendeu seu nome.
desterro". A história de Israel é um
relato sobre o receber e o perder a B. Diante dos israelitas (cap. 6)
glória de Deus. Os filisteus decidiram levar a arca
de volta a Israel, mas ninguém tinha
II. A defesa do nome de Deus (5—6) coragem para encarregar-se da tare­
fa. Por fim, eles decidiram colocar a
A. Diante do pagão (cap. 5) arca sobre um carro novo e deixar
Deus não revela seu poder em favor que as vacas seguissem pela estra­
de seu povo pecador, mas não per­ da por conta própria. Seria natural
mite que zombem de sua glória ou que as vacas procurassem seus be­
que seu nome seja corrompido por zerros (v. 10), mas, se elas fossem
um inimigo malicioso. Os príncipes direto para Bete-Semes, ficaria evi­
dos filisteus puseram a arca junto dente que Deus as guiava, e, além
com as outras relíquias religiosas disso, que fora ele quem enviara as
deles em seu templo pagão, ou seja, pragas. Os filisteus também incluí­
puseram Jeová no mesmo patamar ram uma oferta pelo pecado: cinco
de Dagom. É claro que Deus perma­ imagens dos tumores e cinco ima­
nece no alto, acima de todos os ou­ gens dos ratos. Deus guiou as vacas,
tros deuses! Não é de admirar que o e elas levaram o carro para o campo
ídolo pagão tenha caído com a face de Josué, habitante de Bete-Semes.
sobre a terra diante da arca! Veja Os israelitas que faziam a sega do
Isaías 19:1. Os homens puseram trigo alegraram-se com o retorno da
Dagom de volta em seu lugar, pois arca. Entretanto, ficaram curiosos e
ele não tinha poder para se ajudar; olharam dentro da arca (vv. 19-20),
mas, no dia seguinte, eles encontra­ e Deus julgou-os. No versículo 19,
ram seu ídolo amado sem as mãos e o número de feridos passou a repre­
a cabeça! Jeová provou que Dagom sentar um problema, pois não havia
era um falso deus, ele vindicara 50 mil pessoas naquele pequeno vi­
seu nome. Dagom perdeu as mãos, larejo. Em hebraico, as letras repre­
mas a mão do Senhor foi dura no sentam números, e é fácil um escri­
julgamento de Asdobe (v. 6). Deus ba copiar, ou ler, errado uma letra.
mandou "tumores" (inchaços) e "ra­ Provavelmente, setenta homens fo­
tos" (6:4) para ferir o povo. Os ratos ram julgados no mesmo momento,
destruíam os cereais e infectavam o com certeza um "grande morticí­
povo. Depois, levaram a arca para nio" para um vilarejo tão pequeno.
Ecrom, mas o povo implorou que a Esse problema referente ao número
1 Samuel 4-7 283

de feridos não afeta nada crucial. piedosos. Baalins e astarotes eram


O importante é que saibamos que deidades masculinas e femininas. A
Deus julgou o pecado deles. O nú­ adoração delas era celebrada com
mero de mortos não é um assunto cerimónias abomináveis, repletas
de vital importância. de depravações.
Hofni e Finéias pensavam que Samuel convocou a nação a
podiam vencer ao confiar na arca, Mispa para um encontro de ora­
mas levavam uma vida pecaminosa, ção! Associa-se sempre Samuel à
e Deus matou-os. Eli morreu por­ oração; veja 12:23. Ele nasceu em
que não disciplinara os filhos que resposta à oração de sua mãe (cap.
estavam desonrando ao Senhor. Os 1); ele orou por sua nação e derro­
filisteus morreram porque trataram tou o inimigo (7:13); ele orou quan­
Jeová como um de seus deuses. Os do Israel desafiou o Senhor e pediu
homens de Bete-Semes morreram um rei (8:6); e ele orou pelo rei Saul
porque, presunçosamente, olharam (15:11), mesmo depois de Deus tê-
dentro da arca. Não vale a pena lo rejeitado. Alguém chamou Sa­
brincar com Deus. muel de "homem das emergências
de Deus", e realmente o título se
III. A libertação do povo de Deus (7) ajusta a ele. Samuel entrou em cena
A arca não retornou a Siló; ela ficou quando o sacerdócio estava em de­
na casa de Abinadabe durante 20 clínio, quando a nação estava dis­
anos. O que o Senhor fez durante sipada, e quando a glória de Deus
esse tempo? Ele preparava seu ser­ se ausentara. Com certeza, Ana per­
vo Samuel para derrotar o inimigo cebera como Deus usaria de forma
e estabelecer o reino. Sem dúvida, magnífica seu filho; veja o cântico
Samuel ia de lugar em lugar minis­ (e predição) dela em 2:9-10.
trando ao povo e dando-lhe a Pala­ Foram estes os acontecimen­
vra de Deus. O versículo 3 indica tos em Mispa: (1) Samuel derramou
que Samuel chamou o povo ao arre­ água diante do Senhor, como sím­
pendimento e a retornar ao Senhor. bolo do arrependimento da nação,
Isso significava deixar de lado os e o coração dos israelitas despejou-
deuses pagãos e preparar o coração se em pesar por seus pecados; (2)
para servir ao Senhor. Que trágico a ele ofereceu uma oferta queimada,
grande nação de Israel cair em dis­ um holocausto, para indicar a total
sipação e em descrédito por causa dedicação de Israel a Deus; (3) ele
de seus pecados! Essa dissipação orou pela nação enquanto esta te­
jamais ocorreria-se Eli fosse um pai mia a chegada dos filisteus; Deus
piedoso, e seus filhos, sacerdotes deu uma grande vitória ao exérci­
284 1 Samuel 4-7

to de Israel. Que dia! Samuel, com distinta.) É triste constatar que os fi­
uma oração, conseguiu uma vitória lhos de Samuel não seguiram o ca­
que Sansão não pôde conseguir em minhar piedoso do pai (8:5). Talvez
seus 20 anos de liderança! Desse ele estivesse muito ocupado com os
dia em diante (até a grande vitória assuntos da nação para treiná-los.
de Davi sobre os filisteus), o inimigo Eli cometeu um erro semelhante.
manteve-se a distância. Esse é o po­ Esses acontecimentos mostram-
der da vida consagrada, o poder da nos a importância de uma família
oração (Tg 5:16). piedosa. A nação caiu em pecado e
Samuel ministrou como pro­ em dissipação, porque Eli negligen­
feta e como juiz, ele viajou de ci­ ciou sua família, mas Deus salvou
dade em cidade a fim de ministrar a nação por causa das orações de
ao povo e para resolver as disputas uma mãe piedosa (Ana) e de seu fi­
dele. Ele foi o último juiz e o pri­ lho, que lhe foi dado por Deus. A
meiro profeta nacional. (O trabalho nação caminha de acordo com as
profético de Moisés era de natureza famílias.
1 S am u el 8 - 1 5 Essa é uma imagem da tole­
rância de Deus: ele concedeu-lhe
o pedido, mas advertiu-a a respei­
Esses capítulos cobrem a vida ante­
to do custo disso. Veja Deuteronô-
rior de Saul e registram os pecados
que o levaram a ser rejeitado pelo mio 17:14-20, para verificar a pro­
Senhor. fecia de Moisés a respeito desse
acontecimento. A nação escutou
Samuel e, mesmo assim, pediu um
rei! O povo queria ser como as ou­
I. O pedido por um rei (8—10) tras nações, embora Deus o tivesse
Desde o início, Jeová era o Rei de Is­ chamado para ser separado dessas
rael e cuidava da nação, mas agora outras nações. O capítulo 9 explica
os anciãos queriam um rei para li­ como Saul chegou a Samuel e, em
derá-los. Diversos fatores motivaram particular, foi ungido para o reina­
esse pedido: (1) os filhos de Samuel do. Em 9:21, observe a humildade
não eram piedosos, e os anciãos te­ dele, e também em 10:22, quando
miam que eles levassem a nação a se ele hesita em ficar de pé diante do
desviar quando Samuel morresse; (2) povo. Deus deu três sinais especiais
durante a época dos juizes, a nação a Saul para certificá-lo de que fora
tivera uma série de líderes temporá­ o escolhido (10:1-7). Samuel tam­
rios, e os anciãos queriam um gover­ bém instruiu Saul a permanecer em
nante mais permanente; e (3) Israel Gilgal e esperar pela chegada dele
queria ser como as outras nações e (10:8). Pode-se traduzir o versícu­
ter um rei a quem honrar. As nações lo 8 da seguinte forma: "Quando
poderosas que havia ao redor de Is­ você for adiante de mim a Gilgal"
rael eram uma ameaça constante, e — isto é, em alguma data futura,
os anciãos sentiam que um rei traria quando o rei Saul estivesse com o
mais segurança. A reação de Samuel exército pronto para a batalha. Esse
ao pedido deles demonstra que ele evento aconteceu alguns anos mais
compreendeu integralmente a des­ tarde; veja o capítulo 13.
crença e a rebelião deles: eles esta­ Saul tinha tudo a seu favor:
vam rejeitando Jeová. A nação, ao (1) um corpo forte (10:23); (2) uma
escolher Saul, rejeitou o Pai; muito mente humilde (9:21); (3) um novo
tempo depois, ao escolher Barrabás, coração (10:9); (4) poder espiritual
rejeitou o Filho; e quando escolheu (10:10); (5) amigos leais (10:26); e,
os próprios líderes, em vez do teste­ acima de tudo, (6) a orientação e as
munho dos apóstolos, rejeitou o Es­ orações de Samuel. Contudo, ele, a
pírito Santo (At 7:51). despeito dessas vantagens, fracas-
286 1 Samuel 8-15

sou miseravelmente. Por quê? Por­ ao povo a própria fé e o poder de


que não permitiu que Deus fosse o Deus, e a tempestade inesperada
Senhor de sua vida. na sega (um evento incomum nes­
sa época do ano) trouxe temor ao
II. A renovação do reino (11— 12) povo. Os israelitas confessaram o
Saul retornou para casa e, na verda­ pecado, e Samuel reafirmou-lhes a
de, hesitava em falar de sua grande graça de Deus. Eles precisavam sa­
experiência. Lembre-se de que era o ber que seu rei não os salvaria, mas
início do reinado, quando tudo era que apenas a fidelidade e a obedi­
novidade. Samuel ainda era o líder ência ao Senhor lhes garantiria as
espiritual da terra, e ele e Saul espe­ bênçãos de Deus. Eles cometeram
ravam a orientação de Deus a res­ um erro, mas o Senhor desconside­
peito do futuro da nação. Samuel e raria isso se obedecessem.
Saul, sem meios de transporte nem
os de comunicação modernos, le­ III. A rejeição do rei (13— 15)
variam meses para reunir o povo. A Esses três capítulos relatam três peca­
primeira oportunidade de Saul sur­ dos do rei Saul, pecados esses que,
giu quando Naás ameaçou a nação. por fim, custaram-lhe o reinado.
Certamente, essa vitória nacional
investiu Saul diante do povo e es­ A. Impaciência (cap. 13)
tabeleceu sua autoridade. Alguns Como Samuel e Saul haviam com­
dos companheiros de Saul queriam binado meses atrás, chegara o mo­
que ele matasse os israelitas que se mento de Israel reunir-se em Gilgal
opuseram ao seu reinado (10:27), (10:8). Observe como Saul assume
mas Saul demonstrou humildade o crédito pela vitória de seu filho em
e moderação ao dar toda glória ao Gibeá a fim de impressionar o povo
Senhor e recusar vingar-se dessas e convencê-lo a segui-lo. Grandes
pessoas. multidões de filisteus começaram a
Essa vitória foi motivo de reno­ reunir-se, e quanto mais Saul espe­
vação do reino e de nova consagra­ rava, mais perigosa se tornava sua
ção da nação. Samuel reviu o pró­ situação. Se ele atacasse de ime­
prio ministério e lembrou o povo diato, poderia derrotar o inimigo,
de que vinha sendo fiel à nação e mas sua demora apenas dava-lhes a
ao Senhor. Depois, ele reviu a his­ oportunidade de tornarem-se mais
tória da nação e mostrou ao povo o fortes. A impaciência (e descren­
grande pecado que cometera con­ ça) de Saul levou-o a ir em frente,
tra o Senhor ao pedir um rei. Ele sem Samuel, e, quando ele termi­
pediu por chuva a fim de mostrar nava a oferta, o profeta apareceu.
1 Samuel 8-15 287

Os versículos 11-12 apresentam as com o sangue (Lv 17:10-14), o que


desculpas de Saul, ao tentar culpar era muito pior que quebrar o voto.
Samuel e o povo por seus erros. Ele Saul tentou consertar isso oferecen­
disse a Samuel que fora "forçado do os despojos como sacrifício ao
pelas circunstâncias", mas o profe­ Senhor. Enquanto o exército seguia
ta sabia a verdade. Esse foi o come­ para seu próximo embate, procurou
ço do seu fim: se Deus não podia a orientação de Deus, mas não ob­
confiar nele em relação a esse pe­ teve resposta. Isso levou Saul a des­
queno detalhe, como confiaria em cobrir a desobediência de Jônatas,
relação ao reino? A impaciência de e o rei, tolamente, pretendia matar
Saul custou-lhe o reinado. o próprio filho! Como é fácil ser
condenado pelos pecados de ou­
B. Orgulho (cap. 14) tra pessoa! O povo salvou Jônatas,
Era evidente que Jônatas, filho de mas as ações de Saul revelaram as
Saul, era um homem piedoso, pois trevas de seu coração. Logo have­
o Senhor deu a ele e ao seu escudei­ ria problema. Seu orgulho levou-o
ro vitória sobre os filisteus. Saul foi à derrocada.
apenas um espectador (vv. 16-18),
mas depois ele reuniu suas tropas e C. Desobediência (cap. 15)
compartilhou a vitória. Entretanto, Deus daria mais uma chance a Saul
Saul, para sua infelicidade, proferi­ para testar a si mesmo, dessa vez ao
ra o tolo voto de que, naquele dia, destruir totalmente os antigos ini­
os soldados estavam proibidos de migos de Israel, os amalequitas (Dt
ingerir qualquer alimento. Que to­ 25:17-19; Êx 17:16). Contudo, Saul
lice pensar que um voto sacrificial não obedeceu ao Senhor; ele reser­
lhe daria vitória quando seu cora­ vou a melhor parte dos despojos
ção não era reto para com Deus! para si mesmo e não matou Agague,
Ele tardava em aprender "que o o rei dos amalequitas. O Senhor
obedecer é melhor do que o sa­ disse a Samuel que Saul estava aca­
crificar". Jônatas não sabia nada a bado, e o profeta, contristado, orou
respeito da conjuração de seu pai, a noite toda. Quando Samuel abor­
portanto ele foi em frente e comeu dou Saul, o rei mentiu-lhe e disse
um pouco de mel e fortaleceu-se que obedecera à Palavra de Deus.
(v. 27), e seu exemplo de sabedoria Quase no mesmo momento em que
prática encorajou o exército a co­ Saul falou, seus pecados foram des­
mer depois da vitória (vv. 31-32). cobertos, pois os animais começa­
Infelizmente, os judeus estavam ram a fazer barulho. Mais uma vez,
tão famintos que comeram a carne Saul recorreu às desculpas: "O povo
288 "1 Sam ud 8-15

poupou o melhor das ovelhas e dos significa arrependimento e verda­


bois, para os sacrificar ao S enho r , deiro pesar pelo pecado. Quando
teu Deus; o resto, porém, [ele e os Samuel virou-se, Saul segurou seu
líderes] destruímos totalmente". manto, e este se rasgou, e Samuel
Assim, Samuel transmitiu a mensa­ interpretou isso como uma profecia
gem do Senhor para o rei rejeitado: de que o reino seria tirado de Saul
Saul perdeu sua humildade terrena e dado a outro homem (Davi). O
(9:21) e tornou-se orgulhoso e deso­ versículo 30 revela que Saul estava
bediente; ele rebelou-se contra a Pa­ mais preocupado com o que o povo
lavra do Senhor e tentou consertar pensava do que com o que Deus
sua desobediência com sacrifícios pensava. Ele queria ter boa repu­
(vv. 21-23). Saul substituíra o dizer tação, mas não caráter verdadeiro.
pelo fazer (15:13); desculpas por Samuel adorou com Saul e depois
confissão (15:15 e 21); e o sacrifício matou Agague como o Senhor or­
pela obediência (v. 22). Ele era rá­ denara, mas essa foi a última vez
pido em criticar e culpar os outros, que Samuel caminhou com Saul.
mas não estava disposto a encarar Este perdeu seu melhor amigo, per­
os próprios pecados. deu a bênção do Senhor, perdeu o
Saul, quando Samuel estava reinado. Desse ponto em diante,
para deixá-lo, confessou seus pe­ Saul segue por um caminho obscu­
cados, mas sua confissão não im­ ro e tortuoso, em que, por fim, aca­
pressionou o profeta (vv. 24-27). ba por ser rejeitado e morto por um
A confissão verdadeira envolve dos próprios amalequitas que não
mais que apenas dizer: "Pequei"; quis destruir (2 Sm 1:13).
1 S am u el 1 6 - 1 7 como "o mais moço" da família, ti­
nha uma posição muito baixa, mas
era fiel a seu pai e ao Senhor. A vida
Agora entramos no estudo da vida
de Davi, "um homem segundo o de Davi ilustra Mateus 25:21 — ele
[...] coração [de Deus]" (NVI). Da inicia como servo e termina como
mesma forma que Saul é um retra­ governante; ele foi fiel com umas
to da vida carnal, Davi é a imagem poucas ovelhas e, depois, herdou
da vida espiritual do crente que ca­ uma nação inteira; ele sabia como
minha pela fé no Senhor. É verdade trabalhar, portanto Deus lhe deu o
que Davi pecou. Entretanto, Davi, regozijo. Compare com a trajetória
diferentemente de Saul, confessou do filho pródigo, em Lucas 15, em
seus pecados e tentou restaurar seu que ele começa como chefe e ter­
relacionamento com Deus. Nesses mina como servo; no início possui
capítulos, vemos três cenas da vida muitas coisas e termina pobre; e co­
anterior de Davi. meçou com prazer e terminou em
escravidão. Mateus 25:21 delineia a
fórmula de sucesso que Deus ado-
I. O filho obediente (16:1-13) ta, e vemos a prova disso na vida de
Que afirmação solene: "Eu o [Saul] Davi.
rejeitei" (NVI). O povo ainda não Samuel estava prestes a come­
sabia dessa rejeição, e Saul ain­ ter o erro de avaliar os homens por
da "fingia ser" o rei da terra. Deus seus atributos físicos (veja 10:24),
pode rejeitar a pessoa, e os homens quando Deus o lembrou de que o
ainda o aceitarem, mas, por fim, o importante é o coração. Leia Provér­
julgamento do Senhor cai sobre a bios 4:23. Chamaram Davi no cam­
pessoa. Saul era tão perigoso que po, e, quando ele chegou, o Senhor
Samuel delineou um plano para es­ disse a Samuel: "Este é ele"! Davi ti­
capar da fúria dele quando visitasse nha pele clara e cabelos ruivos. Sua
Belém. Veja 22:17-19 para ter uma boa aparência e sua entrega de co­
amostra da fúria ciumenta de Saul. ração eram uma combinação mag­
Quando Samuel, sob orien­ nífica. Ele era o oitavo filho, e oito
tação de Deus, chegou à casa de é o número do novo início. A unção
Jessé a fim de convidá-lo para o com azeite trouxe-lhe uma unção
sacrifício, Davi nem mesmo estava especial do Espírito de Deus, e, a
lá! Ele estava nos campos cuidando partir desse momento, ele foi um
das ovelhas. Não podemos deixar homem de Deus. É pouco provável
de nos impressionar com a obedi­ que, naquele dia, Davi e sua família
ência e a humildade de Davi. Ele, tenham entendido a importância da
290 1 Samuel 16-17

unção. Com certeza, no momento do descobriu isso, começou a per­


oportuno, Samuel explicaria isso a seguir Davi e a caçá-lo nos desertos
Davi. de Israel.
Davi não ficou em caráter per­
II. O servo humilde (16:14-23) manente na corte; lemos em 17:15:
Que contraste trágico: o Espírito "Davi, porém, ia a Saul e voltava,
vem sobre Davi, mas sai de Saul! para apascentar as ovelhas de seu
Deus permite que um espírito ma­ pai". Ele visitava a corte quando
ligno atormente Saul e, às vezes, era necessário, mas não descuida­
ele age como louco. Veja 18:10 e va de suas responsabilidades em
19:9. Seu comportamento estranho casa. Que humildade! Ele é um
faz com que seus servos sugiram rapaz dotado, escolhido para ser
que ele chame um músico habili­ rei, ungido de Deus, contudo ainda
doso para acalmá-lo. É muito triste cuida das ovelhas e trabalha como
que os servos de Saul lidem com servo! Não é de admirar que Deus
os sintomas, mas não com a causa usasse Davi.
do problema, pois a música nunca
mudaria o coração pecador de Saul. III. O soldado vitorioso (17)
É verdade, o rei "sentia alívio" com A história de Davi e Golias é bem
a música, mas podia ser uma falsa conhecida e traz em si muitas lições
paz. Os servos deviam orar para que práticas para a vida cristã. Todos nós
Saul fosse reto para com Deus! enfrentamos gigantes de um tipo ou
Davi era exatamente o homem de outro, mas devemos dominá-los
que Saul precisava, e um dos servos por meio do poder de Deus. Prova­
sugeriu-o a ele. Vemos o reconhe­ velmente, Golias tinha 3 metros de
cimento das habilidades de Davi, altura, e sua armadura pesava mais
contudo ele não promove a si mes­ de 68 quilos. Ele era o "filisteu"
mo: Deus é quem faz isso. Leia com (17:8), o grande campeão deles, e
atenção Provérbios 22:29 e 1 Pe­ era tão aterrador que trouxe temor
dro 5:6. Hoje, muitos jovens tentam ao exército judeu (v. 11). Se Saul
pôr-se em posição de proeminência fosse um líder piedoso, ele clama­
sem primeiro testar-se nos assun- ria Deuteronômio 20 e levaria seu
tos de menor importância em casa. exército à vitória, mas as pessoas,
Davi veio para a corte e, de imedia­ quando não estão em comunhão
to, tornou-se o favorito do rei. É cla­ com Deus, só podem levar os outros
ro que se Saul soubesse que Deus à derrota.
escolhera Davi para ser rei tentaria Davi levou alimento para seus
matar o rapaz na hora. Saul, quan­ irmãos e interessou-se, de imedia­
1 Samuel 16-17 291

