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Edição Especial

DEMOCRACIA VIVA 23
ago 2004 / set 2004

Entrevista
Dona Dijé
Reforma política
Almira Rodrigues
Cidadania
encurralada
Cândido Grzybowski
Cultura
Marcelo Carvalho
e d i t o r i a l
Dulce Pandolfi
Historiadora, diretora do Ibase,
pesquisadora do CPDOC/FGV

N o Brasil, apesar dos avanços, muitas são as dificuldades para a


consolidação de uma sociedade democrática. Se formalmente os direitos da cidadania estão assegurados a
toda a população, na prática só funcionam para poucas pessoas. As políticas públicas voltadas para a redução
das desigualdades sociais têm sido precárias e descontínuas, o fenômeno da exclusão social expandiu-se
pelo país, os direitos humanos ainda são cotidianamente violados.
É verdade que hoje vivemos um singular momento de nossa história. Por meio do voto,
elegeu-se um presidente da República cuja trajetória de participação social se inicia no movimento sindical
metalúrgico e se desdobra na fundação de um partido político construído por setores e grupos sociais mo-
vidos pelo ideário da democracia participativa. Mas a democracia tem seus caprichos. Ao mesmo tempo,
elegemos para o Congresso e o Poder Executivo em âmbito estadual uma maioria cujas formas de fazer
política e interesses estão atrelados ao passado.
Em um contexto novo e contraditório, recoloca-se com força a questão da participação, tema
central dos artigos que compõem este número de Democracia Viva. Qualificar e intensificar a participação
é fundamental quando o que se busca é construir uma sociedade justa e solidária. Isso não é tarefa fácil.
Como minimizar os efeitos perversos de um processo de globalização que avança a passos largos? Como
diminuir as desigualdades sociais, respeitando as diversidades culturais, étnicas, políticas e religiosas?
Como conciliar as demandas por novas formas de participação com as tradicionais instituições da demo-
cracia representativa? Como aprofundar o controle da sociedade sobre o Estado? Enfim, como radicalizar
a democracia?
Esses e outros desafios exigem uma reflexão sobre os espaços públicos de participação
no governo Lula. Se existe um reconhecimento sobre a ampliação desses espaços, as expectativas e as
avaliações sobre seus resultados são diferenciadas. Mas, sem dúvida, ainda há muito para fazer. Entre as
experiências aqui analisadas estão os Conselhos de Segurança Alimentar e Nutricional (Conseas) estaduais e
o Plano Plurianual (PPA) 2004–2007. Em ambos os casos, aparecem conflitos. O envolvimento de diferentes
atores gera tensões e produz concepções distintas acerca da participação. Outra experiência sobre espaço
público de participação é o orçamento participativo. O caso pioneiro de Porto Alegre representa exemplo
bem-sucedido da ação comum entre governo e sociedade. No município do Cabo de Santo Agostinho, em
Pernambuco, vem também se consolidando um modelo diferenciado de gestão de participação popular. Lá,
um dos objetos de discussão é o controle social das políticas públicas para a saúde da mulher. A entrevista
com Dona Dijé, quebradeira de coco no Maranhão, é reveladora da importância da organização comunitária
para a conquista da cidadania. Sua persistência é exemplar, e os resultados da sua luta para melhorar as
condições de vida de homens e mulheres da região são concretos. Em outro artigo, discute-se a reforma
política em curso no Congresso Nacional. Para aprimorar a democracia é urgente aprofundar o debate em
torno de questões polêmicas, como o financiamento público das campanhas eleitorais, o voto facultativo,
s u m á r i o
Ibase – Instituto Brasileiro de Análises Sociais
3 Artigo e Econômicas
Reforma política e participação Av. Rio Branco, 124 / 8º andar
Almira Rodrigues 20148-900 Rio de Janeiro/RJ
Tel.: (21) 2509-0660 Fax: (21) 3852-3517
8 Nacional <ibase@ibase.br> <www.ibase.br>
Cidadania encurralada Conselho Curador
Cândido Grzybowski Regina Novaes
João Guerra
16 Variedades
Carlos Alberto Afonso
Moacir Palmeira
18 Artigo
Jane Souto de Oliveira
Orçamento participativo: limites
e contribuições de um instrumento Direção Executiva
Cândido Grzybowski
de democracia direta
Entrevista Dulce Pandolfi
Miriam de Oliveira Santos
Dona Dijé Francisco Menezes
26 Pelo Mundo Jaime Patalano

Coordenadores(as)
28 Internacional Erica Rodrigues
Desafios da participação cidadã nos Iracema Dantas
processos de inovação democrática Itamar Silva
Felipe Llamas Sánchez João Roberto Lopes Pinto
João Sucupira
38 Entrevista Leonardo Méllo
Dona Dijé Moema Miranda
Núbia Gonçalves
48 Especial
Mulheres que quebram o coco e extraem a vida DEMOCRACIA VIVA
Iracema Dantas ISSN: 1415149-9
Diretor Responsável
56 Crônica
Cândido Grzybowski
Ocultar e revelar
especial Alcione Araújo Conselho Editorial
Alcione Araújo
Mulheres que quebram
o coco e extraem a vida 58 Resenhas Ari Roitman
Eduardo Henrique Pereira de Oliveira
62 Opinião Ibase Jane Souto de Oliveira
Reflexões preliminares sobre espaços Regina Novaes
Rosana Heringer
públicos de participação no governo Lula
Nelson Giordano Delgado Coordenação Editorial
Flávio Limoncic Iracema Dantas

70 Projeto Mapas Subeditor


Marcelo Carvalho
Ensaios da participação no Brasil
Fátima Nascimento, Lucineide Barros, Sérgio Revisão
Baierle, Mônica Schiavinatto, Leda M. B. Castro AnaCris Bittencourt
e Carlos Tautz Marcelo Bessa

78 Espaço aberto Assistentes Editoriais


Flávia Mattar
Controle social em saúde da mulher
Jamile Chequer
Silvia Maria Cordeiro
Produção
84 Cultura Geni Macedo
Considerações acerca da cidadania das ruas
Distribuição
Marcelo Carvalho
Maria Edileuza Matias
92 Última página Projeto Gráfico
Nani Mais Programação Visual

Diagramação
Imaginatto Design e Marketing

Fotos da Capa
Eraldo Platz, Almir Veiga (Agência JB)
e Evandro Teixeira (Agência JB)

Fotolitos
Rainer Rio

Impressão
J. Sholna

Tiragem
5 mil exemplares

democraciaviva@cidadania.org.br
artigo
Almira Rodrigues*

R e f o r m a
p o l í t i c a
1

De início, é importante pensar sobre os antecedentes e significados da

reforma política em pauta no contexto político brasileiro. Essa reforma

merece ser compreendida como um processo que remonta ao conjunto

das reformas de base inciadas pelo governo João Goulart e interrompi-

das pelo golpe militar de 1964. No período ditatorial, as alterações no

sistema político eleitoral e partidário foram plenamente casuísticas, com

o objetivo de impedir o avanço e as conquistas das forças de oposição.


1 Este texto foi elaborado com base na
palestra “A história da reforma política:
Entre elas, destacam-se a implantação do bipartidarismo (que prevaleceu impasses e desafios”, proferida pela
autora, e nos debates ocorridos no se-
minário Reforma Política e Participação
de 1965 a 1979), a instituição da fidelidade partidária por lei e a criação Social, realizado no dia 23 de junho de
2004, em Brasília, e promovido pelo
Instituto de Estudos Socioeconômicos
de mecanismos de domicílio eleitoral e de prazo de filiação partidária, (Inesc), Instituto de Ciência Política
(Ipol) da Universidade de Brasília e
Centro Feminista de Estudos e Asses-
os quais se encontram em vigor até hoje. soria (Cfemea).

AGO 2004 / SET 2004 3


ARTIGO

A redemocratização no país começou a reverter um texto universal: reserva de no mínimo 30% e


a situação, emergindo como grande marco no máximo 70% das vagas de candidaturas para
o processo constituinte e a promulgação da cada sexo, nas eleições proporcionais. O sistema
nova Constituição Federal, em 1988. Nomeada de cotas, embora insuficiente para mudar a feição
Constituição Cidadã, promoveu uma ruptura masculina do cenário político brasileiro, trouxe
radical com o Estado de exceção e incorporou uma excelente contribuição, ao promover o amplo
avanços legais substantivos, apontando para debate sobre a sub-representação política das
o aperfeiçoamento da democracia em suas mulheres e ao abrir espaços, efetivamente, para
diversas feições. Entre as conquistas assegura- a participação feminina.
das, especificamente no âmbito da participação Com a nova legislatura, iniciada em
política, destacam-se: o voto para as pessoas 2003, e o novo governo federal, sob a presi-
analfabetas; o voto op­cional para jovens na dência de Luiz Inácio Lula da Silva, a discussão
faixa de 16 a 18 anos incompletos; a autonomia sobre a reforma política foi resgatada, embora
dos partidos políticos esteja longe de ser deliberada ainda neste ano.
para definirem sua es- Foi criada a Comissão Especial da Reforma Po-
trutura, organização e lítica na Câmara dos Deputados, que aprovou
funcionamento, mes­ um relatório, dando origem ao Projeto de Lei
mo sobre normas de 2.679/03. A tramitação do projeto enfrenta
fidelidade e disciplina dificuldades para avançar, pelos dissensos
partidárias; e a criação partidários na base de sustentação do gover-
de instrumentos de no e, também, pela conjuntura das eleições
democracia direta – municipais que acaba afetando os trabalhos
plebiscito, referendo parlamentares.
e iniciativa popular Em todo o processo, constata-se que a
de lei. reforma política tem sido tratada por políticos,
Segundo Be­ no âmbito do Congresso Nacional, e por cientis-
nevides (2003), esses tas, no âmbito da academia. Até o momento, a
instrumentos de de- discussão não se expandiu de forma significativa
mocracia direta não para cidadãos e cidadãs e para as organizações
devem ser compreen- da sociedade civil. Assim, é urgente a realização
didos como oposição de debates sobre o tema. Embora prevaleça
à democracia repre- a perspectiva de se pensar a reforma política
sentativa, e sim co­mo como processo, espaço e oportunidade de
manifestações que ampliação e aprofundamento da democracia,
podem corrigir seus persistem concepções formalistas, que buscam
vícios e desvios. Ali- limitar e controlar as expressões de cidadania e
ás, as relações entre de participação política.
formas de democracia
direta e democracia
Pauta e problematizações
representativa cons-
tituem um espaço Dentre as questões comumente elencadas na
de reflexão da maior discussão da reforma política, duas têm sido
relevância e atuali- objeto de maior atenção e constam do projeto
dade, observando- de lei mencionado. A primeira diz respeito à
-se que am­b as são regulamentação do financiamento público
expressões de cida- exclusivo de campanhas eleitorais, considerado
dania. como uma forma de ampliar e equalizar as
No rumo da condições de par­­ticipação política e, parale-
ampliação da demo- lamente, de coibir a corrupção e o tráfico de
cracia, a legislação influência. A segunda aponta para a adoção
eleitoral brasileira incorporou importante disposi- da lista fechada de candidaturas, como uma
tivo visando promover a participação política das forma de fortalecer os partidos políticos e, pa-
mulheres e a redistribuição das oportunidades de ralelamente, de esvaziar práticas persona­listas
acesso aos espaços de representação política. A generalizadas e a competição eleitoral interna
legislação de cotas para mulheres foi adotada em nas próprias agre­m iações. Se a primeira tem
1995, sendo aperfeiçoada em 1997, ao adquirir se mostrado mais consensual sob múltiplas

4 Democracia Viva Nº 23
Reforma política e participação

perspectivas, a segunda é polêmica no con- pela coisa pública e do investimento exclusivo


texto brasileiro, ainda que seja predominante no mundo privado ou na esfera íntima.
nos sistemas políticos em todo o mundo. Em Assim, a discussão sobre voto obrigató-
algumas visões, a lista fechada e ordenada – rio versus voto facultativo precisa considerar
que é apresentada pelos partidos e demanda os sentimentos – rejeição, estranhamento,
de eleitores e eleitoras o voto partidário, e não indiferença e indignação – que circulam nos
o voto em candidatos(as) – poderia acabar processos de eleição de representantes para os
promovendo o fortalecimento de burocracias poderes Legislativo e Executivo, em todas as es-
partidárias. feras. Esses sentimentos são pas­síveis de serem
Um dispositivo que caminha na contra- transformados em expressões de cidadania, de
mão do aprofundamento da democracia é o autodeterminação, de perten­cimento, compar­
mecanismo da cláusula de barreira, dispondo tilhamento e engajamento em pro­jetos públicos.
que, nas próximas eleições federais, os partidos Pa r a t a n t o ,
políticos precisam de 5% dos votos de eleitores co­­l oca-se o desafio
e eleitoras do país para ter representação polí- mai­or de construir a
tica. O projeto de reforma política na Câmara política como função
propõe a redução da cláusula de barreira de nobre, ética, ge­n e­
5% para 3%. rosa, de investimento
Duas outras questões têm sido objeto nas outras pes­soas e
de debates, mas não foram contempladas na em novas ge­ra­ções,
atual discussão no Congresso: a adoção do de construção de
sistema distrital e a correção na representação futuros (Nogueira,
proporcional no país. No debate do sistema 2001). O desafio é
proporcional versus distrital, é reconhecido que, de todos e to­das, de
por um lado, o sistema proporcional garante um sujeitos individuais
leque de representatividade e uma diversidade e coletivos e, par-
político-ideológica que não são viabilizados pelo ticularmente, das
sistema majoritário e que, por outro, o voto instituições públicas.
majoritário proporciona maior interação e pro- Coloca-se, tam­bém,
ximidade entre eleitores(as) e suas respectivas o desafio de se pro-
unidades territoriais e representantes eleitos(as). mover a ação política
Quanto à atual representação pro- em todos os âmbi-
porcional, destaca-se a existência de grandes tos: nos poderes do
distorções, uma vez que é garantida a re- Estado, nos poderes
presentação mínima de oito deputa­d os(as) da sociedade civil
federais e limitada a representação máxima em organizada e nas for-
70 deputados(as) por unidade da Federação, mações partidárias,
gerando estados super e sub-representados. es­p ecial­m en­t e para
Além dessas questões, gostaria de pro- que tenham vida pa­
blematizar outras três que possibilitam refletir ra além dos proces-
sobre a democracia que se quer construir no sos eleitorais.
Brasil. A segunda
A primeira diz respeito à relação dos in- ques­tão a ser pro­
divíduos com a prática política e que se traduz, blema­tizada diz res-
no campo da discussão da reforma, no tema do peito exatamente ao
voto obrigatório. Renato Janine Ribeiro (2003) questiona­m ento do
observa que esse talvez seja o único tema de monopólio da repre-
interesse da população, que apresentaria sim- sentação política pe-
patia pelo voto facultativo e questionamento los partidos. Existem
do voto obrigatório. Em sua reflexão, o autor algumas raras expe-
analisa o voto como um direito público, como riências, em alguns
responsabilidade e vinculação com a coisa países, de abertura de espaços para o lançamen-
pública, e observa que a cidadania não pode to de candidaturas avulsas e de agrupamentos
ser terceirizada. Ele também chama a atenção não-partidários.
para a necessidade de se transpor a ameaça Com esse questionamento, não se trata
da indiferença interna, do desinteresse/descaso de promover o esvaziamento de partidos po-

AGO 2004 / SET 2004 5


ARTIGO

líticos, que têm uma função pública a desem- No âmbito da discussão da reforma
penhar, contribuindo cada um, a partir de seus partidária, o projeto em tramitação na Câmara
referenciais político-ideológicos, para a constru- incorporou ações afirmativas visando ampliar a
ção de projetos de sociedade. Trata-se de abrir presença das mulheres na política, ao propor
espaços para a criação de outras possibilidades, duas medidas importantes: a destinação de pelo
de invenções de organização, de expressão e menos 20% do tempo de propaganda partidária
representação política e de experiências que gratuita na mídia para promover a participação
possam animar a vida política brasileira. das mulheres e a destinação de percentual
Por fim, a ter­ceira questão diz respeito equivalente a 6% do fundo partidário para
ao monopólio da representação política pelos promover a formação e a participação política
homens. É cada vez mais generalizado o re- das mulheres. Esses dispositivos significam
conhecimento de que a reduzida presença das a regulamentação da utilização de recursos
mulheres na esfera da representação política é públicos e não devem ser compreendidos
uma forte expressão como interferência na autonomia partidária
da fragilidade e do (Rodrigues, 2004).
comprometimento O projeto manteve o dispositivo de
da democracia (Bar­ constituição de lista fechada com o mínimo
reiro et al., 2004). O de 30% e o máximo de 70% das vagas para
quadro de exclusão ambos os sexos, a exemplo do que já ocorre
das mulheres desse para a constituição de lista aberta. Nesse
espaço público é ponto, no entanto, é mister observar que,
grave. Apenas 15 na lista fechada, o sistema de cotas por sexo
países apresentam só é eficaz caso seja garantido o lugar de
participação de mu- mulheres e de homens na ordenação da lista,
lheres na Câmara impedindo que as mulheres sejam colocadas
Baixa, ou Câmara ao fim da lista e não logrem eleger-se. Dois
dos Deputados, su- exemplos que garantem iguais oportunidades
perior a 30%. O Brasil são mar­c antes pela sua eficácia. A Argentina,
encontra-se no grupo primeiro país a adotar as cotas em lei eleitoral,
de 70 países com pior em 1991, dispõe sobre a formação das listas
desempenho, inferior fechadas de forma que não se tenha mais do
a 10%. Em âmbito que dois nomes consecutivos do mesmo sexo
legis­lativo estadual e e já apresenta 30% de mulheres no Parlamen-
municipal, o percen- to. A França, primeiro país a se nomear como
tual de mulheres gira uma democracia pa­r itária, adotou o sistema
em torno de 12% e, da paridade, com alternância eqüitativa entre
em âmbito executivo, homens e mulheres na formação da lista,
é bem abaixo. Esse nas eleições municipais de 2001, alcançando
cenário foi ampla- praticamente uma proporção meio a meio na
mente destacado na representação política nessa esfera.
IV Conferência Mun-
dial Sobre a Mulher,
Sociedade atenta
realizada em Beijing,
em 1995, que reco- Na participação política, é importante pensar
mendou o seu fir- a tríade: organizações da sociedade civil, re-
me enfrentamento, presentação política no âmbito do Estado e
mediante legislação partidos políticos. Quanto mais essas esferas
e políticas públicas, dialogarem, mais se estará aprofundando a de-
com ações afirma- mocracia. A fala de cada esfera consigo mesma
tivas. A partir de é necessária, mas insuficiente para se avançar
então, dezenas de na construção da cidadania, que é fruto da
países passaram a adotar o sistema de cotas gestão pública, e não da gestão partidária ou
por sexo em suas legislações, e já somam 75 corpo­rativa. Nessa medida, o debate sobre a
os países que adotaram algum tipo de legis- reforma política precisa transpor a esfera da
lação sobre a questão, representando 45% representação política e aden­trar os campos
dos países que têm instituições legislativas. da sociedade civil organizada e dos partidos.

6 Democracia Viva Nº 23
Reforma política e participação

Cada uma dessas esferas de ação Nessa medida, os movimentos feminis- * Almira
política apresenta lógica e forma de funcio- tas reivindicam que a reforma possa contribuir Rodrigues
namento próprias, merecendo investigações para que a política deixe de ser um território Socióloga, doutora
apro­fundadas, principalmente na perspectiva masculino, machista, racista e homofóbico. em Sociologia pela
de suas relações e mediações. Na sociedade Também se espera que possa contribuir para Universidade de Brasília
brasileira, o espaço político da representação impedir a reprodução das práticas patrimoni­ e diretora colegiada

no Legislativo e, principalmente, no Executivo alistas, auto­ritárias, pater­nalistas, per­sonalistas do Centro Feminista


de Estudos e Assessoria
tem sido privilegiado, em detrimento do espa- e oligár­quicas da cultura política brasileira. Pa-
(Cfemea).
ço político da participação na sociedade civil radoxalmente e de forma bastante ten­sionada,
organizada. Em geral, os partidos políticos são são essas mesmas características que se colocam almira@cfemea.org.br
meros instrumentos de acesso à representação como fortes obstáculos pa­ra a efetivação de
política. Além disso, sua função de promo­ver mudanças e para a realização de uma reforma
a iniciação e a formação política, bem como política que amplie a democracia, engajan­do
de expressar interesses e propostas para o novos segmentos além das mulheres: jovens,
desenvolvimento do país, está profundamente afrodescendentes, trabalha­dores(as), lideranças
comprometida. E as organizações da sociedade populares, comunidade de gays, lésbicas, bis­
civil, embora tenham conquistado espaços de sexu­ais e trans­gêneros.
gestão pública, a exemplo de representações A prática política não garante nada,
em conselhos setoriais, têm um longo percurso mas é a única possibilidade real de promover
a desenvolver em termos de interlocução com mudanças, de enfrentar as exclusões, desigual-
partidos e com representantes eleitos(as) e dades e dis­criminações sociais e de construir
indicados(as). uma sociedade em bases democráticas, justas
No âmbito da sociedade civil organizada, e solidárias. E a reforma política brasileira cons-
os movimentos de mulheres e feministas vêm titui uma oportunidade de buscar o consenso
dando uma grande contribuição, revertendo em mecanismos e instrumentos que promovam
lógicas seculares. Primeiro, pontuando a im- a participação política cidadã, as expressões
portância da democracia na rua e em casa e coletivas e a representação política.
construindo o âmbito privado, sobretudo como Assim, o desafio é contribuir para a
espaço de relação de poder e de construção realização de uma reforma política que afirme
da cidadania. Segundo, tornando públicas as valores e práticas no rumo do aprofundamento
opressões e discriminações que circulam em da democracia, da liberdade, da acessibilidade,
âmbitos privado e público, politizando-as e do fortalecimento de organizações políticas
transformando-as em objeto de legislação e de partidárias e não partidárias, da redistribuição
políticas públicas, visando à sua superação. de oportunidades de acesso à representação
Terceiro, construindo a perspectiva de gênero, política e da construção de relações de poder
visão a ser incorporada em todos os espaços, mais simétricas e igualitárias.
temáticas, relações, processos, que alude à
necessidade de se considerar sempre: a história
de mulheres e de homens; as repercussões
sobre o cotidiano de mulheres e de homens;
as representações do feminino e do masculino;
as relações entre mulheres e homens, entre
mulheres, e entre homens.

Referências bibliográficas
BARREIRO, Line et al. Sistemas electorales y representación NOGUEIRA, Marco A. Em defesa da política. São Paulo: Senac,
femenina en América Latina. Santiago: Nações Unidas/Cepal, 2004. 2001. (Série Livre Pensar, 6).
(Série Mujer y Desarrollo, 54). RIBEIRO, Renato J. Sobre o voto obrigatório. In: VANNUCHI,
BENEVIDES, Maria V. Nós, o povo – reformas políticas para Paulo; BENEVIDES, Maria Victoria; KERCHE, Fábio. (Org.). Reforma
radicalizar a democracia. In: VANNUCHI, Paulo; BENEVIDES, Maria política e cidadania. São Paulo: Perseu Abramo, 2003.
Victoria; KERCHE, Fábio. (Org.). Reforma política e cidadania. São RODRIGUES, Almira. Reforma política e ações afirmativas.
Paulo: Perseu Abramo, 2003. Política Democrática – Revista de Política e Cultura, Brasília, n. 7,

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nacio
nacional
Cândido Grzybowski*

Quanta expectativa está indo por água abaixo! Ou, talvez, com a sensação de encur­

ralamento, sentida por muitos e muitas de nós, nem conseguimos ver direito o que se

passa com o governo Lula. Estamos rodando desordenadamente, sem aceitar a armadilha

da macroorientação política. A vontade é investir contra, bater para romper. Não é possível

que tenhamos lutado contra todo um arcabouço de políticas econômicas que nos levaram

à “prática do liberalismo submisso” – ou seja, as políticas de Fernando Henrique Cardoso

(FHC) em contraposição à sua própria teoria da dependência – em vão. Será que, como

diz Francisco de Oliveira, chegamos tarde, conquistando o poder político quando a pró-

pria política já havia sido seqüestrada por forças e interesses que estão em outro lugar?

Uma coisa é certa: tudo é contingenciado pelo orçamento, pelos tais “recursos

disponíveis”. Mas nisso não entram as decisões do Banco Central, tanto na definição do

superávit primário como em suas decisões de política monetária (juros, por exemplo),

8 Democracia Viva Nº 23
onal
sem dizer de onde virão os recursos para pagar curralou nossos sonhos e a própria ação. Isso
banqueiros e especuladores. Por que o essencial em relação a nós, naquele um terço que sempre
não é decidido no Congresso e só ficamos com votou em Lula. Menosprezamos as outras pes-
as conseqüências? Quem controla o Banco soas que, somadas, foram fundamentais para a
Central? Por que ele só presta contas e faz esmagadora vitória. O lugar delas no poder de-
acertos em esferas internacionais – no tal Fundo sequilibrou as forças e, o que ainda torna tudo
Monetário Internacional (FMI) e na casa de seu mais difícil, abriu o flanco para “aderentes” de
irmão xifópago, o Banco Mundial? Até mesmo sempre. À medida que o bonde de forças assim
simplesmente se nomeia quem representa o constituído começou a operar e mostrar as po-
Brasil nessas instituições, sem passar pela saba- líticas práticas, o assanhamento dos interesses e
tina do Senado como qualquer embaixador. A forças de sempre sobre o governo Lula deixou
autonomia do Banco Central é uma realidade, de ter escrúpulos e passou a festejá-lo. Quando
minha gente! Só falta escancarar. parecíamos avançar, superando o retrocesso
O jeito é pensar pontos de ruptura que que domina a política brasileira desde sempre,
apontem para frente e nos façam avançar. acabamos nós mesmos encurralados. Que sina!
Eles sempre existem. Senão, só nos restaria a Mantendo a perspectiva de radicalizar
rendição à tese de que a história acabou. Nada a democracia, precisamos analisar melhor o
como voltar ao ponto de partida. Precisamos quadro de forças, suas alianças e coalizões,
ser coerentes, retomando nossas análises sobre para saber onde incidir a ação e “resgatar” o
governos como expressão de correlação de for- governo Lula – ao menos fazê-lo mais amigável
ças, pacto de forças diferentes e contraditórias à participação da cidadania e, assim, torná-lo
em ação. Quando o governo Lula se formou e timoneiro de um novo rumo para o Brasil.
tomou posse, em janeiro de 2003, sem dúvida Continuar dessa forma não dá. Também não se
uma nova correlação de forças se constituiu trata apenas de tomar a envergonhada atitude
na sociedade brasileira. Um novo tipo de luta de sindicalistas da Central Única dos Trabalha-
política chegou ao centro do poder político dores (CUT), que batem pedindo desculpas.
e se irradia sobre o conjunto. Não é o que Aliás, este governo promoveu uma enorme
esperávamos, mas é o que temos. O problema transferência de quadros sindicais, seus aliados,
é que nossas expectativas não nos permitiram para os postos da estrutura do poder. Além do
ver o que realmente estava acontecendo e, que isso representa em termos de privação do
conseqüentemente, não analisamos bem o que movimento sindical de lideranças constituídas
fazer e como agir para radicalizar a democracia ao longo do tempo, acrescente-se o fato da
no novo quadro. Definitivamente, não estamos reestruturação nas empresas e o desemprego
diante de um novo modo de fazer política, com para se entender a relativa paralisia das centrais
um governo petista trazendo ao centro do po- sindicais. Enfim, uma força central da sociedade
der sua experiência participativa e renovadora civil no sentido da radicalização da democracia
da política. Mas estamos diante de um novo não vive no governo Lula, em sua expressão, o
governo, ao seu modo, diferente. momento mais favorável.
Já perdemos muito tempo esperando Vejamos mais de perto o conjunto, a tal
que o “nós lá” – na expressão do povão que correlação de forças no governo Lula. O que
festejou a posse de Lula – fosse uma substancial precisamos é tentar ver os grupos em disputa no
mudança de políticas e, sobretudo, do modo de centro do poder e sua irradiação para as outras
formulá-las, dando lugar central à participação. esferas políticas e a própria sociedade. Não são
Essa foi uma das grandes desilusões; pior, en- as tendências internas do PT e suas disputas que

AGO 2004 / SET 2004 9


nacional

explicam a complexidade do bloco hegemônico tituem e reproduzem. Em última análise, é do


petista. Digamos que o “interno” do PT dá vida movimento mais profundo da própria sociedade
e colorido à cor­relação de forças, é uma parte que vão emergindo e criando-se politicamente
consti­tutiva necessária, mas insuficiente. Temos as forças. Os projetos hegemônicos e as hege-
que partir do poder, e não do partido. Temos monias são construções políticas que se fazem
que ver o poder como Executivo, Le­gisla­tivo e na luta democrática, buscando ser expressão de
Judiciário, a­pesar de suas enormes diferenças em anseios, desejos e projetos que nós, cidadãs e
termos legais e funcionais, bem co­mo no modo cidadãos, carregamos. Fomos nós que trouxemos
co­mo se cons­ti­tuem e operam. petistas e tucanos ao centro da disputa hege-
Como hipó- mônica. Há bem pouco tempo, não era assim,
tese de reflexão, e tudo indica que novos blocos hegemônicos se
a­vanço na idéia de formarão no futuro.
que, hoje, a dispu- O que exatamente separa e diferencia
ta de hegemonia os blocos de forças políticas comandados por
política no Brasil petistas e por tucanos? Para analisar isso, pro-
está entre pe­tistas e ponho uma radiografia da sociedade brasileira
tucanos, cada qual a partir do poder, configurando os grandes
com seus aliados e blocos, com as suas próprias segmentações,
aliadas, que podem do jeito que se apresentam na atualidade. É
variar, mover-se ora uma espécie de matriz de leitura, sabendo que
pa­­­ra cá, ora para lá. muitíssimas nuanças do jogo político ficam de
Mas quem dá a dire- fora. Considero quatro blocos fundamentais,
ção são petistas e tu- expli­citados a seguir.
canos. E tal disputa
de hegemo­n ia vem
Desenvolvimentistas
de longe. Antes foi
disputa no interior São setores que defendem um papel ativo e
das forças de o­posi­ indutor do Estado sobre a economia no sen-
ção que se for­ja­ram tido de seu crescimento. Sua base histórica
contra a di­tadura mi- tem sido as grandes corporações profissionais
litar e, depois, pe­la – engenheiros(as), adminis­trado­res(as), econo-
Constituição Cida­­­dã. mistas, militares – e as empresas estatais, com
No pro­cesso que se seus corpos funcionais bem mais qualificados
se­g uiu, na década e organizados que a média das empresas bra-
de 1990, do neolibe- sileiras. Apesar das privatiza­ções ocorridas e do
ralismo escancarado desman­telamento provocado, ainda persistem
entre nós, os tucanos empresas estatais importantes, e as corpo­rações
acabaram impondo têm influência, especialmente pelos fundos de
a sua hegemonia. pensão, hoje grandes investidores institucionais.
Foi em o­p osição à No interior desses estamentos, prepondera hoje
hegemonia tucana uma perspectiva democrática institucional dife-
que venceu Lula e o rente do autoritarismo do período da ditadura.
pe­tis­mo. Ao menos, A grande novidade nesse bloco é a influência
es­se foi o quadro crescente do novo grupo sindical, dominante-
que em ­ ergiu das mente cutista e petista, retratando as mudanças
eleições majoritá- ocorridas na sociedade e no próprio movimento
rias e proporcionais sindical. Os sindicatos nasceram em oposição
de 2002. à estrutura e à prática empresarial surgida da
Importa ter em mente que os blocos de grande expansão capitalista do chamado pe-
forças políticas não são conjuntos homogêneos. ríodo desen­volvimentista, predominantemente
Pelo contrário, sua unidade é construída a partir autoritário. Deram origem a um tardio, mas
de enormes contradições internas e está em pujante, movimento sindical, força essencial na
permanente movimento. Por isso, esses blocos redemocratização do Brasil desde o fim da dé-
não podem ser separados uns dos outros, pois cada de 1970. No processo de sua constituição,
é no confronto histórico de interesses, projetos com a formação da CUT e das outras centrais,
e idéias, até de favores e agrados, que se cons- os sindicatos acabaram moldando novas práticas

10 Democracia Viva Nº 23
Cidadania encurralada

empresariais e uma nova cultura de trabalho. O presença no partido forjou uma fundamental
PT deve ao movimento sindical as suas principais aliança com novos setores sindicais mais radicais,
lideranças, com destaque para o próprio Lula, cuja liderança e legitimidade passaram a depender
hoje presidente do Brasil. Entre desen­volvi­mentis­ desse alargamento de bases sociais e espaços de
tas, sempre houve setores empresariais privados, atuação política. Por isso, faz parte do bloco de
muito dependentes do bom desempenho da ati­vistas populares todo um segmento sindical
economia nacional e sem grandes vôos próprios. identificado com a luta dos setores po­pulares,
urbanos e rurais, que irrom­pem na política nos
últimos 20 a 30 anos.
Globalistas
Em termos
Chamo assim os setores que consideram as po­líticos, o impacto
forças de mercado o motor da economia, do bloco de ati­vistas
cabendo ao Estado – e, portanto, ao poder populares se fez sentir
político – criar o ambiente favorável às empre- na criação de uma
sas, ao capital financeiro e ao mercado. Nesse lógica em que o voto
bloco, incluem-se grandes empresas de capital e a representação
estrangeiro, empresas nacionais com estratégia se submetem e/ou
global (dado o seu porte) – com destaque para complementam por
grandes empresários beneficiados com as pri­ formas mais diretas
vatizações nas últimas décadas –, exportadores de participação e pela
e agronegócio, banqueiros e investidores em criação de novos ca-
papéis da dívida pública. Os globalistas são os nais permanente de
grandes propulsores do neoliberalismo como negociação e concer­
visão e da globalização econômico-financeira tação. Centrando sua
dominante como modelo a ser seguido. Cabe força na questão da
destacar o segmento empresarial mais direta- exclusão/inclusão e
mente en­gajado na produção industrial. É um no tema da desigual-
grupo moderno e modernizador, que vê no dade de recursos e
desenvolvimento do Brasil a sua própria con- poder, bem como da
solidação como grupo de elite. Por isso, ao seu destruição ambien-
modo – com visão essencialmente capitalista e tal, esse bloco tem
globalista –, são desenvol­vimen­tistas, base de levantado a bandeira
sua oposição e, ao mesmo tempo, intrínseca da democracia radi-
aliança com o novo pólo sindical desenvolvi- cal na luta política
mentista. brasileira das últimas
décadas. Deve-se a
esse bloco o fato de
Ativistas populares
que questões como
Esse é o bloco que sofreu mais transformações desigualdade de gê-
com a emergência na política dos segmentos nero, desigualdade
populares, urbanos e rurais. Sua origem, porém, étnico-racial, direito
é remota. O populismo trabalhista foi a sua à diversidade, direito
maior expressão no passado. Durante a ditadura à cidade, justiça am-
militar e na luta pe­la redemocratização, foram se biental, participação
constituindo novos sujeitos populares por meio na formulação e ges-
de movimentos e organizações. Esse é um dos tão de políticas pú-
pilares da democratização do Brasil. Sua irrupção blicas e tantas outras
na política, mesmo parcialmente (muitos grupos mais façam parte, hoje, de nossa a­genda política.
continuam politicamente ausentes e, portanto,
invisíveis), a partir da luta por direitos e contra
Conservadores
a exclusão, faz a diferença. Por meio de seus
movimentos e organizações, vêm criando uma É um bloco que foi dominante na história política
cultura democrática no­va, verdadeiras trincheiras brasileira. O clientelismo, o favor e a privatização
de defesa social e uma grande capacidade de da coisa pública são marcas maiores desse bloco
incidência nos processos políticos. Um número impressas em nossa vida política, ainda fortes hoje.
grande de ativistas aderiu ativamente ao PT. A Com uma atitude dominantemente autoritária,

