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A Serviço da Vida

Uma revista a serviço do trabalho


com as constelações sistêmicas segundo
Bert Hellinger

Fascículo 0
Sumário
• Prefácio à primeira edição brasileira com
três fascículos da revista Alemã.
• Prefácio
• Sobre a origem da revista Bert Hellinger
• O que a revista Bert Hellinger oferece
• Ajudar às crianças
• Homem e mulher
• Atualidades
• Meditação
Prefácio

Maria-Sophie Hellinger

Giordano Bruno foi considerado o a em seus cursos. Não pode dá-la grande inconveniência. Logo sur-
maior criminoso e herético de to- a ninguém, porém é , capaz de ge um significativo campo de ten-
dos os tempos e queimado vivo uma construir um campo em seus cur- sões. O novo, porém, apenas se
vez que afirmou que o mundo não sos, de maneira que outros tam- apresenta, quando alguém ousa
era o centro do universo e que os bém sejam capazes de ter uma no- experimentá-lo. Lá, onde o novo
planetas não giravam em torno do ção do que pode ser esta realida- não existe e tudo é regido pela
mundo e sim em torno do sol. de. Isto, no entanto, requer uma ordem, logo se estabelece a mo-
Isto aconteceu há 500 anos determinada notonia.
atrás. Hoje em dia é diferente? Sim! postura. Algu- Bert Hellinger é um mestre da
Ninguém mais é queimado. mas pessoas vol- liberdade de valores, da adaptação
Se alguém, porém, ousar apro- tam transformadas e do centro, que se une ao seu
ximar-se do limite do limite do após a participação em um entorno e utiliza-o, deixando-o,
imaginável isto é sempre conside- curso. porém, intocado. Mesmo que nin-
rado uma pertinência e para mui- Bert Hellinger teve a coragem guém possa dar nada ao outro des-
tos significa um desafio. Alguns de trazer algo de novo à luz. Algo ta outra realidade, penso que Bert
nem mesmo o suportam. que estava velado até então e que Hellinger deu-nos algo valoroso e
Bert Hellinger aproximou-se freqüentemente atua de maneira que através dele podemos apren-
deste limite, ultrapassou-o e olhou destrutiva. Para muitos isto signifi- der algo: de onde a vida vem,
para outra realidade, vivenciou-a, ca um ganho importante, enquanto como concordar com ela e como
experimentou-a e nos apresentou- que, para outros representa uma encontrar a paz e o sucesso.

Prefácio à primeira edição brasileira com três


fascículos da revista Alemã.
Em Agosto de 2005 tivemos a a ele sobre sugestões para uma nos pusemos a trabalhar com gran-
honra de recebermos em Belo Ho- revista brasileira sobre o tema das de afinco para que tudo saísse a
rizonte a visita de Bert Hellinger, constelações e se ele nos daria tempo do novo evento.
após um convite para o qual nos permissão para traduzir artigos de Essa revista sai em sua primei-
preparamos por um ano. sua revista para o português. A ra edição no formato eletrônico.
Naquela ocasião, Bert nos pre- resposta como sempre foi afirma- Acreditamos que as edições poste-
senteou com um rico workshop ba- tiva, e ainda nos deu várias su- riores possam sair em formato du-
seado no tema de relacionamento gestões sobre a inclusão de arti- plo — eletrônico e papel.
de casal, o lançamento do livro “Or- gos de autores brasileiros. A riqueza do material incluído
dens da Ajuda” e muitas conversas Recebemos então em Setembro nesses três fascículos e sua clareza
pessoais sobre diversos temas. uma nova surpresa, com um convi- nos surpreendem.
Naquele momento comentamos te de Bert para um novo workshop Esperamos que esses textos sur-
com ele sobre sua nova revista, no Brasil em 2006, desta vez com preendam o leitor da mesma for-
“A serviço da vida”, que havía- o tema “Saúde e Doença na Família ma que nos tocaram.
mos visto em Colônia em Maio - o que leva à doença e o que apóia
daquele mesmo ano. Perguntamos a cura”. Aceitamos prontamente, e Equipe Editorial – Editora Atman.
Sobre a origem da
revista Bert Hellinger
A constelação familiar já passou
Ajudar às crianças
por muitas mãos.
Freqüentemente é utilizada de A torneira está pingando
maneira positiva, outras vezes,
porém, de forma negativa. Pais às vezes têm problemas porque para que ele as contasse exatamente
Por exemplo, quando alguém seus filhos já mais velhos molham a da mesma maneira sem acrescentar
faz referência ao meu nome e às cama durante a noite. Podemos contar ou retirar algo. Tratando-se destas
histórias para tais crianças inserindo modificações, no entanto, não protes-
minhas afirmações, mesmo pequenas cenas, onde, por exemplo, tou e aceitou-as como se fizessem
estando muito longe do meu fecha-se uma torneira de água ou con- parte da história. Neste exemplo ve-
conhecimento e das ações que certa-se uma calha. mos que a sábia alma da criança alia-
dele resultam. Portanto julgo Chapeuzinho vermelho, por se ao narrador. A alma almeja a solu-
ser pertinente posicionar-me exemplo, chega à casa da avó, quer ção sem que esta lhe seja dita aberta-
entrar pela porta e percebe que a ca- mente, de modo que a criança sinta-
para corrigir mal entendidos e
lha está pingando. Diz a si mesmo: se encorajada a colocar em prática o
falsificações. “Antes vou concertar esta goteira”. novo através do seu conhecimento.
Mas principalmente pretendo Entra no galpão, busca um pouco de É evidente que a criança perce-
oferecer um auxilio de vida para piche, pega uma escada, sobe, con- beu o que o pai disse pois do contrá-
o dia a dia a um grande número certa a goteira para que não molhe a rio a história não teria surtido efeito.
pessoas, que vai além do campo entrada e depois desce para visitar a Mas como o pai não falou diretamen-
sua avó. te sobre o problema e respeitou o
da psicoterapia. Quero mostrar
Ou então no conto de branca de sentimento de vergonha da criança,
como o amor e a vida podem neve e os sete anões um pequeno anão ela sentiu-se respeitada por ele ter
ser mais bem sucedidos com queixa-se de manhã, que entrou chu- tido tamanha delicadeza com ela e
mais facilidade no dia a dia. va pelo telhado durante a noite e que pôde reagir.
acordou totalmente molhado em sua A criança sabe que molha a cama.
cama. Branca de neve lhe diz: “Con- Isto não precisamos lhe contar. E sabe
O que a revista Bert certarei o telhado imediatamente.” também que não deve molhar a cama.
Enquanto os anões trabalham, bran- Isto também ninguém precisa lhe di-
Hellinger oferece: ca de neve sobe no telhado, vê que zer. Se lhe damos um conselho ou
1. Algo para você pessoalmente: apenas uma telha tinha saído do lu- abordamos o seu problema sente-se
Orientação em: questões de gar e coloca-a de volta. Quando o inferior. Se a criança segue o conse-
relacionamento, de destino pessoal, e anão volta para casa de noite está tão lho, a auto-estima dos pais aumenta
de sabedoria de vida. cansado que esquece de perguntar enquanto que a sua auto-estima di-
sobre o telhado. Na manhã seguinte minui. A criança protege-se contra a
2. Conselhos:
também se esquece, pois tudo está perda de auto-estima recusando o
...como, por exemplo, se pode ajudar
bem. conselho. Exatamente pelo fato de
a crianças.
...o que pode renovar e aprofundar
Um pai cuja pequena filha molha- nós termos lhe dado um conselho, à
relacionamentos. va a cama contou estas histórias para criança precisa fazê-lo de forma dife-
...como o passado pode ser útil para ela e registrou um efeito imediato. Na rente para manter sua dignidade. A
o futuro. manhã seguinte a cama da menina es- dignidade é o que existe de mais im-
tava seca. Neste contexto observou, portante para cada pessoa. Também
3. Respostas a questões porém, outra coisa peculiar. para uma criança. Apenas quando a
palpitantes: Antes, quando contava criança sente um amor profundo no
Neste contexto trata-se sempre de histórias para filha, esta conselho pode segui-lo.
apenas um ponto e uma questão – sempre prestava atenção
direcionados sempre às possibilidades
imediatas.

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Resposta ao tema:
Querida Maria-Sophie, interrompeu a constelação. Eu fiquei in- vivem em simbiose com a criança por
dignada e com muita raiva de você. Não tanto tempo. Logo não experimentam
Há meio ano atrás lhe procurei e parti-
havia entendido nada. Até hoje não en- mais o poder como sendo um poder
cipei de uma constelação familiar por-
tendi nada. O resultado, porém, para mim próprio e sim como um poder a serviço
que meu filho de 14 anos ainda mo-
é mais surpreendente: Desde esse dia da criança por um determinado tempo.
lhava a cama. Havia experimentado
Manuel nunca mais molhou a cama. Mes- Um tempo atrás estive em um curso
tudo com o meu filho e o havia levado
mo sem entender como isso atuou, agra- do qual participou, também, uma mu-
para diversos médicos, homeopatas e
deço-lhe de coração. lher com uma criança de cinco meses
outros terapeutas. Tudo sem sucesso.
Durante o seminário coloquei o que a qual ela segurava próxima ao peito.
relatei a cima como sendo a minha Ela estava sentada do meu lado. Eu lhe
O que deixa as crianças felizes? disse: “Olhe para além da criança, para
questão na presença de todos os parti-
cipantes. Você então me disse que não Quando os seus pais alegram-se com elas. algo bem distante que está por trás dela.”
poderia ter falado isto na presença do Ambos os pais. Quando ambos os pais Ela olhou para além da criança. De re-
meu filho e em frente de outras pes- alegram-se com a criança? Se através da pente a criança respirou aliviada e sor-
soas. Logo me irritei. Como então o criança, respeitam e amam o parceiro – riu para mim. Ficou feliz. Assim ambos
deveria ter feito? Sem mais comentári- homem ou mulher - e alegram-se com tornam-se mais livres, tanto os pais quan-
os você posicionou o menino e me ele. Falamos muito sobre o amor. Como, to as crianças. Ambos podem entregar-
posicionou como representante de sua porém, o amor revela-se da maneira mais se mais facilmente as suas destinações
mãe e seu pai. Mostrou-se claramente bonita? Quando me alegro com o outro e alegrar-se através delas e conseguem
que Manuel sentia-se atraído apenas por da maneira como ele é. E quando manter o desapego necessário em rela-
seu pai. Logo você me perguntou so- alegramo-nos com a criança exatamente ção ao outro.
bre o seu pai. Eu disse que havíamos como ela é. O que é aquilo - o distante - para onde
nos separado e que os dois filhos do Neste caso os pais de repente pas- a mulher olhou? É o destino, o seu des-
primeiro casamento estavam comigo. sam a experimentar o poder que têm tino e o da criança. E é algo que está
Você falou que seria importante e ne- sobre as crianças como uma tarefa. Prin- ainda mais além do destino. É algo que
cessário para o menino que fique com cipalmente as mães experimentam este permanece velado para nós. Diante
o seu pai. Depois você simplesmente poder de maneira intensa, uma vez que, dele permanecemos humildes.

Homem e Mulher
Eu te amo
Quem pode dizê-lo? “Eu te amo.”? O que se Aqui deparamo-nos tam-
passa na alma de alguém quando diz tal frase? bém com o medo da dúvida
O que se passa na alma do outro a quem essa se somos capazes de suportar tal fra-
frase é dita? se e se concordamos com ela em toda
A alma de quem a diz verdadeiramente treme. sua extensão, se podemos abrir-nos
Nela acumula-se algo, cresce como uma onda e para ela, independente se a dizemos ou
arrasta-o. Ele talvez se defenda contra ela por se é dita a nós.
medo sobre onde pode estar levando-o, sobre Não existe, porém, frase mais bonita. Não existe frase que
qual será o seu destino. A outra ou o outro, a nos toca tão profundamente e nos liga tão intensamente a
quem a frase é dita, também treme. Pressente o outra pessoa.
que mudará dentro deles, as responsabilidades È, também, uma frase humilde. Através dela tornamo-nos
que traz consigo e como determinará suas vidas pequenos e grandes ao mesmo tempo. Tornamo-nos pro-
para sempre. fundamente humanos.

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Atualidades
Anorexia Bulimia
No caso da anorexia revela-se (Comer e vomitar)
freqüentemente que a pessoa
que tem anorexia diz interna-
mente: “Prefiro ir em seu lu-
gar”, no sentido de uma sal- Quando pessoas com anorexia melhoram freqüentemente
vação. O motivo da anorexia tornam-se bulímicas. Isto significa que comem e posteri-
freqüentemente é um senti- ormente vomitam o que comeram. Aqui se revela uma
mento de solidariedade com luta interna entre a vontade de partir e a de ficar. Quan-
uma pessoa excluída ou que es- do uma menina ou uma mulher ainda não conseguiu li-
teja retirando-se ou com alguém vrar-se totalmente da bulimia, então come. Assim diz in-
que esteja desaparecendo ou que seja culpado de algo. ternamente: “Eu fico.” Depois, porém, vomita a comida e
Freqüentemente esta pessoa é o pai. Situações em que diz internamente: “Eu parto”. A solução para a menina
isto pode ocorrer são: quando o pai está mais conectado ou a mulher, que sente vontade de vomitar a comida, é
com a sua família de origem ou se ele tende a movimen- dizer ao pai: “Eu fico.”
tar-se para fora da família por outro motivo, por exemplo, No caso da bulimia existem, também, outras dinâmicas.
por causa de outra mulher, mas também pelo desejo de Quando a mãe diz aos filhos: “tudo que vem do pai de
morrer. vocês, não presta. Devem aprender apenas de mim”, isto,
O que pode ajudar a uma pessoa com anorexia? Se o por exemplo, pode levar à bulimia. Então a criança acei-
pai lhe diz: “Eu fico e me tornarei feliz se você ficar entre ta a comida da mãe, em lealdade a ela e a vomita em
nós.” De um modo geral uma pessoa com anorexia está lealdade ao pai. Essa forma de bulimia pode ser curada
mais segura perto de sua mãe. A mãe pode lhe dizer: “Se- quando a criança aceita a comida de ambos os pais. Prin-
guro-a para que fique”. cipalmente do pai.

Permanecer no amor
Gostaria de dizer algo sobre o amor. Algo tros, como é, com a criação assim como permanecer no amor.
diferente do que vocês talvez estejam é, exatamente da maneira como é. Isto implica também em
esperando. Às vezes ouvimos a frase Do mesmo modo também a luta faz par- conseqüências para o nos-
“Permaneçam no amor!” O que significa te dessa vida. A vida de cada indivíduo so dia a dia. Quem perma-
isto? Permanecer no amor? Conhecemos disputa o lugar com a vida dos outros. Se nece no amor desta manei-
o amor que vincula. Através de um amor permanecermos no amor, amamos tam- ra pode assistir a tudo como
especial estamos vinculados aos nossos bém os opostos, a luta, a vitória e a der- é: à felicidade e ao desas-
pais, ao nosso parceiro e também aos rota, viver e morrer, os vivos e os mor- tre, à vida e à morte, ao
nossos filhos. Como estamos ligados a tos, o passado da maneira como foi, o emaranhamento e ao sofri-
estas pessoas desta maneira, estamos ao futuro da maneira como vem, exatamen- mento. Como ama o todo e está entre-
mesmo tempo, separados de outras. te como vem. Neste amor tornamo-nos gue ao todo, uma vez ou outra, atua den-
Permanecer no amor significa que tudo amplos e entramos em sintonia e con- tro deste fluxo de vida, porém, sem
é amado da maneira com é, que tudo é cordância com tudo. assoberbar-se permanecendo sempre em
acolhido na alma da maneira como é. Sig- Este amor é a entrega para o todo. É a sintonia e na aceitação. Quem ajuda desse
nifica que concordamos com tudo da religião essencial. Neste amor somos re- modo, permanece isento de preocupações.
maneira como é e o amamos como é, pletos, serenos, podemos assistir a tudo E é livre. Aqueles a quem ajudam também
exatamente como é. Significa também, como se desenvolve, entregamo-nos ao são livres. Todos possuem sempre o mes-
que concordamos com toda a vida como próprio destino e respeitamos o destino mo tamanho e a mesma importância. No
ela é, exatamente como é: com a própria dos outros e o destino do mundo. Estar todo não há quem seja melhor ou pior. No
vida assim como é, com a vida dos ou- entregue ao todo deste modo significa todo existimos simplesmente.

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Meditação
O fluxo da vida
Fechamos os olhos e recolhemos-nos ao gar e pelo preço que me custe. Seguro- Em segundo lugar na medida em
nosso centro. Vemos-nos como crianças a com firmeza e devoção e transmito-a que não transferimos nada do nosso co-
diante da nossa mãe e do nosso pai. em sua plenitude e nas condições em nhecimento e dos nossos desejos que
Olhamo-los com a devoção com que as que possa e seja capaz de transmiti-la”. possuímos até então para a situação para
crianças pequenas olham para os seus Depois apoiamos-nos em nossos pais assim caracterizá-la e sim abrindo-nos de
pais, com os olhos bem abertos e com o dos quais tomamos a vida por inteiro. forma desprovida de intenções para que
amor mais profundo. A maior entrega que Olhamos para frente e repassamo-la tudo possa fazer efeito sobre nós com
já presenciamos em toda nossa vida foi como sempre: a filhos próprios, a netos toda sua complexidade e suas supostas
esse olhar para a nossa mãe e o nosso próprios, a todas as inúmeras gerações contradições. Permanecemos assim até
pai. Talvez, posteriormente algo o tenha que nos seguem. Ou, se não temos fi- que se estabeleça uma ordem dinâmica
interrompido, agora, porém, voltamos a lhos, repassamo-la de outra maneira, em dentro dessa multiplicidade diante do
este amor original. serviço à vida. A vida nos atravessa e nosso olhar interno para que o essencial,
Olhamos para os pais e por detrás continua fluindo. Na medida em que nos o próximo passo, o reconhecimento de-
deles enxergamos os seus pais, e por atravessa estamos mais profundamente cisivo revelem-se.
detrás destes os pais destes pais, e assim ligados a ela. Porque a vida, assim como Portanto a clareza não é tanto obti-
em diante – no final um número infinito. o amor flui. da. Ela é dada àquele que é capaz de
Através dessas inúmeras gerações a esperar de forma distanciada, porém,
vida flui até os nossos pais e através de- envolvida. Nasce daquilo que vemos
les nos alcança. É a mesma vida. Todos como massa caótica, às vezes aparece
que a receberam e a passaram a diante o
fizeram corretamente. Ninguém podia
A clareza em forma de relâmpago que por um
minuto clareia o entorno dentro do qual
acrescentar algo, ninguém podia retirar temos que movimentar-nos e seremos
algo. A vida flui em toda sua plenitude A clareza é abrangente. Desvenda os bem sucedidos.
atravessando todas estas gerações. Para contextos mais amplos, as circunstânci- A clareza mantém-se enquanto agimos
a nossa vida não faz diferença, como era as, as possibilidades, as conseqüências. E de acordo e muda na medida em que
cada um desses indivíduos, se foram pes- sempre é reconfortante. E também não atuamos. Apenas quando atuamos torna-
soas boas ou más, reconhecidas ou des- precisa provar nada porque embora seja se totalmente clara. Por este motivo não
prezadas. No serviço à vida foram todas clara não tem ponto de vista. Podemos se pode ensiná-la ou mesmo prová-la na
iguais. Dessa forma a vida também al- dizer também que justamente pelo fato teoria. É clara para aqueles que agem de
cançou o meu pai, a minha mãe e atra- de ser clara não possui ponto de vista acordo com ela e é clara principalmente
vés do meu pai e da minha mãe chegou uma vez que apenas o estreito necessita para aqueles que agem conjuntamente
até mim. do ponto de vista para distinguir-se. A e de acordo com ela. Aprimora-se e
Agora abrimos o nosso coração e a clareza por ser clara é, também, ampla. aprofunda-se através da ação.
nossa alma para a plenitude da vida como Como obtemos clareza? Primeiro na
ela nos alcançou através da nossa mãe e medida em que nos recolhemos para que
do nosso pai. E dizemos: “Obrigado (a). aja espaço entre nós e a situação sobre a
Tomo-a de vocês. Tomo-a inteiramente, qual queremos adquirir clareza. Apenas
pelo preço que vocês tiveram que pa- assim ganhamos uma visão geral.

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Respostas a perguntas feitas Observação: O homem certo e a mulher ...falarei a meu respeito pela
por carta: certa raramente são encontrados. O bom primeira vez
A seguir encontram-se respostas a per- homem e a boa mulher geralmente são
guntas que me foram apresentadas. Mui- suficientes. Começarei pelo o meu passado. Vivenciei
tas das perguntas foram feitas por pes- o nacional-socialismo do início ao fim.
Para uma mulher que gostaria de
soas que eu nem mesmo conhecia. As Portanto sou uma das poucas testemu-
minhas respostas limitam-se à essência ter um homem nhas da época que estão vivas. Sei do
das perguntas e, portanto, são breves. São, Como você pode encontrar um homem? que estou falando.
porém, respostas que demonstram um Respeite os homens e um deles encon- Ainda me lembro exatamente quan-
posicionamento e oferecem soluções. trará você. do uma noite meu pai entrou pela porta
Estas respostas podem ser lidas como de casa após o trabalho e disse a minha
pequenas histórias, uma vez que cada mãe: “Hitler é Chanceler do Reich”. Es-
uma delas contém um destino velado.
O que deve ser levado em consi- tava muito apreensivo. Ele tinha uma
deração na diferença de idade noção do que isto significaria para nós.
Para um casal que não conseguia Aos 37 anos a diferença de idade ainda Pouco depois sentimos na própria pele
decidir-se: não é tamanha que chega a prejudicar o que significava. Morávamos em Colô-
Esta é uma história para vocês. um relacionamento. Você não vai querer nia e num dia de domingo queríamos
Alguém ouviu dizer como é bom andar escolher a mais nova de todas. A seguin- fazer um passeio para as montanhas.
de carro, principalmente quando se está te orientação serve como regra: Se am- Fomos à missa matinal e quando saímos
acompanhado. Ele decide primeiro olhar bos tem um futuro pela frente então da igreja esperamos pelo bonde. Então
os diferentes modelos. Assim vai a diver- existe uma base comum para eles. Quan- um integrante da SA (Strumabteilung-
sas concessionárias, olha as ofertas e ve- do, porém, um dos parceiros já viveu o tropa de assalto) aproximou-se do meu
rifica suas particularidades. É verdade que que se chamaria de “seu futuro” e o ou- pai e fez um comentário desaforado. Meu
para quem quer andar todos os modelos tro ainda não, então o conflito está pre- pai também fez um comentário. Por con-
servem, existe, porém, sempre algo a destinado. Um dos parceiros sente-se na seguinte o integrante da SA se pôs a gri-
reclamar aqui e ali. E assim ele decide posição de ter abdicado do seu futuro e tar com o meu pai e queria prendê-lo.
esperar mais um ano. No ano seguinte se vingará por isto. Podemos observá-lo Neste momento o bonde chegou. Meus
faz o mesmo e assim após três e quatro quando um homem mais velho que já pais e nós – três crianças – entramos no
anos. No meio tempo até chegou a soli- foi casado e tem filhos relaciona-se com bonde rapidamente. O condutor fechou
citar férias mais longas para poder co- uma mulher mais nova. a porta imediatamente e o bonde partiu.
nhecer também os modelos de carros em O integrante da SA, no entanto, subiu em
outros países. Durante todos esses anos, Ultimamente muitos se sua bicicleta e aos berros seguiu o bon-
porém, ainda andava a pé. Mas de re- de. O condutor do bonde não parou na
pente perdeu a paciência. Neste momen- pronunciaram a meu estação seguinte e continuou até que ti-
nha se livrado do homem que nos per-
to precisava de um carro imediatamente respeito, seguia. Os passageiros aplaudiram. Na-
mesmo que não fosse o melhor nem o
mais novo modelo. Tinha tanta pressa em freqüentemente sem me quela época isto ainda era possível em
obtê-lo que atravessou um cruzamento Colônia. Mais tarde, porém, não. Naque-
com o sinal aberto. Um caminhão tentou
conhecer e sem conhecer la época eu tinha sete anos.
frear, mas era tarde demais. Matou-o. o meu trabalho.
Portanto...

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Com dez anos de idade entrei para alguma coisa, eu sabia. Então, durante a o negam o certificado de conclusão do
um internato em Lohr am Main. Para conversa, ele disse: “Hegel previu o Es- segundo grau?” O diretor envergonhou-
fazer o segundo grau, porém, freqüentei tado como o temos hoje.” E eu disse: se e entregou-lhe o meu certificado de
o colégio da cidade. Um pequeno episó- “Pelo meu conhecimento, Hegel odiava conclusão de segundo grau. Minha mãe
dio mostrará como era o internato para o Estado”. Então, subitamente, ele falou: lutou por mim como uma leoa.
onde eu tinha entrado. Após a adesão da “O senhor odeia o Estado”. Logo percebi Eu, então, estava na Wehrmacht, ativo
Áustria à Alemanha houve um plebisci- que se tratava de um interrogatório da na frente oeste. Muitos dos meus cama-
to. Aparentemente alguns padres do in- Gestapo. Um ano depois a nossa turma radas morreram ou foram gravemente
ternato e algumas irmãs que trabalhavam recebeu o certificado de conclusão do feridos. Eu mesmo, muitas vezes, esca-
na cozinha haviam votado “não”. Não era, segundo grau por correio. Eu, neste meio pei da morte por pouco. Por exemplo,
porém, uma votação sigilosa. Os votos tempo, já servia a Wehrmacht, e estava quando tivemos que atravessar um cam-
foram interceptados. A noite teve uma estacionado na França. O último ano do po minado por falta de outra saída.
grande passeata da SA e em seguida um segundo grau nós foi dado, uma vez que, Quando chegamos a Aachen fui man-
grupo de integrantes da SA posicionou- estávamos todos na Wehrmacht. Foi, dado para um acampamento em
se em frente à casa que era o internato. porém, requisitado um certificado de Charleroi na Bélgica como prisioneiro de
Com letras maiúsculas rabiscaram nos conduta do Arbeitsdienst. guerra dos Americanos. Éramos 1600 pri-
muros: “Aqui moram traidores” e “vota- A mim o certificado de conclusão do se- sioneiros e trabalhávamos 10 horas por
mos no não”. Depois quebraram cerca gundo grau foi negado uma vez que no dia em um enorme depósito americano.
de 200 vidraças a pedrada. As pedras meu certificado de conduta do A mando de Eisenhover, porém, só rece-
atingiram também o dormitório onde es- Arbeitsdienst estava escrito: Trata-se de bíamos a metade das calorias necessárias
távamos dormindo. Na manhã seguinte um sujeito anti-social, que potencialmen- para este trabalho, o que servia de casti-
dois padres foram submetidos à deten- te pode prejudicar o povo. Vocês podem go para os Alemães.
ção cautelar e nós saímos de férias. imaginar o que isto significava naquela Alguns de nós tiveram a coragem de
época? Significava: Ele está liberado para fugir. Foram pegos e imediatamente
Em 1941 este internato foi fechado. Eu
ser morto. posicionados contra a parede e mortos a
fui a Kassel (Alemanha) para onde os
Tudo que hoje em dia, às vezes, tiros. Um ano depois eu também tentei
meus pais haviam se mudado no meio
acontece comigo fatalmente me lembra a fuga e consegui. Pouco antes do meu
tempo. Lá freqüentei o segundo grau.
essa situação. aniversário de 20 anos estava, finalmen-
Aderi a um grupo pequeno do movimen-
Quando a minha mãe soube do ocor- te, livre. Meu irmão, porém, permane-
to da juventude católica que, porém,
rido foi até o diretor do colégio e disse: ceu na guerra. Eu já não corria mais peri-
havia sido proibido muitos anos antes.
“Meu filho está servindo na Wehrmacht. go porque a Alemanha havia perdido a
Aparentemente éramos observados pela
Está colocando sua vida em jogo e vocês guerra. De modo contrário não estivaria
Gestapo (polícia secreta do Estado).
seguro. O sofrimento decorrente dos da-
Após a sétima série a turma inteira teve
nos psicológicos, no entanto, está pre-
que entrar para o Arbeitsdienst (serviço
sente diariamente.
de trabalho do Reich) e depois para a
Quantas pessoas que me agrediram
Wehrmacht (forças armadas). Bem no
não vivenciaram nada parecido na própria
início da minha estadia no Arbeitsdienst,
pele e tiveram que se defender contra um
uma noite um dos supervisores entrou
sistema totalitário sob perigo de vida?
pela porta, veio diretamente em minha
direção e envolveu-me em uma conver-
sa. Era da Gestapo. Eu, porém, naquela
época não o sabia. Envolveu-me numa
conversa sobre Nietsche e Hegel. Natu-
ralmente, com 17 anos de idade eu sabia
apenas muito pouco a respeito. Porém,

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rar.” De repente foi possível ver como consciência tranqüila e de que são
O presente vítima e agressor no fundo eram uma inocentes. Pensam que a sua boa
unidade ligados por um amor profun- consciência dá-lhes o direito de agre-
do. Como isto era possível? Tanto os dir os outros e até aniquilá-los. Todos
Agora quero voltar-me para o presen-
agressores como as vítimas puderam os grandes conflitos obtêm sua força
te. Porque existem tais ataques e ca-
ver que estavam entregues a uma for- da consciência tranqüila. O desejo de
lúnias contra a minha pessoa? A prin-
ça maior que atuava por detrás de- aniquilação de um grupo contra um
cipal acusação é que eu reconheço,
les. Um dos agressores disse: “Sinto- outro se origina na consciência tran-
também, um agressor como ser huma-
me como se fosse um dedo de uma qüila de cada um. Ambos os lados
no assim como a mim mesmo. Esta é a
mão poderosa que pertence a um possuem uma consciência diferente
maior inconveniência. Como cheguei
poder ao qual estou totalmente en- que é, porém, sempre tranqüila.
a assumir tal postura?
tregue.” Desta maneira servi a paz em mui-
Em primeiro lugar porque me sin-
Esta foi a primeira experiência tos países. Na Espanha, por exemplo,
to na sucessão de Jesus. Ele sentava-
deste tipo. A partir desse momento existia o mesmo movimento no con-
se à mesa com os pecadores. Por este
eu não pude mais enfrentar os flito entre Espanhóis e Bascos. O
motivo outros se incomodavam. Ele
agressores como se fossem diferen- Basco que constelou este conflito es-
aboliu a diferenciação entre o bom e
tes ou como se fossem inumanos ou tava aberto para esta reconciliação.
o mau. Por exemplo, quando disse:
como se não fossem, também, incen- Mas no dia seguinte alguém lhe pas-
“Sejam misericordiosos como também
tivados por uma força maior que atua sou um bilhete escondido ameaçan-
o pai de vocês é misericordioso. Ele
por detrás deles. do-o de morte. Por quê? Porque ele
faz nascer o seu sol sobre maus e
Apenas através do reconhecimen- queria superar a separação.
bons, e faz chover sobre justos e in-
to que vítimas e agressores são mu- Tive uma experiência parecida
justos.” Este é o amor em sua essên-
tuamente atraídos fui capaz de servir com os descendentes dos partidos da
cia que não exclui mais ninguém.
à paz em diversos países. Primeiro em guerra civil na Espanha. Porque o
Um segundo aspecto foi impor-
Israel. Fui convidado três vezes para conflito continua de forma velada e
tante pra mim. Eu pude ver através
cursos em Israel. Lá eu fiz exatamen- muitos esperam que finalmente se
do meu trabalho que existe uma for-
te o que descrevi aqui. Posicionei as possa ter paz.
te ligação entre agressor e vítima. A
vítimas e os agressores uns de frente Assim foi também em vários ou-
primeira vez que o percebi foi duran-
para os outros. Também aqui foi pos- tros países. Isto me dá força de conti-
te um curso em Berna. Um homem
sível observar como precisavam se nuar andando por este caminho in-
havia posicionado sua família. De-
movimentar na direção dos outros. dependente do que os outros falam
pois disse: “Tenho que falar mais uma
Não tinham como escapar deste mo- de mim. Unir o que estava separado
coisa. Eu sou judeu. Ninguém da mi-
vimento. é o processo essencial de cura den-
nha família, porém, morreu. Nós vi-
Uma grande experiência que fiz du- tro das famílias como podemos ob-
víamos na Suíça.” Mas a sua mãe ha-
rante estas constelações foi que os mor- servar nas constelações familiares. E
via-se suicidado e ele também corria
tos - as vítimas mortas e os agressores também entre grupos rivais.
perigo de suicídio. Era possível ob-
mortos - podem e querem encontrar-se
servar que ele e sua mãe no fundo
a não ser que seus descendentes assu-
da alma estavam intimamente ligados A Serviço da Vida
mam a questão destes mortos e quei-
às vítimas judias. Uma revista a serviço do trabalho com
ram repetir todo o drama novamente.
Depois eu simplesmente posicio- as constelações sistêmicas segundo
Assim impedem a reconciliação. A mes-
nei sete representantes para os judeus Bert Hellinger
ma experiência fiz também na Turquia
assassinados e atrás deles, há 2 Com artigos da revista alemã
no conflito entre Turcos e Armênios. E
metros de distância, sete representan- “HellingerZeit Schrift”- revista trimestral
no Japão quando posicionei vítimas e
tes para os assassinos. Depois deixei alemã de autoria de Bert Hellinger e
agressores de um grupo junto com as
que os representantes das vítimas se Marie-Sophie Hellinger.
vítimas e os agressores do outro gru-
virassem para os agressores e não Reprodução autorizada.
po. Quando damos espaço aos movi-
interferi mais. Surgiu um movimento Direitos autorais para o português da
mentos da alma, vimos e sentimos que
do fundo da alma entre vítimas e Editora Atman.
no fundo a alma deseja a reconcilia-
agressores. Os agressores estavam Tradução: Filipa Richter
ção. Quer unir o que estava, até então,
tomados por uma dor imensa. Quan- Revisão: Tsuyuko Jinno-Spelter
separado.
do avistaram as vítimas estenderam Diagramação: Virtual Edit
O que contraria este movimento? Coord. Editorial: Décio Fábio de
as mãos em direção a elas e as abra-
A petulância da consciência tranqüi- Oliveira Júnior
çaram. Um dos agressores disse: “Esta
la. Todos estes atos graves, todos es-
é apenas uma vítima. Há outras cen- Revista 0 – edição alemã em 05/2005
ses ataques partem de pessoas que
tenas de vítimas que tenho que enca-
estão convencidas de que possuem a