to, pelo desafio do gigante. Obser­ 10:3-5). Davi sabia que Gideão
ve que seu irmão acusou-o e tentou vencera com armas inadequadas e
desencorajá-lo. Satanás sempre tem que o Deus de Gideão não morrera.
alguém para dizer-nos: "Isso não Nem a crítica do irmão nem a des­
pode ser feito". Mesmo Saul ten­ crença de Saul impediram Davi de
tou dissuadir Davi: "Você não tem crer em Deus para conseguir vitória.
condições" (v. 33, NVI). Bem, Davi, A pedra atinge o alvo, o gigante cai,
por si mesmo, não estava capacita­ e Davi usa a espada do gigante para
do, mas, no poder do Senhor, podia cortar sua cabeça! Essa vitória abriu
dominar qualquer inimigo. (Veja Fp o caminho para Israel atacar os filis­
4:13; Ef 3:20-21.) Saul tentou dar teus e despojar seus acampamentos.
uma armadura para Davi, mas Davi, "Esta é a vitória que vence o mundo:
como nunca usara uma armadura, a nossa fé" (1 Jo 5:4). "Somos mais
recusou-a. Imagine Saul dizendo que vencedores"!
a outra pessoa como deveria fa­ Aqui também há uma lição tí­
zer para vencer! Davi vivenciara o pica: Davi é uma imagem de Jesus
poder de Deus, em particular, nos Cristo. O nome de Davi significa
campos enquanto cuidava das ove­ "amado", e Cristo é o Filho amado
lhas; agora, ele demonstraria esse de Deus. Os dois nasceram em Be­
poder em público para a glória do lém. Os dois foram rejeitados pelos
Senhor. Veja como em todo esse irmãos. (É claro que quando Davi
episódio Davi glorifica o Senhor. se tornou rei, seus irmãos o recebe­
Aqui, a lição prática é que Deus ram, da mesma forma que os judeus
dá-nos vitória em resposta a nossa receberão Cristo quando ele voltar
fé. Deus testara Davi, em particu­ a reinar.) Davi foi ungido rei anos
lar, com um leão e um urso; agora antes de ser-lhe permitido reinar,
o testava publicamente com um gi­ exatamente como Cristo é Rei ago­
gante. Se formos fiéis nas batalhas ra, mas não reinará na terra até que
individuais, Deus nos auxilia nas Satanás seja desterrado. O rei Saul
provas públicas. Com frequência, tipifica Satanás nesta era presente,
o povo de Deus desanima nos me­ pois Saul foi rejeitado e derrotado,
nores testes que cruzam seu cami­ contudo pôde reinar até que Davi
nho, não percebe que os "pequenos subisse ao trono. Permite-se que Sa­
testes" são uma preparação para as tanás persiga o povo de Deus até o
batalhas maiores que, com certeza, dia em que será derrotado.
surgirão (Jr 12:5). Davi usava armas Da mesma forma como o pai
simples, humildes: uma funda e cin­ de Davi enviou-o ao campo de
co pedras (veja 1 Co 1:27-28 e 2 Co batalha, o Pai enviou Cristo a este
292 1 Samuel 16-17

mundo. Golias retrata o orgulho e o vitória, lutamos de posse da vitó­


poder de Satanás. Leia com atenção ria, a vitória conseguida na cruz (Cl
Lucas 11:14-23. Satanás é o homem 2:15). Jesus disse: "Tende bom âni­
bem armado que guarda seus bens mo; eu venci o mundo" (Jo 16:33).
(as pessoas sob seu controle), e Cris­ Não fica claro por que Saul
to é o Homem "mais valente" que não reconhece Davi, seu escudei­
domina Satanás. Cristo invadiu o ro. É provável que ele tenha visto
reino de Satanás, dominou seu po­ Davi quando estava sob influência
der, pegou sua armadura e agora di­ do espírito maligno. Contudo, outro
vide os despojos ao salvar as almas fator é que Davi era um dos muitos
perdidas e torná-las filhas de Deus. servos da corte e, talvez, não fosse
Naquele dia, Davi fez isso: ele do­ incomum que Saul os confundisse.
minou o homem forte e permitiu Com certeza, Saul perguntaria a res­
que Israel dividisse os despojos (vv. peito da família de Davi, já que pro­
52-54). Nós, cristãos, lutamos por metera sua filha ao vencedor.
1 S a m u el 1 8 - 2 1 palavras delas. Contudo, o coração
de Saul encheu-se de ciúmes quan­
do ouviu que louvavam mais a Davi
Esses capítulos apresentam a transi­
que a ele. "Como o crisol prova a
ção entre o serviço de Davi, como
servo na corte de Saul, e seu exílio, prata, e o forno, o ouro, assim, o
como fugitivo. Eles explicam como homem é provado pelos louvores
Davi passou de favorito de Saul a que recebe" (Pv 27:21). O louvor é
inimigo deste. A questão principal como uma fornalha quente: revela a
é a fé de Davi, e, nesses capítulos, matéria da qual a pessoa realmente
vemos como esse homem de Deus, é feita. O louvor que permitiu que
por causa das tribulações que surgi­ Davi fosse humilde apenas trouxe à
ram em sua vida, perdeu tudo, ex- tona a impureza no coração de Saul
ceto sua confiança no Senhor. e revelou seu orgulho e desejo de
glória.

I. Davi crê no Senhor (18) B. Pelo rebaixamento (vv 18:12-16)


O maior teste de fé de Davi não foi O versículo 5 revela que Davi era
quando enfrentou Golias, mas quan­ o líder da guarda pessoal de Saul,
do servia todos os dias na corte de mas foi rebaixado a um mero ca­
Saul. Observe as diferentes formas pitão com mil homens sob seu co­
como sua fé foi testada: mando. Isso mudou Davi? Não! Sua
fé estava no Senhor, e ele continuou
A. Pela popularidade (vv. 18:1-11) a honrar e a servir a seu rei. Isso dei­
Jônatas, filho de Saul, amava Davi, e xou Saul muito mais temeroso! O
isso, em si mesmo, era uma oportu­ rei sabia que Deus o abandonara e
nidade de teste. Davi seria o próxi­ abençoava Davi. E necessário ter fé
mo rei, mas, por direito, Jônatas her­ verdadeira para enfrentar um rebai­
daria a coroa. A amizade entre esses xamento e manter a humildade e o
dois homens de Deus é um grande serviço.
exemplo para nós. Com certeza, as
honras concedidas a Davi não pro­ C. Pelo desapontamento (vv. 17-30)
vocavam ciúmes em Jônatas. No en­ Saul prometera uma de suas filhas
tanto, em relação a Saul, o assunto ao homem que derrotasse Golias
era bem outro, pois Davi era ben­ (17:25) e agora cumpriria sua pro­
quisto pelo povo. É relevante o fato messa. No versículo 18, observe a
de as mulheres louvarem Davi, não humildade de Davi diante do rei.
o Deus de Davi. Davi era bastante Contudo, Saul cumpriu sua palavra?
sábio para não valorizar muito as Não! Ele deu a filha a outro homem.
294 1 Samuel 18-21

Depois, Saul tentou usar sua filha, ter uma grande vitória no campo de
Mical, como uma arma para escra­ batalha, e ele, de novo, tentou ferir
vizar Davi, pois o rei exigiu um dote Davi com sua lança. Davi cometeu
impossível com a esperança de que um erro ao confiar em Jônatas para
matassem Davi enquanto tentava "endireitar a situação" para ele. O
consegui-lo. Mas o Senhor estava coração de Saul precisava mudar,
com Davi, e ele completou a mis­ antes de suas palavras serem dignas
são com sucesso. Infelizmente, pois de confiança.
a união deles nunca foi feliz, ele ca­
sou-se com Mical. Davi, enquanto B. Ele confia em Mical (vv. 11-17)
estava no exílio, perdeu Mical para Embora a esposa amasse Davi,
outro homem (25:44), mas recupe­ nunca houve um forte laço espiri­
rou-a quando começou a reinar em tual entre os dois, como as ações
Hebrom (2 Sm 3:13-16). A atitude posteriores dela comprovaram.
dela em relação a Davi levou à pos­ Ela advertiu Davi de que Saul o
terior separação total deles (2 Sm vigiava. Assim, eles planejaram
6:20-23). uma mentira. Esse foi o início de
um problema sério para Davi, pois
II. Davi confia nos homens (19) nunca é certo praticar o mal para
O plano de Saul para assassinar se alcançar o bem (Rm 3:8). Ob­
Davi já não era segredo, pois o rei serve que Mical usa um ídolo para
ordenou que seus servos o matas­ dar a impressão de que Davi está
sem. Contudo, Saul não conseguiu de cama, doente! Agora, ela en­
alcançar seu intento nas tentativas gana o próprio pai, o que apenas
anteriores de matar Davi (18:11,25) piora a situação. Para uma percep­
e, agora, parecia que sua raiva se ção adicional a respeito dessa si­
aplacara, portanto Davi podia re­ tuação, leia Salmos 59.
tornar à corte. Aqui, vemos a fé de
Davi vacilar, pois, em vez de crer C. Ele confia em Samuel (vv. 18-24)
em Deus e buscar a vontade dele, Talvez esse tenha sido o movimento
ele confia nos seres humanos. mais sábio de Davi, pois esse ho­
mem de Deus podia orar por ele e
A. Ele confia em Jônatas (vv. 1-10) aconselhá-lo. Veja que Samuel der­
Com certeza, o filho do rei inter­ rotou Saul não com mentiras ou ar­
cedeu por Davi. Saul até jurou que mas, mas com o Espírito de Deus.
protegeria Davi, mas nunca cumpriu Samuel, ao usar armas espirituais,
a promessa. O antigo ciúme de Saul retardou Saul e deu a Davi a opor­
voltou não muito depois de Davi ob­ tunidade de escapar.
1 Samuel 18-21 295

III. Davi confia em si mesmo (20-21) Davi sempre teve um grande amor
Esses capítulos trazem uma imagem pela casa do Senhor. Assim, talvez
não muito bonita, pois neles vemos ele quisesse visitar o tabernáculo
o homem de fé hesitar e fracassar antes de buscar refúgio. No entanto,
em sua fé. Davi, em vez de buscar ele mentiu para o sacerdote ao dizer
a vontade de Deus, foge em temor e que cumpria uma missão para Saul
tenta "resolver" seus problemas da (v. 2). O sacerdote, para que Davi e
sua maneira. Observe as mentiras seus homens saciassem a fome, deu-
que ele conta. lhes o "pão sagrado", como também
a espada de Golias para a proteção
A. Ele mente para Saul (20) de Davi. O plano todo parecia ser
Em 20:1, a fala de Davi a Jônatas su­ um sucesso, a não ser por um espião
gere centralidade em si mesmo e im­ de Saul, Doegue, que testemunhou
paciência. Esses dois amigos fariam os acontecimentos, o que, no final,
muito melhor se tivessem orado jun­ resultou em traição e derramamento
tos, em vez de incubar seus esque­ de sangue (22:9ss; veja Salmos 52 e
mas. Jônatas mentiu para o pai a res­ observe o título).
peito do paradeiro de Davi (vv. 6,28),
mas teve de esperar alguns dias para C. Ele mente para Aquis (21:10-15)
ver como o assunto terminaria. Nes­ As coisas iam de mal a pior, como
se meio tempo, ele e Davi fizeram sempre acontece quando confiamos
uma aliança, e, de acordo com ela, em nós mesmos, em vez de na sabe­
Davi protegeria a família de Jônatas doria de Deus. Agora, Davi fugiu para
quando se tornasse rei, promessa as mãos do inimigo! "Quem teme ao
que Davi cumpriu (2 Sm 9). Saul não homem arma ciladas", e Davi quase
acreditou na história de Jônatas (vv. armou uma cilada para si mesmo em
24-33), e sua reação de seu pai qua­ território inimigo! Certamente o rei
se lhe custou a vidaJ. Quando Deus não toleraria um herói judeu em sua
abandona uma pessoa, e o demónio terra. Assim, Davi fingiu-se de doido
assume o controle, não há fim para para conseguir escapar. "Oh, que
a maldade que resulta disso. Jônatas teia confusa tecemos, quando prati­
deixou a mesa e, na manhã seguinte, camos o engano!" Isso poderia ser o
encontrou-se com Davi. Eles chora­ fim da vida de Davi, mas Deus inter­
ram juntos e se despediram. feriu e tocou o coração do rei para
que este libertasse Davi. Assim, ele
B. Ele mente para Aimeleque (21:1-9) fugiu para a caverna de Adulão e or­
Davi fugiu de novo, dessa vez para ganizou seu bando de "fora-da-lei".
Nobe, onde ficava o tabernáculo. Veja Salmos 34 e 56.
296 1 Samuel 18-21

É surpreendente como homens rar no Senhor e a buscar a vontade


e mulheres de fé transformam-se dele.
gradualmente em homens e mu­ A amizade entre Davi e Jônatas
lheres temerosos e descrentes. Se era algo raro, pois, na verdade, ne­
tivermos pressa e confiarmos nas nhum deles tinha algo a ganhar com
pessoas e em nossos planos, logo ela. Jônatas perdeu a coroa, e Davi
tudo desmorona e nos vemos fora podia perder a vida. A abnegação e
da bênção e da proteção do Se­ a constância deles, apesar das tribu­
nhor. Nos próximos capítulos, ve­ lações, são um bonito exemplo do
remos que Davi aprendeu a espe­ amor de Cristo.
1 Samuel 22-24 Esse período de perseguição
na vida de Davi fazia parte da pre­
paração para o trono. Ele já era um
Agora, Davi está completamente se­
grande soldado; agora, precisava
parado da corte de Saul e é conside­
sofrer no deserto para aprender a
rado um rebelde fora-da-lei. O sal­
mo 34 foi composto depois de sua não confiar nos homens, mas no
difícil fuga de Aquis (1 Sm 21:10-15), Senhor. Todos nós precisamos pas­
e talvez seja a melhor expressão dos sar pelo "teste do deserto" para ficar
desafios e triunfos de Davi durante mais próximos do Senhor e nos tor­
seu período de exílio. "Muitas são as narmos mais bem preparados para
aflições do justo, mas o S enhor de servir-lhe. A perseguição de Saul a
todas o livra" (SI 34:19). Deus estava Davi retrata o conflito entre a car­
com Davi e socorreu-o. ne e o Espírito. Ela também ilustra
a perseguição de Satanás à igreja
de hoje: Saul não era mais o rei,
I. Deus guia os passos de Davi (22) contudo reinava; Davi era o rei, no
Na caverna de Adulão, Davi reuniu entanto ainda não estava no trono.
um bando de seguidores fiéis, 400 Hoje, Satanás parece "reinar", to­
homens, número esse que, no fim, davia Cristo é o Rei e, um dia, ele
aumentou para 600 (23:13). Nos reclamará seu trono de direito.
salmos 54 e 142, encontramos as O fato de Saul assassinar o sa­
experiências que teve na caverna. cerdote inocente, em Nobe, mostra
Davi queria proteger seus irmãos, até onde as pessoas são capazes de
já que Saul poderia querer matá-los chegar, quando rejeitam o Senhor.
também, além de Davi. Com cer­ Saul, como Satanás, era mentiroso
teza, essa "multidão heterogénea" e assassino (Jo 8:44). Doegue era
ilustra o tipo de pessoa que procu­ edomita, descendente de Esaú (Gn
ra refúgio em Cristo: pessoas que 25:30), portanto o ódio dele por
enfrentam aflições ou dívidas (por Davi e pelos sacerdotes é apenas
causa de seus pecados), pessoas outro estágio da batalha de Esaú e
amarguradas com a vida. O bando Jacó. A presença de Davi em Nobe
de Davi era pequeno e desdenhado, trouxe morte para as pessoas de lá,
mas a e/e pertencia o reino! Davi portanto sua mentira resultou ape­
conseguiu proteção para sua família nas em tragédia. Saul não estava dis­
em Moabe, já que sua família (pelo posto a matar os amalequitas (cap.
lado de Rute) era de lá. Como Davi 15), mas não tinha problema algum
foi zeloso em cuidar de seus entes em matar sacerdotes inocentes. Essa
queridos; veja João 19:26-27. matança era o cumprimento da pro­
298 1 Samuel 22-24

fecia de Deus para Eli, de que a casa B. Vitória no deserto (vv. 14-18)
dele seria julgada; veja 2:30-36. Saul Davi teve de ser paciente para su­
matou os sacerdotes, mas não pôde portar diariamente o perigo e a
im pedir A biatar de fu gir com a esto- perseguição'. Ele era um m estre da
la sacerdotal — o instrumento para estratégia e poderia usar de artima­
a determinação da vontade de Deus nhas para vencer Saul, mas preferiu
—, para juntar-se a Davi. Que uso esperar que o Senhor lhe desse a
a estola sacerdotal teria para Saul? vitória. Como é comovente quando
Ele estava determinado a fazer sua Jônatas o encontra no deserto (com
própria vontade! Mais tarde, Abiatar risco de vida) a fim de tranquilizá-lo
ajudou Davi; veja 23:9; 30:7. e encorajá-lo. Foi uma pena que Jô­
natas não pudesse reinar com Davi,
II. Deus protegeu a vida de Davi (23) pois morreu em uma batalha com
Era importante que Davi vivesse, seu pai. Com frequência, o justo so­
pois ele libertaria Israel, institui­ fre por causa dos pecados dos ou­
ria o reino em glória e se tornaria tros.
o pai de Cristo na carne (Rm 1:3).
Satanás usou Saul para tentar matar C. Vitória sobre os sifeus (vv. 19-29)
Davi, mas o Senhor era forte demais Zife era em Judá, e seus habitantes
para o inimigo. Contanto que Davi deveriam ser leais a Davi, mas eles
buscasse a mente do Senhor, Deus traíram seu rei justo em favor de
dava-lhe proteção e vitória. Saul! Leia a oração que Davi fez ao
Senhor pedindo libertação em Sal­
A. Vitória em Queila (vv. 1-13) mos 54. Havia um monte entre Davi
Os filisteus eram inimigos de Davi e Saul (23:26), da mesma forma que
e de Israel, portanto era certo ele a nuvem manteve-se entre Israel e os
lutar contra eles. Quando os filhos egípcios. Por fim, parecia que Saul
de Deus estão na vontade dele, po­ capturaria seu homem, mas uma in­
dem esperar pela ajuda do Senhor. vasão dos filisteus obrigou Saul a re­
O ódio de Saul era tão intenso que tornar para casa. Com certeza, Deus
ele não agradeceu ao Senhor a vi­ está no comando das circunstâncias
tória de Davi; em vez disso, foi lu­ e livra os seus no momento certo.
tar com o próprio vencedor. E os
homens de Queila não protegeram III. Deus deu graça a Davi (24)
seus libertadores; tentaram entregá- "Melhor é o longânimo do que o he­
los a Saul! Como é mau o coração rói da guerra, e o que domina o seu
humano que não foi tocado pela espírito, do que o que toma uma ci­
graça de Deus! dade" (Pv 16:32). Deus deu a Davi a
1 Samuel 22-24 299

graça necessária para mostrar bene­ [de Deus]" (NVI), estava disposto a
volência com seus inimigos, e isso cuidar de Saul por causa do Senhor
foi muito mais excelente que derro­ (Rm 12:19-21).
tar o gigante Golias. Os homens de
Saul mentiam-lhe dizendo que Davi B. A explicação (vv. 8-15)
tentava matá-lo (24:9). Se o salmo 7 Davi e seus homens estavam segu­
refere-se a esse acontecimento, ros na caverna, e os homens de Saul
como crêem muitos estudiosos, en­ não ousariam atacá-los, contudo
tão Cuxe, o benjamita, era o chefe Davi, corajosamente, quando Saul
dos mentirosos. Essa experiência já se afastara um pouco, saiu da
deu a Davi a chance de provar para caverna para falar com ele. Como
Saul e para os líderes que não que­ Saul deve ter se chocado ao ouvir
ria matar Saul, mas que honrava o a voz do genro! Davi explicou-lhe
rei, embora este não seguisse a von­ que mentiam para ele (v. 9), e que
tade de Deus. poderia tê-lo matado na caverna se
não fosse pela benevolência dele
A. A tentação (vv. 1-7) (vv. 10-11). O pedaço do manto era
Saul entrou na caverna para aliviar- uma evidência mais que suficiente
se e descansar. Provavelmente, ti­ de que Davi falava a verdade. Davi
rou sua vestimenta quando entrou. disse: "A minha mão não está contra
A caverna era grande e escura, por ti. [...] A quem persegue? A um cão
isso ele não viu Davi e seus homens morto? A uma pulga? Seja o S enho r
sentados ao fundo. Davi cortou a o meu juiz, e julgue entre mim e ti,
orla do manto de Saul sem ser visto. e veja, e pleiteie a minha causa, e
Com certeza, esse era o momento me faça justiça". Que espírito cheio
de matar seu inimigo! Na verdade, de graça o Senhor deu a Davi. Ah,
alguns dos homens de Davi insis­ se hoje tivéssemos a mesma atitude
tiam em que Deus ajeitara a situa­ em relação aos nossos inimigos!
ção para que Davi pudesse agir (v.
4). É importante que sempre teste­ C .A súplica (vv. 16-22)
mos as circunstâncias pela Palavra Imagine o lamentável Saul em pé
do Senhor. O coração de Davi esta­ diante daquele que é melhor que
va tão sensível que ele se arrepen­ ele. O choro e a admissão de culpa
deu abertamente do impulso que o de Saul eram superficiais, emoções
fizera cortar o manto de Saul, pois passageiras, não vinham realmente
não demonstrara o respeito adequa­ do coração. Ele apenas ficou mui­
do ao ungido do Senhor. Davi, um to feliz ao tomar conhecimento da
"homem segundo o [...] coração benevolência de Davi. Afinal, Davi
300 1 Samuel 22-24