AGO 2004 / SET 2004 11


nacional

esse bloco tem sabido se manter na política, sempre suas dissidências. Algumas prosperam e
mesmo de forma subalterna, mas influindo de podem virar novos partidos no futuro. Isso não
modo qualitativo na composição de outros blocos impede que, em dado momento, sejam simples-
de forças políticas na democracia brasileira. A clara mente dissidências, pouco ou nada contando na
origem latifundiária e oligár­quica dos segmentos disputa de hegemonia.
integrantes mar­ca profundamente sua a­tuação. Agora, é possível voltar à questão da
Mas ele tem penetração em tradicionais setores disputa entre petistas e tucanos como o nó
urbanos mais afeitos a privilégios do que direitos. atual da política brasileira. Para isso, precisamos
Sua penetração nos segmentos intermediários analisar as composições de blocos (ou de parte
mais baixos é maior do que se imagina, influindo deles) e a formação do bloco hegemônico, da
decididamente nos processos eleitorais, mesmo direção e da legitimidade política que constrói.
das grandes metrópoles. Destaca-se a sua ca- Precisamos distinguir as forças de base de cada
pacidade de representação política e controle do partido hegemônico e o modo como constitui
aparato estatal, no Parlamento, no Executivo sua hegemonia, atraindo e dando direção a ou-
e no Judiciário. Quanto mais distante estiver do tras forças, suas aliadas. Vejamos mais de perto
poder federal, maior é essa representação. Mas o caso de tucanos e petistas.
mesmo no plano central, em Brasília, nenhuma
pessoa que governe pode desprezar o poder de
Tucanato
fogo do grupo rura­lista, uma das expressões mais
eficazes desse bloco, passando por cima da própria Os tucanos são uma combinação de setores
estrutura partidária. democrático-liberais do bloco desenvol­vimentista,
A esses quatro blocos de forças políticas especialmente profissionais e intelectuais, com
principais é necessário agregar outros. Não são setores globalistas de vários tipos. O interessante é
exatamente blocos, mas têm atuação autônoma, que no processo de lutas políticas, quando tucanos
até por vezes impre­visível, mesmo sem poder de acabaram criando condições de se apresentarem
disputa de hegemonia. São, por isso, grupos su- como força he­ge­mônica, globalistas cresceram
balternos disputados pelos outros e suas alianças. em importância e acabaram dando o rumo. Esse
O problema é que, dependendo das situações, fato explica por que, no Brasil, com os tucanos
seu papel acaba sendo muito importante. Chamo do PSDB, forja-se uma força impulsora das
a atenção, em particular, para o grupo corpora- políticas de globalização neoliberal, como no
tivista. Seus interesses mais específicos estão em resto da América Latina, mas com feições mais
primeiro plano, acima dos interesses da coletivi- democráticas, dada essa curiosa combinação.
dade, independentemente das conjunturas. No Um outro fundamental aspecto a destacar é que
período recente, cabe destacar o modo como se a conquista de hegemonia tucana no Brasil – os
comportou o Supremo Tribunal Federal e o Judici- oito anos de FHC – se faz em aliança com o
ário em geral – e também o importante segmento bloco conservador e, por meio dele, arrastou
composto por funcionários(as) públicos(as). Não oportunistas de todos os tipos. Isso não foi
é um grupo necessariamente conservador e nem gratuito. O namoro com Collor, desfeito em
democrata progressista. Militares, evan­gé­licos(as) e tempo por Covas, jogou os tucanos em direção
outros segmentos incluem-se nesse grupo, alguns ao PFL e ao PMDB e, com eles, a oito anos de
formados em caráter circunstancial, em torno de domínio, nos limites impostos por tal aliança.
disputas e questões ad hoc. O grande número
de oportunistas da política brasileira deve ser
Petismo
incluído nesse grupo. Sua constante mutação
partidária e de posições é reveladora de suas O PT se constitui tendo no centro a aliança entre
motivações maiores. setores desenvolvimentistas democráticos, espe-
O que importa nessa análise do poder cialmente o novo segmento sindical-desenvol­
sendo forjado por blocos de forças é que eles vimentista, e seus fundos de pensão, com os
mesmos são composições complexas e variáveis de ativistas populares. A hegemonia no interior
no tempo. Os partidos hegemôni­cos, como blo- do PT ficou com sindicalistas, mas a ampla
cos políticos, são composições derivadas, onde base de movimentos sociais e populares aderiu
se combinam forças originárias de diferentes em peso e imprimiu um claro caráter popular
blocos e que exercem poder de atração sobre o e democrático ao partido. Para a conquista do
conjunto de forças de cada bloco. Dissidências poder hegemônico na sociedade brasileira, o
existem, maiores ou menores, dependendo da PT se aliou a setores empresariais globalis­tas e
conjuntura de luta política. Cada partido tem arrastou parte significativa dos outros segmentos

12 Democracia Viva Nº 23
Cidadania encurralada

desen­volvimentistas, até aí reticentes diante do trama montada. Num primeiro esboço, podemos
petismo. Novamente, tal aliança não foi gratuita. identificar o momento da “celebração do poder”,
Diferentemente de tucanos, que têm globa­listas quando ainda parecia que existia união entre nós
como parte de seu DNA, petistas fazem uma e várias iniciativas de participação foram apon-
espécie de engenharia genética pa­ra se aliar a tadas, como o Conselho de Desenvolvimento
essas forças. É a tal Carta ao Povo Brasileiro. Pa­ra Econômico e Social, o Conselho Nacional de
a nossa infelicidade, parece que o transgê­nico Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), as
político vingou e vem transformando o petismo. conferências. Logo veio o “rolo compressor” da
Mas há diferenças na hegemonia de petistas e votação das emendas e da manutenção do arrocho
de tucanos, tanto pela origem como, sobretu- fiscal, com juros estra­tosféri­cos. O sopro da partici-
do, pelo lugar do bloco conservador. O certo pação pareceu adquirir
é que o petismo no poder não é a hegemonia nova vida no momen-
do bloco de ativistas populares. Mas estão lá, e to da “consulta forte”
isso é intrigante. Como é intrigante também o do Pla­n o Plurianual
poder de barganha do enorme grupo de corpo­ (PPA). Mas teve sabor
rativistas sobre o governo Lula, especialmente de frustração, no fim
no Congresso. das contas. E assim
Tendo tal hipótese um mínimo de veracida- fo­mos levando o ano.
de, o passo seguinte para entender os impas­ses da E a ci­da­dania militante
cidadania – a cidadania encurralada, da qual parto esperando, esperando,
– é analisar os momentos em que a hegemonia e as dissidências se
petista sobre o poder político se desdobra. Claro avolumando. O con­
que a história fica com mais sabor pondo nome tinuísmo da política
e sobrenome aos principais atores desse enredo. ma­croeconômica fun-
Afinal, glo­balistas no governo Lula são Meireles, cionou como fator
Furlan e Rodrigues, todos até ontem aderentes do parali­sante no primei-
tuca­nato. Palocci, entre eles, se presta como ga- ro ano deste governo.
rantia petista da aliança feita. Desen­volvimentistas O resultado econô-
de primeira linha são Dirceu, Mercadante, Lessa, mico foi pífio, mas o
Mantega, Dilma, Dutra (Petrobras), Luís Paulo e governo conseguiu
professor Luisinho (no Congresso) e tantas outras retomar o con­tro­­le de
pessoas em postos-chave do aparato estatal. Na uma economia que
linha de frente de ativistas populares, temos Dulci, parecia desgoverna­
Olívio Dutra, Marina, Ros­setto, a envergonhada da, como a da Argen-
esquerda pe­tista no Congresso. Uma importante tina na recente crise.
figura na construção da hegemonia pe­tista é Tarso Para compen-
Genro, pelo seu papel de teórico político da pró- sar um bocado, o go-
pria aliança, em particular de desenvolvi­mentis­tas verno Lula tomou no-
com ativistas populares, o núcleo duro do PT. De vas iniciativas no front
toda forma, é visível a simplificação contida nesse internacional. Nesse
esforço, ao modo de meu guru Gramsci, de dar ponto, o petismo
nome aos personagens de nosso enredo político melhor se diferencia
atual. A realidade é muito mais complexa, sem do tucanato, apesar
dúvida. No entanto, ela pode ser entendida a partir de ambos buscarem
de construções que resgatam o sabor radicalmente o mesmo resultado:
humano envolvido nessa trama, nossa sina como uma maior presença
seres humanos vivendo em sociedades diversas e do Brasil nas transações econômico-financeiras
contraditórias. O incrível de tudo is­so é a possi- e comerciais mundiais e um maior reconheci-
bilidade de ver os blocos do centro do poder se mento político, sem mudar muito as coisas. Os
irradiando sobre a sociedade brasileira, e para ver tucanos o fizeram buscando mostrar serviço
isso basta ler os jornais. Se juntarmos o bloco de segundo a cartilha do Consenso de Washington
oposição e as pessoas patéticas que o comandam, e, assim, estabelecer uma parceria com o G-8.
temos a trama política delimitada. Os petistas apostam na liderança dos países
Os momentos aqui definidos devem con- que estão de fora. Ao menos é esse o sentido da
siderar a fundo – e à maneira de uma sintonia celebrada vitória petista em Cancún, em setembro
fina – a evolução das contradições e lutas da de 2003, liderando o G-20. A formação do Ibsa –

AGO 2004 / SET 2004 13


nacional

*Cândido formado pela Índia, Brasil e África do Sul – vai na dada a forma como foi conquistada a hegemonia,
Grzybowski mesma direção. Devemos destacar a nova e mais um bloco precisa do outro, ou melhor, um bloco
Sociólogo, diretor arrojada política de reconstrução do Mercosul e não pode estar no poder sem o outro. Podem
do Ibase, coordenador- de sua ampliação para o conjunto da América do inverter-se posições, mas não se pode mudar a
geral do Projeto Sul, em contraposição à Área de Livre Comércio essência da hegemonia, da aliança original na
Monitoramento Ativo das Américas (Alca). É uma agenda renovada e conquista do poder, sem a qual o risco é acabar
da Participação da renovadora, mes­mo se duplamente perigosa, pois o próprio governo. Por isso, a questão não é
Sociedade (Mapas)
tem como retaguarda interna um modelo de saber se o bloco desenvolvimentista pode ganhar
desenvolvimento marcada­mente exportador e, a parada ou se o globalista manterá seu papel
também, nos leva a neste governo. A questão é o que pode resultar
uma difícil negocia- dessa aliança em termos de remo­delagem do
ção entre mercados desenvolvimento brasileiro. Bastou a economia
e direitos humanos voltar a apresentar sinais mais positivos para que
nas relações interna- grande parte das diferenças acabe encoberta e o
cionais. governo retome a capacidade de iniciativa, como
O ano de 2004 estamos assistindo hoje.
começou com a re- O mais intrigante é o lugar de ativistas
forma ministerial, na­ populares, que não têm chance, mas não podem
da mais do que uma deixar o barco, pois, assim, desmorona o próprio
mexidinha para dei- PT, base da aliança para conquista de hegemonia.
xar tudo no mesmo O bloco de ativistas populares depende muito
lugar, acomodando, da própria sociedade, já que é por intermédio
porém, ali­a dos(as) dele que os ecos da participação e da pressão
novos(as) e opor- das ruas podem influir nos rumos do governo.
tunistas. Aí veio o Se não estamos diante de um modo par­ticipativo
momento Waldo­miro radicalmente novo de fazer política, estamos
Diniz, de perplexi- diante de um governo dife­rente que, no fim, tem
dade, paralisando o na participação das ruas o seu flanco aberto e
governo Lula e re- sensível. Talvez aí esteja a oportunidade de fazer
duzindo a sua capa- avançar o governo Lula em resposta ao clamor
cidade de iniciativa. de amplos setores da sociedade brasileira, que
Entramos, felizmen- até lhe deu a vitória eleitoral e ainda o apóia,
te, no “abril verme- por mudança.
lho”, prota­goniza­do De uma perspectiva de democracia radical,
pelo Movimento dos que ponha a cidadania no centro, todos os direitos
Tra­balhadores Rurais humanos para todas e todos no país, buscando, de
Sem Terra (MST), que fato, a inclusão e a igualdade, a coisa está difícil.
ao me­nos nos acor- Impossível? Nem tanto. Mas o que temos não é
dou e nos apontou o o que almejamos. Pior, a participação cidadã não
caminho. Desgastes é o motor deste governo. Espaços de participação
de cá e de lá, uma existem e se multiplicaram muito. A qualidade
base parlamentar dela, de seu impacto, é que não mudou tanto. O
meio vaporosa, uma governo Lula ouve, mas parece não escutar. Muitos
agenda nada digni- movimentos, grupos e organizações da sociedade
ficante de votações, civil acreditaram nas possibilidades abertas por an-
como a história dos tigos e novos canais de participação, institucionais
bingos e, sobretudo, ou não. Mas pouco ou nada temos conseguido
o simbolismo envolvido na manutenção de até aqui. Daí a sensação do encurra­lamento, de
um salário mínimo lá embaixo, o pior parece termos caído numa armadilha que nos tirou poder
ter passado para o governo Lula. Entramos de iniciativa cidadã. Para sair do curral, o negócio
no período eleitoral, quando nada ainda está é se organizar e voltar às ruas. Armadilha, não!
definido e tudo é possível.
Cabe um pequeno comentário sobre a tal
disputa entre desenvolvimentistas e globalistas no
governo Lula. Sem dúvida, esses blocos não são
iguais, as disputas são reais. O problema é que,

14 Democracia Viva Nº 23
O Jornal da Cidadania é distribuído
para pessoas que têm pouco ou ne-
nhum acesso à informação crítica e
comprometida com a democracia.
Nossos leitores e leitoras são, espe-
cialmente, estudantes e professoras
e professores de escolas públicas
de todo o país. Mas também traba-
lhadoras e trabalhadores urbanos e
rurais, líderes comunitários, mora-
doras e moradores de comunida-
des pobres. São 60 mil exemplares
distribuídos gratuitamente.

Participe de mais esta iniciativa do


Ibase. Você pode ajudar com contri-
buições financeiras ou organizando
um núcleo de distribuição.

AGO 2004 / SET 2004 15


v a r i e
v
Flávia Mattar
a r i e

Trabalho e gênero Supercamisinha SOS comunidades


quilombolas
O SOS Corpo – Instituto Feminista A equipe da Associação Brasileira
para a Democracia e a Secretaria Interdisciplinar de Aids (Abia) usou As 153 comunidades remanescentes
Nacional sobre a Mulher Trabalha- a criatividade para desenvolver um de quilombos do município de Al-
dora da Central Única dos Traba- inusitado formato de porta-cami- cântara, Maranhão, vêm travando
lhadores (CUT) acabam de lançar sinha. A inspiração veio do patuá, penosa luta pela implementação
a publicação Reconfigura­ção das amuleto utilizado contra mau- de direitos humanos fundamentais
relações de gênero no trabalho. O -olhado. A novidade foi lan­çada em e contra a ocorrência de violações
livro de 144 páginas representa um junho, durante as festividades em no que se refere, principalmente, ao
resgate do que foi debatido durante homenagem a Xangô, no terreiro de direito à moradia adequada e à livre
o Seminário Nacional Reestrutura- candomblé Ilê Asé Ode Oba Omim, autodeterminação. Desde 1984, com
ção Produtiva, Reconfiguração das em Cavalcante, Rio de Janeiro. Pelo a implementação, no município, do
Relações de Gênero no e do Traba- seu apoio a jovens homossexuais, o Centro de Lançamentos de Alcân-
lho, realizado em agosto de 2003. candomblé tem importante papel no tara, foram deslocadas 312 famílias
A publicação traz uma série de combate à opressão sexual. pertencentes a 32 comunidades
pequenos artigos de pesquisadoras e As pessoas que idealizaram o tradicionais.
ativistas como Helena Hirata, soció- moderno patuá partiram do imagi- As comunidades já deslocadas
loga especializada em comparações nário afro-brasileiro sobre proteção foram assentadas em agrovilas.
internacionais do trabalho e das para fomentar o sexo seguro. O Segundo a declaração conjunta
relações de gênero; Maria Ednalva novo porta-camisinha apresenta a do Centro pelo Direito à Moradia
Bezerra de Lima, secretária sobre beleza exterior do patuá, que, em contra Despejos, do Centro de
a Mulher Trabalhadora da CUT sua versão original, esconde os Justiça Global e do Social Watch,
Nacional; Paola Cappellin, profes- elementos carregados de axé (o po- as agrovilas são inadequadas às
sora de Sociologia na Universidade der místico) que protegerão quem necessidades de sobrevivência
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) o utiliza. No caso da recriação da dessas famílias, uma vez que o
– Núcleo de Pesquisas Sindicais; Abia, o patuá traz, em seu interior, solo não oferece condições férteis.
Miriam Nobre, representante da a poderosa camisinha, que oferece Além disso, o deslocamento afastou
Sempre Viva Organização Feminis- proteção contra o HIV. Além disso, as comunidades da costa (trata-se
ta e da Rede Economia e Feminista; adverte quem o usa da falsa idéia de comunidades pesqueiras), entre
Neide Aparecida Fonseca, presi- de que o coito interrompido prote- outros problemas.
denta do Instituto Sindical Intera- ge contra o vírus.
A declaração está disponível
mericano pela Igualdade Racial e
A distribuição é gratuita. em: <www.global.org.br>
secretária de Políticas Sociais da
Confederação Nacional dos Ban- Abia: (21) 2223-1040 Mensagens de apoio podem ser
cários (CNB)/CUT. enviadas para: cohreamericas@
abia@abiaids.org.br
A distribuição é gratuita. cohre.org defensores@global.
org.br socwatch@chasque.net
SOS Corpo: (81) 3445-2086

CUT: (11) 2108-9200

16 Democracia Viva Nº 23
d
d a d e a d e s

Economia brasileira Mortes evitáveis Raios X da deficiência


em foco
Números divulgados pela Orga- A Rede Saci está encabeçando
Foi lançada a terceira edição do nização Pan-americana de Saúde o projeto Agenda Deficiência.
Prêmio Banco do Brasil – Univer- (Opas) mostram que, na América A iniciativa foi idealizada para
sidade de Brasília, organizado pelo Latina e no Caribe, as mulheres promover o diálogo entre diversos
Centro de Pesquisa Econômica e indígenas têm sido vítimas mais atores da sociedade, facilitando a
Social (Cepes), do Departamento freqüentes de mortalidade mater- identificação de dificuldades para a
de Economia da Universidade de na do que as não-indígenas. As inclusão da pessoa com deficiência.
Brasília, e patrocinado pelo Banco estatísticas de Bolívia, Honduras Além disso, o projeto tem como
do Brasil. A iniciativa premiará e Guatemala mostram claramente objetivo ressaltar ações e metas em
o(a) autor(a) do melhor artigo essa realidade. um documento comprometido com
publicado sobre a economia brasi- A mortalidade materna na os direitos do cidadão e da cidadã
leira em revistas nacionais ou in- Bolívia é de 390 por cada 100 com deficiência.
ternacionais nos últimos dois anos. mil pessoas nascidas vivas. Em Para dar início às tarefas, o
As pessoas interessadas em Poto­sí, onde há a maior população primeiro passo foi convidar espe-
concorrer ao prêmio de R$ 15 mil indígena, o número sobre para 496 cialistas, órgãos públicos, entidades
devem fazer a inscrição até 30 de por 100 mil. Em Honduras, a taxa empresariais, centrais sindicais,
setembro. Autores(as) brasilei­ de mortalidade em localidades in- partidos políticos e instituições.
ros(as) e estrangeiros(as), residen- dígenas oscila entre 190 e 255 por A receptividade foi boa, tendo a
tes ou não no Brasil, são elegíveis 100 mil pessoas nascidas vivas; maioria oficializado a participação.
ao prêmio. já a média nacional é de 147. Na Porém, um fato chamou a atenção
Os objetivos da iniciativa são Guatemala, a taxa de mortalidade da coordenação do projeto: a baixa
estimular a pesquisa de alta quali- materna entre a população indíge- receptividade dos partidos políticos
dade sobre a economia brasileira e na é de 83% maior que o índice à proposta.
a publicação, em revistas científicas nacional. Apenas o PT e o Partido Social
internacionais e nacionais, de traba- Segundo dados da Opas, exis- Cristão (PSC) confirmaram o envol-
lhos que investiguem a economia tem barreiras culturais que im- vimento na formulação da agenda.
brasileira e seus problemas. pedem que os serviços de saúde As discussões se desenvolverão
cheguem a esses povos, contribuin- por meio de grupos de trabalho,
Mais informações na página
do para que continuem a ocorrer via fórum virtual, ferramenta que
<www.unb.br/face/eco/
problemas evitáveis, como as está disponível no site da iniciativa
premiobbunb> ou pelo e-mail mortes maternas. Para minorar desde agosto.
premiobbunb@unb.br esse quadro, a Opas e outros
www.saci.org.br
organismos internacionais estão
trabalhando em programas comu- agenda@saci.org.br
nitários, envolvendo parteiras e
lí­deres de saúde locais.

AGO 2004 / SET 2004 17


artigo
Miriam de Oliveira Santos*

Orçamento
participativo:

Por muito tempo, acreditou-se que, quando se falava em democracia e em participação

popular, dizia-se a mesma coisa. Democrata era o governo “do povo, pelo povo e para

o povo”. Portanto, nesse governo a população participaria ativamente. Tal era a filosofia

da democracia liberal, que pregava a igualdade e a universalidade da democracia. Se to-

dos fossem “livres e iguais”, haveria democracia. No entanto, as pessoas não são iguais

e não têm formas de participação igualitárias. A universalidade do voto não significa que

as pessoas tenham, da mesma maneira, acesso às informações sobre os candidatos e a

capacidade de reflexão sobre a maneira como as propostas de cada um afetarão a vida

18 Democracia Viva Nº 23
limites e
contribuições
de um
instrumento
de democracia
direta
cotidiana. Existe um questionamento sobre a própria representatividade da democracia,

visto que as pessoas sentem que suas necessidades, prioridades e desejos não são aten-

didos por quem deveria representá-las. Os limites da democracia representativa geraram

demanda por outras formas de participação popular, especialmente nas últimas décadas

do século XX. Em alguns lugares, experimentou-se a implantação de referendo, plebiscito,

iniciativa popular legislativa, ação popular, recall ou revogação de mandato, conselhos

populares de gestão e fiscalização.

AGO 2004 / SET 2004 19


ARTIGO

Alguns teóricos chegam a considerar que só Olinda (PE) e Rio das Ostras (RJ). Quando o PT
há participação política efetiva quando existe assumiu o governo do estado do Rio Grande
democracia participativa, quando há formas de do Sul em 1998, houve uma tentativa de levar
o cidadão participar, decidir e opinar de forma o OP para a esfera estadual. Até então só havia
direta ou por meio das entidades das quais par- sido aplicado em municípios. Para analisar os
ticipa, especialmente na esfera pública, como pontos positivos e negativos do uso do OP no
orçamento participativo (OP), conselhos de processo de aumento da participação popular
direitos, ouvidorias etc. No entanto, a defesa em um governo democrático, utilizaremos o
de uma democracia participativa não implica exemplo de Porto Alegre, que foi o primeiro e
dizer que todas as formas de representação é, até hoje, seu modelo paradigmático.
devam ser necessariamente abolidas.
No Brasil, surge em 1988 a experi-
História do processo
ência do OP visan-
do à participação Nas eleições de 1988, em Porto Alegre, a frente
ativa da população popular (Partido dos Trabalhadores, Partido
na elaboração do Comunista Brasileiro, Partido Verde e Partido
orçamento. Nesse Socialista Brasileiro) foi vitoriosa. O principal
caso, a população compromisso político da coligação era com
é convocada não a democratização da gestão pública, com a
apenas para eleger participação ativa da população. Para trans-
seus dirigentes, mas formar o discurso em prática, o novo governo
também para discu- municipal criou, já no primeiro ano de man-
tir com eles como dato, o OP, uma nova maneira de formular e
será gasto o dinheiro acompanhar o orçamento público.
dos impostos. Em A idéia que embasava a criação do sis-
linhas gerais, o OP tema era via­bilizar uma relação democrática e
é um processo pelo participativa entre o poder público municipal
qual a população e a população de Porto Alegre, com base na
decide, de forma di- discussão e definição de prioridades para a
reta, a aplicação dos cidade. Inicialmente foi realizada uma pesqui-
recursos em obras sa participante com o objetivo de definir as
e serviços que serão demandas para o exercício seguinte. Surgiu,
executados pela ad- então, a necessidade de re­gionalizar a cidade,
ministração munici- uma vez que a divisão administrativa não
pal. A Organização coincidia com a dos movimentos populares
das Nações Unidas e associações de bairro. Depois de vários en-
(ONU) considerou contros com lideranças comunitárias, a cidade
essa experiência uma foi dividida em 16 regiões, vigentes até hoje.
das 40 melhores prá- Em função de necessidades e demandas es-
ticas de gestão públi- pecíficas, essas regiões têm sido subdivididas
ca urbana no mun- em microrregiões.
do. Também o Banco Nesse primeiro ano, outra dificuldade
Mundial reconhece enfrentada foi o comprometimento de 98% da
o processo de parti- receita municipal com o pagamento de pessoal. É
cipação popular de óbvio que, nesse contexto, não havia a possibili-
Porto Alegre como dade de realizar investimentos na cidade, impos-
um exemplo bem- sibilitando o atendimento de qualquer demanda
-sucedido de ação que estivesse sendo reivin­dicada pela população.
comum entre governo e sociedade civil. A escassa participação durante os dois primeiros
Muitas outras prefeituras adotaram anos foi reflexo direto da conjuntura municipal.
a participação popular. No exterior, citam-se No ano de 1989, as expectativas da população
Saint-Denis (França), Rosário (Argentina), Mon- eram bem maiores que a capacidade de res-
tevidéu (Uruguai), Barcelona (Es­panha), Toronto posta da administração, o que ocasionou um
(Canadá) e Bruxelas (Bélgica). No Brasil, é o retraimento na participação no ano de 1990.
caso de Belém (PA), Santo André (SP), Aracaju A participação se altera de forma crescente a
(SE), Blumenau (SC), Belo Horizonte (MG), partir do momento que o município readquire

20 Democracia Viva Nº 23
Orçamento participativo: limites e contribuições de um instrumento de democracia direta

sua capacidade de investimento, principalmente Tabela 1


pela realização de uma reforma tributária.
Índices de participação no OP
Atualmente, a elaboração e a execução
de Porto Alegre
do orçamento municipal são realizadas com
a participação da população por meio de um
ANO PARTICIPANTES
amplo debate que acontece ao longo do ano.
Nesses encontros, são definidos valores de 1990 976
receita e despesa, nos quais serão feitos os
investimentos, a definição das prioridades e 1991 3.694
das obras e as ações que serão desenvolvidas
pelo governo. A partir de 1991, o OP tornou- 1992 7.610
-se um processo que passou a mobilizar cada
vez mais as comunidades de todas as regiões. 1993 10.735
Em função dos resultados positivos obtidos na
gestão da administração pública, tornou-se 1994 9.638
uma referência nacional e internacional.
Para se ter uma idéia da evolução do 1995 11.821
OP, 976 pessoas participaram das discussões
e da elaboração do orçamento em 1990. Em 1996 10.148
2003, o número pulou para 23.520 pessoas,
e a sistemática de elaborar orçamentos par- 1997 11.908
ticipativos foi copiada por várias prefeituras
e alguns governos estaduais e até mesmo 1998 13.687
por outras instituições, como o Sindicato dos
Bancários de Porto Alegre. 1999 16.813
Em 1997, a experiência porto-alegren-
se foi oficializada pela Lei Orgânica do Municí- 2000 15.331
pio. Mas, antes disso, o OP da capital gaúcha
já havia conquistado a opinião pública e a 2001 18.583
legitimidade política, quando, na campanha
eleitoral para prefeito em 1996, candidatos 2002 28.907
de todas as tendências se comprometeram a Fonte: CRC – Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
respeitá-lo. Os dados entre os anos de 1990
e 2002 nos permitem observar a participação
crescente da população na elaboração do espécie de cobertor curto que todos puxam,
orçamento (Tabela 1). esses grupos teriam melhores condições de se-
rem atendidos que outros menos articulados.1
Limites e ganhos A experiência evidencia que muito deve
ser feito para que se atinjam novos padrões de
Segundo Balandier, o termo “político” com- controle social. Até agora, o teor das infor-
porta várias acepções. Os termos policy e mações disponíveis para fiscalização por parte
politics significariam, respectivamente, os tipos dos cidadãos é bastante resumido, não havendo
de ação que concorrem para a direção dos ne- espaço para dados relevantes, como custos
gócios públicos e as estratégias que resultam unitários, comparação com custos e prazos de
da competição dos indivíduos e dos grupos obras semelhantes, fornecedores contratados
(Balandier, 1980, p. 27). Nesse caso, estariam ou explicações sobre etapas e andamento das
as duas pontas do OP: o governo como policy, obras.
determinando em última instância a direção dos O colunista gaúcho Políbio Braga, crí-
negócios públicos, e a população desenvolven- tico declarado do sistema, argumenta que “o
do politics, isto é, estratégias que resultam da chamado orçamento participativo imaginado
competição dos indivíduos e dos grupos. e posto em execução pelas administrações 1 Establet, Baudelot e Bour-
No entanto, as pessoas não são iguais, pe­tistas de Porto Alegre não apenas não é dieu, entre outros autores que
utilizam o paradigma marxista
têm diferentes demandas, diferentes capaci- orçamento, como também não é participativo, na sociologia da educação,
dades de articulação e diferentes chances de porque ele incide sobre apenas 3% do verda- apontam para o privilégio da-
queles que sabem se expressar
serem atendidas. Nesse sentido, os grupos deiro orçamento municipal e porque participam e dominam a expressão oral e
escrita na norma culta.
mais bem articulados estariam mais propensos das discussões dele menos de 3% da população”
a serem escutados. Como o orçamento é uma

AGO 2004 / SET 2004 21


ARTIGO

(Braga, 2004). possibilitando a construção de uma cidadania


Por outro la­do, outras pessoas pensam ativa e qualificada na gestão dos recursos
de maneira diversa. Por exemplo, César Gi- públicos, capaz de formular proposições
ffhorn, agente fiscal da Receita Municipal de para sua cidade. O grande sucesso do OP é
Porto Alegre, acredita que: “Prover e gerenciar a introdução de uma fórmula mediadora de
recursos são atribuições dos administradores democracia direta e representativa, em que
públicos. Para cumprirem esta missão é que há efetivamente a participação popular. E,
foram escolhidos en- principalmente, o cidadão entende que aquilo
tre tantos e tantos que foi aprovado será realizado.
candida­- tos capa-
citados” (Giffhorn,
Desafios
2004).
Logicamente Para bem entender os desafios da implantação
não é esse o objetivo plena do OP, é importante visualizar quem são
do OP. É preciso se- as pessoas que participam das assembléias
parar a administra- e plenárias. Usando os dados de 2002, é
ção da coisa pública, possível ver que a participação majoritária é
que cabe obviamen- composta de pessoas com o primeiro segmen-
te aos governantes, to do ensino fundamental (ou menos) e que
de uma ação política recebem de um a dois salários mínimos. Porém,
em termos de pro- entre conselheiros2  e delegados, cresce bastante
cesso decisório, na o número daqueles que possuem ensino médio
qual é possível e de- ou superior. Na sua maioria, os conselheiros e
sejável a participação delegados possuem, no mínimo, renda familiar
popular. entre quatro e oito salários mínimos.3  A baixa
Ao permitir participação de pessoas da camada da popu-
a participação di- lação com maior nível de renda e escolaridade
reta da população aponta para o fato de que provavelmente elas
na definição de utilizam outros canais de atendimento às suas
prioridades para os reivindicações (Tabelas 2 e 3).
investimentos públi- No caso da distribuição por sexo,
cos, o processo de chama a atenção o fato de que o percentual
elaboração do OP de participação das mulheres é bem próximo
efetivou uma nova daquele que se encontra na distribuição geral
prática de gestão da da população de Porto Alegre. Elas são maioria
coisa pública, fun- entre os delegados, mas a situação se inverte
cionando como um em relação aos conselheiros que são majori-
instrumento impor- tariamente masculinos (Tabela 4).
tante no combate A grande participação de pessoas com
à corrup­ç ão e ao mais de 50 anos, tanto nas assembléias como
clientelismo. Ao in- nas funções de delegados e conselheiros, aponta
centivar a discussão também pa­ra uma das limitações do OP: ele
dos investimentos demanda disponibilidade de tempo para com-
municipais em o­bras parecer às assembléias, o que pode tor­ná-lo
e serviços, o OP funciona como uma espécie de invi­ável para quem trabalha o dia todo e estuda
“contrato social”, operando como regulador à noite, ou trabalha o dia todo e faz biscates à
dos direitos e como elemento construtor de noite e nos fins de semana (Tabela 5).
uma cultura pública democrática, na qual são Teóricos ligados ao paradigma marxista
definidos critérios de eqüidade e justiça para a da sociologia da educação nos lembram que
aplicação dos recursos municipais. pessoas que detêm um maior capital cultural se
A participação direta do cidadão no expressam melhor e são mais articuladas, tendo,
levantamento de suas necessidades e na por­tanto, mais chances de ter suas demandas
priorização dos investimentos provoca uma a­tendidas. Pela própria dinâmica do processo, é
2 Participantes do Conselho do
Orçamento Participativo (COP). modificação nas relações sociais e políti- necessário não só fazer a indicação de uma obra
3 Dados disponíveis em cas, resgatando a soberania popular como ou votar (em caráter indicativo) em uma delas
<www.ongcidade.org.> fundamento do respeito ao poder público e como prioritá­ria, mas também participar de um

22 Democracia Viva Nº 23
Orçamento participativo: limites e contribuições de um instrumento de democracia direta

Tabela 2

Participação segundo escolaridade

Escolaridade 2002 Delegados Conselheiros

Primeiro segmento
do ensino fundamental
(ou menos) 64,1 49,5 39,4

Ensino médio
(completo ou não) 23,8 30,1 31,1

Superior
(completo ou não) 12,0 20,3 29,5

Não respondeu 0,1 - -

Fonte: <www.ongcidade.org>

Tabela 3

Participação segundo renda familiar

Rendimento familiar
em salários mínimos 2002 Delegados Conselheiros

0–2 39,4 23,7 21,7

2–4 29,9 31,8 28,3

4–8 18,4 25,3 21,7

8–12 5,1 9,0 13,3

>12 6,8 10,2 15,0

Não respondeu 0,4 - -

Fonte: <www.ongcidade.org>

Tabela 4

Participação segundo o sexo

Sexo 1995 1998 2000 2002 Delegados Conselheiros

Feminino 46,8 51,4 57,3 56,4 60,6 32,6

Masculino 52,2 48,4 41,5 43,3 39,4 67,4

Não respondeu 1,0 0,2 1,3 0,4 - -

Fonte: <www.ongcidade.org>

AGO 2004 / SET 2004 23


ARTIGO

debate sobre as prio- para participar de movimentos comunitários,


ridades regionais ou já que todo o tempo disponível é investido
municipais, contra- na sobrevivência. E, quando há uma melho-
pondo argumentos, ra significativa por parte de algum membro
fazendo e recebendo dessa comunidade, sua primeira providência é
questionamentos e mudar-se para outra que apresente melhores
estabelecendo ne- condições de vida (Abers, 2000).
gociações e compro- Uma das possibilidades para alterar esse
missos políticos. quadro é o que já vêm fazendo as ONGs e os
Para resolver movimentos organizados da cidade de Porto
o problema, é hora Alegre por meio de projetos de capacitação (ver
de dar um passo De Olho no Orçamento, 1999). Agora, é hora
além no OP e tratar de aproveitar a avaliação que tais organizações
desigualmente os vêm fazendo do trabalho e procurar adequar
desiguais. Para isso, horários (com aulas aos sábados, domingos
deve-se reconhecer ou feriados) e métodos (Paulo Freire e o grupo
que, para dar a todas do Instituto de Ação Cultural/Idac afirmam,
as pessoas a opor- no belíssimo livro Vivendo e aprendendo, que
tunidade de falar e é necessário buscar novos meios de ensino,
participar com pro- de modo que eles consigam atingir diferentes
veito nas reuniões públicos: pode-se ensinar por meio da música,
do OP, é necessário dança, teatro, cinema, desenho de humor).
capacitá-las antes. Certamente, a disseminação de políticas
É necessário que se democráticas, a partir do espaço local, da for-
trabalhe com essas ma como se apresenta o OP, nas mais variadas
comunidades, es- cidades, baseada em uma postura ética e de
pecialmente com as transparência e visibilidade da coisa pública,
mais pobres, onde possibilitará que as carências da sociedade
não há movimen- diminuam e que os cidadãos possam entender
tos organizados. Tal a “democracia” não como um sonho distante,
tarefa não é fácil, mas como aquilo que constroem no seu dia-
pois, nessas comu- -a-dia.
nidades, falta tudo,
até mesmo tempo

Tabela 5

Participação por faixa etária

Idade 2002 Delegados Conselheiros

16–25 19,5 6,5 3,3

26–33 17,4 12,6 14,8

34–41 19,9 19,5 24,6

42–49 18,6 24,4 24,6

> 50 24,5 37,0 32,8

Fonte: <www.ongcidade.org>

24 Democracia Viva Nº 23
Orçamento participativo: limites e contribuições de um instrumento de democracia direta

* Miriam de
Oliveira Santos
Mestre em Ciência
Política pela
UFRGS, doutora em
Antropologia Social
pelo Museu Nacional/
UFRJ, pesquisadora
associada ao Núcleo
Interdisciplinar de
Estudos Migratórios
(Niem-RJ) e professora
de Sociologia da
Referências bibliográficas Educação da UFRJ.