10
A Serviço da Vida

Uma revista a serviço do trabalho


com as constelações sistêmicas segundo
Bert Hellinger

Fascículo 1
Sumário
• Prefácio
• Ajudar às crianças
• Homem e mulher
• Crescimento Interior
• Meditação
• Atualidades
• Entrevista
• História
Prezados leitores,

O 5º congresso internacional de constelações sistêmicas 2005 em Colônia reuniu mais de


mil participantes de 40 países. Mostrou de forma impressionante como a constelação familiar e
as experiências novas adquiridas através desta vem sendo mundialmente reconhecidas.
Através de diversas palestras e seminários vimos o nível de diversidade com o qual a cons-
telação familiar evoluiu. Para muitas pessoas tornou-se um auxílio de vida e abriu diversas
portas.
A palestra com o título “Como o divino cresce em nós” proferida no último dia do congresso
pelo Irmão David Steindl-Rast foi particularmente comovente. Irmão Steindl-Rast é beneditino
e vive nos Estados Unidos. Sua palestra tocou os participantes de modo especial, demonstran-
do que por trás de todo ato de ajuda procura realizar-se algo de essencial que transcende todos
os limites impostos por nós, conectando-nos em um nível profundo. Há muito tempo os parti-
cipantes esperavam por algo assim. Irmão David autorizou-me a publicar o artigo proferido em
Colônia nesta revista. Lendo-o terão a possibilidade de compartilhar a comoção dos ouvintes
da palestra. Em outubro do ano passado eu e meu amigo Ludwig Fischer visitamos Irmão David
no mosteiro Mount Savior em Ithaka ao norte de Nova Iorque. Eu já o conhecia de palestras em
Salzburg e através de seus livros. A organização do congresso em Colônia já o havia convidado
muito antes para participar de um curso e de uma palestra em Colônia, mas Irmão David hesita-
va, tendo em vista a longa viagem. Juntos, assistimos à missa no mosteiro e em seguida fize-
mos uma longa caminhada. Falamos sobre “a nossa percepção de deus de hoje”. Concordamos
que precisamos ter muita cautela ao interpretar ou definir nossas percepções internas. No final
da caminhada Irmão David concordou em vir a Colônia e manter o contato comigo. Este é o
contexto desta contribuição especial que encontrarão na revista.
A palestra de Antjie Krog e a troca de experiências com a mesma durante o congresso foram
similarmente comoventes. Antjie Krog falou sobre seu trabalho na Comissão da Verdade e Re-
conciliação na África do Sul que tinha como objetivo reconciliar agressores e vítimas do regime
de segregação racial. Diferente de muitos relatos na Europa, a Comissão de Verdade e Reconci-
liação visava contribuir para a cura e o restabelecimento do aspecto humano danificado de
ambas as partes. No final de sua palestra eu estava com os olhos cheios de água. Como também
havia vivido na África do Sul durante muitos anos o seu relato tinha um significado especial pra
mim. O trabalho da Comissão de Verdade e Reconciliação visava em primeiro lugar restabelecer
a integridade da alma, tanto das vítimas como dos agressores. Esta é restabelecida na medida
em que os agressores voltam a comportar-se humanamente e o demonstram em suas ações.
Apenas nestas circunstancias vítima e agressor poderão reencontrar-se na condição de ser hu-
mano, estando ambas as partes inteiras internamente. Pra mim este trabalho foi um exemplo de
auxílio de vida do nosso tempo com um sentido muito profundo e que visa o futuro.
No debate seguinte eu disse que de acordo com a minha experiência a paz somente se
estabelece de forma duradoura se ambos, agressor e vítima são capazes de dizer um ao outro:
“Eu reconheço que sou igual a você”.
No final, auxílio de vida nos dias de hoje significa que se une o que estava separado. A revista
é uma contribuição importante para este assunto. Os artigos revelam diferentes formas de como
este movimento pode ser reconhecido, compartilhado e realizado em cada caso individual.
Desejo-lhes que com ajuda da revista façam novas conquistas que os preencham tanto no
campo pessoal como em seus relacionamentos.

Bert Hellinger
Ajudar às crianças
História para um órfão
Estive com os negros na África do túmulo. Quando estavam diante do
Sul, durante muitos anos. Um dia me túmulo o menino disse:” Esperem mais
aproximei de um chefe tribal e conver- um pouco, ainda tenho que colher algu-
samos. Apresentou-me também a sua mas flores. Colheu as flores e depois foi
mulher. Ele tinha quatro mulheres e mui- até os outros que estavam diante do
tos filhos com elas. Depois me falou de túmulo.
seus filhos, pois um deles, um menino, De repente ele ficou triste. Fechou
o preocupava. “Eu não sei o que ele os olhos e pensou naquela pessoa queri- sou: Nunca os ouvi cantar tão bonito”.
tem. Às vezes ele fica tão triste.” da. Depois sentou-se. E sentiu que essa Eles passaram por um pé de maçã. Ele
Um dia o menino achou um amigo. pessoa querida estava perto dele. Real- colheu uma maçã e deu uma mordida.
Foram caminhar e encontraram mais um mente a sentiu, assim como se alguém Nunca uma maçã tinha sido tão saborosa
menino. Este era um pouco maior que colocasse o braço em volta do seu om- para ele. Assim, juntos, continuaram an-
eles. Disseram um ao outro: “Agora va- bro e falasse: “Estou sempre perto de dando.
mos olhar o mundo.” Mas aquele meni- você” e então ele ficou feliz. À noite voltaram para casa. O chefe
no disse: “Há algo muito importante que Depois continuaram andando. Aque- perguntou ao seu filho: “O que você fez?
preciso fazer antes.” Ele havia perdido le menino olhou em sua volta e de re- Você está totalmente mudado.” O meni-
alguém; alguém que lhe era muito que- pente tudo estava mais bonito do que no disse: “Sim, estou. É que encontrei um
rido. Assim disse: “Antes eu tenho que era antes. As flores eram mais bonitas. tesouro que agora está sempre do meu
ir até o seu túmulo.” Foram juntos até o Ele ouvia os pássaros cantando e pen- lado.”

Ajudar crianças com histórias

Muitas vezes crianças sabem Mais um ponto deve ser conside- gue bem na escola”, “tome cuida-
internamente o que precisam, não rado. O inconsciente não conhece a do ao utilizar a faca”. Assim sen-
querem, porém, que lhes seja dito. negação. Quando por exemplo os do, é importante formular de ma-
Deve partir de um reconhecimen- pais falam ao seu filho “Tome cuida- neira positiva as frases que uma
to interno próprio. Logo contamos do para não levar um tombo”, a alma criança diz em uma história. Vou
determinadas histórias à criança ouve: “ Tome cuidado para levar um dar um exemplo.
que a ajudam a superar dificulda- tombo.” O “não” não é ouvido na O diretor de um orfanato par-
des. Contamos a história de tal for- alma. Portanto é útil formular frases ticipou de um de meus cursos em
ma que nos aliamos, amorosamen- desses gênero de maneira afirmativa, Moscou e trouxe um menino de 12
te, ao bom entendimento da crian- ou seja, sem utilizar o “não”. Por anos. O menino sentou-se do meu
ça, como a um confidente. exemplo :” Cuide bem de você”, “che- lado e eu lhe contei uma história.

4
Crianças são fiéis
aos seus pais
Falei ao ajudante: “Não é uma tarefa bonita aju-
dar a órfãos como você o faz?” É também uma tarefa
difícil. Aparentemente difícil. Podemos deixar o sol
brilhar sobre essas crianças, assim como são, e sob
seus pais, assim como sempre foram. Neste instante
as crianças sentem-se como crianças de sua família. Pais com filhos portadores
O mais importante para a criança é que saiba: “Este é
o meu pai e esta a minha mãe. Eu faço parte deles e
eles de mim, mesmo que já estejam mortos ou que
de deficiência
algo tenha sucedido”. Assim sentem-se em casa no
orfanato e é simples lidar com elas. Pais com filhos portadores de deficiência e pais de
Se auxiliarmos demasiadamente uma criança ela criação que acolhem uma criança portadora de
fica zangada. Ajudamos com distância e ajudamos,
principalmente, em nome dos pais. Logo é impor- deficiência são solicitados de maneira peculiar pelo
tante que nos situemos abaixo dos pais. Se nos colo- destino dessas crianças. Freqüentemente a constelação
carmos acima, como se fôssemos um pai ou uma familiar revela-nos de modo comovente como o amor
mãe melhor do que os pais reais da criança, ela fica cresce diante de tal tarefa e destino.
zangada.
Manter-se em sintonia com os pais é a melhor
maneira dos assistentes de ajudarem as crianças de A constelação dessas famílias revela três aspectos:
um orfanato.
Esta postura compreende também que se per-
Em primeiro lugar o alívio que significa para os pais quando
mita que as crianças a eles confiadas, venham a ser
carregam tal destino com respeito e amor mútuo sem procurar em
iguais a seus pais. Trata-se de um ponto muito im-
si ou em outros a culpa ou os motivos pela deficiência. Por outro
portante uma vez que crianças querem ser iguais a
lado, às vezes um deles ainda está envolvido nos destinos da pró-
seus pais. Se dissermos a uma criança “Só não fique
pria família de origem e gostaria de ir embora ou é incapaz de
como o seu pai” ela quer tornar-se exatamente igual
voltar-se inteiramente ao parceiro e à tarefa em comum. A gratifica-
ao pai por um sentimento de lealdade. Este é o efei-
ção, porem, é grande quando este consegue libertar-se do emara-
to de tais alertas na alma da criança. Se, porém, é
nhado familiar através da constelação.
permitido que a criança venha a ser como o seu pai
Em segundo lugar mostra que não existe saída de tal destino.
e essa lhe diz na alma ”eu quero ser igual a você”
Uma retirada isenta de conseqüências para a própria alma e vida é
então o pai a olha amorosamente e talvez lhe diga
impossível. As conseqüências, neste caso, são mais graves para os
“Você também pode fazê-lo um pouco diferente de
pais do que quando se rendem solícitos a sua responsabilidade e a
mim.” Através da aceitação de seus pais como eles
renúncia relacionada à mesma.
são a criança fica livre para desenvolver-se diferen-
Em terceiro lugar, a constelação familiar revela que pais biológi-
temente, fora do campo de influência dos pais. Toda
cos e de criação podem, também, obter muita força e auxílio de
criança ama os seus pais independente de como eles
suas famílias de origem quando, por exemplo, existem antepassa-
são. Se a pessoa que quer ajudar a essas crianças ama
dos com destinos parecidos. Lembrando-se deles com dignidade e
e respeita os pais dentro delas, elas sentem-se segu-
reconhecimento podem obter força e proteção. Geralmente a defi-
ras. Amam os ajudantes uma vez que estes estão
ciência é orgânica, logo muitas vezes não é possível alterá-la. Pode-
internamente ligados aos seus pais e porque sabem
se apenas abrandar as suas conseqüências. Existem, no entanto,
que querendo, podem voltar internamente para os
exemplos que demonstram que uma deficiência pode, pelo menos
seus pais a qualquer momento.
em parte, estar fundamentada na história familiar. Por exemplo,
tratando-se de autismo. Neste caso a constelação familiar revela
soluções que podem ter um efeito libertador para a criança porta-
dora de deficiência.
Há um outro aspecto a ser considerado. A deficiência afeta o
corpo e a mente, a alma, porém, permanece livre. É o olhar voltado
para a alma da criança que sustenta e aprofunda o amor em seus
pais biológicos e de criação.

5
Homem e Mulher Sexo
A palavra sexo é uma palavra adver-
sa para a alma, pois lhe falta a alma, a
O segundo olhar profundidade, a paixão repleta, a desco-
berta do outro e o ato de reconhecer e
encontrar a si mesmo no outro.
Quando um ho- mem e a mulher realmente sabem um Quanta força, porem, está inerente à
mem encontra a mu- do outro na exaltação do primeiro amor? antiga e hoje em dia mal vista palavra
lher pela qual se sen- O que sabem da escuridão que envolve volúpia. Nela sentimos o movimento, o
te atraído de modo a sua origem, o seu destino e a sua de- calor, a paixão, os corpos entrelaçados, o
especial e quando signação especial? Quando aquilo que ato de segurar-se intensamente, o abra-
uma mulher, ao en- estava velado até então, vier à luz, a ques- ço insaciável, o impulso adiante, o auge
contrar este homem, tão é, o que os ajudará para que o seu e o relaxamento feliz. Em comparação a
se sente atraída por ele de amor persista e sobreviva a esta realida- este calor sexo é frio — é como fastfood
modo especial, os dois são atraves- de? Sentimos que esta primeira confis- ao lado de uma refeição farta.
sados por um sentimento de felicida- são “Eu amo você” necessita ser Volúpia é vida, imponente em sua
de, até então desconhecido, e por um complementada por algo mais. Algo que força e fértil em todos os sentidos. Dela
desejo que deles se apossa totalmente. prepara um casal para este estado mais resulta algo muito além do pessoal e do
Sentem este sentimento de felicidade e abrangente, que o conduz para tal auto-referente. A volúpia, porém, é
este desejo como amor. Quando então o amplidão e profundidade que o faz cres- incontrolável, transbordante, pois guiada
homem diz à mulher: “eu amo você” e cer para além deste primeiro amor. Uma e sustentada por algo maior. Nela a alma
se a mulher também disser ao homem: frase que engloba esta dimensão maior se alegra.
“eu amo você” eles se unem e se tor- e que os prepara para ela, seria: “Eu amo
nam um casal. você e aquilo que guia a você e a mim”.
Porém, será este primeiro amor, que O que sucede, quando o homem diz à
sentem um pelo outro, que confessam mulher e a mulher diz ao homem esta
um ao outro, suficientemente forte, para frase: “Eu amo você e aquilo que guia a
uma união duradoura? Mesmo se após um você e a mim”? De repente não olham
tempo, ficar claro que os caminhos di- apenas para si e para o seu desejo, olham
versos que até então percorreram, os para algo maior que está para além de-
unem de forma tão intensa apenas por les. Mesmo que ainda não consigam com- Devemos, portanto, introduzir nova-
um tempo? Quem sabe até por um lon- preender o que esta frase exige deles mente esta palavra? Não. É excessiva-
go tempo, principalmente se não forem de especial, e que destino aguarda cada mente frágil como algo sagrado. O me-
apenas um casal e sim se tornarem pais. um deles individualmente e juntos, tra- lhor a se fazer, no entanto, é abolir a pa-
E se estes caminhos, porventura, mais ta-se de uma frase que prepara e possi- lavra sexo. Com tudo que lhe atribuímos,
tarde apontarem para direções distintas, bilita, após o amor à primeira vista, o de qualquer modo é uma palavra desco-
ainda assim os ligarão? Pois o que o ho- amor à segunda vista. nhecida para a alma.

Como amor e vida dão certo juntos


A constelação familiar não apenas entemente, e abrindo-se para algo novo, repleto. Mas nem sempre. Às vezes tes-
revela o que estava, até então, velado. mesmo que no início lhes cause medo. temunhamos em nós mesmos ou outros
Mostra também caminhos para a solução. O ato de saber e reconhecer, por si só, que um limite não pode ser ultrapassa-
O ponto crucial da constelação familiar é neste caso não ajuda muito. Necessita- do, ou seja, que nós ou o nosso parceiro
mostrar saídas do emaranhado e guiar os se, além disso, de uma força especial. somos incapazes de libertar-nos de um
as pessoas afetadas nesta jornada. A fonte de tal força é por um lado a emaranhado temos que reconhecer este
Assim como o amor à primeira conexão com os pais e ancestrais e por fato sem querer mover ou modificar algo.
vista não pode durar quando não é se- outro o ato de inserir-se em algo maior. Num relacionamento entre casais tal fato
guido pelo amor à segunda vista, a solu- Quando nos rendemos a algo maior en- é percebido como morrer. Até mesmo
ção na constelação familiar apenas terá tramos em sintonia com o que finalmen- esse ato de morrer podemos enfrentar
êxito se as pessoas em questão se te nos conduzirá. Às vezes transporta- com amor se dizemos um ao outro: Eu
conectarem a algo maior. Ou seja, dei- nos para além dos limites de um emara- me amo e eu amo você com tudo que
xando algo do passado para trás, consci- nhado e nos liberta para um amor feliz e nos guia.”

6
Vínculos de destino Amor que liga e
A constelação familiar revela muito preocupante tanto para o homem quan- amor que
do quanto as ligações de destino solici- to para a mulher e a criança tornou-se
tam de um casal e de seus filhos. Na cons-
telação familiar o homem ou a mulher
visível através da constelação.
A questão é: “Como isso é possível?” De
desvincula
escolhe representantes para determina- onde vem o anseio da mulher de partir?”
dos membros de sua família a partir um E se formos além, “ de onde vem o an-
Quando um homem e uma
grupo de participantes e coloca-os em seio de morrer que sente no fundo da
relação dentro do espaço. No momento alma? ” este seria o verdadeiro significa- mulher se encontram ambos
em que tomam o seu lugar os represen- do se formos até as últimas conseqüên-
tantes percebem que se sentem igual às cias. A resposta estava em um aconteci- percebem que lhes falta
pessoas que representam. Isso acontece mento na sua família de origem. Ela ti- algo. Afinal, o que é um
sem que saibam algo sobre elas. Através nha uma irmã gêmea que faleceu logo
dos representantes uma relação com um após o nascimento. Quando uma repre- homem sem uma mulher e
outro membro familiar, até então oculta, sentante da irmã gêmea foi posicionada uma mulher sem um
torna-se visível. Logo, a constelação fa- diante da mulher na constelação, mos-
miliar revela que os representantes en- trou-se claramente que sua vontade de homem? O homem existe
tram em um campo espiritual complexo partir era o anseio profundo de seguir
que os liga aos membros familiares au- sua irmã na morte para unir-se a ela. Este
sempre em relação à mulher
sentes. Não apenas externamente ou na exemplo mostra o que significa quando e a mulher existe sempre
superfície e sim em áreas onde uma for- falamos de emaranhados de destino e
ça que conduz a todos eles torna-se per- quais as conseqüências que podem acar- em relação ao homem.
ceptível para os presentes. Chamo esta retar para a relação de um casal. São vín- Conectando-se um ao outro
força de “grande alma”. culos de destino porque permanecem
O homem ou a mulher que estão além da nossa vontade, dos nossos cui- recebem o que lhes falta. O
constelando também são atravessados dados e da nossa consciência. São liga-
homem recebe a mulher e a
por esta força. No momento em que ções de destino porque tem uma influ-
posicionam toda a família entram em ência sobre as nossas vidas que não po- mulher o homem. É
contato com esta grande alma e posteri- demos controlar, pelo menos em quanto
ormente se surpreendem com o que ela não tomamos consciência delas. No caso humilhante para ambos
revelou. Trago-lhes um exemplo. Um relatado não apenas a mulher estava en- admitir que sentem falta
homem posicionou a sua família atual, volvida num emaranhado de destino mas
ou seja, selecionou representantes para também o seu marido e a criança. A cri- um do outro. Não é fácil,
si mesmo, sua mulher e seus filhos. De ança porque queria assumir o destino de pois reconhecem assim os
repente percebeu que posicionou uma
criança longe dos outros e com o olhar seus limites. Alguns
voltado para fora o que revela que esta
criança aspira sair da família. O coorde-
desejam fugir de tal
nador da constelação perguntou ao re- reconhecimento, o homem,
presentante da criança como se sentia
neste lugar e ela respondeu que se sen- por exemplo, tentando
tia bem ali. Mas qual o motivo desta cri- desenvolver em si o
ança querer ir embora ou talvez até mor-
rer? Talvez uma outra pessoa da família feminino e a mulher
almejasse partir e talvez até morrer. Logo
tentando desenvolver em si
o coordenador da constelação pediu à
representante da mãe da criança que tro- o masculino. Deste modo o
casse de lugar com ela. Quando a per-
guntou como se sentia naquele lugar ela homem não precisa mais da
também respondeu que se sentia bem. sua mãe no seu lugar sem sequer saber o mulher e a mulher não
Tal fato revela que a pessoa que quer motivo. O marido porque seria atingido
partir é a mãe, seja por qual motivo for, pelo destino sem possibilidade alguma necessita mais do homem.
e que a criança está disposta a assumir o de tomar uma providência, caso a relação Conseguem ser um sem o
destino de sua mãe em seu lugar. Logo, com a sua mulher fracassasse devido ao
um fato profundamente assustar e vínculo de destino da mesma. outro.

7
Uma relação entre um casal tem
êxito quando ambos, o homem e a Respostas a perguntas feitas por carta:
mulher, admitem que sentem falta do Sobre o tema homem mulher
outro e que precisam um do outro
para estarem plenos. Dando um ao Amar e precisar manecer sem ação. No entanto, fique
outro aquilo que lhe falta tornam-se Um relacionamento de casal rea- atenta para que veja a lacuna que está
liza-se quando duas pessoas necessi- se abrindo.
plenos e inteiros.
tam um do outro e quando recebem
Através da consumação do ato se- A sintonia com o todo
do outro o que precisam. Vejo a par-
xual o amor entre homem e mulher tir da sua carta que você ama o seu Não acho que seja possível redu-
encontra sua realização. A relação de marido, porém, não precisa dele. Que zir – de uma maneira adequada – a
um casal visa à consumação do ato obtém aquilo de que precisa de ou- relação a um sim ou a um não. A sua
sexual. tras fontes e que assim sendo não há vida continua inserida nas suas refe-
base para um relacionamento sólido. rências e a vida dele continua inserida
É o ato de maior consumação de
Neste caso a terapia não pode ajudar. nas referências dele. Esses contextos
vida e supera em muito qualquer ou- A conseqüência lógica seria o que seu podem e devem continuar válidos. São
tra realização, também a espiritual. marido receia e aspira. demasiadamente importantes para
Através dele estamos em sintonia Obs.: Diante de fatos concretos não que sejam ignorados.
com o essencial da vida. Pois, o que precisamos ter a consciência pesada. O novo pode surgir. Seja qual for
o novo, precisa, porém, mostrar-se
nos compromete mais com o essenci- antes, após uma espera paciente. As-
al da vida e o que nos deixa crescer Partir com respeito sim como um jardineiro que olha e
mais do que a consumação sexual e Você às vezes comportou-se avalia antes de arrancar plantas. Logo
as suas conseqüências? como se não precisasse de homens. o meu conselho é: Faça aquilo que
Agora respeite-os e liberte-os inter- você faria de qualquer maneira que
Mais um ponto está relacionado
namente. Primeiro o seu marido, de- lhe teria correspondido, e deixe que
a essa consumação. Através dela ori- o novo a acompanhe de longe como
pois o seu pai e mais um ou outro
gina-se um vínculo. Após a consuma- homem possível. Espere para agir até uma música de fundo. Mantenha-se em
ção sexual o casal não se desvincula que tudo se ajeite. Da maneira que sintonia com o todo durante este pro-
mais. Portanto não podemos tratá-la está me parece que é necessário per- cesso.
como se fosse algo aleatório. Traz
consigo amplas conseqüências.
ção. Não é possível separa-se sem dor e a culpa são menores em com-
O que um vinculo significa e qual
sentir e reconhecer o vínculo. Como paração à primeira separação. Dian-
a sua profundidade percebemos atra-
isto se reflete em relacionamentos te de uma terceira separação a dor e
vés da dor e do sentimento de culpa
posteriores percebe-se através do fato a culpa são ainda menores e após um
e de fracasso que um casal experi-
de uma criança de um segundo rela- tempo já não importam mais. Geral-
menta no momento de uma separa-
cionamento representar o parceiro do mente em uma relação posterior os
primeiro relacionamento. A criança parceiros não têm a coragem de to-
tem os sentimentos deste parceiro e mar o companheiro novo da mesma
os exprime diante dos pais. Não se maneira intensa como o primeiro.
pode brincar com relacionamentos Existe uma solução para eles, se
anteriores. Eles continuam atuando. no momento de uma separação con-
Podemos observar também, que tinuarem respeitando e amando o
quando um casal se separa e, sepa- parceiro antigo. Nem sempre os dois
rados, os dois se relacionam com alcançam esse estado ao mesmo tem-
outros parceiros e se separam nova- po. Assim permanece algo doloroso
mente, nesta segunda separação a para ambos.

8
Crescimento Interior
cação significa afastar algo supérfluo para
A purificação que permaneça o essencial e último.
Na purificação espiritual abdicamos
das nossas idéias, dos nossos conceitos e todas as criaturas, sem qualquer preten-
Há um tempo queria descobrir o que da nossa noção sobre o que é certo ou são. Insiro-me em um todo, sendo um
significa “grandeza”. O que faz de alguém errado. De repente podemos nos expor entre muitos, absolutamente igual e
uma pessoa com grandeza? Obtive re- exclusivamente àquilo que se apresen- equivalente.
sultados peculiares. A maior grandeza de ta. Se assim nos expusermos ao múlti- É claro que em tal procedimento a
uma pessoa é aquilo que a iguala a todos plo, da forma que se manifesta, de re- distinção entre o bem e o mal não existe.
os outros. Isto é o maior. Qualquer des- pente aparece algo que é essencial. De Ou a diferença entre agressor e vítima.
vio para cima ou para baixo retira algo. repente podemos captá-lo. Quando tra- O que um representante disse aqui
No decorrer do tempo a purificação balhamos com constelações familiares, sobre a dignidade do agressor é muito
tornou-se um conceito ou procedimento por exemplo, ocorre o mesmo. Sem sa- profundo.
importante para mim. Necessitamos da ber nos expomos a algo. De repente mos- Quando damos espaço a tal movi-
purificação da alma para atingir a gran- tra-se alguma coisa sem que tenhamos mento, quando nos abrimos e crescemos
deza que nos iguala a todos os outros. recorrido a imagens próprias. E sentimos sentimos que proporcionamos, também
Uma purificação que nos deixa inteira- “sim, é isso que importa.” Quando temos a eles, a igualdade que lhes pertence.
mente permeáveis para algo diferente um problema ou nos preocupamos com A purificação se dá quando as dife-
sem que nenhum propósito próprio in- algo experimentamos uma sensação pa- renças dentro de mim se dissolvem; tam-
terfira – ou interfira apenas numa exten- recida. Entregamo-nos ao problema como bém estas entre vítima e agressor na me-
são reduzida. Também não devemos ele é sem medo e sem um propósito dida em que eu as acolho na minha alma
exagerar. No misticismo cristão a purifi- específico até que percebemos: é assim do mesmo modo e lhes dou um lugar. É
cação tem um papel bastante importan- que continua. impossível atingir purificação maior.
te em diversos aspectos. Fala-se primei- Então constatei: O que é a purifica- É gratificante entregar-se a tal purifi-
ramente da purificação dos sentidos que ção propriamente dita? Como se reali- cação. Preenche-nos. Não nos tornamos
conduz a um recolhimento interior. Este za? Realiza-se na medida em que me menos. Ao contrário. Dentro desta igual-
seria um caminho. O outro seria a purifi- igualo a todos. A todos. Talvez não ape- dade possuo tudo em mim, sem que eu
cação do espírito. Neste contexto purifi- nas a todos os seres humanos e sim a queira. Tem-me e me carrega.

Olhando de Perto
cursos com sua namorada. Durante em relação ao marido publicamen-
O Ciúme o curso falou diante de todos os par- te. No fundo, porém, reconhecia o
Uma mulher de um grupo con- ticipantes e sem levar em considera- vínculo e também a sua culpa.
tou que torturava seu marido com ção a dor da sua namorada, que ti- Logo o seu ciúme não era prova
seu ciúme e mesmo reconhecendo nha uma outra namorada nova e mais de uma culpa do seu marido em
que não fazia sentido não conse- jovem e iria separar-se da atual mes- relação a ela e sim uma admissão
guia resistir a tal comportamento. mo já tendo vivido com ela durante 7 secreta de que não era digna de
Mostrei-lhe a solução. Eu disse: “A anos. Depois participou de outro cur- seu marido e que a separação
curto ou médio prazo você perde- so, dessa vez com a nova companhei- provocada por ela seria a única
rá o seu marido. Curta-o enquan- ra. Durante o curso ela engravidou e possibilidade de reconhecer a li-
to isso!” A mulher riu e sentiu-se pouco depois se casaram. gação ainda existente. Seria tam-
aliviada. Alguns dias depois o Agora entendi o sentido do bém uma prova de solidariedade
marido ligou e disse “agradeço-lhe ciúme da mulher. Socialmente ela com a antiga namorada do seu
pela minha mulher.” negava o vínculo de seu marido com marido.
Há muitos anos atrás o marido a antiga namorada e através do seu Após alguns anos a reencontrei.
havia participado de um dos meus ciúme reforçava seu direito de posse Havia se separado de seu marido.

9
Meditação Atualidades
A fonte da vida
Imaginemos que nos dividi-
mos ao meio. De um lado senti-
mos o pai. Por detrás do pai sen-
timos seus pais e anterior a es-
tes seus avós e se seguirmos em
diante os seus bisavós. Abrimo-
nos perante a força vital que nos
alcança e penetra através de to- Como o divino cresce em nós “mais”. Mais é sempre mais. Mais em to-
dos estes ancestrais. Sentimos a Irmão David Steindl-Rast O.S.B das as dimensões. As palavras deus e di-
sua força. Podemos seguir ainda vino tem tamanha conotação que deve-
muito mais além. Todos estes an- ríamos achar outras. ”Mais” cabe exce-
Nota prévia: lentemente. “Mais” não apenas no mes-
cestrais preencheram a vida. To-
maram-na e repassaram-na. Ago- Irmão Steindl-Rast é um professor mo nível, e sim, sempre, em novos pla-
espiritual amplamente solicitado. nos e dimensões. Como seres humanos
ra estão atrás de nós. Sentimos
estamos condicionados a este “mais”.
o calor que nos atravessa acom- Proferiu esta palestra no Queremos encontrar um sentido e so-
panhando a força e talvez perce- Congresso Internacional de mente envolvendo-nos com este “mais”
bamos a diferença em compara- podemos achá-lo.
ção ao outro lado, onde tal liga- Constelações Sistêmicas em maio
O que quero dizer com o “divino”?
ção ainda falta. Voltamo-nos para de 2005 em Colônia e teve a Tanto dentro de nós pessoalmente como
o outro lado e sentimos a mãe gentileza de disponibilizá-la para no mundo como um todo – mesmo que
atrás de nós. Por detrás da mãe esta revista. Irmão Steindl-Rast é sem a mesma intensidade – estamos,
sentimos seus pais e depois os neste momento, ultrapassando a frontei-
seus avós, bisavós e tataravós. de Viena, é membro da Ordem ra para um novo entendimento deste
Uma rede gigante amplamente Beneditina e dedicou-se também, “mais”, nos diversos níveis. Algo de to-
ramificada repleta de força vital intensamente, a outras religiões. talmente novo está rompendo caminho.
que vem de longe através destes Aqui também falaremos, em parte, so-
Vive retirado em um mosteiro nos bre isto.
ancestrais e nos atravessa.
Agora sentimos como estes Estados Unidos. Com relação ao crescimento em nós,
como este “mais” poderá crescer “em nós”?
dois fluxos de vida, o do pai e o
Tratando-se do assunto “como o di- Através da nossa consciência sobre este
da mãe transformam-se em uma
vino cresce em nós” talvez seja apropri- “mais”, ou seja, conscientizando-nos dele
unidade nos nosso interior. Tra- e relacionando-nos com ele o que significa
ado começar com um momento de si-
ta-se de uma unidade inconfun- lêncio onde vocês possam abrir-se para que nos envolvemos com ele. Logo, trata-
dível. Sentimos o calor e a força. aquilo que entendem como “divino.” se de dois pontos importantes: a
Talvez sintamos, também, como Para mim as palavras decisivas neste conscientização e o ato de envolver-se.
essa força se acumula e almeja contexto são “em nós”. Falarei a vocês O primeiro aspecto, o da conscien-
fluir em diante, atravessando- da minha própria experiência e me vol- tização, pertence mais à espiritualidade.
nos, alcançando os nossos pró- tarei para as suas experiências pessoais. O ato de envolver-se, por sua vez, per-
prios filhos e tarefas a serviço da Apelo, por assim dizer, às suas experiên- tence mais à área da religião. Os dois as-
vida. Quiçá colocamos também cias, já que sobre um assunto como este pectos são inseparáveis, uma vez que, a
uma doença neste fluxo, seja ela só pode-se falar do ponto de vista da conscientização e o ato de abrir-se para
qual for. Ela nos mostra que algo experiência. Logo espero que confiram a mesma estão estreitamente ligados um
está interrompido. Quer que su- o que direi aqui através de suas próprias ao outro.
peremos este abismo. Se formos percepções. Espiritualidade e religião, porém,
podem ser diferenciados um do outro.
capazes de restabelecer esta li- Quero repassar o título, palavra por Não podemos separá-los, no entanto, é
gação sob a pressão da doença palavra. Falando de “divino” refiro-me possível distingui-los. Deste fato resulta,
esta cumpriu sua função. àquilo que Dorothee Sölle denomina de também, o nosso procedimento.