poupara sua vida! Saul preocupava- de Saul após sua morte. Isso ilus­
se principalmente com seus fami­ tra belamente as palavras de Cris­
liares, pois não queria que Davi os to em Mateus 5:10-12. Pois Davi
matasse quando se tornasse rei. O mostrar benevolência para com
versículo 20 mostra a perversidade Saul e orar por ele era uma vitória
do coração de Saul: ele admite que muito maior que vencer os filis­
Davi é o rei de direito, contudo ele teus. Podemos ter certeza de que,
continuava a se opor a Davi! se obedecemos ao Senhor, ele cui­
Davi manteve a promessa que da de nossos inimigos por nós em
fez a Saul e até defendeu a honra seu tempo perfeito.
1 Samuel 26-31 todo acampamento cair em sono
profundo (v. 12). Assim, Davi e o so­
brinho não estavam em perigo. No
Chegamos agora ao fim trágico da
versículo 7, a lança fincada na terra
vida de Saul. O homem que "era
o mais alto e sobressaía de todo o indica uma barricada feita com ba­
povo" (10:23) cai, agora, estendido gagem e carros. Mais uma vez, Sa­
na terra em casa de uma médium tanás usa os outros para fazer com
(28:20) e, depois, cai morto no que Davi tenha a tentação de matar
campo de batalha (veja 2 Sm 1:19). Saul (v. 8; veja 24:4), mas Davi re­
Talvez, a melhor forma para estudar siste à tentação. A vingança estava
esses tristes acontecimentos seja por nas mãos do Senhor.
meio da observação do contraste Na verdade, a mensagem de Davi
óbvio que há entre Saul e Davi. para Saul era uma súplica no sentido de
que este voltasse para o Senhor. Ele
disse: "Por que persegue o meu se­
I. Amor e ódio (26) nhor assim seu servo? Pois que fiz
É difícil entender por que Davi re­ eu? E que maldade se acha nas mi­
tornou ao deserto de Zife, onde já nhas mãos? [...] Se é o S e n h o r que
tivera problemas anteriormente te incita contra mim, aceite ele a
(23:19ss). Talvez seja apenas um es­ oferta de manjares; porém, se são
clarecimento de que ele, como to­ os filhos dos homens, malditos se­
dos os homens de barro, cometem jam perante o S e n h o r " . No versí­
erros. Sugeriu-se que a poligamia culo 21, veja a confissão vazia de
de Davi (25:42-44) impedia-o de ter Saul: "Pequei. Eis que tenho pro­
um relacionamento próximo com o cedido como louco". Sim, ele re­
Senhor, já que tais casamentos não conhecera isso —, mas ainda não
eram da vontade de Deus. E claro estava arrependido! Agimos como
que Saul foi atrás de Davi! A confis­ loucos quando corremos adiante
são chorosa de Saul, em 24:17-21, do Senhor (13:8ss); quando não lhe
não durou muito tempo, pois não obedecemos totalmente (cap. 15);
veio do coração. quando voltamos as costas a nossos
Abisai era sobrinho de Davi amigos piedosos (Davi e Samuel);
(1 Cr 2:15-16) e um guerreiro valen­ quando procuramos a orientação
te (2 Sm 10:10). Mais tarde, Abisai do demónio (cap. 28); e quando
salva Davi do gigante (2 Sm 21:17). insistimos em não nos arrepender
Entretanto, Abisai envolveu-se no mesmo quando sabemos que esta­
assassinato de Abner (2 Sm 3:30), mos errados. "Tenha certeza disto:
um crime que afligiu Davi. Deus fez seus pecados o alcançam!"
302 1 Samuel 26-31

II. Luz e trevas (27—30) em compartilhar os despojos com


Os capítulos 27, 29 e 30 tratam das todos os que permaneceram ao lado
vitórias de Davi quando este busca dos suprimentos, como também sua
a mente do Senhor, e o capítulo 28 benevolência em enviar presentes
registra a terrível derrota de Saul aos anciãos de Judá. Provavelmen­
quando procura auxílio na casa de te, suas ações posteriores também
uma médium. Davi nem sempre an­ tiveram um cunho político.
dou na vontade do Senhor, pois pa­ O quadro é bastante distinto
rece que sua fé lhe falta quando volta quando vemos Saul em sua visita
para Gate, a fim de viver sob a pro- noturna à casa da médium (cap.
teção do inimigo (cap. 27). Ele teve 28). Samuel morrera, mas Saul,
problemas em Gate anteriormente mesmo enquanto aquele estava
(21:10-15), mas agora liderava 600 vivo, não gostava do ministério
homens e teve uma recepção muito desse homem de Deus. É muito
melhor. Contudo, a jornada de Davi triste quando as pessoas desco­
em território inimigo forçou-o a brem tarde demais os verdadeiros
mentir para o rei (27:10-12), e Davi, amigos. Saul tão desnorteado es­
quando os filisteus se ajuntaram tava que foi visitar uma médium,
(29:1), quase foi forçado a lutar con­ e isso era proibido pela Lei. É alar­
tra seu próprio povo! Sempre temos mante o ponto a que as pessoas
problemas quando nos curvamos à chegam quando viram as costas
sabedoria da carne. Apenas a graça ao Senhor. Têm havido vários de­
de Deus impediu Davi de ter de ma­ bates em relação à possível apa­
tar seu próprio povo. rição de Samuel no episódio da
E notável o contraste entre os médium de En-Dor. Contudo, cer­
capítulos 28 e 30: Saul afastara-se do tamente, o espírito que se apre­
Senhor e, por isso, não tinha orien­ sentou ali não era o de Samuel,
tação divina (28:6), enquanto Davi pois Deus não agiria em desacor­
olhava para o Senhor em busca de do com a sua própria Lei. A necro-
coragem e de orientação (30:6-9). mancia era uma prática expressa­
"Buscai o S e n h o r enquanto se pode mente proibida na Lei. Quem a
achar" (Is 55:6), é uma advertência à infringisse era réu de morte (Lv
qual Saul não prestou atenção. Deus 1 9:31 ;20:6,27). Quando ocorre a
capacitou Davi não apenas para re­ separação definitiva de Samuel e
conquistar todas suas posses e seu Saul (1 Sm 15:35; 16:1), vemos que
povo, mas também para reunir o o rei nunca mais se encontra com
despojo colecionado pelo inimigo. Samuel, porque Deus havia rejei­
Apreciamos o espírito gracioso dele tado Saul. Por isso não mais falara
1 Samuel 26-31 303

com ele. Assim, em 1 Samuel 28.6, Saul, e a única coisa que restou ao
quando Saul consulta ao Senhor, rei rebelde foi a morte. Que tristeza
Ele não lhe responde nem por que seu inocente filho, Jônatas, te­
sonhos, nem por Urim, nem por nha sofrido por causa dos pecados
profetas. Logo, Deus também não do pai.
lhe responderia enviando o espí­ Segundo Samuel 1:1-10 apre­
rito de Samuel. Não há nenhum senta outro relato da morte de Saul.
caso na Bíblia em que o espírito Não é difícil harmonizar os dois re­
de um morto volte para comuni­ latos. Saul viu que estava perdido
car qualquer mensagem da parte e não queria cair vivo nas mãos do
do Senhor. Isso é claramente dito inimigo, pois ele o humilharia. Por
por Jesus em Lucas 16.19-31, na isso, tentou tirar a própria vida ao
parábola sobre o rico e Lázaro. cair sobre sua lança. No entanto,
É inimaginável que o rei Saul, isso não o matou; ele ainda estava
um homem escolhido por Deus, vivo, apoiado sobre sua lança (2 Sm
sequer participasse em uma obra 1:6), quando o amalequita chegou
tão pecaminosa, contudo o registro e terminou o serviço. (Entretanto,
está lá — "Aquele, pois, que pen­ devemos citar que há pessoas que
sa estar em pé veja que não caia" acreditam que, em 2 Samuel 1, o
(1 Co 10:12). Saul caminhava nas amalequita não disse a verdade,
trevas, não na luz; ele disfarçou-se mas apenas contou essa história a
(embora, na verdade, mostrasse seu Davi para explicar por que estava
verdadeiro caráter); permitiu que com a coroa real e o bracelete de
uma mulher quebrasse a Lei; trouxe Saul. Talvez ele pensasse que Davi
vergonha e derrota para sua nação, o recompensaria por ter "feito um
seu exército, sua família e para si favor a Saul", ao matá-lo.) Há uma
mesmo. lição importante na morte de Saul:
por Saul ter se recusado a matar to­
III. Vida e morte (31) dos os amalequitas (15), no fim um
Enquanto Davi distribuía presentes a deles o matou. O pecado do qual
seus amigos, Saul e sua família eram não tratamos, no final causa nossa
dizimados no campo de batalha! "O queda. Saul perdeu sua coroa: "Ve­
pendor da carne dá para a morte" nho sem demora. Conserva o que
(Rm 8:6). Nos tempos de Débora (Jz tens, para que ninguém tome a tua
4 —5) e de Gideão (Jz 7), Gilboa foi coroa" (Ap 3:11).
palco de algumas grandes vitórias, O inimigo regozijou-se com a
mas, nesse dia, foi o cenário de uma morte de Saul. Que triunfo isso trou­
trágica derrota. Deus abandonou xe para o templo de seus falsos deu­
304 1 Samuel 26-31

ses! Saul não glorificou seu Deus, Jabes-Gileade por terem honrado o
quer em vida, quer na morte (Fp último rei (2 Sm 2:5-7).
1:20-21). Foi louvável da parte dos A vida trágica de Saul pode en­
homens heróicos de Jabes-Gileade sinar-nos muitas lições práticas: (1)
resgatar os corpos profanados da com frequência, os grandes pecados
família real e dar-lhes um sepulta- começam com "coisas pequenas"
mento decente. Eles os queimaram, — impaciência, obediência incom­
provavelmente para evitar qualquer pleta, desculpas; (2) uma vez que o
insulto futuro. Um dia, Saul liberta­ pecado se apossa da pessoa, ela vai
ra esse povo (cap. 11), e essa era a de mal a pior; (3) se não somos retos
forma como podiam recompensá- com Deus, não nos damos bem com
lo por isso. Mais tarde, Davi pôs o povo de Deus; (4) as desculpas não
os ossos em uma sepultura (2 Sm substituem a confissão; (5) dons e
21:12-14). Em Flebrom, quando se habilidades naturais não significam
tornou rei, Davi mostrou sua gra­ nada sem o poder de Deus; e (6) não
tidão a esses homens valentes de há substituto para a obediência.
2 Sa m uel 1 - 5 cipal preocupação de Davi é que
o ungido do Senhor foi morto, e a
glória do Senhor, ofuscada. Ele está
Esses capítulos descrevem os acon­
ansioso para que o inimigo não se
tecimentos que culminaram na co­
roação de Davi como rei de Israel. regozije com essa vitória. Seu tema
Para relatos paralelos, leia 1 Cróni­ é: "Como caíram os valentes!" (vv.
cas 10:1-14; 11:1-19 e 14:1-8. 19,25,27). Embora Saul, em 1 Sa­
muel 10:23, fosse "mais alto" que
qualquer outro homem, agora caíra
I. Davi pranteia a morte de Saul (1) mais baixo que o inimigo!
Um homem menos santo teria exul­
tado com a morte do inimigo, mas II. Davi luta contra a família de Saul
Davi era um "homem segundo o co­ (2—4)
ração de Deus" e sentiu de forma in­ Agora iniciamos com as "intrigas
tensa o trágico pecado de Saul. Cla­ políticas" que contaminaram toda a
ro, Jônatas, o amado amigo de Davi, vida de Davi. Embora Davi procu­
também morrera; o pecado de um rasse a mente do Senhor, não con­
pai desobediente trouxe julgamento seguia evitar as intrigas e os planos
sobre pessoas inocentes. No estudo dos outros e, como estava em débito
de 1 Samuel, já vimos as lições em com esses homens, tinha dificulda­
relação à morte de Saul, mas seria de em opor-se a eles. A marcha de
proveitoso examinar outros detalhes Davi para o trono foi difícil.
em relação ao assunto.
Observe que um amalequita A. O assassinato de Asael (cap. 2)
deu a notícia e afirmou ser a pes­ Joabe, Abisai e Asael eram filhos
soa que, finalmente, tirou a vida de de Zeruia, meia-irmã de Davi (1 Cr
Saul. Em 1 Samuel 15, se Saul tives­ 2:16 e 2 Sm 17:25). Portanto, eram
se obedecido ao Senhor e matado sobrinhos de Davi, como também
todos os amalequitas, isso não teria homens valorosos de seu exército.
acontecido. O pecado que não ma­ De início, Davi reinou sobre Judá,
tamos é o que nos mata. Veja Deu- sua tribo, e tinha seu quartel-gene-
teronômio 25:17-19. ral em Hebrom. No entanto, Abner,
O lamento de Davi é tocante; comandante do exército de Saul,
veja Provérbios 24:1 7. O "Hino ao declarou Isbosete, filho de Saul, rei
Arco" refere-se à habilidade de Jô­ sobre as outras tribos. Abner trans­
natas usar o arco (1 Sm 20:20ss). feriu a capital para Maanaim, so­
Nesse hino, não há palavras inde­ bre o rio Jordão, para proteger a si
licadas em relação a Saul. A prin­ mesmo e ao novo rei dos homens
306 2 Samuel 1-5

de Davi. É claro que Abner tinha in­ entre Abner e Isbosete. Abner tentou
teresse pessoal na casa de Saul, já fazer um acordo pacífico com Davi,
que era primo deste (1 Sm 14:50). mas os "filhos de Zeruia" conspira­
Ele visava vantagens pessoais com o ram contra ele e o mataram (vv. 26-
reinado de Isbosete, mas, ao coroá- 30). Na verdade, Joabe foi quem o
lo, desobedeceu deliberadamente à matou, mas é provável que seus ir­
Palavra de Deus. O Senhor deixara mãos também tivessem participação
claro que apenas Davi governaria no plano. As mãos de Joabe esta­
Israel. Talvez os cristãos de hoje se­ vam manchadas de sangue antes da
jam como os judeus daquela época: própria morte, pois ele não matou
permitimos que nosso Rei governe apenas Abner, mas também Absalão
apenas sobre uma parte de nossa (2 Sm 18:14) e Amasa (2 Sm 20:10).
vida, e o resultado disso é conflito e Davi pediu que seu filho Salomão
sofrimento. O assassinato de Asael, lidasse com Joabe, e ele fez isso (1
por Abner, foi o prelúdio da "lon­ Rs 2:5-6,28-34). É difícil dizer como
ga guerra" entre os dois reis (3:1). seria a história se Abner não tivesse
Como veremos, para tristeza de morrido. Com certeza, Joabe tinha
Davi, os dois irmãos remanescentes um poder incomum sobre Davi, em
vingaram a morte de Asael. especial depois que ajudou o rei em
seu complô assassino contra o ino­
B. O assassinato de Abner (cap. 3) cente Urias (11:14ss). No entanto,
As muitas esposas de Davi eram repare na conduta piedosa de Davi
uma violação direta de Deutero­ em relação à morte de Abner.
nômio 17:15-17. Alguns estudio­
sos acreditam que isso expressa a C. O assassinato de Isbosete (cap. 4)
lascívia de Davi e, no fim, causou A morte de Isbosete foi o ponto de
os muitos problemas familiares que virada, o caminho estava aberto para
contaminaram seus dias posterio­ que Davi reinasse sobre a nação in­
res. Amnom violou sua meia-irmã teira. Entretanto, Davi não aprovou
Tamar (cap. 13); Absalão rebelou-se o método usado pelos filhos de Ri-
contra Davi e tentou pegar a coroa mom e mandou matar os assassinos
(caps. 13— 18); e Adonias tentou ar­ por causa do crime que cometeram.
rancar o reinado de Salomão (1 Rs Davi sabia que Deus era capaz de
1:5ss). Abner também tinha proble­ elevá-lo ao trono; ele não praticaria
mas com a lascívia, pois tomou para o mal para que dele viesse o bem
si uma das concubinas de Saul, e o (Rm 3:8). Esses três assassinatos são
pretenso rei ficou descontente com uma evidência de que o caminho de
isso. Tal fato levou ao rompimento Davi para o trono foi sangrento. Que
2 Samuel 1-5 307

contraste com o nosso Salvador, que que Joabe foi o homem que Deus
derramou o. próprio sangue, não o usou para abrir a cidade. Alguns
de outros, para ganhar seu trono! estudiosos acham que os homens
Para conhecer a avaliação de Deus de Davi arrastaram-se, de surpresa,
sobre o caráter de Davi, veja 1 Cró­ para dentro da cidade através do sis­
nicas 22:8. tema de água, mas alguns arqueólo­
gos afirmam que o sistema de água
III. Davi sucede a Saul (5) não estava localizado naquele pon­
Davi reinou 7 anos em Hebrom so­ to. Pelo texto, parece claro que Davi
bre a tribo de Judá e 33 anos sobre usou o túnel de água como meio
toda a nação, totalizando 40 anos para entrar na cidade, e que Joabe
de reinado. Essa era a terceira un­ executou o plano mestre do rei.
ção de Davi — Samuel o ungiu na Não muito tempo depois de
casa de seu pai, em Belém, e os ho­ Davi estabelecer-se em sua cidade,
mens de Judá o ungiram em Hebrom o antigo inimigo, os filisteus, retor­
(2:4). Salmos 18 apresenta o cântico naram. Como isso é verdade em
de vitória de Davi depois que Deus nossa vida pessoal: Satanás espera
derrotou todos os seus inimigos e pela "bonança depois da tempesta­
deu-lhe paz. Esse é um bom salmo de" para atacar-nos de novo. Davi
para ler quando estamos com pro­ sabia que o único caminho para
blemas, pois mostra-nos como o Se­ a vitória era a vontade do Senhor.
nhor nos tira das dificuldades e leva- Assim, consultou-o imediatamente.
nos para o lugar das mais excelentes Observe que o segundo ataque (vv.
bênçãos. Com certeza, Davi não se 22-25) foi diferente do primeiro, e
deleitava com suas muitas tribula­ que Davi foi bastante sábio para
ções, mas ele podia olhar para trás buscar mais uma vez a orientação
e agradecer a Deus por elas. de Deus. Deus guiou-o em um novo
Agora, o rei precisava de uma caminho. Devemos ter cuidado em
cidade para ser a capital e, portanto, não guardar "cópias de papel-car-
escolheu Jerusalém. Essa fortaleza bono" da vontade do Senhor, mas
ainda não fora capturada Os 15:63; procurá-lo a cada nova decisão.
Jz 1:21), e os jebuseus eram arro­ Com certeza, a vontade de
gantes e desafiavam Davi a atacá- Deus era que Davi reinasse sobre a
los. Eles escarneciam: "Os cegos e nação inteira, como também é sua
os coxos te repelirão", mas Davi e vontade que Cristo seja Senhor so­
seus homens transformaram o es­ bre toda a nossa vida. Qualquer par­
cárnio deles em clamores de derro­ te que fique fora da vontade dele se
ta. Primeiro Crónicas 11:5-8 relata rebelará e trará problema. "Somos
308 2 Samuel 1-5

sangue do teu sangue" (5:1, NVI) e minho, ele sempre pôs Deus em pri­
"membros do seu corpo" (Ef 5:30) e meiro lugar e nunca buscou vingan­
devemos convidá-lo a reinar sobre ça nem retaliação contra Saul. Deus
nós. Apenas assim teremos paz e vi­ fez com que Davi fosse protegido e
tória completas. elevado de acordo com seu plano
O caminho de Davi para o tro­ e no seu tempo. Se apenas crermos
no levou muitos anos e trouxe mui­ nele, ele fará o mesmo por nós.
tas tribulações, mas, ao longo do ca­
2 Sa m uel 6 concordaram com o plano de Davi,
mas isso não faz com que as ações
subsequentes sejam corretas.
Ao estudar esse capítulo, leia 1 Cró­
O erro seguinte de Davi foi
nicas 13, 15 e'1 6 a fim de ter mais
informações a respeito desse im­ ignorar a Palavra de Deus. Em vez
portante acontecimento da vida de de pedir que os levitas carregas­
Davi. Salmos 132:16 narra o desejo sem a arca sobre os ombros (Nm
intenso de Davi de levar a "arca do 3:27-31; 4:15; 7:9; 10:21), ele se­
Testemunho" para seu lugar apro­ guiu o exemplo mundano dos filis­
priado. Por quase 20 anos, a arca teus e pôs a arca sobre um carro
esteve em Quiriate-Jearim (Baalá novo (1 Sm 6). Deus podia permitir
de Judá; veja 1 Sm 6:21—7:2), por­ que os filisteus usassem esse mé­
tanto Davi preparou uma tenda es­ todo, já que não eram o seu povo
pecial para ela em Jersusalém (1 Cr da aliança, instruído pela Palavra.
15:1) e preparou o retorno da arca Contudo, para os judeus, ignorar
sagrada para sua casa. Ele levou a ordem divina e imitar as nações
mais de três meses para concluir a pagãs era um convite ao desastre.
tarefa (6:11). Hoje, quantos cristãos e igrejas lo­
cais se amoldam "ao padrão deste
I. Davi desagrada o Senhor (6:1-11) mundo" (Rm 12:2, NVI), em vez de
Certamente, o desejo de Davi de le­ manter "o padrão" dado por Deus
var a arca de volta a Jerusalém era (Êx 25:40)? Todas as pessoas esta­
nobre, mas é possível ser "zeloso, vam entusiasmadas e alegres, mas
embora falte conhecimento", e fa­ isso não tornava seu método corre­
zer um bom trabalho da forma er­ to aos olhos de Deus. Israel queria
rada. Para início de conversa, Davi ser como "todas as nações" (1 Sm
não consultou o Senhor, mas sim 8:5), e isso levou à tragédia.
seus líderes políticos (1 Cr 13:1-4; E natural que, no fim, o método
observe 2 Sm 5:19 e 23). Parece que do homem de fazer o trabalho de
sua principal motivação era unir a Deus fracasse: os bois tropeçaram,
nação sob seu governo, não glorifi­ e a arca corria o risco de cair! Isso
car ao Senhor. Em 1 Crónicas 13:3, levou ao terceiro erro: um homem,
observe que Davi critica Saul por que não era levita, tocou a arca
negligenciar a arca. Talvez esse (veja Nm 4:15). Deus teve de julgá-
comentário de Davi tenha que ver lo imediatamente, ou sacrificaria
com o comportamento da filha de sua glória e permitiria que sua Pala­
Saul, Mical, relatado em 6:20ss. To­ vra fosse violada. A reação de Davi
dos os líderes e toda a congregação a esse súbito julgamento mostrou
310 2 Samuel 6