ABERS, Rebecca. Inventando a democracia: distribuição de Moraes, 1986.


recursos públicos através da participação popular em Porto Alegre, FREIRE, Paulo; OLIVEIRA, Rosiska Darcy de; OLIVEIRA, Miguel
RGS. <www.portoweb.com.br/ong/ cidade/texto2.htm>.Acessado Darcy de; CECCON, Claudius. Vivendo e aprendendo. São Paulo:
28 de maio de 2000. Brasiliense, 1980.
BALANDIER, Georges. Antropologia política. São Paulo: USP, GIFFHORN, César. OP interno: qual será o próximo “factóide”
1980. a ser criado para justificar a solução mágica dos problemas?, 2004,
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas. Campinas: Papirus, 1997. Coluna Em Destaque, Acessado em 10/07/2004. <www.aiamu.
BRAGA, Políbio. A esperteza do ano: sai o orçamento com.br> (o artigo abre sobre a forma de pop-up, não há endereço
participativo dos servidores em Porto Alegre. Disponível em: <www. específico).
polibiobraga.com.br>. Acesso em: 5 jul. 2004. HARPER, Babette et al. Cuidado, escola!. 8. ed. São Paulo:
CECCON, Claudius et al. A vida na escola e a escola da vida. Brasiliense, 1982.
Petrópolis: Vozes, 1982. SANTOS, Wanderley Guilherme. Desafios ao parlamento pela
DE OLHO NO ORÇAMENTO. Seminários de formação do OP: participação ampliada. In: FRIDMAN, Luis Carlos (Org.). Política e
espaços de mútuo aprendizado. De Olho no Orçamento. Prefeitura cultura: século XXI. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002.
Municipal de Porto Alegre Porto Alegre, n. 8, maio 1999.
FREITAG, Bárbara. Escola, Estado e sociedade. 6. ed. São Paulo:

AGO 2004 / SET 2004 25


MUNDO P ELO MUNDO PE
Jamile Chequer

Para não perder de vista Causa ou conseqüência Aids contra o trabalho

Barcelona, a cidade-sede do Fórum A reunião do Conselho Social e O Relatório Global apresentado na


Universal de Cultura (de 9 maio Econômico, que ocorreu no fim XV Conferência Internacional de
a 26 de setembro de 2004), tam- de junho, foi o maior encontro até Aids (11 a 17 de julho), ocorrida
bém será palco do Fórum Mundial hoje a reunir representantes dos 50 em Bancoc, na Tailândia, pela Or-
Urbano, que ocorre de 13 a 17 de países mais pobres do mundo, entre ganização Internacional do Trabalho
setembro. Espera-se que cerca de os quais Afeganistão, Angola, Serra (OIT), traz dados importantes sobre
3 mil delegados(as) representando Leoa e Somália. Nesses 50 países, a epidemia. Das 35,7 milhões de
governos, organizações de cidadania dos quais 34 estão na África Subsa- pessoas estimadas pelo Programa
ativa, autoridades locais e especia- ariana, vivem cerca de 700 milhões Conjunto das Nações Unidas sobre
listas em urbanismo se encontrem de pessoas. o HIV/Aids (Unaids), com idades
para discutir temas como finanças, Maldivas (arquipélago no Sul entre 15 e 49 anos, vivendo com o
sustentabilidade, riscos, administra- da Ásia) e Cabo Verde (África) de- HIV, 26 milhões estão trabalhando.
ção de cidades, entre outros. monstraram um certo fôlego econô- Até o ano que vem, cerca de 28
A discussão acontece numa mico, a ponto de estarem beirando milhões de trabalhado­res(as) terão
perspectiva de que, em 2050, cerca o grupo dos países em desenvolvi- morrido de Aids desde o início da
de dois terços da humanidade es- mento. É uma boa notícia, já que, epidemia. A OIT estima que, no
tarão vivendo em cidades, quando, nos últimos 24 anos, a tendência foi futuro, a Aids será uma das maiores
nos dias de hoje, essa estimativa é exatamente inversa. Eram “apenas” causas do aumento da mortalidade
de 3 milhões de pessoas – metade 26 países mais pobres em 1980. Só no trabalho.
da população mundial. Cerca de 20 Botsuana até agora conseguiu subir “O HIV/Aids não é apenas uma
cidades no mundo têm mais de 10 de posto. crise humana, é uma ameaça para
milhões de habitantes, mas se sabe Madagáscar, Moçambique, a sustentabilidade global e social e
que muitas outras, a maioria em Uganda, Mali e Samoa têm apresen- para o desenvolvimento econômi-
países em desenvolvimento, estão tado bons progressos econômicos. co. A perda da vida e os efeitos da
chegando a esse patamar. Um alívio diante da situação mun- doença não apenas se relacionam à
Este é o segundo encontro. O dial. A representante das Nações redução da capacidade de produção
primeiro foi em Nairóbi, Quênia, Unidas, Louise Frechette, disse para e emprego, mas serão um fardo a
em 2002. As inscrições ainda estão delegados(as) presentes no encontro ser levado por todas as sociedades,
abertas, e o regulamento está dispo- que “a pobreza severa desses paí- ricas ou pobres, da mesma forma”,
nível no site da instituição. ses não foi apenas resultado, mas declarou o diretor-geral da OIT,
também a causa da estagnação da Juan Somavia.
<www.unhabitat.org>
economia”.

<www.ips.org>

26 Democracia Viva Nº 23
LO MUNDO P ELO MUNDO P ELO MUNDO

Planeta deserto Respeito às diversidades De olho no Sudão

Números recentes da Secretaria das O Relatório de Desenvolvimento A situação da infância no Sudão


Nações Unidas para a Convenção Humano 2004, divulgado recente- tem trazido muitas preocupações.
de Combate à Desertificação mos- mente pelo Programa das Nações O Sudão passou por 21 anos de
tram que um quinto da população Unidas para o Desenvolvimento guerra, e muitas das pessoas que
está ameaçada pelos impactos do (Pnud), é dedicado ao tema “Liber- fugiram da região de Darfur – a
avanço dos desertos. Seus efeitos dade cultural em um mundo diversi- oeste do país – foram para o país
podem ser vistos na Ásia, América ficado”. Mais do que uma listagem vizinho, Chade. O Fundo das Na-
Latina, América do Norte ou Me- classificatória – que, aliás, mostra ções Unidas para a Infância (Uni­
diterrâneo. Uma área de 4 bilhões o empobrecimento de 20 países –, cef) estima que estão refugiadas
de hectares está ame­a çada pelo o relatório traz um panorama sobre nesse país quase 180 mil pessoas,
processo. a importância das diversidades. das quais dois terços são mulheres
Desertificação e seca são ame- Escolher uma identidade cultural e e crianças.
aças para mais de 1,2 bilhão de exercê-la é tão importante quanto A preocupação aumenta em
pessoas no mundo que dependem a democracia e a oportunidade relação às crianças com mais de
da terra para suprir suas necessi- econômica. 6 anos. Algumas estão fora dos
dades. Estima-se que 135 milhões O relatório indica que a adoção limites dos campos de refugia­
de pessoas estejam sob o risco de de políticas públicas que reconhe- dos(as). “Mesmo aquelas que
deixar suas moradias por causa da çam e protejam essas identidades é estão com famílias chadianas
desertificação. a única forma de essas sociedades mostram uma taxa de desnutrição
Por isso, o secretário-geral da se aproximarem do desenvolvi- de 24%”, alerta o Unicef, que está
Organização Mundial de Metero­ mento. É um grande trabalho pela providenciando alimento, leite
logia, Michel Jarraud, enfatizou frente. Existem mais de 5 mil terapêutico e telas para proteção
a necessidade de se fortalecer o grupos étnicos vivendo em cerca de contra o mosquito transmissor da
compromisso global implementado 200 países. Dois em cada três paí- malária.
na convenção – que, aliás, fez dez ses têm, pelo menos, uma minoria O programa de suporte para
anos em 17 de junho –, como um in- étnica ou religiosa representando crianças e famílias que saíram da
vestimento para o desenvolvimento 10% da população. Ainda assim, região de Darfur para o Chade
sustentável. 900 milhões de pessoas são discri- necessita de U$ 7 milhões. Até
minadas ou excluídas por questões agora, só foi conseguido um terço
étnicas, religiosas e raciais. desse valor.

AGO 2004 / SET 2004 27


intern
internacional
Felipe Llamas Sánchez*

Desafios da
participação
cidadã nos
processos
de inovação

O objetivo deste artigo é esclarecer alguns conceitos-chave sobre os limites da partici-

pação cidadã. Em última instância, pretende apresentar, partindo do diagnóstico geral

e das experiências de âmbito local, uma visão panorâmica sobre as possibilidades de se

estabelecerem mecanismos de participação cidadã que permitam escutar a voz da cida-

dania nos processos de tomada de decisões e nas agendas políticas, ou seja, mecanismos

[Traduzido do espanhol baseados em novas demandas participativas e novas práxis de inovação democrática.
por Ana van Eersel]

28 Democracia Viva Nº 23
acional
O ponto de partida para abordar a questão, tecnologia da informação.1  Essa nova cidada-
de uma perspectiva européia e espanhola, é o nia exerce sua participação gerando “lugares”
desajuste atual das instituições da democracia participativos nos processos de definição de
representativa ante as mudanças sociais, políti- problemas, na elaboração de diagnósticos, na
cas e culturais vividas por nossas sociedades ao elaboração de agendas políticas, na tomada
longo das últimas décadas. A situação configura de decisões e até mesmo na gestão de serviços
um diagnóstico, por assim dizer, de crise de públicos – esfera pública não-estatal. Até ago-
confiança cidadã no funcionamento tradicional ra, as práticas a ela associadas tiveram maior
das instituições da democracia representativa. expressão no âmbito local. Tal situação ocorre
Tal crise manifesta-se em tendências, co­m o por ser a esfera local o cenário privilegiado no
individualismo, cinismo, apatia política e abs- qual podem desenvolver-se experiências de par-
tencionismo eleitoral (em média, 40% de par- ticipação cidadã e de democracia participativa,
ticipação nas últimas eleições européias), que graças a uma lógica de escala e proximidade de
se relacionam com certas propensões sociais e governo, independentemente das articulações
culturais de caráter estrutural, como processos necessárias entre dimensão local e global, por
de consumismo acrítico (quando foram alcança- meio de redes internacionais e de sua influência
das condições de vida digna), enfraquecimento nas agendas políticas. Na dimensão política
de algumas identidades, desprezo pela esfera local, encontraremos expressões de um verda-
pública, perda de referentes políticos ou de- deiro exercício de participação cidadã e também
cepções e frustrações em virtude de processos respostas transformadoras para incorporar a
de corrupção. Esses fatos põem em evidência cidadania à tomada de decisões.
alguns dos sintomas da má saúde das institui- Isso evidencia um primeiro limite para
ções representativas, incapazes de dar respostas a participação cidadã. No universo da globa-
a novas demandas e conflitos emergentes que lização neoliberal, como muitos estudiosos e
especificaremos mais tarde. estudiosas assinalam, inexiste um “governo
Segundo esse diagnóstico, estaríamos mundial” que estabeleça e faça cum­­prir cer-
diante de um processo irreversível, de de­ tas regras no jogo das relações internacionais
sencontro entre cidadania e política que nos (econômicas, políticas, culturais etc.). As gran-
1 Pode-se mencionar o exemplo
situaria em um cenário futuro caracterizado des decisões internacionais são tomadas pelas das mobilizações produzidas na
Espanha na véspera das eleições
por uma cidadania despreocupada, desmoti­ corporações econômicas internacionais e pelos gerais de 14 de março de 2004,
vada e desconfiada em participar de assuntos organismos multilaterais (Fundo Monetário quando as pessoas se concen-
traram em frente à sede do Par-
públicos. No entanto, ante essas tendências Internacional, Banco Mundial, Organização tido Popular – à época, o partido
do governo – para reclamar por
catastrofistas e partindo de novas demandas Mundial do Comércio, entre outros) sob a informação e transparência em
participativas, surge uma nova cidadania mais pax norte-americana. Assim, há uma econo- relação aos brutais atentados
terroristas ocorridos em Madri
informada e reflexiva. Tal cidadania reivindica mia mundial, um mercado mundial que incide poucos dias antes, em 11 de
março. A falta de informação e
mais espaço nos processos de tomada de de- sobre a soberania dos Estados nacionais. Há, a manipulação informativa por
cisões e se afasta dos velhos formatos rígidos ainda, uma sociedade civil global que se forma parte do governo provocaram
uma mobilização realizada por
e hierárquicos de participação – como são os progressivamente. Mas não há um governo meio de mensagem através de
telefones celulares: “Passe-o”.
partidos políticos – para participar de espaços mundial. Dessa forma, a arquitetura do sistema O fato foi uma das razões da
e organizações cujo funcionamento é mais é estruturada fundamentalmente nas grandes virada eleitoral sem preceden-
tes na democracia espanhola,
horizontal e democrático. multinacionais e nos organismos multilaterais possibilitando que a coalizão
que contava com a maioria das
Essa é uma nova cidadania que diverge pouco democráticos, instituições muito distan- intenções de voto perdesse as
bastante das formas partidaristas tradicionais tes para propiciar qualquer tipo de me­canismo eleições para o partido da oposi-
ção, o PSOE, com um candidato
e que participa de movimentos sociais, ONGs de participação cidadã. Afinal, quem manda no novo nas eleições gerais.
ou espaços comunitários, pela utilização da mundo? Para solucionar problemas, a quem 2 É um direito que está incluído

AGO 2004 / SET 2004 29


internacional

deve se dirigir? entre representação e participação constituem


Sem dúvida, é necessário reconhecer o o eixo central das definições sobre democracia:
papel dessa sociedade global que se forma como desafios políticos que enfrentam atualmente,
resposta e que formula propostas alternativas tensões entre representação e exercício da ci-
na perspectiva de uma globalização diferente, dadania, entre democracia e exclusão, distância
mais solidária, sem exclusão e pela paz, sob entre representantes e representados(as), perda
a proteção do Fórum Social Mundial, “uma do centralismo político etc.
fábrica de pensar” Portanto, em termos de exercício pleno
(Grzybowski, 2004). de cidadania, como incorporar ao circuito de
Essa sociedade global decisões políticas os grupos que tradicional-
está influenciando as mente têm sido excluídos de tais decisões (mu-
agendas políticas in- lheres, jovens, minorias étnicas)? Como colocar,
ternacionais por meio em termos de problemas e soluções, as questões
de a­ções mobilizado- de soberania nacional e de autonomia local,
ras e de propostas conceitos estreitamente ligados ao exercício
da sociedade civil, da democracia, no contexto da globalização?
porém muito longe, Quais seriam os meios de articulação entre
até a­gora, de exer- representação política e participação cidadã?
cer u­ma verdadeira Como mencionado, os mecanismos e as
participação demo- instituições da democracia representativa mos-
crática na tomada tram-se insuficientes para resolver problemas
de decisões. Nesse que são cada vez maiores. Os Estados nacionais
sentido, também é não oferecem respostas e talvez nem pretendam
possível perguntar: fazê-lo. A dimensão política local oferece as
de que maneira os experiências de democracia direta e participativa
Estados na­cionais e que se articulam com os instrumentos da demo-
os governos locais cracia representativa superando a controvérsia
estão enfrentando em torno desses modelos, mesmo que sejam
esse modelo de glo- muitos os obstáculos a serem superados. Como
balização e como salienta Boaventura Santos, a democracia parti-
se articulam com as cipativa fundamenta-se numa nova “gramática
sociedades civis para social”, cujos elementos principais são os con-
estabelecer proces- ceitos de diversidade sociocultural, pluralismo,
sos participativos? cidadania ativa, reivindicação de identidades e
O sistema subjetividades, autonomia e fortalecimento de
democrático que re- espaços públicos, entre outros, introduzindo
almente existe deixa novos conceitos no tratamento das relações
muito a desejar e entre sociedade e Estado (Santos, 2002).
mostra as profundas Por isso, interessa aqui destacar – para
fendas que separam podermos abordar os limites e desafios da
a democracia política participação cidadã – os processos pelos quais
dos aspectos relacio- a cidadania verdadeiramente participa na toma-
nados à democracia da de decisões e aqueles que constituem uma
social e econômica. relação entre as instituições e a cidadania. Eles
A exclusão social e a configuram espaços de construção coletiva,
pobreza, na qual pa- de nova institucionalidade nas relações entre a
decem dois terços da sociedade civil e o Estado, que não se limitam
humanidade, a insus- a prover informação, mas que permitem uma
tentabilidade ambien- maior transparência política e possibilitam que
tal, o poder cada vez as pessoas possam envolver-se na esfera públi-
maior das multinacio- ca. Nesse sentido, o governo local converteu-
nais e a utilização da -se realmente na esfera de governo que mais
força e dos meios de comunicação planetários tem avançado, impulsionando a democracia
para manter essa ordem injusta colocam o dilema em direção a cenários de maior envolvimento
em termos de confronto entre democracia repre- de cidadãos e cidadãs no espaço público e em
sentativa e democracia participativa. As relações processos e mecanismos que articulam repre-

30 Democracia Viva Nº 23
desafios da participação cidadã nos processos de inovação democrática

sentação política (democracia representativa) e Quando uma associação cidadã ou uma


participação cidadã (democracia participativa). pessoa realiza atividades para o desenvolvimento
Desse modo, é necessário recordar que facilitar do seu próprio projeto, ela está participando
a participação de todas as pessoas na vida políti- na gestão da coisa pública, está intervindo
ca, cultural, econômica e social é uma obrigação desde sua parcela particular ou setorial na
que cabe a todos os níveis de governo e poderes vida de sua cidade. É dessa posição que ela se
públicos, e não somente aos municípios. aproxima dos poderes públicos para procurar
pontos de contato
e canais de relação
Aprende-se a participar
mais eficientes para
Assim, tendo em conta essas idéias, o direito seu projeto e seus
à participação cidadã,2  como todos os direi- interesses. Partici-
tos pessoais ou subjetivos, só realmente existe par não é somente
quando é exercido. Para que possa ser exer- colaborar ou opinar
cido, deve-se dispor dos instrumentos, meios a res­peito de deter-
e canais adequados para facilitá-lo. Prover os minadas atuações,
meios adequados e facilitar o exercício desse mas implica um “algo
direito é tarefa, por mandato constitucional, mais” de vontade,
dos poderes públicos. A participação cidadã é de intervenção, de
um direito da cidadania, não uma obrigação. en­v ol­v imen­t o, um
Nosso sistema político não obriga a participar, sen­timento de per­
o direito se exerce ou não, e nisso reside a li- ten­c imento (a uma
berdade das pessoas. As normas jurídicas não co­­le­tividade, cidade
implicam menor, melhor ou pior participação. ou país), um esboço
Isso dependerá de outras estratégias e especi­ mínimo de projeto
almente da vontade política. próprio, de finalida-
Costuma-se estabelecer a participação de própria (Pindado,
cidadã como a relação que existe entre as 2000).
prefeituras e as associações. Porém, cada vez Assim, a par-
mais as prefeituras entendem que a partici- ticipação cidadã deve
pação cidadã é mais do que isso e começam estar direcionada para
a incorporar a cidadania, considerada indi- uma finalidade, ela
vidualmente (individualismo democrático), 3  não é, em si mesma,
aos processos de elaboração e execução de uma finalidade, mas
suas políticas públicas. O termo participação um meio para alcan­
tem aqui o sentido de tomar parte na gestão çá-la. Portanto, não
do coletivo, na coisa pública. E a coisa pública se deve entender a
é aquilo que afeta e interessa a sociedade no participação como
seu todo, não é monopólio exclusivo do Estado intrinsecamente boa
(das administrações públicas em particular), ou positiva. Ela não
mesmo que os poderes e as instituições que o é neutra, serve para
formam devam cuidar do interesse geral e da legitimar ou para
eficiência das atuações. Por conseguinte, não transformar, visto que
estamos dizendo que a única forma possível de se persegue uma fina-
participação seja a colaboração direta com a lidade, e, em certas
administração pública, mesmo que ultimamente ocasiões, os poderes
tenha sido entendido dessa maneira. Não se públicos podem ter
pode pretender reduzir a participação na coisa a tentação de utilizar
pública àquilo que permitem os canais criados a participação para
pelos poderes públicos – um novo limite da legitimar a ação de
participação cidadã. Isso significa desconhecer governo, ou deter-
na maioria dos marcos consti-
a importância da intervenção cidadã individual minados grupos e organizações podem ter a tucionais dos países europeus
mesma pretensão para legitimar suas próprias (artigo 23 da Constituição es-
ou comunitária e da atividade associativa nas panhola) e regulamentado por
cidades, assim como limitar os processos par- estruturas – limitação à participação cidadã. Se diversas normas com categoria
de lei.
ticipativos à emissão de opiniões das atuações quisermos avançar em termos de democracia
3 Ver Subirats et al., 2001.
administrativas. participativa, devemos reconhecer que muitas

AGO 2004 / SET 2004 31


internacional

organizações sociais são pouco democráticas cífica define sua dinâmica social em um grupo
em seu funcionamento e em suas práticas. Ao ou contexto social determinado: um nível formal
contrário, a participação cidadã pode provocar a ou institucional (constituído pelo conjunto de
criação social, a partir da elaboração de propostas direitos e deveres mediante o qual a relação
nascidas da própria dinâmica social. Nesse senti- de pertencimento cívico expressa-se normativa
do, a participação cidadã também é um processo e institucionalmente); um nível ideológico ou
educa­tivo, uma maneira de fazer pedagogia da cultural, que está relacionado com a construção
ação política, de inovar na cultura política e de identidades cidadãs, com aqueles critérios
poder entender a política como o exercício de culturais que dão sentido e perten­cimento à
uma função pública diante do marketing e do comunidade. E, ainda, um terceiro elemento
benefício pessoal, co­mo é comum constatar em de caráter práxico que abrange as práticas
muitas ocasiões. sociopolíticas realizadas pelo governo e pela
É necessário, cidadania, dentro do marco institucional e
pois, operarmos com das culturas cidadãs que configuram a esfera
o conceito de cida- pública – assim poderão ser compreendidas
dania baseado em as dificuldades relacionadas com a integração
três princípios funda- de imigrantes nas sociedades européias, como
mentais (Benedic­t o assinalam os(as) autores(as) mencionados(as)
e Morán, 2003, p. anteriormente. Finalmente, é necessário res-
47-48). Um deles saltar a necessidade de recuperar o centro do
diz respeito a uma componente soci­opolítico da cidadania, que
concepção dinâmi- significa que o exer­cício da cidadania implica,
ca e relacio­n al de basicamente, converter-se em ator dentro da
cidadania na qual esfera pública.
as práticas sociais A participação da cidadania consistiria,
são o centro da ar- por meio da ação coletiva, em se tornar protago-
gumentação. Quer nista, para intervir ativamente e ter a capacidade
dizer que – em lu- de exercer influência no desenvolvimento de
gar de conceber a políticas públicas, assim como nos processos
cidadania como um sociais e políticos nos quais está presente.
conjunto de pres- Apesar disso, os processos participativos, ou
crições legais, que seja, a participação cidadã, não têm progredido
se concretizam em muito, na definição, elaboração e execução das
forma de direitos ou- políticas públicas, mesmo que venham sendo
torgados às pessoas a desenvolvidas experiências inovadoras, cujos
quem o Estado reco- resultados devem ser tomados em conta para
nhece formalmente encontrar o modo de ir avançando. Por outro
como membros da lado, é necessário ter cuidado com as modas
comunidade – essa participativas, porque pode ser construída uma
é uma instituição imagem utópica, desvincu­lada da realidade de
em constante movi- participação nas sociedades contemporâneas,
mento, definida pelas uma imagem do(a) cidadão(ã) hiperativo(a)
práticas sociais dos permanentemente mobilizado(a), que se adapta
diferentes atores e dificilmente às características estruturais e aos
encontra-se subme- limites da participação cidadã que definem o
tida a uma transfor- espaço público atualmente:
mação paralela aos 1. complexidade e multiplicidade dos temas
grandes processos de políticos – a agenda política cres­ce, torna-se
mudanças socio­p o­ mais complexa, e isso pode pressupor um
líticas. Em decorrência, essa forma de cidadania limite para a participação cidadã. Por um
implica desenvolver identidades e sentimentos lado, a vida política não pode ser reduzida
de pertencimento e envolver-se na esfera pública a esquemas ideológicos simples, e as institui-
mediante diferentes tipos de práticas. ções e administrações não têm instrumentos
A segunda questão é o caráter multidi­ adequados para responder às demandas e aos
mensional. A cidadania está constituída por problemas crescentes (pobreza, crise do meio
u­ma série de elementos cuja inter-relação espe- ambiente, desemprego, educação, imigração

32 Democracia Viva Nº 23
desafios da participação cidadã nos processos de inovação democrática

etc.) por meio dos instrumentos tradicionais. 3. o tempo também pode ser um limite à par-
Além disso, aparecem fortes resistências ticipação, um tempo disponível finito que deve
no estabelecimento de mecanismos para a ser compartilhado com o trabalho, a família, o
tomada de decisões da cidadania. Por outro lazer, o lar, a formação, a educação etc. Pode-
lado, a complexidade e a amplidão dos temas -se esperar que a cidadania participe, mas não
podem ser um freio à participação, por ser que viva para participar, e isso tem a ver com
im­possível estar minimamente infor­mado(a) as possibilidades e a vontade de participar e
de todos os temas dos debates políticos. Ou exercer influência no espaço público.
seja, a falta de informação e de capacidade Assim, atualmente, o envolvimento
de compreensão pode ser um forte obstáculo ativo das pessoas em suas comunidades de
para o envolvimento na tomada de decisões; pertencimento, como em outras esferas da vida
2. a perda de centralidade da coisa pública pública, inclui um amplo leque de atividades e
nas experiências vitais das pessoas (frus­tra­­ campos que abrangem desde a participação
ção), a ruptura das identidades coletivas política até a participação social organizada e
unitárias, a volatilidade dos laços comunitá- as diversas formas de trabalhos voluntários ou
rios que definem a pertencimento são, entre a participação comunitária e individual, em que
outras questões já vistas neste texto, limites encontramos pessoas ativas e pessoas passivas,
que tornam difícil pensar em indivíduos que como nas duas faces de uma mesma moeda
participem de maneira constante, reiterada (Benedicto e Morán, 2003, p. 47-48).
e uniforme;

Esquema explicativo 1

Complexidade do conceito de participação

SER PARTE Redes sociais Inclusivo COMUNICAÇÃO

ESTAR EM Lugar / território Integrado CONHECIMENTO


Próximo

SENTIR-SE PARTE Comunidade Identidade CONSCIÊNCIA

PARTICIPAR/TER PARTE Processo Envolver-se AÇÃO


Projeto de futuro
Procedimentos
Fonte: elaboração a partir de Alguacil (2000).