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denomina e descreve como “peak Citarei quatro pontos que deveriam
Espiritualidade experiences” o que seria “experiência de
pico ou de ponta”. Vale a pena falar um
coincidir tratando-se de uma experiên-
cia de pico. Não se preocupem, porém,
pouco mais sobre como Maslow fez tal se não verifiquem tais pontos em sua
Tratarei do tema da espiritualidade descoberta em meados do século XX. experiência de pico, uma vez que ser-
sobre 4 aspectos: Colocou-se a questão: O que faz com que vem em primeiro lugar de referência.
algumas pessoas tenham tamanha viva- Primeiro ponto: o tempo está para-
1.) O que é espiritualidade? cidade? O que faz com que tenham ta- do. Isto pode significar que passou uma
2.) Qual o relacionamento da manha criatividade, tanta saúde? O que hora e eu tenho a sensação de que se
espiritualidade com a religião? faz delas pessoas de verdade, assim como passaram apenas alguns minutos. Ou
3.) O que impede ou inibe o cresci- gostaríamos que as pessoas fossem? Ele então que passaram somente alguns se-
mento do “mais” em nós, ou seja, diz: Nada na minha formação de psicolo- gundos, mas que algo aconteceu que
do divino em nós? gia preparou-me para responder tal per- parece ter levado horas. É como se a
4.) Como podemos incentivar tal gunta. Preocupava-se sempre com do- noção de tempo estivesse desligada. O
crescimento? O que podemos enças da mente, porém nunca se per- ponto decisivo é: Estamos no aqui e ago-
fazer conscientemente para in- guntou: o que faz de uma pessoa alguém ra, voltados inteiramente para o presen-
centivar este crescimento den- tão saudável. Levou anos voltando-se para te. Este é um aspecto importante das
tro de nós? esta questão e chegou a um resultado experiências de pico.
que o surpreendeu. Há um fato comum O segundo ponto é que temos um
Voltando ao primeiro ponto: O que a todas as pessoas com tamanha vivaci- sentimento infinito de fazer parte de algo.
é espiritualidade? Sugiro que partamos da dade, às vivas e às mortas que conhecia Não apenas em relação às pessoas,
palavra propriamente dita – espiritua- apenas através de documentos escritos: mas também em relação aos animais e
lidade – que remonta a palavra “spiritus” todas têm experiências místicas. Esta plantas, às pedras, às estrelas, o mar.
do latim. Traduzimo-la com a palavra descrição não foi muito bem vista na li- Quando temos tal experiência na natu-
“espírito”. Neste contexto espírito signi- teratura da psicologia. Logo rapidamen- reza nos tornamos uma unidade com as
fica espírito no sentido de “respiração te mudou a expressão para “peak árvores e as nuvens. Somos um com a
vital”. Originalmente “spiritus” significa- experiences”. Durante toda sua vida, no natureza. Nos sentimos unidos a tudo.
va sopro de vento, respiração vital. As- entanto, insistiu que não havia diferen-
sim como a palavra grega “pneuma” ou cia alguma entre “peak
a hebraica “ruach” que ambas a antece- experiences” e a experiên-
dem. Todas significam “respiração vital” cia mística. São a mesma
e no sentido figurado, vivacidade. coisa.
Logo, vejo espiritualidade como vi- Qual o ponto crucial em
vacidade intensificada em todas as áreas uma experiência de pico? Que
da nossa vida. É uma amplificação da todos a fazemos. Durante suas
extensão de nossa vivacidade. pesquisas Maslow constatou que
Não vivemos sempre com a tais experiências não estão limi-
mesma intensidade. A maioria de nós está tadas a pessoas extraordinárias e
menos disposta de manhã do que à noi- que – na medida em que é possí-
te. Existem também aqueles que já de vel fazer generalizações no campo
manhã tem muita energia e desesperam da psicologia – todos as pessoas as
os outros com tamanha disposição. O fazem. Percebeu, porém, que a
nosso grau de vivacidade varia bastante. maioria das pessoas reprime-as.
Dependendo também da fase da vida em Algumas pessoas que
que estamos. Quando vivemos plena- perguntou sobre as expe-
mente em todos os sentidos – e existem riências de pico disseram-lhe
momentos em nossas vidas onde estamos que jamais haviam falado sobre isto
inteiramente vivos – temos uma noção a alguém porque achavam que se trata-
do que possivelmente significa viver ple- va de um momento de delírio. Maslow
namente a espiritualidade. Estes momen- disse: “este talvez tenha sido o único mo-
tos ocorrem em situações diversas e sem- mento de lucidez destas pessoas”.
pre nos surpreendem. Podemos nos pre- Peço-lhes, agora, que lembrem de
parar para eles, porém, permanecerão uma experiência de pico própria. O pico
imprevisíveis. não precisa ser especialmente alto. De-
Neste ponto preciso falar de Abraham pende da altura do planalto de onde par-
Maslow, conhecido pela maioria de nós tem. O que importa é que tenham um
pela sua hierarquia de valores. Fez uma ponto de referência em suas próprias
descoberta muito mais importante. Ele a vidas.

11
Os estreitos limites do “eu” foram rom- pessoal – precisam processar intelectu-
pidos, apagados ou desfeitos.
O terceiro ponto é que neste deter-
Religião almente a experiência mística tendo as-
sim, um ponto de partida daquilo que
minado momento dizemos “sim” a algu- Como passamos desta vivacidade – posteriormente torna-se um ensinamento
ma coisa sem qualquer restrição. Dizemos da vivacidade da espiritualidade que nos na religião.
sim a tudo que é, como é. Não julgamos, deixa repletos de felicidade – para a re-
simplesmente dizemos sim. Olhamos para ligião muitas vezes aflitiva e tão menos
o que normalmente denominamos de gratificante? Da espiritualidade inevitavel-
mente passamos para a religião.
bom e que normalmente denominamos
de ruim. Temos a capacidade de olhar Não digo, porem: para esta ou aque-
la religião. Não me referia às religiões
Moral
para tudo da maneira como é. Permane-
ce bom, permanece ruim, mas nós pode- diversas. Refiro-me “à” religião. Todo ser Temos que considerar mais um fato.
mos dizer “sim” a isto, assim como é. Di- humano possui esta religião. Após o intelecto, manifesta-se também
zemos sim a tudo o que é. Farei a tentativa de demonstrar-lhes a vontade de cada um e cobra: sim, é o
Finalmente estamos repletos de um novamente através de um apelo às suas que quero. Estar conectado a tudo dessa
experiências próprias como se faz a pas- maneira e sentir-me tão feliz. Quero tal
sentimento máximo de alegria. Mais do
sagem da experiência mística à religião sentimento de fazer parte de algo que
que alegria. Para nós alegria significa que
e da lá, talvez, às religiões. todos ansiamos tanto. Porque é assim que
algo bom está acontecendo. Na experi-
Partimos da palavra religião. A pala- temos que viver. É assim que quero vi-
ência de pico a sensação de alegria
vra latina para religião é “religo” e signi- ver. Com tal desejo entramos no campo
independe do ocorrido. Às vezes temos fica reconexão.
tal sensação no decorrer de situações ter- da moral. Aqui já começa a ética.
Reconectar-se com a realidade mís- Freqüentemente dizemos que cada um
ríveis. Durante um atentado de bombas tica. A experiência mística cria a religião. dos diversos povos do mundo tem sua
ou no caso da morte de alguém. Trata-se Agora voltamos o olhar para sua ex- própria moral, o que mostra que a moral
de um sentimento de alegria que não perimentação mística pessoal – a expe- é algo construído e fabricado por nós. Se
possuiu, praticamente, relação com o que riência de pico. O que acontece no ins- olharmos cuidadosamente, porém, per-
normalmente chamaríamos de alegria, tante após essa experiência? Durante a cebemos que se trata sempre e em to-
uma vez que a transcende amplamente. experiência de pico propriamente dita dos os lugares da mesma moral, seja ela
estamos simplesmente presentes. Não primitiva ou refinada. Comportamos-nos
Estes são os quatro pontos, sem or- pensamos em nada, não queremos nada. de maneira moralmente correta perante
dem obrigatória: Sentimos tal felicidade e estamos presen- o grupo de pessoas do qual fazemos par-
1.) O tempo está parado. Estamos tes. No instante seguinte, no entanto, já te e do qual gostaríamos de fazer parte.
no agora. se manifesta o nosso intelecto e pergun-
Os diferentes sistemas morais defi-
2.) O sentimento infinito de fazer ta: O que era aquilo? É inevitável que
nem quem pode pertencer a um deter-
parte. façamos tal pergunta. É impossível im-
minado grupo. A moral determina quem
3.) Dizemos sim a tudo que é, como pedir. Damos uma resposta que é místi-
pertence ao grupo. Inicia-se através de
é, sem julgamento. ca em sua origem. Respondemos com
um grupo pequeno, uma família peque-
4.) Uma sensação máxima de alegria. uma imagem, ao contrário da teologia que
na ou uma família grande. Em vários idi-
busca uma resposta racionalmente coe-
omas e culturas a denominação do gru-
Segundo Maslow estes elementos rente. O mito vai muito além da teolo-
po ao qual pertencemos é idêntica à
também são típicos tratando-se da ex- gia. Porém, de uma forma ou de outra
reagimos à pergunta sobre o que acon- palavra ser humano. Perante estes seres
perimentação mística. Não precisam, humanos comportamo-nos de maneira
porém, preocupar-se agora e dizer: Não teceu. E mesmo se a religião não nos in-
teressa respondemos de algum modo a moralmente correta porque fazem parte
sou místico. O místico não é uma pessoa de nós, dêem oposição a outros, estra-
tal acontecimento. O nosso intelecto nos
especial, ao contrário, cada pessoa é um nhos, que não fazem parte.
cobra uma resposta sobre aquilo que
místico especial. Ultrapassamos hoje uma barreira após
vivenciamos. Este processo é, portanto,
Como então os grandes místicos a qual não podemos mais traçar o limite
inevitável.
distinguem-se da massa? Deixando que que define quem faz parte. Hoje faze-
A partir dessa resposta desenvolve-
esta vivência penetre em tudo que fa- mos parte infinitamente. Portanto, todo
se o ensinamento. O mito em si já com-
zem. Outros esquecem tais acontecimen- preende ensinamentos, em sua maioria limite que estabelecemos para definir
tos ou reprimem as lembranças deles. mais ricos que na teologia. Vejo a relação quem faz parte é imoral. Nem mesmo
Se cuidarmos do místico e o deixamos entre mito e teologia como a relação os animais podem ser excluídos. O cos-
entrar nas nossas vidas, ele lhes dá for- entre poesia e crítica literária. Sabemos mo inteiro deve ser incluído. Apenas di-
ma. Este é o significado pleno de todos, que os críticos literários após al- ante deste conceito uma moral é
espiritualidade. Na medida em que dei- gum tempo interessam-se mais por ou- justificada e pode nos ajudar.
xamos que esta experiência, a experi- tros críticos literários do que pela poesia Resumindo: O intelecto interpreta. O
ência da totalidade, entre nas nossas vi- propriamente dita. O decisivo para vocês, desejo compromete-nos internamente.
das, estamos verdadeiramente vivos, fe- no entanto, continua sendo o fato que – Nós nos comprometemos alegremente:
lizes e presentes. mesmo possuindo apenas uma religião Quero viver assim para fazer parte.

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giões correm o perigo de estremecer religiões ensinam. No ensinamento inter-
Ritual após algum tempo.
Podemos agir contra tal processo de
pretamos o “mais” que encontramos nas
nossas experiências místicas. Este “mais”
Em terceiro lugar entram os senti- enrijecimento? Sim. Sempre temos a pos- freqüentemente foi interpretado e utili-
mentos. Os sentimentos desejam feste- sibilidade de voltar à nossa própria ex- zado como poder. Encontramos na ex-
jar a vivência mística e nos conduzem ao periência mística interna – ao calor que periência mística algo poderoso algo que
ritual. Mesmo que vocês prefiram per- sentimos no peito durante tal experiên- possui um poder superior. As religiões
manecer no contexto de suas religiões cia – e assim descongelar as estruturas freqüentemente interpretaram tal poder
pessoais, festejam suas experiências mís- congeladas de dentro para fora. A estru- no sentido de “ter poder sobre alguma
ticas. Suponhamos que tiveram uma ex- tura, porém, não é apenas um obstáculo. coisa”. Nesta interpretação deus é al-
periência mística no cume de uma mon- Pode dar-nos muito conforto. Entendo guém totalmente diferente de nós, al-
tanha específica; tiveram uma experiên- perfeitamente se alguém sente o desejo guém que reina sobre nós e está separa-
cia de pico. É bem possível que repeti- de rejeitar e deixar para trás as religiões do de nós.
damente voltem a esta montanha quan- da maneira que se apresentam hoje em Neste contexto devemos também
do possuem algum motivo para festejar. dia. Através da minha própria experiên- olhar para o nosso entendimento do pe-
Sentem o desejo de vivenciar novamen- cia, porém, tenho que dizer que estas cado. Originalmente pecado significava
te tal experiência. Talvez não possam estruturas também podem nos enrique- desvio e segregação. A palavra pecado
vivenciá-la da mesma maneira, porém, cer muito, dando-nos, por exemplo, e a palavra segregação em sua origem
fazem um peregrinação para aquele lu- apoio, estabilidade, força, ligação com o são ligadas uma a outra. O pecado nos
gar para viver mais uma vez tal experi- passado e guiando-nos na juventude e separa do nosso próprio e verdadeiro eu
ência. Ou então lembram-se daquele dia infância. É difícil substituir tais tradições. e do “mais” vivenciado. Nos ensina-
em que subiram a montanha e começará Mas temos que renová-las, revitalizá-las mentos religiosos o pecado foi interpre-
assim a estabelecer uma agenda de ritu- e esquentá-las sempre, partindo do co- tado cada vez mais no sentido jurídico,
ais, mesmo que seja apenas um início. ração. O coração de toda religião é a re- como se tivesse alguém lá em cima a
Toda religião inicia-se um com ligião do coração. quem pertencesse o poder. Assim o po-
uma experimentação mística de seu cri- Não podemos, portanto, esperar das der transforma-se na culpa e precisa ser
ador. Em alguns casos, como nos de religiões que sejam como um trem, onde castigado. Mas também podemos olhar
Moisés, Jesus Cristo, Buda, e de Maomé, subimos e que por si só nos levará a al- para o pecado do ponto de vista históri-
é possível apontar claramente para a gum destino almejado. Ao invés de ser- co, como se fosse algo que no nosso pró-
experiência mística crucial. Em outros mos movimentados temos que movi- prio desenvolvimento ainda não teve
casos não é possível determiná-la com mentar-nos por conta própria. êxito. Através do pecado, origina-se, en-
tamanha precisão, mas sabemos que toda tão, o estimulo de buscar o que ainda não
religião parte de uma experiência místi- deu certo em nossas vidas e realizá-lo.
ca de seu criador ou criadores e posteri- A imaginação de deus como alguém
acima de nós e a quem pertence o po-
ormente transforma-se em ensinamentos,
éticas, morais e rituais. Concepções der também nos distancia do conteúdo
original dos rituais. Distancia-nos do ser-
O coração de toda religião é a
religião do coração
de deus viço religioso como serviço à vida atra-
vés da celebração e do trabalho. Logo o
culto às vezes se iguala a uma cerimônia
O que impede que o divino cresça de corteN R. A falsificação da concepção
Após a morte destes criadores tal em nós? Freqüentemente é a imagem de deus nos impede de compreender
experimentação é transferida e susten- de deus ou a concepção de deus que mais profundamente o “mais”, de realizá-
tada por uma comunidade. Sem comuni- nos é imposta por uma determinada reli- lo com maior força de vontade e celebrá-
dade não há religião, uma vez que o que gião ou que é transmitida por nossa reli- lo com mais alegria e criatividade.
vivenciamos é a beleza e o conforto de gião. A religião deveria apoiar a
pertencer a esta comunidade. No decor- espiritualidade, muitas vezes, porém, lhe
rer do tempo a comunidade muda o sen-
tido original. A passagem da experiência
obstrui o caminho. A nossa visão do mun-
do e a nossa concepção de deus são com-
Vida com
mística à comunidade religiosa compara-
se a uma fonte de água borbulhante que
postas por diversas suposições
desordenadas e não questionadas, mas gratidão
jorra do interior de uma rocha e após al- mesmo assim ambas são decisivas para a
gum tempo congela no inverno dos há- nossa vida, tanto no contexto daquilo que A questão agora é: como podemos
bitos. O ensinamento estremece-se e aceitamos como no que rejeitamos. Hoje estimular o nosso crescimento espiritual?
transforma-se em dogmatismos, a moral em dia a nossa concepção de deus é A resposta é evidente. Renovando e ajus-
ou ética por sua vez transforma-se em marcada pela imaginação de que deus tando, sempre, a nossa concepção de
moralismo, o ritual vem a ser um ritualis- está separado de nós. deus através da experimentação viva de
mo. Diante da transferência todas as reli- Experiências místicas acrescentam e deus. Possuímos tal experimentação de

13
deus. Possuímos a experiência do “mais”. Como manter viva essa corrente den-
Ela está sempre a nossa disposição, pre- tro de nós? Através da gratidão, simples- POESIA
cisamos apenas cultivá-la. Como mente, e vivendo no momento.
vivenciamos este “mais”? Lerei algumas Conscientizando-se, por exemplo, do Se fosse totalmente silencioso
frases dos Sonetos a Orfeu de Rainer presente que é abrir uma torneira de apenas uma vez...
Maria Rilke: água. Ou considerando o presente que
recebemos ao ligarmos a luz. Se uma vez Se fosse totalmente silencioso
Mas para nós o existir ainda é ou outra vivemos em lugares onde não apenas uma vez
encantado. há água de boa qualidade ou luz elétrica, Se o fortuito e o acaso
Fontes, ainda, em cem lugares. realmente tomamos consciência destes emudecesse e o riso vizinho,
Jogo de puras forças e aquele presentes. Ver os outros e a natureza Se o ruído, que fazem o meus
que as toca como dádiva, com esta consciência, isto sentidos
se ajoelha admirado. significa viver com gratidão. não me impedisse tanto no
despertar.
Estas frases aplicam-se aos dias de hoje Agora lerei mais uma poesia curta de
embora o poema comece com as pala- Rilke para vocês, porque começa com a Então poderia em mil
vras: palavra “silêncio” e termina com a pala- pensamentos
vra “gratidão”. Aponta para o fato de que pensar em você até o seu limite
A máquina ameaça a toda conquista... podemos apenas encontrar essa vida com
gratidão, se nos envolvemos com o si- e possuir você ( apenas o instante
Mesmo assim vale: Em vários pontos o lêncio. de um sorriso)
existir ainda é encantado, ainda é fonte, e presentear você em tudo que vive
um jogo de puras forças e aquele que as como um agradecimento.
toca se ajoelha admirado.
Podemos abrir-nos para estas forças.
Existe um caminho espiritual neste sen-
Oração Rainer Maria Rilke, 22.9.1899,
Berlin-Schmargendorf
tido com que eu pessoalmente me iden-
tifico mais. Denomino-o de “vida com Na oração unem-se três aspectos. No Esta é uma poesia para o “mais”,
gratidão”. Simplesmente viver com gra- início está o silêncio. A oração do silên- uma oração para o “mais”.
tidão. Conscientizamo-nos de que este cio sobre a qual não podemos dizer nada.
“mais” é a essência de tudo, a fonte de Podemos apenas embarcar neste silên-
tudo que existe. Dizemos sempre: Exis- cio para encontrar o “mais” em seu inte- O terceiro aspecto que é desconhe-
te isto e existo aquilo. Tudo que existe, rior. Quanto mais profundamente entra- cido a muitos de nós, mesmo que viva-
existe. A essência por si só não é algo. É mos neste silêncio, sempre mais profun- mos dentro dele permanentemente, cha-
o nada de onde vem tudo. É a fonte damente, mais profundamente perce- ma-se meditatio in actione: encontrar
divina, a fonte maternal, o fundamento bemo-nos neste “mais”. Todos nós pos- deus no agir. No agir permanentemente
maternal de tudo que existe. É o segre- suímos a capacidade para esta oração. encontramos deus. Pensem nas mães,
do de onde viemos e para onde No ocidente o segundo aspecto da pensem nos professores. Permanente-
retornamos. Diante desta fonte nós mes- oração nos é mais familiar. Podemos mente achamos o “mais” no agir. O agir
mos nos percebemos como dádiva. Afi- descrevê-lo como “viver da palavra de é um mundo de orações - um mundo de
nal, também possuímos algo que existe. deus”. Dizemos, assim, que tudo que orações pelo qual zelamos há séculos. Ou
Somos presenteados a nós mesmos. Não existe é palavra. Se existe, fala. O nada seja, achar o “mais” no agir.
nos compramos ou negociamos. Nos expressa-se em tudo que existe. Portan- Neste contexto revela-se o poder de
momentos mais difíceis possivelmente to, tudo que existe é palavra divina. cura do envolvimento com este “mais”.
nem nos queremos. Querendo-nos ou Podemos nos envolver com esta O poder de cura que está inerente ao
não, recebemos a nós mesmos de pre- palavra de diversas formas. Seja onde for, desejo de tentar entender este “mais”,
sente. Diante deste presente existe ape- sempre que nos envolvermos com a sempre mais profundamente, de realizá-
nas uma resposta correta e que faça sen- palavra, com algo que existe, e o trata- lo com maior força de vontade, celebrá-
tido: a gratidão. Nesta gratidão encontra- mos com respeito, respondemos com sim lo sempre com maior alegria e
mos sempre novamente o que existe: a à palavra e pronunciamos este sim sem criatividade – uma celebração da qual
vida, o amor, tudo o que aprendemos, a restrições. Sim, aqui estou. Então esta pa- participam o mundo inteiro e todas as
alegria, a música. Temos que tomá-los lavra nos nutre. Toda palavra pode nutrir- religiões.
assim, isto é a nossa gratidão. Nossa gra- nos se respondemos desta maneira.
tidão retorna ao nada que é a essência
que dá tudo.

14
de como o enfatizamos, os hinduístas, os O amor deixa você sorrir quando
A imagem budistas, os cristãos, os judeus, os muçul- está cansado.
manos, todos, inclusive as religiões liga-
conjunta de deus das à natureza. Dançamos todos a mes-
ma dança. Do exterior não podemos
(Terri, 4 anos)

Amor é quando a mamãe faz café


perceber o sentido dessa dança. Olhan-
para o papai e antes experimenta
Cada um de nós que tem uma noção do de fora vemos que os movimentos
para saber se está gostoso.
do Budismo, por menor que seja, sabe o vão para direções distintas. Se, porém,
quão central são o silêncio e o ato de seguramos-nos pelas mãos e entramos (Danny, 7 anos)
manter-se calado no Budismo. Quando na dança, sentimos a unidade nesta dan-
eu estudava o Budismo, às vezes achava ça. Necessitamos, hoje, desta dança con- Amor é aquilo que está no quarto com
que havia entendido algo na conversa junta no mundo. Nela deus não está mais você no natal quando você para de
com o meu professor. Perguntava-o: “É separado de nós. Nela experimentamos abrir presentes e apenas ouve.
assim mesmo?” Em seguida, ele sempre deus em nós e nós em deus. Esta con- (Bobby, 7 anos)
começava a rir e respondia: é absoluta- cepção de deus nos une a todos.
mente correto, mas que pena que você
Se quiser aprender a amar melhor,
o pronunciou.” Observação:
comece com o amigo que rejeita.
No Cristianismo temos que dizê-lo. Mais informações sobre o Irmão Steindl-
Pertencemos às tradições da “aprovação”, Rast veja no site www.gratefulness.org (Nikka, 6 anos)
ao Judaísmo, a Cristianismo, ao Islamismo. Neste site Irmão Steindl-Rast oferece con-
duta espiritual em vários idiomas, entre Minha mãe me ama mais que
Pertencemos àqueles que são em refe-
outros, em alemão. Há pouco tempo a
rência à palavra. A palavra nos pertence. todo mundo. Além dela não existe
Editora Herder publicou seu livro
A palavra também é um espaço de en- “Achtsamkeit des Herzen” ninguém que à noite me beija
contro com o “mais”. Este é o nosso es- ISBN 3-451-05604-6 até que eu durma.
paço. (Clara, seis anos)
O terceiro aspecto é o da compre-
ensão. Esta é a área do Hinduismo. No Amor é quando seu cachorrinho lhe
Hinduismo a palavra e o silêncio não es-
tão em primeiro lugar. O mais importan-
te é o ato de compreender. Yoga signifi-
Crianças: lambe o rosto, mesmo que você o
tenha deixado sozinho o dia inteiro.
ca conexão. Yoga significa compreensão.
A prática hindu une a palavra e o silên- sobre o amor (Mary Ann, quatro anos)

cio no compreender. O que significa com- Quando você ama alguém os seus
preender neste contexto? Que nos en- Um grupo de cílios abrem-se e fecham-se e
treguemos à palavra originada no si- especialistas entrevistou pequenas estrelas brilham de
lêncio, de tal modo, que nos conduza ao crianças entre quatro e dentro de você.
lugar de onde veio: ao silêncio. Se nos
oito anos sobre o amor. (Karen, 7 anos)
entregamos à palavra e deixamos que
nos guie para o silêncio, então compre- Encontrei as respostas no
endemos. Nas nossas experiências de meu e-mail há pouco.
pico, em nossas experiências místicas – Aqui mais uma história de um
voltando mais uma vez ao assunto – di- menino de 4 anos. Morreu a
zemos: É isso. É isto que estávamos aguar- Quando minha avó adoeceu de esposa de um homem idoso da
dando. Como se tivéssemos esperado por artrites não podia mais se abaixar e
vizinhança. O menino pequeno o
isto a vida inteira. Agora é isto. pintar suas unhas do pé. Desde então
viu chorando. Foi ao seu encontro
Enfatizamos o “isto”. Isto é. Isto é a pala- o meu avô o faz para ela, mesmo
também sofrendo de artrites nas no pátio, sentou-se no seu colo e
vra. Seja o que for: É isto.
mãos. Isto é amor. permaneceu perto dele.
Os Budistas dizem: isto o é. E isto
também o é . É isto também. Está tudo (Rebekka, 8 anos) Quando a mãe chegou e o
compreendido no silêncio, no nada, de
perguntou o que havia dito ao
onde vem tudo.
homem idoso, respondeu:”Nada.
Os Hinduístas dizem: Porque estão Quando alguém te ama, pronuncia
brigando. É isto. Apenas assim o com- Ajudei-o a chorar.”
seu nome de modo diferente. Então
preendemos. você sabe que seu nome está seguro
Logo posso imaginar as religiões na boca de quem te ama.
como uma dança de roda - e é com esta
imagem que gostaria de concluir - onde (Billy, 4 anos)
dançamos todos. “É isto” independente

17
Algumas palavras têm uma expres-
sividade maior, um peso. Nelas um pro-
Frases para reflexão cesso se condensa, um acontecimento, Entrevista com Bert
uma realidade estendia por muito tempo. Hellinger
Como, por exemplo, nas palavras pai,
Ordem e plenitude
mãe ou filho. A palavra de peso move
Ordem é a maneira como fatores
algo no interior da alma, toca-a, movi- 16.06.1995
distintos interagem. menta alguma coisa. Como no caso da
Possui, portanto, diversidade e exclamação “socorro” ou das simples
plenitude. palavras “por favor” e “obrigada”. Mas Percepção e intuição
também as palavras “vida” ou “morte”
Encontra-se na troca, une o ou “despedida” e “lar” tocam-nos e esti- Pergunta: Gostaria de falar com você
disperso, mulam algo. sobre os contextos de sua terapia e
Tem palavras que nos penetram e sobre o que significa perceber
e recolhe-o na consumação
na medida em que são proferidas inte- fenomenologicamente. Freqüen-
Possui, portanto, movimento. temente você intui um segredo que
gram-nos no processo que descrevem. provoca mudanças fundamentais, sem
Remete o transitório a uma forma, Por exemplo, a palavra “sopro”. Ou, tam- que ele possa ser definido com exati-
que promete continuidade bém, tratando-se da palavra “árvore”. dão. Como descreveria tal processo?
Possui, portanto, duração. Quando a falamos, fazemos um movi-
mento interno – instintivamente – que Bert Hellinger: Se lhe entendi bem
Mas como uma árvore, que antes corresponde à copa de uma árvore em você se refere à descrição do proces-
de se abater, forma de gesto. so de conhecimento.
libera o fruto que a ela sobrevive, A palavra falada possui uma vibra- O primeiro ponto é que não po-
também a ordem se movimenta ção que falta à palavra escrita. Logo a demos capturá-lo com os conceitos da
com o tempo. palavra falada necessita de tempo. intuição ou a experiência. Para mim é
Possui, portanto, renovação e Apensa assim aquilo que foi dito pode muito mais. Pra mim a intuição é um
mudança. atuar. No caso da palavra escrita, pode- compreender instantâneo de como e
mos ter pressa ao lê-la. Às vezes aconte-
Vibram e desdobram-se, as ordens por onde algo continua. É direcionada
ce que pulamos uma ou outra palavra.
que vivem, para o futuro. Ela acontece no momen-
Neste caso, talvez, absorvamos apenas a
estimulam-nos e nos retêm to sem que eu acrescente algo.
sua informação, não o seu conteúdo in-
pela saudade e pelo medo. Denomino o meu processo de
teiro. Para compreender o conteúdo da
conhecimento de percepção. É algo
palavra temos que pronunciá-la enquan-
totalmente diferente. Percepção sig-
to a lemos e conceder-lhe o tempo que
damos à palavra falada. Por exemplo, nifica que me exponho a um contex-
quando lemos uma poesia. Quando di- to, por exemplo, que observo o que

Sabedoria para zemos algo com peso, freqüentemente


temos que dar ao outro o tempo neces-
acontece, quando pessoas se referem
a sua consciência ou quando dizem
que agem com consciência. Trata-se
viagem sário para que o falado possa ecoar den-
tro dele, o tempo para que o ouvinte de um fenômeno complexo que du-
possa repetir internamente o que foi dito. rante muito tempo não havia desven-
Apenas assim o falado atinge a alma, é dado.Logo, durante anos, simplesmen-
A palavra saboreado e começa a agir. Nós, porém, te deixei que agisse sobre mim e ob-
somente conseguimos falar deste modo, servei-o com atenção concentrada, até
Originalmente a palavra é falada. É dita. se anteriormente a palavra agiu dentro que de repente percebi o que “cons-
Através dela comunica-se algo, denomi- de nós; se no instante em que a pronun- ciência” significa essencialmente.
na-se e descreve-se alguma coisa. A pa- ciamos é um eco daquilo que soou den- A consciência é um órgão sistêmico
lavra serve à troca, é dar e receber. Re- tro de nós. de equilíbrio através do qual percebe-
vela algo ao outro, até então velado. Falando por si só, tais palavras são pou- mos imediatamente se nos encontra-
Deixa-o compartilhar um assunto pesso- cas, simples, imediatas, dirigidas, e um mos em harmonia com o sistema ou
al e cria conexão e confiança. Não im- presente para os outros. não. Se estamos fazendo algo que nos
porta apenas o que é dito e sim como é
assegura o estado de fazer parte ou se
dito: o tom, a expressão, o olhar, o gesto.
estamos colocando o mesma em risco
Somente através destes aspectos a pala- Contextos
ou anulado-o.
vra não é apenas ouvida, mas também é O caminho fenomenológico do
vista. Revelou-se, portanto, que estar com a
conhecimento