que o coração dele não estava total­ pressar a alegria de seu coração, e
mente certo com Deus nesse assun­ seu cântico glorificou ao Senhor. O
to, pois, primeiro, ele desgostou-se rei tirou suas vestimentas reais e se­
e, depois, sentiu temor. Davi, em guiu a procissão com as vestimentas
vez de fazer uma pausa e procurar a humildes dos levitas. Os levitas da­
vontade de Deus a fim de descobrir vam seis passos e faziam uma pausa
a causa do julgamento, parou a pro­ a fim de esperar para ver se Deus
cissão e rapidamente livrou-se da os aceitaria; quando não havia jul­
arca. Primeiro Crónicas 26:1-4 in­ gamento, eles ofereciam sacrifícios
dica que a família de Obede-Edom e, depois, continuavam no caminho
pertencia aos levitas e podia cuidar para Jerusalém.
com segurança da arca. E óbvio que a "dança" de Davi
Um erro leva ao outro! É mui­ diante do Senhor era uma expressão
to importante determinar qual é a espontânea de sua alegria porque a
vontade de Deus e, depois, seguir arca de Deus estava sendo devolvi­
o caminho dele na realização dessa da ao povo. Era indigno que Davi
vontade. agisse dessa forma? Claro que não!
Embora as atitudes dele não sejam
II. Davi demonstra seu zelo (6:11-19) apresentadas como exemplos que
Sem dúvida, durante esse intervalo devemos seguir, não ousemos ir
de três meses, Davi examinou seu para o extremo oposto e excluir to­
coração e confessou seus pecados. das as exteriorizações de alegria e
Com certeza, ele procurou a Lei a de louvor em nossa adoração ao Se­
fim de descobrir as instruções de nhor! Embora alguns crentes levem
Deus de como carregar a arca (1 Cr essa atividade a extremos, outros
15:1-2,12-13). Deus abençoou a talvez sejam culpados de ofender o
casa de Obede-Edom, e Davi que­ Espírito com uma falsa sobriedade.
ria essa bênção para toda a nação. Por fim, a "dança" de Davi não é, de
Dessa vez, ele preparou a tenda e modo algum, uma desculpa para as
também procurou os levitas que es­ "danças" modernas, pois seus atos
tavam adequadamente preparados aconteceram diante do Senhor com
para a tarefa. a finalidade de glorificá-lo.
Pensa-se que o salmo 24 foi Davi abençoou as pessoas e deu-
composto para celebrar esse even­ lhes presentes para celebrar o retorno
to. Em 1 Crónicas 16:7ss, desco­ da arca. Anos antes, a "glória partira",
brimos que o salmo 105 também mas agora o Senhor dos Exércitos vol­
surgiu por causa desse feliz aconte­ tara para o meio de seu povo. Não é
cimento. Deus usou Davi para ex­ de admirar que Davi se alegre!
2 Samuel 6 311

III. Davi disciplina sua esposa (6:20-23) delas (1 Co 2:14-16). Ela queria que
Observamos anteriormente que Mi­ Davi demonstrasse seu poder real
cal, filha de Saul, nunca foi a esposa com grande pompa e cerimónia; ele
certa para Davi. Ela pertencia à fa­ preferia ter seu lugar junto às pessoas
mília de Saul e, na verdade, nunca comuns e glorificar ao Senhor.
demonstrou fé alguma no Deus de As palavras ásperas que dirigiu
Israel. Primeiro Samuel 19:13 indica a Davi depois de um magnífico mo­
que ela adorava ídolos. Davi não a mento de louvor devem tê-lo ferido
tomou por esposa por causa da von­ profundamente. É verdade que Sa­
tade do Senhor; ele "ganhou-a" ao tanás sempre tem uma "Mical" para
matar Gol ias (1 Sm 17:25) e ao exe­ encontrar-nos quando nos regozija­
cutar os assassinatos exigidos por mos no Senhor e tentamos glorificá-
Saul (1 Sm 18:17-27). Essa aliança lo. Suas palavras perversas revelam
para toda a vida com a família de um coração perverso, e Davi sabia
Saul trouxe problemas desde o iní­ que devia lidar com isso. "Se tua mão
cio, como todas as alianças ímpias te faz tropeçar, corta-a." Ele perce­
o trazem (2 Co 6:14-18). O conflito beu que Mical nunca o ajudaria no
entre Saul e Davi simboliza a bata­ trabalho do Senhor, por isso a pôs de
lha entre a carne e o Espírito, e a lado e recusou dar-lhe os privilégios
união de Davi com Mical represen­ do casamento. Para a mulher judia
ta a rendição dele à carne. morrer sem ter filhos era uma gran­
Não é preciso muita imagina­ de vergonha. Davi respondeu a essa
ção para perceber por que Mical mulher insensata de acordo com a
desprezava o marido. Com certeza, estultícia dela (Pv 26:5).
sua atitude pecaminosa crescia em Não devemos nos desencorajar
seu interior havia anos. Ela ressentia- quando os outros nos criticam e sa­
se de ter casado com o escudeiro do bemos que nosso coração e motivos
pai como o "prémio" pela vitória. Ela estão certos. Se Davi fosse como al­
ressentia-se com o fato de Davi ter guns santos, diria: "Está certo, não
outras esposas (veja 3:2-5; 5:13-16), servirei mais ao Senhor! Nem mi­
todas escolhidas após seu casamen­ nha esposa gosta disso!". Como ve­
to com Davi. O pai dela morreu de mos no capítulo seguinte, Davi, ao
forma vergonhosa, e agora seu ini­ contrário, planejava fazer até mais:
migo reinava vitorioso sobre todo o construir um templo para o Senhor.
Israel. É claro que embaixo de tudo Este é o espírito certo para o cristão:
isso repousa o motivo fundamental: honrar ao Senhor sem levar em con­
ela era descrente e não acreditava sideração os obstáculos que Satanás
nas coisas do Senhor nem gostava ponha no caminho.
2 S a m uel 7 a fazer o que estava no coração
dele. Os dois, Davi e Natã, tinham
o coração aberto para a orientação
Nesse capítulo, encontramos duas
do Senhor e, quando o Senhor fa­
expressões que resumem sua princi­
pal lição: "teu descendente" (v. 12) lou, eles ouviram e obedeceram.
e "teu trono" (v. 16). Essa aliança Nós devemos sempre encorajar uns
davídica (também apresentada em aos outros em assuntos espirituais e
1 Cr 17) é importante para o progra­ estimularmo-nos a fazer boas obras
ma de Deus, porque nela o Senhor (Hb 10:24-25).
promete dar, por intermédio de Davi realmente era "um ho­
Davi, bênçãos especiais para a na­ mem segundo o coração de Deus",
ção judia. Na aliança com Abraão pois a Palavra de Deus e a Casa do
(Gn 15), o Senhor prometeu uma Senhor ocupavam o primeiro lugar
descendência, uma terra e bênção em seu coração. Oh, se mais pesso­
para todas as nações por intermé­ as de Deus fossem como ele!
dio de Israel. Nessa aliança, Deus
revela que o Messias prometido vi­ II. Uma promessa magnífica (7:4-17)
ria pela linhagem de Davi (Rm 13) e Provavelmente, "durante a noite"
governaria sobre o reino messiânico (SI 119:55), Natã meditava sobre a
prometido do trono de Davi. Palavra de Deus, quando o Senhor
falou com ele. Com que frequên­
1. Um propósito nobre (7:1-3) cia o Senhor fala conosco quando
Acabaram-se os dias de exílio e de ainda está escuro! Veja Génesis 15.
perigo, e Davi desfrutava de descan­ "De noite me visitas" (SI 17:3). Deus
so e de bênçãos em sua casa. O rei transmitiu a Natã uma mensagem
confraterniza com o profeta Natã, e para o rei, e essa mensagem envol­
eles conversam sobre as coisas do via muitas coisas importantes.
Senhor.
Davi sempre amou a Casa do A. A graça de Deus (vv. 5-10).
Senhor (SI 132) e desejava construir Como Deus é gracioso por ter, du­
uma bela casa para o Senhor. Deus rante anos, "andado em tenda" des­
não permitiu isso (1 Cr 22:8), mas de que a nação saiu do Egito! Ele não
ele conhecia o amor de Davi, visto pediu um templo primoroso como
que esse desejo estava no coração de as casas dos deuses do Egito. Não,
seu servo (1 Rs 8:18). Natã não co­ ele se humilhou e habitou no taber­
nhecia a vontade expressa de Deus náculo, peregrinou com seu povo e
em relação ao assunto, portanto ele foi adiante dele para abrir caminho.
apenas aprovou Davi e encorajou-o João 1:14 declara: "E o Verbo [Cris­
2 Samuel 7 313

to] se fez carne e habitou entre nós" dentes pecaram, o Senhor manteve
(grifo do autor). Outra evidência da sua promessa (v. 14) e castigou-os;
graça de Deus é o tratamento que veja Salmos 89:20-37. Deve-se no­
ele dá a Davi. O Senhor chamou-o tar também que alguns assuntos
nas pastagens e o pôs no trono. O dessa aliança se aplicam apenas a
Senhor deu-lhe vitória sobre todos Jesus Cristo. O Senhor afirma que
os inimigos. Ele trouxe Israel para estabelecerá o trono para sempre (v.
um lugar de bênção, e este não de­ 13), e que a casa e o trono de Davi
veria se mudar de novo (v. 10, em serão firmados para sempre (v. 16).
que os tempos verbais deveriam es­ No entanto, hoje, Davi não tem um
tar no passado: "Preparei lugar"). descendente em seu trono. Na ver­
dade, não há trono em Jerusalém.
B. O propósito de Deus (vv. 11-16) Deus não cumpriu sua promessa?
Por favor, observe que a palavra Em Salmos 89:33-37, o Senhor afir­
"casa" tem um sentido duplo nessa ma que nunca quebrará sua aliança
passagem: (1) a casa física, o templo com Davi, embora talvez tenha de
(v. 13) e (2) a casa humana, a famí­ castigar os filhos de Davi.
lia de Davi (vv. 11,16,19,25,27,29). O cumprimento último dessas
É costume referir-se a uma família promessas é em Jesus Cristo. Em
real como a "casa"; por exemplo, Lucas 1:28-33, leia com atenção a
a "casa de Windsor", na Inglaterra. mensagem do anjo a Maria e obser­
Davi queria construir uma casa físi­ ve que Deus promete a Cristo o tro­
ca para o Senhor, mas Deus cons­ no e o reino de Davi. Hoje, algumas
truiria uma casa real para Davi, uma pessoas "espiritualizam" esses ver­
família que reinaria em seu trono. sículos e os aplicam à igreja, mas,
Os termos dessa aliança são se devemos entender literalmente
importantes porque envolvem o o restante da mensagem do anjo,
propósito de Deus- de enviar Jesus que direito temos de espiritualizar o
Cristo ao mundo. Primeiro, obser­ trono e o reino? Zacarias, inspirado
vemos que algumas dessas pro­ pelo Espírito, afirma claramente que
messas cumpriram-se em Salomão, Cristo cumpriria as alianças feitas
sucessor de Davi ao trono; veja com os pais (Lc 1:68-75). E nossa
1 Crónicas 22:6-1 6. Deus pôs Salo­ convicção que Cristo cumprirá essa
mão no trono, apesar dos complôs aliança davídica quando se sentar
perversos de outros membros da no trono de Davi e governar durante
família, e o Senhor capacitou Salo­ o Reino milenar (Ap 20:1-6). Nesse
mão para construir um belo templo. momento, cumprir-se-ão todas as
Quando Salomão e seus descen­ promessas do grande Reino, confor­
314 2 Samuel 7

me apresentadas pelos profetas do Senhor, e o rei, em sua oração, lou­


Antigo Testamento. Em Atos 15:13- va a grandiosidade de Deus. Ele se
18, os apóstolos entenderam que deu conta da posição privilegiada
Deus reedificaria a casa de Davi (ta­ de Israel (vv. 22-24). Oh, que o povo
bernáculo) depois de visitar os gen­ de Deus de hoje entenda a grande­
tios e chamar um povo para o seu za de Deus e as coisas magníficas
nome (a igreja). que tem feito pelos seus! Contudo,
a preocupação de Davi não era
III. Uma oração humilde (7:18-29) para que seu nome fosse louvado,
Natã transmitiu a mensagem a Davi, mas para que o nome do Senhor
e este orou e pediu que Deus cum­ fosse engrandecido (v. 26; veja Fp
prisse sua Palavra (vv. 28-29). Re­ 1:20-21). Davi orou: "Quanto a esta
ceberíamos muito mais das lições palavra que disseste [...] faze como
e das pregações se, depois, apenas falaste". Davi, como Abraão, estava
gastássemos um tempo com Deus "plenamente convicto de que ele
e "orássemos a mensagem que há era poderoso para cumprir o que
nelas". prometera" (Rm 4:21).
O Senhor gosta de dar a seus Davi estava decepcionado por
filhos "infinitamente mais do que que Deus não lhe permitira cons­
tudo quanto pedimos ou pensamos". truir a casa do Senhor? Talvez. No
Davi pediu permissão para construir entanto, para ele, não era importan­
um templo terreno. Deus respondeu te quem construiria a Casa do Se­
prometendo-lhe um reino eterno! nhor, mas que a vontade de Deus se
Esse incrível ato de graça fez com cumprisse e que o nome do Senhor
que Davi se humilhasse diante do fosse glorificado.
2 S am u el 9 C. Ele perdeu o melhor
Mefibosete vivia em Lo-Debar, cujo
significado é "sem pastagem". Essa
Esse capítulo apresenta uma ima­
é uma descrição adequada do mun­
gem comovente da salvação que
do atual — sem pastagem, sem lugar
temos em Cristo. Com certeza, o
tratamento que Davi dispensa a Me- para a satisfação da alma. Os peca­
fibosete é o de "um homem segun­ dores estão famintos e sedentos, mas
do o coração de Deus". este mundo e seus prazeres não po­
dem satisfazer essa fome e essa sede.

I. Mefibosete — o pecador perdido D. Ele morreria sem a ajuda


de Davi
A. Ele nasceu em uma família Se não fosse pela graciosa atitude de
rejeitada Davi em salvá-lo, nunca saberíamos
Mefibosete, como filho de Jônatas, da existência de Mefibosete. Deus es­
era membro de uma família rejeita­ creveu o nome dele em sua Palavra,
da. Ele era filho de um príncipe, no porque Davi encontrou-o e salvou-o.
entanto vivia longe da cidade de Je­ O pecador perdido está em uma
rusalém e dependia dos outros. To­ situação trágica. Ele caiu, não pode
dos os pecadores perdidos nascem caminhar para agradar a Deus, está
em pecado, nascem na família de separado da família, está sob conde­
Adão e, por isso, estão sob conde­ nação e não pode ajudar a si mesmo.
nação (Rm 5:12ss; Ef 2:1-3).
II. Davi — o gracioso salvador
B. Ele sofreu uma queda e
não podia andar A. Davi fez o primeiro movimento
Mefibosete era aleijado dos dois A salvação é do Senhor! Ele tem de
pés (vv. 3,13) e, por isso, não podia dar o primeiro passo, porque o peca­
andar. Hoje, todas as pessoas são dor perdido, por natureza, não bus­
pecadoras por causa da queda de ca a Deus (Rm 3:10-12). Davi manda
Adão (Rm 5:12) e não podem andar buscar Mefibosete, assim como Deus
nem agradar a Deus. Os pecadores, enviou Cristo à terra para "buscar e
em vez de andarem em obediên­ salvar o perdido" (Lc 19:10).
cia, andam "segundo o curso deste
mundo" (Ef 2:2). Eles podem tentar B. Davi agiu por causa de Jônatas
caminhar para agradar a Deus, mas A atitude de Davi nasceu da aliança
não há auto-esforço nem boas obras de amor que ele e Jônatas fizeram
que os salvem. anos antes (1 Sm 20:11-23). Davi
316 2 Samuel 9

nunca vira Mefibosete, contudo E. Davi recebe-o em sua família


amava-o por causa de Jônatas. Não Mefibosete, como muitos pecadores
somos salvos por nossos méritos, de hoje, queria forçar seu caminho
mas por causa de Cnsto. Somos para o perdão (yv. 6,8), mas Dav\
perdoados por causa dele (Ef 4:32). o recebeu como a um filho (v. 11).
Somos aceitos "no Amado" (Ef 1:6). 0 filho pródigo também queria ser
Isso faz parte daquela "eterna alian­ servo, mas ninguém pode ganhar a
ça" (Hb 13:20-21) que, por causa salvação (Lc 15:18-19). "Amados,
de Jesus, o Pai salvaria todos os que agora, somos filhos de Deus!" Veja
crêem no Salvador. 1 João 3:1-2 e João 1:11-13.

C. Davi praticou um ato de bondade F. Davi falou em paz para ele


No versículo 3, Davi chama isso de "Não temas!", foram as palavras de
"bondade de Deus". Cristo demons­ graça de Davi ao trémulo aleijado, e
tra-nos sua bondade ao salvar-nos Cristo também diz a todos os cren­
(Ef 2:7; Tt 3:4-7). O trono de Davi tes pecadores: "Não temas!". "Ago­
era um trono de graça, não de jus­ ra, pois, já nenhuma condenação
tiça. Mefibosete não tinha nada a [...]" (Rm 8:1). Vivenciamos a paz
reivindicar para si perante Davi, ele por intermédio da Palavra do Se­
absolutamente não tinha nenhum nhor diante de nós e do Espírito de
caso para apresentar. Se ele apare­ Deus em nós.
cesse diante do trono pedindo por
justiça, poderia ser condenado. G. Davi supriu todas as
necessidades dele
D. Davi chamou-o pessoalmente> Mefibosete não viveria mais "sem
e e/e veio pastagem", pois agora comeria to­
Davi enviou um servo para trazê- dos os dias à mesa do rei. Além dis­
lo (v. 5), mas, depois, o servo saiu so, Ziba e seus frlhos tornaram-se
do caminho para dar espaço para o servos de Mefibosete. E Davi deu a
rei. Ninguém é salvo pelo pregador, Mefibosete toda a herança que lhe
ou pelo evangelista; tudo o que os pertencia. Da mesma forma, Cristo
servos podem fazer é acompanhar satisfaz todas as necessidades es­
o pecador até a presença de Cristo. pirituais e materiais de sua família.
Observe como Mefibosete inclina- Ele deu-nos uma herança eterna (Ef
se em humildade diante de Davi, 1:11,18; 1 Pe 1:4ss; Cl 1:12). Se ele
pois ele conhecia sua situação de desse a herança que merecemos por
homem condenado. Com que ter­ direito, iríamos para o inferno! Mas
nura Davi disse: "Mefibosete". ele, em sua graça, escolheu-nos
2 Samuel 9 317

para compartilhar sua herança com em mente que a salvação que Cris­
ele, pois somos "co-herdeiros com to nos oferece supre "muito mais"
Cristo" (Rm 8:1 7). que isso. Davi salvou Mefibosete do
perigo físico e supriu suas necessi­
H. Davi protegeu-o do julgamento dades físicas, mas Cristo salvou-nos
Segundo Samuel 21:1-11 relata que do inferno eterno e satisfaz diaria­
Deus enviou fome para castigar seu mente nossas necessidades físicas e
povo. Quando Davi consulta Deus, espirituais. Não somos filhos de um
fica claro que a fome veio por cau­ rei terreno; somos os verdadeiros fi­
sa da forma perversa com que Saul lhos de Deus.
tratou os gibeonitas. A Bíblia não Segundo Samuel 16:1-4 esclare­
apresenta a forma exata como Saul ce essa diferença. Quando Davi fu­
tratou os gibeonitas, mas, já que Is­ giu de Jerusalém durante a rebelião
rael fez um pacto com esse povo (Js de seu filho Absalão, Ziba, o servo,
9), os atos de Saul eram uma vio­ encontrou-o e fez uma acusação
lação direta da verdade e um pe­ contra Mefibosete. Davi acreditou
cado contra o Senhor. Deus espe­ na acusação e, na mesma hora, deu
rou muitos anos para revelar esse toda a terra de Mefibosete ao ser­
pecado e mandar julgamento: "Sa­ vo. Entretanto, quando Davi retor­
bei que o vosso pecado vos há de nou a Jerusalém, encontrou-se com
achar." Veja Êxodo 21:23-25. Não Mefibosete e soube toda a verda­
nos cabe, nesta era da graça, julgar de (2 Sm 19:24-30). Ziba mentira.
aquele povo por pedir o sacrifício Ele prometera arrumar um jumento
de sete descendentes de Saul; bas­ para Mefibosete usar na fuga com
ta para nós saber que Deus permi­ Davi, contudo não cumpriu a pro­
tiu que isso acontecesse. Observe messa. Ziba caluniou um homem
que Davi, deliberadamente, poupa inocente, e Davi acreditou na ca­
Mefibosete (v. 7). Havia outro Me­ lúnia. É claro que isso nunca acon­
fibosete entre os descendentes de tece entre um crente e Jesus Cristo.
Saul (v. 8), contudo Davi conseguia "Quem intentará acusação contra
distingui-los! Hoje, há muitas pes­ os eleitos de Deus? [...] Quem os
soas que professam ser filhos de condenará?" (Rm 8:33-39). Satanás
Deus, mas nem sempre podemos pode acusar-nos e caluniar-nos,
distingui-los. Deus, porém, no Dia mas o amor de Cristo por nós ou
do Julgamento, revelará os que são suas promessas para nós jamais
realmente seus. mudam.
Obviamente, enquanto estu­ Vemos em Mefibosete a atitude
damos essa ilustração, devemos ter que o crente deve ter em relação ao
318 2 Samuel 9