Limites e desafios locais políticos e sociais – e a insustentabilidade do


modelo territorial vigente, que influencia, de
Partindo desses argumentos e focalizando a di-
forma determinante, a crise ecológica em escala
mensão política local, vemos o impacto negativo
planetária. Ambos os aspectos são inseparáveis
que o processo de globalização neoliberal está
de tal maneira que cada um deles é parte e
provocando no âmbito territorial. As conseqüên-
conseqüência do outro.
cias são desemprego estrutural e emprego cada
Tais teses, que vêm sendo compartilhadas
vez mais precário, dualização social, destruição
nas diferentes reuniões de cúpula organizadas
ecológica, surtos de racismo e de xenofobia,
pelas Nações Unidas (Rio, Habitat II, entre
passividade cidadã, consumis­mo acrítico, fluxos
outras), estabelecem que essas dificuldades,
migratórios e perda de poder da ação política
que são galopantes nos países mais pobres,
em favor dos mercados. Todos esses processos
revelam-se insustentáveis num futuro próximo
estruturais e multidi­mensionais (sem esquecer
sob o ponto de vista social, econômico, ambien-
outros efeitos da internaciona­lização da eco-
tal e governamental. Nesse sentido, o papel do
nomia e a nova ordem internacional) envolvem
desenvolvimento humano local e a gestão urbana
um fenômeno que possui uma dupla vertente
devem ter um papel cada vez mais ativo e com-
e se reflete no aspecto territorial e urbano: o
prometido, para reduzir os efeitos já assinalados,
aspecto da exclusão social – fenômeno que
enfatizando a necessidade de se impulsionarem
afasta as pessoas e os grupos de seus direitos

AGO 2004 / SET 2004 33


internacional

fórmulas de cooperação de/entre as administra- des, a eleição direta de cargos públicos, a


ções com a sociedade civil em todas as suas ex- modernização da administração local e o
pressões, propondo, de forma integral, a criação aumento da capacidade de coordenação das
de emprego, a coesão social, a sustentabilidade administrações que intervêm no território
ambiental e a governabilidade das cidades, no municipal;
que veio a ser chamado de desenvolvimento 3. desburocratização: compreensibilidade
humano sustentável (Comissão das Comunidades e acessibilidade do sistema administrativo,
Européias, 1998). tanto para indivíduos como para coletivi-
Estamos assistindo a uma demanda cada dades, distribuição social do poder local
vez maior do papel que devem ter os governos na sociedade civil e o compar­tilhamento do
locais em matéria de emprego, moradia, servi- poder no âmbito de “encontros coletivos”.
ços sociais, desenvol- Lamentavelmente, ainda está longe o
vimento econômico, caminho para o chamado desenvolvimento hu-
cultura, educação mano sustentável, que está relacionado com o
etc. Dentro desse modelo territorial que somos capazes de propor
contexto e das for- e construir e que deveria promover um processo
mulações que temos que vai da administração de um território à idéia
feito (no âmbito eu- de governar um território, ou seja, estabelecer
ropeu e, especial- estratégias para a gestão da complexidade, da
mente, na Es­panha), convivência e das necessidades das pessoas nos
é necessário ampliar territórios. Henri Le­febvre, na sua obra A revolu-
os processos de des­ ção urbana, dizia que o espaço, o território, é
centralização do Es- “conviver”, entendido como um conceito vital,
tado para poder for- ativo e participativo. Isto é, viver com pessoas
talecer o papel dos num espaço como algo físico e técnico (Lefeb-
governos locais e, vre, 1980). Porém, o grande desafio reside em
também, desenvolver dar participação às pessoas mais desfavorecidas,
o princípio de proxi- já que um traço comum a quase todas as situa-
midade no e­xercício ções de exclusão social, de pobreza e margina-
de competências lização é a dificuldade que têm essas pessoas
públicas, atendendo para participar dos mecanismos de decisão.
a uma melhor dis-
tribuição territorial
Respostas e processos
– proporcional – dos
recursos financeiros Diante dessa situação, as respostas dos governos
disponíveis. No en- locais são muito diferentes em função do modelo
tanto, não podemos político e de administração pública que é apli-
deixar de mostrar cado. Três modelos4  podem ser diferenciados:
que o fato de reforçar modelo burocrático, modelo gerencial e, a partir
o papel dos governos da perspectiva da democracia participativa, o
regionais e dos muni- modelo relacional. Esses modelos articulam,
cípios não pressupõe, respectivamente, mecanismos de interlocução,
por si só, uma maior formatos deliberativos e democracia direta,
participação cidadã como pode observar-se no quadro seguinte.
e aprofundamento O modelo relacional e seus mecanismos
democrático. É im- de participação cidadã – Agenda 21 Local, júris
portante recuperar o microespaço – na esfera cidadãos, orçamentos participativos, workshops
cotidiana – como base para a intervenção e o de futuro, planos integrais de desenvolvimento
planejamento. Para isso, devem articular-se três comunitário – estariam fundamentados nas
dimensões (Alguacil, 2000): novas demandas partici­pativas e novas práxis
1. desconcentração: a partir de uma pers- de inovação demo­­crática participativa, incluídas
pectiva federalista, significa a distribuição nas teses mantidas e defendidas nestas pági-
dos gastos públicos e a promoção da eco- nas. As cidades e os territórios não poderão
4 Para aprofundar a análise nomia social; melhorar enquanto a cidadania, mulheres e
dos mecanismos participati-
vos em âmbito internacional, 2. descentralização: pressupõe a difusão homens não tiverem, no espaço mais próximo
europeu e espanhol, ver Font
et al., 2004. do poder local das cidades em subunida­ e identificável, mecanismos mais diretos para

34 Democracia Viva Nº 23
desafios da participação cidadã nos processos de inovação democrática

Esquema explicativo 2
Quadro comparativo entre modelos

Dimensões
Modelo burocrático Modelo gerencial Modelo relacional
sobre / de

A POLÍTICA • Estado centralizado • Estado mínimo protetor • Estado descentralizado


• Prestação direta de serviços • Privatização de serviços • Comunitarização
• Democracia representativa • Democracia de mercado de serviços
(de oferta) (de demanda) • Democracia participa-
tiva (reflexiva)

A GESTÃO Direta Diferida (terceirização Compartilhada


de serviços) (co-gestão)

A PARTICIPAÇÃO Informar Consultar Cooperar – diálogo

OS INSTRUMENTOS • Entrevistas individuais • Grupos de discussão • Agenda 21 local


DE PARTICIPAÇÃO • Normas e regulamentos • Pesquisa de satisfação • I-A P
• Conselhos consultivos • Conselhos cidadãos • Júris cidadãos
• Teledemocracia • Orçamentos
• Planos estratégicos parti­cipativos
• Workshops de futuro
• Planos integrais
de desenvolvimento
comunitário

Fonte: elaboração a partir de Alguacil (2000) Bruguè e Gomà (2002); Font, Gomà e Subirats (2004).

intervir nas decisões que afetam suas vidas. • permite a integração dos procedimentos (aná-
É necessário que as políticas urbanas (locais, lise das necessidades, participação, decisão
sociais, econômicas, urbanísticas, ambientais, e avaliação) ao aspecto setorial (urbanismo,
culturais etc.) sejam decididas e aplicadas com saúde, cultura, emprego, meio ambiente,
a maior participação possível da população. jovens, mulheres, pessoas idosas etc.);
Sem dúvida, esse é o caminho mais longo e • permite articular, numa construção comu-
difícil, mas as piores políticas terminam sendo nitária, diferentes agentes que operam no
aquelas que partem de uma elaboração distante território – políticos, técnicos(as), entidades,
da população afetada. cidadãos(ãs), cidadania em geral – estabe-
O modelo relacional responderia lecendo fortes processos comunicativos.
ao seguinte passo: diante de processos de O acesso ao conhecimento da realidade
des­legitimização política e crise da “esfera social do entorno imediato e da cidade
pública”, o desafio político é impulsionar a potencializa um aprendizado recíproco en-
participação organizada de cidadãos e cidadãs, tre diferentes agentes que nele concorrem,
envolvidos na construção de seu futuro, para produzindo um conhecimento em comum
melhor satisfazer suas necessidades a partir e compartilhado;
da participação nas políticas públicas. Entre • conseqüentemente, determinam-se lugares
as práticas e os mecanismos anteriormente de encontro, onde cidadãos(ãs) decidem em
mencionados no contexto desse modelo rela- conjunto as políticas públicas locais e gera-se
cional, que compreende o desenvolvimento da a confiança necessária para compartilhar e
democracia participativa e, por conseguinte, um construir conjuntamente em prol de uma
planejamento participativo da esfera pública, po- certa socialização do poder;
dem ser destacadas algumas idéias que permitem • a capacidade de decisão é múltipla e
continuar impulsionando nossas democracias em compartilhada: significa uma maior trans-
direção a cenários de maior envolvimento cidadão parência, eficácia e eficiência na satisfação
no espaço público: das necessidades e resolução das carências

AGO 2004 / SET 2004 35


internacional

e também uma distribuição mais eqüitativa nativas perante os desafios e a problemática


dos recursos (sempre escassos). derivados do modelo dominante e da globali-
Não podemos perder de vista que esses zação insustentável. É o mesmo cenário onde
processos e instrumentos de inovação democrá- as instituições da democracia representativa
tica não resolvem todos os problemas. Além dis- mostram-se insuficientes e defasadas, diante
so, enfrentam muitos obstáculos e estabelecem das mudanças sociopolíticas e culturais das
alguns desafios e perguntas ainda sem solução: últimas décadas. Dentro dessa lógica, o novo
como conciliar as necessidades imediatas da po- caminho, que permitiria uma reformulação da
pulação com as exigências de um planejamento participação democrática, seria a implementa-
da política pública a longo prazo? Como planejar ção de dispositivos de concertação e de ação
os territórios, o espaço público, num contexto de no interior da sociedade civil, com direitos e
globalização? Como atribuições para incidir nas decisões políticas e
conciliar os diferentes como maneira de participar na vida comunitária
interesses dos atores e no espaço público. Mesmo que esse caminho
so­c iais envolvidos? pareça muito distante, é dessa forma que será
Co­mo conciliar a pla- possível, então, reconstruir as bases de uma
nificação do microes­ nova governabilidade assumida e concertada
paço, do bairro, com por todos os atores sociais.
a planificação da ci- Trata-se, pois, de um desafio intelectual
dade ou, como passar para inovar tanto nas fórmulas de organização,
de uma planificação gestão e participação, como nas políticas sociais,
participativa a uma econômicas, ambientais, entre outras, de tal
administração parti- forma que se possa responder aos desafios em
cipativa? Todas essas um processo de fortalecimento da democracia
são perguntas que participativa, na qual, até agora, as experiências
teremos de responder mais importantes produziram-se no âmbito local.
na prática (Cabannes, Para enfrentar esse desafio, Boaventura de Sousa
2002). Santos (2002, p. 77-78) propõe três teses:
Nessa pers- 1. fortalecimento da demodiversidade: essa
pectiva, governar um tese implica o reconhecimento de que não
território significa existe nenhum motivo para se considerar
muito mais do que que a democracia tem só uma forma. O
o simples fato de primeiro elemento da democracia partici-
prestar uma série pativa seria aprofundar naqueles casos em
de serviços a ha- que o sistema político abre mão de formas
bitantes. Significa de decisão em favor de instâncias partici-
a possibilidade de pativas;
desenvolver novas 2. fortalecimento da articulação contra-
formas de “regulação -hegemônica entre local e global: as novas
social”, de fabricar experiências de democracia participativa neces-
e manter laços so- sitam do apoio de atores democráticos transna-
ciais sem os quais cionais. Essa articulação, contra-hegemônica,
o fato de “viver em do plano local para o global, é fundamental
comunidade” deixa para a democracia participativa;
de ser pertinente. 3. ampliação do experimentalismo democrá-
Significa favorecer a tico: as boas experiências originam-se nas
a­propriação da po- “novas gramáticas sociais”, cujo formato
lítica por cidadãos de participação foi sendo adquirido ex-
e cidadãs, pelos di- perimentalmente. É necessário multiplicar
versos atores, dando experiências em todas essas direções para
sentido à “ação coletiva”, criando e desenvolven- conseguir a pluralização cultural e distribu­
do projetos em comum, numa visão de conjunto tiva da democracia.
considerada por todas as pessoas como legítima O desenvolvimento de uma “cidadania
(Guerra, 2002). ativa” (co-responsabilidade e pedagogia cidadã)
Parece, então, que estamos num cenário manifesta-se como um dos eixos básicos para a
onde se torna necessária a construção de alter- construção de políticas públicas que permitam

36 Democracia Viva Nº 23
desafios da participação cidadã nos processos de inovação democrática

melhorar a qualidade de vida nas cidades e ad­ podemos dizer que a participação ativa é uma *Felipe Llamas
ministrá-las de forma mais sustentável e partici- forma de inclusão na sociedade, assim como Sánchez
pativa. Isso pode ser realizado incorporando, a uma forma de aprendizado de atitudes e vínculos Sociólogo, mestre em
partir da vida cotidiana, a cidadania à política, democráticos. Isso leva implícito – pelo relacio- Política Territorial e
ao território, e sua correspondência (e recipro- namento com os “outros” – o reconhecimento Urbanismo e especialista
cidade, considerando-se que os problemas são como protagonistas e como atores sociais e em Práxis da Sociologia

globais e comuns a todas as pessoas) com o contribui para promover o exercício cotidiano do Consumo: Teoria e
Prática da Pesquisa de
âmbito global. da prática democrática.
Mercados; coordenador
Dentro dos limites da participação ci- Ser protagonista, ou seja, ser ator so-
técnico de programas
dadã, foram abordados os desafios e as novas cial, implica, de alguma forma, um exercício
europeus, no contexto
oportunidades que requerem uma adaptação de responsabilidade, de construção de iden- do Programa URB-AL, da
permanente e, também, novas formas de fazer tidade e autonomia, com comprometimento prefeitura de Córdoba,
e entender a política. Nessa situação, a relação nos processos de discussão, decisão, projeto Andaluzia,
entre os municípios e a cidadania surge como e execução de estratégias e práticas para dar na Espanha
uma oportunidade para favorecer uma nova go- soluções concretas a problemas concretos.
vernabilidade. Assim, as novas agendas políticas Este é o desafio mais importante: favorecer o
demonstram que podem contribuir para um potencial criativo de cidadãos e cidadãs, para
processo de inovação democrática e estão sendo transformar a realidade mais próxima e cotidia-
abordadas em alguns municípios, no marco do na. Nesse sentido, o âmbito local aparece, por
Fórum de Autoridades Locais pela Inclusão So- enquanto, como único cenário concreto para
cial: cultura como bem comum da humanidade o exercício da democracia participativa e do
(Agenda 21 da Cultura); cidadania e democracia chamado desenvolvimento sustentável integral,
participativa; gestão dos serviços públicos e como vimos a partir de alguns exemplos de
serviços de interesse geral; desenvolvimento ferramentas e práticas locais transfor­madoras,
sustentável e solidário dos territórios; direitos baseadas na participação cidadã na qual as
das pessoas na cidade; ação internacional das pessoas têm podido ser e são protagonistas.
autoridades locais pela paz; e cooperação para
o desenvolvimento ou acesso democrático à
informação e aos meios de comunicação.
A partir das idéias que foram expostas,

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AGO 2004 / SET 2004 37


ENTRE Entrevista
Por Iracema Dantas

VISTA

38 Democracia Viva Nº 9
Maria de Jesus Ferreira Bringelo é uma
quebradeira de coco que mora na comunidade
de Monte Alegre, no Maranhão. Dona
Dijé, como é conhecida, tem 53 anos e é
um exemplo de como a participação e a
organização comunitária fazem diferença
na conquista por direitos. Ela é uma das
fundadoras do Movimento Interestadual
das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB)
e coordenadora de políticas públicas da
Associação em Áreas de Assentamento no
Estado do Maranhão (Assema). Hoje, luta pela
aprovação de uma lei federal que garanta livre
acesso aos babaçuais, conquista já alcançada
em cinco municípios do Maranhão: “A lei foi
levada para Brasília pela deputada Terezinha
Fernandes, do PT, e está tramitando. Se for
aprovada, vai ser uma grande conquista”.
Sobre o papel dos movimentos sociais no
governo Lula, afirma: “Caímos no comodismo.
Agora, mais do que nunca, nós, dos
movimentos, poderíamos estar dando panos
ao governo Lula; e não estamos. Estamos
deixando o pessoal que sempre dominou,
aquela gente que sempre foi oligarquia e não
quer perder o poder, ficar grudado no Lula. Se
nós, movimento social, estivéssemos lá todo
dia, batendo, cobrando, tenho certeza de que
a coisa estaria melhor...”. Quem ousa discordar
da dona Dijé?

AGO 2004 / SET 2004 39


entrevista

Como é o trabalho de uma até a metade da quarta série. Naquela época,


quebradeira de coco? só tinha duas maneiras de a gente estudar: ir
Dona Dijé: Depois de catar os cocos para casa de um branco ou de um parente.
que caem das palmeiras, quebramos com Quando a gente ia para a casa de um branco,
um machado e tiramos caroço por caroço. era para ser ama ou para ser empregada. Nessa
Juntamos tudo e vendemos por quilo para trajetória, fui até os meus 15 anos, depois voltei
quem vai fazer o óleo. É tudo bem difícil... para a comunidade.
No começo só conseguia tirar meio quilo Então, a senhora trabalhou
de amêndoa. Demorei a quebrar 3, 4 quilos. desde criança?
Mas, depois que aprendi, minha ten­dên­cia foi Dona Dijé: Eu ficava na casa de conhecidos.
começar a quebrar muito co­co, foi rápido. O pessoal dizia que não era trabalho, mas eu
Quando comecei tinha que cozinhar, lavar, varrer casa, olhar
com esse trabalho, menino. De tempo em tempo, minha mãe me
muitas vezes tinha levava pra passar dias em casa, até que um
que ir pro mato de dia decidi arrumar um casamento e cuidar da
manhã, pra que- minha vida.
brar o coco e, as- Com que idade a senhora casou?
sim, comprar o arroz Dona Dijé: Eu era bem novinha, 16 anos.
pra comer de tarde. Foi um casamento que não durou muito tem-
Muitas e muitas das po, uns três, quatro meses. Casei em janeiro;
vezes, fui pro mato em maio, a gente já tinha se largado. Ele
só com a água do também era novinho, a mãe ainda governava.
pote. Outras vezes, Um dia, ela chegou e disse: “Vamos, vamos,
quando tinha o que acabou”. E ele foi. Fiquei grávida, mas perdi
comer, fazia almo- a criança.
ço pra comer com Apesar de não ter durado nada, nesse
farinha. Café era de casamento aprendi a cuidar da minha vida.
ano em ano, só na Eu já sabia quebrar coco, mas não quebrava
Páscoa, na Semana bem. Assim, tive que aprender a fazer di­
Santa. Mas essa vida reito. Já que eu queria ficar na comunidade
fui levando. Não con- de Monte Alegre, tinha que saber o trabalho
to as vezes em que saí de lá. Dali pra frente, ficou muito claro que
de casa e deixei um eu tinha uma responsabilidade a cumprir.
menino de 8 anos e Tinha que enfrentar a dura realidade da vida.
uma menina de 6 cui- Depois desse casamento, passei muitos
dando de um bebê. e muitos anos sozinha, só virando de perna
A senhora pra cima, cabeça pra baixo, quebrando coco,
nasceu no trabalhando roça, bebendo cachaça e indo
Maranhão? pra festa! Ia me sustentando com o coco e
Dona Dijé: Sim, com a roça. Nesse intervalo, tive um filho e
nasci no Cajueiro, duas filhas. Mas as duas meninas morreram.
perto de Bacabal, no Depois de uns 10 ou 12 anos, arrumei outro
Médio Mearim. Mas casamento. Eu e seu Domingos passamos uma
minha família é de temporada juntos, uns 14 anos. Agora, estou
Monte Alegre, onde solteirinha da silva.
minha mãe nasceu. A senhora ainda quebra coco?
Assim como todo Dona Dijé: Faz uns quatro anos que não
mundo que morava lá, ela era descendente quebro coco direto. Mas, quando tenho um
de escravos e foi passar uma temporada no tempinho, quebro. Teve uma época em que fui
Cajueiro, onde nascemos eu e mais duas professora na minha comunidade e, quando
irmãs. Com o decorrer do tempo, minha mãe eu saía da lida, lá pelas 10 horas, 10h30, meu
adoeceu, ficou muito mal, e a minha avó foi machado já estava amolado para ir pro mato.
buscar a gente. Voltamos para o Monte Alegre Não tinha essa história de almoço, não. Era
e, quando eu estava com 6 ou 7 anos de ida- sair da escola, jogar o machado nas costas e ir
de, me separei da minha mãe e fui para a es- quebrar coco. Isso era todo dia. Agora minha
cola. Estudei um tempo em São Luiz Gonzaga, vida é mais corrida, mas tenho sempre um

40 Democracia Viva Nº 9
23
dona dijé

coquinho lá em casa... de coco pra comprar 1 quilo de arroz. Sei


Quantos anos viveu só do coco? de comunidades em que 10 quilos de coco
Dona Dijé: Direto, acredito que uns 20 anos. valiam 1 quilo de arroz. Hoje, quebramos o
Numa época, eu só não quebrava de noite por- coco e recebemos o dinheiro na hora. Isso
que não dava certo, mas, se desse, eu quebrava. foi uma grande mudança, porque, durante
Quando eu dependia só de quebrar o coco, eu muito tempo, entregamos as amêndoas em
saía de manhã cedinho pro mato e só voltava lá troca de vale, um pedacinho de papel com o
pelas 4 ou 6 da tarde. Quando chegava em casa, valor escrito. Se aquele pedacinho de papel
ainda tinha todo o trabalho de dona de casa: se perdesse, nós perdíamos o dinheiro... Uma
fazer a janta, banhar menino, arrumar a casa. boa quebradeira de coco consegue tirar 10
Relembrando tudo isso, vejo como mudou quilos, na média.
a nossa vida. Hoje, temos roupa pra vestir, Hoje, o comércio é feito livremente,
temos calçado e saímos bem arru­m a­d inhos. mas já houve cerceamento?
Lembro que, uma época, eu e minha comadre Dona Dijé: Sim, e muito. Era a época do
íamos pra reza só com um pé de chinelo: ela coronelismo. Os donos da terra nos obriga-
ia com um, e eu ia com o outro. Era um pé vam a vender tudo pra eles. Eles ameaçavam
calçado, outro descalço, porque a sandália nos proibir de entrar pra catar o coco. Alguns
era pra nós duas. Numa época, eu não tinha fazendeiros até botavam uma corrente na
nem uma rede pra deitar. Nós não conquis- saída da fazenda e um capanga pra tomar
tamos só coisas materiais, mas conhecimento conta de tudo. Pra fugir disso, a gente le-
também, a nossa clareza. Ficando engajados vantava meia-noite, botava o coco no saco,
nos movimentos, acho que conseguimos dar aproveitava a hora em que o capanga estava
passadas. Conseguimos muita coisa.
Quantos filhos(as) tem?
Dona Dijé: Cinco. Minha caçula está com
11 anos. Tenho dois filhos, um com 34 e outro
com 25 anos, e mais duas filhas, uma com 23 e
outra com 17 anos. Os meninos já estão casados.
Todo mundo mora em Monte Alegre.
Todos tiveram uma infância difícil. Quando
eram pequenos, tinham que esperar eu chegar
do mato pra ter o que comer. Saía de casa e
deixava um menino tomando conta de outro.
Brinquedo que é bom, nada! Meus filhos e as
outras crianças de Monte Alegre nunca tiveram
um brinquedo. Assim como eu nunca brinquei
com uma boneca, minhas crianças também
não tinham brinquedos. Hoje eu posso – e me
orgulho disso – dar uma boneca pra minha
caçula. Antigamente, as meninas brincavam
com sabugo enrolado num pano. Isso era a
boneca, porque a gente não podia comprar.
Suas filhas também são
quebradeiras?
Dona Dijé: Elas ainda estudam, mas sa-
bem quebrar coco muito bem. Minha caçula
tanto é quebradeira como é vendedeira. Assim
que uma de nós consegue quebrar uma certa
quantidade, ela já está pedindo para ir vender.
Quando todas estão em casa, até brigam por
causa do machado...
Quanto vale 1 quilo de coco e qual
a média de retirada por dia?
Dona Dijé: Um quilo de coco é vendido
por R$ 1. Mas, antigamente, lá em Monte
Alegre, a gente tinha que quebrar 5 quilos

AGOOUTUBRO/2000
2004 / SET 2004 41
entrevista

comprou as terras de Monte Alegre


e se mudou para lá com seus escra-
vos. Depois da Abolição, em 1888, os
negócios da fazenda já não iam bem,
e o coronel pouco se interessava pelas
terras. No ano de 1907, ele resolveu
ir embora de vez e deu a posse de
parte da terra a 12 negros que
ainda estavam na fazenda. Pelo
que contavam nossos antepassa-
dos, ele vendeu uma parte e doou
outra. As pessoas antigas foram
passando essa história para os mais
novos, e o povo foi ficando e tendo
seus filhos...
Mas, se os negros tinham
a posse da terra, qual foi
o conflito?
Dona Dijé: O primeiro conflito foi
a descoberta de que esses 12 ne-
gros tinham sido enganados pelo
capataz da fazenda. Os negros
não sabiam ler nem escrever, e o
tal capataz dizia que a escritura
que o coronel tinha feito estava
errada, que precisava levar ao
cartório. Só que nesse conserto,
quando eles abriram os olhos, o tal
sabido já era o dono de toda a terra.
Apesar de terem descoberto isso, os
negros não tinham a quem recorrer.
Além disso, era uma área muito
grande, quatro léguas de terra, e
todo mundo continuou vivendo lá
mesmo. Mas o problema veio à tona
quando o capataz morreu, em 1976.
Os filhos lascaram a vender tudo e
dormindo e ia amanhecer o dia na calçada venderam a terra com o povo todo
em Lima Campos. A gente batia na porta do dentro. Aí foi uma briga, uma guerra de fogo.
comerciante pra ele comprar o coco antes de Como foi essa briga?
o dia amanhecer pra ninguém passar e ver. A Dona Dijé: Foi uma resistência nossa
gente amanhecia o dia dormindo nas calçadas. muito forte e liderada pela dona Vitalina, que
A região do Médio Mearim tem hoje tem 90 anos e ainda mora em Monte
uma história de conflitos agrários. Alegre. Logo depois da notícia da venda da
Houve algum na sua comunidade? terra, dona Vitalina dizia: “Daqui ninguém
Dona Dijé: Tivemos uma grande luta para tira nosso povo. Eu só saio se for com São
permanecer na nossa terra. Monte Alegre foi Benedito!”. Ela nos juntou pra contar toda a
onde ocorreu um dos primeiros conflitos do história do nosso povo e, depois de algumas
Maranhão. As lutas pela terra no Maranhão conversas, perguntou se nós tínhamos cora-
só começam a ser conhecidas a partir dos gem de lutar para permanecer na terra.
anos 80, mas o nosso maior embate foi Foi uma resistência feminina?
ainda nos anos 70. Nossa história não está Dona Dijé: Sim, toda das mulheres. Li-
nos jornais ou livros e, quando explodiu, já deradas pela dona Vitalina, fazíamos nossas
tinha um século de resistência. Na verdade, reuniões no mato e íamos bolando o que
a história da nossa comunidade começou em fazer para não ter que sair da terra. Duran-
1870. Nesse ano, o coronel Lisboa Ferreira te a semana todinha, quebrávamos coco;

42 Democracia Viva Nº 9
23
dona dijé

sábado e domingo, pegávamos um caderno pen­sa­vam que íamos de­­­sis­tir, mas se engana-
e saíamos pelos povoados pedindo ajuda – ram. Man­da­ram construir uma cerca em toda
dinheiro mesmo! Só que nós não dizíamos a nos­­sa comunidade e ficavam nos ameaçando,
muito bem pra que era essa ajuda. Algumas dizendo que tí­nha­­mos que ir embora. Fizemos
pessoas diziam: “Ah, essas mulheres querem é u­ma reunião e decidimos pôr abaixo a cerca.
uma bala”. Mas fomos lutando e nos organi- E qual foi a reação dos
zando e, quando já sa­bíamos mais ou menos fazendeiros?
o que e como fazer, resolvemos chamar os Dona Dijé: Aumentaram as ameaças!
companheiros. Os ho­mens pegavam nas armas Todo santo dia aparecia um pisto­lei­ro novo
mais pesadas, as mulheres eram pra pensar. na região. Eles ameaçavam nos matar, mas
Quem eram essas mulheres? a nossa negrada se armava de espingarda e
Dona Dijé: Vitalina, Nazi e eu. A primeira tu­do mais que tives-
coisa que decidimos fazer foi contar o que se à mão e ficava
estava acontecendo em Monte Alegre, as esperando por eles.
ameaças que a gente sofria. Começamos a Ao mes­mo tempo, a
escrever um monte de carta e enviar pra tu­do Jus­tiça continuava a
quanto era endereço que alguém tivesse. Nós mandar os despejos,
escrevíamos de noite, dentro das casas e qua- mas nós não saía-
se no escuro, tamanho era o me­do... Sempre mos! Ia delegado,
ficava alguém vigiando a porta, enquanto uma oficial de justiça,
de nós escrevia as cartas. Nós tínhamos medo, polícia, advogado,
muito medo, medo, medo, muito medo... e nós não saíamos!
Medo de quê? Essas
Dona Dijé: Uma coisa incrível é que nem ameaças
tínhamos noção de que vivíamos na ditadura nunca foram
militar, nós lutávamos pela sobrevivência. Tudo cumpridas?
isso aconteceu de 1976 a 1979, mas não tí- Não houve
nhamos essa informação sobre política. Nosso mortes?
medo era bem mais próximo: se alguém nos Dona Dijé: Nun­
delatasse, seríamos presas. Nessa época, tinha ca morreu gente!
muita mulher grávida na nossa comunidade – Mas muitos com-
inclusive eu –, e nosso medo era ir para prisão. panheiros levaram
Passamos dois anos sem botar roça, a saída era surras. Quando isso
só que­brar coco pra comprar comida e fazer o acontecia, rapidi-
dinheiro. Existe um ditado popular que diz que nho fretávamos um
negro não trabalha, que negro é preguiçoso. caminhão, enchía-
Você já pensou passar dois anos sem poder mos com homem e
plantar um pé de arroz, sobreviver só do ba- mulher da comuni-
buçu pra tudo? dade, só não iam as
O comentário nas cidades mais próximas mulheres grávidas,
era de que estávamos procurando confusão, para ir a São Luiz
diziam que aquele ninho de negros ia ser des- Gonzaga pressionar
manchado logo. Foi uma época em que muita o poder público.
gente foi expulsa da terra, daí os conflitos que Sempre insistimos
ficaram famosos. que a terra era nos-
Os grandes fazendeiros iam comprando as sa e que ninguém ia
terras, e as pessoas iam desocupando. Só que embora. Passamos
eles não conseguiram nos expulsar da nossa por essas ameaças de 1976 a 1979, quando
comunidade. Nosso lema era: “Nossa morada houve uma ordem de despejo. Como não
é aqui e a gente não vai sair”. a cumprimos, queimaram as nossas casas.
Quantas pessoas viviam Quando as casas
em Monte Alegre? foram queimadas?
Dona Dijé: Umas 97 famílias. Mesmo Dona Dijé: No dia 12 de novembro de 1979.
com o apoio que conseguimos de alguns Vivíamos sobressaltados por tantas ameaças.
advogados, a Justiça deu ganho de causa às Estávamos tentando fazer uma roça miu­dinha,
pessoas que com­praram nossas terras. Com isso, quan­do uma menina avisou: “Gente, a polícia

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2004 / SET 2004 43
entrevista

che­gou no Monte Alegre”. Foi um desespero de vez em quando vinha um rezar uma missa.
quando ela disse que já estavam colocando Horas depois do acontecido, chega o Aroldo
nos­sas coisas no caminhão. A ordem era tirar Sabóia, o deputado. Ele tanto fez que conse-
tu­do de Monte Alegre, e nossa reação primeira guiu levar a juíza que deu a liminar de despejo
foi pensar em nos esconder no ma­to. Naquele para ver as casas queimadas. Ele falou: “Tá
momento, pensei: “Nós não matamos, não aqui, trouxe a égua que mandou queimar as
roubamos, o que vamos ficar fazendo dentro casas de vocês”.
do mato?”. Aí, voltamos para as nossas casas E o que disse a juíza?
e já encontramos algumas vazias e outras Dona Dijé: Ela dizia que não tinha autori-
queimadas. Nem sei co­mo, de repente veio a zado queimar aquele monte de casas, que ela
notícia de que um deputado – Aroldo Sa­bói­a não sabia que isso poderia acontecer e que só
– estava tentando tinha dado autorização de despejo de três casas.
impedir o despejo. As mulheres foram se encostando na égua,
Mas já era tarde. e ela entrou no carro de costas. Teve medo.
En­quan­­­to o Aroldo O nome dela não esqueço: Maria das Graças
procurava resolver Mendes Corrêa, era juíza da Comarca de São
nossos direitos na Luiz Gonzaga, em 1979.
capital, eles queima- Depois disso, vocês foram
vam nos­sas casas. O para onde?
desespero era enor- Dona Dijé: Continuamos em Monte Ale-
me. De repente, um gre! Não fomos embora! Fomos para o meio
temporal caiu, e eles do mato. Passamos três dias, pegando sol,
foram embora. Mas chuva e sereno. Eu tinha acabado de parir
disseram: “Amanhã um menino, e meu filho dormia numa caixa
de manhã cedo, a de papelão. Não tínhamos nem o que comer
gente volta”. nesses três dias; a igreja se mobilizou e ar-
Não acreditamos recadou arroz, farinha, massa, leite, açúcar,
que pudessem voltar ca­fé etc. Até as nossas facas de cortar carne,
e ficamos todos nas nos­sos machados, nossas espingardas, tudo,
casas que restaram. tudo, tudo, a polícia levou. A polícia deixou a
Mas, quando o sol comunidade totalmente desarmada. Ficamos à
esquentou, lá pelas mercê deles. Mas a igreja foi fundamental, nos
11 horas, voltou um ajudou com o que pôde, até mes­mo a mobilizar
monte de polícia, outros municípios para fazer um barracão.
que nos mandou sair Como continuou a luta de vocês
de casa. Bateram nos depois disso? Onde foi construído
nossos companhei- esse barracão?
ros que tentavam Dona Dijé: Em Monte Alegre. Só depois
impedir o despejo. de um ano, começamos a construir as nos-
Ficamos lá vendo sas casas. Depois de muito tempo e muita
nossas casas serem resistência nossa, o Incra [Instituto Nacional
destruídas e sem ter de Colonização e Reforma Agrária] fez a desa-
o que fazer. propriação das terras, em 1985. Foram anos
Queimaram de incertezas e muita luta, mas nunca saímos
todas as casas? da nossa terra. No fundo, minha opinião é de
Dona Dijé: To- que não foi o governo que desapropriou nossa
das. E fizeram isso terra, nós é que lutamos por ela. Foi ao longo
também em outros povoados da região. O desse tempo que conseguimos nos organizar,
povo ficou sem eira nem beira. Nossas casas criar uma associação para Monte Alegre. Esse
eram de palha e taipa, o pouco que não quei- foi um lado positivo do conflito: aprendemos
mava era derrubado com trator. Só a igreja a nos organizar. Se não tivéssemos tido esses
não foi queimada. Ouvi quando um policial grandiosos conflitos, ainda viveríamos na igno­
perguntou a outro se devia queimar a igreja rância dos nossos direitos.
também. Ele respondeu que não; era pra deixar Depois da desapropriação
que ela se destruía com o tempo. Era uma das terras, vocês continuavam
igreja improvisada, não tínhamos padre, mas a se reunir?