16
consciência tranqüila significa: ainda posso nhecem. Com conceitos construtivistas o de tal modo que eu não tenha nenhum
fazer parte. A consciência pesada signifi- não é possível captar tal processo. É, no propósito e sem medo das conseqüênci-
ca: Devo recear que não tenho mais o entanto, inegável que existe algo de ver- as. Quando me encontro recolhido em
direito de pertencer a um grupo. Logo, dadeiro na teoria do construtivismo, no mim dessa forma, tenho uma ligação com
diante de uma série de fenômenos, de sentido em que podemos ver que algo é algo maior. Não posso definí-lo. Às vezes
repente foi absorvido o essencial. Isto é apenas construído e mesmo assim mui- denomino-o de alma ou grande alma; é
o que denomino de procedimento tas pessoas tomam-no como verdadeiro algo secreto de onde vem força.
fenomenológico. Não tem relação algu- como no caso de ideologias, por exem- Conectado a isto reconheço estruturas
ma com conceitos predefinidos ou com plo. A solução e o objetivo, porém, con- que ajudam ou prejudicam.
o propósito de forçar algo, como, por sistem justamente na possibilidade de Com relação à ordem eu parto do
exemplo, manter uma idéia ou tradição. nos desvincularmos das construções e nos princípio que: a ordem se revela naquilo
É um processo simples e concentrado. permitirmos de perceber mais uma vez que une por um lado e que, por outro,
Sem propósito e sem medo. com precisão o que existe ali. possibilita desenvolvimento, os dois. No
caso de uma família onde todos se sen-
tem mal quando constelamos, parto do
O conhecimento como processo Ordem e efeito pressuposto que ela esteja em desordem.
de vida Logo procuro a ordem que cura, que so-
Pergunta: O que exatamente faz o efeito
luciona. Ao encontrar esta ordem, vejo
Pergunta: Muitos terapeutas sistêmicos na sua forma de terapia? O que se modi-
fica com relação ao sistema, ao individuo, que se trata de uma ordem que une a
de família têm um entendimento diferen-
te sobre o que é terapia. Na visão deles a a sua doença e a sua cura? todos e possibilita o desenvolvimento de
invenção de verdades – denominam-nas cada um.
de histórias - têm um papel fundamen- Bert Hellinger: Primeiramente falarei so- É possível reconhecer tais ordens em
tal, uma vez que são da opinião que é bre o meu entendimento de ordem, uma um nível mais superficial e trabalhar com
impossível encontrar uma verdade “ob- vez que o efeito se dá na medida em elas, ou então em um nível mais profun-
jetiva”, por assim dizer. O trabalho feito
que achamos uma ordem. Quando en- do. Quando, por exemplo, encontramos
aqui demonstra que talvez a palavra
“achar” seja mais apropriada do que a contrarmos uma ordem, a ordem correta ordens que causam doenças e outras que
palavra “inventar”, por exemplo, na me- – usarei este termo extremo – isto pro- curam, uma pessoa pode trabalhar com
dida em que constelamos e vemos que voca algo dentro de um sistema que cura estas ordens em um nível relativamente
naquele momento alguma coisa simples- e traz solução. superficial, porque as conhece. Neste
mente está presente. A ordem é algo predefinido. Uma caso, porém, a pessoa não trabalha par-
árvore, por exemplo, desdobra-se de tindo de um reconhecimento imediato
Bert Hellinger: A partir do momento em acordo com uma ordem. Esta ordem é da ordem e sim recorrendo àquilo que
que nos dirigimos a algo absoluto duran- predefinida. Não pode sair dessa ordem ouviu sobre a ordem ou a algo anterior-
te o processo de conhecimento estamos porque não seria mais uma árvore. Da mente reconhecido. Aplica o seu conhe-
no caminho errado. O conhecimento é mesma maneira o ser humano também cimento. Esta é uma forma de trabalhar
um processo de vida, ele serve à vida. se desenvolve seguindo uma ordem. E com o conhecimento em torno de or-
O conhecimento origina-se através da sistemas humanos desenvolvem-se de dens. Assim, no entanto, permaneço li-
interação com alguma coisa que não pre- acordo com uma ordem. Estas ordens são mitado na minha efetividade.
ciso compreender como tal. Absorvo o predefinidas. Se, ao contrário, quiser atingir algo
resultado da interação. E neste contexto, Alguns, porém, dizem: A ordem deve em um nível mais profundo, tenho que
por exemplo, posso ver que quando duas ser diferente da encontrada porque de- me recolher muito mais profundamente.
pessoas se expõem ao mesmo fenôme- sejam algo diferente. Reformadores do Este recolhimento dirige-se a um centro
no com o objetivo de atingir algo em mundo, por exemplo, desejam uma or- vazio. Assim encontro-me conectado a
relação a este fenômeno, uma alcança dem diferente da que encontram. Logo algo que cura e que não posso explicar.
mais que a outra. Se aquilo que reconhe- constroem uma ordem que corresponde Mostra-se, porém, no efeito. Ao transmi-
cemos fosse apenas algo construído, não aos seus desejos e não consideram o que tir o que reconheci de tal forma, vejo ime-
seria possível distinguir se o resultado foi é a ordem predefinida. A ordem diatamente através do efeito, se estava
maior ou menor. preestabelecida é algo oculto, não posso realmente conectado ou não. Se, por
Existe, portanto, uma orientação em encontrá-la sem um esforço maior, mui- exemplo, dá inicio a um movimento den-
alguma coisa, que vai além da constru- to menos inventá-la. tro do outro ou se apenas provoca curio-
ção. Na constelação familiar, por exem- Para mim o processo de achar a or- sidade ou objeções e perguntas. Pode-
plo, observamos, que os participantes dem ocorre na medida em que me reco- mos, portanto, distinguir entre diferen-
tem a capacidade de perceber algo que lho dentro de mim, mantendo em vista, tes níveis.
está inerente a um sistema que nem co- porém, o que está na minha frente. Faço-

17
Concordar com o mundo maneira neste determinado instante. Esta ao seu “eu”, falo, porém, a sua alma, lá
como ele é percepção é valida para o instante e é onde ele está conectado a algo maior. O
totalmente transparente neste instante. efeito é muito maior do que se me res-
Pergunta: Volto a falar da ordem. Tenho Ao separar isto da percepção daquele trinjo ao primeiro plano.
a impressão que este é o ponto princi- momento transformo-o em um Como podemos treinar a percepção?
pal onde seu trabalho é mal-compreen- ensinamento, e torna-se dogmático. Treina-se a percepção integral. A partir
dido e onde dizem que você é dogmático. desta percepção o resto dá-se facilmente.
Eu pessoalmente não compartilho essa
opinião. Para mim você é um empirista Percepção integral
confiável porque você procede de forma O limite máximo
fenomenológica. Porém, vejo também, Pergunta: Quando se dá tanto e recebe-
que este trabalho exige uma postura de se tanto como é possível delimitar o seu Pergunta: Gostaria de retornar à per-
sensibilidade e apreço. Surpreende-me espaço como pessoa? gunta sobre o que faz efeito. Notei que
com quanta calma e recolhimento inter- você exige muito do paciente e o leva até
no você suporta este trabalho. Também um limite máximo. E percebi também que
Bert Hellinger: O terapeuta é capaz de
aqui, neste seminário, o notei. Em alguns em um determinado ponto você pára,
momentos surgem situações de peso – o fazê-lo deslocando-se para um nível su-
perior durante o trabalho – poderíamos para que possa fazer efeito, desdobrar-
que se percebe também através do pú- se, para que a força possa agir. Você po-
blico. Onde você busca a força para tal também dizer nível inferior, não faz dife-
deria explicar mais precisamente por
postura? Como se mantêm nessa postu- rença. A imagem, porém, do nível mais que o faz e como o faz?
ra de recolhimento interno e clareza de elevado é mais bonita. Quando estou no
percepção? cume de uma montanha e olho em mi- Bert Hellinger: Sim. Com um paciente
nha volta não tenho a necessidade de ou cliente meu, eu percorro todo o cam-
Bert Hellinger: A calma assim como a delimitar o meu espaço em relação a po de conseqüências provenientes do
percepção derivam da aceitação do mun- nada. Vejo o que está diante de mim, sou seu comportamento ou dos destinos em
do como ele é, ou seja, sem o propósito parte de um todo e não preciso estabele- sua família. Não me limito a algo alegre
de querer mudá-lo. Em princípio esta é cer um limite em relação a alguma coisa. ou fácil, olho também para o lado difícil,
uma postura religiosa, pois, encaixa-se em Diante da plenitude não precisamos deli- principalmente para o lado difícil. E ca-
uma totalidade maior, sem a pretensão mitar o nosso espaço. Quando, porém, minho com ele até o limite onde ele e o
de saber fazê-lo melhor ou poder atingir aproximo-me demasiadamente de algu- seu sistema correm perigo. Acompanho-
saída melhor, do que a que as forças pro- ma coisa ou assumo algo alheio, não per- o até lá, com coragem e sem medo. No
fundas visam por sua parte. Logo, para maneço na posição do mero espectador. final isto significa, que eu também me
mim o ponto de partida é concordar com Neste caso é difícil delimitar o espaço. deparo com a possibilidade dele morrer
tudo da maneira como é. Quando vejo
ou de algo trágico acontecer. Isto eu
algo belo, isto para mim faz parte do Pergunta: Após ter visto o seu trabalho,
percorro com o paciente em todas as di-
mundo com o qual concordo. E quando pergunto-me quantos sentidos você pos-
sui. E pergunto-me especialmente: o que reções. Assim abranjo todo a verdade deste
vejo algo trágico, também concordo.
você pode passar para os outros para sistema. Uma vez percorrido este campo,
Concordo com ambos. É isto que deno-
treinar os seus sentidos de modo pare- sei onde estão os limites do que é possí-
mino de humildade: a aceitação do mun-
cido? vel ou impossível dentro deste campo.
do como se apresenta. Apenas a aceita-
Se o paciente conhece o limite existe a
ção permite-me perceber com exatidão.
Bert Hellinger: Neste trabalho os órgãos possibilidade de mudança para ele. So-
Caso contrário as minhas construções –
de percepção precisam estar abertos de mente assim percebe o que é possível,
usarei esta palavra – ou as minhas inten-
qualquer modo. Mas, para além disso, tanto no lado trágico como no lado bom,
ções ou ideologias prejudicam o meu
existe algo como uma percepção inte- e isto lhe dá força. Com esta força, en-
processo de percepção.
gral. A percepção integral torna-se pos- tão, procura-se a solução viável e me-
Temos que considerar também o fato
sível na medida em que atribuo um lu- lhor para todos. Às vezes a solução signi-
de que a ordem não se mostra com clari-
gar a tudo, ou seja, não excluo nada. Na fica aceitar, significa que diante do limite
dade e aparece de forma diferente a cada
constelação dou um lugar a cada um no máximo é necessário, também, aceitar o
instante. Inerente a ela está uma diversi-
meu coração, também àqueles que es- fim e que não existe solução diferente
dade, uma plenitude. Revela-se apenas
tão na posição do mal ou do agressor ou ou mais fácil. Na maioria dos casos, po-
em partes. Este é o motivo pelo qual
diante dos quais os outros sentem asco rém, existe outra solução. Posso atingi-la
uma constelação difere-se de uma outra,
ou medo. Dou um lugar também a eles. muito mais facilmente após ter caminha-
mesmo que tenham situações de base
Logo estou conectado a uma totalidade, do com o cliente até o limite do que te-
parecidas. O que, então, eu percebo nes-
percebo-o como totalidade. ria sido possível antes. Agora ele vê as
te determinado instante, eu digo. E en-
Também sempre olho para um ser suas possibilidades e os seus limites e
tão alguns acham que se trata de uma
humano como sendo parte de uma tota- pode achar o caminho apropriado com
afirmação geral ou uma verdade geral.
lidade maior. E quando trabalho com um mais facilidade.
Ao contrário – não é isto. Trata-se da
percepção de algo que veio a luz desta ser humano, na função de terapeuta, na
verdade, não me dirijo a sua pessoa ou

18
Ordem e amor zer parte, mesmo estando morto. Logo a não podem ser considerados. Se, por
criança pode exigir do pai com amor que exemplo, a lealdade de uma criança di-
Pergunta: Gostaria de fazer uma pergun- reconheça o direito dela de fazer parte e ante dos seus pais manifesta-se mais uma
ta sobre o “amor”. Durante o seminário lhe pedir: Seja amável se eu ficar, ou algo vez e o paciente prefere morrer a acei-
você também disse que quando perde- parecido, dependo da frase em cada caso tar a solução, se poderia concluir que a
mos amor, o sistema entra em desordem
particular. terapia não tenha sido eficiente. Isto,
e quando reconhecemos o amor e o re-
cuperamos o sistema pode voltar a sua porém, não é verdade. O paciente per-
ordem. O que acontece neste contexto? manece livre e pode tomar a decisão que
Liberdade quiser, independente da terapia.
Bert Hellinger: Antes de entrar mais
Pergunto mais uma vez sobre a
detalhadamente nesta pergunta, gosta- efetividade do seu trabalho. Ultimamen-
ria de voltar mais uma vez ao assunto da te tem se tornado muito conhecido, po- Humildade
ordem. O que nos denominamos de va- deria dizer também, que entrou para o
lores ou de sentido é algo que serve à centro de atenções da psicoterapia. Na
medida em que isto acontece aumenta a Pergunta: Qual o papel da humildade
ordem, ou seja, àquilo que serve a uni- para você e de certas posturas corpo-
necessidade de avaliação do que você faz.
dade e ao desenvolvimento. Por este rais que expressam a humildade? Como
Em conversas com colegas da área sur-
motivo a ordem sempre está em primei- gem, repetidamente, dúvidas e questões a descobriu?
ro lugar. Todo o restante está a serviço sobre a efetividade do seu trabalho. Ouve- Porque é evidente que existem certas
desta ordem. Portanto não posso desejar se comentários como: sim, é impressio- posturas que expressam humildade,
modificar a ordem através de valores, nante; é profundo; é de certa forma como também nas religiões como, por exem-
uma ação psicoterápica imediata, porém, plo, o ato de ajoelhar-se ou de inclinar-
dizendo: este é o valor máximo, logo a
a sua efetividade é totalmente desconhe- se profundamente.
ordem deve adequar-se a ele. Não, é o
cida. O que também está acontecendo
contrário. O valor segue a ordem. Tam-
com o seu trabalho neste momento é que Bert Hellinger: Observei estas posturas
bém o amor segue a ordem. Está a servi- está sendo incluído, em parte, em um em situações concretas, sem referência
ço da ordem. outro grande sistema. A questão é, se este a alguma religião. Primeiro observei que
A maior expressão de amor é quan- outro sistema lhe convém. Mesmo assim,
após um ou dois anos, surge também em
uma ligeira inclinação da cabeça para
do afirmo a um outro que ele faz parte,
mim, a necessidade de conferir este tra- frente, estimula um fluxo de energia que
ou mais precisamente, quando reconhe-
balho para saber como atua. Existe esta sobe pela coluna, ou seja, que a postura
ço , que possuiu o mesmo direito de fa-
possibilidade ou seria uma petulância, de olhar para cima bloqueia o fluxo
zer parte de algo do que eu. Assim exijo ou será que na verdade não estamos a energético. Se inclinamos a cabeça ligei-
dele que reconheça o fato de que eu tam- altura de fazê-lo? É parecido com a
ramente para frente a energia flui e as-
bém recorro ao mesmo direito de fazer hipnoterapia onde modificamos ima-
gens internas, ou tentamos modificá-las sim temos maior contato com a terra.
parte do que ele. Através desta aprova-
e depois deixamos que o processo se Se alguém faz isto diante dos seus
ção mútua resulta um sentimento pro-
fundo de união. Este é, então, o amor desenvolva no subconsciente, mas em pais, e inclina-se profundamente, então
certo ponto nos perguntamos: Faz efei- faz valer a ordem antiga onde os pais
que desvincula.
to? Ou não faz efeito? são grandes e ele é pequeno. Na reve-
Neste contexto existem outras for-
mas de amor que atuam, por exemplo, rência mais profunda a pessoa inclina-se
Bert Hellinger: Considero legítima a ne- até o chão e a frase que acompanha a
o amor que vincula. O amor que resulta cessidade de se querer saber qual o efei-
do vinculo, faz com que uma criança que reverência é: “dou lhe a honra”. Uma in-
to deste trabalho. Por outro lado, para clinação de tamanha profundidade geral-
ainda não compreende os contextos mais avaliar este trabalho a pessoa tem que
amplos, agarre-se a sua mãe ou ao seu mente acontece diante de pai e mãe,
ter feito o trabalho. Quem faz o trabalho talvez diante dos avós, raramente, po-
pai e queira permanecer junto deles a já recebe uma informação no decorrer
qualquer preço, mesmo que já estejam rém, diante de outra pessoa. Ela significa
do trabalho e assim pode avaliar depois humildade em sua extensão máxima.
mortos. Desta postura resulta a dinâmi- o que ajuda e o que não ajuda. A infor-
ca: “sigo você na morte”. Esta, porém, é Um fato peculiar é que no instante em
mação mais importante obtém-se no
uma dinâmica que prejudica o sistema que alguém se expõe a tal reverência
momento da constelação. Neste momen-
porque assim, quando um vai, mais um profunda é capaz de, logo em seguida,
to vemos imediatamente o que mudou,
vai, ao invés de ao menos este ficar. Se, colocar-se na mesma altura dos pais, sem
no sentimento, no olhar, no ambiente, na
no entanto, a criança for capaz de reco- petulância alguma.
força de fazer algo. Como a pessoa de-
nhecer, que o pai continua vivo dentro pois utiliza a informação que recebeu, o
dela, mesmo que já tenha morrido, ou As perguntas foram feitas por
terapeuta não pode determinar. Logo, a
seja, que reconheça que mesmo assim Wolfgang Lenk, Johannes Schmidt
avaliação do trabalho após um tempo não
está conectado a ela e ela a ele, então o e Brigitte Zawieja.
é realmente confiável, uma vez que, to-
pai é reconhecido em seu direito de fa- dos os outros fatores que têm influência,

19
História so pelo fato de acharem que esse homem
que trabalhava no campo com ele fosse
alguém tão especial. Ele, porém, disse “Sim
eu sou um mestre. Se quiserem aprender
algo de mim, fiquem aqui por mais uma
semana. Então os ensinarei”. Os correligi-
Agora os correligionários estavam por
conta própria novamente. Alguns entre eles
não queriam acreditar que o mestre os ha-
via deixado e partiram em sua procura no-
vamente. Outros já quase não sabiam mais
distinguir entre seus medos e desejos e pro-
O chapéu sobre o onários aceitaram trabalhar para o mesmo
camponês e receberam comida, bebida e
curavam por qualquer caminho que fosse.
Um, no entanto, caiu em si. Retornou
alojamento. No oitavo dia ao escurecer o mais uma vez até a árvore, sentou-se e
espantalho mestre chamou-os, sentou-se sob uma ár-
vore e contou-lhes uma história.
direcionou o seu olhar para bem longe até
que alcançou o silêncio interno. Buscou
“Há muito tempo atrás um jovem ra- dentro de si tudo aquilo que o afligia e
Um grupo de correligionários, que se jul- paz refletiu sobre o que fazer de sua vida. colocou-o diante de si como alguém que
gavam no início da sua jornada, encon- Era de boa família, não sofria necessidades após uma longa caminhada tira a mochila
trou-se para falar sobre os seus planos para e sentia-se comprometido com algo maior das costas antes de descansar. Sentiu-se leve
um futuro melhor. Todos concordaram que e de mais valor. Assim deixou pai e mãe, e livre. Ali estavam, diante dele: seus dese-
o fariam de modo diferente. O comum e seguiu os ascetas durante três anos e tam- jos, seus medos, seus objetivos e sua ver-
corriqueiro tanto quanto este ciclo contí- bém os deixou. Depois encontrou Buda em dadeira necessidade. Sem olhar mais pre-
nuo parecia-lhes demasiadamente limita- pessoa e logo sabia que nem isto bastava”. cisamente e sem determinação específica,
do. Procuravam o único, o amplo e espe- Ambicionava subir mais alto. Queria che- mais na posição de alguém que se entrega
ravam encontrar a si mesmos como nin- gar lá onde o ar é rarefeito e a respiração ao desconhecido, esperava que aconteces-
guém antes. Em pensamentos já se viam difícil: onde ninguém antes dele havia ja- se por si só – esperava que tudo se aco-
alcançando o objetivo, imaginavam como mais chegado. Quando alcançou este lu- modasse no lugar que lhe convinha no con-
seria e decidiram agir. “Primeiro” disseram gar o jovem rapaz se deteve. Era o final texto do todo, de acordo com a sua im-
“temos que procurar o grande mestre; por- daquele caminho e ele viu que se tratava portância e o seu peso. Não demorou muito
que é assim que tudo começa”. Depois de um caminho equivocado. e o jovem percebeu que do lado de fora a
iniciaram a sua jornada. O mestre vivia em Logo queria tomar a outra direção. quantidade de questões posicionadas di-
um outro país e pertencia a um povo des- Desceu, chegou a uma cidade, conquis- ante dele diminuía. Como se algumas saís-
conhecido. Ouviam-se boatos estranhos tou a mais bela das concubinas, tornou-se sem de fininho como ladrões desmascara-
sobre ele, ninguém, porém, nunca tinha sócio de um comerciante abastado e logo dos em fuga. E ele realizou que tudo aqui-
certeza sobre aquilo que se falava. Do cor- se transformou em um homem rico e lo que identificava como seus próprios dese-
riqueiro conseguiram escapar rapidamen- prestigiado. Não havia, porém, descido até jos, seus próprios medos e seus próprios
te, pois aqui tudo era diferente: os costu- o ponto mais baixo do vale. Permanecia objetivos nunca lhe havia pertencido. Vi-
mes, a paisagem, o idioma, os caminhos, apenas na camada superior. Faltava-lhe a nham de um lugar totalmente diferente e
o objetivo. Às vezes chegavam a um lugar coragem para o desempenho máximo. apenas haviam se estabelecido ali. Agora,
do qual se dizia que o mestre estava lá. Havia uma amante não havia, porém, uma porém, o seu tempo havia terminado.
Mas quando queriam saber um pouco mais, mulher. Teve um filho, no entanto, não era Parecia entrar movimento naquilo que
ouviam que ele tinha acabado de partir pai. Havia aprendido a arte do amor e da restava, ali, diante dele. O que realmente
novamente e que ninguém sabia em qual vida, porém, não o amor e a vida propria- lhe pertencia retornou a ele e ocupou o lu-
direção tinha ido. Depois, porém, num belo mente ditos. Aquilo que não aceitava ele gar que lhe correspondia. No seu centro
dia, o acharam. desprezava até que não o interessava mais acumulou-se força e logo reconheceu o que
Trabalhava nas terras de um campo- e assim o deixava de lado.“ era seu, reconheceu o seu objetivo adequa-
nês. Assim ganhava seu sustento e tinha do. Esperou mais um pouco até que teve
um lugar para dormir. Primeiro não queri- Neste ponto o mestre fez um intervalo. Ele certeza. Depois se levantou e partiu.
am acreditar que este homem seria o mes- disse: “Talvez reconheçam a história e sa-
tre pelo qual procuravam há tanto tempo. bem, também, como terminou. Diz-se que
O camponês também se mostrava surpre- o homem tornou-se humilde e sábio no A Serviço da Vida
final e voltou-se para o comum. Mas do Uma revista a serviço do trabalho com
que isto adianta se antes já se havia perdi- as constelações sistêmicas segundo
do tanto. Quem tem fé na vida não procu- Bert Hellinger
ra conquistar o distante que almeja
Com artigos da revista alemã
secretamente.
“HellingerZeit Schrift”- revista trimestral
Ele enfrenta primeiro o comum. Caso con-
alemã de autoria de Bert Hellinger e
trário também o que é incomum para ele –
Marie-Sophie Hellinger.
se é que isto existe – é apenas como o
chapéu sobre um espantalho.“ Todos per- Reprodução autorizada.
maneceram em silêncio. Também o mes- Direitos autorais para o português da
tre que, depois, levantou-se sem dizer nada Editora Atman.
e partiu.
Tradução: Filipa Richter
Na manhã seguinte não era possível
Revisão: Tsuyuko Jinno-Spelter
encontrá-lo. Ainda durante a noite havia
Diagramação: Virtual Edit
ido embora sem dizer para onde. Coord. Editorial: Décio Fábio de
Oliveira Júnior

Revista 1 – edição alemã em 09/2006


20
A Serviço da Vida

Uma revista a serviço do trabalho


com as constelações sistêmicas segundo
Bert Hellinger

Fascículo 2
Sumário
• Prefácio
• O que faz feliz
• Homem e mulher
• Círculo de Amigos
• Ajudar às crianças
Desejo-lhes as boas vindas
A primavera está de volta. A terra Não apenas a própria alma, todos, porém, continua sendo a
é uma criança plena de poesias; mas também, a alma das pesso- alegria.
tantas... Pelo esforço que encerra as com quem estamos intima- Mesmo que o mundo mude
o longo estudo, um prêmio lhe mente ligadas. Às vezes, no en- velozmente,
cabia. tanto, elas já podem estar no como nuvens num mosaico,
verão enquanto nós ainda per- tudo o que é perfeito tende
manecemos no inverno. Ou en- de volta ao arcaico.
Assim Rilke dá as boas vin- tão celebram a primavera en-
Sobre a mudança e o andar,
das à terra - que se desperta quanto nós já estamos na co-
ampla e livre, inda perdura
após um longo inverno - em seus lheita. E vice versa.
tua voz que vibra no ar,
Sonetos a Orfeu. Mas todas as estações co-
ó Deus da lira pura!
A nossa alma também segue nhecem umas às outras. Perten-
as estações, permanece, porém, cem ao mesmo círculo, ao mes-
Nem a dor aqui se encerra,
igual em suas profundezas e em mo movimento em torno de um
nem do amor sabemos a sorte;
sua essência. Suporta o inver- centro comum.
nem o temor do exílio da morte,
no, alegra-se na primavera, Complementam-se em nossos re-
transpira no verão e colhe no lacionamentos. Acrescentam ao nada disso está desvendado.
outono. peso a esperança, ao calor o si- Somente o canto na terra
lêncio, à colheita a gratidão e à será santo e celebrado.
alegria a celebração pelo tempo
que durar. Assim canta Rilke em um de seus
Desse modo, os artigos e as Sonetos a Orfeu. Assim canta
histórias dessa revista levam- também a terra no poema sobre
nos pelo ciclo anual da alma e a primavera. Minha mulher Ma-
das nossas relações. Permanecem ria Sophie e eu e todos os nos-
relacionados uns aos outros e sos colaboradores desejamos-
também a uma essência. Estimu- lhes muita alegria com esta re-
lam e criam espaço. A base de vista.
Bert Hellinger
O que faz feliz
O que deixa as
pessoas felizes?
Extratos do seminário “Auxílio de
vida” Germering, 09.07.2005

Esta é a questão.
Quem é mais feliz?
Quando fomos mais
felizes? Mais feliz, é
uma criança no seio
uma pessoa situa-se nessa escala.
da mãe. Existe O sentimento Este homem, então, afirmou que não
era possível mudar o sentimento de base.
felicidade maior do
de base Uma das minhas descobertas decisivas,
porém, foi que era possível mudá-lo sim.
que esta ligação
O modifiquei em mim mesmo e foi as-
íntima? Isto também é Há muitos anos atrás estive em Chicago sim que percebi que era possível.
a convite de um casal de terapeutas na Uma vez participei de um curso. O
valido para nós, hoje função de terapeuta visitante. Eram pes- terapeuta trabalhou comigo pessoalmen-
soas maravilhosas. Seu sobrenome era te. Até hoje sou agradecido a ele. Cha-
em dia. A nossa maior Haimowitz. Uma vez o homem disse em mava-se Lês Kadis. Com a sua ajuda, de
felicidade é a ligação um grupo que toda pessoa possuía um repente vi o que minha mãe havia feito
sentimento de base. Que retorna sem- por mim. Fiquei muito abalado ao ver,
com a nossa mãe e pre para este sentimento de base, pois de repente, tudo que a minha mãe havia
este é o lugar onde sente o menor stress. feito por mim. Era presente sempre. E
depois com o nosso Cada um de nós pode perceber imedia- foi uma mulher corajosa. No contexto
pai. No decorrer da tamente como está o seu próprio senti- do Nacional-Socialismo ninguém conse-
mento de base. Imaginamos, por exem- guia seduzi-la para nada. Quando me foi
vida, talvez, algo plo, um escala de menos 100 a mais 100. negado o meu certificado de conclusão
O homem disse que nunca podemos escolar sobre o pretexto de que eu era
tenha interferido que mudar o sentimento de base e que sem- um sujeito anti-social ela foi até o colé-
pre retornamos ao nosso sentimento de gio e lutou por mim como uma leoa.
nos distanciou da base. Então recebi o certificado. Nesta época
nossa mãe. Então Agora confiram em vocês mesmos: já estava no exército há um ano.
Onde se situam nesta escala de menos Bem, de repente percebi este fato e
ficamos vazios. Sem 100 a mais 100? Se é na parte abaixo de percebi em mim como o meu sentimen-
zero, e onde lá, ou se estão na parte su- to de base elevou-se por 75 pontos. 75
mãe somos pessoas perior a zero, e onde lá. Isto cada um de pontos, podem imaginá-lo? Ou seja, a li-
vazias. Então algo nós sabe imediatamente. Quando olho para gação com a mãe traz felicidade. É, en-
uma pessoa também o sei imediatamen- tão, um dos fatores que deixam as pes-
está faltando. te. Reconhecemos imediatamente onde soas felizes.