"retorno do Rei". Esse aleijado exila­ e orou pelo retorno daquele que o
do viveu para o dia do retorno de seu amara e o salvara da morte. Mefibo­
rei! Ele não tinha pensamentos para sete estava tão enlevado com o retor­
o próprio conforto; antes, esperou no de Davi que abriu mão da terra.
2 S am u el 1 1 - 1 2 soldado cristão não deve tirar nunca
sua armadura (Ef 6:1 Oss).
Tiago 1:13-15 descreve o caso
A Bíblia relata com honestidade os
de Davi com perfeição: (1) a visão
pecados do povo de Deus, mas nun­
ca de uma forma que tome o peca­ ativou seu desejo, e ele fracassou
do aceitável. De forma distinta de em refreá-lo; (2) o desejo concebeu
muitos livros de hoje que se dizem o pecado em sua mente; (3) sua von­
"verdades da vida", a Bíblia apresen­ tade entregou-se, e isso levou ao pe­
ta os fatos e delineia as lições, mas cado; (4) seus atos levaram à morte.
não deixa nada em que a imagina­ Ele não vigiou, nem orou conforme
ção possa frutificar. Há algumas coi­ Mateus 26:41 ordena e, tampouco,
sas que são "vergonha" apenas em tratou de forma decisiva com seus
se referir a elas (Ef 5:12), e devemos "olhos errantes" (Mt 5:29 e 18:9).
estudar os eventos desses capítulos Davi podia vencer a tentação
com a mente e o coração guiados (pois não é pecado ser tentado)
pelo Espírito. "[...] guarda-te para que ao lembrar-se da Palavra de Deus
não sejas também tentado" (Gl 6:1). (Êx 20:14) ou ao pensar que Bate-
Seba era filha e esposa de alguém
(v. 3). Na verdade, ela era casada
I. Davi e Bate-Seba (11:1-4) com um dos mais valentes solda­
Não foi um jovem apaixonado que dos do exército de Davi (23:39),
deliberadamente caiu nesse peca­ e também era neta de Aitofel, que
do, mas um homem de Deus que já mais tarde se rebelou contra Davi e
alcançara a meia-idade. É fácil ver tomou o partido de Absalão (23:34
como Davi caiu nesse pecado: (1) e caps. 16— 17). Davi já tinha mui­
ele estava autoconfiante depois de tas esposas, e Deus ainda lhe daria
desfrutar de vitórias e de prospe­ muito mais (12:8). Foi muito ruim
ridade; (2) ele desobedeceu, pois que o registro desse homem piedo­
estava em casa quando devia estar so fosse prejudicado para sempre
no campo de batalha; (3) ele esta­ pelo "caso de Urias, o heteu" (1 Rs
va à toa, deitado na cama durante 15:5). Claro, temos de admitir que
a tarde; (4) ele foi auto-indulgente, a mulher também teve culpa, mas
ao libertar seus desejos quando de­ Davi, como rei, certamente é mais
via disciplinar-se; e (5) ele foi des­ culpado.
cuidado, ao permitir que seus olhos
vagassem e se entregassem à "con­ II. Davi e Urias (11:5-27)
cupiscência da.carne, [à] concu­ Tiago 1:15 adverte que "a cobi­
piscência dos olhos" (1 Jo 2:16). O ça, depois de haver concebido,
320 2 Samuel 11-12

dá à luz o pecado". Como essas 111.Davi e o Senhor (12)


palavras são verdadeiras na expe­
riência de Davi. Em vez de ir ao A. A confissão de Davi (vv. 1-14)
Senhor e confessar seu pecado, Davi escondeu seus pecados por,
o rei despacha o marido e tenta pelo menos, um ano. Leia os sal­
enganá-lo a fim de que fosse para mos 32 e 51 para ver a descrição
sua casa. Com certeza, isso cobri­ dos sentimentos de Davi durante
ria o pecado. Contudo, Urias era esse período difícil. Ele ficou fisi­
um homem melhor que seu rei e camente fraco e doente, perdeu a
recusou-se a ir para casa! Compa- alegria, seu testemunho, seu poder.
re a auto-indulgência de Davi, nos Deus deu muito tempo para que
versículos 1-2, com a disciplina Davi corrigisse seus erros, mas ele
de Urias, no versículo 11. Assim, insistiu em esconder os pecados. Se
Davi, quando falhou seu primeiro ele, por conta própria, tivesse ido
plano, tentou um novo esquema e até o Senhor, em sincero arrepen­
embebedou o homem. Contudo, dimento, posteriormente as coisas
Urias, mesmo sob influência do poderiam ter tomado um rumo di­
vinho, era um homem mais disci­ ferente. Por fim, Deus enviou Natã,
plinado que Davi sóbrio! não com uma mensagem de bênção,
O pecado ainda crescia: Davi
como no capítulo 7, mas com uma
decidiu assassinar o homem e, de­ mensagem de condenação. Como é
pois, pegar sua esposa. Joabe esta­ fácil condenar os pecados dos ou­
va mais que disposto a colaborar, tros! Contudo, Natã, com destemor,
já que isso lhe daria a chance de disse a Davi: "Tu és o homem".
mais tarde obter alguma vantagem Temos de elogiar Davi por cur­
com o rei. Aquele dia, Urias levou var-se à autoridade da Palavra de
para o campo de batalha a ordem Deus e confessar seu pecado. Ele po­
da própria morte. O plano de Davi deria matar Natã. (Observe que Davi
funcionou, e o valente soldado foi até deu o nome de Natã a um filho,
morto em combate. Davi "fingiu 1 Cr 3:5; Lc 3:31). Deus estava pron­
sentir" sua morte e esperou passar to para perdoar os pecados de Davi,
a semana de luto; depois, casou- mas ele não podia impedir que es­
se com a viúva. Talvez algumas ses pecados gerassem "a morte" (Tg
pessoas na corte tenham pensado 1:15). A graça do Senhor perdoa, mas
de forma elogiosa sobre o fato de o governo dele tinha de permitir que
Davi confortar Bate-Seba dessa os pecadores colhessem o que se­
forma, mas o Senhor pensou de mearam. Veja. Salmos 99:8. "Restituo
forma diversa. quatro vezes mais! "Davi declarou a
2 Samuel 11-12 321

punição para o homem da história e sua fé na bondade do Senhor.


de Natã. Assim, Deus aceitou a sen­ Apreciamos também sua confiança
tença que ele deu. A espada jamais na Palavra de Deus, pois ele sabia
se afastaria da casa de Davi: o bebê que a criança fora para o céu (v. 23).
morreu; Absalão matou Amnom, Embora abominemos o pecado de
que arruinara Tamar (cap. 13); de­ Davi e todos os problemas que ele
pois, Joabe matou Absalão (18:9-17); acarretou, agradecemos ao Senhor
e Benaia matou Adonias (1 Rs 2:24- esse magnífico versículo de promes­
25). Quatro vezes mais! Acrescente sa para pais pesarosos pela perda de
a isso as tribulações com a terrível um filho. (Como Vance Havner dis­
desgraça de Tamar, o vergonhoso tra­ se: "Quando você sabe onde algu­
tamento que Absalão deu às esposas ma coisa está, você não a perdeu".)
de Davi (12:11; 16:20-23), mais a re­ "Onde abundou o pecado, supera-
belião de Absalão, e verá que Davi bundou a graça!" Note também que
pagou um preço alto por uns poucos é errado orar pelos mortos. Davi pa­
momentos de prazer concupiscente. rou de orar pela criança.
Ele semeou concupiscência e colheu
a mesma coisa; ele semeou morte e C. As conquistas de Davi (vv. 26-31)
colheu assassinos, pois "aquilo que Esse trágico episódio inicia-se com
o homem semear, isso também cei­ Davi regalando-se em casa, mas
fará" (Gl 6:7). encerra-se com ele assumindo seu
lugar de direito no campo de ba­
B. O arrependimento de Davi talha e liderando a nação em uma
(vv. 15-25) importante vitória. É encorajador
No momento em que a mão dis- ver que Deus estava disposto a usar
ciplinadora de Deus moveu-se, o Davi de novo, apesar de seus peca­
bebê ficou doente. Natã disse que dos. Ele confessou seus pecados, o
ele morreria (v. 14), contudo Davi Senhor perdoou-o, e agora ele po­
jejuou e orou pela vida da criança. dia lutar de novo pelo Senhor. Pecar
Ele não ouviu nem aos seus servos; é ruim para os crentes, mas tam­
no entanto, no fim da semana, a bém é ruim que vivam no passado e
criança morreu. O jejum e as ora­ sintam-se inúteis mesmo depois de
ções de Davi não podiam mudar a confessarem seus pecados. Satanás
deliberação do Senhor. Ele comete­ ama prender o povo de Deus em
ra um pecado de morte, e é errado lembranças de pecados que Deus
orar por esse pecado (1 Jo 5:14-16). já perdoou e esqueceu. Satanás é o
No entanto, prezamos a preocupa­ acusador (Ap 12:10; Zc 3), mas Je­
ção de Davi com a criança e a mãe, sus é o Advogado (1 Jo 2:1-2).
322 2 Samuel 11-12

Os versículos 24-25 irradiam nho de fuga para quando enfrentamos


a graça de Deus, pois ele escolheu tentação. No entanto, não podemos,
Bate-Seba para ser a mãe do próxi­ como no caso de Davi, superar a ten­
mo rei! "Salomão" significa "pacífi­ tação se permitirmos que nosso desejo
co". "Jedidias" significa "amado por assuma o comando. Temos de prestar
Jeová". Deus transformou a maldi­ atenção ao início do pecado e man­
ção em bênção, pois Salomão era ter nossa imaginação pura. O apóstolo
o cumprimento da promessa feita a Raulo ordena-nos: "façam morrer tudo
Davi em 1 Crónicas 22:9. o que pertence à natureza terrena", e
Que esse acontecimento da vida a mortificarmos os membros do corpo
de Davi sirva de advertência para todos que nos levam a pecar (Cl 3, NVI; Rm
os cristãos a fim de que "veja[m] que 6). Todos os crentes precisam vigiar e
não caia[m]" (1 Co 10:12). Primeira orar e não dar provisão para a carne
aos Coríntios 10:13 promete um cami­ (Rm 13:14).
2 S am u el 1 5 - 1 9 para que trouxesse seu filho apósta­
ta de volta para casa.
Absalão precisa de pouco tem­
Davi continua a colher a triste ceifa de
seus pecados; veja 2 Samuel 12:10- po para construir um grupo de segui­
12. Ao mesmo tempo que nosso Se­ dores leais. Ele critica abertamente a
nhor é gracioso em perdoar quando administração do pai e secretamente
confessamos nossos pecados, ele rouba o coração do povo. (Observe
não viola sua santidade interferindo que algumas versões traduzem os
com os trágicos resultados dos nos­ "quatro anos" de 15:7 por "quarenta
sos pecados. anos". Se quarenta anos for o tempo
correto, não sabemos a que evento
do passado o escritor se refere.) De­
I. A rebelião do príncipe (15:1-12) pois de um tempo, Absalão achou
Leia os capítulos 13 e 14 para ver que seu movimento estava forte o
a história inteira. Tamar, a bonita suficiente para arriscar uma revol­
irmã de Absalão, foi desonrada pelo ta declarada. Não é de admirar que
meio-irmão Amnom, o filho mais Aitofel, conselheiro de Davi, tenha
velho de Davi (3:2). Davi comete aderido aos rebeldes, pois Beta-Seba
adultério com Bate-Seba; agora o era sua neta (11:3 paralelo a 23:34).
estupro invade sua casa! Absalão Parecia que Absalão teria sucesso em
tem dois propósitos em mente quan­ roubar a coroa do pai.
do descobre o que Amnom fez: ele,
ao matar Amnom, quer vingar Ta­ II. A reação do povo (15:13— 16:23)
mar e, ao mesmo tempo, remover o Os inimigos reais, enquanto Davi
herdeiro óbvio do trono. Isso parece reinou com poder, não ousaram
indicar que Davi não tem influência opor-se a ele, mas a revolta de Ab­
disciplinadora sobre a própria famí­ salão deu-lhes o que pareceu uma
lia. Em 13:21, lemos a respeito da ótima oportunidade para resistir ao
raiva de Davi, mas não há nada a rei e afastá-lo. Era tempo de separar
respeito de sua atitude para corrigir o verdadeiro do falso.
as coisas. Talvez a lembrança dos
próprios pecados o reprima. Absa­ A. Os amigos de Davi (15:13-37)
lão tomou a situação nas mãos e Deixar Jerusalém foi uma sábia de­
matou Amnom, depois fugiu para o cisão de Davi, pois não seria neces­
território dos gentios para se escon­ sária muita força para prendê-lo no
der dos parentes de sua mãe (13:37 próprio palácio. Veja que os gentios
e 3:3). No capítulo 14, Joabe inter­ de seu exército, liderados por Itaí,
cedeu por Absalão e enganou Davi o geteu, eram leais ao rei. Sem dú-
324 2 Samuel 15-19

vida, esses homens estiveram com se posicionam. Ziba mentiu para


Davi em seus penosos anos de exí­ Davi a respeito de Mefibosete (veja
lio. Os dois sacerdotes, Zadoque 19:24-30), e Davi foi rápido em jul­
e Abiatar, também seguiram o rei, gar Mefibosete. Simei era aparenta­
mas Davi mandou-os de volta para do com a família de Saul e mostrava
a cidade. Esse ato, em si, era um ato abertamente seu ódio por Davi. Este
de fé, pois Davi confiava em Deus teve paciência admirável durante
para lhe dar vitória e fazê-lo retor­ essa provação; pois ele sabia que o
nar ao trono. Davi não cometeu o Senhor o vingaria no momento cer­
erro dos filhos de Eli, quando estes to. Abisai queria cortar a cabeça dos
se apressaram em trazer a arca para homens (veja Lc 9:54 e 1 Pe 2:23),
a batalha (1 Sm 4—5); ele mandou mas Davi impediu-o. Davi não foi
os sacerdotes e a arca de volta para desonrado apenas no deserto, mas
Jerusalém. Claro que os sacerdotes também em seu palácio. Pois Aito­
podiam espionar para ele e enviar os fel aconselhou Absalão a tomar as
filhos com informações para Davi. concubinas do pai para si mesmo
Ele também mandou Husai de volta e, desse modo, romper abertamente
a Jerusalém para passar-se por aliado com o pai. Assim, cumpria-se a pro­
de Absalão, e o conselho dele pode­ fecia de 12:11-12.
ria mudar o que Aitofel dera. É uma Hoje, os homens desprezam
imagem triste a de Davi e seu pe­ e rejeitam nosso Senhor Jesus, da
queno exército fugindo da cidade e mesma forma como fizeram com
atravessando o ribeiro Cedrom. Isso Davi durante a rebelião. Hoje, os
lembra quando nosso Senhor Jesus homens e mulheres precisam de co­
foi rejeitado em Jerusalém, deixou a ragem para permanecer fiéis ao Rei,
cidade e atravessou o Cedrom para mas temos certeza de que Deus re­
orar no jardim (Jo 18:1). No caso de compensará essa lealdade quando
Davi, o "Judas" foi seu antigo ami­ Jesus retornar.
go Aitofel; talvez Davi tenha escrito
o salmo 55:12-15 nessa época. Os III. A avaliação do Senhor (17— 19)
salmos 3 e 4 foram escritos durante Deus permitiu essa rebelião como
essa rebelião, e eles mostram onde parte do preço que Davi tinha de
estava a fé de Davi. pagar pelo pecado que cometeu
em relação a Urias e Bate-Seba. O
B. Os inimigos de Davi (cap. 16) Senhor também reverteu os eventos
Os tempos de rebelião são reve­ para purificar o reinado de Davi e
ladores. Vemos no que as pessoas separar o benigno do maligno. Fi­
realmente acreditam e de que lado nalmente, chegara o dia do ajuste
2 Samuel 15-19 325

de contas. Às vezes, o julgamento do perverso" (Ez 33:11). Entretanto,


de Deus cai prontamente, e, outras o pesar incomum de Davi quase lhe
vezes, ele espera e age com vagar. custou o reinado.

A .A ito fel morre (cap. 17) C. Simei é perdoado (19:16-23)


Não há dúvida de que o plano de Muitos rebeldes tentaram "mudar
Aitofel era o melhor dos dois, mas de tom" quando o rei voltou! Davi
Deus fez com que Absalão o rejei­ tentava juntar os pedaços de seu rei­
tasse. Observe a abordagem psico­ nado, portanto não podia se dar ao
lógica de Husai ao sugerir que o luxo de indispor-se com qualquer
próprio Absalão liderasse o exérci­ uma das tribos, mas, mais tarde, Sa­
to na batalha. Essa sugestão apela­ lomão deu a Simei o que ele mere­
va para a vaidade do homem, mas, cia (1 Rs 2:36-46).
infelizmente, no fim, a vaidade leva
apenas à morte. Aitofel, quando vê D. Ziba e Mefibosete se reconciliam
seu conselho rejeitado, tira a pró­ (19:24-30)
pria vida. Esse é outro paralelo com A chegada de Ziba em companhia
o que Cristo vivência, pois Judas saide Simei não falava a favor daquele
e se enforca. (vv. 16-1 7). Com certeza, Ziba men­
tira a respeito de seu senhor, e Davi
B. Absalão morre (18:1 — 19:15)tentou dar-lhe um julgamento justo.
O vaidoso príncipe segue o conse­ Infelizmente, sua decisão apressada
lho de Husai e lidera seu exército anterior dificultou para ajeitar com­
no bosque de Efraim. Com certeza, pletamente as coisas, mas prezemos
ele não estava preparado para travar a atitude de Davi. Mefibosete dá-
uma guerra, mas "a soberba prece­ nos um bom exemplo de preocupa­
de a ruína, e a altivez do espírito, ção com o rei ausente.
a queda" (Pv 16:18). Os longos ca­
belos de Absalão (14:25-26) fica­ E. Barzilai é recompensado (19:31-43)
ram presos em um ramo de carva­ Ele trouxe ajuda para a comitiva de
lho, e ele não conseguiu soltar-se. Davi no momento de necessidade
(Veja Jó 20:1-7.) Joabe desobedeceu (17:27-29), e, sem dúvida, esse ato
à ordem de Davi (18:5) e matou o de bondade rendeu-lhe amigos, pois
rebelde. Depois, mandou a notí­ ele foi magnificamente recompen­
cia ao rei, que, ao ouvi-la, chorou sado quando o rei voltou! Barzilai
em profunda comoção. Davi era não queria deixar sua casa e mor­
"um homem segundo o coração de rer longe dos entes queridos. Assim,
Deus" e não tinha "prazer na morte ele sugeriu que as bênçãos fossem
326 2 Samuel 15-19

dadas a Quimã (talvez um filho ou têm em relação a Cristo. Há uma


neto seu). Jeremias 41:17 informa minoria leal que permanece ao
que Davi deu a Quimã terra perto lado do Rei ausente, e uma maioria
de Belém, e que a família deste vi­ egoísta que prefere se rebelar. Mas
veu lá por muitos anos. o que acontecerá quando o Rei re­
Com certeza, todo esse episó­ tornar? E o que nós, seus seguidores,
dio da rejeição e do retorno de Davi estamos fazendo para apressar seu
ilustra a atitude que as pessoas hoje retorno (2 Pe 3:12)?
2 Samuel 24 até usou o sábio conselho de Joa­
be para dissuadi-lo, mas Davi não
o escutou. É muito ruim quando, às
Leia também 1 Crónicas 21, o rela­
vezes, os filhos do Senhor tornam-
to que faz paralelo com esse grande
pecado de Davi. Eis outro exemplo se obstinados de coração e insistem
de como, às vezes, Deus deixa Sata­ em fazer as coisas a sua própria ma­
nás trabalhar para que os propósitos neira.
do Senhor sejam cumpridos. Veja O pecado de Davi não resul­
Lucas 22:31-34. tou de uma atitude precipitada,
pois ele levou-o a cabo com pre­
cisão fria e calculada. Ele estava
I. Pecado (24:1 -9) se rebelando contra Deus! Há uma
O que há por trás da decisão de Davi série de contrastes interessantes en­
de fazer um censo nacional? Prova­ tre esse pecado e o que cometeu
velmente, o orgulho: ele obtivera com Bate-Seba: (1) esse era um pe­
várias grandes vitórias (1 Cr 18—20) cado do espírito (orgulho), enquan­
e, talvez, quisesse abrigar-se na gló­ to o outro era da carne; (2) aqui ele
ria do sucesso. Não havia nada de age com persistência intencional,
errado em fazer um censo, mesmo enquanto o pecado com Bate-Seba
porque, diversas vezes na história resultou da subjugação repentina
nacional, já se contara as pessoas; aos desejos da carne; (3) esse pe­
contudo, devemos ter em mente cado envolvia a nação, e 70 mil
que o recenseamento que louva os pessoas morreram por causa dele;
homens não glorifica a Deus. o outro, era um assunto de família
Êxodo 30:11-16 é outro fator a que causou a morte de quatro pes­
ser considerado em relação a esse soas. Contudo, o Senhor, nos dois
caso. Em conexão com o censo, pecados, deu tempo a Davi para
estava o "dinheiro do resgate" que que se arrependesse, mas ele de­
cada um devia dar, pois esse dinhei­ morou demais.
ro era um lembrete de que o povo Talvez achemos que o orgu­
era a posse adquirida pelo Senhor. lho e a rebelião contra a Palavra do
Êxodo 30:12 adverte que o Senhor Senhor não sejam pecados muito
enviaria praga se o povo deixasse de sérios, mas, na vida de Davi, eles
dar o dinheiro do resgate, e foi exa- causaram tribulações e tragédias
tamente isso que aconteceu. maiores que seu adultério. De­
Deus deu quase dez meses a vemos guardar-nos dos pecados
Davi para que mudasse sua mente e "tanto da carne como do espírito"
evitasse a disciplina (v. 8). O Senhor (2 Co 7:1).
328 2 Samuel 24