44 Democracia Viva Nº 9
23
dona dijé

Dona Dijé: Sim, e muito! Por volta de 1987, mulheres de estados mais próximos onde tem
era uma febre de reuniões e grandes assembléias maior densidade de babaçu. Fizemos o primeiro
entre as mais diferentes organizações de traba- encontro interestadual em 1991 ou 1992, não
lhadores. Juntava muita gente, e o papel das lembro exa­tamente a data.
mulheres acabou sendo o de fazer comida pra Nesse tempo todo, nossa maior batalha
aquele povão. Eu participava, mas tinha mesmo – e também nossa maior conquista – é levar
era que cui­dar da lida. Além de ter uma casa, conhecimento para as bases. O movimento,
tinha os filhos pra dar de comer. E, se não fosse hoje, está institucionalizado e é legalmente uma
trabalhar, eles não comiam, era um monte de associação. Mas, para nós, continua sendo mo-
problema... Chegou um momento em que as vimento; essa formalização foi uma necessidade
mulheres decidiram: “Não vamos mais cozinhar da luta. São 24 coordenadoras, 12 titulares e
pra ninguém, porque, agora, vamos lá pra dis- 12 suplentes, tem coordenadora no Maranhão,
cussão. Os homens estão fazendo a coisa errada Piauí, Tocan­tins e Pará.
e, se não formos pra lá, vão continuar fazendo”. E qual é a luta específica
E aí começamos a abandonar a cozinha. Em do MIQCB neste momento?
1989, surgiu a Assema [Associação em Áreas de Dona Dijé: Queremos aprovar uma lei
Assentamento no Estado do Maranhão] e, junto,
um trabalho nas bases, principalmente
com as mulheres. Criamos o Grupo de
Estudos das Quebradeiras.
Como está Monte
Alegre hoje?
Dona Dijé: Lá, hoje, vivem 500
pessoas. Existe gente com 10, 12
filhos... Temos roça e animais. A lida
ainda é dura, mas estamos melhoran-
do aos poucos. Já temos luz elétrica
e água. Algumas casas são de tijolo,
mas ainda existe casa de taipa e co-
bertas por palha. Fizemos um projeto
pra reconstruir todas as casas, mas o
dinheiro não deu pra tudo. Quando o
morador tem uma condição melhor,
ele vai tocando pra frente. Temos
também uma escola, que este ano está
funcionando até a oitava série. Muitas
crianças estão na escola.
Agora que temos a terra, estamos
lutando para que seja reconhecida como
terra remanescente de qui­­­­lom­bos. Toda
a história da comunidade prova que
somos remanescentes de escravos e
queremos que isso seja reconhecido.
Quando surgiu o
Movimento Interestadual
das Quebradeiras de Coco
Babaçu (MIQCB)?
Dona Dijé: Foi em 1990. Começa-
mos a juntar as mulheres de vários mu-
nicípios pra discutir. Nós já tínhamos
o tal grupo de estudos e acabamos
vendo que o mesmo problema que
existia no Maranhão também existia
em outros estados. Era um proble-
ma de várias mulheres. Resolvemos
criar um movimento que englobasse

AGOOUTUBRO/2000
2004 / SET 2004 45
entrevista

federal que garanta o acesso ao babaçu. A lei e tinham vergonha, não consideravam uma
foi levada para Brasília pela deputada Terezi- profissão. Hoje, somos quebradeiras assumidas.
nha Fernandes, do PT, e está tramitando. Se Construímos nossa identidade. Aonde quer que
for apro­vada, vai ser uma grande conquista. uma de nós vá – São Luís, Brasília ou outra cidade
Já temos leis no estado do Maranhão e em –, agora ela pode dizer com orgulho: “Sou que­
alguns municípios que impedem a queimada bradeira de coco, tenho uma vida digna, uma
e garantem às mulheres que elas possam profissão digna”.
fazer a coleta nas terras públicas e privadas. O que representa a Assema para as
Mas queremos ter uma lei que garanta esses quebradeiras de coco?
direitos no país todo. Dona Dijé: A Assema é a nossa cara; é
De que forma o associativismo a cara dos trabalhadores, das trabalhadoras,
empregado pela Assema melhorou das quebradeiras de coco. Aqui, entre nós,
a vida das famílias que vivem não existe divisão de tratamento, nós mesmos
do babaçu? administramos a nossa entidade. Se vamos
Dona Dijé: A primeira coisa que melhorou viajar, viajamos juntos. Não existe essa história
foi o nosso conhecimento de vida e dos direitos. de fulano vai num carro, beltrano vai em outro.
Antes, quebrar coco não era uma coi­sa digna. Vamos juntos pra todo lugar, aqui não existe
As mulheres que viviam do coco se escondiam separação. Homens e mulheres, todos mandam
igual. Quando discordamos, discutimos até
achar um meio-termo...
O movimento das quebradeiras
nunca tentou ingressar
na política formal?
Dona Dijé: Sim, nós temos uma verea-
dora, a Maria Alaíde, do Lago do Junco. Ela
já está pleiteando o segundo mandato. Ela
foi coordenadora da Associação de Mulheres
Trabalhadoras Rurais.
Sabemos que é importante ocupar todos
os espaços, na política e nas ruas. Fui a todos
os fóruns de Porto Alegre. Achei bom, muita
discussão. Consegui fazer algumas amizades,
fiz contatos importantes e aproveitei muito para
espalhar a nossa luta. Organizamos oficinas que
foram bastante procuradas. Foi um espaço de
troca muito bom. Isso faz parte da caminhada.
A senhora já passou por alguma
situação de racismo?
Dona Dijé: Olha, passamos o tempo todo
por isso. Uma vez me senti muito ofendida num
ônibus. A pessoa não falou nada, mas quando
eu e uma amiga entramos, ela olhou de um
jeito... Minha amiga sentou ao lado dela, e,
na mesma hora, a dona se levantou e foi sentar
em outro lugar. Eu me senti humilhada. Isso é
muito triste.
Mesmo aqui na nossa região existem
pessoas brancas que tratam a gente mal.
Quando sentamos pra conversar em algum
tipo de mobilização, sempre alguém diz: “Ali
tem um grupo de negros que não quer tra-
balhar”. Lembro também de uns fazendeiros
que sempre diziam que não davam um boi
pelos negros. Isso tudo não é racismo? Acho
isso horrível, mostra justamente que as pessoas
não têm clareza do que é a vida real. Nessas
bandas, as pessoas são muito ligadas em

46 Democracia Viva Nº 9
23
dona dijé

novela, mas assistir um jornal pra ver o que o problema? Fotos: José Silva Queiroz

está acontecendo, não. Na ho­ra do jornal, Havia uma expectativa muito


faz uma coisa, faz outra, mas, na hora da grande de que, neste governo,
novela, todo mundo está ligado. Acho que a partici­pação dos mo­vi­-mentos
isso tudo acaba influenciando esses pensa- sociais seria maior?
mentos. Dona Dijé: Acho que o maior problema é
O que pensa sobre as cotas que, quando o Lula foi eleito, caímos no como-
para afrodescendentes? dismo. Na minha opinião, agora, mais do que
Dona Dijé: Acho que isso ainda vai render nunca, nós, dos mo­vimentos, poderíamos estar
muito. Pelo que acompanho no jornal e na te- dando panos ao governo Lula; e não estamos.
levisão, acho que alguns detalhes precisam ser Estamos deixando o pessoal que sempre do-
melhorados. Mas é um espaço de conquista, minou, aquela gente
sabe por quê? Tenho visto muitos negros que que sempre foi oli-
sei que são capazes, mas a burocracia impede garquia e não quer
que eles subam na vida. Hoje, até que está mais perder o poder, fi­car
fácil para um negro chegar à universidade, mas grudado no Lula. Os
ainda é muito pouco. Até hoje um negro pra movimentos estão
subir na vida tem que ficar provando o tempo encolhidos. Agora
todo que é bom... que ganhamos o
Qual sua avaliação governo, temos é
do governo Lula? que nos desdobrar;
Dona Dijé: São mais de 500 anos que e nós estamos ven-
não podem ser consertados em quatro anos, é do a barca passar.
muito pouco pra se consertar tudo que existe Se nós, movimento
de errado. Nossa história já começou errada... social, estivéssemos
Mas acho que o Lula vem tentando cumprir lá todo dia, baten-
alguma coisa. Pelo menos, o governo agora fala do, cobrando, tenho
de coisas que antes viviam encobertas. Sei que certeza de que a coi-
existe gente que acha este governo negativo, sa estaria melhor.
mas algumas coisas estão mudando.
Mas o melhor mesmo seria o Lula fazer a
reforma agrária, de verdade. Ele prometeu e
ainda não fez... Não se muda a vida do povo
brasileiro sem fazer a reforma agrária. Se ele
fizer a reforma agrária, vai acabar com a fome
e a miséria. Não é só fome que é miséria, não.
Outras coisas também são miséria. Quando
você vê umas cidades como algumas aqui do
Maranhão cheias de terras e com gente passando
fome, logo percebe que, sem a reforma agrária,
essas pessoas não vão ter a chance de uma vida
digna. As pessoas iam ter onde plantar, iam
poder ver sua criança brincar, saudável, sem
estar na marginalidade.
Penso muito nessa juventude envolvida na
marginalidade, e a reforma agrária também
pode ajudar nisso. Quebro um caroço de coco,
boto um punhado de farinha e digo pro meu
filho: “Oh, é isso que tem”. Ele come, bebe
uma água e fica satisfeito. Por quê? Se ele for
na casa do meu vizinho, talvez ele também esteja
dando um punhado de farinha pro filho dele. E
quando parte pra chegar na cidade, se meu filho
não almoçar hoje, de tarde ele vem, se ele não
jantar, amanhã ao meio-dia ele vem, mas na janta
ele não vem mais pra ca­sa. Entendeu onde está

AGOOUTUBRO/2000
2004 / SET 2004 47
Dona Geralcina, do Grupo de Mulheres de Santana

48
Democracia Viva Nº 23
Iracema Dantas*
especial
Mulheres
que quebram
coco e extraem
a vida
Por mais difícil que seja a vida das quebradeiras de coco e de suas famílias, chama a

atenção a forma como elas encaram a luta diária pela sobrevivência. Não há desânimo

e, muito menos, lamentações; a auto-estima é elevada, e o orgulho pelo trabalho desen-

volvido está presente o tempo todo. Na verdade, o que inicialmente se apresenta como

pobreza traz consigo um rico processo de conquistas. Se a luta atual é pela preservação

do babaçu e pela melhoria das condições de vida, na década de 1980 era pelo direito

de permanecer na terra. Se as condições de vida ainda não são as ideais, a maior dife-

rença, hoje, é a perspectiva de um futuro melhor. E elas acreditam – e fazem com que

acreditemos – que esse futuro é totalmente possível.

AGO 2004 / SET 2004 49


especial

Lago do Junco

Lago dos Rodrigues Peritoró


São Luiz Gonzaga
Lima Campos
Pedreiras São Luís

Esperantinó-

Imperatriz

MARANHÃO

MAPA DO ESTADO DO MARANHÃO, COM FOCO NO MÉDIO MEARIM

A região do Médio Mearim, no Maranhão, é técnica, jurídica e política à economia de base


toda marcada por históricos conflitos agrários familiar. Atualmente, fazem parte da Assema
entre fazendeiros pecuaristas e trabalhado­res(as) 16 outras associações coletivas; são coope-
rurais. Sua paisagem mistura grandes fazendas rativas, associações comunitárias de áreas de
de gado com áreas de assentamentos da reforma assentamentos, grupos informais, associações
agrária – onde estão as quebradeiras de coco e de mulheres, sindicatos de trabalhado­res(as)
suas famílias. A maior fonte de renda é a extra- rurais e uma escola família agrícola. Todas
ção da amêndoa do babaçu, vendida em média essas associadas recebem uma espécie de
a R$ 1 o quilo e transformada num óleo que é consultoria permanente prestada pela equipe
usado nas indústrias locais e vendido para os de técnicos(as) da Assema em temas como
mercados interno e externo. A roça de milho, produção agroextrativista, comercialização coo-
mandioca, feijão e arroz e pequenas criações de perativista, organização de mulheres, desenvol-
animais complementam a renda das famílias. vimento local e políticas públicas, comunicação
Outras atividades de comercialização, como a e mobilização de recursos. São beneficiadas
fabricação de sabonetes de óleo de babaçu, cerca de 800 famílias.
carvão vegetal, farinha de babaçu, frutas desi- A organização está presente em seis mu-
dratadas e doces em compotas, são iniciativas nicípios do Médio Mearim (aos quatro iniciais
que tentam ampliar a geração e a distribuição juntaram-se Lago do Rodrigues e Peritoró). A
de renda locais, agregando a valorização e sede fica em Pedreiras, mas a Assema também
a afirmação da identidade das comunidades mantém um posto avançado em São Luís do
rurais. Na região, a população rural é de 74 Maranhão: a Embaixada Babaçu Livre (leia mais
mil habitantes. no boxe). Todo o esforço de articulação entre
Grande parte dessa história de conquis- diferentes instituições tem garantido que as
tas por cidadania e participação começou a ser comunidades assistidas tenham energia elé-
escrita há 15 anos, quando lideranças sindicais trica, água (apenas fora das casas) e escolas
de Esperan­tinópolis, Lima Campos, São Luiz do ensino fundamental, além de projetos que
Gonzaga e Lago do Junco criaram a Associação assegurem não só uma renda complementar
em Áreas de Assentamento no Estado do Ma- como também a formação política e o resgate
ranhão (Assema). A organização atua por meio de auto-estima de trabalhadores e trabalha-
do incentivo ao desenvolvimento de sistemas doras rurais. Além de programas que buscam
cooperativistas e associativistas e de assessoria a organização produtiva e econômica, há uma

50 Democracia Viva Nº 23
Mulheres que quebram coco e extraem a vida

iniciativa específica sobre questões de gênero:


trata-se do Programa de Organização de Mulhe-
res. A proposta é fortalecer as organizações de
mulheres vinculadas à Assema. O trabalho tem
garantido que as mulheres da região participem
ativamente nas discussões sobre os rumos dos
projetos desenvolvidos pela Assema. Outro
resultado foi a criação do Grupo de Estudos
das Quebradeiras de Coco Babaçu, do qual
participam mulheres de todo o Médio Mearim.

Agricultura e cidadania
Doralice é uma das mulheres que vivem em Santana,
Na comunidade de Santana, município de São município de São Luiz Gonzaga. Antes, ela trabalhava como
Luiz Gonzaga do Maranhão, está um exemplo agente da Pastoral da Criança

da força do associativismo implementado


pela Assema. Lá vivem 17 famílias, das quais
15 fazem parte do Programa de Produção da
Assema, que repassa técnicas de plantio sem
queimadas e sem agrotóxicos. São chamadas
de Grupo de Mulheres de Santana, que não
deixaram de ser quebradeiras de coco, mas
optaram por investir na produção de compotas
e geléias de manga e licores. Doralice Maria
Domingos, 48 anos, que vive há nove anos
em Santana, explica: “Fazemos compotas de
manga, mas já estamos plantando abacaxi,
jaca e caju. A jaca não vai ser pra gente, né?
Mas ela vai ficar pra nossos filhos e netos”. Compotas de manga, de 490 gramas, são vendidas por R$
3,50 para a Assema, que as revende em São Luís por R$ 5
As compotas, de 490 gramas, são vendidas
por R$ 3,50 para a Assema, que as revende
em São Luís por R$ 5. Apesar de a palmeira não vão ter que andar tanto.” Antes de morar
de babaçu ser uma árvore típica da região, em Santana, Dora e seu marido faziam parte
a comunidade de Santana também resolveu do Sindicato de Trabalhadores(as) Rurais de
investir no seu plantio. “A gente não quer dei- São Luiz Gonzaga do Maranhão. Ela atuou
xar de quebrar coco, mas o babaçu está cada como agente da Pastoral da Criança, e sua
vez mais longe. Então, resolvemos plantar e família foi beneficiada pelos assentamentos
deixar essa herança pra outras gerações. Pelo da reforma agrária.
menos a gente garante que as netas da gente

O Grupo de Mulheres de Santana reúne 15 famílias. A comunidade faz parte dos assentamentos da reforma agrária no Maranhão

AGO 2004 / SET 2004 51


especial

Dora tem duas filhas, de 32 anos e 21 bomba que distribui para pontos ao redor de
anos. A mais nova, Nilde, está na Universidade todo o povoado. Como em todo o restante da
Federal do Maranhão, fazendo o curso livre de região rural, não há rede de esgoto e, conse-
Realidade Brasileira. Para Dora, a vida agora é qüentemente, instalações sanitárias.
muito melhor: “Nem se compara! Hoje temos O Programa de Produção da Assema,
a posse da terra. Passamos por muita coisa, do qual a experiência de Santana faz parte,
os conflitos foram grandes. Companheiros desenvolve um sistema de produção chamado
nossos do sindicato foram assassinados. Hoje agroextrativista, com base no modelo de agri-
não temos mais essas ameaças e aprendemos a cultura orgânica, e permite a recuperação da
plantar sem queimada”. A venda de compotas produtividade na agricultura familiar, ensinando
ainda não foi capaz de estabelecer uma renda técnicas que primam pelo respeito ao meio
mensal média. Por isso, as mulheres de San- ambiente. O trabalho teve início no município
tana têm discutido o investimento em outros de Esperantinó­polis e foi ampliado para toda
produtos mais raros na região e a busca por a região do Médio Mearim. Em Lima Campos,
mercados externos. Segundo Dora, o fato de a o programa é desenvolvido na Associação dos
manga ser uma fruta comum no estado acaba Agricultores da Gleba Riachuelo. Lá, o consórcio
diminuindo o interesse pelas compotas e ge- de culturas inclui o plantio de banana, abaca-
léias: “Aqui existe muita mangueira. Com isso, xi, caju, jaca, mamão, leguminosas, árvores
as pessoas não ligam muito. Temos conversado madeireiras e a palmeira do babaçu. Em Lago
com o pessoal da Assema para saber como do Junco, as famílias trabalham com roças
plantar outras frutas e fazer outros produtos. orgânicas de arroz, milho, mandioca e feijão
Estamos testando vários licores e vendo como consorciadas, mais uma vez, com a palmeira
podemos levar nossa produção para outras de babaçu. No mesmo município, a Assema
cidades”. Além das atividades com agricultura assessora uma escola família agrícola, uma
orgânica e criação de animais, a comunidade cooperativa de refinamento do óleo de babaçu
de Santana tem um aspecto cultural muito e uma fábrica de sabonetes.
forte. As mulheres fazem questão de manter a Em Lago do Rodri­gues, a Associação de
tradição das festas típicas que misturam aspec- Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR), também
tos religiosos e profanos, especialmente as em assessorada pela Assema, criou uma oficina
homenagem a São Benedito e São Raimundo. de trabalho com papel reciclado e produz
Apesar do acesso ser dificultado por uma es- embalagens, bolsas e potes. Todo o processo é
trada em condições sofríveis – a maior parte do artesanal e até as tintas são retiradas da nature-
trajeto é de estradas de barro e areais, o que za. Lúcia, uma das responsáveis pelo trabalho,
ocasiona uma viagem de três horas até a cidade revela que as tintas usadas são feitas a partir do
de Pedreiras –, todas as casas têm energia elé- uru­cum, do açafrão e do maracujá. A fábrica
trica e há uma escola de ensino fundamental. fica nos fundos da sua casa e acaba sendo
Para retirar água do poço artesiano, há uma também um local de reunião das mulheres que

Lúcia, da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR), trabalha em uma oficina de papel reciclado. Os produtos são vendidos na Embaixada
do Babaçu

52 Democracia Viva Nº 23
Mulheres que quebram coco e extraem a vida

Toda a região do Médio Mearim é cercada por babaçuais e, de qualquer ponto, é possível avistar as imponentes palmeiras que nascem espontaneamente

integram o projeto. Para ela, que é viúva e tem as palmeiras em fase de crescimento). A alega-
seis filhas, o trabalho rende R$ 130 por mês e ção está sempre relacionada à necessidade de
comple­menta a pensão de um salário mínimo expandir o pasto.
deixada pelo marido: “Não teria co­mo sustentar O Movimento Interestadual das Que­
minhas filhas sem esse trabalho. Só assim elas bradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), uma ins-
podem ir à escola”. Lúcia, tal qual outras mu- tituição parceira da Assema e acompanhada
lheres da região, não deixou de quebrar coco e pelo Programa de Organização de Mulheres,
de ir para a roça: “Tudo depende do tempo que tem sido o principal articulador na luta pelo
a gente tem. Se tiver muita encomenda, dimi- acesso aos babaçuais. A iniciativa – que recebeu
nui o tempo pra roça e pra quebrar coco”. O o nome de Babaçu Livre – já conseguiu fazer
trabalho feito pelas mulheres da AMTR também com que cinco municípios do Médio Mearim
é vendido na Embaixada Babaçu Livre. Além dos aprovassem uma lei que garante às mulheres o
modelos produzidos cotidianamente, elas aceitam direito de coleta dos cocos em terras públicas e
enco­mendas para produtos específicos, como privadas. Além disso, as leis também proíbem
pastas para eventos e embalagens especiais. as derrubadas, os cortes de cachos e o uso de
Atualmente, as mulheres da AMTR estão ela- herbicidas. Para as mulheres que sobrevivem da
borando um novo produto. Ainda em fase de quebra do coco, garantir o acesso e a preser-
teste, elas criaram um óleo cosmético corporal vação dos babaçuais vai muito além da fonte
que junta o babaçu com a oriza (planta que de renda. Significa manter vivas suas tradições
veio da Índia há dois séculos e foi muito usada e o equilíbrio com o meio ambiente, já que o
na região como base de perfume). babaçu acaba impedindo que suas paisagens se
transformem apenas em capinzais para o gado.
O MIQCB articula, nos estados do Ma-
Babaçu livre
ranhão, Piauí, Tocantins e Pará, a luta de 300
Toda a região do Médio Mearim é cercada por mil mulheres que vivem prioritariamente da
babaçuais e, de qualquer ponto, é possível extração da amêndoa do babaçu. Mesmo no
avistar as imponentes palmeiras que nascem Médio Mearim, onde a palmeira de babaçu
espontaneamente. Isso não significa que o também é encontrada nas áreas de assenta-
acesso ao babaçu seja tranqüilo. Uma das atuais mento, a maior parte da plantação está nas
lutas das quebradeiras de coco está relacionada fazendas. Os municípios que já adotaram a Lei
ao fato de os fazendeiros da região limitarem do Babaçu Livre são Lago do Junco, Lago dos
ou mesmo impedirem que elas entrem em suas Rodrigues, São Luiz Gonzaga do Maranhão,
terras para fazer a coleta do coco. Alguns fa- Espe­r antinópolis e Capinzal do Norte (neste
zendeiros também vinculam o acesso ao repasse município, a lei foi aprovada, mas ainda não
de metade das amêndoas extraídas. Há ainda foi sancionada pelo prefeito). Ainda que, em
os que simplesmente derrubam as árvores e alguns locais, a lei não seja espontaneamente
envenenam as pindovas (assim são chamadas cumprida, pelo menos nesses cinco municí-

AGO 2004 / SET 2004 53


especial

pios o acesso aos babaçuais tem ocorrido.


A fiscalização e o cumprimento das leis mu-
nicipais são provas do fortalecimento dessa
região. Sempre que há um impedimento, as
mulheres que­b ra­deiras de coco rapidamente
preparam denúncias ao Ministério Público,
às prefeituras, ao Instituto Brasileiro do Meio
Am­biente e dos Recursos Naturais Re­nováveis
(Ibama) e à imprensa. Mas elas não param por
aí. O MIQCB agora volta suas forças para tentar
aprovar uma lei federal nos mesmos moldes das
leis municipais. Um projeto de lei já foi encami-
nhado pela deputada The­rezinha Fernandes, do
PT do Maranhão, e aguarda tramitação.

Do babaçu tudo se aproveita


A palmeira de babaçu costuma ter até 15 metros
de altura e chega a produzir até 500 cocos a cada
florada. É uma árvore de floresta secundária que
ocupa 18,5 milhões de hectares nos estados do
Ma­ranhão, Piauí, Tocantins, Pará, Goiás e Minas
Gerais. Sua concentração é maior no Maranhão:
são 10,3 milhões de hectares, onde a planta
garante a vida de 300 mil pessoas. Seu fruto é
o coco babaçu, do qual se extrai a amêndoa,
matéria-prima do óleo vegetal usado na fabri-
cação de sabonetes e cosméticos. Nessa cadeia
produtiva, as mulheres são responsáveis pela
extração da amêndoa, que depois é vendida
para comerciantes da região e para cantinas
da Assema. Cada quilo é vendido atualmente
Da palmeira do babaçu podem ser extraídos mais de 60 subprodutos, entre os quais a por R$ 1, e a média extraída pelas mulheres vai
palha usada nos tetos das casas, o cofo (cesto em que armazenam os cocos, também
conhecido por pacará) e até uma ração animal
de 5 a 10 quilos por dia. Para chegar a essa

O trabalho de quebrar o coco é pesado e gera problemas de saúde na coluna e na região abdominal, causados pela posição flexionada em que as mulheres
permanecem e pelo peso que carregam

54 Democracia Viva Nº 23
Mulheres que quebram coco e extraem a vida

quantidade, elas trabalham durante toda ma- em que são obrigadas a permanecer por tantas * Iracema Dantas
nhã e também no início da tarde, de segunda horas e pelo peso que carregam ao levar a coleta Coordenadora do Ibase,
a sexta-feira. para suas casas. em visita ao Médio
Da palmeira do babaçu podem ser extra- Mearim, no Maranhão1 
ídos mais de 60 subprodutos, entre os quais a
Fotos: José Silva Queiroz
palha usada nos tetos das casas, o cofo (cesto em
que armazenam os cocos, também conhecido
por pacará) e até uma ração animal. O trabalho
de quebrar o coco é pesado e acaba gerando
problemas de saúde na coluna e na região
abdominal, causados pela posição flexionada

Embaixada do Babaçu

Inaugurada em março de 2003, a Embaixada Babaçu Livre é uma


Divulgação Assema

espécie de posto avançado da Assema na capital do Mara­nhão.


Situada no centro histórico de São Luís, faz parte do Programa
de Comunicação e Mobilização de Recursos da Assema. “A
embaixada é uma casa de divulgação, comunicação e venda de
produtos. Somos responsáveis pelo contato com a imprensa,
fazemos articulação com instituições e temos ainda a função
de captação de recursos”, explica Helciane Araújo, assessora de
comunicação da Assema.
A proposta da embaixada é ampliar a captação de re-
cursos, mas também investir no apoio político aos projetos
desenvolvidos. A estratégia de comunicação adotada procura
aumentar a visibilidade do trabalho das instituições envolvidas
a partir da perspectiva dos resultados já alcançados. “Percebíamos que a causa das quebradeiras de coco
era mais conhecida que as instituições e os próprios projetos em andamento. Nosso investimento em
comunicação e na própria embaixada é para equilibrar essa relação”, explica a assessora.
Toda essa discussão sobre visibilidade e recursos tem sido apoiada pela Oxfam – uma agência
internacional de cooperação que tem incentivado as organizações por ela financiadas a buscar recur-
sos internamente. “Foi a partir de encontros promovidos pela Oxfam que elaboramos o Programa de
Comunicação e Mobilização de Recursos dentro da estrutura administrativa da Assema”, complementa
Helciane. A Assema também tem seu trabalho apoiado pelas agências de cooperação internacional
Christian Aid, Action Aid, Pão para o Mundo, Misereor, Coar-Unité, Terre des Homme e Grass Roots.
A captação de recursos promovida pela Assema engloba a venda de produtos na Embaixada e o incen-
tivo à doação de recursos financeiros por parte de pessoas físicas. “A embaixada também tem o objetivo
de ajudar a ampliar o número de pessoas que contribuem para a manutenção do nosso trabalho” diz a
assessora. A Assema tem atualmente 25 doadores individuais regulares e recebe outras doações esporadi-
camente. O grupo permanente – chamado de Amigo da Assema – opta por doações mensais, semestrais
ou anuais (R$ 10, R$ 60 e R$ 120, respectivamente). Além desse grupo, todo o corpo técnico contratado
(cerca de 20 pessoas) faz doações regulares.
Segundo Helciane Araújo, a busca por doações de fundações e empresas é algo que está sendo discutido
também, mas requer maior cuidado: “Estamos discutindo quais os critérios de parcerias com empresas. Não
podemos ignorar questões sociais e ambientais na hora de buscar esse apoio. O perfil das grandes empresas
instaladas no Maranhão revela um grande comprometimento ambiental. Isso é um limite para a nossa captação
de recursos entre empresas”. Mas a captação de recursos desenvolvida pela Assema vai bem além das doações
em dinheiro: “Temos procurado a adesão de voluntários. Já são 26 estudantes universitários, pesquisadores
que colocaram seus conhecimentos à disposição da Assema”, finaliza.
1 Agradecimentos a Helciane
Araújo e Adriana Santos da
Para fazer parte do grupo Amigo da Assema, entre em contato com Silva, técnicas da Assema, pela
assistência prestada e pelo
a associação pelo telefone (98) 221-0462 ou pelo e-mail comunicacao@assema.org.br companheirismo de viagem,
Mais informações: <www.assema.org.br> assim como a todas as quebra­
deiras de coco e suas famílias,
que se dispuseram a contar
suas histórias.

AGO 2004 / SET 2004 55


c r ô n i c a

Ocultar e revelar
Nas noites frias e enevoadas, sob a luz difusa dos postes, com os cobertores do abandono

alçados à cabeça, a silhueta do bando maltrapilho lembrava monges a murmurar orações pelo

solitário passadiço de um vasto mosteiro a descoberto. Jovens monges abandonados pela fé e

pelas igrejas. Sempre em bandos, eles apareciam ao sol dos trópicos como zumbis de noites

maldormidas, com os mesmos cobertores, agora arriados ao ombro, lembrando togas. O bando

de magistrados que urdiam suas próprias leis desfilava como um tribunal ambulante. A doação

caridosa para proteger do frio, única cobertura do mísero legado, que oculta os indivíduos,

mas revela as mazelas da sociedade, o cobertor tornou-se o uniforme do famigerado exército

brancaleone, a marca registrada, a grife dos garotos e jovens adultos da banda deserdada dessas

terras. Utilitária e prosaica roupa de cama, de uso doméstico e hospitaleiro, o cobertor ganha

inesperados significados públicos.

56 Democracia Viva Nº 23
Alcione Araújo
alcionaraujo@uol.com.br

Passa o tempo, as camisetas são alçadas do papéis criada pelo poder ilegal, o carrasco,
tronco à cabeça, e a calça encolhida à bermu- historicamen­te um encapuzado, exibe a cara,
da. Os corpos são seminus, mas os rostos são e sua vítima tem o rosto coberto. A leitura
encobertos – mal se divisam os olhos e a boca. simbólica sugere que os jovens delinqüentes,
É o exército de pelados encapuzados, melhor: que se encapuzam, põem a polícia no lugar
encami­setados. A luz, do dia ou dos flashs, dos torturadores.
já não revela nada. Exibe corpos genéricos e Nesse estranho teatro grego de másca-
esconde o rosto singular – de resto, uma rotina ras e corpos nus, renasce um signo que tem
para seres despersonalizados, que crescem na grandeza e história: os dois dedos em V. Foi
sombra e sobrevivem no anonimato. Não ter o glorioso V da vitória com que nossos pais e
cara protege da identificação policial e do avós se despediram dos pracinhas da FEB, de
martírio da perseguição. Para sobreviver é partida para a Itália, a fim de ajudar a conter a
preciso não despertar o narciso, não se cons- sanha nazista. Décadas mais tarde, ressigni-
tituir em pessoa humana. Afirmar-se diluído ficados, os mesmos dois dedos tornaram-se a
em bando ou gangue, sem individualidade: saudação dos militantes do sonho desejando
existir como espectro. Para sobreviver, re- paz e amor. Hoje, os bandos encamisetados
nunciar a ser. também erguem os dois dedos – um signo
E a camiseta, singela peça de vestuá- empobrecido e brutalizado – para festejar o
rio para ambos os sexos, para todas as ida- Comando Vermelho.
des e classes sociais, produto típico da moda Se uns precisam se esconder para
industrializada para consumo de massa, foi viver, outros precisam se mostrar para exis-
ressignificada. Como máscara, restaurando, tir. Em vez de despir o corpo para cobrir a
quem sabe, o significado do capuz com o cara, para aparecer pintam a cara e despem
qual a repressão da ditadura, ao fazer prisões o corpo.
ilegais e torturar, pretendia que o encapuzado
ignorasse quem o encapuzara. Na inversão de

AGO 2004 / SET 2004 57


r e s e n h a

Dom Pedro I, observou que “a cada passo


se descobria o dedo flexível da fraude ou o
punho cerrado da violência”.
As tendências absolutistas do impera-
dor não ajudavam. Na escolha dos senadores,
Dom Pedro I selecionava um nome da lista
tríplice indicada pelos eleitores, mas não se
preocupava em respeitar a opinião popular e
nomear o mais votado. Seu critério era apenas
o da conveniência política, chegando até a
escolher candidatos que sequer constavam da
lista. O maior escândalo foi a nomeação para
o Senado de um criado do Paço Imperial. A
imprensa comparou esse gesto a um ato do
imperador romano Calígula, que transformou
o seu cavalo em senador.
Os problemas persistiram no Segundo
Reinado, embora Dom Pedro II tivesse um
temperamento mais conciliador do que o pai.
A mentirosa urna Como o voto era aberto, o eleitor se tornava
Valter Costa Porto presa fácil das pressões dos poderosos, so-
Editora Martins Fontes bretudo dos coronéis do interior do país. A
264 págs. lei também era usada de modo perverso para
prejudicar os opo­sitores, como no recruta-
mento militar – no século XIX, servir nas
Há boas histórias sobre o voto no Brasil, mas Forças Armadas era considerado um castigo
o livro de Valter Costa Porto, ex-ministro cruel, quase sempre imposto como pena a
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de criminosos ou inimigos pessoais.
1996 a 2001, e professor da Universidade Também houve progressos. Costa
de Brasília (UnB), inova por abordar as Porto destaca avanços na elegibilidade, que
eleições a partir das fraudes. A mentirosa permitiram a um número maior de brasileiros
urna mostra como as elites brasileiras foram ocupar cargos políticos. O marco é a Lei Sa-
(e são) criativas em inventar maneiras de raiva (1881), que reformou o sistema eleitoral
falsear a representação popular. e abriu a possibilidade de os não-católicos
No período colonial, o Brasil teve serem eleitos.
poucas eleições, restritas aos nobres e aos Alguns problemas enfrentados nas
altos funcionários públicos. Com a indepen- eleições do Império chegam a ser cômicos.
dência, uma parcela mais significativa dos O hábito de realizar as votações nas igrejas
homens passou a votar, mas isso não conso- teve que ser abandonado porque os rivais
lidou um sistema de representação popular. políticos usavam as imagens dos santos para
O resultado das urnas era freqüentemente se agredirem e, nas palavras de um senador
manipulado ou falsificado. Antônio Carlos horrorizado, “em alguns lugares tem corrido
de Andrada, um dos líderes da oposição a o sangue humano, servindo de instrumento a

58 Democracia Viva Nº 23
imagem do Senhor”. não tem o conhecimento especializado. Costa
A violência e a fraude deram origem Porto é cauteloso diante das modas eleitorais
a uma indústria, povoada por profissionais do momento, lembrando que elas falharam
conhecidos como bem-te-vi, cacetista, biju, no passado: “E uma vez que sempre se
xenxém, morte-certa e cá-te-espero, que anuncia, pela imprensa, o sentimento geral,
Rui Barbosa chamava de “produtos da larga no Congresso, para uma reforma política que
miséria social”. Eram pagos pelos chefes contemple, em um de seus itens principais,
políticos para intimidar a oposição e provocar a introdução de um sistema distrital misto,
desordens nas eleições. Havia ainda o “fósfo- a modos da Alemanha, cabe rememorar as
ro”, alguém fingindo ser outro eleitor. Alguns lições da história”.
votavam três ou quatro vezes no mesmo dia, Isso não significa que Costa Porto
utilizando, como artifício, disfarces ou ras- seja um entusiasta sem restrições do voto
pando a barba e o bigode. proporcional. Ao contrário, ele mostra seus
O ambiente tumultuado das votações problemas, como o de um deputado do Acre,
também influiu na oposição ao voto femini- que foi eleito sem nenhum voto (ele não votou
no. Um eleitor afirmou que “não submeteria em si mesmo porque estava fora do estado
a esposa ao vexame de levá-la a uma seção durante a eleição). Também aborda o caso
eleitoral. Algumas daquelas desordens, que recente de Enéas Carneiro, que, graças a seu
certamente presenciara, devem ter lhe deixado 1,5 milhão de votos, elegeu uma bancada
a impressão de que a política é um esporte na qual um dos deputados tinha apenas 302
violento, só para homens”. votos, enquanto um candidato que teve 100
As fraudes eram reconhecidas pela mil votos foi derrotado por causa da baixa
elite, que procurava justificá-las com base votação de seu partido.
em argumentos como o de Joaquim de Salles: Para Costa Porto, nossa história elei-
“Num país de analfabetos, as eleições reais toral é marcada pela “desobediência incivil”,
representariam um mal sem remédio”. Com na qual vigora um “desprezo continuado às
as manipulações do processo eleitoral, os par- regras”. A mentirosa urna é um bom apanhado
tidos poderiam es­colher os candidatos mais das mazelas eleitorais no Brasil. Mas, ao se
ilustres e cultos para usá-los “como flores, concentrar nos problemas, dá a impressão de
para ornato de bancada”. que a história do voto no país é pior do que
A Revolução de 1930 trouxe muitas foi na realidade. Sempre houve políticos e
mudanças, como o sufrágio secreto e o voto movimentos sociais dispostos a melhorar o
feminino. Embora a construção da democracia sistema. Além disso, muitas das fraudes que
tenha sido interrompida pelos dois períodos ocorreram no Brasil também eram comuns
ditatoriais, o Brasil avançou bastante na trans- em democracias consolidadas, como a Grã-
parência eleitoral e na participação popular. -Bretanha (os “burgos podres”) e os Estados
Costa Porto passa rapidamente por esse longo Unidos (basta ver a última eleição presiden-
período, abandonando os relatos de fraude e cial). Fazem falta também uma discussão
se concentrando nas maneiras pelas quais o mais profunda sobre casos recentes, como o
sistema eleitoral, por vezes, distorce a vontade da Proconsult em 1982, e um debate sobre a
dos eleitores. segurança da urna eletrônica.
O autor analisa voto distrital e pro-
porcional em capítulos difíceis para quem Maurício Santoro

AGO 2004 / SET 2004 59


de diferentes regiões do país, além de duas
estrangeiras naturalizadas brasileiras: Clarice
Lispector, de origem ucraniana, e Marina
Colasanti, de origem etíope.
O volume possui algumas pequenas
divisões, imaginadas certamente para pos-
sibilitar a quem o leia a escolha da melhor
forma de se aproximar dessas mulheres.
Indiscutivelmente, o traço geracional adota-
do pela obra destaca-se como um primeiro
elemento. Suas precursoras – Adalgisa Nery,
Carmem Dolores e Júlia Lopes de Almeida
– revelam, em sua escrita, a força silenciosa
da elite feminina nas primeiras décadas do
século passado.
Já as décadas de 1930, 1940 e 1950
possuem representantes bem conhecidas do
grande público – como Clarice Lispector,
Lygia Fagundes Telles e Rachel de Queiroz
Contos de escritoras –, que, em bem pouco tempo, conseguiram
brasileiras construir uma trajetória de sucesso e se esta-
beleceram no cenário nacional como um eixo
Organização de Lúcia Helena Vianna
fundamental de influência para as seguintes
e Márcia Lígia Guidin
gerações. Além de um completo domínio da
Editora Martins Fontes
linguagem, cada uma dessas autoras guar-
388 págs.
da singularidades interessantes. Rachel de
Queiroz, com a publicação de seu primeiro
Por muito tempo, o Brasil se estruturou a romance, O quinze, em 1930, divide o cenário
partir de um cânone literário muito restri- nacional com outros autores modernistas.
to: masculino e eurocêntrico. Atualmente, Lygia Fagundes Telles, além da vida literária,
podemos observar a emergência de novas sempre manteve um diálogo direto com as
vozes. Vozes de mulheres, afrodescendentes, questões políticas e culturais do país. Clarice
indígenas, homossexuais etc. A antologia Lispector – com sua verve ficcional e todo o
Contos de escritoras brasileiras, publicada seu dom de provocar sentimentos perturba-
em 2003 pela editora Martins Fontes, com dores e inusitados em quem lê seus textos,
organização de Lúcia Helena Vianna e Már- como os dois contos selecionados, “Feliz
cia Lígia Guidin, é mais uma dessas obras aniversário” e “O corpo” – dispensa apre-
com compromisso acadêmico e político que sentações. Não foi aleatoriamente, imagino,
tentam agregar um novo olhar na construção que as organizadoras optaram por trabalhar
do cânone literário brasileiro – além de dar com contos, já que esse gênero literário, com
visibilidade às mulheres no cenário nacional. sua forma condensada, possibilita medir em
As organizadoras conseguiram reunir um espaço limitado a força narrativa dessas
em um mesmo universo a heterogeneidade várias mulheres, incitando leitores e leitoras a
geracional da produção feminina do século fazer possíveis viagens solitárias pelas obras
XX, por meio da seleção de 32 escritoras de cada uma delas.