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para o destino deles. Junto com o des-
A felicidade no tram como possivelmente podemos
superar tais obstáculos do amor e da tino lhe dão as costas novamente e
felicidade. voltam-se para algo por detrás do des-
relacionamento Muitas pessoas que são felizes têm
a necessidade de afirmar o contrá-
tino, algo grande de onde tudo vem
e para onde tudo retorna. Lá está guar-
entre casais rio. Por quê? Porque acham que as-
sim protegem a felicidade. Muitos
dado.

têm a fantasia de que devem pagar Se agora você falasse a um deles: ”Em
Onde a maioria sonha encontrar pela felicidade. É evidente que quan- breve irei ao encontro de vocês por-
a felicidade? No relacionamento a to mais pagamos pela felicidade, que os amo”, eles a ouvem?
dois, evidentemente. Neste contexto Depois você olha para o seu próprio
menos temos. Isto é também uma
fiz mais uma descoberta decisiva. destino junto com os seus filhos. E
idéia religiosa.
você diz a este destino: “Sim”. O seu
Devo contá-la a vocês? Quando am-
destino também lhe dá as costas e
bos os parceiros estão em conexão
volta o seu olhar para outro lugar,
com as suas respectivas mães, então
para algo maior.
se tornam felizes.
Agora você se volta para os seus fi-
Algumas pessoas são solitárias. Exemplo lhos e diz a eles: “Podem confiar em
Algumas mulheres são solitárias, al- mim. Eu fico.” E para o seu marido
guns homens são solitários. Resumi
a minha descoberta em uma frase: Eu sou feliz você diz o mesmo. Ele ficará feliz se
dizer isto a ele. Olhe em seus olhos e
“Sem mãe não há parceiro”. Algumas diga: “Eu sou feliz.”
pessoas dizem: “Finalmente quero ter Mulher: Três irmãos do meu pai fale-
um homem”. Não funciona assim. ceram quando crianças. O pai do meu Para o grupo: Agora o marido e os
Primeiro temos que ter a mãe para pai faleceu cedo e o meu pai também. filhos estão bem.
depois acharmos um homem. Sem Morreu de câncer com 49 anos.
mãe não há homem. Evidentemente Para a mulher: E como você está?
isto também se aplica ao homem: Sem Hellinger: Quando acontece algo as- Mais livre, mais solta.
mãe não há mulher. Mas aqui tenho sim em uma família, então, o amor
as minhas dúvidas que algumas mu- perante a família freqüentemente
lheres querem ocupar o lugar da mãe cobra que compartilhemos tal
e assim fazer o homem feliz. Nós sa- destino.
bemos qual o resultado disso.
Este então é o primeiro caminho Para mulher: Feche os
para a felicidade; permanecer em con- olhos. Agora imagine to-
tato com as raízes e de lá expandir-se dos esses mortos. Pri-
e ser feliz. meiro o seu pai e o pai
do seu pai e os irmãos
mortos do seu pai.
Diga a eles: “Vejo
vocês. Carrego-os no

Obstáculos na meu coração. Eu amo


vocês.”
Depois olhe para além
busca da deles, para bem longe,
para o destino deles.
felicidade Enquanto você dirige o
olhar para além deles,
para o destino deles,
Evidentemente há muitos fatores eles também se voltam
que contrariam a felicidade e que es- para o seu destino – com
tão relacionados à nossa história fa- amor. E também o desti-
miliar, aos acontecimentos na famí- no olha para eles com
lia. A constelação familiar e a manei- amor. Depois dão as costas
ra como ofereço este trabalho, mos- a você e viram-se apenas

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perioridade estende-se a tal ponto que
Felicidade os outros – supostamente superiores em
função da moral – digam: “Este pode vi-
através da ver e este não”. Não é incrível, tal petu-
lância, por detrás da moral? Felizes, po-
rém, estas pessoas moralistas não são.
benevolência Seguramente não.
A felicidade resulta do ato de voltar-se
para todos para todos. Este ato de voltar-se para to-
dos é uma realização e uma tarefa para a
vida inteira. É a realização essencial da
nossa vida. Em princípio não é diferente
da benevolência para todos. Quero bem
O que faz com que as a todos os seres humanos. Sintam o que
se passa no interior de vocês ao exerci-
pessoas sejam felizes? O tarem esta postura. Existe, talvez, uma
que me faz feliz? Como ou outra pessoa com a qual estejam abor-
recidos. Agora vocês a olham e dizem:
me torno feliz? “Lhe quero bem em todos os sentidos.”
Vejo através de algumas expressões
Voltando-me para todas que já estão mais felizes. A benevolên-
as pessoas de maneira cia traz felicidade. Querer mal a alguém,
ao contrário, traz a infelicidade. Não ape-
similar. Voltar-me para nas a do outro e sim a nossa própria.
instante. Com o instante esquecemos tam-
É possível verificar a benevolência
elas não significa amar dentro de nós e renová-la.
bém, a felicidade do instante. Permane-
cer no instante é uma tarefa difícil que,
todas elas Freqüentemente confiro a minha pró-
podemos treinar.
pria benevolência. Percebi que quando
emocionalmente. fico inquieto ou ansioso não permaneço
conectado com a minha alma e o meu Fechem os olhos. Toda a vida acontece
Significa que me volto coração. Isto vocês também percebem no instante. Apenas no instante. Manifes-
ta-se no instante com toda a sua força.
para elas com respeito e imediatamente. Então, à noite, sento-me
No instante – agora – a vida é repleta.
– se não tiver tempo à noite o faço na
amor espiritual. Que me manhã seguinte o mais tardar – e me per- Então abrimos o coração para este mo-
gunto: “A quem neguei a minha benevo- mento, alegramo-nos com este momen-
volto para elas ao andar lência?” De repente estas pessoas apare- to, agradecemos por este momento.
No instante não há lamento, também
com um movimento cem diante de mim, no meu interior. Tor-
não há medo. Todo medo concentra-se
no a voltar-me para elas com benevolên-
criativo que atua por cia. Com benevolência, simplesmente, no futuro, todo lamento reside no passa-
sem julgamento e com benevolência. do. No instante vivemos sem lamento e
detrás de tudo e que Então fico calmo novamente. Esta é uma sem medo.
Porque as crianças freqüentemente
dirige-se a tudo da outra maneira de ser feliz, simplesmente,
são tão felizes? Por que permanecem,
através da benevolência.
mesma forma. Não é apenas, no instante.
Quero fazer mais um comentário so-
possível imaginá-lo de bre o instante. Viver de instante para ins-
tante, significa também, morrer de ins-
modo diferente. tante para instante. Deixamos o antigo

Quando deixo de voltar-me para alguém


O instante para trás. Isto é a despedida. O exercício
de viver no instante significa que domi-
perco a minha felicidade. Como uma no a arte de esquecer tudo. Ainda não o
pessoa exclui uma outra? Sentindo-se Quero, agora, falar mais um pouco sobre aprendi, às vezes, porém, imagino o que
melhor. Quando se sente melhor. Todos a felicidade. Qual o segredo da felicida- significa esquecer tudo.
que se sentem melhor excluem alguém. de? Onde se realiza a felicidade? No ins- Don Juan nos livros de Carlos
Todos que avaliam alguém de forma tante. Toda a felicidade reside no instan- Castaneda aconselha-nos de esquecer a
negativa ou julgam-no, excluem-no. Essa te. O que contraria a felicidade? O des- sua história, esquecê-la totalmente. Se
superioridade resulta da moral. Se refle- vio do instante. O olhar para trás ou o conseguirmos fazê-lo, isto significaria fe-
tirmos um pouco, notamos que esta su- olhar para a frente. Então, esquece-se o licidade.

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Para o homem: Você fez algo a ela
Trabalho que a machucou. Feche os olhos. Tomar os pais
O homem coloca as mãos em
Homem: Trata-se do assunto tra-
frente do rosto e começa a
soluçar.
inteiramente
balho.
Hellinger após um tempo: A sua
Hellinger:O problema “trabalho” Hellinger para o grupo: Gostaria de dizer mais uma
mãe ainda é viva?
pode ser resolvido facilmente. coisa neste contexto.
Homem: Sim. O meu pai já faleceu.
Hellinger posiciona Às vezes olhamos para a nossa mãe e o nosso
Hellinger: Então você ainda tem
primeiramente o homem e pai e pensamos: algo não estava certo. Eles não eram
uma chance. Agora você entrou em
depois uma representante perfeitos. Temos umas exigências bastante peculia-
contato com ela. Bom, muito bom.
para o trabalho de frente res em relação aos nossos pais, como se tivessem
Vou lhe fazer algumas sugestões
para ele. A representante que ser iguais a deus. Não exatamente iguais, um
concretas. Você escreve uma carta
para o trabalho da um passo pouco melhor ainda, evidentemente. É assustador o
para ela. Depois percorre a sua in-
para trás e vira-se. que causamos aos nossos pais com tamanhas expec-
fância desde o seu nascimento e
olha para tudo que a sua mãe fez tativas. E depois ainda nos sentimos no direito de
Hellinger: Não me admira você não tomar satisfação deles já que não foram iguais a deus.
por você, o tempo todo. Isto você
ter trabalho. Ele não gosta de você. Porque foram comuns, com erros; quase os mesmos
escreve para ela e que você vai
O trabalho não gosta de você. Está erros que nós temos e assim nós crescemos e nos
guardar tudo no seu coração. Tudo
aborrecido com você porque você tornamos capazes de enfrentar a vida. Apenas por-
que ela lhe deu você guarda no
não o respeita. O trabalho foge de que os pais eram comuns e cometiam erros nós nos
seu coração.
você. Isto, porém não é culpa do tornamos capazes de enfrentar a vida. Eu fiz uma
O homem faz um movimento
trabalho. Mas, quem era o trabalho? experiência peculiar. Eu, comigo mesmo. Contei-lhes
afirmativo com a cabeça.
Homem: Era algo que está muito anteriormente como o meu sentimento de base cres-
Hellinger: Exatamente. Depois, no
distante de mim. Não era um mo- ceu. Acolhi a minha mãe no meu coração, por intei-
final você escreve mais uma coisa:
vimento de aproximação. ro. O estranho era: Tudo aquilo do que eu achava
Sempre que você precisar de mim,
Hellinger: Quem era isto aqui, o tra- que pudesse reclamar e que eu achava que poderia
pode contar comigo.
balho? Era a sua mãe. Sem mãe não ter sido melhor, permaneceu do lado de fora. Muito
O homem está muito emocionado.
há trabalho. O que você fez a ela? estranho. Quando tomamos o nosso pai e a nossa
Hellinger: Agora, em breve você
Homem: No momento sinto que mãe para dentro do nosso coração, assim como eles
encontrará trabalho.
está de costas pra mim. são, eles permanecem inteiramente no nosso cora-
Os dois começam a rir alto.
Hellinger:Minha pergunta foi bem ção e sem aquilo que criticávamos. É uma experiên-
Hellinger para o grupo: ele ficou
concreta. cia bonita. E também ajuda quando a conto assim.
feliz. Muito bom. As mães nos fa-
Homem: Eu fui embora.
zem felizes, sem dúvida.
Hellinger: O que isso quer dizer?
Para o homem: está bom, vamos
Homem: Tenho pouco contato
deixar aqui.
com ela. Virei-lhe as costas.
Hellinger: O que você fez a ela?
Homem: Dei lhe as costas.
Hellinger para o grupo: Acho que
vai permanecer desempregado.
Não há nada que se possa fazer.
Sem mãe não há trabalho.
Quem dá as costas para
mãe dá as costas para o
trabalho – e o trabalho
lhe dá as costas
também.

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Agressores só encontram a paz ao lado car um pouco mais precisamente o
A reconciliação das vítimas. Podem apenas aproximar-
se das vítimas se estas lhes dão um lugar.
que atua por detrás disto.

Aqui pudemos observar como isto foi Um dos meus reconhecimentos mais
difícil para as vítimas. Uma das vítimas decisivos foi a respeito do funciona-
Esta reflexão precedeu permitiu o contato com agressor. Após mento da consciência. Trouxe-a, por
esse contato os dois ficaram em paz. A assim dizer, do céu para a terra. Per-
a constelação familiar representante desta vítima olhou para as cebi, de repente, que a consciência é
outras vítimas que ainda não estavam em um instinto, e não algo espiritual. Um
de um homem cujo paz, convidando-as a fazerem o mesmo. cachorro também possui uma consci-
avô acompanhou um Elas não podiam dar um lugar ao agressor. ência. Perceberam que um cachorro
A quem isto prejudica? Prejudica as de vez em quando também tem uma
transporte de detidos vítimas quando se negam a fazer este consciência pesada? Ou seja, a cons-
movimento. ciência é algo instintivo. Encontramo-
de um campo de Então posicionei um representante la somente em grupos ou rebanhos.
concentração no final para a Alemanha. Existe mais um aspec- Se um membro do rebanho fez algo
to que obstrui o caminho de reconcilia- que o pudesse excluir do rebanho,
da guerra e morreu ção entre vítima e agressor: a Alemanha fica com a consciência pesada. Logo
ou mais especificamente, os alemães. muda o seu comportamento para fa-
neste trem durante um Neste contexto gostaria de fazer um pe- zer parte novamente.
atentado a bomba. queno exercício com vocês. Transferindo isto para o ser hu-
mano funciona assim: a nossa cons-
ciência nos vincula ao grupo impor-
tante para a nossa sobrevivência. Vin-
cula-nos especialmente a este grupo,
mas também, a todos os outros gru-
pos com os quais queremos manter
uma ligação.
A consciência é um órgão instin-
Eu reconheço que sou igual a você tivo de percepção. Podemos compa-
rar a consciência ao sentido respon-
sável pelo equilíbrio. O sentido res-
Fechem os olhos e imaginem que ine- a culpa, tudo, da maneira como foi.”
ponsável pelo equilíbrio também é um
vitavelmente fazem parte da Alema- Depois olhamos para além deles em
órgão instintivo de percepção. Atra-
nha, que pertencem a este campo es- direção a algo maior que está além de
vés dele sabemos imediatamente se
piritual. Todos fazem parte desse cam- tudo e a que todos pertencem da mes-
estamos em equilíbrio ou não. De
po espiritual, os agressores, as víti- ma forma e estavam igualmente entre-
forma parecida podemos perceber
mas, todos os entusiasmados,N R to- gues – onde todos são igualmente aco-
através da nossa consciência se ain-
dos fazem parte deste campo da mes- lhidos. Diante deste poder paramos,
da podemos fazer parte ou não. As-
ma maneira. Expomos-nos a eles, a sem movimento, com devoção e sem
sim que fizermos algo que possivel-
todos eles, aos entusiasmados, tam- perguntas, ficamos ali, simplesmente.
mente nos exclua temos a consciên-
bém àqueles que falaram que não
cia pesada. Logo mudamos o nosso
sabiam de nada ou àqueles que se A partir do momento em que alguém
comportamento para podermos fazer
distanciam como se não pertencessem do presente deixa em paz os que per-
parte novamente. Quando podemos
a este campo. E nos expomos aos tencem ao passado, quando não ad-
fazer parte nos sentimos felizes e ino-
agressores e a todos os soldados e quire mais nada dessas pessoas e
centes. Este é, em principio, o anseio
vítimas em todos os lados. Expomos- elas, por sua vez, podem seguir seu
mais profundo de todo ser humano:
nos amplamente, por inteiro e total- próprio caminho, então encontram a
fazer parte. Não existe, portanto, mal
mente abertos. E compartilhamos com paz. Portanto é grave quando algu-
maior do que ser excluído.
eles também o sentimento. Dizemos mas pessoas acham que ainda preci-
Como punimos os criminosos?
a eles: “Eu reconheço, sou como sam fazer algo para os mortos. Vin-
Através da exclusão evidentemente.
vocês, sou igual. Presto-lhes uma re- gar-se, por exemplo, ou assumir algum
Nós os mandamos para a prisão ou
verência em minha alma, a todos problema no seu lugar ou compensar
os matamos. A exclusão é o pior que
vocês, com humildade e amor. No alguma coisa. Então, envolvem-se em
existe. O maior bem é fazer parte.
meu coração unem-se o sofrimento e algo que não lhes diz respeito. Este é
Sabemos então, através da consciên-
um dos motivos que levam à infelici-
cia o que é bom para nós e o grupo e
dade e ao desastre. Talvez deva expli-
NR
com o nazismo o que é ruim para nós e o grupo.

8
A felicidade cega
Quero explicá-lo mais detalhadamente. mação atua um amor profundo. É um
Uma criança faz tudo para poder fazer amor, porém, que leva para a morte. Ou
parte. O fato de fazer parte lhe é mais quando uma criança percebe que sua mãe
importante que a própria felicidade e a ou o seu pai deseja morrer, então diz in-
própria vida. Muitas pessoas sacrificam a ternamente: “Eu vou no seu lugar” E de-
própria vida para fazerem parte, por pois talvez morra ou fique doente. Po-
exemplo, soldados e outras pessoas que demos observá-lo, por exemplo, no caso
lutam por alguém. Nós dizemos que são da anorexia. A pessoa anoréxica diz em
capazes de sacrificar a sua vida para a seu coração: “Prefiro que eu vá no seu
comunidade. Trata-se, porém, do desejo lugar,querido papai.” Normalmente é isto
de fazer parte. Em que circunstâncias uma que diz. Na maioria das vezes o faz para se sente o pai se a filha lhe diz interna-
pessoa é especialmente honrada? Se ti- o pai. Isto é amor e esse amor origina-se mente: ”Morro no seu lugar”? Torna-se
ver arriscado a sua vida para fazer algo na consciência. feliz com tal afirmação?
em favor do grupo ao qual pertence. Se estas crianças ou estes adultos Esta agora é a dinâmica que vem da
Para fazer parte, às vezes, uma pes- depois morrem, todos eles têm a consci- consciência que por um lado faz com que
soa diz determinadas frases interiormen- ência tranqüila. Sentem-se inocentes e nos sintamos felizes e inocentes e pelo
te: Por exemplo, diz a sua mãe falecida ainda ficam felizes. Meu deus, que felici- outro é contra a vida. Ela, porém, não
ou ao seu pai falecido ou ao seu irmão dade! E que tragédia para a pessoa a que está em sintonia com a vida. A felicidade
falecido: “sigo-lhe”. Por detrás desta afir- dizem: ”Melhor eu do que você!” Como verdadeira esta em sintonia com a vida.

A felicidade é mais do que um sentimento


de inocência
Uma outra percepção decisiva que fiz é tiça. Encontram-se em sintonia com a
que existem duas consciências, uma em consciência original. Perguntei ao cacique:
primeiro plano e uma outra em segunda ” O que fazem então com um assassi-
plano, escondida. Na nossa cultura não no?” Ele respondeu:” Este é adotado pela
percebemos a existência desta outra família da vítima. “ Portanto aqui não
consciência. É uma consciência arcaica. existe exclusão. Nesta cultura não existe
É a consciência mais antiga, precede a exclusão. Vivem em sintonia com a cons-
consciência moral que sentimos. Esta ciência arcaica.
consciência é uma consciência de gru- Esta consciência também atua em
po. Empenha-se para que determinadas nós, porém, de forma que não a perce-
regras dentro do grupo sejam respeita- bemos. Como atua? Quando excluo al-
das. A primeira regra é: esta consciência guém do meu coração fico como esta
não permite a exclusão. Com a consci- pessoa. Igual. E mais, posteriormente al-
ência moral excluímos os outros na me- guém do grupo terá que representar o
dida em que nos sentimos melhores do os assassinos? Se tivessem sido cristãos excluído através de identificação, sem
que eles. Nesta outra consciência isto não teriam matado-os ou mandado-os para o saber. Este é o emaranhado. Resulta da
existe. Todos aqueles que fazem parte deserto. consciência arcaica.
têm o mesmo direito de pertencer. Esta é Ainda existem, porém, grupos pri- Esta consciência arcaica segue um
uma lei fundamental desta consciência. mitivos. Através deles revela-se do que segundo princípio que diz: Todos aque-
Imaginem agora os bandos, as pes- esta consciência original é capaz. Ano les que chegaram depois, chegaram de-
soas que viviam em bandos. Alguém passado conversei com um cacique indí- pois em todos os sentidos. Isto significa
podia excluí-las? Isso era imaginável? A gena no Canadá. Falou-me que em sua que todos aqueles que vieram antes tem
consciência os manteve unidos. Ninguém língua não existe palavra para “justiça”. prioridade sobre os que vieram depois.
podia ser excluído. Seria a pior coisa para Não possuem uma consciência como nós Por este motivo ninguém que chegou
o bando. Nem cogitavam tal hipótese. a conhecemos. Com esta consciência posteriormente pode assumir algo para
Todos faziam parte. E o que se fazia com estariam imediatamente gritando por jus- uma pessoa que já estava lá antes. Toda

9
violação desta regra é punida com um
desastre. A violação desta regra leva ao
desastre.
A plenitude
Quando alguém diz: “Sigo-lhe” está
violando a regra. Quando alguém diz: Quando um homem e uma mu-
”Assumo esta responsabilidade em seu lher encontram-se pela primeira vez,
lugar” está violando a regra. Mas viola a sentem-se atraídos um pelo outro,
regra de consciência tranqüila. O pecu- freqüentemente de modo irresistível. En-
liar é que as duas consciências se con- xergam-se como indivíduos, eu e você.
trariam. Por detrás do homem, porém, estão tam- pecial dentro desta comunhão, finalmen-
Como atingimos a felicidade? Dando bém sua mãe e seu pai, seus avôs e seus te solucioná-lo.
preferência à consciência arcaica. Isto sig- irmãos e tudo que aconteceu nesta famí- Portanto não existe relacionamento
nifica a renúncia da inocência diante da lia. Um sistema completo. Tenho a ima- a dois como muitas vezes o imaginamos.
consciência moral. A consciência arcaica gem de que o sistema inteiro que se si- O relacionamento a dois é um sonho.
exige mais. Logo estamos conectados a tua por detrás do homem espera pela Estamos todos inseridos em um campo,
muito mais pessoas. mulher. Não apenas o homem. O mes- em uma família maior. Se alguém foi ex-
Tragédias, todas as tragédias e todas mo aplica-se à mulher. Quando ele vê a cluído na família da mulher ou na família
as tragédias familiares resultam do fato mulher precisa saber que por detrás dela do homem, como por exemplo, antigos
de uma pessoa que nasceu depois assu- estão o seu pai, a sua mãe, seus avôs e parceiros ou uma criança abortada ou
mir de consciência tranqüila uma respon- seus irmãos, um sistema inteiro. Este sis- dada ou uma criança portadora de defici-
sabilidade de uma pessoa que nasceu tema aguarda o homem. Ambos os siste- ência ou então alguém da família de
antes. Por exemplo, vingando-a ou atra-
mas esperam talvez poder finalizar algo quem se sentia vergonha, então o mem-
vés do desejo de assumir algo no lugar
que permaneceu sem solução no passa- bro familiar excluído está presente na re-
de um antecessor. Todas as tragédias ter-
do. Neste contexto o sistema do homem lação nova e na família nova. Por este
minam com a derrota do herói mesmo
não olha apenas para a mulher. Olha tam- motivo, os dois, homem e mulher, preci-
que este tenha agido de consciência tran-
qüila e por amor. bém para o seu sistema. Os dois sistemas sam incluir o membro excluído na famí-
Logo, a felicidade é mais que o sen- ingressam em uma comunhão de desti- lia nova. Somente assim os dois estarão
timento de inocência. Muito mais. E é nos e talvez queiram solucionar algo es- livres para o seu relacionamento.
uma realização. Uma realização da alma
através do reconhecimento.
Respostas por carta
Tema: Relacionamento de casal em crise
A grande
Separação com amor futuro enquanto uma outra instância ten-
felicidade Um casal pode permanecer unido,
se os parceiros admitem mutuamente o
ta convencer a primeira instância de que
sua percepção é equivocada. Isto é tudo
É evidente que os moralistas ficam próprio caminho e quando os seus cami- que ouso dizer.
enraivecidos quando relato estas nhos não são muito distintos.
minhas conclusões e falo sobre as Quando as direções divergem de tal Dar e receber
suas conseqüências diretas. Isto re- modo que a comunhão no futuro é ques- Existem diferentes possibilidades para
vela mais um aspecto da outra cons- tionada, a separação pode tornar-se ne- solucionar o problema sobre o qual fa-
ciência. Esta consciência que nos liga cessária em favor da lealdade consigo lou. Uma seria você assumir o seu mari-
ao nosso grupo também nos separa mesmo e com o próprio destino. E nin- do como sendo o homem da sua vida e
dos outros grupos. Ainda mais: cria guém precisa sentir-se culpado. Neste deixar outros relacionamentos para trás.
hostilidade entre nós e os outros gru- caso leva-se aquilo que se tomou de bom Por exemplo, a relação com os pais. Uma
pos. Todas estas hostilidades origi- do parceiro para o próprio futuro e per- outra possibilidade seria você não ape-
nam-se da consciência tranqüila. O mite ao parceiro que ele leve para o seu
nas perguntar-se o que deseja para você,
desejo de destruição que se mani- futuro o que recebeu de bom de nós. E
mas também o que quer dar a ele. Te-
festa em alguns de vocês é suporta- se rende à dor que toda separação de
mos que levar em consideração, porém,
do pela consciência tranqüila. Feli- um parceiro importante traz.
que a gravidez é um período excepcio-
zes, porém, vocês não são. Mas tal- nal onde a mulher e suas necessidades
Confiar na percepção
vez reconheçamos melhor o que sig- estão em primeiro plano de maneira que
Da maneira que você escreve, uma ins-
nifica a grande felicidade. vocês precisam reorientar-se apenas após
tância importante no seu interior parece
perceber que o relacionamento não tem a gravidez.

10
amor especial e que seu rosto brilha.
Vibrando juntos Quando também a expressão no rosto
das irmãs muda: Exatamente.
Agora preciso continuar mais um pouco.
Às vezes podemos ajudar a alguém com
Do seu lado estão os seus assassinos.
uma única frase. Como podemos fazê-
Todos que participaram, também envol-
lo? Vou explicá-lo agora e vocês podem
tos pelo mesmo amor. E os seus rostos
sentir quais são os caminhos de ajuda
também brilham.
neste contexto.
Utilizarei uma imagem. Para uma das irmãs que luta com seus
sentimentos: E quando o seu rosto brilha?
Após um tempo: Finalmente ponha de
Imaginem que trabalhe com um casal.
lado esta clava em que está escrito “avô”.
Aqui está o homem e ali está a mulher.
Novamente após um tempo: Depois
Ambos vibram em uma tonalidade pró-
você vira as costas para todo o passado
pria. A sua tonalidade. Todos temos a
nossa própria tonalidade. Embora soem e fica pequena.
diferente vibram juntos. Isto é uma rela- Para o grupo: Através deste passado ele-
ção em sintonia. Neste contexto, porém, vou-se e ergueu-se.
Esta forma de ajuda e de auxílio de vida
ocorre algo a mais na alma. Se permane- Para esta irmã: Você não precisa disto.
é a maior intensificação deste trabalho. É
cerem apenas nesta tonalidade não é A felicidade permanece do lado dos pe-
repleta de dedicação e respeito sem que
suficiente. Ambos expandem-se ao mes- se desenvolva uma relação. Cada um quenos.
mo tempo para os tons mais agudos de permanece no seu campo individualmen- Quando também o seu rosto começa a
sua tonalidade. Quanto mais se expan- te e mesmo assim durante pouco tempo brilhar: Acho que posso deixar isso aqui.
dem, mais se assemelham. Este seria os dois vibraram juntos. Depois posso me Está bem?
então um plano espiritual onde podem recolher. Isto pode apenas ocorrer atra- As irmãs fazem um movimento afirma-
vibrar juntos. Vocês conseguiram acom- vés da benevolência. Então funciona. tivo com a cabeça.
panhar?
Como o avô vai ficar feliz! Tudo de bom
Quando tiverem filhos podem proceder para vocês.
do mesmo modo. Toda criança tem uma
tonalidade própria. Vocês vibram com
suas tonalidades e com os tons mais agu-
O passado Para o grupo: O que fiz agora? Entrei
em sintonia com a tonalidade do avô.
dos de suas tonalidades. De repente vi-
bram juntos nos tons agudos. brilha Como deve sentir-se quando elas se com-
portam dessa forma? Pobre avô. Um fato
torna-se explícito neste exemplo. Enquan-
Tem outro fator, porém, a ser considera- to olhamos apenas para estas relações:
Hellinger para o grupo: Do meu lado
do. Existem também tons mais graves que eu e você e para a nossa família não ob-
estão direcionados para o fundo. Isto não estão sentadas duas irmãs. Uma me fa-
lou que o avô morreu porque foi intoxi- temos o essencial. Temos que olhar para
pode ser conferido matematicamente. É além disso, para algo maior para que por
apenas uma imagem. A alma, porém, o cado com gás. Estava internado em uma
clínica neurológica e aparentemente detrás de tudo o essencial possa atuar. E
sente. Também na profundeza é possí-
morreu no programa de eutanásia. lá ninguém está mal. E ninguém está
vel vibrar junto.
Para as irmãs: Fechem os olhos. Ima- melhor ou pior que o outro. Como é
ginem o seu avô. Quando me sintonizo possível? Neste campo as nossas distin-
Porque contei isto? Em primeiro lugar
com este contexto imagino ções morais de culpa e inocência não têm
porque nos faz felizes quando podemos
que existe uma força que o importância. Por quê? Tudo que ocorre,
sentir essa imagem e vibrarmos junto. Mas
quando alguém me procura pedindo aju- envolve com muito o bom e o mal originam-se no mesmo
da também me sintonizo com a sua to- amor, com um movimento. De onde mais poderiam vir?
nalidade para vibrar com ele. Não me sin- É inimaginável. Neste movimento tudo
tonizo, porém, com exatamente o mes- é correto e importante exatamente como
mo tom e sim com os tons mais agudos foi. Ninguém era melhor ou pior. Nenhum
onde de repente vibramos juntos. Então destino foi mais fácil ou mais difícil. To-
entra um componente espiritual. Atra- dos iguais. Esta é uma postura religiosa.
vés dessa vibração às vezes percebo Não é uma crença. É apenas uma postu-
imediatamente o que importa na resolu- ra repleta de respeito diante de algo in-
ção do problema. Freqüentemente é compreensível. Apenas ali obtemos a
apenas uma frase, às vezes até apenas força de finalizar algo dessa maneira e
uma palavra. É tudo o que é necessário. servir à vida que ainda resta.

11
sente o ar fresco. O sol brilha e ela ricia as suas feridas, leva-a até o ria-
A criança ferida vai para fora. Passeia por campos cho e lava as ferida na água transpa-
verdes saturados, atravessa uma pon- rente. Isto faz bem à criança. Ele a
te, continua andando e chega a uma suspende novamente, a segura e vol-
Hellinger para o grupo: Hoje de ma-
floresta. Entra no escuro da floresta, ta até a clareira com ela.
nhã falei algo sobre o sentimento de
abre um caminho pela mata densa e De repente a criança começa a
base.
alcança uma clareira. Deita-se na gra- falar com ele. Diz a ele o que quer
Para um homem que está sentado do
ma, olha para o céu, vê as árvores no dar a ele, equivalente ao fruto de todo
seu lado: Onde se situa o seu senti-
balanço do vento, ouve os pássaros seu sofrimento. Ele toma tudo que a
mento de base? Em menos 50. Você é
cantando e o murmurar de um riacho criança lhe dá – tudo – o pequeno e
capaz de sentir como é no momento?
por perto. Depois fecha os olhos e também o grande.
Isto não são julgamentos. É apenas
adormece. Depois vê que a criança fica can-
um indício. Faltam muitos em sua
Ele sonha. No sonho volta a sua sada. Ele a deita na grama delicada-
alma que não acharam lugar ali. Fe-
infância, vê-se como criança peque- mente. A criança fecha os olhos. Per-
che os olhos.
na, vê tudo que aconteceu com esta cebe que agora a criança deseja mor-
criança e tem compaixão com ela. rer. Ele espera acontecer, olha para
O rosto do homem transforma-se no
Assim dorme e sonha durante muito ela mais uma vez com amor e lhe diz:
rosto de uma criança pequena deses-
tempo. Depois acorda, esfrega os ” Obrigado por tudo. Guardo-o no
perada.
olhos, senta-se olha para frente e vê meu coração e farei algo bonito com
uma criança pequena a alguma dis- o que você me deu, em lembrança à
Para este homem: Permaneça como
tância dele. você.”
você está.
Quando chega mais perto vê que Lentamente vira de costas e dei-
Para o grupo: Quando olhamos para
é ele mesmo quando era pequeno. xa a criança para trás, em paz. Abre
o seu rosto vemos o rosto de uma
Esta criança tem medo dele. Não tem novamente um caminho pela mata,
criança que deve ter em torno de 4
coragem de aproximar-se mais. Ele es- sai da floresta, continua andando e
anos. Nesta idade aconteceu algo trá-
pera com cuidado e sem se mexer chega a uma encruzilhada. Sente qual
gico com a criança. A criança estava
para que a criança tome confiança. é a direção e dá o próximo passo.
completamente desesperada.
Após um tempo a criança aproxima- Após um tempo para o homem: Ago-
se lentamente. Ele a olha e vê que a ra a criança sorri para você. Vou
Para o homem: Permaneça exatamen-
criança está ferida gravemente. Espe- deixá-lo aqui. Isto poderá atuar por
te assim.
ra mais um pouco e chora com a cri- muito tempo em sua alma.
Para o grupo: Farei um exercício com
ança. A criança agora tomou confian-
ele e vocês podem participar do exer-
ça. Ele a toma em seus braços delica-
cício. Contarei uma história.
damente e olha em seus olhos. Aca-
Alguém pensa: que bom, finalmente
o fim de semana chegou e está fazen-
do um dia bonito. Hoje me farei um
presente. Algo bonito. Sai de casa e

12
Homem e Mulher
Como o nosso relacionamento a dois dá certo
à relação sexual atua a força de maior ção do amor do coração. O amor prove-
Para que o potência que conhecemos. Toda a vida niente do coração é uma realização pró-
relacionamento a dois visa à continuidade. Está destinada à con- pria. A sexualidade existe também sem
tinuidade e torna-se plena quando alcan- este amor e este freqüentemente existe
dêem certo três ça a continuidade. Por este motivo a for- sem a sexualidade. Ambos são realiza-
ça que atua por detrás é a força vital es- ções próprias, o amor sexual e o amor
aspectos são sencial. E evidentemente é também a proveniente do coração.
necessários. Cada um maior força espiritual, uma força supre-
ma – usarei uma imagem para descrevê-
é importante por si só la – a força que mais se assemelha a
e nenhum pode Deus. Nela manifesta-se o que existe de
maior no mundo – o divino – da maneira
A vida
substituir o outro. mais concreta possível. Justamente pelo
conjunta
fato de estarmos entregues a esta força
através do nosso instinto ela revela-se
como algo que independe de nós e nos Agora entra um terceiro aspecto que é a
A relação sexual transcende. Logo o primeiro aspecto do
relacionamento entre um casal é que o
vida conjunta. A vida conjunta pode exis-
tir sem a sexualidade. Às vezes pode
amor sexual dê certo. existir também sem o amor. Às vezes
O primeiro aspecto é a relação sexual. É vemos casais que permanecem juntos,
imprescindível para o relacionamento a embora não se amem verdadeiramente
dois que ela dê certo uma vez que o re-
lacionamento entre um casal direciona- O amor do e de coração. A vida conjunta, porém, é
um bem precioso. É também preciso
se para a união sexual. Ela é o que im- especialmente aprendê-la e realizá-la.
porta essencialmente, porque apenas
através da relação sexual a vida conti-
coração Quando estes três aspectos se jun-
tam, o amor sexual, o amor que parte do
nua. Na relação sexual o amor e a vida coração e também a vida conjunta com
condensam-se. Ela é o auge do nosso Existe um segundo aspecto. É o amor do tudo que faz parte – a troca, a ajuda
desenvolvimento. Na relação sexual, no coração. O amor sexual é mais bem su- mútua, o apoio – então a vida em casal
amor que se expressa através dela e evi- cedido quando se origina no amor que tem êxito. Então crescemos no relacio-
dentemente no instinto que nos conduz parte do coração, quando é uma realiza- namento a dois.