II. Sofrimento (24:10-17) praga sobre o povo. Perto da hora


"O salário do pecado é a morte." do sacrifício da tarde (15 horas), o
Observe que Davi sentia-se culpado anjo já matara 70 mil pessoas com
em seu coração antes de vir o julga­ aquela praga. Davi e seus anciãos
mento. Com certeza, ele era honesto viram o anjo do julgamento, e Davi
consigo mesmo e com o Senhor, mas imediatamente intercedeu pelo
sua culpa e arrependimento chega­ povo. "Estas ovelhas que fizeram?
ram muito tarde. Em 12:13, Davi dis­ Seja, pois, a tua mão contra mim."
se: "Pequei", mas aqui ele diz: "Mui­ No entanto, lembremo-nos de que
to pequei" (grifo do autor). Do ponto o Senhor tinha uma demanda pre­
de vista do homem, recensear o povo cisa contra toda a nação (24:1) e
não parece um pecado maior que o usava o pecado de Davi como mo­
adultério e o assassinato, mas, do tivo para julgar o povo. Talvez o
ponto de vista do Senhor, recensear Senhor estivesse punindo a nação
o povo era um pecado maior em re­ por sua rebelião contra Davi, pois
lação à desobediência e às consequ­ muitos deles seguiram Absalão.
ências dela. Jesus, quando estava na Aqui, há uma advertência prá­
terra, era clemente com os publica- tica para os que ocupam cargo de
nos e os pecadores, mas severo com autoridade: quanto mais alto o car­
o orgulho e a rebelião. Certamente, go, mais alta a preponderância para
tanto o pecado do espírito como o o bem ou para o mal. Em Levítico 4,
da carne são maus, e a pessoa não vimos que, se o sumo sacerdote
deve se envolver em nenhum deles, peca, tem de trazer um boi como
mas não ousemos subestimar as hor­ oferta (v. 3), o mesmo sacrifício que
ríveis consequências do orgulho e da Deus exige se toda a congregação
desobediência obstinada. peca (vv. 13-14)! Dessa vez, o peca­
O Senhor permitiu que Davi do de Davi envolveu toda a nação,
escolhesse o próprio castigo, e da mesma forma que seu "pecado
sua escolha mostrou a compaixão familiar" envolveu toda a sua casa.
de seu coração. (Os "sete anos de
fome", do v. 13, deveriam ser "três III. Sacrifício (24:18-25)
anos" para fazer paralelo com os A demora no julgamento envolveu
três meses e com os três dias das dois fatores: a misericórdia do Senhor
duas outras punições.) Davi pre­ (v. 16) e a confissão e o sacrifício do
feriu cair nas mãos de seu Senhor pecador (vv. 17ss). O Senhor enviou
misericordioso que cair nas mãos uma mensagem para seu servo cons­
dos homens. Às 6 horas da manhã, truir um altar no local em que viu o
o anjo do Senhor veio e trouxe a anjo, "na eira de Araúna" (ou Ornã).
2 Samuel 24 329

Davi e seus anciãos foram imediata­ A. Nunca superamos a tentação


mente ao local e providenciaram a Davi não era um jovem inexperien­
compra: ele pagou 600 siclos de ouro te quando cometeu esse pecado! Se
pelo lugar (a área inteira, 1 Cr 21:25) ele estivesse "vigia[ndo] e ora[ndo]",
e 50 siclos de prata pelos bois e pe­ não teria caído em tentação nem
los trilhos (2 Sm 24:24). Ornã queria pecado com tanta facilidade.
dar tudo de graça a seu rei, mas Davi
não aceitou. Ele não daria ao Senhor B. Graciosamente> Deus dá-nos
o sacrifício de outro homem! Ofere­ tempo para o arrependimento
cer um sacrifício barato é pior que Ele deu mais de nove meses a Davi
não oferecer nenhum sacrifício. Esse para lidar com seus pecados e con­
é um bom princípio para seguir em sertar as coisas. "Buscai o S en ho r
nosso caminhar cristão. enquanto se pode achar."
Imediatamente, Davi ofereceu
os bois como oferta queimada de C. Pecados do espírito causam
consagração ao Senhor, e o derra­ grandes danos
mamento de sangue tratou dos peca­ Todo pecado é ruim e, com certeza,
dos. Segundo Crónicas 3:1 informa- deve-se evitá-lo; contudo, devemos
nos que essa exata área era o local perceber que a Bíblia condena rei-
do templo de Salomão. Deus trans­ teradamente o orgulho obstinado. A
formou a maldição em bênção! É partir do momento em que Davi en­
interessante observar que Salomão trou na rota do pecado, ele foi mui­
era filho de Bate-Seba, com quem to orgulhoso para mudar de atitude.
Davi cometeu adultério; contudo, O rei Saul, seu predecessor, come­
Salomão sucedeu a Davi e, por fim, teu o mesmo erro. Podemos não ser
construiu o templo sobre o pedaço culpados de adultério e assassinato,
de chão que estava associado ao mas o coração duro e o orgulho tal­
maior pecado de Davi — o de recen­ vez levem a desgraças maiores.
seamento do povo. Esse é o incrível
trabalho da graça do Senhor! É claro D. Nossos pecados envolvem
que não devemos fazer "males para os outros
que venham bens" (Rm 3:8), mas Setenta mil pessoas morreram por­
podemos descansar confiantemente que Davi desobedeceu ao Senhor.
na certeza de que "todas as coisas
cooperam para o bem daqueles que E. Confissão verdadeira custa caro
amam a Deus" (Rm 8.28). Nós percebemos o alto custo do pe­
Observemos algumas lições cado? A confissão verdadeira é mais
práticas desse capítulo: que uma rápida oração e citação de
330 2 Samuel 24

1 João 1:9! A confissão verdadeira F. Deus perdoa e


envolve enfrentar o pecado com ho­ envia bênçãos
nestidade e obedecer à Palavra de Ponhamo-nos nas mãos do Senhor,
Deus, independentemente do preço pois grande é sua misericórdia em
a se pagar por isso. relação a nós!
1 R eis 1 - 4 Entretanto, três servos leais to­
maram a frente no assunto e infor­
maram Bate-Seba do que acontecia.
Agora, iniciamos o estudo da vida e
Ela, por sua vez, levou a mensagem
do reinado de Salomão, filho e su­
cessor de Davi no trono de Israel. ao rei Davi, sabendo que ele não
Em Davi, temos um modelo de Cris­ quebraria a promessa de que Salo­
to em sua humilhação, em seu exí­ mão, seu filho, seria o próximo rei.
lio e em sua rejeição, mas, em Salo­ Todo o plano correu bem, e Davi
mão, vemos o "Príncipe da Paz" (o deixou muito claro que queria que
nome Salomão significa "pacífico") Salomão assumisse o trono de ime­
reinando em glória e esplendor so­ diato. Zadoque, Natã e Bate-Seba
bre seu povo. Davi realizou as con­ não perderam tempo em colocar
quistas que capacitaram Salomão a Salomão sobre a mula real e procla­
viver e a reinar em paz e magnífica má-lo o novo rei de Israel. O versí­
prosperidade. culo 40 sugere que o povo recebeu
a notícia com muita alegria. No en­
tanto, a notícia deixou Adonias e sua
I. Salomão cumpre a Palavra confiante multidão de admiradores
de Deus (1) em pânico, pois agora todos sabiam
Davi não era mais capaz de exe­ de sua traição. O príncipe rebelde
cutar suas tarefas reais. Assim, seu correu ao altar do Senhor em busca
filho Adonias tirou vantagem da de proteção, mas Salomão prome­
situação e proclamou-se rei de Is­ teu não matá-lo. Com frequência, as
rael. Ele anunciou: "Eu reinarei", pessoas perversas correm para Deus
embora soubesse que Deus indica­ em busca de ajuda sem arrependi­
ra Salomão para suceder Davi (1:17 mento sincero no coração.
e 2:13-15). Adonias rebelava-se de­
liberadamente contra a vontade do II. Salomão executa a fúria de Deus (2)
Senhor. Infelizmente, alguns conse­
lheiros da confiança de Davi con­ A. Os últimos conselhos de
cordaram com o perverso complô, Davi (vv. 1-11)
mesmo Joabe (a quem, certa vez, Veja também 1 Crónicas 22—29.
Davi tentara reintegrar; veja 2 Sm Davi enfatizou o aspecto espiritual
19:11-15 e 20:4-13) e Abiatar, o antes do político, pois queria que
sacerdote. O traiçoeiro príncipe se­ o filho seguisse no caminho do Se­
guiu o exemplo de Absalão ao pro­ nhor. Ele admoestou-o para que estu­
videnciar carros para tentar impres­ dasse a Lei e obedecesse a ela (veja
sionar o povo (veja 2 Sm 15:1 ss). Dt 17:14-20 e Js 1:8). Deus fizera
332 1 Reis 1-4

promessas magníficas em relação a tornou-se o novo general do exérci­


Salomão (2 Sm 7:8-17), mas ele não to, e Zadoque, o sumo sacerdote. E
podia cumpri-las sem a fé e a obe­ interessante citar que Benaia era um
diência de Salomão. Davi lembrou-o sacerdote (1 Cr 27:5) que se tornou
também dos inimigos que se opo­ general.
riam a ele e dos amigos que o auxi­
liariam. D. O julgamento de Simei
(vv. 36-46)
B. O julgamento de Adonias Esse foi o homem que amaldiçoou
(vv. 12-25) cruelmente Davi quando este fugia
Se Adonias permanecesse em seu de Absalão (2 Sm 16:5ss). Salomão
devido lugar, teria vivido, mas ele, ordenou-lhe que ficasse em Jerusa­
com obstinação, recusou-se a ceder. lém, onde seria vigiado, uma sen­
Adonias, ao pedir a mão de Abisa- tença muito mais misericordiosa do
gue, a última esposa de Davi (1:1 -4), que ele merecia. Entretanto, Simei
fazia uma reivindicação temerária, tentou blefar ao desobedecer às or­
pois tudo que era de Davi agora per­ dens do rei, e isso lhe custou a vida.
tencia a Salomão. Em todo esse epi­ Se esses muitos julgamentos de Sa­
sódio, parece que Bate-Seba foi uma lomão parecem cruéis, lembre-se de
intermediária inocente. Salomão per­ que essas pessoas eram inimigas do
cebeu as implicações traiçoeiras do rei e, por isso, inimigas do Senhor.
pedido do irmão e também deixou
claro que sabia da traição de Abiatar III. Salomão recebe sabedoria
e Joabe (v. 22). Adonias fora longe de Deus (3)
demais; agora, ele tinha de morrer. O casamento de Salomão com uma
princesa egípcia foi apenas um lan­
C. O julgamento de Abiatar e ce político. Mais tarde, ele casaria
Joabe (vv. 26-35) com outra mulher pagã (11:1 ss) e
Salomão honrou o cargo do sacer­ afastar-se-ia da verdadeira adora­
dote ao não matá-lo, mas baniu-o ção a Jeová. Contudo, no início de
do serviço. Assim, cumpre-se 1 Sa­ sua carreira, ele sentia amor sincero
muel 2:30-36. Joabe, quando soube pelo Senhor e queria pô-lo em pri­
do exílio do amigo, sabia que logo meiro lugar em sua vida. Quando
seria julgado, portanto ele, como Deus deu a Salomão o privilégio de
Adonias, correu para o altar em bus­ pedir qualquer coisa que quisesse,
ca de proteção. Joabe era culpado ele pediu sabedoria e um coração
da morte de muitas pessoas e tinha compreensivo, e Deus respondeu
de pagar por seus pecados. Benaia à sua oração. Além disso, o Senhor
1 Reis 1-4 333

também lhe deu muitas outras bên­ a prosperidade material da nação


çãos (Mt 6:33). Claro que para Sa­ não se equiparava à prosperidade
lomão usufruir dessas bênçãos ele espiritual, pois, em poucos anos,
tinha de caminhar em obediência à o reino dividiu-se, e o esplendor
Palavra (vv. 13-14). de Salomão esvaiu-se. As pessoas
O relato a respeito das duas "comiam, bebiam e se alegravam"
mães é apenas uma das muitas de­ (4:20), mas não há menção ao inte­
monstrações da sabedoria de Sa­ resse delas pela Lei do Senhor. Uma
lomão. O fato de que essas duas pessoa pode desfrutar de prosperi­
mães tivessem acesso ao trono do dade material e ainda ser espiritual,
rei mostra quanto o jovem Salomão como era o caso de Abraão, mas a
amava seu povo e queria servir-lhe. maioria das pessoas não consegue
Como seria maravilhoso se todos lidar com muita riqueza.
os cristãos tivessem acesso ao tro­ O reinado de Salomão foi o mais
no daquele que é "maior do que vasto na história de Israel (v. 21 e Gn
Salomão" (Mt 12:42), aquele que 15:18). Eram dias de paz e de pros­
promete dar sabedoria e satisfazer peridade (v. 25). No entanto, semea-
todas as necessidades. Com certeza, vam-se as sementes do pecado e da
todos nós precisamos depender da apostasia. Em direta desobediência à
sabedoria de Deus, não da do mun­ Lei (Dt 17:16), Salomão trouxe cava­
do (1 Co 1:18-31 ;Tg 3:13-18). los do Egito (10:26-29). Ele também
Verdade preciosa para os cris­ tinha muitas esposas (11:1 paralelo
tãos é Deus capacitar-nos para nos­ a Dt 17:17). No fim, esses pecados
so chamado. O Senhor fez Salomão trouxeram ruína para o reino. Como
rei e supriu tudo que precisava para não podemos deixar de notar ao ler
servir de forma satisfatória. "Pedi, e Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos
dar-se-vos-á." Cânticos, Salomão era um grande es­
tudioso da natureza. Não temos todos
IV. Salomão desfruta das seus 3 mil provérbios, e temos apenas
riquezas de Deus (4) os cânticos registrados em Cântico
O versículo 16 fornece os nomes dos Cânticos. Com certeza, aprende­
dos homens do gabinete de Salo­ mos muito a respeito dos caminhos
mão, e os versículos 7-19, os no­ de Deus ao observar a natureza: Je­
mes dos intendentes das seções de sus, para ensinar-nos sobre Deus,
Israel. Certamente, a advertência de traça paralelos com lírios, sementes,
Samuel em relação ao rei realizou- pardais e outras coisas da natureza.
se: leia 1 Samuel 8:10-18 e Deu­ Contudo, Jesus Cristo é "maior
teronômio 17:14-20. Parece que do que Salomão". Certamente,
334 1 Reis 1-4

Cristo é maior em pessoa por ser o a igreja, formada com o sangue


Filho de Deus, e é maior em sabe­ comprado de pecadores de todas
doria (Cl 2:3), e em riqueza (veja as tribos e nações. Cristo é maior
Cl 1:19 e 2:9). Salomão tomou es­ em seu poder e glória e, um dia,
posas estrangeiras, e Jesus Cristo, reinará para todo o sempre sobre o
um dia, casar-se-á com sua noiva, maior reino.
1 R eis 5 - 8 tas faziam os outros trabalhos "em
períodos alternados". Todo mês, 10
mil israelitas trabalhavam e, depois,
Esses capítulos registram o cumpri­
retornavam e ficavam dois meses
mento da promessa de Deus de que
Salomão construiria um templo para em casa. Esse contingente repre­
a glória do Senhor (2 Sm 7:12-16; sentava cerca de 1/40 dos homens
1 Rs 8:15-21). Não é difícil imaginar disponíveis na terra, portanto o tra­
que esse foi um empreendimento balho não era opressivo, e o serviço
gigantesco para um rei tão jovem, era temporário.
mas o Senhor deu sua garantia, e A construção do templo repre­
Salomão confiou no Senhor (veja sentou o trabalho cooperativo de
6:11-14). Encontramos passagens muitas pessoas, tanto judeus como
paralelas em 1 Crónicas 22—2 Cró­ gentios. Os materiais utilizados eram
nicas 7. os melhores: pedras grandes e caras
que resistiriam ao desgaste do tem­
I. Preparação (5) po, e metais preciosos que dariam
Davi iniciou todo o projeto. Deus glória à casa. Isso lembra a admoes­
aprovou o projeto, mas deixou cla­ tação de Paulo em relação à igreja
ro que Salomão o executaria. Davi local que construímos com "ouro,
aprontou as plantas (1 Cr 28:11-21) prata, pedras preciosas", e não com
e providenciou os materiais dispen­ "madeira, feno, palha" (1 Co 3:9-23).
diosos (1 Cr 22:5,14-16). Ele en­ Embora Deus não habite nos templos
corajou o filho no trabalho e asse- físicos de hoje (At 17:24), isso não é
gurou-lhe que o Senhor o ajudaria motivo para que o trabalho que faze­
fielmente (1 Cr 28:1-21). mos seja inferior ou medíocre.
Hirão, rei gentio de Tiro, con­
cordou em fornecer a madeira e ho­ II. Construção (6—7)
mens habilidosos para fazer o tra­ Por favor, examine seu dicionário
balho. Em troca, Salomão dava-lhe bíblico para a planta baixa do tem­
20 mil coros de trigo e 20 coros de plo. Você verá que a área do templo
azeite batido por ano. Veja também incluía edificações adicionais ao
1 Reis 9:10-14. próprio templo (7:1-12). Primeiro,
Israel forneceu a mão-de-obra Salomão construiu o templo, o que
por meio de recrutamento ou "sor­ levou sete anos (6:38). Depois, ele
teio" de tempo parcial. Cento e cin­ construiu a casa do rei e as outras
quenta mil cananeus faziam o tra­ estruturas e os átrios que compu­
balho "escravo pesado" (5:15; 9:20- nham o recinto do templo (9:10). O
22), enquanto outros 30 mil israeli­ projeto todo levou 20 anos.
336 1 Reis 5-8

Não p y e co m entra em to -' pertenceriam ao seu povo quando se


dos os detalhes da construção do estabelecesse em sua terra. Fizeram
templo. Você perceberá que a di­ um grande "mar de fundição" (7:23-
mensão do próprio templo é o do­ 26), sobre o qual assentavam-se 12
bro da do tabernáculo, portanto o bois, em vez da pequena bacia. Eles
templo em si mesmo não era uma fizeram também dez pias de bron­
e stru tu ra e n o rm e . O tem p \o \d \ t ó - ze portátexs <J \ T 7 - Y i ) p ara usar em
to com pedra cortada revestida com toda a área do templo. Segundo Cró­
madeira, e esta revestida com ouro, nicas 4:1 revela-nos que o altar de
e ele foi enfeitado com pedras pre­ bronze era do mesmo tamanho que
ciosas. Em 6:7, vemos que as pedras o do Santo dos Santos. Havia dez
eram preparadas nas pedreiras e candeeiros, em vez de um candela­
ajustadas sem barulho no local da bro (2 Cr 4:7-8), como também dez
construção. Os talhadores das pe­ mesas para o pão.
dras seguiam as plantas de Deus, O Antigo Testamento não nos
portanto tudo se encaixava. Esse é dá tantas instruções em relação ao
um bom exemplo a ser seguido por sentido do templo, como acontece
nós, trabalhadores cristãos de hoje, em relação ao tabernáculo. Algu­
quando ajudamos na edificação do mas pessoas vêem o tabernáculo
templo dele, a igreja (Ef 2:19-22; e como uma imagem da humildade
veja 1 Pe 2:5-8). de Cristo na terra, e o templo, como
O templo era maior e mais ela­ um tipo de seu ministério em glória
borado que o tabernáculo. Não era atual, em que constrói o "santo tem­
uma tenda temporária coberta com plo" de pedras vivas. Ou o taberná­
peles; antes, era uma construção culo tipifica nossa vida peregrina
magnífica de pedra que não podia atual, ao mesmo tempo que o tem­
ser movida. Havia janelas e piso no plo (uma construção permanente)
templo (6:4 e 6:15), duas coisas que retrata nosso glorioso reinado com
o tabernáculo não tinha. Salomão Cristo quando ele retornar. É trágico
acrescentou dois querubins ao Santo que os judeus cressem na presença
dos Santos (6:23-30) e colocou a arca do templo, em vez de na promessa
sob eles. Em vez de um pátio exterior do Senhor; pois, em menos de 500
poeirento, o templo tinha um bonito anos, quando são feitos cativos por
pórtico (7:1-12) com dois pilares (vv. causa de seus pecados, o templo é
13-22), e deu-lhes os nomes de "Ja- destruído. Em 6:11 -13, Deus lembra
quim" ("ele estabelece") e Boaz ("a Salomão de que o importante é obe­
força está nele"). A força e a estabili­ decer à sua Palavra, e não construir
dade pertenciam ao Senhor, e agora um templo magnífico.
1 Reis 5-8 337

\\\. Consagração (8) \ conheçam a verdade do Senhor (v.