60 Democracia Viva Nº23


r e s e n h a

“O conjunto de contos
O último grupo de escritoras – dé-
cadas de 1980 e 1990 – possui como traço reunidos exibe caminhos
comum textos mais enxutos. Porém, sem
perder a capacidade narrativa, outros temas
são incorporados de forma direta ao cotidiano distintos percorridos por
dessas mulheres: violência, sexualidade, ma-
ternidade, opressão masculina etc. Merecem
destaque “Rondó”, de Ivana Arruda Leite, “O escritoras brasileiras,
pai”, de Helena Parente, e “Taxidermia”, de
Miriam Mabrini.
Nessas múltiplas vozes, que, de forma mas paralelos e concomi-
intimista, em sua maioria, recuperam vozes
e personagens femininos, uma destoa das
demais. A jornalista Marilene Felinto destoa tantes aos
por sua origem, já que a maioria das autoras
é oriunda da elite branca, brasileira. Marilene,
apesar de não possuir no conjunto de sua obra
processos de
um olhar detido no universo afro-brasileiro,
apresenta “Muslim: woman”. No conto, em
um aeroporto na África, as inquietações e
transformação vivenciados
inseguranças femininas tomam forma física
a partir de um diálogo silencioso entre a pro-
tagonista e uma mulher mulçumana.
pelas mulheres ao longo
As organizadoras conseguiram, com
essa obra, uma radiografia interessante de de um século”
muitas mulheres silenciadas ao longo de nossa
história literária, permitindo que leitores e lei- Lúcia Helena Vianna e Márcia Lígia
toras agucem sua curiosidade e multipliquem Guidin, no livro Contos de
as descobertas a partir de incursões nas obras escritoras brasileiras
dessas autoras.
Segundo as palavras das próprias
organizadoras, “antologias, por mais bem
intencionadas, são sempre espectros parciais”,
mas, como um dos objetivos da obra é incluir
um novo olhar dentro dos espaços literários,
o ideal seria que não houvesse uma visão tão
horizontal da produção literária feminina.
Apesar de o título da obra ser Contos de es-
critoras brasileiras, a produção das autoras
afro-brasileiras não foi contemplada. Então,
segue uma dica para o próximo número: Fernanda Felisberto
Conceição Evaristo, Miriam Alves, Jussara Professora da Pós-graduação de
Santos, Elisa Lucinda, Esmeralda Ribeiro e História da África e do Negro no Brasil
muitas, muitas outras. da Universidade Candido Mendes e
coordenadora do selo editorial Afirma

AGO 2004 / SET 2004 61


Ibase
opinião
Nelson Giordano Delgado* e Flávio Limoncic**

Reflexões
preliminares
sobre espaços
públicos de
participação
no governo
A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva representou um dos momentos mais importantes da

vida republicana brasileira. Pela primeira vez, forças políticas originárias do sindicalismo

e dos movimentos sociais surgidos nas décadas de 1970 e 1980, ainda que em aliança

com setores empresariais, chegaram ao governo federal. Nesse sentido, essa chegada

não só coroou um longo processo de incorporação de sujeitos políticos historicamente

marginalizados das arenas decisórias, como também sinalizou um aprofundamento desse

processo, potencialmente radicalizando a democracia brasileira.

62 Democracia Viva Nº 23
Ao chegar ao governo federal, o Partido dos construção de uma nova hegemonia política
Trabalhadores (PT) reafirmou o compromisso, no país, baseada em valores democráticos e
assumido em suas muitas administrações muni- socialmente includentes.
cipais e estaduais, de enfatizar a participação da Faremos uma primeira análise, a partir de
sociedade civil na construção das políticas públi- informações colhidas pela equipe do Projeto Ma-
cas, recolocando o desafio de tornar produtivas pas, de duas experiências participativas criadas
as tensões entre as instituições da democracia ou estimuladas pelo governo Lula: os Conselhos
representativa e da democracia participativa. A de Segurança Alimentar (Conseas) estaduais e o
Constituição de 1988 já havia criado uma série processo de participação da socie­dade civil na
de instituições que estimulavam a participação discussão do PPA 2004–2007.
da sociedade na formulação e na gestão das
políticas públicas, ainda que nem todas tenham
Alimentar a participação
sido plenamente desenvolvidas.
O governo Lula propôs-se a radicalizar O Consea estadual é um espaço público de
tal participação. Para isso, criou o Conselho de participação de representantes do estado e da
Desenvolvimento Econômico e Social, trouxe de sociedade civil na formulação e no controle
volta o Conselho Nacional de Segurança Alimentar social da implementação da política pública
e Nutricional (Consea), estabeleceu as consultas à estadual de segurança alimentar e nutricional.
sociedade civil no debate do Plano Plurianual (PPA) A partir das informações coletadas pelo Proje-
e propôs a realização de conferências nacionais, to Mapas, seguem algumas observações que
como as relativas às cidades, ao meio ambiente podem contribuir para a discussão a respeito
e aos direitos humanos. Ao que parece, fez isso das potencialidades e problemas enfrentados
tudo com a visão de que os novos espaços de pelo conselho.2
participação contribuem para o esforço coletivo A iniciativa do governo Lula de recriar o
de tornar mais democrático o padrão das políticas Consea nacional e incentivar a criação de Conseas
públicas no Brasil – confrontando as concepções estaduais – ou o fortalecimento dos que já existiam
elitistas de democracia, desafiando as concepções – foi importante pelo alargamento do espaço pú-
autoritárias do primado dos “técnicos” e da “técni- blico, tanto local como nacional, da emergência de
ca” no processo decisório estatal, questionando o novos sujeitos políticos e, portanto, da construção
monopólio do Estado sobre a definição do que é de uma cultura política democrática no país. O fato
público e do que deve constituir a agenda pública e de a iniciativa de criação do Consea ter partido do
contribuindo para a redução do clientelismo e para governo federal foi um fator considerável para a
uma maior transparência nas ações governamen- sua viabilização, já que, num país como o Brasil, o
tais (ver Dagnino, 2002, p. 162). O governo Lula governo federal continua relativamente muito forte
sugeria perceber que esses espaços eram institui- em relação aos governos estaduais.
ções adequadas à construção de novos consensos Ademais, a vitória de Lula para a Presi-
sociais capazes de alavancar uma nova hegemonia dência alimentou o entusiasmo das organizações
na sociedade brasileira, básica para a reversão do da sociedade civil quanto à importância dos es-
quadro de distribuição iníqua da renda, da riqueza paços públicos de participação, levando-as não
e do poder que marca a história do Brasil. só a pressionar o governo para criação desses
Com o objetivo de acompanhar os espaços espaços, mas também a projetar expectativas
de participação da sociedade civil na construção de de operacionalização e de funcionamento deles
políticas públicas do governo Lula, o Ibase propôs como campos para a radicalização da democracia.
a criação de uma rede de entidades da sociedade Assim, é possível sugerir que a iniciativa de criação
civil, de diferentes unidades da Federação, em do Consea, no início do governo Lula, e o apoio e
torno do projeto Mapeamento Ativo da Partici- a mobilização local das organizações da sociedade
pação da Sociedade (Projeto Mapas).1  Com esse civil foram, de modo geral, fundamentais para
projeto, pretende-se monitorar e avaliar tais a viabilização dos Conseas. Em estados onde o
espaços de participação, apontar seus entra- governo foi ou é, de alguma forma, hostil à sua
1 As entidades que formam
ves, erros estratégicos e inconsistências, assim criação/implementação e onde não há mobiliza- a rede do Projeto Mapas são:
como suas virtudes, acertos e potencialidades. ção importante da sociedade civil em torno dela, Cidades, Pólis/Fórum Nacional
de Participação Popular, Cedefes,
Conseqüentemente, o Projeto Mapas pretende o Consea estadual ainda não foi formado – por Ifas, Fase-MT, Fase-PA, Cese,
Cenap, Cepac, IPDA/GTA.
constituir-se em ator político, cujo objetivo é exemplo, em Goiás.
Os Conseas analisados pelo Projeto Ma- 2 Informações coletadas nos
contribuir para a radicalização da democracia estados de Minas Gerais, Bahia,
brasileira, a ampliação da esfera pública e a pas evidenciam – reafirmando resultados obtidos Tocantins e Mato Grosso do
Sul, no primeiro semestre
democratização do Estado e, também, para a em outras investigações – que são polarizados de 2004.

AGO 2004 / SET 2004 63


opinião

entre representantes do estado e de organizações qual balança o pêndulo depende da força política
da sociedade civil. Assim, tais iniciativas, que dos diferentes atores, em conjunturas diversas, e
apostam na possibilidade de atuação conjunta de o resultado é quase sempre provisório. Isso não
atores dessas duas esferas da sociedade, produ- deixa de ser uma conclusão talvez demasiado
zem relações tensas e atravessadas pelo conflito. otimista, pois em países de cultura política au-
Em outras palavras, todos os espaços públicos toritária, como o Brasil, é provavelmente mais
de participação são lugares de explici­ta­ção de realista supor que o pêndulo tenha uma atração
conflitos, que variam de natureza e inten­sidade. fatal pelo lado dos atores estatais.3 
Para que esses espaços não fiquem imobilizados As tensões existentes entre esses dois tipos
ou sejam destruídos, a resolução dos conflitos deve fundamentais de atores sociais manifestam-se de
estar baseada na “argumentação, a negociação, diversas formas nos Conseas estaduais:
as alianças e a produção de consensos possíveis • na distribuição do número de membros entre
como seus procedimentos fun­damentais” (Dag- representantes do estado e de organizações
nino, 2002, p. 144 e 150). da sociedade civil – em Mato Grosso do Sul,
Como hipótese, pode-se sugerir que os o Consea era constituído, em 1999, por dois
conflitos entre representantes do estado e de terços de membros da sociedade civil e um
organizações da sociedade civil expressam duas terço do governo estadual. Em 2002, a re-
concepções distintas, embora não incompatí- presentação tornou-se paritária, e o número
veis, acerca da participação. Uma concepção total de conselhei­ros(as) caiu de 27 para 14,
(implícita em gestores governamentais) entende de modo que a representação da sociedade
a participação como um modelo de gestão da civil foi diminuída em torno de 60%, e a do
política pública, e a outra (implícita em represen- governo, em cerca de 20%. Em Tocantins, o
tantes da sociedade civil) compreende-a como Consea possui 13 membros, 62% dos quais
processo de democratização da política pública. são representantes do estado, e 38%, de or-
Isso não significa que gestores não se interessem ganizações da sociedade civil. Na Bahia e em
pela democratização dos processos, nem que Minas Gerais, o Consea tem, respectivamente,
representantes de organizações da sociedade civil 21 e 41 membros, dos quais dois terços são de
considerem irrelevante a gestão da política. Sig- representantes da sociedade civil e um terço
nifica, sim, que as nuan­ças possíveis – quaisquer do governo. Em todos esses estados, houve
que sejam – não podem obscurecer o fato de ou há uma disputa permanente, entre os dois
que as posições ocupadas nos espaços públicos segmentos, no que se refere à composição do
pelos dois tipos de atores tendem a localizá-los Consea. Na Bahia e em Minas Gerais, a grande
prioritariamente no lado da gestão ou no lado representatividade obtida pelas organizações
da democratização das políticas. Como sabemos da sociedade civil deve-se basicamente à sua
por experiência, representantes de organizações mobilização e pressão, assim como ao papel
da sociedade civil, quando ocupam a posição de lideranças importantes, como dom Mauro
de gestores governamentais, tendem, de modo Morelli, em Minas;
geral, a deslocar a sua ênfase da democratização • na falta de interesse ou esvaziamento da
para a gestão. representação estatal nos Conseas estaduais
Essa é uma das razões pela qual a questão – de modo geral, os governos estaduais não
da “técnica” e de “técnicos” é um componente manifestam interesse real no funcionamento
tão importante nos conflitos que se manifestam autônomo do Consea. Embora seja conside-
nos espaços de formulação e de controle social rado positivo que o governo tenha aberto
sobre a política pública. Além disso, essa questão canais de participação, a forma como isso
está ligada precisamente à luta pela repartição tem sido feito é avaliada por lideranças de
do poder, entre atores da sociedade civil. Por organizações da sociedade civil como bastante
3 Isso não deve impedir que se um lado, o reconhecimento da legitimidade da conservadora: visa basicamente à legitimação
considerem os atores estatais
como um conjunto bastante
politização da “técnica” é uma forma pela qual de políticas ou de ações do próprio governo.
heterogêneo, especialmente os atores da sociedade civil reivindicam a partilha “Não se discute conteúdo, nem forma de
em sua posição diante da
questão dos espaços públicos desse poder. Por outro, a constante reafirmação fazer política. Não existe um processo novo
de participação e de controle
social das políticas públicas.
da indispensabilidade da “técnica” e de “técnicos” de discussão para a elaboração de políticas.
Como conseqüência, a luta é um argumento poderoso da burocracia estatal Ela vem do governo e deve ser implementada
pela radicalização da demo-
cracia deve estar atenta aos para reter a maior parcela possível desse poder. com o aval do Consea estadual”, disse, em
conflitos existentes, real ou
potencialmente, na burocracia
Essa é uma questão central da relação Estado/ entrevista, o presidente do Consea da Bahia.
estatal e na possibilidade de sociedade civil, continuamente reposta nos es- Em muitos casos, há manipulação do Consea
realização de alianças políticas
com segmentos específicos paços públicos de participação. O lado para o pelos governos estaduais: “Acaba sendo um

64 Democracia Viva Nº 23
Reflexões preliminares sobre espaços públicos de participação no governo Lula

conselho para ratificar decisões que já foram mobilização social, “há uma manipulação do
tomadas”, esclarece o presidente do Consea conselho pelo governo do estado, tentando
de Mato Grosso do Sul. “Tudo é feito em cima conduzi-lo para ações emergenciais (arre-
da hora, a sociedade não tem voz nem vez cadação de alimentos, cartão alimentação).
no Consea”. Já um conselheiro da sociedade A mídia reduz o combate à fome ao cartão
civil em Tocantins, quando foi entrevistado, alimentação e à cesta básica”. E também
declarou: “O dinheiro será investido quando, acres­centaram: “Se o conselho debatesse
onde e na hora que o governo quiser”; “Há as cau­sas da fome, iria a­parecer uma se­men­­­
um processo muito forte de cooptação das tinha para a discussão sobre re­­for­ma agrária,
lideranças, o que desestrutura as organizações reforma urbana”.
da sociedade civil representadas”. Na Bahia, não
Mesmo no caso de Minas Gerais – que é o obstante a parti-
exemplo de Consea estadual mais bem estrutu- cipação ativa da
rado do país e no qual a força da representação articulação Co-
da sociedade civil é bastante reconhecida mer (Comissão
– houve um esvaziamento da representação de Mobilização
governamental com a Lei Delegada 95 de do Fome Zero) na
2003, a qual estabelece que representantes arregimentação
do governo não seriam mais secretários(as) de organizações
de Estado, mas técnicos(as) de segundo ou da sociedade civil
terceiro escalões indicados(as) pelas secretarias. para a criação do
Com isso, a visibilidade política do Consea, es- Consea, a a­genda
pecialmente na mídia, foi reduzida, bem como das reuniões do
a da agenda temática da segurança alimentar conselho foi pau-
e nutricional no estado. Ademais, essa situação tada, em 2003,
“acabou dando ao Consea MG mais o caráter basicamente pelo
de uma articulação da sociedade civil do que governo federal,
propriamente um órgão autônomo de parce- com exceção da
ria governo/sociedade”, conforme observa o preparação da
relatório do Consea mineiro; conferência esta-
• na relação entre governo federal, governo dual de segurança
estadual e Consea, o lançamento e a im- alimen­tar e nutri-
plementação do Programa Fome Zero pelo cional. O governo
governo federal representaram um estímulo federal intera­g e
– tanto da perspectiva dos governos co­mo com o governo
das organizações da sociedade civil – para estadual e, por
a criação dos Con­seas estaduais, pois muitas meio da Secre-
das atividades financiadas pelo programa nos taria Estadual de
estados têm de ser aprovadas pelo Consea. Ao Combate à Mi-
mesmo tempo, no entanto, a forma como séria e à Pobreza
o Fome Zero foi implementado parece ter (Se­comp), solicita
criado também bastante confusão na relação a aprovação do
entre o próprio governo federal, o governo Con­sea para pro-
estadual e o Consea. No Mato Grosso do Sul, gramas estaduais
a entrevista com o presidente do Consea re- ligados ao Fome
vela que “há pouca relação entre as ações do Zero. O governo
Fome Zero nacional e o programa do governo estadual, para receber os recursos federais,
estadual. Não há ações integradas”. Além pressiona o Consea para que discuta e ela-
disso, o conselho estadual “não intermediou bore os pareceres rapidamente. Esse parecer
a criação dos Conseas municipais, que foi é encaminhado, então, à Secomp, que o
feita por decreto nacional. O Consea ficou dirige ao órgão federal correspondente. Se
alheio ao processo, não foi consultado nem o Consea não aprova o projeto, cria-se um
participou”. Em Tocantins, entrevistas com li- impasse, e o programa não sai. Se o Consea
deranças da sociedade civil sugerem que, não aprova os projetos, é o governo estadual que
obstante existam mais possibilidades para a decide quais programas serão implementados.
organização popular e mais recursos para a É interessante notar que não existe diálogo

AGO 2004 / SET 2004 65


opinião

direto entre o governo federal e o Consea. Na pesquisa que coordenou em 1999 e


“O governo federal dialoga com o governo 2000 sobre os espaços públicos de participação
estadual e argumenta que quem deve dialo- no Brasil,4  Dagnino afirma que o conflito entre
gar com o Consea estadual é o Consea nacio- representantes do Estado e da sociedade civil
nal”. Por fim, em Minas Gerais, a prioridade nos espaços públicos de políticas participativas
definida pelo Consea, em 2003, de construir, sugere “uma hipótese explicativa que vincula
de forma participativa, o Segundo Plano de essa tensão à maior ou menor aproximação,
Segurança Alimentar do estado (Dignidade e similaridade, coincidência, entre os diferentes
Vida II) foi atropelada, no início do segundo projetos políticos que subjazem às relações en-
semestre, pelo decreto do governo estadual tre Estado e sociedade civil. Em outras palavras,
estabelecendo 29 programas estrutu­rantes o conflito e a tensão serão maiores ou menores
do governo, entre os quais o Minas Sem dependendo do quanto compartilham – e com
Fome, dependente que centralidade o fazem – as partes envolvidas”
de recursos federais (Dagnino, 2002, p. 144).
do Fome Ze­ro, geren­ Segundo tal hipótese, quanto maior a
ciado pe­l a Empre- convergência dos projetos políticos de represen-
sa de Assistência tantes do Estado e de representantes de organi-
Técnica e Extensão zações da sociedade civil, menores os conflitos
Rural do Estado de entre eles ou, pelo menos, maior será a disposição
Minas Gerais (Ema- e a possibilidade de os atores envolvidos encon-
ter) e elaborado sem trarem mecanismos ou formas de resolvê-los,
qualquer con­sulta ao pela argumentação, construção de alianças e
Consea. negociação. Por outro lado, quanto menor for
Essa disputa essa convergência, maiores serão as possibilidades
política e de con- de acirramento dos conflitos e tensões entre os
cepção de seguran- dois tipos de atores, e maior será a probabilida-
ça alimentar entre de de que o espaço público seja inviabilizado
o plano do Consea como um locus institucional participativo para
e a proposta do Mi- formulação, implementação e controle social
nas Sem Fome só das políticas públicas, que buscam atender aos
foi solucionada com requisitos mínimos necessários tanto à gestão
a intervenção dire- como à democratização dessas políticas.
ta de dom Mauro Que observações podem ser sugeridas
Morelli, depois de quando tentamos aplicar tal hipótese do com­
sua recuperação do partilhamento ou não de projetos políticos aos
acidente que sofreu. casos dos Conseas estaduais?
O Consea conseguiu, Em primeiro lugar, algo semelhante a esse
então, incluir, como compartilhamento de projetos políticos parece ter
eixos de estruturação ocorrido entre o governo Lula e as organizações
do Minas Sem Fome, da sociedade civil no início do mandato do novo
os dois principais pro- governo, quando foi recriado o Consea nacional
gramas de iniciativa e foram instalados ou implementados os Conseas
e de acompanha- estaduais. Essa convergência estimulou a articula-
mento do Consea: ção das organizações e fortaleceu sua capacidade
o Programa Mutirão de mobilização e de pressão em favor da implan-
pela Segurança Alimentar e Nutricional tação dos Conseas estaduais e da conquista de
(Prosan) em Minas Gerais, que é consi- expressiva representação por parte da sociedade
derado a menina-dos-olhos de militantes civil nesses espaços de participação. À medida
mineiros(as) do movimento pela Segu- que o governo Lula se afasta progressivamente
rança Alimentar e Nutricional (SAN), e o de um projeto de radicalização da democracia,
Programa de Segurança Alimentar nos a convergência de projetos políticos debilita-se
Assentamentos (PSA), mantendo-se a e, com isso, é provável que as articulações e a
forma descentralizada de gerenciamento capacidade de mobilização dessas organizações
dessa burocracia. desses programas, executados pelas Cáritas enfraqueçam, especialmente diante de governos
4 Os resultados da pesquisa regionais, e não pela Emater, que é a executora estaduais que sejam particularmente hostis à
estão publicados em Dagnino
(2002 a). Para um texto sin- e geren­ciadora do Minas Sem Fome. consolidação de espaços públicos de participação.

66 Democracia Viva Nº 23
Reflexões preliminares sobre espaços públicos de participação no governo Lula

Mantida essa tendência do governo fe- tata convergência entre os projetos políticos dos
deral, aumentam as expectativas de incremento seus dois principais tipos de atores? É possível
dos conflitos e tensões entre Estado e sociedade evitar que os Conseas sejam esvaziados ainda
civil e de agravamento de um foco potencial de mais pelo desinteresse dos governos estaduais
enfraquecimento dos Conseas estaduais. Uma em consolidá-los? Quais são os atores da socie-
possibilidade de reação a essa tendência é por dade civil que têm mostrado interesse político
meio do estreitamento dos vínculos e interações por esses espaços e que os consideram como
entre os Conseas estaduais e o Consea nacional, espaços efetivos de intervenção/participação nas
o qual é pressionado para liderar a retomada, políticas públicas? Que atores relevantes na cena
na área de segurança alimentar e nutricional, política brasileira – ainda que tenham o tema da
do projeto de radicalização da democracia que segurança alimentar e nutricional em sua agenda
inspirou a sua criação. política – tratam de forma secundária a atuação
Em segundo lugar, os Conseas estaduais nesses espaços públicos e por quê? Como é pos-
considerados parecem sugerir a inexistência de sível acumular forças e conhecimentos de modo
compartilhamento de projetos políticos entre repre- a robustecer o movimento em prol da segurança
sentantes do governo estadual e das organizações alimentar e nutricional, tornando suas questões
da sociedade civil local. Em alguns casos, a posição cada vez mais visíveis e presentes na agenda
do governo estadual é claramente hostil à criação pública dos estados?
do Consea ou é favorável a seu pleno controle pela
representação estatal. Goiás e Tocantins parecem
Pensar à frente
exem­plificar a situação. No caso de Minas Gerais,
em que a sociedade civil tem peso considerável O plano Brasil de Todos – Participação e Inclusão,
no Consea, as possibilidades de articulação ou base para a discussão pública do PPA 2004–2007,
de compatibilização das iniciativas do governo obje­tivava traçar uma estratégia de desenvolvi-
estadual com as prioridades e a concepção de mento voltada à inclusão social e à participação
segurança alimentar e nutricional do conselho têm da sociedade no processo de planejamento,
dependido do fato de que o Consea é presidido encerrando a meta de reo­rientar o histórico pa-
por dom Mauro Morelli, que, ao mesmo tempo drão de comportamento da economia brasileira
que é portador da legitimidade conferida pelas de concentrar renda e riqueza tanto em seus
organizações da sociedade civil, tem uma entrada momentos de crescimento como de recessão.
política considerável nos escalões superiores tanto Baseando-se no pressuposto de que é necessária
do governo federal como do estadual. Na Bahia, uma retomada dos princípios do planejamento
por fim, as possibilidades de compartilhamen­to de econômico e uma maior interlocução entre o
projetos políticos comuns são inviabilizadas pelas governo e a sociedade, o plano buscava dar
complicações que se estabeleceram nas relações respostas aos seguintes desafios: des­concentrar
entre governo federal (Programa Fome Zero), go- renda e riqueza; elevar a capacidade de geração
verno estadual e Consea, nas quais o conselho figu- de empregos da economia e traduzir ganhos de
ra como um intermediário de reduzida autonomia. produtividade do trabalho em aumentos reais
Quais são, então, os desafios que se dos rendimentos de tra­balhadores(as), gerando
colocam para as organizações e movimentos da crescimento sustentado; e elevar a massa sala-
sociedade civil nessa perspectiva? Aparentemen- rial e constituir um mercado interno de massas.
te, é preciso rediscutir e colocar em questão as Tais respostas, no entanto, deveriam ser
expectativas quanto aos objetivos de espaços dadas no contexto da necessidade de manuten-
públicos de participação como os Conseas esta- ção do equilíbrio das contas públicas e de uma
duais. Que espaços públicos queremos que sejam? evolução favorável da relação dívida/PIB (Produto
O que significa radicalizar a democracia nesses Interno Bruto), ou seja, em uma situação de bai-
espaços? Trata-se de enfatizar a “poli­ti­zação” da xa capacidade de investimento do Estado. Para
política pública em contrapo­sição à tendência de discutir o plano, foram realizadas audiências
representantes do governo de ressaltarem a sua públicas em todas as unidades da Federação,
gestão? Trata-se mais de construir um espaço reunindo representantes do governo federal,
público de articulação da sociedade civil para governos estaduais e sociedade civil. O que segue
pressionar e fiscalizar os governos nas questões é uma avaliação desse processo, realizada a partir
de segurança alimentar e nutricional do que cons- da coleta de informações do Projeto Mapas.5
tituir uma instituição autônoma de participação As avaliações a respeito do processo de
Estado/sociedade civil? É possível compa­tibi­lizar participação do PPA convergem para um primei-
gestão e democratização em espaços públicos, ro diagnóstico comum: a iniciativa governamen-
como os Conseas estaduais, em que não se cons-

AGO 2004 / SET 2004 67


opinião

tal de lançar esse processo de discussão é vista, ram muito mais para que representantes do
por diversos atores participantes, como muito governo apresentassem o PPA à sociedade
positiva. Pela primeira vez, um governo federal do que para que ela efetivamente discutisse
teria se colocado aberto à sociedade civil para que tipo de modelo de desenvolvimento o
discutir estratégias de desenvolvimento. Por seu país deveria trilhar. Houve um sentimento,
lado, a sociedade civil teria se visto pela primeira por muitas pessoas partilhado, de que a
vez diante do desafio de pensar o país co­mo um participação só serviu para referendar um
todo, superando lo­calis­mos e corpo­ra­tivis­mos, projeto de antemão decidido;
na expecta­tiva de contribuir no debate sobre • problemas de continuidade – não houve um
um outro modelo de acompanhamento sistemático dos encami-
de­sen­­vol­vi­mento pa­ra nhamentos posteriores aos fóruns. Não houve,
o país. Tal consenso sequer, clareza do que foi efetivamente incorpo-
se desdobra, no en- rado ao PPA a partir da realização dos diversos
tanto, em algumas fóruns estaduais. A seguinte constatação, da
crí­ticas comuns ao equipe de Minas Gerais, é bastante incisiva:
processo: “Foi muito decepcionante observar que quase
• desorga- ninguém entre as pessoas entrevistadas em Mi-
nização – em Goiás, nas, que participou com maior ou menor grau
São Paulo, Tocantins de envolvimento na mobilização e organização
e Mato Grosso do da consulta para o PPA, tinha um mínimo de in-
Sul, a in­definição de formações sobre o uso de propostas originárias
responsabilidades, da sociedade civil no documento final do Plano
a­trasos no repasse enviado pelo governo federal ao Congresso e
de informações e, dos encaminhamentos que estão ocorrendo no
no dia da realização Congresso Nacional”.
dos fó­runs, longas O processo de consulta do PPA resultou
falas de autorida- largamente frustrante para muitas pessoas que dele
des não per­mitiram participaram, até porque, no Congresso Nacional,
que as entidades da o Plano foi submetido pelo governo federal à lógica
sociedade civil tives- do superávit primário, apresentada como uma
sem oportunidade questão eminentemente técnica, e não política.
de serem ouvidas. Nesse sentido, é problemático falar em projeto de
Em Mato Grosso do desenvolvimento, novo pacto social includente e
Sul, a realização do fortalecimento do mercado interno (como sugere o
fórum chegou a ser plano Brasil de Todos – Participação e Inclusão), se
adiada por proble- a política macroeconômica gira fundamentalmente
mas operacionais; em torno de superávits fiscais. Não obstante, é
• logística importante frisar que, para algumas pessoas que
– dificuldades varia- participaram, o processo PPA teve um importante
das impediram a pre- efeito pedagógico, talvez não previsto: consolidou-
sença, em diferentes -se, ou criou-se, para vários atores da sociedade
fóruns estaduais, de civil, a convicção da importância do orçamento
diversas entidades para a construção de um novo projeto de país.
do interior. No ge- Elisabeth Araújo, da Central dos Movimen-
ral, ONGs de desen- tos Populares de Alagoas, afirma textualmente:
volvimento rural, o “A capacitação que a gente teve antes do pro-
movimento sindical rural, associações e/ou cesso PPA – e a própria discussão do PPA – nos
cooperativas de agricultores e agricultoras mostrou que os espaços estão abertos e que a
familiares e movimentos de quilombolas e gente deve ocupá-los o mais rápido possível. O
indígenas não estiveram presentes em diversos principal dessa discussão foi compreender que a
estados. Em algumas ocasiões, os governos gente tem que ocupar esse espaço”. Desse modo,
estaduais não ofereceram qualquer auxílio, o processo de consulta do PPA teria desencadeado
e o apoio prestado por instituições federais, uma tomada de consciência e um movimento no
tético sobre a pesquisa, ver
Dagnino (2002).
como a Polícia Rodoviária Federal e a Caixa sentido de se evidenciar a centralidade da questão
Econômica Federal, não foi suficiente; orçamentária, cujos resultados dificilmente po-
5 Dados dos seguintes estados:
Alagoas, Amapá, Bahia, Goiás, • proposta fechada – os fóruns estaduais servi- dem ser mensuráveis no momento. Portanto, tal

68 Democracia Viva Nº 23
Reflexões preliminares sobre espaços públicos de participação no governo Lula

experiência merece algumas reflexões adicionais • o processo orçamentário, em sua dimensão *Nelson Giordano
que parecem importantes para as organizações legal, envolve não só o Executivo, mas também Delgado
e os movimentos da sociedade civil engajados o Legislativo, e a sociedade civil deve trabalhar Coordenador técnico
na luta pela radicalização da democracia e pela em toda a sua extensão. De nada adianta do Projeto Mapas e
efetiva redistribuição da renda, da riqueza e do democratizar o processo de participação na consultor do Ibase,
poder no Brasil: elaboração do PPA apenas no momento de professor do Programa

• os aparelhos de Estado possuem regras, nor- sua elaboração pelo Executivo, pois sua vota- de Pós-graduação
em Desenvolvimento,
mas e um cronograma que devem ser respei- ção e modificação pelo Legislativo constituem
Agricultura e Sociedade
tados e, quando necessário, modificados, mas momentos igualmente estratégicos. Para o
da Universidade Federal
que, ainda assim, nem sempre coincidirão com Legislativo, a participação popular é freqüen-
Rural do Rio de Janeiro
regras, normas e cronogra­mas da sociedade temente percebida como uma interferência (CPDA-UFRRJ)
civil. Portanto, uma melhor compreensão de indevida em suas prerrogativas, e isso constitui
tais possíveis problemas deve estar na base novo desafio: trabalhar as tensões entre os ele- **Flávio Limoncic
de uma melhor articulação entre ambos. Por mentos de democracia direta e de democracia Pesquisador do

outro lado, se, para vários(as) participantes participativa, tornando-os produtivos para a Projeto Mapas e
consultor do Ibase,
do processo de consulta, o governo buscou radicalização da democracia;
professor do Instituto
cooptar a sociedade civil, instrumentalizar • se a experiência do PPA não se revelou parti-
de Humanidades da
sua participação no processo de discussão cularmente promissora, ela evidenciou que a
Universidade Candido
do PPA, para outros(as) o governo vive uma discussão sobre modelos de desenvolvimento Mendes (Ucam)
tensão entre uma proposta inovadora de é estratégica para a sociedade brasileira. Se o
participação da sociedade civil e um aparelho plano Brasil de Todos – Participação e Inclusão
de Estado historicamente construído de for- evidencia a necessidade da construção de
ma autoritária e refratário à participação da uma nova correlação de forças na sociedade
sociedade. Portanto, democratizar o Estado brasileira, capaz de proporcionar os recursos
constitui desafio muito mais complexo do políticos necessários para o combate às
que apenas abrir espaços de interlocução desigualdades sociais e regionais e para a
(e não necessariamente de participação nas inclusão social, tal mudança na correlação
decisões), implicando a efetiva articulação de forças pode advir, com outras iniciativas,
entre os espaços públicos de participação e as da participação popular em espaços como o
diversas instâncias de planificação e de tomada do PPA. E não só: se os gestores da política
de decisões. Por fim, se a estrutura do Estado ma­croe­conômica brasileira estão convencidos
brasileiro deve ser democratizada, não raro de que a substituição da política de austeridade
as entidades da sociedade civil encontram-se fiscal representa um alto risco, o processo PPA,
pouco preparadas para enfrentar o desafio de como processo de pactuação da estratégia
participar de iniciativas de longo escopo, como de desenvolvimento do país, constitui exata-
é o caso do PPA, e devem buscar qualificar-se mente um espaço em que a sociedade pode
politicamente para tal; discutir tal risco e decidir, democraticamente,
• o governo não é monolítico, e um processo se está ou não disposta a enfrentá-lo. Nesse
como o PPA, que envolve diversas agências sentido, se o processo PPA resultou frustrante,
governamentais, explicita isso de forma a centralidade da sua questão, o modelo de
bastante clara. Algumas agências, como os desenvolvimento, permanece urgente, tanto
Ministérios do Meio Ambiente e das Cida- para a sociedade civil como para os gestores
des, são mais abertas à participação, outras da política econômica.
menos, como os Ministérios da Fazenda e do
Planejamento. As entidades da sociedade civil
devem estar atentas a tal diversidade; devem
não só trabalhar em suas contradições, mas
também buscar incidir sobre elas, de modo a
contribuir para a democratização das agências
menos abertas à participação;

Referências bibliográficas
DAGNINO, Evelina. Democracia, teoria e prática: a participação de Janeiro: Paz e Terra, 2002 a.
da sociedade civil. In: PERISSINOTTO, Renato; FUKS, Mário. (Orgs.).
Democracia: teoria e prática. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002.
______. (Org.). Sociedade civil e espaços públicos no Brasil. Rio

AGO 2004 / SET 2004 69


p r o j e t o m a pa s

Ensaios
de
participação
O Projeto Monitoramento Ativo da Participação da Sociedade (Mapas) – lançado em 2

de julho por uma rede de instituições, sob a coordenação do Ibase e com financiamen-

to da Fundação Ford e da Action Aid – objetiva mapear atores e conflitos, buscando

conhecer as alternativas encontradas pela sociedade civil para pressionar o governo no

sentido da participação e da democracia. Também tem como meta o acompanhamento

de iniciativas participativas abertas pelo próprio governo federal. Os resultados prelimi-

nares da primeira etapa do projeto começam a ser divulgados, com base nas respostas

de 250 questionários aplicados pela Rede Mapas1 em todas as unidades da Federação.