13
o movimento mais potente que a vida
possui. Ele leva a vida para diante. A felicidade
Por este motivo, este desejo e este an-
seio são as forças mais profundamente
ligadas à essência original da vida.
plena
Reconhecendo este fato tornamo-nos
uma unidade com a essência original Meu tema era: o que faz as pessoas feli-
zes? O que acontece, porém, com tudo
da vida dentro deste amor. Este amor
de pesado que as pessoas vivenciam?
e esta atração conectam-nos com a
Nos Sonetos a Orfeu de Rilke existe um
abundância da vida. Quem se abre poema sobre o lamento. È assim:
para este amor é solicitado. Tanto a
maior felicidade quanto o maior so- Só no espaço do louvor, o lamento
frimento partem desse anseio e des- pode soar, ninfa da fonte do medo,
se amor. Nele crescemos. pairando sobre nosso tormento;
Quem se envolveu com este lágrima clara no mesmo rochedo
amor, transborda após um tempo.
Esse amor transcende amplamente o que suportas altares e portais.
relacionamento a dois, por exemplo, Vê: sustenta nos ombros potentes
quando esse amor traz filhos. Então a certeza de que ela seria a mais
jovem dentre as irmãs no sentimento.
este amor continua através do amor
Amor que dos pais em relação aos seus filhos.
E o amor que as crianças experimen-
Júbilo professa, saudade confessa;
só a queixa ainda aprende. Sem pressa,
perdura tam retorna para os pais. Assim as
crianças crescem até que elas mesmas
desvela, noites a fio, o mal atroz.

procurem um homem ou uma mulher De repente, inexperiente e curva,


O amor que tem êxito é algo humano e o fluxo da vida continua fluindo ergue a constelação de nossa voz
e quase comum. Ele reconhece que através deles. Logo, onde o amor se para os céus que seu sopro não turva.
precisamos de outras pessoas e que inicia, com o passar do tempo ele
definhamos sem elas. Quando reco- engloba cada vez mais. Abrange tam- De repente a queixa estava feliz. Isso
nhecemos isto mutuamente damos bém outras pessoas. Mas apenas após lhes parece conhecido, essa história da
algo ao outro e recebemos algo dele. termos experimentado-o interiormen- queixa ou da acusação? Ou a questão das
cobranças, desvelar noites a fio o mal
Alegramo-nos por estar recebendo te como algo humano e dito “sim” a
atroz? Evidentemente esta é a receita
algo e alegramo-nos por poder dar ele. Neste sentido o grande amor é
para a infelicidade.
algo a alguém. Na medida em que algo comum. Este amor possuiu for- Quero falar mais precisamente sobre
continuamos dando e recebendo com ça e perdura. este aspecto, exercitar como se abre ca-
respeito mútuo, com benevolência e minho para a grande felicidade.
com o desejo que tanto o outro como A felicidade está relacionada ao cres-
nós mesmos estejamos bem, compre- cimento. Crescimento interno. Quanto
endemos o que significa amar huma- mais crescemos internamente mais reali-
namente. zados ficamos. Existe uma felicidade leve
que é alegre e jovial. Uma felicidade
Este amor inicia-se com o relacio- bonita. E existe uma felicidade silencio-
namento entre homem e mulher. To- sa. Que simplesmente encontra-se em
sintonia. Esta felicidade possui força e
dos os relacionamentos posteriores
nunca acaba. Não é ameaçada.
provêm desse amor. Ele é a base de
O ponto principal é: crescimento
todas as relações humanas e nós so- necessita de dois componentes. De um
mos conduzidos a ele, irresistivelmen- lado de nutrição e do outro de resistên-
te. Porque o homem precisa da mu- cia. Todo crescimento impõe-se contra a
lher para estar inteiro e a mulher pre- resistência. A árvore mais antiga do mun-
cisa do homem para estar inteira. É do está na Califórnia no topo de uma
um forte desejo que os leva um ao montanha, totalmente desgrenhada com
outro. Este desejo às vezes denomi- uma aparência assustadora. Ela tem 3500
nado pejorativamente de “instinto” é anos de idade. Qual das árvores felizes

14
pode aproximar-se dela em termos de
força? A imaginação geral da nossa cultu-
“sim” a eles como são e “obrigado” por
tudo. Amor e ordem
ra do bem-estar é que somos alimenta- Algumas coisas foram diferentes da-
dos, alimentados, alimentados. Recebe- quilo que talvez desejávamos. Olhem
mos, recebemos e recebemos e assim para aquilo que foi doloroso ou pesado e O que é maior e o que é
tornamo-nos felizes. digam: “Sim, da maneira como foi tomo-
Depois existem os conceitos sobre o no meu coração. Farei algo disso. Cres-
mais importante, o amor
o que seria uma infância feliz. Quais seri- ci através desses acontecimentos. Obri- ou a ordem? O que vem
am os bons pais? Eles dão e dão e dão. gado.”
Este são os bons pais. Esta é a imagem Assim percorremos a nossa vida, co- antes? Muitos acham
ideal. E imaginem se eles não tivessem meçando na infância e olhamos para tudo
dado suficientemente. Seria o motivo dos aquilo de que queremos livrar-nos. Por
que amando
meus problemas. A culpa é deles. E de- exemplo, uma doença ou uma pessoa e suficientemente tudo
pois canto um cântico de lamento sobre dizemos: “Eu acolho você no meu cora-
os meus pais a vida toda. ção assim como é. Cresço através de entra na ordem correta.
O que acontece neste instante? você. Você me mostrou e me deu algo
Tudo que acontece, da maneira como importante.”
Muitos pais, por
aconteceu, foi uma chance para a força Depois olhamos para nós mesmos, exemplo, pensam que
e o crescimento – se eu concordar. por exemplo, para uma culpa e dizemos:
A partir do momento em que eu concor- ”Sim você faz parte de mim. Através de amando os filhos
do com algo aquilo se torna algo bom. você recebo uma força e uma suavidade
Através do ato de concordar torna-se algo especial. Você pode permanecer comigo.”
suficientemente, estes
bom e transforma-se em força. Se recu- se desenvolvem da
sar a aceitá-lo ou me lamentar eu o per- De repente, inexperiente e curva,
co. Perco qualquer pessoa sobre a qual ergue a constelação de nossa voz maneira como os pais o
me queixo. Se me queixar em relação para os céus que seu sopro não turva
aos meus pais perco-os. Que vida mise-
desejam. Muitas vezes,
rável seria esta, vida miserável. Muitas pessoas querem ser perfeitas porém, os pais são
Fechem os olhos. Este é um exercí- como deus. Almejam ser como deus.
cio para ficarmos felizes. Agora olhem Uma vez um anjo realmente desejava ser decepcionados apesar do
para sua mãe e o seu pai, como são, exa- igual a deus. Sabem em que se transfor-
tamente como são. Alegram-se com eles mou? Em um diabo.
seu amor.
exatamente como são. E vocês dizem Aparentemente o amor
por si só não basta.

15
rém, um mal um pouco menor. Logo
a troca no campo do mal termina e
ambos podem começar a dar e rece-
ber algo bom novamente. Este é um
aspecto importante da ordem do
amor. Se o conhecemos e agimos se-
guindo-o é possível mudar muitas
coisas para o bem dentro de uma fa-
mília.
Mais uma outra ordem do amor
precisa ser considerada uma vez que
ignorada terá amplas conseqüências.
Uma mulher que se julga ser me-
lhor que sua mãe não tem respeito
pelos homens. Ela não compreende
os homens e em princípio não preci-
sa deles. Uma vez que acha que é
O amor precisa encaixar-se em da relação. Quando um parceiro cau- melhor que sua mãe isto geralmente
uma ordem. A ordem é predetermi- sa algum mal ao outro, este tem a ne- significa: Sou a melhor mulher para
nada em relação ao amor. É assim cessidade de fazer o mesmo. Sente- o papai”. Logo já possui o seu ho-
também nas outras áreas da nature- se machucado. Portanto, acredita ter mem e não precisa de outro.
za: Uma árvore desenvolve-se segun- o direito de machucar, também, o Como uma menina torna-se capaz
do uma ordem interna. Não é possí- outro. Esta necessidade é irresistível. de se transformar numa mulher e de
vel modificá-la. Apenas seguindo esta Muitos que sofreram uma injusti- respeitar e ter um homem? Posi-
ordem ela poderá desdobrar-se. As- ça sentem-se no direito de também cionando-se ao lado de sua mãe
sim é também com o amor e os rela- causar algum mal a outro. Logo, como sendo a menor.
cionamentos com o próximo: podem acrescenta-se mais um aspecto à ne- O contrário também é valido para
apenas desenvolver-se no contexto de cessidade de compensação: a sensa- os homens: um homem que não res-
uma ordem. Esta ordem é predeter- ção de que através da injustiça que
peita o seu pai e se julga melhor para
minada. Se soubermos algo sobre as me foi causada obtenho direitos es-
sua mãe do que o seu pai não tem
ordens do amor, o nosso amor e os peciais. Logo, não causamos ao ou-
respeito pelas mulheres. Já tem uma
nossos relacionamentos terão mais tro apenas o mesmo mal que ele nos
mulher e não precisa de outra.
possibilidades de realizar-se plena- causou e sim um pouco mais. Mas
Como se torna capaz de ser um
mente. como foi causado um mal maior ao
homem e de respeitar e ter uma mu-
A primeira ordem do amor em outro este por sua vez também se sen-
lher? Posicionando-se ao lado do seu
uma relação a dois é que o homem e te no direito de retribuir esse mal no-
pai como sendo o menor.
a mulher são equivalentes embora vamente e como se sente neste direi-
Logo o homem aprende a respei-
sejam distintos. Se reconhecerem este to retribui com um mal um pouco
tar a mulher através do pai e a mu-
fato o amor terá uma chance maior. maior ainda. Assim a troca negativa
lher aprende a respeitar o homem
A segunda ordem diz que os mo- intensifica-se em um relacionamento.
através da mãe.
vimentos de dar e receber precisam No lugar da felicidade cresce a in-
felicidade neste tipo de relacionamen- O que acontece, no entanto, se
estar equilibrados. Se um precisar dar
mais que o outro a relação está dese- to. Podemos reconhecer a qualidade um homem que é o filhinho da ma-
quilibrada. Ela necessita deste equi- de um relacionamento verificando se mãe casar-se com uma mulher que é
líbrio. Se a necessidade de compen- a troca entre o dar e receber realiza-se a filhinha do pai? O filhinho da ma-
sação entre o que se dá e o que se principalmente pelo bem ou pelo mal. mãe não é confiável para a mulher e
recebe une-se ao amor, ambos os A questão é: Qual seria a solu- a filhinha do pai não é confiável para
parceiros retribuem com um pouco ção? Existe uma solução? A solução o homem. Têm pouco respeito um
mais ao outro do que receberam para seria mudar da troca na área do mal pelo outro.
lhe compensar. Assim a troca entre para a troca na área do bem. Como, Logo em primeiro lugar é neces-
eles cresce e com ela a felicidade con- porém, isto pode funcionar? sário que na família de origem seja
junta. Existe um segredo: Vingamo-nos estabelecida a ordem de maneira que
Esta necessidade por compensa- do outro com amor. Isto significa que o filho respeite o seu pai e a filha res-
ção existe também no lado negativo também lhe causamos um mal, po- peite a sua mãe.

16
Círculo de Amigos Por um
pedaçinho
Encontrem e ganhem novos de pão
amigos para vida toda!
Observação:
Georg Sauler enviou-me este texto
por ocasião do meu aniversário
Após os seminários de dependendo dos campos de 80 anos. Refere-se a uma cena
constelação familiar aos quais as pessoas se da ópera Fidélio de Beethoven.
Leonore, esposa de Florestan
sempre constatamos que expõem no dia-a-dia. procura o marido em seu cárcere
disfarçada de ajudante do
energeticamente as carcereiro e dá um pedaço de
Por este motivo procuramos encontrar
pessoas sentem-se muito uma maneira fácil de prestar auxílio de pão e um gole de vinho ao
vida de modo que estas pessoas tenham definhado.
bem, que estão repletas a possibilidade de manter por mais tem- Seguem o texto e a partitura da
música.
de confiança e vontade po esse campo e essa força que obtive-
ram em um final de semana. Para que
de agir. Esse campo sejam capazes de buscar forças para o O pequeno gole na jarra e o resto
dia-a-dia regularmente e renovar este de pão que o carcereiro e seu aju-
energético em várias campo continuamente. Logo tivemos a dante estendem ao prisioneiro po-
pessoas perdura por idéia de constituir um círculo de amigos lítico condenado à morte abalam-no
Hellinger. Neste meio tempo foram cons- profundamente em sua escuridão.
meses ou anos e em tituídos vários círculos de amigos “Seu túmulo é iluminado” nesta cho-
Hellinger por toda Europa e outros se cante cena ágape. Comovido pro-
outras se estende apenas encontram em for mação. Veja cura por palavras de gratidão e ain-
por semanas ou dias, www.hellinger-international.com/ da totalmente anestesiado pela bon-
indexFreund.htm. dade dos dois aflui do seu interior
um canto de louvor.
Via de regra, o quanto que nós,
filhos e filhas, recebemos dos nos-
sos pais. Quantas milhares de refei-
ções de amor. Nas constelações fa-
miliares, quando é possível pode-
mos vivenciar o processo profundo
que pode ser iniciado através da
redescoberta de pai e mãe. De re-
pente ouvimos a respiração. Um
brilho nos olhos da filha ou do filho
nos deixa vislumbrar a volta para um
campo apaziguado.
Existe um canto de gratidão aos
pais?
A partitura para tenor em
“Fidelio” Terceto n° 13 cabe per-
feitamente para entoar o hino aos
pais, em voz alta ou sussurrada.
Agradecimentos a Ludwig e seu
libretistas.

17
Leonora
Tudo o que eu posso oferecer a
você é um restinho de vinho que
tenho em minha jarra. Beba! É cla-
Ajudar às Crianças
ro que é apenas um pouco de vi-
nho, mas eu lhe dou com prazer. O amor oculto da criança
Florestan
Você receberá a recompensa em O que vem à luz no algo novo e abre inúmeras possibilida-
um mundo melhor, o céu o trouxe des totalmente novas. Apenas, porém,
até mim.
comportamento das se não olharmos para as crianças e sim
Oh, obrigado! Você me reanimou crianças e que muitas com elas para onde são levadas e para
docemente; não posso retribuir o vezes é tão aflitivo é algo aquilo que querem fazer pelos adultos.
benefício, não posso. Assim aliviamos as crianças. Os pais e os
necessário dentro do outros envolvidos é que precisam mu-
Leonora sistema que os outros dar. Precisam olhar justamente para aquilo
Este pedacinho de pão – sim, há que não olharam. Assim inicia-se um de-
familiares, porém, negam. senvolvimento. Um desenvolvimento de
dois dias eu o estou carregando.
Aqui, tome o pão – pobre homem! A criança o assume para crescimento. Primeiro nos pais. Só depois
os outros. Olha com amor os filhos ficam livres.
Florestan
Oh, eu lhe agradeço! – Obrigado!
para os excluídos. Por
Obrigado! detrás de todo esse
Você receberá a recompensa em
um mundo melhor, o céu o trouxe
comportamento atua um A ordem
até mim. amor oculto. Portanto, no
Oh, obrigado! Vocês me reanimou trabalho com crianças Isto é pedagogia sistêmica. Uma pe-
docemente; não posso retribuir o dagogia totalmente diferente. Este é o
difíceis não voltamos o segredo deste trabalho. É auxílio de vida
benefício, não posso.
Oh, que eu não possa recom- olhar para a criança e sim de uma forma especial. Aqui ajudo cri-
pensá-lo! para onde a criança olha. anças a saírem de um emaranhado e es-
tabeleço a ordem em seus sistemas fa-
Assim inicia-se um miliares.
Ao grande Bert Hellinger, que há movimento. Um Quando um sistema está em desor-
vários anos revitaliza de forma vir- dem ocorre sempre o mesmo: Pessoas
movimento de cura que que fazem parte são excluídas. Também
tuosa, no mundo inteiro, onde exis-
te a necessidade, a homenagem e libera a criança, pois os fazem parte de um sistema todas as víti-
o respeito aos pais, minha cordial outros passam a olhar mas de membros dessas famílias. Se uma
retribuição divina pelo seu 80º ani- pessoa participou da morte de outros,
para onde devem olhar. talvez de forma muita culposa então es-
versário.
Logo a criança não tes mortos fazem parte do sistema. Eles
Entretanto quem não gosta tanto precisa mais olhar para lá estão presentes. Atuam e manifestam-se,
assim de Bert Hellinger, talvez o freqüentemente através de uma criança.
ajude Jesus Sirach, um professor
no lugar deles e A criança então volta o seu olhar para lá.
sábio da velha Jerusalém (aprox. comportar-se de acordo. Se os outros, porém, não voltarem o olhar
175 a.C.): para lá, não adianta. Aqueles a quem real-
No trabalho de ajuda às mente diz respeito é que precisam olhar
“Quem honra o seu pai, expia fal-
tas. E quem respeita a sua mãe se crianças este é o para lá. Logo, estabelece-se a ordem no
assemelha a um colecionador de procedimento essencial. sistema que estava em desordem.
tesouros.” Ordem significa sempre integrar o
(Sir.3/3-4) que foi excluído. Aqui se encontra o foco
Imaginem só o que acontece com várias do meu trabalho, agora e no futuro. Sig-
destas crianças. São tratadas e medicadas nifica auxílio de vida desse modo
Georg Sauler como se de algum modo não estivessem abrangente. Abre o nosso olhar para ou-
bem. Na verdade fazem algo pelos ou- tros contextos onde se torna mais fácil
tros, pelos grandes. Por este motivo esta ajudar às crianças e evidentemente tam-
forma de ajudar às crianças deu início a bém aos seus pais.

18
criança. Esta representante vira a fazer um exercício com a sua filha. De
A filha não cabeça para o lado. Depois olha manhã antes de a escola começar você
diz a ela: ”Pode confiar em mim. Hoje
para o chão e no meio tempo cerra
quer estudar os punhos. Agacha-se e esfrega o
chão com uma mão como seu
eu fico.” Antes que ela vá à escola. Na
manhã seguinte você o diz também:
“Hoje eu fico. Pode ir tranqüila ao co-
quisesse limpar algo. A outra mão
Hellinger para uma mulher: Qual é o légio.”
ela fecha em forma de punho.
assunto? A mulher ri aliviada.
Agora Hellinger pede à Hellinger: Está bem?
Mulher: Minha filha não quer ir à escola.
representante da filha que se Mulher: Obrigada.
Está no quarto ano escolar. Recusa-se
cada vez mais de ir à escola e de sair de posicione novamente a alguma Hellinger para o grupo: Parece ser um
casa de um modo geral. distância da mãe. A mãe continua problema e ele é: grande amor. A crian-
Hellinger: E o pai da criança? esfregando o chão. ça está repleta de amor.
Mulher: O pai é muito mais novo que
eu. Nunca ficamos muito juntos. Agora Hellinger para a representante da filha:
tentamos nos separar. Muitas vezes o in- Frases para reflexão
Diga a sua mãe “Eu cuido de você”.
cluí no assunto, ele, porém, tem muito a
resolver consigo mesmo.
Hellinger: Quanto mais novo ele é?
A mãe segue esfregando o chão e Olhar
enquanto o faz olha para a filha. A
Mulher: 22 anos.
filha aproxima-se da mãe. Esta fica Luz turva não escurece o vidro claro,
Hellinger: 22 anos mais novo? É mesmo? o vidro turvo, porém, escurece a luz
Bem, então começarei com a filha. de costas e agora esfrega o chão
clara.
com as duas mãos. Olha
rapidamente para a filha, mas, dá- Reconhecimento adquire-se através da
Hellinger escolhe uma
lhe as costas novamente. A filha sintonia.
representante para a filha e deixa
abre os braços como se quisesse
que ela se posicione. A filha A esperança turva o olhar.
ajudar a mãe. A mãe agora está
movimenta os dedos de forma
ajoelhada e quase toca o chão com O ceticismo atua como a fé: ambos
inquieta e esfrega as mãos. Depois
a cabeça. Continua esfregando o substituem o olhar.
olha para o chão. Helllinger pede
que se sente mais uma vez por um chão com as duas mãos.
O costume contraria o olhar do novo.
momento e escolhe uma Ele dissolve o emaranhamento em algo
representante para a mãe da Hellinger para os representantes após passado daquele que tem a coragem de
algum tempo: Está bem. Obrigada a olhar e libera-o das conseqüências.
vocês.
Para a mulher: Ficou claro para você O que existe de fato é indescritível.
porque a filha quer ficar em casa? Quem o vê, porém, sabe.
Mulher: Ela me protege. Quer me ajudar. Vivenciar significa: perceber o que é.
Hellinger: Sim, ela tem medo que você
morra ou se mate. Entramos no sol e já está claro.
A mulher faz um movimento
afirmativo com a cabeça e começa a Iluminação tem o mesmo efeito como
chorar. se muitos se inclinassem para um cen-
Mulher: Você pode me ajudar? Para que tro de luz.
direção devo olhar?
Em um balde de água imaginamos o
Hellinger: Não posso me intrometer. Exis- mar, porém, sem realizá-lo.
te um segredo que preciso respeitar.
A mulher respira fundo e faz um Beleza necessita devoção.
movimento afirmativo com a cabeça.
Mulher: Eu sei. A disponibilidade de olhar muitas ve-
Hellinger: Evidente que sabe. Mas eu não zes é obstruída pelo fato de que ex-
quero saber. E não devo saber. A sua fi- perimentamos aquilo que é trágico para
nós como obrigação e o vivenciamos
lha, porém, também o sabe. Pelo menos
como um sentimento de inocência;
o sente.
e porque experimentamos o olhar que
A mulher continua respirando nos mostra a solução como traição em
profundamente e faz um movimento relação a uma ordem e o vivenciamos
afirmativo com a cabeça. como culpa.
Hellinger após algum tempo: Você pode

19
existem início e fim, nascimento e mor- nho.Isto se aplica principalmente ao cam-
Sabedoria para te, ascensão e declínio e existem tam-
bém o bem e o mal. Pois também entre
po espiritual. Significa que aqueles que
o seguem precisam ter certeza que ele
Viagem o bem e o mal existe uma dinâmica de
revezamento. Um transita para o outro e
já percorreu este caminho antes, pelo
menos uma parte.
não existe sem o outro.
O ato de voltar-se Por este motivo nós também não Como um guia em uma área especí-
suportamos um sem o outro. Por exem- fica, sabe que está apto a guiar os outros
para o outro plo, não suportamos a alegria sem a dor, e que pode ou até deve guiá-los? Por-
Quando me volto para um outro ser hu- o silêncio sem o trabalho e a vida sem a que ele mesmo é guiado.
mano ou para um objeto ou uma tarefa, morte. A força criativa atua tanto em um Porque se encontra em sintonia com
distancio-me de mim, direciono-me para quanto no outro do mesmo modo. Des- um movimento espiritual que o toma e
o outro ou para aquilo outro, sou atraída sa forma atua também o divino, a força que ele segue com coragem e ação.
por ele, percebo-o com atenção aproxi- original, em torno da qual no final tudo Aqueles que são guiados também são
mo-me dele com interesse e amor, gira – se é que podemos ousar ir tão lon- tomados por este movimento espiritual.
conecto-me a ele internamente e torno- ge em pensamento. A força original está Seguindo o guia, seguem, também, este
me um com ele por um momento. isenta dessa dinâmica de troca. Isto é movimento. Isto, porém, também signi-
O ato de voltar-se para alguém esquece como eu o imagino. Ela é o centro em fica que podem apenas seguir aquele que
de si, porém, sem perder-se. Estou, por torno do qual tudo gira da mesma forma os guia, o tempo e a distância em que
assim dizer, fora de mim comigo mesmo. e, portanto é infinitamente silenciosa. ele permanecer em sintonia com tal
Esta é a minha imagem. movimento. Assim que se desviar do
Como isto é possível? O ato de voltar-se É evidente que isto são apenas ima- movimento o guia perde o dever e o
para alguém parte da alma, movimenta- gens através das quais tentamos aproxi- direito de guiar. E perde os seguidores
se com a alma, atinge algo de essencial mar de nós o essencial. Portanto falta- que permanecem em sintonia com a for-
no outro, no objeto, na tarefa. Esta es- lhes a certeza. Estas imagens, porém, têm ça criativa que conduz a todos.
sência, porém, jamais é algo externo. Está um efeito na alma, um efeito reconfor- Quem guia em sintonia com esta for-
além daquilo que percebemos com os tante. Podemos nos orientar nestas ima- ça criativa, ao mesmo tempo guia em
nossos sentidos, está inserido em algo gens internamente e durante toda dinâ- sintonia com aqueles que o seguem. Isto
abrangente, onde eu e o outro ou aquilo mica de troca olhar para este centro. Po- significa que é também guiado por eles
outro a que me volto, encontramo-nos. demos nos deixar cair lentamente neste e que pode confiar neles, assim como
Através do ato de voltar-se plenamente meio e durante qualquer dinâmica de tro- eles confiam no guia. Apenas, porém,
para o outro tornamo-nos mais do que ca permanecer dentro dele recolhidos e enquanto eles também permanecerem em
éramos antes. Talvez a vida e sua consu- em silêncio. sintonia com tal movimento espiritual. De
mação sejam exatamente o ato de vol- Isto também existe em relação ao outro modo precisa separar-se de seus
tar-se para o outro constantemente. Onde bem e ao mal? Principalmente aí. Porque seguidores. Mas também aqui em sintonia
o movimento de voltar-se para alguém nada nos distancia mais do nosso centro com o movimento que o conduz.
estiver interrompido o tempo que ne- que o bem ou o mal. Os dois. E o que Esta é a forma onde se revela com maior
cessitamos para recuperá-lo é um tem- atrai ambos para a mesma força? O amor. clareza se o outro sabe e pode guiar.
po perdido. Dentro deste movimento, Porque o amor reside neste centro.
porém, o tempo passa voando e nós o A Serviço da Vida
vivenciamos como sendo repleto. Uma revista a serviço do trabalho com

Em assunto as constelações sistêmicas segundo


Bert Hellinger

Nota de próprio
Com artigos da revista alemã
“HellingerZeit Schrift”- revista trimestral
alemã de autoria de Bert Hellinger e
pensamento Marie-Sophie Hellinger.

O ato de guiar Reprodução autorizada.


Direitos autorais para o português da
Quem guia toma a dianteira. Guia Editora Atman.
A dinâmica de troca aqueles que estão dispostos a seguí-lo.
Tradução: Filipa Richter
Pelo fato de o mundo girar em torno Por que estão dispostos a seguí-lo? Por- Revisão: Tsuyuko Jinno-Spelter
de si próprio, o dia e a noite se revezam que lhes indica o caminho para um des- Diagramação: Virtual Edit
e pelo fato de girar em torno do sol exis- tino que para eles também é importante Coord. Editorial: Décio Fábio de
te a mudança das estações com mais ou e os conduz nesta jornada. Oliveira Júnior
menos quantidade de luz, frio ou calor. Quem guia precisa saber através da
Revista 2 – edição alemã em 01/2006
Como existe a dinâmica de troca experiência para onde leva o cami-

20
• Prefácio
• Homem e Mulher

Sumário • Ajudar as Crianças


• Pais
• Ordens do Amor
• Meditação
• Frases de Reflexão
• Examinar de Perto
• Sabedoria a Caminho
• O Futuro

A Serviço da Vida
Fascículo 3
Bert Hellinger
Com artigos da revista alemã
“HellingerZeit Schrift”- revista trimestral
alemã de autoria de Bert Hellinger e
Marie-Sophie Hellinger.
Reprodução autorizada.
Direitos autorais para o português da
Editora Atman.
Tradução: Tsuyuko Jinoo-Spelter
Diagramação: Virtual Edit
Coord. Editorial: Décio Fábio de
Oliveira Júnior
Revista 3 – edição alemã em
Sejam bem-vindos!
O tempo preenchido exige uma transição. Quando o passado está concluído,
cede espaço ao próximo passo para o crescimento. Justamente porque está
concluído, existe o novo espaço. Portanto, após a realização, o olhar dirige-se
para frente. Contudo, o tempo preenchido pode somente ceder espaço àquilo
que está vindo, quando nós o colocamos em nossa alma e coração, como algo
que nos pertence, não importando o que possa ter sido. É válido, por exemplo,
em relação a um trecho de vida que terminou e – especialmente – também em
relação a um relacionamento.

A ajuda à vida é, em primeira instância, uma ajuda aos relacionamentos.


Todo relacionamento é um relacionamento a prazo. Por isso, depois de um
certo tempo fica preenchido. O cerne desta revista será o crescimento em
nossos relacionamentos, pois algo anterior pôde ficar no passado e concluído.
Talvez um relacionamento anterior também possa e deva ceder espaço a um
outro, porque somente dessa forma nossa vida atinge a sua plenitude.

Os relacionamentos entram em desordem quando algumas pessoas que


também fazem parte foram excluídas e não são mais respeitadas. Foi-lhes
recusado o reconhecimento e o amor. O que resulta disso é a desordem que
continua nos relacionamentos presentes, por exemplo, no relacionamento de
casal e no relacionamento com os próprios filhos. O segundo ponto principal
desta revista é como reencontrar a ordem e dar espaço ao amor por todos.

Logo estará chegando a bela época das férias para muitas pessoas. O
que a torna especialmente bela? Temos mais tempo para o outro nas nossas
relações. O que lhes faz bem, e como é simplesmente fácil renová-las e
devolver o primeiro lugar à alegria existente dentro delas – nesta revista vocês
encontrarão também sugestões e ajuda relativas a isso.

A felicidade começa no espírito. O espírito tem principalmente fome


pela felicidade. A mesa está ricamente coberta também para ele nesta revista.

Outra boa notícia. Esta revista “A serviço da vida” também está sendo
publicada em outros países: no Paraguai, na Argentina, no Brasil, Itália e Polônia.
Outros países seguirão. Para mim, isso é um estímulo para permanecer o mais
próximo possível daquilo que ajuda imediatamente.

