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A desvalorização do patrimônio público brasileiro

O termo “Complexo de Vira-Lata”, criado pelo intelectual Nelson Rodrigues, designa o status
de inferioridade que o brasileiro se impõe, fato que o impede de criar um ideal de
nacionalismo e de cuidado aos aspectos físicos e históricos que fazem parte da construção
cultural de um povo. Sob esse aspecto, ao observar o cenário hodierno do Brasil, percebe-se
uma confluência entre o ideal supracitado e o comportamento negligente para com o
patrimônio público, haja vista que há uma forte reprodução de valores depreciativos aos bens
coletivos. Nesse ínterim, faz-se imperiosa a elaboração de medidas de combate através da
erradicação dos elementos centrados na negligência da sociedade e do Estado, uma vez que
ela suscita a persistência dessa problemática.

É válido ressaltar, a princípio, que a herança ideológica de indiferença aos acervos públicos
presente no substrato social faz com que haja a ocorrência do revés em questão. Tal
pressuposto está associado à cordialidade do homem brasileiro apontada no livro “Raízes do
Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, que se caracteriza pela falta de noção do indivíduo em
não saber distinguir um bem particular de um coletivo, situação que o impulsiona a agir com
indiferença por possuir uma falsa sensação de posse sobre algum patrimônio material ou por
desacreditar de elementos históricos, o que acaba contribuindo ainda mais com a
desvalorização dos artefatos construídos ao longo de experiências dotadas de significado. Por
conseguinte, essa extrema desafeição acaba propiciando um cenário carente de uma
convivência pacífica e de um sentimento de responsabilidade para com a preservação dos
aspectos comuns aos cidadãos.

Além disso, em razão da persistência desse problema, percebe-se a inoperância das políticas
do governo, as quais deveriam apresentar um caráter metódico, pelo fato de haver uma
complexa rede legislativa que visa ao bem-comum. Isso está relacionado aos diversos casos de
descuido por parte dos órgãos competentes, a exemplo do incêndio no Museu Nacional,
ocorrido em 2018, o qual dispunha de elementos históricos altamente relevantes à construção
de uma identidade cultural, mas que, por desatenção, foram destruídos, causando prejuízos
sociais, materiais e econômicos. Dessa forma, o não cumprimento dos deveres que asseguram
a conservação do patrimônio material e imaterial revela uma espécie desserviço pela
impossibilidade da efetivação do direito, principalmente, ao lazer e à infraestrutura, além de
apresentar-se como um desrespeito ao processo civilizatório, já que esse pode ser expresso
por meio de acervos que consolidam a memorização da historiografia, evidenciando-se, assim,
a primordialidade da elaboração de medidas que sanem essa mazela social

Portanto, é mister que o Ministério da Educação amplie as campanhas de conscientização nas


esferas coletivas, como as escolas, através de palestras que ressalvem a importância do
patrimônio público, com o intuito de desenvolver uma educação de respeito aos bens
coletivos. Ademais, cabe ao Ministério da Economia, responsável pela administração da
política financeira, investir nos setores que atuam na manutenção e na construção dos acervos
materiais e culturais, por meio de um maior direcionamento monetário e de um maior
interesse em dispor de equipamentos que atuem na efetividade dessa ação, a fim de proteger
os bens estatais e, consequentemente, a historiografia, bem como incentivar a criação de um
ideal nacional, extinguindo, então, a caracterização dada por Nelson Rodrigues.

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