As entrevistas foram feitas principalmente com lideranças de ONGs, movimentos sociais

e sindicais e um número reduzido de federações empresariais.

A idéia do projeto é avaliar as informações e devolvê-las à sociedade na forma de

informação estratégica, uma ferramenta para subsidiar lutas setoriais, gerais e servir de es-

tímulo para que instituições aprofundem a democracia. A seguir, seis artigos de consultores
1 As seguintes instituições
compõem a Rede Mapas: Ibase,
Cidades, Pólis/Fórum Nacional
e consultoras do projeto em diferentes estados analisam esses resultados, com ênfase na
de Participação Popular, Ce-
defes, Ifas, Fase/MT, Fase/PA,
Cese, Cenap, Cepac e IPDA/GTA.
atuação da sociedade civil em torno do Plano Plurianual 2004/2007 (PPA) e do Conselho

70 Democracia Viva Nº 23
Mobilização versus autoritarismo na Bahia
Fátima Nascimento
Consultora nos estados da Bahia, Alagoas e Sergipe
Damien Hazard
Diretor regional da Abong NE2

O ano de 2003 será para sempre um marco na no têm visões diferenciadas de participação,
história da democracia no Brasil. Com o acesso ocasionando embates constantes na dinâmica
de Lula à Presidência da República, começava a dos conselhos ou mesmo no desenvolvimento
tão esperada alternância política e a abertura ao de iniciativas em que a participação popular
diálogo com os movimentos sociais. O caso da é condição para sua realização, em geral por
Bahia é significativo nesse sentido. O governo demanda dos financiadores. Neste contexto,
estadual não possui tradição de diálogo com algumas questões fazem-se necessárias: em
o conjunto da sociedade civil baiana e vê nas que medida o movimento social vai conseguir
ONGs apenas atores capazes de desenvolver influenciar e mudar a perspectiva de partici-
políticas compensatórias, principalmente de pação no governo estadual?Em que medida
natureza assistencialista. Mas nega praticamen- a participação nos conselhos, em especial no
te sempre o papel político da sociedade civil Consea, vai conseguir se firmar como uma
organizada, a não ser por pressão, chegando experiência de exercício de poder comparti-
freqüentemente a criminalizar movimentos lhado entre sociedade e estado, em que cada
sociais. um desenvolve uma função específica? Terá o
Seria prematuro dizer que a tendência de movimento social força e coesão para se impor
abertura ao diálogo melhorou, mas sua natureza diante de um governo autoritário e prepotente?
tem se modificado. A regional Abong NE2 – que Na prática, foram acentuadas as dife-
reúne 22 organizações na Bahia e três em Sergipe renças internas no próprio movimento social.
– se fortaleceu como ator político. Assumiu um Percebe-se também diferenças de âmbito ope-
papel fundamental em 2003 na mobilização da racional. Enquanto alguns grupos defendem
sociedade civil baiana e sergipana e na ocupação interesses imediatistas e corporativistas, outros
do espaço público. Foi a principal responsável defendem uma visão mais estratégica e global,
pela articulação que culminou com a criação dificultando a atuação e definição de priorida-
do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e des. As organizações da Abong NE2 enfrentam
Nutricional (Conse­a/BA), processo que envolveu ainda o dilema de serem poucas para responder
atores sociais, instituições, movimentos sociais à demanda crescente de participação, colocan-
e grupos populares organizados de todo o do o desafio não só de fortalecimento interno
estado. Configurou-se um movimento de dessas entidades, assim como de ampliação
construção pública de um conselho de política do associativismo na sociedade baiana e sergi-
que, para o governo, se não desnecessário, era pana. Isso sem contar que alguns segmentos
dispensável diante da existência da Secretaria sociais organizados, mesmo com a tentativa de
Estadual de Combate à Fome e à Pobreza (Se- inserção promovida pela associação, ficaram
comp), órgão criado no segundo mandato do ausentes desse processo de concertação.
governo César Borges (1998–2002). Mesmo com as limitações assinaladas,
A Abong NE2 coordenou o processo de a sociedade civil tem conseguido avanços
mobilização da sociedade para a organização significativos na busca de uma ruptura com o
das audiências públicas estaduais do PPA. Parti- autoritarismo do governo estadual. A título de
cipou da comissão organizadora da Conferência conquistas, vale ressaltar o caráter deliberativo
Estadual do Trabalho, cujo objetivo era discutir do Consea/BA, sua composição majoritariamen-
a reforma trabalhista. Passou ainda a integrar te da sociedade civil e o processo de debate
o Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural público sobre política de segurança alimentar,
Sustentável (CEDRS), onde tem colaborado com por meio de conferências regionais e estadual
os diversos segmentos sociais organizados na – cujo resultado apresenta in­di­cativos para a
discussão sobre territorialidade. elaboração de um plano estratégico para a área.
A interlocução com o governo da Bahia
não tem sido fácil. Movimento social e gover-

AGO 2004 / SET 2004 71


p r o j e t o m a pa s

Tensão entre governo e movimentos


Lucineide Barros
Consultora nos estados do Ceará e Piauí

A relação entre governo e atores sociais tem às injustiças sociais e com a conquista e am-
avançado a passos lentos, segundo avaliação pliação de direitos; e outro com instituições
do Coletivo de Entidades Parceiras em Políticas que nunca pleitearam espaços de participação
Públicas do Piauí (CEPPP), que reúne cerca de nos processos decisórios, como as Associações
15 entidades. Não é possível identificar a par- da Indústria, do Comércio, Sebrae, entre ou-
ticipação popular como uma marca de governo tras. Além dessas, começam a surgir no cenário
nem mesmo como meta ou intenção. novas instituições, prin­ci­palmente fundações,
As entidades reclamam da falta de que trabalham com prestação de serviço, ge-
reconhecimento governamental do seu papel ralmente terceiriza­ção de serviços públicos, na
estratégico, principalmente ao considerar que parceria em projetos governamentais.
a história de vários agentes do atual governo As concepções de participação se apre-
se confunde com a história dos movimentos sentam diferenciadas: o governo compreende
sociais. Chegam a afirmar que em governos participação como presença, faz convites
an­teriores, de tradição conservadora, apesar da pontuais às entidades para tomarem parte em
falta de respeito, havia algum reconhecimento eventos, programas e projetos prontos a serem
do seu potencial – embora tal reconhecimento executados; geralmente se coloca como o dono
resultasse no uso de mecanismos de distancia- da agenda e com direito de pautar os temas de
mento, imobilização e cooptação. acordo com suas necessidades imediatas. Não
Além das tensões ocasionadas pela pró- explicita claramente os objetivos para a partici-
pria composição da equipe de governo, outros pação. Passa a impressão de que o fato de ter
fatos têm sido decisivos no acúmulo de tensões entre seus quadros pessoas ori­undas de movi-
entre governo e movimentos sociais. Entre eles, mentos sociais basta, não havendo necessidade
a demissão de 10 mil servidores(as) pres­ta­dores de ouvir as organizações representativas. Já os
de serviço, sob o argumento do cumprimento movimentos sociais entendem a participação
da lei, o que ocasionou a primeira greve de para além da presença e reivindicam a oportu-
ser­vidores(as), mobilizando a opinião pública nidade de propor, tomar parte na construção
para o que foi considerada uma decisão arbi- e na implementação. Exigem que o governo
trária e injusta. O ato traumático somou-se a exercite a dimensão ampla da participação,
outros, como o despejo de famílias sem teto integrando as ações dos conselhos de políticas
de um terreno de propriedade do estado, com setoriais às políticas macrossociais, de modo
intensa violência policial, e a garantia, por via que repercutam nas ações dos diversos órgãos
judicial, da manutenção da cobrança de taxas a estatais. Esperam do governo a capacidade de
estudantes da universidade estadual. levar o diálogo à exaustão na busca da solução
Com exceção dos seminários regionais, de conflitos e procuram manter sua autonomia.
promovidos pela Secretaria de Planejamento Também reconhecem como urgente a articu-
com o objetivo de colher subsídios para a ela- lação das suas organizações, o fortalecimento
boração do PPA estadual e da elaboração do dos fóruns da sociedade civil que discutem as
Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS), as políticas setoriais, a qualificação de integrantes
demais experiências que promoveram a escuta dos conselhos e a firmeza na orientação política.
do movimento social se deram por iniciativa Neste cenário, as conferências, consul-
do governo federal, repercutindo no estado. tas, criação de novos conselhos, embora cha-
Registra-se ainda que o processo do PPA estadu- mem a atenção e mobilizem numericamente,
al em nada se comunicou com o PPA nacional e não têm conseguido avançar em qualidade e
que o PCCS significou muito mais uma iniciativa em empoderamento dos setores historicamente
isolada de uma secretaria, longe de ser uma excluídos no Piauí.
marca de governo.
Na relação com o governo estadual e
federal no Piauí, percebe-se que predominam
sujeitos de dois tipos: um grupo historicamente
comprometido com as lutas de enfrentamento

72 Democracia Viva Nº 23
Ensaios de participação no Brasil

Vontade popular, miséria e política


Sérgio Baierle
Consultor nos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul

Nos últimos 20 anos, as classes populares federais. Apenas no Rio Grande do Sul foram
deste país romperam o cordão de isolamento realizadas 240 conferências municipais de se-
que as separava da participação política autô- gurança alimentar. Menos impressionantes, mas
noma. Encerramos mais de duas décadas de não menos significativos, têm sido os eventos
ditadura militar. Direitos básicos de cidadania nas áreas de meio ambiente, educação e saúde.
foram estendidos ao conjunto da população, Se algo falta, não é certamente a
não obstante sua precária qua­lidade. Com a vontade cívica de construir um país melhor.
abertura do voto às pessoas analfabetas, a partir Aparentemente, tampouco falta vontade po-
de 1988, e a retomada plena das liberdades lítica, já que a maioria dos governos mantém
políticas, estabelecemos efetivamente o sufrá- respeitáveis propósitos sociais e agendas par­
gio universal. Essa afluência popular, sobretudo ticipa­tivas, conferindo maior ou menor poder
nos meios urbanos, traduziu-se também no deliberativo à população, apesar das profundas
econômico, mesmo que por vias transversas, diferenças de sentido e de qualidade desses
em gra­da­tiva conquista de melhorias nas infra- processos. Estamos maduros para avançar na
es­tru­­turas urbanas, da vagarosíssi­ma, porém agenda republicana, mesmo quando os resul-
constante, regularização fundiária de áreas de tados tornam-se cada vez menos expressivos.
ocupação, no acesso à educação e no desen­ É o caso da conjuntura atual, com honrosas
volvimento de imensas redes de produção e exceções, como o orçamento participativo de
comércio informal. Porto Alegre, agora também com uma face
Já a cidadania propriamente política das vol­tada para o funcionalismo municipal. Isso,
classes populares vem passando por um pro- no entanto, não diminui a fe­bre ins­titu­inte que
cesso que vai além do ato de votar e ser votado. atravessa as dezenas e dezenas de conferências
Estima-se que existam hoje no Brasil algo ao que vêm se realizando de norte a sul do país,
redor de 30 mil conselhos setoriais nas esferas em todas as áreas possíveis e imagináveis.
federal, estadual e municipal. Grande parte das Existe, portanto, uma imensa deman-
políticas sociais em vigor é acompanhada por da de nação que não encontra espaço nas
conselhos locais que fiscalizam a aplicação dos possibilidades atuais da política. Certos(as)
recursos e seus resultados. Participam desses comentaristas econômicos, cinicamente, dizem
conselhos representantes comunitários das pró- que chegou o momento de cairmos na real, de
prias po­pulações beneficiadas, prestadores(as) abandonarmos os sonhos de mudanças mágicas
de serviços, ONGs, go­vernos, universidades e nas condições sociais existentes. Temos, então,
setores privados. Trata-se de uma fantástica o salário mínimo possível, as po­líticas sociais
aposta nas instituições democráticas. possíveis, o Estado possível. Temos a faca, mas
Atualmente, em mais de 140 cidades não podemos dividir os re­cursos, que já têm
brasileiras, desenvolvem-se experiências de or- dono. Para redistribuir o pouco que resta, é
çamento participativo, em que pessoas comuns preciso reduzir os salários do funcionalismo
podem participar diretamente em assembléias público e alterar suas regras pre­vi­denciárias,
para decidir o destino de parte dos recursos utilizar expedientes os mais diversos para suprir
públicos ou, pelo menos, podem influir na ges- as necessidades de caixa, a­trasar pagamentos
tão dos serviços. Na área do desenvolvimento em geral e jogar a culpa nas outras esferas
urbano, em 2003, contando apenas a região governamentais. Ninguém mais fala em plane-
Sul (PR, RS e SC), realizaram-se 196 conferên- jamento, os governos parecem prisioneiros do
cias municipais das cidades, 54 conferências cotidiano, as batalhas são travadas a cada dia,
regionais e, claro, três estaduais. Na área de e o futuro é uma zona que não existe.
segurança alimentar, os números são ainda mais
impressionantes. Praticamente todos os médios
e grandes municípios passaram a desenvolver
políticas minimamente participa­tivas para dar
conta do combate à fome, nem que seja para
se creden­ciarem como beneficiários de recursos

AGO 2004 / SET 2004 73


p r o j e t o m a pa s

Prós e contras dos conselhos


Mônica Schiavinatto
Consultora nos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul e Tocantins

Na busca das informações sobre os espaços Boa parte de conselheiros e conselheiras não
de participação popular entre as organizações consegue se qualificar nem estudar a temática
sociais nesses estados, pudemos perceber da qual o conselho trata, pois a demanda é
questões importantes para reflexão. Um as- muito intensa. Isso des­qualifica a participação,
pecto dessa temática é a visão geral de que os tornando essas pessoas meras observadoras, e
conselhos e demais espaços são fundamentais não defi­ni­doras de políticas.
para a consolidação da democracia do país. Um segundo fator é que muitos con-
Esses espaços são vistos como estratégicos à selhos ainda estão concentrados nas mãos
participação social e dos governos. São os que realmente definem
à de­finição de polí- agenda, pauta, propostas e encaminhamentos.
ticas públicas. Tal vi- O motivo merece uma reflexão mais complexa.
são pa­rece ser com- Por isso, levantamos apenas algumas hipóte-
partilhada por atores ses. Uma primeira explicação é a fragilidade
sociais de diversos dos movimentos sociais, que, apesar de
campos de atuação, historicamente terem como bandeira de luta
como movimento a constituição de espaços de participação
sindical – patronato social para definição de políticas públicas,
e tra­balha­dores(as), não têm conseguido atuar com qualidade
movimento popular, nesse campo. Uma segunda questão é que
ONGs, governos. em alguns estados, principalmente nas re-
Apesar dessa giões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, ainda
compreensão, há verificamos uma política municipal e estadual
uma visão negati- clientelista e baseada no “co­ronelismo”.
va da eficácia des- Essa forma de política, na qual a força, a
ses es­­p aços como cor­rupção, a manipulação e a ameaça ainda
de formulação de per­sistem, fragiliza os movimentos, tornando-os
políticas públicas. vulneráveis. É importante enfatizar que essa não
De acordo com boa é uma análise con­ceitual, são apenas pontos
parte das pessoas para reflexão. Se­ria preciso ir muito além para
entrevistadas, o for­ constatar tais fatores.
mato dos conselhos Outra questão levantada por muitos
não possibilita uma atores sociais é a possibilidade de resolução
real par­ticipação nas desses problemas por meio da efetivação de um
definições políticas, número menor de conselhos que integrassem
mes­­­­­­mo se tratando diversas temáticas afins. Esses “conselhos de
de conselhos de­libe­ desenvolvimento” seriam compostos por grupos
ra­tivos. O que pu­de­ de trabalho temáticos (saúde, educação, assis-
mos perceber é que tência social, segurança alimentar, a­gricultura)
há vários fatores que colaboram para essa visão. e seriam levados para o conselho principal a
Vamos nos ater neste texto apenas a três. fim de serem discutidos conjunta e integral-
Existe uma infinidade de conselhos mente. Assim, diminuiria as sobre­po­sições e
municipais, estaduais e federais. Todos orga­ as políticas públicas poderiam ser inte­gradas e
nizados por temáticas e políticas setoriais. não compar­timen­tali­zadas.
Isso compartimentaliza as políticas, fazendo Esses três pontos nos parecem ser os
com que haja sobreposição de definições e mais importantes para uma reflexão sobre os
contradições nas propostas dos conselhos. espaços de participação social, sua relevância,
Acontece também de as mesmas pessoas te- qualidade e possibilidade de se tornarem refe-
rem que participar de diversos conselhos, im- rência para uma democracia real.
possibilitando uma participação qualificada.

74 Democracia Viva Nº 23
Ensaios de participação no Brasil

Participação que não chega às bases


Leda M. B. Castro
Consultora no estado de Minas Gerais

Um importante aspecto da vida social de Minas a possibilidade democrática no país.


e dos processos de participação levantados pelo As principais linhas de tensão social
projeto Mapas foi a questão regional. Percebe-se em Minas hoje são balizadas pela situação
um sentimento de que “Minas são muitas e o nacional, refletindo problemas estruturais de
que é feito em Belo Horizonte não costuma ser nossa sociedade, de natureza socioeconômica e
muito estadual, acaba sendo mais focado na política. No campo socioeconômico, os pontos
capital”. A incorporação ou não da dimensão mais centrais derivam da política de estabilidade
regional constitui um marco de distinção entre macroeconômica. São questões que aparecem
iniciativas de participação social com maior ou como prioridade para setores exportadores em
menor impacto ou densidade social. detrimento de atividades voltadas para o mer-
A ausência de número mais significativo cado interno e de questões como exacerbação
de entidades regionais ou do interior foi uma de conflitos ambientais e pela terra, explosão
das lacunas apontadas por várias pessoas com da problemática urbana, maior ainda do que a
relação ao processo da consulta popular para o problemática rural, e outras mais visíveis como
PPA em Minas. Já a política de des­centralização pobreza, desemprego e violência crescentes.
e regionalização da repre­sentação da sociedade No campo político democrático, o gran-
civil no Conselho de Segurança Alimentar e Nu- de desafio da sociedade brasileira é superar a
tricional do estado (Consea/MG), implantada a enorme carência de garantias cotidianas dos
partir de 2001, deu novo fôlego a uma experiên- direitos individuais e coletivos definidos pela
cia de participação social em torno da questão, Constituição. O Estado que existe no Brasil não
que vinha se desenvolvendo desde 1999. foi construído ao longo da nossa história para
As entrevistas apontam como iniciativa beneficiar 100% da população, mas só 20%,
mais relevante do Consea/MG a criação do 25% de pessoas privilegiadas. A burocracia é
Programa Mutirão pela Segurança Alimentar uma barreira que filtra e bloqueia o funciona-
e Nutricional (Prosan). Gerenciado pela Cáritas mento da máquina pública em benefício das
regional, representou uma experiência concreta camadas pobres. Com as “reformas” da última
de descentralização da alocação de recursos década, o Estado, em todos as suas esferas, vem
públicos e de empoderamento da sociedade minguando ainda mais, terceirizando serviços
civil. A avaliação final do programa mostrou e ações públicas. Da pesquisa feita em Minas,
a importância de uma boa organização local/ emergiu um paradoxo: a expansão da sociedade
regional para o desenvolvimento de projetos civil, com uma multiplicidade de organizações,
realmente participativos. associações, conselhos, fóruns, articulações –
No estado, não existem grandes organi- abrangendo um leque de temas, de interesses e
zações, como acontece no eixo Rio–São Paulo. lutas por direitos –, tem tido impacto pequeno
O poder de influência das ONGs mineiras se dá na agenda efetiva dos poderes públicos. Parece
mais pelo peso numérico, atuando em temas acontecer algo como muita “organização”,
específicos, dispersas em vários municípios, baixa “mobilização”, muitas “entidades” com
do que pelo papel político de algumas poucas pouca “densidade” ou “capilaridade” social.
entidades de caráter mais geral. As entidades têm quase sempre as mes-
Por todo o estado, há centenas de mas lideranças. É como se essa ‘organização’
pequenas organizações sem identidade ins- se mantivesse na superfície do tecido social,
titucional clara ou visibilidade na mídia, que não chegando às bases, não impregnando os
estão lutando de modo firme e inovador em indivíduos, seus valores, sua conduta. E não
torno de questões específicas: meio ambiente, levando a um novo modo de fazer política e
reflorestamento, acesso à terra, apoio à pe- de regular a ação do Estado.
quena produção rural etc. A relevância desses
movimentos e organizações locais pouco es-
truturados é exatamente a de exemplificar o
exercício autônomo da cidadania por grupos
populares, por pessoas comuns, mantendo viva

AGO 2004 / SET 2004 75


p r o j e t o m a pa s

Acolhimento seletivo de propostas


Carlos Tautz
Consultor nos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo

A proposta de realização da Conferência Na- modo de elaboração de políticas públicas e de


cional de Meio Ambiente que orientasse o que seriam consideradas todas as posições que
poder público federal na execução de políticas compõem a miríade conhecida por movimento
públicas tem suas origens nas discussões há ambientalista brasileiro.
anos realizadas pela Secretaria Nacional de O Ministério do Meio Ambiente (MMA)
Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável colocou toda sua parca infra-estrutura adminis­
(Semads) do Partido dos Trabalhadores (PT). trativa nesse processo ao longo de quase seis
Também consta do programa de governo de Lula meses. Coube ao Instituto Brasileiro do Meio
para a área do meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
ambiente, redi­gida e (Ibama) a tarefa de convidar lide­ranças socio­
subscrita por ambi­ ambientais locais e governos estaduais para
enta­lis­tas do partido organizar os en­c ontros regionalmente. As
em ampla coope- conferências regionais/estaduais produziam, cada
ração com dezenas uma, um documento enviado à instância nacional.
de representantes O papel coordenador da conferência nacional
de movimentos so- adquiriu, na maior parte do tempo, um caráter
ciais e organizações mais administrativo, organizativo, foi pro­positivo
não-governamentais apenas no início do processo, quando elaborou
brasileiras. A con- os temas para debate e a tese-guia.
ferência foi realiza- Do total de delegados e delegadas
da de 28 a 30 de eleitos para o encontro nacional, 33% eram
novembro de 2003, representantes das esferas governamentais
na Universidade de municipal, estadual, distrital e federal; 41% de
Brasília (UnB), obje­ti­ mo­vimentos sociais, populações tradicionais
vando a coleta de in- (indígenas, quilombolas e ribeirinhos) e ONGs
formações para sub- ambientalistas; 19% de universidades, centros
sidiar a elaboração de pesquisa e conselhos profissionais; e 7% do
de políticas públicas. setor produtivo. O próprio MMA surpreendeu-
Diferente­ -se com a eleição de 68 delegados e delegadas
men­­­­te da conferên- do setor da juventude.
cia de segurança ali- Essa estratificação deixa claro que a con-
mentar e nutricional, ferência conseguiu abarcar público muito hete-
a do meio ambiente rogêneo em sua composição, origem e proposta
não necessariamente de atuação socioambiental. A cota mínima de
desaguaria em espa- participação de mulheres (30%) foi plenamente
ço institucional de­ alcançada. Segundo o MMA, do conjunto eleito,
finidor de políticas. 576 eram homens e 336 mulheres.
No fundo, constituiu-se em instrumento de No entanto, o momento político em que a
auscultação da sociedade, de levantamentos conferência se realizou era outro. As divergências
de dados que o aparato estatal não conseguiria impostas pela necessidade pragmática de um
produzir, em uma ágora de proposições de governo central que se dedica à estabilização finan-
saídas para as várias crises socioambientais por ceira – tarefa para a qual depende do apoio dos
que passa o Brasil. governos estaduais que controlam suas bancadas
A construção desse processo teve como no Congresso Nacional – levaram o governo federal
grande fiador a figura da ministra Marina Silva. a contemporizar com várias posições defendidas
Representante histórica do movimento so­ci­oa­ por gover­na­do­res(as) que entraram em choque
m­bientalista brasileiro, herdeira simbólica do le- direto com a ação da maior parte das organi-
gado de Chico Mendes, sua figura foi a garan­tia zações envolvidas no processo.
que boa parte das organizações participantes Fruto da aproximação histórica de Ma­
tiveram de que o processo se constituía em novo

76 Democracia Viva Nº 23
Ensaios de participação no Brasil

rina Silva e de movimentos e redes em educação colocar em segundo plano as reivindicações dos
ambiental, também foi convocada a I Conferên- movimentos sociais e incentivar monoculturas
cia Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambien- em larga escala com venda prioritária aos mer-
te, que reuniu mais de 5,2 milhões de pessoas, cados internacionais, por ora em cotação alta?
entre estudantes, professores e professoras e a Em fevereiro de 2004, o governo anun-
comunidade, em cerca de 15 mil conferências ciou um Plano Nacional de Florestas, mas os
nas escolas de ensino fundamental de todo o setores ambientalistas defendem que mono-
país – uma média de público de 360 pessoas cultura de pínus e de eucalipto não é floresta.
por escola. Foram 380 delegados e delegadas O plano estava em fase final de gestação no
entre 11 e 15 anos de idade, sendo 14 jovens período de realização do encontro e previa
por estado – à exceção de Pernambuco, com transformar a monocultura em iniciativa de
oito delegados e delegadas. A distribuição foi governo, envolvendo os ministérios da Agricul-
a seguinte: 4% de pro­fessores(as); 15% de es- tura, da Indústria e do Desenvolvimento e do
tudantes de ensino médio; 15% de estudantes Meio Ambiente.
de 1ª a 4ª série; 15% de integrantes da comu- Temas como esses lideraram as aten-
nidade; e 51% de estudantes de 5ª a 8ª série. ções dos movimentos em quase todos os
A tese-guia foi proposta pelo corpo estados, mas não conseguiram romper com
técnico do MMA e consultorias contratadas o isolamento temático que caracterizou as
em torno de seis megatemas que, teorica­ par­ticipações dos diversos atores. Cada um
mente, abarcariam a totalidade das questões deles dedicou-se prioritariamente a interferir
que precisariam ser enfrentadas na busca de no debate em sua área específica de com-
um desenvolvimento nacional assentado sobre petência: quem era originário de questões
bases sustentáveis social e ambien­tal­men­te. Os urbanas, por exemplo, dedicou-se a elas em
temas foram: recursos hídricos; biodiversidade todo o processo. O mesmo se repetiu com
e espaços territoriais espe­cialmente protegidos os demais temas, exceto o das mudanças cli-
(unidades de conservação, áreas de proteção máticas, que, pela sua própria natureza, exigiu
ambiental, reservas e parques); infra-estrutu- uma intervenção sistê­mi­ca que incorporasse as
ra: energia e transportes; agricultura, pecuá- diversas inter­faces do assunto.
ria, recursos pesqueiros e florestais; mudanças Até abril de 2004, as entidades que
climáticas; e meio ambiente urbano. participaram da conferência nacional ainda
Pelo menos 25 das 27 conferências es- não haviam recebido informações a respeito
taduais aprovaram moções que preconizavam de processos de acompanhamento da im-
restrições à utilização dos organismos geneti- plantação das propostas for­m u­l a­d as no en-
camente modificados (OGMs) e, em especial, contro e entregues ao poder público. Estava
críticas às seguidas liberações, por parte do prevista apenas a divulgação de um CD com
Executivo federal, da safra gaúcha contaminada as deliberações do evento. Há, entretanto,
por soja transgênica. Uma moção-síntese de um claro sentimento entre as entidades que
condenação aos transgênicos foi apresentada tomaram parte do processo de que houve um
e aprovada na conferência nacional em con­tra­ acolhimento seletivo das propostas formuladas.
ponto incisivo à política oficial. Todas as que convergiam com a proposta clás-
Outra questão que gerou mobilizações sica de desenvolvimento da política econômica
de pelo menos cinco dos mais populosos es- em vigor, ao que parece, seriam acolhidas. Mas
tados brasileiros de três regiões, que recolheu aquelas que se chocavam com as diretrizes ge-
amplo apoio de diversos movimentos so­­ci­ rais da política econômica – como o estímulo
oambientalistas, como foi o caso do estímulo às mo­n ocul­turas da soja, das espécies celu­
governamental às monoculturas do pínus e do lósicas e da criação de gado – continuariam a
eu­calipto para produção de celulose. ser estimuladas pelo governo, a despeito dos
A pergunta intrínseca que os movimen- impactos sociais e ambientais que viessem
tos sociais fizeram na conferência, sob a forma a causar.
de propostas e de moções foi: “qual é o modelo
de desenvolvimento que se propõe para o Bra-
sil?”. Afinal, indagaram os(as) representantes
dos movimentos, a opção estratégica do gover-
no pelo negócio agrícola de exportação significa

AGO 2004 / SET 2004 77


e s pa ç o a b e rt o
Silvia Maria Cordeiro*

Controle
social em saúde

As políticas sociais e econômicas no Brasil são historicamente excludentes. Pensadas de cima

para baixo, sufocam os municípios do ponto de vista dos recursos financeiros e dificultam

a capacidade gerencial instalada em cada um deles. Tais políticas são planejadas de forma

centralizada e aplicadas nos diversos recantos do país descon­siderando as especificidades e

conjunturas locais. Para refletir, nesse contexto, sobre o controle social das políticas públicas

para saúde da mulher a partir da experiência local do Centro das Mulheres do Cabo (CMC), é

necessário repensar a relação entre as esferas de poder, compreendendo o lugar do município

como unidade federativa no Sistema Único de Saúde (SUS).