Minha esposa Maria Sophie e nossos colaboradores lhes desejam bons


votos. Com esta revista queremos lhes dar alegria e algumas sugestões para o
dia-a-dia do amor. Algumas delas deixa aflorar em nós também um sorriso. Por
exemplo: a melhor solução para um problema é algumas vezes um desvio.
Homem
e
Mulher
Vínculos antigos permanecem
Hoje em dia, pensamos muitas ve- ceu algo diferente. Essas realidades os liga de formas múltiplas. Esse
zes – e também nos comportamos atuam no relacionamento de casal. passado liga-os aos filhos e também
dessa forma – que no relaciona- Ambos os parceiros provêm de seu ao pai ou à mãe desses filhos. Pre-
mento de casal trata-se apenas do próprio campo espiritual, um ou- cisamos presumir que cada um
homem e da mulher. Os dois se tro campo familiar, que os toma a quer e deve permanecer nessas li-
amam, sentem-se atraídos um pelo serviço de muitas maneiras. Por gações de uma certa forma. Ne-
outro e se tornam um casal. Nessa isso, nenhum dos dois é livre. nhum deve esperar do outro que re-
situação perdemos facilmente a vi- nuncie a esses vínculos. Algumas
são de que ambos provêm de uma Se além disso, um deles ou até am- vezes isso se mostra quando o casal
determinada família. Cada um de bos tiveram um relacionamento fir- embora queira, não consegue viver
nós tem outros pais e outros ante- me anterior e desses relacionamen- junto.
passados. Em cada família aconte- tos também têm filhos, esse passado

Os campos espirituais
Em uma família, aqui num sentido am- Ao mesmo tempo, existe nesse campo a minha vida, porque foi reconhecido.
plo, incluindo todos os ancestrais, todos um movimento que quer reunir o que Esse é o movimento contrário, um movi-
estão vinculados uns aos outros, como estava separado. Dois movimentos dife- mento curativo.
se tivessem uma grande alma em co- rentes servem a esse objetivo. Por exem- Pelo fato de estarmos inseridos em tan-
mum. Podemos denominá-lo também de plo, algumas vezes uma pessoa viva sen- tas relações, algumas vezes a ilusão de
um campo espiritual. Nessa grande alma te-se atraída em direção aos mortos. E termos uma vida feliz e realizada não
todos permanecem presentes, todos eles se unem na morte. Freqüentemente pode ser cumprida. Justamente porque
aqueles que um dia pertenceram, inclu- este movimento é um movimento de estamos conectados. Entretanto, se con-
sive os mortos, todos os mortos. Os fi- amor. Contudo, ao invés de conduzir à cordamos com esses vínculos do desti-
lhos abortados e os irmãos que morre- vida, conduz à morte. no, não importa o que exijam de nós,
ram cedo também. Todos fazem parte, Entretanto, aqui existe também um ou- ganharemos uma profundeza especial. É
também aqueles que rejeitamos e dos tro movimento, um outro amor, que nos uma profundeza através da renúncia. E é
quais não queremos saber de mais nada. conserva em vida. Por exemplo, posso claro que nesse momento também nos
Permanecem presentes nesse campo. incluir com amor em mim, em minha tornamos adultos. Nós nos tornamos mais
Todos estão em ressonância mútua com alma alguém que estava excluído. Ao in- humanos, inseridos em algo maior e te-
todos os outros nesse campo. vés de me atrair para a morte, ele proteje mos uma outra força.

4
A comunidade de destino
Contrariando as idéias que temos freqüentemente do amor romântico, num relacionamento atuam
ainda muitas outras forças. No amor romântico os dois estão de certa forma apaixonados um pelo outro,
apaixonados significa, não vêem nada. Estão tão fixados um no outro que o entorno permanece exclu-
ído. O amor romântico não se mantém por muito tempo porque o entorno logo se mostra.

Eu vejo o relacionamento de casal ainda curam através da mulher e do seu siste- não digo isso. Disse a ela: “Algo especial
em um outro contexto. Cada sistema fa- ma, uma solução para o seu problema. deve ter acontecido em seu sistema.”
miliar carrega um destino especial e tem Com isso ambos começam uma comuni- Depois de uma pausa, disse: “Meu pai
uma desordem especial. A desordem dade de destino, na qual procuram por participou da produção da bomba atô-
surge quando nem todos aqueles que um solução no outro. mica.” E acrescentou: “Eu me pergunto
fazem parte são reconhecidos como per- Eu vivenciei na Suíça um exemplo evi- também, porque me casei com um ja-
tencentes. Então os que não foram reco- dente. Um homem tinha um irmão que ponês.” Então qual foi o emaranhamento
nhecidos pressionam para serem reco- morrera de inanição na guerra. A família aqui? A guerra entre os Estados Unidos e
nhecidos. Sob a pressão desse campo uma não tinha tido o suficiente para comer. O o Japão continuou nesse casamento. E
criança precisa representar mais tarde homem estava intimamente ligado ao ir- nenhum deles tinha consciência disso.
esse excluído sem que tenha consciên- mão e tinha medo de morrer de fome, Isso são comunidades de destino. Algu-
cia disso. Por exemplo, freqüentemente que isso viesse a ser também o seu des- mas vezes elas levam também à morte.
um parceiro anterior dos pais ou dos avós tino. Então, o que fez? Ele se casou com Quando reconhecemos esses vínculos do
foi excluído, talvez porque tenha morrido uma mulher que era anorética. Ela deve- destino, de repente se mostra uma boa
cedo. Talvez uma mulher tenha falecido ria morrer de fome por ele. solução para ambos os parceiros. Então
durante o parto. Essas pessoas não são Portanto, tais tipos de emaranhamento encontram a paz. Este casal ficou muito
mais vistas nesse sistema, existem. Algumas vezes levam a dimen- bem depois. Depois disso a filha foi dire-
freqüentemente porque o seu destino sões que parecem monstruosas. Aqui um to para o Japão. Lá estudou e desabro-
causa medo nos outros. Contudo, fazem- exemplo de um curso para casais em chou.
se notar mais tarde numa criança. Contu- Washington. Uma mulher veio sem o O relacionamento de casal e qualquer
do, a criança não sabe que está emara- marido para uma constelação de casal. outra relação humana íntima é de uma
nhada no destino de uma outra pessoa. Eu posicionei em frente a ela um repre- profundidade inacreditável. Se nós todos
Se esse problema, que alguém esteja sentante do marido. O marido começou nos expusermos às suas dimensões, en-
excluído ainda não está resolvido na fa- a tremer pelo corpo todo, realmente com contraremos um outro tipo totalmente
mília, essa criança procura, quando está um medo mortal. Eu perguntei a ela. “ diferente de amor e relacionamento.
adulta inconscientemente um parceiro Você já pensou alguma vez em matá- Muito mais profundo e direcionado a to-
que a ajude e à sua família a resolver lo?” Ela disse. “Sim.” A filha dela que tam- dos.
esse problema. Portanto, o sistema da bém estava presente já havia tentado o Como disse, para a ordem é sempre im-
mulher procura através da mulher, no sis- suicídio. Portanto, nessa família existia um portante que o que foi excluído até então
tema do marido a solução para um pro- grande potencial de agressividade. Quan- seja reunido. Esse é o movimento princi-
blema não resolvido. E talvez o inverso do algo assim vem à luz, alguns ficam pal que leva à ordem nos relacionamen-
também. O marido e o seu sistema pro- tentados a dizer: “Que mulher ruim.” Eu tos e para a felicidade de todos.

5
O crescimento no
relacionamento do casal
Vou dizer, de maneira geral, ainda algo mais sobre
relacionamentos de casal e o crescimento. O
crescimento é sempre uma ampliação. Quem cresce,
precisa colocar algo de fora para dentro de si. Cresce
com aquilo que antes estava fora dele. Cresce,
colocando-o para dentro de si.

No momento que um homem encontra mem olha com desdém para a família da
Os homens e as uma mulher, reconhece que é incomple- mulher e a mulher olha com desdém para
mulheres são to. Precisa renunciar à sua convicção de
que como homem sozinho é um ser hu-
a família do marido. Os dois talvez se di-
gam: “Minha família é melhor.” E ela é a
diferentes mano completo. E com a mulher é a melhor para nós porque estamos vincu-
mesma coisa. Quando encontra um ho- lados a ela. Sendo necessário que seja
mem, percebe que ser só mulher não é assim. Pois, sem ela não poderíamos so-
Pois bem, o homem entende muito pou- o suficiente. É necessário ainda algo di- breviver.
co de mulheres. Vocês já viram um ho- ferente. Precisa renunciar à convicção de
mem que realmente entendesse algo de Entretanto, essas famílias são diferentes
que é a única incorporação certa do ser
mulheres? Vocês já encontraram uma uma da outra. Assim como o homem é
humano. Pois, de repente alguém total-
mulher que dissesse: “Meu marido me certo, embora não seja uma mulher, e
mente diferente que também é certo,
entende.”? E o inverso é naturalmente a embora a mulher seja certa, embora não
está à sua frente. Ambos são certos, mas
mesma coisa. As mulheres não entendem seja um homem, assim também a família
diferentes. Quando reconhecem isso, re-
muito dos homens. Senão, não ficariam do homem é certa e a família da mulher
nunciam às suas convicções e tornam-
continuamente tentando mudá-los. é certa, embora sejam diferentes entre
se humildes. Isso significa que reconhe-
Portanto, quando um homem e uma si. Mesmo assim, cada um precisa reco-
cem que são necessitados. Quando am-
mulher se encontram, encontram algo nhecer a família do outro como equiva-
bos reconhecem isso no outro, enrique-
estranho, algo que eles próprios não pos- lente. Com isso, renuncia a algo. Assim
cem. E crescem.
suem, algo que também não entendem, como o homem, em primeiro lugar, re-
O crescimento significa: eu tomo para
mas de que precisam. O homem precisa nuncia um pouco à sua convicção de que
dentro de mim, o que até agora era es-
da mulher. Senão, para que que ele é unicamente o homem é o ser humano
tranho para mim e que me desafia a re-
um homem? Sem a mulher ele não é um certo, ele também renuncia à convicção
nunciar à minha convicção. Ambos fazem
homem. E inversamente, a mulher pre- de que só a sua família é a certa. E o
isso mutuamente, o homem e a mulher.
cisa do homem. Pois, sem o homem ela inverso. Ambos tomam algo diferente
E crescem com isso. Isso é crescimento.
não é uma mulher. A mulher se torna uma para dentro de si e crescem com isso.
mulher somente através de um homem. Como isso é importante se torna óbvio
Ou? Todo o resto é provisório. quando o casal tem filhos e precisa se
Portanto, duas pessoas diferentes se en- As famílias também decidir como eles devem ser educados.
contram. Elas se completam mutuamen- Então algumas vezes existe uma com-
te, sem se entender, sem se entender na são diferentes petição entre os valores familiares de um
profundeza. Por isso, a tensão num rela- e os do outro. Também aqui cada um
cionamento de casal permanece a vida Agora se acresce que o homem provém deles precisa renunciar a algo. Dessa for-
inteira. O homem sempre se admira com de uma outra família diferente da mu- ma encontram em um nível superior algo
a sua mulher e a mullher se admira com lher e a mulher de uma outra família di- em comum, que é maior do que se reco-
o seu marido. Isso torna o seu relaciona- ferente da do homem. Ambas as famílias nheceram como os únicos certos. Isso
mento vivo. são diferentes. Freqüentemente o ho- também é crescimento.

4
Estar em sintonia com os nossos limites
Quando encontramos alguém numa situação difícil, freqüentemente
desejamos uma boa solução para ele. Queremos ajudá-lo. Entretanto,
podemos e devemos fazer isso? Algumas vezes sentimos que não
podemos e nem devemos. Algo dentro de nós nos proíbe. Então
precisamos reconhecer que chegamos a um limite.

Isso existe também em muitos relacio-


namentos de casal. Um dos parceiros está
preso em algo e o outro não sabe o por-
quê. Muitas vezes é algo de sua família
de origem. Contudo pode ser também
uma outra coisa que o prende. Algumas
vezes é um aborto provocado que o
prende e o afasta do relacionamento, tal-
vez até exista um anseio pela morte,
dentro de si.
O outro gostaria muito de ajudá-lo, mas
sente que não consegue. Ficar parado
aqui sem fazer nada, é difícil. Ele precisa
reconhecer que as suas forças não bas-
tam ou que a sua compreensão não bas-
ta para ajudar o outro. Aqui a postura in-
terna adequada é: Eu concordo com a
situação como ela é – com todas as
consequências para ele e para mim. Nes-
se momento chego a uma sintonia com
algo maior. Então posso esperar. Depois
de um certo tempo talvez surja alguma
solução e algo curativo. Algumas vezes
não surge nada. Então talvez haja a se-
paração. Cada um segue então a sua fi-
nalidade, da forma que lhe foi determi-
nada.
Algumas pessoas pensam que isso é ruim,
que uma outra solução teria sido melhor.
Nós compreendemos quando elas sen-
tem esse anseio. Mas nos é permitido?
Nos é permitido termos essas idéias?

7
E esse jogo alternado faz o mundo avan- De repente, ficamos inacreditavelmente
A força original çar. Toda a criatividade vem de um tal serenos. Olhamos para tudo, como é, e
conflito, no qual existem ambas as coi- concordamos com isso. Ficando serenos
Em relação a isso existem profundas sas: a derrota e a vitória. O mundo avan- dessa forma, entramos em sintonia com
compreensões de Rilke. Uma delas ele a ça dessa forma. esse movimento, como ele é. Então algo
teve bem cedo, quando ainda era bem maior se realiza em nós. Não mais o trivi-
jovem. Ele escreve em um curto poema al, mas algo grande: a sintonia com o todo
no seu manual de orações: “A vida de como ele é. Nessa sintonia podemos
todos é um presente”. A vida de todos é
A serenidade encontrar um outro ser humano como ele
um presente: minha vida é um presen- é, exatamente como ele é. Concordar
te, a vida de meu parceiro é um presen- Quando nos submetemos a essa obser- com isso, tal como é, seu sofrimento e
te, a vida de meus pais é um presente, a vação, precisamos prescindir totalmente sua alegria, sua vida e sua morte, isso nos
vida de meus filhos é um presente, to- de nós, de que nós indivíduos fossemos leva a entrar em sintonia com os grandes
das as vidas da natureza são um presen- importantes, de que nosso sofrimento movimentos. Desviamos o olhar de nós
te. O que isso significa? fosse importante, de que nossa tristeza mesmos. O que é ainda o meu eu nesse
Atrás de nossas vidas atua uma força ori- fosse importante ou nossa felicidade. Ou contexto? Então seremos carregados por
ginal, uma origem ou uma fonte original de que nosso sucesso fosse importante algo infinito.
de todas as vidas, que atua da mesma ou nossa vida ou nossa morte. Eis um
forma em todas as vidas e também so- poema de Rilke relativo a isso:
fre. Portanto, se o parceiro sofre, sofre
nele uma outra força maior. Poderíamos Existe alguém que toma tudo nas O paraíso
também dizer, em primeiro plano: Deus mãos,
sofre nele. Em todas as criaturas sofredo- de forma que escorre como Ainda uma compreensão importante. A
ras Deus também sofre. E inversamente. areia pelos seus dedos. felicidade está à espera, fora do paraíso.
Se alguém destrói, por exemplo, um as- Ele escolhe a mais bela das rainhas e O crescimento só existe fora do paraíso.
sassino ou um soldado numa guerra, gru- se deixa esculpir no mais branco dos O criativo começa depois que fomos
pos de bandidos ou não importa o que mármores, expulsos do paraíso. O grande amor co-
for: Quem age aqui? Eles é que agem? Deitado tranquilamente na melodia de meça, depois que o amor paradisíaco
Ou Deus age através deles? Nós nos de- um manto; passou.
fendemos contra essa idéia. Entretanto, E deita os reis com as suas mulheres,
devemos fazer isso? Existe uma outra moldadas pela mesma pedra.
reflexão que se aproxima mais dessa re-
alidade e corresponde mais a ela? E qual Existe alguém que toma todos na mão
o efeito que isso tem quando concorda- como se fossem lâminas desgastas que
mos com essa reflexão: Deus sofre em se quebram.
tudo e age em tudo, da mesmo forma? A Não é nenhum estranho pois ele mora
destruição e a construção, a doença e o no sangue,
restabelecimento ou a destruição e o pro- Que é a nossa vida e murmura e
gresso é um jogo alternado inacreditável descansa.
que se realiza em tudo: O que acontece Eu não posso acreditar que ele faça
é um movimento divino. O conjunto do algo injusto.
sofrimento e da alegria, da destruição e Contudo ouço que muitos falam
da construção e da vida e da morte é um coisas más sobre ele.
jogo alternado divino. A mesma força atua
em ambos.

8
O dia-a-dia do relacionamento de casal
Agora vou falar do dia-a-dia do relacionamento de casal. Como se inicia o novo dia no
relacionamento de casal? O marido olha para a mulher e a mulher olha para o marido e suas faces
começam a iluminar. Eles se alegram um com o outro. Isso não é um belo início de um dia novo em
um relacionamento de casal? Portanto, o amor ilumina, e se mostra na iluminação. A expressão mais
bela do amor é quando um se alegra com o outro. Dessa forma é que começa o dia de um
relacionamento de casal. Eles se olham e se alegram com o outro, do jeito que ele é. Exatamente do jeito
que ele é. A felicidade é se alegrar mutuamente com o outro e fazer algo com isso, dando e recebendo...
Então o dia não vai ser suficientemente longo porque sempre flui algo novo entre eles. Isso é crescer.

Após décadas de observação e experi- bém a vista para a felicidade. Eles ficam malvada, fica sentido e paga por isso. Ele
ência, para mim o essencial que faz par- apenas com uns trocadinhos na mão. E é fica mal, diz por exemplo, para a mu-
te da felicidade se reduziu em três pala- tudo que resta da alegria e da felicidade. lher: “Hoje não vou comer nada, hoje vou
vras. Nestas três palavras, quando são Existe um instinto profundo em nós, que ficar de jejum.”, embora ela tenha cozi-
sentidas e ditas no momento certo, está recebe força da idéia de que preciso pa- nhado muito bem. Portanto, ele expia
o segredo da felicidade em um relacio- gar por tudo que recebo. Sobretudo pela pelo que fez. Como se contorna esse tal
namento de casal. felicidade. Contudo, enquanto ficamos tipo de expiação? Através de uma única
pensando que já estamos pagando o su- palavra.
ficiente, a felicidade já desapareceu. Portanto, o marido ofendeu a mulher. Ele
Sim Essa idéia de que precisamos pagar por não a viu. Ele até esqueceu o seu aniver-
A primeira palavra já alude em relação tudo, existe também perante Deus. Atra- sário. Algo assim é terrível. Alguns esque-
ao início do dia em um relacionamento vés de grandes sacrifícios e peregrina- cem também o dia do casamento. Então
de casal. Por que nos alegramos com o ções e instituições de caridade e tudo o a mulher olha para ele e fica triste. O
outro? Porque concordamos com ele, do mais possível pagamos Deus pela felici- que ele deve fazer agora? Ele deve ex-
jeito que ele é. Essa alegria também con- dade agraciada. Ele fica feliz se pagarmos piar? Ele deve bater no seu peito, em
tagia o outro. A palavra, que está por trás, por isso? Ele se preocupa com aquilo que sinal de minha culpa? Não. Ele olha para
significa: “Sim.” Sim, para o outro, sim pagamos? Essa é uma idéia estranha. ela e diz: “Por favor”, simplesmente “Por
para mim, sim para a situação, como ela Certa vez tinha um participante num favor”. Eu sinto muito. “Por favor”. Então
é, e sim para a felicidade. curso meu que tinha comprado um o coração dela se abre e a felicidade tem
É claro que algumas vezes existe algo Mercedes. Entretanto, ele não conseguia novamente uma chance.
que está em oposição a isso, uma deter- usufrui-lo, era uma felicidade grande de-
minada idéia. Em nossa sociedade preci- mais para ele. Em sua família só se podia
samos pagar por quase tudo. Muitos ima- comprar carros da Volks – os antigos. Um Obrigado
ginam que nada é gratuito, tudo precisa dia na autoestrada de repente um carro Já mencionei duas das três palavras má-
ser pago. Por isso, começam a pagar tam- bateu na traseira de seu carro. Então ele gicas para a felicidade: “Sim” e “Por fa-
bém pela sua felicidade. Ao invés de olhar respirou aliviado. Finalmente tinha pago vor”. Existe ainda uma palavra especial-
para o outro e se alegrar com ele, pa- pela sua felicidade. mente bela. Essa palavra é: “Obrigado.”
gam a felicidade com o dinheiro. Com Não lhes parece ser algo conhecido? Isso Simplesmente “Obrigado.” Em um rela-
isso perdem o outro de sua vista – e tam- é praticamente diário. Muitos pagam o cionamento de casal existe durante o dia
tempo todo. Eles pagam pela felicidade inteiro centenas de ocasiões onde nos
e pagam pela culpa. alegramos com algo e dizemos: “ Obri-
gado.” Reciprocamente.
Essas são então as três palavras mágicas
Por favor para um relacionamento de casal feliz e
Se o marido ofende a sua mulher, por pleno. Podemos nos nutrir com elas, mes-
exemplo, através de uma observação mo quando algo difícil se nos apresentar.

9
A decepção
Por que um parceiro fica decepcionado com o outro? Porque
esperava do outro algo que este não lhe podia dar. Tinha uma
expectativa em relação ao outro que, entretanto, vai além do
normal. Essa expectativa provém freqüentemente da infância.
Freqüentemente foi uma expectativa em relação à mãe. Então,
de repente, ficamos decepcionados.

Existe um exercício para isso, como


podemos nos conformar com essa
decepção. Poderíamos, por exem-
plo, sentar à noite e pegar cinco
folhas de papel, no mínimo três, e
começar a imaginar o parceiro e
escrever tudo aquilo que ele nos
presenteou. Cinco longas páginas,
mas elas não são o suficiente. Quan-
to mais tempo escrevemos, quanto
mais começamos a iluminar. Esse
é um belo exercício.

10
Respostas por carta para o tema:
Relacionamentos em crise

Pensamento secreto
Para algumas pessoas é difícil compre-
ender que também aquilo que pensam
e planejam secretamente atua num sis-
tema, sobretudo se está simultaneamen-
te em contraposição ao que dizem e fa-
zem.

O momento
O seu companheiro lhe dá um sinal evi-
dente que não quer se decidir por você,
e seria bom se você levasse isso a sério.
Entretanto, desfrute o relacionamento
enquanto durar.

Exemplo: o labirinto da alma


Exercício com uma mulher, cujo marido mãe: “Por favor.” Nós tateamos no escu- Um cão atado a uma
se suicidou seis meses após a separação. ro e vamos para frente, com a imagem
da mãe perante os olhos e dizemos: “Por
corda longa prefere
Hellinger: Para onde ele quis ir com a favor, por favor.” Cada “por favor” é um voltar
sua morte? – Para a sua mãe. passo para frente.
Em primeiro lugar é confiar que algumas
Mulher: Faz sentido.
Então a batida do coração fica um pouco coisas se tornam boas como por si só,
Hellinger: Os subterfúgios da alma são quando ficamos quietos. Por exemplo,
mais rápida. Os passos ficam um pouco
estranhos. Eu não me surpreendo abso- quando você libera internamente o seu
maiores. Entretanto, ainda continua es-
lutamente com mais nada. A alma é um marido, assim como o seu filho. Quando
curo. A cada passo e a cada batida do
labirinto no qual podemos nos perder você fica em silêncio dentro de si, uma
coração você diz: “Obrigada.” E diz ao
facilmente. Nele nos orientamos por um boa força poderá se desenvolver neles.
seu falecido marido: “Obrigada.”
fio condutor, que seguramos nas mãos o
tempo inteiro. Dessa forma conseguimos Então comece a respirar mais profunda-
lidar com isso. Um labirinto é escuro. Não mente, a cada “obrigada.” Inspire e ex-
adianta nada ficar de olhos abertos aqui, pire profundamente. Entretanto, ainda A concordância
mas apenas nos atermos ao fio condutor. continua escuro no labirinto. Devo conti-
As relações entre os seres humanos têm
Vamos tateando pelo fio condutor e nos nuar a andar com você no labirinto do
sucesso, da maneira como são, e não da
dirigindo para frente, centímetro por cen- amor?
maneira que deveriam ser.
tímetro. Cada batida de coração é um Mulher: Por favor.
centímetro a mais. E seguimos a batida Hellinger: Sim, com prazer. Agora a cada
do coração. passo vem um ”Sim.” É um sim bem es-

Eu simplesmente imagino isso. Procuro


pecial. Um sim para a vida e um sim para A seriedade
a morte, para ambos. Você diz sim para a
imagens para a alma, pelas quais posso Leve a sério a observação de seu marido
sua vida e sim também para a morte de
me orientar no labirinto do amor. Segui- de que ele não te ama mais. Encaminhe
seu marido. Esta morte pertence à vida
mos então a batida do coração. Cada ba- o divórcio. Procurar um apartamento e
dele. Sim.
tida está com você: “Por favor, por favor, mudar é ele que precisa, em primeiro
por favor.” Esse “por favor” nos reporta à Agora olhe para o seu marido atual e diga lugar. Somente se ele se recusar, é que
infância e, em primeiro lugar, é claro, à também para ele: sim. você vai empreender algo.

11
A realização da vida

A realização da vida é algo simples. A realização da vida é:


obrigado, por favor, sim. Isso é a realização da vida. Em muitas
situações, não importa como sejam, dizemos: sim, por favor,
obrigado. Nessas palavras estão contidas o mais simples. O grande
e profundo amor entre o homem e a mulher é o mais simples que
existe – se simplesmente puder ficar com o sim, por favor, obrigado.

12
Ajudar as Crianças
O amor que sabe assim. Isso tem a ver com o vínculo à Sentimos a boa e a má consciência de
família e com a separação dela. Cada um formas diferentes em diferentes grupos.
A idéia de que devem e podem assumir de nós sabe, intuitivamente, com a ajuda Até as sentimos de forma diferente, con-
algo pelos pais ou ancestrais faz parte de sua consciência, o que deve fazer para forme cada pessoa. Por isso temos, por
do pano de fundo que causa dificulda- fazer parte dela. Uma criança sabe, intui- exemplo, em relação ao pai uma consci-
des aos filhos. Isso leva a problemas in- tivamente, o que deve fazer para per- ência diferente da que temos em rela-
termináveis para eles. E de certa forma tencer à família. Se se comportar de ma- ção à mãe e na profissão uma outra cons-
também para os pais. Para entendermos neira correspondente ela tem uma boa ciência diferente da que temos em casa.
isso é necessário que saibamos algo so- consciência. Uma boa consciência signi- Portanto, a consciência muda continua-
bre a diferença entre as diversas consci- fica então: eu sinto que tenho o direito mente porque temos de grupo a grupo
ências. de pertencer. e de pessoa a pessoa uma outra percep-
Se uma criança se desvia disso ou se nós ção, pois de grupo a grupo e de pessoa
nos desviamos disso, temos medo de a pessoa o que devemos fazer ou deixar
A boa e a má consciência perder o pertencimento. Sentimos esse de fazer é algo diferente, para podermos
Nós sentimos a nossa consciência como medo como uma má consciência. Uma pertencer.
boa e má consciência, como inocência e má consciência significa, portanto: tenho Com a ajuda da consciência também di-
culpa. Muitos pensam que isso teria a ver medo de ter colocado em jogo o meu ferenciamos aqueles que nos pertencem
com o bom e o mau. Contudo, não é direito de pertencer. daqueles que não nos pertencem. Na

13
medida em que a consciência nos vincu- que seja, estão conectados com uma emaranhamento e os carregam sozinhos.
la à nossa família, ela nos separa de ou- pessoa excluída. Estão emaranhados com Então a criança estará livre. Ela não pre-
tros grupos ou pessoas e exige de nós essa pessoa. Por isso só podemos ajudá- cisa assumir nada daquilo que é da alça-
que nos separemos deles. Por isso, devi- los se eles e outras pessoas na família da dos outros.
do à nossa consciência temos tiverem em seu campo de visão essa Contudo, a transgressão da ordem de ori-
freqüentemente sentimentos de rejeição pessoa excluída, colocando-a novamen- gem é castigada duramente por essa
e até de inimizade em relação a outras te na família e no próprio coração. De- consciência oculta. Toda criança que ten-
pessoas e a outros grupos. Essa rejeição pois disso, os filhos estarão liberados do ta assumir algo pelos pais ou por outros
tem a ver com a necessidade do emaranhamento. que vieram antes dela, fracassa. Nenhu-
pertencimento e tem pouco ou quase Para ajudar esse tipo de filhos, outros ma tentativa de assumir algo pelos pais
nada a ver com o bom e o mau. membros familiares que até então igno- tem sucesso. Está sempre fadada ao fra-
Portanto, essa consciência é uma consci- raram essas pessoas precisam finalmen- casso e, na verdade, para todos os en-
ência que sentimos. Com a ajuda dessa te olhar para elas. E aqueles com os quais volvidos. Nós precisamos saber disso. Por
consciência, diferenciamos entre o bom estavam zangadas ou rejeitaram precisam isso, ajudamos as crianças a se soltarem
e o mau, mas sempre apenas em rela- se dedicar a elas com amor e acolhê-las dessa intromissão. Ao invés de olhar para
ção a um determinado grupo. novamente na família. Esse é o pano de as crianças, olhamos primeiro para os pais
fundo para muitas dificuldades que as e deixamos que eles mesmos resolvam
crianças têm, e também a preocupação os problemas. Se os pais resolverem isso,
O emaranhamento que algumas vezes seus pais têm por os filhos se sentem livres. Eles ficam no-
elas. vamente tranqüilos e se sentem acolhi-
Contudo, existe ainda uma outra consci- dos.
ência oculta, uma consciência arcaica, Portanto, estas são duas leis básicas que
uma consciência coletiva. Essa consciên- devemos ter no nosso campo de visão e
cia segue outras leis diferentes daquelas O amor cego estar em acordo interno quando se quer
ditadas pela consciência que sentimos. É Contudo, existe para essa consciência ajudar crianças difíceis.
a consciência do grupo. Essa consciência oculta ainda uma outra lei. Essa lei tam-
vela para que numa família todos se sub- bém traz dificuldades às crianças. Essa lei
metam a determinadas ordens que são exige que aqueles que pertenceram an-
importantes para a sua sobrevivência e tes à família, tenham precedência em
união. relação àqueles que vieram mais tarde.
Em primeiro lugar, o que faz parte des- Portanto, existe entre os membros ante-
sas ordens, é que cada um que pertence riores e os posteriores uma hierarquia.
tem o mesmo direito de pertencer. Con- Essa hierarquia precisa ser obedecida.
tudo, sob a influência da consciência que Contudo, muitas crianças tomam a liber-
sentimos, algumas vezes excluímos al- dade de assumir algo pelos pais para
gumas pessoas da família. Por exemplo, ajudá-los. Com isso transgridem a hierar-
aqueles que pensamos que são maus, quia. Então a criança diz para a mãe ou
também aqueles dos quais temos medo. pra o pai, sob a influência dessa consci-
Nós os excluímos porque pensamos que ência, frases internas, tais como:” Eu as-
sejam perigosos para nós. sumo isso por você. “Eu expio por você.”
Contudo, através dessa outra consciên- “Vou adoecer em seu lugar.” “Vou mor-
cia oculta, aquilo que fazemos de boa rer em seu lugar.” Tudo isso acontece por
consciência, seguindo a consciência que amor, mas por um amor cego. Esse amor
sentimos, será condenado. Pois esta ou- cego leva às drogas ou a perigo de vida
tra consciência não tolera que alguém seja e comportamentos agressivos. Entretan-
excluído. Entretanto, se isso acontecer, to, estes tipos de comportamento e es-
alguém será posteriomente condenado, ses perigos têm a ver com a tentativa de
sob a influência dessa consciência ocul- assumir algo pelos pais. Essa ordem é
ta, a imitar e representar um excluído em violada e ferida dessa forma.
sua vida, sem que tenha consciência dis-
so. Denomino essa ligação inconsciente
com uma pessoa excluída de
“emaranhamento”. A ordem
Por isso, podemos entender que Quando ficamos sabendo dessa ordem,
muitos filhos, os quais pensamos que podemos restabelecê-la novamente. Isso
estão se comportando de forma estranha significa, por exemplo: os pais assumem
ou estariam em perigo de se suicidar, ou as conseqüências de seu próprio com-
se tornam drogadictos ou não importa o portamento, de seu próprio

14
Eu tomo você em meu coração
Vou fazer com vocês uma meditação, para que possamos sentir o
que significa: alguém foi excluído e alguém é incluído. Farei isso
em vários níveis, começando pelo nível físico.

Nós entramos no nosso corpo e senti- zemos a ela: “Eu te amo também. Agora pessoa.” Eu te amo. Eu te coloco em meu
mos aquilo do que queremos nos livrar coloco você em meu coração e na mi- coração e na minha alma.” Aqui precisa-
no nosso corpo. Por exemplo, uma dor, nha família e no meu corpo.” – E senti- mos saber que algumas vezes o nosso
uma doença, uma tensão, algo que não mos o efeito. parceiro representa alguém que foi ex-
se sente em casa conosco ou não se sen- Depois que tivermos colocado essa pes- cluído em minha família, e com isso está
te acolhido por nós. soa em nossa alma, no próximo nível a serviço de meu sistema.
Nós entramos nessa dor ou nessa doen- olhamos para o nosso parceiro e suas Sigamos agora para mais um outro nível.
ça e dizemos: “Sim. Eu agora a coloco dores. Olhamos para o parceiro e olha- Olhamos para os nossos filhos e nos per-
em minha alma e em meu coração.” Nós mos com as suas dores para essa pessoa guntamos quando se comportarem de
entramos nesse órgão ou nessa doença que foi esquecida ou excluida em sua modo estranho ou quando estão doen-
ou nessa dor e sentimos: Para onde essa família. Em seu lugar dizemos para essa tes: para quem estão olhando na família
dor ou esse órgão olha? Para que pessoa? dos pais? Quem trazem à memória com
Essa dor ou essa doença diz a essa pes- seu comportamento ou sua doença?
soa: “Eu te amo. Eu a trago à me- Olhamos com eles para essa pessoa e
mória. Eu te represento.” Com dizemos a ela: “Sim, eu também te amo.
esse órgão, com essa dor ou Eu também lhe dou agora um lugar em
com essa doença olhamos minha alma. Você pode estar e perma-
para essa pessoa e di- necer conosco.”