Quando trouxeram a arca para o 60; e veja vv. 41 -43). Infelizmente, Is­
templo, Deus encheu-o com sua rael não cumpriu sua missão de levar
glória. Em anos posteriores, Ezequiel a verdade do Senhor aos gentios. A
viu essa glória partir (Ez 8— 11). Sa­ celebração durou 14 dias (v. 65), sen­
lomão discursa para o povo (vv. 12- do a primeira semana ocupada com
21) e lembra-o da fidelidade de Deus sacrifícios, com celebrações e com
no cumprimento de suas promessas. as cerimónias de consagração oficial.
Depois, ele ora ao Senhor em benefí­ Na segunda semana, o povo voltou
cio de sua família (vv. 22-30), dos ci­ para suas tendas para regozijar-se no
dadãos que pecaram (vv. 31-40), dos Senhor. Em 9:1 -9, o Senhor aparece a
gentios estrangeiros (vv. 41-43) e da Salomão para lembrá-lo de que com
nação em seu futuro exílio (vv. 44- seus privilégios também vêm gran­
53). O pensamento-chave da oração des responsabilidades, que o Senhor
é que Deus ouviria os clamores de­ confirmará o reino de Salomão para
les e seria misericordioso, apesar de sempre se o povo seguisse Deus em
seus pecados. Salomão, em sua ora­ obediência, mas, se pecasse, ele eli­
ção, deixa claro que a condição do minaria a nação. Infelizmente, a na­
coração de Israel é mais importante ção caiu em pecado e descrença, e
que a existência do templo. Ele sabia cumpre-se a profecia de 9:6-9. Em
que o pecado trazia castigo, mas o 586 a.C., os babilónios, quando le­
arrependimento trazia perdão e bên­ vam o povo cativo, saqueiam e des-
ção. Era mais importante consagrar troem o belo e caro templo.
as pessoas que o prédio. No início, Deus habitava no
Com certeza, os versículos 44- tabernáculo (Êx 40:34) e, depois,
53 tornaram-se realidade, pois Is­ no templo de Salomão. Depois,
rael ficou cativo por causa de seus a glória do Senhor veio à terra na
pecados, e Deus o trouxe de volta a pessoa de Cristo (Jo 1:12-14). Hoje,
sua terra para reconstruir o templo todo cristão verdadeiro é templo de
e servir-lhe de novo. Essa oração e Deus (1 Co 6:19-20), como também
promessa também serão cumpridas a igreja coletiva (Ef 2:21) e a local
nos dias futuros, quando Israel, em (1 Co 3:16). Durante o período de
descrença, voltar a sua terra. tribulação, haverá um templo judeu
Depois da oração, Salomão (2Ts 2:1-12) em que o anticristo
abençoou o povo (vv. 54-61) e exor- será adorado pelo mundo descren­
tou-o a ter o coração perfeito com o te. E também haverá um templo
Senhor. Observe a preocupação do glorioso durante o Reino milenar de
rei no sentido de que as outras nações Cristo (Ez 40—48).
1 R eis 9 -1 1 e lim in a ria o po vo da terra que lhe
dera. Depois, o Senhor destruiria as
grandes casas que Salomão cons­
Veja as passagens paralelas em 2 Cró­
truíra e deixaria as ruínas como um
nicas 7—9. Esses capítulos relatam a
monumento à descrença de Isra­
vida de Salomão após a conclusão
do grande programa de construção. el. Não importa em que ponto da
Eles mostram como esse rei sábio Bíblia você se detenha, o mesmo
e piedoso gradualmente entrou em princípio permanece verdadeiro: a
declínio espiritual e trouxe divisão obediência traz bênção; a desobe­
ao reino. diência, castigo. Infelizmente, nesse
estudo veremos que o rei Salomão
I. Admoestação divina (9:1-9) não prestou atenção à admoestação
Pouco depois de Salomão ser coro­ e, gradualmente, afastou-se do Se­
ado, Deus apareceu a ele (3:5-15), nhor até (perto do fim de sua vida)
e, nessa ocasião, o jovem rei pediu tentar matar um homem inocente
sabedoria divina para desempenhar (11:40).
suas funções. Deus também enviou
uma mensagem de encorajamento II. Alianças perigosas
para o rei durante os difíceis anos (9:10— 10:13)
de construção do templo (6:11 -13).
Após a conclusão de seus grandes A. Com Hirão (9:10-14)
projetos, Salomão recebe outra men­ Já vimos que Salomão dependia de
sagem do Senhor, dessa vez uma Hirão para conseguir madeira e ho­
admoestação para que obedeça à mens habilidosos para a construção
Palavra do Senhor. Com frequência, do templo (5:1-12). Parece que em
enfrentamos nossas maiores tenta­ anos posteriores Salomão precisou
ções após um período de ministério de mais dinheiro. Assim, ele "pe­
bem-sucedido. diu emprestado" a Hirão e deu 20
Deus reafirmou sua aliança cidades da Galiléia como garantia.
com Davi e lembrou Salomão de Essa é a "Galiléia dos gentios", de
sua responsabilidade em "guardar Mateus 4:15. Quando Hirão viu as
[...] o coração" (Pv 4:23) e caminhar cidades, considerou-as "sem valor"
em obediência à Palavra. O trono de (o significado da palavra Cabul). So­
Salomão seria afirmado, e Deus po­ mos informados em 2 Crónicas de
deria abençoar Israel se ele obede­ que Hirão também tinha dado al­
cesse à Palavra do Senhor. Contudo, gumas cidades para Salomão como
se Salomão e os filhos desobedeces­ parte da transação. A Lei proibia,
sem, Deus retiraria suas bênçãos e em qualquer circunstância, alianças
1 Reis 9-11 339

com nações pagãs, e essas alianças cairia sobre os judeus que tinham
apenas levaram Salomão a afundar- em seu meio alguém "maior do que
se ainda mais em problemas. Veja Salomão" e o rejeitavam!
2 Coríntios 6:14—7:1. Esses relatos mostram o perigo
da fama e da fortuna. Observe que
B. Com o Egito (9:15-24) 10:7 fala em "sabedoria e prosperi­
O casamento de Salomão com uma dade", mas 10:23 fala em riqueza e
princesa egípcia foi de caráter es­ sabedoria — a riqueza vem na fren­
tritamente político, apenas porque te. Sem dúvida, gradualmente Salo­
estava importando cavalos e outros mão, quando as coisas materiais se
luxos do Egito (10:28-29). Deus não tornaram mais importantes, entrou
queria que os judeus voltassem ao em declínio na área espiritual.
Egito. Isaías clamou: "Ai dos que
descem ao Egito em busca de so­ III. Ambições destrutivas (10:12-49)
corro" (Is 31:1). Salomão, ao casar PrimeiraaTimóteo 6:9 adverte: "Ora,
com uma mulher pagã, dava um os que querem ficar ricos caem em
mau exemplo para a nação e envol­ tentação, e cilada", e isso se tornou
via desnecessariamente o povo em verdade na vida de Salomão. Ele
assuntos dos pagãos. não estava satisfeito com as abun­
dantes bênçãos que Deus lhe dera
C. Com outras nações (9:25—10:13) e até mandava buscar longe mais
A esquadra de Salomão velejava coisas luxuosas para satisfazer seu
grandes distâncias, chegando até a coração. Sem dúvida, Eclesiastes re­
índia, a fim de garantir os luxos que vela os anos posteriores da vida de
seu reinado exigia. A visita da rai­ Salomão, e este é um livro que mos­
nha de Sabá também foi mais que tra o vazio da vida voltada para os
uma visita pessoal, pois envolveu prazeres materiais. Talvez seja rele­
acordos comerciais e outras alian­ vante o fato de que Salomão recebia
ças com o país dela. Salomão e a 666 talentos de ouro por ano (veja
rainha trocaram presentes caros, e Ap 13:18). Ele usava apenas taças
ela voltou para casa completamente de ouro (v. 21), ao contrário de nos­
impressionada pela sabedoria e pela so Senhor que usa qualquer "utensí­
riqueza dele. Em Mateus 12:42, Je­ lio" que seja santificado (2 Tm 2:20-
sus menciona a visita da rainha de 21). Sim, Salomão vivia em glória
Sabá para advertir os judeus de sua e luxo, mas Jesus disse que mesmo
época. Muito maior que o esforço Salomão com toda a sua glória não
que ela fez para ouvir a sabedoria era tão bonito quanto um único lírio
de Salomão seria o julgamento que do Senhor (Mt 6:28-29).
-2,40 1 Reis 9-11

Leia Deuteronômio 17:16-20 para indignou-se com isso; portanto,


conhecer as instruções do Senhor mandou diversos estatutos a fim de
para o rei e veja como Salomão trazer o rei errante de volta à fé.
desobedece a essas instruções. Ele
multiplica o número de cavalos e de A. A mensagem de
carros, a quantidade de dinheiro e advertência (vv. 1-13)
de esposas. Talvez Salomão pensas­ Deus ameaçou tirar o reino de Salo­
se que a construção do templo fora mão para dá-lo a outra pessoa. Pen­
suficiente para sua vida espiritual e, saríamos que essa advertência traria
agora, ele podia se dar ao luxo de Salomão de volta ao bom senso,
navegar sobre as bênçãos passadas. mas, aparentemente, isso não acon­
Eclesiastes 2 revela o interesse de teceu. Se a pessoa não escuta a Pa­
Salomão por ganhos materiais. lavra, então o Senhor tem de tomar
medidas mais drásticas.
IV. Apostasia deliberada (11)
É inacreditável que o homem que B. A invasão de Edom (vv. 14-22)
escreveu Provérbios 5:20-23 e 6:20- Agora, a guerra perturba o reino de
24 pudesse multiplicar o número de descanso de Salomão. Tiago 4 apre­
esposas e de concubinas provenien­ senta a explicação espiritual disso.
tes de nações pagãs. A poligamia, Aparentemente, as alianças de Salo­
em si mesma, já era bastante ruim mão com o faraó não conseguiram
(isso causara problemas sem fim muita coisa, porque o Egito torna-se
para seu pai, Davi), mas casar com aliado dos edomitas.
mulheres de terras pagãs era apos­
tasia deliberada. Veja Deuteronô­ C. O problema com Rezom
mio 7:1-14. Qual o motivo da repe­ (vv. 23-25)
tição desse pecado? O coração de Durante muitos anos, esse bando de
Salomão não era fiel a Deus (11:4). guerreiros atormentou as fronteiras
Deus queria "integridade de cora­ de Salomão. O rei apóstata perdia
ção" (9:4), o que quer dizer um co­ terreno com rapidez.
ração sincero e inteiro para a glória
de Deus. Contudo, Salomão tinha D. A rivalidade com Jeroboão
o coração dividido — ele, enquan­ (vv. 26-43)
to tentava servir ao Senhor, amava O próprio Salomão pôs Jeroboão
o mundo. Que tragédia que o ho­ em posição melhor por causa de
mem que construiu o templo para o sua valentia e capacidade. Mas
único Deus verdadeiro começasse a Deus escolheu esse jovem obscuro
adorar em altares pagãos! O Senhor para ser o rei de dez tribos. A úni­
1 Reis 9-11 341

ca tribo remanescente era Judá, mas anos posteriores, se Salomão tives­


esse reino do sul incluía a pequena se permanecido verdadeiro com o
tribo de Benjamim (12:21). Quando Senhor, seriam cheios de bênção e
Salomão soube que tinha um rival, vitória, não de castigo e derrota. Ele
tentou matá-lo. O rei devia saber deixou para o filho o problema de
que o povo estava sobrecarregado reconquistar o amor do povo e de
por causa dos impostos pesados e aumentar os pesados impostos que
do programa de trabalho forçado ajudaram Salomão a ficar tão rico.
(veja 12:6-11). Na verdade, Adorão Sim, Israel parecia gozar de grande
era superintendente "dos que traba­ glória e esplendor, mas nem tudo
lhavam forçados", e o povo apedre- ia tão bem. Era uma glória vazia
jou-o (12:18). que não poderia durar. Apocalip­
Roboão, com a morte de Salo­ se 3:1 7-18 apresenta uma descri­
mão, reinou no lugar do pai. Esses ção que se ajusta bem à situação.
1 R eis 1 2 - 1 6 é a forma correta de governar (Mc
10:42-45).
Esses capítulos relatam "o início do
B. A rebelião de Jeroboão
fim". A glória da nação começa a
(12:16-13:34)
esvair-se com a morte de Salomão.
Primeiro Reis cobre cerca de 125 Por causa dos pecados de Salomão
anos de história: 40 anos do reinado (11:9-13), Deus já escolhera Jeroboão
de Salomão e cerca de 85 anos dos para ser o rei das dez tribos (11:26-
reinos divididos de Israel e de Judá. 40). O pecado causa divisão e des­
Durante esse período, apenas cin­ truição. Restaram apenas as tribos de
co reis reinaram em Judá, enquanto Judá e de Benjamim para o reinado
oito reis reinaram em Israel, e todos de Roboão, e o Senhor permitiu que
eles eram maus. Segundo Reis dedi­ elas ficassem por causa de Davi. In­
ca-se ao relato do cativeiro de Israel felizmente, Jeroboão fracassou em
(as tribos do norte) pelos assírios e aproveitar sua oportunidade, pois le­
o cativeiro de Judá (as tribos do sul) vou as dez tribos à idolatria. Ele teve
por Babilónia. medo de que seu reino se revoltasse
contra ele quando fosse a Jerusalém
I. A divisão do reino (12:1— 14:20) para as celebrações anuais, por isso
fez uma "aliança" para que eles ado­
A. A insensatez de Roboão (12:1-15) rassem no próprio território deles. Ele
O vasto programa de construção repetiu o pecado de Arão (Êx 32:1-6)
e de expansão de Salomão trouxe e fez dois bezerros de ouro. Pôs um
fama e glória para a nação, mas os em Dã e outro em Betei. Ele também
impostos pesavam sobre o povo, fez santuários e constituiu sacerdotes.
que esperava uma diminuição nos Era uma religião feita pelo homem e
encargos. Salomão, em seus últimos estabelecida para a comodidade do
anos, mudou seus valores e estava povo e, além disso, não tinha o poder
mais interessado em riqueza ma­ ou a bênção de Deus. É claro que o
terial que em bênçãos espirituais Senhor não podia permitir a continui­
(veja Ec 1:12—2:26). Se Roboão ti­ dade dessa apostasia, portanto ele en­
vesse ouvido os conselhos dos anci­ viou uma mensagem de admoestação
ãos, teria conquistado o coração do e de julgamento ao rei (cap. 13). Ob­
povo, mas ele não estava disposto a serve que o rei agia como sacerdote,
ser servo do povo. Ele ouviu os con­ queimando incenso no altar. Um mis­
selhos dos jovens, aos quais faltava terioso homem do Senhor anuncia o
experiência e, por isso, tomou uma nascimento do futuro rei, Josias (13:2;
decisão insensata. Ser servo, essa veja 2 Rs 23:15-18) e também adverte
1 Reis 12-16 343

que a religião feita pelo homem seria gem de julgamento ao rei perverso.
julgada e destruída. Quando Jeroboão A mensagem era verdadeira: a rainha
tentou prender o profeta, sua mão es­ voltou para casa e, quando entrou no
tendida secou, e o altar fendeu-se, palácio, seu filho morreu. Trágico foi
exatamente como o profeta predis­ o fato de Jeroboão desviar-se do Se­
sera. O rei implorou para ser curado, nhor, pois ele poderia ter conduzido
e o homem orou por ele. Após isso, as dez tribos para que recebessem
o rei tentou enganar o homem con- glórias e bênçãos magníficas. Em
vidando-o para ir ao palácio, mas o vez de fazer isso, seu legado foi esse
homem do Senhor recusou-se a cair exemplo terrível para que outros reis
nessa cilada. Infelizmente, o homem o seguissem.
do Senhor ouviu as mentiras de um
companheiro profeta e perdeu a vida. II. O declínio de Judá (14:21—15:24)
Se 13:11 -34 ensina uma lição, é esta:
não deixe que os outros determinem A. Roboão (14:21-31)
a vontade do Senhor para sua vida. Esse filho perverso de Salomão con­
Obedeça ao que a Palavra de Deus duziu, por 17 anos, o povo a peca­
lhe diz, independentemente de quan­ dos terríveis. Ele, em vez de seguir a
to isso lhe custe. Lei do Senhor, seguiu o padrão das
nações pecaminosas que Israel der­
C. O julgamento de Deus (14:1-20) rotou. Deus puniu-o ao fazer o Egi­
Abias era jovem quando teve uma to derrotar a nação. O povo perdera
doença fatal (seu pai reinava havia seus valores espirituais, e os caros
22 anos), e é claro que o rei ficou escudos de ouro foram substituídos
preocupado em não ter um filho para por baratos escudos de bronze. Pa­
sucedê-lo no trono. Jeroboão não recia que as coisas continuavam do
podia buscar ajuda de seus falsos mesmo jeito, mas o Senhor sabia
deuses e, portanto, voltou-se para o que esse não era o caso.
profeta Aias em busca de orientação.
Esse profeta fora quem primeiro dis­ B. Abias (15:1-8)
sera a Jeroboão que ele seria o novo Tal pai, tal filho. Deus permitiu que ele
rei. O rei não ousava ir pessoalmente reinasse apenas por rápidos três anos.
à procura de Aias e, assim, enviou a Observe que sua mãe era parente de
esposa usando um disfarce. Mas o Absalão (v. 2). Ele declarou guerra a Je­
profeta cego via mais com seus olhos roboão (veja 2 Cr 13), e o Senhor, por
espirituais que Jeroboão com seus causa de Davi, deu-lhe vitória. A vitó­
olhos físicos. Aias expôs o disfarce ria é apenas militar, já que não houve
da mulher e mandou uma mensa­ renovação espiritual na nação.
344 1 Reis 12-16

C.Asa (15:9-24) morto por Baasa. No reinado de 24


Leia 2 Crónicas 14— 16. Asa foi anos de Baasa, cumpre-se a profe­
um rei bom, uma mudança bem- cia de 14:14-15 de que toda semen­
vinda depois de anos de governan­ te de Jeroboão seria destruída. Jeú, o
tes perversos. Ele tentou remover os profeta, assim, traz uma mensagem
pecados introduzidos por Roboão para Baasa prevendo a destruição
(14:24). Sob sua liderança, houve de toda a descendência deste. Seu
um breve período de renovação e filho, Elá, reinou por menos de dois
descanso. Ele até depôs a própria anos e foi morto por Zinri, um de
mãe porque ela fizera um poste- seus comandantes, enquanto o rei
ídolo (2 Cr 15:16). É triste constatar estava bêbado. Zinri reinou apenas
que esse rei não terminou tão bem por sete dias, mas, nessa semana
quanto começou, pois ele confiou (16:15), eliminou a família de Baasa
nos homens para sua proteção, e e cumpriu a profecia de Jeú (16:1-4).
não no Senhor. Ele usou todo o te­ O exército revoltou-se e apontou
souro do templo a fim de pagar ao Onri como o novo rei. Em troca dis­
rei da Síria para lutar por ele e, as­ so, ele marchou contra Zinri, mas
sim, pagou um alto preço pessoal este pôs fogo no palácio e cometeu
por essa aliança ímpia. suicídio ao permitir que as chamas
o consumissem. Onri governou
D. Josafá (15:24) durante 12 anos (depois de acabar
Veja também 22:41 -50 e 2 Cr 17:1 com uma breve revolta do povo) e
—21:3. Aqui, o escritor não narra levou a nação a mais pecado. Seu
a história desse rei bom que pur­ filho, Acabe, casou-se com Jeza-
gou a idolatria e tentou ensinar a bel, e isso introduziu oficialmente a
Palavra de Deus ao povo. O Se­ adoração a Baal no reino. Seu único
nhor deu-lhe muitas vitórias por­ feito que m ereceu notoriedade foi a
que "buscou ao S e n h o r de todo o instituição de Samaria como capital
coração" (2 Cr 22:9). do Reino do Norte. Após sua morte,
seu filho Acabe subiu ao trono, e,
III. O declínio de Israel sob sua liderança, as tribos afunda­
(15:25—16:34) ram mais em idolatria e pecado.
Aqui, enumeram-se seis reis, ini­ Observe que foi quando a na­
ciando com Nabade e terminan­ ção estava afundando cada vez
do com Acabe, e todos eles foram mais na idolatria que Deus chamou
maus. Nabade manteve a idolatria seus profetas para pregar ao povo.
perversa do pai. Durante uma das Encontramos um profeta anónimo
batalhas contra os filisteus, ele foi no capítulo 13 e ainda encontra­
1 Reis 12-16 345

remos Elias e Eliseu. Obviamente, derrota. É trágico ver o declínio nos


Jeú e Aias também devem ser men­ assuntos espirituais e o afastamento
cionados. Quando o povo de Deus da verdade dessa grande nação cha­
peca, só a proclamação da Palavra mada por Deus. Sim, com frequên­
de Deus pelos servos do Senhor é cia, ela teve prosperidade material,
que pode chamá-lo de volta ao ca­ mas isso não era um sinal de que o
minho e salvá-lo. Senhor se agradasse de suas obras.
"A justiça exalta as nações, mas Na verdade, a avidez por coisas ma­
o pecado é o opróbrio dos povos" teriais, geralmente, afasta as pessoas
(Pv 14:34). O Senhor abençoou o ainda mais de Deus. A melhor for­
povo sob o governo de reis piedosos; ma de construir uma nação religiosa
mas, quando estava sob o reinado é ter cidadãos devotos e igrejas de­
de reis ímpios, enviou julgamento e votas (2 Tm 2:1-6).
1 R eis 1 7 - 1 8 seca foram uma resposta à oração
de EUas (Tg 5ú 7). O profeta, após
transmitir a mensagem, retirou-se
Sempre que a nação caía em peca­
do ministério público por três anos,
do e idolatria, Deus enviava profe­
e, durante esse tempo, o Senhor
tas para chamá-la de volta à verda­
deira fé. O profeta não era apenas graciosamente cuidou dele. O servo
um "vaticinador"; ele era também obediente pode sempre contar com
um "prenunciador" que anunciava o cuidado fiel de seu senhor. Ob­
o julgamento do Senhor e expunha serve as três ocasiões em que Elias
o pecado do povo. Elias, tesbita, na­ experimentou a disciplina:
tural de Gileade, era um "homem
semelhante a nós, sujeito aos mes­ A. A torrente seca (vv. 2-7)
mos sentimentos" (Tg 5:17), mas Deus disse, com exatidão, para onde
de muita coragem e fé. Nesses dois Elias devia ir e o que devia fazer. Veja
capítulos, vemos Elias obedecer às Provérbios 3:5-6 e Salmos 37:3-6. O
duas ordens do Senhor: "Vai [...] e Senhor removeu o ministério de Elias
esconde-te", e: "Vai, apresenta-te". de Israel como outra punição pelos
pecados do povo (SI 74:7-9). O Se­
nhor permitiu que Elias bebesse da
torrente e providenciou para que os
I. O ministério privado: corvos levassem, todos os dias, pão
"Vai [...] e esconde-te" (17) e carne para o profeta. O corvo foi a
Lucas 4:25 afirma que a seca durou primeira ave a quem se deu nome na
três anos; contudo, em 1 Reis 18:1, Bíblia (Gn 8:7). Embora considerada
vemos que o debate no monte Car- uma ave imunda, o Senhor, no en­
melo aconteceu "no terceiro ano". tanto, usou-a para ajudar seu servo.
Aparentemente, a seca começara Observe que ao mesmo tempo que
seis meses antes de Elias aparecer Elias usufruía de pão, carne e água no
de repente na corte de Acabe para local designado pelo Senhor, os cem
proclamar que a seca duraria mais profetas escondidos na cova (18:4)
três anos. Com frequência, a falta passavam a pão e água. Contudo,
de chuva era uma punição para os um dia a torrente secou. Isso queria
pecados do povo (Dt 11:13-1 7; veja dizer que Elias pecara ou afastara-se
2 Cr 7:12-15). Acabe e Jezabel, sua da vontade de Deus? Não! Isso ape­
perversa esposa, induziram o povo nas queria dizer que o Senhor tinha
à adoração de Baal, uma religião outro lugar para ele, além de ser um
tão depravada que não ousamos lembrete para que Elias confiasse no
descrevê-la. Os três anos extras de Senhor, não na torrente.
1 Reis 17-18 347