78 Democracia Viva Nº 23
aberto
Também precisamos nos reportar aos índi- e de mama, da prevenção das doenças
ces de pobreza e desenvolvimento humano sexualmente transmissíveis (DSTs) e do
do estado de Pernambuco. Segundo a Or- HIV, das doenças crônicas degenerativas,
ganização das Nações Unidas (ONU), 50% da saúde mental e das doenças causadas
da população se encontra abaixo da linha por condições de trabalho e má qualidade
de pobreza, e as mulheres são uma parcela de vida. As usu­á rias ficam, em muitas si-
significativa dessa amostragem. Falar sobre tuações, sem alternativa de atendimento e
políticas públicas em saúde para mulheres têm que se contentar com atenção básica à
é fazer um recorte da condição feminina saúde do ponto de vista generalista.
nos vários contextos históricos da saúde A questão da mulher na saúde –
pública, principalmente no âmbito do SUS. como cidadã plena, e não meramente o ser
Esse sistema de saúde é uma conquista da responsável pela reprodução – foi posta em
sociedade brasileira na Constituinte Cidadã discussão pelo movimento de mulheres,
de 1988, pois coloca a saúde como um di- forte aliado no processo de construção do
reito de todas as pessoas e dever do Estado SUS. Podemos afirmar que o Programa de
e garante acesso universal aos serviços, à Atenção Integral à Saúde da Mulher (Paism),
eqüidade e à participação democrática da de inspiração feminista, contribuiu para a
sociedade no controle social das políticas mudança de postura do setor de saúde, ao
públicas. preconizar um elenco de ações com vistas
O olhar sobre a mulher no contexto a garantir atendimento integral à saúde da
da saúde pública, ao longo da história, se mulher, agora na condição de sujeito político
reduz aos aspectos reprodutivos, com rele- coletivo. Dessa forma, tornou explícitas as
vância para o binômio mãe/filho. Apesar da especificidades no campo da saúde repro­
presença hegemônica das mulheres no setor de dutiva e sexual e também introduziu o
saúde, não só como gestoras e pres­tado­ras de conceito dos direitos sexuais e reprodutivos
serviços, mas também como profissionais como direitos humanos.
(assistentes sociais, psicólogas, nu­t ri­ A partir de então, as mulheres pas-
cionistas, enfermeiras, auxiliares, atenden­tes, sam do status de mãe e procriadora para a
agentes comunitárias de saúde, médicas e condição de mulher em plenitude, e isso diz
voluntárias) e usuárias, elas são co­ti­di­a­na­ respeito a direitos sobre o próprio corpo, exer-
mente desrespeitadas. As mulheres enfrentam cício livre da sexualidade e a­ces­so a informa-
as intermináveis filas para conseguir a garan- ções con­fiáveis. Enfim, há maior consciência
tia de acesso aos serviços disponíveis para de sua identidade repro­dutiva e feminina,
familiares, filhos e filhas, maridos, parentes, agora compreendida no contexto das relações
pessoas da vizinhança e para elas próprias, o de poder entre homens e mulheres.
que demonstra o descaso dos ser­viços de saú- Nesse ambiente, discutem-se a res-
de com o tempo das mulheres, “acostumadas” ponsabilidade social sobre a maternidade,
aos cuidados com a família e a comunidade. o aborto co­mo questão de saúde pública, a
A lógica cultural de enfoque sobre criação de normas do pla­­nejamento familiar,
a população feminina na saúde percebe a a contracepção de e­mergência, a urgência
mulher como ser meramente reprodutivo de reduzir os índices de mor­bi­mortalidade
e torna invisíveis aquelas que procuram o materna, de combater pre­valência do parto
serviço com outras demandas, a exemplo cesariano sobre o parto normal e de in-
da prevenção do câncer de colo de útero centivar a prática do parto humani­z ado.

AGO 2004 / SET 2004 79


e s pa ç o a b e rt o

Também é preciso investir em programas tores organizados da sociedade, contra o


de prevenção do câncer de colo de útero e equívoco do governo federal em manter a
de mama e ampliar o acesso das mulheres política neoliberal e de ajuste estrutural.
a eles, garantir o acesso aos insumos do Do contrário, o SUS, o Paism e ou­t ras
planejamento familiar, barrar a esteriliza- diversas conquistas sociais estarão com
ção em massa das mulheres jovens, prin- os dias contados.
cipalmente em momentos eleitorais (com Queremos, portanto, lançar um olhar
a conivência dos poderes constituídos), e sobre as práticas políticas hege­mônicas e
oferecer condições para ne­­gociação da práti­ca suas repercussões sobre o corpo das mulhe-
do sexo segu­ro. Além disso, é imprescindível res e colocar algumas questões em discussão,
instituir estratégias principalmente quanto à participação nos
pa­ra o atendimento processos de gestão democrática.
às vítimas de vio-
lência doméstica,
Contexto municipal
considerar as es-
pecificidades das O município do Cabo de Santo A­g ostinho
negras, indígenas localiza-se na região metropolitana de
e lésbicas. Enfim, Recife. A população oficial é de 152.836
é necessário operar habitantes, sendo 77.946 do sexo feminino,
mudanças radicais, ou seja, cerca de 51%. O município é o
tendo co­m o prin- terceiro em arrecadação de impostos em
cipais estratégias Pernam­b uco. Isso se deve à localização
o investimento na estratégica no Litoral Sul (mi­c rorregião de
formação de pro- Suape, onde se situa o porto homônimo),
fissionais da á­r ea à estrutura do parque industrial e ao setor
de saúde e a parti- de serviços em expansão, sobretudo nas
cipação qualificada atividades de turismo, saúde e comércio.
das mulheres nos Dos municípios da região metropolitana,
conselhos de saúde Cabo se destaca também pela extensa área
e comitês de estu- rural, cuja base agrícola é sustentada na
do da mortalidade monocultura da cana-de-açúcar. Mas, nos
materna. últimos 15 anos, a diversificação de cultu-
Com a mu­ ras agrícolas vem ganhando força a partir
nicipalização da da presença das áreas de assentamentos,
sa­ú de, o desafio lideradas pelo movimento social de luta
e a e x ­p e c t a t i v a pela terra.
do movimento de A despeito das potencialidades
mulheres é trans- econômicas – de acordo com números
formar o Pais em conseguidos com base no Índice de De-
política de saúde senvolvimento Humano (IDH) utilizado
para as mulheres. pelo Programa das Nações Unidas para o
Tudo isso sem per- Desenvolvimento (Pnud) –, o município
der de vista o forta- está situado na 16ª posição no estado de
lecimento do SUS, Per­n ambuco, com IDH de 0,541. Na clas­­­­
c o n s ­­t a n t e m e n t e sificação do Índice de Desenvolvimento
ameaçado pela pri- Infantil (IDI) do Fundo das Nações Uni-
vatização e pela das para a Infância (Unicef), ocupa o 15º
recente proposta lugar, com 0,544. O perfil epidemi­o lógico
do Ministério da do município é resultante da polarização
Fazenda, em cum- entre as doenças relacionadas ao processo
primento dos acordos com o Fundo Mone- de desenvolvimento predatório. Ainda
tário Internacional (FMI), para acabar com persistem agravos decorrentes das condi-
a obri­g atoriedade de investimento de 15% ções precárias de habitabilidade, relativas

ESpaço
do orçamento público em saúde em todos a saneamento, moradia, acesso à água de
os níveis de governo. Mais do que nunca, qualidade e segurança, e ao não-desen­­­vol­vi­
é necessário estabelecer alianças com se- mento de atividades de trabalho e renda, além

80 Democracia Viva Nº 23
Controle social em saúde da mulher

de doenças cardiovasculares e dege­nerativas tiva e formação de atores para participar


relacionadas ao modo de vida de grandes nos espaços de controle social das políticas
centros urbanos. públicas.
Para enfrentar essa situação de vul- Nessa direção, elegemos o Conselho
nerabilidade social, está em curso o pro- Municipal de Saúde e o Comitê Municipal
cesso de universalização da atenção básica, de Estudo da Mortalidade Materna como
com a implementação de 32 equipes do espaços pri­o ritários de intervenção para o
Programa de Saúde da Família (PSF) e seis CMC. Para tanto, a entidade se articula com
do Programa de Agentes Comunitários de o movimento de mulheres no estado, por
Saúde (Pacs). Os resultados desse modelo meio do Fórum de Mulheres de Pernam­
de assistência se revelam na significativa buco, e com a Rede
redução da mortalidade infantil, que pas- Nacional Feminista
sou de 41/1.000 pessoas nascidas em 1996 de Direitos Sexuais
para 18/1.000 nascidas em 2004. É impor- e Reprodutivos. O
tante salientar a expansão da estrutura dos CMC trabalha com
serviços oferecidos à população, composta o conceito de que
por cinco unidades ambu­l atoriais, duas a morte materna
policlínicas de especialidades médicas, é o óbito ocorrido
duas emergências, um hospital geral e durante a gravidez
uma maternidade municipal, além de dois ou até 42 dias após
Centros de Referência para Sa­ú de Mulher, a gestação. É cau-
laboratório municipal de aná­l ises clínicas, sada por qualquer
Centro de Zoonoses, Centro de Orientação fator relacionado
e Acolhimento para pessoas com HIV, dois ou agravado pelas
Centros de Atenção Psicossocial Infantil condições de gravi-
(Capsi) e três Núcleos de Atenção a Saúde dez ou por medidas
Mental. que venham a ser
É fundamental destacar que o muni- tomadas em relação
cípio vem consolidando um modelo dife- a ela.
renciado de gestão participativa, ampliando A mortalida-
as instâncias de participação popular por de materna é reco-
meio dos conselhos setoriais em todas as nhecida como um
áreas das políticas públicas e conselhos dos piores indica-
consultivos do orça­m ento participativo dores de saúde e
(OP), perfazendo um universo de mais de considerada como
20 espaços de gestão democrática. Nesse violação aos direi-
contexto, estão inseridos o Conselho Mu- tos hu­m anos das
nicipal de Saúde, os Conselhos Locais de mulheres. A maioria
Saúde e a Comissão Municipal de Estudo das mortes é evitá-
da Mortali­dade Materna. vel, prin­cipalmente
aquelas relacionadas
diretamente com a
Gestão democrática
qua­lidade dos servi-
O Centro das Mulheres do Cabo (CMC) é ços de saúde. Dados
uma organização não-governamental que há da Rede Nacional
20 anos realiza intervenções nas áreas da Feminista de Saú-
saúde sexual e repro­dutiva e de desenvol- de e Direitos Re­
vimento sus­t entável numa perspectiva de p r o d u t i­v o s , q u e
gênero e no campo dos direitos humanos das têm como refe-
mulheres, crianças e adolescentes. Desde sua rência o Data­s us,
fundação, o CMC vem construindo, com as revelam que, no
mulheres, práticas sociais que passam pelo Brasil, em dezembro de 2001, as mortes
atendimento direto à saúde da mulher. Mais maternas corres­p ondiam a cerca de 6% dos
recentemente, vem promovendo atividades óbitos de mulheres com idades entre 10 e
de formação e divulgação de informação 49 anos. São resultados perversos, fruto
qualificada sobre saúde sexual e reprodu- da pouca importância que se dá à vida das
mulheres e ao exercício dos direitos repro­

AGO 2004 / SET 2004 81


e s pa ç o a b e rt o

* Silvia Maria duti­v os. É preciso estabelecer políticas aborto, terceira causa da mortalidade ma-
Cordeiro públicas articuladas em saúde da mulher terna no Brasil. A história do comitê mu-
Médica, coordenadora- para além da esfera da maternidade, bem nicipal está diretamente relacionada com
geral do Centro das como políticas de desen­v olvimento susten- a luta das mulheres pela implementação
Mulheres do Cabo, tável co­m o condição para que se consiga a do Paism, sendo em­b lemática a conquista
membro da Rede redução da mortalidade materna. de um espaço específico para a saúde da
Feminista de Saúde A visibilidade da mortalidade ma- mulher na estrutura da gestão pública.
e presidente do Comitê
terna como uma questão de saúde pública Nesse sentido, a Coordenação de Saúde da
Municipal de Estudo
se deve ao movimento de mulheres. As Mulher tem realizado esforços, por meio
da Mortalidade
Materna – Cabo
organizações locais têm contribuído de de intervenções es­t ruturadoras, em parceria
de Santo Agostinho.
maneira decisiva para a implementação com profis­­­sionais e o movimento de mu-
dos Comitês de Estudo da Mortalidade Ma- lheres, com vistas à melhoria da qualidade
terna, importante da atenção à saúde sexual e reprodutiva
estratégia para re- das mulheres. Uma das prioridades dessa
dução dos óbitos. coordenação é garantir as condições de
São objetivos dos funcionamento do Comitê Municipal de
comitês a identifi- Estudo da Mortalidade Materna.
cação dos casos e O perfil das mortes maternas ocor-
o estudo das cau- ridas no município tem acompanhado o
sas determinantes, padrão geral dos países pobres e em de-
bem co­m o a pro­­ senvolvimento: mulheres jovens, com ges­­
posição de medidas tação do primeiro filho, afrodescendentes,
para sua re­d ução. procedência rural e/ou periferia urbana. A
No Cabo de Santo maior parte das mortes está relacionada
A­gos­ti­nho, o comi- com as precárias condições da atenção obs-
tê foi implantado tétrica, com a baixa qualidade do pré-natal
em 1999 e é cons­ oferecido na rede de saúde e a ineficiente
tituído por pes­­soas qualificação técnica de profissionais. Por
responsáveis por influência do movimento de mulheres, o
gestões, profissio- comitê tem procurado huma­n izar o estudo
nais da sa­­úde, uma dos casos e as estatísticas, dando rele-
representante do vância à condição feminina e à situação
le­g is­­la­t ivo e uma socioeconômica e cultural das mulheres,
re­p re­s en­t an­t e do evitando, dessa maneira, a ba­n alização das
CMC. O comitê se mo­r ­t es e apresentando as recomendações
articula com o con- cabíveis para os(as) responsáveis pela ges-
junto dos Comitês tão pública e profissionais, no sentido de
de Estudo da Mor- contribuir para a redução da mortalidade
talidade Ma­terna no materna. A prática e esse enfoque têm
estado e os Conse- con­t ribuído para melho­r ia da qualidade da
lhos Regionais de atenção à saúde da mulher no município,
Medicina e Enfer- resultado da valorização da participação
magem e mantém, da sociedade nas instâncias de gestão
ainda, um estreito e democrática.
permanente diálogo A experiência do CMC nos leva a
com o movimento refletir o lugar do movimento social nessas
de mulheres. instâncias. A qualidade da intervenção pas-
A ação polí- sa por um olhar crítico sobre a participação

Aberto
tica do comitê é direcionada para o monito- e por uma profunda clareza sobre as formas
ramento dos serviços de saúde, para forma- de articulação e mobilização de atores. Essa
ção dos profissionais da saúde repro­d utiva, é uma condição para que processos históri-
de atenção básica à assistência obstétrica, cos transformadores sejam desconstruídos e
e para mobilização e sen­s ibilização das construídos – uma tarefa somente possível
comunidades por meio de reuniões, ofici- no marco da democracia.

ESpaço
nas e seminários temá­t i­c os. Um dos temas
mais discutidos nesse espaço tem sido o

82 Democracia Viva Nº 23
AGO 2004 / SET 2004 83
cul c u lt u r a
Marcelo Carvalho*

Samuel Tosta/fórum social mundial2003

84 Democracia Viva Nº 23
ura
acerca da

das ruas
A idéia de um povo já dado, sem devir, definitivo, sempre nos assombrou. Em nome

dessa entidade que mal esconde suas raízes platônicas, o senso comum brasileiro cons-

truiu outra: a do povo em formação, país do futuro que ainda encantará o mundo, ou,

na versão em negativo, a do povo que não tem mais jeito, ajuntamento “sem pedigree”

que jamais se tornará um povo. As duas definições têm em comum o estabelecimento

de um parâmetro idealizado, cristalizado, algo eterno e imóvel que serviria de modelo

ideal: a primeira, uma idéia de povo nos esperaria já formatada no futuro, na qual nos

encaixaríamos assim que o tempo fosse propício (nossa salvação em uma formulação plena

“para além”); a segunda, localizada em um horizonte que estaríamos infortunadamente

fadados a não atingir, mas que vislumbraríamos de longe, como um escárnio da história.

AGO 2004 / SET 2004 85


CULTURA

Em muitos momentos, esse modelo ideal de civilizatório. Fraturas culturais, raciais, econômi-
povo se impôs (e ainda se impõe) como mais cas e políticas que davam vazão ao constante
real do que o povo das ruas, cambiante, em surgimento de povos brasileiros em inusitadas
movimento. A idealização sugere mesmo que e necessárias criações.
o(a) brasileiro(a) seja algo incompleto(a), cujos Durante séculos, essas terras viram
movimentos expressariam apenas cruzamentos crescer um país de quilombos, secretamente
caóticos e sem definição. Talvez seja preciso ou mesmo em contato com setores oficiais
abandonar a forma fixa, castradora e autoritária da sociedade de então. A mais emblemática
de uma idéia de povo que, mais cedo ou mais dessas formações sociais, o quilombo dos Pal­
tarde, atualizaríamos. No entanto, retirados os mares, é o exemplo mítico de uma organização
modelos impostos, resta-nos uma “atualidade” social que não é baseada na exclusão racial e
de um estado de coisas de um povo existente? no escravagismo, recriando na Serra da Barriga
E se o povo não estiver dado? E se, justamente, (hoje, entre Alagoas e Pernambuco) um Brasil
é o povo o que falta? E se tal situação, em vez não-português e não-holandês. Eram 30 mil
da aparente nega­tividade inicial, pudesse ser habitantes livres vivendo em sociedades criadas
lida como dotada de uma positividade criadora, por movimentos individuais de fuga do cativeiro
constatada em um sobrevôo histórico? à revelia da repressão do sistema patriarcal,
Nascido por decreto durante a conquista organizando-se em sociedades quilombolas,
dos mercados orientais pelos portugueses, o onde a participação política, algo visceral e
Brasil é uma das conseqüências de primeira hora cotidiana, se dava pela alegria da liberdade
do expansionismo europeu. Os povos autócto- conquistada.
nes que aqui estavam foram, em primeiro lugar, Palmares foi destruído em 1694, mais
e salvo exceções, escravizados. Depois, foram de 200 anos antes da destruição de uma outra
empurrados para o interior do continente, comunidade, Canudos, pelo Exército brasileiro
mortos por doenças, despojados de sua cultura em 1897. Bello Monte, como seus moradores
ou mesmo assimilados à nova ordem político- e moradoras chamavam a comunidade, tinha
-social, no avanço dos colonizadores em busca uma expressiva parcela da população composta
de terras, metais e pastagens. Para preencher de ex-escravos(as), além de indígenas caimbés
o vazio de força de trabalho, foram trazidos e quiriris, o que dava a Canudos um perfil assi-
à força homens e mulheres da África. Essas milado aos quilombos. Os povos brasileiros se
pessoas foram administradas, como o resto reinventam nas brechas dos poderes oficiais.
dos bens das grandes fazendas de plantation, Um povo não é algo que esteja dado.
pelos poucos portugueses que ocupavam o Antigas totalidades – como povos da África e
topo da pirâmide social da época. Longe de Europa, Nigéria e ex-Iugoslávia – se mostram
uma formação espontânea, uma população hoje como diversidades que se reinventam cons-
foi pensada para ocupar o território, tendo em tantemente. Pluralidades que ora se encarnam
vista as necessidades do avanço mercantilista. em impulsos nacionalistas violentos (como na
Bem depois, passou-se a pensar o Brasil ex-Iugoslávia), ora permitem o avanço dos dis-
como uma espécie de “Estados Unidos sul- cursos internacionalizados das minorias.
-americano”, como um “cadinho de culturas”. E no Brasil? O que nos falta é um povo?
Mas, contrariamente aos vizinhos do Norte, nosso Temos povos, miríade de identidades coletivas
mito fundador incluiu a miscigenação como um nas culturas regionais, nas cidades, atravessan-
pretenso antídoto contra o racismo. Vislumbrou- do as divisas oficiais. Num momento, há uma
-se, então, uma utopia homogeneizada, a pátria coletividade ampla – quando o povo brasileiro
mestiça na qual muitos luminares da cultura comemora um gol da seleção de futebol –;
nacional apostaram, com as armas fornecidas por noutro, por exemplo, uma pequena comunidade
Gilberto Freyre. Uma idéia de “cultura mestiça” religiosa de uma cidade interiorana. Em toda
logo apropriada tanto pela postura que afirma parte, há formas existenciais que a cultura hu-
que em uma pátria de irmãos não há racismo mana foi capaz de criar no país, driblando as
como pelo discurso que propunha um único imposições de uma organização política oficial
povo que falasse em uníssono. Tal construção quase sempre desfavorável. Falta-nos a idéia de
do passado nacional, a despeito do brilhantismo um povo? Em todo lugar, existem povos cuja
e da importância da obra de Jorge Amado, por riqueza poderia efetivamente influenciar as
exemplo, não pôde considerar em sua plenitude instâncias oficiais na elaboração de alternativas
as diversas vozes dissonantes, que punham em de desenvolvimento que acolham a diversida-
evidência todas as fraturas de nosso processo de e as experiências coletivas em construção

86 Democracia Viva Nº 23
Considerações acerca da cidadania das ruas

incessante. São relações alternativas, uma vez jovem, embalada pelo socialismo, contracul­tura,
que não estão (e nunca estiveram) associadas revolução sexual, arte veiculada pela cultura de
à construção de um projeto coletivo nacional massa etc. Não apenas a Universidade de Berke-
que fosse cultural, política e economicamente ley, na Califórnia, pegava fogo. Paris assistiu à
inclusivo. Impasses de nossa coletividade. irrupção, em maio de 1968, do movimento de
Quem sabe não seja preciso, então, em estudantes liderados por Daniel Conh Bendit,
vez de perguntarmo-nos “onde está o povo?”, que, da ocupação dos prédios de universidades,
dirigirmo-nos para os espaços “onde falta um até mesmo a Sorbonne, ganhou a cidade e o
povo”, onde a potência criadora coletiva po- país. Estudantes receberam apoio de artistas,
derá se reinventar novamente, a partir de uma intelectuais, jornalistas. Com a adesão de
necessidade. Lá onde a oficialidade se ausenta, trabalhadores e trabalhadoras, foi deflagrada
povos se criam. No vão onde a coletividade não greve geral: fábricas, transportes públicos,
está ainda, mas onde precisa estar, um povo se jornais, correios, aeroportos, o país parou. Os
plasma, criativamente, inventando-se a cada protestos, que se iniciaram pela reforma do
obstáculo: um povo é algo que se constrói (e ensino, passaram a contestar o poder central
se desconstrói) a cada momento. Em uma de- e as instituições.
mocracia que se deseja com alto grau de vitali- No Brasil, em um momento quando falta-
dade, as populações se reinventam nos grandes va uma coletividade que se opusesse ao regime
encontros cívicos, quando a participação ativa de exceção que se instalara no país, aconteceu a
dos grupos sociais toma as ruas das cidades. Passeata dos 100 mil, em 26 de junho de 1968.
O foco da reivindicação dos(as) estudantes era
a intenção do governo de transformar as uni-
Caminhando e cantando
versidades federais em fundações, cumprindo
Na história recente do país, pós-64, houve acordos realizados pelo Brasil com a Agência
mo­mentos brilhantes, quando parcelas da po- Norte-Americana para o Desenvolvimento In-
pulação tornaram-se protagonistas da história ternacional (Usaid). Mas o estopim que acabou
e coletivamente uniram suas vozes pelos vários por insuflar a passeata foi o assassinato do es-
sentidos diacrônicos da palavra democracia. tudante Edson Luís, de 17 anos, no restaurante
Havia uma atmosfera de rebeldia e universitário Calabouço, em março de 1968. O
contestação no mundo por parte da população incidente foi o ponto culminante de uma esca-
evandro teixeira/agência jb

Vladimir Palmeira fala aos(às) manifestantes na Passeata dos 100 mil (1968)

AGO 2004 / SET 2004 87


CULTURA

processo lento e gradual de distensão dentro


do próprio governo etc. A organização de

Arivaldo dos santos/agência JB


trabalhadores(as), com protestos e greves,
minou ainda mais o combalido regime. Esses
movimentos só foram possíveis graças ao pio-
neirismo das grandes greves operárias do ABCD
paulista, entre 1978 e 1980, após um longo
período de repressão e violência. Justamente
quando o que faltava era o seu apoio, operários
e operárias retornaram à vida política nacional
de forma marcante. O movimento viu nascer o
Partido dos Trabalhadores (PT), a Central Única
dos Trabalhadores (CUT) e grandes lideranças
operárias, como o então líder sindical Luiz Inácio
Lula da Silva. O movimento de trabalhadores(as)
deu novo impulso à organização popular e teve
papel essencial para a redemocratização que
se iniciaria.
Um momento importante da luta traba-
lhadora foi a passeata de 1º de maio de 1980,
em São Bernardo do Campo (SP). Como a
passeata convocada pelo movimento estudantil
em 1968, cerca de 100 mil manifestantes com-
pareceram, gritando slogans contra a ditadura.
Os 142 mil metalúrgicos(as), em greve já por
dois meses, reivindicavam aumento salarial,
melhores condições de trabalho e a libertação
das lideranças presas: Lula, Devanir Ribeiro,
Djalma Bom e José Cicotti.
A redemocratização exigida por tra­
balhadores(as) culminou, em 1984, com a
campanha Diretas Já. O regime havia restrin-
gido o direito de voto, suprimindo as eleições
diretas para a presidência, governo de estados
Metalúrgicos(as) do ABCD paulista em greve (1980)
e prefeitura de capitais, Distrito Federal e cida-
des de “segurança nacional”. O governo modi-
ficava casuisticamente a legislação eleitoral a
lada de violência contra estudantes patrocinada cada novo avanço da oposição, reunida sob a
pela repressão do regime. sigla MDB (Movimento Democrático Brasileiro),
Setores das classes médias manifestaram dando artificialmente mais força ao partido de
repúdio pela violência. Liderada por Vladimir sustentação no Congresso, a Arena (Aliança
Palmeira e Luís Travassos, presidente da União Renovadora Nacional). O regime experimen-
Nacional dos Estudantes (UNE), a passeata tava seus últimos anos dando continuidade
percorreu as principais ruas do Centro. Foram à abertura que se arrastou pelos governos
aproximadamente seis horas de protesto contra Geisel e Fi­gueiredo, amargando a crise interna
o governo. Além de estudantes, a Passeata dos pelo des­gas­te político e a crise econômica que
100 mil contou com a participação de pro­ gerava arrocho salarial e altos níveis de desem-
fessores(as), operários(as), intelectuais, artistas, prego. A superioridade numérica da Arena no
jornalistas e membros da Igreja. Seis meses Colégio Eleitoral convinha para que o poder,
depois, em 13 de dezembro de 1968, a linha que seria entregue aos civis após o governo
dura vence as resistências dentro do próprio Figueiredo, fosse para mãos confiáveis.
governo, baixando o Ato Institucional no 5 (AI- Contra a transição continuísta, na esteira
5) e instaurando, sem subterfúgios, a ditadura. das grandes manifestações coletivas contra a di-
O fim do período ditatorial só aconte- tadura entre as décadas de 1970 e 1980 – como
ceria em 1985, com a Nova República, após o já citado movimento de trabalha­dores(as) do
longa agonia do regime que atravessou crise ABCD paulista e a campanha pela anistia –, a
econômica, inflação alta, pressão externa,

88 Democracia Viva Nº 23
Considerações acerca da cidadania das ruas

campanha pelas eleições diretas tornou-se um A campanha ganhou definitivamente


objetivo que aglutinou desejos e necessidades ares nacionais, ocorrendo comícios nas princi-
das parcelas da sociedade que lutavam pelo fim pais cidades do país: 400 mil pessoas em Belo
da ditadura. O marco inicial mais longínquo foi Horizonte, 1 milhão no Rio. Em 16 de abril,
o comício de Goiânia organizado pelo PMDB pouco antes da votação da emenda Dante
(Partido do Movimento Democrático Brasileiro), de Oliveira, houve o último comício, em São
em junho de 1983, reunindo aproximadamente Paulo, no Vale do Anhangabaú, com mais de
5 mil pessoas. Em 27 de novembro de 1983, o 1,5 milhão de pessoas, a maior manifestação
PT reuniu na Praça Charles Miller, em frente ao política já vista no país.
estádio do Pacaembu, em São Paulo, cerca de A campanha Diretas Já formou um
15 mil manifestantes – no mesmo dia morria povo, uma ampla aliança na sociedade que
o deputado Teotônio Vilela, um dos grandes exigia o último ato pela volta da democracia,
ícones da luta pela redemocratização. o estabelecimento de eleições livres para o
A campanha ganhava a adesão de pes- Executivo. Não foi apenas uma passeata em
soas e as ruas. Mas faltava ainda um grande que vários setores da sociedade aderem às
evento, corporificado em 25 de janeiro de reivindicações estudantis, não mais um estado
1984, dia do aniversário da cidade de São Pau- de greve que conta com o apoio de vários se-
lo, o primeiro grande comício da campanha. tores sociais; foi, sim, uma caminhada cívica,
Organizado pelo governador paulista Franco coletiva, política, com um objetivo expresso de
Montoro, o evento contou com a participação eleger pelo voto direto o mandatário máximo
das principais lideranças políticas da oposição da República e acabar com o arbítrio do poder.
– Ulisses Guimarães, Lula, Leonel Brizola, Fer- No entanto, na madrugada de 26 de abril de
nando Henrique Cardoso e Mário Covas –, além 1984, após 17 horas de discussão no Con-
de intelectuais, artistas, sindicalistas e entidades gresso Nacional, a emenda Dante de Oliveira
civis (partidos de oposição, UNE, Ordem dos é derrotada por 298 votos a 65.
Advogados do Brasil/OAB, Associação Brasilei-
ra de Imprensa/ABI, setores da Igreja etc.). O
Mundo novo
ato expressava um forte anseio popular. Basta
lembrar que, naquele dia chuvoso, cerca de As primeiras eleições para a Presidência só ocor-
300 mil pessoas compareceram à Praça da Sé, reriam em 1989, sagrando-se vencedor Ferna­ndo
Centro de São Paulo. Collor de Mello. Seu programa de go­verno refletia
uma nova conjuntura internacional, uma nova
Almir veiga/agência JB

Comício pelas Diretas Já, Candelária, Rio de Janeiro (1984)

AGO 2004 / SET 2004 89


CULTURA

ordem política e econômica organizada a partir desca­mi­sados(as) – expressão cuidadosamente


das transformações do capitalismo e do fim do construída para despoli­tizar as pessoas mise-
bloco socialista liderado pela ex-URSS. ráveis de todos os matizes – Collor prometia
Na “modernização” do Estado proposta a redenção. Aliás, era um discurso em nada
por Collor, estavam já embutidos os novos dita- contraditório com seu projeto político maior.
mes do capitalismo: o desmonte do Estado forte Denúncias de corrupção fizeram surgir o
que vinha sendo construído desde o primeiro perí- Movimento pela Ética na Política, liderado pelo
odo Vargas, responsável pelo desenvolvimentismo sociólogo Herbet de Souza (Betinho), iniciando
industrial e pelos ganhos sociais gerados pela campanha nacional pelo im­peachment do pre-
aliança dita “populista” entre traba­lha­do­res(as) sidente Collor, mobilizando numerosos setores
e setores industriais nacionais. Medidas como da sociedade brasileira, aglutinando forças
privatizações de estatais, redução do tamanho sociais representantes das diversas correntes
do Estado, liberalização do fluxo de capitais e políticas comprometidas com a democracia.
abertura para importações, flexibilização das Trabalha­do­res(as), centrais sindicais, partidos
leis trabalhistas, controle cambial, medidas de esquerda, movimentos sociais, estudantes,
recessivas que inibissem a inflação descontrola- intelectuais, artistas, enfim, os mesmos grupos
da, favorecendo um ambiente de tranqüilidade que antes haviam lutado pela redemocratização
financeira para os investimentos estrangeiros, do país exigiam, nesse momento, a apuração das
todas elas foram implementadas com furor denúncias e o afastamento de Collor. Engros-
semelhante ao do presidente em suas demons- sando o caldo, já em ebulição pelo trabalho da
trações públicas de vigor físico, sucedâneas da comissão parlamentar de inquérito (CPI) criada
energia do capitalismo triunfante. para investigar as denúncias e pelas declarações
O receituário que garantiria a credores de ministros do governo se dizendo “perplexos”,
internacionais que o Brasil continuaria pagando os dezenas de milhares de pessoas protestaram nas
serviços da dívida externa havia sido estabelecido
ruas das grandes cidades brasileiras, em manifes-
no país. Para espectadores(as) de suas aparições
tações que acabaram por tomar do presidente
públicas, Collor continuava afirmando sua can- o espetáculo midiático diário.
tilena para consumo ampliado, a do “caçador Mas a grande imprensa preferiu privile-
de marajás”, o inimigo de funcionários(as) do giar um determinado grupo, uma certa imagem,
serviço público que detinham “privilégios” e, a que fosse mais palatável, a de estudantes
por seus “altos salários e parasitismo”, atra­ secundaristas com rostos pintados de verde
van­c avam o caminho da modernidade. A e amarelo e vestindo preto, no justo protesto

Samuel Tosta/fórum social mundial 2002

Militantes no Fórum Social Mundial 2002

90 Democracia Viva Nº 23
Considerações acerca da cidadania das ruas

contra a cor­rupção, mas *Marcelo Carvalho


neutralizando, de certa Jornalista e pesquisador
forma, as críticas ao modelo do Ibase.
econômico que ora era im-
plantado. Um exemplo são
as críticas levadas adiante
em manifestações como as
que aconteceram no ABCD
pau­lista, onde trabalhado­
res(as) em greve paralisa-
vam as mais importantes
indústrias do país e que não
mere­ceram tanto destaque
nos noticiários.
A Câmara dos Depu-
tados aprovou o processo
de im­peachment, com 441
votos a fa­vor e 38 contra.
Collor foi afastado, assu-
mindo o vice-presidente,
Itamar Franco. Uma vitória
da institucionalidade de-
mocrática e da luta cidadã.
O Movimento pela Ética
na Política foi vitorioso e
se tornou o embrião da
Ação da Cidadania contra a
Miséria e pela Vida, surgido
em junho de 1993.
Vislumbramos,
hoje, uma nova fase para
a movimentação cidadã.
As novas tecnologias de
comunicação, informação
e translação e o combate e posicionamento com a participação de cerca de 100 mil pessoas.
crítico diante das formas dilapidadoras do ca- Em janeiro de 2004, o FSM foi realizado em Mum-
pitalismo contemporâneo estão fazendo surgir bai, na Índia, com cerca de 74 mil participantes.
uma nova cidadania, desta vez planetária. E um A quinta edição volta a ser em Porto Alegre, em
novo povo se inventa onde não havia, no espaço janeiro de 2005. São números expressivos, ainda
de afirmação de lutas transnacionais, em um mais se conta­bilizarmos também os eventos pa-
internacio­nalismo de ação e intervenção social. ralelos e os fóruns regionais e temáticos ao redor
Uma globalização em curso, a contraparte à do mundo.
esquerda das movimentações financeiras ao Talvez a grande contribuição do FSM
redor do globo. Esse movimento hoje se agrupa tenha sido, até agora, o fato de ter propiciado
ao redor do processo do Fórum Social Mundial um eixo ao redor do qual os setores organizados
(FSM), que se constrói como espaço de reflexão da nascente cidadania planetária têm podido
e organização, contribuindo para a formulação aprofundar a capacidade de organização e
de alternativas de desenvolvimento sustentável. mobilização em escala global. Uma cidadania
A participação é crescente desde o primeiro não definida pela cultura de origem nem pela
evento central do FSM. As três primeiras edições etnia, território ou língua, mas irredutivel­mente
ocorreram em Porto Alegre, sempre em janeiro. Em diversa e plural.
2001, aproximadamente 20 mil pessoas participa-
ram, com representantes de 117 diferentes países.
A versão do ano seguinte ampliou o número de
países com delegação para 123, e mais de 50 mil
pessoas participaram. O evento de 2003 contou

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