15
A grande alma
Para a seguinte meditação
precisamos de um pouco mais de
tempo. Podemos também fazê-la em
mais dias. Com a grande alma
quero dizer aqui a alma
comum que nos liga aos
nossos antepassados e no
final até a todos os seres
humanos, os vivos e os mortos.

Nós imaginamos que estamos perante


todos as pessoas que nos pertencem:
nossos irmãos, nossos pais e seus irmãos,
nossos avós, nossos bisavós e ainda mui-
tas outras pessoas com as quais estamos
especialmente ligados, como, por exem-
plo nosso parceiro e nossos próprios fi-
lhos. Todos nós formamos um círculo e
nos seguramos pelas mãos. Todos olham
uns para os outros. Utilizemos o tempo
total, até que tenhamos olhado todos e
todos nos tenham olhado. Nós nos per-
mitimos sentir o efeito que tem em nós,
em nossa alma e no nosso corpo.
Então imaginamos que cada pessoa des-
se círculo uma após a outra entra no cen-
tro e é olhada por todas. Para isso tam-
bém permitimos utilizar o tempo total.
No final, nós também entramos no cen-
tro do círculo e deixamos ser olhados por
todos com amor. Depois voltamos nova-
mente para o círculo.
Todos continuam se segurando pelas
mãos. Então fecham os olhos. Eles todos
se soltam e se permitem recair na ori-
gem que acolhe e sustenta a todos. Na
profundeza da origem nos tornamos um
com todas as pessoas que existiram. Elas
estão ainda presentes em nós e na nossa
alma em comum. Nessa grande alma to-
dos estamos acolhidos. Nela estamos em
casa.

16
Pais
Golpes do destino
Hellinger para uma mulher, cuja filha se pensar, principalmente quando senti- criança – para o seu destino que é maior
sofreu uma lesão durante o parto e fa- mos culpa. Atrás desse sentimento de do que você. Peça ao destino para en-
leceu cedo: Gostaria, neste contexto, de culpa muitas vezes existe uma arrogân- carregar-se dela e de você também, tan-
falar algo sobre a culpa. Não no sentido cia. Pensamos que éramos livres para fa- to de uma quanto da outra. Você perce-
moral, isso está bem longe de mim. zer algo de uma outra forma. be a diferença? Lá, essa criança deficien-
Freqüentemente nos sentimos culpados Agora olhe para além dessa criança mor- te que está morta encontra a calma e a
porque alguém, de certa forma, foi pre- ta. Imagine que ela está deitada à sua paz. Lá, todos estão acolhidos - da mes-
judicado por nossa causa. Por isso, frente. Agora olhe para bem longe dessa ma forma.
freqüentemente também temos em re-
lação a um aborto provocado um senti-
mento de culpa. Pode ser também que
uma mãe tenha um sentimento de culpa
quando durante o parto uma criança so-
fre uma lesão, que talvez tenha levado a
uma deficiência permanente.
Freqüentemente as mães se sentem res-
ponsáveis e culpadas por isso.
Existem dois modos de lidar com uma
culpa desse tipo. Um deles é o sentimen-
to de culpa. O sentimento de culpa sig-
nifica que eu não olho para a pessoa em
relação a qual me sinto culpado, mas para
mim. Eu lamento algo e penso que po-
deria e deveria ter agido de outra forma.
Então tenho um sentimento de culpa.
Esse sentimento de culpa é um
substitutivo para a ação. Quem se sente
culpado dessa forma, não age. Permane-
ce passivo.
Existe ainda um outro modo de lidar com
a culpa. Olhamos para aquilo que acon-
teceu, do jeito que é, do jeito que acon-
teceu e dizemos: “Eu concordo com isso
do jeito que foi. Eu também concordo
com as conseqüências, todas as conse-
qüências, não importa o que resultar dis-
so para mim e para os outros. Nesse
momento não temos mais nenhum sen-
timento de culpa, mas ganhamos a força
para fazer algo, geralmente fazer algo de
bom. Com isso a culpa leva a uma boa
ação, e também estará acolhida de uma
boa forma.
Em relação à culpa existe algo ainda para

17
para um irmão ou irmã que morreu cedo:

Ordens do Amor “Eu sigo você.” Por exemplo,


freqüentemente um gêmeo quer seguir
o irmão gêmeo ou a irmã gêmea na
morte. Isso é amor, mas um amor que se
opõe à vida. Não é um amor através do
qual a vida pode ter êxito.
A medida do amor Então existe ainda uma continuação des-
sa dinâmica, quando uma criança perce-
be que um dos pais quer partir ou mor-
Em relação ao amor existem, muitas vezes, certas rer. Pois, de fato, também freqüntemente
dificuldades. Uma dificuldade com o amor é que a ele um dos pais quer ir embora ou morrer
se liga a idéia de que ele tem poder. Por exemplo, que seguindo a dinâmica “Eu sigo você.” En-
tão a criança lhe diz internamente: “Eu
com a sua ajuda pode-se mudar um destino. Essa idéia vou no seu lugar.” Isso também é amor,
é arrogante. Ao invés de servir ao amor, muitas vezes se mas um amor que leva à morte.
opõe a ele. Aqui faz parte das ordens do amor que
respeitemos o destino de cada um, do
jeito que é, sem interferir nele, nem
mesmo com a vontade de interferir. Este
Vou dar um exemplo bem simples. Como Isso tem a ver com o fato de que a crian- é um amor totalmente diferente. É um
estão os filhos sobre os quais os pais se ça não conhece a ordem essencial do amor que sabe e tem força. Ele pode
preocupam? Esses filhos vão bem ou mal? amor, isto é, que aqueles que vieram conservar a distância e deixar o outro
Têm mais ou menos força para viver? antes têm precedência em relação aque- seguir o destino que lhe foi determina-
Contudo, muitos pais pensam que se les que vieram depois. Isso significa: os do. Também nos deixa seguir o nosso
preocupam com os filhos por amor. Mas pais têm precedência perante os filhos, próprio destino sem querer mudá-lo atra-
os filhos poderão respirar aliviados se os o primogênito tem precedência em re- vés de uma preocupação exagerada.
pais renunciarem ao poder do amor com lação ao segundo filho, etc. É válida en-
o qual acham que podem e devem in- tão uma ordem original. Essa ordem ori- Portanto, vemos que o grande amor que
terferir no destino deles. Portanto, em ginal proíbe que uma criança se preocu- serve à vida exige algo de nós. Ele exige
relação ao amor é melhor olharmos para pe pelos pais, ou até que os queira salvar. principalmente a renúncia ao poder.
o amor que serve à vida, levando aquilo
Existem duas dinâmicas básicas do amor,
que está próximo e com o qual nos pre-
desse amor cego das crianças que se
ocupamos, para algo maior.
opõe à vida. A primeira dinâmica é, que
Certa vez, veio para o meu curso uma uma criança diga a um de seus genitores,
mãe com seu bebê de cinco meses. Ela se um deles morreu cedo, ou também
estava sentada ao meu lado e apertava a
criança no peito. Eu disse a ela: “Olhe
para além da criança, para longe.” Ela fez
isso. Ela olhou para além da criança, para
longe. De repente o bebê respirou fun-
do e aliviado. Ele se virou para mim, sor-
rindo.
Portanto, o amor tem uma medida. Con-
tudo, não são apenas os pais que algu-
mas vezes perdem a medida do amor.
São principalmente os filhos que perdem
a medida do amor. Eles não a conhecem.
Então assumem algo pelos pais porque
pensam que poderiam salvá-los com isso.
Essa é uma idéia inacreditável. Mas, os
filhos são assim.

18
Aprendendo a amar
Gostaria de dizer algo sobre as ordens do amor no
relacionamento a dois. Quem espera no
relacionamento a dois principalmente por algo para
si, no sentido de que o parceiro está presente
principalmente para si, ainda não está pronto para
um relacionamento a dois. Pois no amor existe um
desenvolvimento. Esse desenvolvimento precisa
preceder ao relacionamento.

No início de nossa vida está o amor de Quando alguém faz censuras aos seus minada família. Eles também foram mar-
nossos pais como casal. Nós somos o fru- pais ou quando tem expectativas em cados por essa família e ganharam uma
to de seu amor. O primeiro passo de relação a eles que vão para além daquilo força especial. Também um desafio es-
nosso amor para os nossos pais é que que as pessoas comuns podem presen- pecial chega para eles de sua família. Eles
nós olhemos para eles como nossos pais tear, não toma mais sua vida em sua ple- pertencem a uma determinada cultura e
e tomemos a nossa vida como um pre- nitude. Com isso fica empobrecido em a um determinado idioma e religião. To-
sente. Então olhamos para além de nos- sua alma já no início de sua vida. Esse das essas circunstâncias pertencem à vida
sos pais para a fonte de todas as vidas e amor começa com o tomar a vida, como deles e à nossa também. Nós tomamos
tomamos nossa vida dessa fonte, como ela vem desse amor de nossos pais para essa vida de nossos pais sob essas cir-
ela vem de lá para nós. Esse amor signi- nós. Esse tomar a vida plenamente, como cunstâncias exatas nas quais eles tiveram
fica: tomar, tomar como vem, sem restri- ela vem é um amor muito profundo. que viver e concordamos com eles: “Sim,
ções e sem excluir nada. Totalmente, da É certo que nossos pais estão inseridos eu os tomo dessa forma como meus pais,
forma que vem desses pais e dessa fon- em muitas coisas. Um dia também foram e vocês podem me ter dessa forma como
te para nós. filhos e também provêm de uma deter- o filho de vocês.”

19
Meditação
Eu amo vocês dessa forma
Nós podemos fazer um pequeno exercício em
relação a isso. Imaginamos que estamos perante
nossos pais como crianças, como crianças
pequenas. Nós olhamos para eles, como crianças
pequenas olham para os seus pais, com um amor e
dedicação inacreditáveis. Crianças pequenas
olham para seus pais com dedicação — totalmente Então imaginamos o que os nossos pais
nos deram e presentearam através de
dedicados a eles. E agora olhamos dessa forma muitos anos. Eles nos sustentaram, nos
para nossa mãe e para nosso pai, como são, vestiram, nos protegeram. Eles sempre
pensaram em nós e se perguntaram: “De
exatamente como são. Nós dizemos a eles: “Sim, eu que é que a criança precisa?” E eles fica-
amo vocês dessa forma, como vocês são. Vocês são ram preocupados conosco durante mui-
tos anos. Nós tomamos deles e dizemos:
meus pais. Você é minha mãe. Você é meu pai, e eu “Obrigado, eu tomo de vocês dessa for-
sou a criança amada de vocês.” ma com tudo que está ligado a isso – e
pelo preço total que custou a vocês. Tam-
bém pelo preço que me custou através
das circunstâncias e dificuldades que exis-
tiram, que vocês tiveram e que eu tive.
A minha vida vale esse preço. Eu tomo
assim, como recebi de vocês e faço algo
disso, algo do qual vocês, como meus
pais, vão se alegrar. Vocês devem saber
que eu tomei de vocês, em sua plenitu-
de, e fiz algo disso.”

20
Ver os pais como seres humanos
Algumas vezes algo se opõe a esse tomar os pais do Ainda algo se opõe a esse tomar. Porque
os pais são comuns, tão comuns como
jeito que são, e tomar tudo aquilo que vem deles, isto é, nós também, fizeram muitas coisas erra-
uma expectativa em relação a eles, que vai para muito das. Existem aqueles pais que batem nos
seus filhos. Existem também situações
além do que seres comuns podem dar. Nós os onde houve abuso de crianças. Então uma
colocamos, por assim dizer, ao lado de Deus e ficamos criança assim censura os pais e diz tal-
vez: “Não quero saber mais nada de
zangados com eles se não são como o querido Deus. vocês” , ou não importa como se com-
Isso não é estranho? Essa expectativa impede que portam. Eles recusam o amor e pensam
que teriam direito a isso.
tomemos tudo o que nossos pais deram e querem
realmente dar para nós.

21
O imperfeito
Neste contexto ainda fiz algumas reflexões sobre Deus. Podemos fazer
todas as reflexões possíveis sobre Deus. Elas todas não estão certas.
Pois quem sabe realmente algo sobre Deus?
Entretanto, algumas reflexões sobre Deus pre incompleto. Freqüentemente tam- mos em vibração com esse movimento,
ajudam a vida se as observarmos mais bém é falho. Freqüentemente ele se chega do imperfeito algo melhor, uma
exatamente. Por exemplo, recentemen- encaminhou para a direção errada de for- nova força. Isso é válido para tudo que
te algo surpreendente me abriu os olhos, ma que surgem conflitos em relação à vivenciamos como crianças, sem diferen-
que, na verdade, Deus é imperfeito, e, direção certa. Através do conflito e da ciação. Tão logo aceitemos isso como
com efeito, necessariamente. Se, portan- discussão chegamos à compreensão em parte de um movimento criativo da vida
to, até Deus deve ser imperfeito, os nos- direção ao que deve ser o próximo pas- em algo maior e concordamos com ele,
sos pais precisam então ser perfeitos? so. Nós não temos essa compreensão como foi, não importa o que tenha exi-
Quero esclarecer mais precisamente o partindo de nós ou de nossos conflitos. gido de nós. Então se comprova no final
que isso significa. Atrás da vida, atrás de O próprio movimento criativo necessita que tudo foi bom para nós, não importa
tudo que se move, uma força criativa está do imperfeito e até do errado para a con- o que tenha acontecido. Serviu ao nosso
atuando. Isso é compreensivel. Não po- tinuação de seu desenvolvimento. crescimento. Então nos expomos
demos imaginar isso de uma outra for- Nossos pais também estavam inseridos tambem ao ruim e ao pesado e concor-
ma. Essas forças não vêm de nós. Elas num movimento assim, imperfeito, com damos com isso. Nós dizemos: “Sim, isso
vêm de outro lugar. Essas forças criativas erros e também com culpa. Agora pode- foi parte de um movimento criativo. Tudo
são criativas porque o que veio antes era mos entrar em vibração nesse movimento que foi ruim, me impulsionou para algo
imperfeito. O criativo pressupõe o im- imperfeito e concordar com ele, também novo e melhor. Porque eu concordo com
perfeito. Portanto, esse movimento cria- com o “mau” (entre aspas). Na medida isso também, isso se tornou uma força
tivo ou esse movimento divino é sem- em que concordamos com ele e entra- para mim.”

22
O movimento básico do amor
Portanto, o movimento básico do amor, o início do amor é: Tomar, tomar, tomar,
tudo como é, simplesmente tomar. Quanto mais tomamos, tanto mais
enriquecemos. Esse é o início do amor. Se nós tivermos tomado muito, o amor
transborda. Contudo, não antes.

Freqüentemente os filhos querem dar o amor que serve à vida. tomou tanto que agora também pode
cedo demais. Eles amam os pais e Mais tarde, mais ou menos aos 20 dar. Então existe o intercâmbio amo-
querem fazer algo por eles, algo que anos, a criança não agüenta mais sim- roso total do dar e tomar recíproco
não é de sua alçada. O que vale aqui plesmente tomar. Agora ela quer fa- entre o homem e a mulher.
é que o que precisam fazer principal- zer algo. Então encontra um parceiro Isso é a medida sobre uma ordem im-
mente é tomar ao invés de dar. To- e está pronta e capaz de dar. Não é portante para o relacionamento en-
mar, tomar, tomar é o início de todo mais só tomar como uma criança. Já tre o homem e a mulher.

23
Ajudou
“Mamãe, hoje vou dormir sozinha”

Uma mãe solteira descreve seus problemas com a filha de nove anos que se sente
muita angústia: “Todas as noites ela vem para a minha cama. Eu preciso levá-la
para a escola e buscá-la pontualmente. Mesmo quando preciso levar um cesto de lixo
para baixo, ela sempre precisa ir comigo.”

Essa mãe compareceu a um curso meu. Pequenas histórias


Em uma constelação veio à luz que ela, desse tipo podem
secretamente, ansiava morrer. Até então
tinha consciência de sempre ter deseja- contam muitas coisas
do ir embora e finalmente deixar tudo para aqueles que
atrás de si. O que estava ligado a esse trabalham com as
desejo veio à tona na constelação. Uma constelações. Em
irmã sua nascera morta. Ela havia sido
relação às
esquecida na família e nem sequer tinha
um nome. Então a mulher colocou a sua transformações
irmã no coração e sentiu a sua boa força. durante um curso, as
O seu desejo de ir embora e de morrer, faces vivas e os olhos
cessou.
radiantes, um
Quando voltou do curso para casa, Marion
estava sentada à mesa, com a avó, na participante
cozinha, jogando dados. Ela olhou breve comentou com as
para cima e disse para a mãe que estava seguintes palavras:
entrando: “Mamãe, hoje vou dormir sozi- “Eu acho que estou
nha.” Foi assim e permaneceu assim
depois. num resort de
Relato de Günter Schricker beleza.”

24
Frases para reflexão
O conhecimento

A iluminação é o O sábio suporta a pura A ordem é


conhecimento da ordem. verdade como uma vaca em avassaladora.
relação à cerca de arame
farpado, enquanto existir
A verdade pura algo para comer, fica A auto-confiança é o
é mentira. afastada, depois procura conhecimento de seu próprio
uma fenda. caminho.

Em relação ao certo, o A preparação para o


encontrar é difícil e o encontrar é freqüentemente Os sabichões precisam de
entendimento fácil. uma renúncia. pouco conhecimento.

A fé exige a negação daquilo Apenas de olhos fechados O que é certo ninguém


que sabemos – e daquilo que podemos ter “grandes“ precisa defender, e o que não
não sabemos idéias”. é, também não.

25
A serenidade
A serenidade é quando alguém pode deixar algo. Por exemplo, uma preocupação, a revolta
do coração depois de uma ofensa, uma humilhação, uma calúnia.
Sereno também é aquele que pode deixar os sonhos antigos, as reivindicações antigas, as
censuras antigas e com isso liberar o seu coração, de forma que ele fique calmo, sereno e
disposto para aquilo que é possivel e nos está sendo presenteado agora.
Por isso, sereno é também aquele que perdoa no sentido de que algo
pode ficar no passado, sem rancor.
Essa serenidade é força sem emoções, disposição centrada para o que vem e para o agora.

26
Examinar de perto

A raiva
A raiva se expressa de diferentes
formas. De uma forma que ajuda
ou que assola, de uma forma forte
ou fraca. Vou examinar de perto
algumas formas da raiva.

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1. Alguém me agride ou me faz uma vivência anterior é repetida em situa- uma criança vai ficar zangada com ele.
injustiça e eu reajo a isso, de forma ções posteriores, retirando-lhe a força. O mais fraco é freqüentemente não
correspondente, com cólera e raiva. apenas o portador mas também o alvo
Essa raiva me possibilita defender ou 3. Estou zangado com uma pessoa da raiva. Por exemplo, quando um
me impor com força. Me habilita a porque lhe fiz algo de mal, mas não subordinado está zangado com o seu
agir, ela é positiva e me fortalece. Essa quero admitir isso. Com essa raiva eu superior, mas reprime a raiva em re-
raiva é objetiva e por isso, adequa- resisto contra as conseqüências de lação a ele, muitas vezes descarrega
da. Ela se extingue tão logo tenha uma culpa. Eu a atribuo a uma outra a sua raiva em um mais fraco. Ou
atingido a meta. pessoa. Essa raiva também é um quando o marido fica zangado com a
substituto para a própria ação. Ela me sua mulher, mas reprime a sua raiva
2. Eu fico enfurecido e zangado por- permite permanecer passivo. Ela me em relação a ela, uma criança expia
que percebo que não tomei o que paraliza e me enfraquece. no lugar dela.
poderia e deveria ter tomado; que Muitas vezes a raiva não somente é
não exigi o que poderia ou deveria 4. Alguém me dá tantas coisas boas e transferida de um portador para uma
ter exigido ou que não solicitei o que grandes que não posso mais devol- outra pessoa, por exemplo, da mãe
poderia ou deveria ter solicitado. Ao ver. Isso é difícil de suportar. Então para a criança, mas também é
invés de me impor e resisto ao doador e seus regalos, transferida de um forte para um fra-
tomar e buscar o ficando zangado com ele. Essa co. Então a filha direciona a raiva que
que me faz fal- raiva se expressa como cen- assumiu da mãe em direção ao pai,
ta, fico en- sura, por exemplo, dos fi- mas para alguém em relação a qual
lhos contra os pais. Ela se se sente mais à altura, por exemplo,
torna um substituto para ao próprio marido. Em grupos, a rai-
o tomar e agradecer. Ela va assumida não se dirige à pessoa
nos paralisa e nos esva- forte, por exemplo, o coordenador de
zia. Ou isso se expressa um grupo, mas para um membro fra-
como depressão. A de- co, que se torna o bode expiatório
pressão é o outro lado da para o forte.
Em relação à raiva assumida os
censura. A depressão tam-
agressores estão fora de si e se sen-
bém serve como substitu-
tem orgulhosos e pensam que têm
to para o tomar e agrade-
razão. Mas agem partindo de uma
cer e dar. Ela nos paraliza e
força de um outro e de uma razão de
nos esvazia. Ela também se
um outro e permanecem sem suces-
expressa como uma tristeza
so e fracos. Também as vítimas da
que permanece durante longo
raiva assumida sentem-se fortes e
tempo após uma separação,
pensam que têm razão, pois sabem
quando ainda devo tomar e agra-
que sofrem injustiça. Contudo, elas
decer aos mortos ou ao que está se-
também permanecem fracas e seu
furecido e zangado com aqueles dos parado de mim ou como no terceiro
sofrimento infrutífero.
quais não tomei; exigi ou solicitei, tipo de raiva, admitindo a própria cul-
mas que poderia ou deveria ter to- pa e suas conseqüências. 6. Existe uma raiva que é virtude e
mado, exigido ou solicitado. Essa rai- competência. É desperta, uma força
va é um substituto para a ação e a 5. Algumas pessoas possuem uma de imposição centrada para algo que
conseqüência de uma ação omissa. raiva, que assumem de outras e para deve se transformar, que se expõe de
Ela paralisa, torna incapaz, enfraquece outras pessoas. Por exemplo, quan- forma ousada e sábia, também peran-
e freqüentemente perdura por muito do em um grupo, um participante re- te os difíceis e poderosos. Entretan-
tempo. prime sua própria raiva, depois de to, ela é sem emoção. Se for necessá-
A raiva atua de modo similar a uma um certo tempo um outro membro do rio, também faz algo ruim ao outro,
resistência ao amor. Ao invés de ex- grupo fica zangado, na maioria das sem medo e sem estar zangado com
pressar o meu amor, ainda por cima vezes, o mais fraco, que não teria ne- ele. Ela é agressividade como ener-
fico zangado com aqueles que eu nhum motivo para isso. Nas famílias, gia pura. Ela é o fruto de uma longa
amo. Essa raiva remonta à infância esse membro mais fraco é a criança. disciplina e exercício; mas quem a ti-
quando surge como conseqüência de Por exemplo, se a mãe está zangada ver, a tem sem esforço. Ela se expressa
um movimento interrompido. A com o pai, mas reprime a sua raiva, também como uma ação estratégica.

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Sabedoria a caminho
O silêncio
O silêncio é o presente. Para começar ele nos liga a nós mesmos. estão ainda em sintonia. Ainda não en-
De repente ouvimos o murmúrio de nos- contraram o som puro. Se ouvirmos tam-
Ele ocorre entre aquilo so sangue, a batida do coração, o pedido bém essas vozes, depois de um certo
de nosso pulmão, a lamentação de nos- tempo ficam límpidas e claras. Pois a
que foi e aquilo que vem. so fígado ou de nosso intestino. Senti- grande canção só se realiza depois que
Nele algo pára: a mos o desejo pela reunião como um cada uma das vozes for ouvida. Ou fa-
expectativa centrada, ouvimos o soar lando mais exato, só depois de ouvirmos
percepção do mundo conjunto de todas as células como uma cada uma das vozes, também aquela que
grande sinfonia e escutamos admirados, parece destoar, a canção toda se realiza
externo, o fluxo dos com devoção. O que soa mais fundo e para nós e se realiza em nós mesmos.
pensamentos, o diálogo pleno do que esta grande sinfonia? Como Se abrirmos nossos olhos no silêncio e
é que poderemos algum dia ficarmos far- olharmos e ouvirmos ao que está ao nos-
interno, a preocupação tos de ouvir isso? so redor, os animais e as árvores e tam-
Contudo, o espaço do silêncio se abre bém a menor flor singela. Entretanto, sem
com a próxima ação a ainda mais e nós ouvimos nossa alma. ruídos na plenitude do silêncio.
ser feita. Nós a liberamos Ela nos conduz muito para além dos li- Sim, o grande silêncio é poderoso e alto
mites de nosso corpo, em direção a to- à sua maneira. Algumas vezes dizemos
do espaço do silêncio. dos com os quais estamos conectados que Deus se recolheu e nós falamos en-
através de nossa alma. Nela ainda estão tão do silêncio divino. Uma palavra pode
Distanciando-se deste em casa. Eles permanecem presentes, nos soar de forma mais poderosa do que esse
espaço, abre-se para dizem algo, solicitam algo, nos presentei- silêncio? E, algumas vezes, entre os se-
am com algo, olham para nós e esperam res humanos o silêncio não é a resposta
outras coisas, tornando- por nós. Eles estão simultaneamente pró- mais clara, mais sublime, a mais válida?
ximos e distantes de nós. Na presença Podemos vencer o silêncio, mas apenas
se amplo. Pois o silêncio deles a nossa alma fala com muitas vozes, por um tempo. Ele espera por nós, algu-
une. como um coro a várias vozes. mas vezes, por longo tempo. Não pode-
Entretanto, algumas dessas vozes não mos escapar dele por muito tempo.

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O que no início das Isso provoca medo em algumas pesso-

O Futuro Constelações Familiares se


apresentou como algo bem
as. Elas prefeririam se ater aos primórdios
das Constelações Familiares, por assim
dizer, neutralizar essa nova dimensão,
unindo as constelações familiares a ou-
simples, está alcançando, tros métodos e em parte também subor-
nesse ínterim, uma dinando-as.
As constelações dimensão que nos desafia
O primeiro choque para muitos foi que
nas constelações familiares espirituais, na
de uma forma que, no maioria dos casos, não era necessário uma
familiares início, ainda não tinha
constelação no sentido habitual e sim, que
a constelação habitual algumas vezes blo-
espirituais sido possível prever. É uma queava o caminho para uma solução pro-
funda.
dimensão espiritual que se
impõe, algumas vezes, Os primórdios das
com uma força que constelações familiares
pressiona para os Estou falando aqui das constelações fa-
bastidores a abordagem miliares onde o cliente escolhia, dentro
de um grupo, representantes para os
anterior das Constelações membros de sua família e os colocava
Familiares, uns em relação aos outros num espaço.
Depois se perguntava aos representan-
ultrapassando-a. tes como se sentiam no seu lugar. De
suas respostas surgiam indicações para o
que ainda deveria ser modificado na cons-
telação ou se alguém ainda tinha que ser
acrescentado.
Dessas constelações resultaram as pro-
fundas compreensões das ordens do amor
dentro das relações humanas. Essas com-
preensões foram um avanço. Elas abri-
ram, em muitos níveis, novas possibili-
dades de solução e de ajuda, que antes
eram inacessíveis.

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A consciência O procedimento foi muito simples. Ao Qual é aqui a compreensão espiritual
invés de constelar uma família no senti- básica, a compreensão que leva adiante?
A compreensão decisiva, porém, a ver- do habitual, foram posicionadas somen- O movimento do espírito é um movi-
dadeira, a compreensão que revirou tudo, te uma ou duas pessoas. Primeiro, ou o mento criativo que leva ao movimento
não veio das constelações familiares. cliente sozinho ou ainda uma outra pes- e conserva em movimento tudo aquilo
Contudo, ela indicou uma direção às cons- soa, com a qual estava em conflito, que que se movimenta e como se movimen-
telações familiares, para a qual foram se ele, por exemplo, rejeitara. De repente ta. Por isso todo movimento como ele é,
desenvolvendo cada vez mais e cujo fi- foram apanhados por um movimento é desejado por esse espírito. Este espíri-
nal ainda não pode ser previsto. Essa sem que pudessem resistir a ele. Esse to está por trás de cada movimento como
compreensão foi uma compreensão es- movimento sempre seguia na mesma ele é, e está dedicado a ele como é. Quem
piritual. Ela me foi presenteada em um direção. Ele unia o que antes estava se- entra em sintonia com esse movimento
caminho do conhecimento espiritual. É a parado. Portanto, no final, sempre era um só pode então entrar em sintonia com
compreensão de como a nossa consci- movimento de amor. ele e permanecer em sintonia com ele,
ência atua. Não apenas a nossa consci- O decisivo nisso foi que não havia mais a se ele também estiver dedicado e per-
ência que sentimos como uma consciên- necessidade de quase nenhuma condu- manecer dedicado também a todos da
cia boa ou má. Foi, principalmente, a ção de fora. A alma procurava e encon- mesma forma como é. Principalmente se
compreensão de uma consciência, que trava a solução por si mesma, quando lhe permancer dedicado a todos os seres
nos é amplamente inconsciente, que se- deixávamos seu espaço e seu tempo, humanos como eles são, também a sua
gue outras leis diferentes da nossa cons- freqüentemente de uma forma totalmen- família, também a seu destino, também
ciência consciente. te imprevisível, freqüentemente também a sua culpa.
para além das habituais ordens do amor. Aqui se torna visível aquilo que no final
Contudo, somente quando o condutor da significa para nós e para as constelações
O campo espiritual constelação estava em sintonia com essa familiares se seguirmos os movimentos
dimensão da alma e se deixava levar por desse espírito ou, falando mais exatamen-
Somente esta compreensão abriu a por- ela. Como? Quando ele também, ultra- te, se esses movimentos nos impulsio-
ta para este campo espiritual, que liga passando os limites da consciência dei- narem e se nós entrarmos em sintonia
todos os membros de uma família de uma xava encontrar dentro de si com amor o com eles.
forma que deixa cada um se tornar o que estava separado.
destino do outro. A família é sentida aqui Primeiro eu denominei essa forma da
num sentido amplo que inclui também constelação familiar “movimentos da
aqueles que atuam com seus destinos nos
O futuro das
alma”. Também pensei que vinham de
parentes consagüíneos. um campo espiritual que liga os mem- constelações
Este campo espiritual, se for deixado a si bros familiares uns aos outros de forma familiares
mesmo, resiste a transformações. Dessa fatal. Mas depois de um certo tempo se
forma, por exemplo, o que não ficou mostrou que aqui atua uma dimensão Podemos voltar novamente atrás, anteri-
solucionado em uma geração, será repe- espiritual, para além do campo anímico ormente a essas compreensões? Somen-
tido de uma forma semelhante na gera- da consciência. Elas já eram o início dos te pagando um preço alto. Qual é esse
ção seguinte. Pois o não solucionado liga movimentos do espírito. preço? Nós voltamos à esfera da consci-
os membros familiares uns aos outros, ência e em um movimento contra o amor.
dando-lhes com isso segurança, a segu- Eu me coloquei nesse caminho do espí-
rança da pertinência. rito, pessoalmente e no meu trabalho. O
O que é isso, isso que sustenta e segura Os movimentos que isso significa para as constelações
esse campo espiritual e causa a repeti- familiares, tenho mostrado desde há al-
ção do não solucionado? É a consciência. do espírito gum tempo em todos os cursos que ofe-
Para onde os movimentos do espírito reço, principalmente, pela primeira vez,
conduzem e como nós entramos em nos cursos de treinamento. Eu descrevo
Os movimentos sintonia com eles e como atuamos es- este caminho também em meus livros,
tando em sintonia com eles, em primei- sobretudo os últimos. Nos DVDs, por
da alma ro lugar experimentaremos em nós pes- exemplo em: Aprendendo com Bert
Contudo, através de uma nova forma das soalmente em um caminho do conheci- Hellinger, um curso de treinamento em
constelações familiares foi revelada uma mento, um caminho do conhecimento Salzburg, 5 DVDs, e em áudio no CD,
outra dimensão desse campo espiritual espiritual e depois em nossas ações em por exemplo, em Viagens Interiores: O
como algo que atua. Ela interrompe a re- sintonia com o espírito. Nessas ações caminho, 8 CDs.
petição do não solucionado e abre cami- conduzimos na medida em que o espíri- Este caminho leva a um outro futuro das
nhos de solução para além da consciência. to nos conduz. constelações familiares, as constelações
familiares espirituais.

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