B. A botija vazia (vv. 8-16) resposta de Elias foi: "Dá-me o teu


Em momentos de teste, a Palavra do filho", pois ele sabia que o Senhor
Senhor sempre orienta os servos de traria o menino de volta à vida.
Deus. Mas que ordem estranha esta: Esse é o primeiro registro de uma
"Vai a Sarepta [...] onde ordenei a ressurreição na Bíblia. O profeta
uma mulher viúva que te dê comi­ leva o corpo do menino para o seu
da". Veja Lucas 4:22-26. "Sarepta" quarto (no andar de cima) e, lá, ora
significa "refinação", e, com certe­ pela vida dele ao Senhor. Obser­
za, o Senhor estava pondo seu servo ve que ele luta desesperadamente
diretamente na fornalha. Imagine o pela vida do menino e até estende
que Elias sentiu quando descobriu o próprio corpo sobre o corpo iner­
que a viúva era pobre e que estava te dele. Que exemplo para aqueles
para preparar sua última refeição. entre nós que tentamos ressuscitar
Mas as ordens do Senhor nunca são os espiritualmente "mortos"! O mi­
equivocadas, pois Deus, assim que lagre gerou um testemunho de fé
a viúva o pôs em primeiro lugar (ao da mulher.
obedecer à ordem de Elias), provi­
denciou para que houvesse alimen­ II. O ministério público:
to para ela, seu filho e o convidado. "Vai, apresenta-te" (18)
No versículo 14, observe como Elias O profeta, após ser treinado e testa­
honra o Senhor Deus de Israel dian­ do em particular, agora está pronto
te dessa mulher gentia. Tudo que o para seu ministério público, portan­
Senhor nos pede é que lhe demos to o Senhor ordena-lhe que enfrente
o que temos, e ele cuidará do res­ o perverso rei Acabe (veja 16:33).
to. Ele pode alimentar milhares de Temos de admirar a paciência de
pessoas apenas com poucos pães e Elias em esperar três anos para pre­
peixes. gar um sermão.

C. A morte do menino (vv. 17-24) A. Elias e Obadias (vv. 1-16)


A torrente seca foi o teste de Elias; Obadias é o retrato do crente que
a morte do menino era o teste para faz concessão, e sua vida é um con­
a viúva. Em geral, as grandes bên­ traste direto com a de Elias. Elias ser­
çãos são seguidas de grandes testes. via ao Senhor publicamente e sem
Infelizmente, como indica o versí­ medo; Obadias servia a Acabe (vv.
culo 18, a fé da viúva fracassa; para 7-8) e, em segredo, tentava servir a
conhecer a reação correta aos de­ Jeová (vv. 3-4). Elias estava "fora do
sapontamentos e às provações, veja arraial" (Hb 13.13); Obadias estava
Salmos 119:75 e 1 Samuel 3:18. A na corte. Elias conhecia a vontade
348 1 Reis 17-18

do Senhor; Obadias não sabia o existe. Satanás poderia mandar fogo


que estava acontecendo. Ao mes­ para enganar o povo Oó 1:16; Ap
mo tempo que Elias trabalhava para 13:13), mas o Senhor não permitiria
salvar a nação, Obadias procurava que isso acontecesse. Elias zombou
ervas para salvar os cavalos e mulos. dos profetas de Baal: "Ri-se aque­
Quando Elias confrontou Obadias, le que habita nos céus" (Sl 2.4). É
o servo ameàrontaào nao conViou \ '\mpress\onan\e a que extremos os
no profeta. Observe que Obadias pagãos perversos chegam para ten­
gaba-se de seu serviço secreto na tar fazer com que seus deuses falsos
tentativa de impressionar Elias com respondam à sua oração. Veja Sal­
sua devoção (v. 13). Infelizmente, mos 115. Perto da hora do sacrifício
hoje temos muitos Obadias e pou­ vespertino (15 horas), estava óbvio
cos Elias! para todos que Baal era um deus fal­
so e não poderia responder ao apelo
B. Elias e Baal (vv. 17-29) de seus profetas.
O profeta não estava com medo de
encontrar-se com o rei Acabe nem C. Elias e Israel (vv. 30-46)
de dizer-lhe a verdade. Os maus Expor a loucura e o pecado da ado­
sempre culpam os crentes pelos pro­ ração a Baal era apenas metade da
blemas do mundo; eles nunca pen­ tarefa que Elias tinha naquele dia.
sam em culpar seus próprios peca­ O mais importante era trazer a na­
dos. A disputa não era entre Elias e ção de volta à verdadeira adoração
Acabe. Era entre Deus e Baal. A na­ a Jeová. Elias não queria apenas
ção coxeava "entre dois pensamen­ corrigir o povo, mas também res­
tos", e estava na hora de tomar uma taurá-lo. Primeiro, ele restaurou o
decisão (veja Êx 32:26; Js 24:1 5; Mt altar que o povo permitira que fi­
12:30). O povo não respondeu nada casse em ruínas. Esse é o primeiro
quando foi confrontado com seu pe­ passo em direção à bênção — res­
cado (v. 21). Elias pediu uma situa­ taurar o altar pessoal de devoção,
ção impossível: o Deus verdadeiro o altar familiar, o altar de sacrifício
responderia com fogo. É claro que e a comunhão com Deus. Elias, ao
ele sabia que, em tempos passados, usar 12 pedras, lembrava o povo
o Senhor respondera muitas vezes da unidade dele, pois a nação fi­
com fogo (Lv 9:24; 1 Cr 21:26). cou dividida durante muitos anos.
O servo do Senhor que obedece à Para certificar-se de que ninguém
Palavra dele e crê nela não precisa conseguiria acender o fogo, Elias
temer o fracasso. Obviamente, Baal derramou três vezes quatro cânta­
não podia responder porque ele não ros de água sobre a lenha e o holo-
1 Reis 1 7 -1 8 349

causto, o que quer dizer que jogou por seca (Tg 5:17). Ele sabia como
12 cântaros de água. O profeta fez vigiar e orar (Cl 4:2) e como persis­
uma oração simples de fé, e o fogo tir em oração até o Senhor enviar a
do Senhor consumiu a madeira, o resposta. Deus não envia chuvas de
sacrifício, a água e o altar. bênçãos enquanto não julga o peca­
Elias, porém, ainda tinha traba­ do. Não demorou muito para o céu
lho a fazer. A começar pelos falsos escurecer cheio de nuvens, e o vento
profetas (850 deles, v. 9) que tinham soprar, e a chuva chegar. O Senhor
de ser mortos; veja Deuteronô- deu força sobre-humana a Elias para
mio 13:1-5. Não é suficiente reco­ correr adiante do carro do rei que
nhecermos que "o S en h o r é Deus" seguia em direção a Jezreel.
(v. 39); devemos também odiar tudo O que fazemos com o Senhor
o que é mau e tirá-lo de nossa vida. em particular é muito mais impor­
O julgamento sempre prepara o ca­ tante do que o que fazemos por ele
minho para a bênção. em público. Nossa vida secreta pre­
A seguir, o profeta disse ao rei para-nos para nossa vida pública.
que voltasse para casa, pois a chuva A não ser que estejamos dispostos
estava a caminho. Baal era o deus a passar pela disciplina como a da
da chuva, mas não pôde enviar fogo torrente seca, da botija vazia e da
nem chuva! Quando o rei tomou morte do menino, jamais alcançare­
seu caminho, Elias começou a orar mos vitórias como a do monte Car-
por chuva, da mesma forma como, melo. "Os que esperam no S en ho r
três anos e seis meses antes, orara renovam as suas forças" (Is 40:31).
1 R eis 1 9 nhor (17:2,8; 18:1,36), mas agora
seu medo levou-o à impaciência, e
Aqui temos um contraste enorme a impaciência levou à desobediên­
com a cena de vitória do capítu­ cia (Is 28:16). Ele não estava mais
lo 18! Com frequência, nossas maio­ arriscando a vida pela glória do Se­
res provações seguem-se a nossas nhor; antes, apenas tentava salvar a
maiores bênçãos. Aqui, o homem própria vida.
de fé afasta os olhos do Senhor e O Senhor ordena os passos do
torna-se um homem temeroso; con­ homem bom (Sl 37:23), mas os pas­
tudo Deus, apesar do fracasso de sos de um profeta incrédulo e deso­
Elias, trata com ternura seu servo. bediente levam apenas a problemas
piores. EUas fugiu para iudá, esque­
cendo que a filha de Acabe reina­
I. Deus revigora Elias (19:1-8) va lá com Jeorão (2 Rs 8:16-18).
Tiago 5:1 7 lembra-nos de que Elias Ele viajou mais de 128 quilómetros
era um homem "sujeito aos mesmos com muito risco. Elias queria ficar
sentimentos", um homem de barro sozinho com sua depressão, por
sujeito às mesmas provações e fra­ isso deixou o servo em Berseba e
cassos que qualquer crente. Como continuou até o deserto. É melhor
é estranho o fato de Elias enfrentar para o homem caminhar com ou­
850 profetas e não sentir medo e, tro, pois "não é bom que o homem
depois, fugir por causa das ameaças esteja só". Em geral, a solidão e o
de uma mulher! Com certeza, hou­ desânimo andam juntos. Elias, física
ve uma causa física para o fracasso e emocionalmente exausto, deitou
dele: sem dúvida, o grande emba­ para dormir, e sua oração antes de
te no monte Carmelo enfraqueceu dormir foi a seguinte: "Toma agora,
Elias e esgotou-o emocionalmente. ó Senhor, a minha alma"! Moisés
Os cristãos fariam bem em cuidar fez essa oração em um momento
mais de seu corpo, em especial em que estava muito desencoraja­
após momentos de ministério e de do (Nm 11:15), e também Jonas (jn
sacrifício intensos (cf. Mc 6:31). 4:3). Elias estava com os olhos vol­
Contudo, a principal causa do fra­ tados para si mesmo e para o que
casso de Elias foi espiritual: ele viu fizera (e o que não fizera), em vez
Jezabel e fracassou em ver o Senhor, de voltados para o Senhor.
ele ouviu as ameaças de Jezabel e Com benevolência, Deus revi­
esqueceu de esperar pelas promes­ gorou seu servo. O Senhor sabia que
sas de Deus. Elias, em todos os seus Elias precisava de alimento e de des­
passos, esperou pela ordem do Se­ canso, como também de renovação
1 Reis 19 351

espiritual. Elias comeu o alimento e 148:1-10), contudo os homens, fei­


voltou a dormir. Não vemos evidên­ tos à imagem do Senhor, não lhe
cia de arrependimento ou confissão obedecem. Essa deve ter sido uma
de pecado, pois parece que ele que­ repreensão e tanto para o profeta
ria desistir. Assim, o Senhor alimen- que se desviara do caminho. Além
tou-o pela segunda vez, mas agora disso, quando o "cicio tranquilo
Elias levantou-se e reiniciou sua jor­ e suave" veio após a tempestade,
nada. A mão do Senhor guiou-o ao Deus mostrou a Elias que nem sem­
monte Horebe, onde Moisés rece­ pre faz suas obras de forma grande
beu o chamado do Senhor (Êx 3) e e barulhenta. Os milagres do monte
a lei lhe foi entregue. É encorajador Carmelo foram maravilhosos, mas a
saber que, mesmo quando o filho de obra espiritual duradoura na nação
Deus desvia-se do caminho e sente- deve realizar-se por meio do traba­
se desencorajado, o Senhor, por sua lho silencioso da Palavra de Deus
graça, cuida dele. no coração das pessoas. Elias queria
a realização de algo grande e baru­
II. Deus repreende Elias (19:9-18) lhento, mas o Senhor, às vezes, pre­
O Senhor falou com ele na caver­ fere as coisas pequenas e tranquilas.
na (v. 9). "Que fazes aqui?", essa é Não nos cabe determinar os méto­
uma boa pergunta para nos fazer­ dos que o Senhor deve usar. Nossa
mos a qualquer momento. A respos­ única obrigação é crer e obedecer.
ta de Elias mostra, mais uma vez, o Depois de o profeta tentar de­
desânimo de seu coração, pois ele fender-se pela segunda vez, o Se­
se sentia como se fosse o único em nhor disse-lhe: "Vai, volta ao teu ca­
Israel que ainda permanecia fiel ao minho" (vv. 14-15). Deus lhe daria
Senhor. Elias, em vez de confessar outra oportunidade de servir quando
seu orgulho e desejar vindicar-se, ungisse Hazael como o novo rei da
continuou a discutir seu caso com Síria, Jeú como o novo rei de Israel
o Senhor. Assim, o Senhor precisou e Eliseu como o novo profeta. Era
usar outros recursos para ensiná-lo como se o Senhor dissesse a Elias:
e levá-lo ao ponto de entregar-se. "Pare de reclamar e de lamentar a
Por que o Senhor enviou o ven­ respeito de seus fracassos aparentes.
to, o terremoto e o fogo? Por uma Volte ao trabalho". Com certeza,
única razão: ele ensinava seu per­ esse é um bom conselho.
turbado profeta que tinha muitas
ferramentas disponíveis para cum­ III. Deus substitui Elias (19:19-21)
prir suas ordens. Deus tem servos E magnífica a forma como Deus
obedientes em toda a natureza (SI encorajou Elias assegurando-lhe que
352 1 Reis 19

ainda havia 7 mil crentes fiéis na zer o fogo é uma indicação de seu
terra. Perguntamo-nos onde es­ rompimento definitivo com o pas­
tavam esses crentes quando Elias sado. Como costumamos dizer, ele
ficou sozinho no monte Carmelo. rompeu os elos com o passado. Os
Nunca sabemos quanto bem nosso amigos da vizinhança e a família de
trabalho trouxe, mas o Senhor sabe, Eliseu participaram da festa. Todos
e é isso que importa. O ministério vieram desejar o bem dele nesse
de Elias chegava ao fim. Ele devia novo chamado. Mas quando a festa
escolher seu sucessor e prepará-lo acabou, Eliseu levantou-se e seguiu
para dar continuidade ao trabalho seu mestre e serviu-lhe.
de proclamar a Palavra do Senhor. Elias não ungiu Hazael. Eliseu
Isso também era um encorajamen­ fez isso mais tarde (2 Rs 8:8-15).
to para Elias, pois agora ele sabia Também foi Eliseu quem ungiu Jeú
que seu trabalho teria continuida­ (2 Rs 9:1-10). No entanto, de forma
de mesmo após sua partida. Aqui, indireta, Elias ungiu os dois, já que
há uma lição prática para nós: se foi ele quem ungiu Eliseu.
apenas esperarmos pela mensagem O fato de 11 homens (prova­
da Palavra de Deus e não fugirmos, velmente, servos de seu pai, v. 19)
ele nos dará o encorajamento que ajudarem Eliseu no preparo da ter­
precisamos. ra, arando-a, sugere que ele vinha
A primeira atitude de Elias seria de uma família próspera. Você já
apontar Eliseu como seu sucessor. percebeu, na Bíblia, que geralmen­
Ele fez isso ao lançar seu manto (ou te Deus chama pessoas ocupadas?
capa) sobre Eliseu, enquanto este Moisés cuidava das ovelhas; Gideão
lavrava os campos. Esse ato sim­ malhava o trigo; Pedro, Tiago e João
bolizava que agora Eliseu seria um viviam ocupados no negócio de
profeta com o mesmo poder e auto­ pescaria; Neemias era copeiro do
ridade de Elias. Eliseu queria despe­ rei. O Senhor não tem lugar para
dir-se de seus entes queridos, e isso pessoas preguiçosas. Com certeza,
era permitido, embora, em muitas o fato de Eliseu abrir mão de sua fa­
famílias, essas despedidas levassem mília, de sua casa e da riqueza que
muitos dias para serem completa­ herdaria foi um ato de fé e de entre­
das. Veja Lucas 9:61-62. Quando ga. Eliseu ficou nos bastidores até a
Deus nos chama, é importante que ascensão de Elias (2 Rs 2), momen­
o sigamos de imediato e não ponha­ to em que assumiu o ministério. O
mos os outros na frente dele. ministério de Elias foi de terremotos,
O fato de Eliseu matar os bois fogo e ventos, mas Eliseu ministrou
e usar os aparelhos deles para fa­ com "cicio tranquilo e suave". E cia-
1 Reis 19 353

ro que em seu ministério também somos os únicos que permanecem


houve julgamentos, já que o pecado firmes na verdade é uma coisa peri­
sempre deve ser julgado. gosa. Claro, seria melhor se os 7 mil
Essa experiência que Elias vi- "crentes escondidos" tivessem assu­
venciou é uma boa advertência con­ mido sua posição ao lado do profe­
tra o desânimo e o desencorajamen- ta. Provavelmente, a atitude amarga
to. No momento em que sentimos de Elias encurtou seu ministério. A
que não conseguimos realizar nada, melhor solução para o desencoraja-
Deus revela que nos usou mais do mento é seguir o conselho de Isaí-
que percebemos. Pensarmos que as 40:31 — esperar no Senhor.
1 R eis 2 0 - 2 2 e chegara o momento de seu julga­
mento. O profeta anónimo transmite
Acabe entrou para a história como a mensagem ao rei amedrontado (v.
o rei mais perverso que Israel já teve 13), e a resposta imediata de Acabe,
(veja 1 Rs 16:29-33 e 21:25-26). no versículo 14, indica que ele acre­
Nos bastidores, Jezabel, sua esposa, ditou na mensagem. Acabe não era
governou-o e garantiu a adoração a um homem de fé, mas agarrava-se
Baal como a religião oficial da terra. à última esperança que lhe era ofe­
Acabe "se vendeu para fazer o que recida. Ele obedeceu de imediato à
era mau" (21:20,25). Nesses capí­ Palavra do Senhor e enviou seu pe­
tulos, veremos seus pecados e tam­ queno exército para enfrentar o vas­
bém seu julgamento final por Deus. to exército sírio. O Senhor deu uma
grande vitória aos israelitas. Depois,
o próprio rei assumiu o comando da
I. A defesa de Acabe (20) batalha e conquistou grande glória.
Os sírios concluíram que o Deus de
A. O desafio (vv. 1-12) Israel vencia nos montes, mas não
O rei da Síria ajuntou seu vasto exér­ nas planícies e nos vales, por isso,
cito, apoiado por outros 32 reis e planejaram outra invasão para o
ameaçou Samaria. Os mensageiros ano seguinte. Mais uma vez, o Se­
dele pediram as riquezas e^a família nhor, em sua misericórdia, enviou
de Acabe, e ele concordou em obe­ uma mensagem de esperança ao rei
decer. Contudo, Acabe recusou o perverso e deu outra vitória incrível
pedido deles quando externaram o a israel.
desejo de ter o privilégio de saquear
seu palácio. Acabe tentou montar C. A concessão (vv. 31-43)
uma frente corajosa, mas sabia que O que Satanás não consegue pela
o fim estava perto. Se ele caminhas­ força, alcança com fraude, pois le­
se com o Senhor, pod